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Ministério da Educação
Secretaria de Educação Especial
Instituto Nacional de Educação de Surdos
Departamento de Desenvolvimento Humano,
Científico e Tecnológico
ANAIS DO SEMINARIO DO INES
Surdez: Diversidade Social
19 a 21 de setembro de 2001
Rio de Janeiro
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Anais do VI Seminário Nacional do INES - Setembro 2001
Surdez e Diversidade Social
Aos Autores e Leitores de nossas Publicações
Infelizmente tivemos inúmeros contratempos com a produção desta revista,
afetando inclusive a qualidade gráfica com separações inadequadas de sílabas, dentre
outros problemas.
Embora tenha passado por inúmeras revisões estes permaneceram na edição
final.
Abaixo relacionamos os mais relevantes cm forma de errata.
Esperamos que no próximo número tenhamos superado esta adversidade.
Carinhosamente,
Comissão de Publicação
ERRATA
Pag. 11 - onde se le "nada esperar por pretos", leia-se "nada esperar dos pretos".
Pag. 24 - onde se le "de outras crianças que as quais são", leia-se "de outras
crianças
as quais são".
Pag. 35 - onde se le "mais deverá ser devolvida a tribo", leia-sc "mas deverá ser
devolvida tribo".
Pag. 35 - onde se lê ", e vicejando de indignação", leia-se "vicejando de
indignação".
Pag. 36 - onde se le "eles assistem impacientes a nossa capacidade", leia-sc "e eles
assistem a nossa incapacidade".
Pag. 39 - onde se le "Elizabeth, Elaee", leia-se "Beth, Elaine".
Pag. 55 - onde se le "deferindo", leia-se "diferindo".
Pag. 63 - onde se le "considerá-lo como capaz", leia-sc "considerá-lo como
incapaz".
Pag. 74 - nos créditos incluir o nome da Prof". Jurema Santos Souza - Supervisora
do Projeto
Presidente da República
Fernando Henrique Cardoso
Ministro de Estado da Educação
Paulo Renato Souza
Secretária de Educação Especial do MEC
Marilene Ribeiro dos Santos
Diretora-Geral do Instituto Nacional
de Educação de Surdos
Stny Basílio Fernandes dos Santos
Diretora do Departamento de Desenvolvimento
Humano, Científico e Tecnológico
Solange Maria da Rocha
Coordenadora de Projetos Educacionais
Monica Azevedo de Carvalho Campello
Divisão de Estudos e Pesquisas
Nádia Maria Postigo
CIP - Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional de Livros, RJ.
S474s
Surdez Diversidade Social
(organização) INES, Divisão de Estudos e Pesquisas - Rio de Janeiro
Inclui bibliografia
I. Surdos - Educação - Congressos: I. Instituto Nacional de Educação de
Surdos (Brasil). Divisão de Estudos e Pesquisas.
II. Título
96-2048
CDD-371.912
CDU - 373.33
131296 161296 002373
ANAIS DO SEMINARIO:
Surdez - Diversidade Social
Edição
Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES
Produção Gráfica
Gráfica e Editora Skill Line
Tiragem
4.000 exemplares
Comissão de Publicação
Professor André Luiz da Costa e Silva
Psicóloga Carla Verônica Machado Marques
Fonoaudióloga Marisa Marins Viola
Fonoaudióloga Monica A. de C. Campello
Professora Simone Ferreira Conforto
Professora Solange Maria da Rocha
Rua das Laranjeiras, 232
CEP 22240-001
Rio de Janeiro - RJ - Brasil
Telefax: (0xx21 ) 2285-7284 e 2285-7393
e-mail: ddhctl @ ines.org.br
Instituto Nacional de Educação de Surdos
Agradecimentos
À incansável equipe do DDHCT,
aos profissionais do INES
e
às alunas do CEAD.
Sumário
Editorial 11
Conferências
Sociedade e Diversidade: Mistura ou Diferença
Otávio Velho 15
Um Olhar Psicanalitico a Respeito da Questão da Identidade
do Surdo
Leny Magalhães Mrech 23
Oficina-Palestra de Cultura e Diversidade
Nelson Pimenta 24
Palestras
Escola para Todos - um Olhar pelo Mundo
Monica Pereira dos Santos 27
Anacronismo nas Representações Sociais de Cidadãos
Surdos e Políticas Públicas
Solange Maria da Rocha 35
Projeto Dicionário Virtual de LIBRAS
Tanya A. Felipe 37
Mesas Redondas
Educação e Profissionalização de Surdos no Brasil. Ações da
SEESP, INES, FENEIS
Luzimar Camões Peixoto
Stny Basilio F. dos Santos
Tanya Amara Felipe 49
Diversidade na Família
Heloise Gripp Diniz 52
Esmeralda Peçanha Stellig 55
Helenita Cardoso Silva 58
Tany Mary S. de Andrade 59
Cidadãos Surdos no Ensino Superior: Um Direito e Muitas
Dificuldades
Graziella C. Faini 62
Mauro S. Ribeiro 65
Alex Curione 66
André Sampaio 72
Aspectos Históricos dos Movimentos Sociais e Políticos dos
Cidadãos Surdos - Uma Experiência Curricular no INES
Heloise Gripp Diniz
Marcus Vinicius F. Pinheiro
Ronise Conceição de Oliveira 74
O Cidadão Surdocego: Socialização e Escolarização
Maria Aparecida Cormedi 81
Shirlei Rodrigues Maia 87
Márcia Regina Gomes 91
Bioética - Surdez
Surdez também uma Diversidade Genética
Edi Lúcia Sartorato 96
Autonomia Reprodutiva e Justiça: um Estudo de Caso
sobre a Sudez
Debora Diniz 98
Escola Especial para Surdos
Lorena Kozlowski 105
Maria Joaquina Nogueira da Silva 108
Thais Enê Fagundes Silva 111
Apresentação de Trabalhos
Língua de Sinais e Fonoaudiologia - um Encontro Necessário
Ana Paula Santana
Priscilla Mara Ventura Amorim 119
Programa de Capacitação para Educadores que Atuam com
Alunos Deficientes Auditivos ou Surdos no Ensino Regular
Buffa MJMB, Nevenfeld Mel. Oliveira K.F. 120
Meu Livro Eletrônico Regional: Uma Experiência de Autonomia
da pessoa Surda no Processo de Alfabetização
Rita de Nazareth Souza Bentes
Lúcia Cristina Bessa de Brito Coelho
Maria do Carmo Ferreira Gomes 121
Fonoaudiologia e Surdez: Possibilidade de Atuação na
Linguagem Escrita
Graziella Nascimento Esteves
Patrícia Rodrigues de Sordi
Heloisa Arruda Boechat
Prof. Dra. Maria Cecília M. Pinheiro Lima (orientadora) 122
Resultados de uma Investigação acerca da Inclusão Escolar
do Deficiente Aditivo
Palamin, M.E.E. Bortoleto, R.H.; Rodrigues, O.M.R.P; Motti, T.F.G.;
Castanho, RM 123
Superando Limites
Jane Strey
Ivonete Julia Andrade
Sandra Aparecida Jorge Paleto
Antonio Carlos dos Santos Souza 124
Competência Pictórica do Surdo: um Futuro Profissional
Tânia Maria de Oliveira Nery 126
Editorial
A Contribuição das Diversidades
"O macho adulto branco sempre no comando, riscar os índios, nada esperar
por pretos".
Caetano Veloso reflete na sua música "Estrangeiros" a questão das hegemonias.
A trama social enreda-se nas relações de poder e significações que definem destinos
de sujeitos, grupos, nações e estados. uma trama violenta de relações de lassidão.
No jogo das hegemonias acima descrito, acrescentamos o macho, adulto, branco,
que anda, vê e ouve.
O que está fora disso? Quase todo mundo. As mulheres, as crianças, os velhos,
os surdos, os cegos, os negros, os homossexuais e mais uma enxurrada de segmentos
sociais que têm sua existência significada longe da respeitabilidade, das políticas, do
acesso aos bens materiais e intelectuais da cultura humana e da vida produtiva. Por
isso mesmo são essas pessoas, organizadas em suas identidades negadas, que estão
movendo o mundo, desestabilizando as favas contadas. Incomodam quando
distanciadas do que minimamente se espera de conforto existencial físico.
Associações, ONG's, passeatas, manifestos promovem ações tendo como
aliados eternos a arte. Dra. Nise da Silveira reescreveu a história da esquizofrenia com
a mediação da arte. Bispo do Rosário fica como artista na memória coletiva. Sua
esquizofrenia, apenas uma remissão.
As manifestações artísticas são acolhimentos de diversidades aceitas, e
desveladas em linguagem. Na arte ou em parceria com ela, o homem "enlouquece" no
sentido de transcender para não "enlouquecer" no sentido de adoecer. E quando é que
adoece? Quando se distancia da diversidade. Quando guetifica-se e homogeiniza-se.
Sufoco, violência existencial, destruição psíquica, vocação para as massas. Movimento
contra a natureza humana. Vitória de Tanatos (Deus do mal). Opressão, vida de
mercado, liberalismos novos.
O que pode nos apontar Eros, a vitória da vida, da solidariedade, do bem?
como desvendar essa trama?
A trama da legião de excluídos que tiveram suas existências únicas agrupadas
em categorias para serem abortadas em vida. Contra-ato. Contra-senso.
Hoje, organizadas, essas existências apontam uma luz em direção a todos nós.
Tratados como deficientes, diferentes, incapazes, carentes, raça inferior, credo
inferior, hoje vêem-se e querem ser vistos como diversidades. Queremos também.
Queremos muito e intuímos o quanto juntos podem realizar de transformações
nesse mundo.
Lancemos um olhar para a surdez e para os surdos. Querem ser significados
como identidade. Mais uma de tantas da diversidade humana. Mais que uma identidade,
um segmento com uma língua própria, com uma língua própria onde sua escolaridade
e relações sociais devam ser majoritariamente desenvolvidas com ela. Sua lingua.
uma ressignificação que não deve ser, em sua ação, um fim em si, visto como
mais um gueto autofágico de nada adiantaria.
Ressignificar a surdez é contribuir para a desconstrução da homogenização em
que estamos imersos. Portanto, desguetificar-se para entrar no enredo social com sua
diversidade.
Se tôda essa movimentação for no sentido do mesmo, o mundo surdo, a arte
surda, a vida surda, de nada terá valido essa ruptura de paradigma (deficiência x
diversidade). Será do mesmo para o mesmo.
como as escolas irão se preparar para esses desafios?
Em um Congresso Internacional de Reabilitação, observa-se um rapaz pintando
um quadro com um pincel nos lábios, um jovem com ar de intelectual em uma cadeira
de rodas lê bastante concentrado. Observando mais detalhadamente, não tem as duas
pernas. O jovem cego toca "Aquarela do Brasil" ao piano, mulheres vaidosas desfilam
em cadeiras de rodas. Cada uma de estilo diferente. Diversidades.
Estaremos todos dispostos à interação?
Leis, declarações, documentos não têm força para deslocar paradigmas. Só os
atores vivos do processo poderão.
Escola inclusiva é a escola da alteridade. Quem pode? Todos podemos? Vamos
apostar?
Finalmente nos aprontaremos para o outro?
E as mil e uma faces da relação ensino-aprendizagem, grande entrave, tormento
dos professores e alunos, como fica?
Sócrates, o pensador grego, de tantos séculos e pelo menos dois milênios atrás,
utilizava como estratégia dialógica a maièutica. Refletindo sobre a profissão de sua
mãe, que era parteira, e observando sua prática, entendeu que, assim como uma
criança é retirada do ventre materno, as idéias e concepções que uma pessoa tem
sobre si mesma e sobre todas as coisas também devem ser partejadas.
Partejadas através do questionamento paulatinamente aumentado em seu grau
de complexidade até que possa formar um conceito sólido, crítico e significado em sua
própria existência. Nessa perspectiva os sujeitos são construídos dialeticamente e
não como meros repetidores de valores, com os quais nem sempre concordam e, por
vezes, ao reproduzi-los, deles ficam reféns.
O posicionamento crítico diante do conhecimento de mundo, do saber formal e
da própria vida deveria ser objetivo primeiro nos processos educacionais. As
disciplinas seriam instrumentos de saberes organizados a serviço do pensamento
crítico. Segundo esse raciocínio, todo ser humano estaria, então, contribuindo, com
sua diversidade, para as questões que desafiam a humanidade. Essa relação, portanto,
em bases sócio-interacionais, estabeleceria o diálogo crítico entre as diversidades
promovendo a construção de novos enredos.
Solange Rocha
Conferências
Sociedade e Diversidade:
Mistura ou Diferença
Otávio Velho
Museu Nacional,
Universidade Federal
do Rio de Janeiro
Carlos Lessa publicou, no número de julho de 2000 de Ciência Hoje, um artigo
("Globalização e Crise: alguma esperança?") extremamente importante para o esforço
ainda incipiente de relançar o debate no interior do pensamento crítico, praticamente
imobilizado há mais de uma década por um conjunto de eventos hoje já sobejamente
conhecidos. O texto vem somar-se a um conjunto significativo de intervenções que
Lessa vem fazendo de diversas formas, desde conferências públicas, passando por
entrevistas escritas e televisionadas, artigos, livros e a própria participação firme e
esclarecida na política universitária. uma atividade que serve de exemplo raro para os
que acreditam que a atividade acadêmica deva estar em sintonia e diálogo com a
sociedade e com os problemas do nosso tempo.
A meu ver, pelo menos três pontos devem ser exaltados nessa última contribuição
de Lessa:
1. O reconhecimento dos processos de "globalização" e "pós-modernidade", sem
se perder em questões nominalistas estéreis. Para além das difíceis questões
conceituais ainda por resolver e independentemente dos nossos desejos, aceita
que os termos, pelo menos, apontam para processos sociais objetivos, que
incluem mas não se reduzem a processos anteriormente conhecidos, à política
econômica de eventuais governos e/ou às estratégias de determinados atores
sociais, particularmente as grandes empresas multinacionais. A sinalização é o
que importa. Essa atitude é sobretudo um grande passo adiante em relação à
postura que considera tudo isso mera fantasia ou artimanha, e não um terreno
a ser disputado, o que na prática tende a traduzir-se em derrotismo. Representa
a retomada de uma postura que norteava os clássicos da Economia Política, o
que parece ser uma preliminar indispensável, sem a qual não se pode fazer uma
crítica verdadeira, ultrapassando a imobilidade do ressentimento.
2. O aceno com a idéia de "esperança", o que permite encarar os fatos, por mais
desagradáveis que pareçam. Embora hoje talvez possamos prescindir da dialética
- com todo o peso filosófico do século XIX que carrega -, não há dúvida de que
não se deva jogar fora a criança junto com a água. E a criança, a meu ver, é no
caso a aposta, a esperança de que a complexidade objetiva dos processos
sociais impeça que algum ator social tome posse desses processos e controle
plenamente os seus desdobramentos; embora, como veremos, a idéia de esperança
também possua outras implicações.
3. O retorno a atores sociais concretos (como o "povão" e a classe média), a
ultrapassagem de uma análise economicista e a centralidade conferida às questões
da cultura. Lessa, assim, retoma e renova mais uma vez a melhor tradição da
Economia Política, apoiado em sólida formação cultural, e abre a possibilidade
de diálogo com outras tradições de estudo.
É óbvio que ao abordar corajosamente um amplo leque de temas. Lessa não
pretende estar dizendo a última palavra sobre tudo, mas sim querendo estimular a
nossa imaginação, o nosso entusiasmo e o debate. É juntando-se a esse espírito que as
considerações aqui esboçadas são feitas, de modo extremamente resumido, tomando
o texto publicado em CH como inspiração inicial, mas não única.
Em ciências sociais (como na politica) é crucial tentar distinguir nos processos
sociais o que é irreversível do que não é. Os últimos anos foram testemunhas do
desmantelamento de muitas estruturas institucionais que pareciam sólidas, fadadas
apenas a um desenvolvimento normal. Nada mais justo, portanto, que consideremos
também com ceticismo os ideólogos que pretendem cristalizar os novos processos
que hoje parecem dominar a cena mundial, sobretudo a onipotência do mercado. Nada
mais justo e saudável. Lessa aposta na volta do Estado nacional como referência
política central, o que permitiria uma nova aliança entre o "povão", sempre inventivo,
e a classe média desiludida com os benefícios do mercado e do novo cenário por ele
dominado. Deixemos de lado por necessidade a rica etnografia apresentada por Lessa.
Porém, registre-se que um encanto adicional que sua análise reserva para um
antropólogo está justamente na importância que empresta às questões normalmente
abordadas pela Antropologia. E fiel a uma tradição da Economia brasileira que no
passado permitiu interessantes experimentos interdisciplinares. Mas isso é raro.
Outro autor, que também sempre teve sensibilidade antropológica, é o historiador
Eric Hobsbawm. Em livro recente aborda alguns dos mesmos temas de Lessa. Embora
de um ponto de vista da "periferia" sua síntese possa parecer insuficiente, faz, a meu
ver, considerações preciosas sobre a política e o Estado no mundo contemporâneo,
cujas vicissitudes não se restringiriam à limitada história do neoliberalismo. Segundo
Hobsbawm, o que estamos presenciando não é propriamente um enfraquecimento do
Estado, a não ser nas extensas áreas em que efetivamente tem ele se esvanecido
(particularmente na África, mas também na Ásia Ocidental e Central, e talvez nos
Bálcãs e na Colômbia). De fato, quem, por exemplo, milita na universidade pública
brasileira, é testemunha dos crescentes poderes orwellianos do Estado, exponenciados
pelos recursos eletrônicos e contraditórios com um discurso (neo)liberal. Aantropóloga
britânica Marilyn Strathern já alcunhou para isso a expressão "cultura da auditoria".
O que na verdade estaria ocorrendo, diz Hobsbawm, é que "os cidadãos estão menos
dispostos do que antes a obedecer às leis do Estado" (p. 42). O contraste entre o
respeito às regras dos tribunais por parte dos que nos Estados Unidos nos anos 50
foram acusados de atividades comunistas e o comportamento dos estudantes e radicais
da Nova Esquerda a partir de 1968, "como se não mais reconhecessem os princípios
fundamentais que regiam a condução dos assuntos públicos", é revelador. E imagino
que nos próprios Estados Unidos o desenvolvimento da noção de "desobediência
civil" seja um marco não menos significativo. Para Hobsbawm, indicações dessa
tendência na própria Europa remontam aos anos 40. O protesto social, que havia sido
institucionalizado como parte do processo político normal, quase como um ritual,
vai-se assemelhando a revoltas. E em muitos casos, até na própria Europa, o Estado
mostra-se incapaz durante longos períodos de eliminar forças armadas organizadas
no interior do território nacional. Há como que uma queda de "racionalidade", pelo
menos do ponto de vista de uma concepção moderna de política e de um futuro
ideologicamente programado.
Posta desta forma, a questão ganha outra dimensão. Assustadora para quem,
apesar de reconhecer teoricamente que o Estado moderno é uma construção humana
de poucos séculos e que boa parte da humanidade historicamente não o conheceu,
naturalizou a sua (oni)presença e a sua legitimidade. Por outro lado, é importante que
se diga que a contestação do Estado não é a única. O próprio Hobsbawm sugere uma
fórmula mais geral (que não explora) quando diz que, após o século das pessoas
comuns, a disposição para aceitar uma autoridade superior não pode ser mais
pressuposta. No terreno da religião, por exemplo, assiste-se hoje ao surpreendente
paradoxo do enfraquecimento das estruturas institucionais convivendo com o
crescimento de uma religiosidade difusa, como que desorganizada, espécie de guerrilha
no território das grandes religiões, mas também desrespeitando os limites e invadindo
territórios que o Grande Acordo Moderno reservara para outras instituições (médicas,
mercantis, jurídicas, etc). Desse ângulo, diria mesmo que não é só o mercado que
invade tudo, mas são em geral as fronteiras institucionais que são sacudidas. Quase
que tanto se pode dizer que a religião (ou a política) se mercantiliza, quanto que a
religião (ou a política) penetra na esfera do consumo. Questão de perspectiva. Boa
parte das controvérsias religiosas hoje gira em torno da demanda moderna por uma
definição clara e unívoca do religioso e a cada vez mais freqüente contestação (pós-
moderna?) das definições, na prática, desses limites (Giumbelli, E.).
Parece ser esta a nova era em que estamos ingressando, desconhecida e
perturbadora. Qualquer previsão é, mais do que nunca, arriscada. Mas parece razoável
supor, diante do exposto, que a pretensão ao domínio absoluto da lógica de mercado
não se sustentará por muito tempo. A posteriori talvez venha a ser vista como um
momento de um processo mais geral. O fundamentalismo neoliberal já apresenta
alguns indícios de esgotamento e o sucesso da China e da Malásia na superação da
última crise financeira, tanto quanto o desastre russo, é apenas uma das razões e sinal
disto. Significa, então, que teremos o retorno ao Estado como fundamento? Pela
lógica do que venho desenvolvendo, não. Seria uma ilusão. Ao contrário, parece que
teremos de nos acostumar à ausência de um fundamento sólido para a vida social. O
que não significa, evidentemente, que a ação estatal não possa ser relançada, uma vez
passada a euforia neoliberal. Mas de que Estado e de que nação se tratará?
Lessa nos recorda alguns elementos comumente associados à nossa identidade
brasileira que, como não foram característicos do regime autoritário de 1964, pelo
contrário, não teriam por que ser questionados: cordialidade, não-violência, ausência
de segregação e tolerância. Eis, mais uma vez, um tema caro aos antropólogos, que
nem sempre é apropriado nas análises políticas: o de uma sociedade que não se
confunde com o mundo oficial e seus projetos de nação e nem, necessariamente, com
as alternativas apresentadas pelas elites. No entanto, a partir de alguns setores da
sociedade, esses elementos da suposta identidade brasileira vêm sendo de fato
questionados, e talvez não tanto simplesmente por uma espúria associação com o
regime militar. O próprio sincretismo, competência que Lessa (e muitos outros)
exalta como valor síntese, tem sido contestado. Até que ponto, pergunta-se, trata-se,
na apresentação desses valores, também de uma construção das elites, pelo menos na
maneira de organizar elementos efetivamente presentes? Lessa, em seu texto, associa
a pós-modernidade ao consumismo e ao modismo. Imagino que essas contestações
possam ser consideradas parte dessa "onda". Dever-se-ia, talvez, explorar melhor até
que ponto o consumo é, hoje, realmente (como também se tornou moda ou senso
comum dizer), apenas terreno do niilismo ou se, pelo contrário, pode ser um lugar de
produção de valor; de formas inusitadas, mas ricas. O sociólogo inglês Colin Campbell
vem investigando isso, emprestando ao consumo uma nobre ancestralidade no
Romantismo do século XIX que merece atenção.
Mas de qualquer forma, é inegável que a "onda" associada à globalização e à
pós-modernidade trouxe ao debate público questões cuja legitimidade poucos
contestariam abertamente em nome da nossa identidade. E o caso da pauta levantada
pelo movimento feminista e a do ambientalismo, que tendem a globalizar-se cada vez
mais. Será que o mesmo poderá vir a acontecer em relação à denúncia do sincretismo
do "pé na cozinha" no terreno das relações interétnicas? E possível, mas aí a questão
talvez seja mais espinhosa, como ficou claro no drama coletivo que vivemos nas
comemorações dos "quinhentos anos". Até um artigo de Genética publicado
originalmente em CH (Sergio Pena e outros, "Retrato Molecular do Brasil", Vol. 27,
no. 159) foi amplamente apropriado para mostrar que somos, de fato, biologicamente
misturados, não fazendo sentido - dessa limitada perspectiva - as reivindicações de
identidade étnica por parte de indígenas e negros. No plano da cultura, criou-se até
um emblema: o chinelo de dedo. O fato de boa parte dos nossos indígenas utilizar-se
desse simples e prático artefato cultural japonês sugeriria que também aí a identidade
étnica (bem como a temática do multiculturalismo) não se sustentaria. O chinelo de
dedo, que pode ser usado, por exemplo, pelos índios Waurá, a cuja rica cosmologia
somos introduzidos logo após o artigo de Lessa, no mesmo número de CH (Aristóteles
Barcelos Neto, "Monstros Amazônicos: Imagens Waurá da (Sobre)Natureza", Vol.
27, no. 162), torna-se critério de (não)indianidade. E a ausência de história
apresentando-se como imposição. Curioso imaginar a que levaria a aplicação de critério
análogo a nós mesmos. Se é que isso já não é feito: o McDonald's parece ser o nosso
chinelo de dedo e, no final, todos são acusáveis de inautenticidade e infidelidade à
cultura. No entanto, se o que resta no primeiro caso (o do chinelo de dedo) é o
diagnóstico salvador do sincretismo, nesse segundo parece que há uma mudança na
lógica, produzindo-se a bela sugestão primitivista do canibalismo cultural orientando
a inventividade popular. Só que essa possibilidade é negada a nossos canibais originais,
por medo, talvez, não confessado na acusação de inautenticidade, de que se afirmem
excessivamente, em prejuízo do "todo" nacional. Fora do sincretismo os índios só
podem ser exaltados como ícones ou reduzidos a "fragmentos".
E interessante como esse tipo de posicionamento, nas comemorações dos
"quinhentos anos", abarcou praticamente todo o arco político e intelectual das nossas
elites, sugerindo que de fato estamos aqui lidando com elementos ideológicos muito
profundos. Só que ao mesmo tempo, como sugere o próprio Lessa, é inegável que a
posição contrária vem crescendo, e não apenas nas elites. A ponto, por exemplo, de
hoje ter-se revertido o declínio numérico das populações indígenas. Reversão devida
não apenas a alguma melhoria nas condições sanitárias, mas porque mais gente do
"povão" hoje se identifica como índio, mesmo tendo que "inventar" tradições, no que
estão em muito boa e ilustre companhia, conforme já mostrou o próprio Hobsbawm.
E o mesmo ocorre no caso dos negros.
A Antropologia diz que é preciso estranhar o familiar. Mas quantos de nós
somos capazes de enxergar o óbvio? Por exemplo, a ausência de negros nas nossas
universidades públicas, sobretudo na pós-graduacão. É crível, ainda, justificar isso
em nome do sincretismo? Ou é de fato necessária a ajuda de um olhar estranho para
estranhar? Por outro lado, uma vez mostrado o óbvio, poucos de nós não nos
sensibilizamos de alguma maneira, embora possamos divergir no tratamento da questão.
Não será isso sinal de que a cultura não é unívoca e de que portanto essas estranhezas
encontram eco "aqui dentro"? Nesse caso, a oposição entre externo e interno precisaria
ser revista. Sem perder de vista os elementos de poder envolvidos, nem sempre
evidentes para uma análise que não se queira banal, o "externo" pode ser um recurso
heurístico necessário e constitutivo de nós mesmos. Assim como o seria, do "outro
lado", o primitivismo, a que voltaremos mais adiante.
A ênfase, então, por vezes exaltada (além de exaltadora) na cordialidade, na
não-violência, será pura representação da realidade? Ou será exorcismo agonístico
dos seus contrários, remédio contra males que espreitam bem da esquina? O regime
militar, afinal, por mais que se queira, não foi basicamente produto alienígena. E até
a esperança talvez traga embutida, aflita, a desesperança. Mesmo o amor-próprio - e
isso, significativamente, sugere o próprio Lessa - é um sentimento delicado, e o de
inferioridade ameaça sempre ressurgir. Talvez como parte de uma grande ciclotimia,
sobretudo das elites, grandes promotoras desses auto-retratos. Vale a pena, então,
simplesmente tentar levantar a gangorra, mais uma vez? Temo que isso não nos tire
do lugar, mas apenas realimente essa visão implicitamente dualista do mundo, que na
verdade não corresponde ao que predomina no plano da cultura, que está sendo
sugerido aqui nao ser unívoca.
Lessa diz que a pós-modernidade fragmenta-nos por raça, sexo, idade, etc. E
que não há substituto para a pátria, a não ser o consumo. Já mencionei a necessidade
de tratar de modo novo o consumo. Mas sem dúvida é a partir dessas questões que se
trava a polêmica; embora talvez tivéssemos, então, que acrescentar classe (muitos já
o fizeram) às identidades fragmentadoras do ponto de vista do "todo". E
compreensível, até certo ponto, o medo da fragmentação. Mas é preciso apostar que
os processos não-controlados podem ser virtuosos. O risco contido na.defesa obsessiva
da integração não deve ser esquecido. Lessa já o experimentou na própria universidade
e denodadamente se opôs ao que ocorre quando um grupo se arvora, ancorado no
poder do Estado, em árbitro do que é ou não "radicalismo". E a ironia está em que o
fazem justamente em nome do "jogo democrático", que Lessa sugere como antídoto,
justamente, para os "radicalismos". Portanto, a questão é complexa: é precisamente
em torno do que se entende por democracia que se deve travar o debate crucial para
os nossos destinos. Isso tem sido encoberto lançando-se mão do espectro do binômio
radicalismo-ditadura diante de manifestações dos movimentos sociais que, nesses
tempos em que o alinhamento automático ao Estado é cada vez menos a regra geral,
tornam-se cada vez mais normais. Normais a não ser para os últimos a saber, os
ciosos e inseguros de suas prerrogativas. O espectro da ditadura, estimulando a
obsessão pelo controle, é brandido para forçar a aceitação de uma concepção restrita
de democracia, apresentada como a única. O sistema representativo, cuja crise no
mundo todo (também compreensível pelo já exposto) é ignorada, é utilizado como
barreira contra uma democracia de cunho mais participativo.
Aqui talvez se atinja um outro real paradoxo dos nossos tempos: o dos
"progressistas" conservadores (ao lado dos conservadores que apostam na mudança).
Fazem pós-modernidade sem sabê-lo. Para neutralizar as ciclotimias, talvez seja
preciso buscar o "caminho do meio". A exaltação da fragmentação não cabe. Porém,
igualmente não cabe a nostalgia de um fundamento sólido, pois que também ele tende
a se desmanchar no ar; ou seja, a se fragmentar. como ocorre cada vez mais na vida
conjugai, talvez tenhamos que nos acostumar com a costura de parcerias e arranjos,
ao invés de casamentos e alianças mais amplas. Um pouco por toda a parte as
instituições são postas em cheque e o enrijecimento em sua defesa derrota-se a si
mesmo. Tem efeito paradoxal, porque retira-lhes o espírito original, retroalimentando
os elementos mesmos que as tornam suspeitas. Talvez a genuína aceitação das
"fragmentações" seja o único cacife possível para se entrar no jogo da sua transmutação,
que não se sabe em que direção poderá se dar.
A História brasileira, nesse ponto, pode ajudar. Aqui não cultivamos em demasia
uma visão essencialista de nós mesmos e as elites tiveram menos sucesso que em
outras partes em fixá-la, mesmo não se podendo negar-lhes qualquer eficácia ideológica.
Sempre nos vimos em movimento, nos fazendo, ambíguos. Ambigüidade que
representa uma sábia consciência, bem adequada à nova era, de que os opostos não se
excluem, como nos dualismos. Guerra e paz, dentro e fora, malandros e heróis, Dona
Flor e seus dois maridos: Gilberto Freyre (Benzaquen de Araújo), Jorge Amado e
Roberto DaMatta (Geiger e Velho) já o disseram. Aí também residiria o sincretismo
"bom", enquanto modo de operar; mas subordinado à ambigüidade, o operador maior,
o meta-operador, que o contextualiza de modo diferente de sua reificação ideológica,
ele mesmo sincretismo tendo que supor, sem excluir, o seu oposto. Se não nos
distinguimos de modo unívoco substantivamente, pelo menos nesta visada, nesta
epistemologia, neste modo de ver e de atuar o fazemos, em relação a muitos povos,
sobretudo do Ocidente, que hoje vivem o drama da penosa revisão das suas identidades
e de seus modos de pensar, que antes nos pareciam um ideal a atingir. Eis o paradoxo
do nosso primitivismo, elaborado literariamente no interior do nosso Modernismo
(Geiger): não se põe nos começos, como arquétipo, mas vai sendo digerido como
antídoto, que nos acompanha, contra as ilusões de uma modernidade auto-suficiente,
em todas as suas versões.
O Estado brasileiro provavelmente será relançado. Mas jamais será o mesmo.
A administração dinâmica de nossas diferenças, mais que uma integração pressuposta,
deverá ganhar espaço. Não haverá retorno de filho pródigo, nem redescoberta, porque
não haverá a que retornar ou redescobrir. Menos metafísica e mais pragmatismo do
chinelo de dedo. Foi essa a lição do nosso sincretismo, que, agora, é desafiado a
transmutar-se para que não sirva de encubridor das diferenças, mas continue a prestar
o seu serviço ajudando para que essas diferenças não se reifiquem, como já aconteceu
lá onde ele esteve ausente. Nossa criatividade, bem lembrada por Lessa, deve permitir
que descubramos como realizar a alquimia, a acrobacia sem rede desse duplo
movimento, no âmbito de uma identidade (com aspas) não-essencialista e ambígua,
em que os opostos (e as diferenças) não se excluam.
Sinais dessas possibilidades, no entanto, precisam ser buscados agora. O
próprio Estado se move por vezes de modo não controlado pelos governantes e com
fronteiras pouco nítidas. Por vezes, também, isso é mais perceptível lá no terreno
tradicional dos antropólogos brasileiros, no interior do país, onde muitas pessoas
desconhecem tanto o patriotismo, quanto o consumismo. Impressionaram-me nesse
ano de 2000, no Médio Purus (Amazonas), os modos pelos quais se sente a presença
do Estado. Pelo menos nessa área avança o reconhecimento das terras indígenas, sem
dúvida como resultado de um conjunto de forças que ultrapassa o país. Em
conseqüência, dá-se uma inversão dos papéis tradicionais na região, já que os índios
são "federais". A lógica é a do reforço das diferenças, criando-se, por exemplo, uma
assistência à saúde separada para brancos e índios e forçando-se uma definição étnica.
Contra isso e em nome da "mistura" colocam-se os grupos políticos locais, embora
essa ideologia da mistura mostre nitidamente seus limites na queixa de que no Sul do
país se considera que todos os habitantes do Amazonas são índios ou no espanto
diante da hipótese de se votar num candidato indígena a vereador (sem falar do
espanto diante da permanência de pesquisador em aldeia onde, no entanto,
iconicamente, tudo seria "natural"). Por outro lado, o Estado não tem forças para agir
sozinho, mas depende de "parcerias" com organizações não-governamentais, igrejas,
prefeituras e associações indígenas (no caso, atualmente, a Organização dos Povos
Indígenas do Médio Purus, fundada há cinco anos). Sozinhos, todos são incompletos,
não fazem sistema. A incompletude impõe uma espécie de integração, provisória,
mas que não se identifica com subordinação à lógica do mercado. E como num
caleidoscòpico quebra-cabeças, desses em que podem sobrar peças. As coisas só
acontecem quando há uma confluência de vários atores, o que também permite maior
vigilância sobre a utilização dos recursos, assunto melindroso e crítico. São muitas
energias humanas e interações envolvidas e a "química" entre as pessoas é um elemento
crucial. As questões de meio ambiente também carreiam recursos em função de uma
pauta extra-local, provocando tensões com os hábitos e costumes consagrados.
Há muitas diferenças em relação ao período de minha primeira pesquisa na
Amazônia há mais de trinta anos, quando o Estado mostrava-se onipotente na intenção
e impotente na prática, como no caso paradigmático da Rodovia Transamazônica.
Tudo isso, delicado e contraditório, é, mais uma vez, menos produto de uma intenção
de governo e mais do surgimento de novas forças sociais em complexa interação. E
preciso tentar entender o que está sendo gestado. E de tabela tudo isso sugere
igualmente a importância do trabalho de pesquisa, que ajuda a manter os pés no chão
do existente. Trabalho antenável às grandes questões do nosso tempo, que, por sinal,
vão além das do Estado, da política e dos supostos centros de decisão. A própria
"despolitização", tão lamentada, pode ser tomada, em sua positividade, como um
ceticismo realista e saudável, baseado na experiência concreta, e que nada tem de
anacrônico, prestando-se a comunicar-nos a fluidez das fronteiras e apontar para
outras realidades fora da política. Não é justo, nem proveitoso, pensar e medir (auditar?)
a riqueza da vida social exclusivamente do ponto de vista de sua instrumentalização,
pois esse movimento, por si, já compromete a capacidade de compreendê-la e resguardá-
la, reforçando com isso os modos de pensar, as epistemologías dominantes. Os
nossos evangélicos, por exemplo, sobretudo os pentecostais, não devem ser vistos
apenas como os novos portadores de uma ética protestante progressista (tal como
também não são agentes da CIA, como já foi costume dizer antes que fizessem valer
sua presença).
Menos distinções claras e nítidas e mais complexidade e fluidez. Mistura e
diferença. Sistemas vivos, não mecânicos, que podem ser parte de sistemas maiores.
Sistemas nem sempre lógicos ("racionais") ou conscientes, mas que, no entanto,
buscam a auto-regulação e adiar a entropia por meio de comunicações que se dão em
inúmeros níveis e de múltiplas e insuspeitadas maneiras. Isso tudo exige de muitos de
nós (entre os quais me incluo) uma penosa reeducação. Benefício da crise, o que traz
a esperança de enxergarmos com novos olhos - mais janelas que projetores -, não o
que estaria por vir, mas o que já está entre nós. Esperança no presente porque se
aceita a aventura da vida, o que talvez permita concentrar as energias e agir com mais
eficácia, respondendo às questões que estão efetivamente postas.
Sugestões de leitura:
BENZAQUEN DE ARAÚJO, R. - Guerra e Paz: Casa-Grande e Senzala e a Obra
de Gilberto Freyre nos Anos 30. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.
CAMPBELL, C. - The Romantic Ethic and the Spirit of Modern Consumerism.
Oxford: Blackwell Publishers, 1995(1987).
GEIGER, A. - uma Antropologia sem Métier: Primitivismo e Crítica Cultural no
Modernismo Brasileiro. Tese de doutorado. Rio de Janeiro: Museu Nacional
(UFRJ), 1999.
GEIGER, A. e VELHO, O. - "A liminaridade antropofágica de Roberto DaMatta ou
Tupi or not tupi? A virtude está no meio" in GOMES, L., BARBOSA, L. e
DRUMMOND, J. A. (orgs.), O Brasil Não É Para Principiantes: Carnavais,
Malandros e Heróis 20 Anos Depois. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000.
GIUMBELLI, E. - O Fim da Religião: Controvérsias acerca das "seitas" e da
"liberdade religiosa" no Brasil e na França. Tese de doutorado. Rio de Janeiro:
Museu Nacional (UFRJ), 2000.
HOBSBAWM, E. - O Novo Século. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
STRATHERN, M. - "A avaliação no sistema universitário britânico". Novos Estudos
Cebrap, no. 53, março de 1999, pp. 15-32.
VELHO, O. - "Globalização: Antropologia e Religião". Mana - Estudos de
Antropologia Social. Vol. 3, no. 1, abril de 1997, pp. 133-53.
Um Olhar Psicanalitico a Respeito da Questão da Identidade
do Surdo
Profa. Dra. Leny Magalhães Mrech
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo
Súmula: Serão discutidos, a partir das mais recentes pesquisas e
encaminhamentos da teoria psicanalitica lacaniana, os principais impasses que
geralmente acontecem no processo de constituição da criança surda. Para isto serão
apresentadas as principais diferenças entre as abordagens da Psicologia e da
Psicanálise. Em segundo lugar, a forma como as teorias de desenvolvimento e a teoria
psicanalitica têm lidado com os conceitos de desenvolvimento e estrutura, tendo em
vista o processo de constituição da criança surda. Em terceiro lugar, abordar-se-á de
que maneira os conceitos de identidade e os processos de identificação têm sido
trabalhados pelas teorias do desenvolvimento e pela teoria psicanalitica. Por último,
serão privilegiados os efeitos dessas discussões na prática do professor de Educação
Especial, Educação Inclusiva e do ensino regular.
Oficina-Palestra de Cultura e Diversidade
Nelson Pimenta
com a oficina que acabamos de fazer, vivenciamos uma situação em que a
diversidade se impôs. Houve momentos em que foi difícil relativizar valores e aceitar
as diferenças. A vida e a sociedade são assim, temos que conviver com a diferença e
com a oposição o tempo todo.
Eu me chamo Nelson Pimenta e nasci em Brasília, no dia 6 de setembro de
1963. Mudei-me com a família para o Rio de Janeiro em 1976. Fui o primeiro ator
surdo a se profissionalizar no Brasil, estudei no NTD (National Theatre of the Deaf)
de Nova Iorque, sou pesquisador de Língua de Sinais e já atuei como instrutor de
teatro e de Língua de Sinais Brasileira em diversas instituições de ensino, entre elas o
INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos) e a FENEIS (Federação Nacional de
Educação e Integração de Surdos). Atualmente estudo para graduação em Cinema
pela Universidade Estácio de Sá. Em 1999 criei, com Luiz Carlos Freitas, a LSB
Vídeo, empresa com a missão de contribuir para o aprimoramento da educação dos
surdos. Montamos uma equipe de trabalho com profissionais da área de educação que
acreditam que a situação de exclusão social em que muitos surdos brasileiros se
encontram poderia ser evitada a partir da construção da identidade surda nos indivíduos,
possibilitando a luta por seus direitos e promovendo a conscientização de seus
deveres.
Eu sou surdo e sou feliz. Minha trajetória de sucesso começou na família, com
a absoluta aceitação da diversidade da minha natureza, principalmente por parte de
minha mãe, que desde a descoberta da surdez teve a intuição de que o mais importante
em sua relação comigo seria termos uma comunicação satisfatória, partindo do princípio
de que ela deveria se adequar à forma de comunicação mais fácil e natural para mim,
e não o contrário. Logo descobriu que essa forma era com os sinais e adotou a língua
de sinais em nossa casa. Por causa disso, cresci acreditando que a comunicação do
mundo era dessa forma, através dos sinais, e, portanto, nunca cogitei que eu pudesse
ser diferente. Meu referencial nunca foi a audição e sim a surdez, o que contribuiu,
definitivamente, para a construção da minha identidade como um indivíduo com
elevada auto-estima e autoconfiança, ao contrário de outras crianças que às quais são
impostos modelos de comportamento e comunicação adequados a quem tem audição
e, com isso, passam a ter os ouvintes como referência. Invariavelmente, essas crianças
crescem com baixa auto-estima, acreditando serem deficientes por não conseguirem a
mesma performance que os ouvintes na fala e na escrita.
Mais tarde descobri que eu sou, de fato, diferente da maioria, e minha luta
começou no sentido de que a surdez seja reconhecida como apenas mais um aspecto
das infinitas possibilidades da diversidade humana. Ser surdo não é melhor ou pior do
que ser ouvinte, é apenas diferente. E ser surdo é diferente de ser deficiente auditivo.
Se um de vocês aqui presentes, que ouve e que, por isso, tem a cultura da audição, ou
seja, se comunica através da fala, gosta de música e do barulho do mar etc, perder a
audição, certamente será um deficiente auditivo, pois estará com um déficit, uma vez
que perdeu algo que já teve um dia. Mas eu nasci surdo e, como só se perde aquilo que
se tem, nunca perdi a audição, pois nunca a tive. Eu tenho o direito de viver assim, e
o mundo tem o dever de aceitar minha diferença.
Sou surdo e sou feliz.
Palestras
Escola para Todos - um Olhar pelo Mundo
Monica Pereira dos Santos'
I - Introdução
Este artigo tem como objetivo discutir e defender a existência de um sistema
educacional que se proponha a atender, com qualidade, a todo o seu alunado,
independente de suas características particulares originadas de suas habilidades, origem
cultural, étnica, religiosa, opção sexual ou qualquer outro aspecto que o diferencie.
Pretende ainda mostrar o que as pesquisas internacionais têm apontado como
principais obstáculos à viabilização de uma educação democrática e de qualidade para
todos, bem como mostrar que argumentos têm sido utilizados para combater esses
obstáculos, removendo-os, ou pelo menos minimizando-os.
As experiências relatadas nas pesquisas podem ser consideradas como iniciativas
tomadas por esses países em relação à transformação de suas escolas numa direção
cada vez mais inclusiva de seu alunado. Se essas experiências não devem, por um
lado, ser tfaduzidas ao pé da letra para o contexto brasileiro, elas podem e devem, por
outro, servir de fontes de inspiração para que possamos repensar nossa própria
realidade e prática.
Partimos do princípio de que não há, em contexto algum, grupos que possam
ser considerados homogêneos. A escola é, em especial, o lugar por excelência em que
a heterogeneidade se encontra presente, e esta deve ser celebrada como um recurso, ao
invés de ser vista como um problema. Argumentamos que sem uma perspectiva de
celebração das diferenças, através da qual velhos paradigmas educacionais relativos a
uma prática pedagógica excludente possam ser combatidos e transformados, o objetivo
de uma escola de qualidade para todos pode ser inviabilizado.
Dividimos o material subseqüente em duas partes. Na primeira, estaremos
discutindo o que é a escola para todos no que diz respeito a suas origens históricas,
aos seus objetivos e ao porquê de sua existência. A segunda parte tratará de apontar
os obstáculos mais comumente encontrados nos diferentes contextos mundo afora, e
a relatar o que tem sido sugerido para enfrentá-los.
II - O que é a escola para todos?
2.1 - Origens - de onde ela vem?
A idéia de escolas que atendam a todo o seu alunado se origina de uma
movimentação histórica a favor da democratização e humanização da educação em
diversos países. Suas origens já foram apresentadas em diversos artigos e livros,
tanto na literatura nacional quanto internacional (ver, por exemplo, Carvalho, 2000,
1998; Santos, 1997, 1998 a, 1998b, 1999; Werneck, 1997). A despeito dé uma ou
outra visão diferenciada sobre os autores quanto ao assunto, todos concordam em
que, historicamente, a origem da noção de escola para todos remonta há pelo menos
'Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade do Brasil (Universidade
Federal do Rio de Janeiro).
quatro décadas, quando da publicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos
(1948).
A própria existência desse documento denota o ano de 1948 como um
importante marco no sentido da expressão, em declaração, de preocupações ligadas
aos direitos básicos de qualquer cidadão do mundo. Entre tais direitos, já se encontra
o relativo à educação.
Na verdade, tais preocupações não foram manifestas ao acaso. Tratava-se de
uma época pós-Segunda Guerra Mundial, em que o desemprego e a recessão econômica
assolavam muitos dos países líderes e outros, aliados e inimigos na Guerra. As
desigualdades sociais, decorrentes de propostas político-econômicas que primavam
principalmente pela prosperidade econômica dos países, tornaram-se ainda mais
gritantes. No campo da produção científica, estudos comprovavam cada vez mais
tôda uma série de discriminações e exclusões ocorrendo nos mais variados terrenos da
vida humana. Era, portanto, imperativo uma tomada de atitude pública e manifesta,
nos termos de uma Declaração Universal, a respeito das desigualdades constatadas e
da reafirmação da necessidade de se combatê-las.
A partir desta época a luta pelo reconhecimento dos direitos humanos, bem
como pela sua proteção, se acirrou e se organizou. Grupos minoritários que sofriam
o peso maior da exclusão inauguraram seus próprios movimentos de defesa,
constituindo grandes redes de defesa e produção de conhecimentos que propiciassem
a adoção de alternativas, em todos os campos, para que uma vida mais digna fosse
garantida aos seus membros. Esses grupos ganharam força política, e passaram também
a exercer influência na elaboração de políticas mais humanistas em seus respectivos
países.
A educação, um dos principais campos por meio dos quais se promove a
formação humana, não ficou de fora. Nos sistemas de ensino, constatava-se a exclusão
de vários grupos sociais, pelos mais variados motivos, ora explícitos, ora velados.
Havia grupos que sequer conseguiam acesso à educação e outros que, mesmo
usufruindo dela, eram vulneráveis às mais variadas práticas de discriminação que
culminava em sua exclusão.
As décadas de 60 a 90 preocuparam-se especialmente com a investigação
científica desse quadro. Constatou-se que a exclusão se dava por motivos de etnia, de
religião, de gênero, de condições sociais, de supostas incapacidades físicas ou mentais,
entre vários outros aspectos. A escola seguia sua pedagogia, preponderantemente
elitista, e a premissa básica era a de que cabia aos alunos adaptarem-se a ela e a sua
cultura seletiva. As avaliações, a didática, tudo colaborava para a manutenção de uma
escola única, inflexível, em que as diferenças não possuíam nenhum valor - pelo
contrário, eram no mínimo inconvenientes. O pressuposto, equivocado, era o de que
uma educação "correta" deveria ser uma só para todos, em princípio e na prática,
como se todos fossem iguais. como se todos aprendessem pelas mesmas vias,
movidos pelos mesmos interesses e com a mesma motivação.
A questão que as realidades sociais nos apresentavam, no entanto, pela da
constatação cada vez mais alarmante dos índices de fracasso e exclusão dos indivíduos
dos mais variados setores das sociedades, era: embora sejamos todos iguais em valor
(como seres humanos), isso não significa que somos todos iguais também em nossa
forma de ser. Em outras palavras: apesar de termos declaradamente o mesmo valor
comò seres humanos, e conseqüentemente os mesmos direitos a uma vida digna, não
vivemos de forma homogênea. Pertencemos a grupos variados, temos características
(físicas, familiares, históricas, religiosas, culturais, de gênero, psíquicas, etc.) variadas,
e isso por si só implica a consideração, por parte de qualquer serviço social, de que
para que atenda, de fato, a todos com maior igualdade, é preciso considerar as diferenças
na organização desses serviços.
Inverte-se, assim, o pressuposto: uma educação "correta", democrática, justa,
jamais poderia ser a mesma para todos no que diz respeito à sua prática, embora sim
no que diz respeito aos seus princípios. O princípio de que a educação deve
proporcionar uma formação social básica a todo e cada ser humano deveria ser
preservado. Mas as práticas através das quais tal princípio se manifesta não podem
ocorrer sem flexibilidade e variação. Porque nem todos têm a mesma motivação para
aprender, nem todos aprendem melhor apenas ouvindo (há os que preferem ver, os
que preferem tocar, os que preferem exercitar, os que preferem falar...), e nem todos
querem aprender a mesma coisa. Portanto, uma escola de qualidade para todos deve
levar esses aspectos em consideração.
2.2 - Objetivos - para que serve a escola para todos?
uma escola para todos serve, portanto, como meio reconhecido através do qual
os membros de uma sociedade possam ter acesso ao conhecimento e, mais do que
isso, à produção deste, como indivíduos ativamente participantes e construtores de
seu próprio meio. A escola de qualidade para todos reconhece a importância de seu
próprio papel na formação de sociedades mais justas e luta para extinguir ou minimizar
todo e qualquer tipo de exclusão: dentro e fora de sala de aula. Ela serve ao objetivo
mais amplo de constituição de sociedades - e conseqüentemente de um mundo - em
que as diversidades sejam vistas como riquezas, e nunca como problemas. Pois como
nos diz Booth:
A necessidade de se pensar inclusivamente em educação nunca foi tão importante
quanto nesta última década. Temos sido dolorosamente relembrados do quanto
a paz e a estabilidade ficam abaladas quando a diversidade deixa de ser
valorizada.(in: Savolainen et alii, 2000, p. 29).
Nesse sentido, cabe lembrar sua estreita associação com o que hoje se chama
educação inclusiva. Essa relação fica explícita num dos documentos internacionais
mais importantes da década de 90, que reafirma os princípios expressos em 1990 na
Declaração Mundial sobre Educação para Todos: a Declaração de Salamanca (1994).
Em sua versão original (inglesa), lê-se, na página 78 de suas linhas de ação, no tocante
aos recursos necessários para que tais linhas tenham efeito:
O desenvolvimento de escolas inclusivas como o meio mais eficaz de sé atingir
a educação para todos deve ser reconhecido como uma política-chave no
plano governamental e a ele [ao desenvolvimento - nota da autora] deve ser
dado um lugar privilegiado no planejamento do desenvolvimento nacional.
Em outras palavras, fica claro que a inclusão em educação é a filosofia com base
na qual uma educação para todos possa, de fato, acontecer. Ao planejarem seu próprio
desenvolvimento, as nações deverão levar em conta que a educação para todos,
princípio básico de desenvolvimento nos dias de hoje, é alcançada quando
fundamentada numa filosofia - de inclusão - que leve em consideração a diversidade
presente nas sociedades e seus sistemas de ensino. Isso deve acontecer em todos os
níveis: no da organização das instituições educacionais (formais e não formais), na
administração de sistemas (educacionais e outros), na formulação e implementação
de políticas (nacionais e internacionais), e, acima de tudo, nas práticas sociais
(pedagógicas e outras).
2.3 - Justificativa - por que uma escola para todos?
Assim, justifica-se a escola para todos. Fundamentada no reconhecimento da
importância de se lutar contra as exclusões - e conseqüentemente promover a inclusão
-, ela estará promovendo um mundo cujas relações internacionais e intranacionais se
darão de forma mais justa, mais igualitária.
Ill - como a escola para todos tem sido promovida?
3.1 - Obstáculos e seu enfrentamento
Sete têm sido os temas orientadores de ações nacionais propostos pela
Declaração de Salamanca (1994): (a) Política e organização; (b) Fatores escolares; (c)
Recrutamento e treinamento de pessoal de educação; (d) Serviços externos de apoio;
(e) Áreas prioritárias; (f) Perspectivas comunitárias e (g) Recursos requeridos.
Em cada um desses temas, as pesquisas levantam o que se podem considerar
obstáculos ainda presentes - e conseqüentes ações necessárias - para que a educação
para todos seja promovida. Discutiremos aqui os três primeiros temas, considerados
mais imediatamente ligados ao assunto do presente artigo. Cabe esclarecer, no entanto,
que todos possuem igual importância para o contexto brasileiro, e que o "corte" de
alguns neste artigo dar-se-á meramente em função dos limites de espaço.
A respeito do primeiro tema (política e organização), ele afirma a importância
de se operacionalizarem as políticas em todos os níveis, com apoio mútuo entre
comunidades e governos locais e nacionais. De nada adianta formular políticas sem
elaborar estratégias para sua implementação. Entre as estratégias, encontra-se a de
engajar tais políticas às realidades das comunidades em que serão aplicadas e a de
assegurar maneiras pelas quais elas sejam de fato implementadas localmente.
Um outro aspecto levantado como obstáculo no tocante ao tema política e
organização refere-se à separação que se verifica em vários países entre educação
pública e a educação privada:
Em muitos países existe um vasto setor privado cuidando dos mais privilegiados
e o Estado provendo educação básica nas áreas mais pobres. Tal educação é
geralmente vista como tendo um valor baixo e isso em si constitui uma grande
pressão a favor da exclusão, bastante difícil de ser combatida. (Savolainen et
alii, 2000, p. 21)
Ainda um terceiro aspecto do tema refere-se à existência de políticas e legislações
que estabelecem as categorias "especial" e "regular", e a associação da política de
inclusão como sendo parte de uma estratégia reservada a um segmento "especial" da
população - o de deficientes. Booth (in Savolainen et alii, 2000) critica isso, dizendo
que legislações separadas apenas impedem um exame acurado das pressões excludentes
dentro do sistema como um todo, prejudicando, assim, o desenvolvimento da inclusão
- que, conforme dito anteriormente, constitui fundamento básico ao para a
implementação da escola para todos e não diz respeito apenas às deficiências, embora
estas façam, também, parte do espectro da inclusão.
Quanto ao segundo tema, fatores escolares, podem-se destacar, para efeitos
deste artigo, questões relativas ao projeto político-pedagógico da escola, à flexibilidade
curricular, à avaliação, dentre muitos outros. O projeto político-pedagógico, novidade
trazida ao contexto brasileiro pela Lei 9394/96 de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, numa perspectiva de educação para todos, deveria preocupar-se com o
desenvolvimento de uma cultura inclusiva dentro da escola, com apoio interno e
externo. uma vez mais, é a Declaração de Salamanca ( 1994, p. 67, versão inglesa) que
delineia o assunto:
O desenvolvimento de escolas inclusivas que sirvam a uma grande variedade
de alunos de áreas tanto rurais quanto urbanas requer: a articulação de uma
clara e poderosa política de inclusão junto com uma provisão financeira
adequada - um eficiente esforço de informação pública para combater
preconceitos e criar atitudes informadas e positivas - um extenso programa de
orientação e treinamento de pessoal - e a provisão dos serviços de apoio
necessários. Mudanças em todos os seguintes aspectos da escolarização, bem
como de muitos outros, são necessárias à contribuição para o sucesso de
escolas inclusivas: currículo, ambiente físico, organização da escola, pedagogia,
avaliação, treinamento de pessoal, ética da escola e atividades extra-
curriculares.
No contexto de nossa legislação, fica claro, portanto, que se tais aspectos não
são contemplados no projeto político-pedagógico das escolas, a educação para todos
e sua fundamentação filosófica (inclusão) correm o risco de ficar apenas no plano das
idéias.
Quanto à flexibilidade curricular, preconiza-se que para que a educação seja de
qualidade para todos, é necessário que se adapte o currículo aos interesses, ritmos e
necessidades do alunado, e não o contrário, como tem tradicionalmente acontecido. A
idéia é que as escolas estejam aptas a estimular o melhor desempenho por parte de
todo o seu alunado, levando-se em consideração o fato de que a aquisição de
conhecimentos não se limita à instrução formal. como propõe a Declaração de
Salamanca (1994, p. 68, versão inglesa):
O conteúdo da educação deveria ser orientado a altos padrões e às necessidades
dos alunos com vistas a habilitá-los a participar ativamente no seu
desenvolvimento. O ensino deveria ser relacionado à experiência dos próprios
alunos e a preocupações práticas afim de melhor motivá-los.
A avaliação, conseqüentemente, precisa ser repensada. uma perspectiva
formativa de avaliação deveria ser adotada, de modo que, com o acompanhamento
freqüente do processo de ensino-aprendizagem, possíveis "problemas" no percurso
pudessem logo ser identificados e abordados. Portanto, tanto o percurso de ensino do
professor quanto o de aprendizagem do aluno seriam avaliados com freqüência.
Sistemas educacionais que ainda fazem uso da repetição de ano como forma de
"correção" do fracasso estão decididamente ultrapassados. É Booth (in: Savolainen
et alii, 2000, p. 22) quem nos incita a pensar sobre o assunto:
Em sistemas que tentam corresponder à diversidade do alunado, tentam-se
introduzir políticas flexíveis de avaliação. A repetição tem sido questionada,
bem como práticas padmnizadoras. Tais práticas se baseiam na premissa de
que as turmas devem ser homogêneas. A inclusão implica valorizar a
diversidade das turmas e a adaptação do ensino no sentido de apoiá-las.
Chegamos, assim, ao terceiro tema escolhido para análise: recrutamento e
treinamento de pessoal de educação. Tal como acontece com os outros temas, também
neste há uma variedade de aspectos a serem discutidos, potencialmente considerados
como obstaculizantes à educação de qualidade para todos.
Um primeiro aspecto freqüentemente mencionado sobre esse tema com respeito
ao sucesso de uma educação de qualidade para todos trata da necessidade premente
de um bom preparo de docentes para a tarefa de educar para a diversidade. A própria
Declaração de Salamanca (1994, p. 70, versão inglesa) sugere:
Programas de formação de professores deveriam prover a todos os licenciandos
e futuros professores (primários ou secundários) uma orientação positiva em relação
às deficiências, desenvolvendo uma compreensão do que pode ser alcançado em
escolas com serviços locais de apoio disponíveis. O conhecimento e as habilidades
requeridas são primariamente aquelas de um bom ensino e incluem a identificação das
necessidades especiais, a adaptação de conteúdos curriculares, a utilização de tecnologia
de apoio, procedimentos de individualização do ensino para atender a uma maior
variedade de habilidades, etc. Em escolas de estágio de professores, atenção específica
deveria ser dada ao preparo desses profissionais para exercerem sua autonomia e
utilizar suas habilidades em adaptar o currículo e o ensino a fim de atender as
necessidades dos alunos, bem como a fim de colaborar com especialistas e cooperar
com as famílias.
Felizmente, a legislação brasileira corrobora essa idéia em algumas legislações,
pelo menos no que diz respeito ao alunado composto pelos deficientes. Dentre elas
podemos citar a Portaria Interministerial 1973, de 1989, e a própria LDB 9394, de
1996. Na primeira, há a sugestão da inclusão de disciplinas relativas às deficiências
em vários cursos de licenciaturas, e outros, das áreas médicas e para-médicas. Na
segunda, no próprio Capítulo V, referente à Educação Especial, destaca-se, no artigo
59, o seguinte trecho:
Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais
(...) professores com especialização adequada em nível médio ou superior
para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular
capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns.
Ainda que se possa fazer uma série de ressalvas quanto aos aspectos propostos
na LDB - como, por exemplo, o de reforçar dois tipos de formação de professores, o
especial e o regular, realimentando a separação entre "educações" especial e regular -
, trata-se de um avanço, no caso brasileiro, a idéia de que todo professor deva ser
preparado para atender à diversidade em sala de aula.
Outro aspecto relevante a respeito da formação de educadores refere-se à
presença de um professorado representativo de grupos excluídos exercendo a profissão.
É Booth (in: Savolainen et alii, 2000, p. 26) quem nos auxilia uma vez mais a esse
respeito, e complementa o aspecto anterior:
Em muito países, o professorado não é representativo de grupos excluídos.
Em muitos cursos de formação de professores a inclusão é considerada em
sessões separadas, usualmente associadas com alunos deficientes ou
categorizados como tendo necessidades educacionais especiais, ao invés de
permear a perspectiva educacional em todos os cursos. Isto desencoraja o
desenvolvimento de perspectivas inclusivas de ensino. Em alguns casos as
qualificações não permitem que professores especialistas lecionem para turmas
regulares. Tem havido um crescente reconhecimento de que qualquer
especialização deve ser precedida por uma formação geral comum.
E ainda um terceiro aspecto a ser levantado refere-se ao treinamento em serviço
e capacitações. E crescente na literatura a ênfase dada à importância de se planejarem
tais atividades em consonância com um projeto de desenvolvimento da escola como
um todo. E, mais do que isso, têm-se tornado cada vez mais populares e bem-
sucedidas as experiências em que se agrupam escolas a fim de se otimizar e enriquecer
recursos. Recorremos uma vez mais a Booth (in: Savolainen et alii 2000, p. 26-27),
finalizando o assunto:
O agrupamento de centros de aprendizagem amplia os recursos disponíveis
para treinamento e disseminação [de conhecimentos - nota da autora]. Os
agrupamentos poderiam incluir centros especiais e regulares de aprendizagem
compartilhando recursos como um passo rumo a uma maior inclusão. Em
muitos países professores assistentes são empregados para apoiar alunos
deficientes. Deve haver uma clara estratégia sobre como esse profissional
pode apoiar a aprendizagem e participação de todos os alunos.
como se vê, se em cada escola cada professor fosse compreendido como um
recurso em potencial para a promoção da inclusão, provavelmente estaríamos
discutindo outros aspectos, menos básicos, de promoção de uma educação para
todos, com qualidade.
IV - Conclusões
São muitos os obstáculos à promoção da educação para todos, mas também
têm sido muitas as alternativas encontradas nos mais variados países no sentido de
superar tais obstáculos. A falta de recursos, ainda que constitua um problema real e
sério a ser considerado em todo esse processo, não é, e nem pode ser, suficiente para
justificar uma desistência, ou mesmo o fracasso da promoção de uma escola de
qualidade para todos. Cumpre, acima de tudo, compreender que a educação
fundamentada na filosofia de inclusão não é um ideal ao qual devemos pretender
chegar um dia, mas um processo que já se encontra em andamento e cujo fim não
existe. Tal processo tem seu peso maior nas atitudes que assumimos perante o
mundo que desejamos ter. Estaremos sempre lutando por uma educação para todos
na medida em que estivermos lutando pela inclusão de alunos, ou seja, contra sua
exclusão da participação nos currículos e na vida da comunidade escolar como um
todo. E ao lutar por uma educação para todos, estaremos continuamente preparando
um mundo que abrace cada vez mais a todos.
Bibliografia
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Nacional. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto, 1996.
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WERNECK, Claudia. Ninguém mais vai ser bonzinho na sociedade inclusiva. Rio de
Janeiro: WVA(1997.
Artigos de Sites:
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Rhevisão - Recursos Humanos em Revista - No. 4, jul-ago. http://
www.revistas.net/rhevisão/4/index.shtml.
Declaração Universal dos Direitos Humanos. http://www.um.org/Overview/rights.html
Anacronismo nas Representações Sociais de Cidadãos
Surdos e Políticas Públicas
Solange Maria da Rocha
1
Brasília, MEC, agosto de 2001, cidadãos surdos, oriundos de quase todos os
estados brasileiros, estiveram por uma semana na capital federal. Financiados pelo
poder público, capacitaram-se para capacitarem professores, alunos surdos e
comunidade em geral em LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais).
Ao ser reconhecida como língua de instrução para alunos surdos em nossas
escolas, LIBRAS apresenta enorme potencial para mudar velhos paradigmas. Se é
língua, o surdo desloca-se no espaço de nosso imaginário. como nativos dessa língua,
vão subsidiar os sistemas de ensino para viabilizarem projetos bilíngües. Então, a
história dá uma guinada.
Da condição de impotentes, deficientes, com ínfima ou nenhuma capacidade de
abstração, transformam-se em docentes de seus docentes. Estaremos portanto,
sincronicamente, vivendo uma inserção do surdo no espaço real e imaginário da
cidadania?
Rondônia, Porto Velho, agosto de 2001. Informada de que a área dos índios
Parecys ficava naquele estado, senti-me estimulada a contar uma história envolvendo
esses índios e o INES, ocorrida em 1922. uma história que, antes de contá-la, tornou-
se desimportante diante do que me contaram os profissionais sobre esses índios.
A criança Parecy que apresenta alguma diferença física, sensorial ou mental não
tem direito à vida. Cabem aos pais cumprir um doloroso ritual de tortura até a morte.
Julguei que estaríamos em outras idades, mas o relato era atual e não acabaria ali. uma
mulher Parecy deu luz a gêmeos, um menino e uma menina, ambos surdos. Pelos
imperativos da cultura, caberia ao casal cumprir o ritual esperado. Não conseguiram,
deram cabo de suas vidas e os demais elementos da tribo se incumbiram da missão.
Cumprida pela metade, pois uma das crianças, a menina, depois de torturada e enterrada,
sobreviveu e foi resgatada por outros elementos da mesma tribo. Talvez, para estes,
a surdez estivesse em outro plano de representação. Hoje, está na FUNAI, mais
deverá ser devolvida à tribo.
De volta ao hotel, comentei o fato com os colegas, e vicejando de indignação,
quando o motorista virou-se e concluiu:
- Isso é coisa dos índios, é deles, é da cultura deles.
O que é exatamente "coisa dos índios" ? Eliminá-las ou salvá-las?
No entanto, o que mais impressiona é que ele, o motorista, não chegou na
menina. Na análise dele e de tantos, em outras tantas circunstâncias, não existe a
menina, o menino, o adolescente, a mulher, o homem. Não tem nada disso, só o
estigma, só a marca, só o ferro imaginário torrando a carne real. Não são cidadãos, são
marcas. É aí que está o cerne da questão.
Políticas públicas, quando desenvolvidas, ficam irremediavelmente atreladas
às representações que se tem dos sujeitos sociais.
Em que espaços reais e imaginários transitam os surdos no plano das
representações e dos discursos hegemônicos?
'Diretora do Departamento de Desenvolvimento Humano, Científico e tecnológico do
INES, Pedagoga, historiadora e mestre em educação - UERJ
Dizer que entre as comunidades indígenas brasileiras são eliminados é um erro.
Entre as que conhecemos encontramos posturas distintas. uma, pela presença de
surdos, é bilíngüe.Noutra, os surdos não freqüentam a escola da aldeia e ficam em
casa, segregados, sem convívio com as outras crianças. Tal como nós, fora das aldeias.
Nesse mesmo farto agosto, uma publicação evangélica foi distribuída no INES
aos seus alunos. Um exemplar me chegou às mãos. Chama-se Carta Viva, e a manchete
diz: "Surdos curados em todo o país". Em seu interior, depoimentos de cura.
Curar a surdez. Curar a doença, o doente.
O doente? Então aqui ele se re(apresenta) como doente.
Nesses tempos de Escola para Todos, o impacto dessa proposta acomete a
todos. Não há ninguém indiferente. E aí, caímos numa guerra juvenil, contra ou a
favor, escolhendo caminhos para os tímidos alcances de nossa consciência. Lançando
um olhar pouco mais profundo, evitando politicagem epidérmica, encontraremos
uma massa de excluídos de potencial impressionante, aprisionados nos paradigmas
da doença, da cura, da mudez e do nao. Submetidos a um anacronismo perverso de
não terem escolas por não estarem aptas para eles, ou não terem escolas por não
estarem aptos para elas.
E o tempo passa sem cerimônia e eles assistem impacientes a nossa capacidade,
desembarcando nas políticas públicas como coitados, mudinhos, deficientes. Espectro
de cidadania é espectro de cidadão.
O que temos oferecido a eles?
Exclusão é saber que em torno de 70% de crianças surdas em idade escolar
nunca freqüentou uma escola.
Não são conhecidas, não freqüentam espaços públicos, não são vistas e ninguém
se sente preparado para trabalhar com elas. Esta é a realidade brasileira. Suas famílias
não as representam como capazes. Qualquer coisa serve. Estão representadas como
o nada, o nada que leva os Parecys a exterminá-las.
As 30% restantes vivem outras exclusões: ou estão agrupadas em espaços
especiais com crianças que a escola regular não quer ou estão nas classes regulares
isoladas e espetacularizadas.
Onde a informação não circula, a desinformação reina.
Não adianta usar o passado como fonte de pesquisa estática, identificar o que
aconteceu e ficar julgando. O passado torna-se nefasto quando se embrenha no presente
e se estabelece com suas verdades num tempo em que outras já o superou.
E a outra Idade Média situada no futuro, como dizia Caetano.
Para construção de Políticas Públicas, devemos bem conhecer os sujeitos a
serem beneficiados, examinar com intensidade como os representamos, principalmente
se eles forem sujeitos passivos de nossas políticas e não tiverem, pelos mais variados
motivos, oportunidade de estar construindo junto.
Se forem sujeitos ativos de sua história, tanto melhor para todos nós.
Projeto Dicionário Virtual da LIBRAS
Tanya A. Felipe
1
1. Introdução
As Comunidades urbanas surdas no Brasil têm como fatores principais de
integração a utilização da língua de sinais brasileira ou, como os surdos a denominam,
a língua brasileira de sinais - LIBRAS - e os esportes, por isso têm uma distribuição
hierárquica com a Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS): 7
Federações/ Liga Desportivas e 60 associações/clubes/sociedades/congregações, em
várias capitais e cidades do interior, e a Federação Nacional de Educação e Integração
dos Surdos - FENEIS - com sede no Rio de Janeiro e regionais em Belo Horizonte,
São Paulo e Porto Alegre.
Em muitas dessas comunidades há interferência de grupos religiosos,
representados por pessoas ouvintes com domínio da LIBRAS ou de outra língua dos
sinais estrangeira. A ocorrência deste último caso tem favorecido uma utilização de
"estrangeirismos", ou seja, uso de sinais diferentes dos utilizados em outras
comunidades brasileiras.
Admitindo-se que há dois tipos de bilingüismo, o individual e o social, e que a
diglossia estaria em nível coletivo e seria a coexistência de duas ou mais variedades de
língua ou línguas, pode-se afirmar que as comunidades urbanas dos surdos no Brasil
são bilíngües por possuírem membros bilíngües que utilizam duas línguas em uma
situação de diglossia: a língua portuguesa - a variante superposta utilizada nas escolas
e com os ouvintes da comunidade maior à qual também estão inseridos, e a LIBRAS,
a variante informal usada entre os surdos e nas suas associações (Felipe, 1888,1989a,
1990, 1991a, 1992a, 1993a, 1995).
Devido à tradição oralista, há surdos que só querem falar, usando sempre o
português, e outros que, devido ao fato de não dominarem bem a LIBRAS, usam um
bimodalismo, ou seja, falam português enquanto sinalizam, como os ouvintes quando
começam a aprender alguma língua de sinais.
Mas as escolas podem ser um dos fatores de diversificação, favorecendo a
integração ou desintegração das comunidades surdas porque, dependendo da
metodologia adotada, elas, até bem pouco tempo, rejeitavam a LIBRAS e,
conseqüentemente, as crianças não podiam conhecer suas comunidades e não
aprendiam a variedade local de sua língua, podendo apenas, em escolas mais liberais,
comunicarem-se através de dialetos restritos ao ambiente escolar.
O Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), no Rio de Janeiro, mesmo
ainda sem uma proposta bilíngüe generalizada, é fator de integração porque as crianças
e adolescentes se comunicam em LIBRAS e vários professores já sabem ou estão
aprendendo com "professores surdos" além de oferecer cursos também para os pais
dessas crianças e estar modificando a proposta curricular, inserindo o ensino sistemático
'Professora Doutora Tanya Felipe é Professora Titular da Universidade de Pernambuco,
coordenadora do Grupo de Pesquisa da FENEIS - Rio de Janeiro e Coordenadora, em nível
nacional, do Programa LIBRAS o idioma que se vê - Cursos de LIBRAS: Metodologia para
o ensino de LIBRAS para Instutores/ Agentes Multiplicadores e Curso de LIBRAS para
ouvintes.
da LIBRAS em tôdas as séries. Essa prática está acontecendo também em várias
outras escolas de surdos pelo país.
Por outro lado, várias escolas que não estão ainda articuladas com as
comunidades surdas, ou por falta de interesse ou por estarem em cidades que não
possuem associação de surdos, trabalham ainda somente com uma metodologia neo-
oralista, o que faz com que as crianças surdas desenvolvam um dialeto entre elas para
uma comunicação mínima, ficando totalmente desintegradas da cultura surda, sendo
consideradas, apenas, como deficientes auditivas (DA).
Essa tradição oralista fez surgir também diferenças em relação ao uso da LIBRAS
pelas comunidades surdas; assim, há comunidades que possuem mais sinais em relação
a outras, que utilizam a datilologia, sinais soletrados, ou um mesmo sinal para conceitos
diferentes.
Para se conhecer melhor a LIBRAS têm surgido iniciativas em termos de estudos
lingüísticos, materiais de divulgação não especializados e elaboração de dicionários
por instituições religiosas, públicas e privadas. A partir da pesquisa dessas publicações
e da necessidade de se elaborar um dicionário com bases lingüísticas, surgiu essa
proposta que estamos agora apresentando.
Sabemos que posteriormente teremos que acrescentar novos sinais, já que
optamos por colocar somente aqueles reconhecidamente utilizados pelas comunidades
surdas e, como estão surgindo novos sinais, gostaríamos que os surdos de todo o país
nos ajudassem nessa coleta de dados para a segunda edição. Desenvolvemos esse
trabalho árduo, exaustivo, desafiador, em oito meses, e por isso sabemos que é
passível de erros, que gostaríamos que nos fossem informados para que possamos
revê-los e corrigi-los futuramente.
2. Organização do Dicionário Digital Bilíngüe da LIBRAS
2.1. Metodologia de trabalho
2.1.1. Formação da equipe:
Para a elaboração do Dicionário Digital Bilíngüe da LIBRAS, houve a
preocupação em formar uma equipe de especialistas nas áreas de lingüística com
conhecimento da LIBRAS, lexicografía e informática, e surdos que tivessem um
ótimo domínio em LIBRAS, conhecessem bem a língua portuguesa e já tivessem
participado de pesquisa ou estivessem envolvidos com educação de surdos. Assim,
no mês de dezembro foi organizada essa equipe que ficou composta por:
• Coordenador administrativo-financeiro, Guilherme Lira, responsável pela
organização da equipe, gerenciamento da verba, prestação de contas e relatório
final, supervisor da equipe de informática e filmagem;
• Coordenadora administrativa, Prof. Solange Rocha (INES), responsável pela
escolha dos componentes da equipe, liberação de material de consumo e pela
infra-estrutura, tendo sido a pesquisa realizada no Instituto de Educação de
Surdos-INES;
• Coordenadora de pesquisa, Prof. Dra. Tanya Felipe (UPE), responsável pela
metodologia, sistematização de coleta, tratamento e apresentação dos dados e
supervisão da equipe de surdos;
• equipe de surdos: pesquisadores, informantes e colaboradores na pesquisa,
responsáveis pela organização do banco de dados, filmagem e tratamento das
imagens: Paulo André, Heloisa Grippe, Alexandre, Elizabeth, Elaee, Nelson
Pimenta, Leandro, Adriana, Cristiane, Ana Regina e Patrícia;
• equipe de lexicólogos, responsáveis pela elaboração das acepções dos verbetes
e exemplificação em português: Liane e Roberto;
• equipe de informática, responsável pela confecção da plataforma do dicionário
digital: ;
• equipe de filmagem, responsável pela filmagem, organização do banco de dados
e tratamento das imagens: Aulio, Paulo André;
• equipe de digitadores, responsável pela digitação do banco de dados da pesquisa
e da plataforma: Heloisa e Vera.
Para a preparação e entrosamento das equipes, foram realizadas reuniões
administrativas e técnicas. As reuniões administrativas foram realizadas com os
coordenadores e algumas com o grande grupo. As reuniões técnicas, por serem mais
específicas, eram feitas entre os grupos; assim as reuniões técnicas da coordenadora
de pesquisa foram realizadas com a equipe de surdos e de lexicólogos para apresentação
da metodologia de trabalho, orientações sobre coleta de dados, sistema de transcrição
de frases e descrição de sinais. Outras reuniões foram efetuadas ao longo de toda a
pesquisa, ora com grupos específicos, ora com todo o grupo, ora somente com os
coordenadores.
2.1.2. Organização da Nominata:
A elaboração da nominata é a primeira fase de um dicionário, quando se faz um
levantamento dos itens lexicais que o irão compor. No mês de janeiro foram organizadas
as nominatas, tendo sido necessário realizar as seguintes atividades:
• levantamento de dados através de fontes bibliográficas já existentes - foram
coletados dados em 17 livros elaborados a partir de sinais usados pelos surdos
de uma determinada região ou por todas as regiões (ver referências bibliográficas);
• digitação e organização dos sinais por ordem alfabética: nominata de A até Z;
• coleta de novos dados através de dicionários da língua portuguesa - pesquisa,
através de palavras da língua portuguesa, de novos sinais que não constavam
nos livros pesquisados;
• acréscimo e organização de novos sinais à nominata;
• digitação e impressão da nova nominata: A - Z;
• discussão sobre a elaboração de verbetes a partir das acepções das palavras
contidas em dicionários de língua portuguesa, referentes à letra A.
Em um primeiro momento foram coletados 3.587 sinais. Após a pesquisa em
dicionários esse número cresceu para 3.986, mas, a partir das discussões para a
organização dos verbetes, foi constatado que muitos sinais não eram de fato conhecidos
pela comunidade surda, por isso eles foram retirados. como ainda estamos na fase
final de preenchimento da plataforma, ainda não temos o número exato de sinais que
foram selecionados tomando como base o uso efetivo através dos exemplos dados em
LIBRAS sem interferência da língua portuguesa.
2.1.3. Organização dos Verbetes em LIBRAS e em Português:
Nessa fase da pesquisa houve uma rediscussão sobre os sinais, pois alguns
coletados em livros foram criados por ouvintes para termos religiosos ou eram dialetos
escolares, não se caracterizando nem como sinais nacionais nem como sinais regionais.
Foram retirados, já que o objetivo da pesquisa era incluir no dicionário somente sinais
que realmente são utilizados pelas comunidades surdas. Assim, no mês de fevereiro,
a equipe de surdos foi dividida em dois grupos para a transformação das nominatas
em verbetes e estudo comparativo dos sinais pesquisados. O primeiro grupo, formados
por surdos bilíngües, concomitante ao trabalho dos lexicólogos, realizou até o mês de
maio as seguintes atividades, individualmente:
• pesquisa de acepções e classes gramaticais das palavras/sinais por letras;
• exemplificação, a partir de frases, das acepções dos verbetes, apresentando a
estrutura morfo-sintático-semântica dos sinais em LIBRAS;
• discussão em grupo ou com a coordenadora de pesquisa para esclarecimentos
de dúvidas, acepções e exemplificação;
• revisão dos verbetes pela coordenadora de pesquisa juntamente com o surdo
Paulo André, que passou a dar também um suporte na coordenação dos trabalhos
de elaboração e comparação dos verbetes, além de apoio às filmagens de sinais.
Nessa fase, alguns foram retirados por realmente não ser de uso efetivo das
comunidades surdas.
Do mês de fevereiro até início de agosto, os lexicólogos desenvolveram as
seguintes atividades:
• pesquisa de acepções e classes gramaticais das palavras em português,
distribuídas nas nominatas por letras;
• análise e sugestão de introdução e verificação de palavras/sinais constantes ou
não nas nominatas;
• exemplificação das acepções dos verbetes a partir de frases, apresentando a
estrutura morfo-sintático-semântica das palavras em português.
2.1.4. Transcrição da exemplificação dos verbetes:
uma das diferenças desse dicionário em relação aos já existentes é que, além de
conter sinais com as palavras equivalentes em português, também os apresentou com
os possíveis usos e suas respectivas acepções para que se possa apreendê-los em
contextos. Quando da organização dos verbetes, a equipe de surdos, enquanto
pesquisadores informantes, criou frases em LIBRAS para essa exemplificação
contextualizada. O objetivo de se colocarem exemplos foi também o de apresentar a
estrutura morfo-sintática dos sinais que podem ser modificados em um de seus
parâmetros de configuração com a introdução de marcadores de concordância verbal,
além de ofererece pistas sobre a utilização dos sinais em contextos apropriados,
ajudando assim a identificação da acepção. Para muitos verbetes o exemplo em
português não corresponde ao exemplo em LIBRAS por se tratarem de línguas distintas
e muitas vezes a tradução não corresponde ao sinal em LIBRAS ou à palavra em
português.
como ainda não são conhecidas as propostas para a escrita de línguas de sinais,
optamos por utilizar um sistema de transcrição que tem sido apresentado em
publicações internacionais a partir da qual foram feitas adaptações e criadas outras
convenções para se poder apresentar razoavelmente uma língua gestual-visual a partir
de uma língua oral-auditiva. (Felipe, 1988,1989b, 1990,1991b, 1991c, 1992b, 1993b,
1993c, 1997, 1998). Essas convenções foram utilizadas com o fim de representar,
linearmente, uma língua espaço-visual, que é tridimensional.
2.1.5. Comparação dos sinais pesquisados:
como os surdos de nossa equipe têm viajado muito para ensino, palestras ou
participação em atividade sociais e esportivas representando suas comunidades ou
escolas, ao se fazer a pesquisa nos dicionários, vocabulários, glossários e lista de
sinais publicados, percebemos as diferenças regionais, os sinais que foram inventados
para fins religiosos ou escolares mas que não são conhecidos ou utilizados pelas
comunidades e outros que foram traduzidos erradamente. Assim, do mês de fevereiro
até maio, os surdos que não possuíam um bom domínio em língua portuguesa ficaram,
no segundo grupo, fazendo um estudo comparativo para que pudessem especificar
no dicionário os sinais regionais e os nacionais, ou seja, os sinais comuns a todos os
livros. Assim foram realizadas as seguintes atividades:
• divisão e distribuição por letras das nominatas para o estudo individual;
• elaboração de quadros com especificação de regiões;
• coleta e registro dos dados nos quadros a partir de código de identificação
(igual, diferente, semelhante, acepção diferente, acepção errada);
2.1.6. Filmagem de sinais:
Todos os sinais pesquisados estavam odesenhados ou fotografados em livros
ou apostilas, que não permitem visualizar o movimento e a orientação, por isso a
introdução de recursos gráficos. Esse dicionário, portanto, oferece a possibilidade de
se ver o sinal sendo realizado a partir de todos os parâmetros que o compõem, ou
seja: configuração de mão(s), orientação/direcionalidade, ponto de articulação e
movimento. como as pessoas falam diferente, também os sinais podem trazer a
Para as filmagem e apresentação no dicionário, ficou convencionado que no
caso das variantes regionais, a do Rio de Janeiro iria ser apresentada em primeiro
plano por ser a utilizada pelo grupo. Quando havia mais de um sinal para a mesma
acepção, convencionou-se escolher o mais usado.
Assim, do mês de fevereiro até agosto, a equipe de filmagem - Aulio, Paulo,
Elaine, Elizabeth, Nelson e Ana Regina -, a partir das nominatas ou verbetes, realizou
as seguintes atividades:
• filmagem (rascunho) de sinais novos que não constavam nos livros pesquisados;
• revisão dos sinais filmados no Vocabulário do INES;
• filmagem dos sinais nacionais e regionais para o dicionário digital;
• revisão dos sinais filmados.
2.1.7. Descrição dos sinais:
Outra contribuição diferenciadora desse dicionário em relação às publicações já
existentes está em que os sinais não foram somente organizados em ordem alfabética,
obedecendo a sistemática de uma língua de modalidade oral-auditiva em detrimento
da modalidade gestual visual das línguas de sinais, mas foram também ordenados
segundo sua configuração de mão preponderante, que é um de seus parâmetro. Assim,
podem-se procurar no dicionário as palavras a partir das letras iniciais a partir de sua
configuração de mão inicial dos sinais que foram filmados. Nessas duas opções,
colocam-se as duas línguas em um mesmo status, já que elas podem se apresentar
com autonomia e uma não está em situação diglóssica em relação à outra. Trata-se de
um dicionário realmente bilíngüe porque os usuário de uma língua e de outra poderão
recorrer a ele tomando como ponto de partida sua língua para conhecer o item lexical
da outra e entender apção e uso em contexto de frase.
A filmagem do sinal tem a vantagem de mostrá-lo em sua realização, não havendo
necessidade da utilização de recursos gráficos que muitas vezes, apesar dos esforços,
não dão conta de sua realização em todos os seus parâmetros. Durante nossa pesquisa,
discutiu-se se haveria necessidade de se colocar também a descrição dos sinais já que
eles estavam sendo realizados de maneira tão clara. como houve duas posições, de
ouvintes pela inclusão e de surdos pela não inclusão, resolvemos fazer uma pesquisa
que indicasse a opção.
A metodologia para essa pesquisa consistiu em:
• pesquisa de campo - convite a professores, funcionários e alunos do INES
para irem até a sala de pesquisa, ver o dicionário em fase preliminar e reproduzir
o sinal que estavam vendo na tela;
• a tela contava com a opção da procura de palavra em ordem alfabética, e o sinal
correspondente com sua descrição;
• os pesquisado, no primeiro momento, olhavam como o pesquisador procurava
o sinal em relação a uma determinada palavra escolhida para, em seguida, ser
reproduzido o sinal correspondente que surgia a partir da tela apresentada;
• no segundo e terceiro momentos os pesquisadores davam a palavra para que os
pesquisados procurassem o sinal e o reproduzisse. O objetivo dessa atividade
era também avaliar se a disposição da plataforma era de fácil acesso;
• após essas atividades, a pessoa responderia um pequeno questionário em que
uma das questões era se ela havia utilizado o recurso da descrição para poder
fazer a reprodução do sinal;
• os resultados da pesquisa foram um tanto contraditório, porque, embora durante
a atividade de reprodução a maioria das pessoas não tivesse recorrido ao recurso
da descrição, a maioria ouvinte respondeu que achava importante a descrição
porque ajudava na apreensão do sinal; já com relação aos surdos pesquisados,
a maioria respondeu ser desnecessária a descrição porque eles não utilizaram
esse recurso. como houve empate técnico, optamos por deixar a descrição na
plataforma.
Para a leitura dessa descrição, olha-se a configuração da(s) mão(s) logo abaixo
do sinal; a enumeração é apresentada em relação aos outros parâmetros: movimento,
ponto de articulação, orientação/direcionalidade.
2.1.8. Apresentação dos dados na plataforma
A equipe de informática está organizando os campos e entradas para a digitação
dos dados e arquivos das filmagens, realizando as seguintes atividades:
• Confecção e organização da plataforma
• Filmagem de sinais
• Digitação dos dados
• Revisão das filmagens e vocabulário
• Tratamento dos dados e imagens
• Revisão final dos dados na plataforma
3. À guisa de conclusão
Essa pesquisa foi um aprendizado e um desafio para todas as equipes por se
tratar de trabalho pioneiro e, por isso, também passível de falhas - estamos abertos
a sugestões. A proposta será sua publicação através de CD e também estará vinculada
à página do INES na internet. Temos a intenção de continuar inserindo novos itens
lexicais da LIBRAS que não constam dessa versão, seja devido ao curto tempo, seja
por tratar-se de sinais regionais. Solicitamos a todas as comunidades surdas que
participem desse nosso trabalho vendo os verbetes e nos enviando dados para posterior
acréscimo. Os ouvintes também poderão dar suas sugestões com relação às dúvidas e
apresentação do trabalho.
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(1993b) A Valencia dos Verbos na LSCB. Anais do II Congresso da
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(1993c) Por uma Tipologia dos Verbos da LSCB. Anais do VII Encontro
Nacional da ANPOLL. Vol 2 - Lingüística. Goiânia, pp. 724-744
(1995) LIBRAS - Língua Brasileira de sinais. In: STROBEL, K.L. e
Dias, S.M.S. (orgs) Surdez; Abordagem Geral. FENEIS. Curitiba: Ed.
Adta, pp 22-23
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MEC/FNDE
(1997b) LIBRAS em Contexto - Curso Básico. Livro do professor.
FENEIS. MEC/FNDE
(1997c) Introdução à Gramática da LIBRAS. Educação Especial Língua
Brasileira de Sinais. Volume III. Série Atualidades Pedagógicas 4. MEC/
SEESP, pp 81- 123
(1998) A Relação Sintático-semântica dos Verbos e seus Argumentos na
Língua de Sinais Brasileira - LIBRAS -
Volumes I e II. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de
Janeiro
FERREIRA, Delma B.Faville et ali. Linguagem de Sinais - "As mãos também falam".
Rio de Janeiro: Oficinas de artes gráficas do INES. 1989
DUARTE, Antônio Marios S. Comunicando com as Mãos. Associação dos Surdos
de Teófilo Otoni.
Strobel, Karin Lilian et ai. Falando com as Mãos. Curitiba: Secretaria de estado de
Educação. 1998.
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Línguas de Sinais. Uberlândia: Editora AMEDUCA, 1998.
ABREU, Antônio Campos. Língua Brasileira de Sinais. Belo Horizonte: FENEIS,
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CAPOVILLA, Fernando C. (org.) Manual lustrado de sinais e Sistema de
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Universidade de São Paulo, 1998.
RABELO, Annete Scotti. Português Sinalizado: Comunicação Total. Volume I .
Série Educação Especial. Goiânia: Ed. UCG, 1992.
GOMES, Edson Franco e Ferreira, João Bosco. Cartilha Paraense de Sinais. Belém:
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Alegre: Centro de Educacional para Deficientes Auditivos. 1983.
OATES, Eugênio.L/ngwagem das Mãos. Aparecida. São Paulo: Editora Santuário,
1983. 2
a
Edição
Sociedade Torre de Vigia de Bíblia e Tratados. Linguagem de Sinais. São Paulo, 1992.
Mesas-Redondas
Educação e Profissionalização de
Surdos no Brasil ações do SEESP/INES/FENEIS
EDUCAÇÃO PROFISSIONAL
Palestra proferida pela
Prof
a
. Luzimar Camões Peixoto em setembro de 2001
Nos últimos anos, mudanças significativas vêm ocorrendo de maneira cada vez
mais veloz no mundo do trabalho. Essas mudanças, decorrentes do processo de
globatização, vêm gerando transformações fundamentais tanto de ordem econômica
quanto de ordem social. Isso se torna visível a partir do movimento de luta pela
inclusão social e pela mudança de paradigma na atenção às pessoas portadoras de
deficiência.
No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação propõe vinculação da
Educação com o mundo do trabalho. Nessa perspectiva, a Educação se desenvolve
sobre dois eixos: Educação para Todos e Exercício para a Cidadania, que só se adquire
por meio do trabalho.
O Ministério da Educação efetiva essa vinculação por meio do Programa
TECNEP - Educação, Tecnologia e Profissionalização para os alunos com necessidades
especiais, oportunizando não só a educação profissional, que gera independência e
auto-realização, mas também uma vida produtiva, mantendo-se no mundo do trabalho.
A implementação desse programa - que começou como Projeto elaborado em
conjunto pelas Secretarias de Educação Média e Tecnológica e de Educação Especial,
no ano 2000 - ousa encarar três grandes desafios que se colocam para que se efetive
a política inclusiva do MEC no âmbito da educação profissional:
1. modificar o contexto, disseminando conceitos, divulgando experiências e
sensibilizando as comunidades escolares para a superação de medos e
preconceitos;
2. modificar a atuação docente, divulgando metodologias, provendo materiais de
apoio e gerando estratégias de capacitação;
3. modificar a gestão, fortalecendo a articulação de diferentes atores da educação
profissional - como as entidades de pessoas com deficiência, o sistema "S" e as
ONGs; incentivando a elaboração de projetos pedagógicos inclusivos;
fomentando a promoção da acessibilidade às instalações e recursos escolares e
articulando informações sobre a demanda da educação profissional por parte
das pessoas com necessidades especiais em relação às demandas do mercado de
trabalho.
A iniciativa, que partiu do engajamento decisivo da rede federal de educação
tecnológica, deve consolidar-se, pois na sua origem já era proposta uma estratégia de
expansão e sustentabilidade: a constituição de Centros de Referências para a educação
profissional inclusiva de pessoas com necessidades especiais.
A natureza e a finalidade da educação profissional pautam-se na convicção de
que a aprendizagem escolar realiza-se com base no art. 39 da Lei 9.394/96 e no inciso
III dos arts. 3
o
e 4
o
do Decreto 2.208/97, e se estrutura em três níveis - básico, técnico
e tecnològico - permitindo diferentes formas de qualificação, que inclui também
alunos que se encontram no ensino fundamental.
A educação profissional, no nível básico, define sua atuação focalizando a
qualificação, requalificação e reprofissionalização de trabalhadores, independentemente
de escolarização. Essa possibilidade, preconizada na legislação, compatibiliza-se com
a diversidade de situações peculiares à educação especial, tendo em vista as
necessidades especiais desse alunado.
A qualificação para o trabalho realiza-se por meio do desenvolvimento de
competências e habilidades relativas ao "saber", "saber fazer" e "saber ser", necessárias
ao exercício das funções demandadas pelo mundo do trabalho, incluindo a certificação
expedida por instituições de ensino oficialmente reconhecidas.
Os currículos dos cursos profissionalizantes devem ser flexíveis, sem definir
disciplinas, indicando competências e habilidades a serem desenvolvidas.
O nível técnico destina-se a formar profissionais especializados, de nível médio,
em certas tecnologias e processos, e que tenham também um componente gerencial.
O nível tecnológico, embora não seja de caráter universitário, é de nível superior.
A diferença entre os cursos é a seguinte: enquanto os cursos superiores universitários
estão voltados para a produção do conhecimento e para a pesquisa, os cursos de nível
tecnológico estão diretamente voltados para atender aos diversos setores de produção
de bens e serviços.
Além da Lei 9.394/96, que trata da educação no Brasil, existem outras legislações
que balizam o acesso do deficiente ao trabalho tais como:
a) Decreto n° 2.208/97 - níveis da educação profissional: Básico, Técnico e
Tecnológico;
b) Portaria n° 646/97 - IFET - Centro de Referência;
c) Decreto 3.298, de 20/12/99 - Política Nacional para Integração da Pessoa
Portadora de Deficiência - assegura os direitos individuais;
d) Portaria nº 1.679,de21/12/99-dispõe sobre os requisitos de acessibilidade de
pessoas portadoras de deficiência, para instruir os processos de autorização e
reconhecimento de cursos, e de credenciamento de instituições;
e) Lei 7.853, de 24/10/89 - assegura pleno exercício de seus direitos básicos de
educação, saúde, trabalho, lazer e de outros que propiciem seu bem-estar social;
0 Lei 10.098,de 19/12/2000-estabelececritériosbásicose normas gerais paraa
promoção de acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com
mobilidade reduzida e dá outras providências.
O programa TEC NEP é uma iniciativa do MEC, responsável pela política
educacional do país, desenvolvido por meio da SEMTEC e SEESP. Tal iniciativa não
se restringe apenas ao MEC; é muito mais ampla e se estende ao Sistema "S" e a
ONGs que trabalham com o deficiente, desde que sejam escolas credenciadas pelo
MEC, conforme legislação.
Temos inúmeros parceiros, com os quais podemos realizar um bom trabalho,
tais como: Ministério do Trabalho, Ministério da Justiça, Ministério Público Federal,
Instituições de Ensino Superior, Organizações Não-Governamentais, etc.
Para que haja a inclusão do aluno com deficiência no Sistema Regular de Ensino
e concordando com a Prof
3
. Rosa Blanco, alguns aspectos devem ser abordados:
- Opção ideológica
- Marcos legais
- Flexibilização curricular
- Adaptação curricular
- Projeto pedagógico
- Serviços de apoio à disposição do docente
- Respeito aos aspectos afetivos e emocionais
- Flexibilização na avaliação
- Recursos metodológicos que atendam às diferenças
- Formação e investigação
Um aspecto básico, aliás de fundamental importância na educação profissional,
são as oficinas pedagógicas que estão sendo redimensionadas com o fim de trabalhar
de modo articulado com as escolas da Rede Federal ou com o Sistema "S" no sentido
de identificar a demanda do mercado e desenvolver o perfil do aluno deficiente mental
para que assumam as vagas do mercado, realizando trabalhos competitivos, apoiados
ou protegidos, e até mesmo criando cooperativas.
Assim, o programa TEC NEP, com o esforço e colaboração de todos em sua
implementação e com a integração de outros agentes educacionais e do segmento
comunitário, vem possibilitando que uma política de educação profissional inclusiva
seja construída coletivamente, a partir da interlocução, na base do sistema educacional,
envolvendo os diferentes agentes e participantes do processo educativo: as entidades
de pessoas com deficiência, as ONGs, os trabalhadores, o empresariado, o Ministério
Público e outros.
Finalizando, é dessa forma que o Ministério da Educação está colaborando
para que se construa, no Brasil, a "ponte para o futuro" com base no desenvolvimento
humano. A inclusão de pessoas com necessidades especiais nos programas de educação
profissional - com os apoios necessários da educação especial - e sua inserção social
produtiva são parte importante desse sonho que estamos ajudando a tornar realidade:
sonho de fazer do Brasil não apenas um país desenvolvido, mas também - e
principalmente - uma verdadeira sociedade inclusiva.
Assim, o portador de deficiência é uma pessoa como aos demais, que necessita
também de oportunidades para desenvolver suas potencialidades.
No campo da atividade profissional, inúmeras são as profissões compatíveis,
nos diversos níveis de formação, que podem ser exercidas pela pessoa com deficiência,
seja na qualidade de empregado, seja na de profissional autônomo.
Temos a confiança de que o desenvolvimento de ações que congreguem a esfera
pública e a sociedade permitirá à pessoa com deficiência conquistar seu direito ao
trabalho, sua independência financeira, auto-realização e integração social.
Diversidade na família
Palestrante: Heloise Gripp Diniz
Professora e Estudante de Pedagogia
Nasci surda e meus pais e meu irmão são surdos. E sempre fui muito esperta,
e até um ano e meio meus pais nem desconfiavam de minha surdez, constatada nessa
época pela audiometria. Durante o exame só me interessava em brincar com jogos,
ignorando o som do aparelho nos ouvidos. Pegava tudo o que via na frente. Meu pai,
quando soube, ficou emocionado e chorou. Pois além de meus pais e meu irmão,
tenho dois tios e alguns primos surdos. Adquiri naturalmente a Língua de Sinais desde
que nasci e passei a conviver na comunicação com meus pais e meu irmão. Sempre
utilizarei a Língua de Sinais, pois é a língua natural de uma pessoa surda.
Aprendi todas as regras da vida ao vivenciar os costumes e a cultura surda da
minha família em casa, antes de entrar para escola aos seis anos. Por exemplo,
campainha de luz, bater em alguma coisa e levantar para chamar alguém, pedir a um
ouvinte para ajudar, procurando de qualquer jeito atender a nossas necessidades.
Tinha muita curiosidade em saber o que as pessoas falavam, principalmente quando
falavam comigo. Brincava com as crianças da minha idade, mas tinha interesse em
conversar com pessoas surdas adultas.
Percebia que havia diferença entre a comunicação dos meus pais e dos meus
avós maternos, que são ouvintes e usavam a comunicação oral e gestual comigo e com
meu irmão, mas eu não dava importância. Crescemos na vida bilíngüe. Me sentia
mais à vontade com a comunicação dos meus pais. Desde criança convivi
profundamente com meu irmão: brincava, brigava, conversava, estudava... Minha
mãe me ensinava como me comportar na vida social, como por exemplo, sempre
agradecer a qualquer pessoa , não dizer às pessoas tolices sobre aparência, idade...
Penso que minha mãe teria sido uma boa educadora pela maneira como me explicava
as coisas e me fazia compreender as situações no mundo de ouvintes. Meu pai me
ensinou a ter coragem ao me comunicar com qualquer pessoa, mesmo com dificuldade,
desde que haja qualquer comunicação: mímica, gesto, escrita.
Cresci estudando nas escolas de ouvintes e nas de reforço com atendimento
fonoaudiológico. Quando tinha dificuldade na aprendizagem, pedia ajuda de minha
mãe em casa por causa da Língua de Sinais. Meus pais se preocupavam comigo em
relação à ao ensino levando-me à duas escolas, com sofrimento e paciência.
Recordo-me de uma situação que passei na segunda série, na prova escrita. A
professora me chamou para fazer a prova sozinha na sala da diretoria. Eu era boa
aluna e, como tirava boas notas, ela achou que eu "colava". Fiquei bastante sentida
com a situação e contei para minha mãe. Ela, então, foi à escola conversar com a
diretora e soube o porquê dessa situação. Minha mãe me explicou que isso aconteceu
porque eu era surda; difícil era alguém acreditar em notas tão boas, sendo eu uma
pessoa surda. Outra situação aconteceu quando eu tinha doze anos. uma amiga da
escola me perguntou se eu era infeliz por ser surda. Eu disse que não, muito pelo
contrário, eu era muito feliz pelo que sou. Um dia, precisei fazer um trabalho da
escola com essa amiga em minha casa. Ela então perguntou como poderia me chamar
em casa e falei para tocar a campainha de "luz". Quando ela viu, comentou que
parecia "boate", porque a luz acendia e apagava ao ser tocada, de noite.
Cinco ou seis alunos surdos, de diferentes séries e de outras escolas, estudavam
comigo na escola de reforço. Sentia-me incomodada na sala de fono porque a
profissional era muito "pegajosa", dizendo que eu era a mais inteligente e mais
bonitinha entre os colegas. Dizia que eu falava bem, embora eu tivesse consciência de
que algumas vezes falava errado. Reclamei com mamãe e ela insistia em que eu
precisava estudar com paciência e ignorar o que a fono dizia. Usava a prótese de
modelo antigo só quando estava na fono. Na escola de ouvintes eu me sentia sossegada,
acompanhando a aula, sem ninguém por perto me incomodando, embora pudesse
muitas vezes as informações pela leitura labial dos professores, mesmo que falassem
de frente; acompanhava mais pelos livros didáticos.
Comecei a sentir e saber diferenciar Língua de Sinais x Língua Portuguesa,
surdo x ouvinte, a ter consciência do mundo e questioná-lo. Comecei a ter "consciência
política", a me ver no mundo de ouvintes, pois vivia no mundo de surdos durante a
oitava série. O momento mais marcante dessa diferença foi quando meu pai me pediu
para interpretar um texto para Língua de Sinais e fui lendo e interpretando como
português sinalizado. Ele reclamou, disse que não entendeu e nós discutimos. Logo
depois percebi que deveria primeiro 1er e depois interpretar em Língua de Sinais.
Depois de terminar o segundo grau, fiz curso de informática. Daí fui chamada
para trabalhar numa escola de surdos com crianças, na informática educativa, em
1994. Comecei a me aprofundar nos conhecimentos gerais e me apropriar da política
de Língua de Sinais ao ter contato com profissionais surdos. Um ano mais tarde
decidi ser professora depois de assistir a uma aula nessa escola de surdos, dada por
uma professora ouvinte, que adorei. Fizemos o magistério e em um ano me formei,
pois já tinha feito o segundo grau. Lá trabalhei até 99. Em 97 vim trabalhar no INES.
Foi difícil e um desafio para mim trabalhar com os alunos surdos adultos e com os
professores ouvintes, ainda mais num enorme colégio. Eles nunca tinham tido a
oportunidade de trabalhar com um profissional surdo e os alunos não me viam como
tal. Finalmente agora eles conseguem separar o profissional da amizade. Nas
experiências que tive até agora nas duas escolas, cresci profissionalmente e aprendi
muito sobre as questões da educação de surdos.
O fato de não pensar em estudar no INES tem um bom motivo: eu tinha uma
família surda comigo, comunicando-se e me educando, ao contrário de muitos surdos,
de família ouvinte, que consideram o INES uma "família". Meus pais levavam-me à
convivência com outros surdos nas associações, nas festas, etc., o que fatidicamente
acontecia por eles conviverem nessa comunidade. E os meus avós me levavam para
outro caminho, a cultura do mundo: biblioteca, cinema, museu, etc., junto com meu
irmão e minha mãe, que se fazia de intérprete para nós. Hoje os surdos poderiam ter
o mesmo interesse pela cultura do mundo se tivessem os intérpretes nesses lugares
públicos.
Agora tenho acesso à informação na vida social através da mídia: jornais,
revistas, internet e notícias da televisão pelas legendas. Atualmente, a tecnologia tem
ajudado a melhorar a vida das pessoas surdas, com as legendas de televisão, telefone
celular com mensagem e internet. Possivelmente teremos mais progressos no futuro.
Hoje estou no terceiro período do curso de Pedagogia Empresarial da
Universidade Estácio de Sá. Antes disso, fui pressionada pelas pessoas surdas já
formadas a cursar a faculdade, já que posso prosseguir na minha vida e galgar meu
espaço - para isso tive total apoio dos meus pais.
Eis a mensagem que gostaria de deixar para vocês.
A meus pais especialmente lhes agradeço pelo amor e carinho que tive na
minha vida. E aos surdos, que nunca devem desistir da vida apesar das dificuldades
que ela apresenta. E preciso vencer as barreiras, lutar pelos nossos direitos.
Aos profissionais ouvintes que atuam na área da surdez e que precisam aceitar
opiniões e críticas de profissionais surdos, havendo troca de experiências.
A Diversidade na Família
Esmeralda Peçanha Stell'mg
Ser mãe ouvinte e ter filho surdo foi a condição para participarmos do tema
"Diversidade na Família". Segundo Behares (1996), 95% das famílias que têm filhos
surdos são de pais ouvintes. Assim sendo, aqui estaremos representando a maioria, o
que nos confere enorme responsabilidade dentro desse universo de famílias que têm
em comum somente a condição de pais ouvintes, deferindo nos aspectos sociais,
econômicos, culturais.
Analisando pela ótica de núcleo cultural familiar, fica quase impossível a
representatividade dessa maioria, porém tentaremos contribuir nesse evento com
nosso testemunho de vida. Gostaríamos de esclarecer que não estaremos representando
nenhuma instituição e nem apresentando resultado de trabalho técnico-científico,
apesar de, em nossa vida, termos transitado por searas institucionais e acadêmicas
envolvidas com o aspecto social e educacional da surdez.
Pesquisando e refletindo sobre o termo diversidade, podemos constatar dois
conceitos. O primeiro, mais simples, em que a ele é sinônimo de diferença.
dessemelhança. variedade. E o segundo, que significa, ou melhor, pode trazer a
divergência - no sentido de afastar-se progressivamente, desviar-se, estar em
desarmonia ou em desacordo - a oposição, significando impedimento, obstáculo,
objeção, vontade contrária, antagonismo, contrariedade, e a contradição, como sendo
incoerência, desacordo, contestação, contradita, oposto.
Em que essa reflexão poderá contribuir para esse momento? Se observarmos
mais atentamente, quando definimos algo é porque já o incorporamos às nossas
vidas. Assim cremos que, pelo modo como entendemos (sentimos, pensamos e agimos)
a diversidade, assim também será delineado o modelo ou paradigma a ser seguido por
aqueles que fazem parte dela. Dependendo de cada um, em particular, a diversidade
poderá ser entendida apenas como diferença, nada de melhor ou de pior, ou poderá
tornar-se grande dificuldade a ser enfrentada, como nos mostra o segundo conceito.
Agora, então, convidamos, especificamente, as famílias ouvintes que têm filhos
surdos para que juntos possamos voltar no tempo, próximo ou longínquo, em que
tentaremos vislumbrar fases distintas que geralmente são comuns a todas essas famílias.
A definição de cada fase, quando começa e termina, o grau de dificuldade ou
facilidade em transpô-las, suas conseqüências, enfim, todo o conteúdo vivenciado foi
sendo marcado com caracteres fortes por cada família, cada história própria, mas
respeitando uma seqüência inevitável em que iremos identificar as seguintes fases: ( 1 )
a descoberta da surdez, (2) a repercussão e (3) a adaptação.
No caso de nosso filho surdo, hoje com 32 anos, conseguimos entrever cada
fase com distinção peculiar frente à grande batalha pela sobrevivência física e emocional,
já que desde o nascimento até a adolescência sua saúde foi precária e vivíamos em
consultórios e hospitais. Nesse cenário, a primeira fase, a descoberta da surdez, foi
mais um complicador, porém de pouca relevância, justamente por não conhecermos
ainda a surdez em tôda sua extensão. Mesmo assim, após a confirmação diagnóstica,
passamos por um período de confusão e conflito de sentimentos como a decepção, a
frustração, a negação e até a depressão.
Á segunda fase, que denominamos repercussão, foram-se agregando sentimentos
de ansiedade, impotência, insuficiência, revolta e, principalmente, medo do
desconhecido. Nesse ponto, continuando nossa reflexão, lembramos que o lidar com
o desconhecido é o mesmo que ignorar (não saber alguma coisa sobre algo), e assim
chegamos à incerteza, na qual "descobrimos que nossas crenças e opiniões parecem
não dar conta da realidade, que há falhas naquilo em que acreditamos e que, durante
muito tempo, nos serviu como referência para pensar e agir. Na incerteza não sabemos
o que pensar, o que dizer ou o que fazer em certas situações ou diante de certas coisas,
pessoas, fatos, etc. Temos dúvidas, ficamos cheios de perplexidade e somos tomados
pela insegurança." (Chauí, 1996).
Porém, o ser humano busca sempre a segurança, quer "os pés no chão", precisa
de diretrizes norteadoras, busca soluções, é impelido a decifrar enigmas da vida, é
desafiado a lutar. Em nosso caso, participamos de cursos e eventos referentes à
surdez.
Tivemos sede do conhecimento e achamos que, se conhecêssemos todas as
metodologias, técnicas e recursos da educação de surdos, estaria resolvido o nosso
"problema" que era fazer com que o filho ouvisse e falasse. E durante muitos anos
perseguimos esse objetivo.
Mudamos os planos de vida arquitetados antes do nascimento do filho surdo.
O sonho tinha sido desfeito mas a realidade estava bem próxima, atingindo-nos com
seu aguilhão de quando em quando.
Sem conseguir bons resultados em relação à oralização, muito menos à
audibilização e conseqüentemente à escolarização, que foi sendo arrastada até os dias
atuais, os efeitos da repercussão da surdez provocaram na família e no círculo de
amizadessentimento de decepção por um modelo não atingido. Constatamos a
necessidade de aceitação do modelo da diferença, que passou a ser apresentado por
nosso filho após o início de sua própria identificação como pessoa surda nos meios
afins, companheiros de trabalho e de escola, também surdos, e, fundamentalmente,
depois do contato e da aquisição da língua de sinais. A partir daí, sentimos também,
nós outros, a necessidade de conhecer o espaço intrigante que muitos chamam de
"mundo dos surdos" e que outros denominam de "gueto", termos definidos por
ouvintes. Aprendemos que o termo mais correto e adequado é "comunidade surda",
denominação adotada por seus representantes maiores e legítimos, os próprios surdos.
Naquele momento, tomamos consciência de que precisávamos inverter os
papéis, passando de mãe/professora de surdosa mãe/aluna de surdos. Foi então que
a insegurança, mesmo com tôda a formação especializada que tínhamos, deu lugar a
uma certeza de que era estando ao lado dos surdos, ouvindo-os, observando-os,
respeitando seus desejos e anseios, e não falando por eles, é que estaríamos realmente
aprendendo sobre surdos e Ssurdez. Precisamente aí entramos na fase de adaptação
à surdez, em que ficaram para trás os conflitos e as dúvidas. Costumamos dizer,
quando em nossa atividade de orientação familiar, que sinalizar em público é denunciar
e assumir a surdez. Quando a família ouvinte toma essa iniciativa, ela está pronta para
submeter-se a uma série de mudanças atitudinais que são normais para os surdos, mas
que para o "mundo ouvinte" são, com raras exceções, difíceis de ser viabilizadas.
Tivemos uma trajetória pessoal e profissional diferente da maioria das mães
ouvintes de filhos surdos; tornamo-nos bastante conhecedores e implementadores de
serviços e projetos na área da surdez. Mas a mãe ouvinte/falante e professora bastante
rígida no trato comunicativo, enquanto não se permitiu adentrar a comunidade surda
e não se despiu de todos os preconceitos cristalizados pelo tempo e imersos no lago
escuro da prepotência, da vaidade e do orgulho, permaneceu próxima fisicamente do
filho surdo, mas distante psicolinguisticamente e até mesmo emocionalmente.
Contaminando o resto da família e os amigos pelo exemplo, fomos "passando
recibo" de como viver melhor, mantendo uma relação muito mais verdadeira, tranqüila
e confortável. com uma comunicação efetiva e eficaz realizada por meio de língua de
sinais, pode-se conversar sobre tudo, fazer confidencias, trocar idéias, rir e chorar
juntos, enfim, apertar os laços familiares apoiando e confiando uns nos outros,
mantendo a boa cumplicidade e tornando-nos fortes e unidos nas horas da adversidade
às quais nenhuma família escapa, sendo ouvinte ou não.
Conviver literalmente com surdos no trabalho, no estudo, no lazer e em outros
momentos sociais é condição prioritária na vida da família ouvinte que deseja a
melhoria a sua qualidade de vida.
Por que foi acontecer logo comigo? De quem foi a culpa? O que nós vamos
fazer? Essas perguntas ficaram sepultadas para sempre, porque o agora, o presente,
é o terreno de amanhã, do futuro que há de ser muito melhor quando também os
surdos entenderem que o "sofrimento" dos pais ouvintes procede, é justo e natural.
Mas é preciso que se diga com todos os sinais que AMAR é preocupar-se e até
mesmo ter "preconceito" quando estamos ainda num estágio de desconhecimento
sobre a realidade da surdez. Conhecermo-nos mutuamente será sempre um bom
caminho a trilhar, e principalmente não esquecer que pertencer a uma maioria (ouvinte)
não nos confere o direito de decidir ou de julgar ninguém.
Olhem para seus filhos! O que vocês mais desejam não é a felicidade deles?
Sobre esse fato não restam dúvidas. E se os filhos são surdos, perguntem a Surdos
Adultos Felizes em que consiste sua felicidade. Perguntem a eles e a mais ninguém.
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Diversidade na Família
Helenita Cardoso Silva
Meu nome é Helenita, tenho 25 anos e sou portadora de deficiência auditiva
profunda.
Minha mãe descobriu minha surdez aos nove meses de idade, quando morávamos
em Pelotas, no Rio Grande do Sui. Não foi diagnosticada a causa, pois não tenho
antecedentes surdos e sempre fui uma criança saudável. Presume-se que tenha sido
água do parto acumulada, originando uma lesão.
Meus pais me levaram a uma clínica em Porto Alegre com um ano e três meses;
de lá, saí com a prótese que desde então passou a ser parte do meu corpo até hoje.
com cinco anos de idade viemos para o Rio à procura de novos recursos. Até
então eu não falava nada.
Freqüentei a escola de deficientes auditivos Ann Sullivan, fiz fono muitos
durante anos e ainda com sete anos fiz balé no Centro de Dança, com as professoras
Monica e Ana Beatriz. Além de todos os recursos, o aprender a ouvir através da
música fez com que identificasse melhor todos os sons. Hoje atendo até o telefone.
Freqüentei a segunda série no MVI, pois me desenvolvi muito e fui em busca de um
desafio maior. com o apoio dos professores, dos pais e minha força de vontade de
emitir os sons e ser igual a todo mundo, formei-me no segundo grau no MVL
Meus pais se empenhavam para que convivesse com amigos ouvintes para que
não me acomodasse, querendo expressar-me através da linguagem de sinais.
Encontrei algumas dificuldades na compreensão de algumas matérias, como
Português e História. Mas os próprios professores ora me ajudavam muito, ora
deixavam eu ir à luta sozinha para exercitar o esforço de vencer. Só fui aprender a
linguagem de sinais há pouco tempo, para comunicar-me com quem não teve a mesma
oportunidade que eu tive. Hoje estou na faculdade, cursando Fisioterapia (FRASCE)
e trabalho como auxiliar de escritório.
Deixo a seguinte mensagem: "nada é impossível, quando se luta com
perseverança com um objetivo traçado. A felicidade é grande quando vencemos nossos
próprios limites.
Obrigada!
Diversidade na Família
SURPRESAS DO SILÊNCIO
Tany Mary S. de Andrade
Eu me chamo Tany Mary, sou filha e neta de surdos e tenho 26 anos. Tenho
uma irmã de 22 anos e outra de 2 ambas ouvintes (esta última do segundo casamento
de meu pai).
É bastante gratificante e ao mesmo tempo emocionante estar aqui hoje, diante
de tantos profissionais, estudantes, familiares e demais, para falar sobre esta relação
de filha ouvinte e pais surdos.
Foi difícil durante a minha infância entender e compreender o porquê de uma
certa "diferença " entre meus pais e os pais meus dos coleguinhas de turma. O porquê
das mãos na comunicação e não da fala, o porquê de não poder ligar para minha mãe
e no play do prédio não gritar "manhêê! ! !" ... bem alto. Além de ser tão confuso para
mim como criança, ainda existia o preconceito das pessoas amigas desconhecidas e as
vezes até mesmo conhecidas, tudo era motivo de atenção e admito que sentia vergonha
em ser de alguma maneira "diferente" ser parte de uma familia assim. Sem a noção da
realidade e por esta razão, achava que magoava meus próprios pais com
questionamentos a respeito.
Minha mãe foi uma apaixonada pelas filhas cuidava das duas como se fossem
um tesouro único e acredito exatamente em que os filhos são para as mães: uma
preciosidade.
Hoje, diante de tantas mudanças e experiências, lembro-me do olhar choroso
de minha mãe diante da vergonha a qual eu sentia em usar a sua "língua", ou seja, a
língua sinais, justamente a qual veio diretamente de quem me deu oportunidade de
viver e principalmente de ouvir. Eu entendo e lamento talvez, em ter sido uma criança
mal informada, mal orientada ou até mesmo uma simples criança que segundo a minha
mãe aprendeu a língua de sinais primeiro e depois dos dois anos aprendeu a falar.
Mas, a meu ver isto foi compreensível pois ter a língua de sinais como língua
materna foi inevitável. Acho que o bebê, a criança, aprendem aquilo que está a seu
redor, no seu mundo. No meu mundo, eram os meus pais e a língua deles, comparo
esta experiência como a de um bebê brasileiro no Japão aprendendo as primeiras
palavras em japonês, é difícil entender tão pequena aquilo tudo. Seria como em
demais países, uma pessoa tendo de aprender outra língua, este foi meu aprendizado
da língua de sinais.
Por volta dos meus dois anos de idade, meus pais me colocaram em uma escola
justamente com a preocupação de desenvolver a fala, para eles, a minha outra língua.
Aliás, esta minha outra língua o português, algumas vezes passei por constrangimentos.
Lembro-me vagamente que algumas pessoas na maioria das vezes crianças e
adolescentes riam do meu português, da minha pronúncia. Em meu maior referencial
positivo que era minha família, minha casa e meus pais surdos com suas pronúncias
próprias, por conseqüência eu assim o aprendia não pronunciava os sons corretamente.
Por exemplo, ao invés de falar sofá eu falava "sofà" e ainda, eu dizia ao invés de: por
favor amarre meus sapatos , era por favor amerre meus sapatos . E por aí foram os
demais erros na fala. Demorei um pouco até adquirir o português e em contra partida
eu estava expert em língua de sinais, diziam até que eu tinha preguiça de falar tudo o
que queria.
E quem sabe eu acreditava ser a língua de sinais mais compacta, com uma
estrutura mais simples.
Por ser a filha mais velha acabei amadurecendo mais rápido, era realmente a
porta-voz de meus pais e do mundo adulto. Tive que aprender bem rápido a respeito
da vida como por exemplo atender os telefonemas, pleitear alguma coisa no condomínio,
falar com vizinhos, solicitar produtos no comércio, resolver problemas etc.
Tudo isso fêz parte da minha infância eu era chamada de intérprete e às vezes,
me tornava uma atrevida mesmo, tomando as dores de meus pais em determinadas
situações. As pessoas não estavam acostumadas e acredito que ainda não estão, a
discutirem com intermédio de uma criança intérprete entre os adultos. Acabavam
discutindo comigo ou me dando ordens achando ser eu uma filha pequena a receber
ordens de pais.
Em minha vida, eu tinha duas opções ou eu chorava ou iria até o final, era muito
difícil eu não estava apenas sendo uma porta voz, eram meus pais que falavam
através de mim, e desta maneira eu tinha que obedecê-los e colocar a vergonha de lado.
com o tempo fui me acostumando e até onde eu conseguia, resolvia os problemas
para os meus pais.
Entretanto, acabei por conhecer um mundo fora das quatro paredes de nossa
casa completamente diferente, com sons, barulhos, vozes etc.
Acho que, pela falta de comunicação e informação de nossos pais minha mãe
por zelo tentava ao máximo proteger eu e minha irmã do mundo real, nos isolava de
todos os verdadeiros fatos da vida, talvez por ter medo de falhar em não nos livrar de
algum mal. Demonstrou um outro mundo muito mais simples e de alguma maneira
feliz. com certeza os nossos passos eram limitados, mas nunca sabíamos o porquê.
Literalmente crescemos num mundo como posso chamá-lo de mundo de "Alice no
país das maravilhas" onde o perigo e a maldade eu ouvia falar e bem vagamente pois
para mim, era fora da realidade a qual eu não vivia.
Ao final o que aprendi aos poucos na vida não absorvi tanto e o tempo foi
passando e aquele interesse e curiosidade de conhecer o mundo fantástico da TV foi
crescendo. Por ironia do destino acabei trabalhando na televisão com apenas 14 anos
e com a língua de sinais. Foi um grande orgulho para mim naquele momento. Lá, não
traduzia para uma ou duas pessoas, mas sim para todo o Brasil e na rede de televisão.
Sinceramente não sei como consegui fazer a primeira tradução não me lembro
de nada a impressão que tive é que todos os câmeras, contra-regras e a equipe estavam
me olhando e rindo das minhas mãos, entretanto, era o meu trabalho.
O que me confortava é que a diretora e a apresentadora do programa Xuxa
Meneguel e Marlene Mattos, estavam adorando a achando muito bonito tudo aquilo
que estava acontecendo. Foi incrível como em tão pouco tempo a Rede Globo e a
produção do programa deram outra visão e rumo às coisas. A partir dali as opiniões
e interesses passaram a mudar. As pessoas passaram a querer aprender a língua de
sinais, achando lindo e me imitando.
Era fantástico para mim, ver as crianças querendo aprender mais sobre os
surdos e sua língua. Ver adolescentes querendo ser intérprete e mais, vendo a Xuxa
incentivando com músicas e brincadeiras, foi algo surpreendente. Minha mãe era a
mais feliz com aquilo tudo que estava acontecendo. A língua dela passou a ser bonita,
conhecida e alguém na TV queria ensinar para o mundo.
Ah o mundo! ! Aquele inundo que eu deixei de conhecer por proteção de meus
pais, entrou em minha vida como um furacão e tive de crescer num tempo recorde.
Aprender e a me socializar e a enfrentar a vida e o trabalho. Eram centenas de pessoas
ao meu redor e nada minha mãe podia fazer até que um dia ela me disse: - Tome
cuidado com as pessoas, eu não ouço, não sei o que se passa, mas juizo. Acho que era
tudo o que ela conseguia me dizer resumindo a aflição de ver sua filha em contato com
o verdadeiro mundo e todas as pessoas. Claro que não foi fácil para mim, errei, acertei
e com o tempo me vi totalmente envolvida com o mundo dos surdos.
Trabalhando em vários ramos mas sempre ligada aos surdos, seja no carnaval,
em passeios, programas de TV, tudo isso fêz parte de alguns dos meus trabalhos com
e para os surdos. Depois de alguns anos, realizei um projeto com um pouco de tudo
o que já tinha feito: para e com os surdos, desde cultura, cursos, prestação de serviços
e lazer.
Assim, foi batizada de Casa de Cultura do Silêncio, situada aqui no Rio de
Janeiro, na Tijuca, com três anos de existência. Atendemos atualmente surdos em
cursos de informática, aulas de apoio de português e inglês, tudo com surdos
profissionais capacitados. Na prestação de serviço conto com a Dr.
a
Flavia Aguiar,
advogada e Solimar psicóloga que atendem em língua de sinais os surdos que as
procuram. No lazer, fazemos passeios no Rio de Janeiro, excursões para outros
estados e até mesmo outros países. Em relação aos ouvintes, nós temos turmas de
libras, para o aprendizado da língua de sinais, cujo contingente é de cerca de 200
pessoas dentre profissionais liberais, professores e outros. Temos sempre festas e
datas comemorativas durante o ano em que reúnem cerca de 300 pessoas, E ainda,
temos um grande projeto de apoio a surdos carentes e que encontra-se em
desenvolvimento neste momento.
E, é o resultado de cada jovem surdo que sai da Casa de Cultura do Silencio, que
me faz feliz e, principalmente sendo ele capacitado para exercer uma função no seu 1 °
emprego. com cada profissional ouvinte trabalhando lá, cresce a paixão pelos surdos
e pela libras nascendo e revitalizando mais e mais a força em mim de continuar mesmo
com todas as dificuldades que nosso país com barreiras, nós ainda assim, trabalhamos
com estes chamados de "deficientes", pois esta deficiência é superada pelo sorriso e
o brilho no olhar dos surdos e de seus familiares que descobrem que ter um filho surdo
é só ter um filho especial. Tão especial que palavras ditas são simples demais, por
isso, somam-se às mãos para transmitir o seu amor.
Cidadãos Surdos no Ensino Superior
Um Direito e Muitas Dificuldades
Graziella C. Faim
Estudante de Desenho Industrial na Universidade e Design de Interiores na
Universidade Cândido Mendes.
Apresentação
Gostaria antes de tudo de me apresentar e agradecer por terem me convidado a
participar da mesa-redonda. Sou Graziella Faini, surda de nascença e oralizada,
portadora de uma perda auditiva neurossensorial bilateral em grau profundo, e, nessa
qualidade, posso testemunhar a participação dos surdos na vida universitária brasileira.
Acredito que todos os deficientes auditivos, se trabalhados desde a infância,
podem desenvolver uma linguagem quase plena e, portanto, terão menos dificuldade
que os surdos que fizerem apenas uso da língua de sinais, uma vez que estes dependerão
eternamente de intérpretes para auxiliá-los na comunicação com o mundo universitário.
Comunico-me com o mundo exterior e com o mundo universitário na língua
falada em português, que considero minha língua-mãe. Não tive necessidade de
aprender sinais, pois desde que comecei o tratamento fonoaudiológico, com o uso dos
aparelhos auditivos, posso usufruir de modo independente de todas as oportunidades
que aparecem ao meu redor.
Quero deixar bem claro que não tenho intenção nenhuma de distinguir os surdos
oralizados dos surdos falantes de LIBRAS de forma preconceituosa. Neste meu
depoimento, exponho somente as minhas dificuldades e a minha luta por uma melhor
participação em salas de aula universitária, tentando, desta forma, absorver melhores
informações necessárias à minha formação acadêmica.
PARTICIPAÇÃO DO SURDO NA SALA PE AULA
O mundo universitário é, em pequena escala, um retrato da comunidade em que
vivemos. Em geral, as pessoas não estão preparadas para aceitar e entender nada que
não seja padrão. Qualquer diferença faz de você um ser à parte, um caso desconhecido.
Tudo o que é desconhecido traz, de certa maneira, medo. O famoso medo do
desconhecido.
De modo geral, nós, surdos, causamos medo: a pessoa não sabe como tratar-
nos. Apiedam-se da nossa deficiência, tratam-nos como coitados e seres inferiores,
não levando em conta o que temos para expor. Se nos tratam como iguais, retiram
nossas possibilidades de integração, porque, na verdade, precisamos de um tratamento
mais dedicado, mais humano, e especial em alguns aspectos. Isso vale para os colegas
e para o corpo docente (professores).
De modo que o social no campus universitário tem que ser visto pelos surdos
oralizados de uma maneira delicada. Temos que fazer valer nossas idéias, fazer-nos
ouvir, sem sermos arrogantes, sem nos valer de nossa deficiência como arma de
intimidação. Temos que provar, mais do que qualquer outro aluno, que somos bons
no que fazemos, que somos aplicados no que nos interessa, sem fazer disso um
"cavalo de batalha".
DIFICULDADES CONCRETAS PE APRENDIZADO NAS SALAS PE
AULA
O surdo oralizado precisa de reforço para ser capaz de se colocar no mesmo
nível de outros alunos. Fizemos há pouco tempo um trabalho sobre as necessidades
do surdo oralizado, desde que este fizesse uso de aparelhos auditivos em sala de aula,
e divulguei nas universidades em que estudo (Cândido Mendes e Univercidade).
Elaboramos uma pequena proposta com a intenção de minimizar as dificuldades em
que esbarramos na assimilação do conteúdo das disciplinas. Essa proposta contém
todas as dificuldades e soluções expostas pelos surdos oralizados. Conversei com os
reitores, com os professores, distribuí um documento bem redigido, mas mesmo
assim temos que reconhecer que a sala de aula é feita para a média dos alunos e não
para uma minoria. Sabemos que mesmo com a boa vontade do professor e da entidade
de ensino, muitas vezes, infelizmente, somos esquecidos. Não podemos exigir que o
curso seja direcionado para "nós", embora possamos lutar para que um mínimo de
medidas seja tomado para que possamos ter maior participação em sala de aula.
Mesmo que o curso se torne acessível, o deficiente auditivo sempre vai precisar de
um reforço para conseguir manter-se no nível da sala.
"DEFICIÊNCIA" É A FALTA PE EFICIÊNCIA NA FORMAÇÃO E
INFORMAÇÃO POS PROFS: CONSCIENTIZAÇÃO DO CORPO
DOCENTE A RESPEITO POS SURDOS
como já disse, a relação aluno deficiente/professor não é diferente da relação
que mantemos com a comunidade em geral. No início, causamos medo: como um
professor deve se comportar diante de um aluno que não escuta? uma vez ultrapassado
o primeiro impacto, as duas outras alternativas se apresentam: ou o professor acha
que deve facilitar as coisas para o aluno deficiente, sem, entretanto, considerá-lo
como capaz, ou tenta igualar o tratamento que dá aos outros alunos, retirando nossa
possibilidade de integração.
Hoje em dia, já consigo identificar os que conseguem conviver com nossa
diferença, auxiliando-nos na medida em que tomam as providências necessárias para
nossa integração, sem, entretanto, dar um tratamento diferente mas ainda é exceção.
como O SURDO DEVE FAZER PARA ATINGIR OS SEUS LIMITES?
O surdo, de um modo geral, precisa dotar-se de uma enorme capacidade de ser
paciente. Deve ter a humildade de repetir o que está dizendo até à exaustão para ser
compreendido, e ter a perseverança de pedir que seu "interlocutor" repita o que falou,
para poder entender exatamente o que foi dito. A primeira coisa que o surdo precisa
desenvolver é, sobretudo, a paciência, que traz em seu bojo uma outra coisa muito
importante - a humildade. Na verdade, sabemos que somos de certo modo superiores
aos outros porque conseguimos ultrapassar uma barreira física que para muitos é
intransponível - conseguir se comunicar sem ouvir. Isso acarreta uma sensação de que
somos capazes de ultrapassar outras barreiras com mais facilidade do que as outras
pessoas. Mas, por outro lado, o deficiente físico, seja de que tipo for, vai acumulando.
no correr de sua vida, alguns traumas, algumas frustrações que, se não forem bem
tratadas, podem causar sérios problemas psicológicos, que acarretariam enorme
dificuldade de integração. Entre esses dois sentimentos situa-se o deficiente auditivo
oralizado. O orgulho de ser um vitorioso e a tristeza de ser tratado como uma minoria.
Dentro desses limites, o surdo oralizado deve margear seu comportamento. Paciência,
humildade, boa vontade, colaboração, disponibilidade, assiduidade, aplicação e firmeza
ajudam no relacionamento dentro da vida universitária. Equilíbrio difícil de ser
alcançado...
REFORÇOS PARA AUXÍLIO DO SURDO: DOMÍNIO DA LÍNGUA-
PORTUGUESA
A língua portuguesa falada e escrita é sempre difícil de manejar. Reforço em
interpretação de textos e redação é sempre necessário, como base para o restante. O
surdo tem comumente, sem generalizar, certa dificuldade para abstração. Acredito
que se o surdo tiver um bom domínio da língua portuguesa, ultrapassando as
dificuldades de abstração, ele não terá tanta dificuldade nas matérias que dependem
dessa capacidade de compreensão. Caso contrário, as matérias devem ser tratadas
com mais cuidado e atenção. Outras medidas objetivas que a faculdade deve
providenciar já foram expostas em nosso trabalho, no sentido de integrar o aluno
surdo à escola ou faculdade. E importante saber que sem o total conhecimento da
língua portuguesa, as dificuldades serão maiores. A não compreensão dos conteúdos
das disciplinas não se resume, somente, à deficiência auditiva, mas sim ao não domínio
da língua portuguesa.
BEM-ESTAR PSICOLÓGICO DO SURDO ORALIZADO
O bem-estar psicológico do surdo oralizado é sempre um objetivo difícil de ser
alcançado. Aliás, não só o surdo oralizado tem essa dificuldade; todo ser humano vive
em eterno questionamento. Os contentes de si mesmos já morreram e não sabem...
como todo ser humano, os surdos oralizados têm sempre novos desafios a enfrentar,
novos objetivos a alcançar, novas realidades a conhecer.
Qualquer minoria tem dificuldades ainda maiores para impor suas necessidades
básicas, para se impor como seres pensantes, para se integrar ao mundo. Não queremos
ser tratados com pessoas indiferentes - queremos ser tratados como precisamos
para nossa completa integração à comunidade em que vivemos. Tratamento igual
para os iguais e diferente para os diferentes - esse é o verdadeiro fundamento da
igualdade.
Cidadãos Surdos no Ensino Superior um Direito e
muitas dificuldades
Mauro S. Ribeiro
Puc Pedagogia
O surdo e o social acadêmico
Sendo portador de deficiência, o surdo, já antevendo certos possíveis desgastes,
se prepara para uma rotina social mais silenciosa. Um dia-a-dia em que ele próprio
adota como hábito rigoroso a opção de certos esquemas, a fim de facilitar seu
relacionamento com outros e evitar situações consideradas desagradáveis. Sendo assim,
a formação de um círculo de amigos se dará, dependendo de como ele se apresentar
socialmente, gradualmente e de acordo com as conveniências que o nosso amigo
estabelecer.
Adaptação para uma classe universitária
Em uma classe universitária, o que mais se espera, ao início de um curso de
graduação, é uma possível heterogeneidade de alunos e professores, oriundos das
mais diversas esferas sociais. Assim, partindo desse princípio, que lhe dará mais
segurança e conforto psicológico, o deficiente auditivo dever-se posicionar como um
dos diferentes elementos que compõem o colorido mosaico que é a turma universitária.
Deve procurar sentar nas primeiras filas, tentar esclarecer o professor a respeito de
suas necessidades especiais; tudo com muita cautela e sensatez, principalmente, a
fim de não incitar sentimentos ou impressões negativas naqueles que compõem o
corpo docente. Deixando o surdo transparecer um espírito cooperativo, assim os
professores se sentirão mais preparados para o início de um novo tipo de relação,
sem medos e preocupações com possíveis gafes que possam vir a fazer ruir um
relacionamento já sustentado por alicerces éticos ainda um tanto desconhecidos.
Alguns reajustes pessoais importantes para o sucesso acadêmico
uma vez inserido num contexto social mais complexo do que aquele apresentado
nos microscópicos universos colegiais da vida, o surdo se vê então diante da necessidade
de ser armar de novos meios de conduta, de se readaptar. É claro que irá recorrer às
ferramentas de sempre, uma vez que estas apresentam datas de validade bastante
prolongadas, senão eternas. No entanto, certamente o surdo deparar-se-á com
momentos de impasse, reflexão ou até mesmo depressão, que o deixam em permanente
questionamento. Assim, acredito ser importante o quanto antes o estabelecimento de
novas amizades acadêmicas, e, quando necessário, tentar identificar os colegas que se
apresentarem de modo mais discreto, ou aqueles que surgem nas cenas de um jeito
mais periférico, quase escondido. Tais pessoas certamente têm muito a dividir com o
deficiente. Saber da existência de outro no mesmo barco funciona quase como um,
digamos, bálsamo. É um grande estímulo para o sucesso na estrada universitária.
Cidadãos Surdos no Ensino Superior um Direito e
muitas dificuldades
AS ADVERSIDADES DE SURDO NA UNIVERSIDADE:
UM PONTO DE VISTA
"Nós, Surdos, nos sentimos Independentes com e em nossa língua, a Língua de
Sinais, nossa primeira língua. Deixem-nos viver em liberdade e em paz com a
nossa língua!"
(BARROS, 2000)
Alex Curione
I - Introdução
A minha história profissional começa há cinco anos, com realização de um
sonho, uma experiência de trabalho com o ensino no INES (atuando junto ao professor
ouvinte em sala de aula). Estudos em lingüística e início de projeto de pesquisa com
crianças surdas utilizando Língua de Sinais como primeira língua (L,), a partir da
consultoria realizada no INES pela Dr
a
prof Alice Freire, da UFRJ, até o ano de 1999.
Durante o tempo em que estava no INES - sou ex-aluno - eu realmente lutava
para aprimorar qualidade da educação; fundei o Grêmio Estudantil de INES - GINES,
organizado por cinco alunos. Ainda sinto saudade daquela época.
Trabalho no INES como educador
1
em turmas de 2
a
, 3ª e 4
a
séries do ensino
fundamental; em turmas de 5
a
a 8
a
séries e do Ensino Médio, onde atuo nas aulas de
Língua Portuguesa. Atualmente, também, em turmas de educação de jovens e adultos
de I
a
a 4
a
séries, sala de oficina de Monitor que foi criada a partir de idéia minha e de
professores. Participo também de reuniões do O.P. (Orientação Pedagógica), no
SECAF e com a equipe de Língua Portuguesa.
Realizei um breve estudo sobre Aquisição de Primeira e Segunda Língua:
diferenças no processo de aquisição entre pessoas surdas e ouvintes, apresentado no
Seminário Nacional de 1998 e publicado nos Anais (1998: 96 a 100).
Atualmente, trabalho também como voluntário na FENEIS, no grupo de
pesquisa de LIBRAS e Cultura Surda, onde tenho me dedicado a conhecer metodologia
e didática de ensino de LIBRAS através do livro Libras em contexto e vídeo. Estou
capacitando-me como agente multiplicador para habilitar outros surdos como
instrutores de LIBRAS.
Minha capacitação profissional em educação tem-se desenvolvido por meio
dessas experiências. Mas eu nao estava satisfeito, sentia a necessidade da formação
universitária.
Conquistei essa oportunidade de entrar no ensino superior e agora me sinto um
pouco aliviado porque precisava captar conhecimentos gerais e específicos para
melhorar minha formação profissional nessa área. Eu realmente queria estudar
lingüística no curso de letras, mas matérias como literatura brasileira e portuguesa não
me interessavam. Resolvi entrar para o curso de Pedagogia, onde tenho oportunidade
'Esse é um termo por mim utilizado em depoimento "Aquisição da Língua de Sinais como
Primeira Língua: Direito dos Surdos", na revista da FENEIS, n° 08, ANO 2000. No INES
o termo usado é MONITOR. A expressão EDUCADOR tem sido entre em nós, surdos, que
estamos trabalhando com ensino no INES.
de fazer relações com o meu trabalho pedagógico no INES. Tenho esperança de fazer
curso de pós-graduacão, para garantir o estudo de lingüística na faculdade de Letras a
formação cem Língua de Sinais incorporada ao seu currículo.
Comecei a freqüentar a universidade este ano e já adquiri muitos conhecimentos
fazendo as relações teóricas com os conhecimentos anteriores que eu tinha, aumentando
a minha experiência e referência para pesquisa e produção de conhecimento. Nas
matérias da faculdade, como Sociologia, Filosofia, História, Didática e outras, tenho
aprendido a fazer as relações com minha experiência prática, tendo oportunidade de
adquirir e captar mais conhecimentos e informações. Isso é fundamental para meu
desenvolvimento.
II - As dificuldades na sala de aula
a) Déficit lingüístico em relação aos professores e alunos, e acesso ao ambiente:
Na sala de aula não tenho serviço de intérprete de LIBRAS. Consegui uma
colega da turma que me ajuda em algumas matérias. Ela sabe pouco de LIBRAS,
porém já conhece a comunidade surda por meio de sua religião e tem amigos surdos.
Quando o professor pede que nossa turma, individualmente ou em grupo,
discuta, dê opinião, concorde ou discorde, fico impedido de participar, pois às vezes,
quando entendo mais ou menos os professores, não sei qual é a reação que sua fala
provoca nos colegas, que ficam discutindo entre si, e eu não tenho acesso a isso. Fico
sem poder avaliar aquilo sobre o que estou pensando, se estou no caminho certo, ou
pensando um absurdo, pois não sei o que eles discutem. como posso formar minha
própria opinião, se o conhecimento é um processo construído socialmente na
interação?! (apud Freire, 1998: 28). Isso é um problema muito sério que precisa ser
refletido. Eu tenho uma língua, e o espaço acadêmico não me dá condições lingüísticas
adequadas para que eu possa me desenvolver em nível de igualdade com os demais
colegas, pois não me é garantido o direito de expressão na língua em que me sinto
confortável para interagir de forma criativa, expressando meus pensamentos e
acessando o pensamento dos colegas e professores. A primeira língua é usada para
expressar e entender sentimentos; para socialização; para dar e receber informações;
e de maneira criativa para, por exemplo, contar piadas. A língua portuguesa (a língua
de modalidade oral-auditiva) realmente não é minha primeira língua. Conforme
Andersson, 1994: As línguas de modalidade oral-auditivas são a segunda língua dos
surdos já que eles não as adquirem espontaneamente, nem as usam como um falante
nativo ou como primeira língua. Em alguns aspectos, o bilinguismo dos surdos é
similar ao dos imigrantes ouvintes. Ambos os grupos se expressam melhor em suas
primeiras línguas e fazem erros de escrita similares em suas respectivas segundas
línguas. E impossível que eu tome o discurso na L, do público e tenho dificuldade na
interação, pois não sei usar o português em nível satisfatório para uma discussão. Em
uma discussão em grupo, consigo interagir com uma colega e ela explica aos demais o
que estou querendo dizer, mas não é uma comunicação efetiva acontecem falhas nessa
interação e eu me sinto bloqueado em minha língua. Outra dificuldade que encontro
é o total desconhecimento dos professores sobre minha situação de aluno surdo em
sala de aula com os ouvintes. Quando solicitam que os alunos escrevam um texto
sobre o assunto ensinado, eu sempre terei problemas para escrever, pois não tenho
como discutir as idéias para compor o meu texto. Minha escrita será considerada,
também, inferior à dos ouvintes, pois escrevo como um estrangeiro. Os professores,
nas faculdades, precisam estar cientes disso; eles precisam saber que o nosso português
pode não ser bom, mas o que aprendemos e expressamos em Língua de Sinais pode
ser satisfatório. como diz PADDEN: "Algumas pessoas Surdas podem escolher
usar fala em atividades comunitárias que envolvem pessoas não Surdas, tais como
festas mistas, programas de educação de pais, ou quando representando a
comunidade em alguma função pública mais abrangente. Mas no nível cultura, a
fala não é considerada um comportamento apropriado. " Atualmente, poucos
professores sabem sobre as nossas diferenças como aluno surdo e aceitam fazer
outras formas de avaliação, além da escrita. Isso já aconteceu comigo: tive alguns
professores que se interessaram em me ajudar para que eu me sentisse seguro em
minha aprendizagem. Mas há também aqueles professores que não mostram nenhum
interesse em me conhecer melhor para tentar mudar um pouco a realidade da sala de
aula que é totalmente favorável aos ouvintes. Isso me deixa ansioso, inseguro e às
vezes desanimado. Em outro trabalho já fiz referência a isso - BARROS, 2000: "A
comunidade ouvinte está constantemente privilegiada com todas as situações que
garantem a ela a aquisição natural de uma língua, sua primeira língua (L^. uma
língua de modalidade oral-auditiva. Através das interações mediadas pela L
t
, os
ouvintes constróem o seu conhecimento de mundo, na família (primeiro com pais),
na escola e na sociedade em geral." Diariamente, observo que os meus colegas
ouvintes têm oportunidade de aprender mais e mais conhecimentos, Vivenciando
diferentes situações de aprendizagem e envolvimento interativo em sala de aula.
Enfrento os estudos e as leituras das matérias, mas sofro muito.
b) Relação com uma estudante colega:
Tive sorte de encontrar na turma uma colega que sabe um pouco sobre sinais da
LIBRAS e que me tem ajudado muito. Ela faz com satisfação para me deixar bem,
mas não me sinto confortável por várias razões:
• os demais alunos não entendem a importância que suas explicações representam
para mim: a todo momento ela é interrompida por eles por algum motivo, e
assim perdemos tempo durante a aula e eu perco aprendizagem;
• muitas vezes quero fazer algum comentário e ela não entende bem o que estou
falando, preciso repetir, repetir, e assim também perdemos tempo durante a
aula;
• é evidente que minha presença em sala de aula está contribuindo para que essa
colega esteja perdendo aprendizagens importantes como aluna, e isso não é
justo.
c) Déficit de condições:
Na universidade, atualmente, não há condições favoráveis para mim. Não
tenho o serviço de intérprete em sala de aula. Entrei no curso superior em todas as
disciplinas os professores sempre apresentam as informações quanto aos temas do
curso, auniversidade, as matérias, sem, no entanto, pensar no que eu iria entender, no
momento de receber tais informações. Isso não é justo. Os professores apresentam
vídeos complementares ao assunto ensinado, sem legenda. Quando tenho a presença
de intérprete voluntário, é impossível fazer qualquer tipo de anotação. O professor
escreve no quadro enquanto fala, explica. Às vezes faz ditado de algum conceito e eu
fico sempre na dependência de minha colega copiar para mim. Já disse, não é justo,
não é digno para mim essa situação.
d) Intérprete voluntária:
A Emeli Marques C. Leite, que é no INES e conhecida pela comunidade surda
do Brasil, tem sido intérprete voluntária para mim, freqüentando uma ou duas
disciplinas por semana. Aproveito esta oportunidade para agradecê-la de público
por estar voluntariamente servindo-me como intérprete.
Ill - Direito legal assegurado.
Registro, a seguir, Portaria nº 1.679, de dezembro de 1999.
PORTARIA nº 1.679,de 2 de dezembro de 1999
Dispõe sobre requisitos de acessibilidade de pessoas portadoras de deficiências,
para instruir os processos de autorização e de reconhecimento de cursos, e de
credenciamento de instituições.
O MINISTRO DE ESTADO DA EDUCAÇÃO, no uso de suas atribuições,
considerando o disposto na Lei n° 9.131, de 24 de novembro de 1995, na Lei n° 9.394,
de 20 de dezembro de 1996, e no Decreto n° 2.306, de 19 de agosto de 1997, e
considerando ainda a necessidade de assegurar aos portadores de deficiência física e
sensorial condições básicas de acesso ao ensino superior, de mobilidade e de utilização
de equipamentos e instalações das instituições de ensino,
RESOLVE:
Art 2
o
A Secretaria de Educação Superior deste Ministério, com o apoio técnico
da Secretaria de Educação Especial, estabelecerá os requisitos, tendo como referência
a Norma Brasil 9050, da Associação Brasileira de Normas Técnicas, que trata da
Acessibilidade de Pessoas Portadoras de Deficiências e Edificações, Espaço, Mobiliário
e Equipamentos Urbanos.
Parágrafo único. Os requisitos estabelecido na forma do caput, deverão
contemplar, no mínimo:
c) para alunos com deficiência auditiva:
compromisso formal da instituição de proporcionar, caso seja solicitado, desde
o acesso até a conclusão do curso:
quando necessário, intérpretes de língua de sinais/língua portuguesa,
especialmente quando da realização de provas ou sua revisão, complementando
a avaliação expressa em texto escrito ou quando este não tenha expressado o
real conhecimento do aluno;
flexibilidade na correção das provas escritas, valorizando o conteúdo semântico;
aprendizado da língua portuguesa, principalmente na modalidade escrita (para
o uso de vocabulário pertinente às matérias do curso em que o estudante estiver
matriculado);
materiais de informação aos professores para que se esclareça a especificidade
lingüística dos surdos.
a) Faculdades que já respeitam a portaria:
-Faculdade de PUC de São Paulo
Curso de Pedagogia
-Faculdade de ULBRA de Porto Alegre
Vários cursos
-Faculdade de Minas Gerais
Curso de Pós-graduacão em Psicopedagogia
-Faculdade de Rio Branco de São Paulo
Cursos de Pedagogia e Letras
2
.
FACULDADE DOMUS
RIO BRANCO
Os surdos dessas faculdades garantiram de seus direitos acesso a intérpretes,
tornando-se alunos bem-sucedidos em seu desenvolvimento cognitivo. No processo
ensino-aprendizagem, conseguem acumular maior conhecimento em relação à matérias,
ampliando sua produção de conhecimento.
Outro surdo formou-se em Pedagogia pela UERJ - Universidade do Estado do
Rio de Janeiro. Um fato curioso: seu professor convidou um professor francês para
palestra sobre uma educação francesa e internacional, e havia um intérprete de
francês / português presente na sala de aula. O universitário surdo decidiu que
precisava chamar um intérprete de LIBRAS e seu professor não aceitou. Foi então ao
diretor: "Sou realmente surdo, eu preciso de um intérprete por causa do professor
francês. como o professor e os alunos podem ter intérprete enquanto eu não posso?
O diretor ordenou que o professor ficasse calado. E isto, ele garantiu seus direitos,
mas na universidade não havia o serviço de intérprete. Tenho o mesmo problema em
minha faculdade.
2
Alunos Surdos da Faculdade Domus- Rio Branco em São Paulo têm intérprete grátis.
Revista da FENEIS, ano III; n° 11; pag. 22; julho / setembro de 2000.
Referências Bibliográficas:
ANDERSSON, Romy. Second Language Literacy in Deaf Education. In AHLGREN,
I. & HYLTENSTQAM, K. (org.) Bilingualism in Deaf Education, Hamburg:
Signum-Verl, 1994 - Texto traduzido pela equipe responsável pela organização
da oficina de Português como Segunda língua do dia 23/11/1999. INES.
BARROS, Alex Curione. Aquisição da Língua de Sinais como Primeira Língua:
Direito dos Surdos. Revista da FENEIS, ano II; n° 08; pag. 14 e 15; outubro /
dezembro de 2000.
FREIRE, Alice da Fonseca. Aquisição do Português como Segunda Língua: uma
Proposta de Currículo para o Instituto Nacional de Educação de Surdos. In:
SKLIAR, Carlos (org.). Atualidade da Educação Bilíngüe para Surdos. Porto
Alegre: Mediação, 1999, p. 25 a 34.
PADDEN, Carol. A Comunidade Surda e a Cultura das Pessoas Surdas. Apostila,
1987, Tradução: Monica Pereira, DDHCT / INES - 1996.
BATE PAPO no CES / RIO dia 09/08/01 com Carlos Skliar, org. ONG-SINAIS
SURDEZ E LINGUAGEM.
Cidadãos Surdos no Ensino Superior um Direito e
muitas dificuldades
HISTÓRIA DE MINHA VIDA NA FACULDADE
André Sampaio
Pós-Graduação: Especialização em Análise de Sistema
Principais dificuldades
Eu estudei em três escolas: na primeira me relacionava com colegas ouvintes e
surdos; nas escolas em que terminei o 2
o
grau, tinha apenas colegas ouvintes.
Depois que terminei o 2
o
grau, no período de 1991 até 1993, procurei uma
faculdade para me graduar, mas a que eu desejava não contava com o curso informática,
e o que é pior: não aceitava surdos.
Em 1996, para grande felicidade, encontrei uma faculdade onde eu poderia
fazer meu curso superior; então fiz o vestibular, conquistando, assim, uma vaga na
universidade.
Todos ficaram preocupados com a relação que iria existir entre eu e os
professores, pois se tratava de um aluno especial. Havia professores que desconheciam
a prática de lecionar em uma turma na qual existia um deficiente auditivo. Eu até
mesmo conversei com os professores, disse que poderia copiar as informações do
quadro e utilizar o computador, pois sou especial e não possuo memória auditiva.
Mas assim mesmo continuei a sofrer nas aulas.
Até que em dezembro de 1999 tive um intérprete particular, Amaury, mas
que por questão financeira, não pude manter.
Alguns professores me elogiavam, dizendo que eu era um bom aluno. Hoje sigo
a minha carreira estudantil, agora na pós-graduacão, sem intérprete, tentando superar
as dificuldades que encontro pelo mundo.
Relação com os colegas
Os outros estudantes nunca tinham visto um surdo na sala. Acharam muito
diferente e chegaram até a conversar com um professor para deixar-me excluído da
sala de leitura.
Tive um amigo que me ajudou muito: ele me explicava as aulas e me incentivava
a participar, deixando-me bastante atento e interessado.
Eu sempre quis fazer anotações do quadro, pois sem a memória auditiva eu não
conseguiria guardar as explicações em minha mente. Por isso é tão importante o
intérprete; com ele eu entenderia as aulas.
Eu agradeço muito a todos os estudantes e professores que me ajudaram e faço
uma observação: uma boa relação com os alunos ajuda muito no desenvolvimento da
aprendizagem em uma universidade.
Atitude dos professores
Tive grandes dificuldades, principalmente, nas aulas de português. Todos os
estudantes acompanhavam as aulas, dando opiniões e respondendo às perguntas que
o professor fazia, mas como eu não tinha intérprete, não conseguia responder.
Alguns professores me ajudaram, falando devagar e de frente. Outros, ficaram
indiferentes ao meu problema.
Fui até o diretor e mostrei a lei que me dá direito a um intérprete. Mas ele
simplesmente ignorou o fato.
A informática quero aprofundar meus conhecimentos e me profissionalizar.
com o auxílio do meu amigo nas aulas, estou interessando-me cada vez mais
pela área.
como atender suas necessidades
E muito importante o estudo universitário, para a realização profissional. E
também seu desenvolvimento cultural.
Na verdade, todos sabem que para o bom rendimento de um deficiente auditivo
em uma faculdade é necessário um intérprete.
Aspectos Históricos dos Movimentos Sociais e Políticos dos
Cidadãos Surdos - uma Experiência Curricular no INES
Heloise Gripp Diniz
Marcus Vinícius Pinheiro
Ronise Conceição de Oliveira
Apresentação
Nesta última década, na educação de sudos, vem-se falando em bilinguismo.
Sabemos que num ambiente bilíngüe tem que existir duas línguas em uso.
Então, como falar de escola bilíngüe, ou melhor dizendo, em sujeito bilíngüe, quando
o público alvo, o sujeito surdo, não domina uma única língua?
Essa foi uma constatação de alguns professores deste instituto, principalmente
de professores na educação de jovens e adultos. A dificuldade em trabalhar os conteúdos
disciplinares não estava somente no pouco uso da língua de sinais pelos professores
depois de uma avaliação feita por surdos profissionais e proficientes na língua de
sinais, ficou clara a necessidade da L.S. de maneira formal para a maioria de nossos
alunos adultos. Não vamos aqui questionar o que aconteceu com essa população
surda, mas a necessidade primária do conhecimento e domínio de sua língua para um
trabalho educacional que tem por objetivo tornar o surdo um sujeito bilíngüe.
Foi então que em 1997 deu-se início à inclusão da L.S. para os alunos de CA.
a 4
a
série do curso noturno.
Esse trabalho, iniciou de maneira informal, ou seja, não estava incluído no
currículo da escola e o conteúdo não tinha um programa específico, as aulas eram
ministradas por uma monitora surda com orientação de uma professora ouvinte.
Em 2000 começamos a receber pedidos para ampliar o trabalho nas séries
seguintes. Após muita discussão nas reuniões dos Departamentos (DDHCT, DETEP,
DEPA), com a Direção Geral, quanto a ações para implantação deste projeto,
diagnosticamos a enorme heterogeneidade em LIBRAS de nossos alunos.
Em novembro do mesmo ano, o INES realizou contratação, por meio de
concurso, de três professores surdos, dando início a um trabalho já há muito esperado:
a implantação da LIBRAS na grade curricular para os alunos do ensino fundamental
do Colégio de Aplicação do INES.
Desta feita, não seria aula de LIBRAS, e sim uma disciplina com conteúdo
próprio que seduzisse e aproximasse os alunos de sua língua e identidade. A LIBRAS
passou a fazer parte das aulas como disciplina que passamos a chamar de LIBRAS
NA EDUCAÇÃO, e vem sendo ministrada por três professores surdos, formados no
magistério, atuando nos três turnos do CAP- INES. Nas turmas de I
a
a 4
a
séries os
alunos têm duas aulas por semana, e da 5
a
a 8
a
séries, uma aula por semana. No curso
noturno de Jovens e Adultos, as aulas não ministradas a partir da alfabetização e com
uma aula semanal.
Os professores têm um encontro por semana com supervisão para planejar e
avaliar o trabalho, como também selecionar material.
com o objetivo de aprimorar e enriquecer o conteúdo lingüístico dos nossos
alunos, a Língua de Sinais é oferecida através de um conteúdo programático que
engloba conhecimentos de mundo e noções de cidadania (direitos e deveres), estimulando
assim sua auto-estima.
com essa experiência, o INES pode contribuir para que os sistemas de ensino
do Brasil cumpram ação importante do PNE.
Em 9 de janeiro deste ano, o Presidente da República aprovou a Lei n° 10.172
do Plano Nacional de Educação no que se refere a Educação Especial, em Objetivos e
Metas, diz:
Art. 11 - Implantar em cinco anos e generalizar em dez anos o ensino da Língua
Brasileira de Sinais para os alunos surdos e, sempre que possível, para seus
familiares e para o pessoal da unidade escolar, mediante um programa de formação
de monitores, em parceria com organizações não governamentais.
Antecipamos um processo que hoje é lei, e cujos resultados até o momento têm
sido bastante positivos. Desejamos que em 10 anos essa lei tenha-se tornado um fato
real e comum em nossas escolas.
O PLANEJAMENTO
O processo de planejamento da disciplina de LIBRAS (Língua Brasileira de
Sinais) na Educação durou várias semanas e foi elaborado e desenvolvido pela equipe
de professores surdos com as professoras ouvintes Solange Rocha e Jurema Santos.
Para apresentarmos este trabalho, em primeiro lugar é preciso lembrai- que esse
planejamento foi elaborado em curto espaço de tempo com a finalidade de incluí-lo na
grade curricular de ensino fundamental e médio do Instituto Nacional de Educação de
Surdos (INES), principal centro de referência na área da surdez no Brasil.
Em sua elaboração, fizemos um pequeno levantamento do que queríamos e
poderíamos fazer quando surgiram os seguintes aspectos:
1° Objetivo da disciplina
Tivemos que levar em consideração que a disciplina teria que envolver todos os
aspectos históricos e culturais dos movimentos sociais, políticos e educacionais dos
surdos em busca de sua identidade e de sua cultura, além da formação da sua cidadania.
2° como deveríamos trabalhar?
Deveríamos trabalhar ministrando aulas com duração de 45 (quarenta e cinco)
minutos para os alunos do INES.
Aproveitamos ainda para definir que as aulas poderiam ser realizadas de diversas
formas, tais como dinâmicas, exibição de fitas de vídeo e diversos materiais, e que isto
dependeria de cada educador, pois cada um tem a sua metodologia de ensino, mas que
não se desviasse do objetivo geral da disciplina.
O planejamento por segmentos se encontra em anexo:
RECURSOS
• Revistas;
• Fotos;
• Histórico do INES - 140 anos;
• Livro do Flausino;
• Cartilha de LIBRAS;
• Vídeos em LIBRAS;
• Entrevistas.
OBJETIVOS
• Conhecer a si,
como
pessoa
surda (auto-
estima);
• Consciência de língua;
• Por meio da história do INES, reconhe-
cer-se
como
sujeito
dessa
história;
• Compreensão de texto;
• Interpretação de texto;
• Produção de texto individual e coletivo.
PROGRAMA
• Identidade surda;
• Língua de Sinais - definição;
• História do INES;
• Apresentação do livro do Flausino;
• Vivências em LIBRAS;
• Apresentação de fitas de vídeo em LI-
BRAS;
• Depoimento de surdos adultos.
SECAF e CAAF - Ensino Fundamental - I
a
a 4
a
série
Recursos
> Revistas;
> Fotos;
> Documentos impressos e
iconográficos do acervo do
INES;
> Histórico do INES - Espaço -
Edição 140 anos;
> Livro: Iconografia dos Sinais;
> Fitas de vídeo em LIBRAS;
> Informática;
> Visita à FENEIS;
> Documentos sobre a legaliza-
ção da LIBRAS;
> Projeto nacional;
> Entrevistas.
Estratégias
> Diálogo;
> Pesquisa na família;
> Visita ao acervo da instituição;
> Pesquisa nos documentos da
instituição (individual e coleti-
va);
> Dramatização do histórico do
INES;
> Entrevistas com ex-alunos do
INES;
> Pesquisa na internet;
> Debates à respeito da situação
dos surdos no Brasil e no mun-
do;
> Depoimentos de lideranças sur-
das.
Objetivos
>
Conhecer
a si
como
pessoa
sur-
da (auto-estima);
> Conhecer a história da Educa-
ção de surdos e das Línguas de
Sinais no contexto mundial;
> Situar historicamente o INES e
identificar sua importância no
cenário nacional;
> Conhecer Ernest Huet e seu tra-
balho no Instituto,
> Reconhecer a importância do
trabalho de Flausino para a pes-
quisa da LIBRAS;
> Conhecer as Línguas de Sinais
de outros países e estabelecer
comparações com a LIBRAS;
>
Reconhecer-se
como
cidadão
historicamente situado e identi-
ficado com a luta da comuni-
dade surda mundial e brasilei-
ra;
> Conscientizar a comunidade
surda a lutar por seu espaço.
Conteúdo
> Identidade dos surdos;
> História da Educação de Sur-
dos e da Língua de Sinais;
> Contexto da Fundação do
INES;
> Ernest Huet - o fundador;
> Flausino José da Gama -
Iconografia dos Sinais - 1 875;
> A Língua de Sinais no INES;
> Língua de Sinais e os surdos
no contexto mundial;
> Organização Política dos Sur-
dos no Brasil e no mundo;
> Associações de Surdos;
> Resgate Histórico da FENEIS;
> LIBRAS - A luta pela legaliza-
ção;
SEJAD
Ensino Fundamental - 5
a
a 8
a
e Ensino Médio
Devemos registrar que houve algumas dificuldades, pois no início
desconhecíamos a realidade dos alunos e ainda assim, com muito "jogo de cintura" e
desembaraço, encaramos de frente os obstáculos, pois não há professor ou professora
que não tenha tido dificuldades na sua aula.
Trata-se de uma experiência nova no Brasil, cujo objetivo principal nao é
ensinar LIBRAS, mas vivê-la através de aspectos históricos e culturais dos
movimentos sociais, políticos e educacionais dos cidadãos em busca de sua identidade.
Portanto, visamos trabalhar todos os aspectos da vida social, familiar,
educacional e cultural dos surdos.
ENSINO FUNDAMENTAL (I
a
a 8
a
série)
ESTRATÉGIAS DAS AULAS
O início
No inicio da adaptação, os alunos pareciam não entender a idéia de que existem
professores surdos, pois não era a realidade deles até então. Quando o professor
chegava em sala de aula, eles continuavam conversando porque não associavam a
idéia de um professor surdo dar aula e o uso de uma mesma língua para o ensino. Eles
pensavam que era bate-papo, pois não havia a presença de ouvintes. Depois de
várias explicações, começaram a entender e a se acostumar.
As estratégias que seriam utilizadas iriam depender muito do desempenho e
grau de abstração de cada aluno em Língua de Sinais. Por isso tornou-se necessário
inicialmente fazer uma observação do desempenho desses alunos. Consideram que o
nível de Língua de Sinais varia de acordo com a faixa etária, isso foi feito por meio de
conversas informais com alunos.
Nessas conversas observei que os alunos sempre tinham muitos assuntos, e
embora quisesse manter a aula aberta, era necessário cumprir o plano de aula proposto.
Para isso criei um roteiro diário que me possibilitava manter o plano daquele dia. O
roteiro consiste em comprimentos iniciais, conversas informais, feedback das aulas
anteriores, exercícios com dramatizações, jogos e discursos individuais de cada aluno,
e finalização, aproveitando todo o tempo disponível.
Para viabilizar um trabalho mais eficaz, manter as aulas dinâmicas e a turma
atenta, lancei mão de alguns recursos e estratégias bem conhecidos de nós professores
e outros adaptados para que utiliza o público com uma comunicação gestual-visual.
Os objetivos específicos
- Levar os alunos ao raciocínio por meio de perguntas que os estimulem a pensar
em Língua de Sinais e responder em Língua de Sinais;
- Estimular a capacidade de interação dos alunos entre si e com o professor, por
meio de rodinhas (círculos);
Estimular o aluno a trabalhar a representatividade. com sua Língua de Sinais
ele aprende a organizar o pensamento, representando (reproduzindo) situações
do cotidiano, dando direções, explicando a localização de determinado objeto,
etc. Fazer isso por meio de gestos ajuda a materializar o pensamento em Língua
de Sinais, para o professor e os colegas de turma.
Estratégias para trabalhar com a identidade surda
Separei a turma em dois grupos e entreguei a cada grupo gravuras contendo
pessoas em ação. uma das gravuras continha uma criança andando de bicicleta na rua.
Informei aos alunos que aquela criança era surda. Eles estranharam, pensando
que fosse verdade, e eu apenas expliquei que inventei. A partir daí iniciou a discussão
entre grupos: como a criança andava de bicicleta na rua sendo surda? como vai ouvir
a buzina...?
Um aluno começou a explicar:
- Ela morre.
Respondi que não, pois eles já andaram de bicicleta e não morreram.
- Então, ela usa prótese auditiva para ouvir a buzina - respondeu o aluno.
E se ela não estiver usando o prótese, que esqueceu em casa? - perguntei.
Ah! Um amigo que andava ao lado era ouvinte ajuda chamando-a - me
responderam.
Perguntei: se ela não estiver acompanhada?
Já sei ! Tem que olhar para os lados sempre - um aluno, esperto me respondeu.
Resultado
Os resultados têm sido positivos de modo geral. Não foi possível aqui fazer
uma análise detalhada, pois estamos no início de um processo. Posso dizer que
estamos começando a cumprir o objetivo de criar uma consciência crítica nos surdos
a partir de um conhecimento mais profundo de sua própria história por meio de sua
língua. Espero que futuramente possamos continuar esse trabalho, dando frutos
com as sementes que estamos plantamos gradativamente.
ENSINO DE JOVENS E ADULTOS (CA a 8* série)
ESTRATÉGIAS DAS AULAS
O início
Foi possível perceber que deveria iniciar com fatos que fossem parte da realidade
de cada um, estratégias que facilitariam o início de nosso relacionamento, familiarização
com as aulas em LIBRAS e o desenvolvimento de um interesse.
Iniciei com a história da vida de cada um, o que despertou grande interesse.
Ex.: Porque você se chama Paulo? Quem escolheu o seu nome? - orientação
para que em casa perguntassem aos pais e na próxima aula nos respondessem.
Os objetivos dessa estratégia
propiciar um contato com os pais (pais/filhos), procurando minimizar possíveis
dificuldades;
- propiciar contato com a LIBRAS; e
propiciar o aprendizado para narração de histórias e fatos
No início, os alunos não entendiam os novos professores surdos como eles,
sentiam-se como colegas. Hoje, deparamos com um novo quadro: a aceitação é
satisfatória, assim como todos os demais professores do INES, o que facilitou muito
nosso desempenho.
As turmas estão diversificadas - as idades variam entre 17 a 40 anos - e o
trabalho é dirigido de acordo com as condições de cada um.
com adultos, é preciso trabalhar mais a capacidade de luta e a formação do
cidadão surdo.
Estratégias das aulas para trabalhar o tema respeito
No início das aulas, contando as historias de cada um, surgiu a palavra.
*Expliquei o que significava e pedi uma dramatização.
Essas estratégias foram usadas para os alunos da 4
a
série a 8
a
e foram muito
satisfatórias também com o uso da LIBRAS.
Foi realizada uma dinâmica das palavras em ALFABETO MANUAL/ LIBRAS.
Nessa dinâmica foi possível trabalhar o português/linguagem/LIBRAS.
Relação aluno/professor
Aconteceu satisfatoriamente, houve respeito e todos participaram de acordo
com os objetivos traçados.
Relação professor/aluno
Houve domínio do grupo sem conflitos, o planejamento sempre foi elaborado
junto aos interesses da turma, o que propiciou em ótimo relacionamento.
Material
Utilização de jogos e dinâmicas, procurando sempre respeitar a faixa etária do
grupo.
Também como recurso utilizamos muita conversação com diálogo aberto.
Resultado
Temos conseguido excelentes respostas em nossas aulas.
com algumas turmas da 8
a
série houve uma mudança ótima dentro do esperado.
O processo educacional foi global, atingindo as expectativas do cotidiano, propiciando
até mesmo mudanças de comportamentos dentro do grupo, e o respeito entre os
colegas.
A comunicação existe na pessoa surda de acordo com a capacidade de cada um.
O que é necessário é o trabalho desse desenvolvimento cognitivo na sua própria
língua.
Dentro de uma família surda com filhos ouvintes, a dificuldade está no
entendimento da comunicação; o mesmo ocorre com filhos surdos de pais ouvintes.
Em grupo de sala de aula, também quanto mais se fornece condições de entendimento,
mais respostas positivas serão obtidas nas aulas e essa tem sido uma de minhas
grande satisfação.
como primeira experiência no INES -, quero registrar minhas observações me
foi possível perceber que o atraso no entendimento e elaboração da compreensão está
na ausência da LIBRAS.
Se todos utilizassem a LIBRAS, a comunicação com os surdos teria um avanço
considerável, e o desenvolvimento e a capacidade de elaboração seriam bem mais
satisfatórios.
O mais importante para atingirmos o verdadeiro resultado educacional do surdo
é considerar a condição de cada um, visando a melhoria de sua compreensão do
mundo que o cerca.
O Cidadão Surdocego - Socialização e Escolaridade
Autor: Maria Aparecida Nina Cormedi
Fonoaudiólogo e Diretora Técnica da AdefAV - Associação para Deficientes de
Audio-Visão. São Paulo - Brasil
Na área da deficiência, a surdocegueira ainda é relativamente desconhecida.
Mesmo profissionais que há tempos desenvolvem trabalhos com surdos ou com
deficientes visuais vêem-se em conflito quando se deparam com o indivíduo com as
duas deficiências. A dupla deficiência não é a-somatória de duas incapacidades, e sim
o surgimento de uma nova, única e específica, que acarreta graves transtornos de
linguagem, e até mesmo a falta de comunicação, devido ao isolamento em que se
encontra o indivíduo.
Quanto à educação do surdocego, o grande desafio dos profissionais é elaborar
um programa de atuação que não seja a soma de metodologias usadas com surdos,
mais metodologias usadas com deficientes visuais e cegos, mas criar e desenvolver
programas específicos para surdocegos, que possibilitem uma interação e inserção na
comunidade em que vivem. Tais programas devem incluir todas as formas de
comunicação possíveis.
A surdocegueira pressupõe uma das mais completas abordagens educacionais.
Até á alguns anos atrás, o que se tinha eram modelos de programas adaptados geralmente
do trabalho com surdos, o que se justifica pela premissa de que ambas as deficiências
tem na linguagem e na comunicação a sua maior problemática. O profissional está
sempre diante do desafio de descobrir o estilo de aprendizagem de seu aluno, ou seja,
de que forma ele pode aprender, de que forma pode comunicar-se e relacionar-se com
o outro. O profissional especializado em surdocegueira está apto a atuar com qualquer
outra deficiência.
O programa educacional para o surdocego, independentemente da época de
aquisição das perdas sensoriais e da etiología, é realmente individualizado, porque o
planejado para um aluno pode não se aplicar de forma alguma para outro. Esse
programa individualizado denomina-se funcional e ecológico. Funcional, porque
abrange todas as áreas do desenvolvimento e respeita as necessidades atuais e futuras
do aluno. Ecológico, porque considera o ambiente diário do aluno e suas necessidades,
integrando escola, casa, família, comunidade, e respeitando o meio cultural, ambiental,
social e econômico no qual o aluno está inserido. A abordagem funcional e ecológica
considera sempre:
> o desenvolvimento de habilidades que o aluno precisa para ser o mais
independente possível no futuro, integrado na família, escola e comunidade;
> o ambiente físico e social em que o aluno vive - o conhecimento desse ambiente
é imprescindível para a avaliação dos comportamentos comunicativos;
> a ênfase nos comportamentos comunicativos num contexto de habilidades
práticas - atividades de vida diária, escola, trabalho e lazer. Assim, os
comportamentos comunicativos do aluno são mais bem avaliados e
compreendidos numa situação de interação com outros e em diferentes
circunstâncias;
> a identificação e compreensão, por parte dos profissionais, dos diferentes
fatores situacionais e ambientais que influenciam e modificam os
comportamentos comunicativos;
> a aprendizagem de habilidades de vida diária, por parte do aluno, para uma
integração na escola, família e comunidade;
> as observações, avaliações e intervenções do profissional, realizadas num
contexto de atividades naturais e significativas;
> a intervenção dirigida para a estruturação de um ambiente físico, escolar e
social, considerando as necessidades do aluno, suas preferências, habilidades e
interesses. Essa estruturação é pré-requisito para o sucesso da intervenção;
> as interações entre o aluno e seus colegas de classe, familiares, educadores,
profissionais e membros da comunidade - consideradas mais importantes do
que o aumento quantitativo dos comportamentos comunicativos específicos
do aluno;
> estratégias para auxiliar outras pessoas a reconhecerem as oportunidades em
que podem interagir com o aluno e ensinar-lhes os meios mais efetivos para
comunicar-se com ele.
como elaborar programas funcionais e ecológicos deve ser realmente
internalizado, assimilado e desenvolvido pelos profissionais que atuam com surdocegos.
com base nessa filosofia, fazem parte do programa os seguintes aspectos:
Transdisciplinaridade - Cada membro da equipe deve ter conhecimento a respeito
das áreas de atuação de seus colegas. Cada disciplina tem um domínio de conhecimento,
mas na transdisciplinaridade elas são integradas em todos os domínios da intervenção,
existindo a troca de informações gerais sobre conceitos e práticas, bem como
informações específicas sobre estratégias e métodos numa intervenção holística.
Assim, informações são transferidas de uma disciplina para outra. Tal prática requer
treinamento constante e disponibilidade de todos os profissionais para dividir
conhecimentos numa atuação conjunta com os familiares do aluno.
Esse é um fator decisivo na qualidade e efetividade do programa. A abordagem
de um aluno surdocego requer conhecimento de várias disciplinas e áreas do
desenvolvimento infantil normal, além das específicas a essa deficiência. Os
profissionais, de diferentes áreas, devem receber o mesmo treinamento no que diz
respeito à surdocegueira como deficiência única, exclusiva, que estabelece metodologia
própria de avaliação e intervenção. Devem ser conhecedores, também, dos diferentes
modos de comunicação para poderem decidir qual o melhor a ser desenvolvido para
cada estudante.
A transdisciplinaridade se faz notar mais fortemente nos programas de alunos
com nível de comunicação pré-lingüístico, que necessitam de abordagem totalmente
individualizada, com único profissional interagindo. Porém o programa é elaborado,
discutido, e o profissional facilitador é orientado por vários outros que se fazem
necessários.
Materiais e atividades apropriados a faixa etária - Na maioria das vezes, no
planejamento escolar de alunos surdocegos e múltiplo - deficientes sensoriais, as
atividades e materiais estão muito mais relacionados com o nível de desenvolvimento
do que com a idade cronológica. Mas adaptações devem ser implementadas cada vez
mais as atividades de acordo com a idade do aluno.
Atividades funcionais e significativas - Para determinar se as atividades e as
habilidades que estão sendo desenvolvidas são funcionais e significativas, três questões
podem ser formuladas: se o aluno não é capaz de realizar a atividade; se é importante
o suficiente que alguém realize a atividade por ele; se você poderia imaginar-se
realizando essa tarefa todos os dias.
Se a resposta for sim para as perguntas, a atividade é provavelmente funcional.
Tomemos como exemplos: Se o aluno não é capaz de tomar banho sozinho, é necessário
que alguém o auxilie? Você precisa tomar banho todos os dias? Se o aluno não é capaz
de selecionar as contas coloridas, verde, vermelho e azul, é necessário que alguém faça
isso por ele? Você precisa selecionar contas coloridas todos os dias? Você se imagina
selecionando contas em sua vida diária? Se o aluno não é capaz de organizar os
utensílios de cozinha no armário, é necessário que alguém o auxilie? Você vê a atividade
de organizar o armário em sua vida diária?
O conceito de atividades funcionais e significativas está presente no planejamento
de todos os alunos, independentemente da faixa etária, porém, no trabalho com
adolescentes e jovens, esse conceito deve ser mais fortemente enfatizado. Temos que
nos perguntar, dia a dia, se o que estamos ensinando será útil para viabilizar a
independência do aluno.
Preferências dos pais ou responsáveis - Pais ou responsáveis pelo aluno devem
fazer parte da equipe que elabora o programa educacional, pois suas informações
representam o início de todo o processo e orientam a evolução do mesmo.
Escolhas e preferências do aluno - Não é tarefa das mais fáceis determinar as
preferências e escolhas dos alunos surdocegos ou múltiplo - deficientes sensoriais,
particularmente daqueles que não têm intencionalidade na comunicação ou que
apresentam problemas de comportamento. O levantamento do repertório do aluno
deve incluir atividades, objetos, pessoas e situações de que ele goste, não goste, tenha
medo, tanto no ambiente escolar, quanto no ambiente familiar ou qualquer outro que
freqüente.
Instrução em ambientes naturais - O desenvolvimento das habilidades e
potencialidades do aluno se concretiza na execução de atividades nos diferentes
ambientes em que está ou será inserido. Assim, ele pode transferir o que aprende na
escola para outros locais e situações de sua vida diária. Isso requer programa
estruturado, rotina organizada e sistemática, atenção individualizada e/ou pequenos
grupos e aumento gradual do tempo e número de atividades a serem estabelecidas.
Muitos alunos têm dificuldades na generalização de suas habilidades em diferentes
situações, por isso é importante estabelecer a rotina, mas é necessário, também,
discernir quando se deve mudá-la para ampliar as oportunidades de aprendizagem.
Participação parcial - Esse item pressupõe que todos os estudantes, mesmo os
que apresentam os mais severos comprometimentos, devem ser inseridos em alguns
aspectos das atividades de tôda a escola. É compreensível que não possam participar
de algumas, porém a integração poderá ser concretizada se adaptações forem feitas,
tais como:
> utilize todas as formas possíveis de comunicação;
> utilize todas as pistas possíveis: táteis, visuais, auditivas, olfativas;
> utilize recursos eletrônicos, quando possível;
> altere a seqüência de realização da atividade. Muitas vezes o aluno realiza
somente o último passo e isso significa participar.
Atendimento individual e atendimento grupai - O surdocego não consegue
receber informações completas do ambiente, mesmo que ainda possua resíduos auditivo
a visual. Sem a atenção individualizada, mesmo na participação em grupos, é difícil e
às vezes até impossível entender o que se passa ao seu redor. Isso significa que o
aluno surdocego necessita de um intérprete, professor, assistente, ou qualquer pessoa
que facilite a comunicação e a compreensão dos conceitos.
A maioria dos alunos necessita iniciar com atendimentos individualizados a fim
de estabelecer vínculo, estruturar rotina, organizar ambientes (escola, casa) e
desenvolver comunicação. No entanto, atividades em conjunto com outros alunos
devem ser programadas e introduzidas gradativamente, de forma a se formarem duplas,
trios ou grupos, ainda que com um professor por aluno, mas todos interagindo numa
mesma atividade, propiciando assim o desenvolvimento da comunicação e da
socialização. Outro aspecto a ser ressaltado é que não devemos esperar classes
homogêneas com os alunos no mesmo nível de desenvolvimento. A variedade de tipos
e combinações de perdas auditiva e visual levam a uma variedade de indivíduos
surdocegos, cada um com suas necessidades específicas. Trabalhar a heterogeneidade
é o desafio dos profissionais. Assim, sugerimos:
> Identificar cada aluno antes do início da atividade, principalmente se o grupo é
novo. Essa identificação ajuda a criança surdocega com algum resíduo visual a
reconhecer outros membros e orientar-se com relação à posição dos mesmos na
sala. Usar toques e/ou sinais e/ou alfabeto manual e/ou fotos e/ou escrita, a fim
de facilitar o reconhecimento do próprio nome e dos outros companheiros de
sala. Ela deve sentir-se membro do grupo e atuante.
> Devagar com a interação, para que a criança tenha tempo de localizar-se e
ajustar-se ao outro interlocutor. Isso pode ser conseguido quando cada membro
do grupo é reconhecido antes de expressar-se. Respeitar o ritmo de cada aluno.
> Lembre a cada criança do grupo de que precisa expressar-se e sinalizar devagar.
Todos devem respeitar o ritmo de cada um.
A participação nos grupos deve ser iniciada o mais cedo possível, assim que a
criança demonstre os primeiros sinais de interação comunicativa. E uma aproximação
gradual, em que ela não participará todo o tempo, mas o suficiente a cada dia, para que
a inserção no grupo transcorra sem traumas e naturalmente. Existe um período de
transição com atividades grupais e individuais elaboradas para cada um do grupo.
Integração com pessoas sem discapacidade - Convivência com pessoas sem
deficiências deve ser facilitada, desde a participação em eventos familiares e escolares
até a participação em eventos sociais. Pressupõe que o aluno deva estar acompanhado,
tanto quanto possível, de uma pessoa que facilite o entendimento e a compreensão do
que está acontecendo ao seu redor. Esse conceito é mais amplo, quando consideramos
a necessidade de um intérprete para o aluno, atendendo suas necessidades
comunicativas. Essas atividades podem ser desenvolvidas por grupo de voluntários,
por exemplo: na transcrição de braille, intérprete em língua de sinais, leitura de livros
e acompanhante na comunidade.
O modelo funcional e ecológico pressupõe a inclusão do aluno em escolas
regulares. No entanto, este aspecto deve ser considerado para cada aluno. Vários
fatores influem:
> legislação da comunidade referente a inclusão;
> filosofia da escola regular quanto a aceitação de alunos com discapacidades;
> disponibilidade de um intérprete para o aluno;
> determinação do número de horas e tipos de atividades em que o aluno será
incluído;
> disponibilidade de adaptação de recursos ambientais, físicos e materiais por
parte da escola regular;
> disponibilidade de assessoria especializada e sistemática aos profissionais da
escola regular;
> seqüência inclusiva - muitos alunos que freqüentam escolas especializadas no
atendimento de múltiplo-deficientes e surdocegos podem ser primeiramente
incluídos em programas para surdos ou para deficientes visuais. Isso possibilita
um desenvolvimento de comunicação e socialização gradativo, sem traumas a
experiências negativas para o aluno, pais e/ou responsáveis e profissionais.
Considerando-se as dificuldades comunicativas do surdocego e do múltiplo-
deficiente sensorial, muitas vezes num grande isolamento familiar e social, é primordial
oferecer-lhes assistência global objetivando atender suas necessidades específicas,
proporcionando-lhes o desenvolvimento de suas habilidades. Assim, o aspecto
prioritário do programa é a linguagem e a comunicação, em todas as formas: fala,
escrita, desenhos, braille, gestos, língua de sinais, objetos ou qualquer sistema de
comunicação aumentativo alternativo. Na elaboração do programa individualizado, a
habilidade comunicativa de cada estudante é considerada para que cada um tenha uma
forma de expressar suas necessidades, preferências, e desenvolver independência.
A orientação familiar constante aproxima os pais da escola, para que eles façam
parte do programa e participem das decisões em conjunto com os profissionais. Nas
primeiras orientações familiares são necessários esclarecimentos sobre as deficiências
do filho a fim de minimizar o impacto causado pelo diagnóstico, bem como
esclarecimento dos recursos educacionais disponíveis. Um levantamento de
expectativas dos pais, seus sonhos e desejos, facilita a definição das primeiras
atividades a serem desenvolvidas e formas de comunicação a serem utilizadas com o
estudante.
O aluno inserido e aceito no ambiente familiar tem possibilidades de ser um
membro participativo e ativo na comunidade em que vive. O programa globalizado
permite uma melhoria na qualidade de vida do aluno e sua família para que todos
possam exercer seus direitos de cidadania.
Referências Bibliográficas
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Shirley Rodrigues Maia
Presidente do Grupo Brasil de Apoio ao Surdocego e ao Mùltiplo Deficiente
Sensorial Diretora Educacional da AHIMSA - Associação Educacional para
Mùltipla Deficiência.
"O desenvolvimento humano
é visto como um processo evolutivo
de interações entre um organismo e o ambiente"
Isabel Amaral, in Curso Mackenzie/2001
O ambiente onde um "cidadão" vive é um conjunto de níveis que se interligam:
- Microsisstema: são ambientes mais próximos da criança (família, escola, clube
e outros). Normalmente ela participa de vários microssistemas simultaneamente.
Neles a criança interage com várias pessoas, realiza atividades e têm tarefas
determinadas.
Dois aspectos importantes que propiciam esse desenvolvimento:
> interação social;
> envolvimento em tarefas progressivamente mais complexas.
- Mesossistema: existe sempre que há conexões entre dois ou mais Microsistemas
(casa e escola). O aspecto mais importante é o efeito sinergético criado pela
interação das facilitadoras ou inibidoras presentes em cada local.
- Exossistema: ligação entre dois ou mais microssistemas. Ao contrário do
mesossistema, o indivíduo não tem que estar em um deles. A influência é
portanto indireta.
- Macrossistema: afeta todos os outros sistemas. Consiste na influência de
aspectos culturais, sociais, econômicos e políticos. Representa as crenças de
uma sociedade, as regras e o plano de base (a forma como as coisas devem ser
feitas).
- Cronossistema: reconhecimento de que o desenvolvimento na pessoa ocorre
no tempo e depende de sua localização histórica.
No caso das crianças surdocegas pré-lingüísticas (crianças que nascem
surdocegas ou adquirem a surdocegueira em tenra idade, antes da aquisição de uma
língua) e para os surdocegos pós-lingüísticos (crianças, jovens ou adultos que
apresentam uma deficiência sensorial primária - auditiva ou visual - e adquirem a
outra após a aquisição de uma língua - português ou língua de sinais -, ou que
adquirem surdocegueira sem outros antecedentes), seus microssistemas são reduzidos.
Quando existem são geralmente a família e a escola.
Na maioria das vezes a família fragilizada por falta de atendimento ou de
informação, não conseguem proporcionar adequadamente oportunidades para ampliar
o desenvolvimento. O mesmo ocorre com as escolas quando não têm o profissional
capacitado, currículo e metodologia adequados a esse atendimento.
Quando falamos da educação e socialização de crianças surdocegas, pré-
lingüísticas e pós-lingüísticas, os educadores e a família precisam ter uma mudança de
paradigmas relativas ao papel da escola.
O Cidadão Surdocego: Socialização e Escolaridade
Para a maioria dessas crianças, a prioridade básica não é o acesso à leitura e à
escrita na sua forma mais tradicional. Isso não quer dizer que a escola não deva
representar um local de aprendizagem efetiva. Mais que definir "o que" se vai ensinar,
é importante se definir "como" se vai organizar o processo de aprendizagem.
Nesse sentido, é importante haver um modelo no qual os objetivos são
selecionados de acordo com as necessidades específicas de cada aluno (abordagem
funcional), em oposição a um modelo no qual a progressão a seguir na definição dos
objetivos é determinada pelas normas do desenvolvimento padrão (abordagem do
desenvolvimento).
O objetivo será, assim, responder às necessidades individuais de cada aluno,
numa perspectiva de sucesso, e não considerá-lo de princípio um aluno potencialmente
fracassado devido ao conceito de sucesso que se estabelece para a média dos que
freqüentam a escola.
Sendo assim, é importante lembrar quais as áreas a se desenvolver (funcional),
e não quais áreas a estimular (desenvolvimento). As áreas funcionais mais básicas
partirão do estabelecimento de programas educacionais para os surdocegos como:
Socialização, Comunicação e Autonomia.
Socialização
A socialização é um processo de progressiva adaptação das crianças ao mundo
que as rodeia. As crianças surdocegas pré-lingüísticas estão, nesse aspecto,
desfavorecidas por fatores que decorrem da menor capacidade de exploração do
ambiente devido às graves perdas visuais e auditivas.quando não ocorrem dificuldades
motoras.
Têm menor oportunidade de interação resultante da falta de exposição a parceiros
diferenciados, com menor exposição a ambientes diversificados.
Para solucionar esses aspectos, seria necessário tornar premente a criação de
programas de intervenção. Assim a escola poderia ser um local privilegiado para dar
respostas a essas necessidades, dada a diversidade e freqüência de contatos que pode
proporcionar:
A escola poderá:
© facilitar o contato com outros alunos proporcionando a convivência entre pares:
no recreio, na sala de aula, no playground, na oficina de artes, no refeitório e
outros ambientes;
© dar a oportunidade de participar com outros alunos nas saídas externas, como
parque, Mc Donald's, Habibs e outros;
© organizar as atividades de forma que os contatos com as outras pessoas sejam
facilitados;
© criar interações com pessoas e ambientes para ampliar as experiências, como
por exemplo, ir no supermercado, banca de jornais, igreja, mercearia e outros;
© participar de atividades na comunidade, como ir à feira livre, à padaria para
comprar pão, ir a praças públicas ou parques no quais possam ter alguma
atividade em grupo;
© criar programas para favorecer a recreação e o lazer;
© orientar os integrantes da escola a se comunicar adequadamente com os
surdocegos.
Comunicação
"A comunicação é um processo complexo
de transferência de informação
utilizado pelos indivíduos
para influenciar o comportamento de alguém".
Oulovove e Sobsuy-1991
Sendo a aprendizagem um processo de apropriação e gestão de informação, é
fundamental para sua efetivação que o surdocego pré ou pós-lingüístico tenham
meios para transmitir e receber informações.
Para eles essa necessidade da troca de informações freqüentemente é menor,
pois, "com quem se comunica nem tem assunto sobre o qual comunicar", decorrendo
assim a "falta de razão para se comunicar".
A escola e a família deverão proporcionar a comunicação, considerando os
aspectos citados acima, dando-lhes a oportunidade comunicativa, na qual o surdocego
não seja apenas um executor de comportamentos potencialmente comunicativos ,
mas funcione como um interlocutor.
Sendo assim, não devem apenas estabelecer as formas de comunicação (objetos
de referência, pistas, desenhos, fala, gestos naturais, tadorna e outros), mas
proporcionar-lhes o aumento de funções comunicativas (pedidos, negação, afirmação,
comentários, perguntas, etc.) e levar sempre em consideração as capacidades
individuais do aluno para a escolha da forma, e ampliar os contextos (conjunto definido
pelo local, atividades e pessoas envolvidas).
Alguns assuntos práticos:
- criar atividades diversificadas que proporcionem informação e levem à
necessidade de comunicar coisas sobre elas;
- identificar a(s) pessoa(s) com quem se comunica através do nome, gesto, objeto
de referência, etc;
- estruturar as ações no tempo de forma sistemática a fim de possibilitar a
antecipação de acontecimentos, como por exemplo, lavar as mãos antes de
comer, colocar a mochila antes de ir para casa, etc;
- organizar o tempo por meio de calendários diários em que sejam indicadas as
atividades ao longo do dia e a seqüência, que serão desenvolvidas;
- dar tempo para que o surdocego tenha iniciativa e para que responda a novas
iniciativas;
- responder positivamente a qualquer comportamento que possa ser interpretado
como comunicativo;
- ter cuidado com a quantidade e a forma de apresentação da informação; às
vezes os excesso de informações cria confusão para os surdocegos.
Autonomia
O conceito de autonomia refere-se à "capacidade de realização de todas as
atividades necessárias à vida normal as quais terão que ser feitas por alguém quando
o aluno não é capaz de realizá-las de forma independente". Loui Brown (1986).
Os surdocegos têm a sua autonomia básica prejudicada devido às limitações
sensoriais, motoras e às vezes cognitivas que apresentam. Dependem freqüentemente
de adultos para a realização de atividades básicas da vida diária e para tomada de
decisões relativas a assuntos que lhes dizem respeito.
E importante a noção de participação parcial (processo através do qual é dada
ao surdocego a possibilidade de realizar alguns passos da atividade a cumprir ,com ou
sem ajuda, na ausência da possibilidade de realização da tarefa). É necessário definir
a participação possível em cada atividade, com ou sem ajuda, visando a diminuir a
dependência relativa ao adulto.
Proporcionar:
- situações de alimentação na qual possa comer sozinho (ou com pouca ajuda),
em vários locais;
- realização de atividades normais de higiene (lavar as mãos, tomar banho, escovar
os dentes, fazer a barba, etc);
- independência para o uso do banheiro;
- formas de comunicação para ser capaz de pedir ajuda, quando não consegue ser
independente, ou chamar a atenção, recusar ou pedir mais;
- conhecimento dos espaços em que dos quais participa, está envolvido;
- ajuda mínima para que se desloque em espaços conhecidos.
Referências bibliográficas:
* Alunos com multideficiência nas escolas de ensino regular. Isabel Amaral e Fernando
Ladeiro-Ministério da Educação de Portugal.
* Programa de Capacitación e guías-intérpretes empíricos para personas sordociegas
- Maria Margarita Rodrigues Plazas.
*Modelo Ecológico de Bronfenbrenner - Curso pós-graduacão de Educadores - Isabel
Amaral-Mackenzie-2001.
*Cartilhas informativas do Grupo Brasil de Apoio ao Surdocego e ao Múltiplo
Deficiente Sensorial.
O Cidadão surdocego: Socialização e Escolaridade
Márcia Regina Gomes*
Professora do INES, especializada na Educação de Surdocego
na Perkins School for the Blind, Boston, EUA
O trabalho com crianças surdocegas no Instituto Nacional de Educação de
Surdos, tal qual vem acontecendo, é muito recente. Foi reiniciado em abril deste ano,
fazendo parte de um projeto maior de atendimento a alunos surdos com dificuldades
de acompanhamento da rotina pedagógica nas salas de aula e/ou com outros
comprometimentos. Cabe lembrar que entre os anos de 1994 e 1997 houve a tentativa
de implementação de um projeto de atendimento a três crianças surdocegas que já
estavam freqüentando a estimulação precoce do INES e que necessitavam de um
trabalho mais específico. Esse trabalho, no entanto, não teve continuidade.
A procura cada vez maior de crianças surdas com dificuldade de aprendizagem
e/ou outros comprometimentos em busca de escolaridade no INES fez com que fosse
criado um espaço alternativo de atendimento, a essas crianças. Nesse novo espaço, o
foco do trabalho está mais centrado naquilo que elas podem oferecer do que em suas
limitações. Esse projeto se materializou no Centro de Atendimento Alternativo
Florescer - CAAF, que além de oferecer um trabalho pedagógico mais centrado no
aluno, visa, também, ao atendimento terapêutico.
O INES é uma instituição que se caracteriza por sua especialidade na área da
surdez, sendo, portanto, considerada "escola especial". Ainda assim o ingresso,
principalmente, dos alunos surdocegos, vem causando muita estranheza e dúvidas
em colegas, alunos, pais de surdos e visitantes da comunidade de maneira geral.
No decorrer desse tempo de trabalho, muitos questionamentos me vêm sendo
feitos, muitos olhares indagativos me vêm sendo dirigidos quando circulo com meus
alunos surdocegos pelas dependências do INES. Dentre as muitas perguntas, cito
algumas:
• Por que você só tem um aluno?
• Por que não cumpre o horário normal de turno da escola?
• Quando você irá juntá-los para formar uma turma e iniciar o processo de
alfabetização?
• como você se comunica com eles?
• Por que eles se sentam no meio do corredor e ficam fazendo movimentos
estranhos com as mãos diante da luz?
• O que é que você fez andando de um lado para o outro com essa criança?
• Você os está "treinando" em algumas tarefas?
É, portanto, a partir daí que venho fazer algumas considerações sobre crianças
surdocegas e sua educação na tentativa de levar ao público em geral algumas informações
que possam diminuir o isolamento dessa parcela da população.
De acordo com a Lei Federal americana, Polices and Procedures ( 1968) "... o
termo "criança surdo-cega " se refere à criança que possui ambos os prejuízos
(visual e auditivo), cuja combinação causa tal severidade na comunicação e em
outros aspectos do desenvolvimento da pessoa, além de problemas educacionais,
que não podem propriamente ser atendidos em programas educacionais especiais
para deficientes auditivos nem para deficientes visuais. " (p. 1)
Segundo Nam Robbins (1970), o termo surdocego nao é primariamente uma
classificação sensorial, mas principalmente uma classificação educacional, em função
do alto grau de complexidade das desordens auditiva/visual/comunicativa, que acarreta
a necessidade de um programa de atendimento individualizado.
Sabemos que para o ser humano a audição é um dos principais canais de
informação. Os problemas que advem de sua falta não se limitam apenas à ausência da
fala. Traz como conseqüência questões relativas à formação de conceitos e capacidade
de abstração, à personalidade, aos sentimentos de identificação e à integração social
(Fernandes, 1989).
Os primeiros anos de vida de uma criança determinam a visão de mundo externa
e interna do indivíduo. Essa construção de mundo é determinada principalmente pela
linguagem e tôda carga social que ela traz nas primeiras interações com a mãe (Goldfield,
1997).
No caso do surdo, então, é no visual que ele vai buscar tôda a relação com o
mundo exterior. Quanto às pessoas cegas, ou com perda visual severa, é a audição,
quando bem estimulada, que funcionará como o sentido de distância, que vai permitir
ao indivíduo buscar a relação com o meio ao seu redor.
A visão é o sentido que nos põe em contato com o meio ambiente de uma forma
global. A perda desse sentido implicará, a necessidade de uma reorganização perceptiva
na criança. Tudo que é percebido pela visão terá que ser adquirido por meio de
experiências táteis-cinestésicas, olfativas, gustativas e auditivas.
A criança cega não é capaz de apreender os objetos em sua totalidade; ela
precisará explorar parte por parte para formar a imagem do todo, e isso se dará por
meio da manipulação dos mesmos. As informações que recebe ficam limitadas, por
não conseguir perceber a profundidade, complexidade ou a totalidade que são a essência
do objeto (Lowenfeld, 1981).
Levando-se em conta as reflexões acima, podemos entender que se uma criança
com perda visual severa vê somente parte das coisas ou as vê como uma neblina, e,
ainda, não tem nenhum apoio verbal para distinguir o que vê, seu mundo pode
resultar num caos. Geralmente experimentam um mundo imprevisível e ameaçador,
ficando envolvidas em seu próprio corpo. Os objetos e pessoas não existem como
tais, mas para serem utilizados de uma forma peculiar (Freeman, 1985).
O contato é quase sempre o principal problema com as crianças surdocegas.
Elas não demonstram muito interesse pelo mundo exterior. como afirma Van Djik
(1968) "O surdocego habita um mundo de sensações táteis, de vibração, em um
universo de movimentos profundamente exteriotipados. Suas experiências e
significados são limitados."
Ao considerarmos que o mundo das crianças surdocegas é inicialmente muito
limitado e que para os totalmente cegos e profundamente surdos o mundo se estende
até onde os seus dedos alcançam, podemos entender o quão sozinhas estarão se não
as colocarmos em contato com os objetos e as pessoas que as cercam. Portanto, de
maneira geral, essas crianças necessitam de uma pessoa de seu ambiente que organiza-
lhes e interprete o mundo. Os conceitos sobre o mundo vão depender do que e de
com quem elas terão a oportunidade de estar fisicamente em contato.
Se a criança que é surdocega tem audição e/ou visão funcional, seu mundo
poderá ser ampliado. Muitas crianças chamadas de surdocegas têm visão suficiente
para se mover em seus ambientes, reconhecer pessoas e familiares, ver a língua de
sinais em uma pequena distância e, talvez, 1er a escrita ampliada. Outras têm suficiente
audição para reconhecer sons familiares, entender alguma fala ou desenvolver a própria
fala.
O maior e mais complexo desafio com que nós professores e familiares de
crianças surdocegas nos deparamos é o da comunicação. uma comunicação significativa
o suficiente para que elas tenham o desejo de se comunicar. Isso vai depender da
relação de confiança que se estabelecer entre esses pares e, também, da informação
que proporcionarmos a elas.
As pessoas que pertencem ao ambiente das crianças precisarão incluí-las,
momento a momento, na rotina de suas vidas e no ambiente físico que as cercam. Se
isso não acontecer, elas ficarão isoladas e não terão a oportunidade de crescer e
aprender.
As atividades como alimentação, banho, uso do banheiro, brincadeiras no
balanço, gira-gira e outras são em geral o ponto de partida para se estabelecer uma
comunicação significativa. Em outras palavras, são atividades que têm a função de
suprir necessidades primárias do ser humano e, portanto, de seu interesse, e assim
podem oferecer as possibilidades de respostas aos estímulos apresentados.
E importante lembrar que a comunicação implica interações com pessoas e
objetos e envolve ações, palavras, sons, gestos, posturas, expressões corporais... - é
o modo como o ser humano se comunica. O comportamento motor usado para
responder aos estímulos recebidos pode ser tão sutil como uma piscada de olho ou
expressão facial ou então ser tão explícito como a palavra falada ou língua de sinais.
como a isso se refere Bloom (1990), todos os indivíduos, independentemente de
suas dificuldades (cognitivas, físicas e/ou sensoriais), têm capacidade para desenvolver
competências comunicativas.
Considerando esses aspectos, a observação atenta às reações da criança surdocega
diante de uma atividade é crucial para o desenvolvimento de suas competências
comunicativas, levando-se em conta, evidentemente, suas limitações, e usando-se
formas alternativas de comunicação que vão desde objetos concretos que representam
as atividades até a língua de sinais ou a fala, passando por desenhos, gestos, datilologia,
tadorna, braile, letras de imprensa, para falar dos mais conhecidos, além de outras
alternativas tecnológicas utilizadas, particularmente por surdocegos adultos.
Outro aspecto importante é o tempo de pausa para a troca de turno na
conversação com essas crianças, visto que, freqüentemente, levam um tempo um
pouco mais prolongado para dar suas respostas. O respeito por esse tempo é
fundamental para se estabelecer uma interação de fato. Ao se sentir confortável em
uma interação não verbal com o adulto, a criança surdocega construirá uma relação de
confiança que se tornará a base para a linguagem, estando pronta para receber uma
forma de comunicação mais simbólica como parte dessa interação.
Tôda e qualquer atividade deve estar repleta de intenções comunicativas. Nós,
professores e familiares dessas crianças, devemos promover oportunidades naturais
para expandir, a sua capacidade comunicati v\a, levando em conta a sua forma individual
de se expressar. Caso contrário, as crianças surdocegas estarão sendo apenas
"treinadas" em algumas tarefas não lhes estaremos dando oportunidade para expressar
seus desejos, protestos, sentimentos, escolhas, enfim , interferir no meio ambiente,
exercendo, assim, um maior controle sobre o mesmo.
como informam McLetchie e Amaral (s/d), muitas crianças surdocegas não
possuem a capacidade de desenvolver a fala ou a Língua de Sinais como modo de
comunicação. Contudo, outras formas de comunicação podem e devem ser utilizadas,
de modo a dar-lhes a possibilidade de terem mais controle sobre suas vidas.
A comunicação é, portanto, o centro de todo o trabalho com crianças ou jovens
surdocegos, devendo constituir-se em prioridade número um na lista de objetivos a
serem alcançados durante todo seu processo educacional visto que possibilita a
melhoria de sua qualidade de vida.
Educação para crianças ou jovens surdocegos precisa e deve ser altamente
individualizada, pois os limitados canais viáveis para o aprendizado necessitam de
um programa organizado para cada criança, em que o caminho a ser proposto deverá
estar de acordo com seu próprio interesse. Os objetivos devem ser funcionais, a
criança deve estar motivada e ter razões para participar das atividades. Os objetos
devem ser usados pelas crianças desde que possam fazer algo com eles - devem ter
uma função. Quanto mais funcional o ensino, tanto maiores serão as possibilidades
de êxito da criança, pois mais facilmente compreenderá seu significado. E importante
ressaltar que além de funcionais, as atividades devem ser ensinadas em seus contextos
naturais, para que tenham significado.
Para que possamos analisar a funcionalidade desses objetivos, devemos nos
propor a responder as seguintes questões:
• Por que a criança precisa aprender isto?
• Será relevante para sua vida futura?
• É uma prioridade educacional?
• Promove sua autonomia?
Ensinar e aprender são coisas de todos os dias, fazem parte da vida diária de
cada um. Todos nós aprendemos a comer, a vestir, a andar, a falar e a ir ao banheiro.
As crianças surdacegas também precisam aprender essas coisas, aprendê-las como
nós, por meio da experiência, mediada e estimulada pelos adultos que as acompanham
e, assim, essas experiências se tornarão experiências de aprendizagem.
Para a organização de um programa individual, é necessário que nos esforcemos
por conhecer a pessoa que constitui o centro do processo de Planificação, de forma a
compreendermos como é a sua vida atual e o que será importante para sua vida futura.
Além disso, devemos aprender a adaptar instrumentos e a inventar estratégias que
dêem respostas eficazes a cada situação individual.
A escolarização de crianças e jovens surdocegos, portanto, irá depender do
esforço e sensibilidade das pessoas em considerar com respeito a singularidade desses
sujeitos. Não se deve buscar um padrão de comportamento o que se deseje alcançar,
mas sim um olhar mais atento àquele sujeito que temos diante de nós, para podermos
enxergar as suas possibilidades e, a partir delas, promover ao máximo o
desenvolvimento de uma comunicação adequada para melhorar a qualidade e quantidade
de interações com o meio e as pessoas, possibilitando assim a sua autonomia.
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ONCE.
Bioética _ Surdez
SURDEZ TAMBÉM uma DIVERSIDADE GENÉTICA
Prof. Edi Lucia Sartorato
Geneticista - UNICAMP/SP
A deficiência auditiva neurossensorial está presente em cerca de 1 em cada
1000 crianças, e em muitos casos é difícil estabelecer sua origem. Isso se deve a sua
grande diversidade etiológica, e também ao fato de ouvido interno ser inacessível a
procedimentos diagnósticos discriminantes.
Em uma porcentagem variável de casos, segundo a população estudada, a
etiología é claramente ambiental, decorrente de fatores pré, peri ou pós-natais. Entre
os casos de etiología genética, podem-se distinguir aqueles em que a deficiência
auditiva é parte integrante de um quadro sindrômico, e aqueles em que ela se apresenta
de forma isolada. Estima-se que 30% dos casos de surdez pré-lingual sejam sindrômicos
e 70% não-sindrômicos. Finalmente, para uma parcela significativa dos casos não é
possível chegar-se a um diagnóstico etiológico, com prejuízo evidente do
aconselhamento genético - nesses casos, o risco empírico de recorrência é estimado
em 10%.
Em países desenvolvidos, tem-se estimado que cerca de 60% dos casos de
surdez pré-lingual têm bases genéticas. Além disso, 1/1000 crianças tornam-se surdas
após a aquisição da linguagem, ou seja, no período pós-lingual, formas essas
freqüentemente menos graves e progressivas.
A surdez não-sindrômica é quase exclusivamente monogènica e altamente
heterogênea. Acredita-se que mais de 100 genes possam estar envolvidos na deficiência
auditiva não-sindrômica. Ela pode se apresentar com vários padrões de herança,
ligadas ao cromossomo X (DFN) em 1 NY 3% dos casos, formas autossômicas
NYdominantes (DFNA) em 15% e formas autossômicas recessivas (DFNB) em
85%. Além disso, existem os casos com herança materna devido a mutações em genes
mitocondriais.
Até o momento, com relação às formas não-sindrômicas de surdez,
aproximadamente 60 loci foram mapeados, 16 genes nucleares e 2 genes mitocondriais
foram clonados (http://dnalab-www.uia.ac.be/dnalab/hhh/'). Não surpreende a
quantidade de loci envolvidos no fenotipo da surdez, se considerarmos que a còclea é
um dos órgãos mais complexos do ser humano. como responsável pela audição, esta
utiliza-se de aproximadamente 16.000 células sensoriais ciliadas que dependem, para
seu bom funcionamento, de despolarização da membrana celular e transdução
mecanoelétrica, liberação da transmissão e transporte de íons, entre outros eventos.
Embora não se saiba com exatidão o número de loci envolvidos na surdez com
etiología não esclarecida, é certo que a recente comprovação de que mutações no gene
da conexina 26 (GJB2 ou Cx26) estão envolvidas em 80% dos casos de surdez pré-
lingual não-sindrômica de herança autossômica recessiva mudou a prática do
aconselhamento genético nessa área. Em particular, a mutação 35deIG está presente
em 70% dos casos em que esse gene está envolvido, e tem sido também detectada em
casos aparentemente esporádicos de surdez. Quando se considera indivíduos com
surdez hereditária e esporádica, a freqüência relativa da mutação 35delG tem sido
estimada em 40% sendo assim, uma alta freqüência de portadores heterozigotos é
esperada.
Estudos preliminares em uma amostra de recém-nascidos brasileiros indicaram
uma freqüência de heterozigotos de 1 em 100. Em vista da heterogeneidade da
população brasileira, essa freqüência deve variar de acordo com a região do país, na
dependência de sua composição étnica e do fluxo gènico recebido de populações
migrantes, em particular aqueles oriundos de países da Europa, onde a freqüência de
heterozigotos da mutação 35delG é, em média, de 1 em cada 51 indivíduos.
O rastreamento da mutação 35delG pode ser realizado em recém-nascidos na
ocasião da coleta de sangue para o "teste do pezinho" (triagem neonatal de
hipotireoidismo e fenilcetonúria). A detecção da referida mutação pode ser feita por
meio de uma simples gota de sangue; sendo assim, não haverá procedimento invasivo
para o bebê. No caso da detecção de homozigotos ou heterozigotos para a mutação,
é indicado o aconselhamento genético da família, assim como o fornecimento de todas
as informações pertinentes para auxiliar a criança, seja com relação à reabilitação e/ou
decisões associadas ao risco futuro de recorrência da mutação nos descendentes,
principalmente considerando-se que a mutação 35delG, em homozigose, pode
determinar no indivíduo deficiência auditiva em graus variáveis, podendo ser ausente
ou leve a profunda, ao nascimento.
Os protocolos de avaliação da surdez pré-lingual variam amplamente entre
pediatras, otorrinolaringologistas, geneticistas clínicos, neurologistas e outros
profissionais da área médica, dificultando ainda mais o estabelecimento de um
diagnóstico etiológico. A incorporação de métodos moleculares rápidos e precisos os
estudos epidemiológicos da prevalência de determinadas mutações devem tornar a
investigação e o desenvolvimento de pesquisas nessa área mais direcionadas e
homogêneas com relação aos mecanismos envolvidos em distintas formas de surdez.
Bioética - Surdez
AUTONOMIA REPRODUTIVA E JUSTIÇA: UM ESTUDO SOBRE A SURDEZ
Debora Diniz
Antropóloga, Doutora em Antropologia, Diretora da Organização Não-
Governamental Anis: Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero
Professora de Bioética do Mestrado em Psicologia da Universidade
Católica de Brasília - [email protected]r
O princípio ético da autonomia reprodutiva é um dos eixos fundamentais das
teorias bioéticas. O respeito à autonomia reprodutiva das pessoas garante o livre
exercício dos direitos reprodutivos em uma sociedade democrática. As técnicas de
diagnóstico pré-natal e o avanço da genética vêm ampliando o leque das possibilidades
de escolha reprodutiva, permitindo, por exemplo, a seleção em casos de diagnóstico
de má-formação fetal. Neste artigo, o caso da surdez será analisado, considerando-se
suas particularidades sociais e éticas.
Palavras-chaves
Autonomia Reprodutiva - Justiça - Surdez - Genética
Reproductive autonomy and Justice:
deafness in question
The ethical principle of the reproductive autonomy is one of the fundamental
points of the bioethical theories. The respect to the reproductive autonomy of persons
is a guarantee to the free exercise of the reproductive rights in a democratic society.
The prenatal testing diagnoses and the new genetics have been empowering the menu
of choices, allowing the future couple, for example, to select the embryo in the cases
of fetal diseases. In this paper, the deafness arguments will be discussed, pointing the
social and ethical particularities of the deafness.
Key-words
Reproductive Autonomy - Justice - Deafness - Genetics AUTONOMIA
O final do século XVIII foi um marco para o debate da educação de surdos. Foi
nesse período que escolas rivais, oralistas e manualistas, firmaram posições
pedagógicas e políticas distintas. Alexander Graham Bell foi uma figura proeminente
nesse debate, tendo sido um defensor do ensino da linguagem oral, reservando severas
críticas ao uso da linguagem dos sinais como a língua natural dos surdos. Para Bell,
assim como para grande parte dos educadores oralistas, o aprendizado da linguagem
oral permitiria aos surdos a integração social, rompendo a barreira lingüística entre
ouvintes e surdos. Bell justificava sua resistência à criação de escolas especiais para
surdos, onde apenas se utilizaria a linguagem dos sinais, pelo risco de formarem-se
comunidades surdas com tendência ao casamento endógamo, tornando possível "...a
formação de uma variedade surda da raça humana...". O receio de Bell era não apenas
o da formação de uma colônia de surdos dentro da sociedade nacional, a exemplo do
que ocorre com inúmeras comunidades de imigrantes, mas, principalmente, a de que
os surdos constituíssem a alteridade absoluta, a variação não-ouvinte da espécie
humana.
Essa fantasia de criação de um novo humano a partir de uma natureza não
prevista, mas passível de ser dominada, não ficou restrita aos ideais pedagógicos de
Bell. A história social da surdez mostra quanto os surdos, e mais recentemente a
comunidade de surdos, vêm sendo alvo de controle e ordenamento médicos, exatamente
por desafiarem os limites normativos do normal e do patológico. A história da educação
de surdos oscila entre mudanças nas técnicas pedagógicas e manifestações de identidade
cultural, um indício da dificuldade de se definir socialmente a surdez. E é exatamente
dessa tensão entre argumentos de anormalidade física e normalidade cultural que o
discurso genético sobre a surdez emerge, tornando-a um caso-limite que desafia a
compreensão ética. A resistência que as comunidades surdas, especialmente norte-
americana e inglesa, vêm apresentando à nova onda de medicalização da surdez com
a genética é um caso exemplar da dificuldade de se estabelecerem parâmetros claros e
definidos para o que caracterizaria o patológico na diversidade humana.
Nesse sentido, a surdez entendida como o paradigma da resistência dos
movimentos de deficientes à medicalização da vida social não é uma novidade da
medicina genética. A genética, e especialmente o ethos do aconselhamento genético
reprodutivo, em que neutralidade e imparcialidade éticas são valores dominantes,
potencializa valores e atitudes sociais relacionados à surdez, ao mesmo tempo em
que a surdez desafia a eficácia desses princípios éticos. Casos como os relatados por
Dena Danis, Ronald Green ou Harlan Lane, em que famílias e comunidades de surdos
anunciam suas preferências por embriões surdos em detrimento de embriões ouvintes,
provocam os limites do modelo ético dominante na genética, que defende a soberania
da autonomia reprodutiva das pessoas.
Mas nem sempre a genética promoveu a autonomia reprodutiva como princípio
ético norteador de sua prática. Desde a história da medicina nazista e dos movimentos
higienistas que marcaram o início do século XX, a genética se viu ligada a ideologias
eugênicas de intolerância frente à diversidade, tendo sido preciso reformular por
completo seu discurso e prática médicas para que voltasse a conquistar a confiança e
a respeitabilidade social. O fantasma da eugenia como sinônimo de intolerância e
opressão moral ainda rondam a genética contemporânea, muito embora haja uma
razoável distância entre o que caracterizou a prática clínica e de pesquisa da genética
nazista e os dilemas morais decorrentes das recentes pesquisas genômicas.
Diferentemente do passado, quando famílias de surdos eram arbitrariamente
esterilizadas ou mesmo crianças surdas eram transformadas em cobaias de pesquisa,
os dilemas atuais impostos pela genética clínica são de outra ordem. Talvez o tema
ético seja o mesmo - o respeito à autonomia reprodutiva - mas certamente o conteúdo
do conflito agora é outro. O avanço das técnicas de diagnóstico pré-natal, a partir do
mapeamento genético de síndromes causadoras da surdez, associado ao sentimento
de orgulho pelo pertencimento à comunidade surda, fizeram com que o desejo pelo
filho surdo passasse de expectativa do acaso à possibilidade de seleção. O avanço nas
técnicas de mapeamento genético, além da segurança de diagnóstico, tornou possível
algo considerado impensável há algumas décadas: a possibilidade de afirmar, por
meio da ciência, a preferência pelo surdo. A diferença para o passado é que antes se
discutia a importância do reconhecimento da autonomia reprodutiva aos surdos, uma
vez que os mesmos eram considerados indesejados para a ordem moral. Hoje, se
enfrenta a dúvida sobre a imposição ou não de limites ao exercício da liberdade
reprodutiva de comunidades surdas que defendem a preferência por embriões surdos
em nome da adequação familiar e cultural. Em certo sentido, seria possível dizer que,
no campo da genética reprodutiva, as comunidades de surdos, passaram, de vítimas,
ao banco dos réus.
O Fim da Inocência Genética
Dilemas morais semelhantes a esse provocado pelas comunidades de surdos
não são fatos raros na vida coletiva. Tampouco são meros resultados do avanço
biotecnológico da medicina, como sugerem os mais resistentes à medicalização da
sociedade. Alguns temas em pauta, como a moralidade do aborto ou a moralidade
sexual, são anteriores às pesquisas genéticas. Na verdade, o que há por trás dessa
controvérsia são diferentes maneiras de entender e qualificar o humano, a partir de
também diferentes perspectivas sobre o que determina a qualidade de vida e o bem-
viver. A dificuldade, no entanto, não está em reconhecer a pluralidade moral da
humanidade, mas sim em encontrar mecanismos norteadores para essa diversidade,
que, muitas vezes, elege princípios e valores incompatíveis entre si. E é exatamente
nesse sentido que o confronto entre as comunidades de surdos, com seu apelo pela
seleção de embriões surdos, e as comunidades de ouvintes, que resistem em reconhecer
a legitimidade dessa escolha, torna-se um caso paradigmático de exercício ético.
Não há dúvidas de que a idade da inocência genética não mais existe. Posições
de resistência ao uso e à popularização da genética não vêm sendo fortes, tampouco
consistentes o suficiente para romper com a lógica que assegura a necessidade social
da informação genética para a promoção do bem-estar. A possibilidade de conhecer o
pedigree genético de um embrião não é somente uma novidade tecnológica da medicina,
mas uma prescrição para os futuros pais que reconhecem nessa informação uma
vantagem adicional para suas decisões. Admitir essa inércia social frente à ciência não
é o mesmo que assumir uma relação de resignação passiva ao seu avanço e,
principalmente, às conseqüências sociais, políticas e éticas de seu uso. A genética
reprodutiva, ao permitir que os futuros pais recebam informações sobre o estado do
embrião antes de seu nascimento, ampliou o leque de possibilidades de escolha, o que
para muitas pessoas é um grande benefício. Tanto não é desejável que se soneguem
informações já disponíveis - o que eticamente é diferente do exercício do direito de
não ser informado - quanto é impossível atravancar o avanço científico por medo das
preferências pessoais. É fundamental que se forme um debate público, amplo e
irrestrito, entre cientistas e leigos, sobre a genética e seu impacto, considerando-se ao
mesmo tempo o comprometimento com os princípios da justiça e da liberdade
individual.
Os testes genéticos para diagnóstico preditivo passam gradativamente a compor
a rotina de um bom pré-natal, especialmente entre famílias com acesso aos melhores
serviços de saúde. Em certo sentido, pode-se considerar, como sugerem Erik Parens
e Adrienne Asch, que os testes genéticos serão uma extensão lógica das ofertas de
exames pré-natal que asseguram a saúde do feto. Mas, se por um lado, essa lógica se
justifica pela segurança de diagnóstico que os exames propiciam, por outro, a dúvida
sobre o impacto moral da informação genética é ainda inquietante. E é exatamente
nessa tensão entre informação genética e escolha moral que o exame genético para
detectar a predisposição à surdez encontra-se imerso. Para a maioria das pessoas,
surdez é sinônimo de uma grave e limitante deficiência, ao passo que, para outros, a
impossibilidade de escutar exige apenas uma reestruturação da ordem lingüística. A
depender do ponto de partida moral sobre como se define a surdez, se como uma
patologia genética indesejável ou como uma variação cultural, as escolhas familiares
frente à informação genética serão radicalmente diferentes.
O curioso é que o avanço científico que mapeou alguns dos traços genéticos
para a surdez não supunha a seleção positiva dos embriões surdos, tal como proposto
pela comunidade surda. Muito provavelmente, as pesquisas sobre as causas genéticas
da surdez possuíam dois grandes objetivos: 1. conhecer as configurações genéticas da
surdez, com vistas ao desenvolvimento de tratamentos e curas; 2. na ausência de
tratamentos e curas, permitir que futuros pais selecionassem negativamente os
embriões portadores de genes para a surdez. Ou seja, como conseqüência natural do
diagnóstico genético embrionário para a surdes esperava-se o aborto seletivo. Muito
embora a opção pela interrupção da gestação seja a saída mais comum e amparada
pelo ethos do aconselhamento genético que assume posicionamentos não restritivos
frente ao aborto, a seleção positiva dos embriões surdos trouxe o tema da justiça para
o campo do debate ético em genética reprodutiva.
Cultura Surda
Em março de 2001, Jeff McWhinney, diretor executivo da Associação Britânica
de Surdos, iniciou seu pronunciamento sobre o tema da genética e da surdez com a
seguinte afirmação: "...a comunidade surda é uma comunidade orgulhosa de si.
Orgulhosa de sua cultura, orgulhosa de sua história e orgulhosa de sua linguagem. Nós
temos todos os direitos de ser orgulhosos. Nós sobrevivemos a várias tentativas de
estigmatização, de opressão e mesmo de eliminação de todos nós...". O orgulho a que
se referia McWhinney é o de se reconhecer como uma comunidade, em que a linguagem
dos sinais é o ícone de sua cultura. Para os que defendem a idéia da cultura surda, entre
surdos e ouvintes, o que existe é uma fronteira traçada pela audição, ou seja, nada que
justifique o confinamento dos surdos ao estigma social do patológico ou do anormal,
um traço passível de ser medicalizado ou curado. Os surdos se comparam às
comunidades de imigrantes, sugerindo uma diferença de grau no fato de o bloqueio
lingüístico ser devido a uma limitação física e não de aprendizado. Em 1890, um
instrutor de surdos, durante um congresso sobre a importância da linguagem dos
sinais, comparou a dificuldade expressiva dos surdos à de imigrantes chineses recém-
chegados aos Estados Unidos, em um claro indício do suporte culturalista de sua
argumentação política.
Em linhas gerais, a comunidade surda fundamenta sua posição culturalista na
diferença que existe entre condição da surdez (incapacidade de ouvir) e sintoma social
da surdez (incapacidade de falar). Os surdos defendem que estariam sendo julgados
anormais pelo simples fato de não usarem a mesma língua que os ouvintes, ou seja,
por não serem bilíngües assim como os chineses do exemplo anterior. A demarcação
da fronteira entre condição e sintoma permite que se considere a surdez como um
caso limite da premissa de que a deficiência é uma condição antes social que física,
argumento fortemente defendido pelos teóricos do modelo social da deficiência.
Dado que não existe consenso sobre o status social da surdez entre surdos e
ouvintes, a pergunta feita por McWhinney durante seu pronunciamento - "...qual a
diferença entre escolher ter um bebê surdo e escolher um bebê ouvinte? A não ser que
se acredite que a vida de uma pessoa surda seja inferior à de uma pessoa ouvinte, tais
decisões deveriam ser tomadas sob as mesmas bases..." - retira o debate do campo
genético propriamente dito e o lança para o campo dos direitos sociais fundamentais.
Para McWhinney, assim como para inúmeros teóricos do modelo social da deficiência,
o problema não reside na moralidade do aborto, até mesmo porque grande parte deles
defende o direito de escolha, mas no argumento manifesto que o aborto seletivo
carrega consigo. Parens e Asch definem o argumento manifesto pela correlação que
existe entre os exames genéticos e a vida das pessoas portadoras de deficiências:
"...os testes pré-natais que selecionam negativamente traços genéticos de deficiência
manifestam uma atitude danosa sobre as pessoas portadoras de deficiência e enviam
mensagens danosas para as pessoas que vivem com esses traços...". No caso específico
da surdez, por exemplo, a crítica da comunidade surda ao argumento manifesto seria
o de que não sendo a surdez uma deficiência, mas uma restrição lingüística culturalmente
determinada, o aborto seletivo remete antes a valores sobre qualidade de vida do que
mesmo a restrições absolutas impostas pela surdez. Nesse sentido, não apenas a
comunidade surda se distancia dos outros movimentos de deficientes não se
reconhecendo como um deles, mas também se aproxima de outros movimentos sociais
que constróem seus discursos a partir da fronteira entre diferenças biológicas e
desvantagem social, tais como os movimentos de mulheres e anti-racistas.
Nos casos em que a surdez for considerada uma vantagem, estima-se que a
preferência por embriões surdos ocorrerá em dez por cento do total das famílias de
surdos, isto é, em famílias de futuros pais também surdos. Para essas famílias, a
certeza do nascimento de um filho surdo é um tranqüilizador para a estrutura familiar
e social, ordenada em torno da linguagem dos sinais. Ou seja, o princípio da busca do
semelhante, um valor para todas as políticas sociais de adoção, seria o motivo do
desejo de futuros pais surdos por embriões surdos. O nó da questão, no entanto, não
está no argumento culturalista utilizado pela comunidade surda, mas na própria
premissa cultural utilizada. O argumento contrário à possibilidade de seleção de
embriões surdos como garantia da identidade intrafamiliar não apenas desconsidera a
surdez como uma diferença cultural, classificando-a como uma patologia, mas também
se apoia em princípios éticos de justiça para criticá-la, uma vez que o debate ético
sobre autonomia reprodutiva no aborto não se torna capaz de mediar essa questão. O
tema-chave desse confronto entre autonomia e justiça é a pergunta de como as decisões
genéticas dos futuros pais podem expandir ou limitar as possibilidades futuras de
seus filhos, considerando que a surdez é uma condição física, até o momento,
irreversível.
Autonomia Reprodutiva e Justiça
"...Eu gostaria que minha filha fosse como eu, que ela fosse surda...". com
essas palavras uma mulher grávida, participante de um programa de televisão, descreveu
como imaginava sua filha ainda por nascer. Isso foi em 1989, quando não era possível
escolher a condição auditiva do embrião. Se no passado não havia como imputar
responsabilidade pelas heranças genéticas, tampouco era possível exercer com
criatividade o direito de escolha. O avanço da genética e, em especial, do projeto
genoma humano, vem produzindo um conjunto de informações que amplia o leque de
possibilidades de escolha para os futuros pais, fazendo com que a acusação de
irresponsabilidade genética comece a vigorar. Hoje, com o fim da inocência genética,
é preciso rever o princípio do exercício ilimitado da autonomia reprodutiva dos
futuros pais em situações em que suas escolhas impliquem danos irreversíveis e
graves para seus futuros filhos. A ignorância genética do passado era uma barreira
científica que protegia os futuros pais da crítica e da condenação moral, o que não é
mais possível com os atuais avanços na área.
Ronald Green, ao analisar a situação hipotética de um casal surdo que
deliberadamente escolhe um embrião surdo por meio de tecnologias reprodutivas,
sustenta a diferença entre direitos e obrigações no campo das decisões reprodutivas.
Segundo Green, esse é o exemplo de uma situação em que os direitos podem estar em
conflito com as obrigações. No intuito de mediar essa tensão entre direito e obrigação,
o autor sugere a seguinte norma de justiça: "...os pais têm a obrigação prima facie de
não permitir que a criança seja formada deliberadamente ou negligentemente com uma
saúde que resulte em sofrimento ou deficiência significativas, ou em reduções
significativas nas opções de vida, quando comparada a outras crianças com as quais
ela irá crescer...". Ou seja, a sugestão é de que se considerem as obrigações para com
os futuros filhos como balizador para o exercício da autonomia reprodutiva dos
futuros pais no campo da genética reprodutiva. Nesse sentido, os futuros pais têm a
obrigação de minimizar a loteria da natureza que, até pouco tempo, era considerada
indomável no campo da herança genética. Sendo assim, a escolha pelo embrião surdo
deveria ser considerada uma escolha irresponsável do ponto de vista genético, uma
vez que a decisão dos futuros pais determina uma restrição definitiva e absoluta das
possibilidades futuras de escolha pela criança. como resultado da preferência inicial
dos pais, a criança terá seu leque de oportunidades e escolhas definitivamente encerrado
nos limites da cultura surda. Em termos culturais, a escolha pelo embrião surdo
confina a futura criança ao grupo cultural de seus pais, uma decisão que deve ser
considerada, no mínimo, limitante.
Segundo um defensor da cultura surda, não deveria haver diferença entre prevenir
o nascimento de uma criança surda e prevenir o nascimento de uma mulher, de um gay
ou de um negro, uma vez que essas também são condições socialmente limitantes e,
ao contrário do aborto seletivo por determinação de sexo que é mundialmente
condenado, o aborto seletivo em casos de surdez é moralmente neutro ou mesmo
estimulado. Ora, muito embora este seja um argumento politicamente forte para o
movimento da cultura surda, é preciso reconhecer diferenças entre uma mulher surda
e uma mulher ouvinte. As restrições de oportunidade às mulheres surdas são
infinitamente maiores do que as impostas às mulheres ouvintes. O fato de existirem
restrições de acesso às oportunidades pelo simples fato de ser mulher é uma questão
básica de estrutura social discriminatória com relação às mulheres. Caso se extinguisse
a discriminação contra as mulheres, ainda assim as mulheres surdas sofreriam restrições
de oportunidades. E, nas palavras de Allen Buchanan, Dan Brock, Norman Daniels e
Daniel Wikler, essa é uma separação fundamental de ser feita, uma vez que "...tem
implicações importantes para como nós iremos enfrentar os custos para eliminação
das limitações de oportunidades que resultam do fato de ser surdo frente às limitações
sofridas por aqueles que são gays ou negros, por exemplo...". Ou seja, por um
princípio de justiça social, deve-se considerar que o resultado do exercício de
autonomia reprodutiva dos futuros pais surdos pode não apenas impor limitações
graves ão futuro da criança a ser gerada, mas também é preciso ponderar o esforço
social para que se compense essa desigualdade inicial entre surdos e ouvintes.
Reconhecer a irresponsabilidade genética dos futuros pais não é o mesmo que
proibi-los de realizar suas preferências reprodutivas. Para John Harris, confundir o
julgamento moral de um ato com sua proibição é uma falácia comum no campo da
ética reprodutiva. E possível, portanto, reconhecer a irresponsabilidade dos futuros
pais surdos em preferir embriões surdos em nome de seus referenciais culturais, mas
isso não significa que devamos impedi-los de tomar essas decisões. A passagem do
julgamento de um ato para sua proibição moral somente deve ser percorrida após um
longo e exaustivo debate público. Antes disso, é preciso que se discuta amplamente
como as decisões genéticas dos futuros pais podem expandir ou limitar as futuras
possibilidades de expressão de seus filhos e quais devam ser, se é que podem existir,
as restrições para o exercício da autonomia reprodutiva.
Escola Especial para Surdos
O modelo educacional Bilingüe no INES
Profa. Dra Lorena Kozlowski
Consultora do INES
O INES em 1999 iniciou um processo de revisão de seu modelo educacional
aplicado até então. Iniciou-se no início daquele mesmo ano um curso que tinha como
objetivo o estudo do modelo educacional bilingüe.
Foi dado início, então, a um curso com duração de oito horas mensais ministrado
a todos os professores e técnicos do INES. O objetivo era realizar um nivelamento de
todos os profissionais da instituição quanto ao conhecimento do que vinha a ser esse
novo modelo educacional proposto e ainda bastante desconhecido no Brasil: o
bilingüismo para o surdo.
Durante o ano foram então abordados os seguintes temas:
• aspectos neurolinguísticos da língua oral e gestual;
• modelos educacionais orais, gestuais e mistos na educação do surdo;
• o modelo bilingüe nas suas modalidades LI - Língua de Sinais e L2 - Língua
oral e/ou escrita;
• diferentes abordagens da L2: escrita e oral;
• discussão de casos clínicos.
Após a conclusão desse nivelamento, deu-se início no ano de 2000 a consultoria
propriamente dita, sob a responsabilidade da Profa. Dra. Lorena Kozlowski, cujo
objetivo era implantar no INES o modelo educacinal bilíngüe onde a L2 seria a língua
oral/escrita. Essa consultoria está em continuidade no ano de 2001.
A opção por esse modelo educacional deu-se pelo fato de que o INES reconhece
a importância da língua oral na comunidade brasileira, que não apresenta ainda estrutura
para receber um surdo adulto tanto no sistema educacional regular como na inserção
profissional, sem um nível mínimo de oralidade.
Falamos aqui de ORALIDADE e não ORALISMO, pois a oralidade pode ser
compreendida, por exemplo, como a capacidade de fazer leitura labial. Não nos
referimos aqui à oralização escravizante do surdo, como o modelo oral puro apresentou
durante um século.
A proposta bilíngüe não privilegia uma língua, mas quer dar direito e condições
ao indivíduo surdo de poder utilizar duas línguas; portanto, não se trata de negação
mas de respeito; o indivíduo escolherá a língua que irá utilizar em cada situação
lingüística em que se encontrar. Essa sua proposta leva em consideração as
características dos próprios surdos, incluindo a opinião dos surdos adultos com
relação ao processo educacional da criança surda (Kozlowski, 1998).
Muitas vezes a criança surda adquire a língua oral em função da sociedade em
que vive e isso pode ocorrer de diversas maneiras (educação oral, bimodalidade, etc).
Muitos só adquirem uma forma imperfeita dessa língua, mas podem ser considerados
1 Doutora em Ciências da Linguagem pela universidade de Sibonne, Francai Professora
titular da PUC - Paraná.
bilíngües mesmo não possuindo o domínio das duas línguas que praticam. Por razões
pedagógicas e culturais se justifica que, dentro de contextos educativos para crianças
surdas, seja reconhecida esta situação bilíngüe (Davies, 1991 ; Grosjean, 1992; citados
por Lepot-Froment, 1996).
O objetivo da educação bilíngüe da criança surda é dar-lhe uma situação de
desenvolvimento da linguagem dentro de um clima de comunicação efetiva.
A Língua de Sinais permite o restabelecimento dessa comunicação efetiva, que
é a base para todo o desenvolvimento da linguagem da criança. Em verdade, com a
Língua de Sinais partimos daquilo que é positivo na criança: sua capacidade de "falar"
através de um modo visual; é a partir do reconhecimento dessa capacidade que lhe
será dada a fala vocal. Porém, essa fala vocal é ausente, não será nosso ponto de
partida para nossa ação educativa. Vemos a criança surda dentro daquilo que ela é: um
ser inteiramente lingüístico e que pode satisfazer todos os seus desejos de sujeito
falante por meio de um modo visual (Kozlowski, 2000).
Restauramos assim, uma situação normal de desenvolvimento de linguagem,
segundo a qual é comunicando-se e falando que a criança aprende a se comunicar e a
falar.
O objetivo é de dar à criança surda a possibilidade de obter sucesso em suas
trocas verbais, com prazer. Tendo a chance de compreender e de se fazer compreender
de maneira eficaz pela Língua de Sinais, a criança surda descobre o que fazemos
quando falamos.
Ela torna-se, então, apesar das dificuldades que isso representa para ela, capaz
de realizar trocas verbais na língua oral, ela não pode perceber nem produzir senão
uma maneira deficiente, mas cujo uso compreende. Trata-se claramente da "entrada"
em duas línguas que são igualmente valorizadas dentro da educação bilíngüe e da
realidade familiar da criança surda (Bouvet, 1989).
Foi iniciado um projeto piloto no ano de 2000, junto ao SEDIN e DIFON, com
0 objetivo de implantar esse modelo bilingue no INES, modelo este que será expandido
gradativamente a todo o alunado da instituição.
1 -ATIVIDADES EM L1 (LIBRAS):
As atividades em LI são desenvolvidas por educadores surdos e têm por
objetivo o contato "natural" com LIBRAS. A aquisição dessa língua garantiria o
desenvolvimento lingüístico suficiente para aquisição de outras línguas.
As estratégias de trabalho são desenvolvidas a partir de dramatizações, passeios,
contação de histórias, experiências baseadas em atividades da vida diária.
Não há nenhum aprendizado formal da língua de sinais, já que o objetivo aqui
é o desenvolvimento da linguagem. O contato "natural" com a língua é que
proporcionará essa aquisição.
2 - ATIVIDADES EM L2 ( LÍNGUA ORAL/ESCRITA ):
Os profissionais responsáveis por essas atividades são fonoaudiólogos e
professores ouvintes e o objetivo seria a aquisição da segunda língua (oral/escrita).
As estratégias de trabalho incluem: leitura oral-facial, desenvolvimento das
habilidades auditivas, trabalho específico com voz, fala e aquisição da língua escrita.
As atividades são orientadas para aquisição de segunda língua e considera-se aqui que
o desenvolvimento da linguagem é garantido por meio da LI.
Dentro de uma perspectiva bilíngüe, o surdo é visto como um indivíduo diferente
e não deficiente. Suas potencialidades podem ser totalmente desenvolvidas desde que
seus direitos lingüísticos sejam respeitados. E desse direito lingüístico que trata o
bilinguismo.
A língua natural do surdo é a língua gestual, já que todo seu reconhecimento do
mundo se dá por meio do canal visuo-espacial, diferentemente do ouvinte que
estabelece sua visão do mundo através do input auditivo-verbal. Portanto, nada mais
natural do que a língua de sinais como sendo também a língua materna do surdo.
Dessa forma, não nos referimos mais a reeducação do surdo, mas em educação.
uma visão antropológica da surdez deve substituir a visão clínica que durante
décadas não conseguiu oferecer ao surdo seu desenvolvimento pleno.
Porém, uma visão realista é também necessária, já que atualmente a implantação
de um modelo bilíngüe no Brasil não é tarefa fácil. uma tradição oralista na educação
dos surdos em nosso país deu origem a indivíduos surdos sub-educados , muitas
vezes sem conhecimento da LIBRAS e sem condições de atuar na educação de crianças
surdas. A necessidade do oralismo ainda é uma realidade para o surdo brasileiro
quando pensamos em educação de nível superior, inserção social e colocação
profissional.
Modelos bilíngües são urgentes com uma aplicação prática realista. Não devemos
importar modelos de outros países, pois suas histórias certamente diferem da nossa.
Devemos encontrar "nosso modelo bilíngüe" e com ele mudar o perfil da educação do
surdo no Brasil (Kozlowski, 2000).
Referências bibliográficas
BOUVET, D. (1989). La Parole de l'Enfant. Le Fil Rouge, Puf. Paris.
KOZLOWSKI, L. (1998). A Proposta Bilíngüe de Educação do Surdo. Revista
Espaço. INES.
KOZLOWSKI, L. (2000). A educação bilíngue-bicultural do surdo. In Fonoaudiologia:
surdez e abordagem bilíngüe. Lacerda, C, Nakamura, H. e Lima M. org. Editora
Plexus.
LEPOT-FROMENT, C. , CLEREBAUT, N. (1996). L'Enfant Sourd. Bruxelas.
DeBoeck Université.
VIROLE, B. (1996). Psychologie de la Surdité. Bruxelas. DeBoeck Université.
Escola Especial para Surdos
uma ESCOLA DE REFERÊNCIA ESTADUAL NA EDUCAÇÃO DE SURDOS
Maria Joaquina Nogueira da Silva "
Tôda escola tem um objetivo e deve refletir uma concepção histórica de sociedade
e de cidadania que se pretende construir. A concepção que norteia a U.E.ES "Prof.
Astério de Campos" se fundamenta na visão sócio-antropológica de educação, que
reconhece a surdez como uma diferença existente entre surdos e ouvintes. Dessa
forma, o paradigma curricular vem se desenvolvendo sobre os aportes teóricos e
metodológicos da abordagem bilíngüe. E um dos objetivos fundamentais da Escola é
ser um espaço de participação e de discussão a respeito das diferenças. Tal objetivo
diz respeito ao desenvolvimento das potencialidades e à efetiva inclusão social dos
educandos.
A Unidade Educacional Especializada "Prof. Astério de Campos" foi fundada
em 1960 sob a denominação de Escola de Educação para Surdos (Decreto n.° 3174 e
Convênio entre a Companhia para Educação de Surdo Brasileiro e o Governo do
Estado). O nome "Astério de Campos" é uma homenagem ao professor e grande
defensor da Educação de Surdos, que fazia uma campanha usando o slogan "O surdo
não é diferente de você. Ajude a ensiná-lo".
A partir de 1996, a unidade vem se pautando em novos paradigmas educacionais,
rompendo, portanto, com o modelo educacional segregado. Desse modo, ocorre o
redimensionamento das ações respaldadas nos pressupostos da escola inclusiva,
passando a fomentar a qualificação e requalificação dos profissionais tanto da educação
especial quanto do ensino regular.
Atualmente integra a estrutura da Secretaria Executiva de Educação do Estado
do Pará, sendo coordenada pelo Departamento de Educação Especial. com uma
equipe interdisciplinar composta por três pedagogos, três psicólogos, duas assistentes
sociais, duas fonoaudiólogas e 56 docentes, atende 366 educandos surdos e com
outras diferenças físico-sensoriais e cognitivas. Destes, 196 estão inseridos no sistema
regular de ensino, com assessoramento docente e técnico dos profissionais da Unidade.
Para alcançar os objetivos, delineados no Projeto Político Pedagógico da
Unidade, oferece em seu espaço duas modalidades de ensino: a Educação Infantil,
com atendimento de Estimulação Precoce, Maternal, Jardim I, Jardim JJ, Alfabetização,
e o Ensino Fundamental de 1
a
a 4
a
Séries, perfazendo 170 educandos.
A clientela atendida é oriunda da capital, do interior do estado e de outras
unidades federativas. Para ingressar na escola a pessoa com suspeita de surdez
submete-se a uma avaliação educacional e audiológica, que se dá de forma
processual, sendo realizada por meio da inter-relação de educadores, objetivando a
compreensão dos estágios de desenvolvimento biopsicossocial. Utilizam-se os mais
variados recursos instrumentais avaliativos, visando à observação do procedimento
de interação com o avaliado, a fim de que se estabeleça a orientação adequada às suas
"Professora especializada em educação de surdos; Pedagoga especialista em motricidade
humana; Diretora da Unidade de Ensino Especializado Prof. Astério de Campos; Professora
substituta da Universidade do Estado do Pará, nas disciplinas Fundamentos da Educação
Especial, Educação Inclusiva e Prática de Administração Escolar.
reais necessidades. Após o processo avaliativo o educando é encaminhado para as
modalidades de atendimento, mediante o acompanhamento por meio da tríade
educação, saúde e trabalho.
Para promover o desenvolvimento integral da criança, do adolescente, do jovem
e do adulto com surdez, a escola oferece atividades na sala de leitura, que propõe
desenvolver o hábito da leitura interpretativa. O professor utiliza-se de textos lúdicos
e da língua de sinais para que o educando possa apropriar-se da escrita e desta fazer
uso. Essa ludicidade é implementada pelo Grupo Arte-Ação, que realiza apresentações
em escolas explorando o tema da fábula "A formiga e a Cigarra", de La Fontaine,
adaptada para o teatro pelos próprios educandos, estudantes das I
a
, 2
a
, 3
a
e 4
a
séries
da escola e de alunos já inclusos no ensino regular, que se reúnem duas vezes por
semana.
Outro espaço é a Brinquedoteca, que estimula a brincadeira por meio de
oficinas de roupas de bonecas e confecção de pipas e brinquedos de sucatas. Resgata
as brincadeiras de rodas, jogos populares e o "Faz-de-Conta", que possibilita a ação
- reflexão da criança. O atendimento é feito por professores e estagiários de terapia
ocupacional e pedagogia e a atividade é realizada em grupo, em 2h/a semanais.
A unidade vem dinamizando o processo ensino-aprendizagem por meio de
recursos tecnológicos computacionais. Dentre os projetos realizados destacam-se
o "Alfabeto Manual Regional" e o "Livro Eletrônico". Para operacionalização destes,
a equipe de educadores e educandos da 2
a
e 3
a
séries e os inclusos na escola regular,
num total de 16 alunos, realiza excursões e visitas para a escolha da temática a ser
trabalhada. Ressalta-se que já foi elaborado um banner do alfabeto manual regional,
acompanhado de um livro contendo as informações sobre os elementos da cultura
regional.
Para desenvolver a integração mente-corpo são realizadas atividades de
Educação Física que permitem a vivência de práticas corporais advindas das mais
diversas manifestações que estão presentes na vida cotidiana. A dança, a ginástica, os
esportes individuais e coletivos, os jogos e as brincadeiras que compõem nossa
cultura devem ser conhecidos, valorizados e desfrutados. O alunado recebe
atendimento individual e grupai de acordo com suas diferenças.
Dentre as realizações foi constituído o Grupo "Corpus Falantes", com o
intuito de valorizar e divulgar a língua de sinais em eventos promovidos por escolas
e empresas que solicitam apresentações a essa unidade, reunindo-se uma vez por
semana.
Nas artes plásticas os educandos utilizam-se principalmente da pintura, com
as mais variadas técnicas e diferentes tipos de tintas. Produzem murais, desenhos e
quadros que despertam a sensibilidade para a arte.
Além dessas atividades, são oferecidos os serviços odontológicos, em que é
desenvolvido um trabalho voltado principalmente para a prevenção, com aplicações
de flúor, bochechos com soluções fluoretadas e demonstração de higiene oral não só
para crianças como para os responsáveis.
Na odontologia curativa são feitas avulsões dentárias, restaurações de resinas
compostas e amálgama. O objetivo maior desse trabalho é melhorar a saúde bucal de
nossos alunos.
Outro programa é o de Psicomotricidade, que busca o desenvolvimento
psicomotor das crianças com problemas de locomoção ou de movimento físico. É
uma educação global que associa os potenciais intelectuais, afetivos, sociais e motores
da criança para aumentar a segurança, o equilíbrio e o desenvolvimento. E direcionada
aos alunos com diferenças múltiplas, que são atendidos três vezes por semana.
A escola também oferece o serviço de fonoaudiologia, que propõe desenvolver
a estimulação no que se refere à área de comunicação oral e escrita, voz e audição. O
fonoaudiólogo participa da equipe de orientação e planejamento escolar, inserindo
aspectos preventivos e de estimulação ligados a aspectos fonoaudiológicos. Os
educandos são atendidos duas vezes por semana, individualmente.
O processo de inclusão no ensino regular é apoiado por meio dos serviços
especializados (serviço de itinerância e de sala de recursos).
O serviço de itinerância da Unidade é realizado por professores especializados
e técnicos da área pedagógica que periodicamente se deslocam para as escolas do
ensino regular onde estão matriculados educandos surdos. O objetivo principal é
proporcionar aos educandos e aos seus educadores de classes comuns as orientações
adequadas a respeito das especificidades lingüísticas necessárias para uma boa interação
e por conseguinte aprendizagem com qualidade de todos na sala de aula. O número de
educandos que são atendidos, neste ano de 2001, é de 172 nas escolas públicas e 24
nas escolas particulares, totalizando 196. O acompanhamento é realizado de acordo
com as necessidades individuais dos estudantes, podendo ser de duas a três vezes por
semana.
Para assegurar a permanência com sucesso na escola inclusiva há também o
apoio especializado em sala de recurso, que funciona em horário inverso ao da
escola regular, atendendo 75 alunos desde a educação infantil à educação superior, nas
disciplinas: Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia e Ciências. Esse
apoio se estende também às pessoas surdas que se inscrevem para concursos públicos,
preparando-as conforme o conteúdo programático exigido.
O grupo de técnicos responsáveis pelo atendimento itinerante coordena ainda
o Projeto "LIBRAS na Escola e na Empresa", que visa a dar fundamentação teórica e
prática da Língua de Sinais para os segmentos escolares/empresariais que possuem
surdos estudando e/ou trabalhando, realizando oficinas de "Língua de Sinais", palestras
e cursos. O curso de LIBRAS estende-se aos educandos, familiares e comunidade em
geral, ministrado por professores surdos e um intérprete, sendo realizado
sistematicamente uma vez por semana em quatro escolas públicas, em salas onde
hajam surdos matriculados. As palestras ocorrem em todas as empresas inclusivas,
que admitiram surdos em seus quadros de funcionários.
O projeto iniciou-se em março e já podemos vislumbrar mudanças de atitudes
em tais contextos, pois a LIBRAS passou a fazer parte da programação dos mesmos,
e ouvintes interagem normalmente com os surdos inseridos, o que, com muita
propriedade podemos afirmar, está favorecendo a auto-estima da pessoa com déficit
auditivo.
A equipe promove ainda o atendimento para qualificação e requalificação
profissional, melhorando a qualidade de vida do educando e de seus familiares por
meio de oficinas de serigrafia, além da oferta de cursos profissionalizantes em parcerias
com o órgãos governamentais e não-governamentais. E, portanto, a referência estadual
para o debate da educação inclusiva no Estado do Pará.
Escola Especial para Surdos
Centro Tecnológico da ULBRA
Unidade de Ensino Especial Concordia
Comunidade Evangélica Luterana "Sao Paulo"
Thais Enê Fagundes Silva
Escola Especial ou Escola para Surdos?
Quando tomei conhecimento do tema deste encontro, "Surdez - Diversidade
Social", e fui convidada para falar sobre Escola Especial para Surdos, inicialmente
preocuparam-me as terminologias Diversidade e Especial. Pensando nisso achei
importante definir cada uma delas para, a partir daí, dar continuidade a nossa atividade:
Diversidade: diferente; distinto; mudado; alterado; divergente; discordante
(Aurélio, 2000).
Especial: relativo a uma espécie; próprio; exclusivo; fora do comum (Aurélio,
2000).
Um questionamento?
"Propor a continuação de uma educação especial seria uma espécie de
retrocesso, de estagnação, de obsoletismo? E ser moderno, contemporâneo, é
aderir à idéia da integração ou da inclusão incondicionalmente? Seria isso?"
A educação de pessoas surdas está sendo repensada em parte devido ao
reconhecimento da Língua de Sinais e à mudança de postura frente à surdez. O
modelo de educação que desejava transformar o surdo em "ouvinte" está sendo
deixado para trás. O surdo não é mais visto como alguém cuja falta de audição
significa ineficiência, mas sim como um sujeito eficiente que se desenvolve
integralmente e se comunica por um outro canal, tendo conseqüentemente uma outra
língua.
O discurso que muitas vezes ouvimos, como "problemas de comportamento",
"características dos surdos", "limitação mental", são justificativas dadas por
profissionais sem um preparo específico para trabalhar com surdos, e por isso, a
dificuldade em lidar com a diversidade/diferença. Não que tais aspectos não apareçam,
eles podem estar presentes, mas generalizar, dizer que todos os surdos apresentam
estas características, é inaceitável.
Esse rótulo não permite que o surdo se desenvolva como um sujeito inteiro e
pertencente a uma classe de indivíduos diferentes, que têm língua própria, cultura
própria, anseios e desejos, e que são capazes de lutar por seus interesses.
Questionar os modelos instalados é rever posicionamentos e pensar na
"diferença". O que não é pensado, não é falado, portanto, não é visto.
Considerar a diferença é ter que reestruturar conceitos a partir de princípios
teóricos e ideológicos com objetivos diferentes. Significa isto também reformular-se
enquanto educador de surdos.
A idéia inicial é discutir com os senhores uma situação que não tem sido tratada
como deveria ser, e tem recebido descaso de muitos daqueles que deveriam se preocupar
com a surdez e a pessoa surda - por exemplo, o próprio Estado.
Temos que refletir sobre o "nosso próprio fazer" enquanto educadores e
profissionais que trabalham com surdos. É necessário repensar essa identidade enquanto
indivíduos e enquanto profissionais. A compreensão da diferença depende da
possibilidade de cada um em aprender, reformular e transformar sua identidade como
pessoa, como educador e como profissional.
Muitas vezes é a identidade profissional que está em jogo, e isso pode significar
a perda de um papel ou de uma transformação tão radical que traz dúvidas sobre o que
lhe restará depois. É portanto muito mais seguro estabelecer a culpa, não do sistema
do qual ele mesmo faz parte, mas de causas externas, que podem ser tanto de ordem
técnica quanto referentes ao próprio sujeito surdo, sendo a primeira culpada de não
realizar o benefício esperado e o segundo culpado por não atender às expectativas do
educador.
E necessário assumir uma postura profissional e ética que permita verificar
qual linha de atuação seguir, percebendo que o seu próprio ponto de vista não está
adequado e, portanto, há uma exigência de transformação.
Esses não são aspectos fáceis fàcies de lidar, principalmente se isso levar à
consciência dos próprios erros e de uma estrutura profissional que necessita ser
revista.
E a escola tem papel fundamental na vida do indivíduo surdo. Por isso tem que
estar preparada para trabalhar com a diferença e não com a deficiência.
Se considerarmos alguns aspectos históricos, é importante verificar como o
surdo tem sido visto, as dificuldades que têm enfrentado para se constituir como
sujeito. Da Antiga Grécia até os nossos dias algumas coisas mudaram, outras, parece
mentira, ainda persistem. O surdo em muitos lugares ainda é visto como incapaz, é
privado dos seus direitos como cidadão e discriminado.
Nesse ponto aparece outra questão importante: a integração ou a inclusão,
como queiram. O surdo é diferente, não deficientes; ressalve-se que a integração
contextualizada com a comunidade ouvinte não deve significar a exclusão da comunidade
de surdos e da LIBRAS.
Existem aspectos que precisam ser considerados em relação a escolas e alunos,
basta observar as relações de poder desiguais, entre ouvinte e Surdo, o despreparo
dos profissionais da educação para lidar com as duas realidades, a falta de estudos
para uma reflexão da prática pedagógica que envolva a inclusão são alguns dos assuntos
pertinentes.
Quando se fala em integração geralmente nos reportamos aos portadores de
necessidades educativas especiais ou deficientes, de uma forma ampla. Voltamos à
questão: quem são os ditos deficientes para a escola? Ser surdo é ser um deficiente?
Na escola de surdos, o fator aglutinante é a surdez, embora variando segundo
o seu grau. Numa turma de crianças surdas, não encontraremos sujeitos iguais
simplesmente por serem surdos. Cada um traz a sua individualidade, sua história e
seu meio familiar.
Enquanto educadores, nossa função é desmistificar a surdez, é romper com
pensamentos estereotipados que dificultam que o surdo construa seus próprios
caminhos. Temos percebido que a limitação que a sociedade impõe aos surdos, é
muitas vezes maior do que a limitação sensorial que apresentam.
Parece importante considerar o período pré-escolar. Que tipo de atendimento
e orientação está sendo prestado à família? como e para quem está sendo encaminhada
essa criança surda? Temos escolas, creches e profissionais da área da educação
preparados para absorver estas famílias?
Para isso existe na nossa escola o "Programa de Pais" cujo trabalho é
desenvolvido por uma equipe multidisciplinar com professora de estimulação inicial
e uma professora surda, psicóloga e fonoaudióloga.
A estimulação precoce é de natureza preventiva e tem por objetivo ações
suficientemente antecipadas, tendentes a evitar, atenuar ou compensar a deficiência
de que a criança possa ser portadora ou suas conseqüências.
De acordo com o MEC (1995), estimulação precoce pode ser definida como:
"Conjunto dinâmico de atividades e de recursos humanos e ambientais
incentivadoras, que são destinados a proporcionar à criança, nos seus primeiros
anos de vida, experiências significativas para alcançar pleno desenvolvimento
no seu processo evolutivo".
Essa definição refere-se a uma seqüenciação de contatos humanos adequados,
como diálogos, brincadeiras, juntamente com a exploração de objetos e espaços, com
o propósito de estimular a criança e enriquecer seu desenvolvimento global, no período
que vai do nascimento aos três anos de vida. A indicação para a estimulação precoce
baseia-se na importância que esse período representa para o desenvolvimento e
formação pessoal do indivíduo.
E importante esclarecer que o propósito da EP não é transformar em "normais"
as crianças com necessidades especiais, mas prevenir, detectar, minimizar, recuperar
ou compensar as deficiências e seus efeitos.
Além da saúde física, deve-se ter em conta a saúde mental - tanto da criança
como de seus familiares. Para isso é importante a função materna estendida como
uma estrutura interna, que proporciona inconscientemente a guia para que os
intercâmbios decisivos entre mãe e filho ocorram de maneira espontânea.
Sabe-se que o lugar psíquico primordial de todo bebê está no psiquismo e no
corpo materno, engendrado pela força da afeição que aquela ilusão gera.
Ao nascer um filho deficiente, o contraste entre o filho esperado e o que acaba
de nascer afeta centralmente a função materna, já que a mãe se debate com o luto da
perda do filho imaginado e sente o recém-chegado como um impostor ou, no melhor
dos casos, como um verdadeiro desconhecido.
A eficácia do vínculo, inspirado no desejo materno dirigido ao bebê, costuma
ser eficiente para guiar as mães em suas atitudes com o recém-nascido normal.
Fixação ocular, brinquedos, libidinização corporal, variações posturais, mudanças
alimentares, tudo vai se desenvolvendo de maneira espontânea entre a mãe e seu filho
sem problemas. Transpor essas atitudes para o filho "real", cujo vínculo sofreu um
desencontro precoce, é tarefa bastante complicada e difícil.
A EP encontra um espaço nesse desencontro, no desejo parental de solucioná-
lo.
É necessário reconstruir os aspectos prejudicados da função materna, às vezes
até substituí-la, parcial ou totalmente, enquanto durar a crise da mãe.
E relevante destacar que a fragilidade dessa criança não permite muitos atrasos,
já que as conseqüências de um distanciamento materno podem ser graves e até
irreversíveis, se forem prolongadas. Assim, podem instalar-se traços autistas, pode-
se perder a oportunidade de moderar expressões patológicas do sistema nervoso e
neuromuscular, características hipotônicas podem acentuar-se, transformarem-se em
mais permanentes ou acentuar a lentidão de uma maturação já originalmente
comprometida.
Winnicott, 1979, pontuou acerca da função materna, a sustentação como
meio de segurança afetiva, a manipulação diferenciada enquanto modo de libidinizar
seletivamente o corpo-do-bebê, a apresentação dos objetos do meio como forma de
dirigir a criança ao mundo externo e descentrá-la da relação exclusiva com a mãe.
A tradução ação-linguagem / linguagem-ação que tôda mãe realiza com seu bebê,
para fazer chegar a ele as expressões de sua compreensão, aparece afetada nesses
casos, sendo necessária uma reinstalação de códigos adequados às características
especiais dessa criança em peculariedades patológicas nos aspectos instrumentais.
A função paterna, cuja representação perante a criança é feita, nos primeiros
meses, pelo personagem materno, aparece afetada pela suspensão de tôda inscrição
simbólica dessa criança, e também pela rejeição afetiva. Essa fratura abre a perigosa
instância da psicose precoce, sobreposta ao déficit orgânico.
A utilização dos princípios interativos da psicologia genética (Jean Piaget)
permite intervir no jogo da criança, graduando as propostas em concordância com os
níveis de complexidade nas coordenações por ela alcançados. Através da observação
da interação espontânea entre mãe e filho, é possível recolher propostas de pequenos
problemas, que tencionam o desenvolvimento intelectual e psicomotor na direção de
tarefas apoiadas em estruturas mais complexas.
As diferenças aparecem mais marcadamente no campo da socialização e da
comunicação, entre uma criança estimulada precocemente ou não. Raramente uma
criança com EP apresenta sintomas autistas. Os aspectos psicomotores e os
relacionados com a inteligência, o ritmo biológico e hábitos da vida prática e diária
também são favoráveis nos que contam com EP.
É importante lembrar que, desde o nascimento de uma criança com deficiência
e até por muito tempo durante seu desenvolvimento, os pais vão passar por várias
emoções, caracterizando fases de questionamentos, dúvidas, aceitação, rejeição,
descrença, confusão, insegurança, hostilidade, esperança, interesse e isolamento. Na
medida em que lhes permitirem esses sentimentos, estará facilitado o caminho para a
aceitação, necessitando do apoio daqueles com que convive bem como do apoio
profissional.
Há famílias que chegam com seus bebês e crianças surdas carregando um
sentimento de luto muito intenso. Sabe-se ser comum aos pais, principalmente à mãe,
o sentimento de culpa, gerando uma atitude de superproteção e dedicação ao filho
surdo. Tais atitudes podem criar problemas familiares, interferências na vida
profissional e social, além de serem prejudiciais para a própria criança surda, pois não
permitem que a mesma adquira experiências em seu processo evolutivo, tornando-se
um adulto dependente.
Nesse espaço trabalhamos conforme a especificidade de cada caso, em
atendimentos individuais, duplas ou grupos, com o auxílio de pais experiente sempre
considerando aspectos subjetivos, cognitivos e motores.
Conforme a necessidade e a vontade de cada família, podem ser encaminhados
à Pastoral Escolar, onde recebem atendimento espiritual.
O objetivo deste trabalho é levar as famílias a elaborar o luto e aprender a lidar
com suas fantasias, contribuindo para que construam projetos viáveis para seus
filhos reais, na medida em que possam substituir os filhos idealizados.
Em geral, as crianças que chegam até nossa unidade são encaminhadas por
outros profissionais ou instituições. Todas passam por um processo de triagem, com
o objetivo de averiguar a história clínica de cada criança e da viabilidade de ingressar
na escola, pois há casos em que a surdez está associada a outras patologias ou
síndromes, necessitando, de outros tipos de atendimento.
Nossa preocupação é instrumentalizar as famílias da melhor maneira possível
e um dos recursos é a Língua de Sinais - LIBRAS.
Para adquirir uma língua é preciso que a criança esteja exposta e domine os
diferentes aspectos que a compõe como em, a fonologia, morfologia, sintaxe, semântica
e a pragmática. Esse domínio conduz o indivíduo à capacidade lingüística e ela que vai
proporcionar o desenvolvimento de uma comunicação com seus pais e sociedade de
uma maneira natural e espontânea.
A língua de sinais é a forma natural de comunicação da criança surda, por isso
é importante que ela receba estimulação em LIBRAS o mais cedo possível. A Língua
de Sinais possibilita o desenvolvimento cognitivo da pessoa surda, favorecendo seu
acesso aos conceitos e conhecimentos existentes na sociedade.
Cada etapa da vida tem suas características e desafios que se vão tornando mais
complexos.
Prematuramente a criança vai comunicar-se com a mãe através dos cuidados
dispensados, na empatia, mais do que na compreensão do que é ou poderia ser
verbalmente expresso.
Desenvolvendo-se bem emocionalmente, a criança desenvolve suas capacidades
cognitivas, a capacidade de importância crítica para o seu desenvolvimento pessoal.
Dessa forma, será capaz de perceber a realidade externa, fazendo trocas e processando
informações sobre o mundo que a rodeia.
Esses conhecimentos servirão como base para as atividades que ocorrem na
escola e facilitarão a compreensão da língua. Através do uso da língua de sinais a
criança surda deverá identificar-se, ao menos em parte, com o mundo ouvinte, que é
quase sempre o mundo de seus pais e famílias. Ela deverá sentir-se à vontade em
ambos os meios e ser capaz de identificar-se com eles na medida do possível.
Afinal qual é o papel da escola? E da educação do surdo?
E oferecer situações em que ele possa buscar construir e se constituir como
indivíduo capaz de se comunicar, buscar conhecimento e a compreensão de um mundo
que lhe é pouco acessível. E também o papel da família que muitas vezes se vê
impedida sem o acesso a uma língua que possibilite essa ponte e acaba cada vez mais
passando essa função para a escola. E na instituição/escola que a família pode conseguir
informações de como ultrapassar a barreira da comunicação entre ela e o filho surdo.
A escola tem que fornecer para a família essa possibilidade de comunicação. E
através dos iguais e daqueles que o consideram como um sujeito inteiro que ele pode
ver-se como íntegro e ser capaz de empreender suas ações, para que internamente
possa se ter e ser. O ideal é que isso pudesse acontecer também na comunidade
ouvinte, por meio do respeito pela diferença. A questão da família como núcleo
formador inicial da identidade carregará os problemas da identidade pressuposta para
o filho, que não correspondeu a ela. O filho surdo terá que renascer para a família com
suas características particulares.
Apresentação de
Trabalhos
Língua de Sinais e Fonoaudiologia:
um Encontro Necessário
Ann Pnuln Santana (Unicamp / Campinas / Brasil)
Priscila Mara Ventura Amorim (Unicamp / Campinas / Brasil)
A partir do momento em que se considera a surdez como diferença e à língua de
sinais é atribuído o estatuto de língua, em termos lingüísticos e neurolingüísticos,
irrompem implicações para a terapia fonoaudiológica. A fonoaudiologia, antes
preocupada apenas em oralizar o surdo, tem revisto seus conceitos e abordagens para
incluir em seu trabalho a língua de sinais. É necessário, assim, desmistificar a noção de
que o fonoaudiólogo "perde" seu espaço terapêutico no campo da surdez quando se
leva em conta que a primeira língua do surdo é a língua de sinais. O que deve ser
ressaltado é que a língua de sinais possibilita a aquisição e o desenvolvimento lingüístico
e cognitivo do surdo, não ocorrendo o mesmo com a língua oral.
O surdo vive numa comunidade ouvinte e acaba sofrendo determinadas cobranças
sociais que fazem com que ele precise "falar". Não fluentemente, é claro. E por isso
que se continua a oralizar o surdo. No entanto, as bases terapêuticas e a concepção de
linguagem que norteiam essa prática podem ser mudadas. A aquisição da linguagem
oral deve ser mediada pela língua de sinais e deve contemplar atividades significativas
em detrimento da produção articulatoria. E através da língua de sinais que a criança
compreende e é compreendida, que se dá significado à língua oral (que não se ouve,
mas se vê). Isso implica que a língua de sinais deva funcionar como mediadora na
aquisição da língua oral. Assim, deve-se ter como base terapêutica a(s) língua(s) "em
funcionamento", em atividades significativas para os sujeitos, e essas atividades
devem ter as mais variadas configurações textuais: perguntas, narrativas, informações,
relatos, piadas. Isso possibilita ao surdo tanto uma participação efetiva nas interações
sociais, com ouvintes ou surdos, quanto assumir seu papel de sujeito da/na linguagem.
Programa de Capacitação para Educadores que Atuam com
Alunos Deficientes Auditivos ou Surdos no Ensino Regular
Buffa MJMB, Nevenfeld Mel. OliveiraKF. Hrac-USP, Bauru, SP, Brasil
O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais-HRAC - da Universidade
de São Paulo-USP-Bauru, mantém dois programas de (re)habilitação para Deficientes
Auditivos e Surdos: O Centro Educacional do Deficiente AuditivoCedau, que
tem como objetivo auxiliar a criança a usar sua audição residual e desenvolver a
linguagem oral, e o Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação - NIRH, cujo
objetivo é oferecer formas alternativas de comunicação para o surdo, enfatizando a
Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS.
Os dois programas auxiliam os D.A. e surdos na aquisição e domínioda língua
portuguesa escrita. O NIRH e o CEDAU desenvolvem um programa de capacitação
para os professores que atuam com os DA. e surdos no ensino regular, visando
instrumentalizar a equipe escolar de forma a auxiliar o processo ensino-arendizagem
dos alunos matriculados no HRAC. Visando a garantia de presença dos educadores
nas aulas que ocorrem mensalmente, contamos com a colaboração da Diretoria de
Ensino Estadual eda Secretaria Municipal de Educação, que por meio de uma parceria
convocam seus professores para participação. As escolas particulares são convidadas
e participam efetivamente. Além das aulas, o programa inclui visitas das pedagogas às
escolas, oferecendo uma cooperaçãoa técnica especializada ao corpo docente, mantendo
um trabalho integrado entre escola e instituição. Ness e ano o programa de capacitação
está atendendo 15 escolas estaduais, 10 municipais e 11 escolas particulares, perfazendo
um total de 100 professores. No final do 1" semestre realizou-se uma avaliação junto
aos professores, e a grande maioria (84,09%) recomenda o curso para outros
professores e 15,91% não responderam). Pelos depoimentos percebe-se que os
professores estão mudando sua visão em relação a atender o deficiente auditivo e
surdo em sala de aula.
Meu Livro Eletrônico Regional:
uma Experiência de Autonomia da Pessoa Surda no
Processo de Alfabetização
Rita de Nazareth Souza Bentes'
Lúcia Cristina Bessa de Brito Coelho
2
Maria do Carmo Ferreira Gomes
3
O Laboratório de Informática Educativa - LIED - da Unidade Educacional
Especializada Prof. Astério de Campos - Belém/PA, vinculado à Secretaria Executiva
de Educação - SEDUC, desenvolveu no primeiro semestre de 2001, com alunos/as da
1ª série com comprometimento múltiplo, do turno tarde, e com a turma de alunos/as
incluídos no ensino regular, a construção de um Livro Eletrônico de Alfabetização.
A proposta fundamenta-se no respeito cultural. Adotaram-se práticas educativas
em que os/as alunos/as aprendem a 1er as palavras do mundo e o próprio mundo,
transformando com isso o ato de alfabetizar. Fundamenta-se em Freire que diz:
"não é um jogo de palavras, é a consciência reflexiva da cultura, a construção
crítica do mundo humano, a abertura de novos caminhos, o projeto histórico de
um mundo comum, a bravura de dizer a sua palavra" (1981, p. 14).
com o "Meu Livro Regional" o/a aluno cria a sua história de vida mostrando-
se capaz de construir seu próprio instrumento de alfabetização, refletindo sobre
sua cultura, entendendo o mundo e fazendo história, como queria Paulo Freire.
O caminho percorrido foi o seguinte: 1 ) capacitação de professor/a com ênfase
na pedagogia de projetos; 2) definição do Alfabeto Manual no Contexto Regional
(Investigação do universo vocabular, escolha dos itens regionais a serem desenhados
pelos/as alunos/as e Sistematização dos trabalhos para a montagem do alfabeto e da
cartilha informativa, e 3) Implantação do projeto com passeio ecológico, definição do
subtema, sistematização de dados do livro.
Referência bibliográfica
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido, Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1981.
'Prof. Facilitadora do LIED - Belém - PA/Brasil
2
Prof. Multiplicadorado DIED - Belém - PA/Brasil
'ProP.dal' sérieda .E.ES Astério de Campos - Belém - PA/Brasil
Fonoaudiologia e Surdez: Possibilidade de atuação na
Linguagem Escrita
Graziella Nascimento Esteves - CEPRE/FCM/UNICAMP -
Campinas/SP - Brasil
Patrícia Rodrigues de Sordi - CEPRE/FCM/UNICAMP -
Campinas/SP - Brasil
Heloisa Arruda Boechat -CEPRE/FCM/UNICAMP -
Campinas/SP - Brasil
Prof. Dra. Maria Cecília M. Pinheiro Lima (Orientadora) - CEPRE/FCM/
UNICAMP - Campinas/SP - Brasil
O referido projeto trata de um trabalho fonoaudiológico voltado pane a escrita
de um boletim informativo elaborado na íntegra por um grupo de adolescentes surdos
atendidos pelo CEPRE - Centro de Estudos e Pesquisas em reabilitação "Prof. Dr.
Gabriel Oliveira da Silva Porto" / Faculdade de Ciências Médicas / Unicamp. O
objetivo da confeção desse boletim foi proporcionar aos adolescentes surdos um
contato com a língua portuguesa em sua modalidade escrita, num contexto social
significativo. Durante todo o processo, os adolescentes trabalharam em grupo
escolhendo os temas, coletando opiniões, realizando pesquisas e organizando o material
final por meio de suas próprias produções escritas. Os textos foram revisados pelas
fonoaudiólogas e pelos alunos, procurando preservar as particularidades da produção
gráfica de cada "redator". Durante todos os procedimentos procuramos salientar a
importância da língua de sinais e da leitura orofacial no processo comunicativo. A
criação do boletim "Correio do CEPRE" proporcionou um aumento da motivação
com relação à linguagem escrita: ampliação de vocabulário e novos conceitos; bem
como melhoria e motivação no processo comunicativo com os ouvintes.
Resultados de uma Investigação Acerca da Inclusão Escolar
do Deficiente Auditivo
Palamin, M.E.E.: Bortoleto, R.H.; RODRIGUES, O.M.R.R; MottiJ.F.G.; Castanho,
R.M.(CEDALVI, HJRAC-USP, Bauru, SP, Brasil)
A lei das diretrizes e bases (LDB) de 1996, prevê que a educação seja a mais
integrada possível, propondo a inclusão dos alunos com necessidades especiais na
rede regular de ensino. O deficiente auditivo muitas vezes apresenta dificuldades de
se comunicar, seja oralmente ou através da escrita, não apresentando outras dificuldades
que justifiquem sua exclusão do sistema regular de ensino. Apresentamos resultados
de um estudo que teve por objetivo verificar a percepção do deficiente auditivo
quanto a sua trajetória acadêmica. Participaram do projeto 25 pacientes do Centro de
Atendimento aos Distúrbios da Audição, Linguagem e Visão, HRAC-USP. Portadores
de deficiência auditiva, com idades entre 10 e 17 anos, que tinham iniciado a vida
acadêmica em sala especial e estavam em sala regular, e seus pais. Foi utilizada
entrevista semi-estruturada abordando informações gerais sobre a vida escolar passada,
atual e perspectivas futuras. Os resultados mostraram que a colocação em classe ou
escola especial se deu antes de uma experiência efetiva no sistema regular, com
professores e outros profissionais encaminhando-os para o serviço especializado
devido à presença da deficiência auditiva. Observou-se que tanto os sujeitos como
seus pais estavam satisfeitos com a inclusão no sistema de ensino, tendo clareza do
que precisava melhorar, e 60% das crianças/adolescentes responderam que a escola
regular era melhor que a classe especial.
Os sujeitos demonstraram, quase que na totalidade, intenção de continuar os
estudos. Tais resultados permitem refletir que há necessidade de pesquisas que
procurem explorar a questão da inclusão sob outros ângulos, vista a multiplicidade de
variáveis que envolvem a educação especial no Brasil.
Superando Limites
Jane Strey
Ivonete Julia Andrade
Sandra Aparecida Jorge Poleto
Antonio Carlos dos Santos Souza
No inicio, ouvi outras pessoas dizerem que a idéia de ensinar música para
surdos era impossível de se realizar, mas fui persistente e acreditei que tudo pode ser
realizado e que não existem obstáculos intransponíveis.
Meu trabalho como professor voluntário iniciou-se em abril de 2001.
Vários desafios enfrentei por não conhecer a área da educação especial e a
Iinguagem de sinais.
com a colaboração de professoras intérpretes comecei a dar aulas sem saber se
estava usando a metodologia adequada, pois usei as mesmas técnicas que utilizo com
alunos ouvintes.
Os alunos surdos entenderam a teoria e a prática com as mesmas facilidades e
dificuldades enfrentadas por alunos ouvintes e vêm demostrando surpreendente
capacidade de concentração, atenção, coordenação, assimilação, sensibilidade e auto-
estima, que sao pré-requisitos para o desenvolvimento e crescimento de seu
aprendizado. Esse resultados me surpreenderam e animaram a persistir no trabalho.
com isso, me animei e montei uma fanfarra de surdos (vide fotos em anexo).
Hoje temos a primeira fanfarra de surdos do Mato Grosso e talvez do Brasil.
Minha meta, agora, é montar uma banda musical de surdos.
Na interação com professoras intérpretes constatei a importância da música no
desenvolvimento cognitivo dos surdos, que vêm mostrando excelentes resultados na
vida escolar.
Depois dessa experiência, eu, Antônio Carlos, professor de música e há vinte
anos ensinando música às pessoas ouvintes, revi conceitos que me levavam a acreditar
que o prazer na música só era possível a pessoas com os cinco sentidos naturais.
Hoje, graças a pessoas muito especiais que têm contribuído para o meu
crescimento pessoal, entendi que cada um de nós tem suas limitações e cabe a nós
superá-las.
Prof. Antônio Carlos dos Santos Souza
Associação dos Amigos dos Deficientes Auditivos de Tangará da Serra
Tangará da Serra - Mato Grosso - Brasil
ANEXOS
Competência Pictórica do Surdo:
Um Futuro Profissional
Tânia Maria de Oliveira Nery'
Vivemos atualmente um momento transitório no que diz repeito ao conceito de
escrita por conta da cultura da informação cada vez mais "computadorizada", fazendo
da imagem um processo de leitura muito mais eficiente e interessante. Ser leitor e
escritor nessa linguagem requer habilidades específicas. Hoje, temos muitos motivos
para nos determos nos estudos sobre as habilidades desenvolvidas por sujeitos
diferentes para melhor desenvolvê-los, atendê-los e prepará-los para o mundo,
incluindo o trabalho. Em estudos recentes encontramos a interpretação da inteligência
como um espectro de competências, que além dos componentes da lingüística e lógica
matemática inclui outros como: musical, corporal-cinestésica, espacial, intrapessoal,
interpessoal, e a pictórica. A expressão pictórica associa-se, naturalmente, a
manifestações artísticas de diversas naturezas, como a pintura, por exemplo (Machado,
1995, p. 105) no caso dos surdos, que são grandes usuários do recurso visual,
percebemos que apresentam uma grande habilidade na representação gráfica, habilidade
importante em uma área tão promissora nos dias atuais. Pensando assim, preparamos
situações didáticas em que essa habilidade fosse grandemente utilizada e verificamos
que nossos alunos surdos (30 jovens) apresentaram um desempenho superior aos
ouvintes ao serem expostos a essas atividades de expressão e comunicação através de
outras linguagens, com o auxílio do computador. Acreditamos que, pelo resultado
obtido em nossa experiência, inclusive de criação de maquetes virtuais, com o desenho
apresentado em três dimensões, os surdos têm uma competência pictórica bastante
elevada. Se considerar-mos que tratando-se de computação gráfica essa competência
é fundamental comcluímos que essa opção profissional poderá ser de grande realização
pessoal, favorecendo o pleno desempenho profissional para surdos.
Referências Bibliográficas
LEVY, P. As Tecnologias da Inteligência: o Futuro do Pensamento na Era da
Informática.Trad. Carlos I. da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.
MACHADO, NJ. Epistemologia e Didática: as Concepções de Conhecimento e
Intelegência e a Prática Docente. Sao Paulo: Cortez, 1995.
'Professora da Universidade Católica de Pernambuco
Mestre em Educação
Especialista em Educação Especial
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