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Universidade Federal do Rio de Janeiro
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Instituto de Psicologia
Pós-Graduação em Psicologia
Christian Sade Vasconcelos
ATENÇÃO A SI: DA AUTO-OBSERVAÇÃO À AUTO-PRODUÇÃO
Tese apresentada ao Curso de Pós-graduação em
Psicologia área de concentração Cognição e
Subjetividade do Instituto de Psicologia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, como
requisito necessário para obtenção do grau de
Doutor em Psicologia.
Orientador(a): Virgínia Kastrup
RIO DE JANEIRO
2009
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Christian Sade Vasconcelos
ATENÇÃO A SI: DA AUTO-OBSERVAÇÃO À AUTO-PRODUÇÃO
Rio de Janeiro.......de.......de 2009
BANCA EXAMINADORA:
Orientadora: Virgínia Kastrup Professora Adjunta Instituto de Psicologia/UFRJ
André do Eirado Silva Professor Adjunto Departamento de Psicologia/UFF
Arthur Arruda Leal Ferreira Professor Adjunto Instituto de Psicologia/UFRJ
Eduardo Henrique Passos Professor Adjunto Departamento de Psicologia/UFF
Luciana Vieira Caliman Programa de pós-graduação em Psicologia/UFRJ
Ronald Arendt Professor Adjunto UERJ
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AGRADECIMENTOS
À Pós-Psicologia da UFRJ, seu corpo docente, funcionários e colegas do mestrado e
doutorado.
Aos colegas do grupo de orientação, pelas trocas e sugestões sempre bem vindas.
À Virgínia Kastrup, orientadora e companheira desde os tempos do mestrado, obrigado pelo
incentivo e a confiança.
Aos colegas do grupo de pesquisa da UFF, com os quais as discussões foram inspiradoras
para este trabalho. À Letícia, obrigado pela ajuda nessa reta final.
Aos professores e companheiros André do Eirado e Eduardo Passos, obrigado pelo apoio ao
longo desses últimos anos.
Ao Ricardo Carielo, pela ajuda nos últimos dois anos e meio.
Ao Arthur, Ronald e Luciana, pela aceitação do convite para a banca.
Ao CNPQ, por ajudar a viabilizar este trabalho.
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ATENÇÃO A SI: DA AUTO-OBSERVAÇÃO À AUTO-PRODUÇÃO
RESUMO
O objetivo da tese é discutir e ressaltar a atenção a si como um processo de auto-produção, a
partir da abordagem enativa formulada por Francisco Varela. A atenção é habitualmente
investigada como um processo voltado para o mundo exterior. Recentemente, as ciências
cognitivas, que habitualmente baseiam suas pesquisas em métodos experimentais de terceira
pessoa, têm buscado incluir os métodos de primeira pessoa para estudar a experiência. A
crescente utilização de metodologias de primeira pessoa tem colocado o problema de como
acionar e mobilizar a atenção a si, acessando aquilo que se apresenta como experiência.
Visamos discutir como a mobilização da atenção a si depende da maneira como ela é
corporificada num contexto e situação concreta. Assim, ressaltamos que a atenção a si não se
resume a um processo de auto-observação, mas pode constituir um processo de auto-
produção. Esta idéia não tem sido destacada pelos autores que discutem as metodologias de
primeira pessoa. Através da teoria da enação, reavaliamos a própria concepção de atenção.
Buscamos mostrar que efeitos constitutivos de si e de produção de subjetividade nas
pesquisas em cognição. Ao pensarmos a atenção a si como auto-produção, destacamos o
caráter ontológico e não apenas epistemológico das metodologias de primeira pessoa.
Palavras-Chave: Cognição; Atenção; Atenção a si; Metodologias de primeira pessoa; Enação.
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INWARD ATTENTION: FROM SELF-OBSERVATION TO SELF-
PRODUCTION
ABSTRACT
The objective of the thesis is to discuss and highlight the attention turned inward as a process
of self-production, from the enactive approach formulated by Francisco Varela. The attention
is usually investigated as a process toward the outside world. Recently, the cognitive sciences,
which usually base their research in experimental methods of third person, have sought
include first-person methods to study the experience. The increasing use of first-person
methodologies have placed the problem of how to trigger and mobilize the attention turned
inward, by accessing what is presented as experience. We aim to discuss how the deployment
of inward attention depends on how it is embodied in a context and situation. Thus, we stress
that the attention turned inward is not just a process of self-observation, but can be a process
of self-production. This idea has not been highlighted by the authors who discuss the first-
person methodologies. Through the theory of enaction, we re-assess the very concept of
attention. We intend to show that there are effects of self-production and of production of
subjectivity in the research in cognition. When we think the inward attention as self-
production, we highlight the ontological and not just the epistemological character of first-
person methodologies.
Key words: Cognition; Attention; Inward Attention; First-person Methodologies; Enaction.
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SUMÁRIO
1. Introdução 7
2. Estudos da cognição e atenção à experiência
2.1. A abordagem enativa: a dimensão ontológica do processo do conhecer 17
2.2. Relação pesquisador-participante: a questão da co-emergência 41
3. A retomada das metodologias de primeira pessoa nas ciências cognitivas
contemporâneas: o papel da atenção
3.1. A psicologia introspeccionista e a observação atenta dos elementos mentais 58
3.2. O problema da experiência e seus desafios metodológicos atuais 72
4. Atenção a si como atividade enativa
4.1. Consciência, Atenção e Experiência 96
4.2. Atenção a si na abordagem Instrução-Relato 110
4.3. Atenção a si na Neurofenomenologia e na fenomenologia pragmática 119
4.4. Atenção a si na Entrevista de Explicitação 134
4.5. Atenção a si nas práticas Psicoterapêuticas e na Meditação Budista 157
5. Considerações finais 165
Referências 171
7
1. Introdução
A atenção tem sido um tema muito estudado na contemporaneidade. O discurso
econômico da produção e da eficiência tem colocado o problema da gestão da atenção como
uma questão fundamental para o sucesso profissional. Diante da grande quantidade de
informações no contemporâneo, o problema é o direcionamento eficiente da atenção às
informações mais importantes e a persistência nelas de modo a transformá-las em ões bem
sucedidas, sempre visando ganhos futuros (LEVY, 2004; HAGNER, 2003; CRARY, 1999;
CALIMAN, 2006). A difusão crescente do diagnóstico de transtorno de ficit de atenção e
hiperatividade (TDAH) também tem contribuído para tornar a atenção um dos principais
temas de pesquisa na psicologia e psiquiatria. Caracterizado por comportamento hiperativo,
desatenção marcante e impulsividade, o diagnóstico ressalta problemas de atenção que
comparecem hoje sobretudo nas escolas (BARKLEY, 1997a; 1997b; LIMA 2004;
HALLOWELL E RATEY, 1999; CALIMAN, 2006).
Além disso, o desenvolvimento da psicologia cognitiva a partir da segunda metade do
século XX teve na atenção um dos seus tópicos de estudo. Os estudos da psicologia cognitiva
sobre a atenção destacaram a sua participação na realização de outros processos cognitivos.
Desenvolvimento de habilidades, percepção, lembrança voluntária, coordenação da execução
de atividades e experiência consciente. Essa participação aponta a atenção como um processo
original e irredutível aos demais (PARASURAMAM, 2000). O problema apontado é que a
atenção não possui conteúdo próprio como a percepção e a memória, por exemplo. Os objetos
da atenção seriam os próprios processos cognitivos que ela investe, modula e regula o
funcionamento. É assim que Camus (1996) define a atenção, como processo responsável pela
regulação ou modulação do funcionamento cognitivo.
8
Em todos esses discursos, tanto o que coloca o problema da gestão da atenção, quanto o
que foca o problema do TDAH, quanto os estudos da psicologia cognitiva, a atenção
investigada tem sido sempre aquela voltada para o mundo, para o meio externo. Nessas
investigações o problema da atenção é em geral colocado em relação à realização eficiente de
tarefas. A atenção está sempre voltada para a busca e captação de informações no mundo com
vistas a responder adequadamente a problemas pré-determinados (KASTRUP, 2004).
No entanto, recentemente, as ciências cognitivas, que habitualmente baseiam suas
pesquisas em métodos experimentais de terceira pessoa, têm buscado incluir métodos de
primeira pessoa para estudar a experiência (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992;
VARELA, 1996a; LUTZ E THOMPSON, 2003; JACK E ROEPSTORFF, 2002a, 2003;
VERMERSCH, 1994, 2004). A crescente utilização de metodologias de primeira pessoa tem
colocado o problema de como acionar e mobilizar uma atenção a si, acessando aquilo que se
apresenta como experiência (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003; JACK E
SHALLICE, 2001; PETITMENGIN, 2006a, 2006b, 2007; THOMPSON, LUTZ E
COSMELLI, 2005; WALLACE, 1999, 2008).
O tema geral do presente trabalho é a atenção a si. Analisamos a colocação desse
problema para os estudos da cognição assumindo a abordagem enativa, formulada por
Francisco Varela (1988, 1992; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). A abordagem
enativa nos permite pensar como, da mesma forma que toda atividade de conhecimento, a
prática de pesquisa da cognição possui efeitos constituidores do próprio sujeito cognoscente.
Não se trata simplesmente de uma prática neutra, que visa representar um objeto
independente, mas ela constitui esse objeto na situação mesma da pesquisa. Esses efeitos
9
constituidores de si se colocam na medida em que a realização do experimento e os
procedimentos do método dependem da maneira como o sujeito os corporifica.
Sendo assim, o problema que colocamos é: não seriam as próprias metodologias de
primeira pessoa sujeitas ao mesmo problema da experiência, isto é, da corporificação da ação
e constituição de si? Este é um ponto importante que a nosso ver não é devidamente levado
em conta pelos autores que têm trabalhado com as metodologias de primeira pessoa. De
acordo com nossa análise, os autores que defendem as metodologias de primeira pessoa
ressaltam a atenção a si apenas em sua dimensão de auto-observação. O que nós pretendemos
ressaltar com nossa tese, e que esses autores não chegam a apontar, é que essa auto-
observação constitui, ao mesmo tempo, um processo de auto-produção.
Entendemos toda atividade cognitiva como uma atividade enativa. Colocamo-nos então
a questão de pensar o processo atencional como também sendo caracterizado por um modo de
corporificação. Enquanto atividade enativa, a atenção não é necessariamente pilotada por um
“eu”, assim como seria equivocado pensar a atenção como um processo que possui uma forma
natural e universal. Seria mais adequado pensarmos em diferentes modalidades da atenção de
acordo com o contexto e a história de acoplamentos. Essa é uma abordagem do problema da
atenção diferente da abordagem padrão da psicologia cognitiva, baseada no paradigma de
processamento de informação (CAMUS, 1996; PARASURAMAM, 2000). Analisando, desse
modo, como a atenção é acionada e mobilizada nas metodologias de primeira pessoa,
revelaremos o caráter ontológico, e não apenas epistemológico, de tais práticas de pesquisa.
Como o próprio Varela buscou afirmar no interior do campo das ciências cognitivas: ser =
fazer = conhecer.
10
No primeiro capítulo, apresentaremos a abordagem enativa e a crítica que ela apresenta
à abordagem representacional no campo das ciências cognitivas (VARELA, 1988, 1989,
1991, 1992, 1996b, 1997; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). A cognição enativa se
caracteriza não pela representação de uma realidade independente, mas pela determinação
mútua de si e do mundo. A cognição é sempre uma emergência situada, singular e concreta.
Do ponto de vista das ciências cognitivas, isso coloca um problema à separação pesquisador-
pesquisado. A atividade cognitiva mobilizada num experimento é ela mesma co-emergente
com a situação de pesquisa, pois depende de como o sujeito experiencia essa situação,
expresso na maneira como ele a corporifica. Utilizaremos o trabalho de Vinciane Despret
(2004a, 2004b) no campo da etologia para desenvolvermos essa noção de co-emergência ou
inseparabilidade entre pesquisador e pesquisado.
No campo das ciências cognitivas, desde o final dos anos oitenta, tem se enfatizado o
interesse pelo problema da consciência e da experiência, o que tem levado a uma reavaliação
das teorias e métodos desse campo. A colocação desse problema aponta para a necessidade de
se incluir nos estudos da cognição a investigação da experiência, o que tem renovado o
interesse por metodologias de primeira pessoa, pois a metodologia experimental padrão,
baseada em dados comportamentais e neuronais, não conta do domínio da experiência
(VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992; VARELA, 1996a; VARELA E SHEAR, 1999a;
LUTZ E THOMPSON, 2003; JACK E ROEPSTORFF, 2002a, 2003; VERMERSCH, 1994,
2004). Os processos cognitivos podem ser colocados em novas bases com o retorno das
investigações de primeira pessoa, isto é, podem ser estudados não apenas como resultado
observável de uma tarefa, mas também como um processo ou ação cognitiva que pode estar
disponível como experiência consciente.
11
A idéia de retomada das metodologias de primeira pessoa remonta ao início da
psicologia experimental, no final do século XIX, quando a psicologia utilizou um método de
primeira pessoa para estudar a consciência: a introspecção. De fato, o uso da introspecção
como método de investigação de temas psicológicos remonta ao início do século XIX,
anterior ao surgimento da psicologia experimental. Segundo Pierre Vermersch (1999), Maine
de Biran, geralmente reconhecido como o primeiro pesquisador a ser identificado como
psicólogo, utilizava a introspecção, ou o “sentido interno” (internal sense) para estudar os
eventos mentais, diferentemente da especulação filosófica. Vermersch afirma que Maine de
Biran era ciente do papel facilitador que o esforço tinha na observação das atividades
intelectuais. O reconhecimento do papel do esforço está ligado ao uso da estratégia
introspectiva. no final do século XIX William James também destaca a introspecção como
o método da psicologia: “Observação introspectiva é com o que podemos contar antes de mais
nada e sempre. A palavra introspecção mal precisa ser definida ela significa, é claro,
investigar nossa própria mente e relatar o que lá descobrirmos” (JAMES, 1890/1990: 121)
1
.
A diferença entre a introspecção praticada no início do século XIX e a do final desse
século foi o caráter científico/experimental com que a pesquisa passou a ser apresentada nos
laboratórios de Wundt, Titchener e Kulpe (VERMERSCH, 1999). A psicologia
introspeccionista surge buscando aplicar ao estudo da mente o ideal de inteligibilidade
naturalista, que enfatizava a observação e descrição do fenômeno estudado (BORING, 1979;
VERMERSCH, 1999; PASSOS, 1992). Nesse sentido, como os únicos processos mentais
acessíveis à observação são os do próprio sujeito, o método da psicologia poderia ser uma
auto-observação ou introspecção, como uma experiência ou apreensão direta dos fatos
psíquicos. Segundo Boring (1953), o desacordo sobre esse pressuposto de observação ou
1
A tradução dos textos publicados em língua estrangeira é de minha autoria.
12
apreensão direta dos fatos psíquicos levou à recusa do método introspeccionista pela
psicologia experimental do início do século XX, em nome de dados mais objetivos, como os
dados comportamentais. Ao lado dos dados comportamentais empregados pela psicologia
cognitiva, as pesquisas mais recentes em neurociências trouxeram os dados neurais, através
do imageamento cerebral, como base fenomênica dos estudos em cognição. Mas o que vem
sendo problematizado por alguns pesquisadores contemporâneos é a ênfase exclusiva das
investigações em cognição nesses dados operacionalizáveis comportamentais e neuronais,
oriundos do emprego de metodologias de terceira pessoa.
Podemos distinguir metodologias de primeira, segunda e terceira pessoa a partir do
dispositivo utilizado para a coleta de dados e do tipo de dado coletado (VARELA E SHEAR,
1999a; JACK E ROEPSTORFF, 2002a; VERMERSCH, 1997). A metodologia de terceira
pessoa é aquela em que o dado surge para o observador externo e científico, a partir de um
dispositivo experimental. Ela pressupõe a relação do participante com um ambiente
controlado (normalmente definido pela apresentação de estímulos). A metodologia de
segunda pessoa é aquela na qual o dado surge para uma segunda pessoa, pela sua mediação.
Ela pressupõe a relação do participante da pesquisa com esse outro sujeito, seja o pesquisador
através das instruções para o experimento, seja um entrevistador através de perguntas ou
questões. Já a metodologia de primeira pessoa é aquela na qual o dado é fenomenológico, no
sentido daquilo que aparece para o sujeito, como experiência, a partir da atenção que o sujeito
porta sobre si próprio, sobre isso que ele pode acessar de sua experiência no momento
presente em que ele experimenta ou a posteriori (retrospectivamente). Ela pressupõe a relação
do sujeito consigo mesmo em função de uma atenção a si.
No segundo capítulo aprofundaremos as críticas e os argumentos que visam a inclusão
da questão da experiência e do uso de metodologias de primeira pessoa nas ciências
13
cognitivas. Apresentaremos os argumentos de Jack e Roepstorff (2002a, 2003, 2004), Lutz e
Thompson (2003; Lutz et AL, 2002), Varela e Shear (1999), Vermersch (1994, 1999).
Veremos que ocorrem variações nas respostas do sujeito ao experimento que dependem da
sua compreensão das instruções e das estratégias por ele adotadas. A descrição do
funcionamento cognitivo a partir da vivência de um sujeito concreto (perspectiva de primeira
pessoa) porta relevantes diferenças em relação às descrições teóricas derivadas de métodos de
terceira pessoa. Notaremos que esses argumentos demonstram o caráter co-emergente dos
experimentos em cognição, o que problematiza a estratégia de pesquisa estímulo-resposta
utilizada pela psicologia cognitiva. A estratégia estímulo-resposta pressupõe uma cognição
pré-existente a ser representada. Pretendemos no primeiro e segundo capítulos demonstrar
como a produção de conhecimento é inseparável da produção de realidade, o que implica o
caráter ético-político dos estudos da cognição.
As metodologias de primeira pessoa são procedimentos disciplinados para que o sujeito
possa acessar e descrever a sua própria experiência (VARELA E SHEAR, 1999a; LUTZ E
THOMPSON, 2003). Uma questão que se coloca é que não se trata de uma descrição da
primeira coisa que vem à cabeça do sujeito, ou daquilo que lhe é imediatamente consciente.
Daí o problema metodológico: como a atenção a si se torna atenção a experiência? Pierre
Vermersch (1994; 2004) e Claire Petitmengin (2006a, 2006b, 2007) ressaltam o problema
(paradoxal) de como a familiaridade com nossa experiência (como se ela fosse evidente para
nós) nos torna cegos para muitos de seus aspectos que são pré-refletidos. Além disso, o
emprego dessa atenção que se volta para si, para a própria experiência, é contra-habitual.
Autores como Petitmengin (2006a, 2006b, 2007), Shear e Jevining (1999), Vermersch (1994,
1999, 2004), Ginsburg (1999), Gendlin (1999), Jack e Roepstorff (2002a, 2004), Depraz,
Varela e Vermersch (2000, 2003), Thompson, Lutz e Cosmelli (2005), apontam a diferença
14
entre processos conscientes e não conscientes, colocando a questão da experiência pré-
refletida, que é visada por eles através das metodologias de primeira pessoa. Dessa forma,
esses trabalhos revelam operações e transformações sobre a atenção, necessárias para se
apreender essa dimensão pré-refletida da experiência.
Depraz, Varela e Vermersch (2003) ao discutirem o problema do devir consciente o
colocam sob o ponto de vista da atenção. O chamado ciclo básico que caracteriza as diversas
etapas do devir consciente é definido como suspensão, redireção da atenção e mudança de
qualidade da atenção. Petitmengin (1999, 2006a, 2006b) investigando a intuição e discutindo
o acesso a dimensão pré-refletida da experiência fala da “adoção de uma „posição de atenção‟
particular, ao mesmo tempo periférica, panorâmica, difusa, não determinada sensorialmente, e
muito fina, sensível às descontinuidades as mais sutis” (PETITMENGIN, 2006a: 87). Jack e
Shallice afirmam que “nós observamos a introspecção como uma atividade atenta, que requer
esforço e recursos mentais” (2001: 171). Diversos trabalhos da coletânea The View from
Within, organizada por Varela e Shear (1999), também definem o problema da abordagem de
primeira pessoa ressaltando a questão da atenção. Por exemplo, Carl Ginsburg, discutindo a
prática corporal do método Feldenkrais, fala de uma “atenção direcionada para a qualidade da
execução, mais do que para o tamanho do movimento” (GINSBURG, 1999: 83). Discutindo a
redução fenomenológica Natalie Depraz (1999) fala “da passagem de uma atenção
direcionada para o objeto para uma atenção direcionada para o ato” (DEPRAZ, 1999: 98-99),
e da “qualidade singular da atenção des-interessada” (DEPRAZ, 1999: 104). Alan Wallace,
discutindo a contemplação budista, afirma “o Buda refinou técnicas para estabilizar e refinar a
atenção [...] As metas centrais do cultivo do Samatha são o desenvolvimento da estabilidade e
vividez atencional” (WALLACE, 1999: 176-177). O neuropsiquiatra Jeffrey Schwartz (1999),
15
discutindo o tratamento da desordem obssessivo-compulsivo, cita a contribuição do cultivo
budista de uma “atenção básica” (bare attention).
Buscaremos demonstrar que uma dimensão técnica dessa atenção à experiência, o
que implica a necessidade de se encarnar outra configuração do processo de atenção a si,
diferente dessa que mobilizamos no nosso dia a dia, em nossa atividade diária. Ou seja, essa
atenção a si não está dada, e precisa de um método para se tornar uma prática corporificada. A
operação das metodologias de primeira pessoa depende de que o eu, cuja natureza é “vazia de
si” (Varela, 1991, 1996b, 1997), co-emerja na situação da pesquisa. Afirmar esse caráter
enativo da atenção a si é por em evidência que essa discussão sobre metodologias de primeira
pessoa não é meramente epistemológica, mas é sobretudo ontológica.
No terceiro capítulo, buscaremos demonstrar esse caráter ético-político no interior das
próprias metodologias de primeira pessoa. Discutiremos o processo de atenção a partir da
abordagem enativa. Assim pretendemos demonstrar como a atenção investigada pela
psicologia cognitiva (CAMUS, 1996; PARASURAMAM, 2000; STENBERG, 2000;
ASHCRAFT, 1994; KANTOWITZ, HOEDIGER E ELMES, 2006), tanto quanto a atenção a
si problematizada nas discussões sobre metodologias de primeira pessoa, não constitui um
processo natural ou universal, mas inclui diferentes modalidades de atenção corporificadas de
acordo com o contexto e a história de acoplamentos. Buscaremos apontar os efeitos
constituidores de si da atenção a si mobilizada em diferentes abordagens de metodologias de
primeira pessoa. A abordagem instrução-relato proposta por Jack e Roepstorff (2002a, 2003,
2004), a Neurofenomenologia proposta por Varela (1996a; LUTZ E THOMPSON, 2003;
THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005), a fenomenologia pragmática proposta por
Depraz, Varela e Vermersch (2000, 2003), a entrevista de explicitação (VERMERSCH, 1994,
16
1999, 2000, 2004; PETITMENGIN, 2006b). Por fim, veremos a atenção a si mobilizada no
método Feldenkrais de trabalho de corpo (GINSBURG, 1999), na técnica do focusing
formulada por Eugene Gendlin (1999), e na prática de meditação budista (WALLACE, 1999,
2008; SHEAR E JEVINING, 1999, VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). Nestas
práticas a questão da atenção a si está a serviço não apenas do conhecimento da experiência,
mas sobretudo de mudanças existenciais.
17
2. Estudos da cognição e atenção à experiência
2.1. A abordagem enativa: a dimensão ontológica do processo do conhecer
É a partir da abordagem da enação, formulada por Francisco Varela, que nossa tese pretende
ressaltar o caráter de auto-produção das metodologias de primeira pessoa e especificamente
da atenção a si. Vejamos então o que essa abordagem afirma sobre a natureza da atividade
cognitiva. A abordagem da enação surge no campo das ciências cognitivas tentando fazer
frente ao modelo da representação (VARELA, 1988, 1992; VARELA, THOMPSON E
ROSCH, 1992). Pela abordagem representacional sujeito e mundo são dois entes pré-
existentes. A relação cognitiva se assenta na recuperação ou representação de características
ambientais extrínsecas e independentes do sujeito cognitivo. Por outro lado, a abordagem da
enação afirma que a cognição não é a representação de um mundo prévio por uma mente pré-
existente, mas sim, a enação de um mundo e uma mente com base numa história de ações
diversas realizadas pelo ser no mundo (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992)
2
.
De acordo com Varela (1997), o termo cognitivo possui duas dimensões constitutivas:
primeiro sua dimensão de acoplamento, ou seja, a ligação com o meio; segundo, sua dimensão
interpretativa, isto é, a significação que uma interação física adquire. O mundo com o qual
estamos em relação é uma realidade recortada, multifacetada, que possui organização e
limites. Segundo Cummins e Schwarz (1992), o que nos leva a considerar que um sistema
cognitivo mantém, com esse ou aquele domínio, uma relação de cognição, ao invés de
simplesmente reagir ao meio, é o fato de percebermos no seu comportamento respeito à
2
O conceito de enação deriva do inglês to enact, que significa literalmente "atuar", "por em ato", "efetuar".
Varela (1988) pretende com ele preservar a proximidade entre ação e ator, ou seja, a ação está inevitavelmente
ligada a um sujeito, mas este não existe independentemente dela (ser = fazer). Ao mesmo tempo, a enação afirma
que o conhecimento não depende unicamente de qualidades intrínsecas do que se conhece, pois este é en-agido,
nós fazemo-lo emergir (ser = fazer = conhecer).
18
“restrições epistemológicas” congruentes a um domínio, das quais se considera que ele tenha
conhecimento. A psicologia cognitiva enfatiza o problema da cognição para explicar o
comportamento do individuo num contexto (CATANIA, 1999). Aquilo que o sujeito faz
depende do que ele sabe. Daí a importância de se colocar o problema da cognição.
Quando Ulric Neisser (1967) inaugura a psicologia cognitiva, o problema da cognição
é equacionado considerando-se que o mundo no qual vivemos e agimos é um mundo
reconstruído ou interpretado por nós. Assim, o autor afirma que a cognição se refere a “todos
os processos pelos quais a entrada sensorial é transformada, reduzida, elaborada, armazenada
e usada(NEISSER, 1967: 4). A cognição opera, portanto, uma transducção pela qual, por
exemplo, traços de tinta numa gina tornam-se letras. A psicologia cognitiva que surge na
década de sessenta é fortemente influenciada pelo paradigma computacional. Ela retém deste
a idéia de processamento de informação. O programa de computador, assim como as teorias
da cognição, são descrições das vicissitudes do input informacional “Informação é o que é
transformado, e o padrão estruturado de suas transformações é o que queremos entender”
(NEISSER, 1967: 8). Para os psicólogos cognitivos, a cognição é formada por este padrão
estruturado de processamento de informação. É ele que exerce a função interpretativa
característica da cognição.
Segundo John Best (1995), os estímulos que nos são apresentados são convertidos,
elaborados e transformados num código neural ou cognitivo, pelo padrão de atividade neural.
O código cognitivo é uma descrição no nível mais abstrato do código neural. Best chama a
atenção para o fato de que essa conversão do estímulo físico em código cognitivo preserva o
conteúdo informacional presente no estímulo, que nos interessa para produzir uma resposta
adaptativa. O caráter reduzido de um código cognitivo refere-se ao fato de que ele não
preserva e nem retém todas as características da estimulação física original. “Esta redução não
19
é ruim, porque a maior parte da energia física no meio não é muito informativa e por isso não
vale mantê-la” (BEST, 1995: 5). Nós reduzimos o mundo para agir nele. Ao preservar o valor
informacional do estímulo, o código cognitivo torna-se uma representação da realidade distal,
pois, ao mesmo tempo em que ele é diferente dela, a ela corresponde. A representação é e não
é o representado: é, porque se não fosse ela não remeteria a esse representado, e não é porque,
se fosse, ela seria desnecessária (o sentido transmitido já estaria presente) (RECANATI,
1979).
Essa concepção dos processos cognitivos implica um caráter ativo por parte do sujeito
cognoscente “o mundo da experiência é produzido pelo homem que o experiencia”
(NEISSER, 1967: 3). Entretanto, esse processo de interpretação é, de fato, uma
(re)construção. Neisser não põe em dúvida a existência de uma realidade externa e
independente do sujeito. A questão para a psicologia cognitiva é que o acesso ao mundo pelo
sujeito é mediado pelo tratamento da informação. É ele que permitirá a recuperação das
propriedades intrínsecas do mundo na forma de representação. Fala-se, por exemplo, na
percepção visual, de recuperar a forma a partir do sombreamento, ou recuperar a cor a partir
da luminosidade. Nesse sentido, dizemos que conhecimento é representação.
A questão levantada por Varela (1989, 1991, 1997; VARELA, THOMPSON E
ROSCH, 1992) na abordagem enativa é que a base da qual essa interpretação parte não é um
fundamento absoluto, como uma realidade pré-existente. Sendo assim, as duas dimensões
constitutivas do termo cognitivo (dimensão de acoplamento e dimensão interpretativa) não
são pré-determinadas, e sim enatuadas. Varela demonstra isso definindo a autonomia como a
característica essencial da cognição. A cognição é autônoma porque ela é auto-referida. Se ela
fosse heterônoma, suas condições seriam especificadas por algo externo. Os sistemas
autônomos são também definidos por Varela como sistemas operacionalmente fechados
20
(clausura operacional). Nestes sistemas, os processos voltam-se sobre eles mesmos na sua
própria operação, de modo que o resultado dos processos são os próprios processos. Forma-se
assim uma rede circular autônoma ou auto-organizada
3
. A autonomia redefine o conceito de
informação. O conceito de input é substituído pelo de perturbação (VARELA, 1989). O input
especifica o modo único em que a transformação de estado do sistema pode ocorrer, por isso,
ele define a unidade. O processamento de informação reduz e elabora o código cognitivo de
modo a preservar o valor informacional presente no estímulo. Mas esse conteúdo
informacional pré-existe ao processamento, de forma que ele o condiciona heteronomamente.
A perturbação não especifica o sistema cognitivo, pois o seu efeito depende da dinâmica auto-
organizada do sistema. Ao especificar os efeitos da perturbação, a auto-organização do
sistema especifica o próprio mundo conhecido.
Varela (1991, 1997) também ressalta que, de forma complementar à constituição de
um mundo, o próprio sujeito cognoscente é produzido a partir da dinâmica auto-organizada. A
autonomia não é definida por um agente independente e pré-definido, e sim pela capacidade
de redefinição constante dos limites nos quais opera a cognição. Varela usa a abordagem
enativa para descrever diferentes sistemas cognitivos como a unidade celular, o sistema
nervoso e o sistema imunológico. A dinâmica auto-organizada da célula é definida pelo que
ele e Maturana denominam organização autopoiética (MATURANA E VARELA, 1995,
1997). Ela é definida por uma concatenação circular de processos de produção, que
constituem os componentes da célula e sua fronteira (membrana). Essa rede interdependente e
autônoma enseja uma clivagem nas reações físico-químicas. Essa clivagem configura uma
fronteira física, a partir da qual observamos um si e um mundo. Ao especificar os próprios
3
Comentando o trabalho de Varela, Eirado e Passos (2004) afirmam que a autonomia se opõe à exterioridade
legislativa. A autonomia implica que não há instância legisladora externa: o ato de dar a lei e o ato de se
conformar a ela formam um único e verdadeiro ato de criação de si mesmo.
21
limites, o vivo emerge enquanto unidade organizada e constitui o que o observador percebe
como um para si, uma perspectiva (um self) a partir da qual um domínio de interações se
definirá. O si e o mundo não pré-existem, eles emergem a partir da dinâmica auto-organizada.
Assim, a cognição, caracterizada pela autonomia, não é representação de uma realidade
independente, mas sim enação de si e do mundo.
O processo cognitivo ou interpretativo é inseparável da própria constituição do
sistema, ou seja, a produção do conhecimento e a constituição de si possuem raízes comuns: a
dinâmica circular e autônoma. Por isso, a abordagem enativa é caracterizada por colocar em
questão a gênese da realidade cognitiva, o processo no qual co-emergem sujeito e objeto. No
nível celular, o surgimento de um sistema cognitivo e de um mundo correlato é definido pela
configuração de uma fronteira física (membrana). Por sua vez, no nível do sistema nervoso,
esse surgimento é definido pela configuração de uma “fronteira comportamental”, mais
especificamente de uma unidade percepto-motora, a qual depende da auto-organização do
sistema nervoso (VARELA, 1991, 1997). Esta é composta por uma rede de módulos de sub-
redes reciprocamente relacionadas, dando origem a: padrões estáveis de correlações sensório-
motoras das superfícies sensorial e efetora; e, a um comportamento coerente para o organismo
total como uma unidade móvel no espaço.
Na abordagem enativa o conceito de informação não é causa da experiência, já que não
atributos no mundo que independam daquele que percebe. O ponto de partida para se
compreender a percepção não é o processamento de informações, a recuperação das
propriedades pré-determinadas do mundo. Varela (1992; VARELA, THOMPSON E ROSCH,
1992) exprime essa idéia com o princípio de que a percepção consiste em ações
perceptivamente guiadas. As variações nas sensações estão ligadas às ações e vice-versa.
Percepção e ação são inseparáveis no vivido da cognição e não ligados eventualmente como
22
pares entrada/saída (input/output). Estabelece-se assim uma gênese circular da cognição. Cada
um constitui o ponto de referência do outro os movimentos do organismo são condicionados
pelos seus vínculos sensórios e, por sua vez, as perturbações que ele recebe são ensejadas
pelos seus movimentos formando uma circularidade infinita que impossibilita jogar uma
âncora e dizer: aqui se origina a cognição (VARELA, 1989).
Varela cita como referência para a compreensão dessa abordagem da percepção o
trabalho A Estrutura do Comportamento de Merleau-Ponty. Nessa obra, Merleau-Ponty
(1942/2006) critica o modelo entrada-saída da reflexologia da primeira metade do século XX.
O reflexo é concebido como a operação de um agente físico ou químico definido sobre um
receptor localmente definido, que provoca, por um trajeto definido, uma resposta definida. A
crítica de Merleau-Ponty ressalta como nesse modelo o organismo não exerce nenhum papel
positivo na elaboração dos estímulos. O corpo funcionaria como um mecanismo cego, um
mosaico de seqüências causais independentes. Merleau-Ponty compara o organismo nessa
concepção a um teclado, no qual os estímulos exteriores tocariam, desenhando a forma que
lhes é própria. Mas, segundo ele, essa comparação é inadequada, pois o organismo contribui
para a constituição do estímulo. É o próprio organismo, segundo a natureza de seus
receptores, os patamares de seus centros nervosos, segundo os movimentos dos órgãos, que
escolhe no mundo físico os estímulos aos quais será sensível. “Quando o olho e a orelha
acompanham um animal que foge, na troca dos estímulos e das respostas é impossível dizer
„quem começou‟” (1942/2006: 14).
A concepção de um corpo como um mecanismo cego que responde de forma
determinada, por circuitos determinados, a um mundo determinado, lugar a uma dialética
entre organismo e mundo. A mesma ação externa terá um efeito variável conforme o contexto
das ações precedentes e seguintes. Merleau-Ponty (1942/2006) afirma que a ação do
23
organismo não deve ser compreendida como a soma de circuitos reflexos definidos. Ocorre no
interior do sistema nervoso o que ele chama de “fenômenos transversais”. O excitante, ao qual
o organismo responde, não é uma soma de estímulos parciais, mas uma constelação, um
conjunto, que seu sentido momentâneo a cada uma das excitações locais, afirma Merleau-
Ponty o destino de uma excitação é determinado por sua relação com o conjunto do estado
orgânico e com as excitações simultâneas ou precedentes, e que entre o organismo e seu meio
as relações não são de causalidade linear, mas de causalidade circular (1942/2006: 17
grifo nosso). A noção de causalidade circular mostra como o organismo modifica a si e seu
mundo pela sua própria atividade
4
.
Varela, Thompson e Rosch (1992) apresentam a percepção de cores como um exemplo
de cognição enativa. Uma vez que percebemos as cores como espacialmente localizadas, elas
são facilmente consideradas como um atributo das coisas no mundo, apelando para a
intensidade e composição do comprimento de onda refletida por uma área. Porém, quando a
área é vista como parte de uma cena complexa e não de forma isolada, a luz refletida
localmente não é suficiente para predizer a cor percebida. Assim, não correspondência
direta entre a cor percebida e a luz localmente refletida. Varela, Thompson e Rosch afirmam
que precisamos considerar os processos complexos de comparação e cooperação entre os
múltiplos conjuntos de neurônios no cérebro, que atribuem cores a objetos de acordo com os
estados globais e emergentes que eles alcançam dada uma imagem retiniana. A rede neuronal
não funciona como uma rua de mão única da percepção para a ação. Percepção e ação,
sensório e motor, estão ligados como padrões sucessivamente emergentes e mutuamente
4
Neste trabalho Merleau-Ponty usa o conceito de forma da Gestalt para criticar o modelo reflexológico do
Behaviorismo. Posteriormente, no mesmo livro, ele criticará a noção de forma da Gestalt, especificamente o
princípio do isomorfismo, pois para ele há diferença de estrutura entre os domínios físico, vital e psíquico.
Diferentemente de Merleau-Ponty, Varela fundamentará a teoria da enação no modelo dos sistemas dinâmicos,
auto-organizados.
24
seletivos. O que está envolvido na percepção das cores é uma grande e distribuída rede
neuronal.
Por essa lógica da auto-organização, sempre percebemos as cores dentro de um
contexto visual e experiencial mais abrangente, o qual elas produzem ao mesmo tempo em
que são por ele produzidas. As cores nos são dadas no interior de um mundo próprio,
relacionado ao cognoscente. Elas não existem como atributos independentes no mundo. Ver a
cor como um item isolado é um modo de configurar esse mundo próprio. Dessa forma, a
percepção visual está em ativo intercambio com outras modalidades sensoriais. Exemplos de
associações entre cor e som são bem conhecidos dos artistas. Um exemplo mais dramático é
dado no artigo O caso do pintor daltônico” escrito por Oliver Sacks (1995). Ele apresenta o
caso de um paciente, chamado Sr. I., que devido a um acidente ficou completamente
daltônico. O Sr. I. era um artista conhecido por suas pinturas, especialmente coloridas e
abstratas. Mas como resultado do acidente ele não podia mais distinguir nenhuma cor: ele
vivia em um mundo visual preto e branco. O entrecruzamento entre a percepção das cores e
outras modalidades de experiência é demonstrada pelo Sr. I. nas descrições após o acidente.
Por causa da ausência de cores, o caráter da sua experiência como um todo mudou
dramaticamente: tudo o que ele via “tinha uma aparência desagradável”, “suja”. O Sr. I. relata
que as pessoas pareciam “estátuas cinzentas animadas”, “cor de carne” para ele passou a ser
“cor de rato”. Ele achava a comida nojenta, e as relações sexuais impossíveis de manter. Seu
gosto pela música também estava prejudicado, pois não podia mais experienciar tons musicais
transformando-os sinestesicamente em jogos de cores. Seus hábitos, comportamentos e ações
mudavam à medida que ele passava a preferir a noite, ele estava se tornando uma “pessoa da
noite”. O caso do Sr. I. mostra como as cores possuem uma qualidade na experiência, elas não
são meros atributos físicos do mundo, elas são vividas.
25
E, na medida em que é vivido, o mundo percebido não possui uma natureza em si, pois
ele depende da emergência de uma perspectiva (um para si) a partir da clausura operacional
do sistema nervoso. Essa perspectiva define uma “fronteira comportamental”, em função da
qual percebemos uma unidade percepto-motora e um mundo próprio. No entanto, essa
identidade cognitiva que emerge da auto-organização do sistema nervoso não está
fundamentada em qualquer concepção de “agente central”, ou em alguma ordem pré-existente
em qualquer localização, como um programa genético. Varela (1991, 1996b, 1997) fala em
emergência a partir de processos distribuídos, que dão surgimento a um todo integrado sem a
necessidade de uma supervisão central selfless self. O modelo dos sistemas dinâmicos, com
o qual trabalha Varela, à cognição uma abertura temporal, o que difere do modelo do
processamento sintático (algoritmo) com o qual trabalha o cognitivismo computacional. Esse
“eu vazio de si”, definido pela dinâmica auto-organizada do sistema nervoso, implica uma
espécie de regulação flexível da atividade cognitiva “contínua redefinição do que fazer não
se assemelha em absoluto a um plano, armazenado num repertorio de possíveis alternativas,
senão que depende enormemente da contingência, da improvisação e é mais flexível do que
um planejamento” (VARELA, 1997: 83).
Merleau-Ponty (1942/2006) também fala de uma regulação flexível entre os sistemas
sensório e motor, que conta melhor do comportamento efetivo. Ele afirma que no modelo
do reflexo (mecanismo cego), as ações não são determinadas, em nenhum grau, pela natureza
intrínseca da situação, mas inteiramente pelas conexões preexistentes. A situação intervém
apenas como um agente que gira a chave, aperta o botão, liga a máquina. Contudo, para que
“os movimentos vitais tenham imediatamente a precisão e a leveza que neles são tão
impressionantes, ou que pelo menos possam se corrigir pela experiência, é preciso que a
inervação motora seja regulada a cada momento e em cada caso considerando-se as
26
particularidades da situação” (MERLEAU-PONTY, 1942/2006: 49). A maneira como a
reflexologia clássica soluciona esse problema da adaptação de nossas respostas à variedade
das situações é pela superposição aos arcos reflexos simples de dispositivos de controle e
inibição. Mas, como afirma Merleau-Ponty, esses novos circuitos de regulação, ao serem
concebidos a partir do modelo do arco reflexo, não são mais autônomos que os primeiros e
admitirão toda sorte de interferências “As instâncias superiores (...) têm elas próprias
necessidade de serem explicadas, e isso pelas mesmas razões que as fizeram ser introduzidas”
(MERLEAU-PONTY, 1942/2006: 44). O próprio controle precisará então ser submetido a
uma regulação superior, e seriamos assim levados a uma regressão ad infinitum. Com a
regulação flexível o “mesmo” estímulo e a “mesma” resposta podem funcionar de maneira
qualitativamente diferente “É preciso pois que a parte receptora e a parte motora do sistema
nervoso deixem de ser concebidas como sistemas independentes cuja estrutura seria
estabelecida antes que se relacionassem” (MERLEAU-PONTY, 1942/2006: 50). Tem-se
assim uma espécie de regulação “acéfala", cujo centro está em toda parte e em parte nenhuma.
A autonomia implica a variação ou flexibilidade no centro da atividade cognitiva, sem
a necessidade de um “agente central”. Se partirmos de uma realidade completamente dada, a
variação das situações impõe a multiplicação das instâncias de controle responsáveis pela
representação; precisaríamos sempre conhecer as leis do mundo para agir nele. Contudo,
segundo Varela, Thompson e Rosch (1992), todas as nossas atividades dependem de um
background que nunca pode ser precisado de forma absoluta e definitiva. Tarefas comuns,
como cozinhar ou dirigir um automóvel, não são domínios dos quais é fácil especificar todos
os estados possíveis, seus limites são menos circunscritos ou mais indefinidos. Por isso, a
“maior habilidade da cognição viva, (...), consiste na capacidade de colocar, dentro de amplos
limites, os problemas relevantes que devem ser enfrentados a cada momento” (VARELA,
27
THOMPSON E ROSCH, 1992: 173). Tais questões “não são predefinidas, mas en-agidas,
nós fazemo-las emergir...” (VARELA, 1988: 73). Tais limites indefinidos não pressupõem
uma resposta verdadeiramente adequada, mas sim múltiplas possibilidades de enação de si e
do mundo. A falta de fundamento absoluto na cognição é a urdidura da co-emergência: “a
ausência de fundamento é revelada na cognição como senso comum, ou seja, em saber como
abrimos passo em um mundo que não é fixo e nem pré-dado, senão que se modela
continuamente através dos atos que efetuamos” (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992:
173).
Essa compreensão enativa, no entanto, não nos leva a um relativismo. O relativismo é
um problema na epistemologia, pois ele pressupõe que as diferentes perspectivas do
conhecimento são arbitrárias e, por isso, incomensuráveis. A teoria da enação mostra que o
sujeito não é determinado por algo externo, por um input, entretanto, ele não atua de forma
arbitrária no mundo. Como diz Varela, a realidade é dependente do sujeito da percepção, “não
porque ele a „constrói‟ por um capricho” (1992: 330), mas porque o que conta como mundo
relevante é inseparável da sua incorporação. Varela, Thompson e Rosch criticam o que eles
chamam de posição da galinha e do ovo. A posição da galinha é representacionalista, para ela
o mundo externo tem propriedades pré-determinadas. Já a posição do ovo é solipsista, para ela
o sistema cognitivo cria seu próprio mundo, cuja solidez aparente reflete as leis internas do
sistema. A abordagem enativa critica ambas as posições: “ainda que a mente e o mundo
surjam juntos na enação, seu modo de emergir em qualquer situação particular não é
arbitrário” (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992: 207). Para a abordagem enativa a
cognição não possui fundamento absoluto, tanto externo quanto interno, contudo, isso não
quer dizer que a cognição não possua suas condições de possibilidade. Tais condições de
possibilidade existem, e elas são concretas, incorporadas, históricas e contextuais.
28
Para Varela (1992; 1996b) a cognição autônoma é essencialmente concreta,
corporificada e situada. É a corporificação e o contexto, isto é, o concreto, que nos permite
negociar nosso caminho em um mundo que não é fixo e pré-determinado. A maneira pela qual
o sujeito é corporificado, e não algum mundo independente, é que especifica o modo como o
observador pode agir e ser modulado pelos eventos ambientais. Varela afirma que a enação
consiste não de representações, mas de ações corporificadas. Essa corporificação exprime
uma perspectiva, em relação a qual, a atividade interpretativa da cognição se fará. Ou seja, o
sujeito não entra em relação “objetivamente” com seu meio, mas sempre dependente de sua
incorporação. É em função dela que o meio ganha uma qualidade singular, torna-se um
mundo próprio; como no caso do Sr I. Trata-se sempre de um mundo próprio que surge para o
sujeito e com o qual ele está implicado, pois que dele depende.
Por isso, para Varela (1996b) a cognição se caracteriza como competência ética. É na
medida em que a conduta é produzida compondo com o mundo que a questão ética se coloca,
para além de qualquer a priori. O si (cognitivo) não é uma unidade estável que aciona o
mundo de fora. Ele é um processo emergente (eu vazio de si) que se distingue apenas na
medida em que ele não se separa do mundo, fazendo emergir regras de acordo com os
contextos singulares em que nos encontramos. Segundo Varela, a maior parte de nossas ações
propriamente éticas não nasce de juízos ou deliberações “Só podemos dizer que fizemos o
que fizemos porque a situação nos moveu a fazê-lo” (VARELA, 1996b: 11). Ainda que
tenhamos um sentimento de propriedade de nossos atos, a maior parte deles não depende de
um “eu” como agente, assim como a cognição não possui fundamento absoluto. Trata-se
menos de um “ponto de vista de sobrevôo” do que de uma atitude ou um modo de se haver no
mundo, um ethos, que se caracteriza pela forma como corporificamos nossa relação com o
outro.
29
A corporificação é um processo que se na história de acoplamentos, na recorrência
dos padrões sensório-motores. A enação é constituição de um corpo. É no próprio conhecer
que o sujeito cognoscente é produzido (corporificado), conjuntamente ao objeto conhecido. É
nesse sentido que a abordagem enativa é caracterizada por colocar em cena a gênese da
realidade cognitiva, a base concreta ou incorporação a partir da qual co-emergem sujeito e
mundo. Ela se contrapõe ao que Varela (1992) chama abordagem abstrata da cognição,
dominante no campo das ciências cognitivas. A abordagem abstrata parte de uma relação
sujeito-objeto constituída. Seu problema é a representação do formal e do geral (abstrato).
Nesse nível o mundo é dividido em domínios discretos, com seus elementos, propriedades e
relações claramente definidos. O ponto cego da abordagem abstrata é justamente a nese da
realidade cognitiva. Varela ressalta que a forma de inteligência mais profunda e fundamental
é a de um bebê, que adquire a linguagem a partir de emissões vocais diárias e dispersas, e
delineia objetos significativos a partir de um mundo não especificado previamente. O
concreto e o abstrato não se contrapõem, o abstrato é também concreto e este está na sua base.
Na abordagem enativa, o sujeito determina o objeto e se distingui dele através da ação;
eis a noção de co-emergência. Outro autor do campo da cognição, Jean Piaget (1978), também
adota uma abordagem genética, e põe em questão a determinação mútua entre sujeito e objeto.
Piaget mostra como o bebê ainda na fase do lactente (primeiros meses de vida) parte de uma
relação indistinta com o mundo, e, na medida em que ele manipula o meio ao seu redor e
começa a desenvolver seus primeiros esquemas de ação, o meio começa a se apresentar
determinado para ele e ele para o mundo, constituindo os primeiros passos de uma relação
sujeito-objeto. O problema é que Piaget, como um teórico, nunca parece ter duvidado da
existência de um mundo pré-determinado e de um conhecedor independente, devido a sua
concepção de desenvolvimento com um caminho necessário (VARELA, THOMPSON E
30
ROSCH, 1992; KASTRUP, 1999; PASSOS, 1997). As leis do desenvolvimento cognitivo,
mesmo no estágio sensório-motor, são uma assimilação e acomodação a esse mundo pré-
determinado. Como afirma Varela, Thompson e Rosch, Piaget é um teórico objetivista que
postula seu objeto de estudo, a criança, como um agente enativo, mas, um agente enativo que
evolui inexoravelmente para um teórico objetivista. O conceito de deriva natural (VARELA,
THOMPSON E ROSCH, 1992; MATURANA E VARELA, 1995) mostra como, para a
abordagem enativa, a cognição evolui não em direção a algum ponto pré-definido, mas sim
em direção a um horizonte indeterminado no qual o caminho se faz ao caminhar. Em Piaget
não se trata de uma verdadeira co-emergência.
Um exemplo que ilustra como a enação é constituição de um corpo é o da percepção
espacial dos objetos, discutida a partir do experimento com dispositivos de substituição
sensorial (LENAY, GAPENNE, HANNETON E STEWART, 1999; VARELA 1992;
VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). Nesse experimento, cegos munidos de uma
câmara de vídeo adaptada recebem padrões de estímulos elétricos na pele correspondentes às
imagens formadas na câmara. Esse sistema é chamado de substituição sensorial porque o
dispositivo transforma estímulos ligados a modalidade visual em estímulos táteis. A câmera
imóvel permite uma discriminação muito limitada dos estímulos recebidos, e estes ficam
restritos a percepções sobre a superfície da pele. nos casos em que os cegos dirigem
ativamente a mara com seus movimentos, eles têm, depois de algum tempo, a percepção de
que os estímulos elétricos não estão mais relacionados apenas a seus próprios corpos, mas
correspondem a “imagens”, isto é, a sinais de objetos “externos”: através da atividade
constrói-se a experiência distal. Os estímulos proximais (da pele) são sentidos como objetos
distais, estabelecendo o sentimento de uma exterioridade do objeto num espaço perceptivo
onde ele pode ser localizado. A atividade permite a construção de conexões constantes entre
31
variações motoras e variações sensoriais. Essas conexões constantes correspondem aos
perceptos e a sua espacialização. Trata-se da constituição de um equivalente da própria
experiência visual.
Segundo Lenay, Gapenne, Hanneton e Stewart (1999) o problema da percepção da
posição espacial de um objeto é o problema de pensar a simultaneidade de diferentes coisas ao
mesmo tempo. É assim que, após aprender a usar o dispositivo de substituição sensorial, a
sucessão temporal de sensações recebidas parece remeter a diferentes “contatos” com um
único objeto distal. O espaço surge como resultado de sua exploração reversível. Um objeto é
espacializado, isto é, percebido pelo sujeito como exterior, se as ações sucessivas lhe
permitem reencontrar e perder à vontade o objeto. Ou seja, a experiência da exterioridade de
um objeto se estabelece na medida em que o sujeito descobre em um domínio de
acoplamentos sensório-motor uma regra estável de reversibilidade dos efeitos de suas ações
em termos de sensações e de possibilidade de ações. Assim, ele pode reencontrar as mesmas
sucessões de sensações a partir das mesmas sucessões de ações. O que é percebido e
reconhecido, portanto, não são propriamente falando os invariantes da sensação, mas são os
invariantes dos círculos sensório-motores que surgem a partir da atividade do sujeito, pois, é
através da atividade que o sujeito busca e constrói regras de conexões constantes entre as
variações de ação e variações de sensação. Assim, a percepção não é a recepção e
representação de uma forma, mas, sua construção ativa, e isso não apenas no plano cognitivo,
mas de modo concreto pelo gesto.
Para Varela (1992), tal experimento indica o modo pelo qual a percepção se constitui
por “ações perceptivamente guiadas”, por uma corporificação dos vínculos sensório-motores.
Tal como a experiência visual” dos cegos nesse experimento, a experiência de mundo tem
sua gênese na atividade do organismo que, ao agir, constitui aquilo mesmo que ele
32
experimenta. Outro experimento citado por Varela (1992; VARELA, THOMPSON E
ROSCH, 1992), realizado por Held e Hein (1958), foi feito com gatinhos criados na
obscuridade e que então foram expostos à luz sob condições controladas. Um primeiro grupo
podia andar livremente, porém, estavam sujeitados a carregar uma carruagem com um cesto,
no qual se encontrava o segundo grupo de animais. Após algumas semanas, quando se liberou
os gatinhos para caminharem novamente no mesmo ambiente, o primeiro grupo apresentou
destreza. o segundo grupo, que teve uma experiência passiva do ambiente, atuava como
cego, tropeçava nos objetos, caía. Esse estudo sustenta a abordagem enativa de que os objetos
não são vistos pela extração visual de características, mas, ao contrário, pela orientação visual
da ação. Os animais neste experimento, os cegos no experimento com o dispositivo de
substituição sensorial, e mesmo o Sr. I. (percepção de cores), todos constituem um corpo, uma
organização sensório-motora, através da história de acoplamentos.
Esse caráter concreto e incorporado da cognição coloca a questão da experiência no
cerne do problema cognitivo. No trabalho em que Varela, Thompson e Rosch (1992) discutem
a relação entre ciências cognitivas e experiência humana, eles afirmam que a corporificação
possui uma dupla dimensão: ela é experiência vivida e também é estrutura/processo. Os
processos cognitivos (incorporados) são inseparáveis de uma vivência, de uma apreensão
fenomenal. Varela (1998; VARELA E SHEAR, 1999a) define experiência como
manifestação fenomenal, fazendo referência ao trabalho de Thomas Nagel, What it is like to
be a bat”. A experiência consciente para Nagel (1981) significa que alguma coisa que é
like to be/like for um organismo. Este é o caráter subjetivo da experiência, afirma Nagel, e ele
é essencialmente ligado a um ponto de vista único (single). Por exemplo, eu posso conhecer a
anatomia e a fisiologia de um morcego, posso descrever o seu padrão comportamental, mas eu
não posso conhecer como é ser um morcego, a sua experiência, porque eu não posso ocupar o
33
ponto de vista único que caracteriza o que é like to be/ like for um morcego. A experiência
exprime a constituição de um mundo próprio.
É a partir da experiência que surge a fronteira entre eu e mundo. Como manifestação
fenomenal a experiência é sempre em relação a alguém, mas não de alguém, pois o sujeito
não pré-existe à experiência, ele emerge a partir dela. Os sons e os odores que emergem, por
exemplo, para um cão ou um morcego, não existem como tais, mas somente em relação a
esses cognoscentes (VARELA, 1998). Os sons e os odores são para eles uma manifestação
fenomenal, e nesse sentido são experiência, que lhes dá uma perspectiva particular e, por isso,
uma interface com o mundo, de onde a co-emergência sujeito e mundo (VARELA, 1991;
1998).
Esse surgimento de um mundo próprio para aquele que experimenta está diretamente
ligado à dinâmica de auto-organização que está na sua base. Essa dinâmica provê a
temporalidade do processo de corporificação da ação. Isto é, o ato cognitivo é antecedido por
movimentos que lhe dão nascimento e, por sua vez, se prolonga em outros movimentos, numa
continua gestação da vivência. Em função dessa temporalidade, a experiência se apresenta
como um bloco de duração, no qual podem ser distinguidos momentos entrecruzados. É a
apreensão dessa temporalidade que Varela visa com o projeto de inclusão do tema da
experiência e do uso de metodologias de primeira pessoa pelas ciências cognitivas, de modo a
se pensar o processo de corporificação da cognição (VARELA, 1996a, 1999; LUTZ E
THOMPSON, 2003; ROCHA, 2002). Esse projeto Varela denomina neurofenomenologia
(voltaremos a ele no próximo capítulo). Nesse sentido, a abordagem enativa da cognição
depende diretamente da exploração da experiência, pois, esta se encontra na base da gênese da
atividade cognitiva. Diferentemente, a abordagem abstrata evita o problema da experiência,
em seu caráter enativo e temporal, pois ela parte de um mundo pré-dado a ser representado.
34
Ainda que falemos em próprio ou singular, a corporificação possui uma dimensão
coletiva, que se apresenta como senso comum (common sense) (VARELA, 1992, 1996b;
VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992). O senso comum é uma base que nos capacita a
improvisar e decidir o que fazer em um mundo que não é fixo e nem pré-definido. Pois, ele é
uma base comum ou coletiva às variáveis situações nas quais nos engajamos. Ele também é
coletivo no sentido de que depende de nosso mundo biológico e cultural compartilhado.
Como Varela afirma, “essas capacidades sensório-motoras individuais estão elas próprias
embutidas em um contexto biológico e cultural mais abrangente” (1992: 329). E, num outro
trecho, Varela, Thompson e Rosch acrescentam “...a cognição não pode ser entendida sem
senso comum, e que o senso comum não é outro coisa que nossa história corporal e social...
(1992: 178). Os padrões sensório-motores corporificados constituem a essência de nossa
experiência, nossa forma de perceber, de nos orientarmos, de interagir com objetos, eventos e
pessoas (VARELA, 1992). Citando o trabalho de Mark Johnson, Varela, Thompson e Rosch
afirmam que esses padrões corporificados não permanecem privados ou restritos à pessoa que
os vivencia, pois eles são modos culturais compartilhados de experiência.
Mais uma vez a percepção de cores fornece um bom exemplo. Varela, Thompson e
Rosch (1992), também Kay e Regier (2006), apresentam estudos que demonstram como a
classificação lexical das cores pode afetar julgamentos subjetivos de semelhança entre elas.
Nesse caso, as categorias de cores dependem de processos cognitivos específicos da cultura,
determinados por um valor cultural. Por outro lado, nossa experiência das categorias de cores
também depende de processos fisiológicos específicos da espécie. Portanto, não se trata de
uma visão objetivista, pois as cores não devem ser encontradas em algum mundo pré-
determinado, que elas dependem de nossa experiência e incorporação. Nem tampouco de
uma visão subjetivista, pois as cores também não são eventos privados, nossa incorporação
35
depende concomitantemente de nosso mundo biológico e cultural compartilhado. O
“conhecimento depende de estarmos em um mundo inseparável de nosso corpo, nossa
linguagem e nossa história social, em síntese, de nossa incorporação” (VARELA,
THOMPSON E ROSCH, 1992: 176). A corporeidade na abordagem enativa não se resume ao
biológico e nem é causada pelo social. Nosso mundo biológico e cultural compartilhado não
devem ser vistos como um fundamento p-definido, representacional. Eles também são
enatuados através de uma história de incorporações.
O senso comum nos permite corporificar uma torrente de situações. Como afirma
Varela (1992, 1996b), a maior parte de nossas vidas é constituída por situações nas quais o
mundo em que vivemos está tão à mão, que não temos um controle acerca do que ele é e de
como o habitamos. Operamos em uma espécie de imediatismo em relação a uma dada
situação. Atividades cotidianas como portar-se à mesa, dirigir o automóvel, ir do escritório
para casa, manusear o computador, nos são transparentes. Isto é, elas são exemplos de
situações para as quais apresentamos uma adequada disposição para a ação, uma adequada
cognição. Essa disposição para a ação exprime uma incorporação, uma perspectiva, co-
emergente a um mundo. Varela denomina essa incorporação micro-identidade, e seus
domínios cognitivos correspondentes, micro-mundos. Ao longo de uma atividade ou de um
dia de trabalho, encarnamos um conjunto de transições recorrentes entre micro-mundos. É
assim que as questões relevantes que abordamos a cada momento não são pré-determinadas, e
sim são enatuadas a partir de um background de ação, onde o que conta como relevante é
contextualmente determinado pelo senso comum (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992).
Mas, como afirmamos acima, a contínua redefinição do curso de nossas ações não se
assemelha em absoluto a um programa, ela depende da contingência, da improvisação, e é
mais flexível do que um planejamento (VARELA, 1996b, 1997). Dessa forma, a concepção
36
de senso comum não pode se assemelhar a uma ordem pré-existente em uma localização
particular. O senso comum possui uma ambigüidade inabordável, a qual nos permite agir em
um mundo cujos contornos não são absolutamente representáveis (VARELA, 1988). Varela
(1992, 1996b) aborda essa questão examinando a transição entre os micro-mundos. Essa
transição não é matéria de decisão externa e nem de planejamento prévio. Ele apresenta o
conceito de breakdown para falar das junções que articulam os micro-mundos. O breakdown é
um momento no qual o concreto é atualizado, a partir de uma quebra, uma ruptura de simetria
na atividade cognitiva.
Por exemplo, estamos andando e divagando pela rua, de repente enfiamos a mão no
bolso e damo-nos conta de que a carteira não está lá. Breakdown. Paramos, nosso estado
mental fica confuso, nossa tonalidade emocional muda, surge um mundo diferente,
lembramos que a esquecera em cima do balcão da loja, torno-me preocupado e retorno a loja.
Ou, se estamos conduzindo o carro pela linha vermelha, próximos à bifurcação entre avenida
Brasil e Galeão, breakdown, que decidir e, no entanto, ainda que acostumados a fazer esse
trajeto, estamos tomados por uma suspensão de sentido: para onde se vai? O breakdown é a
emergência de um domínio problemático para o sujeito, que o compele a dar nascimento a
uma ação. Como diz Varela, estas junções são a fonte tanto do senso comum como da
criatividade na cognição” (1992: 336). O breakdown é crise (quebra), mas, ele também enseja
o nascimento da experiência.
No breakdown uma dissolução da relação constituída eu-mundo, contudo, o
concreto ou a corporeidade permanece, e é daí que uma nova relação surgirá. Esse concreto
que permanece não é da ordem de um padrão sensório-motor coerente, um micro-mundo
configurado. Segundo Varela (1992, 1996b), os micro-mundos e as micro-identidades
encobrem o surgimento de um grande conjunto de neurônios transitoriamente correlacionados
37
no interior do cérebro. Durante o breakdown uma dessincronização dos agregados neurais,
que entram numa rica dinâmica envolvendo varias sub-redes. Nesse instante, o cérebro
apresenta um padrão de atividade incoerente ou caótica, em rápidas oscilações (da ordem dos
milisegundos), até que, pela clausura operacional, o córtex se acomode a um padrão elétrico
global, o qual corresponde a um quadro cognitivo coerente. A transição entre os micro-
mundos, portanto, se faz através de uma dinâmica incoerente. Isto é, na passagem entre duas
ordens uma rápida atividade caótica. Por isso, os micro-mundos não são integrados em
alguma totalidade maior que regularia as partes menores; a palavra micro não é fortuita. Essa
atividade caótica coloca no cerne da cognição a possibilidade indefinida de variação “As
junções temporais que articulam a enação estão enraizadas na dinâmica rápida não-cognitiva,
em que uma serie de micro-mundos alternativos são ativados...” (VARELA, 1992: 336 grifo
nosso). O fato de Varela usar o termo não-cognitivo (noncognitive) para qualificar essa
dinâmica caótica implica que ela é anterior a separação sujeito-objeto. Por isso, o breakdown
é a fonte do lado autônomo e criativo da cognição viva.
O conhecimento de senso comum não é, portanto, um mapa com contornos bem
definidos. Nossos mapas corporificados têm sempre “pontas soltas” prontas para
configurarem novos contornos do mundo. Trata-se de uma interpretação contínua, que não
pode ser adequadamente fechada num conjunto de regras e de pressupostos (representações),
porque depende da ação, do contexto e da história. Quando eu ando pelo Rio de Janeiro, eu
enatuo um Rio de Janeiro. Quando eu o desenho, eu enatuo outro Rio de Janeiro. Mas, um
senso ou sentido comum que torna possível a própria tradução; paradoxalmente é e não é o
mesmo Rio de Janeiro. Tanto na caminhada quanto no desenho, o Rio de Janeiro que eu
represento não é uma realidade independente. É uma representação no sentido fraco, como
definido por Varela.
38
Varela distingue dois tipos de representação: representação no sentido fraco e
representação no sentido forte (VARELA, 1988; VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992).
A primeira é um sentido pragmático, referindo-se às interpretações que fazemos
constantemente sem nos preocuparmos com compromissos epistemológicos ou ontológicos
do que se diz acerca de outra coisa. O segundo tipo ocorre quando, por generalização da
acepção fraca, formulamos uma teoria completa acerca de como deve funcionar a linguagem,
a percepção, a cognição em geral. Esse sentido forte apresenta dois compromissos ontológicos
e epistemológicos: primeiro, o mundo é pré-dado, e seus traços podem ser especificados antes
de qualquer atividade cognitiva; segundo, a relação entre a atividade cognitiva e esse mundo
pré-dado é explicada pela existência de representações dentro do sistema cognitivo. No
sentido fraco a representação é de fato, mas não de direito, no sentido forte ela é de direito.
Para a abordagem enativa, o processo interpretativo característico da cognição é concebido
como a constituição (ou enação) de representações no sentido fraco, pois a realidade
representada é dependente do sujeito cognoscente. A crítica feita por Varela à representação
no seio das ciências cognitivas é uma crítica à representação no sentido forte, à representação
como fundamento.
Na abordagem enativa, a cognição é caracterizada como uma interpretação contínua.
Nossas representações do mundo variam de acordo com diferentes incorporações ou enações.
E essa constituição de um corpo é assentada numa dinâmica autônoma, auto-organizada. Por
isso, não possui fundamento absoluto. Um exemplo simples e ilustrativo é oferecido pelo
Lama Padma Samten (2001). Ele conta a história de um monge que num dia muito frio
queimou uma linda imagem de Buda em madeira para se aquecer. A imagem do Buda
operava dentro de um referencial cognitivo. O monge sempre a via assim. Naquele dia de
muito frio o seu referencial mudou e, pela primeira vez, ele não viu o Buda, mas sim a
39
madeira. Onde estava o Buda? Seria a madeira mais real? Se o monge se apegasse ao
referencial no qual ele via o Buda, este ganharia objetividade, e ele não veria a madeira. Por
outro lado, se o monge se apegasse a madeira ele perderia o Buda. Nesse processo de apego
damos à relação cognitiva compromissos ontológicos e epistemológicos, como na
representação no sentido forte. Porém, Padma Samten afirma: “Liberdade é reconhecer essas
duas experiências como complementares, como riqueza, e não como experiências
excludentes” (2001: 44). Não se trata de perguntar qual é mais real, o Buda ou a madeira?
Ambos existem e não existem (como algo em si mesmo).
O apego ou fixação nos referenciais cognitivos com os quais operamos habitualmente
no mundo dá a nossas representações força de obrigação (convicção) que aprisiona a realidade
em um sentido dado, e nos cega para o caráter enativo da experiência cognitiva (VARELA,
THOMPSON E ROSCH, 1992; PASSOS E EIRADO, 2008). Por exemplo, se escuto na fala
do outro uma ofensa, penso que estou sendo ofendido, e nos tornamos eu e o outro, ofendido e
ofensor. Tudo se passa como se um sujeito pré-existente fosse informado da ofensa e que,
portanto, o ofensor estaria dado antes da minha escuta. Neste caso, não me dou conta do
caráter enativo de minha experiência, que me faz sentir e agir como ofendido ao interpretar
(corporificar) a fala do outro. O surgimento do outro como agressor é co-dependente do meu
surgimento como vítima. Mas, essa co-dependência se apaga quando respondo de forma
estereotipada à situação, como se fosse representação de um mundo dado. No exemplo escrito
acima, o sujeito que perde a carteira se conta da urgência da situação, ele não percebe
que foi urgido. A partir do breakdown, co-emerge uma micro-identidade e um micro-mundo,
mas, novamente tudo se passa como se um eu (dado na base) fosse informado do fato (perda
da carteira). Como afirmam Passos e Eirado, a base concreta e corporificada da cognição é o
que condiciona o co-surgimento do sujeito e mundo, mas, uma vez surgidos, é como se a base
40
se invertesse, e estes passassem a condicionar a cognição que lhes deu origem. Como disse
Varela, a representação no sentido forte surge por uma generalização da acepção fraca, que dá
a ela uma força de obrigação.
Esse problema da inversão da base exprime como a cognição enativa se torna
representacional. O conhecer como representação só surge porque na base a cognição é
enativa. Por outro lado, se na base ela fosse representacional (acepção forte) não poderíamos
afirmar a co-emergência. Essa inversão da base exprime um modo de corporificação, e por
isso ela não é imutável. O problema da corporificação de uma cognição enativa está no centro
do trabalho feito por Varela (1996b) acerca da competência ética. A competência ética para
Varela depende, sobretudo, da realização de uma atitude em relação ao mundo na qual
encarnamos a vacuidade do eu e a co-dependência. Nossa tendência à representação é tão
arraigada que, ainda que saibamos que o eu é vazio de si, nossa tendência é continuar como se
nada houvesse mudado. Um sujeito pré-existente é informado de uma teoria (enação) acerca
de um objeto pré-existente (cognição). Ser informado sobre algo não nos torna esse algo a
menos que haja uma atividade enativa, uma incorporação (sentir e agir como). Daí Varela
propor uma pragmática para uma transformação sustentada, de modo a encarnar no dia a dia a
vacuidade do eu.
Em nossa dissertação de mestrado, apresentamos o cultivo dessa competência ética
proposta por Varela como uma questão de aprendizagem da atenção (VASCONCELOS,
2004). Trata-se do cultivo de uma atenção à experiência. A prática da centralização cognitiva
em um suposto “eu” é marcada por um modo de se haver no mundo em que a atenção é um
processo subsidiário à realização de tarefas, cuja função é buscar e captar informações. A
realização de uma atitude em relação ao mundo na qual encarnamos a vacuidade do eu e a co-
emergência depende do cultivo de uma atenção à experiência, que é diferente desse prestar
41
atenção voltada para solução de problemas
5
. Esse trabalho de transformação do processo
atencional é destacado por Varela em metodologias de primeira pessoa como a redução
fenomenológica e a meditação budista (VARELA, 1996B; VARELA, THOMPSON E
ROSCH, 1992; DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003).
O trabalho de Varela (1996b) sobre a competência ética nos leva a pensar como que a
contraposição entre enação e representação não se resume a uma discussão epistemológica
sobre o melhor modelo para o objeto cognição. Ela é também um problema ético e político,
relativo ao modo como nos havemos no mundo. Nesse sentido, Kastrup, Tedesco e Passos
(2008) formulam o conceito de política cognitiva. Este conceito afirma que o conhecer
envolve uma posição em relação ao mundo e a si mesmo, um modo de se colocar na relação
de conhecimento. As ciências cognitivas não resultam de métodos abstratos, elas resultam de
práticas concretas, que encarnam políticas cognitivas. Sendo assim, encarnar uma política
cognitiva da invenção é assumir uma atitude em relação ao conhecer, na qual se recusa a
crença num mundo dado, que coloca os problemas que devemos solucionar e ao qual devemos
nos adaptar. É assumir uma atitude na qual o conhecer é inseparável da invenção de si e do
mundo. Como no cultivo da competência ética, defendido por Varela. O problema da
corporificação dessa atitude, a nosso ver, está no centro do problema da inclusão das
metodologias de primeira pessoa pelas ciências cognitivas.
2.2. Relação pesquisador-participante: a questão da co-emergência
O constante nascimento e dissolvência de micro-mundos e micro-identidades constitui o
processo temporal da ação incorporada. A neurodinâmica, caótica e não linear, nascimento
à abertura temporal que caracteriza a cognição enativa (VARELA, 1999). Sendo assim, o si
5
Voltaremos a essa questão no capítulo três.
42
cognitivo renova-se continuamente, ao mesmo tempo em que ele se mantém. A subjetividade,
constituída no tempo e pelo tempo, não possui uma identidade imóvel (ela é vazia de si).
Porém, a abordagem padrão das ciências cognitivas, parte da idéia de que a cognição se deve
inteiramente às estruturas particulares dos sistemas cognitivos, as quais o cientista cognitivo
busca representar através das pesquisas experimentais (VARELA, THOMPSON E ROSCH,
1992). Essa é uma abordagem abstrata, pois ela concebe a cognição como algo geral, formal e
bem definida, isto é, representável.
A abordagem enativa da cognição, no entanto, nos mostra como o fenômeno do
conhecer gera a explicação do conhecer. O que é diferente da situação em que o fenômeno do
explicar e o fenômeno explicado pertencem a domínios distintos. Nesse sentido, afirmamos
que os estudos da cognição não se resumem a uma discussão epistemológica, mas são
sobretudo ontológicos. Como dizem Maturana e Varela (1995), todo conhecer humano
pertence a um mundo próprio, é vivido dentro de uma tradição cultural (como é a própria
tradição científica). Ao tentar conhecer o conhecer, acabamos por nos encontrar com nosso
próprio ser. Ou seja, nos encontramos com as relações e acoplamentos sensório-motores que
nos constituem, dos quais advém o si e o mundo, mas, para os quais normalmente somos
cegos”. Só quando alguma interação nos tira do óbvio – como ao sermos bruscamente
transportados para um meio cultural diferente e nos compele a refletir, é que nos damos
conta da imensa quantidade de relações que tomamos como garantidas. A tradição é uma
maneira de ver e atuar, mas é também um modo de ocultar (Maturana e Varela, 1995). Da
importância da atenção à experiência, e do cultivo de uma competência ética no interior da
própria produção de conhecimento:
O conhecimento do conhecimento compromete. Compromete-nos a tomar uma atitude de
permanente vigilância contra a tentação da certeza, a reconhecer que nossas certezas não
43
são provas da verdade, como se o mundo que cada um de nós fosse o mundo, e não um
mundo, que produzimos com outros (MATURANA E VARELA, 1995: 262).
Por isso, pela abordagem enativa as pesquisas em cognição não podem prescindir da
questão da experiência, que exprime o modo como co-emerge sujeito e mundo numa
determinada situação, de acordo com o contexto de acoplamento e a história. Por outro lado, a
ênfase da ciência positiva nos princípios de previsão e controle reforça o pressuposto de
neutralidade e separação entre sujeito pesquisador e sujeito pesquisado. Mas, a abordagem
enativa põe em questão tal pressuposto, na medida em que a cognição que emerge no contexto
da pesquisa não pode ser isolada.
Segundo Ángeles Diez (2001), a concepção de conhecimento científico como
conhecimento objetivo, caracterizado pela comprovação empírica e investigação sistemática,
se fundamenta na existência de uma realidade natural, ordenada e governada por leis, e
independente do investigador. A ciência é uma atividade humana que deve ser exercida com
objetos e métodos compartilhados, os quais podem ser publicamente apresentados, de modo
que qualquer um que compreenda os procedimentos da ciência pode por à prova as verdades
científicas. Por à prova é contrastar os enunciados ou hipóteses com os fatos independentes e
objetivos da natureza. Essa comprovação empírica pode ser replicada por outros
investigadores, na medida em que estes, utilizando precisamente os mesmos passos do
método de investigação sobre o mesmo objeto, podem chegar aos mesmos resultados.
De acordo com Isabelle Stengers (1990), esse modelo de conhecimento científico é
resultado de práticas de purificação e controle, que tentam eliminar tudo o que pode turvar um
testemunho fidedigno contra ou a favor de uma hipótese. O problema de estudar o fenômeno
de maneira neutra depende da criação de condições experimentais, nas quais esse fenômeno
dará testemunho de modo mais unívoco possível contra ou a favor da hipótese teórica em
função da qual ele é interrogado. O trabalho de purificação e controle enseja que o fato
44
experimental só aceite falar uma única língua, só aceite uma única interpretação. Dessa forma,
o pesadelo do experimentador é a questão do artefato, isto é, quando ele manipula ou extorque
um testemunho. Assim, ao invés de purificado, o testemunho do objeto torna-se dependente
da relação com o experimentador, que o influencia. O trabalho da ciência com objetos
purificados, através de práticas controladas, dá ao conhecimento produzido o estatuto de
descoberta, de desvelamento de algo que pré-existiria no interior do objeto e que, portanto,
não depende de um sujeito particular, pois pode ser validado pela comunidade científica.
A questão que buscamos ressaltar com a abordagem enativa, e que nos parece também
ser o caso com a emergência do problema da primeira pessoa nos estudos em cognição, é que
o si cognitivo não é um objeto, imutável, pronto para ser representado. Interessa-nos a
discussão epistemológica feita por Vinciane Despret (2004a, 2004b), a partir de estudos do
campo da etologia. Esse trabalho de Despret, assim como a abordagem enativa, põe em
questão a separação pesquisador e pesquisado. Ela problematiza a questão da neutralidade, ao
problematizar a questão do endereçamento ao animal que está sendo estudado. Despret busca
mostrar que o animal responde de forma diferenciada a esse endereçamento, ou seja, que ele
constitui-se na relação mutuamente com o humano que o interroga, o que Despret denomina
prática genética antropo-zoo (anthropo-zoo-genetic-practice).
Vejamos a história do cavalo Hans, que se passa em Berlim no ano de 1904, discutida
por Despret (2004a, 2004b). No pátio da casa do dono de Hans, pessoas das mais diversas
profissões se encontravam para lhe fazer perguntas. Ele respondia a questões de matemática
(multiplicação, divisão, raiz quadrada), soletrar palavras, discriminar cores, entre outras. Ele
respondia às questões batendo sua pata direita no chão e, na maioria das vezes, respondia
corretamente. As pessoas ficavam intrigadas com os feitos de Hans, e começaram a investigar
como ele podia fazer aquilo. Um desses investigadores, o psicólogo Oskar Pfungst, apontou a
45
solução: o cavalo deve estar lendo pistas. Pistas que são dadas de modo não intencional, que
não são percebidas pelos humanos. Os humanos estariam influenciando o cavalo.
Segundo Despret (2004a), a investigação de Pfungst põe em cena a questão da
competência (talento) do interrogador de Hans. Não era qualquer um que conseguia trabalhar
com o cavalo, que conseguia obter dele respostas mais difíceis ou corretas: “é preciso, escreve
Pfungst, tato, e a capacidade de entrar em relação com os animais a hesitação ou a timidez
deixam o animal pouco à vontade” (DESPRET, 2004a: 67). Assim que o interrogador
colocava o problema para o cavalo, ele involuntariamente inclinava sua cabeça e tronco para
frente, olhando para a pata de onde virá a resposta. A tensão aumentava, resultando na
manutenção da mesma posição pelo questionador. Tão logo o número correto de batidas no
chão é dado, o interrogador relaxa sua tensão, e involuntariamente puxa sua cabeça e tronco
para cima. O cavalo apenas mantém sua pata direita sobre o solo. Os interrogadores não
notavam que seus corpos estavam falando ao cavalo quando começar e quando parar
6
.
O talento dos interrogadores de Hans estava no fato de que seus corpos podiam
distribuir a tensão, sustentá-la e relaxá-la no momento certo. Tais corpos, portanto, não eram
indiferentes à relação. Pelo contrário, os interrogadores eram interessados e confiantes no
cavalo, ainda que deliberadamente não dessem conta disso “o interrogador deve corporificar
seu desejo de sucesso (um tipo de „você tem que‟ endereçado a Hans) enquanto o ignora”
(DESPRET, 2004b: 114). Aqueles com os quais Hans era bem sucedido eram interrogadores
confiantes no sucesso, quando eles não confiavam no sucesso o cavalo falhava. O interesse ou
o valor que os interrogadores davam à questão proposta ao animal fazia diferença. Um
exemplo que Despret (2004a) oferece é o do Conde Zu Castell. Quando ele pedia a Hans para
6
Os cavalos são ótimos “leitores de músculos”, destaca Despret (2004a, 2004b). Isso é chamado fenômeno de
“isopraxis”. Por exemplo, o cavalo sente e reproduz movimentos não intencionais feitos pelo cavaleiro (como a
pressão do freio), quando este pensa nos movimentos que o cavalo deve performar. Cavaleiros talentosos agem e
se movimentam como cavalos (horse-like fashion), o que explica como cavalos podem ser tão bem sintonizados
(attuned) com os humanos, e como o mero pensamento de um pode simultaneamente levar o outro a se mover.
46
contar coisas concretas o cavalo tinha melhor desempenho do que quando ele propunha
problemas abstratos. Estes pareciam entediar o cavalo. Contudo, era o humano que se
entediava, não o cavalo; era para Zu Castell que a presença de objetos concretos era
importante para manter a concentração.
Segundo Despret (2004a), Pfungst via nesse talento uma grande habilidade desses
interrogadores na gestão da tensão, ou em outros termos, da atenção. Ele lembrava que o
termo atenção vinha do latim ad-tendere (tendre vers, ou seja, tender ou inclinar-se em
direção a). Essa atenção dos interrogadores de Hans era semelhante à dos médiuns
espiritualistas. Ela era caracterizada por uma grande concentração, que favorecia a tendência a
movimentos involuntários, como os que tais interrogadores endereçavam a Hans. A pessoa
não era consciente desses movimentos involuntários porque sua atenção (consciente) estava
absorvida por um conteúdo limitado. Mas, não se tratava apenas de movimentos
involuntários, os interrogadores podiam perceber certos sinais que Hans lhes endereçava sem
se darem conta conscientemente. Eles operavam sob uma clivagem da consciência. O cavalo,
por sua vez, podia perceber movimentos que os humanos não percebiam, ou pelo menos não
tinham consciência. O talento excepcional de Hans era uma capacidade de atenção tão forte
aos desejos humanos que ele era capaz de antecipar esse desejo sobre um simples movimento
muscular” (DESPRET, 2004a: 131).
A história do cavalo Hans, retomada por autores e manuais de Psicologia décadas
depois, era usada para ressaltar o problema da purificação dos experimentos: a confiança e o
interesse é uma fonte de suspeita, que desqualifica o experimento, afirma Despret (2004a,
2004b). A psicologia comentou a história de Hans para designar o erro de imputação, que
ameaça todo experimentador que trabalha com vivos: nós influenciamos estes que nós
interrogamos. Despret cita uma pesquisa feita por Robert Rosenthal, na qual este tentou
47
replicar os efeitos da influência. Durante um curso de psicologia experimental, Rosenthal
selecionou dois grupos de estudantes. Cada um deles treinaria ratos num labirinto. Rosenthal
contou a um dos grupos que eles trabalhariam com animais que resultavam de uma geração de
ratos brilhantes, ao passo que para o outro grupo, disse que os animais vinham de uma
geração de ratos estúpidos. Os resultados obtidos pelos estudantes confirmaram as
expectativas: os ratos brilhantes tiveram melhores performances que os ratos estúpidos. Os
ratos dos dois grupos eram, de fato, animais ingênuos, aleatoriamente rotulados como
brilhantes ou estúpidos. De acordo com Despret, a intenção de Rosenthal com esse estudo (e
que ele escondeu de seus estudantes) era mostrar e elucidar como os experimentadores
produzem parcialidade, mesmo trabalhando com um dispositivo experimental afinado para
produzir medidas objetivas. Para Rosenthal os ratos não são brilhantes ou estúpidos de modo
real, eles são produzidos numa “pseudo-realidade” pelas expectativas e ilusões. Ele divide a
realidade em duas: o que é real e o que é efeito da influência, interesse e expectativas. Ou
seja, uma realidade humana e uma realidade natural. E o cientista indiferente deve ultrapassar
essa pseudo-realidade (humana) para coletar (acuradamente) dados também indiferentes os
dados são dados, per si, e esperam ser coletados por um entusiasmado autômato” (DESPRET,
2004b: 132).
Como os estudantes obtiveram resultados que confirmaram suas expectativas? Segundo
Despret (2004b), o próprio Rosenthal sugeriu que algum fator emocional estava envolvido: os
ratos brilhantes eram manipulados de modo mais gentil, tratados com mais cuidado, e
provavelmente mais encorajados. Os estudantes que trabalharam com os ratos brilhantes
julgaram seus animais mais simpáticos e seus experimentos mais prazerosos que os estudantes
que trabalharam com ratos estúpidos. Esse aspecto emocional está ligado ao fato de que a
relação entre estudantes e ratos, assim como a relação entre Hans e os interrogadores, é
48
marcada pela confiança e interesse. Mais uma vez a relação com o animal é marcada pelos
corpos talentosos do humano. Além disso, um ponto importante enfatizado por Despret é o
fato de que o animal também se interessa pela relação com o humano. Hans não teria sido
bem sucedido se ele também não tivesse se interessado pelo jogo proposto pelos
interrogadores, se ele não desse atenção aos mínimos gestos que expressavam desejos,
expectativas e afetos humanos, e, respondesse a eles de modo notável (DESPRET, 2004b).
Ou seja, Hans também era ativo na relação. A prática não estava apenas do lado do
interrogador. Por exemplo, quando os interrogadores pensavam na resposta nula ou zero, o
gesto mínimo feito por eles é diferente na ausência ou presença do cavalo. Na sua ausência
esse gesto era uma ligeira elipse. na presença do cavalo, um balançar de cabeça é que era
observado, exatamente o mesmo movimento feito pelo cavalo para responder. Hans conduzia
os interrogadores tanto quanto estes o conduziam. Essa construção conjunta entre humanos e
animal Despret (2004b) chama de pratica genética antropo-zoo.
Mas, se o animal entra na relação e a constitui ativamente junto com o investigador, se
ele se interessa e responde de forma diferenciada a mínimos gestos, tudo isso implica que ele
toma posição a respeito do experimento. Tanto os feitos de Hans quanto o brilhantismo ou
estupidez dos ratos não testemunham aspectos objetivos ou naturais da situação, e sim a
maneira como eles “compreenderam” a situação a partir da relação com os humanos. Eles
jogaram o jogo com os humanos. “Ele adquiriu o que conta para entrar no jogo da
comunidade humana: a capacidade de entrar em acordo com os outros, de manifestar
preferências, de influenciar e ser influenciado, de tornar-se sensível ao fato de que alguma
coisa importa para os humanos” (DESPRET, 2004a: 73). Contudo, tanto Rosenthal quanto
aqueles que como ele vêem no caso de Hans um fantasma a ser expurgado julgam em termos
de engano e erro o que, na relação, poderia ser traduzido como “preferência por acordo”. É
49
como se a relação (preferência por acordo) prejudicasse um conhecimento objetivo dos
animais. Hans enganou a comissão de interrogadores (ele não sabia contar), assim como os
ratos enganaram os estudantes (eles não eram realmente brilhantes ou estúpidos em si). Para
Rosenthal haveria uma verdade além do que se apresenta na relação, e é esta que ele pretende
conhecer. Despret pergunta: os macacos que “falam”, falam verdadeiramente? Trata-se de
uma capacidade autêntica ou não, por ser ela dependente da relação com o experimentador? A
colocação da pergunta prescinde do fato de que a nossa capacidade de falar é ela mesma
tributária do mundo das relações, das expectativas daqueles que “nos fazem falar”, da
confiança e dos mal entendidos na relação.
A noção de engano é válida de um ponto de vista descolado da experiência, em
sobrevôo, que prescinde justamente da relação, da determinação mútua (co-emergência).
Após o experimento, os estudantes tornaram-se cientes dos verdadeiros objetivos da pesquisa:
os ratos eram frutos de amostras randômicas. Porém, eles ainda assim continuaram
acreditando nos seus ratos, no que estes haviam lhes ensinado (eles eram ratos “brilhantes” ou
“estúpidos”). Os estudantes se viam numa experiência de duplo vínculo: “como eles poderiam
acreditar simultaneamente nos seus ratos e no seu professor, se a ciência é definida como um
processo de revelar uma realidade pré-existente ao invés de criar um devir (becoming)?”
(DESPRET, 2004b: 121). A solução encontrada pelos estudantes foi supor que ratos com
capacidades diferenciadas realmente existiam antes do experimento, e que mesmo através da
amostra randômica, alguns ratos “estúpidos” teriam sido escolhidos casualmente.
Despret (2004b) define a questão da crença e da expectativa de um modo pragmático.
Crer não é questão de “o que é?” (constatação), o que leva a noções de erro e engano. Crer é
questão de “o que fazem?”. Acreditar não é passivo, é uma questão de prática e de
incorporação estas crenças trazem à existência novas identidades para os estudantes e para
50
seus ratos” (DESPRET, 2004b: 122). Não adianta Rosenthal informar seus estudantes da
verdade do experimento, pois a crença deles é auto-referente, isto é, ela não remete a algo
externo (uma realidade independente) a partir da qual ela poderá ser constatada verdadeira ou
falsa. Ser informado de algo no qual acreditamos ou não depende de haver uma atividade
enativa ou uma incorporação (experiência). Os estudantes sentem e agem como se seus ratos
fossem brilhantes ou estúpidos. A nosso ver, é para isso que Despret aponta quando ela fala
que a crença os torna disponível para novas identidades. Ou seja, os estudantes co-emergem
com seus ratos. A confiança que os estudantes colocaram nos ratos era emocional, ela era
expressa nos gestos, nos corpos dos estudantes, nos corpos dos ratos que eram manipulados,
acariciados, alimentados e encorajados, afirma Despret.
Nesse sentido, podemos pensar que mesmo o pesquisador que acredita na neutralidade e
imparcialidade da pesquisa científica corporifica essa crença, ou seja, ele não é neutro em
relação a si mesmo e, por conseguinte, em relação ao outro. Quando se trata de produzir
conhecimento objetivo, universal e imutável, o que não pode entrar em questão, e por isso
deve ser controlado, é justamente essa relação e a experiência a ela correlata. A relação é uma
questão de consentimento e de liberdade. Essa formidável autonomia do vivo, que o torna
capaz de tomar posição e jogar o jogo, pondo em cena o talento
7
do pesquisador e do
pesquisado, é vista como um parasita a ser erradicado. Alguns são mais talentosos, alguns
confiam mais, se interessam mais e por coisas diferentes, a performance é variável, alguns
dias ela se melhor que em outros. Como mostra Despret (2004a), esse ideal de
conhecimento objetivo busca por em cena nos experimentos a figura do “qualquer um”
(quiconque). “Qualquer um” do lado do experimentador que, aplicando o protocolo de modo
quase mecânico, deve poder reproduzir os mesmos resultados. “Qualquer um” do lado desses
7
O uso que fazemos da palavra talento busca exprimir a singularidade da atuação. Desse modo, não se trata de
treinamento ou adestramento no uso de uma técnica ou procedimento.
51
sujeitos anônimos, substituíveis, que vão entrar nas normas e curvas estatísticas. Não importa
qual rato, cavalo ou humano deverá reagir da mesma maneira, testemunhar de sua
universalidade.
O modo como os pesquisadores responderam então a esse problema da influência foi
através do controle da relação. O talento vira procedimento a ser seguido, o pesquisador e o
participante têm que agir segundo os procedimentos, não há abertura para a variação do jogo.
O fato de que um animal (e mesmo o humano) possa estar interessado no que nós
pesquisamos, por qualquer razão que seja, e por isso responda a nossas expectativas com
todos os talentos que estão a sua disposição, aparecerá como o que justamente não pode ser
nem questionado e nem levado em conta (DESPRET, 2004a). Uma das maneiras como esse
controle se faz é através da prática da revelia (l’insu). Essa é uma prática que se tornou crucial
na psicologia experimental com os humanos. A revelia, em princípio, garante que o sujeito
ignora isso sobre o qual nós o interrogamos, comprometendo assim toda possibilidade dele
tomar posição em relação à pertinência do que lhe é proposto e, assim, testemunhar de sua
universalidade. O problema, como afirma Despret, é que é sempre a relação que está em jogo.
Este é um ponto importante, a nosso ver, que Despret ressalta. Ela afirma a respeito da
psicologia:
ela tornou-se uma técnica que define a relação aos seus objetos apenas no registro do
controle. Assim fazendo, ela simplesmente quis esquecer o que define a singularidade (os
riscos e ao que ela obriga) da experiência de interrogar o vivo: é uma situação social na
qual o fato de entrar em acordo ou não jamais é indiferente (DESPRET, 2004a: 73).
Enquanto situação social é sempre a relação que está em jogo e, sendo assim, o
dispositivo experimental não é neutro. Não importa qual experimentador, aplicando o
protocolo de modo quase mecânico, deverá obter que cada sujeito reaja da mesma maneira,
que ele se comporte como “qualquer um”. Um experimentador indiferente coletando dados
52
indiferentes. Mas, é a indiferença do dispositivo que cria essa condição ela mesma. Como
afirma Despret (2004a), na medida em que o behaviorista faz tudo para negar toda
possibilidade de crer na capacidade do cachorro de ter intenções, de significar, etc, tais
capacidades jamais conseguirão advir. O cachorro pode tentar responder ao behaviorista, mas
o behaviorista não responderá à resposta do cachorro. Assim, o cachorro do behaviorista
sempre parecerá estúpido, ele será estúpido. O pressuposto de que os animais não passam de
autômatos que reagem a estímulos reforça a própria operação efetuada: o pesquisador
responde apenas àquelas reações do animal que se revelam incapazes de reivindicar uma
posição ativa, autônoma, espontânea. Mas é próprio dispositivo que enseja essa incapacidade.
Como afirma Hilgard (1966), comentando a obra de Tolmam, na caixa de Skinner a situação é
tão ininteligível que pode ensejar comportamentos cegos, se você der pistas ao rato seu
comportamento já não é mais tão cego.
Após Hans entrar na psicologia, e se submeter aos testes de Pfungst, ele se transforma
pelo modo como o psicólogo se endereça a ele, de forma suspeita e desconfiada. Ele fica
mecanizado. Passa a errar as questões e responder a tudo de modo mecânico, seguindo sinais,
como um cavalo de circo. Antes, ele era bem sucedido em responder às perguntas dos
interrogadores, que se endereçavam a ele com confiança no seu sucesso. A partir dos
experimentos de Pfungst, a definição da posição de Hans muda: ele é aquele que reage, aquele
sobre o qual nós agimos. De cavalo inteligente ele se torna um animal que reage, e passa a ser
definido pelo registro da passividade. Segundo Despret (2004a), a investigação de Pfungst se
desenvolve num momento crítico da história da psicologia (início do século XX): as
transformações de Hans anunciam a transformação dos sujeitos. O advento do behaviorismo
anuncia que os seres vivos, assim como os objetos da física, vão se submeter às leis que
53
regem o universo. A conduta de Hans é reduzida a mecanismos funcionais simples (estímulo-
resposta-consequência).
Despret (2004b) distingue “ser disponível” (being available) de “ser dócil” (being
docile), para definir o que se passa no setting de pesquisa. Ela afirma que estar disponível
para as expectativas do outro não é obedecer tais crenças, não é ser dócil. O setting sempre
oferece possibilidades de “resistência” àquele para quem ele se endereça. Como dissemos
acima, a pesquisa é uma situação social, na qual é sempre a relação que está em jogo, isto é, o
consentimento e a liberdade. Despret qualifica com essa distinção dois tipos de atitude ou
posição do cientista. O cientista que conta com a disponibilidade do aparato de pesquisa e do
animal, e, o cientista que requer docilidade (sendo ele mesmo dócil para os pré-requisitos da
ciência). Despret traduz essas duas atitudes com outra distinção, respectivamente: o cientista
que se endereça para o sistema como aquele que cuida (care-taker), ou, o que se endereça
como um juiz ou mestre. No primeiro caso, é o animal que articula o sistema, pois o cientista
está interessado/disponível para o possível devir (becoming) do animal. Nesse caso, a nosso
ver, se trata de encarnar uma política cognitiva da invenção, pela qual o se assume o outro
como um objeto pré-determinado a ser representado, como na posição do juiz ou mestre, mas
que pelo contrário, o assume como um outro que se determina, sobretudo, na situação de
pesquisa ela mesma e na relação com o pesquisador, o que requer uma atitude de cuidado
(PASSOS E EIRADO, 2008). Desse modo, o setting a oportunidade ao sujeito
participante de mostrar quais são as questões mais interessantes para endereçar a ele.
Concomitantemente à posição do pesquisador para a qual conhecer é invenção de problemas e
não se reduz a solução de problemas pré-existente. Já no caso da docilidade, é o sistema que
articula (controla) o animal, o qual apenas tem de mostrar como ele obedece a leis.
54
Tanto Hans quanto os ratos de Rosenthal, definidos pelo registro da passividade, como
animais que reagem, são objetos representáveis pelo pesquisador. Pois, são considerados
objetos plenamente determinados, que responderão objetivamente às interrogações, feitas sob
condições controladas, do cientista. Como veremos no próximo capítulo, a metodologia de
terceira pessoa empregada pelas ciências cognitivas se caracteriza por focar os seus estudos na
produção, e sobretudo, reprodução de dados comportamentais e neuronais, através da
realização de tarefas pelo sujeito sob condições experimentais (controladas). É a partir de tais
dados que seu objeto, o processamento cognitivo, é inferido, e as hipóteses acerca dele são
testadas. Estes dados são definidos pelo registro da passividade, no sentido de que se
pressupõe que eles sejam submetidos a condições a priori, as quais a situação experimental
busca acionar e representar. O estatuto da atividade cognitiva investigada neste caso não é
enativo ou co-emergente, assim como a posição do investigador é a do juiz ou mestre.
Contudo, algumas questões que têm sido colocadas por pesquisadores desse campo têm
posto em xeque o caráter objetivo da cognição e problematizado a sua representação. A
emergência do problema da primeira pessoa e da experiência nos estudos da cognição está, a
nosso ver, ligada a essa questão da tomada de posição por parte do sujeito (sua autonomia), e
mesmo do pesquisador, nas pesquisas. É o que veremos no próximo capítulo. A tomada de
posição implica um modo de sentir e agir, uma atividade enativa pela qual o cognoscente
corporifica uma situação, e constitui a si e a um mundo. A descrição de Despret revela que o
que determinava a conduta de Hans, assim como a dos ratos na pesquisa de Rosenthal, não era
tão simplesmente uma relação estímulo-resposta
8
. O modo como o investigador se endereçava
8
Os testes feitos por Pfungst buscavam demonstrar a hipótese de que o cavalo seguia os movimentos
humanos de forma clara (estímulo-resposta). No entanto, quando examinados os resultados desses testes de
modo mais próximo, eles apresentam algumas anomalias, afirma Despret (2004a). Hans podia, em alguns casos,
antecipar os movimentos, o que tornava tais casos “indecidíveis”. Isto é, a influência não se inscrevia tão bem
nos esquemas da reação e da causalidade. Segundo Despret, nestes casos em que Hans antecipava o movimento,
ele o fazia com referência em outros índices, que escapavam ao controle (experimental) de Pfungst. Seja porque
55
ao animal e a maneira como o animal respondia a esse endereçamento não era tão mecânico.
Como vimos acima com Varela e Merleau-Ponty, sensório e motor são inseparáveis no vivido
da cognição e não ligados eventualmente como pares entrada/saída, estabelecendo uma
gênese circular da cognição. Como buscaremos desenvolver no próximo capítulo, mais do que
a relação estímulo-resposta, as investigações em cognição devem ter em conta a questão da
co-emergência, o que depende do problema da atenção à experiência da pesquisa.
Despret (2004b) redefine a questão da influência na relação como uma questão de
autoridade. Os estudantes autorizam os ratos a se tornarem brilhantes ou estúpidos, mas, por
sua vez, os ratos autorizam os estudantes a se tornarem competentes pesquisadores. Também
o próprio Rosenthal autoriza os estudantes. Eles confiavam nas proposições de Rosenthal,
confiavam que eles poderiam realizar essas expectativas e fizeram-nas suas. Rosenthal
também está inserido num mundo cultural no qual faz parte as práticas científicas, ele é
autorizado por este mundo. Mesmo a análise de Despret autoriza Rosenthal a preencher as
expectativas dela. Os interrogadores autorizavam Hans a se tornar um cavalo inteligente, e
Hans os capacita a ganharem um corpo que faz mais coisas, que sente outros eventos, e que é
cada vez mais capaz de conduzi-lo. “Ambos, humanos e cavalo, são causa e efeito do
movimento um do outro. Ambos induzem e são induzidos, afetam e são afetados. Ambos
corporificam a mente um do outro” (DESPRET, 2004b: 115). O efeito da autoridade é
circular: ao autorizar o outro eu autorizo a mim mesmo e vice versa.
tais índices não apresentavam a mesma regularidade, ou porque eles escapavam a nossos canais sensoriais. A
questão é que havia por parte dos interrogadores movimentos subsidiários que viriam completar as informações
que Hans selecionava. E isso variava de um interrogador para o outro, ou seja, Hans conseguia antecipar melhor
os movimentos de alguns e não outros. Por exemplo, no caso de Pfungst, o cavalo seguia de forma clara seus
movimentos, Hans dava sua última batida com a pata quando o psicólogo se endireitava. Já com o zoologista
Schiling era um pouco mais aleatório (em 83% dos casos o movimento da cabeça de Schilling precedia a parada
de Hans, em 17% Hans antecipava o movimento). E no caos de Von Osten, que era o proprietário de Hans, o
cavalo parecia antecipar seu mestre na maioria dos casos, apesar das tentativas de controlar, durante o teste, os
movimentos de Von Osten.
56
Autoridade não é tanto questão de poder
9
, define Despret (2004b). Não se trata de
assimetria, da autoridade de quem detém o poder. Ambos são ativos na relação, ambos jogam
o jogo, a confiança e o interesse são de ambas as partes. Ambos testemunham sua
“preferência por acordo”, na qual eles tentam alinhar sua ação com o que é esperado deles.
Autoridade é mais da ordem do acolhimento do que da causalidade: autorizar ou não algo é
acolher ou não o seu advir. Autorizar é tornar-se disponível para um evento em que ambos,
humano e animal, criam juntos. Tornamo-nos disponíveis para a relação com o outro, de uma
maneira que torna impossível afirmar quem é causa do que. Tornar disponível é uma espécie
de abertura, disponível para um afetar e ser afetado, no qual ambos são ativos e ambos são
transformados pela disponibilidade do outro. É a partir dessa abertura e disponibilidade que
podemos dar chance para que outros modos de sermos humano e animal sejam ativados, e
assim pertençam ao mundo. Na medida em que o behaviorista responde apenas àquelas
reações do animal que se revelam incapazes de reivindicar uma posição ativa e autônoma, ele
autoriza o animal a não passar de um autômato.
Na base dessa relação fundada na autoridade está um corpo afetivo, um corpo movido
por afetos, onde o que afeta e o que é afetado, o interno e o externo, formam uma
circularidade que impossibilita decidir o que é causa e o que é efeito. Despret (2004b) faz
referência à teoria das emoções de James, na qual a emoção torna-se uma experiência
equívoca, isto é, na qual a divisão entre causa e feito, entre corpo e mundo, não possui
contornos claros. Esse corpo movido por afetos situa-se num lugar ambíguo onde ele
pertence, ao mesmo tempo, ao mundo dos objetos e ao mundo do sujeito devemos falar de
visões sedutoras ou de visões de coisas sedutoras? Esse corpo afetivo na base da relação leva
9
Despret toma a definição de autoridade dada por Gregori Bateson: “uma pessoa é dita ter autoridade quando
alguém sob a influência daquela autoridade faz todo o possível para fazer o que esta pessoa diz ser verdadeiro”
(2004b: 118).
57
ao que Despret chama milagre da sintonia entre o humano e o animal. Ao se tornarem
disponíveis um para o outro, ambos passam a sentir de modo inaudito gestos e expressões
sutis, e a responder a eles também de uma forma dinâmica e delicada. Não é fortuito, a nosso
ver, que Despret fale em tornar-se disponível para o devir (becoming) do outro: “um estudante
que afeta e é afetado torna a si mesmo disponível para o „devir‟ do rato, assim como o rato
torna a si mesmo disponível para o „devir‟ do estudante” (DESPRET, 2004b: 123).
Esse é um modo de pensar a questão da relação como um processo de ajustes
recíprocos, de agenciamentos ou de acordos pelos quais afetar e ser afetado se distribui de
maneira indeterminada (DESPRET, 2004a). Mas, essa sintonia depende de uma tomada de
posição por parte do pesquisador, de um modo de corporificar a situação e se posicionar
diante do sujeito pesquisado, à qual este também tomará parte respondendo ao endereçamento
do pesquisador. Trata-se da constituição de um ethos, de uma experiência (afetiva) comum,
no qual ambos têm que tomar parte. Despret (2004a, 2004b) toma o conceito de sintonia
(attunement ou accordage) de Daniel Stern, que o concebe para dar conta da sincronia de
ritmo, de percepção e de afetos que põe em acordo a mãe e seu recém nascido. É diferente de
empatia, que pressupõe uma relação de identificação: “como é ser o outro”. A sintonia coloca
a questão “como é ser/estar com o outro”. Ela pressupõe uma experiência afetiva na qual
interno e externo são inseparáveis. Trata-se de uma experiência transmodal, na qual o mundo
visto pelo recém nascido é inseparável do mundo que ele ouve ou sente; o rosto da mãe visto
pelo bebê é inseparável do modo como ela o toca, da sua voz, etc (PETITMENGIN, 2006a,
2007).
58
3. A retomada das metodologias de primeira pessoa nas ciências
cognitivas contemporâneas: o papel da atenção
3.1. A psicologia introspeccionista e a observação atenta dos elementos mentais
Como afirmamos na introdução, destacamos na atualidade a defesa feita por autores como
Francisco Varela (1996a), Evan Thompson e Antoine Lutz (2003), Pierre Vermersch (1994,
1999), Jack e Roepstorff (2003, 2004), Claire Petitmengin (2006b, 2007), da inclusão do
problema da experiência nos estudos da cognição, através da retomada de metodologias de
primeira pessoa em suas pesquisas. A noção de retomada faz referência ao início da
psicologia experimental, no final do século XIX, quando a psicologia utilizou um método de
primeira pessoa para fazer um estudo científico da consciência: a introspecção. Neste período,
a psicologia experimental foi uma tentativa de fazer ciência da problemática filosófica do
sujeito cognoscente. Tomando a fisiologia como base para resolver esse problema, a
psicologia se fundamenta no conceito de sensação, concebendo este como elemento objetivo e
matematizável. O conceito de sensação ocupou na psicologia o lugar do sujeito transcendental
de Kant (FERREIRA, 2005). É a esta experiência sensorial e elementar, denominada por
Wundt experiência imediata e por Titchener e Kulpe experiência dependente (BORING,
1979), que o sujeito na introspecção devia observar.
Gostaríamos de salientar duas coisas nessa retomada. A primeira é a introspecção
como prática, como prática que implicava o engajamento de si, de modo que o fenômeno
observado dependia diretamente do treino do observador. Esse aspecto de cultivo de um
talento, ou mesmo de cultivo de si, teria sido abandonado com o uso crescente pela psicologia
de um modo de fazer pesquisa em que a busca de dados objetivos leva a um controle dos
sujeitos nos experimentos, o qual exclui qualquer forma de engajamento particular (limita a
questão da autonomia, da experiência, na relação cognitiva). A segunda é que o modo como a
59
introspecção era concebida por autores como Titchener e Kulpe fazia dela um processo de
auto-observação. Concebia-se que ela assegurava uma relação representacional do sujeito com
sua própria experiência. Isto é, através da introspecção o sujeito observava uma experiência
sensorial e elementar que pré-existiria à observação ela mesma. Buscaremos demonstrar ao
longo da nossa tese em que medida a defesa contemporânea do uso de metodologias de
primeira pessoa pelas ciências cognitivas retoma esse caráter de cultivo de si, mas sem
restringir seu entendimento a uma estratégia para a representação da experiência. Pois, a
nosso ver, o principal motivo para a defesa contemporânea do uso pelas ciências cognitivas de
metodologias de primeira pessoa, por parte de autores como Varela, Thompson, Lutz e
Petitmengin, é justamente mostrar o caráter co-emergente, ou não representacional, da
atividade cognitiva.
Titchener define a introspecção como “a observação que cada homem faz de sua
própria experiência, dos processos mentais que o acessíveis apenas a ele, e a mais nenhum
outro” (TITCHENER, 1903: 33). Essa psicologia introspeccionista surge buscando aplicar ao
estudo da mente o ideal de inteligibilidade naturalista, que enfatizava a observação e
descrição da regularidade do fenômeno estudado (BORING, 1979; VERMERSCH, 1999;
PASSOS, 1992). Esta observação deve ser passível de validação intersubjetiva e, portanto,
não deve depender da experiência de um sujeito em particular. É característico da observação
naturalista o estabelecimento de regras que garantam a neutralidade e a imparcialidade do
observador, mantendo-se uma distinção gida entre observador e observado, entre sujeito e
objeto. A observação é aspecto fundamental do método científico, segundo Titchener (1908),
e ela significa duas coisas: atenção ao fenômeno e registro do fenômeno. A importância da
observação para Titchener está ligada a um pressuposto de apreensão imediata ou direta dos
fenômenos: “Observar, ver as coisas ou processos como são realmente” (TITCHENER, 1903:
60
30). Para Titchener a ciência pode descrever o que ela pode observar. Kulpe também
compartilhava desse pressuposto epistemológico (BORING, 1979). Nesse sentido, como os
únicos processos mentais acessíveis à observação pelo sujeito são os dele próprio, o método
da psicologia poderia ser uma auto-observação ou introspecção, como uma observação ou
apreensão direta dos fatos psíquicos.
Para Titchener, a validade do método observacional da psicologia era a mesma da
observação das ciências naturais: “... o método introspectivo nos presta o mesmo serviço que
o método inspectivo „observação e experimento‟ é a frase mais usual faz nas ciências
naturais” (TITCHENER, 1912a: 2). A preocupação de Titchener (1908; 1912b) em garantir a
equivalência do valor do conhecimento produzido pelo método da psicologia em relação aos
das ciências físico-naturais, é na verdade uma preocupação em responder à crítica, segundo
ele feita por Kant (mas também por Comte), de que a psicologia nunca seria ciência
experimental por que a observação psicológica interfere com seu próprio objeto. O problema
é que ao voltar a atenção para si, esse processo observador interferiria com o processo
consciente observado. A mente não poderia ser duplicada em uma mente observada e uma
mente observadora.
Contudo, essas críticas seriam válidas para sujeitos ingênuos, pois, os dados válidos e
acurados da introspecção seriam fornecidos por peritos na prática introspeccionista. Para
Titchener, a introspecção era uma habilidade a ser desenvolvida, assim como a habilidade de
análise física e química (TITCHENER, 1912b, 1908; SCHWITZGEBEL, 2004). A
observação experimental subjetiva, assim como os procedimentos de observação externa,
deve ser praticada. Os dados válidos somente viriam de sujeitos treinados em seu laboratório
por meses. O manual de treinamento em introspecção que ele utilizava continha
aproximadamente 1600 páginas. Antes desse treinamento os estudantes que entravam em seu
61
laboratório não eram considerados competentes para participar de uma observação
introspectiva nos experimentos. Essa competência seria assegurada pelo treinamento. Era
ela que permitiria ao psicólogo se manter no seu ponto de vista descritivo e assim evitar o erro
do estímulo, isto é, atentar não para a sensação, mas para o estímulo significado. Ela
permitiria também saber o que procurar, descrever o fluxo da experiência, fazer com que a
atenção fosse focada nos processos mentais a serem vivificados e distinguidos e não sobre a
introspecção deles.
Para o introspeccionista bem treinado, a introspecção torna-se um ato automático e
quase sem esforço, distorcendo assim muito pouco a experiência observada
(SCHWITZGEBEL, 2004). Segundo Titchener (1912b), a introspecção seria um processo de
auto-observação, mas o um processo auto-consciente. Se a introspecção for ela mesma um
processo consciente ela introduz um novo fator na consciência que, por isso, interfere no
processo consciente observado. Kulpe (1893) também coloca esse problema, ele afirma que a
principal condição para um emprego metódico da introspecção é que a atenção seja focada
nos processos mentais a serem vivificados, distinguidos, e, não sobre a introspecção deles.
Com a prática a introspecção torna-se uma atitude habitual, de modo a não se prestar mais
atenção ao introspectar. Assim como o histologista toma notas enquanto seus olhos estão
grudados no microscópico o psicólogo não se preocuparia com o seu próprio ato de observar
“Em sua atenção ao fenômeno sob observação, o observador em psicologia, não menos que o
observador em física, esquece completamente de dar atenção subjetiva ao estado de observar
(state of observing)” (TITCHENER, 1912b: 443). Nesse sentido, a introspecção, no curso
ordinário da investigação psicológica, não é um processo consciente (na verdade, Titchener
diz que a introspecção implica auto-consciência apenas na medida em que toda observação
científica implica auto-consciência). Daí Titchener conclui que não nada fatal ou peculiar
62
com a atenção aos processos mentais, e que a “atenção na psicologia e a atenção nas ciências
naturais são da mesma natureza e obedecem as mesmas leis” (TITCHENER, 1908: 180).
Dessa forma, Titchener busca garantir a igualdade do valor epistêmico da atenção a si, na
introspecção, com a atenção ao meio externo, na inspeção.
O caráter experimental da introspecção do final do século XIX a distinguia de outras
formas de atenção a si, como a atenção operada na auto-experimentação e na auto-observação,
voltadas para a constituição do eu burguês (HAGNER, 2003; CALIMAN, 2006). Esse caráter
experimental criava condições artificiais para a regulação e controle da atenção na situação de
laboratório. Titchener (1903) definia regras para evitar que a atenção vagasse, e assim
permitisse que outros processos que não aqueles investigados entrassem na consciência e
contrariassem o experimento: tomar a experiência vigorosamente, estar cômodo, tomar a
experiência seriamente, tomar a consciência como ela se apresenta (ser imparcial). O
treinamento também era importante para que o psicólogo aprendesse a diferenciar o ponto de
vista descritivo característico da psicologia ao examinar os processos mentais. Por esse ponto
de vista a introspecção é descritiva e não explanatória, isto é, ela não nos um sistema de
psicologia, ela apenas nos permite discernir fatos particulares, que são materiais para a
psicologia, a partir deles, construir um sistema (TITCHENER, 1912a; 1912b). Era esse ponto
de vista descritivo que distinguia a introspecção na psicologia da introspecção no senso
comum e na reflexão filosófica. Causalidade mental, função, mudança, não são dados à
introspecção para Titchener e nem são descrições, são inferências. A regra dada por Titchener
para evitar que o psicólogo saísse do seu ponto de vista descritivo era evitar o erro do
estímulo. O psicólogo cometia esse erro quando ele atentava não para a sensação, mas para a
representação do estímulo, isto é, para os juízos inconscientes acumulados pela experiência
passada.
63
Esse treinamento e perícia adquirida por psicólogos como Titchener, Kulpe, Wundt e
seus companheiros de laboratório, implicava todo um aprendizado, um trabalho sobre si, o
cultivo de um talento, a qual seria asseguradora da própria credibilidade e confiança dos
dados obtidos. É o que enfatiza Despret (2004a), ao afirmar que a divisão de trabalho no
laboratório de Wundt fazia com que as posições de sujeito e de experimentador fossem
intercambiáveis. Nesses laboratórios de psicologia experimental do final do século XIX
desempenhar o papel de “fonte humana de dados”, o que contemporaneamente se entende
como sujeito da pesquisa, exigia muita perícia na capacidade de perceber, de discriminar, de
sustentar a atenção, de focalizar, de acompanhar os eventos da consciência durante a
introspecção. Isso demandava muita competência por parte dos sujeitos e, portanto não era
algo realizável por “qualquer um”. Cada pesquisador podia adotar, de um experimento a
outro, tanto a posição de quem conduzia a experimentação, quanto a posição de sujeito. O
nome dos sujeitos figurava aliás no conteúdo dos artigos, pois garantia a confiabilidade dos
resultados; eles não eram resumidos a números ou tabelas estatísticas. Um exemplo dessa
importância da perícia é citado por Despret. Nele Stumpf critica um dos alunos de Wundt,
Lorenz, porque os resultados experimentais deste, numa pesquisa sobre percepção da
distância dos tons, contradiziam a experiência dos músicos. Se os resultados experimentais,
tão rigorosos quanto sejam, contradizem a experiência de qualquer músico perito, sustentava
Stumpf, eles devem ser falsos.
Despret (2004a) busca destacar o fato de que os pesquisadores da psicologia, anteriores
ao advento do behaviorismo, se fabricavam como cientistas de talento. A técnica por eles
usada dependia desse talento, assim como a existência do fenômeno que se buscava produzir.
A prática e o cultivo de um talento habilitavam esses psicólogos a tomarem posição em
relação aos experimentos. Era assim que eles constituíam sua identidade de pesquisador se
64
a psicologia torna-se disciplina, ela se define ainda, para o experimentador, como disciplina
de si. Ser psicólogo engaja: o experimentador é a testemunha confiável dos eventos que ele se
torna capaz de suscitar” (DESPRET, 2004a: 132). Dessa forma, o pesquisador não se coloca
como “qualquer um” aplicando uma técnica. Stengers (1990) exemplifica essa questão ao
comentar que os químicos do século XVIII, diferentemente dos químicos do século XIX,
precisavam de um longo aprendizado, do espírito e dos sentidos, o que lhes dava saber-fazer
(savoir faire) e intuição. Ela diz que a ciência do século XIX não eliminou a necessidade de
um saber-fazer, mas, que essa necessidade passou a ser tácita e subordinada ao protocolo:
“oficialmente, basta obedecer ao protocolo para conseguir a manipulação que é descrita por
ele. Aqueles que têm êxito o devem ao protocolo, é apenas para explicar o fracasso dos outros
que evocaremos a falta de talento experimental” (STENGERS, 1990: 115). Realizar a
introspecção não se resumia a aplicar um protocolo, era preciso que o sujeito treinasse, se
engajasse e incorporasse a prática.
Em dois trabalhos contemporâneos (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003;
VERMERSCH, 1999) vemos essa mesma atitude: explorar a prática da introspecção como
prática de fato. Isto é, é preciso se engajar, experimentar, “sujar as mãos”, não se trata de
pensar (representar) abstratamente a introspecção. Depraz, Varela e Vermersch escrevem um
trabalho sobre “o devir consciente”, buscando trabalhar a questão de como nós podemos
explorar dimensões de nossa experiência que não se tornam facilmente conscientes. Eles
afirmam: “O espírito deste livro é inteiramente pragmático, pelo menos por duas razões
relacionadas. Primeiro, por causa de nossa abordagem: nós temos de descobrir o que pertence
a nossa questão na medida em que nós vamos em frente; nós teremos de aprender fazendo
(learning on the job), mais do que oferecer resultados prontos” (DEPRAZ, VARELA E
VERMERSCH, 2003: 1). Notamos o destaque que Vermersch aos chamados profissionais
65
da relação: psicoterapeutas, educadores, treinadores. Esses profissionais são criadores e
usuários de técnicas para explorar a experiência humana. Muitos deles podem ser
considerados talentosos e peritos. E sua competência depende diretamente de seu
engajamento e da sua experiência concreta. Outro destaque são os exemplos de domínios
práticos onde a questão do “devir consciente” é realizada, dados por Depraz, Varela e
Vermersch: sessão de meditação (shamatha), visão estereoscópica, sessão psicanalítica, sessão
de escrita, início de curso de filosofia, oração do coração, entrevista de explicitação
(introspecção guiada). Em todos esses domínios e tradições (como a budista, a psicanalítica, a
da igreja ortodoxa) a prática é fruto de um engajamento coletivo, de uma corporificação por
parte de uma comunidade. A nosso ver, portanto, a questão da prática na introspecção
significa que esta não é uma atividade natural, que está pré-dada, mas sim que ela depende de
uma atividade enativa por parte do investigador, na qual ele constitui a si mesmo e, de forma
co-dependente, os dados. Mas, isso implica que a introspecção está diretamente ligada à
situação concreta da pesquisa e a maneira como o pesquisador atualiza essa prática (sua
incorporação). Como afirmamos no capítulo anterior, a tomada de posição pode variar e, por
conseguinte, os problemas que ela coloca. Daí a nosso ver, a variação a que era sujeita os
dados das pesquisas introspeccionistas.
O exemplo mais importante dessa variação dos resultados entre os diferentes
laboratórios onde se praticava a introspecção é entre os de Cornel e Wurzburg. O laboratório
de Cornel era dirigido por Titchener, para quem toda atividade mental era acompanhada por
representações sensoriais. Porém, no laboratório de Wurzburg, dirigido por Kulpe, houve a
observação de um elemento não imagético e não sensorial no pensamento. Segundo Boring
(1979), Kulpe, como um positivista que era, pensava que tudo aquilo que não pode ser
observado não existe para a ciência. Porém, seu trabalho sobre o pensamento, juntamente com
66
a escola de Wurzburg, lhe demonstrou que a observação nem sempre é tão fácil de definir
como quiseram os positivistas, que nem tudo o que existe, como os pensamentos, por
exemplo, é imediatamente observável. Ao realizar um estudo experimental do pensamento,
Kulpe estava desrespeitando o veto de Wundt a uma psicologia dos processos superiores. Para
Kulpe o método introspectivo deveria permitir fazer uma descrição do pensamento. Boring
nos um exemplo do problema ao qual foi levada a observação do pensamento, através de
um estudo experimental sobre o juízo feito por Marbe. Nesse estudo um indivíduo levanta
dois pesos e julga qual é o mais pesado. Mas, apesar do juízo correto e da existência de muito
conteúdo sensorial e imagético na consciência, o sujeito não sabe, através da introspecção,
como tal juízo chegou a sua mente. A associação de conteúdos mentais que levavam a mente
a uma conclusão racional não era observável nem mesmo através da introspecção. Isso levou
os pesquisadores da escola de Wurzburg a perguntarem se não haveria outros conteúdos na
consciência para explicar o pensamento, quando as imagens e sensações, que chegamos por
meio da introspecção, são inadequadas.
Segundo Boring (1979) a resposta dada por Orth foi “atitude consciente”, conteúdo
obscuro, intangível, indecomponível e indescritível, que não é nem sensação nem idéia.
Tratava-se de um novo elemento sem imagens da mente que poderia ser útil para a psicologia
do pensamento. Um outro pesquisador, Ach, desenvolveu o conceito de “tendência
determinante”, um guia do processo consciente ao longo do curso pré-determinado do
pensamento voltado para a resolução de problemas (BORING, 1953). A “tendência
determinante” mesma é inconsciente, mas o processo consciente que ela dirige parece não ser
descritível em termos da introspecção clássica, isto é, em termos de imagens e sensações.
Sendo assim, Ach inventou o termo Awareness (Bewusstheit) para esse conteúdo vago e
elusivo da consciência. De acordo com Boring (1979) não é claro até que ponto alguma
67
diferença entre a atitude consciente” de Orth e a awareness de Ach. O ponto é que a
introspecção experimental sistemática praticada pela escola de Wurzburg revelava algo mais
que conteúdos tangíveis do pensamento, a awareness era um tipo de consciência marcada por
conteúdos intangíveis. Destacamos que a descrição de um pensamento sem imagens estava
diretamente ligada ao modelo de pesquisa feito em Wurzburg, assentado na resolução de
problemas. O estudo da resolução de problemas implica leis lógicas (mais do que imagens
sensoriais) conectando fases de raciocínio estruturadas pelos conteúdos do processo de
raciocínio. É a esse contexto experimental que estaria ligada a awareness de um conteúdo
vago e elusivo do pensamento, a dimensão operativa do pensamento (VERMERSCH, 1999).
Esse modo de conceber a questão da prática da introspecção, como implicando uma
atividade enativa, é diferente da colocação do problema da prática introspectiva em um
trabalho como o de Schwitzgebel (2004). Ele fez uma análise do trabalho de Titchener para
enfatizar a importância do treinamento para a produção de dados acurados. Ele busca no
trabalho de Titchener uma resposta para o problema da falta de confiabilidade dos dados da
introspecção, que é muito ressaltado nas discussões contemporâneas sobre a retomada de
metodologias de primeira pessoa pelas ciências cognitivas. Tanto Schwitzgebel quanto o
próprio Titchener (e mesmo Kulpe, ambos imbuídos dos princípios de observação naturalista)
ao enfatizarem a prática para a produção de dados acurados, vêem na introspecção uma auto-
observação, no sentido de uma relação representacional pelo sujeito de sua experiência. Ainda
que o pesquisador para realizar a introspecção precisasse praticá-la e incorporá-la, o que
implicaria, a nosso ver, um engajamento e um cultivo de si, isso não era posto em questão,
não era visto como um talento do qual dependeriam os dados. Era mais como uma técnica
para acessar uma experiência elementar e sensorial que pré-existiria à observação ela mesma.
Nesse sentido, é como se a técnica pré-existisse à pratica, e restasse ao sujeito a “obedecer”.
68
Assim, a observação de tais dados sensoriais deveria ser realizada por “qualquer um”. Mas,
neste caso, o treinamento na introspecção se apresentava mais como um controle da
observação. O problema se coloca, a nosso ver, da seguinte forma. O nascimento dessa prática
introspectiva dependeu do talento de pesquisadores como Wundt, Titchener e Kulpe, porém,
após ter surgido, tal prática foi protocolada e vista como uma técnica a serviço de uma auto-
observação.
Notamos em alguns trabalhos sobre a retomada contemporânea das metodologias de
primeira pessoa (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003; VARELA E SHEAR, 1999;
VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005;
VERMERSCH, 1999) que eles pressupõem uma reavaliação da introspecção tendo em vista o
processo que ela opera. Essa reavaliação problematiza o modo de relação cognitiva (sujeito-
objeto) estabelecido na introspecção clássica. No introspeccionismo clássico era pedido ao
sujeito que olhasse para sua própria experiência como um observador externo o faria,
mantendo a separação sujeito-objeto, o que Varela, Thompson e Rosch chamam de atitude
abstrata do introspeccionista em relação a sua mente. Essa atitude abstrata implica a
imposição de um quadro interpretativo separado da experiência. Os elementos sensoriais
independeriam da incorporação do pesquisador e da situação concreta do experimento. Varela
(1996a) afirma que os relatos da introspecção clássica eram muito influenciados pelos
fundamentos teóricos dos estudos, e, rapidamente caíam em argumentos de autoridade. A
reavaliação desse processo introspectivo implica diretamente a modalidade de atenção à
experiência, como aprofundaremos no próximo capítulo. É preciso mobilizar e intensificar na
abordagem de primeira pessoa um tipo de atenção, atenção receptiva e panorâmica, que é
diferente da atenção ativa a uma dimensão sensorial para introspectar uma sensação ou
imagem (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI,
69
2005). O cultivo desse tipo de atenção é fundamental na prática introspectiva, como definida
por esses autores. Acrescenta-se a importância da mediação de um entrevistador, para
conduzir a introspecção. Esse uso da mediação é uma das diferenças principais em relação à
psicologia do final do século XIX, ela enseja uma introspecção guiada (VERMERSCH,
1999).
A concepção de atenção, formulada por Titchener e Kulpe, era coerente com uma
perspectiva representacional. Titchener (1908) compara a introspecção a um microscópio ou a
uma câmera. Coerente com essa comparação, a atenção era vista como um raio de luz que
torna o estímulo mais claro. Segundo Kulpe (1893), a atenção na introspecção intensifica
certos elementos e assim os sujeita a observação (neste trabalho trata-se de um Kulpe ainda
elementarista, anterior ao trabalho na escola de Wurzburg). Segundo Kulpe, um real
isolamento nunca acontece, o que se passa é que a concentração da atenção distingue certas
partes do processo. Ainda segundo Titchener “a atenção ao estímulo o torna mais claro e o
mantém no espírito por mais tempo” (TITCHENER, 1903: 40). Também Titchener no seu
trabalho sobre atenção (1908) afirma que todo processo de atenção possui dois fatores
essenciais: o aumento da clareza de uma idéia ou grupo de idéias particulares, e a inibição de
outras impressões disponíveis, ou seja, “atenção, em outras palavras, significa a redistribuição
de clareza na consciência, a elevação de alguns elementos e a queda de outros...”
(TITCHENER, 1908: 183). Portanto, a importância da atenção na análise introspeccionista é
que ela aumenta a visibilidade dos elementos descritivos, e como afirma o próprio Titchener:
“você não pode descrever o que você não pode observar” (1912b: 10).
Contudo, o que vemos no trabalho de Boring (1953) sobre a história da introspecção é
que críticas feitas a esse método estavam relacionadas a uma recusa da validade dessa
epistemologia observacional a respeito do estudo da consciência. Segundo Boring, as críticas
70
feitas ao introspeccionismo no início do século XX lhe negavam a garantia de neutralidade e
imparcialidade do observador. A própria variação dos resultados entre os laboratórios de
Cornel e Wurzburg era citada como exemplo da falta de confiabilidade da introspecção. Havia
muita dificuldade em se chegar a um consenso teórico com os resultados das pesquisas em
diferentes laboratórios. O treinamento e a prática eram vistos mais como fonte de parcialidade
do que como garantia de acurácia. O pesquisador (introspeccionista) influenciaria seus
resultados. Ao contrário do que pretendia Titchener, essa suposta auto-observação seria na
verdade elaborada por significações e inferências (BORING, 1953). Ou seja, a nosso ver, tais
críticas questionavam justamente a capacidade desse método de assegurar a representação de
uma realidade independente. Mesmo em trabalhos contemporâneos essa crítica é
frequentemente levantada como uma fonte de preocupação quanto ao uso da introspecção
pelas ciências cognitivas (JACK E ROEPSTORFF, 2003, 2004).
Por mais que o treinamento da introspecção visasse a um controle da observação, tal
controle era problemático, pois, ele ainda dependia muito do consentimento e da prática dos
sujeitos. Operou-se então uma mudança em relação ao lócus da responsabilidade pela correta
representação do objeto, ou pelo seu conhecimento. Segundo Boring (1953), na introspecção
clássica o sujeito é o observador. Ele tem responsabilidade pela correção de suas descrições
dos dados conscientes, assim era em Leipzig, Cornel, e onde mais ele fosse treinado para a
introspecção. O behaviorismo, por usa vez, mudou o lócus da responsabilidade científica do
sujeito observador para o experimentador, que se torna o observador do sujeito. Incluiu-se a
assimetria nos estudos psicológicos, separando o experimentador do sujeito participante. Isso
permitiu a inclusão de animais, crianças e outros nos estudos da psicologia. O início do século
XX, junto com a ascensão do behaviorismo, buscou uma espécie de purificação nos
experimentos psicológicos, buscando excluir os efeitos dessa tomada de posição da “fonte
71
humana de dados”. Como vimos no capítulo anterior, os protocolos experimentais excluem
essas formas particulares de engajamento de si através do controle dos sujeitos (que devem se
submeter às regras do protocolo). Isso inclui nas pesquisas a questão da “revelia”, ou seja, que
o sujeito ignora isso sobre o qual ele é interrogado, de modo a não tomar posição sobre o que
lhe é proposto (e não contaminá-los com “subjetividade”).
O desacordo sobre esse pressuposto de observação ou apreensão direta dos fatos
psíquicos levou a recusa do método introspeccionista pela psicologia experimental do início
do século XX, em nome de dados mais operacionais, como os dados comportamentais. Boring
(1953) afirma que o objeto da introspecção, a consciência, tornou-se um constructo definido
operacionalmente. A importância da definição operacional em ciência é definir de forma clara
o que você quer dizer com aquilo que vopesquisa. Sendo assim, como não observação
direta da consciência, esta só poderia ser definida (e inferida) de forma clara e controlada com
base nos seus efeitos externos, isto é, comportamentais. No caso do behaviorismo as
inferências não são especificamente sobre a consciência, que foi desprezada, sobretudo por
Watson. Trata-se de inferências sobre o comportamento a partir da relação estímulo-resposta
(CATANIA, 1999). No caso da psicologia cognitiva, que surge a partir de meados do século
XX, sim teremos inferências a respeito dos estados mentais. Ainda que os estados mentais
na psicologia cognitiva, fundamentados no paradigma de processamento de informação (como
vimos no capítulo anterior), sejam diferentes dos fatos de consciência da psicologia do século
XIX.
Mas o que vem sendo problematizado por alguns pesquisadores contemporâneos
(VARELA, 1996; VARELA E SHEAR, 1999; THOMPSON E LUTZ, 2003; CLAIRE
PETITMENGIN, 2006b, 2007; JACK E ROEPSTORFF, 2003, 2004), do campo das ciências
cognitivas, é a ênfase das investigações nesses dados operacionais, comportamentais e
72
neuronais. As questões levantadas por esses autores para afirmar o limite de tal ênfase para o
conhecimento da atividade cognitiva, apontam, a nosso ver, para o fato que, apesar do
controle do dispositivo experimental, a prática da pesquisa não prescinde do consentimento do
participante. Por exemplo, ocorrem variações nas respostas do sujeito ao experimento que
dependem da sua compreensão das instruções e das estratégias por ele adotadas. A descrição
do funcionamento cognitivo a partir da vivência de um sujeito concreto (perspectiva de
primeira pessoa) porta relevantes diferenças em relação às descrições teóricas derivadas de
métodos de terceira pessoa. Daí se coloca a importância para os estudos em cognição de levar
em conta aquilo que o sujeito pode comunicar para si mesmo, através de uma atenção a si,
sobre a sua experiência ou os seus estados mentais. Vejamos.
3.2. O problema da experiência e seus desafios metodológicos atuais
Na psicologia cognitiva a estratégia de pesquisa é comportamental (estímulo-resposta).
Entretanto, não se deve confundi-la com o comportamentalismo. Enquanto o
comportamentalista foca nas relações funcionais entre estímulo e resposta, o cognitivista foca
nas propriedades estruturais dessa relação. Segundo Catania (1999), comportamentalistas e
cognitivistas estão interessados em diferentes tipos de questões: os comportamentalistas se
preocupam com questões funcionais, estudando as conseqüências de relações particulares
entre os eventos ambientais específicos e as ações específicas, ou seja, as relações funcionais
entre o comportamento e suas conseqüências. Essas relações podem ser expressas na
linguagem comportamental de estímulos e respostas. Por outro lado, os cognitivistas focam
nas questões estruturais, estudando as propriedades do comportamento e do ambiente. Para
isso, o psicólogo cognitivista se preocupa não tanto com a análise das interações entre os
estímulos e as respostas, através da programação de ambientes, quanto com a análise das
73
diferentes propriedades dos estímulos ou entradas (inputs) sensoriais. Essas propriedades são
expressas na linguagem cognitiva de conhecimento e mente. Temos, assim, duas maneiras de
se estudar o comportamento: enquanto os comportamentalistas analisam as interações entre os
estímulos e as respostas, os cognitivistas analisam as formas de organização e as propriedades
das entradas sensoriais. Em ambas, as performances comportamentais são a base fenomênica
do objeto de suas pesquisas. Para o comportamentalista o comportamento é tanto o dado
quanto o objeto de suas pesquisas; para o cognitivista, o comportamento é o dado que nos
indica o efetivo objeto da psicologia, a saber, o processamento cognitivo. Neste caso, o dado é
índice do objeto da psicologia: a cognição.
Segundo Anthony Jack e Andreas Roepstorff (2002a), um pressuposto básico das
investigações em neurociência cognitiva é que o padrão de atividade cerebral depende de
quais processos cognitivos são ativados. A investigação é feita pelo experimentador buscando
controlar essa ativação, através do controle das condições experimentais. Ele apresenta ao
sujeito uma tarefa padrão, fornece instruções claras para explicar o contexto da tarefa e definir
as metas para o sujeito. O pesquisador também varia as instruções (script) e/ou o estímulo
apresentado, visando isolar processos cognitivos particulares, de modo a relacioná-los às
mudanças observadas nas propriedades da atividade cerebral e/ou da resposta comportamental
(normalmente definida em termos de freqüência de reposta e padrão de acerto e erro).
Nas pesquisas de psicologia cognitiva a própria tarefa pré-determina a relação entre o
estímulo e a resposta, enquanto o psicólogo varia as propriedades críticas do estímulo (através
da organização de sua apresentação variável independente manipulada) e as correlaciona
com as propriedades da resposta (CATANIA, 1999; KANTOWITZ, ROEDIGER III E
ELMES, 2006; BEST, 1995; ANDERSON, 2000). As propriedades do processamento
cognitivo são então inferidas a partir de tais correlações. O processamento cognitivo é
74
condicionado, ao mesmo tempo, pelas propriedades estruturais do meio e pelas relações
funcionais definidas da tarefa. A atividade cognitiva, inferida e modelizada na teoria que está
sendo testada, é fundamentada em algo que lhe antecede (condições a priori). Sendo assim, o
processamento cognitivo é concebido como uma realidade pré-determinada a ser representada
pelo cientista através do experimento
10
.
Por exemplo, num experimento sobre reconhecimento de padrões propõe-se ao
participante tentar detectar um estímulo alvo em meio a estímulos distratores, como um T em
meio a Is e Ys (ANDERSON, 2000; BEST, 1996; MIALET, 1999; CAMUS, 1996). Essa
organização dos estímulos é a variável independente manipulada. Os sujeitos podem realizar
facilmente a tarefa, simplesmente reconhecendo a característica da barra horizontal do T que
o distingue dos Is e Ys. Os sujeitos levam 400 ms para tomar a decisão neste caso (variável
dependente). Porém, se lhes for solicitado para encontrar o T em meio a um conjunto de Is e
Zs eles não podem usar somente a barra vertical ou horizontal do T, eles precisam procurar a
conjunção dessas características para obter a combinação requerida para o reconhecimento do
T. Nesse caso eles levam mais de 800 ms para tomar a decisão. O primeiro caso é mais rápido
porque o reconhecimento de um único padrão é processado de forma automática e paralela
(abarca todo o quadro de estímulos simultaneamente), ao passo que a conjunção de
características necessárias para o reconhecimento do T não é automatizado e demanda uma
atenção focada a áreas específicas do quadro perscrutando em série os estímulos e suas
características (barras verticais e horizontais) até o reconhecimento do T. Esse padrão do
10
Além do experimento, as ciências cognitivas também podem usar a simulação computacional para testar suas
teorias. Neste caso, é realizado um programa de computador que pretende simular (modelizar) a estrutura do
processamento cognitivo.
75
processamento cognitivo, envolvendo ou não atenção, é que é modelizado e testado pelo
experimento
11
.
Esta estratégia representacional de investigação depende de duas condições, de acordo
com Jack e Roepstorff (2002a). Primeiro, as variações nas instruções e no estímulo devem ter
um efeito consistente sobre os processos cognitivos, em relação ao mesmo sujeito e entre
sujeitos diferentes. Segundo Jack e Roepstorff (2003) uma pesquisa é consistente quando seus
resultados não são determinados ou influenciados pelas características específicas das técnicas
de medição, de forma que tais resultados não sejam frutos de artefatos metodológicos. Ou
seja, quando ela assegura de forma adequada a separação sujeito-objeto. Segunda condição, o
experimentador deve corretamente identificar os processos cognitivos eliciados pela tarefa.
Quando os processos cognitivos sob investigação estão intimamente relacionados ao estímulo
apresentado, estas condições são relativamente fáceis de encontrar. Ou seja, quando eles são
facilmente determinados pelas propriedades do estímulo e do dispositivo experimental.
Entretanto, para Jack e Roepstorrf (2002a), não é isso que se passa quando se trata de
processos cognitivos superiores (processos executivos, ligados ao lobo frontal), como
memória de trabalho, resolução de problemas e planejamento, e processos atencionais. A
ativação de tais processos é dependente das metas e estratégias adotadas pelo sujeito, isto é,
de como o sujeito realiza (acts out) as instruções (script) fornecidas pelo pesquisador, o que é
altamente dependente de variações nas instruções e no contexto da tarefa. Ainda de acordo
com Jack e Roepstorff, todo pesquisador sabe que os sujeitos nem sempre seguem as
instruções dadas, que elas podem ser facilmente mal compreendidas, sobrecodificadas por
concepções prévias, alteradas ou simplesmente recusadas. Nada disso é visível no
comportamento ou imagem cerebral observados.
11
Voltaremos no próximo capítulo a essa distinção entre processos automáticos e processos que envolvem
atenção, chamados processos controlados.
76
Esse problema colocado por Jack e Roepstorff reporta, a nosso ver, a crítica feita pela
teoria da enação ao modelo representacional da atividade cognitiva, que discutimos no
capítulo anterior. A estratégia de pesquisa estímulo-resposta, ou input-output, pressupõe que o
comportamento é plenamente determinado por uma realidade (fundamento) independente, que
será representada pelo cientista cognitivo. As duas condições para o sucesso do experimento
em cognição citadas acima a consistência na relação estímulo-resposta e a correta
identificação dos processos cognitivos eliciados pela tarefa dependem desse caráter
representacional da cognição. Contudo, o que a teoria da enação mostra é que percepção e
ação formam uma circularidade genética. É essa corporificação, e não algum mundo
independente, que especifica o modo como o observador pode agir e ser modulado pelos
eventos ambientais. Essa corporificação exprime uma perspectiva, em relação a qual a
atividade interpretativa da cognição se fará. Ou seja, o sujeito não entra em relação
“objetivamente” com seu meio, mas sempre dependente de sua incorporação (e experiência).
As questões postas por Jack e Roepstorff a respeito do posicionamento do sujeito diante do
experimento, as estratégias que ele adota para resolver a tarefa, sua compreensão das
instruções, remetem ao modo como ele corporifica aquela situação. O que isso nos leva a
problematizar é que a cognição não pode ser reduzida a estruturas universais, presentes em
“qualquer um”, e que são acionadas da mesma forma numa mesma situação experimental. A
cognição possui uma dimensão de autonomia irredutível, cuja emergência é sempre situada e
concreta.
Quando o comportamento, base fenomênica das pesquisas da psicologia cognitiva, se
torna dado tempo de reação e número de acerto e erro e é inserido em curvas estatísticas,
ele é abstraído de atores específicos, de uma situação especifica. Em suma, ele é abstraído de
sua concretude para se tornar índice de uma estrutura geral e formal. Neste caso, o processo
77
da pesquisa é separado dos dados que ele gera, e da realidade cognitiva que lhe cabe
representar. Assim, dizemos que a abordagem representacional visa uma cognição
desencarnada, que é de todos e para todos e portanto é de ninguém. Por outro lado, a
abordagem enativa visa uma cognição encarnada, que é sempre de alguém singular e
concreto, e, cuja autonomia, coloca o problema do consentimento para a situação de pesquisa.
Essa corporificação implica a questão da auto-organização e abertura temporal da
cognição. Por exemplo, Lutz e Thompson afirmam que mesmo durante experimentos
cognitivos bem calibrados as respostas cerebrais sucessivas às repetições de estimulações
idênticas são altamente variáveis
12
(LUTZ E THOMPSON, 2003; LUTZ ET AL, 2002). Esta
variabilidade é tratada como um ruído ininteligível, e por isso descartada a partir de técnicas
(averaging techniques) que tiram a média das respostas do eletroencefalograma (EEG). Assim
como Jack e Roepstorff, Lutz et al (2002) afirmam que a maioria dos estudos em
imageamento cerebral impõe um protocolo experimental estrito para tentar limitar
(externamente) a cadeia de processos cognitivos sob investigação. Um bom isolamento desses
processos é necessário para que os dados neurais possam lhe ser relacionados. Contudo,
segundo Lutz et al (2002) mesmo protocolos muito precisos não limitam completamente a
atividade cerebral, ela ainda é sujeita à variação. Essa variação é entendida como sendo
relativa a flutuações do contexto subjetivo, definidas pelo estado atencional do sujeito, estado
emocional, pensamentos espontâneos, ou estratégias que ele utiliza para realizar a tarefa
(LUTZ E THOMPSON, 2003; LUTZ ET AL, 2002).
12
Encontramos questão semelhante nos resultado de uma pesquisa sobre percepção olfativa em coelhos feita por
Freemam (apud PASSOS, 1994). Freemam treinou o coelho a responder a dois estímulos específicos: banana e
serragem, enquanto seu bulbo olfativo era mapeado pelos registros do eletroencefalograma. Se em um tempo T1
é apresentado o odor de banana, verifica-se o registro R1 do bulbo olfativo; em um tempo T2 o odor de serragem
altera o padrão anterior, criando uma nova forma tendencial; se no tempo T3 volta-se a apresentar o odor de
banana, apesar do animal demonstrar reconhecer o estímulo, o registro que se obtém do bulbo é diferente de R1.
78
Jack e Roepstorrf (2002a; 2004) chamam a atenção para a participação do sujeito no
experimento como “agente consciente”, que possui uma compreensão e experiência da tarefa,
e, sem a qual, nem mesmo dados objetivos válidos podem ser obtidos. Eles afirmam que o
objeto das ciências cognitivas possui duas propriedades distintas em relação às demais
ciências: ele é consciente e é possível se comunicar com ele. Essas propriedades são
importantes na preparação (set up) do sujeito para o experimento. “Quando dão instruções,
pesquisadores tratam os sujeitos como „agentes conscientes responsáveis‟ capazes de
compreender e realizar o „papel‟ planejado” (JACK E ROEPSTORRF, 2002a: 335). E adiante
completam: “Primeiro, torna-se crítico que os sujeitos têm atuado (enacted) suas partes
também, e segundo, torna-se muito difícil compreender exatamente o que esse papel implica,
e assim realizar uma acurada análise da tarefa” (JACK E ROEPSTORFF, 2002a: 335).
Jack e Roepstorrf (2004) citam um experimento de cegueira atencional (inattentional
blindness) no qual se apresenta um pequeno deo onde seis pessoas, três brancos e três
negros, jogam duas bolas de basket. A instrução dada ao público que assiste ao vídeo é para
contar o número de passes feitos pelos jogadores brancos. Ao final do filme o apresentador
pergunta à platéia se eles viram alguma coisa estranha durante o filme; ao que normalmente
eles respondem que não. O filme é reiniciado, mas desta vez a platéia é instruída a buscar
alguma coisa estranha no filme. Eis então que o público surpreso, rindo, percebe alguém
vestido de gorila que entra na cena dos garotos jogando, confronta o espectador, bate no peito,
e sai fora novamente.
A questão posta por Jack e Roepstorff (2004) é que esse experimento aparentemente
envolve uma dissociação entre experiência e realidade, na medida em que a experiência
daqueles que relatam não terem visto o gorila parece não confiável, infiel à realidade. Mas
essa desconfiança em relação ao relato, segundo eles, se justifica de uma distante
79
perspectiva de terceira pessoa, que negligencia a experiência daqueles que não viram o gorila
na primeira vez. Do ponto de vista da experiência, a situação dessa platéia é a mesma dos
estudantes de Rosenthal que acreditavam em seus ratos. Eles sentem e agem como se não
houvesse nada estranho no filme. Numa variação desse mesmo experimento o sujeito não
compreendeu muito bem as instruções dadas pelo pesquisador, pois a língua deste não era a
sua língua nativa e ele falara muito rápido. Sendo assim, o sujeito não manteve a idéia de
contar o número de passes e falhou na tarefa. Contudo, ele claramente viu o gorila na primeira
vez.
A experiência que o sujeito possui da tarefa determina como ele consente para a sua
realização. Os participantes cooperam com os cientistas e confiam neles. É preciso confiança
para se submeter a situações as mais artificiais, responder a questões sem interesse para eles, e
às vezes, absurdas e extravagantes (DESPRET, 2004a). Despret afirma que algumas pesquisas
mostram que os sujeitos desconfiam que os pesquisadores estão lhes escondendo alguma
coisa. A suspeita do pesquisador em relação ao participante, nas precauções que ele toma ao
lhe passar as instruções (muitas vezes utilizando engodos), retorna na forma de desconfiança
por parte do participante. Mas, como este ao mesmo tempo confia no cientista e lhe
crédito, eles deixam suas dúvidas nas “franjas da consciência”, afirma Despret.
Varela e Shear (1999) apontam para a relação entre experiência e usuário (user) da
própria cognição. Segundo eles, a experiência subjetiva está ligada ao usuário da própria
cognição, das intenções e ações na prática do dia a dia. O sujeito sabe que seus movimentos
são o produto de ries coordenadas de contrações musculares. Entretanto, a atividade de
mover minhas mãos opera na escala emergente dos planos motores que aparecem para mim
como intenções motoras, como um ativo agente-usuário, não como tônus muscular, que pode
ser visto apenas de uma posição de terceira pessoa. Essa noção do usuário da própria cognição
80
se aproxima da noção posta por Vermersch (1999) de uso próprio que o sujeito faz de sua
cognição.
Esta noção surge para Vermersch na medida em que ele percebe que o funcionamento
cognitivo apreendido no nível fenomenal, isto é, na vivência de um sujeito concreto
(perspectiva de primeira pessoa), porta relevantes diferenças em relação às descrições teóricas
derivadas de métodos de terceira pessoa
13
“Se eu comparo aquilo que eu sei como fazer em
minha cabeça para produzir para mim mesmo uma imagem mental de um objeto com a
montanha de conhecimento sobre mecanismo e leis de imagens mentais, a diferença é
considerável” (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003: 164). Vermersch levanta
questões do tipo: “Como eu forneço uma imagem para mim mesmo? Como eu organizo a
informação em minha representação? Quais são os meus critérios para o reconhecimento de
uma identidade?” (VERMERSCH, 1999:29). Ele afirma que uma grande quantidade de
pesquisas em terceira pessoa é encontrada relativamente a todos esses pontos, mas aquilo ao
qual alguém pode ter acesso através da descrição da experiência subjetiva revela que uma
disjunção entre o que o sujeito faz com sua cognição de forma prática e as leis mais profundas
que objetivam as propriedades da prática.
Esse uso próprio que o sujeito faz de sua cognição é sempre em ato (VERMERSCH,
1994, 1997, 2004). Ele é largamente pré-refletido. A ação é concomitantemente transparente e
opaca para aquele que a vive, isto é, ela lhe é familiar (trata-se de um conhecimento em ato,
“conhecimento à mão”) e ao mesmo tempo desconhecida (enquanto um saber discursivo,
13
Para Vermersch (1997) pontos de vista de terceira e primeira pessoa coincidem na prática científica à
diferença entre experimentar (expérimenter) e experienciar (expériencier) respectivamente. Na experimentação o
pesquisador constrói um dispositivo experimental, ele é experimentador, ele conduz experimentos, ele é ausente
de seu dispositivo enquanto pessoa (essa é geralmente a sua crença). Já experienciar é quando o sujeito porta a
sua atenção sobre o vivido, sobre a experiência subjetiva, sobre isso a que o sujeito pode acessar de sua
experiência no momento presente em que ele experimenta ou a posteriori (retrospectivamente). Segundo
Vermersch (1997) essa distinção não se assenta sobre o tipo de objeto de pesquisa, mas sobre o tipo de visada ou
de metodologia empregada pelo pesquisador (tendo em vista que o tipo de metodologia circunscreve o tipo de
objeto de pesquisa que se pode obter).
81
conceitualizado). Nesse sentido trata-se de uma consciência direta que temos de nossas ações.
Por exemplo, quando teclo no computador, tenho consciência direta (em ato) que toco nas
teclas, mas eu não atento a como vou em direção às teclas, quais dedos tocam, como eles se
deslocam. Não se trata de um “eu” deliberando e controlando (conscientemente) a ação.
A nosso ver, trata-se de uma emergência situada, relativa à prontidão à ação descrita por
Varela. Este é um conhecimento pré-refletido, que demanda técnicas para que o sujeito possa
falar dele. É isso que Vermersch (1994) proporá com a técnica de entrevista de explicitação.
Essa técnica, como discutiremos no próximo capítulo, busca questionar em detalhes o sujeito
sem induzir o conteúdo das respostas. Seu objetivo é obter a verbalização da ação, no sentido
da descrição do desenrolar concreto e vivido da ação que realiza uma tarefa real. Para
Vermersch, a descrição do desenrolar concreto e vivido da ação que realiza uma tarefa pode
nos mostrar os raciocínios efetivamente operados na realização da tarefa (diferentes desses
adotados fora da situação de engajamento na ação), identificar os alvos realmente perseguidos
(frequentemente diferentes desses que a gente crê perseguir), nos mostrar os saberes teóricos
efetivamente utilizados na prática (frequentemente diferentes desses trabalhados em cursos),
pode localizar as representações ou pré-concepções que são fontes de dificuldades. Essas
diferenças no funcionamento cognitivo apreendidas nesse nível fenomenal apontam para o
que se considera uma dimensão subjetiva da cognição. Pensamos que ela remete a maneira
como o sujeito (autonomamente) corporifica uma determinada situação.
Assim como Vermersch propõe a entrevista de explicitação para investigar essa
dimensão subjetiva, pesquisadores como Varela (1996a), Lutz e Thompson (2003;
THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005; LUTZ ET AL, 2002), desenvolvem o projeto de
Varela chamado Neurofenomenologia. Eles defendem que se faça uma investigação
sistemática desse contexto subjetivo, de forma que tais dados qualitativos possam lançar luz
82
sobre as medidas quantitativas da atividade neural. Ao invés de se descartar a variabilidade
dos dados neurais, é preciso aprofundar as mudanças da experiência subjetiva para que se
uma melhor inteligibilidade àqueles dados. Voltaremos adiante à Neurofenomenologia.
Também para Jack e Roepstorrf (2002a), a experiência deve ser levada em conta no
momento da análise da tarefa, sobretudo no caso dos processos superiores. Eles citam a
dificuldade encontrada pelos pesquisadores em diferenciar os processos superiores com base
apenas nos dados sobre as áreas ativadas do córtex pré-frontal (os processos envolveriam as
mesmas áreas) e do comportamento observado. Essa prática comum dos psicólogos
cognitivos de identificar os processos com referência no padrão do comportamento e/ou da
área cerebral ativada é questionada, pois, segundo eles, o problema dessa estratégia é que ela
leva a uma generalização com base no desempenho “Eles assumem que tarefas similares
devem evocar processos similares, quando este não é frequentemente o caso” (JACK E
ROEPSTORFF, 2003: xv).
Como dissemos, a nosso ver, a maneira como o sujeito se porta na tarefa depende da
atividade enativa, do concreto, da sua incorporação. O fato de tratar-se antes de incorporação
que de representação é um ponto importante que não é enfatizado por Jack e Roepstorff.
Trata-se aqui de partir da experiência para chegar aos processos cognitivos. Quando o
pesquisador parte do padrão de dados comportamentais e neuronais para inferir os processos
cognitivos, tomando tais dados como testemunho de uma realidade objetiva, eles não põem
em questão a gênese de tais dados na experiência, na enação de si e do mundo. A própria
formulação e análise dos experimentos depende de forma significativa da experiência dos
próprios pesquisadores a respeito da tarefa proposta (JACK E ROEPSTORFF, 2003)
14
.
14
Uma bactéria nadando num gradiente de açúcar é convenientemente analisada em termos dos efeitos locais do
açúcar sobre a permeabilidade da membrana, da viscosidade do meio, da hidromecânica das batidas do flagelo,
etc. Mas, como afirma Varela (1997), o gradiente de açúcar e as batidas do flagelo são interessantes de serem
analisadas apenas porque a bactéria como unidade aponta para tais itens como relevantes. O significado
83
Jack e Roepstorff (2002a, 2003, 2004) defendem a ampliação da abordagem padrão das
ciências cognitivas de modo a incluir a experiência do sujeito que realiza a tarefa, pois a
abordagem estímulo-resposta evita tal questão, focando apenas nas medidas objetivas
(comportamentais e neurais). Para eles essa ampliação pressupõe duas extensões (JACK E
ROEPSTORFF, 2004). Primeiro, o reconhecimento da existência de experiências humanas
particulares, o que requer a inclusão de uma perspectiva de primeira pessoa, isto é, de uma
metodologia pela qual o sujeito volte a sua atenção para a própria experiência e a descreva.
Segundo, o reconhecimento da habilidade humana de trocar experiências um com o outro e da
influência que essa troca tem no próprio conteúdo da experiência, ao propiciar contexto,
explicação, compreensão e confusão, ou seja, é preciso incluir uma perspectiva de segunda
pessoa. A relação que o pesquisador estabelece com o sujeito experimental, preparando-o para
a tarefa ao fornecer-lhe as instruções, deve ser continuada ao final do experimento através da
obtenção de relatos sobre a experiência do sujeito acerca da tarefa realizada. Esse relato é
sempre retrospectivo, trata-se de uma retomada da experiência da tarefa realizada. Jack e
Roepstorff (2002a, 2004) propõem uma ampliação da abordagem estímulo-resposta para
incorporar a abordagem instrução-relato (script-report).
Roepstorff e Frith (2004) afirmam que o principal propósito das instruções num
experimento é permitir o rápido estabelecimento pelo participante de um modelo consistente
de como ele deve responder e interpretar as situações. Modelo este que ele compartilha com o
experimentador uma vez que essa comunicação é feita com sucesso, participante e
específico de tais itens como componentes do comportamento alimentar só é possível pela presença e perspectiva
estabelecida pela bactéria como uma totalidade. Se removermos a bactéria como unidade, todas as correlações
entre gradientes e propriedades hidrodinâmicas tornam-se leis químicas do meio, evidentes para nós como
observadores, mas destituídas de qualquer significado especial; eles deixam de fazer parte de um domínio
cognitivo. A observação de um fenômeno cognitivo é inseparável da emergência de uma unidade cognoscente.
Ou seja, é sempre a partir da enação de um si e de um mundo que o cientista sabe o que procurar como
componentes ou propriedades de um fenômeno cognitivo. Catania (1999) afirma que não teríamos o que
procurar no cérebro se não fosse o estudo do comportamento. “De fato, não podemos ter uma adequada
neurociência da aprendizagem, a menos que compreendamos suas propriedades comportamentais” (1999: 23). E
mesmo sem a experiência não teríamos o que procurar no comportamento.
84
experimentador compartilham representações sobre a natureza da tarefa” (ROEPSTORFF E
FRITH, 2004: 192). Comparando com a situação de Hans e seus interrogadores, o
pesquisador através das instruções convida o participante para o jogo. Isso faz da performance
da tarefa uma empreitada conjunta, mas que é raramente descrita como tal na literatura
cognitiva. Em outro trecho, Roepstorff e Frith afirmam o caráter social da cognição operada
nos experimentos: “Isto implica que pode ser difícil separar cognição social‟ de „cognição
não social‟ (nonsocial cognition) desde que um tanto da atenção e da cognição humana é
direcionada e informada por outras pessoas e, o experimento cognitivo é apenas um
interessante caso especial desta condição geral” (ROEPSTORFF E FRITH, 2004: 197). Eles
enfatizam o papel do experimentador nessa dimensão social da pesquisa, chegando a afirmar
que é ele que está no controle, pois ele determina através das instruções o que o participante
fará “Freqüentemente é o experimentador que está no comando (top), no sentido de que é
ele quem determina o que o participante fará” (ROEPSTORFF E FRITH, 2004: 193).
Por sua vez, o pesquisador seria controlado pela comunidade científica, pelos pares que
provêm o conhecimento de seu campo. No entanto, essa ênfase de Roepstorff e Frith (2004)
no papel do experimentador na determinação da conduta do participante no experimento
aponta, a nosso ver, para a noção de transmissão das instruções como transmissão de
informações. Essa ênfase também aponta para um controle do participante pelo pesquisador.
ressaltamos no capítulo anterior a crítica da teoria da enação à noção de meio como
informação (input). As instruções são interpretadas pelo participante a partir de uma atividade
enativa (autônoma). E, sendo assim, o papel do experimentador também depende do
participante. No sentido de que depende de como o participante coloca (e responde) perguntas
do tipo: “o que ele quer que eu faça?”, ou “qual é a coisa apropriada a ser feita nessa
situação?”. O participante também nascimento ao outro como experimentador (co-
85
emergência). Tendo em conta esse caráter da co-dependência entre participante e
experimentador, poderia ser colocado o problema do talento do experimentador ao passar as
instruções. De qualquer modo, mesmo para Jack e Roepstorff, essa compreensão do
participante não é tão previsível e controlável. Do contrário, não haveria necessidade de
incluir no dispositivo experimental uma entrevista para que o participante relatasse sua
experiência acerca da tarefa.
Jack e Roepstorff, (2002a) propõem a continuação da relação pesquisador-sujeito,
através de uma entrevista retrospectiva pós-experimento, é assim que eles definem a inclusão
da abordagem instrução-relato. Esta entrevista é uma oportunidade para que o sujeito descreva
as experiências que ele teve ao realizar a tarefa, e o papel que ele de fato atuou. Ela fornece
observações adicionais sobre a natureza da tarefa, pelo menos parcialmente independentes da
perspectiva do pesquisador, enriquecendo assim a compreensão do pesquisador sobre como é
realizar a tarefa (what it is like to do the task)
15
, revelando importantes e inesperados
fenômenos cognitivos e experienciais.
Essa ampliação da abordagem estímulo-resposta para incorporar a relação interpessoal
implica, a nosso ver, uma verdadeira expansão da relação cognitiva, que passa de uma simples
relação sujeito-objeto para incorporar a relação sujeito-sujeito nos estudos da cognição. Como
dizem Jack e Roepstorff, quando o pesquisador do experimento de cegueira atencional “pediu
a audiência para esperar a bola ele não comunicou com as áreas visuais terciárias e
secundárias de seus cérebros; ele falou com pessoas concretas, equipadas com experiências e
competências particulares” (JACK E ROEPSTORFF, 2004: xvii).
No domínio da psiquiatria, por exemplo, tem se colocado esse problema da experiência
e a necessidade de se ampliar a abordagem do fenômeno. Otávio Serpa (2006) estabelece uma
15
Jack e Roepstorff estão aqui fazendo referência ao trabalho de Thomas Nagel: what it is like to be a bat”.
86
distinção entre psicopatologia de primeira e segunda pessoa e psicopatologia de terceira
pessoa (ver também ANDREASEN, 2006). De acordo com Serpa, a psicopatologia de terceira
pessoa é marcada por uma postura cognitiva representacionista e objetivista. Essa postura
cognitiva toma os elementos da clínica, sejam os sintomas ou categorias diagnósticas, como
espécies naturais, no sentido de isentos de qualquer determinação histórica ou contextual. Ela
toma então os sintomas em sua pura exterioridade e objetividade, desinteressando-se por
qualquer dimensão experiencial. a psicopatologia de primeira e segunda pessoa, segundo
Serpa, não lida com sintomas hierarquizados operacionalmente de forma objetiva, mas com
fenômenos. Os sintomas remetem a algum tipo de disfunção médica. os fenômenos
exprimem uma forma experiencial particular do paciente, expressão de um tipo de relação
consigo, com a alteridade e com o mundo, afirma Serpa. “A consistência experiencial do
pathos, a subjetividade do vivido, são os elementos clínicos fundamentais” (SERPA, 2006:
113).
Jack e Roepstorff (2003) ressaltam a importância para a ciência compreender os efeitos
das práticas de intervenção comportamentais e farmacológicas no nível da experiência. Essa
compreensão demonstraria a importância do uso de metodologias de primeira pessoa por
essas práticas de intervenção. Eles questionam como nós podemos esperar alcançar
verdadeiro consentimento das pessoas que sofrem tais intervenções, a menos que nós
possamos lhes explicar seus efeitos no nível pessoal. Esse nível, segundo eles, é aquele no
qual nós compreendemos as coisas nos nossos próprios termos, mais do que em uma remota
perspectiva de terceira pessoa. Para Jack e Roepstorff parece inadequado explicar apenas as
conseqüências neurais e comportamentais de tais intervenções na função cerebral. Se nós
perseguimos uma verdadeira direção ética, nós precisaremos claramente fazer o melhor para
explicar para os pacientes como essas intervenções podem alterar seu conceito de self como
87
elas podem alterar o modo como eles experienciam a sua vida cotidiana” (JACK E
ROEPSTORFF, 2003: xx). A nosso ver, mais do que uma questão de explicação, trata-se de
ter em conta os efeitos constitutivos de si de tais práticas. O verdadeiro consentimento das
pessoas que sofrem essas intervenções dependerá de como elas são corporificadas
(experienciadas), de modo que o sujeito surja com elas.
Mas, a abordagem de Jack e Roepstorff não põe em questão os efeitos constitutivos de si
e de mundo da experiência. A nosso ver, eles não colocam o problema da experiência na base
da atividade cognitiva, como é o caso na abordagem enativa. Quando Jack e Roepstorff
afirmam que os dados oriundos da investigação da experiência podem ajudar na diferenciação
dos processos superiores, ao invés de generalizá-los com base no desempenho, a experiência
para eles é apenas mais um dado a ser levado em conta na análise da tarefa. Como veremos no
próximo capítulo, essa concepção da experiência os leva a definirem a atenção a si como uma
questão representacional. Por exemplo, eles colocam o problema da validade da introspecção
como um problema de conteúdo ao qual tal método dá evidência.
Jack e Roepstorrf (2003), afirmam que uma diferença na validade entre os relatos
introspectivos e os dados objetivos de terceira pessoa. A validade é a mais importante e a mais
controversa questão nas ciências cognitivas, eles afirmam. Ela se define, segundo eles, pelo
fato da medida refletir acuradamente aquilo que ela pretende medir. A questão que eles
colocam é que os relatos introspectivos, as medidas neurais e comportamentais, fornecem
evidência para fenômenos diferentes, possuem validade para fenômenos diferentes. De acordo
com Jack e Roepstorrf, os dados da imagem de ressonância magnética funcional servem mais
diretamente como evidência do fluxo sanguíneo no cérebro, menos diretamente como
evidência da atividade neural e menos ainda como meio de identificação e localização de
funções cognitivas específicas. Já as medidas comportamentais (como tempo de reação e
88
número de acerto ou erro) servem mais diretamente como evidência para os padrões estáveis
de comportamento, menos diretamente como meio de avaliar o processamento de informação,
e menos ainda como meio de estabelecer a existência e operação de funções cognitivas
específicas. Os relatos introspectivos servem mais diretamente como evidência sobre as
crenças que o sujeito tem acerca de sua própria experiência, menos diretamente como
evidência sobre a existência do fenômeno experiencial, e menos ainda como evidência sobre a
operação de funções cognitivas específicas.
Dessa forma, o método introspectivo e os métodos de terceira pessoa possuem validade
diferente, eles dão evidência para fenômenos diferentes, e por isso é problemático utilizar
resultados de pesquisas baseadas na performance comportamental sobre o processamento de
informação para validar resultados de pesquisa introspectiva sobre a experiência, e vice versa,
questionam Jack e Roepstorff (2003). Para eles há uma separação ou gap entre experiência e
estrutura/processo cognitivo. Desse modo, também encontramos essa divisão na colocação do
hard problem das ciências cognitivas por David Chalmers. Em meados dos anos noventa,
Chalmers (2004) define que o desafio do projeto de construção de uma ciência da consciência
é investigar a relação entre os problemas “fáceis” e “difíceis” da consciência. O problema
“fácil” da consciência (fácil porque é mais bem conhecido ou explicado), se refere aos
mecanismos funcionais objetivos da mente (cerebral na verdade) que lhe permitem
discriminar estímulos, integrar informações, produzir relatos verbais e controlar o
comportamento. o problema “difícil” se refere à experiência subjetiva, ao modo como as
coisas são percebidas pelo indivíduo, como elas lhe aparecem, se refere à dimensão
qualitativa da experiência associada aos fenômenos cognitivos. Chalmers afirma a
irredutibilidade da experiência aos dados de terceira pessoa e por isso para ele a integração
desses diferentes dados depende da construção de um outro modelo explicativo. Este deve
89
integrá-los através de sistemáticos bridgin principles que fundamentem e expliquem a
covariação entre os dados de terceira pessoa e os dados de primeira pessoa.
Chalmers (2004) parte da separação entre as dimensões estruturais e objetivas da
cognição e sua dimensão qualitativa e vívida, assim surge todo o problema de como colocá-
las em relação. Para Chalmers a experiência consciente permanece um “mistério” ou uma
questão “difícil” na medida em que fatos nela que não podem ser deduzidos dos fatos
físicos relativos ao funcionamento do cérebro, e nesse sentido lhe resta perguntar: “por que
a realização dessas funções é acompanhada pela experiência consciente?” (CHALMERS,
2004: 45). Mas a abordagem enativa não parte da separação, pelo contrário, ele parte da união
entre essas dimensões para observar a causalidade circular ou co-emergência entre elas.
Varela nos um belo exemplo quando, dialogando com a prática de meditação budista
presença plena/consciência aberta, afirma que o dualismo cartesiano mente e corpo é mais a
colocação do problema do que a sua solução a reflexão é tida como estritamente mental, e
assim surge o problema de como ela pode estar ligada à vida corporal. Do ponto de vista das
tradições orientais a relação mente e corpo é uma questão de cultivo e experiência: “Quais são
as relações entre mente e corpo na experiência real (aspecto da presença plena), e como essas
relações se desenvolvem, que formas podem assumir (aspecto da abertura)?” (VARELA,
THOMPSON E ROSCH, 1992). É a partir de uma experiência concreta qualquer que
podemos habitar a unidade mente e corpo, onde a pergunta “o que é a mente?” jamais se torna
desincorporada, abstrata. Nesse sentido, a investigação da circularidade entre cognição e
experiência nunca deixaria de ser, ao mesmo tempo, cognição e experiência, estrutura e
qualidade. Para Thompson (2004), essa unidade mente e corpo na obra de Varela se encontra
desde a teoria da autopoiese, a qual afirma que o ser vivo é um ser cognitivo, isto é, um ser
produtor de sentido, que constitui mundo (e si) a partir do acoplamento estrutural com o meio.
90
A própria noção de acoplamento estrutural impede a redução das pesquisas em cognição à
abordagem estímulo-resposta, ao colocar o problema da produção de sentido e da experiência,
que é, portanto, inerente à atividade cognitiva. Por isso, Varela defende que uma abordagem
da cognição, tendo em vista sua dimensão de produção de si e de mundo, requer que se inclua
a investigação sistemática da experiência (VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992).
A proposta da Neurofenomenologia não parte de uma separação entre mente consciente
e mente estrutural. Este é o problema da concepção de Chalmers sobre o hard problem.
Francisco Varela (1996a) formula a Neurofenomenologia como uma solução metodológica
para o hard problem das ciências cognitivas formulado por Chalmers. Contudo, Chalmers não
chega a postular a necessidade de se apreender a experiência através de um método específico
de exploração. Diferentemente, a proposta da Neurofenomenologia afirma que a experiência
precisa ser levada em conta pelas ciências cognitivas a partir de um todo específico de
exploração (VARELA, 1996a). a abordagem sistemática da experiência de um evento
cognitivo pode fornecer categorias experienciais capazes de serem postas em relação, ou em
circulação, com as categorias neurocientíficas e comportamentais. Esta é a hipótese de
trabalho da Neurofenomenologia: iluminação recíproca ou constrangimentos mútuos entre as
descrições neurodinâmicas e aquelas relativas à experiência. A idéia dessa iluminação
recíproca é que uma boa investigação da experiência orienta uma boa pesquisa cerebral, e esta
por sua vez, nos põe boas questões para a investigação da experiência. Varela (1996a;
VARELA, THOMPSON E ROSCH, 1992) cita como exemplos dessa abordagem disciplinada
da experiência o método de redução fenomenológica proposta por Husserl e a prática de
meditação budista, tradições com as quais o diálogo seria muito proveitoso para as ciências
cognitivas. Um exemplo de “iluminação recíproca” foi feito por Varela no seu primeiro livro
em que ele buscou articular cognição e experiência Embodied Mind. Ali ele mostrava a
91
convergência entre o conhecimento da experiência oriundo da meditação budista e o
conhecimento das ciências cognitivas a respeito da fragmentação do “eu” (self), e entre o
budismo e a abordagem enativa sobre a relação não dual entre sujeito e mundo (VARELA,
THOMPSON E ROSCH, 1992).
Lutz e Thompson (2003; THOMPSON, 2004) vêem nesse projeto da
Neurofenomenologia uma resposta não ao hard problem formulado por Chalmers, mas uma
resposta ao que eles chamam explanatory gap. O hard problem é um problema ontológico
para eles, ao passo que o explanatory gap é um problema epistemológico e metodológico. O
hard problem é um problema metafísico e abstrato sobre o lugar da consciência na natureza, a
pergunta que o define é como é possível derivar a experiência subjetiva da natureza física
objetiva. o explanatory gap é um problema epistemológico sobre como por em relação os
relatos de primeira pessoa acerca da experiência com os relatos estruturais neurocognitivos.
Segundo Lutz e Thompson (2003), a Neurofenomenologia não visa fechar o gap no sentido
de uma redução ontológica, sua proposta é transpor o gap num nível metodológico,
estabelecendo iluminação recíproca entre as descrições de primeira e terceira pessoa. Neste
caso, descrições assentadas na experiência podem colocar em questão descrições acerca dos
processos cognitivos oriundos de metodologias de terceira pessoa.
Por exemplo, num relato de pesquisa feita por Anders Ericsson (2003), buscou-se
correlacionar a acurácia da lembrança de uma figura com o relato sobre a vivacidade da
lembrança. Os resultados demonstraram que o relato da lembrança de um estímulo tão vívido
e claro como se ele estivesse visível não era correlato a uma lembrança mais acurada do que
naqueles que relataram uma lembrança difusa. Jack e Roepstorff (2003) destacam que para
Ericsson esse fato demonstra como a introspecção é frequentemente enganosa e inconsistente
em relação às medidas comportamentais, e por isso inválida. Ericsson põe em questão a
92
adequação do relato introspectivo, comparando-o com os dados objetivos de terceira pessoa.
Ao que Jack e Roepstorff fazem uma ressalva: é preciso abordar esse resultado de outra
forma. Ao invés de abordá-lo como se os relatos traduzissem o processamento de informação,
isto é, como se eles descrevessem a eficiência e a acurácia dos processos mnêmicos
subjacentes, os relatos devem ser vistos como dados sobre a experiência.
Jack e Roepstorff (2003) distinguem duas relações, a respeito desse experimento citado
por Ericsson: entre a acurácia da memória (processamento de informação) e a experiência de
vivacidade, e entre a experiência e o relato de vivacidade. Eles afirmam que é a primeira
relação que o experimento demonstra ser equivocada, não a segunda. Essa distinção é
importante. Os estudos sobre o fenômeno das falsas lembranças, no qual o sujeito tem uma
lembrança que, objetivamente, não corresponde ao que foi convencionado como tendo
acontecido, mostram que a falsa lembrança é diferente de perjúrio, pois o sujeito acredita no
que ele está falando, e é diferente de uma declaração falsa, trata-se de uma declaração
verdadeira a respeito da experiência do lembrar (REYNA E LLOYD, 1997). Ou seja, o sujeito
de fato lembra e sente que o evento lembrado aconteceu verdadeiramente, como a platéia no
experimento de cegueira atencional e os estudantes de Rosenthal.
A experiência de vivacidade exprime a atividade enativa (incorporação) por parte desse
sujeito. Na abordagem enativa a noção de cognição incorporada não opera uma divisão entre
experiência e estrutura/processo. É isso que garante a idéia de uma iluminação recíproca entre
dados de primeira e terceira pessoa. Se Jack e Roepstorff abordassem a questão da experiência
colocando em cena os seus efeitos constitutivos de si e de mundo, eles poriam em questão
mesmo a noção de acurácia da memória, sustentada por uma concepção representacional de
processamento de informação (EIRADO, PASSOS, VASCONCELOS, ET AL, 2006, 2008).
Mas, para isso seria preciso outro modo de abordar o problema da experiência, o qual como
93
na abordagem enativa a experiência na base da cognição, ligada ao modo como
corporificamos e representamos (no sentido fraco) uma situação. Neste caso, o problema da
atenção a si não é o de representar a experiência.
Ao problematizar o caráter representacional da cognição, a abordagem enativa põe em
questão a própria possibilidade de representar o objeto cognição. Os experimentos das
ciências cognitivas, ao tentarem produzir e reproduzir os dados comportamentais e neuronais,
visam cercar e delimitar a cognição, de modo a se poder teorizar e agir sobre ela. O problema
das pesquisas com o humano é que o pesquisador está em relação com um outro cuja
cognição é autônoma, e não pode ser completamente reduzida ou determinada por
fundamentos a priori; daí o problema da expansão da relação cognitiva: de uma relação
sujeito-objeto para uma relação sujeito-sujeito
16
. Ainda que as ciências cognitivas concebam o
seu objeto como plenamente determinado (o que prescindiria do problema do consentimento),
ela não pode abrir mão da autonomia do sujeito participante no momento do experimento, no
momento dele realizar as prescrições do protocolo. A pesquisa depende do consentimento do
participante, o que por sua vez, exprime a sua liberdade.
É desse modo que, a nosso ver, se coloca o problema da experiência para os estudos da
cognição. Falamos acima que a apreensão do funcionamento cognitivo a partir da experiência
de um sujeito concreto aponta relevantes diferenças em relação às descrições oriundas de
métodos de terceira pessoa. Pois, do ponto de vista da experiência, a cognição é corporificada,
concreta e singular, marcada por uma temporalidade intrínseca, trata-se de uma emergência
situada, sempre em ato. Eis o problema da generalização dos processos superiores com base
16
É interessante a este respeito a afirmação de Ferreira (2005; FERREIRA, SILVA, CARIJÓ, ET AL, 2006) de
que a Psicologia se situa num espaço político entre o indivíduo autônomo e soberano (fonte do poder) e o
indivíduo sob controle das disciplinas (alvo dos poderes), realizando o trânsito entre elas. Ele afirma que sem
essa ambigüidade moderna nem mesmo haveria Psicologia, pois, uma vez que o individuo fosse pensado
unicamente como autônomo, não poderíamos tomá-lo como objeto de estudo ele sempre escaparia a nossas
tentativas de cercá-lo, delimitá-lo, e de teorizar e agir sobre ele; por outro lado, se só houvesse determinações,
cairíamos em um fatalismo em que toda intervenção psicológica seria desnecessária.
94
no desempenho da tarefa, como se tarefas similares evocassem processos similares, como se
estes fossem representáveis, e pudessem ser completamente previstos e controlados.
A partir da abordagem enativa, pensamos que a questão da primeira pessoa nos estudos
da cognição testemunha a emergência de um eu cuja natureza é “vazia de si”. E que por isso,
no entanto, pode emergir nas diferentes situações de pesquisa como um eu auto-centrado que,
assim como o experimentador, adota uma posição de controle em relação a si e ao seu meio
ele deve responder corretamente ao protocolo de pesquisa, fazer adequadamente o que lhe é
pedido. Ou, ele pode emergir como os feitos de Hans, como o brilhantismo ou a estupidez dos
ratos, como os participantes do experimento de cegueira atencional. Em todas essas
emergências, os sujeitos não testemunham aspectos objetivos ou naturais da situação, e sim a
maneira como eles “compreenderam” a situação a partir da relação com os humanos, do
“jogo” com os humanos. Enquanto situação social é sempre a relação que está em jogo e,
sendo assim, o dispositivo experimental não é neutro. Portanto, a produção de conhecimento é
inseparável da produção de realidade, donde o caráter ético-político da prática científica. A
colocação do problema da experiência para os estudos da cognição está, a nosso ver, ligada a
consideração desse caráter.
Os autores trabalhados neste capítulo colocam esse problema da experiência para as
ciências cognitivas, e buscam resolvê-lo investigando-a através da utilização de metodologias
de primeira pessoa. Contudo, as próprias metodologias de primeira pessoa, assim como os
experimentos das ciências cognitivas, não comportariam nelas mesmas um caráter ético-
político? Sendo assim, como se dá a relação de conhecimento no interior das metodologias de
primeira pessoa, tendo em vista que a experiência não é de alguém e sim em relação a alguém
que surge a partir dela? Como essa experiência, caracterizada é conhecida e constituída
(conhecer é fazer) nas diferentes propostas de metodologias de primeira pessoa? A resposta a
95
essas perguntas nos leva a uma reavaliação do conceito de atenção. É pondo ênfase no
processo de atenção mobilizado nas metodologias de primeira pessoa que melhor revelaremos
seus efeitos constitutivos de si.
96
4. Atenção a si como atividade enativa
4.1. Consciência, Atenção e Experiência
A abordagem da enação e o trabalho de Despret nos ajudaram a por em questão a atividade
enativa e os efeitos constitutivos de si que subjazem à ação do sujeito nas pesquisas em
cognição. Buscamos afirmar que efeitos constitutivos de si nas práticas científicas. A
operação concreta de tais práticas depende da maneira como elas são encarnadas; de onde
emerge o problema da primeira pessoa nas pesquisas em cognição. Visamos a partir deste
capítulo por em questão os efeitos constitutivos de si também das metodologias de primeira
pessoa. A utilização destes métodos não depende de um eu pré-existente, anterior a sua
utilização concreta. Como veremos, uma dimensão problemática nessa atenção à
experiência, pressuposta pela idéia de método de primeira pessoa. Essa dimensão
problemática coloca a necessidade de se encarnar outra configuração do processo de atenção a
si ou da relação consigo, diferente dessa que mobilizamos no nosso dia a dia, em nossas
conversas diárias. Mas, sendo assim, perguntamos: não seria a própria diferença entre atenção
a si e atenção ao mundo fruto de diferentes corporeidades do processo atencional? E a própria
questão do si ao qual se atenta, não se definiria de acordo com a corporeidade assumida pelo
processo atencional?
Por em questão os efeitos constitutivos de si das metodologias de primeira pessoa nos
leva a uma reavaliação da própria concepção de atenção, e mais especificamente de atenção a
si. Colocamo-nos a questão de pensar o processo atencional como também sendo
caracterizado por um modo de corporificação. Enquanto atividade enativa, a atenção não é
necessariamente pilotada por um “eu”, assim como seria equivocado pensar a atenção como
um processo que possui uma forma natural e universal. Seria mais adequado pensarmos em
97
diferentes modalidades da atenção de acordo com o contexto e a história de acoplamentos
(micro-mundos). A atenção é concebida pela psicologia cognitiva a partir do paradigma de
processamento de informação (CAMUS, 1996). Pensar a atenção a partir da abordagem
enativa é um contraponto a essa abordagem representacional. Camus afirma que a atenção é
exercida sobre representações cognitivas “A atenção permite assim controlar, regular, ou
modular a quase totalidade de nossas atividades psicológicas enquanto estas se apóiam sobre
representações (perceptivas, conceituais e motoras)” (CAMUS, 1996: 12). Destacamos com a
abordagem enativa como a cognição representacional é inseparável da constituição de um
ethos, isto é, da constituição de uma atitude reificadora em relação a si e ao mundo
(VARELA, 1996b). Diferentes contextos e histórias de acoplamentos podem constituir
diferentes ethos atencionais.
Parasuramam (2000) afirma que a atenção é caracterizada por diferentes modalidades.
Ele define: a atenção não é uma entidade única, mas o nome dado para um grupo finito de
processos cerebrais que podem interagir, mutuamente e com outros processos cerebrais, na
performance de diferentes tarefas perceptivas, cognitivas e motoras”. Segundo Parasuramam,
a atenção seria responsável pela regulação e modulação do funcionamento dos demais
processos cognitivos (percepção, memória, inteligência, etc). Essa modulação apresenta
diferentes aspectos, que Parasuraman descreve como as funções (não únicas) da atenção,
também denominadas por ele as variedades da atenção: seleção, vigilância e controle. Mas, o
que Parasuramam não destaca é que essa descrição de variedades atencionais está diretamente
ligada ao contexto das pesquisas feitas pela psicologia cognitiva e neurociências. Nesse
contexto, seleção, vigilância e controle estão envolvidos na realização de comportamentos
dirigidos a metas, voltados para a solução rápida e eficiente de problemas.
98
Como veremos, as metodologias de primeira pessoa põem em cena modalidades
atencionais diferentes dessa que é mobilizada nos experimentos de psicologia cognitiva. Por
exemplo, a própria concepção de uma atenção a si, diferente da atenção voltada para a
apreensão de informações externas (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003;
PETITMENGIN, 2007; SCHOOLER, 2002; WALLACE, 1999, 2008; LUTZ E
THOMPSON, 2003; GINSBURG, 1999). A concepção de uma atenção a uma experiência
pré-refletida. A concepção de uma atenção panorâmica e aberta (DEPRAZ, VARELA E
VERMERSCH, 2000, 2003; PETITMENGIN, 2006b). Esta é uma atenção semelhante à
atenção flutuante, descrita por Freud (1912) a partir do contexto da clínica psicanalítica.
Buscaremos ressaltar em que medida essas diferentes modalidades atencionais podem
implicar diferentes ethos. Destacaremos agora a questão da atenção a uma experiência pré-
refletida.
Um problema que se coloca é o da diferença entre a atenção a si e a atenção à
experiência. Atenção a si não é necessariamente atenção à experiência. Como afirmam Shear
e Jevning (1999), em nossas conversas diárias nós geralmente tomamos por garantido que as
experiências são dadas a nós (são nossas experiências) e que seus conteúdos nos são
transparentes. A familiaridade que temos com nossa vida subjetiva, em função das
representações que temos sobre nós mesmos, da aparente facilidade com que obtemos alguma
informação sobre nossos estados internos, mascara a dimensão técnica dessa auto-
investigação da experiência (VERMERSCH, 1997; PETITMENGIN, 2006a, 2006b).
Petitmengin afirma que a experiência é a nossa dimensão mais próxima e íntima, e por isso
não vemos que não vemos, o que nos dificulta perceber a perícia necessária para a exploração
da experiência “O mais incrível é que nós não somos conscientes de não sermos plenamente
99
conscientes” (PETITMENGIN, 2006a: 86). Destacamos o efeito que essa experiência pode ter
para o sujeito, perceber que ele ignora ou não tem acesso a algo a respeito de si mesmo.
Explorar a experiência metodologicamente no interior de um contexto social (como as
prática de meditação ou as pesquisas em cognição, por exemplo) requer que a experiência seja
compartilhada intersubjetivamente, o que depende de que ela seja posta em palavras pelo
sujeito, do contrário, ela permanecerá um evento puramente privado. Sendo assim, podem ser
distinguidos dois movimentos na operação de uma metodologia de primeira pessoa: 1) acesso
à experiência, 2) descrição da experiência (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003). O
problema da atenção se encontra no primeiro movimento, e dele depende o segundo. Aquilo
que o sujeito verbaliza depende do modo como ele acessa (ou atenta) a experiência. A questão
é que atenção à experiência não é atenção à primeira coisa que nos vem à cabeça. As
metodologias de primeira pessoa são procedimentos disciplinados para que o sujeito possa
acessar e descrever a sua própria experiência (VARELA E SHEAR, 1999a). Elas pressupõem
que não se trata de uma apreensão da primeira coisa que vem à cabeça do sujeito, ou daquilo
que lhe é imediatamente consciente.
Varela e Shear (1999a) vêem o pré-reflexivo como uma zona intermediária, localizada
na linha móvel entre o consciente e o subpessoal (inconsciente)
17
. Eles afirmam que a noção
de consciência designa primariamente o fato de que o sujeito conhece sobre, é informado
sobre, ou em outras palavras, está ciente (aware) do fenômeno. Dessa forma, a consciência
designa isso que é acessível subjetivamente, como awareness fenomenal. Somos então
levados a confundir os conceitos de dado fenomenal e subjetividade consciente. No entanto,
segundo Varela e Shear, o desenvolvimento das ciências cognitivas, assim como o
17
A esse respeito é importante a afirmação de Varela e Shear (1999a) de que a linha de demarcação entre
consciente e inconsciente não é fixa e pré-definida. Eles afirmam que as metodologias de primeira pessoa
assumem como uma asserção fundamental que esta é uma linha móvel.
100
desenvolvimento da psicanálise, tem tornado familiar a idéia de que alguma coisa pode
acontecer para um sujeito, e nesse sentido ser subjetivo, mas não lhe ser acessível. Neste caso,
dizemos que o sujeito não é consciente do fenômeno em questão. Mas essa não consciência
não é um inconsciente em definitivo, e é que entra a noção de pré-reflexivo “...existem,
por exemplo, numerosos casos onde nós percebemos fenômenos pré-reflexivamente sem estar
conscientemente ciente (consciously aware) deles...” (VARELA E SHEAR, 1999a: 4). Desse
modo, a noção de consciência é diferenciada entre awareness pré-reflexiva e conscientemente
ciente (consciously aware).
uma crítica feita ao projeto de se examinar a experiência a partir de metodologias de
primeira pessoa, chamada objeção hermenêutica, que põe em dúvida a possibilidade concreta
da existência de uma consciência pré-refletida. De acordo com Shear e Jevning (1999), não é
obvia a existência de tal experiência pré-refletida ou “consciência primária” depois que ela é
posta em palavras, o pesquisador ou observador externo tem acesso a sua verbalização. Os
autores que defendem a objeção hermenêutica enfatizam o fato de que tais descrições da
experiência estão sempre enraizadas na linguagem, nos diferentes sistemas conceituais e
categorias simbólicas características de cada cultura. Consequentemente, para esses autores,
todas as experiências são específicas de uma certa cultura. Assim, a objeção hermenêutica se
define pela afirmação de que não existem experiências independentes da cultura ou da
linguagem. O plural, experiências, é porque não haveria experiência comum (trans-cultural) a
qual as descrições fariam referência (SHEAR E JEVNING, 1999).
Um dos autores que defendem a objeção hermenêutica é Gregory Nixon (1999).
Segundo Nixon (1999), a filosofia e teorias da linguagem e da comunicação têm
compreendido a experiência consciente como experiência refletida sobre si mesma (reflected
back upon itself) através da linguagem. Assim, a consciência que nós experimentamos é
101
possível apenas no interior da cultura e da linguagem simbólica. Nixon afirma que se nós
experimentamos alguma coisa fora da linguagem nós o experimentamos não conscientemente.
“Fora da linguagem nada para o qual nós possamos diretamente referir, desde que toda
linguagem é indicativa apenas de si mesma(NIXON, 1999: 258). Varela e Shear (1999b)
criticam essa posição de Nixon. Eles perguntam: “Nada é conscientemente apreendido fora da
rede da linguagem?(VARELA E SHEAR, 1999b: 309). Para Varela e Shear, mais do que
um pressuposto lógico ou a priori, é preciso ter em conta as evidências fornecidas pelas
abordagens pragmáticas e empíricas da experiência. E estas nos permitem considerar a
possibilidade intermediária, para além do círculo hermenêutico, de que existe tal experiência
que não é reflexivamente expressa (na linguagem), e ainda assim não é completamente
inconsciente.
Esse problema da experiência pré-refletida aponta para a questão de que a experiência
investigada e descrita pelas abordagens de primeira pessoa não é equivalente à consciência.
Vários autores afirmam que sob a mediação da prática das metodologias de primeira pessoa
entramos em contato com dimensões não notadas de nossa experiência, como Ginsburg
(1999), Wallace (1999), Shear e Jevining (1999), Petitmengin (2007), Gendlin (1999),
Vermersch (1999), Varela e Shear (1999b), Jack e Roepstorff (2002b), Schooler (2002), Jack
e Shallice (2001). Esses aspectos não são notados pela nossa consciência imediata do dia a
dia. Mas são eles que são visados pelas abordagens de primeira pessoa. Eles podem ser
acessados pela atenção a si porque também não são definitivamente inconscientes. Essa
experiência não notada envolve alguma consciência, por isso ela não é completamente
inconsciente. Há consciência de outro tipo desses aspectos “não notados”. Assim a não
equivalência entre consciência e experiência pressupõe distinções no interior do próprio
conceito de consciência. Contudo, colocar esse problema de uma atenção a “aspectos o
102
notados” de nossa experiência não é evidente, sobretudo se tivermos em conta os trabalhos de
psicologia cognitiva da atenção.
Alguns estudos da psicologia cognitiva sobre a atenção tendem a ligar atenção e
consciência (CAMUS, 1996; ASHCRAFT, 1994). Dessa forma, o par atenção-desatenção se
torna tributário do par consciência-não consciência. O problema dessa paridade é que ela
impede a colocação do problema da atenção a uma dimensão tácita de nós mesmos. De fato, a
Psicologia Cognitiva não parece possuir, a nosso ver, uma posição unificadora sobre essa
relação entre atenção e consciência. Para Sternberg (2000) a psicologia contemporânea não
concebe atenção e consciência como a mesma coisa. Ele define a atenção como o “fenômeno
através do qual processamos ativamente uma quantidade limitada de informações do enorme
montante de informações disponíveis através de nossos sentidos, de nossas memórias
armazenadas e de outros processos cognitivos” (STERNBERG, 2000: 78). E, segundo
Sternberg, uma parte desse processamento ativo de informação ocorre sem o nosso
conhecimento consciente, daí atenção e consciência não serem a mesma coisa. Posição
semelhante também possui Anderson, que afirma que “muitos fenômenos da atenção parecem
ser inteiramente inconscientes” (ANDERSON, 2000: 62). Um exemplo fornecido por
Anderson é que as pessoas muitas vezes não têm consciência dos pontos para onde moveram
seus olhos.
Entretanto, outros autores enfatizam a ligação entre atenção e recursos ou energia
mental. Neste caso, os processos dos quais não somos conscientes são processos ditos
automatizados, que se caracterizam justamente por não consumirem recursos atencionais
(CAMUS, 1996; ASHCRAFT, 1994). Assim, a pessoa não tem consciência dos pontos para
os quais ela moveu seus olhos porque essa ação não requer recursos atencionais. Ashcraft
afirma: “Atenção, em seu sentido diário e usual, é essencialmente equivalente à capacidade
103
mental consciente ou recursos mentais conscientes. Nós podemos devotar estes recursos
atencionais a apenas uma tarefa demandante por vez, ou para duas tarefas simultâneas menos
demandantes” (ASHCRAFT, 1994: 134). Os processos cognitivos que demandam o uso de
recursos atencionais e envolvem consciência são chamados processos controlados.
Muitas das nossas tarefas cotidianas começam como processos controlados e se tornam
automáticas. Nesse processo de automatização gera-se uma economia de recursos atencionais.
No decorrer da prática, a implementação das várias etapas envolvidas na realização de uma
tarefa se torna mais eficiente, em função de uma maior integração entre elas, podendo chegar
a tal ponto, que a realização da tarefa se torna um único procedimento integrado em alto grau,
em vez de uma reunião de etapas individuais (CAMUS, 1996; STERNBERG, 2000).
Sternberg o exemplo de quando aprendemos pela primeira vez a falar uma ngua
estrangeira, neste momento precisamos traduzir palavra por palavra de nossa língua materna,
até finalmente começarmos a pensar na segunda língua. Esse pensamento nos capacita a
desviar do estágio intermediário de tradução e tornam os processos da fala e da compreensão
oral automáticos “Sua atenção consciente pode reverter ao conteúdo, em vez de ao processo,
da fala” (STERNBERG, 2000: 82). A automatização é importante porque ela libera recursos
atencionais para serem empregados na realização de outras tarefas menos automatizadas, o
que é um ganho num ambiente estimulador e que demande muitas tomadas de decisões por
parte do sujeito.
O papel da tomada de decisão no funcionamento atencional é enfatizado por Kantowitz,
Roediger III e Elmes (2005). Eles afirmam que as variáveis independentes manipuladas nos
experimentos de atenção giram em torno da necessidade do ser humano tomar decisões e do
ritmo em que tais decisões podem ser tomadas (na ação automática a “decisão” já está
tomada). A manipulação da atenção consiste em aumentar gradualmente as exigências da
104
tarefa até a pessoa se sentir pressionada a acompanhá-las, para responder adequadamente.
Quando a resposta exige seleção ou escolha ela envolve atenção. Por exemplo, aumentando o
numero de alternativas em uma tarefa de reação com escolha, aumenta-se o número de
decisões que precisam ser feitas para identificar o estimulo correto e selecionar a resposta
associada. A nosso ver, é dessa forma, nesse contexto, que a atenção estudada pela psicologia
cognitiva é acionada, posta em ato. Nesse sentido, a atenção (e consciência a ela correlata)
está toda ela voltada para a realização eficiente de tarefas. Segundo Kantowitz, Roediger III e
Elmes (2005), a variável dependente normalmente estudada nos experimentos de atenção é o
tempo de reação e o numero de acertos e erros. Como afirma Sternberg (2000), a atenção
realça os estímulos que nos interessam, ampliando a probabilidade de que possamos
responder rápida e corretamente a eles.
A nosso ver, essa distinção entre processos controlados e processos automáticos feita
pela psicologia cognitiva restringe os processos cognitivos à distinção entre processos
conscientes e não conscientes. A atenção está essencialmente voltada para a realização de
tarefas, para a manutenção e consecução de comportamentos dirigidos a metas, como define
Parasuramam (2000). Ela está fundamentalmente voltada para o processamento de estímulos e
apreensão de informações que interessam ao sujeito para responder de forma adequada ao
mundo, todo o resto podendo ser ignorado, isto é, podendo ficar inconsciente. De acordo com
Kastrup (2004), a atenção tematizada nas discussões sobre o transtorno do déficit de atenção e
hiperatividade (TDAH) é sempre uma atenção como processo instrumental ou subsidiário à
solução de problemas pré-determinados. A atenção avaliada é sempre voltada para objetos e
estímulos do mundo externo, ou seja, para a captação e busca de informações. E sua avaliação
depende da (in)adequação no trato com tais informações externas, a qual pode indicar pouca
atenção e baixa capacidade de concentração. E essa atenção estudada nos experimentos de
105
psicologia cognitiva constitui grande parte de nossa atenção cotidiana, na maior parte do
nosso dia a dia estamos em geral voltamos para a realização eficiente de tarefas.
A genealogia da atenção feita por Jonathan Crary (1999; 2000) nos ajuda a pensar como
essa atenção instrumental tornou-se um valor a partir do final do século XIX. De acordo com
Crary a atenção tornou-se um problema fundamental a partir dessa época. A importância
dessa questão estava diretamente ligada ao surgimento de um campo social, urbano, psíquico
e industrial cada vez mais saturado de informações sensoriais. O sistema econômico
emergente demandava a atenção do sujeito em relação a uma ampla gama de novas tarefas
produtivas e espetaculares. Assim, parte da lógica cultural do capitalismo exigia que
aceitássemos como natural a mudança rápida da nossa atenção de uma coisa para a outra. Por
outro lado e ao mesmo tempo, essa lógica de troca e circulação acelerada de produtos estava
erodindo a base de qualquer atenção disciplinar, resultando num regime de atenção e distração
recíprocas. Ou seja, nesse período a atenção instrumental e a distração recíproca surgem como
um valor, o que requereu novos métodos para administrar e regular a percepção. E que a
atenção surge como um objeto problemático para a então nascente psicologia experimental,
que passa a buscar as condições de sua eficiência.
Para Michael Hagner (2003), a atenção surge como um tema importante no final do
século XVIII. Nessa época ela surge como uma virtude burguesa. A atenção é o que tornava
possível um uso eficiente do tempo, a redução da dor quando direcionada para outra direção, e
um avançado desenvolvimento moral e espiritual. A habilidade de controle da atenção passou
a ser importante no final do século XVIII quando as técnicas de auto-experimentação e auto-
observação tornaram-se fundamentais para a constituição do eu burguês (CALIMAN, 2006).
Desse modo, a questão da atenção a si emergiu de forma especifica antes do
introspeccionismo da psicologia do final do século XIX. Hagner (2003) afirma que a atenção,
106
direcionada pelas regras da razão, garantiria a coerência, estabilidade e unidade da vida
mental; ela nos faria mestres de nós mesmos. Os desvios dessas regras seriam entendidos
como distrações. Mas se a atenção no século XVIII estava ligada a ordem e estabilidade, a
partir da segunda metade do século XIX ela surge ligada a instabilidade, como um objeto
problemático nos laboratórios de psicologia, destaca Hagner.
Nas pesquisas de psicofísica surgia uma atenção móvel e involuntária. Hagner (2003)
destaca os experimentos de visão binocular. Nele o sujeito devia manter a visão concentrada
em apenas uma cor, usar apenas um olho, mas Fechner notou que, após certo período, um
movimento involuntário dos olhos causava o desaparecimento da imagem e o aparecimento
de outro objeto. Fechner tentou, em vão, impedir essa mobilidade da atenção. Essas variações
não foram notadas apenas na percepção sensorial, mas também na imaginação interna e
processos de pensamento. Fechner notava nele mesmo que era impossível manter constante,
mesmo por um curto prazo, a mais familiar imagem da memória, a qual precisava ser
constantemente recriada. Se no século XVIII o entendimento era que a atenção voluntária
fazia de nós mestres de nós mesmos, no século XIX, entretanto, a idéia é que ela cessou de
oferecer quaisquer garantias, desde que mudanças ocorriam mesmo quando alguém queria se
concentrar sobre uma impressão. A atenção como um atributo da consciência, como algo
voluntário, era posta em questão, e colocada ao lado de uma atenção involuntária ligada a
processos físicos. Nesse contexto, a atenção passa a ser destacada como uma das funções
responsáveis pelo processo de adaptação do homem ao mundo, pelo controle e inibição do
comportamento; ela passa a estar ligada ao poder da vontade (CALIMAN, 2006).
Como demonstra a metáfora do processador central da memória de trabalho, os
processos controlados estão envolvidos na formulação e realização de metas a serviço da
própria adaptação (BEST, 1995), fator fundamental no surgimento da consciência
107
(BADDELEY, 1998). Alan Baddeley apresenta uma concepção evolutiva e funcional da
consciência “considerar os fenômenos que se atribuem a consciência como um simples
reflexo do modo em que tem evoluído o cérebro humano” (BADDELEY, 1998: 393). A
função da consciência destacada por Baddeley é a de agrupar a informação vinda de
diferentes canais sensoriais. Desta forma a informação multidimensional se encontra
disponível de forma simultânea como experiência fenomenológica para o organismo. Isso
permite ao organismo, através da atenção, concentrar-se em um objeto ou em um aspecto do
entorno perceptivo, isto é, selecionar e manipular a informação entrante de acordo com a meta
a ser alcançada. A própria meta também é mantida disponível no campo de consciência
(memória de trabalho).
Essa concepção naturaliza a consciência e o processo atencional a ela correlato.
Contudo, notamos nas práticas das metodologias de primeira pessoa outro modo de colocar o
problema da consciência, no qual aquilo do que somos conscientes depende da relação
consigo, pondo em cena o contato com a própria experiência mais do que a busca e apreensão
de informações no mundo. A esse respeito, é interessante uma pesquisa feita por Heleen
Slagter, Antoine Lutz, Lawrence Greischar, et al (2007). Nessa pesquisa buscou-se investigar
os efeitos de três meses de intensiva meditação Vipassana sobre a distribuição dos limitados
recursos atencionais. Segundo os autores dessa pesquisa, uma das maiores dificuldades do
sistema atencional é processar dois estímulos relevantes temporalmente próximos. Quando o
segundo estímulo é apresentado num intervalo de apenas meio segundo após o primeiro, ele
frequentemente não é detectado. Isso é chamado déficit da “piscada atencional” (attentional-
blink), e considera-se que ele resulta da competição entre dois estímulos por limitados
recursos atencionais. A investigação desse fenômeno é normalmente feita em experimentos de
solução de problemas, em que se mobiliza uma atenção instrumental.
108
A pesquisa citada investigou os efeitos de meditação intensa sobre os resultados
comportamentais e cerebrais da realização de uma tarefa. A meditação Vipassana cultiva o
que eles chamam de atenção básica (bare attention), isto é, uma forma de awareness sensorial
não reativa. “Esta forma de atenção é não reativa no sentido em que, idealmente, alguém não
se torna fixado em julgamentos e respostas afetivas aos estímulos sensoriais e mentais”
(SLAGTER, LUTZ, GREISCHAR, ET AL, 2007: 1228). Com o cultivo de uma awareness
não reativa o sujeito é capacitado a se fixar menos em um único estímulo, isto é, ele pode
alocar menos recursos para ele. Assim, após três meses de prática de meditação, os resultados
da pesquisa mostraram que a atenção tornou-se menos capturada pelo primeiro estímulo, o
que resultou num menor efeito de “piscada atencional” para o segundo estímulo, sem
comprometer a detecção do primeiro estímulo. Esta menor alocação de recursos para o
primeiro estímulo, isto é, menor fixação sobre ele, também foi refletida pela resposta cerebral
correspondente.
A nosso ver, essa pesquisa mostra como o cultivo da atenção básica permite ao sujeito
corporificar uma atitude atencional mais receptiva, caracterizada por uma menor prontidão
para responder aos estímulos, como normalmente é demandado nos experimentos da
psicologia cognitiva e em nosso contexto social. Além disso, o cultivo da atenção básica
permite uma ampliação do campo de consciência “Atenção básica é a clara e determinada
awareness do que verdadeiramente acontece para nós e em nós, nos momentos sucessivos da
percepção. (....) sem reagir a eles” (SCHWARTZ, 1999: 296) de modo a incluir elementos
que, sob condições de maior responsividade, não seriam conscientes
18
. Os aspectos históricos
discutidos acima apontam para a ligação entre a atenção estudada nos laboratórios e o
18
Schwartz (1999) defende o cultivo e uso dessa atenção básica para o tratamento de pacientes com desordem
obsessivo compulsivo. A proposta é que com a atenção básica os pacientes possam mudar a direção de sua
atenção de modo a evitar os pensamentos e respostas mentais incômodas que caracterizam a desordem.
109
contexto social de uma época. Sendo assim, eles mostram que a maneira como a atenção é
mobilizada e posta em ato nesses settings não pode ser considerada um funcionamento
natural. A atenção a uma experiência pré-refletida é diferente dessa atenção voltada para a
realização de tarefas. É isso que algumas abordagens de primeira pessoa mostram. Outras
práticas, em outros contextos, poderão produzir diferentes modalidades atencionais.
Por exemplo, o problema é levantado por Petitmengin (2006b) e Vermersch (1994), a
partir da prática com a entrevista de explicitação, acerca do fato de que o sujeito não está
consciente de como ele procede para realizar uma ação. Normalmente quando nossa atenção
está concentrada numa dada atividade nós somos absorvidos pelos objetivos, pelo what, e
temos muito pouca ciência dos modos, dos processos internos, pelos quais tentamos alcançar
tais objetivos, o how. Em geral, o sujeito apenas está consciente dos objetivos e resultados
alcançados, do enquadramento operacional e social da ação. Mas essa inconsciência, segundo
Vermersch (1994), não é uma condição natural, é fruto de nossa formação, mais voltada para
os resultados a serem atingidos, e não para os procedimentos concretos e vividos que realizam
uma ação cognitiva. A nosso ver, isso está ligado ao valor que a atenção instrumental ganhou
em nosso contexto social. Dito de outra forma, nós não somos formados para voltar a nossa
atenção para os meios e processos dos quais lançamos mão para a consecução de nossas
ações, para o uso próprio que fazemos da atividade cognitiva. Mas, sendo assim, essa
absorção no what e nos conteúdos informacionais não é um fato natural, ela é também uma
questão de valor, do que importa e faz sentido para o sujeito que age. E isso não chega a ser
enfatizado por Petitmengin e Vermersch. Enquanto uma questão de valor, ela está ligada a um
contexto e a uma história, a uma certa constituição de si. Trata-se de uma experiência para o
sujeito que age, assim como toda atividade enativa é inseparável de uma experiência de si e de
mundo.
110
É nesse sentido, a nosso ver, que as metodologias de primeira pessoa problematizam a
relação consigo, o contato do sujeito com a própria experiência. Quando processamos
informações mnêmicas ou nos voltamos para os nossos estados mentais tendo em vista
responder a alguma demanda do meio, a atividade reflexiva envolvida (em que o sujeito
volta-se para si próprio) pode ser da mesma natureza da atenção voltada para responder
eficientemente a tarefas, tanto que ela também tende a ser economizada, através do processo
de automatização. Por exemplo, quando é pedido ao sujeito que ele fale de sua própria
experiência, e ele responde a partir da sua consciência imediata, essa fala pode pressupor a
automatização de muitas respostas sobre si mesmo ou sobre a sua experiência. Essa fala
automatizada não parte de uma relação consigo que demande a operação de um método ou de
uma prática sobre o processo atencional, redirecionando a atenção para si e conduzindo-a de
modo sistemático através da experiência. Como dissemos, as metodologias de primeira pessoa
colocam a necessidade de se encarnar outra configuração do processo de atenção a si ou da
relação consigo, diferente dessa que mobilizamos no nosso dia a dia, em nossas conversas
diárias. O problema que se coloca para elas é: como a atenção a si se torna atenção a
experiência? Apresentaremos doravante como a atenção a si é trabalhada em diferentes
abordagens de metodologias de primeira pessoa, destacando como essas transformações sobre
a atenção possuem efeitos constitutivos de si e implicam um caráter ético-político.
4.2. Atenção a si na abordagem Instrução-Relato
Como dissemos no capítulo anterior, Jack e Roepstorff propõem a inclusão da abordagem
instrução-relato pelas ciências cognitivas como modo de levar em conta a experiência do
sujeito em suas pesquisas. Essa abordagem se caracteriza pela continuação da relação
pesquisador-participante, através de uma entrevista retrospectiva pós-experimento. Esta
111
entrevista é uma oportunidade para que o sujeito descreva as experiências que ele teve ao
realizar a tarefa, e o papel que ele de fato atuou. Para Jack e Roepstorff (2002a, 2003, 2004) a
introspecção operada na abordagem instrução-relato é definida como uma interpretação ou
juízo sobre a experiência, através de processos executivos ou meta-cognitivos.
Essa concepção do processo introspectivo está ligada a uma distinção feita por Jack e
Roepstorff (2003). Eles falam de uma consciência de segunda ordem (second-order
awareness) ou consciência reflexiva, distinta da própria experiência como consciência de
primeira ordem (first-order awareness) ou consciência fenomenal. A consciência de primeira
ordem exprime os conteúdos da consciência (JACK E ROEPSTORFF, 2002b). Por exemplo,
numa tarefa de localização de um simples estímulo visual, o sujeito não precisa pensar
explicitamente ou representar seus estados mentais, ele apenas precisa representar o estímulo.
O sujeito pode errar a localização do estímulo, mas ele não falha em conhecer onde ele pensa
que o estimulo está, pois este é um conteúdo que ele experimenta de forma direta (em
primeira ordem). Por sua vez, a consciência de segunda ordem implica que o sujeito pense
explicitamente e represente a sua própria experiência, ela é uma meta-consciência.
Discutindo as pesquisas em percepção sem awareness, Jack e Shallice (2001) colocam o
problema que é para tais estudos as medidas de awareness. Na percepção sem awareness o
sujeito é afetado por um estímulo que ele, entretanto, afirma não ver. Segundo Jack e Shallice,
dúvidas têm sido lançadas sobre esta evidência com base nas dificuldades metodológicas a
que são sujeitas as medidas subjetivas de awareness. Jack e Shallice (2001) apontam duas
dificuldades. A primeira é que não é claro o que os sujeitos querem dizer quando eles afirmam
não estarem cientes (aware) de um estímulo. Os sujeitos podem dizer que não estão cientes
(aware) de um estímulo mesmo quando eles estão cientes (aware) de informações parciais,
suficientes para lhes permitir identificar o estímulo. A segundo dificuldade é que os sujeitos
112
podem não relatar estarem cientes (aware) porque, ainda que eles tenham uma impressão
visual fugaz do estímulo, lhes falta confiança que a impressão seja verídica. Essas
dificuldades metodológicas colocadas por Jack e Shallice problematizam a confiança no relato
verbal como índice (medida) de awareness, destacando a ocorrência de alguma awareness
mesmo que ela não seja relatada. Por isso, Jack e Shallice destacam a importância de se usar a
introspecção como modo de verificar essa tácita awareness.
A consciência de segunda ordem pressupõe os processos que nos permitem adquirir
informação sobre os nossos estados mentais e mediam a produção de juízos e relatos acerca
da nossa experiência (JACK E SHALLICE, 2001; JACK E ROEPSTORFF, 2003). São esses
processos que caracterizam a introspecção para Jack e Roepstorff. Essa meta-consciência
pode falhar (JACK E ROEPSTORFF, 2002b). As dificuldades metodológicas apontadas por
Jack e Shallice nas pesquisas de percepção sem awareness estão ligadas a este fato, pois as
medidas subjetivas de awareness envolvem meta-consciência. a impressão visual fugaz e
as informações parciais das quais os sujeitos podem estar cientes (aware) configura uma
consciência de primeira ordem. No exemplo acima, o conhecimento sobre a localização do
estímulo pode resultar de uma inferência ou derivar de uma impressão visual fugaz ou de
informações parciais, mas, se demandássemos ao sujeito que ele avaliasse e descrevesse a sua
consciência perceptual do estímulo ele entraria numa meta-consciência.
Essa noção de meta-consciência é referendada por Jack e Roepstorff (2002a; 2002b) em
Jonathan Schooler. Schooler (2002) crítica a definição da linha de demarcação entre
consciência e inconsciência pelo critério da verbalização, pois, segundo ele, esse critério
pressupõe que as pessoas estão explicitamente cientes (aware) de suas experiências, o que é
necessário para a produção do relato verbal. Schooler fundamenta essa crítica apontando para
a dissociação entre a experiência subjetiva e a explícita awareness dessa experiência, ou, a
113
dissociação entre ter uma experiência e conhecer que está tendo (o sujeito só verbaliza aquilo
que ele conhece que está tendo). Para ele pode haver experiência na ausência de seu explícito
reconhecimento. Schooler (2002) estabelece a distinção entre processos mentais o
conscientes (não experienciados), conscientes (experienciados) e meta-conscientes (re-
representados). Os processos conscientes e não conscientes ocorrem continuamente em nossas
atividades diárias, ao passo que a meta-consciência é intermitente.
Por exemplo, durante uma atividade de leitura o sujeito pode subitamente notar que seu
pensamento estava divagando (SCHOOLER, 2002). Os episódios de tal divagação mental são
certamente experienciados, segundo Schooler, mas eles não equivalem a uma explícita
awareness. Os comportamentos automáticos para Schooler também são experienciados, o que
lhes falta é a meta-consciência. Por exemplo, embora o dirigir seja em grande medida
automático, o motorista ainda experiencia a estrada em algum nível de awareness. Ele aciona
sua meta-consciência caso se depare com algum obstáculo ou se encontre em dificuldades,
neste caso, ele direciona sua atenção rumo a uma explícita avaliação dos conteúdos da
experiência “...meta-consciência é simplesmente consciência voltada sobre si mesma”
(SCHOOLER, 2002: 340). Uma questão a se destacar nessa distinção feita por Schooler entre
processos conscientes e meta-conscientes é que o sujeito não precisa realizar introspecção
para ser consciente, tendo em vista que a introspecção pressupõe meta-consciência.
Jack e Roepstorff (2002b) discordam do pressuposto afirmado por Schooler de que a
ligação entre consciência e verbalização sempre depende da meta-consciência. Jack e
Roepstorff afirmam que os relatos subjetivos, isto é, os relatos que os sujeitos dão a respeito
de suas experiências, podem estar ligados à consciência de primeira ordem. Os relatos
também podem não passar de suposições (guesses) e assim não refletirem qualquer
experiência consciente. Ainda segundo Jack e Roepstorff (2002b), o único modo direto de
114
diferenciar esse relato referente à consciência de primeira ordem de uma suposição é
demandando ao sujeito uma meta-consciência relativa à verbalização.
Sendo assim, os relatos subjetivos não implicam necessariamente introspecção por parte
do sujeito (JACK E ROEPSTORFF, 2002a). Respondendo a certas tarefas ou questões o
sujeito pode relatar a partir dos conteúdos de sua memória imediata, na medida em que essa
atividade se torna automática com a prática. Ao resolver um problema aritmético, por
exemplo, os números relatados são formas que podem ser facilmente convertidos em
linguagem (JACK E SHALLICE, 2001). Por isso, de acordo com Jack e Shallice, a
introspecção não pode ser definida de forma puramente comportamental, isto é, apenas com
base no relato resposta que o sujeito sobre o seu estado mental. Jack e Shallice afirmam
que os processos que subjazem a introspecção são funcionalmente relacionados aos processos
que operam em ações mentais intencionais (diferente de ações automáticas), e nesse sentido
eles envolvem atenção nós observamos introspecção como uma atividade atenta, que
requer esforço e recursos mentais” (JACK E SHALLICE, 2001: 171). A atenção que opera na
introspecção é a mesma atenção envolvida em qualquer ação intencional, com a singularidade
de que ela é voltada para a captação de informações relativas aos nossos estados mentais.
Jack e Roepstorff (2003) afirmam que nós desenvolvemos nossas capacidades para
reconhecer e distinguir nossos estados internos talvez por extensão dos processos perceptuais
e mnemônicos existentes. Assim, a nosso ver, a natureza da atenção a si não se distingue da
atenção ao mundo para eles. Além disso, essa afirmação comporta um sentido evolucionário,
funcional: “De forma a supor uma vantagem evolucionaria, nós supomos que os processos
introspectivos são pelo menos razoavelmente bem sucedidos em reconhecer e discriminar
entre os estados internos” (JACK E ROEPSTORFF, 2003: xiv). Jack e Roepstorff, assim
como Jack e Shallice (2001), compreendem os processos subjacentes à introspecção dentro do
115
paradigma de processamento de informação, de forma equivalente aos processos
interpretativos das informações do mundo externo. Os autores afirmam que os processos
introspectivos têm acesso limitado a algumas propriedades funcionais dos estados mentais. O
que é visado na abordagem instrução-relato como experiência está diretamente ligado às
funções neurocognitivas superiores, por exemplo: as estratégias utilizadas pelo sujeito no
ensaio e codificação da informação (memória de trabalho), o modelo dos processos
envolvidos na lembrança autobiográfica, as estratégias de planejamento e solução de
problemas (JACK E ROEPSTORFF, 2002a).
Para Jack e Shallice (2001) a introspecção pode ser vista como o produto de dois
fatores: primeiro, o “dado básico” (raw data) que o sujeito tem acesso através da
introspecção; segundo, o enquadre conceitual ou o “modelo” que o sujeito usa para interpretar
esse dado. O processo interpretativo depende das categorias do sujeito e dos estados mentais
eliciados. A validade da introspecção depende da validade do modelo usado para interpretar
os “dados básicos”. Eles afirmam que os relatos introspectivos podem ser enganosos se os
conceitos usados pelos indivíduos são assentados em suposições implícitas errôneas sobre a
organização e a função cerebral. O sujeito ingênuo (não treinado) não interpreta essa
informação como propriedades funcionais dos estados mentais, ao invés disso, ele a interpreta
segundo a sua implícita teoria da psicologia popular (folk-psychological theories). Dessa
forma, os relatos introspectivos, relativos aos estados de consciência do sujeito, são
semelhantes a juízos objetivos, relativos ao mundo externo ao sujeito, ao estímulo
apresentado (JACK E SHALLICE, 2001). Esse processo interpretativo é uma ação
intencional, que requer atenção e recursos mentais.
Esse juízo está na dependência direta da relação interpessoal “a interação entre o
pesquisador e o sujeito forma o espaço de respostas dos relatos, isto é, qual tipo de juízo
116
introspectivo, descrição ou comparação é apropriada(JACK E ROEPSTORFF, 2002a: 335).
Na relação com o pesquisador o sujeito é treinado, visando à definição de um quadro de
referência ou do espaço de respostas dos relatos. Como diz Frith, “Jack e Roepstorff sugerem
que o compartilhamento da experiência requer a adoção de uma perspectiva de segunda
pessoa, com a qual um quadro comum de referência pode ser negociado” (FRITH, 2002: 374).
O uso da introspecção pela abordagem instrução-relato pressupõe que o participante adote
uma posição judicativa em relação a si mesmo, de controle e representação da própria
experiência.
Um procedimento de descrição da experiência que segue essa mesma linha
representacionista de Jack e Roepstorff é o descriptive experience sampling (DES), formulado
por Hulrburt e Heavey (2001, 2004). O DES é um método que usa um bip para assinalar aos
sujeitos, de forma randômica, o momento em que eles devem prestar atenção ao que está se
passando na sua experiência. Os sujeitos então anotam num caderno as características daquele
momento particular. Segundo Hurlburt e Heavey, o bip afeta muito pouco a experiência em
andamento, e que é possível capturar porções substanciais dela. Eles afirmam que a descrição
sob o DES é tão confiável quanto a descrição de uma percepção externa. O DES segue três
orientações: 1) interromper o processo no momento mesmo em que ele está ocorrendo, e pedir
ao sujeito que preste cuidadosa atenção aos processos cognitivos; 2) Evitar relatos
interpretativos, manter os descritivos; 3) Limitar o relato ao que foi bem diferenciado. um
treinamento prévio para o sujeito se adequar ao método. A nosso ver, um procedimento como
esse do DES busca controlar, em nome de uma descrição mais objetiva, o posicionamento do
sujeito no experimento, ao voltar a atenção para a experiência interna. O sujeito é pego de
surpresa por um bip (enquanto realiza uma tarefa) e deve responder de imediato o que ele
117
observa. Não um jogo interativo entre o sujeito e o pesquisador como nós veremos, por
exemplo, na entrevista de explicitação.
Também no procedimento chamado thinking aloud, formulado por Ericsson e Simon,
busca-se controlar a formulação do relato verbal pelo sujeito, de modo a gerar dados
empíricos a respeito dos processos de pensamento que sejam objetivos e reprodutíveis
(ERICSSON, 2003). O problema levantado por Ericsson é que a produção de relatos verbais
que visam explicações e descrições detalhadas possui efeitos reativos sobre o processo de
pensamento em andamento, e são inconsistentes com a performance comportamental
observada do sujeito. O procedimento preconizado por Ericsson e Simon requer que o sujeito
siga sob atenção a sequência do pensamento, dando expressão aberta a verbalizações
subvocais. O thinking aloud não requer uma capacidade introspectiva, o que implicaria
processos adicionais aos envolvidos na realização da tarefa, e a possibilidade de efeitos
reativos. Ele também não é um procedimento retrospectivo, e assim não conta com o risco de
falha da memória. Como o próprio Ericsson reconhece, ele é limitado em relação a uma
exploração mais aprofundada da experiência. Contudo, o que Ericsson pretende enfatizar com
esse método é a possibilidade de produzir dados empíricos objetivos e acurados, que sejam
congruentes com os dados oriundos de métodos de terceira pessoa (sobretudo os relativos a
performance comportamental). Nesse sentido, ele e Simon visam designar uma situação de
medida altamente constrangida (highly constrained) onde confiança não é uma questão.
Realizando estas tarefas, nem mesmos participantes desonestos seriam capazes de produzir
verbalizações de pensamentos que sejam inconsistentes com seus processos tarefa-dirigidos
(task-directed) que mediam a performance” (ERICSSON, 2003: 3 grifo nosso).
O problema que Jack e Roepstorff (2003) enfatizam em relação aos processos
subjacentes à introspecção é o da sua acurácia. A não equivalência entre experiência,
118
consciência, inconsciência e descrição verbal, abre um gap entre os relatos subjetivos e o
conteúdo ao qual ele se refere. É nesse gap que Jack e Roepstorff localizam o problema da
confiança e acurácia dos dados trabalhados pelas metodologias de primeira pessoa. Eles
levantam a questão: “Quanta podemos ter na capacidade da mente em compreender a si
mesma?” (JACK E ROEPSTORFF, 2003: vi). E respondem: “Assim como nós podemos
representar erroneamente o mundo externo, nós podemos representar erroneamente nossa
própria experiência” (JACK E ROEPSTORFF, 2002b: 373). A confiança entre pesquisador e
sujeito participante e o uso que o pesquisador faz dos relatos deste depende da confiança que
se pode ter na capacidade da mente em compreender a si mesma. Para Jack e Roepstorff a
falibilidade dos indivíduos ao representar a própria experiência coloca um problema de
validade relativo à relação entre os relatos e os estados conscientes subjacentes. Os relatos
subjetivos não representam um reflexo transparente da experiência interna, ao contrário, eles
são produtos de uma “caixa preta” constituída por um complexo grupo de processos.
Essa noção de “caixa preta” é referendada por Jack e Roepstorff (2003) no trabalho de
Bruno Latour A Esperança de Pandora (2001). Segundo Jack e Roepstorff, as pesquisas em
neurociências, por exemplo, coletam medidas neurais (como o imageamento cerebral) como
dados relativos aos estados cerebrais. Essas medidas podem ser compreendidas como objetos
epistêmicos, pois elas derivam da aplicação de um grupo de métodos e critérios que
asseguram algum tipo de validade. Este processo é descrito como “caixa preta” dentro dos
estudos da ciência. Isto porque quando o processo está correndo bem é preciso focar apenas
em seus inputs e outputs, e não na sua complexidade interna (LATOUR, 2001). Porém, como
tem sido demonstrado pelos estudos da ciência, a relação entre os objetos epistêmicos
resultantes e os estados subjacentes de nenhuma forma é trivial. É preciso então abrir a “caixa
preta” para se poder investigar o processo de geração dos objetos epistêmicos. Entendendo os
119
relatos subjetivos como objetos epistêmicos, é preciso então abrir a “caixa preta” dos
processos introspectivos para se poder elucidar essa relação entre relatos e estados mentais
internos subjacentes. Para Jack e Roepstorff, a abertura dessa “caixa preta” põe em cena os
processos introspectivos como processamento de informação. E por conseguinte coloca o
problema da acurácia dos relatos introspectivos. A introspecção para eles está a serviço da
auto-observação, no sentido de uma relação representacional pelo sujeito da sua experiência.
A colocação do problema da acurácia, a nosso ver, afirma isso.
O próprio Bruno Latour (2001), ao qual eles fazem referência, coloca o problema de
abrir a “caixa preta” para revelar o problema da referência nos estudos científicos. Latour
(2004), no entanto, contrapõe à noção de acurácia a noção de articulação. A noção de
articulação responde diferentemente da noção de acurácia ou de representação à questão da
referência científica. A representação é o modelo clássico da referência. Um sujeito articulado
é alguém que aprendeu a ser afetado pelos outros; articulado é ser afetado pelas diferenças.
Segundo Latour, a vantagem decisiva da idéia de articulação sobre a de acurácia é que para a
acurácia há fim (o conhecimento acaba na boa representação), ao passo que para a articulação
não fim “quanto mais contrastes você acrescenta, a mais diferenças e mediações você se
torna sensível. [...] Quanto mais você articula controvérsias, mais amplo o mundo se torna”
(LATOUR, 2004: 211). Neste caso, a investigação da experiência se coloca como uma
questão de articulação e de ser afetado pelas diferenças, diferentemente de uma questão de
representação.
4.3. Atenção a si na Neurofenomenologia e na Fenomenologia pragmática
Para o projeto da Neurofenomenologia, o problema da metodologia de primeira pessoa é
como tornar subjetivamente acessível e descritível a dimensão corporificada e processual da
120
experiência, em grande parte pré-refletida (VARELA, 1996a; LUTZ E THOMPSON, 2003;
THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005). A investigação sistemática e disciplinada da
experiência visada por esse projeto pretende acessar a experiência em sua dimensão
corporificada, isto é, como um sujeito corporifica uma situação cognitiva qualquer, e que lhe
configura, de um ponto de vista fenomenal (vivido), um mundo próprio. Mas essa experiência
corporificada é também estrutura/organização, ela é constituída por certos atos ou processos
que dão emergência aos conteúdos mentais. E são esses atos e processos, essencialmente pré-
refletidos, que a pesquisa Neurofenomenológica visa conhecer, de forma a colocá-los em
correlação com os dados referentes aos processos neurais e comportamentais.
Um exemplo dessa proposta de pesquisa é o estudo piloto (LUTZ, LACHAUX, ET AL,
2002; LUTZ E THOMPSON, 2003; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI, 2005) que
investigou a correlação das variações na experiência subjetiva com os dados da neuro-imagem
para uma tarefa de percepção ilusória em três dimensões. Nesse experimento os sujeitos eram
apresentados a um padrão de pontos aleatórios, no qual eles deviam se fixar por alguns
segundos. Os sujeitos deviam apertar um botão tão logo uma imagem em três dimensões
houvesse emergido completamente. O tempo de reação ao apertar o botão era registrado. Ao
longo do teste sua atividade cerebral era mapeada através de um eletroencefalograma (EEG).
Imediatamente após acionar o botão os sujeitos davam um breve relato verbal sobre a sua
experiência. Nesse relato eles descreviam suas experiências usando categorias fenomenais que
eles haviam discriminado durante a sessão de treinamento, anterior ao experimento
propriamente dito. O objetivo da sessão de treinamento era melhorar a discriminação
perceptual dos sujeitos e capacitá-los a explorar cuidadosamente as variações da sua
experiência subjetiva durante repetidas exposições à tarefa. Para isso, eles eram instruídos a
direcionar a sua atenção para os seus próprios processos mentais durante a tarefa e sentir a
121
qualidade da emergência da imagem em três dimensões. Dessa forma, o experimento envolvia
a coleção simultânea de dados de primeira pessoa (relatos verbais
introspectivos/retrospectivos) e de dados de terceira pessoa (registros eletrofisiológicos e
medidas comportamentais de tempo de reação).
Os relatos verbais descritivos da experiência dos sujeitos foram agrupados de acordo
com fatores comuns a respeito do grau de preparação sentido pelos sujeitos e da qualidade da
percepção sentida na emergência da imagem em 3D. Foram formuladas então três categorias:
prontidão estável (Steady Readness), prontidão fragmentada (Fragmented Readness) e
despreparado (Unreadness). A hipótese era que essas distintas características da experiência
subjetiva estariam correlacionadas com distintos sinais da dinâmica neural. No estado de
prontidão estável os sujeitos relataram estar bem preparados para a apresentação do estímulo,
com uma sensação de continuidade quando a estimulação ocorreu e uma impressão de fusão
entre ele e o percepto em 3D. Corroborando a hipótese, os registros da atividade cerebral
mostraram uma estável sincronização do conjunto neural que era mantida ao longo do teste,
correlacionando com a impressão subjetiva de prontidão e de continuidade; neste caso o
tempo de reação foi rápido (300 ms em média). Por sua vez, no estado despreparado os
sujeitos relataram estar distraídos e tendo uma forte sensação de descontinuidade no fluxo de
seus estados mentais. Quando o estímulo (imagem 3D) foi apresentado, eles descreveram uma
clara impressão de diferenciação entre eles e o percepto. Também corroborando a hipótese, no
estado despreparado nenhuma sincronização estável pode ser distinguida na média, e quando
a emergência da imagem em 3D ocorreu revelou-se uma fraca sincronização e massiva
dessincronização entre as áreas frontais e posteriores do cérebro. Essa descontinuidade da
dinâmica cerebral foi correlacionada com a impressão subjetiva de descontinuidade. Além
disso, neste caso o tempo de reação foi mais longo (600 ms na média). Lutz e Thompson
122
(2003) extraem três conclusões dessa pesquisa: a) os dados sobre o contexto subjetivo podem
ser correlacionados aos padrões de sincronização medidos pelo EEG; b) os estados de
preparação e percepção modulam as repostas comportamentais e neurais após o aparecimento
da figura em 3D; c) esses dados da experiência ajudam a tornar inteligíveis as respostas
neurais.
Referendados na fenomenologia, Lutz e Thompson (2003) afirmam que a experiência
envolve não simplesmente a consciência (awareness) de seu objeto (noema), mas também a
consciência tácita de si mesma como processo (noese). Por exemplo, quando alguém
conscientemente um objeto, ele é ao mesmo tempo pré-refletidamente ciente (aware) de
seu próprio ver, a qual não requer do sujeito qualquer ato de reflexão ou introspecção, que não
consiste em formar juízos, mas ocorre simultaneamente com a awareness do objeto. Eles
dizem que essa tácita awareness tem sido explicada como envolvendo uma forma de auto-
consciência corporificada e não objetiva (non-objective bodily self-awareness). Desse modo, a
distinção entre noema e noese equivale a diferença entre consciência-conteúdo e consciência-
processo.
A tácita awareness do lado noético da experiência também nos ajuda a entender esse
sentido subjetivo de “eu” (I-ness ou self) que acompanha os atos cognitivos como eu sinto
que aquilo que eu falo ou faço é formado em (minha) perspectiva particular e pertence ao
(meu) organismo individual (LUTZ E THOMPSON, 2003; THOMPSON, LUTZ E
COSMELLI, 2005). Contudo, essa tácita awareness de “eu”, também denominado “eu
mínimo ou básico” (“minimal selfou core self”), deve ser distinguido do eu narrativo ou
autobiográfico, este que se apresenta de forma mais imediata à nossa consciência quando
descrevemos a nós mesmos. Outro trabalho que coloca essa questão é o de Johannes Roessler
(2000), que tematiza a experiência da auto-consciência e sua relação com a atenção. Segundo
123
Roessler a atenção polariza a consciência entre um objeto de atenção e uma consciência não
projetada, como um plano de fundo não atendido. É com este plano de fundo que se identifica,
segundo ele, o eu (self) experiencial, que é por isso temporalmente e espacialmente estendido.
A auto-consciência experiencial não é consciência de um objeto, ela não expressa
conhecimento teórico ou proposicional, e não envolve referência a uma pessoa particular.
No estudo piloto citado acima, o foco da investigação era o jogo dinâmico entre noese e
noema, entre o contexto subjetivo que conduz à percepção e o próprio evento perceptual.
Assim, a investigação em primeira pessoa mostrou como o contexto subjetivo (noese), que
antecede o aparecimento do objeto perceptual (figura em 3D), modula o modo como esse
objeto perceptual aparece (noema) ou como ele é experiencialmente vivido durante o
momento da percepção consciente. Por sua vez, o conteúdo (noema) deste estado consciente
pode reciprocamente afetar o fluxo da experiência subseqüente (como processo noético). Este
jogo noético-noemático reflete a causalidade circular ou a dinâmica temporal, auto-
organizada, dos processos conscientes, correlatos à dinâmica do sistema cerebral, afirmam
Lutz e Thompson (2003). Essa é uma questão importante levantada por eles: o caráter
integrado, lábil, auto-referencial e espontâneo dos processos conscientes. A compreensão
desse caráter depende de uma abordagem da consciência que não perca de vista sua natureza
essencialmente corporificada e processual. Por isso, Varela (1996a; VARELA, THOMPSON
E ROSCH, 1992) defende que o estudo da experiência deve ser feito a partir de uma
exploração empírica e disciplinada, em contraposição a uma abordagem abstrata e teórica.
Essa dimensão corporificada e processual da experiência é em grande parte pré-refletida,
por isso a sua investigação requer uma metodologia de primeira pessoa. Lutz e Thompson
(2003) definem os métodos de primeira pessoa como práticas disciplinadas que os sujeitos
podem usar para aumentar a sua sensibilidade a sua própria experiência gradualmente. Essas
124
práticas envolvem sistemático treinamento da atenção e da auto-regulação emocional. Essa
definição de metodologias de primeira pessoa é fundamentada, segundo eles, na tradição da
fenomenologia, da meditação budista, da psicoterapia. A relevância dessas tradições para a
Neurofenomenologia é a capacidade para uma auto-consciência (self-awareness) atenta que
elas sistematicamente cultivam. Essa capacidade possibilita que esses aspectos pré-verbais e
pré-refletidos da experiência subjetiva, que de outra forma permaneceriam tácitos, possam
tornar-se subjetivamente acessíveis e descritíveis. Assim como na redução fenomenológica, o
problema metodológico da Neurofenomenologia é redirecionar a atenção para a fonte dos
processos mentais, para o que está emergindo como objeto/conteúdo, e não para o objeto em
si (VARELA, 1996a; LUTZ E THOMPSON, 2003; THOMPSON, LUTZ E COSMELLI,
2005).
Lutz e Thompson (2003) citam três desafios enfrentados pelas metodologias de primeira
pessoa: 1) os relatos de primeira pessoa podem ser parciais ou não acurados; 2) o processo
introspectivo pode modificar a experiência visada; 3) como relacionar a experiência subjetiva
aos processos fisiológicos e comportamentais. Esse terceiro desafio é solucionado pela
Neurofenomenologia com a resposta ao explanatory gap”. em relação aos dois primeiros,
Lutz e Thompson afirmam que o aumento da sensibilidade do sujeito a sua própria
experiência, promovido pelas metodologias de primeira pessoa, intensificam a auto-
consciência de modo que tais métodos tornam-se menos intrusivos, mais estáveis e
espontâneos. Dessa forma, os métodos de primeira pessoa podem gerar relatos descritivos
mais refinados e estáveis, características necessárias para que eles possam ser compartilhados
intersubjetivamente e postos em relação com os dados comportamentais e cerebrais.
Lutz e Thompson ressaltam a importância da intersubjetividade nesse refinamento dos
relatos descritivos (eles citam Jack e Roepstorff neste ponto). Os autores também citam o
125
problema do compartilhamento da experiência, que requer a adoção de um quadro de
referência comum. Para o estabelecimento desse quadro de referência é necessário tanto a
posição de primeira pessoa, da atenção à própria experiência (compartilhada), quanto à
posição de segunda pessoa, que auxilia nessa pesquisa interna:
O sujeito precisa ser motivado a cooperar com o pesquisador e empaticamente compreender
suas motivações; e reciprocamente o pesquisador precisa facilitar as descobertas do sujeito
sobre a sua experiência. Sem esta reciprocidade, sem esta troca assentada na empatia, não há
obtenção de dados refinados de primeira pessoa (LUTZ E THOMPSON, 2003: 40).
Mas o problema da segunda pessoa na Neurofenomenologia não nos parece ser colocado
da mesma forma que em Jack e Roepstorff. A abordagem instrução-relato enfatiza o papel de
instrutor (de quem as instruções e prepara para o experimento) do pesquisador, ao passo
que Varela e Shear (1999a) e Lutz e Thompson (2003) enfatizam mais na segunda pessoa seu
papel de mediador no acesso à experiência, na pesquisa em primeira pessoa. De acordo com
Varela e Shear (1999a) o mediador é excêntrico em relação à experiência vivida por outro,
entretanto ele assume a posição de quem esteve em alguma medida e assim fornece
pistas e treino para o acesso em primeira pessoa.
Essa noção de relatos descritivos mais estáveis e refinados não pressupõe que as
metodologias de primeira pessoa sejam infalíveis, ao mesmo tempo em que não se trata de
uma perspectiva acrítica sobre a introspecção. Tendo em vista afirmações sobre o caráter
plástico e mutável da experiência, não parece, a nosso ver, que na Neurofenomenologia o
problema das metodologias de primeira pessoa seja a acurácia. Segundo Lutz e Thompson:
“Qualquer um que adquiriu uma habilidade cognitiva nova (como a fusão estereoscópica,
degustador de vinho, ou uma segunda linguagem) pode atestar que a experiência não é fixa,
126
mas dinâmica e plástica” (LUTZ E THOMPSON, 2003: 39). Eles afirmam a respeito do
aumento da sensibilidade à própria experiência promovida pelas metodologias de primeira
pessoa, “tal desenvolvimento implica que a experiência está sendo treinada e reformada”
(LUTZ E THOMPSON, 2003: 47). E completam afirmando que necessariamente não
qualquer inconsistência entre alterar e transformar a experiência (do modo visado) e ganhar
insight sobre a experiência através de tal transformação. Como dizem Lutz e Thompson, essa
crítica sobre a parcialidade e falibilidade das metodologias de primeira pessoa pressupõe o
acesso a uma experiência “pura”, estática, não treinada. A nosso ver, a posição epistemológica
de Lutz e Thompson aqui se aproxima da abordagem de Latour, bem como da pragmática da
experiência afirmada por Varela e Shear:
experiência humana não é um domínio fixo e pré-determinado. Ao invés disso, ela é
mutante, mutável e fluida. Se alguém sofrer um treinamento disciplinado em performance
musical, as novas habilidades adquiridas de distinção de som, de sensibilidade às expressões
musicais e ao conjunto musical, são inegáveis. [...] Tudo o que nós temos é experiência no
seu próprio nível de exame, e dependendo dos tipos de esforços e métodos empregados. Ela
move e muda, e sua exploração é parte da vida humana, embora geralmente com outros
objetivos que compreender a experiência mesma (VARELA E SHEAR, 1999a: 14).
O aumento da sensibilidade da experiência a si própria, o “despertar da experiência para
si própria” como definem Lutz e Thompson, não visa acessar uma experiência “pura” e
independente, mas sim estabilizar sua plasticidade e traduzir a experiência em relatos
descritivos mais precisos, que possam ser colocados em relação com os dados de terceira
pessoa. uma aparente contraposição: não experiência estática a ser acessada, ao mesmo
tempo em que se busca estabilizar a experiência e obter relatos mais precisos que possam ser
corroborados intersubjetivamente, como se fossem representações objetivas da experiência.
Mas o que a abordagem pragmática de Varela e Shear nos leva a pensar é que essas categorias
descritivas, por mais estáveis e precisas que sejam, não podem ser vistas como representações
127
fortes da experiência, pois, a experiência acessada e descrita não existe independente dos
esforços e métodos empregados, independente do observador, que co-emerge com ela assim
como o músico co-emerge com a experiência musical
19
. É nesse sentido que, a nosso ver, a
atenção a si nas metodologias de primeira pessoa, ainda que visem acessar e relatar categorias
refinadas e precisas da experiência, o que implicaria um processo de auto-observação, implica
de fato um processo de auto-produção. Pensamos que essa abordagem pragmática das
metodologias de primeira pessoa foi desenvolvida por Depraz, Varela e Vermersch (2000,
2003) com a proposta de uma fenomenologia pragmática. Vejamos.
Varela (1996a) encontra na redução um método sistemático para explorar de forma
disciplinada a experiência. Varela propõe assim um uso da redução no interior das ciências
cognitivas, como uma fonte de dados empíricos de primeira pessoa. Mas, isso implica investir
na fenomenologia como uma prática, possível de ser operada por um agente concreto numa
situação de pesquisa. Esse investimento ele propõe num trabalho conjunto com Depraz e
Vermersch (2000, 2003). Eles afirmam que Husserl não abordou a redução como um método
concreto, ressaltando as dificuldades e obstáculos na sua realização. É isso que Depraz,
Varela e Vermersch buscarão com a proposta de uma fenomenologia pragmática. Eles buscam
descrever como o método da redução é corporificado por um sujeito, ao invés de ser apenas
uma interpretação ou compreensão teórica do trabalho de Husserl “a fenomenologia
reivindicada aqui se caracteriza por seu funcionamento concreto, sua dimensão operatória,
processual ou performativa, logo, sua práxis, muito mais do que por sua sistemática teórica
interna, sua visada de conhecimento e de justificação a priori e apodíctica dos conhecimentos”
(DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2000: 165). Num trabalho intitulado “Redução
19
A esse respeito é interessante a observação de Velmans (1999), problematizando a dicotomia entre
investigação subjetiva x investigação objetiva: os fenômenos são objetivos no sentido de que eles são
intersubjetivos, assim como os procedimentos são objetivos na medida em que são bem especificados e então
realizáveis por todos, contudo, eles não são objetivos no sentido de independentes do observador; e isso se aplica
tanto aos estudos da consciência quanto à física.
128
fenomenológica como práxisNatalie Depraz afirma: “É importante perguntarmos para nós
mesmos hoje novamente em que medida o gesto de redução não é simplesmente um método
formal tornando possível uma análise teórica, (...), mas é totalmente enraizado numa práxis
efetiva que produz acesso intuitivo à experiência interna” (DEPRAZ, 1999: 97).
Nessa abordagem pragmática, descrever a redução é inseparável de sua efetuação. Nesse
sentido, não se trata de descrever uma teoria baseada em argumentos a priori sobre a redução,
mas sim de se engajar numa lógica exploratória, em que se descobre o que se relaciona com a
questão a partir de sua práxis. Segundo Depraz, Varela e Vermersch (2003), o conceito
aristotélico de práxis corresponde a uma atividade imanente, que contém nela mesma seu
próprio fim, e não precisa de um esquema preparado
20
. o conceito marxista de práxis, de
acordo com os mesmos autores, corresponde à atividade humana, às transformações materiais
e sociais da natureza e da sociedade, pelo qual o processo mesmo de conhecimento e de
teorização é incluído no interior de uma apropriação prática pelo mundo e pelo eu (self). Os
autores também afirmam que a práxis implica mudança do mundo e de si mesmo pela ação
concreta. Dessa forma, com Marx, o mito de um conhecimento puramente contemplativo ou
representacional desaparece, já que toda teoria tem sua própria dinâmica baseada numa
prática, mesmo no caso de uma prática teórica. Depraz (1999) afirma que a redução abriga
uma tensão (circularidade) entre o prático e o teórico, entre a contemplação e a ação: por um
lado a redução é um ato efetivo, uma operação imanente, uma práxis, e, por outro, ela é um
20
Depraz, Varela e Vermersch (2003) distinguem práxis, pragmatismo, prática (practice), praticantes
(practioners) profissionais (les praticiens) e praticantes espirituais (les pratiquants). O pragmatismo é uma
corrente para a qual a verdade consiste no sucesso, eficácia e funcionalidade da ação realizada. A prática possui
dois sentidos. Na filosofia ela é frequentemente associada com a ética e a moral: o que é feito a luz de um
critério ético; neste sentido, ela é ligada apenas à decisão anterior a ação, e não aos resultados da ação (o que
difere do pragmatismo). Já para a Psicologia aplicada, prática designa fazer alguma coisa, a realização de uma
tarefa. O praticante profissional se refere aquele com domínio de um saber-fazer profissional, e cujo trabalho é
medido em termos de seu “sucesso prático”: professores, psicoterapeutas, artesãos, atletas, etc. Já o praticante
espiritual não se refere tanto a um saber-fazer profissional, e sim designa quem quer que invista concretamente
um ritual religioso corporificando-o em gestos e atitudes específicas, quem quer que, por exemplo, ponha em
prática técnicas específicas de um dado caminho meditativo.
129
estado, um modo de auto-observação, uma atitude que me coloca na posição de um
espectador da própria experiência.
Depraz, Varela e Vermersch também citam a teoria da enação para sustentar essa
abordagem pragmática “o que imediatamente nos leva ao coração do método privilegiado
neste trabalho: descrever o processo de devir consciente a partir de sua própria enação,
descrevê-lo como ele é realizado” (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003: 155). Eles
destacam na enação o fato de que a cognição é sempre assentada numa ação concreta e
corporificada O mundo não é algo que é dado a nós: ele é algo no qual nos engajamos pelo
modo como movemos, tocamos, respiramos e comemos” (DEPRAZ, VARELA E
VERMERSCH, 2003: 156). A atividade cognitiva não depende das formas simbólicas
abstratas: não basta conhecer as regras da gramática para operar a produção de sentenças,
assim como não basta conhecer as regras acerca de como se anda de bicicleta para andar de
fato de bicicleta. Ambas as atividades dependem de um saber-fazer, de uma corporificação da
ação por parte do sujeito. A redução é uma prática e sua efetuação não pode ser aprendida nos
livros, não se prestando a uma aprendizagem teórica ou simbólica (KASTRUP, 2004). Como
buscamos discutir nos capítulos anteriores, realizar uma pesquisa, do ponto de vista
metodológico, não se resume a conhecer e obedecer às regras de um protocolo, pois a
realização concreta deste depende de como ele é efetivamente posto em ato (enagido) pelo
sujeito, de como ele é encarnado. É esta mesma questão, que leva a necessidade de incluir
uma metodologia de primeira pessoa nos estudos da cognição, que estamos buscando colocar
para as próprias metodologias de primeira pessoa.
Essa abordagem pragmática da redução feita por Depraz, Varela e Vermersch visa a
redução não apenas como um método para se explorar a experiência, mas, como sendo a sua
práxis ela mesma uma experiência. E ao se operar a redução, essa experiência se apresenta
130
como um processo de devir da consciência. É no interior desse problema do devir consciente,
“que visa retomar as diferentes etapas do processo pelo qual advém à minha consciência clara
alguma coisa de mim mesmo que me habitava de modo confuso e opaco, efetivo, imanente,
logo, pré-refletido” (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2000: 166), que os autores
descreverão a prática da redução. Mas, sendo assim, o próprio problema do devir consciente
não comporta resposta a priori, depende de uma práxis efetiva. Depraz, Varela e Vermersch
(2003) fornecem então exemplos de diferentes práticas em que se realizam diferentes tomadas
de consciência, ou, em outros termos, diferentes settings que corporificam diferentes
experiências: introspecção guiada (entrevista de explicitação), Shamatha (sessão de
meditação), visão estereoscópica, oração do coração (tradição ortodoxa), sessão de
psicanálise, sessão de escrita, início de curso de filosofia.
De fato, Depraz, Varela e Vermersch (2003) apresentam essas práticas como exemplos
situados e corporificados da estrutura geral do processo de tomada de consciência. Essa
estrutura geral é chamada ciclo básico. Ela é constituída por três fases entrecruzadas. Uma
etapa de suspensão da atitude natural, atitude judicativa com a qual normalmente nos
voltamos para o mundo, e que caracteriza uma atitude de controle. Uma segunda etapa de
redireção da atenção do “exterior” para o “interior”. E uma terceira etapa de mudança da
qualidade da atenção, de acolhimento da experiência, chamada “deixar-vir” (lacher prise). A
incorporação dessas três fases, durante a prática da redução, possui efeitos constitutivos de si.
Eles afirmam: “Husserl permanece ligado à busca pelo conhecimento e não produz uma ética
como tal, entretanto, a ênfase na atitude de suspensão pode ser interpretada como um ethos
geral da vida e conhecimento” (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003: 26). E num
outro trecho eles acrescentam, afirmando acerca do aprendizado do devir consciente:
131
é aprender a praticar a relação consigo mesmo, aprender a escutar a si mesmo, aprender o
deixar-vir que supõe a aceitação do preenchimento não imediato que sempre segue ao gesto
de suspensão. (...) a prática de atender a sua experiência subjetiva implicará a sua pessoa
inteira, desde que será uma questão de trabalhar sobre a sua própria auto-relação, sobre os
detalhes de sua própria experiência (DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2003: 101).
A suspensão e a redireção da atenção pressupõe a saída de uma posição de controle,
mais voltada para o agir e a vida prática. Na atitude natural nossa atenção está voltada para a
vida prática. Ela se engaja na percepção dos outros, na apreensão de informações provenientes
do mundo, na busca de objetivos. Como diz Depraz, Varela e Vermersch (2000, 2003), a
atenção é naturalmente interessada no mundo, ela não se desvia dele espontaneamente de
forma alguma, pois o efeito de captação é irresistível. Essa atenção direcionada para si, e
desviada ou desinteressada do mundo, é muito inabitual, na medida em que relativamente
poucas ocasiões de exercê-la espontaneamente ou em resposta a uma demanda educativa.
Ainda segundo eles, a teoria de Piaget sobre a abstração refletinte havia demonstrado a
pregnância sobre a atenção das informações positivas, isto é, das informações diretamente
perceptíveis em sua presença material a mim. A atitude de controle também está ligada ao
engajamento na ação. Para quem é iniciante, e não está acostumado com a prática da atenção
a si é preciso suspender o investimento no agir. Esse não agir é no princípio literal,
permanecer em uma posição sentada, em uma atitude de escuta atenta, ou ainda deitado no
divã. É por isso que segundo Depraz, Varela e Vermersch, essa ênfase na idéia de suspensão
da atitude de controle conduz ao uso de uma linguagem que é aquela do relaxamento, da
entrega ou do deixar-vir (lacher-prise).
A redireção da atenção não visa comentários ou imagens internas, ele se volta para a
fonte dos processos mentais, para o que está emergindo como objeto/conteúdo, e não para o
objeto em si. Essa é uma questão importante tendo em vista a pregnância das informações
positivas sobre a atenção. De acordo com Depraz, Varela e Vermersch (2000; 2003), Husserl
132
concebe essa redireção ou conversão da atenção como uma mudança de atitude na relação que
eu entretenho com o mundo, no sentido de uma conversão do interesse natural dedicado ao
objeto, em direção ao ato que me permite acessá-lo. É assim que se coloca o movimento
mesmo da redução fenomenológica como conversão do objeto ao ato, ou como passagem da
coisa (quod) ao modo dela (quomodo). a mudança da qualidade da atenção, e a atitude de
“deixar vir” pressuposta por ela, é definida pela manutenção da tensão entre um ato de
atenção sustentada e um não preenchimento imediato. uma espera sem conhecimento do
conteúdo que vai se revelar, o que é diferente da atitude do caçador imóvel, o caçador
paciente e vigilante sabe o que ele espera. Essa atitude do “deixar vir” supõe uma espera não
focalizada e por isso aberta, normalmente descrita como ausente de alguma discriminação
imediata, como “não há nada”, “é uma névoa”, “é confuso”.
Mas, apesar de Depraz, Varela e Vermersch descreverem um ciclo básico comum aos
diferentes settings citados, a nosso ver, é importante destacar como o processo de atenção a si
é encarnado de forma diferente e enseja diferentes experiências em cada um desses contextos.
Neste caso, talvez seja importante ressaltar como o ciclo básico se apresenta concretamente de
forma diferente em cada um dos settings, conforme descrição de Depraz, Varela e Vermersch
(2003). Os suportes para a redireção da atenção variam em cada caso. Na Samatha esse
suporte pode ser manter a atenção na respiração ou numa imagem mental. Na entrevista de
explicitação é buscar um passado concreto e singular. No curso de filosofia é o encontro com
um obstáculo interno, que nos faz manter continuamente a atenção sobre a questão. Na oração
do coração é a dificuldade para conciliar o fio da oração com o da respiração (a oração
consiste em dizer “Senhor Jesus Cristo” durante a inspiração, e “tende piedade de nós”
durante a expiração).
133
Pensamos que enquanto atividade enativa essa atenção a si é marcada por um modo de
sentir e agir. Na Samatha, o movimento em direção a respiração é também um sentir a própria
respiração, assim como um sentir a si mesmo atentando para a respiração; o sujeito pode se
incomodar e querer controlar a respiração, pensar sobre, nesse caso a redireção não é
acompanhada da suspensão e sim de uma atitude de busca. Na entrevista de explicitação,
reviver um passado singular e concreto não é imediato, o sujeito pode se esforçar para lembrar
ao sentir que a sua lembrança não é clara, ele pode se sentir frustrado ao não conseguir
lembrar e querer desistir da tarefa.
Também a mudança da qualidade da atenção apresenta diferentes modalidades. Na
entrevista de explicitação ela se apresenta como uma diminuição do ritmo da fala. Na oração
do coração como a contemplação dos pensamentos à distância. Na sessão de psicanálise e na
pesquisa filosófica como a espera por um sentido. No Samatha avançado como a
intensificação e estabilização da atenção. Neste caso, sustentar a atenção na respiração,
acompanhado do gesto de suspensão, pode nos levar a sentir uma intensificação e clareza da
experiência (WALLACE, 1999, 2008), ou uma amplitude da mente (VARELA, THOMPSON
E ROSCH, 1992), na qual a fronteira entre interno e externo se apagam. Na entrevista de
explicitação, o sujeito começa a sentir que a lembrança vem até ele, ele passa a adotar uma
posição mais receptiva, de acolhimento da experiência encarnada.
A produção do gesto inicial de suspensão também varia. Na visão estereoscópica ela
pode ser por uma atitude corporal ou pela resistência à conclusão da tarefa. Na Samatha, pode
ser produzida por uma paralisação da fala, por uma mobilização individual, ou por uma
atitude cognitiva prescrita. Além disso, Depraz, Varela e Vermersch (2000, 2003) também
afirmam que a suspensão pode ser acionada por acontecimentos como o encontro com a morte
de outrem ou a surpresa estética. Portanto, se Depraz, Varela e Vermersch enfatizam em tais
134
exemplos a estrutura geral do ciclo básico, nós queremos enfatizar a diferença, isto é, como o
ciclo básico (e a atenção a si) é acionado de forma diferente por contextos diferentes, dando
ensejo a corporificações e experiências diferentes. E mesmo efeitos produtores de si
diferentes. Existencialmente, não é a mesma coisa o praticante da oração do sagrado coração,
da meditação budista, da psicanálise, da visão estereoscópica.
4.4. Atenção a si na Entrevista de Explicitação
Vermersch (1994) define uma técnica de entrevista como um conjunto de práticas de escuta
baseadas em grades de referências sobre o que é dito e de técnicas de relances (questões,
reformulações, silêncios, ...) que visam acompanhar e ajudar a verbalização de um domínio
particular da experiência. A entrevista de explicitação busca questionar em detalhes sem
induzir o conteúdo das respostas. Seu objetivo é obter a verbalização da ação, no sentido da
descrição do desenrolar concreto e vivido da ação que realiza uma tarefa real. Mas, a
entrevista de explicitação busca levar em conta a descrição do vivido pelo sujeito pondo em
questão os limites daquilo que ele é ou não consciente. O problema é que normalmente o
sujeito não está consciente de como ele procede para realizar uma ação, trata-se de um
conteúdo primariamente pré-refletido. Sendo assim, torna-se possível e necessário um método
para acessar e descrever esse conteúdo da experiência. Daí entrevista de explicitação:
explicitar esse conteúdo pré-refletido.
A nosso ver, a proposta da entrevista de explicitação está ligada ao campo para onde
está voltado o trabalho de Vermersch, o da psicologia aplicada (psicoterapeutas, educadores,
treinadores, etc). O problema nesse campo é que a intervenção precisa ter em conta como o
sujeito opera sua cognição. A revelação das propriedades cognitivas ligadas ao uso próprio
que o sujeito faz de sua cognição é importante para essas ocupações voltadas à formação e
135
treinamento, pois a intervenção precisa atuar sobre esse domínio subjetivo. Como dizem
Varela e Shear, “...a experiência nas práticas humanas é o ponto de entrada privilegiado para
mudança mediada por intervenções profissionais de todos os tipos...” (1999a: 4). No entanto,
ainda que o sujeito saiba realizar a tarefa, ele não está consciente de como ele procede ou “se
conduz” para realizá-la. Em geral, o sujeito apenas está consciente dos objetivos e resultados
alcançados.
Vermersch (2000) afirma que a idéia diretriz de seu trabalho é visar toda questão
relativa à consciência como devendo ser posta em relação ao conscientizável
(conscientisable). Segundo Vermersch (1997), o vivido não é automaticamente consciente
(conscientisé), ele é somente conscientizável sob a mediação de uma perícia. Para Vermersch
(1994) nosso vivido existe em ato, ele é largamente pré-refletido, ao mesmo tempo
transparente e opaco para aquele que o vive. Ou seja, é um conhecimento em ato ou
conhecimento autônomo, com o qual podemos reconhecer que o sujeito opera sem
necessariamente passar por uma conceitualização ou reflexão. Por exemplo, uma dimensão
significativa da atividade de escrita é em ato ou pré-refletida (VERMERSCH, 2004;
PETITMENGIN, 2006b). Isto é, eu não estou consciente do contato de meus dedos sobre a
caneta, da tensão em minhas costas, da rápida sucessão de imagens, juízos, comparações,
emoções, etc, que constituem minha atividade de escrever. Mas, ainda que eu não tenha uma
consciência plena desse micro-mundo, ele não é completamente não consciente para mim.
Vermersch (2000) usa a formulação paradoxal posso estar consciente de alguma coisa da
qual eu sou inconsciente”. Essa inconsciência é uma consciência sob um outro modo,
“consciência em ato” na linguagem piagetiana ou “consciência pré-refletida” numa linguagem
fenomenológica. Vermersch usa as expressões “ante-predicativo” ou “não posicional de si
mesmo” para se referir a esse modo pré-refletido da consciência, de forma a reafirmar o seu
136
estatuto de ser anterior à operação refletinte. Assim, para Vermersch toda questão relativa à
consciência deve ser posta em relação à possibilidade de fazer aceder à consciência refletida o
que não o é ainda.
Essa dimensão pré-refletida pode ser posta em palavras pelo sujeito através da operação
refletinte. A atividade refletinte caracteriza a introspecção para Vermersch (1999). É preciso
enfatizar que na entrevista de explicitação tornar refletido não equivale à reflexão. Segundo
Vermersch (2004, 1994) a reflexão (réflexion) é um retorno sobre o que é refletidamente
consciente, ela tem por objeto conceitos e símbolos que são reorganizados junto a outros
conteúdos simbólicos, ou seja, trata-se de um movimento no plano da representação.
Fundamentado na obra de Piaget, Vermersch (1997, 1994) distingue da reflexão a atividade
refletinte (réfléchissant) pela qual nós conduzimos à consciência refletida o que era apenas
pré-refletido. Um processo fundamental constitutivo da atividade refletinte é a reverberação
(réfléchissement). A reverberação do vivido pressupõe uma mudança qualitativa, trata-se da
passagem ou mudança de um plano para um outro plano, por exemplo, do plano da ação (pré-
refletida) para o da representação. Daí a idéia de reverberação, reverberação de um plano para
outro plano, diferente do modelo do espelho, pois não é um reflexo passivo. Segundo
Vermersch, a reverberação não é uma simples transferência mecânica, ela é a criação de uma
nova realidade (realidade psíquica representada) o que o sujeito põe em palavras a partir da
reverberação do vivido jamais existiu antes sob esta forma. A reverberação é a criação de uma
realidade psicológica que não existia, formalmente, antes” (VERMERSCH, 1994: 102).
Mas, a atividade refletinte como método de investigação da experiência requer um
domínio que é muito contra-habitual. Por isso Vermersch (1999) afirma que a introspecção é
difícil, é técnica, ela demanda aprendizagem, requer o desenvolvimento progressivo de uma
genuína perícia. Esse lado técnico é ocultado pela aparente evidência de nossa experiência
137
subjetiva, pela aparente facilidade com que é possível obter algumas informações sobre
nossos estados internos, nossas emoções, nossos pensamentos. Facilidade essa que demonstra
ser falaciosa tão logo se tenta obter descrições mais detalhadas e ganhar acesso à experiência
subjetiva de maneira mais estável e precisa.
Uma solução destacada por Vermersch (1999; 2004) para contornar essa dificuldade
técnica é a inclusão de uma perspectiva de segunda pessoa, onde entra a questão da técnica de
entrevista. Nesse caso, importa a perícia do pesquisador/entrevistador em conduzir (sem
induzir a resposta) o sujeito/entrevistado na exploração de sua experiência. Segundo
Vermersch, o sujeito verbaliza menos sozinho do que ele pode verbalizar com a ajuda de uma
mediação. Paradoxalmente o problema aqui é que o sujeito fornece, implicitamente, mais
informações do que ele tem o projeto de comunicar. Essas informações implícitas são
principalmente de ordem não verbal, como os gestos que mimetizam as ações materiais e
mentais de modo não literal. A presença de um entrevistador que detecte esses indicadores
implícitos permite a formulação de relances sobre essas informações, ajudando na produção
de uma descrição mais precisa e completa. O entrevistador também ajuda a regular os
momentos em que o sujeito está exprimindo um saber refletido ou está na atividade refletinte.
Por ter em conta essa dificuldade técnica na realização da introspecção, Vermersch
emprega a entrevista de um modo diferente daquele normalmente feito pela psicologia. O
emprego difundido que a psicologia faz das entrevistas e questionários apreende o ponto de
vista do sujeito sem saber como ele produz as respostas que lhe são demandadas. Por sua vez,
a entrevista de explicitação busca compreender e observar os atos e as condições de realização
desses atos que presidem a produção das respostas (VERMERSCH, 2004). Ela problematiza a
geração dos relatos verbais, avalia o que é verbalizado em relação ao conteúdo da experiência
138
visada pela verbalização (VERMERSCH, 1997). Nesse sentido, a técnica da entrevista de
explicitação visa intervir nas condições de explicitação do vivido (pré-refletido) pelo sujeito.
Essa é uma posição crítica em relação à atitude padrão da psicologia cognitiva, que
afirma que a maior parte dos processos cognitivos são automáticos e não conscientes, ou seja,
por natureza são inacessíveis à consciência do sujeito pois trata-se de um nível sub-pessoal
(ASHCRAFT, 1994; BEST, 1996). Contudo, afirma Vermersch (2004; 1999), não é porque
uma parte dos processos cognitivos é inacessível à introspecção que isso invalida o interesse
científico por tudo o que lhe é acessível. Para Vermersch é sempre necessário perguntar de
quais processos cognitivos é o sujeito consciente, de quê precisamente o sujeito é consciente,
e quais relações existem entre isso de que ele é consciente e isso de que ele não é consciente
(relações essas trabalhadas, por exemplo, pela Neurofenomenologia). Como ele diz, seria
paradoxal produzir uma teoria geral da consciência sem saber dizer do quê o sujeito é
consciente ou pior, dizendo, no seu lugar, do quê ele é (deveria ser?) consciente”
(VERMERSCH, 2004: 36). Quando a psicologia cognitiva define que a maior parte dos
mecanismos da cognição é inacessível à introspecção ela determina limites para a consciência
do sujeito sem questionar diretamente a sua experiência, ela responde por esta. Manipulando
as exigências da tarefa (variável independente) para investigar as condições da atenção, o
psicólogo experimental infere, a partir do tempo de reação e número de acertos e erros, em
que medida e sob que condições a tarefa demanda ou não processos controlados (conscientes).
Vermersch (2002a; 2002b) apresenta uma ampliação do campo de consciência mesmo
em situações de realização de tarefas. Sob a mediação do entrevistador, o sujeito incorpora
uma atitude atencional (a qual voltaremos adiante) que lhe permite reviver a ação entrando em
contato com o que Vermersch chama campo folhado de consciência. Fundamentado na
fenomenologia husserliana e em sua prática com a entrevista de explicitação, Vermersch
139
define a atenção como o processo responsável pela modulação ou pelas transformações
dinâmicas do campo de consciência. De acordo com Vermersch, a estrutura fundamental da
atenção é de ser organizada por um interesse, em torno do qual se estrutura um campo de
consciência, constituído por um tema (foco da atenção e centro do campo), campo temático
(tudo o que está ao redor do tema e lhe é pertinente) e margem temático (tudo o que poderia
ser pertinente de maneira mais distante e indireta). Esta estrutura tema, campo temático e
margem temática é folhada ou estratificada, o que introduz uma dinâmica de deslocamento
encarnada pelos atos particulares da atenção. A cada instante uma parte somente do que é
objeto de atenção e poderia servir ao interesse é apreendido, e o que é apreendido está no
centro e constitui o tema. A continuidade da apreensão assegura a continuidade da visada
temática, e assim o que está na periferia pode a todo momento passar ao centro, e o que está
no centro pode passar à periferia, em função dos movimentos da atenção. Por exemplo,
acompanhando um acidente em uma instalação industrial, a atividade visual de seguir a
consigna (registro de instruções) é apenas um aspecto disso em relação ao qual o agente dirige
sua atenção, ao mesmo tempo, ele opera uma escuta do que se modifica no ambiente
simultaneamente a um raciocínio sobre as conseqüências do que é diagnosticado. Cada vivido
é organizado por esse campo folhado de consciência.
A conseqüência disso é que o pesquisador não precisa se submeter a um limite que
pressupõe que aquilo que uma pessoa não verbaliza num tempo x é tacitamente considerado
definitivamente inconsciente (VERMERSCH, 2000). Vermersch põe em questão um
pressuposto, muito difundido segundo ele mesmo, de que a verbalização de um conteúdo é
prova da consciência desse conteúdo, em outras palavras, o sujeito está consciente daquilo
que ele pode verbalizar. Esse pressuposto é afirmado por Bernard Baars. Baars (1999) afirma
que a psicologia é um campo de estudos sistemáticos da experiência consciente humana.
140
Segundo ele, se olharmos para o que muitos psicólogos acadêmicos fazem, veremos que eles
estão sempre estudando coisas que as pessoas podem relatar com acurácia. E, ele completa, as
coisas que nós podemos relatar acuradamente são as mesmas coisas que nós experienciamos
como conscientes. Descrição verbal é o índice geralmente aceito de consciência. De fato,
portanto, os psicólogos estão sempre perguntando às pessoas sobre as suas experiências
conscientes” (BAARS, 1999: 216).
Varela e Shear (1999a, 1999b) respondem à afirmação de Baars afirmando que é preciso
superar a atitude “just-take-a-look” em relação à experiência. É dessa forma que Varela e
Shear negam que a psicologia já seja um campo de estudos sistemáticos da experiência
consciente humana. De acordo com eles, dizer que aquilo que os psicólogos fazem é
estudo de primeira pessoa é perder o ponto” (1999b: 308). Varela e Shear dizem que as
pesquisas modernas têm permanecido silenciosas a respeito dos dados de primeira pessoa
porque a experiência humana possui uma riqueza e complexidade implícita que demanda a
utilização de estratégias de pesquisa mais sofisticadas “Relato verbal seguindo um
questionário é uma coisa, aprender a discernir uma experiência subjetiva menos obvia é
outra” (VARELA E SHEAR, 1999b: 308). Esse aspecto menos óbvio a que eles se referem é
a dimensão pré-reflexiva e periférica da experiência. “Explorar o pré-reflexivo representa uma
rica e inexplorada fonte de informações e dados com dramáticas conseqüências” (VARELA E
SHEAR, 1999a: 4).
Vermersch (2000) questiona até que ponto a ausência de verbalização é sinal de
ausência de consciência. Ele sublinha a fraqueza lógica dos critérios negativos, que visam
estabelecer a ausência ou impossibilidade de alguma coisa. De acordo com Vermersch,
estabelecer uma ausência é possível quando conhecemos a composição da totalidade disso
a que nos referimos, pois, sem essa totalidade, a ausência pode ser preenchida mais tarde
141
quando as condições tiverem mudado. Assim, o estabelecimento de uma ausência de
consciência só seria possível se pudéssemos estabelecer os limites precisos disso que o sujeito
é consciente, o que não é o caso, segundo Vermersch. Ele exemplifica com o fato de que algo
que nós tomamos por esquecido pode ser apenas provisoriamente inacessível, de tal forma
que a memória pode se revelar imediatamente sob outras condições. Vermersch destaca a
dificuldade de estabelecer empiricamente a totalidade daquilo que o sujeito é não consciente.
Ele diz que, quando observamos mais de perto os dados de experimentos ou de estudos de
caso que afirmam a não consciência do sujeito, nós percebemos, a despeito dessa afirmação
de não consciência, que os dados fornecem indicações parciais relativas ao conteúdo vivido,
fragmentos pertinentes pouco estruturados de verbalização e/ou de comportamento, e que,
desses fatos, não podemos dizer que o sujeito não tenha nenhuma consciência.
Nesse sentido, a ausência de verbalização não é ausência de consciência, não de uma
consciência pré-refletida ou consciência em ato, como diz Vermersch. O sujeito possuiria
alguma experiência de seu vivido ainda que com características não notadas pela sua
consciência (refletida). Esta consciência pré-refletida, para ser descrita, precisa ser tornada
consciente de forma refletida. Nessa tomada de consciência refletida que se coloca o
problema da atenção a si e da mediação de um método de primeira e segunda pessoa.
Vermersch (1994) distingue três domínios de verbalização. O domínio descritivo visa
justamente a descrição tão precisa quanto possível de um referente concreto, seja uma
realidade interna ou externa ao sujeito. A atividade cognitiva é orientada em direção ao
referente concreto visando, através de uma atividade de reverberação (réfléchissement), a
elaboração refletida desse referente. O domínio conceitual prioridade ao saber
constituído, nele não se trata de refletir um referente concreto ainda pré-refletido, mas, de uma
reflexão sobre as propriedades formais mais ou menos descontextualizadas de uma situação
142
concreta particular a partir de uma carta simbólica (symboles de la carte) toma-se o mapa
pelo mundo. No domínio imaginativo a atividade cognitiva leva a um progressivo
distanciamento do referente concreto, o qual é apenas um ponto de partida. A entrevista de
explicitação, proposta por Vermersch, visa o domínio de verbalização descritivo da ação. Para
isso, ela precisa evocar (revivenciar) esse referente concreto.
A verbalização descritiva depende dessa vivência de um domínio específico a ser
descrito referente concreto. Essa vivência se confunde com uma revivência porque para
Vermersch o referente concreto é um vivido (passado). O referente concreto é também
chamado vivido de referência. A reverberação do ato refletinte se confunde com uma
evocação mnêmica, e assim como a reverberação, essa evocação não é imediata e nem mesmo
fácil. Comentando estudos do fim do século XIX e o episódio da madeleine de Proust,
Vermersch (1994) afirma que essa dificuldade se deve ao fato de que a memória do vivido de
referência, em tudo o que ele comporta de sensorialidade e emoção, é uma memória concreta
ou involuntária. Diferente da memória intelectual, que pode ser acionada pelos esquemas da
inteligência, a memória concreta não pode ser acionada por um esforço (voluntário) de
lembrar, sua evocação depende de um encontro fortuito com uma sensação, por exemplo.
Uma das regras técnicas que Vermersch aponta para acionar a memória involuntária é de
pedir ao entrevistado que não se esforce para lembrar, que deixe vir a ele as impressões
quaisquer que sejam “O movimento que nós tentamos conduzir é mais da ordem de um
„acolher‟ que de um „ir buscar‟” (VERMERSCH, 1994: 101).
Esse movimento se apresenta como um modo de relação ou de atenção que o sujeito
entretém com o vivido de referência, denominado por Vermersch (1994) de “posição de
palavra”. Ela corresponde à natureza da atividade de verbalização, enquanto o domínio de
verbalização ao seu conteúdo. No trabalho em parceria com Varela e Depraz (2003), esse
143
problema do modo de relação ao vivido é definido como o problema da qualidade da atenção
a si (modo de atenção a esse vivido). Vermersch distingue então duas posições de palavra.
Uma é a posição de palavra formal e abstrata na qual o entrevistado se põe numa relação
judicativa com o vivido de referência, interpretando-o a partir de um saber a priori (mapa). A
segunda é a posição de palavra encarnada na qual o entrevistado se põe numa relação de
acolhimento, diminuindo a velocidade do ritmo da fala de modo a entrar mais em contato com
a experiência, com seu corpo, com as impressões e sensações que se lhe apresentam, o que
dará a qualidade de “encarnado” ao seu pensamento, ao mesmo tempo em que se dá a
atividade de reverberação do referente concreto, a qual não é imediata e demanda sustentar
esse tempo de espera. Portanto, na entrevista de explicitação a condução do entrevistador deve
recair sobre as condições que permitem a evocação, e não sobre o conteúdo que será evocado.
Assim, o entrevistador deve assegurar que o entrevistado se coloque na posição de palavra
encarnada, de forma a evocar a memória concreta e então poder verbalizar descritivamente a
ação vivida, se o entrevistado entrar numa posição de palavra formal e abstrata ele evocará a
memória intelectual e proverá uma verbalização conceitual.
Esses dois tipos de verbalização, conceitual e descritiva, pressupõem que o relato do
sujeito acerca dele mesmo, acerca de sua experiência, pode ser feito a partir de dois modos de
atenção a si, ou dois modos de relação que o sujeito entretém consigo mesmo (posição de
palavra). Na posição de palavra formal e abstrata o relato se baseia na consciência refletida,
não atenção a uma dimensão pré-refletida. A atividade refletinte implica uma apreensão
introspectiva, uma atenção direcionada internamente para isso que será objeto do discurso e
que não é ainda um conteúdo refletido. A mediação intervém na operação necessária para se
produzir esse tipo de verbalização (descritiva). Segundo Vermersch (2000), o entendimento
da operação de verbalização não pode se limitar a sua dimensão comportamental e pública,
144
pois assim confundimos o resultado e o ato que o produz, e nos limitamos ao relato da
consciência refletida. Vermersch afirma que a consciência refletida é uma consciência em
segundo grau, isto é, significa que nós temos consciência disso que nós temos consciência
(em primeiro grau) de modo ante-predicativo, “não posicional”, “no esquecimento do eu”
(dans l’oubli du moi).
Petitmengin (2006b) destaca alguns problemas no acesso ou na tomada de consciência
dessa dimensão pré-refletida da experiência: atenção instável, absorção no objetivo, confusão
entre experiência e representação, falta de ciência a respeito de para quais dimensões da
experiência a atenção deve ser direcionada, impossibilidade de acesso imediato. Petitmengin
ressalta então como um entrevistador perito pode superar esses problemas, e capacitar o
entrevistado a tornar-se consciente de sua experiência subjetiva e descrevê-la. Assim como
Vermersch destaca a importância da condução do entrevistador levar o entrevistado a uma
posição de palavra encarnada, Petitmengin (2006a, 2006b, 2007) afirma que o entrevistador
deve guiar o sujeito de modo que este acione certos “gestos interiores”: estabilizar a atenção,
mudar a direção da atenção do what para o how, conduzi-la através de diferentes estratos da
experiência, adotar uma específica posição de atenção que é diferente do nosso modo usual de
estar atento (atenção panorâmica, periférica, difusa, não sensorialmente determinada, e
sensível às descontinuidades as mais sutis). Vários desses problemas e modos de superá-los
também são destacados por Vermersch (1994, 2004) e por Depraz, Varela e Vermersch (2000,
2003).
Ressaltamos o fato de que a realização de tais gestos interiores” dependem do
consentimento do sujeito. Ou seja, a mediação do entrevistador deve ajudar o entrevistado na
realização desses gestos, mas, o entrevistador não pode realizá-los pelo sujeito. Voltamos ao
problema que estávamos discutindo no capítulo dois a respeito do introspeccionismo:
145
problema do lócus da responsabilidade pela produção do conhecimento. Mesmo na
introspecção guiada (entrevista de explicitação) a observação e descrição da experiência não
podem abrir mão da autonomia do sujeito, elas dependem de como ele realiza as operações do
método. Assim como na história de Hans e seus interrogadores, o entrevistador deve convidar
o entrevistado para “o jogo”, é fundamental que este também se interesse pelo “jogo”. Dessa
forma, buscamos por em evidência como a realização da introspecção por parte do
entrevistado não se resume a responder a comandos ou consignas, mas, implica a
configuração de certa corporeidade por parte do sujeito, o que também pressupõe uma
constituição de si e de mundo. Os “gestos interiores” que são demandados ao sujeito são
bastante inabituais e contra-intuitivos, e, portanto, eles dependem de uma constituição de si.
Nesse sentido, não um eu independente, observando a experiência de forma neutra e
imparcial.
A partir da abordagem enativa, vimos que a atividade cognitiva é inseparável da
constituição de um corpo, da configuração de um modo de sentir e agir (acoplamentos
sensório-motores), correlatos a uma experiência de si e de mundo. Habitar uma posição de
palavra formal e abstrata pressupõe por parte do entrevistado uma certa corporeidade (que não
é a da posição de palavra encarnada), um modo de sentir e agir na relação consigo, que
também depende da experiência que ele tem na relação com o entrevistador (ele pode de fato
acreditar que o entrevistador quer ouvir dele juízos e comentários). Por isso, é importante que
o entrevistador esteja atento ao que se passa na relação. O entrevistador relança também a
partir da sua experiência, do que faz sentido para ele. Esta experiência está ligada à suas
questões e teorias, relacionadas a um contexto e a um grupo social específico. Vermersch
(1994) afirma a importância de um treinamento por parte do entrevistador. Ele ressalta que a
técnica de entrevista é antes de tudo um saber-fazer que não se aprende nos livros. Vermersch
146
compara a formação do entrevistador a de um cantor, que não aprende a técnica como
transforma seu corpo em instrumento. O entrevistador também precisa cultivar um talento.
Ele precisa corporificar a posição de palavra encarnada para que ele possa “escutar” ou entrar
em sintonia com a experiência pré-refletida do entrevistado, e assim melhor conduzi-lo.
O dispositivo da entrevista e a relação com o entrevistador ajudam a modular a atenção
do entrevistado na exploração da experiência. Vermersch (2004) fala em efeitos perlocutórios
dos questionamentos (relances) sobre a direção da atenção. Petitmengin (2006b) destaca que a
própria situação da entrevista e a presença do entrevistador ajudam a manter a atenção do
sujeito sobre a experiência a ser explorada, mais do que se o sujeito tentasse sozinho
descrever a experiência. Isso é importante, pois é preciso solicitar ao entrevistado que ele vise
um momento singular, com uma localização temporal única (não existe vivido em geral), o
que dificilmente ocorre de forma espontânea. Do contrário, não se trata da descrição de um
vivido, mas de uma generalização ou de um esquema sobre uma classe de vivido. Se a palavra
exprime uma classe de vivido, este que fala nos sua teoria, sua conceitualização acerca
desse vivido, ao invés de uma descrição. Ao nos dar sua teoria, o sujeito expressa um saber
refletido, e assim perde o contato com o vivido singular (pré-refletido).
A contratação com o sujeito dos objetivos da entrevista também ajuda a manter sua
atenção nos limites da experiência explorada “estamos aqui juntos por um dado tempo, com
um objetivo especifico, que é o de colher uma descrição dessa experiência particular”
(PETITMENGIN, 2006b: 239). Vermersch (1994) afirma a importância de se perguntar ao
final de toda contratação “você está de acordo?” ou “você concorda em revivermos aquele
momento?”, pois esse questionamento demanda que o sujeito se implique com o acordo. A
contratação também é um momento importante para se trabalhar as crenças e expectativas do
entrevistado em relação ao entrevistador. O entrevistado, por exemplo, pode ficar muito
147
preocupado em responder aquilo que ele acha que o entrevistador quer saber. Essa contratação
é feita no inicio da entrevista, mas se o sujeito desviar muito do objetivo inicial, ou se este
mudar, pode ser necessário fazer uma nova contratação. As reformulações também ajudam a
direcionar a atenção do sujeito para a experiência singular e especifica. Quando o sujeito
desvia muito através de comentários ou raciocínios, o entrevistador pode retomar o que ele
havia dito sobre a experiência (reformulação em eco) “se eu o compreendi bem, você
começou lendo a dissertação a bordo, e então você disse para si mesmo...” (PETITMENGIN,
2006b: 240). Para acompanhar e checar a reformulação feita pelo entrevistador o sujeito
precisa retomar sua experiência.
No jogo da entrevista, o entrevistador tenta trabalhar com o entrevistado sua posição de
palavra. Assim, para obter uma verbalização mais descritiva da ação o entrevistador enfatiza
nos seus questionamentos o “como” em detrimento do “por que” (VERMERSCH, 1994,
2004; PETITMENGIN, 2006b). Perguntas do tipo “por quê?” ou “o que você pensou?” guiam
o sujeito para uma posição racional e abstrata. Deve se preferir perguntas do tipo “como você
fez isso?”, “o que você viu?”, que trazem o sujeito para uma posição mais descritiva. Outro
exemplo são os relances que Vermersch (1994) preconiza em relação a evocação mnêmica:
“você não precisa se esforçar para lembrar”, “se tempo”. Tais relances buscam tirar o
sujeito de uma posição voluntarista, do agente que tem acertar. Essa posição mais receptiva é
muito difícil, sobretudo numa cultura como a nossa que demanda o tempo todo que sejamos
ativos. Tal dificuldade é motivo de resistência à condução do entrevistador. Por isso, o
entrevistador deve estar constantemente recontratando, para ajudar o sujeito a sustentar essa
posição mais receptiva. Outro exemplo, são os relances do tipo “o que você quando nada
vê?”, ou “e quando isso foi mal, o que precisamente você fazia?”, tais relances buscam tirar o
148
sujeito de uma posição judicativa e abstrata a respeito da experiência “o que você fazia,
quando você (julga) que nada fez?”.
Petitmengin (2006b) e Vermersch (1994, 2004) afirmam a possibilidade de o
entrevistado aprofundar a descrição da experiência da ação vivida ao longo de duas dimensões
da experiência, através da condução do entrevistador: 1) dimensão temporal ou diacrônica,
que corresponde ao desdobramento da ação no tempo, seus momentos sucessivos; 2)
dimensão sincrônica, que corresponde à configuração do espaço experiencial do entrevistado
associado com cada um desses momentos: registro sensorial usado, tom emocional, etc. Neste
caso, o entrevistador busca não direcionar o entrevistado para um conteúdo específico,
utilizando questionamentos vazios de conteúdo. Segundo Vermersch, essas técnicas de
questionamento não indutivo se assentam na possibilidade de designar o conteúdo, de
direcionar a atenção do entrevistado para um conteúdo específico, sem nomear diretamente
esse conteúdo. Para isso, o entrevistador utiliza formulações que designam apenas as
características estruturais do vivido, as quais receberão um preenchimento preciso pelo
entrevistado. Por exemplo, o entrevistador pode designar na questão a estrutura temporal sem
nomear o conteúdo vivido: “Pelo que você começou?”, “E em seguida, o que você fez?”. Se o
entrevistador pergunta o que o sujeito viu ou ouviu ele induz que se trata de informações
visuais ou auditivas, o que pode não ser o caso. Ao contrario, é melhor uma questão mais
aberta, do tipo “E neste momento, a que estava você atento?”.
Segundo Petitmengin (2006b), o entrevistado não tem acesso direto a essas diferentes
dimensões da experiência. O problema para conduzir o entrevistado no acesso a elas é a
configuração de uma particular posição atencional, a qual permite acessar o que Petitmengin
(2007) chama fonte do pensamento. Nesta, imagens e emoções não possuem contornos claros,
as diferentes dimensões se entrecruzam numa base comum a partir da qual elas emergirão.
149
Sob os nossos pensamentos e imagens constituídos, dos quais possuímos uma consciência
imediata e refletida, se encontram gestos, micro-movimentos e uma experiência transmodal.
Petitmengin (2006a, 2007) afirma que para percebermos, memorizarmos, imaginarmos,
realizamos ordinariamente, de modo inteiramente pré-refletido, um conjunto de gestos sutis,
como transformações da direção da atenção, da intensidade e do campo de atenção,
modificações da posição de percepção (alocentrada ou egocentrada), apreciação, comparação,
gestos interiores de alinhamento, de abertura, de contração, de separação e identificação.
Essas micro-atividades dão uma qualidade dinâmica à experiência, e são elas que dão
emergência à relação constituída sujeito-objeto. Petitmengin afirma ainda que essa fonte é
transmodal, isto é, ela não é específica a nenhum registro sensorial, trata-se mais de uma
sensação indistinta e embaçada, que pode ser correlacionada a diferentes modalidades
sensoriais
21
.
Petitmengin (2006a, 2006b, 2007) afirma que a tomada de consciência dessa fonte do
pensamento, que é pré-refletida, supõe a adoção de um tipo especial de “posição de atenção”,
diferente do modo usual de estar atento (attentiveness). De acordo com ela, este modo de
atenção é definido por três características: ausência de modalidade sensorial específica, em
termos de seu alvo ela é panorâmica e difusa, e possui um caráter receptivo. O fato dessa
atenção não estar relacionada a um registro sensorial específico faz com que ela se pareça a
uma “atitude de expectativa”, não sensorialmente determinada. Petitmengin (2007) um
exemplo retirado de William James. Se você diz “espere!” “olhe!” nossa consciência é
lançada numa atitude de expectativa, embora nenhum objeto esteja diante dela.
21
Petitmengin (2007) distingue a transmodalidade da sinestesia. A sinestesia é definida pela percepção
simultânea de modos sensoriais precisamente identificados. Ela cita o trabalho de Daniel Stern como referencia
para essa noção de transmodalidade. Stern descreve que o mundo do bebê não é um mundo de imagens, de sons
e de sensações táteis, mas um mundo de movimentos, de intensidades e de ritmos, ou seja, de qualidades
transmodais. É esta transmodalidade que permite ao bebê experimentar um mundo perceptivamente unificado,
onde o mundo visto é o mesmo que o mundo escutado ou sentido.
150
Em termos do alvo, essa atenção é marcada por uma abertura, o que é importante tendo
em vista que o contato com essa dimensão muito fina e dinâmica da experiência pré-refletida,
marcada por descontinuidades sutis, requer uma modalidade de atenção difusa, panorâmica,
periférica ou flutuante (PETITMENGIN, 2006a; 2007). Essa atenção panorâmica é diferente
da atenção focada, que é concentrada sobre um conteúdo particular. A não focalização a
essa atenção uma abertura que lhe permite entrar em contato com elementos e aspectos
indefinidos da nossa experiência.
É importante a questão apontada por Petitmengin (2007) de que a atenção a essa
dimensão da experiência não constitui um campo de consciência do tipo foco/margem.
Petitmengin afirma que essa dimensão não deve ser confundida com o “plano de fundo” (o
“horizonte”, a “margem”) de uma percepção. Em concepções da atenção e da consciência,
como a de Vermersch que vimos acima, quando nós focamos nossa atenção sobre um dado
objeto ele é simultaneamente posicionado sobre um “plano de fundo” indistinto (formas e
cores indistintas). Nós precisamos apenas direcionar nossa atenção para um outro elemento
neste “plano de fundo” para percebê-lo distintamente, configurando um outro campo
foco/margem. Mas, segundo Petitmengin, mesmo quando alguém direciona a atenção para
essa experiência pré-refletida (fonte do pensamento) ela permanece indistinta.
Essa indistinção está ligada ao fato de que ela não se constitui por formas circunscritas.
A este respeito, é interessante a apresentação feita por Kastrup (2007), acerca da distinção
estabelecida por Deleuze entre o funcionamento ótico e o funcionamento háptico da
percepção. A percepção ótica se caracteriza pela hierarquia da organização figura-fundo, no
qual uma forma se segrega e salta do fundo. Ainda segundo Kastrup a percepção ótica
configura uma visão distanciada, característica da representação e da relação cognitiva
sujeito-objeto. a percepção háptica é uma visão próxima, que não se apresenta com a
151
organização figura-fundo. Trata-se da apreensão de “fragmentos”, que são sentidos lado a
lado, localizando-se num mesmo plano igualmente próximo. A percepção háptica se
caracteriza por uma experiência direta de contato, e não representacional (formal). De acordo
com Kastrup (2007), o que Deleuze sublinha, através da percepção háptica, é o acesso ao
plano de virtualidade da forma. Esse acesso se como a apreensão de um fragmento, forma
que apenas se insinua eo salta aos olhos como uma gestalt. Por isso ele precisa ser
sustentado por uma atenção panorâmica ou flutuante, do contrário, o foco sobre conteúdos
particulares passa a configurar a organização ótica (figura/fundo).
Os estudos sobre a função seletiva da atenção estão ligados a essa organização ótica.
Essa função depende da representação dos estímulos para que a seleção possa ser feita. A
seleção porta sempre sobre uma representação cognitiva. A representação relativa ao alvo
deve ser dissociada das representações relativas aos distratores (CAMUS, 1996). Ainda
segundo Camus, essa separação se efetua mediante um duplo movimento de magnificação da
representação do alvo e de inibição daquelas dos distratores. Assim, o objeto selecionado o
alvo aparece perceptivamente mais saliente que o não selecionado, o distrator. Esse realce
de certos estímulos em relação a outros cria uma espécie de campo perceptivo, semelhante a
relação figura-fundo. Essa relação figura-fundo aqui não se identifica ao campo de
consciência foco/margem. Só os estímulos apresentados na região focalizada se beneficiam do
processamento consciente de informação. De acordo com o modelo do filtro, algumas
informações apresentadas na região não focalizada (fundo) podem ser processadas, mas este é
um processamento automático.
Pelo modelo do filtro, a atenção determina a ordem de processamento das
representações, determinando aquelas que serão analisadas completamente pelo sistema
cognitivo e inibindo o processamento das outras que assim recebem um tratamento
152
superficial (CAMUS, 1996). Os critérios retidos para distinguir os alvos dos distratores estão
relacionados aos objetivos da tarefa, eles podem envolver diferentes tipos de representações.
Podem ser qualidades perceptivas do objeto (por exemplo, tipo de voz, forma visual), um
lugar particular, qualidades semânticas (por exemplo, atentar a nomes de pássaros), pode ser
ainda o momento da aparição. Essas representações configuram na atenção uma atitude de
busca, de visar tais representações, contraposta a atitude de abertura e deixar vir. Essa atitude
de busca nos cega para os aspectos sutis, descontínuos e intransitivos dessa experiência pré-
refletida.
É na direção da recusa dessa atitude de busca que se coloca a noção de atenção
flutuante, apresentada por Freud no texto “Recomendações aos médicos que exercem a
psicanálise”. Nesse texto, Freud (1912/1969) afirma que uma importante regra técnica à
escuta do analista é manter a atenção “uniformemente suspensa”. O problema colocado por
Freud é relativo à memória do analista: como lembrar de todos os inumeráveis nomes, datas,
lembranças e pormenores que cada paciente comunica ao longo de meses e anos de
tratamento, e, de não confundi-los com material semelhante produzido por outros pacientes?
A técnica que permite dominar tal abundância de material, segundo Freud, consiste em não
dirigir a atenção para algo específico e mantê-la “uniformemente suspensa” em face de tudo o
que se escuta. Essa regra é a contrapartida, por parte do analista, à regra de associação livre
por parte do analisando. O exercício de uma atenção focada de acordo com as expectativas e
inclinações do analista começa a selecionar o material que lhe é apresentado, um ponto fixar-
seem sua mente com clareza particular e outro será correspondentemente negligenciado.
Uma atenção muito concentrada em certas expectativas ou inclinações (como o desejo de
sucesso do tratamento, certas resistências do analista, ou mesmo o tomar notas durante a
sessão) operaria uma contração da memória e percepção, a qual corresponderia uma seleção
153
restrita e indesejada. Segundo Freud (1912/1969): “Ao efetuar a seleção, se seguir suas
expectativas, estará arriscado a nunca descobrir nada além do que já sabe”.
O conhecimento do analista sobre o paciente deve ser construído no decurso do
tratamento, por isso, ele não deve se fixar naquele material que forma um texto coerente e
que está a sua disposição consciente. Freud (1912/1969) afirma que não se deve esquecer que
o que se escuta, na maioria, são coisas cujo significado é identificado posteriormente. O
analista deve simplesmente escutar e não se preocupar se está lembrando de alguma coisa, ou,
ele não deve se preocupar se está formando um texto coerente a partir dessa memória mais
facilmente ou imediatamente disponível. É contando com sua “memória inconsciente” que o
analista poderá fazer uso de tudo o que lhe é dito para fins de interpretação e identificar o
material inconsciente oculto do paciente. Freud diz que o analista deve voltar seu próprio
inconsciente, como um órgão receptor, na direção do inconsciente transmissor do paciente.
Somente dessa forma a interpretação poderá fazer uso do material desconexo e em desordem
caótica, que parece a princípio estar submerso no inconsciente do analista, mas que vem
rapidamente à lembrança assim que o paciente traz à tona algo de novo, a que se pode
relacionar tal material e pelo qual essa novidade pode ser continuada. O analista deve
expandir a percepção que ele tem do paciente, de modo a reconstituir o inconsciente deste em
função dos derivados que lhe são comunicados. A expansão de sua atenção lhe colocará em
contato com outros fragmentos pelos quais a fala do paciente poderá ser relacionada e
interpretada.
A suspensão da atitude de busca é que enseja uma atitude receptiva a essa atenção a si.
Um ethos marcado pela abertura ao encontro de algo que não se buscava (PETITMENGIN,
2007; DEPRAZ, VARELA E VERMERSCH, 2000, 2003). Como diz Petitmengin (2007),
não se trata de esticar-se em direção a fonte do pensamento para apreendê-la, mas, sim de
154
tornar-se disponível para ela, de permitir-se a si mesmo de ser impregnado por ela, ou estar
em sintonia com ela. Petitmengin cita a visão estereoscópica como um exemplo da
implementação dessa atitude receptiva. Também como citamos acima, o entrevistador deve
conduzir o entrevistado de modo que ele não se esforce para evocar a experiência da ação
vivida, acionando a memória voluntária. Kastrup (2007) também a implementação dessa
atenção receptiva no emprego do dispositivo desenvolvido por Paul Bach y Rita, TVSS
(tactile vision substitution system), utilizado por indivíduos cegos, e que transforma a
estimulação proximal tátil em estímulos visuais distais, como vimos no primeiro capítulo.
Investir na atenção a si como atenção a essa experiência transmodal e pré-refletida é
investir no domínio da sensibilidade, em contraposição ao engajamento no agir, típico da
atitude de controle e da atenção voltada para a realização de tarefas. É a partir dessa
suspensão e desinvestimento no agir que o contato com a experiência ganha esse sentido de
encontro, de receptividade, de ausência de controle. “Ver não é lançar o seu olhar em direção
a alguma coisa, projetando-a, agarrando-a, mas realmente é deixar a coisa se imprimir em
você. Você é completamente passivo, e você deixa a cor, a paisagem, vir até você”, trecho de
entrevista citado por Petitmengin (2007: 9). A suspensão da atitude de controle implica uma
mudança nas condições da atenção, em que eu não me ponho como piloto do processo de
atenção. Essa mudança leva a conseqüência de que eu não me sinto como agente ou
proprietário do conteúdo que virá preenchê-la. É por isso que uma das características dessa
dimensão dinâmica e pré-refletida da experiência, segundo Petitmengin (2006a; 2007), é o
sentimento de perda de identidade e da fronteira interno-externo. “A pessoa descrevendo a
155
experiência não diz „eu tenho uma idéia, eu vejo uma imagem‟, porém, „uma imagem me
vem, uma imagem me aparece‟” (PETITMENGIN, 2006a: 89)
22
.
A nosso ver, a entrevista de explicitação põe em cena a possibilidade desse sujeito que
atua e realiza a introspecção reconfigurar o seu posicionamento, mudando a experiência
mesma da entrevista, a partir dos relances do entrevistador. A discussão feita por Vermersch e
Petitmengin sobre a entrevista de explicitação põe em questão o consentimento do
entrevistado, a maneira como ele realiza as operações da entrevista, através das questões do
domínio de verbalização e da posição de palavra, da questão dos gestos interiores e da posição
atencional. Tal posicionamento co-emerge com a própria experiência. Na base o sujeito não
está pré-dado, ele existe através dos atos que ele continuamente enage, trata-se de uma
incorporação contínua, que está em jogo no processo mesmo da entrevista. Nesse sentido, a
atenção a si não é pilotada por um eu, como um agente reificado. Assim como a experiência
de primeira pessoa não é propriamente de um eu, não é propriedade de um eu pré-existente.
Se assim fosse, não seria possível mudar de uma posição de palavra abstrata para uma posição
de palavra encarnada. Se na base da experiência não há um eu, é porque ela mesma não é algo
que possa ser reificada, e que também pode ser continuamente reconfigurada. Sobretudo
porque na entrevista de explicitação se busca atualizar uma posição atencional em que o
sujeito não se coloca como piloto do processo, abrindo-se para a co-emergência de si e do
mundo, a partir do acesso a uma dimensão fonte de virtualidades. Essa é uma relevante
diferença para o introspeccionismo clássico e a abordagem instrução-relato.
22
Petitmengin se refere a essa experiência pré-refletida como experiência vivida da enação. Ela exemplifica:
você está muito distraído e então um som é produzido, e, durante um instante, você não sabe quem você é e onde
você está, você nem mesmo reconhece que se trata de um som. É apenas um instante de consciência suspensa no
ar, que pode contudo ser muito claro e vívido. Então, numa fração de segundo, o fenômeno é reconhecido como
um som, depois como um canto de um pássaro, então como o canto de um melro que chega pela janela de meu
escritório. Como afirma Petitmengin: “Na mesma fração de segundo, „eu‟ vem ao mundo” (PETITMENGIN,
2006a: 90).
156
Dessa forma, queremos destacar como a entrevista de explicitação (e as metodologias de
primeira pessoa em geral) são elas mesmas uma experiência, a partir da qual se modula o
posicionamento do entrevistador e do entrevistado. A experiência descrita através da técnica
de entrevista não pode ser separada da experiência mesma da entrevista, o que faria dessa a
(auto)observação de algo pré-existente. Contudo, a noção de vivido de referência e de ação
vivida é formulada dando a impressão de haver um objeto a ser explicitado. Por exemplo,
Petitmengin (2006b) afirma que o discurso médico sobre a epilepsia é fundamentado na
crença de que os ataques são repentinos, e por isso não podem ser antecipados ou previstos
pelo paciente. Ela afirma que essa crença tem atrapalhado a awareness e descrição pelo
paciente dos sintomas que antecedem o ataque e que poderiam assim capacitá-los a antecipar
e gerenciar esses ataques. Contrapondo-se ao discurso médico, Petitmengin afirma que o que
há é uma distração, e que se houver atenção à experiência os ataques poderão ser antecipados.
Portanto, “um esforço particular é necessário para a pessoa ganhar acesso à experiência
mesma (itself) dele ou dela, que se encontra embaixo de suas representações, crenças, juízos e
comentários” (PETITMENGIN, 2006b: 235).
Nós normalmente substituímos a descrição da experiência pela descrição da
significação. Mesmo assim, esta não é uma ausência de experiência, isto é, a descrição da
significação é também uma experiência. Por isso não é o caso de falarmos em camadas, como
se a experiência estivesse mais embaixo. A nossa cultura, por exemplo, valoriza que
atentemos para os sinais internos (corporais) que nos fazem ir ao banheiro, mas não aos da
epilepsia. Num outro enquadre, em outro contexto, os sinais da epilepsia podem surgir como
um valor, como mostram algumas pesquisas sobre antecipação de ataques epilépticos
(PETITMENGIN ET AL, 2006). A nosso ver, a experiência não é algo oculto (em camadas) a
ser desvelada a partir de uma atenção adequada. Uma pergunta importante, e que Petitmengin
157
não faz, é se essa experiência de reconhecimento de sinais da epilepsia possui estatuto de
verdade. Se ela possui, ela se coloca como um objeto independente. O problema é afirmarmos
uma separação entre a experiência do setting ou a experiência da entrevista ela mesma, e, uma
(outra) experiência a ser explicitada. Assim como para o introspeccionismo, a experiência
sensorial e elementar pré-existia à experiência da prática da introspecção. E assim como para
Jack e Roepstorff, a introspecção deve ser uma auto-observação acurada de uma experiência
pré-existente a observação mesma.
4.5. Atenção a si nas práticas Psicoterapêuticas e na Meditação Budista
Uma abordagem pragmática e empírica da experiência é o método Feldenkrais de trabalho de
corpo. Segundo Carl Ginsburg (1999), o Feldenkrais é um método de desenvolvimento da
consciência corporal através do movimento e da organização corporal. O método Feldenkrais
nos permite entrar em contato com a conexão que entre as mudanças no domínio da
experiência interna com as mudanças na organização do movimento. A experiência é
intimamente relacionada ao movimento e ao sentido muscular, afirma Ginsburg (1999), e
mudanças em um domínio não podem ocorrer sem mudanças no outro. É através dessa
correlação que se o desenvolvimento da consciência corporal consciência através do
movimento. Uma simples ação como se levantar é feita habitualmente de forma que eu não
presto atenção a ela, normalmente estou consciente dos objetivos que me fazem levantar.
Contudo, posso desenvolver minha awareness de tal modo que a experiência da minha ação
de levantar é enriquecida com o conhecimento da minha auto-orientação, da minha relação
com o espaço e com a gravidade, do meu sentido de tempo, e essa awareness por sua vez
transformará o movimento você não se levantará mais da mesma forma.
158
Destes conhecimentos nós geralmente não estamos conscientes, ainda que eles
constituam o que Ginsburg chama experiência consciente imediata. Por exemplo, em nossas
atividades, nós estamos orientadas no espaço do ambiente e estamos orientados no espaço
corporal, de tal forma que quando eu levanto a minha mão eu conheço (tacitamente) onde ela
está em relação a mim mesmo e em relação ao espaço ambiental. Isso pode ser testado,
fechando os olhos e movendo a sua mão em frente a sua face você verá em seus “olhos
mentais” uma espécie de imagem de suas mãos. O trabalho no método Feldenkrais é conduzir
o participante através de uma série de seqüências de movimento que aumenta o nível de auto-
awareness do participante, e ao mesmo tempo, o seu nível de sensibilidade às nuances da
sensação sinestésica. O participante é orientado a explorar diferentes movimentos com a
atenção dirigida para a qualidade da execução mais do que para a extensão do movimento, e,
tudo deve ser feito suavemente visando à expansão da awareness (GINSBURG, 1999).
Outra abordagem pragmática e empírica da experiência é a técnica do focusing,
formulada por Eugene Gendlin (1999). Na sua prática como psicoterapeuta, Gendlin usa a
técnica do focusing para ajudar as pessoas a localizar (atentar para) e falar mais do que elas
estão sentindo fisicamente e implicitamente (ele também usa a expressão they are living
through”), especialmente em momentos de silêncio, mas que elas num primeiro momento não
conseguem por em palavras. Semelhantemente à abordagem de Varela no campo da cognição,
Gendlin possui uma concepção não representacionista e dinâmica (processual) da vida
humana. Ele afirma: “Nós humanos vivemos a partir de corpos que são auto-conscientes das
situações” (GENDLIN, 1999: 233). A expressão “auto-conscientes da situação” implica que
consciência, eu (self) e situação, não são objetos separados. Ele depois afirma que nossos
corpos sentem a si mesmo e por meio disso suas situações. As situações existem por meio
do que nós sentimos em nós mesmos. E isso que nós sentimos em nós mesmo ultrapassa
159
nossas representações, ultrapassa nossos cinco sentidos. De acordo com Gendlin, nós não
apenas sentimos as coisas lá, mas sentimos a situação. E o corpo sente a situação de modo
mais abrangente do que a cognição, ele afirma. “Se um experiente piloto disser „eu não sei
porquê, mas eu não estou confortável a respeito do tempo‟, não vá” (GENDLIN, 1999: 234).
Quando um cientista persegue uma idéia, num primeiro momento ela o é realmente uma
idéia, ela é inarticulada, trata-se de um pregnante sentido corporificado adquirido no
laboratório. Esse sentido implícito (implicit sensing) nunca pode ser equalizado com sua
eventual descrição verbal. Uma coisa importante apontada por Gendlin, é que esse processo
de acessar (atentar) e trazer a tona esse conteúdo implícito o modifica: “Conteúdo
experiencial não está lá, esperando para „tornar-se consciente‟. Ele não consiste de „objetos‟
que precedem à atenção e são imutáveis por ela. Pelo contrário!” (GENDLIN, 1999: 234).
Tanto no método Feldenkrais quanto na técnica do focusing o objetivo é terapêutico,
trata-se de explorar a experiência visando promover mudanças subjetivas. Essa nos parece ser
uma importante diferença em relação as demais abordagens por nós trabalhadas acima, que
utilizam metodologias de primeira pessoa visando o conhecimento da experiência. Ainda que
esse processo de conhecimento, como apontamos acima, implique um processo de auto-
produção, de constituição de si, tais práticas não são consideradas terapias
23
. As tradições
orientais de meditação (Vedanta, Yoga, Budismo, Taoísmo, etc), que possuem práticas
milenares de exploração sistemática da experiência, também não podem ser consideradas
terapêuticas, como o Feldenkrais e o focusing, contudo, elas também visam promover
mudanças existenciais mais do que o conhecimento da experiência. Dito de outro modo, para
23
No caso da entrevista de explicitação, Vermersch (1994) até afirma que o conhecimento da dimensão
procedural da ação, da experiência pré-refletida de como o sujeito faz para realizar uma atividade, pode ter
efeitos de mudança no modo como ele realiza a ação.
160
as tradições orientais o conhecimento da experiência está a serviço das transformações
existenciais (CHÂTEAU, 1978).
Esse ponto é enfatizado por Jean Château (1978) ao comparar como as questões
relativas à Psicologia são abordadas nas tradições ocidental e indiana. Ele destaca na tradição
indiana o budismo e sobretudo a ioga. Château afirma que enquanto a tradição grega aprecia o
conhecimento intelectual, para o indiano a preocupação principal é o cultivo de atitudes
corporais e mentais. Ele utiliza formulações interessantes como “conceber a Psicologia” ou
“senti-la”, para distinguir a via grega da indiana. Chateau afirma que na cultura ocidental a
Psicologia científica se esforça em traçar um desenho do psiquismo, desmontar seus
mecanismos, verificar seu funcionamento e criar os seus modelos. Diferentemente, o indiano
é menos levado a construir modelos da psique do que a utilizá-la é igualmente possível
tentar sentir esse psiquismo por dentro, não por uma espécie de desvio da função cognitiva
para o íntimo de si (introspecção), mas vivendo esse psiquismo até aos seus últimos recantos,
forçando-o até a sua velocidade limite...” (CHÂTEAU, 1978: 95).
A tradição budista cultiva a contemplação da própria mente. Mas, essa contemplação
não se define por uma auto-observação das imagens mentais, pensamentos e juízos, que todos
temos cotidianamente. A contemplação leva o praticante a ir além da superfície da
consciência, rumo a uma experiência sistemática da estrutura e dinâmica subjacente a toda
consciência humana (SHEAR E JEVNING, 1999). A mente observando a si própria, esta é a
contemplação budista. E, segundo Wallace (1999, 2008), o Buda ressaltou que a mente do
individuo não treinado, não praticante da contemplação, é uma mente indisciplinada. Por isso,
ela é um instrumento não confiável para examinar os processos mentais e a natureza da
consciência, sendo então necessário o uso de técnicas sofisticadas para estabilizar e refinar
essa atenção a si. Essas técnicas caracterizam as práticas de meditação.
161
Wallace (1999, 2008) afirma que sem esse treino é possível direcionar a atenção para o
“interior”, mas, a mente não treinada (Wallace diz indisciplinada) rapidamente sucumbe à
excitação ou à lassidão atencional. O estado de excitação atencional leva a dispersão, e por
isso interfere com a observação mental. Ele é definido por um processo mental agitado e
compulsivo, marcado por uma espécie de aflição mental e por uma ânsia por outros objetos
atrativos. Já o estado de lassidão atencional é definido por um processo mental no qual a
atenção torna-se frouxa, de modo que o objeto atencional não é apreendido com vividez e
vigor
24
.
O treinamento budista da atenção é chamado Samatha, que significa literalmente
quietude ou tranqüilidade (quiescense) (WALLACE, 1999, 2008). O cultivo do Samatha visa
o desenvolvimento da estabilidade e vividez atencional, que é considerado um estado de
atenção serena. Duas faculdades mentais são indispensáveis para esse cultivo: presença plena
(mindfulness) e introspecção. A presença plena é a faculdade de sustentar a atenção sobre um
objeto familiar sem ser distraída dele. No treino do Samatha é costume usar como objeto de
meditação uma imagem mental, a presença plena é a faculdade de fixar firmemente aquela
imagem. O praticante deve monitorar através da faculdade de introspecção o processo
meditativo. “Na tradição budista, introspecção é definido como o exame repetido do estado de
mente e corpo de alguém, e ela é vista como um derivado da inteligência” (WALLACE, 1999:
178). Segundo Wallace, a introspecção é um tipo de meta-cognição que opera como o
“controle de qualidade” do Samatha.
Segundo Wallace (1999, 2008), o primeiro desafio da prática do Samatha é o
desenvolvimento da atenção sustentada, de forma a se poder resistir a excitação mental. Neste
24
É interessante pensarmos em que medida essa instabilidade atencional não é um fato natural. As questões que
apresentamos no início do capítulo a partir do trabalho de Crary mostraram como o regime de produção e
consumo capitalista, a partir da segunda metade do século XIX, contribuíram para criar uma instabilidade da
atenção.
162
ponto, visa-se ao desenvolvimento da capacidade de atentar continuamente para um objeto
que não muda. Desde o século dezenove William James afirmava a dificuldade de se
sustentar a atenção por mais de alguns segundos sobre um objeto que não muda “A atenção
é inevitavelmente desviada de uma matéria que não se modifica” (JAMES, 1921: 87). Por
isso, é necessário o cultivo da vontade (will), afirma Wallace quando ambos lassidão ou
excitação ocorrem, a mente é estimulada pela vontade a intervir de forma a eliminá-los”
(WALLACE, 1999: 180). Perseverando nesta prática o sujeito aumentará gradualmente o
tempo de continuidade atencional, isto é, a atenção permanece fixada sobre o a imagem
mental cada vez por mais tempo sem ser perturbada pela excitação. Através da introspecção
ele detecta rapidamente a ocorrência de excitação e lassidão sutis, até que elas sejam
eliminadas.
Na Psicologia cognitiva também se coloca esse problema da sustentação da atenção
(CAMUS, 1996; PARASURAMAM, 2000). Ele está ligado à função de vigilância da atenção.
Ao passo que a atenção seletiva serve à comportamentos coerentes, dirigidos a metas, a
vigilância ou atenção sustentada assegura que as metas sejam mantidas ao longo do tempo.
Este problema se coloca em função da tendência flutuante da atenção a atenção não pode ser
indefinidamente engajada dimensão rítmica ou temporal do desdobramento do processo
atencional. Essas variações da atenção estão em relação com as variações de eficiência de
nossas atividades. Esse engajamento atencional pode ser prejudicado tanto por um excesso
como por uma falta de estímulos. No caso de tarefas pouco motivantes ou monótonas haveria
uma diminuição do nível de vigilância, semelhante ao que ocorreria na fadiga ou na privação
do sono. Por outro lado, o excesso de estímulos levaria a uma baixa na performance por um
efeito de dispersão. Porem, além de não colocar o problema do cultivo ou aprendizado de uma
atenção mais estável ou serena como diz Wallace, o problema da sustentação da atenção para
163
a psicologia cognitiva está ligado a sustentação do comportamento na realização de metas.
para o budismo o objetivo é ético, trata-se de serenar a mente para poder perceber a vacuidade
de si.
De acordo com Shear e Jevning (1999), a noção de “interioridade” (inward), em
contraposição ao mundo físico externo, é muito mais radical nas tradições de meditação do
que no senso comum. Mesmo a awareness dos pensamentos e sentimentos mais privados é
ainda externa do ponto de vista da awareness contemplativa. Esta pressupõe uma completa
reversão da atenção, distante de pensamentos e sentimentos tanto quanto dos objetos externos,
em direção a uma “consciência pura” (WALLACE, 1999; SHEAR E JEVNING, 1999). Em
Varela, Thompson e Rosch (1992) ela será chamada “consciência aberta”. Ao ouvir e olhar,
seguimos sons e formas no fluxo do mundo. O ouvir não vai além do som e o olhar não vai
além da forma. Entretanto, a meditação se volta para o “interior” ultrapassando o fluxo
mundano, de modo a contemplar sua base mais profunda. Esta “consciência pura” é uma
experiência de si própria, silenciosa e vazia de todo objeto sensorial, por isso ela não é obvia,
ela é sutil e difícil de perceber (WALLACE, 1999; SHEAR E JEVNING, 1999). Segundo
Shear e Jevning, trata-se de uma experiência sem conteúdo determinado (cor, som,
sentimento, pensamento, extensão espaço-temporal, etc).
A positividade dessa consciência pura é difícil de ser definida. Para Shear e Jevning
(1999) ela é a dimensão onipresente de toda experiência, porque é justamente a única
independente de todos os conteúdos ordinários da experiência. Segundo Wallace (1999), suas
características definidoras são, primeiro um sentido de clareza ou de luminosidade implícita,
capaz de manifestar todos os modos de aparecimento, segundo a qualidade de cognizance, que
significa ter conhecimento ou ciência (awareness) de algo. De acordo com Varela, Thompson
e Rosch, as pessoas que meditam relatam a experiência de um espaço e amplitude da mente,
164
relatam períodos de uma perspectiva mais panorâmica. “Uma metáfora tradicional para essa
experiência é que a mente é o céu (um plano de fundo não conceitual) no qual diferentes
conteúdos mentais, como as nuvens, emergem e submergem” (VARELA, THOMPSON E
ROSCH, 1992: 51).
165
5. Considerações finais
Buscamos ao longo desta tese discutir e ressaltar a atenção a si como um processo de
auto-produção, a partir da abordagem enativa formulada por Francisco Varela. Essa
abordagem nos permitiu pensar como toda prática de pesquisa, que é atividade de
conhecimento, é ela mesma uma prática enativa, isto é, que possui efeitos constituidores de si.
Vimos como recentemente no campo das ciências cognitivas, que tradicionalmente baseia
suas pesquisas em metodologias experimentais de terceira pessoa, têm buscado incluir
métodos de primeira pessoa para estudar a experiência. Assim, o problema do qual partimos
perguntava se as próprias metodologias de primeira pessoa não estariam sujeitas ao mesmo
problema da experiência, isto é, da corporificação da ação e constituição de si? A crescente
utilização de metodologias de primeira pessoa tem colocado o problema de como acionar e
mobilizar uma atenção a si, acessando aquilo que se apresenta como experiência. Ou seja, a
investigação da experiência requer ênfase no processo de atenção que se volta para si. Dessa
forma, a resposta ao problema do qual partimos nos fez encontrar subsídios nas discussões
sobre metodologias de primeira pessoa e pensar como a auto-observação, pressuposta pela
noção de atenção a si, constitui, ao mesmo tempo, um processo de auto-produção.
Encontramos subsídios em tais discussões para reavaliar a própria concepção de atenção
através da teoria da enação. Pensamos o processo de atenção como atividade enativa, o que
difere da concepção padrão da psicologia cognitiva da atenção, assentada no paradigma de
processamento de informação. Vimos que para a abordagem enativa a cognição consiste não
de representações, mas de ações corporificadas, que implicam a constituição mútua de si e do
mundo. Isto é, o mundo não é algo dado a um sujeito também pré-existente que o representa,
mas co-emerge com o sujeito, através de sua atividade. Se a cognição fosse definida pelo
166
processamento de informação, como afirma o cognitivismo computacional, todos seriam
informados e então teriam representações semelhantes de uma mesma coisa. Mas,
diferentemente, as pessoas percebem mundos diversos, e isso se deve ao fato de que a verdade
de um conhecimento é inseparável de sua enação ou incorporação, do sentir e agir como, da
experiência, de sua história de acoplamentos. Nesse sentido, a discussão que fizemos no
terceiro capítulo sobre atenção como atividade enativa é um caso específico da discussão feita
no primeiro capítulo sobre a cognição em geral como enação.
A própria distinção entre atenção a si e atenção ao mundo é fruto de diferentes
corporeidades do processo atencional. Como dissemos, enquanto atividade enativa, a atenção
não é necessariamente pilotada por um “eu”, assim como seria equivocado pensar a atenção
como um processo que possui uma forma natural e universal. Seria mais adequado pensarmos
em diferentes modalidades da atenção de acordo com o contexto e a história de acoplamentos
(micro-mundos). Essa reavaliação do processo de atenção pode ter relevantes implicações,
tendo em vista a importância do tema da atenção no contemporâneo, através dos discursos
sobre gestão da atenção e do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), além é
claro, da própria questão das metodologias de primeira pessoa, que foi nosso ponto de partida.
Buscamos mostrar como a atenção estudada pela psicologia cognitiva experimental está
ligada a um contexto voltado para a solução rápida e eficiente de problemas, no qual se aciona
comportamentos dirigidos a metas. Essa atenção se apresenta como processo instrumental ou
subsidiário à solução de problemas pré-determinados, sempre voltado para objetos e estímulos
do mundo externo, ou seja, para a captação e busca de informações. Visamos também com o
trabalho de Crary (1999, 2000), Hagner (2003) e Caliman (2006) mostrar como o problema da
atenção para a psicologia experimental possui uma história social e cultural. Por sua vez, os
167
trabalhos de metodologias de primeira pessoa põem em cena modalidades do processo
atencional diferentes dessa atenção instrumental. Por exemplo, a própria concepção de uma
atenção a si, diferente da atenção voltada para a apreensão de informações externas. A
concepção de uma atenção a uma experiência pré-refletida. A concepção de uma atenção
panorâmica e aberta. A atenção flutuante, descrita por Freud (1912) a partir do contexto da
clínica psicanalítica.
Buscamos ressaltar em que medida essas diferentes modalidades atencionais podem
implicar diferentes ethos, isto é, diferentes modos de relação a si e ao mundo. Na abordagem
Instrução-Relato, por exemplo, a concepção da atenção a si como captação e processamento
de informações relativas aos estados mentais, coloca o sujeito numa posição de auto-
observador, ou de alguém que representa os próprios estados mentais. Já na entrevista de
explicitação um jogo interativo em que esse ethos é modulado pelos relances na relação
com o entrevistador: pode-se dar um posicionamento mais abstrato e racional (atenção nos
juízos e comentários internos); ou um posicionamento mais descritivo (atenção na dimensão
sensorial e imagética); ou um posicionamento de maior abertura e acolhimento da experiência
(atenção mais receptiva, que não se caracteriza por um foco específico).
Também vimos que o introspeccionismo da psicologia do final do século XIX fazia da
atenção a si um processo de auto-observação. Pois, através da introspecção o sujeito devia
observar uma experiência sensorial e elementar que pré-existiria à observação ela mesma.
Apesar desse aspecto de auto-observação, buscamos destacar como na base dessa
introspecção clássica havia um aspecto de cultivo de si. O treino do observador, que
assegurava a credibilidade e confiança dos dados obtidos, implicava o cultivo de um talento,
que portanto não era realizável por “qualquer um”, ou seja, não poderia ser reduzido a um
168
protocolo. Como disse Despert (2004a): “o experimentador é a testemunha confiável dos
eventos que ele se torna capaz de suscitar”. Porém, o ethos da introspecção se torna auto-
observação quando ela é protocolada (o laboratório de Titchener em Cornel possuía um
manual com 1600 páginas), como se a técnica pré-existisse à prática ou à experiência
concreta, e restasse ao sujeito “obedecer”. Neste caso, o treinamento na introspecção se
apresentava mais como um controle da observação do que como um cultivo de um talento.
Buscamos demonstrar ao longo da nossa tese em que medida a defesa contemporânea do uso
de metodologias de primeira pessoa pelas ciências cognitivas retoma esse caráter de cultivo de
si, mas sem restringir seu entendimento a uma estratégia para a representação da experiência.
Pois, a nosso ver, o principal motivo para a defesa contemporânea do uso pelas ciências
cognitivas de metodologias de primeira pessoa, por parte de autores como Varela, Thompson,
Lutz, Vermersch e Petitmengin, é justamente mostrar o caráter co-emergente, ou não
representacional, da atividade cognitiva.
Para isso, é necessário, como afirmamos no terceiro capítulo, não separar a experiência
da introspecção ou da entrevista ela mesma da experiência descrita ou relatada. Como
discutimos ao longo da tese, realizar uma pesquisa, do ponto de vista metodológico, não se
resume a conhecer e obedecer às regras de um protocolo, pois a realização concreta deste
depende de como ele é efetivamente posto em ato (enagido) pelo sujeito, de como ele é
encarnado. Nas metodologias de primeira pessoa, a observação e descrição da experiência não
podem abrir mão da autonomia e do consentimento do sujeito, pois elas dependem de como
ele realiza as operações do método, de como elas são corporificadas, o que implica uma
experiência, um modo de sentir e agir na relação consigo e com o mundo. Este consentimento
depende da experiência do setting de pesquisa. Portanto ele está diretamente ligado à atuação
do pesquisador. Na entrevista de explicitação, destacamos como os relances e o
169
posicionamento do entrevistador influenciam na constituição do ethos do entrevistado.
Fundamentalmente o sujeito não está pré-dado, ele existe através dos atos que ele
continuamente enage. Trata-se de uma incorporação contínua, que está em jogo no processo
mesmo das metodologias de primeira pessoa. Nesse sentido, a atenção a si não é pilotada por
um eu, ou por um agente prévio. Assim como a experiência de primeira pessoa não é algo que
possa ser reificada. O sujeito observador de si e a experiência descrita e observada são co-
emergentes. E eles podem variar de acordo com a experiência mesma da investigação da
experiência. Destacamos assim, com essa análise da atenção a si como atividade enativa, o
caráter ontológico, e não apenas epistemológico, das metodologias de primeira pessoa.
Ao assumirmos a abordagem enativa para discutir esse tema da atenção a si, partimos
do fato de que não apenas as metodologias de primeira pessoa, mas toda prática de pesquisa
em cognição é também ontológica. Buscamos desenvolver esta questão do caráter ético-
político das pesquisas em cognição no primeiro e segundo capítulos. O conhecer o conhecer
nos põe em contato com o nosso próprio ser, com as relações e ações que nos constituem, e
das quais advém o si e o mundo. Por isso, o comprometimento a que somos levados a assumir
com o conhecimento do conhecimento reconhecer a imanência de nossos atos, que nossas
certezas não são provas da verdade, que o mundo de cada um de nós não é o mundo, mas um
mundo, que produzimos com outros. Daí a importância para os estudos da cognição de uma
atenção à experiência, à maneira como o cognoscente corporifica a realidade conhecida. A
própria cognição não é um objeto isolável, e isto coloca a questão da política cognitiva no
interior dos estudos da cognição.
As questões epistemológicas ganharam relevo e nos levaram a pensar, num determinado
momento, que o trabalho havia chegado a um impasse. Teríamos produzido uma tese sobre
170
atenção, como havíamos partido no início do doutorado, ou sobre epistemologia? Parecia que
havíamos feito um trabalho sobre metodologia das ciências cognitivas. Parecia que o tema da
atenção era secundário, e que seria inclusive necessária uma apresentação mais ampla da
discussão bibliográfica sobre o tema. É certo de que muitas leituras haviam sido feitas, mas
elas não compareceram no texto. Isso que parecia um impasse e poderia requerer uma
reorganização completa da tese, na verdade se mostrou uma dobra interessante do próprio
trabalho. Toda prática de pesquisa é uma prática cognitiva, e, toda prática cognitiva tem na
atenção um dos seus processos relevantes. No caso da investigação da experiência é
ressaltado o processo de atenção que se volta para si. Mas, não seria essa própria atenção a si
sujeita ao problema da experiência, para o qual ela surge como solução metodológica? Como
afirmamos, essa é uma questão importante que a nosso ver não é devidamente levada em
conta pelos autores que defendem o uso de metodologias de primeira pessoa nas ciências
cognitivas. Ao final, concluímos que assumir o desafio de investigar o conhecimento do
conhecimento requer uma atenção à experiência da atenção à experiência.
171
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