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Ao confrontar a técnica didático-pedagógica de Guarnieri com a produção de Nilson
Lombardi, logo se verificam algumas similitudes. Nesse sentido, pode-se supor que a escolha
das obras e as próprias obras sofreram forte influência de Guarnieri como professor.
Lombardi escreveu temas com variações, pequenas canções e peças corais sobre temas
folclóricos. Também transcreveu para orquestra outras composições originalmente escritas
para piano solo (o reprisar de uma mesma obra em diferentes formações mostrar-se-á uma
constante em sua produção
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). De certo modo, pode-se supor que parcela expressiva de sua
produção foi realizada sob a orientação de Guarnieri
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. E ainda, como assevera o próprio
compositor, que o embasamento e posterior consolidação de sua escrita deram-se em função
de sua formação inicial.
Meu trabalho está impregnado de várias correntes musicais, e muito pouco
do classicismo, que aparece apenas em trabalhos isolados. Mas o que
predomina sempre é o meu estilo, resultado da influência recebida de
Guarnieri, que é o contraponto, o linearismo, a polifonia (LOMBARDI,
apud FINEIS, p. 15).
No entanto, o que se observa na trajetória do compositor é que, a despeito das
circunstâncias, não foi um entusiasta defensor do nacionalismo, como também não cerrou
fileira aos movimentos de vanguarda. O que o distingue, nesse sentido, é ter assimilado e
aplicado novos recursos sem necessariamente distanciar-se dos preceitos que teve por base.
Esteve, sim, em busca de resoluções estéticas para os problemas da composição, como se
verifica em parte de sua obra, utilizando de proposições técnicas modernas em um alvitre que
ele mesmo sugere como de embate entre renovação e tradição (LOMBARDI, 1984).
É Nilson Lombardi um compositor nacionalista? O é pela ascendência imediata de
Guarnieri, pela situação cultural favorável para tal, e pela sua produção que demonstra sua
opção estética. Como destaca José da Veiga Oliveira, na capa do disco Attilio Mastrogiovanni
interpreta Nilson Lombardi (1976), sobre a obra completa do autor até então:
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Transcreveu o Ciclo miniatura (1960) para piano a quatro mãos, para dois pianos, para orquestra de cordas e
orquestra sinfônica (Toada e o Acalanto para cordas, Valsa e o Baião para orquestra sinfônica). O Ponteio n°.1 e
a primeira das cantilenas foram transcritos para orquestra de cordas e as todas as três cantilenas, para orquestra
sinfônica. Retornar sempre às antigas formas, de certo modo, chega a incomodar o crítico José da Veiga
Oliveira, que assim se manifesta: “Sempre tivemos Lombardi em tal conta, por sua sensível veia lírica.
Entretanto, o eterno repisar de toadas, chorinhos, acalantos, valsas, baiões – os movimentos ou tempos dessa
suíte – já não mais pode admitir-se em termos de validez criativa mesmo que não conotação folclórica alguma. A
balada assacada assume caráter puramente construtivo, porquanto queremos Nilson Lombardi isento de
subservientes clicherias, das quais cumpre liberar-se para mais altos vôos inspiracionais” (OLIVEIRA, 1974).
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Márcia Mah, que organizou a edição do livro Nilson Lombardi: obra completa (2002), afirma, em entrevista
realizada em 18 de abril de 2006, que o Tema e variações sobre Mucama bonita e o Tema e doze variações do
“Vapor de seu Tertulino” (obra incompleta) foram exercícios de composição solicitados por Camargo Guarnieri.