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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
GEOVANNI GOMES CABRAL
AS REPRESENTAÇÕES DE PODER NO
CORPUS DE FOLHETOS DE 1945 A 1954:
LEITURAS DA “ERA VARGAS”
Recife
2008
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
AS REPRESENTAÇÕES DE PODER NO
CORPUS DE FOLHETOS DE 1945 A 1954:
LEITURAS DA “ERA VARGAS”
Recife
2008
Dissertação apresentada por Geovanni
Gomes Cabral em cumprimento às
exigências do Programa de Pós-
Graduação em História da Universidade
Federal de Pernambuco, para obtenção
do grau de mestre.
Orientador: Prof. Flávio Weinstein
Teixeira.
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Cabral, Geovanni Gomes
As representações de poder no corpus de folhetos de
Cabral. -- Recife: O Autor, 2008.
171 folhas.
Dissertação (mestrado)
Universidade Federal de
Pernambuco. CFCH. História, 2008.
Inclui: bibliografia.
1.
História. 2. Cultura popular. 3. Folhetos de cordel.
4. Literatura de cordel – Política. I. Título.
981.34
981
CDU (2.
ed.)
CDD (22. ed.)
UFPE
BCFCH2010/03
A minha família, sempre presente nas horas precisas.
Ao meu pai Jose Cabral, (in memorian) pelo respeito e integridade.
A meu amado sobrinho Kauã Cabral.
A Vera Mônica e Maurício.
Aos poetas que possibilitaram essas leituras.
MEU POVO, MEU POEMA
Meu povo e meu poema crescem juntos
Como cresce no fruto
A árvore nova
No povo meu poema vai nascendo
Como no canavial
Nasce verde o açúcar
No povo meu poema está maduro
Como sol
Na garganta do futuro
Meu povo em meu poema
Se reflete
Como a espiga se funde em terra fértil
Ao povo seu poema aqui devolvo
Menos como quem canta
Do que planta.
(Ferreira Gullar)
Agradecimentos
Diante das possíveis “leituras” que este trabalho nos proporcionou, chegamos não
ao final de um estudo, mas ao início de novas oportunidades que a vida nos reserva. Trabalhar
com o universo desta literatura popular me possibilitou ampliar um largo conhecimento
acerca deste rico acervo, permeado de passagens que refletem a nossa história.
Várias pessoas, ao longo deste curso, estiveram ao meu lado, na torcida para que
um pouco dessa história sobre Getúlio Vargas nos folhetos pudesse esclarecer dúvidas que
permaneceram ao longo do tempo e trazer à “luz” novos direcionamentos ou outras
possibilidades de reflexões.
Agradeço ao meu orientador Flávio Weisntein Teixeira pela confiança e
dedicação dispensadas a este trabalho, pelas suas interlocuções e críticas, e pela sua amizade,
que durante anos foi determinante na medida em que estava sempre disposto a colaborar e
oferecer novas sugestões. Muito obrigado pela paciência e competência. Mesmo distante do
Estado de Pernambuco, não deixou, em nenhum momento, de apoiar e dar as devidas
assistências quando sobre as leituras historiográficas pairavam as dúvidas.
Ao Prof. Antonio Paulo Rezende, exemplo de dedicação e competência ao lidar
com o conhecimento histórico associado ao mundo da literatura e poesia. As leituras
desenvolvidas nas suas aulas permitiram fazer novas leituras da vida, não percebidas até
então. Aos demais professores, como Antônio Montenegro, por sua firmeza e perseverança à
frente desta Pós-graduação; à Jorge Siqueira, pelos debates inicias que pontuaram o
desenvolvimento da pesquisa e aos demais professores que não foram mencionados, mas que
permanecem como exemplos de atuação no mundo da história.
Às minhas co-orientadoras, Marinalva Vilar e Ângela Grillo meu imenso carinho.
Marinalva é uma pessoa que não sei como descrever; seu apoio para o término desta pesquisa
foi singular. Obrigado por ter me recebido tão bem em sua casa, nas vezes em que fui à
Universidade Estadual da Paraíba, pela confiança que dedicaste à minha pessoa. Nosso
convívio extrapolou os parâmetros acadêmicos e nos tornamos verdadeiros amigos. Minha
amiga Ângela, que me acompanha desde a graduação, também não tenho palavras para
descrevê-la. Resta-me apenas dizer que me sinto muito honrado em poder ter contado com a
sua presença ao longo deste mestrado.
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),
pelo incentivo financeiro à pesquisa, seu apoio foi fundamental.
Aos meus amigos do mestrado. Todos, sem exceção, foram pessoas que marcaram
a minha vida, por diversos motivos. Amigos que não ficaram restritos à sala de aula, mas que
estão guardados para sempre em meu coração. Sei que fui um pouco ausente com alguns,
porém não tive como mudar os rumos da vida, mas o importante de tudo isso é o sentimento
de respeito, admiração e a certeza de que posso contar com todos. Ao Carlos, Adilson,
Rogério, Vilmar, Francivaldo, Flávio, Andresa, Cíntia e outros, saibam que vocês estarão
sempre presentes em minha memória.
Ao museólogo Albino Oliveira, que com sua atenção pôde me ajudar a pesquisar e
selecionar os folhetos para serem digitalizados no acervo da Universidade Federal de
Pernambuco. À minha amiga Marilene Mattos, da Universidade Estadual da Paraíba, que, à
frente da documentação da Biblioteca Átila de Almeida, me atendeu com maestria. Sua ajuda
foi algo realmente espetacular, compartilhando a ânsia de encontrar mais um folheto relevante
para a pesquisa. Aos funcionários da Fundação Joaquim Nabuco e da Biblioteca da
Universidade Federal de Pernambuco.
Meus agradecimentos a todos que fazem parte do Educandário São Judas Tadeu,
pela força, determinação e apoio diante de um momento tão gratificante. Aos amigos que
sempre torceram para que este trabalho chegasse ao final, muito obrigado pelo
companheirismo, pelas brincadeiras nos momentos de tensão e sobrecarga de muitas leituras.
A Dannylson Albuquerque e Rosangela Machado, que em diversas situações me tiraram do
isolamento a que a pesquisa exige. A Bruno Guilherme, por sua participação na tradução de
alguns trabalhos e à Josenilda pela revisão de alguns textos ao longo do curso.
À Vera Mônica, por suas sugestões e críticas sempre pertinentes. Em momentos
de decisão, você apontou soluções que nortearam todo o desenvolvimento do trabalho.
Obrigado por acreditar que, mesmo diante das possíveis “falhas”, sempre possibilidade de
superação.
A seu José Clemente também minhas considerações, por vibrar a cada conquista.
Suas palavras de incentivo e orientação nos fazem perceber que lutar por nossos objetivos
nunca é demais, sempre com serenidade, humildade e sabedoria, pilares essenciais. À
Cremilda Rocha de Carvalho (in memorian), que não pôde ver a conclusão deste curso, mas
que muito contribuiu, pois foi na sua instituição de ensino onde tudo começou. Lembro como
suas palavras de incentivo permearam muitas alegrias. A você, meu respeito por ter ser sido
um exemplo na crença de que a educação é o caminho para a transformação.
A Maurício Carvalho, que esteve presente desde a elaboração do projeto e que
sempre buscou incentivar seus amigos a subirem mais um degrau e conquistar novos
horizontes, “além de Camaragibe”. A Rivaldo Bento, pelas palavras e apoio nas horas em que
o trabalho estava chegando ao seu término.
À minha amiga Paloma Borba, minha admiração pelo tratamento erudito dado ao
texto e pela forma como lida com este tipo de trabalho acadêmico. Suas sugestões foram
precisas, você, que esteve me acompanhado nas diversas leituras e revisões. Valeu pela
paciência ao longo deste curso, sou muito grato.
Aos amigos do Jarbas Passarinho, todos foram gentis demais no momento de
angústia para esta conclusão. Ao Prof. Marcos Vinícius, muito obrigado por ter me ajudado,
sua compreensão foi ímpar, pois todos os que passam por este curso sabem das horas de
desespero que enfrentamos. Aos amigos professores, Aiza Arôxa, Sandra Roberta, Ana
Claudia, Edinalva, Elizabete, Tércio, Fernanda e Ariene, que estiveram mais próximos, minha
terna gratidão. Fiquei muito honrado pelo carinho recebido.
Ao meu amigo Junior Cavalcanti, que esteve presente em várias fases deste
trabalho; você que me deu forças naquelas horas em que o pesquisador se vê diante do
computador e das fontes sem ter para onde ir. Seus telefonemas, as fugas para a descontração
foram realmente essenciais para reconquistar novas energias.
A Josenildo de Albuquerque Maranhão Filho, meu grande amigo, você o
poderia ficar de fora. As palavras de agradecimentos talvez não contemplem os significados
do carinho e respeito que tenho por sua pessoa. Seu apoio foi, e tem sido, fator de grandes
conquistas.
À minha família: Josefa, Katiana e Gleyson, base na qual na verdade, tudo
começou. Todos têm um papel singular na minha vida, seus apoios são os elementos que
nutrem o desenrolar de novas conquistas e objetivos futuros. Muito obrigado, agradeço a
Deus por existirem. Ao meu sobrinho Kauã Cabral, que me fez sair dos momentos de
concentração para o mundo da fantasia. Sua alegria e sorriso são contagiantes, claro que não
sabes o que isto representa, mas um dia saberás o que tento te passar. Amo-te. Ao meu pai,
José Lopes Cabral (in memorian), pessoa simples, que partiu muito cedo, mas cujo nome e
admiração permanecem presentes na minha vida.
Aos amigos que não foram citados, mas que estão presentes no meu tempo.
A Deus, por permitir tamanha alegria, obrigado.
RESUMO
A presente dissertação discorre sobre as representações de poder construídas pelos poetas
populares nos folhetos de cordel que tematizam a personagem política do presidente Getúlio
Dornelles Vargas, no período de 1945 a 1954. Através da análise do corpus de folhetos, aqui
destacado, nos foi possível rastrear os fatos políticos que envolveram a sociedade brasileira;
estabelecer comparações com os estudos consolidados pela historiografia que trata do
período; perceber a forma como os poetas compreenderam os acontecimentos da cena política
e relacionar o discurso desenvolvido pelos poetas com a leitura feita pelas classes populares a
partir desses textos uma vez que é a este público a que os poetas endereçam suas produções.
A literatura produzida pelos cordelistas nesse período, marcado pelo forte apelo social e
trabalhista, contribui fortemente para a difusão da imagem do “pai dos pobres”, fortemente
associada a Vargas. Esta perfilização vai ser popularizada através da circulação dos folhetos
que eram vendidos, principalmente, nas feiras livres do Nordeste e nas regiões/estados de
migração das populações oriundas deste cenário. Portanto, ao analisar tais folhetos, estes nos
revelaram o quanto a percepção popular estava inserida em um discurso político que se fazia
representar nos seus versos, aclarando, assim, o entendimento a que a pesquisa se propõe.
Neste interstício de tempo, Getúlio Vargas é “mitificado” por uma parcela da sociedade que
atribui a este dirigente a responsabilidade pela elaboração das leis trabalhistas. Por sua vez, o
poeta aproveita o momento de comoção nacional, de clamores, gerados pela morte do
presidente para produzir seus folhetos, transpondo para o papel fatos que ficaram na memória
social. É deste ponto que surgiu nossa problemática, na medida em que adentramos neste
universo poético para podermos entender o porquê de esse político ter sido tão exaltado pelas
camadas populares e recitado nos folhetos.
PALAVRAS-CHAVE: Cultura Popular, Folhetos de cordel, Getúlio Vargas, representações
ABSTRACT
The current dissertation is concerned with the representations of power constructed by poets
in cordel twine comics which use the theme of the political personage of President Getúlio
Dornelles Vargas, over the 1945-1954 period. Through an analysis of the corpus of the
comics highlighted here, it was possible for us to trace the political facts which involved
Brazilian society; establish comparisons with consolidated studies of the historiography that
deals with the period; perceive the way the poets understood the events of the political arena
and relate the discourse developed by the poets to the reading of these texts by the popular
classes to whom they were addressed. The literature produced by the cordelists of this period,
noted for its strong social and working class appeal, contributed greatly to the diffusion of the
“father of the poor” image, closely linked to Vargas. This profile creation was popularized
through the circulation of cordel comics which were mainly sold in the open markets of the
Northeast and the states and regions concentrating migrant populations from this base. On
analysis of these comics, however, they reveal how far the popular perception was inserted in
the political discourse which made representations in the verses, thus, making clear the
understanding that the research proposes. Over this period of time, myths are created about
Getúlio Vargas and a portion of society attribute to him the responsibility for the elaboration
of labor laws. In turn, the poet takes advantage of a moment of national commotion, resulting
from the presidents’ death to produce comics, transposing to paper facts that will live in the
social memory. This is the contentious area, as we go deeper into this poetic universe to
enable us to understand why this politician has been so vaunted among the working classes
and recited in the cordel twine comics
Key words: Popular cultures, Cordel twine comics, Getúlio Vargas, representations
RESUMÉN
La presente disertación indaga sobre las reprentaciones del poder construidas por los poetas
populares en los folletines de cordel que traen el tema del personaje político del presidente
Getúlio Dornelles Vargas en el período desde 1945 hasta 1954. Por medio de análisis del
contenido de los folletines, aquí destacado, nos ha sido posible buscar los acontecimientos
políticos que envolvieron la sociedad brasileña; establecer comparaciones con los estudios
consolidados por la historiografia que retrata del período; sentir la forma como los poetas
comprendieron los sucesos de la escena política y promover articulaciones de sus lecturas
com aquéllas promovidas por las gentes de las camadas populares, lectora/público a que los
poetas direccional sus producciones. En ese período, observamos el establecimiento de un
Getúlio Vargas centrado a partir de la comprensión de “padre de los pobres”, puesto que de
carácter social y trabajador es que son recurrentemente puntuadas. Esta nombreación se va a
ser popularizada por medio de circulación de los folletines que eran vendidos, principalmente,
en las ferias libres del Nordeste y en las regiones / estados de migración de las populaciones
ubicadas en esta escena. Por lo tanto, al analizar tales folletines, estos nos han revelado lo
cuan la percepción popular estaba hacia en un discurso político que se hacia representar en sus
versos, desarrollando, así el entendimiento a que la encuesta se propone. En este intersticio de
tiempo que buscamos hacer tal levantamiento de papeleo, Getúlio Vargas es “mitificado” por
uma parte de la sociedad que nombra a este dirigente la responsabilidad por elaboración de las
leyes del trabajo. A su vez, el poeta aprovecha en este rato (momento) de conmoción
nacional, de rogares, de pedidos por su vuelta o de lloro por su muerte para producir sus
folletines, empleado en el papel los sucesos que quedaron en la memoria social. Es de este
punto que la surgido nuestra problematización, en la medida que que avanzamos en este
universo poético para podernos entender lo porqué de este político haber sido tan exaltado por
las camadas populares y recitado en los folletines.
PALAVRA - LLAVE: Cultura Popular, Folletines de cordel, Getúlio Vargas,
representaciones.
SUMÁRIO
Introdução: História e poesia no corpus de folhetos ....................................................... 14
Capítulo 01: Folhetos de Cordel: o estado da arte ......................................................... .26
1.1- Gênesis e classificação: um debate longe do fim ............................................. .27
1.2- As primeiras histórias impressas. ..................................................................... .41
1.3- Os folhetos e suas ilustrações .......................................................................... .46
1.4- Poetas, leitores e ouvintes. ............................................................................... 49
Capítulo 02: Getúlio Vargas: um panorama da política nacional de 1945 a 1954 ......... ..52
2.1- 1945: a redemocratização ................................................................................. ..53
2.2- Ele voltará! Da campanha às eleições de 1950 ........................................................... ..67
2.3- II governo Vargas: da vitória ao suicídio ......................................................... ..76
2.4- Vargas e seu legado .......................................................................................... ..92
Capítulo 03: As representações de Getúlio no corpus de folhetos ................................. ..98
3.1- Getúlio Vargas nos folhetos ............................................................................. . 99
3.2- Corpus dos folhetos antes do suicídio .............................................................. 103
3.3- Corpus dos folhetos após o suicídio ................................................................... 128
3.4- Getúlio Vargas; da carta-testamento para o corpus de folhetos ....................... ..144
Considerações finais .......................................................................................................... ..152
Referências ........................................................................................................................ . 157
14
INTRODUÇÃO
História e poesia no corpus de folhetos
1
POESIA
A nossa poesia é uma só
Eu não vejo razão pra separar
Todo o conhecimento que está cá
Foi trazido dentro de um só mocó
E ao chegar aqui abriram o nó
E foi como se ela saísse do ovo
A poesia recebeu sangue novo
Elementos deveras salutares
Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo
Os livros que vieram para cá
O Lunário e a Missão Abreviada
A Donzela Teodora e a fábula
Obrigaram o sertão a estudar
De repente começaram a rimar
A criar um sistema todo novo
O diabo deixou de ser um estorvo
E o boi ocupou outros lugares
Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo
No contexto de uma sala de aula
Não estarem esses nomes me dá pena
A escola deveria ensinar
Pro aluno não me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
São vates de muitas qualidades
O aluno devia bater palma
Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
Os nomes dos poetas populares.
2
Antonio Vieira
A poesia que aqui apresentamos, através dos versos de Antonio Vieira, faz parte
da história da Literatura de Cordel, um tipo de poesia impressa em versos que, segundo os
1
Nesta dissertação, preferimos chamar de folheto o corpus documental, tendo em vista que no referido período
era assim conhecido. por volta da década de 1970 é que a expressão “literatura de cordel” passou a ser
empregada por estudiosos, que o importaram do universo português, influenciando, a seguir, os poetas que
passaram a utilizá-la. Sobre esta discussão em torno da produção do cordel português e a literatura de folhetos
nordestinos, ver ABREU, rcia. Histórias de cordéis e folhetos. Campinas –SP: Mercado das Letras:
Associação de Leitura do Brasil, 1999.
2
VIEIRA, Antonio. Poesia. Intérprete: Maria Bethânia In: BETHÂNIA., Maria. Pirata. Rio de Janeiro: Biscoito
Fino, p2006, 1CD. Faixa 12.
15
folcloristas e pesquisadores, chegou ao nosso país por volta dos séculos XV e XVI dentro das
malas dos colonizadores. Poesia esta que circulava nos países europeus, como França,
Inglaterra, Holanda, Espanha e Portugal, atingindo diversos setores sociais. A denominação
Literatura de Cordel vem de Portugal pelo fato de estes impressos estarem presos a um cordão
para serem vendidos. Aqui, esse tipo de literatura assumiu papéis distintos no tocante à sua
disseminação e produção, abarcando histórias das mais fabulosas e engraçadas, permeadas de
aventuras e cenários de uma cultura popular que se mesclava nos versos dos poetas populares,
transformando-se em memória, documento e registro da nossa história.
3
Portanto, por meio dessa literatura impressa, conhecida como literatura de cordel
ou literatura de folhetos, é que esta dissertação busca ressaltar de que forma o Presidente
Getúlio Vargas foi representado neste tipo de poesia popular, tomando como recorte temporal
os anos de 1945 a 1954. O que aqui se buscou foi entender as representações de poder
vinculadas nos textos desta poesia “popular”, examinando-as no tocante às condições
históricas em que foram produzidas e o sentido que elas adquiriram quando veiculadas no
âmbito social. O período estudado é importantíssimo para este tipo de literatura por dois
motivos: o primeiro por refletir uma série de turbulências que tangem a trajetória da política
nacional na chamada “Era Vargas” e segundo por ser um período em que estes de impressos
atingiram seu apogeu quanto à circulação e produção do gênero, conforme afirma Mark
Curran.
4
A chamada “Era Vargas” compreende um período que abrange alguns dos
momentos mais decisivos de nossa história republicana, tais como o processo de
industrialização e urbanização, controle dos trabalhadores e sindicatos, criação das leis
trabalhistas, e atuação do Estado como agente econômico. Enfim, uma série de mudanças que,
com certeza, transformaram o cenário histórico do país, marcado, até então, por uma
economia agro-exportadora que perdurara com a República do Café-com-Leite antes de 1930.
A partir de então, novos tempos se anunciam, é o capitalismo nacional tomando proporções
que mudarão a idéia de um Brasil agrário para um Brasil industrial, inserido no contexto
internacional.
5
3
Cf. SANTOS, Olga de Jesus. O Povo conta a História In: O Cordel, Testemunha da História do Brasil. Rio de
Janeiro, Fundação Casa Rui Barbosa, 1987.
4
CURRAN, Mark. História do Brasil em Cordel. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001,
p. 108-109.
5
Para maiores informações sobre a “Era Vargas” ver SKIDMORE, Thomas E. Brasil de Getúlio a Castelo,
1930-1964. Tradução de Ismênia Tunes Dantas, 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
16
Quanto ao fim deste período, ainda suscita controvérsias. Maria Celina D’Araújo
6
nos aponta que alguns historiadores acreditam que esta “Era Vargas” terminou em 1954, com
a sua morte; para outros, isso ocorreu apenas em 1964, com o golpe militar. Não cabe, aqui,
discutirmos em que momento termina essa fase da política brasileira, mas perceber o quanto
ela foi significativa e transformadora, atingindo o campo da política, economia, sociedade e
cultura.
7
E são justamente estes acontecimentos políticos, econômicos e sociais que
serviram de elementos norteadores para que os poetas registrassem nos versos de cordel
tamanha transformação que a nação vivenciou. Somado a isto, temos a imagem que este
dirigente construiu perante a sociedade brasileira. Segundo Orígenes Lessa, depois da
produção de folhetos sobre Padre Cícero, que obteve um grande número em termos de
produção, Getúlio desponta como temática de maior aceitação e inspiração entre os poetas
populares. Nem mesmo os cangaceiros Antonio Silvino e Lampião, com suas andanças pelo
Nordeste brasileiro, conseguiram tamanho êxito na poesia popular.
8
E foi mergulhando neste universo documental expresso pela poética popular,
mediante as leituras dos folhetos políticos de Getúlio, que levantamos nossas indagações: por
que este presidente foi tão exaltado pelos poetas populares? Por que se deu uma produção
mais volumosa deste tipo de literatura no final de 1945, quando este dirigente foi deposto do
poder e durante a sua campanha presidencial em 1950? Assim como o registro de sua morte,
atingindo verdadeiros recordes de tiragens e produções? Quem era este poeta que deitava
caneta e papel em punho, produzindo versos acerca deste político? Quais as suas intenções, ou
possíveis intenções, ao produzir estes folhetos? E, mais importante ainda, como entender o
imaginário criado em torno desta figura da política nacional? As perguntas não cessam por
aqui, tendo em vista que, diante das análises dos folhetos, novos questionamentos serão
acrescentados, visando a uma melhor compreensão do período estudado.
E assim, mapeamos poesias e poetas, inseridos em diversos contextos sociais
para tentarmos encontrar respostas a tais questionamentos. Não respostas conclusivas, até por
que a história não é algo fechado ou absoluto nas suas explicações; muito pelo contrário, ela é
6
Cf. D’ARAÚJO, Maria Celina. A Era Vargas, São Paulo, 2. ed. Moderna, 2004, p. 8-12. Neste livro a autora
apresenta um estudo sobre o que foi a Era Vargas para o país e como Getúlio se tornou na figura mais popular do
século XX neste país. Ainda sobre este período ver FAUSTO, Boris. Getúlio Vargas: o poder e o sorriso. São
Paulo: Companhia das Letras, 2006. É um trabalho interessante e ajuda o leitor situar a trajetória de Getúlio no
poder e suas estratégias.
7
Acerca deste debate sobre o tema do fim ou não da Era Vargas, ver FAUSTO, Boris. Getúlio Vargas: o poder e
o sorriso. São Paulo Companhia das Letras, 2006. Este livro tem um capítulo intitulado “Getúlio após a morte”,
que traz uma abordagem sobre este legado para o nosso país.
8
Cf. LESSA, Orígenes. Getúlio Vargas na literatura de cordel. Rio de Janeiro. Documentário, 1973.
17
permeada de labirintos” e de mistérios, possibilitando diversos “tesouros” aos seus
exploradores. Mas, respostas que a nossa fonte documental é capaz de fornecer, esclarecendo
nossas dúvidas.
No entanto, utilizar a literatura de folhetos para contarmos a nossa história e suas
reminiscências foi possível com as mudanças de paradigmas por que passou a História ao
longo da década de setenta, quando o olhar de “Clio” se preocupou em observar mais o
popular e sua produção. Deixando um pouco de lado uma História marcada por palácios, reis,
rainhas, políticos e versões oficiais, para dar ênfase a uma história mais recortada,
privilegiando comunidades, elementos populares, trabalhadores simples, bem como suas
apropriações e práticas culturais. Tudo tem uma história, que pode ser contada e relacionada
em dado tempo e lugar. É a chamada História Cultural, que abriu “alas”, pedindo passagem,
redefinindo fronteiras, demarcando novos espaços, possibilitando uma visão “micro” dos
acontecimentos históricos e sociais.
Assim, segundo Vainfas:
A História Cultural não recusa as expressões culturais da elite e sua
produção, até porque se faz necessário entendê-la enquanto grupos atuantes
no processo histórico, mas revela um especial apreço, tal como a história das
mentalidades, pelas manifestações das massas anônimas como as festas, as
resistências, as crenças heterodoxas, ou seja, uma afeição pelo informal, e
sobretudo pelo popular. A preocupação se dá em resgatar o papel das classes
sociais, da estratificação e dos conflitos sociais. São os chamados caminhos
alternativos para a investigação histórica.
9
Sobre a História Cultural, Chartier nos relata que é importante identificar como
em “diferentes momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a
ler”
10
. Nesse contexto, o mesmo trabalha com a idéia de representação, prática e apropriação,
mostrando que existem diferentes práticas de utilização de materiais culturais, bem como sua
apropriação por diferentes sujeitos, dando-lhes novos sentidos
11
. É neste tipo de abordagem
que iremos fundamentar nossa pesquisa, com o objetivo de perceber, por meio das análises
9
VAINFAS, Ronaldo. História das mentalidades e história cultural. In: CARDOSO, C. F. e VAINFAS, R.
(Orgs.). Domínios da História. Rio de Janeiro: Campus, 1997, p. 148-149. Ainda sobre História Cultural ver
HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992 e BURKE, P