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Marc Bloch, que detesta os historiadores que “julgam” em lugar de
compreender, não deixa por isso de enraizar mais profundamente a história
na verdade e na moral. A ciência histórica se consuma na ética. A história
deve ser verdade; o historiador se realiza como moralista, como justo.
Nossa época, desesperadamente em busca de uma nova ética, deve
admitir o historiador entre aqueles que procuram a verdade e a justiça não
fora do tempo, mas no tempo. (...). Compreender, portanto, e não julgar.
(2001, p. 29-30).
E Bloch (2001, p. 45), na Introdução de sua obra, alerta que:
Não se pode negar, no entanto, que uma ciência nos parecerá sempre ter
algo de incompleto se não nos ajudar, cedo ou tarde, a viver melhor. Em
particular, como não experimentar com mais força esse sentimento em
relação à história, ainda mais claramente predestinada, acredita-se, a
trabalhar em benefício do homem na medida em que tem o próprio homem
e seus atos como material?
Por isso, deve-se reforçar também, no sentido blochiano, a compreensão
científica em se tratando de História, como ação de cunho ético. Logo a ética
começa na ação do ofício de historiador. Isso é colocado aqui pelo simples fato de
que muitas são as maneiras de compreender, mas nem todas essas maneiras são
ciências e nem todas essas ciências falam a mesma coisa e estão no mesmo
patamar de compreensão. Como conhecer e como produzir conhecimento deve
estar no mesmo nível de importância, do que o que fazer com esse conhecimento.
Em suma, a ética na História, é aplicada inicialmente pela utilização
racional de um método. Assim, a legitimidade intelectual, vem antes do agir. E
mais, para Bloch, a História não deve ficar presa apenas as exigências de
curiosidade do senso comum. Ela deve possuir uma independência científica. Idéia
essa, convém frisar, não abordada no PPP.
Obviamente, depois do alerta colocado sobre sua postura ética, o PPP
(2002, p. 18) traz o seu conceito de História, explicitando-o com os seguintes
termos:
Em termos de conceito, podemos assumir a História enquanto ciência que
estuda o homem no tempo e espaço. Investiga-se o que se passou,
produziu e inventou-se no passado. O historiador indaga como as
sociedades se organizavam, como se relacionavam, como produziam, como
estabeleciam suas hierarquias de poder, como enfrentavam seus problemas
individuais e sociais. A História investiga as transformações nas sociedades,
as continuidades, as rupturas. Ela estuda o passado para melhorar o
presente ou vislumbrar um futuro melhor para todos. A relação passado-
presente-futuro, no entanto, é indissociável, pois o homem olha para o
passado ou idealiza o futuro com os valores do presente.