
Fazem pós-modernidade sem sabê-lo. Para neutralizar as ciclotimias, talvez seja
preciso buscar o "caminho do meio". A exaltação da fragmentação não cabe. Porém,
igualmente não cabe a nostalgia de um fundamento sólido, pois que também ele tende
a se desmanchar no ar; ou seja, a se fragmentar. como ocorre cada vez mais na vida
conjugai, talvez tenhamos que nos acostumar com a costura de parcerias e arranjos,
ao invés de casamentos e alianças mais amplas. Um pouco por toda a parte as
instituições são postas em cheque e o enrijecimento em sua defesa derrota-se a si
mesmo. Tem efeito paradoxal, porque retira-lhes o espírito original, retroalimentando
os elementos mesmos que as tornam suspeitas. Talvez a genuína aceitação das
"fragmentações" seja o único cacife possível para se entrar no jogo da sua transmutação,
que não se sabe em que direção poderá se dar.
A História brasileira, nesse ponto, pode ajudar. Aqui não cultivamos em demasia
uma visão essencialista de nós mesmos e as elites tiveram menos sucesso que em
outras partes em fixá-la, mesmo não se podendo negar-lhes qualquer eficácia ideológica.
Sempre nos vimos em movimento, nos fazendo, ambíguos. Ambigüidade que
representa uma sábia consciência, bem adequada à nova era, de que os opostos não se
excluem, como nos dualismos. Guerra e paz, dentro e fora, malandros e heróis, Dona
Flor e seus dois maridos: Gilberto Freyre (Benzaquen de Araújo), Jorge Amado e
Roberto DaMatta (Geiger e Velho) já o disseram. Aí também residiria o sincretismo
"bom", enquanto modo de operar; mas subordinado à ambigüidade, o operador maior,
o meta-operador, que o contextualiza de modo diferente de sua reificação ideológica,
ele mesmo sincretismo tendo que supor, sem excluir, o seu oposto. Se não nos
distinguimos de modo unívoco substantivamente, pelo menos nesta visada, nesta
epistemologia, neste modo de ver e de atuar o fazemos, em relação a muitos povos,
sobretudo do Ocidente, que hoje vivem o drama da penosa revisão das suas identidades
e de seus modos de pensar, que antes nos pareciam um ideal a atingir. Eis o paradoxo
do nosso primitivismo, elaborado literariamente no interior do nosso Modernismo
(Geiger): não se põe nos começos, como arquétipo, mas vai sendo digerido como
antídoto, que nos acompanha, contra as ilusões de uma modernidade auto-suficiente,
em todas as suas versões.
O Estado brasileiro provavelmente será relançado. Mas jamais será o mesmo.
A administração dinâmica de nossas diferenças, mais que uma integração pressuposta,
deverá ganhar espaço. Não haverá retorno de filho pródigo, nem redescoberta, porque
não haverá a que retornar ou redescobrir. Menos metafísica e mais pragmatismo do
chinelo de dedo. Foi essa a lição do nosso sincretismo, que, agora, é desafiado a
transmutar-se para que não sirva de encubridor das diferenças, mas continue a prestar
o seu serviço ajudando para que essas diferenças não se reifiquem, como já aconteceu
lá onde ele esteve ausente. Nossa criatividade, bem lembrada por Lessa, deve permitir
que descubramos como realizar a alquimia, a acrobacia sem rede desse duplo
movimento, no âmbito de uma identidade (com aspas) não-essencialista e ambígua,
em que os opostos (e as diferenças) não se excluam.
Sinais dessas possibilidades, no entanto, precisam ser buscados agora. O
próprio Estado se move por vezes de modo não controlado pelos governantes e com
fronteiras pouco nítidas. Por vezes, também, isso é mais perceptível lá no terreno
tradicional dos antropólogos brasileiros, no interior do país, onde muitas pessoas
desconhecem tanto o patriotismo, quanto o consumismo. Impressionaram-me nesse