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fenomenológica como práxis” Natalie Depraz afirma: “É importante perguntarmos para nós
mesmos hoje novamente em que medida o gesto de redução não é simplesmente um método
formal tornando possível uma análise teórica, (...), mas é totalmente enraizado numa práxis
efetiva que produz acesso intuitivo à experiência interna” (DEPRAZ, 1999: 97).
Nessa abordagem pragmática, descrever a redução é inseparável de sua efetuação. Nesse
sentido, não se trata de descrever uma teoria baseada em argumentos a priori sobre a redução,
mas sim de se engajar numa lógica exploratória, em que se descobre o que se relaciona com a
questão a partir de sua práxis. Segundo Depraz, Varela e Vermersch (2003), o conceito
aristotélico de práxis corresponde a uma atividade imanente, que contém nela mesma seu
próprio fim, e não precisa de um esquema preparado
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. Já o conceito marxista de práxis, de
acordo com os mesmos autores, corresponde à atividade humana, às transformações materiais
e sociais da natureza e da sociedade, pelo qual o processo mesmo de conhecimento e de
teorização é incluído no interior de uma apropriação prática pelo mundo e pelo eu (self). Os
autores também afirmam que a práxis implica mudança do mundo e de si mesmo pela ação
concreta. Dessa forma, com Marx, o mito de um conhecimento puramente contemplativo ou
representacional desaparece, já que toda teoria tem sua própria dinâmica baseada numa
prática, mesmo no caso de uma prática teórica. Depraz (1999) afirma que a redução abriga
uma tensão (circularidade) entre o prático e o teórico, entre a contemplação e a ação: por um
lado a redução é um ato efetivo, uma operação imanente, uma práxis, e, por outro, ela é um
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Depraz, Varela e Vermersch (2003) distinguem práxis, pragmatismo, prática (practice), praticantes
(practioners) profissionais (les praticiens) e praticantes espirituais (les pratiquants). O pragmatismo é uma
corrente para a qual a verdade consiste no sucesso, eficácia e funcionalidade da ação realizada. A prática possui
dois sentidos. Na filosofia ela é frequentemente associada com a ética e a moral: o que é feito a luz de um
critério ético; neste sentido, ela é ligada apenas à decisão anterior a ação, e não aos resultados da ação (o que
difere do pragmatismo). Já para a Psicologia aplicada, prática designa fazer alguma coisa, a realização de uma
tarefa. O praticante profissional se refere aquele com domínio de um saber-fazer profissional, e cujo trabalho é
medido em termos de seu “sucesso prático”: professores, psicoterapeutas, artesãos, atletas, etc. Já o praticante
espiritual não se refere tanto a um saber-fazer profissional, e sim designa quem quer que invista concretamente
um ritual religioso corporificando-o em gestos e atitudes específicas, quem quer que, por exemplo, ponha em
prática técnicas específicas de um dado caminho meditativo.