
Jaime Ovalle,
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Osvaldo Costa,
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entre outros. Apesar de todo o modernismo de sua
obra, o poeta ainda declarou que graças a esses amigos escrevera versos como os de
“Mangue”, “Na boca”, “Macumba do pai Zuzé” e “Noturno da rua da Lapa”.
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Precisa-
mos observar, contudo, alguma perspicácia nessa declaração: ele busca, de modo propo-
sital, manipular os leitores do Itinerário de Pasárgada, fazendo-os pensar que o seu
processo criativo modernista agia unicamente por meio de forças externas, mas, se fosse
dessa maneira, Bandeira não teria chegado, conceitualmente, à excelência de sua poéti-
ca. Esta declaração mais parecia um modo de inviabilizar qualquer tentativa de fazer
aderir a sua obra a grupos literários e, conseqüentemente, assim manter a liberdade que
tanto defendia para a esfera da criação. Deixar-se levar pela adesão explícita aos grupos
em formação equivaleria, para ele, a abandonar o seu percurso poético, que se fazia com
sobeja consciência.
Acreditamos que esta posição foi assumida facilmente devido ao fato de ele
não ter “nascido” modernista. Seu lado renovador surgiu aos poucos, acrescentando-se
em cada livro alguns novos elementos. Como esta posição bandeiriana ― autônoma,
1926 (Cf. ANDRADE, BANDEIRA, op. cit., p. 301). Ribeiro Couto, a 27 de setembro de 1927, traça um
perfil do boêmio: “Do Dodô eu só tenho o sentimento de não podê-lo fazer menos obsceno e de não lhe
poder tirar o vício. De resto, tudo que é substância humana, nele, atrai a minha. Nele há essa organização,
essa estrutura natural de franqueza e bondade, que nem a cultura, nem as habilidades do engenho conse-
guem criar. Quem é bom já nasce feito...” (Cf. ARQUIVO MANUEL BANDEIRA, Arquivo-Museu de
Literatura Brasileira – AMLB, Fundação Casa de Rui Barbosa). A crônica “Golpe do chapéu”, de Crôni-
cas da província do Brasil, revela um caso que se passou com Dodô (Cf. BANDEIRA, op. cit., 2006, p.
169). Não há, nas enciclopédias e dicionários de literatura, qualquer referência a Dodô ou Geraldo Barro-
so do Amaral. Tudo levaria a crer que se tratasse de um malandro da Lapa, mas, conforme Humberto
Werneck, ele era, nessa época, estudante de engenharia e se aposentou como engenheiro da Central do
Brasil (WERNECK, Humberto. O anjo sujo: a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac & Naify, 2008. p.
76).
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Jaime Ovalle (1894-1955), músico popular. Autor de obras para piano e canto. Manuel Bandeira foi seu
parceiro em algumas canções, como “Modinha” e “Azulão” (Cf. BANDEIRA, op. cit., 1958, v. I, p.
1154-1158). Relacionados ao músico, Bandeira publicou, em Belo belo, “Poema só para Jaime Ovalle” e
“Esparsa triste”; em Estrela da tarde, “Elegia de Londres” (Cf. ibid., v. I, p. 332; 348; 442-443, respecti-
vamente). Jaime Ovalle também escreveu versos em inglês; “Três poemas” foi traduzido por Manuel
Bandeira (Cf. ibid., v. I, p. 583-584). Em Flauta de papel, foi publicada a crônica “Ovalle”, em que há
um perfil desse músico (Cf. BANDEIRA, op. cit., 2003, p. 139-143).
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Osvaldo Costa (1900-1975) foi jornalista, diretor de A Manhã, em 1926, e poeta. Participou da Revista
de Antropofagia. Autor do livro de poemas Asas de borboleta.
37
BANDEIRA, op. cit., 1956, p. 87.