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Comitê Cientíco Internacional da UNESCO para Redação da História Geral da África
HISTÓRIA GERAL
DA ÁFRICA
II
África Antiga
EDITOR GAMAL MOKHTAR
UNESCO Representação no BRASIL
Ministério da Educação do BRASIL
Universidade Federal de São Carlos
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HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA
II
África antiga
Comitê Cientíco Internacional da UNESCO para Redação da História Geral da África
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Coleção História Geral da África da UNESCO
Volume I Metodologia e pré-história da África
(Editor J. Ki-Zerbo)
Volume II África antiga
(Editor G. Mokhtar)
Volume III África do século VII ao XI
(Editor M. El Fasi)
(Editor Assistente I. Hrbek)
Volume IV África do século XII ao XVI
(Editor D. T. Niane)
Volume V África do século XVI ao XVIII
(Editor B. A. Ogot)
Volume VI África do século XIX à década de 1880
(Editor J. F. A. Ajayi)
Volume VII África sob dominação colonial, 1880-1935
(Editor A. A. Boahen)
Volume VIII África desde 1935
(Editor A. A. Mazrui)
(Editor Assistente C. Wondji)
Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação dos fatos contidos neste livro,
bem como pelas opiniões nele expressas, que o são necessariamente as da UNESCO,
nem comprometem a Organização. As indicações de nomes e apresentação do
material ao longo deste livro o implicam a manifestação de qualquer opinião por parte
da UNESCO a respeito da condão judica de qualquer ps, território, cidade, rego
ou de suas autoridades, tampouco da delimitação de suas fronteiras ou limites.
Comitê Cientíco Internacional da UNESCO para Redação da História Geral da África
HISTÓRIA GERAL
DA ÁFRICA
II
África antiga
EDITOR GAMAL MOKHTAR
Organização
das Nações Unidas
para a Educação,
a Ciência e a Cultura
História geral da África, II: África antiga / editado por Gamal Mokhtar. – 2.ed. rev.
Brasília : UNESCO, 2010.
1008 p.
ISBN: 978-85-7652-124-2
1. História 2. História antiga 3. História africana 4. Culturas africanas 5. Norte da África
6. Leste da África 7. Oeste da África 8. Sul da África 9. África Central 10. África
I. Mokhtar, Gamal II. UNESCO III. Brasil. Ministério da Educação IV. Universidade
Federal de São Carlos
Esta versão em português é fruto de uma parceria entre a Representação da UNESCO no Brasil, a
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação do
Brasil (Secad/MEC) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Título original: General History of Africa, II: Ancient Civilizations of Africa. Paris: UNESCO;
Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational Publishers Ltd., 1981.
(Primeira edição publicada em inglês).
© UNESCO 2010 (versão em português com revisão ortográca e revisão técnica)
Coordenação geral da edição e atualização: Valter Roberto Silvério
Preparação de texto: Eduardo Roque dos Reis Falcão
Revisão técnica: Kabengele Munanga
Revisão e atualização ortográca: Cibele Elisa Viegas Aldrovandi
Projeto gráco e diagramação: Marcia Marques / Casa de Ideias; Edson Fogaça e Paulo Selveira /
UNESCO no Brasil
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO)
Representação no Brasil
SAUS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO,andar
70070-912 – Brasília DF – Brasil
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Fax: (55 61) 3322-4261
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Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
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13565-905 – São Carlos – SP – Brasil
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Impresso no Brasil
SUMÁRIO
Apresentação ...................................................................................VII
Nota dos Tradutores ..........................................................................IX
Cronologia .......................................................................................XI
Lista de Figuras .............................................................................XIII
Prefácio ..........................................................................................XXI
Apresentação do Projeto ..............................................................XXVII
Introdução Geral ......................................................................... XXXI
Capítulo 1 Origem dos antigos egípcios .................................................. 1
Capítulo 2 O Egito faraônico ................................................................. 37
Capítulo 3 O Egito faraônico: sociedade, economia e cultura ................ 69
Capítulo 4 Relações do Egito com o resto da África ............................. 97
Capítulo 5 O legado do Egito faraônico .............................................. 119
Capítulo 6 O Egito na época helenística .............................................. 161
Capítulo 7 O Egito sob dominação romana ......................................... 191
Capítulo 8 A importância da Núbia: um elo entre a África central
e o Mediterrâneo................................................................. 213
Capítulo 9 A Núbia antes de Napata (3100 a 750 antes da Era
Cristã) ................................................................................. 235
Capítulo 10 O Império de Kush: Napata e Méroe .............................. 273
VI
África antiga
Capítulo 11 A civilização de Napata e Méroe ...................................... 297
Capítulo 12 A cristianização da Núbia ................................................. 333
Capítulo 13 A cultura pré -axumita ...................................................... 351
Capítulo 14 A civilização de Axum do século I ao século VII ............ 375
Capítulo 15 Axum do século I ao século IV: economia,
sistema político e cultura .................................................. 399
Capítulo 16 Axum cristão ..................................................................... 425
Capítulo 17 Os protoberberes .............................................................. 451
Capítulo 18 O período cartaginês ........................................................ 473
Capítulo 19 O período romano e pós -romano na África do Norte ...... 501
PARTE I O período romano ....................................... 501
PARTE II De Roma ao Islã ......................................... 547
Capítulo 20 O Saara durante a Antiguidade clássica ........................... 561
Capítulo 21 Introdução ao fim da Pré -História na África
subsaariana ........................................................................ 585
Capítulo 22 A costa da África oriental e seu papel no comércio
marítimo .......................................................................... 607
Capítulo 23 A África oriental antes do século VII ............................... 627
Capítulo 24 A África ocidental antes do século VII ............................ 657
Capítulo 25 A África central ............................................................... 691
Capítulo 26 A África meridional: caçadores e coletores ...................... 713
Capítulo 27 Início da Idade do Ferro na África meridional ................ 749
Capítulo 28 Madagáscar ...................................................................... 773
Capítulo 29 As sociedades da África subsaariana na Idade do Ferro
Antiga .............................................................................. 803
Anexo Síntese do colóquio “O povoamento do antigo Egito e a
decifração da escrita meroíta ..................................................... 821
Conclusão ................................................................................................ 857
Membros do Comitê Científico Internacional para a Redação de
uma História Geral da África................................................... 865
Dados Biográficos dos Autores do Volume II ........................................ 867
Abreviações e Listas de Periódicos ......................................................... 871
Referências Bibliográficas ...................................................................... 879
Índice Remissivo ..................................................................................... 939
“Outra exigência imperativa é de que a história (e a cultura) da África devem pelo menos ser
vistas de dentro, não sendo medidas por réguas de valores estranhos... Mas essas conexões
têm que ser analisadas nos termos de trocas mútuas, e influências multilaterais em que algo
seja ouvido da contribuição africana para o desenvolvimento da espécie humana”. J. Ki-Zerbo,
História Geral da África, vol. I, p. LII.
A Representação da UNESCO no Brasil e o Ministério da Educação têm a satis-
fação de disponibilizar em português a Coleção da História Geral da África. Em seus
oito volumes, que cobrem desde a pré-história do continente africano até sua história
recente, a Coleção apresenta um amplo panorama das civilizações africanas. Com sua
publicação em língua portuguesa, cumpre-se o objetivo inicial da obra de colaborar para
uma nova leitura e melhor compreensão das sociedades e culturas africanas, e demons-
trar a importância das contribuições da África para a história do mundo. Cumpre-se,
também, o intuito de contribuir para uma disseminação, de forma ampla, e para uma
visão equilibrada e objetiva do importante e valioso papel da África para a humanidade,
assim como para o estreitamento dos laços históricos existentes entre o Brasil e a África.
O acesso aos registros sobre a história e cultura africanas contidos nesta Coleção se
reveste de significativa importância. Apesar de passados mais de 26 anos após o lança-
mento do seu primeiro volume, ainda hoje sua relevância e singularidade são mundial-
mente reconhecidas, especialmente por ser uma história escrita ao longo de trinta anos
por mais de 350 especialistas, sob a coordenação de um comitê científico internacional
constituído por 39 intelectuais, dos quais dois terços africanos.
A imensa riqueza cultural, simbólica e tecnológica subtraída da África para o conti-
nente americano criou condições para o desenvolvimento de sociedades onde elementos
europeus, africanos, das populações originárias e, posteriormente, de outras regiões do
mundo se combinassem de formas distintas e complexas. Apenas recentemente, tem-
se considerado o papel civilizatório que os negros vindos da África desempenharam
na formação da sociedade brasileira. Essa compreensão, no entanto, ainda está restrita
aos altos estudos acadêmicos e são poucas as fontes de acesso público para avaliar este
complexo processo, considerando inclusive o ponto de vista do continente africano.
APRESENTAÇÃO
VIII
África antiga
A publicação da Coleção da História Geral da África em português é também resul-
tado do compromisso de ambas as instituições em combater todas as formas de desigual-
dades, conforme estabelecido na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948),
especialmente no sentido de contribuir para a prevenção e eliminação de todas as formas
de manifestação de discriminação étnica e racial, conforme estabelecido na Convenção
Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial de 1965.
Para o Brasil, que vem fortalecendo as relações diplomáticas, a cooperação econô-
mica e o intercâmbio cultural com aquele continente, essa iniciativa é mais um passo
importante para a consolidação da nova agenda política. A crescente aproximação com
os países da África se reflete internamente na crescente valorização do papel do negro
na sociedade brasileira e na denúncia das diversas formas de racismo. O enfrentamento
da desigualdade entre brancos e negros no país e a educação para as relações étnicas
e raciais ganhou maior relevância com a Constituição de 1988. O reconhecimento da
prática do racismo como crime é uma das expressões da decisão da sociedade brasileira
de superar a herança persistente da escravidão. Recentemente, o sistema educacional
recebeu a responsabilidade de promover a valorização da contribuição africana quando,
por meio da alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e
com a aprovação da Lei 10.639 de 2003, tornou-se obrigatório o ensino da história e
da cultura africana e afro-brasileira no currículo da educação básica.
Essa Lei é um marco histórico para a educação e a sociedade brasileira por criar, via
currículo escolar, um espaço de diálogo e de aprendizagem visando estimular o conheci-
mento sobre a história e cultura da África e dos africanos, a história e cultura dos negros
no Brasil e as contribuições na formação da sociedade brasileira nas suas diferentes
áreas: social, econômica e política. Colabora, nessa direção, para dar acesso a negros e
não negros a novas possibilidades educacionais pautadas nas diferenças socioculturais
presentes na formação do país. Mais ainda, contribui para o processo de conhecimento,
reconhecimento e valorização da diversidade étnica e racial brasileira.
Nessa perspectiva, a UNESCO e o Ministério da Educação acreditam que esta publica-
ção estimulará o necesrio avanço e aprofundamento de estudos, debates e pesquisas sobre
a temática, bem como a elaboração de materiais pedagógicos que subsidiem a formação
inicial e continuada de professores e o seu trabalho junto aos alunos. Objetivam assim com
esta edição em português da Hisria Geral da África contribuir para uma efetiva educação
das relões étnicas e raciais no país, conforme orienta as Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da Hisria e Cultura Afro-
brasileira e Africana aprovada em 2004 pelo Conselho Nacional de Educação.
Boa leitura e sejam bem-vindos ao Continente Africano.
Vincent Defourny Fernando Haddad
Representante da UNESCO no Brasil Ministro de Estado da Educação do Brasil
IX
NOTA DOS TRADUTORES
NOTA DOS TRADUTORES
A Conferência de Durban ocorreu em 2001 em um contexto mundial dife-
rente daquele que motivou as duas primeiras conferências organizadas pela
ONU sobre o tema da discriminação racial e do racismo: em 1978 e 1983 em
Genebra, na Suíça, o alvo da condenação era o apartheid.
A conferência de Durban em 2001 tratou de um amplo leque de temas, entre
os quais vale destacar a avaliação dos avanços na luta contra o racismo, na luta
contra a discriminação racial e as formas correlatas de discriminação; a avaliação
dos obstáculos que impedem esse avanço em seus diversos contextos; bem como
a sugestão de medidas de combate às expressões de racismo e intolerâncias.
Após Durban, no caso brasileiro, um dos aspectos para o equacionamento
da questão social na agenda do governo federal é a implementação de políticas
públicas para a eliminação das desvantagens raciais, de que o grupo afrodescen-
dente padece, e, ao mesmo tempo, a possibilidade de cumprir parte importante
das recomendações da conferência para os Estados Nacionais e organismos
internacionais.
No que se refere à educação, o diagnóstico realizado em novembro de 2007,
a partir de uma parceria entre a UNESCO do Brasil e a Secretaria de Educação
Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (SECAD/
MEC), constatou que existia um amplo consenso entre os diferentes participan-
tes, que concordavam, no tocante a Lei 10.639-2003, em relação ao seu baixo
grau de institucionalização e sua desigual aplicação no território nacional. Entre
X
África antiga
os fatores assinalados para a explicação da pouca institucionalização da lei estava
a falta de materiais de referência e didáticos voltados à História de África.
Por outra parte, no que diz respeito aos manuais e estudos disponíveis sobre
a História da África, havia um certo consenso em afirmar que durante muito
tempo, e ainda hoje, a maior parte deles apresenta uma imagem racializada e
eurocêntrica do continente africano, desfigurando e desumanizando especial-
mente sua história, uma história quase inexistente para muitos até a chegada
dos europeus e do colonialismo no século XIX.
Rompendo com essa visão, a História Geral da África publicada pela UNESCO
é uma obra coletiva cujo objetivo é a melhor compreensão das sociedades e cul-
turas africanas e demonstrar a importância das contribuições da África para a
história do mundo. Ela nasceu da demanda feita à UNESCO pelas novas nações
africanas recém-independentes, que viam a importância de contar com uma his-
tória da África que oferecesse uma visão abrangente e completa do continente,
para além das leituras e compreensões convencionais. Em 1964, a UNESCO
assumiu o compromisso da preparação e publicação da História Geral da África.
Uma das suas características mais relevantes é que ela permite compreender
a evolução histórica dos povos africanos em sua relação com os outros povos.
Contudo, até os dias de hoje, o uso da História Geral da África tem se limitado
sobretudo a um grupo restrito de historiadores e especialistas e tem sido menos
usada pelos professores/as e estudantes. No caso brasileiro, um dos motivos
desta limitação era a ausência de uma tradução do conjunto dos volumes que
compõem a obra em língua portuguesa.
A Universidade Federal de São Carlos, por meio do Núcleo de Estudos
Afrobrasileiros (NEAB/UFSCar) e seus parceiros, ao concluir o trabalho de
tradução e atualização ortográfica do conjunto dos volumes, agradece o apoio
da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD),
do Ministério da Educação (MEC) e da UNESCO por terem propiciado as
condições para que um conjunto cada vez maior de brasileiros possa conhecer e
ter orgulho de compartilhar com outros povos do continente americano o legado
do continente africano para nossa formação social e cultural.
Na apresentação das datas da pré -história convencionou -se adotar dois tipos
de notação, com base nos seguintes critérios:
• Tomando como ponto de partida a época atual, isto é, datas B.P. (before
present), tendo como referência o ano de + 1950; nesse caso, as datas são
todas negativas em relação a + 1950.
• Usando como referencial o início da Era Cristã; nesse caso, as datas
são simplesmente precedidas dos sinais - ou +. No que diz respeito aos
séculos, as menções “antes de Cristo” e depois de Cristo são substituídas
por “antes da Era Cristã”, “da Era Cristã”.
Exemplos:
(i) 2300 B.P. = -350
(ii) 2900 a.C. = -2900
1800 d.C. = +1800
(iii) século V a.C. = século V antes da Era Cristã
século III d.C. = século III da Era Cristã
CRONOLOGIA
XIII
Lista de Figuras
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 O Nilo, fotografado por um satélite Landsat em órbita a 920 km da
Terra ........................................................................................................... XXXVII
Figura 2 A Pedra de Palermo. .......................................................................................... XLI
Figura 3 O Papiro de Turim ............................................................................................XLII
Figura 4 Cheias sazonais do Nilo ................................................................................. XLVII
Figura 5 A Paleta em xisto de Narmer, I dinastia, face anterior e posterior .......................LII
Figura 6 Estátua do escriba sentado, Knubaf .................................................................LVIII
Figura 1.1 Representação proto -histórica de Tera -Neter, um nobre negro da raça dos
Anu, primeiros habitantes do Egito .......................................................................7
Figura 1.2 Estatuetas pré -dinásticas ........................................................................................7
Figura 1.3 Cabo da faca de Dje
bel el -Arak, Pré -Di
nástico Tardio ...................................... 14
Figura 1.4 Cativos semitas do tempo dos faraós. Rocha do Sinai
.......................................14
Figura 1.5 Cativos indo -europeus ......................................................................................... 15
Figura 1.6 Cativo indo -europeu ............................................................................................ 15
Figura 1.7 Quéops, faraó da IV dinastia, construtor da Grande Pirâmide ............................19
Figura 1.8 Faraó Mentuhotep I ............................................................................................. 20
Figura 1.9 Ramsés II e um Batutsi moderno ........................................................................23
Figura 1.10 A Esfinge, tal como foi encontrada pela primeira missão científica francesa
no século XIX ....................................................................................................23
Figuras 1.11, 1.12, 1.13 e 1.14 Quatro tipos indo -europeus .................................................24
Figura 1.15 Dois semitas ....................................................................................................... 24
Figura 1.16 Estrangeiro ......................................................................................................... 28
XIV
África antiga
Figura 1.17 Fechadura de porta, de Hieracâmpolis. I dinastia egípcia ...................................28
Figura 1.18 Prisioneiro líbio ..................................................................................................28
Figura 1.19 Um faraó da I dinastia egípcia ...........................................................................29
Figura 1. 20 Zoser, típico negro, faraó da III dinastia ...........................................................29
Figura 2.1 O Nilo, da Terceira Catarata até o Mediterrâneo ................................................40
Figura 2.2 Cronologia da história egípcia .............................................................................41
Figura 2.3 Tesouro de Tutancâmon. Anúbis na entrada do tesouro ......................................44
Figura 2.4 Quéfren ................................................................................................................49
Figura 2.5 Rainha Hatshepsut sentada..................................................................................59
Figura 2.6 Aquenáton diante do Sol ..................................................................................... 61
Figura 2.7 Tesouro de Tutancâmon ....................................................................................... 64
Figura 2.8 Howard Carter, o arqueólogo que descobriu o túmulo de Tutancâmon ..............64
Figura 3.1 Empilhamento do feno ........................................................................................71
Figura 3.2 Colheita ...............................................................................................................71
Figura 3.3 Caça ao hipopótamo ............................................................................................ 73
Figura 3.4 Pesca com rede ..................................................................................................... 73
Figura 3.5 Abastecimento dos celeiros (desenho) .................................................................80
Figura 3.6 Prestação de contas ..............................................................................................80
Figura 3.7 Tributo de prisioneiros líbios do Antigo Império ................................................ 85
Figura 3.8 Séti I matando um chefe líbio. ............................................................................ 85
Figura 3.9 Vindima e espre medura .......................................................................................90
Figura 4.1 O Chifre da África e as regiões vizinhas na Antiguidade ..................................100
Figura 4.2 Pelicanos domesticados ......................................................................................103
Figura 4.3 Operações navais ................................................................................................ 103
Figura 4.4 Tributo núbio de Rekhmira. ...............................................................................109
Figura 4.5 Habitações do reino de Punt. ............................................................................ 114
Figura 4.6 Tributo de Punt. ................................................................................................. 114
Figura 5.1 Fabricação de tijolos ...........................................................................................122
Figura 5.2 Fabricação de vasos de metal ............................................................................. 125
Figura 5.3 Fabricação da cerveja. Antigo Império ............................................................... 128
Figura 5.4 Modelo de uma oficina de tecelagem. XII dinastia, c. - 2000 ............................ 128
Figura 5.5 Marceneiros trabalhando.................................................................................... 129
Figura 5.6 Colunas protodóricas de Deir el -Bahari ............................................................ 132
Figura 5.7 As pirâmides de Snefru, no Dachur ................................................................... 132
Figura 5.8 Carnac: câmara do barco de Âmon .................................................................... 134
Figura 5.9 Gisé: câmara do barco de Quéops. ..................................................................... 134
Figura 5.10 Ramsés II (técnica dos fluidos) ........................................................................136
Figura 5.11 e 5.12 Vista parcial de Mirgissa, fortaleza militar construída
aproximadamente 4 mil anos ...........................................................................145
Figura 5.13 Colunas fasciculadas do templo de Sacará .......................................................146
XV
Lista de Figuras
Figura 5.14 e 5.15 Mirgissa: Rampa para barcos. ................................................................148
Figura 5.16 Um jardim egípcio ...........................................................................................149
Figura 5.17 Urbanismo: planta da cidade de Illahun (Kahun) ............................................149
Figura 5.18 Mirgissa ...........................................................................................................151
Figura 5.19 Mirgissa ...........................................................................................................151
Figura 5.20 Mirgissa, Muralha externa ............................................................................... 153
Figura 5.21 Mirgissa. Muralha setentrional ........................................................................ 153
Figura 5.22 Mirgissa. Casa particular ..................................................................................155
Figura 5.23 Modelo de uma casa do Médio Império .......................................................... 155
Figura 5.24 A deusa Hátor .................................................................................................. 157
Figura 6.1 Relevo representando a deusa Ísis com o filho Harpócrates em segundo
plano. ..................................................................................................................167
Figura 6.2 Cabeça de Alexandre, o Grande. ........................................................................ 170
Figura 6.3 O Farol de Alexandria. .......................................................................................173
Figura 6.4 O mundo segundo Heródoto e Hecateu ............................................................179
Figura 6.5 Ulisses fugindo de Polifemo, escondido sob o ventre de um carneiro. ............... 182
Figura 6.6 Pintura do túmulo de Anfushi, Alexandria ........................................................182
Figura 6.7 Fragmento de um balsamário em bronze ...........................................................184
Figura 6.8 Cabeça grotesca .................................................................................................. 184
Figura 6.9 Estatueta (fragmento): “acendedor de candeeiro negro, caminhando,
vestindo uma túnica e carregando uma pequena escada no braço esquerdo
(faltam o braço direito e os pés) .........................................................................184
Figura 6.10 Cleópatra VII ................................................................................................... 188
Figura 7.1 Cabeça de tetrarca ..............................................................................................194
Figura 7.2 Cabeça de Vespasiano ........................................................................................199
Figura 7.3 Termas romanas e hipocausto ............................................................................201
Figura 7.4 O corredor que circunda o teatro romano .......................................................... 201
Figura 7.5 Estatueta de um gladiador negro em pé, vestindo uma túnica, couraça e
elmo, armado de escudo e adaga ......................................................................... 204
Figura 7.6 Estatueta de um soldado negro em pé, empunhando um machado duplo .........204
Figura 7.7 Ladrilho de cerâmica: negro ajoelhado, soprando um instrumento musical ...... 204
Figura 7.8 Pintura de Baouit ...............................................................................................211
Figura 7.9 Mosteiro de Mari -Mina. .................................................................................... 211
Figura 8.1 O vale do Nilo e o Corredor Núbio ...................................................................214
Figura 8.2 A Núbia antiga................................................................................................... 216
Figura 8.3 A Alta Núbia sudanesa ...................................................................................... 217
Figura 8.4 Monumentos núbios de Filas em reconstrução na ilha vizinha de Agilkia ........ 220
Figura 8.5 O templo de Ísis em reconstrução em Agilkia ................................................... 220
Figura 9.1 A Núbia e o Egito .............................................................................................237
Figura 9.2 Tipos de sepulturas do Grupo A .......................................................................239
XVI
África antiga
Figura 9.3 Inscrição do rei Djer em Djebel Sheikh Suliman .............................................. 239
Figura 9.4 Tipos de cerâmica do Grupo A ......................................................................... 239
Figura 9.5 Sepulturas típicas do Grupo C .......................................................................... 244
Figura 9.6 Tipos de cerâmica do Grupo C .........................................................................244
Figura 9.7 A Núbia, 1580 antes da Era Cristã .................................................................... 247
Figura 9.8 As fortificações ocidentais de uma fortaleza do Médio Império em Buhen ...... 249
Figuras 9.9, 9.10 e 9.11 Cerâmica de Kerma ......................................................................251
Figuras 9.12 e 9.13 Cerâmica de Kerma ............................................................................. 253
Figura 9.14 Kerma: o Dufufa do Leste, com uma sepultura no primeiro plano ................. 255
Figura 9.15
Sepultura de Kerma ......................................................................................... 255
Figuras 9.16 e 9.17 Cerâmica de Kerma ............................................................................. 258
Figura 9.18 Ornamentos pessoais........................................................................................ 260
Figura 9.19 Cerâmica de Kerma ......................................................................................... 260
Figura 9.20 A Núbia durante o Novo Império ...................................................................262
Figura 9.21 O templo de Amenófis III em Soleb ...............................................................265
Figuras 9.22 e 9.23 Tipos de sepulturas do Novo Império. .................................................270
Figura 10.1 Saqia ................................................................................................................. 279
Figura 10.2 Estátua do rei Aspelta, em granito negro da Etiópia ....................................... 281
Figura 10.3 Detalhe (busto) ................................................................................................ 281
Figura 10.4 A rainha Amanishaketo: relevo da pirâmide Beg N6 de Méroe ...................... 287
Figura 10.5 Artigo de vidro azul pintado, de Sedinga .........................................................291
Figura 10.6 Coroa de Ballana ..............................................................................................291
Figura 10.7 Sítios meroítas .................................................................................................. 293
Figura 11.1 Carneiro de granito em Naga ..........................................................................301
Figura 11.2 Pirâmide do rei Natakamani em Méroe, com ruínas de capela e pilono
em primeiro plano ............................................................................................ 301
Figura 11.3 Placa de arenito representando o príncipe Arikankharor massacrando seus
inimigos (possivelmente do século II da Era Cristã) .......................................307
Figura 11.4 Rei Arnekhamani (templo dos leões em Mussawarat es -Sufra) ......................307
Figura 11.5 Recipientes de bronze originários de Méroe .................................................... 315
Figura 11.6 Várias peças de cerâmica meroíta ..................................................................... 321
Figura 11.7 Joias de ouro da rainha Amanishaketo (-41 a -12) .......................................... 323
Figura 11.8 O deus Apedemak conduzindo outros deuses meroítas ................................... 329
Figura 11.9 O deus meroíta Sebiumeker (templo dos leões em Mussawarat es -Sufra) ......329
Figura 12.1 O Nilo da Primeira à Sexta Catarata ............................................................... 335
Figura 12.2 Arcadas da fachada leste da igreja de Qasr Ibrim ............................................ 337
Figura 12.3 Catedral de Faras ............................................................................................. 337
Figura 12.4 Planta geral do sítio no interior das muralhas.................................................. 343
Figura 12.5 Edifícios cristãos descobertos pela expedição polonesa (1961 -1964) ...............343
Figura 12.6 Cabeça de Santa Ana: mural da nave norte da catedral de Faras
(século VIII) ..................................................................................................... 345
XVII
Lista de Figuras
Figura 12.7 Faras: verga de porta decorada do início da Era Cristã (segunda metade do
século VI ou início do século VII) ...................................................................... 345
Figura 12.8 Fragmento de um friso decorativo em arenito do abside da catedral de
Faras (primeira metade do século VII)............................................................. 347
Figura 12.9 Faras: Capitel de arenito (primeira metade do século VII) .............................. 347
Figura 12.10 Janela em terracota da Igreja das Colunas de Granito na Velha Dongola,
Sudão (fim do século VII) ............................................................................. 348
Figura 12.11 Cerâmica da Núbia cristã ............................................................................... 348
Figura 13.1 A Etiópia no período sul -arábico .....................................................................353
Figura 13.2 O “trono ou “naos” de Haúlti .......................................................................... 356
Figura 13.3 Estátua de Haúlti ............................................................................................. 358
Figura 13.4 Altar de incenso em Addi Galamo ..................................................................358
Figura 13. 5 A Etiópia no período pré -axumita intermediário ...........................................369
Figura 13.6 Touro em bronze, Mahabere Dyogwe ..............................................................373
Figuras 13.7, 13.8 e 13.9 Marcas de identidade em bronze de Yeha, em forma de
pássaro, de leão e de ca brito montês ................................................................. 373
Figura 14.1 Fotografia aérea de Axum. (Foto Instituto Etíope de Arqueologia.) ...............378
Figura 14.2 Leoa esculpida na parte lateral de uma rocha, período axumita .......................384
Figura 14.3 Matara: alicerce de um edifício axumita...........................................................384
Figura 14.4 Base de um trono .............................................................................................390
Figura 14.5 Matara: inscrição do século II da Era Cristã ................................................... 390
Figura 14.6 Gargalo de jarro ............................................................................................... 393
Figura 14.7 Incensório de estilo alexandrino .......................................................................393
Figura 14.8 Presa de elefante ............................................................................................... 393
Figura 15.1 Mapa da expansão axumita .............................................................................. 402
Figura 15.2
Moeda de ouro do rei Endybis (século III da Era Cristã) ................................407
Figura 15.3 Moeda de ouro do reino de Ousanas ............................................................... 407
Figura 15.4 Inscrição grega de Ezana (século IV) .............................................................. 416
Figura 15.5 Inscrição em caracteres pseudo -sabeanos de Wa’Zaba (século VI) .................. 422
Figura 16.1 O bispo Frumêncio, o rei Abraha (Ezana) e seu irmão Atsbaha, igreja de
Abraba we Atsbaha (século XVII) ...................................................................433
Figura 16.2 Debre -Damo visto a distância. ......................................................................... 437
Figura 16.3 O acesso ao convento em Debre -Damo. .......................................................... 437
Figura 16.4 Pintura da igreja de Goh: os Apóstolos (século XV) .......................................440
Figura 16.5 Igreja de Abba Aregawi em Debre -Damo ....................................................... 449
Figura 16.6 Chantres inclinando -se religiosamente ............................................................ 449
Figura 17.1 Crânio de Columnata ......................................................................................455
Figura 17.2 Homem de Champlain: crânio ibero -maurusiense ..........................................457
Figura 17.3 Crânio de homem capsiense ............................................................................ 457
Figura 17.4 Leões de Kbor Roumia ..................................................................................... 468
Figura 17.5 Estela líbia de Abizar (sudeste de Tigzirt) ....................................................... 471
XVIII
África antiga
Figura 19.1 As províncias romanas da África do Norte no final do século II da Era
Cristã................................................................................................................503
Figura 19.2 Timgad (antiga Thamugadi, Argélia): Avenida e Arco de Trajano .................. 505
Figura 19.3 Mactar (antiga Mactaris, Tunísia): Arco de Trajano, entrada do fórum ...........505
Figura 19.4 As províncias romanas da África do Norte no final do século IV da Era
Cristã................................................................................................................511
Figura 19.5 O aqueduto de Chercell (Argélia) ....................................................................520
Figura 19.6 Sabrata (Líbia): Frons scaenae do teatro romano .............................................. 520
Figura 19.7 Mosaico de Susa: Virgílio escrevendo a “Eneida” ............................................. 529
Figura 19.8 Djemila (antiga Cuicul, Argélia): centro da cidade ..........................................535
Figura 19.9 Lebda (antiga Leptis Magna, Líbia): trabalhos em curso no anfiteatro
romano ............................................................................................................. 535
Figura 19.10 Mosaico de Chebba: Triunfo de Netuno ....................................................... 539
Figura 19.11 Trípoli (antiga Oea, Líbia): Arco do Triunfo de Marco Aurélio .................... 543
Figura 19.12 Timgad (Argélia): Fortaleza bizantina, século VI .......................................... 555
Figura 19.13 e 19.14 Haidra (Tunísia): Fortaleza bizantina, século VI. Detalhe e
vista geral ....................................................................................................... 557
Figura 19.15 Sbeitla (Tunísia): Prensa de azeite instalada numa antiga rua da cidade
romana (séculos VI a VII) ..................................................................................559
Figura 19.16 Djedar de Ternaten, perto de Frenda (Argélia): Câmara funerária,
século VI. ....................................................................................................... 559
Figura 20.1 Esqueleto da “rainha Tin Hinan .....................................................................572
Figura 20.2 Bracelete de ouro da “rainha Tin Hinan ......................................................... 572
Figura 20.3 O túmulo da “rainha Tin Hinan em Abalessa................................................. 575
Figura 20.4 Tipos “garamantes” num mosaico romano de Zliten, Tripolitânia ................... 579
Figuras 20.5 e 20.6 A avaliação da idade das pinturas rupestres baseia -se em critérios
de estilo e de pátina .......................................................................................... 581
Figura 21.1 Hipóteses da origem dos Bantu e do início da metalurgia do ferro ................. 587
Figura 21.2 Jazidas de cobre e rotas de caravana através do Saara ...................................... 599
Figura 23.1 África oriental: mapa político e mapa indicativo da distribuição de línguas
e povos ............................................................................................................. 629
Figura 23.2 Agrupamentos de línguas africanas ocidentais e suas relações de parentesco. .. 642
Figura 24.1 África ocidental: sítios pré -históricos importantes ...........................................663
Figura 24.2 Saara: mapa do relevo ......................................................................................664
Figura 24.3 Complexo do vale de Tilemsi........................................................................... 667
Figura 24.4 Região de Tichitt .............................................................................................670
Figura 24.5 Montículos de detritos do Firki ....................................................................... 685
Figura 25.1 Mapa da África central com a indicação dos lugares mencionados
no texto. ............................................................................................................692
Figura 25.2 Mapa da África Central com a indicação das regiões de ocupação
neolítica” e da “Idade do Ferro Antiga ........................................................... 695
Figura 25.3 Machado polido uelense (hematita) ................................................................. 698
XIX
Lista de Figuras
Figura 25.4 Objetos encontrados no sítio de Batalimo, no sul de Bangui
(República Centro -Africana) ......................................................................... 703
Figura 25.5 Objetos encontrados em Sanga ........................................................................ 705
Figura 26.1 Pintura rupestre: mulheres com bastões de cavar lastreados por pedras
perfuradas ........................................................................................................... 723
Figura 26.2 Grupo de homens com arcos, flechas e aljavas .................................................723
Figura 26.3 Cena de pesca de Tsoelike, Lesoto ................................................................... 723
Figura 26.4 Grupo de caçadores em sua caverna, cercados por uma série de bastões
de cavar, bolsas, aljavas e arcos..........................................................................729
Figura 26.5 Grande grupo de figuras, a maioria delas visivelmente masculinas,
provavelmente numa cena de dança ................................................................. 729
Figura 26.6 Os encontros ocasionais de grupos são assinalados muito mais pelo
conflito do que pela cooperação ....................................................................... 729
Figura 26.7 Mapa da África meridional mostrando a distribuição de sítios da Idade
da Pedra Recente ................................................................................................ 737
Figura 26.8 As mais antigas datas conhecidas para o aparecimento da cerâmica e
dos animais domésticos nos contextos da Idade da Pedra Recente na
África austral .................................................................................................... 738
Figura 26.9 Rebanho de carneiros de cauda grossa .............................................................742
Figura 26.10 Galeão pintado nas montanhas do Cabo ocidental ........................................ 742
Figura 26.11 Carroças, cavalos e trekkers (migrantes) observados quando se dirigiam
para as pastagens entre montanhas do Cabo ocidental no princípio
do século XVIII da Era Cristã ......................................................................747
Figura 26.12 Grupo de pequenos ladrões de gado armados com arcos e flechas,
defendendo sua presa contra figuras maiores munidas de escudos e
lanças .............................................................................................................747
Figura 27.1 África meridional: sítios da Idade do Ferro Antiga e sítios conexos
mencionados no texto ......................................................................................751
Figura 27.2 África meridional: sítios. ..................................................................................753
Figura 27.3 Cerâmica de Mabveni e de Dambwa ............................................................... 758
Figura 27.4 Cerâmica da Idade do Ferro Antiga proveniente de Twickenham Road
e de Kalundu .................................................................................................... 758
Figura 28.1 Madagáscar: lugares citados no texto ...............................................................775
Figura 28.2 Madagáscar: sítios importantes ........................................................................ 777
Figura 28.3 Aldeia de Andavadoaka no sudoeste ................................................................ 780
Figura 28.4 Cemitério de Ambohimalaza (Imerina) ...........................................................780
Figura 28.5 Porta antiga de Miandrivahiny Ambohimanga, Imerina .................................784
Figura 28.6 Canoa de pesca vezo de tipo indonésio, com balancim ....................................788
Figura 28.7 Fole de forja com duplo pistão do tipo encontrado na Indonésia .................... 788
Figura 28.8 Cemitério de Marovoay, perto de Morondava. ...............................................791
Figura 28.9 Estátua de Antsary: arte antanosy das proximidades de Fort -Dauphin ...........791
Figura 28.10 Cerâmica chinesa de Vohemar ....................................................................... 795
XX
África antiga
Figura 28.11 Caldeirão de pedra, civilização de Vohemar ................................................... 795
Figura 28.12 Arrozais em terraços nas proximidades de Ambositra, semelhantes aos
de Luzón, nas Filipinas .................................................................................. 799
Figura 28.13 Exercício de geomancia: extremo sul.............................................................. 799
Figura 28.14 Túmulo antalaotse em Antsoheribory ............................................................ 801
Figura 28.15 Cerâmicas de Kingany e de Rasoky (século XV). Anzóis de Takaly
(século XII) ....................................................................................................801
XXI
Prefácio
PREFÁCIO
por M. Amadou - Mahtar M’Bow,
Diretor Geral da UNESCO (1974-1987)
Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda espécie esconderam do
mundo a real história da África. As sociedades africanas passavam por socie-
dades que não podiam ter história. Apesar de importantes trabalhos efetuados
desde as primeiras décadas do século XX por pioneiros como Leo Frobenius,
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande número de especialistas o
africanos, ligados a certos postulados, sustentavam que essas sociedades não
podiam ser objeto de um estudo científico, notadamente por falta de fontes e
documentos escritos.
Se a Ilíada e a Odisseia podiam ser devidamente consideradas como fontes
essenciais da história da Grécia antiga, em contrapartida, negava-se todo valor
à tradição oral africana, essa memória dos povos que fornece, em suas vidas, a
trama de tantos acontecimentos marcantes. Ao escrever a história de grande
parte da África, recorria-se somente a fontes externas à África, oferecendo
uma visão não do que poderia ser o percurso dos povos africanos, mas daquilo
que se pensava que ele deveria ser. Tomando frequentemente a Idade Média
europeia como ponto de referência, os modos de produção, as relações sociais
tanto quanto as instituições políticas não eram percebidos senão em referência
ao passado da Europa.
Com efeito, havia uma recusa a considerar o povo africano como o criador
de culturas originais que floresceram e se perpetuaram, através dos séculos, por
XXII
África antiga
vias que lhes são próprias e que o historiador só pode apreender renunciando a
certos preconceitos e renovando seu método.
Da mesma forma, o continente africano quase nunca era considerado como
uma entidade histórica. Em contrário, enfatizava-se tudo o que pudesse refor-
çar a ideia de uma cisão que teria existido, desde sempre, entre uma África
branca” e uma “África negra que se ignoravam reciprocamente. Apresentava-se
frequentemente o Saara como um espaço impenetrável que tornaria impossíveis
misturas entre etnias e povos, bem como trocas de bens, crenças, hábitos e ideias
entre as sociedades constituídas de um lado e de outro do deserto. Traçavam-se
fronteiras intransponíveis entre as civilizações do antigo Egito e da Núbia e
aquelas dos povos subsaarianos.
Certamente, a história da África norte-saariana esteve antes ligada àquela da
bacia mediterrânea, muito mais que a história da África subsaariana mas, nos
dias atuais, é amplamente reconhecido que as civilizações do continente africano,
pela sua variedade linguística e cultural, formam em graus variados as vertentes
históricas de um conjunto de povos e sociedades, unidos por laços seculares.
Um outro fenômeno que grandes danos causou ao estudo objetivo do passado
africano foi o aparecimento, com o tráfico negreiro e a colonização, de estereótipos
raciais criadores de desprezo e incompreensão, tão profundamente consolidados
que corromperam inclusive os próprios conceitos da historiografia. Desde que
foram empregadas as noções de brancos e negros”, para nomear genericamente
os colonizadores, considerados superiores, e os colonizados, os africanos foram
levados a lutar contra uma dupla servidão, econômica e psicológica. Marcado
pela pigmentação de sua pele, transformado em uma mercadoria entre outras,
e destinado ao trabalho forçado, o africano veio a simbolizar, na consciência de
seus dominadores, uma essência racial imaginária e ilusoriamente inferior: a de
negro. Este processo de falsa identificação depreciou a história dos povos africanos
no espírito de muitos, rebaixando-a a uma etno-história, em cuja apreciação das
realidades históricas e culturais não podia ser senão falseada.
A situação evoluiu muito desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em
particular, desde que os países da África, tendo alcançado sua independência,
começaram a participar ativamente da vida da comunidade internacional e dos
intercâmbios a ela inerentes. Historiadores, em número crescente, têm se esfor-
çado em abordar o estudo da África com mais rigor, objetividade e abertura de
espírito, empregando obviamente com as devidas precauções fontes africanas
originais. No exercício de seu direito à iniciativa histórica, os próprios africanos
sentiram profundamente a necessidade de restabelecer, em bases sólidas, a his-
toricidade de suas sociedades.
XXIII
Prefácio
É nesse contexto que emerge a importância da História Geral da África, em
oito volumes, cuja publicação a Unesco começou.
Os especialistas de numerosos países que se empenharam nessa obra, pre-
ocuparam-se, primeiramente, em estabelecer-lhe os fundamentos teóricos e
metodológicos. Eles tiveram o cuidado em questionar as simplificações abusivas
criadas por uma concepção linear e limitativa da história universal, bem como
em restabelecer a verdade dos fatos sempre que necessário e possível. Eles esfor-
çaram-se para extrair os dados históricos que permitissem melhor acompanhar
a evolução dos diferentes povos africanos em sua especificidade sociocultural.
Nessa tarefa imensa, complexa e árdua em vista da diversidade de fontes e
da dispersão dos documentos, a UNESCO procedeu por etapas. A primeira
fase (1965-1969) consistiu em trabalhos de documentação e de planificação da
obra. Atividades operacionais foram conduzidas in loco, através de pesquisas de
campo: campanhas de coleta da tradição oral, criação de centros regionais de
documentação para a tradição oral, coleta de manuscritos inéditos em árabe e
ajami (línguas africanas escritas em caracteres árabes), compilação de inventários
de arquivos e preparação de um Guia das fontes da história da África, publicado
posteriormente, em nove volumes, a partir dos arquivos e bibliotecas dos países
da Europa. Por outro lado, foram organizados encontros, entre especialistas
africanos e de outros continentes, durante os quais se discutiu questões meto-
dológicas e traçou-se as grandes linhas do projeto, após atencioso exame das
fontes disponíveis.
Uma segunda etapa (1969 a 1971) foi consagrada ao detalhamento e à articu-
lação do conjunto da obra. Durante esse período, realizaram-se reuniões interna-
cionais de especialistas em Paris (1969) e Addis-Abeba (1970), com o propósito
de examinar e detalhar os problemas relativos à redação e à publicação da obra:
apresentação em oito volumes, edição principal em inglês, francês e árabe, assim
como traduções para línguas africanas, tais como o kiswahili, o hawsa, o peul, o
yoruba ou o lingala. Igualmente estão previstas traduções para o alemão, russo,
português, espanhol e chinês
1
, além de edições resumidas, destinadas a um
público mais amplo, tanto africano quanto internacional.
1 O volume I foi publicado em inglês, árabe, chinês, coreano, espanhol, francês, hawsa, italiano, kiswahi-
li, peul e português; o volume II, em inglês, árabe, chinês, coreano, espanhol, francês, hawsa, italiano,
kiswahili, peul e português; o volume III, em inglês, árabe, espanhol e francês; o volume IV, em inglês,
árabe, chinês, espanhol, francês e português; o volume V, em inglês e árabe; o volume VI, em inglês,
árabe e francês; o volume VII, em inglês, árabe, chinês, espanhol, francês e português; o VIII, em inglês
e francês.
XXIV
África antiga
A terceira e última fase constituiu-se na redação e na publicação do trabalho.
Ela começou pela nomeação de um Comitê Científico Internacional de trinta e
nove membros, composto por africanos e não africanos, na respectiva proporção
de dois terços e um terço, a quem incumbiu-se a responsabilidade intelectual
pela obra.
Interdisciplinar, o método seguido caracterizou-se tanto pela pluralidade
de abordagens teóricas quanto de fontes. Dentre essas últimas, é preciso citar
primeiramente a arqueologia, detentora de grande parte das chaves da história
das culturas e das civilizações africanas. Graças a ela, admite-se, nos dias atuais,
reconhecer que a África foi, com toda probabilidade, o berço da humanidade,
palco de uma das primeiras revoluções tecnológicas da história, ocorrida no
período Neolítico. A arqueologia igualmente mostrou que, na África, especifi-
camente no Egito, desenvolveu-se uma das antigas civilizações mais brilhantes
do mundo. Outra fonte digna de nota é a tradição oral que, até recentemente
desconhecida, aparece hoje como uma preciosa fonte para a reconstituição da
história da África, permitindo seguir o percurso de seus diferentes povos no
tempo e no espaço, compreender, a partir de seu interior, a visão africana do
mundo, e apreender os traços originais dos valores que fundam as culturas e as
instituições do continente.
Saber-se-á reconhecer o mérito do Comitê Científico Internacional encarre-
gado dessa História geral da África, de seu relator, bem como de seus coordena-
dores e autores dos diferentes volumes e capítulos, por terem lançado uma luz
original sobre o passado da África, abraçado em sua totalidade, evitando todo
dogmatismo no estudo de questões essenciais, tais como: o tráfico negreiro, essa
sangria sem fim”, responsável por umas das deportações mais cruéis da história
dos povos e que despojou o continente de uma parte de suas forças vivas, no
momento em que esse último desempenhava um papel determinante no pro-
gresso econômico e comercial da Europa; a colonização, com todas suas conse-
quências nos âmbitos demográfico, econômico, psicológico e cultural; as relações
entre a África ao sul do Saara e o mundo árabe; o processo de descolonização e
de construção nacional, mobilizador da razão e da paixão de pessoas ainda vivas
e muitas vezes em plena atividade. Todas essas questões foram abordadas com
grande preocupação quanto à honestidade e ao rigor científico, o que constitui
um mérito não desprezível da presente obra. Ao fazer o balanço de nossos
conhecimentos sobre a África, propondo diversas perspectivas sobre as culturas
africanas e oferecendo uma nova leitura da história, a História geral da África
tem a indiscutível vantagem de destacar tanto as luzes quanto as sombras, sem
dissimular as divergências de opinião entre os estudiosos.
XXV
Prefácio
Ao demonstrar a insuficiência dos enfoques metodológicos amiúde utiliza-
dos na pesquisa sobre a África, essa nova publicação convida à renovação e ao
aprofundamento de uma dupla problemática, da historiografia e da identidade
cultural, unidas por laços de reciprocidade. Ela inaugura a via, como todo tra-
balho histórico de valor, para múltiplas novas pesquisas.
É assim que, em estreita colaboração com a UNESCO, o Comitê Científico
Internacional decidiu empreender estudos complementares com o intuito de
aprofundar algumas questões que permitirão uma visão mais clara sobre certos
aspectos do passado da África. Esses trabalhos, publicados na coleção UNESCO
História geral da África: estudos e documentos, virão a constituir, de modo útil,
um suplemento à presente obra
2
. Igualmente, tal esforço desdobrar-se-á na
elaboração de publicações versando sobre a história nacional ou sub-regional.
Essa História geral da África coloca simultaneamente em foco a unidade his-
tórica da África e suas relações com os outros continentes, especialmente com as
Américas e o Caribe. Por muito tempo, as expressões da criatividade dos afro-
descendentes nas Américas haviam sido isoladas por certos historiadores em um
agregado heteróclito de africanismos; essa visão, obviamente, não corresponde
àquela dos autores da presente obra. Aqui, a resistência dos escravos deportados
para a América, o fato tocante ao marronage [fuga ou clandestinidade] político
e cultural, a participação constante e massiva dos afrodescendentes nas lutas da
primeira independência americana, bem como nos movimentos nacionais de
libertação, esses fatos são justamente apreciados pelo que eles realmente foram:
vigorosas afirmações de identidade que contribuíram para forjar o conceito
universal de humanidade. É hoje evidente que a herança africana marcou, em
maior ou menor grau, segundo as regiões, as maneiras de sentir, pensar, sonhar
e agir de certas nações do hemisfério ocidental. Do sul dos Estados Unidos ao
norte do Brasil, passando pelo Caribe e pela costa do Pacífico, as contribuições
culturais herdadas da África são visíveis por toda parte; em certos casos, inclu-
sive, elas constituem os fundamentos essenciais da identidade cultural de alguns
dos elementos mais importantes da população.
2 Doze números dessa série foram publicados; eles tratam respectivamente sobre: n. 1 − O povoamento
do Egito antigo e a decodicação da escrita meroítica; n. 2 − O tráco negreiro do século XV ao século
XIX; n. 3 – Relações históricas através do Oceano Índico; n. 4 – A historiograa da África Meridional;
n. 5 A descolonização da África: África Meridional e Chifre da África [Nordeste da África]; n. 6
Etnonímias e toponímias; n. 7 – As relações históricas e socioculturais entre a África e o mundo árabe; n.
8 A metodologia da história da África contemporânea; n. 9 – O processo de educação e a historiograa
na África; n. 10 – A África e a Segunda Guerra Mundial; n. 11 – Líbia Antiqua; n. 12 O papel dos
movimentos estudantis africanos na evolução política e social da África de 1900 a 1975.
XXVI
África antiga
Igualmente, essa obra faz aparecerem nitidamente as relações da África com
o sul da Ásia através do Oceano Índico, além de evidenciar as contribuições
africanas junto a outras civilizações em seu jogo de trocas mútuas.
Estou convencido de que os esforços dos povos da África para conquistar
ou reforçar sua independência, assegurar seu desenvolvimento e consolidar suas
especificidades culturais devem enraizar-se em uma consciência histórica reno-
vada, intensamente vivida e assumida de geração em geração.
Minha formação pessoal, a experiência adquirida como professor e, desde
os primórdios da independência, como presidente da primeira comissão criada
com vistas à reforma dos programas de ensino de história e de geografia de
certos países da África Ocidental e Central, ensinaram-me o quanto era neces-
sário, para a educação da juventude e para a informação do público, uma obra
de história elaborada por pesquisadores que conhecessem desde o seu interior
os problemas e as esperanças da África, pensadores capazes de considerar o
continente em sua totalidade.
Por todas essas razões, a UNESCO zelará para que essa História Geral da
África seja amplamente difundida, em numerosos idiomas, e constitua base
da elaboração de livros infantis, manuais escolares e emissões televisivas ou
radiofônicas. Dessa forma, jovens, escolares, estudantes e adultos, da África
e de outras partes, poderão ter uma melhor visão do passado do continente
africano e dos fatores que o explicam, além de lhes oferecer uma compreensão
mais precisa acerca de seu patrimônio cultural e de sua contribuição ao pro-
gresso geral da humanidade. Essa obra deverá então contribuir para favorecer
a cooperação internacional e reforçar a solidariedade entre os povos em suas
aspirações por justiça, progresso e paz. Pelo menos, esse é o voto que manifesto
muito sinceramente.
Resta-me ainda expressar minha profunda gratidão aos membros do Comitê
Científico Internacional, ao redator, aos coordenadores dos diferentes volu-
mes, aos autores e a todos aqueles que colaboraram para a realização desta
prodigiosa empreitada. O trabalho por eles efetuado e a contribuição por eles
trazida mostram, com clareza, o quanto homens vindos de diversos horizontes,
conquanto animados por uma mesma vontade e igual entusiasmo a serviço da
verdade de todos os homens, podem fazer, no quadro internacional oferecido
pela UNESCO, para lograr êxito em um projeto de tamanho valor científico
e cultural. Meu reconhecimento igualmente estende-se às organizações e aos
governos que, graças a suas generosas doações, permitiram à UNESCO publi-
car essa obra em diferentes línguas e assegurar-lhe a difusão universal que ela
merece, em prol da comunidade internacional em sua totalidade.
APRESENTAÇÃO DO PROJETO
pelo Professor Bethwell Allan Ogot
Presidente do Comitê Cientíco Internacional
para a redação de uma História Geral da África
A Conferência Geral da UNESCO, em sua décima sexta sessão, solicitou
ao Diretor -geral que empreendesse a redação de uma História Geral da África.
Esse considerável trabalho foi confiado a um Comitê Científico Internacional
criado pelo Conselho Executivo em 1970.
Segundo os termos dos estatutos adotados pelo Conselho Executivo da
UNESCO, em 1971, esse Comitê compõe -se de trinta e nove membros res-
ponsáveis (dentre os quais dois terços africanos e um terço de não africanos),
nomeados pelo Diretor -geral da UNESCO por um período correspondente à
duração do mandato do Comitê.
A primeira tarefa do Comitê consistiu em definir as principais características
da obra. Ele definiu -as em sua primeira sessão, nos seguintes termos:
• Em que pese visar a maior qualidade científica possível, a História Geral
da África não busca a exaustão e se pretende uma obra de síntese que
evitará o dogmatismo. Sob muitos aspectos, ela constitui uma exposição
dos problemas indicadores do atual estágio dos conhecimentos e das
grandes correntes de pensamento e pesquisa, não hesitando em assinalar,
em tais circunstâncias, as divergências de opinião. Ela assim preparará o
caminho para posteriores publicações.
• A África é aqui considerada como um todo. O objetivo é mostrar as
relações históricas entre as diferentes partes do continente, muito amiúde
XXVIII
África antiga
subdividido, nas obras publicadas até o momento. Os laços históricos
da África com os outros continentes recebem a atenção merecida e são
analisados sob o ângulo dos intercâmbios mútuos e das influências mul-
tilaterais, de forma a fazer ressurgir, oportunamente, a contribuição da
África para o desenvolvimento da humanidade.
A História Geral da África consiste, antes de tudo, em uma história das ideias
e das civilizações, das sociedades e das instituições. Ela fundamenta -se sobre
uma grande diversidade de fontes, aqui compreendidas a tradição oral e a
expressão artística.
• A História Geral da África é aqui essencialmente examinada de seu inte-
rior. Obra erudita, ela também é, em larga medida, o fiel reflexo da
maneira através da qual os autores africanos veem sua própria civilização.
Embora elaborada em âmbito internacional e recorrendo a todos os
dados científicos atuais, a História será igualmente um elemento capital
para o reconhecimento do patrimônio cultural africano, evidenciando os
fatores que contribuem para a unidade do continente. Essa vontade de
examinar os fatos de seu interior constitui o ineditismo da obra e poderá,
além de suas qualidades científicas, conferir -lhe um grande valor de
atualidade. Ao evidenciar a verdadeira face da África, a História poderia,
em uma época dominada por rivalidades econômicas e técnicas, propor
uma concepção particular dos valores humanos.
O Comitê decidiu apresentar a obra, dedicada ao estudo de mais de 3 milhões
de anos de história da África, em oito volumes, cada qual compreendendo
aproximadamente oitocentas páginas de texto com ilustrações (fotos, mapas e
desenhos tracejados).
Para cada volume designou -se um coordenador principal, assistido, quando
necessário, por um ou dois codiretores assistentes.
Os coordenadores dos volumes são escolhidos, tanto entre os membros do
Comitê quanto fora dele, em meio a especialistas externos ao organismo, todos
eleitos por esse último, pela maioria de dois terços. Eles se encarregam da ela-
boração dos volumes, em conformidade com as decisões e segundo os planos
decididos pelo Comitê. São eles os responsáveis, no plano científico, perante
o Comitê ou, entre duas sessões do Comitê, perante o Conselho Executivo,
pelo conteúdo dos volumes, pela redação final dos textos ou ilustrações e, de
uma maneira geral, por todos os aspectos científicos e técnicos da História. É
o Conselho Executivo quem aprova, em última instância, o original definitivo.
Uma vez considerado pronto para a edição, o texto é remetido ao Diretor -Geral
XXIX
Apresentação do Projeto
da UNESCO. A responsabilidade pela obra cabe, dessa forma, ao Comitê ou,
entre duas sessões do Comitê, ao Conselho Executivo.
Cada volume compreende por volta de 30 capítulos. Cada qual redigido por
um autor principal, assistido por um ou dois colaboradores, caso necessário.
Os autores são escolhidos pelo Comitê em função de seu curriculum vitae.
A preferência é concedida aos autores africanos, sob reserva de sua adequação
aos títulos requeridos. Além disso, o Comitê zela, tanto quanto possível, para
que todas as regiões da África, bem como outras regiões que tenham mantido
relações históricas ou culturais com o continente, estejam de forma equitativa
representadas no quadro dos autores.
Após aprovação pelo coordenador do volume, os textos dos diferentes capí-
tulos são enviados a todos os membros do Comitê para submissão à sua crítica.
Ademais e finalmente, o texto do coordenador do volume é submetido ao
exame de um comitê de leitura, designado no seio do Comitê Científico Inter-
nacional, em função de suas competências; cabe a esse comirealizar uma
profunda análise tanto do conteúdo quanto da forma dos capítulos.
Ao Conselho Executivo cabe aprovar, em última instância, os originais.
Tal procedimento, aparentemente longo e complexo, revelou -se necessário,
pois permite assegurar o máximo de rigor científico à História Geral da África.
Com efeito, houve ocasiões nas quais o Conselho Executivo rejeitou origi-
nais, solicitou reestruturações importantes ou, inclusive, confiou a redação de
um capítulo a um novo autor. Eventualmente, especialistas de uma questão ou
período específico da história foram consultados para a finalização definitiva
de um volume.
Primeiramente, uma edição principal da obra em inglês, francês e árabe será
publicada, posteriormente haverá uma edição em forma de brochura, nesses
mesmos idiomas.
Uma versão resumida em inglês e francês servirá como base para a tradução
em línguas africanas. O Comi Científico Internacional determinou quais
os idiomas africanos para os quais serão realizadas as primeiras traduções: o
kiswahili e o haussa.
Tanto quanto possível, pretende -se igualmente assegurar a publicação da
História Geral da África em vários idiomas de grande difusão internacional
(dentre outros: alemão, chinês, italiano, japonês, português, russo, etc.).
Trata -se, portanto, como se pode constatar, de uma empreitada gigantesca
que constitui um ingente desafio para os historiadores da África e para a comu-
nidade científica em geral, bem como para a UNESCO que lhe oferece sua
chancela. Com efeito, pode -se facilmente imaginar a complexidade de uma
XXX
África antiga
tarefa tal qual a redação de uma história da África, que cobre no espaço todo
um continente e, no tempo, os quatro últimos milhões de anos, respeitando,
todavia, as mais elevadas normas científicas e convocando, como é necessário,
estudiosos pertencentes a todo um leque de países, culturas, ideologias e tra-
dições históricas. Trata -se de um empreendimento continental, internacional e
interdisciplinar, de grande envergadura.
Em conclusão, obrigo -me a sublinhar a importância dessa obra para a África
e para todo o mundo. No momento em que os povos da África lutam para se
unir e para, em conjunto, melhor forjar seus respectivos destinos, um conhe-
cimento adequado sobre o passado da África, uma tomada de consciência no
tocante aos elos que unem os Africanos entre si e a África aos demais continen-
tes, tudo isso deveria facilitar, em grande medida, a compreensão mútua entre
os povos da Terra e, além disso, propiciar sobretudo o conhecimento de um
patrimônio cultural cuja riqueza consiste em um bem de toda a Humanidade.
Bethwell Allan Ogot
Em 8 de agosto de 1979
Presidente do Comitê Científico Internacional
para a redação de uma História Geral da África
XXXI
Introdução Geral
O presente volume da História Geral da África refere-se ao longo período que
se estende do final do Neolítico – isto é, em torno do VIII milênio antes da Era
Cristã até o início do século VII da Era Cristã.
Esse período da história africana, o qual abrange cerca de 9 mil anos, foi
abordado, depois de alguma hesitação, considerando-se quatro zonas geográficas
principais:
• o corredor do Nilo, Egito e Núbia (capítulos 1 a 12);
• a zona montanhosa da Etiópia (capítulos 13 a 16);
• a parte da África comumente denominada Magreb e seu interior saariano
(capítulos 17 a 20);
• o restante da África, inclusive as ilhas africanas do oceano Índico
(capítulos 21 a 29).
Essa divisão é determinada pela compartimentação que atualmente caracteriza
a pesquisa em história da África. Poderia parecer mais lógico organizar o volume
de acordo com as principais zonas ecológicas do continente, oferecendo cada
uma delas condições de vida semelhantes a todos os agrupamentos humanos que
as habitam, sem que haja barreiras naturais a impedir o intercâmbio (cultural ou
de outro tipo) no interior de uma mesma região.
Nesse caso, obteríamos um quadro inteiramente diferente: partindo do norte
e seguindo em direção ao sul, teríamos aquilo que, desde o século VIII da Era
INTRODUÇÃO GERAL
G. Mokhtar
colaboração de J.
Vercoutter
XXXII
África antiga
Cristã, é denominado ilha do Magreb de geologia, clima e ecologia geral
predominantemente mediterrânicos e a larga faixa subtropical do Saara com
seu acidente tectônico, o vale do Nilo. Em seguida, teríamos a zona das grandes
bacias fluviais subtropicais e equatoriais, com sua costa atlântica. Depois, a leste
viriam as terras altas da Etiópia e o Chifre da África, voltado para a Arábia e
o oceano Índico. Finalmente, viria a região dos Grandes Lagos equatoriais,
ligando as bacias do Nilo, Níger e Congo à África meridional e seus anexos:
Madagáscar e outras ilhas oceânicas próximas à África.
Infelizmente, a adoção dessa divisão – mais lógica do que aquela que tivemos
que utilizar é inviável. O pesquisador que deseja estudar a história da África
na Antiguidade é, de fato, consideravelmente tolhido pelo peso do passado. A
compartimentação que a ele se impõe – e que se reflete no plano aqui adotado –
deriva, em grande parte, da colonização dos séculos XIX e XX: o historiador, fosse
ele um colono interessado no país em que vivia ou um colonizado refletindo sobre
o passado de seu povo, encontrava-se, a contragosto, confinado a limites territoriais
arbitrariamente fixados. Para ele era difícil, se não impossível, estudar as relações
com países vizinhos, embora, do ponto de vista histórico, esses países e o país que
o interessava diretamente quase sempre formassem um todo. Esse considerável
peso do passado não desapareceu completamente; em parte, por inércia quando
se cai numa rotina, tende-se a permanecer nela, ainda que a contragosto –, mas
também pelo fato de os arquivos de história da África, constituídos por relatórios
de escavações ou textos e iconografia, estarem, para algumas regiões, reunidos,
classificados e publicados segundo uma ordem arbitrária que não se aplica à
situação atual da África, mas que é muito difícil de se questionar.
Este volume da História Geral da África, talvez mais ainda do que o volume
anterior, teve que se apoiar em suposições. O período que ele abrange é obscuro,
devido à escassez de fontes, em geral, e de fontes precisamente datadas, em
particular. Isso se aplica tanto às desequilibradas coleções de fontes arqueológicas
quanto às fontes escritas e figuradas, exceto no que diz respeito a algumas regiões
relativamente privilegiadas, como o vale do Nilo e o Magreb. É essa falta de
bases documentais sólidas que torna necessário o recurso a suposições, uma vez
que fatos seguramente estabelecidos constituem exceções.
Um outro ponto deve ser enfatizado: as fontes arqueológicas de que o
historiador dispõe são bastante inadequadas. As escavações não se distribuem
de maneira uniforme por todo o continente. Em outras partes não há a mesma
densidade de escavações que encontramos principalmente ao longo da costa,
no interior da franja setentrional e, sobretudo, no vale do Nilo, na região que se
estende do mar até a Segunda Catarata.
XXXIII
Introdução Geral
Infelizmente, essa falta de documentos arqueológicos não pode ser suprida
pela narrativa de viajantes estrangeiros contemporâneos dos eventos ou fatos que
compõem este livro. A natureza hostil e a extensão do continente desencorajaram,
na Antiguidade, como depois, a penetração de forasteiros. Notaremos que as
viagens de circunavegação contribuíram muito para elucidar a história da África.
Pelo que se sabe até agora, a África é o único continente em relação ao qual isso
ocorreu (cf. capítulos 18 e 22).
As considerações acima explicam por que a história da África, de -7000 a
+700, ainda consiste amplamente em suposições. No entanto, essas suposições
nunca são infundadas; baseiam-se em informações reais, ainda que raras e
insuficientes. A tarefa daqueles que contribuíram para este trabalho foi coletar,
examinar e avaliar essas fontes. Sendo especialistas nas regiões cuja história
por mais fragmentária que seja eles investigam, apresentam aqui a síntese
daquilo que pode ser legitimamente deduzido, a partir dos documentos de que
dispõem. As suposições que apresentam, embora sujeitas a reexame quando se
puder contar com novas fontes, certamente proporcionarão estímulo e indicarão
linhas de pesquisa para os futuros historiadores.
Entre as zonas nebulosas que ainda escondem de nós a evolução histórica da
África, talvez uma das mais densas seja a que envolve os primeiros habitantes
do continente. Mesmo hoje em dia pouco se sabe a respeito desses habitantes.
As várias teses apresentadas que frequentemente se apóiam em um número
insuficiente de observações cientificamente válidas são de difícil comprovação,
numa época em que a antropologia física está em processo de rápida mudança.
O próprio monogenismo (cf. capítulo 1), por exemplo, ainda é apenas uma
hipótese de trabalho. Além disso, o enorme lapso de tempo transcorrido entre o
aparecimento de seres pré ou proto-humanos, descobertos no vale do Omo e em
Olduvai (cf. volume 1), e de seres de tipo humano bem definido, notadamente
na África meridional, deve, infelizmente, levar-nos a considerar a ideia de
continuidade ininterrupta e evolução in situ como simples ponto de vista, pelo
menos até que se obtenham provas ou se descubram elos intermediários desse
processo.
Reveste-se de grande importância a estimativa da densidade populacional
da África durante o período crucial que vai de -8000 a -5000, por ser este o
período de surgimento das culturas que mais tarde se diferenciariam. Uma alta
densidade populacional pode estimular o desenvolvimento da escrita, ao passo
que uma baixa densidade pode torná-lo inútil. A originalidade do antigo Egito
em relação ao resto da África no mesmo período talvez resida principalmente
no fato de que a alta densidade populacional observada na Antiguidade ao
XXXIV
África antiga
longo das margens do Nilo, entre a Primeira Catarata e a porção meridional do
Delta, tenha, pouco a pouco, tornado necessário o uso da escrita para coordenar
o sistema de irrigação, fundamental para a sobrevivência dos povos fixados.
Em contrapartida, o uso da escrita não foi essencial ao sul da catarata de Assuã,
região de baixa densidade populacional ocupada por pequenos grupos somáticos
que se mantinham independentes uns dos outros. Como se vê, é lamentável
que a densidade populacional durante esse período permaneça no âmbito das
suposições.
Finalmente, a ecologia, que sofreu consideráveis alterações tanto no espaço
como no tempo, desempenhou um papel muito importante. A última fase úmida
do Neolítico terminou por volta de -2400, durante o período histórico, quando
os faraós da V dinastia reinavam no Egito. As condições climáticas e, portanto,
as condições agrícolas – existentes na aurora das primeiras grandes civilizações
da África não eram as mesmas que iriam prevalecer mais tarde, e isso deve
ser levado em conta quando se estudam as relações dessas civilizações com
os povos vizinhos. O meio ambiente de -7000 a -2400 - um período de 4600
anos, que representa mais da metade do período estudado neste volume era
muito diferente daquele da segunda metade do III milênio. Este último parece
ter sido muito semelhante ao meio ambiente atual, e marcou profundamente as
sociedades humanas que nele se desenvolveram. A vida em comunidade não é –
e não pode ser – a mesma nas grandes zonas desérticas subtropicais do norte e
do sul e na floresta equatorial, nas cadeias de montanhas e nas bacias fluviais, nos
pântanos e nos grandes lagos. A influência dessas grandes zonas ecológicas foi
fundamental para o estabelecimento das rotas que permitiram o deslocamento
de um domínio a outro: do Magreb, da montanhosa Etiópia ou do vale do Nilo
para as bacias centrais dos rios Congo, Níger e Senegal, por exemplo; ou, ainda,
da costa atlântica para o mar Vermelho e o oceano Índico. No entanto, tais
rotas são ainda muito pouco conhecidas. Supõe-se que elas tenham existido;
isto é, sua existência é muito mais “presumida do que efetivamente conhecida.
Um estudo arqueológico sistemático a esse respeito nos ensinaria muito sobre a
história da África. Na verdade, poderemos empreender um estudo frutífero
das migrações entre -8000 e -2500 que se seguiram às grandes mudanças
climáticas e alteraram profundamente a distribuição dos agrupamentos humanos
na África quando essas rotas forem descobertas e exploradas a fundo.
Até o momento, dispomos de pouquíssimos pontos de referência para
determinadas rotas. É até possível que haja algumas totalmente desconhecidas
para nós. Um estudo das fotografias de satélites provavelmente traria novos
esclarecimentos sobre os principais eixos antigos de comunicação transafricana,
XXXV
Introdução Geral
bem como sobre as rotas secundárias, não menos importantes. No entanto, ainda
não se empreendeu nenhum estudo sistemático dessas fotografias. Um tal estudo
nos possibilitaria orientar e facilitar a verificação arqueológica em campo, o que
seria essencial, entre outras coisas, para a avaliação das influências recíprocas
entre as principais áreas culturais da Antiguidade. Talvez seja este o domínio
para o qual mais poderão contribuir as pesquisas, no futuro.
Como se vê, os capítulos do volume II da História Geral da África constituem
pontos de partida para pesquisas futuras mais do que relatos de fatos bem
estabelecidos. Estes são, infelizmente, bastante raros, exceto para algumas regiões
muito pequenas se comparadas à imensa extensão do continente africano.
O vale do Nilo, do Bahr el-Ghazal, ao sul, até o Mediterrâneo, ao norte, ocupa
um lugar muito especial na história da África antiga, devido a vários fatores:
primeiro, à sua posição geográfica; depois, à natureza particular de sua ecologia
em relação ao resto do continente; finalmente, e acima de tudo, à abundância –
relativa, mas sem paralelo na África – de fontes originais precisamente datadas,
que nos permitem acompanhar sua história desde o fim do Neolítico por volta
de -3000 – até o século VII da Era Cristã.
Egito: posição geográca
Em grande parte paralelo às costas do mar Vermelho e do oceano Índico, aos
quais tem acesso através de depressões perpendiculares ao curso do rio, o vale do
Nilo, ao sul do 8.° paralelo norte até o Mediterrâneo, abre-se amplamente também
para oeste, graças aos vales que começam nas regiões do Chade, Tibesti e Ennedi
e terminam no próprio Nilo. Finalmente, a larga extensão do Delta, os oásis da
Líbia e o istmo de Suez dão-lhe amplo acesso ao Mediterrâneo. Dessa maneira,
aberto para leste e oeste, para o sul e o norte, o corredor do Nilo é uma zona de
contatos privilegiados não apenas entre as regiões africanas que o margeiam, mas
também com os centros mais distantes das civilizações antigas da península Ará-
bica, do oceano Índico e do mundo mediterrâneo, tanto oriental como ocidental.
Entretanto a importância dessa posição geográfica variou ao longo do tempo.
Na África, o final do Neolítico caracterizou-se por uma fase úmida, que no
hemisfério norte durou até -2300, aproximadamente. Durante esse período,
que se estendeu do VII ao III milênio antes da Era Cristã, as regiões a leste e a
oeste do Nilo desfrutaram de condições climáticas favoráveis à fixação humana.
Consequentemente, os contatos e relações entre o leste e o oeste do continente
foram tão importantes quanto os estabelecidos entre o norte e o sul.
XXXVI
África antiga
Por outro lado, a partir de -2400, o ressecamento da parte da África
compreendida entre os paralelos 13 e 15, ao norte, fez com que o vale do Nilo
se tornasse a principal rota de comunicão entre a costa mediterrânea do
continente e o que hoje se designa como África ao sul do Saara. Era através do
vale do Nilo que matérias-primas, objetos manufaturados e, sem dúvida, ideias
transitavam do norte para o sul e vice-versa,
É evidente que, devido às variações climáticas, a posição geográfica do médio
vale do Nilo, como a do Egito, não teve, no período entre -7000 e -2400, a
mesma importância, ou, mais exatamente, o mesmo impacto que veio a ter
depois dessa época. Durante esse tempo, os grupos humanos e as culturas
puderam deslocar-se livremente, pelo hemisfério norte, entre o leste e o oeste,
assim como entre o norte e o sul. Esse foi o período primordial da formação e da
individualização das culturas africanas. Foi também o período em que as relações
entre leste e oeste, entre o vale do Nilo e o Oriente Médio, de um lado, e entre a
África ocidental e a oriental, de outro, foram mais fáceis. De -2400 até o século
VII da Era Cristã, entretanto, o vale do Nilo tornou-se a rota privilegiada entre
o norte e o sul do continente. Foi através desse vale que se realizaram os vários
tipos de intercâmbio entre a África negra e o Mediterrâneo.
Fontes para a história do vale do Nilo na Antiguidade
A importância e a situação privilegiada do vale do Nilo devem-se à posição
que ocupa na porção nordeste do continente. O vale teria permanecido apenas
um tema intelectualmente estimulante, servindo, no ximo, como uma
introdução à pesquisa histórica, se não fosse também a região mais rica da África
em fontes históricas antigas. Essas fontes nos permitem controlar e avaliar o
papel dos fatores geográficos na história da África como um todo, a partir de
-5000. Permitem-nos também alcançar um conhecimento acurado dos eventos
históricos do Egito propriamente dito, bem como, mais especialmente, fazer
uma ideia precisa da cultura material, intelectual e religiosa do baixo e médio
vale do Nilo, até os pântanos do Bahr el-Ghazal.
As fontes de que dispomos são de natureza arqueológica – portanto, mudas,
pelo menos aparentemente e literária. As primeiras, especialmente para os
períodos mais antigos, foram exploradas e organizadas recentemente. Até
o momento, elas não apenas são incompletas e irregulares como também têm
sido pouco ou mal utilizadas. As fontes literárias, por outro lado, têm uma longa
tradição.
XXXVII
Introdução Geral
Na verdade, muito antes de Champollion, o misterioso Egito despertava
curiosidade. No período arcaico, no século VI antes da Era Cristã, os sucessores
dos pré-helenos haviam chamado a atenção para a diferença entre os seus
costumes e crenças e os do vale do Nilo. Graças a Heródoto, essas observações
chegaram até nós. Com o objetivo de compreender melhor seus novos súditos,
os reis ptolomaicos, surpreendidos pela originalidade da civilização egípcia,
patrocinaram a compilação de uma história do Egito faraônico, no século III
antes da Era Cristã, abordando aspectos políticos, religiosos e sociais. Mâneton,
egípcio de nascimento, foi encarregado de escrever essa história geral do Egito.
Tinha acesso aos arquivos antigos e sabia lê-los. Se seu trabalho tivesse chegado
  O Nilo, fotografado por um satélite Landsat em órbita a 920 km da Terra (do artigo de Farouk
El-Baz, “Le Courrier de l’Unesco”, jul. 1977, foto Nasa, EUA). O conjunto de sessenta fotograas do Egito
tiradas pelo satélite mostra nitidamente (em alto contraste) a estreita faixa fértil constituída pelo vale do Nilo,
bem como o triângulo do Delta e o oásis do Fayum. O deserto ocupa dois terços da imagem, a oeste do Nilo.
Na parte inferior, podem-se distinguir leiras de dunas desenhando curvas paralelas.
XXXVIII
África antiga
até nós na íntegra, teria evitado muitas incertezas. Infelizmente desapareceu
quando a biblioteca de Alexandria foi queimada. Os excertos preservados em
várias compilações, frequentemente reunidos para fins apologéticos, fornecem-
nos, não obstante, um sólido esquema da história egípcia. Na verdade, as 31
dinastias manetonianas” continuam sendo, ahoje, a base da cronologia relativa
do Egito.
O fechamento dos últimos templos egípcios sob Justiniano I, no século VI da
Era Cristã, levou ao abandono das formas faraônicas de escrita hieroglíficas,
hieráticas ou demóticas. Apenas a linguagem falada sobreviveu, no copta; as
fontes escritas caíram gradualmente em desuso. Foi em 1822, quando Jean-
François Champollion (1790-1832) decifrou a escrita hieroglífica, que se pôde
novamente ter acesso aos documentos antigos, escritos pelos próprios egípcios.
Essas fontes literárias egípcias antigas devem ser utilizadas com reservas,
pois têm uma natureza particular. Frequentemente foram elaboradas com um
propósito específico: enumerar as realizações de um faraó, para mostrar que ele
cumprira plenamente sua missão terrestre de manter a ordem universal desejada
pelos deuses (Maât) e de resistir às forças do caos que cada vez mais ameaçavam
essa ordem. Podiam também ter o propósito de garantir eterna devoção e
lembrança aos faraós que fizeram por merecer a gratidão das gerações seguintes.
Nessas duas categorias de documentos enquadram-se, respectivamente, os longos
textos e as imagens históricas que adornam certas partes dos templos egípcios,
e as veneráveis listas de ancestrais, como aquelas entalhadas nos templos em
Carnac, durante a XVIII dinastia, e em Abidos, durante a XIX.
Para compilar listas reais como as mencionadas acima, os escribas dispunham
de documentos redigidos por sacerdotes ou por funcionários reais, o que sugere a
existência de arquivos oficiais bem organizados. Infelizmente, apenas dois desses
documentos chegaram até nós, e, ainda assim, incompletos. São eles a Pedra de
Palermo e o Papiro real de Turim.
A Pedra de Palermo (assim chamada porque o maior fragmento do texto é
conservado no museu dessa cidade da Sicília) é uma placa de diorito gravada
nas duas faces, com os nomes de todos os faraós que reinaram no Egito desde
o começo da V dinastia, por volta de -2450. A partir da III dinastia, a Pedra
de Palermo arrola não os nomes dos soberanos na ordem de sucessão, mas
também os principais eventos de cada reinado ano a ano; tais listas constituem
verdadeiros anais. É lamentável que esse documento incompavel esteja
quebrado, tendo chegado incompleto até nós.
O Papiro de Turim, preservado no museu dessa cidade, não é menos
importante, embora consista apenas em uma lista de governantes, com seus
XXXIX
Introdução Geral
protocolos completos e o número de anos, meses e dias de seus reinados, em
ordem cronológica. Fornece uma lista completa de todos os faraós, desde os
primeiros tempos até aproximadamente -1200. Embora tenha sido descoberto
intacto no século XIX, este documento foi manuseado com tanto descuido por
ocasião do transporte que se despedaçou, tendo sido necessário anos de trabalho
para a sua restauração. Mesmo assim, existem ainda hoje muitas lacunas. Uma
das peculiaridades do Papiro de Turim é o fato de agrupar os faraós em séries.
No final de cada série, o escriba acrescentou o número total de anos de reinado
dos faraós de cada grupo. Temos aqui, sem dúvida, a fonte das dinastias de
Mâneton.
Cronologia egípcia
A Pedra de Palermo, o Papiro de Turim e as listas reais dos monumentos
tornam-se ainda mais importantes para a história do Egito se levarmos em
conta que os egípcios não adotavam eras contíguas ou cíclicas, como as de
nossos sistemas antes ou depois de Cristo, da Hégira ou das Olimpíadas.
Seu cômputo baseia-se na pessoa do próprio faraó; cada data é estabelecida
tendo como referência o faraó que reinava no tempo em que o documento
foi redigido. Por exemplo, uma estela poderá trazer a data: Ano do faraó N,
segundo mês de Akhet (estação), oitavo dia”, mas a contagem começa novamente
a partir de 1 quando o governante seguinte sobe ao trono. Esse costume explica
a importância de se conhecerem os nomes de todos os faraós que reinaram, e a
duração de cada reinado, para estabelecer a cronologia. O Papiro de Turim e a
Pedra de Palermo nos teriam fornecido essas informações essenciais se tivessem
permanecido intactos. Infelizmente isso não aconteceu, e os outros documentos
que preenchem as lacunas dessas duas fontes principais ainda não são suficientes
para que tenhamos uma lista completa e exata dos faraós do Egito. Não a
ordem de sucessão continua controversa para alguns períodos em que o Papiro de
Turim e a Pedra de Palermo não fornecem referências, como a própria duração
exata do reinado de alguns soberanos ainda é desconhecida. Na melhor das
hipóteses, temos apenas a mais antiga data conhecida de um determinado faraó,
mas seu reinado pode ter durado até muito depois da construção do monumento
que traz essa data.
Mesmo com essas lacunas, a soma de todas as datas fornecidas pelas fontes
de que dispomos perfaz um total de mais de 4 mil anos. Essa é a cronologia
longa, aceita pelos primeiros egiptólogos a 1900. Percebeu-se, então, que
XL
África antiga
uma tal extensão de tempo era inadequada: estudos de textos e monumentos
mostraram que em certos períodos rios faraós reinaram ao mesmo tempo
(havendo, portanto, dinastias paralelas) e como por vezes ocorria, um faraó podia
tomar um de seus filhos como corregente. Dado que cada governante datava
seus monumentos tendo como referência seu próprio reinado, havia algumas
superposições; somando-se os reinados das dinastias paralelas e aqueles dos
corregentes aos reinados dos soberanos oficiais, chegava-se, necessariamente, a
um número total muito superior ao real.
Provavelmente teria sido impossível resolver esse problema se uma
peculiaridade do antigo calendário faraônico não nos tivesse fornecido uma
referência cronogica segura, por estar esse calendário relacionado a um
fenômeno astronômico permanente, cujo cálculo era fácil estabelecer. Referimo-
nos ao aparecimento da estrela Sótis a nossa Sirius – coordenado com o nascer
do Sol, na latitude de Heliópolis-Mênfis. É a isto que se chama “nascer helíaco
de Sótis”, fenômeno que foi observado e anotado na Antiguidade pelos egípcios.
Essas observações forneceram as datas sotíacas”, nas quais se baseia atualmente
a cronologia egípcia.
No princípio, os egípcios, como a maioria dos povos da Antiguidade, parecem
ter utilizado o calendário lunar, principalmente para estabelecer as datas das
festas religiosas. Mas, ao lado desse calendário astronômico, usavam um outro.
Sendo os egípcios um povo camponês, seu dia-a-dia era fortemente marcado
pelo ritmo da vida agrícola: semeadura, maturação, colheita, preparação de novas
sementes. Ora, no Egito, o ritmo agrícola do vale é condicionado pelo Nilo, e
suas mudanças é que fixam as datas das várias operações. Assim, não nada
de surpreendente no fato de que, paralelamente ao calendário religioso lunar, os
antigos habitantes do vale utilizassem também um calendário natural baseado
na repetição periódica do evento mais importante para a sua subsistência: as
cheias do Nilo.
Nesse calendário, a primeira estação do ano, Akhet em egípcio, marcava o
começo da enchente. As águas do rio subiam pouco a pouco e cobriam a terra
ressecada pelo verão tórrido. Os campos permaneciam encharcados durante
quatro meses aproximadamente. Na estação seguinte, a terra, que pouco a pouco
emergia da inundação, ficava pronta para a semeadura. Era a estação Peret
literalmente, “sair –, termo que, sem vida, faz alusão à terra que “sai da
água e, ao mesmo tempo, à saída”, ao despontar da vegetação. Terminada a
semeadura, o camponês aguardava a germinação e a maturação dos grãos. Na
terceira e última estação, os egípcios colhiam e estocavam a colheita. Depois
XLI
Introdução Geral
 A Pedra de Palermo. (Fonte: A. H. Gardiner, e Egypt of the Pharaohs”, Oxford University
Press, 1961.)
XLII
África antiga
 O Papiro de Turim. (Fonte: A. H. Gardiner, “e Royal Canon of Turin”, Oxford, 1954. Foto
Grith Institute, Ashmolean Museum, Oxford.)
disso, tinham apenas que esperar a nova enchente e preparar os campos para a
sua chegada. Essa era a estação Shemu.
É possível e mesmo muito provável que, por longos anos, os egípcios
tenham-se contentado com esse calendário. O ano, então, começava quando as
águas subiam. A estação Akhet, assim iniciada, durava até a retração das águas,
que marcava o início da estação Peret. Esta, por sua vez, terminava quando os
grãos amadurecidos estavam prontos para a colheita, marcando o começo da
estação Shemu, que terminava somente com o início da nova cheia. Era pouco
significativo para o camponês que uma estação fosse mais longa do que a outra;
o que importava era a organização do trabalho, que variava de acordo com as
três estações.
Em que momento e por que razões os egípcios passaram a ligar a enchente
do Nilo ao aparecimento simultâneo do Sol e da estrela Sótis no horizonte? Isso
certamente será difícil de determinar. Não há dúvida de que o estabelecimento
dessa relação foi resultado de observações repetidas e, ao mesmo tempo, de
profundas crenças religiosas. A estrela Sótis (Sirius, em egípcio Sepedet, “a
XLIII
Introdução Geral
Pontuda”) veio, mais tarde, a ser identificada com Ísis, a cujas lágrimas se
atribuíam as enchentes do Nilo. Talvez tenhamos aqui o reflexo de uma crença
religiosa muito antiga, associando o aparecimento da estrela divinizada com a
subida das águas. Quaisquer que sejam as razões, ao vincular o começo da cheia,
e, consequentemente, o primeiro dia do novo ano, a um fenômeno astronômico,
os egípcios forneceram-nos os meios para estabelecer pontos de referência
concretos para a sua longa história.
Na latitude de Mênfis, o suave início da enchente ocorria em meados de
julho. Poucos anos de observação parecem ter sido suficientes para mostrar aos
egípcios que o início da enchente tinha uma recorrência média de 365 dias. A
partir daí, eles dividiram seu ano de três estações empíricas em um ano de doze
meses de trinta dias cada um. Atribuíram, assim, quatro meses para cada estação.
Acrescentando cinco dias suplementares (em egípcio, os cinco heryu renepet, os
cinco a mais acrescentados ao ano), que os gregos chamavam de epagômenos,
os escribas obtiveram um ano de 365 dias, que era, de longe, o mais adequado
de todos os adotados na Antiguidade.
No entanto, não era perfeito. De fato, a Terra completa a sua translação em
torno do Sol não em 365 dias, mas em 365 dias e um quarto. A cada quatro
anos, o ano oficial egípcio se atrasava um dia em relação ao ano astronômico,
e somente a cada 1460 anos o período sotíaco os três fenômenos (nascer do
Sol, nascer de Sótis e início da cheia) ocorriam simultaneamente no primeiro
dia do ano oficial.
Essa defasagem gradual entre os dois anos teve duas consequências
importantes: primeiro, permitiu que os modernos astrônomos determinassem
quando os egípcios adotaram o seu calendário, tendo essa data que coincidir,
necessariamente, com o icio de um período sotíaco. A coincidência dos
fenômenos início da enchente e nascer helíaco de Sótis ocorreu três vezes
nos cinco milênios anteriores à Era Cristã em -1325/-1322, em -2785/-2782 e
em -4245/-4242. Por muito tempo, acreditou-se que os egípcios tinham adotado
seu calendário entre -4245 e -4242. Atualmente, admite-se que isso só ocorreu
no início do período sotíaco seguinte, isto é, entre -2785 e -2782.
A segunda consequência da adoção, pelos egípcios, do calendário solar fixo foi
um distanciamento gradual entre as estações naturais, determinadas pelo próprio
ritmo do Nilo, e as estações oficiais, adotadas pelo governo, que se baseavam em
um ano de 365 dias. Essa defasagem de um dia a cada quatro anos no início,
quase imperceptível aumentava pouco a pouco para uma semana, um mês, dois
meses, até que o Shemu do calendário oficial caísse no meio da estação natural
Peret. Um tal descompasso não poderia deixar de chamar a atenção dos escribas
XLIV
África antiga
egípcios: textos que apontam oficialmente a diferença entre o verdadeiro
nascer helíaco de Sótis e o começo do ano oficial. Essas observações permitem-
nos estabelecer com uma aproximação de quatro anos as seguintes datas:
• o reinado de Sesóstris III deve incluir os anos -1882/-1879;
• o ano de Amenófis I cai entre os anos -1550 e -1547;
• o reinado de Tutmés III inclui os anos -1474/-1471.
Combinando essas datas com as datas relativas fornecidas pelas fontes de que
dispomos – o Papiro de Turim, a Pedra de Palermo e os monumentos datados.
das várias épocas –, pudemos estabelecer uma cronologia básica, a mais exata
de todas as do Oriente antigo. Ela estabelece o início da história do Egito em
-3000. As grandes divisões de Mâneton podem ser datadas como segue:
• III à VI dinastia (Antigo Império): aproximadamente -2750/-2200;
• VII à X dinastia (Primeiro Período Intermediário): -2200/-2150;
• XI à XII dinastia (Médio Império): -2150/-1780;
• XIII à XVII dinastia (Segundo Período Intermediário): -1780/-1580;
• XVIII à XX dinastia (Novo Império): -1580/-1080;
• XXI à XXIII dinastia (Terceiro Período Intermediário): -1080/-730;
• XIV à XXX dinastia (Baixa Época): -730/-330.
A conquista de Alexandre da Macedônia, em -332, marca o final da história
do Egito faraônico e o início do período helenístico (cf. capítulo 6).
O meio ambiente nilótico
Talvez seja interessante citar aqui uma frase escrita por Heródoto (II, 35)
no final de sua descrição do Egito:Não o clima do Egito é peculiar a esse
país, e o comportamento do Nilo diferente daquele de outros rios em qualquer
outro lugar, mas também os próprios egípcios em seus usos e costumes parecem
ter invertido as práticas comuns da humanidade” (a partir da tradução de A.
de Sélincourt). Ao escrever essa frase, Heródoto naturalmente se referia apenas
aos países que margeiam o Mediterrâneo. No entanto é verdade que, de todos
os países da África, o Egito é o que possui o meio ambiente mais característico,
devido ao regime do Nilo. Sem o rio, o Egito não existiria. Isso foi dito e redito
mil vezes desde Heródoto: trata-se de uma verdade básica.
De fato, as condições rigorosas que o rio impunha às sociedades humanas que
viviam às suas margens, e que a ele deviam sua subsistência, foram reconhecidas
XLV
Introdução Geral
pouco a pouco. Tornaram-se inelutáveis apenas quando a civilização egípcia
tinha mais de 700 anos. Os grupos humanos que constituíram essa civilização
tiveram tempo, portanto, para se acostumar gradualmente às exigências impostas
pela ecologia do Nilo.
A partir do final do Neolítico, entre -3300 e -2400 aproximadamente,
o nordeste da África, incluindo o Saara, desfrutou de um sistema climático
relativamente úmido. Nesse período, o Egito não dependia exclusivamente
do Nilo para sobreviver. A estepe ainda se estendia a leste e a oeste do vale,
abrigando caça abundante e favorecendo uma criação de gado considerável. A
agricultura era, então, apenas um dos componentes da vida cotidiana, competindo
em importância com a criação de gado e mesmo com a caça, conforme se atesta
pela Pedra de Palermo. Esta nos leva a inferir que o cálculo dos impostos devidos
à autoridade central pelos notáveis do regime baseava-se não no rendimento das
terras que possuíam, mas no número de cabeças de gado a cargo de seus pastores.
A cada dois anos, fazia-se um censo dessa riqueza básica. As cenas que decoram
as mastabas do Antigo Império, do final da IV até a VI dinastia (-2500 a -2200),
mostram claramente que a criação de gado ocupava um lugar essencial na vida
dos egípcios daquele tempo.
Assim, podemos supor que a busca do controle do rio pelo homem a realização
fundamental da civilização egípcia, pois que possibilitou seu florescimento foi
provavelmente estimulada, no princípio, não pelo desejo de fazer melhor uso das
cheias para a agricultura, mas, especialmente, pela necessidade de evitar os danos
provocados pelas inundações. Muitas vezes se esquece de que o transbordamento
do Nilo não é apenas benéfico; pode acarretar calamidades. Foi sem dúvida em
função dessa ameaça que os habitantes do vale aprenderam a construir diques
e barragens para proteger suas povoações, e a cavar canais para drenar seus
campos. Dessa maneira, foram lentamente adquirindo uma experiência que
passou a ser vital, na medida em que o clima da África, entre os paralelos 13 e
15, ao norte, acabou por tornar-se tão seco quanto é hoje, transformando em
deserto absoluto as vizinhanças do vale do Nilo, tanto no Egito como na Núbia.
A partir de então, toda a vida do vale passou a ser estritamente condicionada
pelas cheias do rio.
Pelo emprego das técnicas de construção de diques e escavação de canais,
aperfeiçoadas ao longo dos séculos, os egípcios pouco a pouco desenvolveram
o sistema de irrigão por bacias (hods), garantindo, assim, o apenas sua
sobrevivência em um clima cada vez mais desértico, mas ainda a possibilidade
de expansão (cf. capítulos 4 e 8). O princípio desse sistema era simples, mas sua
operação era complexa e exigia sincronização. Utilizava duas elevações naturais
XLVI
África antiga
formadas pelo Nilo ao longo de suas margens, no decorrer de milhares de cheias,
ano após ano. Essas defesas naturais, gradualmente reforçadas pelos habitantes
das margens para se defender das cheias repentinas, eram suplementadas por
aterros de retenção, verdadeiras barragens artificiais que, sem dúvida, tiveram
origem naquelas construídas pelos antigos habitantes para proteger suas moradias
quando as águas do rio subiam.
Ao mesmo tempo, foram construídos diques paralelos ao Nilo, que acabaram
por dividir o Egito em uma série de bacias (daí o nome do sistema). O solo
dessas bacias era nivelado, de maneira que, quando o rio subisse, a bacia ficasse
inteiramente submersa. Canais de drenagem eram abertos nos aterros paralelos
ao rio para permitir que as bacias se enchessem. Depois de permanecer por
algum tempo, para impregnar os campos, a água era devolvida ao rio. Além
disso, um sistema de canais utilizando o declive natural do vale levava água da
montante para as áreas mais baixas localizadas na jusante do rio, de maneira a
irrigar terras que mesmo uma enchente muito grande não alcançaria.
Esse sistema, que os egípcios gradualmente aprenderam por experiência
própria, apresentava as vantagens de assegurar uma distribuição equitativa de
água e matéria orgânica por toda a terra cultivável, irrigar aquelas partes do
vale que, de outra maneira, teriam permanecido estéreis e, finalmente, e acima
de tudo, controlar o Nilo e suas enchentes. O preenchimento das bacias e o
desvio da água de montante para jusante através de canais, tinham por efeito
moderar a correnteza do rio, evitando as consequências desastrosas de uma
repentina liberação de milhões de metros cúbicos de água, que destruíam tudo
à sua passagem. A diminuição da correnteza, por sua vez, facilitava a deposição
do limo, do qual a água se encontrava carregada.
Não é exagero dizer que esse sistema único de irrigação estava na própria raiz
do desenvolvimento da civilização egípcia. Ele explica como a engenhosidade
humana conseguiu progressivamente superar grandes dificuldades e modificar
a ecologia natural do vale.
A nova ecologia, resultante da intervenção humana, envolvia um trabalho
considerável. Depois de cada enchente, era necessário reparar os aterros, reforçar
os diques e limpar os canais. Era uma tarefa coletiva contínua que, de início,
provavelmente se realizava ao nível de cada povoação. No período histórico,
esse trabalho era administrado e supervisionado pelo governo central. Se este
último deixasse de garantir, no devido tempo, a manutenção de todo o sistema, a
enchente seguinte poderia destruí-lo, e o vale retomaria ao seu estado original. No
Egito, a ordem política condicionou amplamente a ordem natural. Para assegurar
a subsistência de todos não era suficiente que o sistema de bacias funcionasse
XLVII
Introdução Geral
  Cheias sazonais do Nilo. (Fonte: Jacques Besançon, “L’Homme et le Nil”, Paris, Gallimard, NRF, p.79.)
XLVIII
África antiga
regularmente. Uma das características das cheias do Nilo é o fato de que seu
volume varia enormemente de um ano para o outro. As cheias podem ser fortes
demais, destruindo tudo à sua passagem, ou fracas demais, impossibilitando uma
irrigação satisfatória. Por exemplo, no período compreendido entre 1871 e 1900,
apenas a metade das enchentes ocorridas teria sido suficiente para suprir as
necessidades do Egito.
A experiência logo ensinou os egípcios a desconfiar da inconstância do rio.
Para compensar a escassez periódica, era necessário estocar cereais para alimentar
a população e mais importante ainda com vistas ao futuro garantir quantidade
suficiente de sementes para a semeadura seguinte, quaisquer que fossem as
circunstâncias. Esses estoques de reserva eram fornecidos pelo governo central,
graças ao duplo celeiro real, que estocava cereais em armazéns distribuídos por
todo o país. Limitando o consumo em períodos de abundância e estocando o
máximo possível para se precaver contra cheias insuficientes ou excessivas, o
governo central passou a controlar, por assim dizer, a ordem natural e veio a
desempenhar um papel muito importante.
Mudando profundamente as condições impostas pela natureza, o homem
desempenhou um papel essencial na emergência e expansão da civilização no
vale do Nilo. O Egito não é apenas uma dádiva do Nilo: é, acima de tudo, uma
criação do homem. Daí a importância dos problemas antropológicos do vale.
A ocupação do vale do Nilo
no Paleolítico, o homem ocupava, se não o vale propriamente dito, pelo
menos sua vizinhança imediata e em especial os terraços que o dominavam. A
alternância de períodos úmidos e secos durante o Paleolítico e o Neolítico (cf.
volume I) alterava inevitavelmente a densidade populacional, que ora aumentava,
ora diminuía. Mas o fato é que, por mais que recuemos no tempo, o Homo sapiens
sempre habitou o Egito.
A que raça ele pertencia? Poucos problemas antropológicos levantaram
discussões tão apaixonadas. No entanto esse problema não é novo. Em 1874 se
discutia se os antigos egípcios eram “brancos” ou negros”. Um século depois, um
simpósio promovido pela Unesco no Cairo mostrou que a discussão não estava
encerrada, e era provável que não se esgotasse tão cedo. Não é fácil encontrar
uma definição de “negro”, do ponto de vista físico, que seja aceitável para todos.
Recentemente, um antropólogo levantou dúvidas sobre a possibilidade de se
encontrarem meios efetivos para determinar a raça a que um esqueleto pertence
XLIX
Introdução Geral
pelo menos no que se refere a restos humanos muito antigos, como os do
Paleolítico. Os critérios tradicionais adotados pelos antropólogos físicos índice
facial, comprimento dos membros, etc. atualmente não são aceitos por todos,
e, como os antigos, voltamos a definir “negro pelo tipo de cabelo e cor da pele
medida cientificamente, é verdade, pela proporção de melanina. Contudo, o
valor desses índices é posto em dúvida por alguns. Nesse ritmo, depois de haver
perdido, ao longo dos anos, a própria noção de raça vermelha”, corremos sérios
riscos de sermos obrigados a abandonar a noção de raça branca e raça negra”.
De qualquer modo, é muito duvidoso que os habitantes que introduziram a
civilizão no vale do Nilo tenham pertencido a uma raça única e pura. A
própria história do povoamento do vale refuta essa possibilidade.
O homem não penetrou repentinamente em um vale vazio ou habitado
unicamente por animais selvagens. Estabeleceu-se na região gradualmente,
ao longo de milhares de anos, à medida que a própria densidade dos grupos
humanos ou as variações climáticas obrigaram-no a buscar novos recursos
ou maior segurança. Devido à sua posição, no ângulo nordeste do continente
africano, era inevitável que o vale do Nilo como um todo e o Egito, em particular,
se tornassem o ponto de chegada das correntes migratórias oriundas não somente
da África, mas também do Oriente Médio, e mesmo da Europa. Portanto, não
é de surpreender que os antropólogos acreditem ter podido identificar, entre os
muitos esqueletos nilóticos antigos, representantes das raças de Cro-Magnon,
armenoides, negroides, leucodérmicos, etc., embora esses termos devam ser
aceitos com reservas. Se algum dia existiu uma raça egípcia e esta é uma
questão aberta –, ela foi o resultado de miscigenações, cujos elementos básicos
variaram no tempo e no espaço. Isso poderia ser verificado, se fosse possível obter
um número suficiente de restos humanos para cada um dos períodos históricos
e para as diferentes regiões do vale o que está longe de ser o caso.
No entanto, um fato é inegável: a presença persistente, no Egito e na Núbia,
de um determinado tipo físico que não se poderia definir como raça, uma vez
que, conforme seja encontrado no Alto Egito ou no Baixo Egito, apresenta
características ligeiramente diferentes. De cor mais escura no sul que no norte,
esse tipo é, de maneira geral, mais escuro que no resto da bacia mediterrânea,
incluindo o norte da África. O cabelo é preto e encaracolado; a face, arredondada
e imberbe, era, no Antigo Império, ornada às vezes por um bigode. Em geral
bastante esguio, é o tipo humano que conhecemos através dos afrescos, baixos-
relevos e estátuas dos faraós; o nos devemos esquecer de que se tratava
efetivamente de retratos, tal como exigiam as crenças funerárias dos egípcios,
que era o próprio indivíduo, e não uma noção abstrata, quem sobrevivia à morte.
L
África antiga
Seria fácil, naturalmente, – selecionando determinados retratos e não
levando em conta a totalidade daqueles que chegaram até nós atribuir o tipo
egípcio a uma raça particular; igualmente fácil seria, no entanto, escolher outros
exemplos que negassem essas conclusões. De fato, qualquer pessoa pode ver que
os indivíduos representados pela arte egípcia são os mais variados possíveis, com
seus perfis retos, perfis prognatas, algumas vezes com as maçãs do rosto salientes,
como no caso de Sesóstris III, lábios carnudos, frequentemente encurvados; por
vezes com nariz levemente adunco (Hemeomu, Pépi I, Gamal Abdel Nasser),
mais frequentemente com um nariz grande e reto como o de Quéfren e, no sul,
particularmente, com nariz chato e lábios mais grossos” (Jean Yoyotte).
Essa variedade mostra que, no vale do Nilo, estamos lidando com um tipo
humano, e não com uma raça; um tipo que se constituiu gradualmente, tanto
pelos hábitos e condições de vida peculiares ao vale, como pela miscigenação
da qual é produto. Um exemplo notável disso é a estátua do Cheik-el-Beled,
um retrato vivo do prefeito da aldeia de Sacará na época em que a estátua, com
mais de 4 mil anos, foi descoberta. É mais do que provável que a estirpe africana,
negra ou clara, tenha predominado no antigo Egito; não se pode, contudo, ir
mais além no atual estágio dos nossos conhecimentos.
Escrita e meio ambiente
O Egito foi o primeiro país da África a fazer uso da escrita, a julgar pelo
emprego, no sistema hieroglífico, de pictogramas representando objetos que
estavam fora de uso havia muito tempo no início da época histórica. É possível
situar essa invenção no período amratiense, também chamado Nagada I (cf.
volume I), isto é, em torno de -4000, de acordo com as datas sugeridas pelo
carbono 14. Assim, é um dos mais antigos sistemas de escrita de que se tem
conhecimento. Desenvolveu-se muito rapidamente, pois aparece constituído
na paleta de Narmer, o primeiro monumento hisrico egípcio, que pode
ser datado de -3000. Além disso, a fauna e a flora utilizadas nos signos são
essencialmente africanas.
A escrita egípcia é fundamentalmente pictográfica, como muitas escritas
antigas, mas, enquanto na China e na Mesopotâmia, por exemplo, os sinais
pictográficos originais evoluíram rapidamente para formas abstratas, o Egito
permaneceu fiel ao seu sistema até o final de sua história.
Todos os objetos ou seres vivos que pudessem ser desenhados eram usados
como sinais ou caracteres na escrita egípcia: para escrever a palavra “arpão ou
LI
Introdução Geral
peixe bastava ao escriba desenhar um arpão ou um peixe. São os chamados
signos-palavra, porque um único signo é suficiente para escrever a palavra
inteira. Este princípio permaneceu em uso durante toda a civilização faraônica,
o que possibilitou que os escribas criassem tantos signos-palavra quantos
fossem necessários para denotar seres ou objetos desconhecidos no tempo
em que o sistema de escrita foi criado; assim, por exemplo, cavalo” e “carro”.
No sistema puramente pictográfico, ações também podem ser representadas
através de desenhos. Para escrever os verbos correr ou nadar”, o escriba deveria
simplesmente desenhar um indivíduo correndo ou nadando.
No entanto, apesar de toda a sua engenhosidade, o sistema pictográfico não
se prestava à representação de termos abstratos, como amar”, lembrar ou
“tornar-se”. Para superar essa dificuldade, os egípcios teriam que ultrapassar o
estádio da pura pictografia. Eles o fizeram empregando dois outros princípios: a
homofonia e a ideografia. Foi o uso simultâneo desses três princípios – pictografia
pura, homofonia e ideografia que tornou tão difícil, na atualidade, a decifração
dos hieróglifos. Na escrita egípcia, alguns signos são lidos foneticamente, outros
não: servem apenas para precisar o som ou o significado da palavra.
O princípio da homofonia é simples: por exemplo, na linguagem falada a
palavra “tabuleiro de xadrez” era pronunciada men. Graças a esse princípio, o
signo pictográfico representando um tabuleiro de xadrez poderia ser utilizado,
conforme se desejasse, tanto para significar o próprio objeto como para escrever
foneticamente todos os homófonos”, isto é, todas as palavras cuja pronúncia
fosse men, entre elas o termo abstrato ser estável”. Da mesma forma, o signo
de “enxada era pronunciado mer, podendo, portanto, ser utilizado para escrever
o verbo amar”, cuja pronúncia era mer. Nesses casos, os signos-palavra originais
tornaram-se signos fonéticos. Como o número de homófonos simples, palavra por
palavra do tipo men, “tabuleiro de xadrez”, e men, “ser estável”, ou mer, enxada”,
e mer, amar –, é relativamente pequeno, a inovação teria oferecido vantagens
bastante limitadas se os escribas não tivessem estendido seu emprego à formação
de palavras complexas. Por exemplo, para escrever o verbo abstrato “estabelecer”,
que era pronunciado semen e não possuía homófonos simples, empregavam
dois signos-palavra com valor fonético: um pedaço de tecido dobrado, que se
pronunciava (e), e men, “tabuleiro de xadrez”. Colocados lado a lado, esses dois
signos eram lidos foneticamente s(e) + men = semen e a combinação significava
estabelecer”, “fundar”. Tendo chegado a esse estágio, o escriba egípcio tinha
à sua disposição um instrumento capaz de expressar foneticamente, através
de imagens, qualquer palavra da língua, por mais complexa que fosse. Bastava
decompor a palavra em tantos sons quantos se pudesse transcrever por meio de
LII
África antiga
F A Paleta em xisto de
Narmer, I dinastia, face anterior
e posterior. É dos mais antigos
testemunhos da escrita egípcia. O
protocolo do rei, simbolizado pelo
peixe ncr e o cinzel mr, ocupa o
rengulo entre as duas cabeças
de tor. Os outros pequenos
hieróglifos inscritos embaixo da
cabeça das diferentes personagens
indicam-lhes o nome ou o título; o
chefe capturado talvez se chamasse
Washi (wr = aro; s = charco),
O grupo no alto, à direita, deve
explicar, provavelmente, a figura
central; nessa época, bastante
remota, o essencial de frases
inteiras, ao que parece, podia ser
exprimido por meio de simples
grupos de símbolos cujos elementos
sugerissem palavras distintas. A
este, por hipótese, pode-se dar a
seguinte interpretação: o Deus-
Falcão Hórus (ou seja, o rei) fez
prisioneiros os habitantes da região
do papiro (Tz - mhw, o Delta).
(Fonte: J. Pirenne, “Histoire de la
Civilisation de l’Egypte Ancienne”,
Baconnière, Neuchâtel, Suíça, 1961,
v. I, gs. 6 e 7, pp. 28-9. Foto H.
Brugsch, Museu do Cairo.)
LIII
Introdução Geral
um signo-palavra que tivesse aproximadamente a mesma pronúncia. A escrita
hieroglífica já tinha alcançado esse estágio no período tinita, em tomo de -3000,
o que pressupõe um período bastante longo de desenvolvimento anterior.
No entanto, o sistema assim completado tinha falhas. Utilizava necessariamente
um grande número de signos conhecemos mais de quatrocentos signos comuns
que podiam deixar o leitor confuso quanto à maneira de lê-los. Tomemos o
exemplo simples do desenho de um barco. Como deveria ser lido (bote, barco,
navio, embarcação, etc.)? Além disso, era impossível, à primeira vista, saber se
um determinado signo estava sendo empregado como signo-palavra, designando
o objeto representado, ou como signo fonético.
A segunda dificuldade foi facilmente superada: os escribas adotaram o hábito
de acrescentar uma linha vertical depois do signo-palavra que designasse o
próprio objeto. Quanto à primeira, foi resolvida pelo estabelecimento gradual
de um complexo sistema de complementos fonéticos (como é chamado pelos
egiptólogos). Consiste em 24 signos-palavra, cada um deles com apenas uma
consoante. Os escribas, pouco a pouco, passaram a utilizá-los para indicar a
leitura fonética dos signos. Vejamos um exemplo: o signo que representa um
pão sobre uma esteira tem a pronúncia hetep. Com o tempo, tornou-se habitual
colocar dois outros signos imediatamente após o signo-palavra empregado
foneticamente: pão”, pronunciado t, e assento”, pronunciado p. Esses dois
signos indicavam imediatamente ao leitor a pronúncia hetep.
É evidente que esses 24 signos simples desempenham, de fato, o papel das
nossas letras, e que temos aqui o embrião da invenção do alfabeto, que esses
signos expressam todas as consoantes da língua egípcia, e que os egípcios, como
os árabes ou os hebreus, não escreviam as vogais. Não havia, portanto, nenhuma
palavra na língua que não pudesse ser escrita simplesmente por meio de signos.
No entanto os egípcios nunca deram o passo final nessa direção e, longe de
empregar apenas os signos simples, quase alfabéticos, complicaram ainda
mais seu sistema de escrita pelo menos aparentemente acrescentando aos
signos utilizados foneticamente, e a seus complementos fonéticos, novos signos
puramente ideográficos. Esses signos eram colocados no final das palavras e
tornavam possível classificá-las, à primeira vista, em uma determinada categoria.
Os verbos que designavam uma ão física, como “atingir e “matar, eram
seguidos por um signo que representava um braço humano empunhando arma.
Os que designavam um conceito abstrato, como pensar” e amar”, eram seguidos
de um signo representando um rolo de papiro. Também os substantivos se
faziam acompanhar por ideogramas: a palavra bacia”, por exemplo, seria seguida
pelo ideograma água”, três linhas horizontais onduladas; os nomes de países
LIV
África antiga
estrangeiros seriam seguidos pelo signo “montanha” em contraposão ao
Egito, que é plano e assim por diante.
Se os epcios nunca utilizaram uma forma simplificada de escrita
possuímos apenas um texto em escrita alfabética, que é muito tardio e pode
ter sido influenciado pelas escritas alfabéticas utilizadas nos países vizinhos –,
esse conservadorismo pode, sem vida, ser explicado pela importância que
atribuíam à imagem e, portanto, ao signo como imagem. A imagem possuía
um poder gico latente. Ainda por volta de -1700, os escribas por vezes
mutilavam os signos que representavam seres perigosos (pelo menos a seus
olhos): as serpentes tinham o rabo cortado; certos pássaros apareciam sem os
pés. O poder mágico do signo estendia-se por todo o mundo; esse poder era
tão grande que quando se desejava fazer mal a alguém, o nome da pessoa era
cuidadosamente rasurado ou apagado, onde quer que estivesse escrito. O nome
era, de fato, parte do indivíduo e, em certo sentido, a própria pessoa: destruir o
nome era destruir a pessoa.
Com esse intrincado sistema de signos-palavra, signos fonéticos plurissilábicos,
complementos fonéticos e determinativos ideográficos uma confusão de signos,
alguns devendo ser pronunciados, outros não a escrita hieroglífica é, de fato,
complexa, mas também muito evocativa. Os determinativos recortam bem as
palavras, a ordem rígida dos termos da oração verbo, sujeito, objeto facilita
a interpretação, e as dificuldades que o tradutor moderno enfrenta advêm do
fato de que por vezes ele desconhece o significado de muitas palavras. Mesmo
assim, gras aos determinativos, podemos saber em que categoria devem
ser classificadas. Tem-se sugerido frequentemente que a escrita hieroglífica
foi trazida para o vale por invasores do Oriente, ou tomada de empréstimo à
Mesopotâmia pelos egípcios. O mínimo que se pode dizer é que não nenhum
vestígio material desse empréstimo na escrita do Egito faraônico, tal como é
encontrada no despontar da História, em torno de -3000. Pelo contrário, é
possível acompanhar, passo a passo, a sua lenta formação: da pura pictografia para
os fonogramas complexos, destes para os complementos fonéticos e, finalmente,
para os determinativos. Alguns signos empregados foneticamente representam
objetos que não eram usados quando os primeiros textos apareceram, o que
prova que a escrita se constituiu na era pré-histórica, quando esses objetos ainda
eram de uso corrente. Finalmente, talvez o mais importante seja o fato de que
os antigos signos hieroglíficos foram todos tomados da fauna e da flora do Nilo,
provando, assim, que a escrita é de origem puramente africana. Se admitirmos
que houve influência externa no advento da escrita egípcia, tal influência pode
ter sido, no máximo, da ideia de escrever, o que é pouco provável se levarmos
LV
Introdução Geral
em conta que a escrita tomou forma muito cedo no Egito, no IV milênio antes
da Era Cristã.
Uma das forças a presidir a inveão e o desenvolvimento da escrita
hieroglífica no vale do Nilo foi, sem dúvida, a necessidade que tinham seus
habitantes de agir em conjunto e de maneira coordenada no combate aos
flagelos que periodicamente os ameaçavam dentre outros, as enchentes do
Nilo. Se uma família, um grupo de famílias ou mesmo uma pequena aldeia era
impotente para erigir uma proteção eficaz contra a subida inesperada das águas,
o mesmo o se podia dizer de grandes grupos humanos agindo em conjunto.
A própria configuração do Egito favorece a criação desses grupos. O vale não
tem largura regular em toda a sua extensão. Limita-se, por vezes, ao curso do
rio, alargando-se, depois, para formar pequenas bacias, às vezes de considerável
extensão. Cada uma dessas bacias naturais constitui uma unidade geográfica,
com um potencial agrícola definido. Ao que parece, tenderam rapidamente
a se transformar em pequenas unidades políticas, sob a autoridade do maior
agrupamento da área, cuja deidade tutelar passava a ser a de toda a comunidade.
Essa foi, provavelmente, a origem dos nomos, que emergem, constituídos, no
despontar do período histórico.
Existe, evidentemente, um contraste geográfico muito grande entre o Alto
Egito, o Said, segmentado em uma sucessão de bacias naturais bem definidas,
e o Baixo Egito, o Delta, onde, dividindo-se em vários braços, o próprio Nilo
corta o solo em unidades de caráter inteiramente diferente; menos distintas do
que as do Said.
Deve-se relembrar aqui de que os termos tradicionais Alto e “Baixo Egito são
falaciosos, quando empregados para o período de formação do Estado faraônico.
No atual estágio dos nossos conhecimentos sobre as culturas pré-dinásticas, o
que chamamos Alto Egito não abrangia o sul da região de el-Kab, e terminava
ao norte, nas vizinhanças do Faium. Seu centro político situava-se em Naqada,
na bacia de Tebas, mas desceria, em direção ao norte, para a região de Abidos,
uma outra bacia natural que iria desempenhar um papel importante na história
do Egito. O Baixo Egito, por sua vez, começava no Faium, mas terminava, ao
norte, na ponta do Delta. Embora tenhamos muito poucas informações sobre
sua extensão em era tão longínqua, parece certo que o Baixo Egito não atingia
o mar. Seu centro estava localizado na região de Cairo-Heliópolis.
Neste berço” do Egito faraônico, as bacias do sul constituíam uma força
pelo menos equivalente das bacias do norte; essa força era mais bem estruturada
graças à individualidade das bacias que a compunham. Assim, compreende-se
facilmente por que a Confederação das províncias do sul acabou impondo uma
LVI
África antiga
unidade cultural ao vale, subjugando a Confederação das províncias do norte,
cuja originalidade era menos acentuada.
As pequenas unidades políticas do sul, que correspondiam às áreas das bacias
que ocupavam, dispunham de mão de obra suficiente para executar o trabalho
coletivo indispensável à sobrevivência da província: reforço das margens do
rio, que pouco a pouco se transformaram em verdadeiros aterros (veja acima);
depois, construção de diques para proteger as povoações. Para ser eficaz, esse
trabalho exigia organização. A necessidade de organização, por sua vez, deve ter
facilitado, se o a invenção, pelo menos o rápido desenvolvimento da escrita:
era preciso transmitir ordens a um grande número de homens, espalhados por
grandes distâncias, para que se cumprisse uma tarefa a ser obrigatoriamente
realizada, num espaço de tempo limitado: após a colheita e antes da nova subida
das águas. Distribuição de trabalho, estabelecimento de prioridades, suprimentos
de ferramentas (mesmo as mais rudimentares), supervisão local dos trabalhos,
tudo isso demandava uma administração, por mais simples que fosse. Essa
administração poderia ser eficaz se fosse capaz de prever, planejar e dirigir
as várias etapas das operações a partir de um centro, por vezes inevitavelmente
distante do local onde o trabalho seria executado. É difícil imaginar que tudo
isso pudesse ser levado a cabo sem o instrumento incomparável da escrita para
o registro dos dados essenciais número de homens, rações, altura do aterro a ser
construído e, acima de tudo, para a rápida transmissão das ordens aos vários
pontos do território.
A unificação política do Egito por Menés, em torno de -3000, fortaleceu
ainda mais o desenvolvimento da administração e, consequentemente, da escrita.
De fato, ao chefe cabia, a partir de então, cuidar da organização dos trabalhos
de interesse coletivo não apenas dentro de uma área limitada, mas em todo o
país. Ora, uma das características desse país é a sua grande extensão, o que faz
com que a capital, de onde emanam as ordens, esteja sempre muito distante
de uma grande parte do território. Além disso, em razão da inconstância das
cheias (ver figura), uma das responsabilidades do governo central era a de estocar
o máximo possível de alimentos nas épocas de abundância para amenizar a
escassez, que sempre poderia surgir de forma inesperada. Consequentemente,
era necessário que a liderança – no caso, o faraó – soubesse com exatidão quais
os recursos em disponibilidade no país, para poder, em caso de necessidade,
racioná-los ou distribuí-los às regiões mais seriamente afetadas pela fome. Tal
é a base da organização econômica do antigo Egito e, de fato, de sua própria
existência. Esse controle requer um complexo sistema de contabilidade, com
entradas e saídas tanto de bens como de pessoas, o que explica o papel essencial
LVII
Introdução Geral
desempenhado pelo escriba na civilização do antigo Egito. O escriba é, assim, o
verdadeiro elemento-chave do sistema faraônico. A partir da III dinastia – em
torno de -2800 –, os funcionários de estado mais graduados se fazem retratar
com o estojo de escrita sobre o ombro, e os princípios do Antigo Império serão
representados pelos escultores como escribas sentados (cf. fig. 5, Introdução).
Numa narrativa famosa, o próprio rei toma da pena, por assim dizer, para anotar
o que o profeta está prestes a lhe revelar. O poder mágico, sempre associado à
escrita, acentua a importância do escriba na sociedade. Saber o nome das coisas
era ter poder sobre elas. Não exagero em se dizer que a civilização egípcia
apoiava-se no escriba e que foi a escrita que possibilitou o seu desenvolvimento.
O contraste entre o Egito e o vale núbio do Nilo permite-nos compreender
melhor o papel da escrita e as razões de sua exisncia na emergência e
desenvolvimento da civilização egípcia. Ao sul da Primeira Catarata, encontramos
uma civilização com a mesma composição daquela do Alto Egito. No entanto
a Núbia sempre foi refratária ao uso da escrita, embora não pudesse ignorá-lo,
uma vez que mantinha contatos constantes com o vale egípcio. A razão dessa
resistência parece residir na diferença entre os modos de vida dos dois países.
De um lado, temos uma população densa, que a necessidade de irrigação e
controle do rio de que dependia sua própria existência uniu estreitamente
em uma sociedade hierarquizada, na qual cada indivíduo desempenhava um
papel específico no desenvolvimento do país. De outro lado, na Núbia, temos
uma populão que, na aurora da História, possa uma cultura material
equivalente, se não superior, à do Alto Egito, mas estava dividida em grupos
menores e bastante isolados. Esses grupos eram mais independentes e tinham
maior mobilidade, pois a criação de gado exigia deslocamentos frequentes e
desempenhava um papel econômico pelo menos tão importante quanto o da
agricultura, muito limitada uma vez que na Núbia o vale era mais estreito do
que no Egito. Os povos núbios não sentiram a necessidade de escrita. Iriam
permanecer sempre no domínio da tradição oral, utilizando a escrita muito
raramente ao que parece, apenas para fins, religiosos, ou quando estiveram
submetidos a um governo central de tipo monárquico (cf. capítulos 10 e 11).
A diferença de comportamento entre duas populações de composição étnica
similar esclarece, de forma significativa, um fato aparentemente anormal: uma
delas adotou e talvez tenha mesmo inventado um sistema de escrita, enquanto
a outra, que tinha conhecimento dessa escrita, a desdenhou. O modo de vida
imposto ao grupo que habitava o baixo vale pela necessidade de controle do Nilo
iria favorecer a emergência e o desenvolvimento da escrita. Esta, por sua vez, fez
desse grupo uma das primeiras grandes civilizações do mundo.
LVIII
África antiga
 Estátua do escriba sentado, Knubaf. (Fonte: W. S. Smith, e History of Egyptian Sculpture and
Painting in the Old Kingdom”, 1.
a
ed., 1946, pr. 19a. Foto Museum of Fine Arts, Boston.)
LIX
Introdução Geral
O Egito africano, receptáculo de inuências
Por volta de -3700, pode-se notar uma unificação da cultura material dos dois
centros de civilização do vale do Nilo; mais precisamente, o centro meridional,
embora mantendo suas características distintivas, adota parcialmente a cultura
do centro setentrional. Essa penetração da civilização do norte em direção ao sul
é frequentemente associada, por um lado, à invenção da escrita e, por outro, ao
aparecimento, no Egito, de povos invasores mais avançados do que os habitantes
autóctones.
Com relação à escrita, vimos anteriormente que uma origem puramente
nilótica, portanto, africana, não não deve ser descartada como, provavelmente,
reflete a realidade. Além disso, uma invasão de elementos civilizadores externos,
principalmente mesopotâmicos, apóia-se em evidências muito tênues. Entretanto,
a originalidade e a antiguidade da civilização egípcia não devem encobrir o fato
de ter sido ela igualmente o receptáculo de múltiplas influências. Sua posição
geográfica, aliás, a predispunha a isso.
O clima relativamente úmido no final do Neolítico e durante todo o período
pré-dinástico, que assistiu à formação da civilização no Egito, tornou o deserto
árabe, entre o mar Vermelho e o vale do Nilo, permeável, por assim dizer. Foi por
esse caminho, sem dúvida, que as influências mesopotâmicas cuja importância,
aliás, talvez tenha sido superestimada penetraram no Egito. Em contraposição,
por falta de investigação suficiente, pouco sabemos sobre os contatos do Egito
com as culturas do Saara oriental no final do Neolítico. Certos símbolos
inscritos nas paletas protodinásticas, no entanto, permitem-nos supor que havia
características comuns entre as populações do deserto líbio e as do vale do Nilo.
Em direção ao norte, é provável que em épocas remotas as ligações entre
o Egito e o corredor sírio-palestino por intermédio do istmo de Suez não
fossem tão estreitas quanto viriam a se tornar após o estabelecimento do Antigo
Império; no entanto também podem-se apontar vestígios muito antigos de
contatos com a Palestina, e é possível que o mito de Osíris tenha surgido das
relações entre o centro de civilização do Delta e a costa madeirífera do Líbano
relações que datariam, portanto, de tempos extremamente antigos.
À primeira vista, os vínculos com o sul parecem muito mais nítidos, mas é
difícil avaliar sua importância. A partir do século IV antes da Era Cristã, os povos
ao sul da Primeira Catarata (cf. capítulo 10) estão em estreito contato com o baixo
vale do Nilo. Nos períodos pré e protodinástico intenso intercâmbio entre
os dois grupos populacionais: encontram-se as mesmas técnicas de cerâmica e
argila esmaltada (faiança egípcia), os mesmos ornatos, armas similares, a mesma
LX
África antiga
crença na vida após a morte e ritos funerários afins. Durante esses contatos, os
egípcios devem ter mantido relações diretas ou através de intermediários
com os povos mais distantes da África, como se pode deduzir a partir ao número
de objetos de marfim e ébano que foram recolhidos nos túmulos egípcios mais
antigos. Mesmo admitindo que a fronteira ecológica do ébano situava-se mais
ao norte do que atualmente, ainda assim era muito distante da Baixa Núbia; esse
fato nos fornece um precioso indício de contatos entre a África ao sul do Saara
e o Egito. Além do marfim e do ébano, o incenso, que aparece muito cedo, e a
obsidiana, ambos produtos estranhos ao vale do Nilo, podem ter sido importados
pelos egípcios. Através desse comércio, técnicas e ideias devem ter circulado com
facilidade de uma área para outra, dado que, como vimos, os egípcios tinham
um considerável substrato africano.
Assim, para onde quer que nos voltemos, para oeste ou leste, norte ou sul,
vemos que o Egito recebeu influências externas. No entanto essas influências
nunca afetaram profundamente a originalidade da civilização que foi aos poucos
tomando forma às margens do Nilo, antes de influenciar, por seu turno, as
regiões vizinhas.
Pontos obscuros em nossos conhecimentos
Para podermos avaliar a importância das influências externas no início da
civilização do vale do Nilo, seria necessário um bom conhecimento da arqueologia
de todo o país em tempos antigos.
Um conhecimento bastante abrangente faz-se, de fato, indispensável para
uma comparação frutífera entre o material arqueológico coletado no Egito e o
fornecido pelas culturas vizinhas, visando distinguir importações e imitações,
únicas provas tangíveis de contatos em larga escala.
Mas se a arqueologia do IV milênio antes da Era Cristã, tanto no Alto Egito
como na Baixa Núbia (entre a Primeira e a Segunda Catarata), é razoavelmente
conhecida, o mesmo não se pode dizer em relação às outras partes do vale do
Nilo. O Delta, em particular, é praticamente desconhecido no que se refere
aos períodos pré-dinástico e protodinástico, com exceção de algumas poucas
localidades de sua faixa desértica. Todas as referências a possíveis influências
provenientes da Ásia durante esses períodos através do istmo de Suez ou da
costa mediterrânica pertencem, pois, ao domínio das suposições.
Encontramos as mesmas dificuldades no caso do alto vale do Nilo, entre a
Segunda e a Sexta Catarata. Nossa ignorância a respeito da arqueologia primitiva
LXI
Introdução Geral
dessa vasta região é ainda mais lamentável se levarmos em conta a possibilidade
de contatos e comércio entre a parte egípcia do vale e a África do sul do Saara.
Essa falta de conhecimento impede-nos de comparar as realizações da civilização
faraônica nascente àquelas das culturas não apenas do vale superior, mas também
das regiões situadas a leste, oeste e sul do Nilo. Recentes descobertas entre a
Quinta e a Sexta Catarata sugerem a existência, se não de contatos diretos, pelo
menos de uma desconcertante semelhança de formas e decorações tanto do
mobiliário funerário como do mobiliário comum do Alto Egito pré-dinástico e
do Sudão ao sul do paralelo 17.
À deficiência do nosso conhecimento no espaço, por assim dizer, somam-se
as falhas do nosso conhecimento no tempo. A civilização faraônica propriamente
dita iria durar mais de 3 mil anos; não sabemos, ou sabemos muito pouco, sobre
o que aconteceu no Egito durante aproximadamente um terço desse enorme
período de tempo. A história dos faraós divide-se em períodos fortes e períodos
fracos (cf. capítulo 2). Para os períodos de acentuada centralização do poder real,
possuímos muitos documentos e monumentos que nos permitem reconstituir
com precisão os eventos importantes. São esses os períodos conhecidos como
Antigo Império (-2700 a -2200), dio Império (-2000 a -1800) e Novo
Império (-1600 a -1100). Para os períodos em que o poder central era fraco, por
outro lado, as fontes de conhecimento se reduzem, e mesmo desaparecem, de
maneira que a história faraônica apresenta lacunas, que os egiptólogos chamam
de períodos intermediários. Existem três desses períodos: o primeiro se estende
de -2200 a -2000, o segundo de -1800 a -1600, e o terceiro de -1100 a
-750. Se somarmos a esses períodos o início da monarquia faraônica, de -3000
a -2700, cujo conhecimento é ainda muito insuficiente, veremos que mais de
dez séculos da história egípcia permanecem, se não totalmente desconhecidos,
pelo menos bastante obscuros.
Conclusões
Apesar dessas lacunas em nosso conhecimento, a civilização faraônica ocupa
um lugar primordial na história da África antiga. Através de seus monumentos,
de seus textos e do interesse que, no passado, despertou nos viajantes, fornece-
nos um grande volume de informações sobre a maneira de pensar, de sentir e de
viver dos africanos em períodos que não poderíamos conhecer por outros meios.
Esse lugar, embora primordial, é sem dúvida insignificante se comparado ao
papel que o conhecimento do antigo Egito e da Núbia poderia desempenhar na
LXII
África antiga
história do continente. Quando a arqueologia dos países que margeiam o vale do
Nilo for mais explorada e, portanto, mais conhecida, o Egito e o Sudão nilótico
proporcionarão ao historiador e ao arqueólogo meios de comparação e datação
indispensáveis à ressurreição do passado, assim como ao estudo das correntes
de influência que, de sul a norte e de leste a oeste, constituem a própria trama
da história da África.
C A P Í T U L O 1
1
Origem dos antigos egípcios
A aceitação geral da hipótese da origem monogenética e africana da huma-
nidade suscitada pelos trabalhos do professor Leakey tomou possível colocar
em termos totalmente novos a questão do povoamento do Egito, e mesmo do
mundo. Há mais de 150 mil anos, a única parte do mundo em que viviam seres
morfologicamente iguais aos homens de hoje era a região dos Grandes Lagos,
nas nascentes do Nilo. Essa noção – e outras que não nos cabe recapitular aqui
constitui a essência do último relatório apresentado pelo dr. Leakey no VII
Congresso Pan -Africano de Pré -História, em Adis Abeba, em 1971
1
. Isso quer
dizer que toda a raça humana teve sua origem, exatamente como supunham os
antigos, aos pés das montanhas da Lua. Contra todas as expectativas e a despeito
das hipóteses recentes, foi desse lugar que o homem partiu para povoar o resto
do mundo. Disso resultam dois fatos de capital importância: (a) necessaria-
mente, os primeiros homens eram etnicamente homogêneos e negroides. A lei
de Gloger, que parece ser aplicável também aos seres humanos, estabelece que os
animais de sangue quente, desenvolvendo -se em clima quente e úmido, secretam
um pigmento negro (melanina)
2
. Portanto, se a humanidade teve origem nos
trópicos, em tomo da latitude dos Grandes Lagos, ela certamente apresentava,
1 PROCEEDINGS OF THE SEVENTH PAN AFRICAN CONGRESS OF PRE HISTORY
AND QUATERNARY STUDIES, Dec. 1971.
2 MONTAGU, M. F. A. 1960, p. 390.
Origem dos antigos egípcios
Cheikh Anta Diop
2
África Antiga
no início, pigmentação escura, e foi pela diferenciação em outros climas que
a matriz original se dividiu, mais tarde, em diferentes raças; (b) havia apenas
duas rotas através das quais esses primeiros homens poderiam se deslocar, indo
povoar os outros continentes: o Saara e o vale do Nilo. E esta última região que
será discutida aqui.
A partir do Paleolítico Superior até a época dinástica, toda a bacia do rio foi
progressivamente ocupada por esses povos negroides.
Evidências da antropologia física sobre
a raça dos antigos egípcios
Poder -se -ia pensar que, trabalhando com evidências fisiológicas, as desco-
bertas dos antropólogos poderiam dissipar todas as dúvidas por fornecerem ver-
dades confiáveis e definitivas. Isso não é, de maneira nenhuma, o que acontece:
a natureza arbitrária dos critérios utilizados para mencionarmos apenas um
aspecto –, ao mesmo tempo que afasta qualquer possibilidade de uma conclusão
ser aceita sem reservas, introduz tanta discussão supérflua entre os cientistas que
às vezes nos perguntamos se a solução do problema não teria estado muito mais
próxima se não tivéssemos o azar de abordá -lo sob esse ângulo.
No entanto, embora as conclusões desses estudos antropológicos se detenham
um pouco aquém da realidade, elas são unânimes em mencionar a existência de
uma raça negra desde as mais distantes épocas da Pré -História até o período
dinástico. Não é possível, no presente capítulo, citar todas essas conclusões. Elas
estão sumarizadas no Capítulo X de Histoire et Protohistoire dEgipte (Institut
d’Ethnologie, Paris, 1949), do dr. Emile Massoulard. Citaremos apenas alguns
itens:
“Miss Fawcett acredita que os crânios de Negadah compõem uma coleção com
homogeneidade suficiente para fundamentar a hipótese da existência de uma raça
de Negadah. Quanto à altura total do crânio, à altura auricular, do comprimento e
largura da face, ao comprimento do nariz, ao índice cefálico e ao índice facial, essa
raça parece aproximar -se da raça negra; quanto à largura do nariz, à altura da órbita,
ao comprimento do palato e ao índice nasal, ela parece mais próxima dos povos
germânicos; assim, os negadenses pré -dinásticos provavelmente se asse melhavam,
quanto a algumas de suas características, aos negros e, quanto a outras, às raças
brancas” (pp. 402 -3).
3
Origem dos antigos egípcios
É importante observar que os índices nasais dos etíopes e dos dravidianos os
aproximariam dos povos germânicos, embora ambos pertençam a raças negras.
Essas medidas que deixariam abertas alternativas possíveis entre os dois
extremos, representados pelas raças negra e germânica – dão uma ideia da elas-
ticidade dos critérios empregados. Eis um exemplo:
Tentando determinar com maior precisão a importância do elemento negroide nas
séries de crânios de El-Amra, Abidos e Hou, Thomson e Randall MacIver dividiram-
-nos em três grupos: 1. crânios negroides (aqueles com índice facial abaixo de 54
e índice nasal acima de 50, isto é, face curta e larga e nariz largo); 2. crânios não-
-negroides (índice facial acima de 54 e índice nasal abaixo de 50, face comprida e
estreita e nariz estreito); 3. crânios intermediários (podem ser atribuídos a indivíduos
dos dois primeiros grupos, com base no índice facial ou nas evidências referentes ao
índice nasal, e ainda a indivíduos marginais a ambos os grupos). A proporção de
negroides no início do período pré -dinástico parece ter sido de 24% de homens e 19%
de mulheres, e, no final desse mesmo período, de 25% de homens e 28% de mulheres.
Kieth contestou o valor dos critérios utilizados por Thomson e Randall MacIver
para distinguir os crânios negroides dos não -negroides. Sua opinião é de que, se os
mesmos critérios fossem aplicados para estudar qualquer série de crânios ingleses
contemporâneos, a amostra conteria aproximadamente 30% de tipos negroides” (pp.
420 -1).
Pode -se afirmar também o reverso da proposição de Kieth, isto é, que, se
o critério fosse aplicado aos 140 milhões de negros que hoje vivem na África
negra, no mínimo 100 milhões deles apareceriam “branqueados”.
Deve -se enfatizar também que a distinção entre negroides”, “não -negroides”
e intermediários” não é clara: não -negroide” não significa de raça branca, e
“intermediário”, muito menos.
“Falkenburger retomou o estudo antropológico da população egípcia num trabalho
recente, no qual analisa 1787 crânios masculinos do período que se estende desde o
P-Dinástico Antigo até nossos dias. Ele distingue quatro grupos principais (p. 421).
A classificação dos crânios pré -dinásticos nesses quatro grupos dá, para o
total do período pré -dinástico, os seguintes resultados: “36% de negroides, 33%
de mediterrânicos, 11 % de cro -magnoides e 20% de indivíduos que não se
enquadram em nenhum desses grupos, mas se aproximam dos cro -magnoides
ou dos negroides”.
4
África Antiga
A proporção de negroides é definitivamente mais alta do que a sugerida
por Thomson e Randall MacIver, a qual, no entanto, Kieth considera muito
elevada.
“Os números de Falkenburger refletem a realidade? Não é nossa tarefa decidir. Se
estiverem corretos, a população pré -dinástica, longe de representar uma raça pura,
como disse Elliot -Smith, compreendia pelo menos três elementos raciais distintos:
mais de um terço de negroides, um terço de mediterrânicos, um décimo de cro-
-magnoides e um quinto de indivíduos mestiços em vários graus” (p. 422).
O fundamental em todas essas conclusões é que, a despeito das discrepân-
cias que apresentam, o seu grau de convergência prova que a base da população
egípcia no período pré -dinástico era negra. Assim, todas elas são incompatí-
veis com a teoria de que o elemento negro se infiltrou no Egito em período
tardio. Pelo contrio, os fatos provam que o elemento negro era preponde-
rante do princípio ao fim da história egípcia, particularmente se observarmos,
uma vez mais, que mediterrânico” não é sinônimo de “branco”; estaria mais
próximo da raça morena ou mediternica” de Elliot -Smith. Elliot -Smith
classifica esses protoegípcios como um ramo do que ele chama raça morena,
que corresponde à ‘raça mediterrânica ou euro -africana’ de Sergi (p. 418). O
termo “moreno” neste contexto refere -se à cor da pele e é simplesmente um
eufemismo de negro
3
.
Assim, fica evidente que toda a população egípcia era negra, com exceção de
uma infiltração de nômades brancos no período protodinástico.
O estudo de Petrie sobre a raça egípcia revela um elemento classificatório
possível muito fecundo, que não deixará de surpreender o leitor.
“Petrie (...) publicou um estudo sobre as raças do Egito nos períodos pré -dinástico
e proto -dinástico, trabalhando apenas com representações. Além da raça esteatopí-
gica, distinguiu seis diferentes tipos: um tipo aquilino, representante de uma raça
líbia de pele branca; um tipo com barba trançada’, pertencente a uma raça invasora,
vinda provavelmente das costas do mar Vermelho; um tipo ‘com nariz pontudo’,
proveniente, sem dúvida, do deserto arábico; um tipo ‘com nariz reto’, do Médio
Egito; um tipo ‘com barba protuberante’, do Baixo Egito; e um tipo ‘com nariz fino’,
do Alto Egito. Segundo as representações, teriam assim existido sete tipos raciais
diferentes no Egito durante os períodos que estamos considerando. Nas páginas
3 Pelo método descrito, pode -se avançar o estudo da pigmentação dessa raça. De fato, ELLIOT -SMITH
muitas vezes encontrou fragmentos de pele nos corpos datando de épocas em que os métodos de
mumicação que causavam a deterioração da pele ainda não estavam em uso.
5
Origem dos antigos egípcios
seguintes, veremos que o estudo dos esqueletos parece conferir pouca validade a
essas conclusões” (p. 391).
Esse modo de classificação dá uma ideia da natureza arbitrária dos critérios
utilizados para definir as raças egípcias. Seja como for, é evidente que a antro-
pologia está longe de ter estabelecido a existência de uma raça egípcia branca e,
pelo contrário, tenderia a sugerir o oposto.
Nos manuais de maior divulgação, entretanto, a questão é suprimida: na
maioria dos casos, afirma -se simples e claramente que os egípcios eram brancos,
e o leigo fica com a impressão de que uma afirmação desse tipo deve necessaria-
mente ter como base uma sólida pesquisa anterior. Mas, conforme se mostrou
neste capítulo, essa pesquisa não existe. E, assim, gerações após gerações foram
enganadas. Muitas autoridades no assunto contornam a dificuldade falando em
brancos de pele vermelha e brancos de pele negra, sem que por isso se abale o
seu senso de lógica.
“Os gregos chamam a África de Líbia, um nome equivocado ab initio, pois a África
contém muitos outros povos além dos assim chamados líbios, que estão entre os
brancos da periferia setentrional ou mediterrânica e, portanto, muito afastados dos
brancos de pele morena (ou vermelha) – os egípcios.”
4
Num livro didático destinado ao curso colegial, encontramos a seguinte
frase: “Um negro se distingue menos pela cor da pele (pois existem brancos
de pele negra) do que por suas feições: lábios grossos, nariz chato ...”
5
. Ape-
nas com tais distorções das definições básicas é que se pôde branquear a ra
egípcia.
É importante ter em mente os exageros dos teóricos da antropossociologia
do século passado e do começo deste século, que, em suas microanálises fisio-
nômicas, descobriram estratificações raciais até mesmo na Europa, e particu-
larmente na França, onde, na verdade, havia um único povo, hoje praticamente
homogêneo
6
. Atualmente, os ocidentais que valorizam sua coesão nacional evi-
4 PEDRALS, D. P. de 1950, p. 6.
5 GEOGRAPHIE. Classe de 5.
a
. 1950.
6 Em seu Lutte des races (1883), L. GUMPLOVICZ arma que as diferentes classes que formam um
povo sempre representam diferentes raças, das quais uma estabeleceu sua dominação sobre as outras
através da conquista. G. de LAPOUGE, em um artigo publicado em 1897, postula nada menos do que
doze “leis fundamentais da antropossociologia”, das quais podemos citar algumas que são típicas: a “lei
da distribuição da riqueza postula que, em países de população mista alpino -europeia, a riqueza cresce
em proporção inversa ao índice cefálico; a “lei dos índices urbanos”, destacada por AMMON e ligada à
pesquisa que realizou entre os prisioneiros de Badener, arma que a frequência de dolicocefalia entre os
habitantes das cidades é maior do que entre os habitantes da zona rural adjacente; a lei da estraticação
6
África Antiga
tam zelosamente examinar suas próprias sociedades sob a luz de hipóteses tão
divisionistas, mas continuam, irrefletidamente, a aplicar os velhos métodos às
sociedades não -europeias.
As representações humanas do período proto ‑histórico:
seu valor antropológico
O estudo das representações humanas realizado por Flinders Petrie, num
outro plano, demonstra que o tipo étnico era negro: de acordo com Petrie, esses
povos eram os Anu, cujo nome, que conhecemos desde a época proto -histórica,
era sempre “escrito” com três pilares, nas poucas inscrições subsistentes do final
do IV milênio antes da Era Cristã. Os nativos do país são sempre represen-
tados com inconfundíveis emblemas de chefia, que não encontramos entre as
raras representações das outras raças, cujos elementos aparecem todos como
estrangeiros servis, que chegaram ao vale por infiltração (cf. Tera Neter
7
e o rei
Escorpião, que Petrie reúne em um mesmo grupo: “O rei Escorpião pertencia
à raça anu,citada; além disso, adorava Min e Seti”)
8
.
Como veremos adiante, Min, assim como os principais deuses do Egito, era
chamado, na própria tradição egípcia,o Grande Negro”.
Depois de fazer um apanhado dos vários tipos humanos estrangeiros que
disputaram o vale com os negros nativos, Petrie descreve estes últimos, os Anu,
nos seguintes termos:
Além desses tipos, característicos do norte e do leste, existe a raça autóctone dos
Anu, ou Annu (escrito com três pilares), povo que constituiu parte dos habitantes da
época histórica. O assunto se complica e margem a dúvidas se incluirmos todos
os nomes escritos com um único pilar; mas, considerando apenas a palavra Annu,
escrita com três pilares, descobrimos que esse povo ocupava o sul do Egito e a Núbia;
o nome também é utilizado no Sinai e na Líbia. Quanto aos habitantes meridionais
foi formulada nos seguintes termos:em cada localidade, o índice cefálico é tanto menor, e a proporção
de dolicocefalia tanto maior, quanto mais alta é a classe social”. Em seu Séléctions Sociales, o mesmo
escritor não hesita em armar que a classe dominante no período feudal pertence quase exclusivamente à
variedade Homo europaeus, de maneira que não é por mero acaso que os pobres ocupam as baixas posições
na escala social, mas por sua inferioridade congênita”.
Vemos, portanto, que o racismo alemão não inventou nada de novo quando Alfred Rosenberg armou
que a Revolução Francesa deve ser considerada como uma revolta dos braquicéfalos de matriz racial
alpina contra os dolicocéfalos de raça nórdica.” CUVILLIER, A. p. 155.
7 PETRIE, W. M. F. 1939, Fig. 1.
8 Id., ibid., p. 69.
7
Origem dos antigos egípcios
F . Representação proto -histórica de Tera -Neter, um nobre
negro da raça dos Anu, primeiros habitantes do Egito. (Fonte: C. A. Diop.
Antériorité des Civilisations Nègres: Mythe ou Realité Historique?”. Paris,
Présence Africaine, 1967. pr. XIV.)
F. Estatuetas pré -dinásticas. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. LVI (4).)
8
África Antiga
do Egito, temos o documento essencial: um retrato do chefe Tera Neter, rudemente
modelado em relevo em faiança verde vitrificada, encontrado no mais antigo templo
de Abidos. O endereço precede o nome, nesse primitivo cartão de visita: ‘Palácio dos
Anu na cidade de Hemen, Tera Neter’. Hemen era o nome do deus de Tuphium.
Erment, do lado oposto, era o palácio dos Anu do Sul, Annu Menti. A próxima
localidade ao sul é Aunti (Gefeleyn) e, depois, Aunyt -Seni (Esna)”
9
.
Amélineau arrola, em ordem geográfica, as cidades fortificadas construídas
ao longo do vale do Nilo pelos negros anu.
= Ant (Esna)
ou = An = “On do Sul (hoje Hermonthis)
= Denderah, tradicionalmente, a cidade natal de Ísis
= Uma cidade também chamada “On”, no nomo de Tínis
ou = A cidade chamada On do Norte, a lebre Heliópolis
O ancestral comum dos Anu estabelecidos ao longo do Nilo era Ani ou An,
nome determinado pela palavra
(khet), o qual, desde as primeiras versões do
Livro dos Mortos, é atribuído ao deus Osíris.
A esposa de
, o deus Ani, é a deusa Anet ,que é também sua
irmã, da mesma forma que Ísis é irmã de Osíris.
A identidade do deus An com Osíris foi demonstrada por Pleyte
10
; devemos
lembrar que Osíris é também cognominado o Anu: “Osíris Ani”. O deus Anu é
representado ora pelo símbolo
, ora pelo símbolo . As tribos Anuak, que hoje
habitam o Nilo superior, teriam alguma relação com os antigos Anu? Pesquisas
futuras trarão resposta a esta questão.
Petrie acredita ser possível distinguir entre o povo pré -dinástico, represen-
tado por Tera Neter e pelo rei Escorpião (que, já nessa época, é um faraó, como
mostram os enfeites em sua cabeça) e um povo dinástico, que adorava o falcão e
que provavelmente é representado pelos faraós Narmer
11
, Khasekhem, Sanekhei
e Zoser
12
. Observando -se os rostos reproduzidos na ilustração, percebe -se facil-
9 Id., ibid., p. 68.
10 AMÉLINEAU, E., 1908, p. 174.
11 Fig. 19.
12 Fig. 20.
9
Origem dos antigos egípcios
mente que não existem diferenças étnicas entre os dois grupos e que ambos
pertencem à raça negra.
O mural da tumba SD 63 (Sequence Date 63) de Hieracômpolis mostra os
negros nativos subjugando os invasores estrangeiros, se aceitarmos a interpre-
tação de Petrie: Abaixo, temos a embarcação negra em Hieracômpolis, perten-
cente aos homens negros, que aparecem subjugando os homens vermelhos”
13
.
O cabo de faca de Djebel el -Arak também mostra cenas de batalhas similares:
“Há também combates em que homens negros dominam homens vermelhos”
14
.
Entretanto, o valor arqueológico desse objeto, que não foi encontrado in situ,
mas em poder de um mercador, é menor do que o dos itens anteriores.
O que expusemos acima mostra que as representações dos homens do perí-
odo proto -histórico, e mesmo do período dinástico, são absolutamente incom-
patíveis com a ideia de raça egípcia difundida entre os antropólogos ocidentais.
Onde quer que o tipo racial autóctone esteja representado com alguma clareza,
ele é nitidamente negroide. Em parte alguma elementos indo-europeus ou semi-
tas são representados como homens livres, nem mesmo como cidadãos comuns
a serviço de um chefe local. Eles aparecem invariavelmente como estrangeiros
submetidos. As raras representações encontradas trazem sempre marcas inequí-
vocas de cativeiro: mãos atadas atrás das costas ou amar radas sobre os ombros
15
.
Uma estatueta protodinástica representa um prisioneiro indo -europeu com uma
longa trança, de joelhos e as mãos atadas ao corpo. As características do próprio
objeto mostram que ele devia ser o de um móvel e representava uma raça con-
quistada
16
. A representação é, com frequência, deliberadamente grotesca, como
ocorre com outras figuras protodinásticas, mostrando indivíduos com o cabelo
trançado à maneira que Petrie denomina rabo de porco (pigtail). Na tumba do
rei Ka (I dinastia), em Abidos, Petrie encontrou uma plaqueta representando um
indo -europeu cativo, acorrentado, com as mãos atrás das costas. Elliot -Smith
acha que o indivíduo representado é um semita
17
.
A época dinástica forneceu também os documentos reproduzidos nas figuras
4 e 5 das páginas 49 e 50, que mostram prisioneiros indo -europeus e semitas.
Em contraposição, as feições tipicamente negroides dos faraós Narmer, I dinas-
13 PETRIE, W. M. F. 1939, p. 67.
14 Fig. 3.
15 Fig. 4.
16 Fig. 18.
17 Fig. 6. Não ignoro que “indo -europeu” geralmente designa uma língua, não uma raça, mas prero esse
termo a “ariano”, nos contextos em que não suscitar confusões.
10
África Antiga
tia, fundador da linhagem faraônica, Zoser, III dinastia, em cuja época todos os
elementos tecnológicos da civilização egípcia eram evidentes, Quéops, o cons-
trutor da Grande Pirâmide, um tipo característico da região da atual República
de Camarões
18
, Mentuhotep, fundador da XI dinastia, negro retinto
19
, Sesóstris
I, a rainha Amósis Nefertári, e Amenófis I mostram que todas as classes da
sociedade egípcia pertencem à mesma raça negra.
As figuras de 11 a 15 foram incluídas deliberadamente para contrastar tipos
semitas e indo -europeus com as fisionomias bastante diferentes dos faraós
negros e para mostrar claramente que não traço de nenhum dos dois pri-
meiros tipos na linhagem dos faraós, se excluirmos as dinastias estrangeiras
(líbias e ptolomaicas).
É comum contraporem -se as negras da tumba de Horemheb ao tipo egípcio
também representado. Na verdade, essa contraposição é falsa: é social e não
étnica; há tanta diferença entre uma aristocrata senegalesa de Dacar e as cam-
ponesas da África antiga, de mãos calejadas e pés angulosos, quanto entre estas
últimas e uma senhora egípcia das cidades da Antiguidade.
Existem duas variantes da raça negra:
y os negros de cabelos lisos, representados na Ásia pelos dravidianos e, na
África, pelos núbios e os tubbou ou Tedda, todos com pele negro -azeviche;
y os negros de cabelo crespo das regiões equatoriais.
Os dois tipos entraram na composição da população egípcia.
Teste de dosagem de melanina
Na prática, é possível determinar diretamente a cor da pele, e, portanto, a
filiação étnica dos antigos egípcios, através de análises microscópicas de labo-
ratório; duvido que a perspicácia dos pesquisadores que se dedicaram à questão
tenha ignorado essa possibilidade.
A melanina, substância química responsável pela pigmentação da pele, é,
geralmente, insolúvel e preserva -se por milhões de anos na pele dos animais
sseis
20
. Portanto razões de sobra para que seja facilmente encontrada na
pele das múmias egípcias, apesar da lenda persistente segundo a qual a pele
18 Fig. 7.
19 Fig. 8.
20 NlCOLAUS, R. A. p. 11.
11
Origem dos antigos egípcios
das mias, tingida pelo material de embalsamamento, já não é suscevel
de qualquer análise
21
. Embora a melanina se localize principalmente na pele,
os melacitos que penetraram a derme no vel da epiderme, mesmo onde
esta última tenha sido praticamente destruída pelos materiais de embalsama-
mento, indicam um nível de melanina inexistente nas ras de pele branca.
As amostras que eu mesmo analisei foram colhidas no laboratório de antro-
pologia física no Museu do Homem, em Paris, das múmias provenientes
das escavões de Marietta, no Egito
22
. O mesmo método é perfeitamente
utilizável para as múmias reais de Tutmés III, Séti I e Ramsés II, do Museu
do Cairo, que eso em excelente estado de conservação. dois anos tenho
pedido em o ao curador do Museu do Cairo amostras similares para
análise. Não seriam necesrios mais do que alguns mimetros quadrados de
pele para compor um espécime, com preparações de poucos µm de espessura
e clareadas com benzoato de etila. Elas podem ser estudadas à luz natural
ou sob luz ultravioleta, que torna os grãos de melanina fluorescentes. De
qualquer forma, queremos simplesmente afirmar que a avaliação do nível
de melanina atras de exames de microspio é um método de laboratório
que nos permite classificar os antigos epcios inquestionavelmente entre as
raças negras.
Medidas osteológicas
Dentre os critérios aceitos pela antropologia física para a classificão das
raças, o das medidas osteológicas (osteometria) talvez seja o menos engana-
dor (por oposão à craniometria) para distinguir um homem branco de um
negro. Também segundo esse critério, os egípcios pertencem às raças negras.
Tal estudo foi realizado pelo eminente bio alemão Lepsius, no final do
século XIX, e suas conclusões continuam válidas: os progressos metodológi-
cos subsequentes, no campo da antropologia física, não invalidaram em nada
aquilo que se conhece como “cânone de Lepsius”, que estabelece, em números
redondos, as proporções corporais do egípcio ideal, de braços curtos e tipo
físico negroide ou negrito
23
.
21 PETTIGREW, T. J. 1834, pp. 70 -1.
22 DIOP, C. A. 1977.
23 FONTANE, M. E. pp. 44 -5 (ver reprodução: T).
12
África Antiga
Grupos sanguíneos
É importante notar que, mesmo hoje, os egípcios, particularmente no Alto
Egito, pertencem ao mesmo Grupo B que as populações da África ocidental,
no litoral atlântico, e não ao Grupo A
2
, característico da raça branca antes de
qualquer miscigenação
24
. Seria interessante estudar a extensão da distribuição
do Grupo A
2
nas múmias egípcias, o que, aliás, é possível realizar mediante
as técnicas atuais.
A raça egípcia segundo os autores clássicos
da Antiguidade
Para os escritores gregos e latinos contemporâneos dos antigos egípcios, a
classificação sica desses últimos não colocava problemas: os egípcios eram
negros, de lábios grossos, cabelo crespo e pernas finas; será difícil ignorar ou
subestimar a concordância entre os testemunhos apresentados pelos autores com
referência a um fato físico tão evidente quanto a raça de um povo. Alguns dos
testemunhos que se seguem são contundentes.
(a) Heródoto,o pai da História”, -480 (?) a -425.
Com relação à origem dos Kolchu
25
, ele escreve:
“É, de fato, evidente que os colquídios são de raça egípcia ( ... ) muitos egípcios me
disseram que, em sua opinião, os colquídios eram descendentes dos soldados de
Sesóstris. Eu mesmo refleti muito a partir de dois indicadores: em primeiro lugar,
eles têm pele negra e cabelo crespo (na verdade, isso nada prova, porque outros povos
também os têm) e, em segundo lugar e este é um indicador mais consistente
os egípcios e os etíopes foram os únicos povos, de toda a humanidade, a praticar
a circuncisão desde tempos imemoriais. Os próprios fenícios e sírios da Palestina
reconhecem que aprenderam essa prática com os egípcios, enquanto os sírios do
24 MONTAGU, M. F. A. p. 337.
25 No século V antes da Era Cristã, quando Heródoto visitou o Egito, um povo de pele negra, os Kolchus,
ainda vivia na Cólquida, no litoral armênio do mar Negro, a leste do antigo porto de Trebizonda, cercado
por nações de pele branca.
Os estudiosos da Antiguidade caram intrigados quanto à origem deste povo, e Heródoto, em Euterpe,
o segundo livro de sua história do Egito, tenta provar que os Kolchu eram egípcios; daí a argumentação
citada. Heródoto, baseado nas estelas comemorativas erigidas por Sesóstris em países conquistados,
arma que esse monarca alcançara a Trácia e a Cítia, onde, ao que parece, as estelas ainda subsistiam no
tempo de Heródoto. (Livro II, 103.)
13
Origem dos antigos egípcios
rio Termodon e da região de Pathenios e seus vizinhos, os macrons, dizem tê-la
aprendido, recentemente, com os colquídios. Essas são as únicas raças que praticam
a circuncisão, e deve-se observar que a praticam da mesma maneira que os egípcios.
Quanto aos próprios egípcios e aos etíopes, eu não poderia afirmar quem ensinou a
quem essa prática, pois ela é, evidentemente, muito antiga entre eles. Quanto ao fato
de o costume ter sido aprendido através dos egípcios, uma outra prova significativa
para mim é o fato de que todos os fenícios que comerciam com a Grécia param de
tratar suas partes pudendas conforme a maneira egípcia e não submetem seus filhos
à circuncisão”
26
.
Heródoto retorna várias vezes ao caráter negroide dos egípcios, e a cada vez
o utiliza como dado de observação para discutir teses mais ou menos complexas.
Assim, para provar que o oráculo grego de Dodona, no Épiro, era de origem
egípcia, um de seus argumentos é o seguinte: “e, quando eles acrescentam que
a pomba era negra, dão a entender que a mulher era egípcia”
27
. As pombas em
questão na verdade, eram duas, de acordo com o texto simbolizam duas
mulheres egípcias, que se dizia terem sido trazidas de Tebas, no Egito, para
fundar oráculos respectivamente na Grécia (Dodona) e na Líbia (oásis de Júpi-
ter Amon). Heródoto não partilha da opinião de Anaxágoras segundo o qual
as enchentes do Nilo seriam causadas pelo degelo nas montanhas da Etiópia
28
.
Apoiava -se no fato de que na Etiópia não chove nem neva, “e o calor torna
os homens negros”
29
.
(b) Aristóteles, -384 a -322, cientista, filósofo e tutor de Alexandre, o Grande.
Num de seus trabalhos menores, Aristóteles tenta, com surpreendente inge-
nuidade, estabelecer uma correlação entre a natureza física e a natureza moral
dos seres vivos, e nos fornece evidências sobre a raça egípcio -etíope que confir-
mam o testemunho de Heródoto. Segundo Aristóteles,
Aqueles que o muito negros são covardes, como, por exemplo, os egípcios e os
etíopes. Mas os excessivamente brancos também são covardes, como podemos ver
pelo exemplo das mulheres; a coloração da coragem está entre o negro e o branco
30
.
26 HERÓDOTO. Livro II, 104. As mulheres egípcias submetiam-se também à excisão do clitóris, como
ocorre entre muitos povos da África negra. Cf. ESTRABÃO. Geograa. Livro XVII, cap. 1.
27 HERÓDOTO. Livro II, 57.
28 SÊNECA. Questões Naturais. Livro IV, 17.
29 HERÓDOTO. Livro II, 22.
30 ARISTÓTELES. Fisionomia, 6.
14
África Antiga
F . Cabo da faca de Dje
bel
el -Arak, Pré -Di
nástico Tardio. (Foto
Giraudon, Musée du Louvre.)
F . Cativos semitas do
tempo dos faraós. Rocha do Sinai.
(Fonte: C. A. Diop. 1967. pr.
LIX.)
15
Origem dos antigos egípcios
 . Cativos indo -europeus. (Fonte: C. A.
Diop. 1967. pr. LVIII (b).)
F . Cativo indo -europeu. (Fonte: C. A.
Diop. 1967. pr. LVIII (a).)
16
África Antiga
(c) Luciano, escritor grego, +125 (?) a +190.
O testemunho de Luciano é tão explícito quanto os de Heródoto e Aris-
tóteles. Ele apresenta dois gregos, Licino e Timolaus, que iniciam um diálogo:
Licino [descrevendo um jovem egípcio]:Este rapaz não é simplesmente preto; ele
tem lábios grossos e pernas muito finas (...) seu cabelo trançado atrás mostra que
não é um homem livre.
Timolaus: Mas no Egito esse é um sinal das pessoas muito bem -nascidas, Licino.
Todas as crianças nascidas livres trançam o cabelo até atingirem a idade adulta. Esse
é um costume exatamente oposto ao dos nossos ancestrais, que achavam conveniente,
para os velhos, prender o cabelo com um broche de ouro, para mantê -lo em ordem
31
.
(d) Apolodoro, século I antes da Era Cristã, filósofo grego.
“Egito conquistou o país dos homens de pés negros e chamou -o Egito, a
partir de seu próprio nome.”
32
(e) Ésquilo, -525(?) a -456, poeta trágico e criador da tragédia grega.
Em As Suplicantes, Dânaos, fugindo com suas filhas, as Danaides, e perse-
guido por seu irmão, Egito, e os filhos deste, os Egitíados, que querem desposar
suas primas à força, sobe em uma colina, olha para o mar e descreve nos seguin-
tes termos os Egitíados que remavam ao longe: Posso ver a tripulação, com seus
membros negros e suas túnicas brancas”
33
.
Uma descrão similar do tipo egípcio aparece novamente poucas linhas
abaixo, no verso 745.
(f) Aquiles Tácio de Alexandria.
Compara os guardadores de gado do Delta aos etíopes e explica que são
escuros, como mestiços.
(g) Estrabão, -58 a aproximadamente +25.
Estrabão visitou o Egito e quase todos os países do Império Romano. Con-
corda com a teoria de que os egípcios e os Kolchu são da mesma raça, mas sus-
tenta que as migrações para a Etiópia e Cólquida vieram apenas do Egito. “Os
egípcios estabeleceram -se na Etiópia e na Cólquida
34
. Não há qualquer dúvida
sobre a concepção de Estrabão a respeito da raça egípcia, pois ele procura, em
outra parte, explicar por que os egípcios são mais escuros do que os hindus,
31 LUCIANO. Navegações, parágrafos 2 -3.
32 APOLODORO. Livro II,A família de Ínacos”, parágrafos 3 e 4.
33 ÉSQUILO. As Suplicantes. versos 719 -720. Ver também verso 745.
34 ESTRABÃO. Geograa. Livro I, cap. 3, parágrafo 10.
17
Origem dos antigos egípcios
circunstância que permitiria a refutação, se necessário, de qualquer tentativa de
confundir “a raça hindu e a raça egípcia”.
(h) Diodoro da Sicília, aproximadamente -63 a +14, historiador grego e
contemporâneo de César Augusto.
Segundo Diodoro, provavelmente foi a Etiópia que colonizou o Egito (no
sentido ateniense do termo, significando que, devido à superpopulação, parte do
povo emigrou para o novo território).
Os etíopes dizem que os egípcios são uma de suas colônias
35
, que foi levada para o Egito
por Osíris. Eles afirmam que, no começo do mundo, o Egito era apenas um mar,
mas que o Nilo, transportando em suas enchentes grandes quantidades de limo da
Etiópia, terminou por colmatá -lo e tornou -o parte do continente (...). Acrescentam
que os egípcios receberam deles como de seus autores e ancestrais a maior parte de
suas leis”
36
.
(i) Diógenes Laércio.
Sobre Zenão, fundador da escola estoica (-333 a -261), Diógenes escreveu o
seguinte: “Zenão, filho de Mnaseas ou Demeas, era natural do Cício, em Chipre,
uma cidade grega que havia recebido alguns colonos fenícios”. Em seu Vidas,
Timóteo de Atenas descreve Zenão como tendo o pescoço torcido. Apolônio
de Tiro diz que ele era frágil, muito alto e negro, daí o fato, citado por Crisipo
no Primeiro Livro de seus Provérbios. de algumas pessoas o chamarem broto
de videira egípcio
37
.
(j) Amiano Marcelino, aproximadamente +330 a +400, historiador latino e
amigo do imperador Juliano.
Com ele, atingimos o ocaso do Império Romano e o fim da Antiguidade
clássica. Quase nove séculos se passaram entre o nascimento de Ésquilo e Heró-
doto e a morte de Amiano Marcelino, nove séculos durante os quais os egípcios,
em meio a um mar de raças brancas, se miscigenaram constantemente. Pode-
-se dizer sem exagero que, no Egito, uma casa em cada dez incluía um escravo
branco, asiático ou indo -europeu
38
.
35 Grifo meu.
36 DIODORO. História Universal. Livro III. A antiguidade da civilização etíope é atestada pelo mais antigo
e respeitado escritor grego, Homero, tanto na Ilíada como na Odisseia:
“Hoje, Júpiter, seguido por todos os deuses, recebe os sacrifícios dos etíopes” (Ilíada. I, 422).
“Ontem, Júpiter transportou -se para a beira do oceano, para visitar a santa Etiópia.” (Ilíada. I, 423).
37 DIÓGENES LAÉRCIO. Livro VII, I.
38 Os notáveis do Egito gostavam de ter uma escrava síria ou cretense em seus haréns.
18
África Antiga
É notável que, apesar de sua intensidade, a miscigenação não tenha alterado
significativamente as constantes raciais. De fato, Amiano Marcelino escreve:
“... a maior parte dos homens do Egito são morenos ou negros, com uma
aparência descarnada”
39
. Ele tamm confirma o depoimento citado sobre
os Kolchu: Além destas terras esa tria dos Camarita
40
, e o Fásis, com
sua correnteza veloz, banha o país dos Kolchu, uma antiga raça de origem
egípcia”
41
.
Esta rápida revisão dos testemunhos apresentados pelos antigos escritores
greco -latinos sobre a raça egípcia mostra que o grau de concordância entre eles
é impressionante, constituindo um fato objetivo difícil de subestimar ou ocultar.
A moderna egiptologia oscila constantemente entre esses dois pólos.
Foge à regra o testemunho de um cientista honesto, Volney, que viajou pelo
Egito entre 1783 e 1785 isto é, em pleno período da escravidão negra e
fez as seguintes observações sobre os coptas (representantes da verdadeira raça
egípcia, aquela que produziu os faraós).
Todos eles têm faces balofas, olhos inchados e lábios grossos, em uma palavra,
rostos realmente mulatos. Fiquei tentado a atribuir essas características ao clima,
até que, visitando a Esfinge e olhando para ela, percebi a pista para a solução do
enigma. Completando essa cabeça, cujos traços são todos caracteristicamente negros,
lembrei -me da conhecida passagem de Heródoto: ‘De minha parte, considero os
Kolchu uma colônia do Egito porque, como os egípcios, eles têm a pele negra e
o cabelo crespo’. Em outras palavras, os antigos egípcios eram verdadeiramente
negros, da mesma matriz racial que os povos autóctones da África; a partir desse
dado, pode -se explicar como a raça egípcia, depois de alguns séculos de miscigenação
com sangue romano e grego, perdeu a coloração original completamente negra, mas
reteve a marca de sua configuração. É mesmo possível aplicar essa observação de
maneira ampla, e afirmar, em princípio, que a fisionomia é uma espécie de docu-
mento, utilizável em muitos casos para discutir ou elucidar os indícios da história
sobre a origem dos povos...”
Depois de ilustrar esta proposição com o caso dos normandos, que, nove-
centos anos depois da conquista da Normandia, ainda se assemelham aos dina-
marqueses, Volney acrescenta:
39 AMIANO MARCELINO. Livro
XXII,
parágrafo
16 (23).
40 Bandos de piratas que usavam pequenas embarcações denominadas
Camare.
41 AMIANO MARCELINO. Livro
XXIII,
parágrafo
8 (24).
19
Origem dos antigos egípcios
 . Quéops, faraó da IV dinastia, construtor da Grande Pirâmide. (Fonte: C. 1967. pr. XVIII.)
20
África Antiga
F . Faraó Mentuhotep I. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. XXII.)
21
Origem dos antigos egípcios
“Mas, voltando ao Egito, sua contribuição para a história fornece muitos temas
para a reflexão filosófica. Que temas importantes para meditação: a atual barbárie
e ignorância dos coptas, considerados como tendo nascido do gênio dos egípcios e
dos gregos; o fato de esta raça de negros, que hoje são escravos e objeto de nosso
menosprezo, ser a mesma a quem devemos nossa arte, nossas ciências e mesmo o
uso da palavra escrita; e, finalmente, o fato de, entre os povos que pretendem ser
os maiores amigos da liberdade e da humanidade, ter -se sancionado a escravidão
mais bárbara e questionado se os negros teriam cérebros da mesma qualidade que
os cérebros dos brancos!”
42
A esse depoimento de Volney, Champollion -Figeac, irmão de Champollion,
o Jovem, iria responder nos seguintes termos: “Os dois traços físicos apresen-
tados pele negra e cabelo crespo não são suficientes para rotular uma raça
como negra, e a conclusão de Volney quanto à origem negra da antiga população
do Egito é nitidamente forçada e inadmissível”
43
.
Ser preto da cabeça aos pés e ter cabelo crespo não é suficiente para fazer de
um homem um negro! Isso nos mostra o tipo de argumentação capciosa a que a
egiptologia tem recorrido desde seu nascimento como ciência. Alguns estudiosos
sustentam que Volney estava tentando desviar a discussão para um plano filosó-
fico. Mas basta reler Volney: ele simplesmente faz inferências a partir de fatos
materiais brutos que se impõem como provas aos seus olhos e à sua consciência.
Os egípcios vistos por si mesmos
Não é perda de tempo conhecer o ponto de vista dos principais envolvidos.
Como os antigos egípcios viam a si mesmos? Em que categoria étnica se coloca-
vam? Como denominavam a si mesmos? A língua e a literatura que os egípcios
da época faraônica nos deixaram fornecem respostas explícitas a essas questões,
que os acadêmicos insistem em subestimar, distorcer e “interpretar”.
Os egípcios tinham apenas um termo para designar a si mesmos:
=
kmt ,= os negros” (literalmente)
44
. Esse é o termo mais forte existente na língua
faraônica para indicar a cor preta; assim, é escrito com um hieróglifo represen-
tando um pedaço de madeira com a ponta carbonizada, e não com escamas de
42 VOLNEY, M. C. F. Voyages en Syrie et en Egypte. Paris, 1787. v. I, pp. 74 -7.
43 CHAMPOLLlON -FIGEAC, J. J. 1839, pp. 26 -7.
44 Essa importante descoberta foi realizada, do lado africano, por Sossou Nsougan, que deveria compilar
esta parte do capítulo. Para o sentido da palavra, ver Wörterbuch der Aegyptischen Sprache, Berlim, 1971.
v. 5, pp. 122, 127.
22
África Antiga
crocodilo
45
. Essa palavra é a origem etimológica da conhecida raiz kamit, que
proliferou na moderna literatura antropológica. Dela deriva, provavelmente, a
raiz bíblica kam. Portanto foi necessário distorcer os fatos para fazer com que
essa raiz atualmente signifique branco” em egiptologia, enquanto, na língua-
-mãe faraônica de que nasceu, significava “preto -carvão”.
Na língua egípcia, o coletivo se forma a partir de um adjetivo ou de um
substantivo, colocado no feminino singular. Assim, kmt, do adjetivo
=
km = preto, significa rigorosamente “negros”, ou, pelo menos,homens pretos”.
O termo é um coletivo que descrevia, portanto, o conjunto do povo do Egito
faraônico como um povo negro.
Em outras palavras, no plano puramente gramatical, quando, na língua fara-
ônica, se deseja indicar negros”, não se pode usar nenhuma outra palavra senão
a que os egípcios usavam para designar a si mesmos. Além disso, a língua nos
oferece um outro termo,
= kmtjw = os negros, os homens pretos
(literalmente) = os egípcios, opondo -se a “estrangeiros”, que vem da mesma
raiz, km, e que os egípcios também utilizavam para descrever a si mesmos como
um povo distinto de todos os povos estrangeiros
46
. Esses são os únicos adjetivos de
nacionalidade usados pelos egípcios para designarem a si mesmos, e ambos
significam negro ou “preto” na língua faraônica. Os acadêmicos raramente
os mencionam ou, quando o fazem, traduzem -nos por eufemismos, tais como
os egípcios”, nada dizendo sobre seu sentido etimológico
47
. Eles preferem a
expressão
= Rmt kmt = os homens do país dos homens negros ou
os homens do país negro.
Em egípcio, as palavras são normalmente seguidas de um determinante, indi-
cando seu sentido exato; para essa expressão particular, os egiptólogos sugerem
que
= km = preto e que a cor qualifica o determinante que o segue e que
significa país”. Assim, eles alegam que a tradução deveria ser a terra negra”,
a partir da cor do limo ou “o país negro”, e não “o país dos homens negros”,
como tenderíamos a interpretar hoje em dia, tendo em mente a África branca
e a África negra. Talvez estejam certos; mas, se aplicarmos essa regra rigorosa-
mente a
= kmit, seremos obrigados a admitir que aqui o adjetivo preto
qualifica o determinante, que significa todo o povo do Egito, representado pelos
dois símbolos de ‘homem é mulher’ e os três traços embaixo, designando plural”.
Assim, se é possível levantar alguma dúvida sobre a expressão
= kme, não é
45 Wörterbuch ... , p. 122.
46 Ibid., p. 128.
47
FAULKNER,
R. O. 1962,
p.
286.
23
Origem dos antigos egípcios
 . Ramsés II e um Batutsi moderno. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. XXXV.)
F . A Esnge, tal como foi encontrada pela primeira missão cientíca francesa no século XIX.
Presume -se que esse perl, tipicamente negroide, represente o faraó Khafre ou Quéfren (cerca de -2600, IV
dinastia), construtor da segunda pirâmide de Gisé. O perl não é nem helênico nem semita: é bantu. (Fonte:
C. A. Diop. 1967. pr. XIX.)
24
África Antiga
F ., ., . . Quatro tipos
indo -europeus (Zeus, Ptolomeu, Serápis, Traja -
no). Compare com os grupos egípcios II e III. É
possível fazer -se confusão? (Fonte: C. A. Diop.
1967. pr. LVII.)
F . Dois semitas. O tipo semita, assim
como o indo -europeu, inexiste na classe dominante
egípcia; ambos entravam no Egito apenas como
prisioneiros de guerra.
25
Origem dos antigos egípcios
possível fazê -lo no caso dos dois adjetivos de nacionalidade kmt e kmtjw,
a menos que se estejam escolhendo os argumentos sem nenhum critério.
É interessante notar que os antigos egípcios nunca tiveram a ideia de aplicar
esses qualificativos aos núbios e a outras populações da África, para distingui -las
deles mesmos, da mesma forma que um romano, no apogeu do Império, não
usaria um adjetivo de “cor para se distinguir dos germânicos da outra margem
do Danúbio, que eram da mesma matriz étnica mas se encontravam ainda num
estádio de desenvolvimento pré -histórico.
Nos dois casos, ambos os lados pertenciam ao mesmo universo, em termos de
antropologia física; portanto os termos usados para distingui -los relacionavam-
-se ao grau de Civilização ou tinham sentido moral. Para o romano civilizado,
os germânicos, da mesma matriz étnica, eram bárbaros. Os egípcios usavam
a expressão
= nahas para designar os núbios; e nahas
48
, em egípcio, é o
nome de um povo, sem conotação de cor. Trata -se de um equívoco deliberado
traduzi -lo como “negro”, como aparece em quase todas as publicações atuais.
Os epítetos divinos
Finalmente, preto ou negro é o epíteto divino invariavelmente utilizado para
designar os principais deuses benfeitores do Egito, enquanto os espíritos malé-
volos são qualificados como desrêt = vermelho. Sabemos que, entre os africanos,
esse termo se aplica às nações brancas; é quase certo que isso seja verdade tam-
bém para o Egito mas, neste capítulo, quero ater -me ao plano dos fatos menos
sujeitos a controvérsias.
Os deuses recebiam os seguintes epítetos:
= kmwr = o “Grande Negro para Osíris
49
;
= km = negro + o nome do deus
50
;
= kmt = negro + o nome da deusa
51
.
48 Wörterbuch ,
p.
128.
49 Ibid., p. 124.
50 Ibid.,
p.
125.
51 Ibid.,
p.
123.
26
África Antiga
O qualificativo km (negro), , é aplicado a Hátor, Ápis, Min, Tot, etc.
setkmt = a mulher negra = Ísis
52
. Por outro lado, seth, o deserto
estéril, é qualificado pelo termo dest = vermelho
53
. Os animais selvagens,
que Hórus combateu para criar a civilização, são qualificados como desrêt =
vermelhos, especialmente o hipopótamo
54
. Analogamente, os seres malévolos
expulsos por Tot são des =
= desrtjw = os vermelhos. Esse termo é o
inverso gramatical de Kmtjw, e sua constrão segue a mesma regra que a da
formação de nisbés.
Testemunho da Bíblia
A Bíblia nos diz: “... os filhos de Cam [foram] Cush, e Mizraim (isto é,
Egito), e Fut, e Canaã. E os filhos de Cush, Saba, e Hevila, e Sabata, e Regna,
e Sabataca”
55
.
De maneira geral, toda a tradição semítica (judaica e árabe) classifica o antigo
Egito entre os países dos negros.
A importância desses depoimentos não pode ser ignorada, porque os judeus
eram povos que viviam lado a lado com os antigos egípcios e, algumas vezes, em
simbiose com estes, e nada tinham a ganhar apresentando uma falsa imagem
étnica dos mesmos. Da mesma forma, neste caso não se sustenta a noção de
uma interpretação errônea dos fatos
56
.
Dados culturais
Dentre os inúmeros traços culturais idênticos documentados no Egito e
na África negra dos nossos dias, vamos referir -nos apenas à circuncisão e ao
totemismo.
Segundo o excerto de Heródoto citado anteriormente, a circuncisão é de
origem africana. A arqueologia confirmou a opinião do Pai da História: Elliot-
-Smith pôde comprovar, a partir do exame de múmias bem conservadas, que a
52 Note -se que set
=
kem
=
esposa negra em walaf. Wörterbuch ... , p. 492.
53 Wörterbuch ... ,
p.
493.
54 Desrêt
=
sangue, em egípcio; deret
=
sangue, em walaf. Ibid., p. 494.
55 Gênesis, 10: 6 -7.
56
DIOP,
C. A., 1955, pp. 33 et seqs.
27
Origem dos antigos egípcios
circuncisão era praticada, entre os egípcios, em tempos que remontam à era
proto -histórica
57
, isto é, a antes de - 4000.
O totemismo egípcio manteve sua vitalidade até o período romano
58
, e Plu-
tarco também o menciona. As pesquisas de Amélineau
59
, Loret, Moret e Adol-
phe Reinach demonstraram claramente a existência de um sistema totêmico no
Egito, refutando os defensores da tese da zoolatria.
“Se reduzirmos a noção de totem à de um fetiche, geralmente animal, representando
uma espécie com a qual a tribo acredita ter laços especiais, renovados periodicamente,
e que é carregado para a batalha como um estandarte; se aceitarmos essa definição de
totem, mínima mas adequada, pode -se dizer que não outro país onde o totemismo
tenha tido um reinado mais brilhante do que no Egito, e nenhum outro lugar onde
ele possa ser mais bem estudado
60
.
Anidade linguística
O walaf
61
, língua senegalesa falada no extremo oeste da África, na costa
atlântica, é, talvez, tão próximo do egípcio antigo quanto o copta. Recentemente
foi feito um estudo exaustivo sobre essa questão
62
. Neste capítulo, apresentamos
apenas o suficiente para mostrar que o parentesco entre as línguas do antigo
Egito e as da África não é uma suposição, mas um fato demonstrável e impos-
sível de ser ignorado pelos círculos acadêmicos.
Como veremos, o parentesco é de natureza genealógica.
57
MASSOULARD,
E. 1949, p. 386.
58
JUVENAL.
Sátiras, XV, v. 1 -14.
59
AMÉLINEAU,
E. Op.
cit.
60
REINACH, A.
1913,
p.
17.
61 Grafa -se, frequentemente, wolof.
62
DIOP,
C. A. 1977
(a).
28
África Antiga
F . Estrangeiro. (Fonte: C.
A. Diop. 1967. pr. LVIII (1).)
F .
Fechadura de porta,
de Hieracâmpolis. I dinastia egípcia.
(Fonte: University Museum, Phila-
delphia.)
F. Prisioneiro líbio. (Fonte:
C. A. Diop, 1967. pr. LVI (2).)
29
Origem dos antigos egípcios
F . Um faraó da I dinastia egípcia. Segundo J. Pirenne,
tratar -se -ia de Narmer, o primeiro farda História. (Fonte: C. A.
Diop. 1967. pr. XVI.)
F .  direita) Zoser, típico negro, faraó da III dinastia,
inaugurou a grande era da arquitetura em pedra revestida: a pirâmide
em degraus e o complexo funerário em Sacará. Em seu reinado,
todas as características tecnológícas da civilização egípcia já estavam
desenvolvidas. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. XVII.)
30
África Antiga
Verbos
Egípcio
= kef = agar-
rar, pegar, despojar
(de alguma coisa)
63
Copta
(dialeto saídico)
keh = domesticar
64
Walaf
kef = apa-
nhar uma presa
63 LAMBERT, R. 1925, p. 129.
64 MALLON, A. pp. 207-34.
65 BUCK, A. de. 1952.
66 Id.
67 MALLON, A. pp. 207-34.
PRESENTE
kef i
kef ek
kef et
kef ef
kef es
kef n
kef ton
kef sen
65
PASSADO
kef ni
kef (o) nek
kef (o) net
kef (o) nef
kef (o) nes
kef (o) nen
kef (o) n ten
kef (o) n sen
66
PRESENTE
keh
kef ek
kef ere
kef ef
kef es
kef en
kef etetû
kef ey
PASSADO
kef nei
kef nek
kef nere
kef nef
kef nes
kef nen
kef netsten
kef ney
67
PRESENTE
kef na
kef nga
kef na
kef ef
}
na
kef es
kef nanu
kef ngen
kef nanu
PASSADO
kef (on) na
kef (on) nga
kef (on) na
kef (on) ef
}
na
kef (on) es
kef (on) nanu
kef (on) ngen
kef (on) naňu
Egípcio
= feh = partir
Walaf
feh = partir precipitadamente
Temos as seguintes correspondências entre as formas verbais, com identidade
ou semelhança de significados: todas as formas verbais egípcias, com exceção de
duas, também são encontradas no walaf.
EGÍPCIO
{
feh-ef
feh-es
{
feh-n-ef
feh-n-es
WALAF
{
feh-ef
feh-es
{
feh-ôn-ef
feh-ôn-es
31
Origem dos antigos egípcios
68 Por extensão, = amar intensamente (de onde, o verbo mar-maral), tal como a fêmea que lambe o lhote
que ela acabou de parir. Esse sentido não se opõe à ideia de um homem levando a mão à boca, que pode
ser evocada pelo determinativo.
feh -w
{
feh-w-ef
feh-w-es
{
feh-w-n-ef
feh-w-n-es
{
feh-in-ef
feh-in-es
EGÍPCIO
{
feh -t-ef
feh-t-es
{
feh-tyfy
feh-tysy
{
feh-tw-ef
feh-tw-es
feh-kw(i)
{
feh-n-tw-ef
feh-n-tw-es
{
feh-y-ef
feh-y-es
EGÍPCIO
= mer = amar
{
mer-ef
mer-es
{
mer-n-ef
mer-n-es
mer-w
{
mer-w-ef
mer-w-es
{
mer-w-n-f
mer-w-n-es
{
mer-in-ef
mer-in-es
{
mer-t-ef
mer-t-es
{
mer-tw-ef
mer-tw-es
feh -w
{
feh-w-ef
feh-w-es
{
feh-w-ôn-ef
feh-w-ôn-es
{
feh-il-ef
feh-il-es
WALAF
{
feh -t-ef
feh-t-es
{
feh-ati-fy
feh-at-ef
feh-at-es
{
mar-tw-ef
mar-tw-es
fahi-kw
{
feh-an-tw-ef
feh-an-tw-es
{
feh-y-ef
feh-y-es
WALAF
mar = lamber
68
{
mar-ef
mar-es
{
mar-ôn-ef
mar-ôn-es
mar-w
{
mar-w-ef
mar-w-es
{
mar-w-ôn-ef
mar-w-ôn-es
{
mar-il-ef
mar-il-es
{
mar-t-ef
mar-t-es
{
mar-tw-ef
mar-tw-es
32
África Antiga
{
mer-tyfy
mer-t-tysy
mer-kwi
{
mer-y-ef
mer-y-es
{
mer-n-tw-ef
mer-n-tw-es
{
mar-at-ef
mar-at-es
{
mar-aty-sy
mar-aty-sy
mari-kw
{
mar-y-ef
mar-y-es
{
mar-an-tw-ef
mar-an-tw-es
{
mar-tw-ôn-ef
mar-tw-ôn-es
Demonstrativos egípcios e walaf
Entre os demonstrativos egípcios e walaf existem as seguintes correspondências
fonéticas:
EGÍPCIO WALAF
= pw ep w
(ipw) bw p b
w w
= pwy p b
-
(ipw) bwy w w
y y
= pn
{
bané p b
-
(ipn) n n
balé p b
-
n l
69
= pf bafe p b
(ipf) f f
= pf3 bafa p b
-
f f
3 a
= pfy p b
-
(ipfy) bafy f f
y y
= p3 p b
3 â
= iptw batw p b
t t
w w
69 Veja, em seguida, a explicação desta importante lei.
33
Origem dos antigos egípcios
= iptn
{
batné
{
p b
{
t t
Batalé n n
n l
= iptf batafé p b
-
t t
f f
Essas correspondências fonéticas não podem ser atribdas a afinidades
elementares ou a leis gerais do espírito humano, visto tratar-se de correspondências
regulares, em pontos relevantes, que se estendem por todo o sistema: os
demonstrativos, nas duas línguas, e as formas verbais. Foi através da aplicação
de leis como essas que se tornou possível demonstrar a existência da família
linguística indo-europeia.
A comparação poderia ir ainda mais longe, mostrando que a maioria dos
fonemas se manm inalterados nas duas nguas. As poucas mudanças de
grande interesse são as seguintes:
(a) A correspondência n (E)
l (W)
EGÍPCIO WALAF
n l
= nad = perguntar lad = perguntar
= nah = proteger lah = proteger
= ben ben = jorrar bel bel = jorrar
= teni = envelhecer talé = importante
= tefnwt = a deusa nascida
{
tefnit = “cuspir” um ser humano
da saliva de Ra teit = saliva
tei = aquele que cospe
= nebt = trança
{
let = trança
nab = traar o cabelo temporariamente
(b) A correspondência h (E)
g (W)
EGÍPCIO WALAF
h g
= hen = falo gen = falo
= hwn = adolescente gwné
}
= adolescente
goné
= hor = Hórus gor = vir (varão?)
= hor gwn = o jovem Hórus gor gwné = homem jovem (m.ǎ.m)
34
África Antiga
Ainda é cedo para se falar com precisão sobre os acompanhamentos vocáli-
cos dos fonemas egípcios. Abre -se, porém, um caminho para a redescoberta do
vocalismo do antigo Egito a partir de estudos comparativos com outras línguas
da África.
Conclusão
A estrutura da realeza africana, em que o rei é morto, real ou simbolica-
mente, depois de um reinado de duração variável em torno de oito anos –,
lembra a cerimônia de regeneração do faraó, através da festa de Sed. Os ritos
de circuncisão mencionados, o totemismo, as cosmogonias, a arquitetura, os
instrumentos musicais, etc. também são reminiscências do Egito na cultura
da África Negra
70
. A Antiguidade egípcia é, para a cultura africana, o que é a
Antiguidade greco -romana para a cultura ocidental. A constituição de um corpus
de ciências humanas africanas deve ter isso como base.
Compreende -se como é difícil escrever um capítulo como este numa obra
deste gênero, na qual o eufemismo e a transigência, via de regra, prevalecem.
Por isso, na tentativa de evitar o sacrifício da verdade científica, insistimos na
realização de três sessões preliminares à preparação deste volume, o que foi
aceito na sessão plenária realizada em 1971
71
. As primeiras duas sessões leva-
ram à realização do simpósio do Cairo, de 28 de janeiro a 3 de fevereiro de
1974
72
. Gostaria de mencionar algumas passagens do relatório desse simpósio.
O professor Vercoutter, que fora encarregado pela Unesco de escrever o relatório
preliminar, reconheceu, depois de uma discussão exaustiva, que a ideia conven-
cional de que a população egípcia se dividia equitativamente em brancos, negros
e mestiços não podia ser mantida:
“O professor Vercoutter concordou que não se deve tentar estimar por-
centagens; elas nada significariam na medida em que não se dispõe de dados
estatísticos confiáveis para calculá -las”.
Sobre a cultura egípcia consta no relatório:
“O professor Vercoutter observou que, de seu ponto de vista, o Egito era
africano quanto à escrita, à cultura e à maneira de pensar”.
70 Ver DIOP, C. A. 1967.
71 Ver Unesco. Relatório Final da Primeira Sessão Plenária do Comitê Cientíco Internacional para a redação
de uma História Geral da África. 30 mar./8 abr. 1974.
72 Simpósio sobre “O povoamento do Antigo Egito e a decifração da escrita meroítica”. Cf. Unesco. Studies
and Documents, I, 1978.
35
Origem dos antigos egípcios
O professor Leclant, por sua vez, “reconheceu o mesmo caráter africano no
temperamento e maneira de pensar egípcios”.
Quanto à linguística, afirma -se no relatório que “este item, ao contrário dos
outros discutidos anteriormente, revelou um alto grau de concordância entre
os participantes. O relatório elaborado pelo professor Diop e o relatório do
professor Obenga foram considerados muito construtivos”.
Da mesma maneira, o simpósio rejeitou a ideia de que o egípcio faraônico
era uma língua semítica.
Abordando questões mais amplas, o professor Sauneron chamou a atenção para o
interesse do método sugerido pelo professor Obenga, seguindo o professor Diop. O
egípcio manteve -se como uma língua estável por um período de, pelo menos, 4500
anos. O Egito situa -se no ponto de convergências externas, e seria de se esperar,
portanto, que se fizessem empréstimos de outras línguas; mas as raízes semíticas se
reduzem a algumas centenas, para um total de muitos milhares de palavras. A língua
egípcia não pode ser isolada de seu contexto africano, e sua origem não pode ser
totalmente explicada a partir das línguas semíticas. Portanto é natural que se espere
encontrar na África línguas aparentadas ao egípcio”.
A relação genética – isto é, não acidental – entre o egípcio e as línguas afri-
canas foi reconhecida:
“O professor Sauneron observou que o método utilizado era muito interessante, uma
vez que a similaridade entre os sufixos dos pronomes da terceira pessoa do singular
no egípcio antigo e na língua walaf não poderia ser mera casualidade; ele espera que
se tente no egípcio antigo e na língua walaf reconstituir uma língua paleoafricana,
tomando como ponto de partida as línguas atuais”.
Na conclusão geral do relatório, afirmava -se:
A despeito das especificações constantes do texto preparatório distribuído pela
Unesco, nem todos os participantes prepararam comunicações comparáveis às dos
professores Cheikh Anta Diop e Obenga, meticulosamente elaboradas. Consequen-
temente, houve uma considerável falta de equilíbrio nas discussões”.
Assim, escreveu -se no Cairo uma nova página da historiografia africana. O
simpósio recomendou que se fizessem novos estudos sobre o conceito de raça.
Tais estudos têm sido realizados desde então, mas não trouxeram nada de novo
à discussão histórica. Dizem -nos que a biologia molecular e a genética reco-
nhecem apenas a existência de populações, e que o conceito de raça já não tem
qualquer significado. No entanto, sempre que aparece alguma questão sobre a
36
África Antiga
transmissão de doenças hereditárias, o conceito de raça, no sentido mais clássico
do termo, reaparece, pois a genética nos ensina que a anemia fauciforme ocorre
apenas entre os negros”. A verdade é que todos estes antropólogos” esquema-
tizaram em suas mentes as conclusões derivadas do triunfo da teoria monoge-
nética da humanidade, sem ousar dizê -lo explicitamente, pois, se a humanidade
teve origem na África, foi necessariamente negroide antes de se tornar branca
através de mutações e adaptações, no final da última glaciação na Europa, no
Paleolítico Superior. E agora compreen de -se muito melhor por que os negroi-
des grimaldianos ocuparam a Europa 10 mil anos antes do aparecimento do
Homem de Cro -Magnon, protótipo da raça branca (por volta de -20000).
O ponto de vista ideológico também é evidente em estudos aparentemente
objetivos. Na história e nas relações sociais, o fenótipo isto é, o indivíduo ou
o povo tais como são percebidos é o fator dominante, em oposição ao genó-
tipo. A genética atual nos autoriza a imaginar um Zulu com o “mesmo” genó-
tipo de Vorster. Isso significa que a história que testemunhamos colocará esses
dois fenótipos isto é, os dois indivíduos no mesmo nível em todas as suas
atividades nacionais e sociais? Certamente não a oposição continuará sendo
étnica, e não social. Este estudo torna necessário que se reescreva a história da
humanidade a partir de um ponto de vista mais científico, levando em conta o
componente negro -africano, que foi, por longo tempo, preponderante. Assim,
é, doravante, possível constituir um corpus de ciências humanas negro -africanas
apoiado em bases históricas sólidas, e não suspenso no ar. Finalmente, se é fato
que só a verdade é revolucionária, deve -se acrescentar que só um rapprochement
realizado com base na verdade será duradouro. Não se contribui para a causa do
progresso humano lançando um véu sobre os fatos.
A redescoberta do verdadeiro passado dos povos africanos não deverá ser
um fator de divisão, mas contribuir para uni -los, todos e cada um, estreitando
seus laços de norte a sul do continente, permitindo -lhes realizar, juntos, uma
nova missão histórica para o bem da humanidade, e isto em consonância com
os ideais da Unesco
73
.
73 Nota do coordenador: As opiniões expressas pelo Professor Cheikh Anta Diop neste capítulo são as
mesmas que ele apresentou e desenvolveu no simpósio da Unesco sobre “O povoamento do antigo
Egito”, realizado no Cairo, em 1974. Um sumário dos resul tados desse simpósio se encontra no nal
do capítulo. Os argumentos apresentados neste capítulo não foram aceitos por todos os especialistas
interessados no problema (Cf. Introdução, acima). Gamal Mokhtar
C A P Í T U L O 2
37
O Egito faraônico
O fim da era glacial na Europa provocou importantes modificações climáticas
nas terras situadas ao sul do Mediterrâneo. A diminuição do volume de chuvas
levou as populações nômades da África saariana a imigrarem para o vale do
Nilo à procura de suprimento permanente de água. Portanto é provável que
o primeiro povoamento efetivo do vale do Nilo tenha ocorrido no início do
Neolítico (por volta de -7000). Nessa época, os egípcios adotaram um modo
de vida pastoril e agrícola. Enquanto aperfeiçoavam seus instrumentos e armas
de pedra, inventaram ou acolheram a cerâmica, que viria a ser para nós
de grande utilidade na reconstituição de um quadro completo das diferentes
culturas egípcias durante o período neolítico
1
.
Pouco antes do período histórico, os egípcios aprenderam a utilizar os
metais
2
, ingressando assim no chamado período calcolítico (ou cuprolítico).
O metal aos poucos substituiu o sílex. O ouro e o cobre fizeram também sua
primeira aparição, embora o bronze não tenha sido empregado até o Médio
Império e, aparentemente, o uso do ferro não se tenha generalizado até o último
período da história faraônica.
1 Ver KI -ZERBO, J., coord. História Geral da África. o Paulo, Unescotica, 1982. v. I, Cap. 28,
Pré -história do vale do Nilo”.
2 Id., ibid., Cap. 28, “Descoberta e difusão dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais até o
século V antes da Era Cristã”.
O Egito faraônico
A. Abu Bakr
38
África Antiga
P-História
O Egito, situado na extremidade nordeste da África, é um país pequeno
se comparado ao imenso continente de que faz parte. Contudo, se originou
uma das mais importantes civilizações do mundo. A própria natureza dividiu o
país em duas partes diferenciadas: as estreitas faixas de terra fértil situadas ao
longo do Nilo, de Assuã até a região do atual Cairo, denominadas Alto Egito,
e o extenso triângulo formado no curso de milênios pelos depósitos de limo
do rio, que corre para o norte em direção ao Mediterrâneo, região denominada
Baixo Egito ou Delta.
O estabelecimento das primeiras populações não se deu sem dificuldade, e
deve ter havido uma disputa acirrada entre os diferentes grupos humanos pela
posse das terras situadas ao longo do Nilo e na região relativamente reduzida do
Delta. Somente os mais fortes e capazes teriam sobrevivido. Esses povos vindos
do leste, do oeste e do sul pertenciam, sem dúvida, a diversos grupos somáticos.
Não surpreende que de início os diferentes obstáculos naturais, acrescidos à
diversidade das origens, tenham isolado os grupos que se fixaram nos vários
territórios ao longo do vale. Pode -se atribuir a esses grupos a origem dos nomos,
que constituíram a base da estrutura política do Egito no período histórico.
No entanto, o Nilo proporcionava um meio de comunicação natural entre as
diferentes localidades situadas em suas margens, facilitando o desenvolvimento
da unidade linguística e cultural, que acabou por obscurecer as características
particulares de cada grupo.
A grande realização do período pré -histórico foi o controle da terra (ver
Introdução). Instalados inicialmente em afloramentos rochosos acima das
planícies de aluvião ou em áreas mais elevadas na orla do deserto, os primeiros
egípcios conseguiram clarear o terreno à sua volta tornando -o próprio ao cultivo,
drenar os pântanos e construir diques para servir de anteparo às enchentes.
Pouco a pouco, descobriram as vantagens da utilização dos canais de irrigação.
Tal empreendimento requeria um trabalho organizado em larga escala, o que
levou ao desenvolvimento de uma estrutura política local em cada província.
É possível que alguns fragmentos de textos da literatura primitiva
3
tenham
conservado a memória do desenvolvimento da unidade política no Egito. Parece
que em época remota os nomos do Delta estiveram organizados em coligações:
os nomos do oeste eram tradicionalmente ligados pelo culto ao deus Hórus,
3 Sobre os Textos das Pirâmides, ver a tradução inglesa de FAULKNER, R. O. 1969.
39
O Egito faraônico
ao passo que os do leste tinham por protetor comum o deus Andjty, senhor de
Djedu, que posteriormente foi absorvido por Osíris. Sugeriu -se que os nomos
do oeste teriam conquistado os do leste e formado um reino unido no Egito
setentrional. Desse modo, o culto de Hórus como deus supremo prevaleceu em
todo o Delta, propagando -se gradualmente até o Alto Egito e destronando Set,
o principal deus de uma coalizão de povos daquela região
4
.
O período Arcaico (-3200 a -2900)
O primeiro evento historicamente importante de que se tem notícia é a
união dos dois reinos pré -históricos, ou melhor, a sujeição do Baixo Egito pelo
soberano do Alto Egito, denominado Menés pela tradição (embora as fontes
arqueológicas o chamem Narmer). Foi ele o fundador da primeira das trinta
dinastias ou famílias governantes, em que o historiador egípcio Mâneton (-280)
dividiu a longa linhagem de soberanos até a época de Alexandre, o Grande. A
família de Menés residia em Tínis, no Alto Egito, o principal centro da província
que incluía a cidade sagrada de Abidos. Foi perto de Abidos, onde se situa o
santuário do deus Osíris, que Petrie exumou os imensos túmulos dos reis das
duas primeiras dinastias. Com certeza foi o reino meridional que impôs seu
domínio a todo país, tendo Narmer, logo após sua primeira vitória, instalado a
capital em Mênfis, próximo à fronteira entre as duas regiões
5
.
Os reis das duas primeiras dinastias do período arcaico (ver Capítulo 1) o
pouco conhecidos, e dificilmente se poderão obter maiores informações sobre os
acontecimentos de seus respectivos reinados. Todavia, não resta dúvida de que
esse período foi marcado por árduo esforço de consolidação. A cultura do final
do período pré -dinástico prevaleceu durante os trezentos anos posteriores à I
dinastia, mas com a consumação da unidade política, durante a III e IV dinastia,
o novo Estado adquire estabilidade o bastante. Isso se sob a forma de um novo
dogma, segundo o qual o rei egípcio era considerado sobre -humano, verdadeiro
deus a reinar sobre os homens. O dogma da divindade do faraó
6
, difícil de definir,
teria sido elaborado durante as primeiras dinastias com o objetivo de consolidar
um poder único sobre os dois territórios. Poder -se -ia dizer que a partir da III
dinastia o chefe do Estado não era um egípcio do norte ou do sul, mas um deus.
4 A referência básica para esta teoria, atualmente objeto de controvérsia, é SETHE, K. 1930.
5 Ver HAYES, W. C. 1965; CÉNIVAL, J. L. de. 1973.
6 Sobre o conceito da divindade do faraó, consultar POSENER, G. 1960.
40
África Antiga
 . O Nilo, da Terceira Catarata até o Mediterrâneo.
41
O Egito faraônico
 . Cronologia da história egípcia (todas as datas são anteriores à Era Cristã)
42
África Antiga
Segundo a teoria da realeza, o faraó encarnava o Estado e era responsável
por todas as atividades do país (ver Capítulo 3). Am disso, era o sumo
sacerdote de todos os deuses, servindo -os diariamente em cada um dos templos.
Obviamente, na prática, era -lhe impossível corresponder a tudo o que dele
se esperava. Necessitava de representantes para executar suas tarefas divinas:
ministros, funcionários nas províncias, generais no exército e sacerdotes nos
templos. Embora seu poder fosse teoricamente absoluto, ele não podia, de fato,
exer-lo livremente. Era ele a personificação de crenças e práticas muito antigas
que se desenvolveram progressivamente com o passar dos anos. Na realidade,
a vida dos reis era tão codificada que estes não podiam passear ou banhar -se
sem submeter -se ao cerimonial estabelecido para cada um desses atos, regulado
por ritos e obrigações. No entanto, sob suas coroas ricamente ornamentadas, os
faraós possuíam, é claro, uma dimensão humana: eram sensíveis ao amor e ao
ódio, à ambição e à desconfiança, à cólera e ao desejo. Durante toda a história
do antigo Egito, a arte e a literatura representaram o faraó segundo um ideal
estereotipado, sendo, contudo, notável que se tenha chegado a conhecer os reis
individualmente, como seres dotados de personalidade própria.
É sabido que as nões antigas tinham grande interesse pelas crenças
egípcias, e que os indivíduos que perdiam a fé nas crenças de seus antepassados
costumavam procurar os “sábios” do Egito. Uma certa veneração pela sabedoria
egípcia subsistiu até o desaparecimento das religiões politeístas. A exemplo de
outros povos contemporâneos, os egípcios do Neolítico acreditavam que seus
deuses se encontravam na natureza e que a Terra e o céu estavam povoados
de espíritos. Acreditavam que esses espíritos fixavam sua morada terrestre nos
animais, nas plantas ou em qualquer objeto notável por seu tamanho ou forma.
Com o passar do tempo, porém, deixaram de consi derar os animais ou os objetos
como deuses e gradualmente passaram a acreditar que se tratava da manifestação
visível ou da morada de uma força divina abstrata. O animal ou objeto escolhido
como a manifestação visível de um deus tanto podia ser um animal útil e amigo,
como a vaca, o carneiro, o cachorro ou o gato, quanto um animal selvagem e
temível, como o hipopótamo, o crocodilo ou a cobra. Em cada um desses casos,
os egípcios rendiam homenagem e ofereciam sacrifícios a um único espécime na
Terra. Adoravam a vaca, porém a abatiam para se abastecer de carne. Também
adoravam o crocodilo, mas o matavam para se defender.
Trata -se de deuses locais; cada um era deus supremo em seu próprio domínio
e senhor incontestável do território, com uma exceção: o deus local de uma
cidade em que o chefe de um grupo chegasse ao poder tinha precedência sobre
os demais. Se o chefe ascendesse ao trono e lograsse estabelecer ou consolidar
43
O Egito faraônico
a unificação dos reinos do sul e do norte, o deus local seria promovido a deus
oficial de todo o país.
Além disso, os primeiros egípcios viam foas divinas no Sol, na Lua,
nas estrelas, no céu e nas cheias do Nilo. Deviam temer suas manifestações
visíveis e impressionar -se com a influência que exerciam, pois os adoravam e
os consideravam deuses poderosos:ou Rê, o Sol, Nut, o céu, Nun, o oceano,
Shu, o ar, Geb, a Terra, e Hapi, a cheia
7
.
Essas divindades eram representadas sob forma humana ou animal, e seu culto
não se limitava a uma localidade específica. As deusas também desempenhavam
papel decisivo na religião, sendo objeto de grande veneração. Contudo seu número
provavelmente o excedia a doze, embora algumas, como Hátor, Ísis, Neith e
Bastet, não deixassem de ser importantes em todo o país. Via de regra, Hátor
era associada a Hórus, e Ísis, a Osíris; Neith era a deusa protetora da capital pré-
-histórica do Delta, e Bastet (a deusa -gata) alcançou grande popularidade após
a a II dinastia, no décimo oitavo nomo do Baixo Egito.
Em nenhuma outra nação antiga ou moderna, a ideia de uma vida após a
morte desempenhou papel tão importante e influenciou tanto a vida dos crentes
como no antigo Egito
8
. A crença no além foi sem dúvida favorecida e influenciada
pelas condições geográficas do Egito, onde a aridez do solo e o clima quente
asseguravam uma notável conservação dos corpos após a morte, o que deve ter
estimulado fortemente a convicção de que a vida continuava no além -túmulo.
No decorrer da história, os egípcios vieram a acreditar que seus corpos
encerravam diferentes elementos imortais. Um deles era o Ba, representado por
um pássaro com cabeça de homem, traços idênticos aos do defunto e braços
humanos. O Ba adquiria vida com a morte do indivíduo; as preces recitadas
pelo sacerdote que presidia as cerimônias fúnebres, juntamente com o alimento
oferecido, ajudavam a assegurar a transformação do morto em Ba ou alma. O
segundo elemento, conhecido como Ka, era um espírito protetor que adquiria
vida com o nascimento de uma pessoa. Quando o deus Khnum, o deus -carneiro
de Assuã, moldou os seres humanos a partir do limo, criou dois modelos para
cada indivíduo, um para seu corpo e outro para seu Ka. O Ka era a imagem exata
do homem e permanecia com ele por toda a vida, mas passava para o além antes
dele. Era para servir ao Ka que os egípcios proviam fartamente seus túmulos do
que chamamos mobiliário funerário um sortimento completo de tudo o que o
proprietário possuía em sua morada terrena. Embora o Ka permanecesse a maior
7 Pode -se encontrar um relato sistemático e detalhado das crenças egípcias em KEES, H. 1941.
8 O trabalho básico sobre as crenças funerárias dos egípcios é o de KEES, H. 1926; 2. ed., 1956.
44
África Antiga
 . Tesouro de Tutancâmon. Anúbis na entrada do tesouro. (Fonte: e Connoisseur et M. Joseph.
“Life and Death of a Pharaoh: Tutankhamun”. Foto Grith Institute, Ashmolean Museum, Oxford.)
45
O Egito faraônico
parte do tempo dentro do túmulo, segundo se acreditava, podia também deixá-
-lo. Desse modo, a necrópole era a morada dos Kas assim como a cidade era o
lugar dos vivos. O terceiro elemento importante era o Ib, o coração, considerado
o centro das emoções e a consciência do indivíduo. Era o guia das ações durante
sua vida terrena. O quarto elemento era o Akh, que os egípcios acreditavam ser
um poder divino ou sobrenatural, adquirido apenas após a morte. As estrelas
que brilhavam no céu eram os Akhs dos mortos. Finalmente, havia o corpo
propriamente dito, o Khat ou invólucro externo, que perecia mas podia ser
embalsamado a fim de conservar -se adequadamente para compartilhar com o
Ka e o Ba a vida eterna do além -túmulo.
Além das ideias sobre a vida futura no túmulo e na necrópole, os egípcios
desenvolveram pouco a pouco outras concepções relativas à eternidade e ao
destino reservado ao Ba. Duas dessas teorias, a solar e a osiriana, difundiram -se
amplamente. A princípio acreditava -se que o farmorto, sendo de essência
divina, residia com os deuses; era identificado tanto com o deus -Sol (Hórus ou
Rá) quanto com Osíris. Com o passar do tempo, essa concepção foi adotada
pelos nobres influentes (durante o Médio Império) e mais tarde por todos os
egípcios, independentemente do nível social.
Tudo isso transparece nos textos mortuários, cujas versões mais antigas
preservadas são os chamados Textos das Pirâmides”, escritos em hieróglifos
nas paredes das câmaras funerárias da pirâmide do rei Unas, o último faraó da
V dinastia, e na pirâmide de um da VI dinastia. Com a apropriação dos Textos
das Pirâmides” pelos chefes locais e régulos do Primeiro Período Intermediário,
e posteriormente pelos nobres do Médio Império, grande parte das fórmulas
mágicas e dos rituais foi eliminada, modificada ou recomposta de modo a
adaptar -se às pessoas comuns. Esses textos, geralmente conhecidos como Textos
dos Sarcófagos”
9
, em sua maioria eram inscritos em escrita hieroglífica cursiva
nas superfícies internas dos caixões retangulares típicos do Médio Império, os
títulos com tinta vermelha e o resto do texto com tinta preta. No Novo Império,
a maior parte das fórmulas dos “Textos dos Sarcófagos”, assim como inúmeras
estrofes novas, eram escritas em rolos de papiro e colocadas junto aos corpos
mumificados. Os textos, com cerca de duzentas estrofes, são denominados O Livro
dos Mortos
10
. Mas esse tulo é acerto ponto enganoso: na verdade, nunca
9 Com relação aos Textos dos Sarcófagos”, a edição básica do texto isolado é de BUCK, A. de. 1935 -61.
Pode -se encontrar uma tradução inglesa dos textos em FAULKNER, R. O. 1974, 1978.
10 Tradução francesa em BARGUET, P. Paris, 1967. Por sua vez, o Oriental Institute of Chicago publicou
em tradução inglesa comentada, um “Livro dos Mortos” completo. Ver ALLEN, T. G. 1960.
46
África Antiga
existiu um livro desse gênero; a escolha das estrofes escritas em cada papiro
variava segundo o tamanho do rolo, a preferência do adquirente e a opinião do
sacerdote -escriba que as transcrevia. Um “Livro dos Mortos” médio continha
entre quarenta e cinquenta estrofes. Além desse livro, os sacerdotes do Novo
Império compuseram e popularizaram vários outros “livros” funerários, escritos
em papiro ou inscritos nas paredes dos túmulos, entre os quais se incluíam o
que se conhece como o “Livro do Que Está no Inferno (Imj -Dwat) e o “Livro
das Grandes Portas”, guia mágico que descreve a viagem do Sol pelas regiões
subterrâneas durante as doze horas da noite.
O Antigo Império
11
(-2900 a -2280)
III Dinastia
se observou que os reis das duas primeiras dinastias (período arcaico)
parecem ter -se preocupado principalmente com as conquistas e sua consolidação.
A nosso ver, porém, o novo dogma da realeza divina começou de fato com a
II dinastia, e então o Egito se tornou uma nação unificada. A dinastia foi
fundada pelo rei Zoser, que, a julgar pelas evidências, era um soberano vigoroso
e capaz. Entretanto sua fama foi consideravelmente obscurecida pela de seu
célebre súdito Imhotep (I -em -htp), arquiteto, médico, sacerdote, mágico, escritor
e autor de provérbios. Vinte e três séculos após sua morte, tornou -se ele o deus
da medicina, em quem os gregos (que o chamavam de Imuthes) reconheciam
Asclépio. Sua realização mais notável como arquiteto foi a pirâmide de degraus”
e o vasto complexo funerário construído para seu faraó em Saqqara, numa área de
15 ha, na forma de um retân gulo de 544 m por 277 m. A construção compreendia
um muro circular, semelhante a uma fortaleza, e Imhotep introduziu notável
inovação substituindo a pedra pelo tijolo.
Os outros reis da III dinastia são figuras tão obscuras quanto os das duas
primeiras, embora a imensa pirâmide em degraus inacabada do rei Sekhemkhet
(provavelmente filho e sucessor de Zoser em Saqqara) e a enorme escavação
de um túmulo não concluído em Zawijet -el -Aryan, no deserto ao sul de Gisé,
sejam indicações suficientes de que o complexo piramidal de Zoser não foi o
único. O rei Huny, último da III dinastia, é o predecessor imediato de Snefru,
11 Em inglês, ver SMITH, W. S. 3. ed. Cambridge, 1971; em francês, VANDIER, J. “L’Ancien Empire” e
“La Fin de l’Ancien Empire et la Première Période Intermédiaire”. In: DRIOTON, E. & VANDIER,
J. pp. 205 -38, 239 -49.
47
O Egito faraônico
o fundador da IV dinastia. Foi ele quem edificou uma pirâmide em Meidum,
cerca de 70 km ao sul do Cairo. Esse monumento, originalmente construído
em degraus, sofreu várias ampliações e transformações antes de se tornar uma
verdadeira pirâmide (talvez por obra de Snefru).
IV Dinastia
A IV dinastia, um dos pontos altos da história egípcia, começa com o longo e
ativo reinado de Snefru, cujos anais, em parte preservados na Pedra de Palermo
12
,
relatam as campanhas militares vitoriosas contra os núbios do sul e as tribos
líbias do oeste, a manutenção do comércio (principalmente o de madeira) com
a costa síria e os grandes empreendimentos de construção executados durante
vários anos, incluindo a edificação de templos, fortalezas e palácios em todo o
Egito. Snefru reinou 24 anos; provavelmente pertencia a um dos ramos menores
da família real. Para legitimar sua posição, casou -se com Hetep -Heres
13
, a filha
mais velha de Huny, infundindo sangue real à nova dinastia. Mandou construir
duas pirâmides em Dachur, uma de tipo romboide (ao sul), e outra de forma
verdadeiramente piramidal (ao norte) e de dimensão próxima à da grande
pirâmide de Khufu em Gisé.
Os sucessores de Snefru, Khufu (Quéops), Khafre (Quéfren) e Mankaure
(Miquerinos) são conhecidos principalmente pelas três pirâmides que erigiram
no alto do promontório de Gisé, 10 km a sudoeste do atual Cairo. A pirâmide
de Khufu apresenta uma particularidade: é a maior construção de uma única
peça já erigida pelo homem
14
e, devido à perfeição do trabalho, à precisão
do projeto e à beleza das proporções, continua a ser considerada a primeira
das Sete Maravilhas do mundo. As pirâmides do filho e do neto de Khufu,
conquanto menores, apresentam semelhanças na construção e na disposição de
suas estruturas secundárias.
Houve muitas interrupções na sucessão real da IV dinastia, devido às lutas de
sucessão entre os filhos das várias esposas de Khufu. Seu filho Dedefre governou
12 Ver Introdução.
13 O túmulo da rainha Hetep -Heres foi descoberto em Gisé e revelou um mobiliário de excelente qualidade,
testemunho da habilidade dos artesãos egípcios durante o Antigo Império. Ver REISNER, G. A. 1955.
14 Sabe -se que a pirâmide propriamente dita, símbolo solar que contém ou cobre a cripta funerária onde
repousa a múmia real, é apenas um elemento do complexo que constitui a sepultura real completa. Esta
última inclui, além da pirâmide, um templo baixo, na planície, em geral chamado o Templo do Vale”, e
uma aleia aberta ou caminho, que se estende do templo à parte alta do complexo, no planalto desértico,
onde se situam a pirâmide propriamente dita e o templo funerário erigido na face oriental. Todo o recinto
é cercado por uma parede. Ver EDWARDS, I. E. S. 1970.
48
África Antiga
o Egito durante oito anos, antes de Khafre; outro se apoderou do trono durante
um curto período no final do reinado de Khafre. É provável que um terceiro
filho tenha sucedido ao último rei efetivo da dinastia, Shepseskaf.
V Dinastia
A origem dessa dinastia está ligada à crescente influência do clero de
Heliópolis. Uma lenda do Papiro Westcar
15
relata que os três primeiros reis
da V dinastia descendiam do deus e de uma mulher chamada Radjedet,
esposa de um sacerdote de Heliópolis. Os três irmãos eram Userkaf, Sahure e
Neferirkare. Sahure ficou conhecido principalmente pelos magníficos baixos-
-relevos que decoravam seu templo funerário em Abusir, ao norte de Saqqara. É
fato bem conhecido que, apesar de as pirâmides reais da V dinastia serem muito
menores do que os grandiosos túmulos da IV dinastia e sem embargo de uma
construção inferior, os templos funerários vizinhos das pirâmides eram obras
elaboradas, abundantemente decoradas com baixos -relevos pintados, alguns
deles de caráter semi -histórico. A maior parte dos reis dessa dinastia mandou
construir nas proximidades das pirâmides grandes templos dedicados ao deus-
-Sol, todos dominados por um gigantesco obelisco solar.
Além da construção e dotação de muitos templos, relacionados na Pedra de
Palermo, os faraós da V dinastia concentravam suas atividades na defesa das
fronteiras do Egito e na expansão das relações comerciais com os países vizinhos.
Expedições punitivas contra os líbios do deserto ocidental, os beduínos do Sinai
e as populações semitas do sul da Palestina foram registradas nas paredes de
seus templos funerários. Embarcações de grande envergadura visitaram a costa
da Palestina durante os reinados de Sahure e Isési. Os navios egípcios atingiram
também as praias de Punt, na costa somali, à procura de produtos de grande
valor, como mirra, ébano e animais. O comércio do cedro com a Síria continuou
a prosperar. No antigo porto costeiro de Biblos, no sopé das encostas arborizadas
do Líbano, aumentava o número de frotas egípcias encarregadas do comércio da
madeira para construção. Sabe -se que as relações comerciais com Biblos existiam
desde as primeiras dinastias (ver Capítulo 8). Um templo egípcio foi erigido
nesse local durante a IV dinastia, e descobriram -se objetos com os nomes de
vários faraós do Antigo Império na cidade e nos arredores do velho porto.
15 Texto redigido durante o Médio Império: ver LEFEBVRE, G. 1949, p. 79. O relato do Papiro de Westcar
é ctício. Os primeiros reis da V dinastia descendiam dos reis da IV dinastia. Ver BORCHARDT, L.
1938. pp. 209 -15. No entanto parece fora de dúvida que o clero de Heliópolis desempenhou um papel
importante na época da transição da IV para a V dinastia.
49
O Egito faraônico
 . Quéfren. (Fonte: J. Pirenne. 1961. v. I, p. 116, g. 33.)
VI Dinastia
o existem provas de que a transição da V para a VI dinastia foi
acompanhada de agitões poticas. Com o longo e dimico reinado de
Pépi I (o terceiro rei), a dinastia revelou toda a sua força. Pela primeira vez um
rei egípcio abandonava as táticas militares puramente defensivas para penetrar
com o grosso de seu exército no coração do país inimigo. Com o avanço do
50
África Antiga
grande exército comandado por Uni, o general egípcio, os inimigos recuaram
para suas terras nativas até o monte Carmelo, ao norte, e durante a última de
cinco campanhas sofreram emboscadas de tropas terrestres desembarcadas de
navios egípcios na extremidade norte da costa palestina.
A julgar por algumas indicações, é possível que Pépi I tenha nomeado seu
filho Merenrê co rregente, pois ao que parece teria reinado sozinho durante
cinco anos, aproximadamente. Nessa época, porém, ele procurou expandir e
consolidar o poder egípcio na Núbia, e pouco antes de sua morte apareceu
pessoalmente na Primeira Catarata para receber a homenagem dos chefes das
províncias núbias.
Com a morte de seu irmão Merenrê, Pépi II, que contava seis anos, subiu ao
trono e governou o país durante 94 anos, morrendo no ano de seu centésimo
aniversário, após um dos mais longos reinados da história. Durante a minoridade
do rei, a administração do país ficou nas mãos de sua mãe e de seu irmão.
O segundo ano do reinado de Pépi II foi marcado pelo retorno de Herkhuf,
monarca de Elefantina, que viajara pela Núbia até a província de Yam; este
trouxe consigo um rico carregamento de tesouros e um dançarino pigmeu como
presente para o rei. Com grande entusiasmo, o rei de oito anos enviou uma
carta de agradecimento a Herkhuf, solicitando -lhe tomasse todas as precauções
possíveis para que o pigmeu chegasse a Mênfis em bom estado
16
.
O longo reinado de Pépi II terminou em meio à desorganização política
cuja origem remonta ao início da VI dinastia, época em que o poder crescente
dos monarcas do Alto Egito lhes permitiu construir seus túmulos na própria
província, e não ao lado da pirâmide do rei, na necrópole. A descentralização
progrediu rapidamente. À medida que o rei perdia o controle das províncias, a
autoridade se concentrava mais e mais nas mãos dos poderosos governadores
provinciais. A ausência de monumentos posteriores às construções de Pépi II
é um sinal evidente do empobrecimento da casa real. Como a desintegração
evoluía rapidamente, o empobrecimento atingiu todas as classes sociais. Não
se sabe ao certo se as forças desintegradoras eram demasiado intensas para
que um faraó pudesse combatê -las ou se o reinado muito longo de Pépi II, que
mal soube defender o país, precipitou o colapso. O fato é que o Antigo Império
chegou ao fim quase imediatamente após sua morte, iniciando -se o período de
anarquia denominado Primeiro Período Intermediário.
16 Herkhuf, o monarca, fez gravar o texto da epístola real nas paredes de seu túmulo em Assuã. A tradução
do texto é de BREASTED, J. H. (1906. pp. 159 -61). O aspecto antropológico do problema do “anão
dançarino do deus” foi estudado por W. R. DAWSON (1938. pp. 185 -9).
51
O Egito faraônico
O Primeiro Período Intermediário
Com a morte de Pépi II, o Egito se desintegrou numa explosão de tumulto
feudal. Iniciou -se um período de anarquia, caos social e guerra civil. Em todo
o vale do Nilo, os chefes locais defrontavam -se em meio a tal confusão que
Mâneton observou, em sua História do Egito, que a VII dinastia teve setenta reis
que governaram por setenta dias. Tratava -se provavelmente do estabelecimento
de um regime de exceção em Mênfis, que substituía temporariamente a realeza
desaparecida com o colapso da VI dinastia
17
.
Pouco se sabe sobre a VIII dinastia, e embora se tenha registro dos nomes
dos reis, a ordem cronológica de seus reinados é controversa. Contudo, surgiu
pouco depois uma nova casa real em Heracleópolis (no Médio Egito) e houve
esforços no sentido de dar continuidade à cultura menfita. Sem dúvida os reis
da IX e da X dinastia controlaram o Delta, que havia sido presa dos nômades
saqueadores do deserto. O Alto Egito, no entanto, dividiu -se em suas antigas
unidades, cada um dos nomos sob o controle de um regente local. A história
posterior do Egito assinala -se pelo crescimento do poder tebano, que, durante
a XI dinastia, acabou por controlar o Alto Egito, e, pouco depois, todo o país.
O sábio Ipu -Ur foi quem melhor descreveu a situação do Egito após a queda
do Antigo Império, que fora o instigador das mais importantes realizações
materiais e intelectuais do país e permitira a manifestação das mais elevadas
capacidades individuais. Seus escritos, que parecem remontar ao Primeiro
Período Intermediário
18
, foram preservados num papiro do Novo Império que
hoje se encontra no Museu de Leida. A passagem citada a seguir mostra a
revolução social ocorrida na primeira parte do Primeiro Período Intermediário
e a ausência de qualquer tipo de autoridade centralizada:
Tudo é ruína. Um homem golpeia seu irmão, [o filho] de sua mãe; a peste se espalha
por todo o país. O sangue corre em toda parte . Alguns homens sem fé nem lei não
hesitam em pilhar as terras reais. Uma tribo estrangeira invadiu o Egito. Em toda
parte os nômades do deserto tornaram -se egípcios, Elefantina e Tínis [dominam]
o Alto Egito sem pagar os impostos, devido à guerra civil [ ... ]. O saqueador está
em todos os lugares [ ... ]. Portais, colunas e paredes são consumidos pelo fogo. Os
17 O Primeiro Período Intermediário (abreviado PPI) ainda apresenta muitos problemas. Os relatos gerais
podem ser encontrados em SPIEGEL, J. 1950, e em STOCK, H. 1949. Excelentes resumos podem
ainda ser encontrados em DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962. pp. 235 -7, 643 -5.
18 A data do texto é controversa. Supõe -se que pertença ao Segundo Período Intermediário (cf. VAN
SETERS, J. 1964. pp. 13 -23). Contudo, esta nova data não teve aceitação.
52
África Antiga
homens não navegam mais para o norte em direção a [Biblos]. Que faremos com o
cedro? falta de ouro. Em toda parte o trigo desapareceu [ ... ]. As leis da corte
de justiça são desprezadas [ ... ]. Aquele que nunca possuiu bens é agora homem
próspero. Os pobres do país tornaram -se ricos, e aquele que possuía bens tornou -se
o que nada tem ...”.
19
Mas da desordem nasceram certos valores positivos: uma ênfase nova e
encoraja dora no individualismo, por exemplo, na igualdade social e na dignidade
do homem comum. Desse modo, em meio ao caos, os egípcios desenvolveram
um conjunto de valores morais que exaltavam o indivíduo. Tudo isso aparece
claramente no famoso papiro conhecido pelo nome de Protestos do Camponês
Eloquente
20
, da X dinastia. Trata -se da história de um pobre camponês que,
despojado de seus bens por um rico proprietário de terras, reivindica seus direitos:
“Não despojes de seu bem um pobre homem, um fraco, como tu sabes. O que ele
possui é o [próprio ar que respira] um homem sofredor, e aquele que o rouba corta-
-lhe a respiração. Tu foste designado para presidir audiências, para decidir entre dois
homens e punir o bandido [mas], observa, é o defensor do ladrão que tu gostarias de
ser. Confiou -se em ti, embora te tenhas tornado um transgressor. Tu foste designado
para ser a barragem do sofredor, protegendo -o para que ele o se afogasse [mas],
observa, tu és o lago que o engoliu”.
21
Os egípcios sem vida consideravam a democracia como a igualdade de
todos os homens perante os deuses por um lado, e perante os governantes
por outro. No entanto a mudança mais surpreendente se fez sentir no que
se conhece como a “democratizão da religião funerária”. Durante o Antigo
Império, somente as pessoas pertencentes à realeza ou distinguidas pelo
faraó estavam seguras de reunir -se aos deuses após a morte. Mas com o
enfraquecimento da autoridade real, os poderosos deste mundo apropriaram-
-se dos textos funerários reais e os inscreveram em seus próprios esquifes.
Os cidadãos comuns enriquecidos passaram a ser enterrados com cerimônias
apropriadas e estelas comemorativas. Dessa forma, as barreiras entre as classes
sociais desapareciam com a morte, tendo isso ocorrido, na verdade, graças ao
deus Oris.
19 Conforme GARDINER, A. H. 1909.
20 Pode -se encontrar uma tradução francesa do texto em LEFEBVRE, G. 1949. pp. 47 -69. Existe uma
tradução inglesa recente; cf. SIMPSON, W. K. 1972. pp. 31 -49.
21 De acordo com WILSON, J. A. In: PRITCHARD, J. B. 1969. p. 409.
53
O Egito faraônico
Osíris era um dos deuses do Delta, conhecido desde os primeiros tempos,
e seu culto logo se espalhou por todo o país. Seu sucesso se deveu menos à
importância política alcançada por seus adoradores do que ao caráter funerário
de seus atributos. Desde a XI dinastia seu culto estava solidamente instituído
em Abidos, a grande cidade que, durante toda a história egípcia, permaneceu
o centro do culto aos reis mortos. O fato de os sacerdotes de Abidos não
nutrirem ambições políticas poupou a Osíris o destino de outros deuses, cujos
cultos sobreviviam apenas durante o período em que os reis entronizados os
prestigiavam. Durante o último período da história egípcia, o culto de Osíris
e de Ísis conheceu sua maior difusão, estendendo -se às ilhas gregas, a Roma
e até mesmo às florestas da Alemanha
22
. No próprio Egito, não havia templo
consagrado a qualquer divindade que não reservasse um altar para o culto do
grande Deus dos Mortos e que não realizasse cerimônias, nos dias de festa, para
celebrar sua ressurreição.
O Médio Império (-2060 a -1785)
23
Embora os egípcios tivessem noção dos valores democráticos, terminaram
por perdê - los de vista. Estes pareciam ficar nítidos em tempos de crise, mas se
eclipsaram rapidamente com o retorno da prosperidade e da disciplina durante
o Médio Império, o segundo grande período de desenvolvimento nacional. O
Egito unificava -se uma vez mais pela força das armas. Tebas, até então um
nomo desconhecido e sem importância, pôs fim à supremacia de Heracleópolis,
reivindicando a soberania sobre o Estado egípcio; ao vencer a guerra, reunificou
os dois países sob sua autoridade única.
O rei Mentuhotep II distingue -se como a principal personagem da XI
dinastia. Sua obra mais importante foi a reorganização administrativa do país.
Toda resistência à casa real foi reprimida, embora de tempos em tempos devam
ter ocorrido alguns levantes de pouca importância. De todo modo, o clima
político do Médio Império contrastava com o dos primeiros tempos, na medida
em que não mais prevalecia à segurança pacífica do Antigo Império. Mentuhotep
II, que teve um longo reinado, construiu o templo funerário de Deir el -Bahari,
22 O relato mais completo que possuímos da lenda de Osíris é o coletado e publicado por Plutarco em seu
De Iside et Osiride. Em inglês, ver GRIFFITH, J. G. 1970, e em francês HANI, J. 1976.
23 Ver DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962. pp. 239 -81, Capo 7; HAYES, W. C. 1971; WINLOCK, H.
E. 1947.
54
África Antiga
o monumento mais importante do período tebano. Seu arquiteto criou uma
forma de construção nova e funcional. Tratava -se de um edifício com terraços
guarnecidos por colunas e coberto por uma pirâmide construída ao centro de
uma sala hipostila, situada no nível superior
24
.
Após o governo de Mentuhotep II, a família entrou em declínio. Durante
o reinado do último soberano da XI dinastia, um certo Amenemés, que entre
outros títulos ostentava o de vizir do rei, foi provavelmente o fundador da XII
dinastia, ou seja, o rei Amenemés, primeiro de uma sucessão de poderosos
soberanos.
Amenemés I adotou três medidas importantes, todas elas rigorosamente
respeitadas por seus sucessores. Fundou a nova capital, Ithet -Tawi (“Senhora das
Duas Terras”), próximo ao sul de Mênfis, de onde poderia controlar melhor o
Baixo Egito; instaurou o costume segundo o qual o faraó coloca o filho a seu lado
no trono, como co rregente, sem dúvida expediente considerado oportuno após
uma conspiração palaciana que o colocou em sério perigo de vida à qual ele alude
amargamente nos conselhos que deixou como orientação a seu filho Sesóstris I
25
;
e, finalmente, planejou a sujeição da bia e criou um posto comercial mais ao sul,
empreendimento inédito até então. Foi ele, talvez, o fundador do posto comercial
fortificado de Kerma (perto da Terceira Catarata), que parece ter -se tornado um
centro de influência egípcia a partir do reinado de Sesóstris I.
Sesóstris I seguiu os passos do pai e, graças à sua energia, capacidade e visão,
pôde implementar os planos para o enriquecimento e a expansão do Egito. Uma
série de expedições, conduzidas pelo próprio rei ou por seus oficiais competentes,
reforçou o controle egípcio da Baixa Núbia. Foi nessa época que se construiu
a fortaleza de Buhen
26
, a jusante da Segunda Catarata. As atividades do rei a
oeste limitaram -se, ao que parece, a expedições punitivas contra os líbios temehu
e tehenu e à manutenção das comunicações com os oásis. Sua política para com
países do nordeste limitava -se à defesa de suas fronteiras e à continuidade das
relações comerciais com os países do Oriente Próximo.
Os dois reis seguintes, Amenemés II e Sesóstris II, parecem o ter -se
interessado pela consolidação e expansão das conquistas egípcias
27
. Contudo
24 NAVILLE, E. 1907 -13.
25 Sobre a ascensão dessa dinastia, consultar POSENER, G. 1956.
26 Ver os relatos das escavações e trabalhos recentes em Buhen, consecutivos à campanha lançada pela
Unesco para salvar os monumentos da Núbia. Ver CAMINOS, R. A. 1975, e SMITH, H. S. 1976.
27 Convém notar que a fortaleza de Mirgissa, ao sul da Segunda Catarata, a maior das forticações na
região do Batn -el -Haggar núbio, foi construída por Sesóstris II (ver VERCOUTTER, J. 1964. pp. 20 -2)
e que, portanto, a Núbia ainda estava sob controle egípcio durante seu reinado.
55
O Egito faraônico
Sesóstris III é lembrado pela reconquista e sujeição da Baixa Núbia, por ele
reduzida à condição de província egípcia. O longo e próspero reinado de seu
sucessor, Amenemés III, distinguiu -se por ambicioso programa de irrigação, que
teve por consequência uma grande expansão agrícola e econômica no Faium,
oásis à margem de um grande lago alimentado por um canal procedente do Nilo.
Esse canal passava por estreita abertura nas colinas do deserto que beiravam o
vale a aproximadamente 80 quilômetros ao sul do Cairo. Graças a uma barragem,
controlou -se o escoamento da água lançada no lago quando o Nilo subia, e a
abertura de canais de irrigação, aliada à construção de diques, permitiu uma
recuperação maciça das terras.
Com Amenemés IV o poder da família real, segundo todas as evidências,
começou a declinar. Seu reinado breve e opaco, seguido pelo reinado ainda mais
transitório da rainha Sobekneferu, assinala o fim da dinastia.
O Segundo Período Intermediário
28
Os nomes de alguns faraós da XIII dinastia refletem a existência de uma
grande população asiática no Baixo Egito. Sem dúvida esse elemento aumentou
com a imigração de numerosos grupos provenientes das terras a nordeste do Egito,
forçados a se deslocar para o sul devido aos amplos movimentos demográficos no
Oriente Pximo. Os egípcios chamavam os chefes dessas tribos de Hka -Hasut,
ou seja, “Governantes de Países Estrangeiros”, de onde derivou o termo “hicsos”,
criado por Mâneton e hoje aplicado ao povo como um todo.
Foi por volta de -1729 que os hicsos passaram a representar um sério
risco para a autoridade da XIII dinastia. Em tomo de -1700, porém, eles
apareciam como um povo de guerreiros bem organizados e bem equipados, tendo
conquistado a parte oriental do Delta, incluindo a cidade de Hat -Uaret varis),
cujas fortificações eles refizeram, e onde fixaram sua capital. De modo geral,
admite -se que a dominação dos hicsos no Egito não adveio de uma repentina
invasão do país pelos exércitos de uma única nação asiática. Como vimos, foi o
resultado de uma infiltração, ocorrida durante os últimos anos da XIII dinastia,
de grupos pertencentes a vários povos do Oriente Próximo, principalmente
semitas. Com efeito, a maioria de seus reis tinham nomes semitas, tais como
Anat -Hr, Semken, Amu ou Jakub -Hr.
28 O conjunto deste período muito obscuro da história egípcia foi objeto de uma publicação. BECKERATH,
J. von. 1965.
56
África Antiga
Não há dúvida de que a ocupação dos hicsos teve profunda repercussão no
desenvolvimento egípcio
29
. Eles introduziram o cavalo, o carro e a armadura. Os
egípcios, que até então nunca haviam tido a necessidade de tais equipamentos,
acabaram por utilizá -los com êxito contra os próprios hicsos, expulsando -os
do país. Era a primeira vez que os egípcios se encontravam sob dominação
estrangeira. A humilhão abalou o antigo sentimento de supremacia e de
segurança que lhes eram inspirados pela proteção dos deuses. Iniciou -se uma
guerra de libertão, conduzida pelos governantes do nomo de Tebas. Os
poucos documentos que restaram dessa época dizem respeito sobretudo à
guerra empreendida pelos reis do final da XVII dinastia contra os opressores
asticos, as quase 150 anos de ocupão. Asis finalmente conseguiu
expulsar os invasores do Delta. Tomou -lhes a capital, Avaris, e perseguiu -os
até a Palestina, onde sitiou a fortaleza de Sharuen. Prosseguindo em direção
ao norte, invadiu o território de Zahi, na costa fenícia. O poderio hicso era
enfim destruído.
O Novo Império (-1580 a -1085)
XVIII Dinastia
30
O rei Amósis I, aclamado pela posteridade como pai do Novo Império e
fundador da XVIII dinastia, foi, segundo todas as evidências, um homem de
energia e capacidade excepcionais. Amenófis I (ou Amenhotep I), seu filho,
mostrou -se um sucessor à altura do pai, cuja política interna e externa prosseguiu
com vigor. Embora provavelmente estivesse mais preocupado com a organização
do reino do que com as conquistas, consolidou e estendeu os domínios do Egito
na Núbia até a Terceira Catarata. Durante os nove anos de seu reinado não
ocorreram agitações na Síria nem na Palestina.
Amenófis I parece ter merecido sua reputação de grandeza, que chegou
ao apogeu quando ele e sua mãe, Ahmés -Nefertári, tornaram -se divindades
tutelares da necrópole tebana
31
. Foi sucedido por Tutmés I e Tutmés II, e depois
pela rainha Hatshepsut, que se casou sucessivamente com seus dois meio -irmãos,
29 Sobre os hicsos e as várias questões em torno da ocupação do Egito por esse povo e suas consequências,
ver SETERS, J. Van 1966.
30 Ver DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962. pp. 335 -42 Cap. 9, pp. 390 -414 Cap. 10; JAMES, T. G. H.
1973; HAYES, W. C. 1973.
31 CERNY, J. 1927. pp, 159 -203.
57
O Egito faraônico
Tutmés II e Tutmés III. Todavia, no quinto ano de seu reinado, Hatshepsut
alcançara poder suficiente para declarar -se soberana suprema do país. A fim de
legitimar suas pretensões
32
, declarou publicamente ser filha do deus nacional
Âmon -Rá, que se apresentara à sua mãe como Tutmés I. As duas décadas do
pacífico reinado de Hatshepsut foram prósperas para o Egito. A rainha dedicou-
-se principalmente aos negócios internos e à edificação de grandes obras. As
realizações de que mais se orgulhava foram a expedição a Punt e a construção
de dois grandes obeliscos no templo de Carnac. Ambos destinavam -se a celebrar
a devoção a seu “pai Âmon -Rá.
Finalmente, após a morte de Hatshepsut, Tuts III assumiu o poder. Na
força de seus trinta anos ele nos relata que, durante a juventude, participou
como sacerdote de uma cerimônia em Carnac, onde seu pai era oficiante;
durante a cerimônia, foi distinguido pela estátua de Âmon, que através de
um oráculo o escolheu para rei. Seu primeiro ato como soberano foi destruir
as estátuas de Hatshepsut e apagar -lhe o nome e a imagem onde quer
que aparecessem. Acalmada sua sede de vingança, organizou rapidamente
um ercito e marchou contra uma coalizão das cidades -Estado da rego
palestino -sírio -líbia, que haviam reunido suas forças na cidade de Megido e se
preparavam para sublevar -se contra a dominação egípcia. Tuts surpreendeu
os inimigos e foou -os a refugiarem -se no interior dos muros da cidade.
Com a rendição de Megido, toda a região até o bano meridional caiu sob
o controle egípcio. Tutmés III empreendeu ao todo dezessete campanhas no
estrangeiro, e durante muitos anos os exércitos egípcios impuseram respeito na
ria e no norte da Mesopotâmia. O Egito tornara -se uma potência mundial, e
as fronteiras do império se estendiam por vastas áreas. O reinado que nos legou
os registros mais completos foi o de Tutmés III, gras aos anais gravados
nas paredes do templo de Carnac. Outros pormenores foram registrados por
seus generais. Esses eventos transformaram -se em contos populares, como o
de Joppa, que, surpreendido pelo general Djehuty, escondeu seus homens em
sacos e introduziu -os clandestinamente na cidade sitiada – história que lembra
muito a de Ali -Babá e os quarenta ladrões.
Tutmés III foi sucedido por dois faraós capazes e ergicos, Amefis
II e Tutmés IV, este último intimamente ligado ao reino de Mitani por ter
desposado a filha da casa real. É essa princesa, com o nome egípcio de Mut-
32 Muito se tem escrito sobre o problema de Hatshepsut e a perseguição da rainha por Tutmés III,
Pode -se encontrar uma boa exposição do problema e das soluções propostas em DRIOTON, E. &
VANDIER, J. 1962. pp. 381 -3.
58
África Antiga
-em -Wa, que figura nos monumentos como a esposa principal do faraó e mãe
de Amenófis III.
Quando Amenófis III sucedeu a seu pai, provavelmente estava casado
com a rainha Teye, sua esposa principal. A ascensão do jovem rei ao trono
ocorreu numa época em que, gras às notáveis realizações internas e
externas de aproximadamente dois culos, o país se encontrava no auge do
poder político, gozando de grande prosperidade econômica e desenvolvimento
cultural. Além disso, o mundo passava por um período de paz, e o faraó e seu
povo podiam desfrutar os rios prazeres e luxos que a vida lhes oferecia. Ao
que parece, Amenófis III estava pouco interessado em manter seu poder no
exterior, embora se esforçasse por conservar os Estados vassalos setentrionais
e seus aliados atras de generosas doações em ouro núbio. Pelo fim de
seu reinado, como evidenciam as cartas de Tell el -Amarna
33
, a ausência de
demonstrões militares encorajou os homens de iniciativa a conspirarem
para reaver sua independência e a se revoltarem contra a autoridade egípcia.
No entanto, parece que Amenófis III não deu muita imporncia ao fato. Foi
como construtor e patrono das artes que mereceu o nome de Amenófis, o
Magnífico”. A ele devemos não o templo de Lúxor, considerado a mais
bela de todas as constrões do Novo Império, mas também muitas outras
realizações arquitetônicas em Carnac e em todo o Egito, bem como no exterior
(Soleb, na Núbia, etc.).
Embora o culto de Áton tenha -se iniciado no reinado de Amenófis III, seu
desenvolvimento teve pouca influência, ao que parece, na adoração de outros
deuses até um período avançado do governo desse faraó; possivelmente, a
partir do trigésimo ano de reinado é que seu filho Amenófis IV (posteriormente
conhecido como Aquenáton) tornou -se co rregente. Fisicamente fraco, com um
corpo frágil e delicado, o novo rei não possuía nem as qualidades de soldado
nem as de estadista. Preocupou -se sobretudo com as questões intelectuais e
espirituais, ou, mais precisamente, com sua própria mente e espírito. Muito
orgulhoso de seu título – “O que vive a verdade” procurou uma aproximação
cada vez maior e mais harmoniosa com a natureza e, na religião, uma relação
mais direta e racional com sua divindade
34
.
33 Trezentas e setenta e sete placas cuneiformes encontradas nas ruínas dos Arquivos Públicos da capital,
consistindo principalmente na correspondência de Amenós III e Aquenáton com os reis de Hatti,
Arzawa, Mitani, Assíria, Babilônia, Chipre e os governantes das cidades da Palestina e da Síria. Sobre
estes textos, ver ALBRIGHT, W. F. 1973.
34 Recentemente Amenós IV (Aquenáton) e sua época foram objeto de numerosas publicações, incluindo
ALDRED, C. 1968.
59
O Egito faraônico
 . Rainha Hatshepsut sentada. (Fonte: C. Aldred. “New Kingdom Art of Ancient Egypt”. g. 21.
Foto e Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque.)
60
África Antiga
Amenófis IV, jovem e fanático, foi o responsável por uma mudança
política radical. O alvo de seus ataques foi principalmente o clero de Âmon.
É provável que suas razões fossem tanto políticas como religiosas, que em
Tebas os grandes sacerdotes do deus nacional Âmon -Rá haviam adquirido
tanta riqueza e poder que constituíam uma amea direta ao trono. No início
de seu reinado, Amenófis IV ainda vivia em Tebas, onde construiu um grande
templo dedicado a Áton, a leste do templo de Âmon em Carnac. Depois,
obviamente amargurado pelas reações que suas reformas suscitavam em Tebas,
decidiu abandonar a cidade, fundando nova residência em Tell el -Amarna, no
Médio Egito. No sexto ano de reinado, ele e sua família, juntamente com um
grande séquito de funcionários, sacerdotes, soldados e artesãos, mudaram -se
para a nova resincia, que chamou de Aquetáton (Akhet -Aton), (“Horizonte
de Áton”), onde morou até sua morte, quatorze anos mais tarde. Mudou seu
nome para Aquenáton (Akh -en -Aton) ou “O que es a serviço de Áton”, e
concedeu à rainha o nome real de Nefer -Neferu ton, que significa A beleza
das belezas é Áton”.
Além de proclamar Áton o único deus verdadeiro, Aquenáton injuriou as
divindades mais antigas. Ordenou que o nome de Âmon, em particular, fosse
suprimido de todas as inscrições, até mesmo dos nomes próprios, como o de
seu pai. Além disso, decretou a dissolução do clero e a dispersão dos bens dos
templos. Foi com essa medida que Aquenáton provocou a mais violenta oposição,
pois os templos eram sustentados por subvenções concedidas pelo governo em
troca de bênçãos solenes aos empreendimentos estatais.
Enquanto os tumultos se alastravam à sua volta, Aquenáton vivia na capital
adorando seu deus único. Era a veneração do poder criador do Sol sob o nome
de Áton. O culto, que dispensava totalmente as imagens do deus, era praticado
ao ar livre, no pátio do templo, consistindo principalmente em depositar flores
e frutas no altar. A religião de Áton era bem mais simples que a tradicional,
visto apoiar -se na verdade e na liberdade individual. Também cultivava o amor
à natureza, uma vez que os poderes criadores de vida do Sol se expressavam
universalmente em todas as coisas vivas. O hino composto pelo rei
35
exprime,
antes de tudo, uma alegria de viver espontânea e o amor a todas as coisas criadas,
nas quais o espírito de Áton se encarnava.
Aquenáton, como esteta que era, desaprovava as formas estilizadas da arte
do retrato tradicional e insistia na adoção de um naturalismo livre, em que o
35 Tradução de
J.
A. WILSON. In: PRITCHARD,
J.
B. pp.
369 -71.
61
O Egito faraônico
artista procurasse representar o espaço e o tempo imediatamente perceptíveis,
e não fixados na eternidade. Por isso permitiu que ele e sua família fossem
representados em atitudes informais: comendo, brincando com as criaas
ou abraçando -as. Não procurou esconder sua vida privada do conhecimento
blico; assim agindo, escandalizou seus contemporâneos, para quem essa
informalidade depreciava sua condição de rei -deus.
 . Aquenáton diante do Sol. (Foto fornecida pelo Dr. G Mokhtar)
62
África Antiga
A revolução de Áton não sobreviveu à morte de Aquenáton. Seu co rregente e
sucessor, Semenkha(Semenekh -Ka -Re), tratou imediatamente de reconciliar-
-se com o clero de Âmon. Estabeleceu -se um compromisso pelo qual Âmon seria
novamente reconhecido. Semenkharê reinou apenas três anos e foi sucedido por
Tutancáton (Tut -Ankh -Aton), que mudou seu nome para Tutancâmon (Tut-
-Ankh -Amon)
36
. Sabemos que este jovem faraó morreu com a idade aproximada
de dezoito anos e que reinou pelo menos nove; devia contar, portanto, oito anos
quando subiu ao trono. A origem desses dois reis é controversa; contudo, ambos
basearam suas pretensões ao trono no fato de terem desposado as filhas de
Aquenáton. Durante o reinado de Tutancâmon, e mesmo após sua morte, não
foi unânime o repúdio a Áton, que, apesar da restauração de Âmon, guardava seu
lugar entre os deuses. Tal situação perdurou durante o curto reinado do rei Ay,
que sucedeu a Tutancâmon. Foi com Horemheb que teve início a perseguição
obstinada de Áton, como ocorrera anteriormente com Âmon.
XIX Dinastia
37
Horemheb pertencia a uma linhagem de nobres provinciais oriundos de
uma pequena cidade do Médio Egito. Sua longa carreira como comandante
do exército egípcio e administrador permitiu -lhe avaliar a corrupção política,
que crescia perigosamente desde o início do reinado de Aquenáton. Assim que
ascendeu ao trono, iniciou uma ampla rie de reformas que beneficiaram o
país. Promulgou também um decreto para ativar a arrecadação dos impostos
nacionais e acabar com a corrupção dos funcionários civis e militares.
Horemheb demonstrou acentuada predileção por um oficial do Exército
chamado Pa -Ramsés, a quem nomeou vizir, escolhendo -o como seu sucessor
ao trono. No entanto, Pa -Ramsés estava velho e reinou dois anos, sendo
substituído por seu filho e co rregente Séti I, o primeiro de uma linhagem de
guerreiros que concentraram todos os esforços no restabelecimento do prestígio
do Egito no exterior. Logo que subiu ao trono, Séti I teve de fazer frente à
perigosa coalizão de cidades -Estado sírias, encorajada e até mesmo mantida
pelos hititas. Conseguiu desbaratar a coalizão, devolvendo ao Egito o controle
sobre a Palestina. Após repelir um ataque líbio, Séti I penetrou novamente na
36 A descoberta sensacional, em 1926, do túmulo praticamente inviolado do jovem far suscitou
numerosos artigos, incluindo particularmente CARTER, H. & MACE, A. C. 1963; DESROCHES-
-NOBLECOURT, C. 1963.
37 Ver DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962. pp. 349 -56, Cap. 9, pp. 418 -22, Cap. 10; FAULKNER, R.
O. 1975.
63
O Egito faraônico
Síria setentrional, onde pela primeira vez as tropas egípcias entraram em conflito
aberto com os hititas. Conseguiu subjugar Kadesh, mas, embora obrigados a se
retirar temporiamente, os hititas mantiveram sua influência na Síria setentrional.
A guerra prosseguiu com seu sucessor, Ramsés II.
Durante o reinado de Ramsés II, a residência real e o centro administrativo
foram transferidos para Pi -Ramsés, cidade situada na parte nordeste do Delta,
onde se estabeleceu uma base militar adequada às manobras de grandes corpos
de infantaria e carros de guerra. No quinto ano de seu reinado, Ramsés II parte
à frente de quatro exércitos contra uma poderosa coalizão de povos asiáticos
reunidos pelo rei hitita Mutawallis, dando continuidade às tentativas de seu
pai de recuperar as possessões egípcias na Síria setentrional. Na célebre batalha
ocorrida perto de Kadesh, à margem do rio Oronte, a vanguarda das forças de
Ramsés cai numa armadilha inimiga e um de seus exércitos é derrotado pelos
carros hititas; o próprio rei é obrigado a combater, mas consegue reagrupar
suas forças e transformar o que poderia ter sido uma derrota numa vitória um
pouco duvidosa. Representações e relatos minuciosos dessa batalha, assim como
de algumas campanhas mais gloriosas na Palestina e na Síria, ocorridas antes
e depois desse conflito, foram gravados nas paredes dos templos de Ramsés II,
esculpidos na rocha em Abu Simbel e em el -Derr, na Baixa Núbia, em seus
templos de Abidos e Carnac, no pilar que ele anexou ao templo de Lúxor e
também em seu templo funerário, o Ramesseu.
As hostilidades entre os dois países prosseguiram por vários anos. Na
verdade, depois do vigésimo primeiro ano de seu reinado é que Ramsés II
concluiu a paz, assinando um famoso tratado com o rei hitita Hattusilis. A
partir daí as duas potências mantiveram relações cordiais, e Ramsés desposa
a filha mais velha de Hattusilis, numa cerimônia anunciada em todos os
lugares como símbolo de “paz e fraternidade”. Em consequência desse
acordo, a influência egípcia estendeu -se ao longo da costa até Ras Shamra
(Ugarit), cidade da Síria setentrional. Embora os hititas ainda conservassem
seu poder no interior, perdiam inflncia no Vale do Orontes. Com a morte
de Hattusilis, um novo perigo surgiu: a migração dos Povos do Mar
38
. Essa
migrão em massa propagou -se dos Balcãs e da região do mar Negro para
todo o mundo mediterrânico oriental e não tardou a submergir totalmente
o reino hitita. O idoso Ramsés, que governou 67 anos as a assinatura do
tratado, o deu a devida ateão aos sinais inquietantes vindos do exterior,
38 Sobre os Povos do Mar, ver a ousada teoria de A. MIBBI.
64
África Antiga
 . Tesouro de Tutancâmon. Interior da antecâmara, lado oeste. O leito de Hátor.
 . Howard Carter, o arqueólogo que descobriu o mulo de Tutancâmon, precisou abrir um
sarcófago de pedra e três ataúdes embutidos um no outro antes de atingir o último, que continha a múmia. A
máscara funerária em ouro maciço colocada sobre seu rosto é uma das peças mais espetaculares da exposição
Tesouros de Tutancâmon. (Foto Harry Burton, col. e Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque.)
65
O Egito faraônico
e seu vigoroso sucessor Merneptah deparou -se com uma situão crítica
quando subiu ao trono.
Um grande contingente dos belicosos Povos do Mar havia penetrado na
região costeira a oeste do Delta e, aliando -se aos líbios, ameaçavam o Egito.
Merneptah enfrentou -os numa grande batalha, no quinto ano de seu reinado,
infligindo -lhes esmagadora derrota. Nas estelas de Merneptah registraram -se
suas atividades militares na região sírio -palestina e enumeram -se as cidades e
Estados conquistados, incluindo Canaã, Ascalon, Gezer, Yenoan e Israel – este
último mencionado pela primeira vez nos documentos egípcios.
A XX Dinastia
39
Após a morte de Merneptah, travou -se uma luta dinástica e o trono foi
ocupado sucessivamente por cinco soberanos, cuja ordem de sucessão e grau de
parentesco ainda não foram estabelecidos com precisão.
A ordem foi restaurada por Sethnakht, primeiro rei da XX dinastia, que
ocupou o trono durante três anos. Sucedeu -lhe seu filho Ramsés III, que, num
reinado de 31 anos, se empenhou no sentido de reviver as glórias do Novo
Império. No quinto e no décimo primeiro anos de seu reinado, infligiu uma
derrota decisiva às hordas invasoras da Líbia ocidental e, durante o oitavo
ano, repeliu uma invasão sistemática, por mar e terra, dos Povos do Mar. É
significativo que essas três guerras fossem defensivas e ocorressem, à parte
uma operação terrestre contra os Povos do Mar, nas fronteiras ou mesmo no
interior do Egito. Uma única derrota teria significado o fim da história do
Egito como não, pois essas invasões não objetivavam apenas o saque ou
a dominação política, mas a ocupação do rico Delta e do vale do Nilo por
nações inteiras de povos ávidos de terras, compreendendo os combatentes, suas
famílias, rebanhos e bens.
Ramsés III foi mais feliz na defesa contra os invasores estrangeiros do que
na solução dos problemas internos que afligiam o país. O Egito estava arruinado
pela desorganização da força de trabalho, pelos motins dos trabalhadores do
governo, pelo aumento inflacionário dos preços do trigo e pela desvalorização do
bronze e do cobre. A decadência aumentou nos reinados seguintes, de Ramsés
IV a Ramsés XI. A frágil autoridade do casal real tornou -se ainda mais precária
devido ao poder crescente dos sacerdotes de Âmon, que finalmente elegeram
para o trono um sumossacerdote, Herihor. Iniciava -se uma nova dinastia.
39 Ver DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962, pp. 356 -66, Cap. 9, pp. 432 -9, Cap. 10.
66
África Antiga
Período de declínio
40
Da XXI à XXIV Dinastia
Durante a XXI dinastia, o poder foi dividido, em comum acordo, entre os
príncipes de Tânis, no Delta
41
, e a dinastia de Herihor, em Tebas. Com a morte
deste último, Smendes, que governava o Delta, ao que parece, passou a controlar
todo o país. Esse período viu surgir um novo poder, o de uma família de origem
líbia vinda do Fayum. Originariamente, teriam sido soldados mercenários que se
fixaram na região quando o Egito se retirou
42
. Todavia um dos membros dessa
família, Sheshonq, apossou -se do trono egípcio e fundou uma dinastia que durou
aproximadamente duzentos anos.
No final da XXII dinastia, o Egito encontrava -se irremediavelmente dividido
em pequenos Estados rivais e ameaçado ao mesmo tempo pela Assíria e pelo
poderoso Sudão independente. No entanto, um homem chamado Pedibast fundou
uma dinastia rival. Mâneton chamou a XXIII dinastia de tanita, muito embora os
reis continuassem a usar os nomes dos faraós da XXII dinastia: Sheshonq, Osorkon
e Takelot. Durante essas duas dinastias, o Egito manteve relações pacíficas com
Salomão, em Jerusalém, que chegou a se casar com uma princesa egípcia. Contudo,
no quinto ano de reinado do sucessor de Salomão, Sheshonq atacou a Palestina.
Embora o Egito não procurasse conservar a Palestina, esta recuperou parte de sua
antiga influência, beneficiando -se de um comércio exterior bastante desenvolvido.
A XXIV dinastia teve apenas um rei, Bakenrenef, que os gregos chamavam de
cchoris, filho de Tefnakhte. Provavelmente foi Tefnakhte que assinou, com Hosea
da Samaria, um tratado contra os assírios. Bócchoris procurou apoiar o rei de Israel
contra o soberano assírio Saro II, mas seu ercito foi derrotado em Rafia em
-720. Seu reinado chegou ao fim quando o rei sudas Shabaka invadiu o Egito.
A XXV dinastia ou dinastia sudanesa
43
Por volta de -720 o Egito foi alvo de outra invasão, desta vez, porém, vinda
do sul. Piankhy (Peye), sudanês que governou o Sudão entre a Primeira e a
40 Ver KITCHEN, K. A. 1973. A genealogia e a cronologia desse período confuso são estudadas por
BIERBRIER, M. 1975
41 Ver YOYOTTE, J. 1961. pp. 122 -51.
42 Ver HOLSCHER, W. 1955.
43 Ver também Cap. 11. Uma visão de conjunto pode ser encontrada em H. von ZEISSL. Para maiores
detalhes sobre esse período, ver Cap. 10 deste volume.
67
O Egito faraônico
Sexta Catarata, baseado numa capital situada na Quarta Catarata, considerou-
-se suficientemente poderoso para desafiar o trono dos fars. Um certo
Tefnakhte de Ss, tendo conseguido unificar o Delta, ocupou nfis e sitiou
Heracleópolis. Ao saber que o governante de Hermópolis (no Médio Egito)
unira -se a Tefnakhte, enviou um ercito ao Egito. Era, sem vida, um
soberano valente. Sua atitude cavalheiresca na batalha, o digno tratamento
dispensado às princesas prisioneiras, seu amor pelos cavalos, o cumprimento
escrupuloso do ritual religioso e sua recusa em negociar com príncipes vencidos
(que, segundo o cerimonial, eram impuros por não serem circuncidados e por
comerem peixe) são reveladores de seu caráter. Essa dinastia durou sessenta
anos, a o momento em que os assírios, ao cabo de inúmeras campanhas,
conseguiram vencê -la.
O reino saíta
44
O Egito foi libertado da dominão assíria por um egípcio de nome
Psamético. Em -658, auxiliado por Giges, da Lídia, e pelos mercenários gregos,
este conseguiu destruir todos os vestígios da suserania assíria, iniciando uma
nova dinastia, a XXVI. Os reis dessa dinastia esforçaram -se corajosamente para
restabelecer a posição do Egito, promovendo a expansão comercial do país. O
Alto Egito tornou -se uma rica região agrícola, onde se cultivavam os produtos
vendidos ao Baixo Egito.
O período persa
45
No reinado de Psamético III, o Egito teve de submeter -se aos persas
chefiados por Cambises. Essa ocupação praticamente pôs fim à história do país
como potência independente. Os reis da XXVII dinastia eram persas. A XXVIII
dinastia era de origem local e ficou conhecida como a dinastia de Amirteu, que
articulou uma revolta durante o tumultuado reinado de Dario II. Graças às
alianças com Atenas e Esparta, os reis da XXIX e da XXX dinastia conseguiram
manter por aproximadamente sessenta anos a independência assim conquistada.
A segunda dominação persa no Egito iniciou -se sob Artaxerxes III, em -341,
terminando em -332, quando Alexandre, o Grande, invadiu o Egito após ter
derrotado a Pérsia na batalha de Isso.
44 Ver DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962. pp. 574 -600, Cap. 13. Sobre a intervenção saíta na Núbia, de
grande importância para a história da África, ver SAUNERON, S. & YOYOTTE, J. 1952. pp. 157 -207.
45 A obra básica sobre esse período continua sendo a de POSENER, G. 1936.
C A P Í T U L O 3
69
O Egito faraônico: sociedade, economia e cultura
Economia e Sociedade
Campos e pântanos
A constituição do Estado faraônico por volta do ano -3000 e o período
obscuro que se seguiu com certeza corresponderam a um grande desenvolvimento
econômico, evidenciado em alguns aspectos pelas sepulturas reais e privadas da
época tinita: as construções tornaram -se mais amplas e os vários objetos de arte
sugerem o aumento do luxo e o refinamento da técnica dos artesãos. Não
meios de saber se a necessidade de coordenar a irrigação foi a principal causa
da formação de um Estado unificado ou se a unificação do país sob os reis
tinitas, aliada ao desenvolvimento da escrita, possibilitou organizar as economias
regionais, com a racionalização dos trabalhos de infra estrutura e a distribuição
sistemática dos recursos alimentares. O fato é que até o século XIX da Era Cristã
a prosperidade e a vitalidade do Egito estiveram ligadas à cultura de cereais
(trigo, cevada). Um sistema de bacias de inundação, que controlava e distribuía as
águas das enchentes e depositava o limo no interior de diques de terra, perdurou
até o recente triunfo da irrigação permanente: sua existência é comprovada desde
o Médio Império, podendo -se supor que seja ainda mais antigo
1
.
1 Os textos relativos às técnicas de irrigação são muito raros. A mais antiga refencia segura à irrigão por
bacias (hod) encontra -se nos textos dos sarcófagos do Médio Império: BUCK, A. de. 1935 -61. p. 138, b -c.
O Egito faraônico:
sociedade, economia e cultura
J. Yoyotte
70
África Antiga
Evidentemente, esse sistema permitia uma colheita por ano; por outro
lado, a curta duração do ciclo agrícola liberava grande quantidade de mão de
obra para os vultosos trabalhos exigidos pelas construções religiosas e reais. Os
antigos também praticavam a irrigação permanente, obtendo água de canais ou
bacias escavadas até o lençol subterrâneo. Mas, durante longo tempo, as pernas e
os ombros humanos carregados de jugos foram as únicas “máquinas” conhecidas
para puxar água, sendo a irrigação por meio de valas utilizada somente para
os vegetais, árvores frutíferas e vinhas (contudo, é possível que a invenção do
shaduf durante o Novo Império tenha possibilitado duas colheitas
de cereais por
ano em alguns lugares)
2
. Por não armazenar água, os egípcios ainda não eram
capazes de atenuar as consequências de enchentes anormalmente baixas, que
ocasionavam a infertilidade em várias bacias, e de enchentes excessivamente
altas, que devastavam as terras e as habitações. O desenvolvimento dos silos e
do transporte fluvial, porém, permitiu -lhes assegurar o abastecimento alimentar
de uma província para outra ou de um ano para outro. Os rendimentos médios
eram bons: os excedentes alimentavam o grande mero de funcionários
governamentais e os trabalhadores de bricas de dio porte (estaleiros e
arsenais, fiações ligadas a certos templos, etc.). As autoridades dos templos e
os altos funcionários exerciam poderes de patronato através do controle dos
recursos alimentares, que variavam conforme o período.
O pão e a cerveja, feitos de cereais, constituíam a base da dieta, mas
a alimentação dos antigos egípcios era surpreendentemente variada. É
impressionante a variedade de tipos de bolos e pães relacionados nos textos.
Como ocorre atualmente, as hortas produziam vagens, grão -de -bico e outras
leguminosas, cebola, alho -porró, alface e pepino. Nos pomares cultivavam -se
tâmaras, figos, nozes de sicômoro e uvas. Também se produzia uma grande
variedade de vinhos, com uma viticultura engenhosa, praticada principalmente
em diversos pontos do Delta e nos oásis. A criação de abelhas fornecia o mel.
O óleo era extraído do sésamo e do nabk; a oliveira, introduzida durante o Novo
Império, continuou rara, não sendo seu cultivo muito bem sucedido.
O Egito faraônico não transformou todo o vale em terras agrícolas: além
dos recursos que extraía dos campos e hortas, explorou também os grandes
pântanos e lagos das bordas setentrionais do Delta, as praias do lago Méride,
bem como as depressões à beira do deserto e os meandros do Nilo. Esses pehu
abrigavam muitas e variadas aves selvagens, que eram caçadas ou capturadas
2 Ver a interpretação engenhosa que HELCK, W. e OTTO, E. (1973) propuseram para os dados do
“Papiro Wilbur”.
71
O Egito faraônico: sociedade, economia e cultura
 . Empilhamento do feno. (Fonte: J. Pirenne. 1961. v. J, g. 79 (embaixo), Mastaba de Ptah-
-Sekhem -Ankh. Museum of Fine Arts, Boston, n. 6483.)
F . Colheita. (Fonte: J. Pirenne. 1961. V. I, g. 79 (no alto), p. 256. Mastaba de Akhet -hetep, Musée
du Louvre, n. 6889.)
72
África Antiga
com arapucas. O Nilo oferecia grande variedade de peixes, pescados com rede
de arrastão, nassa para enguias, linha ou cesto; apesar da proibição de seu
consumo em certas províncias ou em determinadas categorias sociais, tinham
um lugar definido na dieta popular, que também era suplementada pela coleta
de rizomas de ciperácea comestível, polpa de papiro e, a partir do período persa,
pelas sementes do loto índico. Finalmente, os n tanos serviam de pastagem
para bovinos.
Embora o clima, muito úmido, não fosse particularmente favorável à criação
de gado e, em consequência, os rebanhos exauridos tivessem que ser supridos
regularmente pela Núbia e pela Ásia, essa atividade tinha uma importância
considerável na vida do país e nas concepções religiosas. As mesas dos deuses
e dos noveis deviam ser bem guarnecidas de carne bovina. O corte da
carcaça era uma arte refinada, e em geral as gorduras animais eram utilizadas
na fabricação de unguentos perfumados. Sabe -se que os egípcios do Antigo
Império tentaram criar várias espécies, como órix, antílope, gazela, etc., e até
grous e hienas, mas tal prática foi abandonada por consumir excessiva mão de
obra, com resultados desapontadores. Mais tarde, os ruminantes do deserto
passam a ser, nos provérbios e nos rituais mágicos, o símbolo de criaturas
indomáveis
3
. Por outro lado, os egípcios conseguiram ótimos resultados na
criação de aves domésticas, principalmente o ganso do Nilo. As cabras, tão
prejudiciais às escassas árvores do vale, e os carneiros criados nas terras incultas e
nas bordas do deserto, juntamente com os porcos (apesar de algumas proibições),
ocuparam um espaço considerável na dieta popular. Em plena época histórica,
observa -se uma transformação no tipo de rebanho ovino: por volta de -2000, o
antigo carneiro de chifres horizontais torcidos, que era a encarnação de Khnum,
Bés, Hershef e outros deuses antigos, foi sendo, gradualmente substituído pelo
carneiro de chifres curvos, dedicado ao deus Âmon. Sua origem, africana ou
asiática, é controversa. Os egípcios obtiveram êxito especial na domesticação de
duas espécies africanas, intimamente associadas, em nossas representações, ao
passado faraônico: o asno, utilizado desde o período arcaico, não como animal
de montaria, mas de carga (paradoxalmente dedicado a Set, deus do mal), e
o gato doméstico, que aparece a partir do fim do Antigo Império e início
do Médio Império (e que era cultuado como uma forma moderada das deusas
ameaçadoras).
3 “Papiro Zanzing”, 3, 8 -9; CAMINOS, R. A. 1954. P. 382. Sobre a signicação religiosa do órix, ver
DERCHAIN, P. J. 1962.
73
O Egito faraônico: sociedade, economia e cultura
 . Caça ao hipopótamo.
F . Pesca com rede. (Fonte: J. Pirenne. 1961. v. I, p. 201, g. 66. Mastaba de Akhet -hetep. Musée
du Louvre. Fotos Archives Photographiques, Paris.)
74
África Antiga
Mineração e indústria
A nobreza e a guarda praticavam a caça à lebre e aos animais de grande
porte no deserto, como esporte e meio de variar a alimentação cotidiana, mas
é provável que essa atividade não tivesse grande relevância econômica. A real
importância do deserto residia na variedade de recursos minerais que oferecia:
as tinturas verdes e negras do deserto arábico, utilizadas para tratar e embelezar
os olhos desde a Pré -História; pedras sólidas e de bela aparência usadas pelos
construtores e escultores (calcário fino de Toura, arenito de Silsileh, granito
de Assuã, alabastro de Hatnub, quartzito de Djebel el -Ahmar e grauvaca de
Hammamat)
4
; e pedras semipreciosas, como a turquesa do Sinai ou as cornalinas
e ametistas da Núbia. A vitrificação (esteatita vitrificada e “faiança egípcia com
núcleo de quartzo) desenvolveu -se muito cedo, estimulando a manufatura de
objetos com a aparência da turquesa ou lazurita. O Egito do Novo Império
aperfeiçoou as técnicas de fabricação de vidro graças aos contatos com a Ásia,
adquirindo um domínio acurado do processo.
Uma das riquezas que o país extraía das vastas cercanias áridas era o ouro,
proveniente do deserto arábico e da bia. Símbolo da imortalidade perfeita, esse
metal ainda não desempenhava o papel econômico fundamental que iria adquirir
em civilizações mais recentes, mas era considerado um símbolo de riqueza e bem
mais valorizado do que a prata, embora esta última, metal importado, sempre
fosse mais rara e, no Antigo Império, mais preciosa do que o ouro. As numerosas
jazidas de cobre existentes nos desertos eram de teor muito baixo (exceto no Sinai)
e o Egito logo se tornou dependente do cobre asiático. E preciso observar que as
inovações técnicas da metalurgia do Egito faraônico sempre estiveram aquém das
que se verificaram no Oriente Pximo. A Idade do Bronze e posteriormente a
Idade do Ferro foram tardias no Egito. O metal era relativamente raro e precioso;
a madeira e o sílex substituíram -no com sucesso nos implementos agrícolas, e a
pedra dura nos instrumentos para esculpir; os utensílios e armas de metal eram
conservados e distribuídos pelos serviços públicos
5
.
Embora o antigo Egito tivesse que importar metais e madeira de seus
vizinhos asiáticos, sua capacidade industrial era insuperável em dois setores.
4 A grauvaca (incorretamente chamada de xisto em muitos trabalhos) é uma ‘’rocha quartzosa, de granulação
na, compacta, dura e cristalina, muito parecida com a ardósia, apresentando, em geral, várias tonalidades
de cinza’’: LUCAS, A. 1962. PP. 419 -20.
5 Sob a XIII dinastia, as pontas de echa e os dardos de pedra eram calcados nos modelos de metal, mas
sua produção obedecia a técnicas tradicionais arcaicas, como revelam as armas encontradas na fortaleza
de Mirgissa: VILA, A. pp. 171 -99.
75
O Egito faraônico: sociedade, economia e cultura
Os faraós exportavam têxteis (o linho egípcio da época era de uma qualidade
inigualável) e papel. O papiro, usado para diversos fins – na confecção de velas,
cordas, vestuário, calçados –, possibilitou principalmente a fabricação de um
suporte muito flexível para a escrita. Esse material era a fonte de poder do
escriba e foi muito solicitado no exterior com a expansão da escrita alfabética
nas adjacências do Mediterrâneo oriental. O cultivo intensivo do papiro
provavelmente contribuiu para o desaparecimento dos pântanos, refúgios dos
pássaros, crocodilos e hipopótamos, que, na opinião dos próprios antigos, davam
brilho à paisagem egípcia.
O desenvolvimento dos transportes foi um fator determinante no progresso
do regime faraônico. Raramente utilizados, os bovinos eram atrelados ao arado
ou ao trenó funerário; o asno, mais resistente e menos exigente, era o animal
de carga ideal nos campos e nas trilhas do deserto (sabemos que o cavalo,
introduzido durante o segundo milênio, continuou a ser um luxo reservado
aos guerreiros, e que o rico potencial econômico da roda, cujo princípio
era conhecido desde o Antigo Império
6
, não foi explorado). O asno, com um
rendimento reconhecidamente menor embora fosse conhecida a técnica de
utilizá -lo em tropas precedeu e muitas vezes substituiu o camelo, adotado lenta
e gradualmente nos campos a partir da época persa. Para o transporte de carga
a longa distância, o Egito utilizava o rio e seus canais: as embarca ções grandes
e pequenas eram rápidas e seguras. As qualidades precoces da náutica egípcia
possibilitaram tanto a centralização econômica quanto as prodigiosas realizações
arquitetônicas (pirâmides, templos gigantescos, colossos, obeliscos). Além disso,
mesmo em tempos muito antigos, barcos à vela percorriam o mar Vermelho e
o Mediterrâneo (não nada que prove a teoria de que os fenícios ensinaram
os egípcios a navegar). Para deslocar os pesados blocos de pedra necessários
principalmente às construções sagradas, a engenharia faraônica inventou
métodos engenhosos, mas de uma simplicidade surpreendente, utilizando, por
exemplo, as propriedades derrapantes do limo molhado para deslocar simples
trenós (sem rodas nem rolamentos), aproveitando a enchente do Nilo para
lançar as barcaças carregadas de enormes blocos ou utilizando esteiras de junco
como âncora flutuante
7
. É através da reconstituição de tais procedimentos – em
que um homem moderno nunca pensaria, confundido que está por tecnologias
6 Uma escada de assalto montada sobre rodas acha -se representada numa sepultura da VI dinastia:
SMITH, W. S. 1949. p. 212, g. 85.
7 GOYON, G. 1970. pp. 11 -41.
76
África Antiga
sofisticadas e outras ideias de eficiência que a pesquisa está desvendando os
mistérios da ciência faraônica
8
.
A maior parte dos processos agrícolas e industriais foi inventada por volta
do III milênio; ao que parece, os egípcios eram lentos e tímidos – e até mesmo
preconceituosos –, quando se tratava de adotar inovações técnicas provenientes
do exterior. No estágio atual dos estudos e da documentação, parece que as
notáveis realizações dos primeiros tempos forneceram soluções para os problemas
mais vitais dos habitantes do vale e levaram ao estabelecimento de um sistema
social e político eficaz, o despotismo faraônico”. As falhas desse sistema eram
minimizadas por uma representação religiosa tão coerente que ainda sobreviveu,
nos templos, vários séculos, após ter a conquista estrangeira demonstrado a
incapacidade de a tradição e sua correspondente prática social atenderem ao
desafio de forças novas.
O sistema econômico e social
É preferível evitar termos abstratos na descrição dos métodos de produção
faraônicos, que o nosso conhecimento a respeito é bastante vago devido à
insuficiência de fontes
9
.
Os documentos disponíveis permitem distinguir alguns dados gerais. O
comércio exterior, a exploração de minas e de pedreiras eram atividades estatais.
A maior parte das transações comerciais conhecidas pelos textos envolve
pequenas quantidades de mercadorias e é constituída por contratos privados
entre particulares; a interveão de intermediários profissiona