Download PDF
ads:
UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO
PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU
EM CIÊNCIA DA MOTRICIDADE HUMANA
A CONTRIBUIÇÃO DA CAPOEIRA ADAPTADA
NA MELHORIA DE ASPECTOS SOCIAIS EM PESSOAS
PORTADORAS DE NECESSIDADES ESPECIAIS
por
Rosangela Ruffato Pereira
PROJETO DE PESQUISA APRESENTADO
COMO REQUISITO À OBTENÇÃO
DO TÍTULO DE MESTRE EM CIÊNCIA DA
MOTRICIDADE HUMANA
FEVEREIRO / 2007
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
2
ROSANGELA RUFFATO PEREIRA
Aluna do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu
em Ciência da Motricidade da Universidade Castelo Branco
A CONTRIBUIÇÃO DA CAPOEIRA ADAPTADA
NA MELHORIA DE ASPECTOS SOCIAIS EM PESSOAS
PORTADORAS DE NECESSIDADES ESPECIAIS
Projeto de pesquisa apresentado como
requisito à obtenção do título de Mestre em
Ciência da Motricidade Humana.
Rio de Janeiro, 06 de fevereiro de 2007.
ads:
3
A CONTRIBUIÇÃO DA CAPOEIRA ADAPTADA
NA MELHORIA DE ASPECTOS SOCIAIS EM PESSOAS
PORTADORAS DE NECESSIDADES ESPECIAIS
Elaborada por Rosangela Ruffato Pereira
Aluna do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu
em Ciência da Motricidade Humana da Universidade Castelo Branco - RJ
BANCA EXAMINADORA
Rio de Janeiro, 06 de fevereiro de 2007.
___________________________________
Orientador: Professor Dr. Manoel José Gomes Tubino
____________________________________
Professor Dr. Jorge França Motta
____________________________________
Professor Dr. Vernon Furtado
4
Agradecimentos
Primeiramente agradeço a Deus por ter me permitido viver este momento
acadêmico.
Agradeço ao meu orientador, Manoel Gomes Tubino e ao Profº Eugênio da Silva
Correia que me deram a oportunidade ingressar no curso de mestrado acreditando em
minha força de vontade em crescer profissionalmente.
Agradeço também a Abigair Madureira pelo apoio em todos os momentos de
necessidades, ao longo dos meus estudos.
5
Dedicatória
Dedico este trabalho a Deus, ao meus pais Jair Gomes Pereira (in memorian) e
Therezinha Ruffato Pereira pela minha educação, e aos meus familiares.
A todos os meus “alunos especiais” e seus pais, que me ensinaram a amá-los e
respeitá-los.
Aos meus alunos e amigos da Educação Física e capoeira adaptada e a todas as
pessoas que me apoiaram durante essa difícil fase de pesquisa onde, dificuldades e
limitações foram superadas com a ajuda de todo o corpo docente da Universidade
castelo Branco e a enorme generosidade da amiga Nazaré Dias .
6
RESUMO
A CONTRIBUIÇÃO DA CAPOEIRA ADAPTADA NA MELHORIA DE ASPECTOS
SOCIAIS EM PESSOAS PORTADORAS DE NECESSIDADES ESPECIAIS
Por: Rosangela Ruffato Pereira
Orientador: Manoel Gomes Tubino No. de Palavras: 252
A capoeira, numa concepção didática é considerada uma atividade física
completa, pois atua de maneira direta e indireta sobre o aspecto cognitivo, afetivo e
motor do ser humano. A capoeira e sua contribuição social, tanto para não portadores
de necessidades especiais quanto para os portadores, ainda é pouco cientificamente
estudada, e isto estimulou a realização deste trabalho com o objetivo de verificar
contribuição da melhoria dos aspectos sociais através do esporte adaptado. A Capoeira
melhora o tônus muscular, permite maior agilidade, flexibilidade e ampliação dos
movimentos. Também auxilia o ajuste postural, o esquema corporal, a coordenação
dinâmica. Desenvolve a força, proporciona a liberação de sentimentos como a
agressividade e o medo, levando o ser humano a adquirir uma condição física mais
satisfatória e um comportamento mais socializado. A amostra foi do tipo intencional e foi
constituída de quarenta participantes sendo vinte e três do gênero masculino
(dezesseis portadores de Síndrome de Down e sete com Deficiência Mental) e
dezessete do gênero feminino (nove portadores de Síndrome de Down e oito com
Deficiência Mental). Inicialmente foram selecionadas oito categorias: auto-estima, estilo
de vida, saúde, cooperação, inclusão social, convivência humana, condição física e
longevidade. O instrumento utilizado foi um questionário estruturado contendo questões
direcionadas ao tema de estudo e foi aplicado aos pais dos praticantes da capoeira
adaptada. Conclui-se que a prática da capoeira desenvolve, de forma integrada os três
domínios de aprendizagem do ser humano: psicomotor, afetivo social e cognitivo, tendo
uma relevância maior no desenvolvimento dos seguintes aspectos sociais: inclusão
social, auto-estima, cooperação e convivência humana.
Palavras-chave: capoeira adaptada, aspectos sociais, portadores de necessidades
especiais.
7
ABSTRACT
THE CONTRIBUITION OF ADAPTED CAPOEIRA ON THE IMPROVEMENT OF
SOCIAL ASPECTS FOR PEOPLE OF SPECIAL NEEDS
By: Rosangela Ruffato Pereira
Adviser: Manoel José Gomes Tubino Number os words: 280
Capoeira, in a didatic conception, is considered to be a complete physical activity,
as it acts, in a direct and in an indirect way, under cognitive, afective and motor aspects,
of the Human Being. Capoeira and its social contribution, either to people who have
special needings or those who have not, is not theme of enough scientifical researches,
and that stimulated the realization of this work, with the purpose of verifying the
contribution of the improvement on social aspects through adapted sports. Capoeira
improves muscle tonus, allows higher agility, flexibility and enlargement of the
moviments. It also works on the postural adjustment, corporal scheme, dinamic
coordenation. It develops strength, stimulates the liberation of feelings like
agressiveness and fear, driving human being to acquire a more satisfying physical
condition and a more socialized behaviour. The sample’s kind was the intentional one,
and it was constituted of fourty elements: twenty three of male gender (sixteen with the
Down syndrome and seven with mental deficiency) and seventeen of the feminine
gender (nine with the Down syndrome and eight with mental deficiency). At the
beginning it was selected eight categories: self-esteem, life style, health, cooperation,
social inclusion, human convivence, physic condition and longevity. The instrument
utilized was an estrutured questionnaire containning questions directed to the theme
that was being studied, and it was applied to the parents of adapted capoeira
practicioners. It is concluded that the practice of capoeira develops, in an integrated
way, all the three ranges of human being learning: psicomotor, social-afetive and
cognitive, having a major relevance on the development of the following social aspects:
social inclusion, self-esteem, cooperation and human convivence.
Key-words: adapted capoeira, social aspects, people of special needs
8
LISTA DE ANEXOS
Páginas
1. Quadro de Valores.............................................................................................. 89
2. Modelo de Questionário...................................................................................... 90
3. Modelo de Validação do Questionário................................................................ 92
4. Termo de Participação Consentida..................................................................... 95
5. Resolução 196/96 – Conselho Nacional de Saúde de 10/10/1996.................... 97
6. Declaração de Salamanca.................................................................................. 108
9
LISTAS DE GRÁFICOS
Página
Quadro 1..................................................................................................... 28
Gráfico 1 ..................................................................................................... 61
Gráfico 2 ..................................................................................................... 62
Gráfico 3 ..................................................................................................... 62
Gráfico 4 ..................................................................................................... 63
Gráfico 5 ..................................................................................................... 64
Gráfico 6 ..................................................................................................... 64
Gráfico 7 ..................................................................................................... 65
Gráfico 8 ..................................................................................................... 66
Gráfico 9 ..................................................................................................... 66
Gráfico 10 ................................................................................................... 67
Gráfico 11.................................................................................................... 67
Gráfico 12 ................................................................................................... 68
Gráfico 13 ................................................................................................... 68
Gráfico 14 ................................................................................................... 69
Gráfico 15 ................................................................................................... 70
Gráfico 16 ................................................................................................... 70
Gráfico 17 ................................................................................................... 71
Gráfico 18 ................................................................................................... 71
Gráfico 19 ................................................................................................... 72
Gráfico 20 ................................................................................................... 72
10
Gráfico 21 ................................................................................................... 73
Gráfico 22 ................................................................................................... 74
Gráfico 23 ................................................................................................... 74
Gráfico 24 ................................................................................................... 75
Gráfico 25 ................................................................................................... 76
Gráfico 26 ................................................................................................... 77
Gráfico 27 ................................................................................................... 79
Gráfico 28 ................................................................................................... 80
11
SUMÁRIO
Página
Resumo....................................................................................................... 06
Lista de anexos........................................................................................... 08
Lista de gráficos.......................................................................................... 09
CAPÍTULO I A IMPORTÃNCIA DA CAPOEIRA ADAPTADA COMO
ESPORTE NA MELHORIA DE ASPECTOS SOCIAIS DE
PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS....................................
13
Introdução................................................................................................... 13
Inserindo na Ciência da Motricidade Humana............................................ 18
Objetivos .................................................................................................... 19
Objetivo Específico .................................................................................... 19
Questão de Estudo .................................................................................... 20
Justificativa e Relevância do estudo .......................................................... 20
Delimitação de estudo ............................................................................... 21
Conceitos Básicos ...................................................................................... 21
CAPÍTULO II – OS CAMINHOS METODOLÓGICOS ............................... 25
Modelo de Estudo ...................................................................................... 25
Esquema de Desenvolvimento E Organização do Estudo ........................ 27
Amostra ...................................................................................................... 26
Instrumentos do Estudo ............................................................................. 28
Validação do Questionário ......................................................................... 29
Coleta de Dados ........................................................................................ 29
CAPÍTULO III – REFERENCIAL DE APOIO AO ESTUDO........................ 31
Portadores de Necessidades Especiais ..................................................... 31
12
Síntese sobre a Deficiência Mental e Síndrome de Down.......................... 36
Esporte Adaptado no Esporte Contemporâneo.......................................... 39
Visão de Esporte segundo Parlebas........................................................... 41
A Capoeira: Histórico e Características...................................................... 50
CAPÍTULO IV – APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 61
Em relação à Inclusão Social...................................................................... 61
Em relação à Auto-estima........................................................................... 65
Em relação à Cooperação.......................................................................... 68
Em relação à Convivência Humana............................................................ 72
Resultado Geral.......................................................................................... 75
CAPÍTULO V – CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES ........................... 82
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................ 84
13
CAPÍTULO I
A IMPORTÂNCIA DA CAPOEIRA ADAPTADA COMO ESPORTE NA MELHORIA DE
ASPECTOS SOCIAIS DE PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS
INTRODUÇÃO
A Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada pela Organização
das Nações Unidas (ONU) em 10 de dezembro de 1948, aponta em seu artigo 1º:
“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e dotados que
são de razão e consciência, devem comportar-se fraternalmente uns com os outros”.
Santos (2003) comenta essa tendência em olhar para a pessoa com deficiência sob
este prisma. Por este princípio norteador que no campo da Educação:
“todas as escolas deveriam acomodar todas as crianças
independentemente de suas condições físicas, intelectuais,
sociais, emocionais, lingüísticas ou outras. Deveriam incluir
crianças deficientes e superdotadas, crianças de rua e que
trabalham, crianças de origem remota ou de população
nômade, crianças pertencentes a minorias lingüísticas,
étnicas ou culturais e crianças de outros grupos em
desvantagem ou marginalizados...” (CARVALHO, 2002).
O Esporte, como um dos fenômenos mais marcantes da transição do século XX
para o culo XXI, teve na Carta Internacional de Educação Física e Esporte
(UNESCO/1978), o seu marco de mudança de paradigma. A Carta, com a premissa do
direito de todos às práticas esportivas remeteu as formas ou manifestações de exercício
deste direito passaram a ser: o esporte na escola, o esporte-lazer ou comunitário e o
esporte de desempenho (TUBINO; SILVA, 2006).
A Carta Internacional da Educação Física e do Esporte (UNESCO, 1978), no seu
artigo estabelece que “A prática da Educação Física e do Esporte é um direito
fundamental de todos” e que o exercício deste direito :”.....(d) deve ser oferecido,
14
através de condições particulares adaptadas às necessidades específicas, aos jovens,
até mesmo às crianças de idade pré-escolar, ás pessoas idosas e aos deficientes,
permitindo o desenvolvimento integral de suas personalidades (TUBINO, 2000).
A Carta de Educação Física e Esportes da UNESCO estabelece o direito de
todos, e seus programas inclusive aos grupos menos favorecidos da sociedade. O
desenvolvimento econômico e social, a rede existente de serviços sociais para toda a
população, a redistribuição de recursos e do rendimento, e a melhoria das condições de
vida da população são pré-requisitos para implementação de um programa de
prevenção e reabilitação, como pode ser observado no Programa Mundial de Ação
Relativo às pessoas deficientes, elaborado, na Assembléia Geral das Nações Unidas
(ROSADAS, 1989).
A partir dessas observações volta-se algum tempo atrás, não tão distante
assim, quando se preocupava com os primeiros contatos com pessoas ainda muito mal
compreendidos pela sociedade, que aportam alguns desses diferentes tipos de
limitações, impedimentos e deficiências, pois mal atendidas pela área de educação e
saúde em geral, em relação à área de convivência, inclusive à educação física, onde a
atuação desta ainda é pretensiosamente voltada para a proliferação de técnicas que
privilegiam os resultados imediatos e performáticos, quase voltados para o esporte e a
otimização dos movimentos corporais.
Existe hoje no Brasil, um número crescente de pessoas que portam algum tipo
de deficiência, vítimas de acidentes de trabalho, vítimas de agressões físicas, da
subnutrição, da falta de higiene, da poluição do ambiente, de cuidados pré e pós-natais
adequados, vítimas de doenças que acabam por deixar seqüelas irreversíveis em seu
portador (ROSADAS, 1989).
15
Segundo o Censo (IBGE, 2000), 24,5 milhões de brasileiros apresentam algum
tipo de deficiência ou incapacidade (limitação para atividade) isso significa que 14,5%
da população brasileira estariam aptos a beneficiar-se das leis e dos programas
relacionados à melhoria de qualidade de vida destes segmentos. Baseando-se na
estatística nacional, dentro da Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio de
Janeiro (SMAS), existem aproximadamente 10% da população que são portadores de
deficiências, sendo que na sua grande maioria encontram-se em comunidades carente.
O início da prática do esporte adaptado no Brasil deu-se através da iniciativa de
duas pessoas, que procuraram os serviços de reabilitação nos Estados Unidos, na
década de 1950, após ficarem deficientes físicos em decorrência de acidentes. Foram
os Srs. Robson Sampaio de Almeida, então residente no Rio de Janeiro e Sérgio
Serafin Del Grande, da cidade de São Paulo (ARAÚJO, 2004).
No entanto, mesmo sendo a Educação Física e o Esporte Adaptado áreas de
estudo emergente, a quantidade de informações sobre as variadas deficiências era
suficientemente grande a ponto de que os procedimentos metodológicos aplicados no
trabalho com pessoas portadoras de necessidades especiais fosse pautado na apenas
pela boa vontade e intuição de alguns, mas por informações provenientes de resultados
de estudos e pesquisas.
Estudos indicam que as inúmeras dificuldades enfrentadas pelas pessoas
portadoras de deficiência num país como o Brasil, cujas características sócio-
econômico-culturais levam à pessoa portadora de deficiência o enfrentamento histórico
de uma rie de dificuldades tais como: a discriminação, a segregação social, a
dificuldade de acesso e permanência no âmbito educacional. Os entraves para
participação real no mercado de trabalho, dentre outros problemas sociais, tem
16
provocado pesquisas no âmbito da pós-graduação stricto em Educação Física e
Esportes no Brasil Este fato tem contribuído para a superação dessas barreiras, pois
apesar disto, ainda são muitos escassos os estudos voltados para essa temática, além
das perspectivas e críticas adotadas pela maioria das pesquisas existentes.
A Educação Física e Esporte Adaptado constituem uma área que tem como
objetivo de estudo a motricidade humana para PNEE’s (Pessoas com Necessidades
Educativas Especiais), adequando metodologias de ensino para o atendimento às
características de cada portador de deficiência, respeitando suas diferenças
individuais”(OLIVEIRA, COSTA E SÃO CARLOS, 2003).
“A Educação Física/Esporte na escola inclusiva se constitui em uma grande área
de adaptação ao permitir a participação de crianças e jovens em atividades físicas
adequadas as suas possibilidades, proporcionando que sejam valorizados e se
integrem num mesmo mundo. O programa de Educação Física quando se adapta ao
aluno portador de deficiência, possibilita ao mesmo a compreensão de suas limitações
e capacidades, auxiliando-o na busca de uma melhor adaptação” (SANTOS, 2003).
Incluir, quer dizer que podemos deixar pertencer, adaptando-os em todos os
aspectos, mostrando-os o que podemos fazer, para que e com quem utilizar o seu
corpo fazendo-o aprender através de atividades não específicas, mas
transformadoras e adaptadas (ALVES, 2003).
Por outro lado, a capoeira encontra-se com o papel de resgate a cidadania à
essas pessoas de comunidade de baixa renda, elevando a auto-estima, e
principalmente à inclusão junto à sociedade.
A importância pedagógica da capoeira, numa concepção didática, recai no fato
de que é considerada uma atividade física completa, pois ela atua de maneira direta e
17
indireta sobre o aspecto cognitivo, afetivo e motor do ser humano. Sendo encarada
como lógica educacional, articula atividades de desenvolvimento visomotor com
desenvolvimento artístico-social, levando a criança a estabelecer relações a partir dela
própria, fato que torna a capoeira multidirecional, uma vez que permitirá, desde que
adequadamente conduzida desenvolver na criança noções de equilíbrio físico
juntamente com o mental e a disciplina.
Segundo Brandão (2003), esporte e atividade física quase se confundem,
quando o assunto é o trabalho com deficientes. deficiências que inibem a prática do
esporte, ou este pode até piorar a condição do praticante. Mas a atividade física vale-se
do esporte como fator motivacional, tornando-se atividade física esportiva. A sociedade
precisa entender que o objetivo do esporte adaptado para o portador de deficiência é
melhorar a qualidade de vida do indivíduo, facilitando suas atividades cotidianas. Da
mesma forma Castro (2005) declara, os benefícios que podemos encontrar nas
atividades adaptadas são únicos. Com essas atividades podemos, ao mesmo tempo,
proporcionar aos participantes progressos de desenvolvimento em aspectos fisiológico,
psicológico, social e cognitivo.
Outro fator relevante é que independente da idade ou das condições físicas das
pessoas, as atividades adaptadas se mostram úteis também no setor de reabilitação e
também auxiliam os participantes a enfrentar os problemas, a ter sucesso, a alcançar
metas e socializar. As atividades não têm a intenção de ser a salvação de todos os
problemas, mas sim tem como objetivo proporcionar melhor qualidade de vida para
todos.
18
INSERÇÃO NA MOTRICIDADE HUMANA
A Ciência da Motricidade Humana descobre na deficiência uma raiz social e
política. o pessoas deficientes, pessoas diferentes. De educação especial é
bem possível que todos precisem. Por isso, a Ciência da Motricidade Humana,
assumindo a época atual e no seu discreto, mas tenaz plantio de mais ciência e melhor
consciência definem a saúde como “a capacidade de o ser humano tentar superar as
suas limitações atuais, de modo, a concretizar o seu projeto de vida, visando um bem
estar holístico ou sistêmico”.
A Ciência da Motricidade Humana ao estudar a energia para o movimento
intencional da transcendência, afirma que o ser humano supera e supera-se, no
processo de construção da sua identidade própria.
Segundo Maturana (1999) apud Manuel Sérgio (2003), afirma que a emoção
fundamental, que torna possível a história da hominização, é o amor sem a aceitação
do outro na convivência, não há fenômeno social.
É necessário compreender a fenomenologia dos indivíduos praticantes da
capoeira como objeto teórico e formal da CMH (Ciência da Motricidade Humana), mais
especificamente em uma perspectiva sócio-cultural, verificando, analisando,
interpretando e classificando suas condutas motoras intencionais. O objeto prático do
estudo são as condutas motoras e o comportamento motor relativos à prática da
Capoeira. A compreensão fenomenológica do objeto de estudo pesquisado foi num
contexto cultural, não utilizando a compreensão fenomênica (bio-física). Na opinião de
Beresford (2000), a compreensão femonenológica acontece quando:
“Compreendemos fenomenologicamente um fenômeno quando
indagamos sobre suas causas e variações de sentido essencial em
uma determinada circunstância, facticidade e corporeidade, ou seja,
19
quando buscamos os nexos mediatos de antecedência, de
conseqüência e de interdependência, capazes de nos esclarecer
sobre o contexto cultural (historicidade + natureza) de uma vida
existência humana, ou sobre a estrutura dos aspectos relacionados
com o fenótipo de um fato (fenômeno ou de um objeto de estudo
investigado)”.
O produto final da cultura do Ser do Homem é o somatório dos aspectos
fenomênicos e fenomenológicos.
O tema do estudo: A Contribuição da Capoeira Adaptada na Melhoria de
aspectos sócias em Pessoas Portadoras de Necessidades Especiais pode ser inserido
na CMH na área da cultura e corporeidade, segundo a linha de pesquisa.
OBJETIVO GERAL
O estudo se propõe a verificar se a capoeira pelas suas características de
esporte-luta e esporte-dança pode melhorar os aspectos sociais em portadores de
necessidades especiais (Síndrome de down e Deficientes mentais).
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
1 - Avaliar na literatura existente sobre a Síndrome de Down e Deficiência Mental em
relação às práticas esportivas.
2 - Resgatar o desenvolvimento da prática esportiva adaptada no Brasil.
3 Discutir a capoeira como uma modalidade esportiva no contexto do Esporte
Contemporâneo.
20
QUESTÃO DE ESTUDO
Uma única questão está inserida no presente estudo: A capoeira pode ser um
instrumento de melhora na integração e aumento da auto-estima de portadores de
necessidades especiais?
JUSTIFICATIVA E RELEVÂNCIA DO ESTUDO
A capoeira é uma modalidade muito praticada no Brasil e está caracterizada por
Tubino, Garrido e Tubino (2006) na corrente de Esportes e Identidade Cultural. Porém
não muita produção científica que colabore sobre inúmeros aspectos referentes a
essa modalidade esportiva e cultural.
Sendo assim o presente estudo justifica-se na falta de trabalhos científicos
envolvendo a capoeira e ainda na tentativa de achar mais uma alternativa para pessoas
portadoras de necessidades especiais quanto a melhora de sua auto-estima e
integração social através do esporte adaptado.
A capoeira e sua contribuição social, tanto para não portadores de necessidades
especiais quanto para os portadores, ainda é pouco cientificamente estudada. Então, os
resultados dessa pesquisa serão contribuições indiscutíveis para esta área de estudo e
para profissionais de diversas áreas que trabalham ou não com pessoas portadoras de
necessidades especiais, por leigos, por familiares dos mesmos portadores, como fonte
de consulta para eventuais intervenções na condição da auto-estima desse grupo
social.
Numa concepção didática, a Capoeira é considerada e aceita numa lógica
educacional, onde articula atividades de desenvolvimento visomotor com
desenvolvimento artístico social, levando a criança a estabelecer relações a partir dela
21
própria, fato que torna a Capoeira multidirecional, uma vez que permitirá, desde que
adequadamente conduzida, desenvolver na criança noções de equilíbrio físico
juntamente com o mental e a disciplina.
Assim a Capoeira, como uma fonte inesgotável de riquezas pelas várias formas
de ser ministrada, oferece ao praticante uma prática bem orientada, assim como
aprender a escolher as várias linhas com as quais mais se identifica, sem excluir
nenhum dos aspectos que abrangem o universo de nossa arte. Um estudo que
possibilita um avanço do conhecimento na intervenção de pessoas portadoras de
Síndrome de Down e deficientes Mentais, utilizando a Capoeira, deve ser considerado
dos mais relevantes.
DELIMITAÇÂO DO ESTUDO
Sendo a capoeira uma das atividades relevantes no contexto brasileiro, o estudo
delimita-se pela bibliografia existente e pela amostra possível obtida então para o
desenvolvimento do mesmo.
Delimita-se a obter a amostra na AABB - Tijuca (Associação Atlética Banco do
Brasil), com pessoas portadoras de necessidades especiais que estão inseridos no
programa da capoeira adaptada e inclusiva.
CONCEITOS BÁSICOS
Para efeito deste estudo, definir-se-á alguns termos com a finalidade de
fidedignizar e integrar o entendimento gerado neste e evitar interpretações equivocadas
sobre o que aqui está descrito.
22
AUTO-ESTIMA. Traço de personalidade em correspondência com o valor que um
indivíduo atribui a sua pessoa. É o resultado da comparação que o sujeito faz entre si
mesmo e outros indivíduos significativos para ele (DORON; PAROT, 2002).
COOPERAÇÃO. Em sentido geral, que se aplica a partir do nível biológico, a
cooperação é a atividade pela qual entidades agem conjuntamente para realizar um fim.
No nível mais elevado, a cooperação poderá, enfim, ser considerada como uma atitude
moral, que encontra a sua razão na própria gênese das idéias de razão e de
humanidade (DORON; PAROT, 2002).
CONVIVÊNCIA. Ato ou efeito de conviver; relações íntimas; familiaridade, convívio,
viver em comum com outrem (CUNHA, 1986)
CONDIÇÃO HUMANA. A expressão tende a suplantar a de “natureza humana” para
designar a situação singular e única de cada homem no mundo físico e social e na
história (JAPIASSU; MARCONDES, 1990).
DEFICIÊNCIA. Caracteriza-se por registrar um funcionamento intelectual geral
significativamente abaixo da média, oriundo do período de desenvolvimento,
concomitante com limitações associadas a duas ou mais áreas da conduta adaptativa
ou da capacidade do indivíduo em responder adequadamente às demandas da
sociedade, nos seguintes aspectos. Comunicação, cuidados pessoais, habilidades
sociais, desempenho na família e comunidade, independência na locomoção, saúde e
segurança, desempenho escolar, lazer e trabalho” (BRASIL 1994:14).
DEFICIÊNCIA MENTAL. Esse tipo de deficiência caracteriza-se por registrar
funcionamento intelectual geral significativamente abaixo da média, oriundo do período
de desenvolvimento, concomitantemente com limitações associadas a duas ou mais
23
áreas da conduta adaptativa ou da capacidade do indivíduo responder adequadamente
às demandas da sociedade (AADM, 1992 apud BRASIL/SEESP/MEC, 1994).
ESPORTE. fenômeno cio-cultural, que tem no jogo o seu veículo cultural e na
competição o seu elemento essencial e que nas suas diferentes formas, contribui para
a formação e aproximação dos seres humanos ao reforçar o desenvolvimento de
valores como a moral, a ética, a solidariedade, a fraternidade e a cooperação, o que
torna num dos meios mais eficazes para a convivência humana (TUBINO, 2005).
ESPORTE-EDUCAÇÃO. É responsabilidade pública assegurada pelo Estado, dentro ou
fora da Escola, tem como finalidade democratizar e gerar cultura através de
modalidades motrizes de expressão de personalidade do indivíduo numa estrutura de
relações sócias recíprocas e com a Natureza, a sua formação corporal e as próprias
potencialidades, preparando-o para o lazer e o exercício da cidadania, evitando a
seletividade, com vistas a uma sociedade livremente organizada, cooperativa e solidária
(MENEZES COSTA, 1989).
ESPORTE ADAPTADO. Experiências esportivas modificadas ou especialmente
designadas para suprir as necessidades especiais de indivíduos. O âmbito do esporte
adaptado exclui a integração de pessoas portadoras de deficiências com pessoas
”normais” (WINNICK, 2004).
ESTILO DE VIDA. Expressão empregada para traduzir a unidade da personalidade
psíquica, organizada a partir da escolha de valores, que contribui para a coesão da
imagem de si no mundo exterior (DORON; PAROT, 2002).
INCLUSÃO SOCIAL. É o processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir,
em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades especiais e,
simultaneamente, estas se preparam para assumir seus papeis na sociedade. A
24
inclusão social constitui, então, um processo bilateral no qual as pessoas, ainda
excluídas, e a sociedade buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre
soluções e efetivar a equiparação de oportunidades para todos (SASSAKI, 1997, p.3).
INTEGRAÇÃO. É um processo dinâmico de participação das pessoas num contexto
relacional legitimando sua interação nos grupos sociais. A integração implica em
reciprocidade (BRASIL/SEESP/MEC, 1994). Para Glat (1995), a integração é um
processo espontâneo e subjetivo, que envolve direta e pessoalmente o relacionamento
entre seres humanos.
LONGEVIDADE. Vida longa, dilatada; Qualidade de longevo, que tem muita idade;
grandevo, idoso (CUNHA, 1986)
PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS. É entendida como um termo
abrangente que define a pessoa como “a que apresente, em caráter permanente ou
temporário, algum tipo de deficiência física, sensorial, cognitiva, múltipla, condutas
típicas ou altas habilidades, necessitando por isso de recursos especializados para
desenvolver mais plenamente seu potencial e/ou superar ou minimizar suas
dificuldades” (BRASIL / 1994).
SAÚDE. Estado de equilíbrio e completo bem-estar físico, mental e social (OMS)
SÍNDROME DE DOWN. Anomalia de crianças com trissomia do cromossomo 21, mais
conhecida como mongolismo, devido à proximidade de aparência com os mongóis. É
uma doença congênita que se caracteriza por apresentação de pálpebras ablíquas,
nistagmo (cochilo, ato de dormitar), orelhas pequenas, nariz pequeno, pescoço largo,
mão e dedos curtos, penes pequeno, adiposidade, cabelos lisos e bonitos, déficit
mental, problemas respiratórios e movimentação lenta. As crianças com Síndrome de
25
Down apresentam-se geralmente dóceis e interessados no aprendizado, mas mostram-
se inseguras, principalmente em relação as irregularidades do solo e altura.
26
CAPÍTULO II
OS CAMINHOS METODOLÓGICOS
Este capítulo demonstra o modelo de estudo, o tipo de pesquisa, a seleção da
amostra, o desenvolvimento do instrumento da pesquisa, a construção do instrumento
de pesquisa, a sua validação e o tratamento de dados.
Modelo de estudo
Esta investigação caracteriza-se como uma pesquisa descritiva, do tipo de
investigação Survey com questionário e com delineamento ex post facto.
Thomas e Nelson (2002) advertem quanto a importância da pesquisa descritiva
ao afirmar que ela é “um estudo de status e é amplamente utilizada na educação e nas
ciências comportamentais”. Os autores consideram que o valor da pesquisa descritiva
se baseia na observação, na análise e na descrição objetiva e completa dos fatos o que
possibilita a resolução dos problemas e, conseqüentemente, leva à melhoria das
situações práticas.
Flegner & Dias (1995) corroboram também com esta idéia ao discorrer que o
método descritivo “é utilizado para a obter informações acerca de condições existentes,
com respeito as variáveis ou condições numa situação”.
O tipo de pesquisa utilizada é a investigação (survey) que é usado não para
descrever condições atuais, mas também para fazer as comparações destas condições
com critérios predeterminados ou para avaliação de eficiência dos problemas”
(FLEGNER & DIAS 1995)
27
O delineamento ex post facto é freqüentemente chamado de comparação causal
e pode se utilizar “de variáveis que ocorrem na seleção dos indivíduos ou dos fatos
onde elas podem ou não estar presente de maneira forte ou fracas”. Assim, ao se
estudar grupos diferentes se tentam determinar os antecedentes diferenciais e leva-se
em consideração a comparação “entre dois ou mais grupos, um dos quais contém pré-
requisitos, supostamente, os antecedentes em questão, e o outro não” (FLEGNER,
1995).
Os fenômenos de situações reais do campo de intervenção serão analisados
ligando os fatos ao seu conhecimento, observam-se as disposições recíprocas das
diferentes partes do todo e as suas relações com os problemas envolvidos com os
mesmos.
Segundo Gil (1991), basicamente neste delineamento “são tomadas como
experimentais situações que se desenvolvem naturalmente e trabalha-se sobre elas
como se estivessem submetidas a controles".
Esquema de Desenvolvimento e Organização do Trabalho
A pesquisa pode ser expressa por esquema de desenvolvimento e organização
do trabalho que expõe os passos seguidos numa lógica, de acordo com as
necessidades que o próprio estudo requeria durante o seu desenvolvimento. Para se
entender melhor o desenvolvimento do estudo, faz-se necessário uma visualização
através do esquema a seguir:
28
CAPÍTULO III – Referencial de Apoio ao Estudo
- Portadores de Necessidades Especiais
- Síntese sobre a Deficiência Mental e Síndrome
de Down
- Esporte Adaptado no Esporte Contemporâneo
- Visão de Esporte segundo Parlebas
- A Capoeira: Histórico e Características (
Capoeira Adaptada para Deficiente Mental e
Síndrome de Down)
Desenvolvimento da Pesquisa
(Categorias, Instrumentos e Validação)
Seleção das categorias
Hierarquização pelos
especialistas
Seleção das categories
Elaboração do questionário com
as 4 categorias mais votadas
Validação do
questionário por
especialistas
Elaboração do questionário
definitivo
Aplicação do questionário e
coleta dos dados
CAPÍTULO II – Caminhos Metodológicos
- Modelo de Estudo
- Esquema de desenvolvimento
estudo
- Amostra
- Instrumento do estudo
CAPÍTULO IV – Apresentação e
Discussão dos Resultados
CAPÍTULO V – Conclusões e Recomendações
CAPÍTULO I - O Problema
- Introdução
- Objetivos
- Questão de Estudo
- Justificativa e Relevância
- Delimitação de Estudo
-
Conceitos Básicos
29
Amostra
A amostra principal do tipo intencional ou proposital foi constituída de 40
participantes sendo 23 do gênero masculino (16 portadores de Síndrome de Down e 07
com Deficiência Mental) e 17 do gênero feminino (09 portadores de Síndrome de Down
e 08 com Deficiência Mental). Foi estabelecido como critério de seleção, praticantes de
capoeira adaptada, a pelo menos 1 (um) ano de prática da modalidade, todos sitiados
na cidade do Rio de Janeiro. Devido à dificuldade de respostas dos participantes foram
solicitados os depoimentos dos pais, no preenchimento do questionário.
Instrumentos do Estudo
O instrumento utilizado para a coleta dos dados foi um questionário estruturado
contendo questões direcionadas ao tema de estudo. Inicialmente foi selecionado de
acordo com a literatura 08 (oito) categorias que foram: auto-estima, estilo de vida,
saúde, cooperação, inclusão social, convivência humana, condição física e
longevidade, e suas respectivas definições, voltadas para o esporte adaptado
(capoeira). Esse instrumento inicial foi submetido a 15 profissionais da Área de
Educação Física que trabalham diretamente com portadores de necessidades
especiais. A intenção era que o entrevistado ordenasse os conceitos dos valores de
acordo com o grau de importância. Foram atribuídos valores de 01 (um) a 08 (oito),
onde o 1 (um) correspondeu ao menor valor de classificação e o 08 (oito) o maior valor
atribuído, objetivando coletar dados sobre os valores mais importantes no esporte
adaptado (capoeira). No caso de resultados iguais em número de pontuação, a
categoria que obteve o maior número de notas altas teve ascendência sobre a outra.
Em seguida foi confeccionado o questionário com base nos quatro valores mais
30
voltados, sendo 3 (três) perguntas relacionadas a cada valor, perfazendo um total de 12
perguntas. Este instrumento foi construído por etapas, descritas a seguir, validado por
quatro doutores, e aplicado aos pais dos praticantes da capoeira adaptada.
VALORES PONTOS
1 º Lugar: Inclusão Social 110
2 º Lugar: Auto-Estima 91
3 º Lugar: Cooperação 80
4 º Lugar: Convivência Humana 70
5 º Lugar: Saúde 62
6 º Lugar: Condição Física 51
7 º Lugar: Estilo de Vida 50
8 º Lugar: Longevidade 26
QUADRO 1 – Valores relacionados a partir da incidência de votos
Os valores mais votados e considerados para efeito do estudo foram: Inclusão
social, auto-estima, cooperação e convivência humana.
Validação do questionário
As categorias (valores) mais votadas pelos especialistas foram extraídas do
questionário inicial. O questionário teve seu conteúdo analisado detalhadamente e
validado por professores, mestres e doutores atuantes nas áreas de Educação Física e
Educação. De acordo com o parecer, e sugestões dos validadores foi formulado o
questionário definitivo, que foi novamente analisado e validado pelos mesmos. Dessa
forma foi estabelecido o instrumento do estudo definitivo, o questionário estruturado,
possibilitando o desenvolvimento da pesquisa (vide Anexo 2).
Coleta de Dados
Após a aplicação do questionário, na amostra, os dados foram coletados pelo
próprio autor, no contato direto com os pais dos alunos de capoeira adaptada e
31
realizada no segundo semestre de 2006. À respeito da aplicação do questionário de
uma forma direta, Richardson (1985), enuncia que desta forma, existe menos
possibilidade de os entrevistados não responderem o questionário ou de deixarem
algumas perguntas em branco.
Assim sendo, o mesmo autor, complementa afirmando que no contato direto, o
pesquisador pode explicar e discutir os objetivos da pesquisa e do questionário,
responder as dúvidas que os entrevistados tenham em certas perguntas.
Para complementar a coleta de dados foi feita entrevistas de caráter informal
com os capoeiristas, com intuito de reforçar os resultados obtidos. Desta forma, tentou-
se eliminar possíveis tendências para ceder a sugestões no seu uso. Este processo é
sustentado por Gressler (1983), quando enuncia que:
Entre os principais propósitos da entrevista encontram-se o de auxiliar na
identificação das variáveis e suas relações, sugerir hipóteses e guiar outras
fases da pesquisa, coleta de dados afim de comprovar hipóteses e
suplementar outras técnicas de coleta de dados.
Em resumo, pode-se afirmar que o questionário evidenciou ter o seu raio de
atuação suficiente para caracterizar os conjuntos de acontecimentos no início deste
capítulo. Entretanto, notou-se que a sua estabilidade interna se mostrou aceitável,
possibilitando chegar as informações necessárias ao estudo. Assim sendo, as questões
formuladas apresentaram um grau de objeção harmônico com a capacidade
interpretativa dos informantes.
Tratamento Estatístico
Foi realizada somente a Estatística Descritiva em função da convergência ao tipo
de pesquisa, o que encontra respaldo em Costa Neto (2002) e Bunchaft Kellner (1999).
Portanto, aplicou-se a análise de freqüência absoluta e relativa.
32
CAPÍTULO III – REFERENCIAL DE APOIO AO ESTUDO
A finalidade deste capítulo foi desenvolver uma revisão de literatura de apoio ao
estudo, sobre portadores de necessidades, onde foi feita uma síntese sobre a
Deficiência Mental e a Síndrome de Down. A seguir, investigou-se a visão do Esporte
Contemporâneo, abordando-se em especial o esporte adaptado e a visão de Esporte
segundo Parlebas. Por último, nesta mesma perspectiva investigou-se a história da
capoeira e as características da capoeira dentro do contexto do esporte adaptado.
PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS
Hoje, a questão da inclusão permeia nosso discurso político, não somente na
área de deficiências. E ele tem que ser coerente, com nossa prática, tanto
internamente, como movimento, quanto na nossa relação com o público em geral.
Segundo Santos (2003), é necessário que mudemos o sistema de valores que
define vencer como acumular símbolos de prestígio que fazem uma pessoa se sentir
superior a outras pessoas. Vencer é quando se preenche seu potencial pessoal e passa
a criar uma vida com qualidade e dignidade para si e para todos, onde a vida não é um
jogo de criança que necessita de vencedores e perdedores.
O preconceito e a discriminação são a base de exclusão. Por outro lado, o
conceito de inclusão é holístico e somente pode existir com sucesso se for absorvido e
trabalhado por toda a sociedade, em conjunto.
Entre os “velhos paradigmas” havia inicialmente a institucionalização, onde todos
os que eram “diferentes” eram segregados, tratados, em isolamento do contexto social.
33
Mais tarde vieram os padrões de “normalização” e “integração”, através dos qual a
sociedade desejava “adaptar ou encaixar” aqueles considerados “diferentes” ao status
quo existente uma sociedade que exclui tudo que não se adapta inteiramente à sua
estrutura.
Valores como tolerância, solidariedade e cooperação devem perder seu estigma
quase que religioso e se tornarem parte de nossas vidas diárias – conceitos para serem
praticados verdadeiramente, com a mente e com coração.
Segundo Santos et al. (2001), o conceito de inclusão pode ser traduzido por
“oportunidade de ampliação do olhar para as diferentes realidades, ocasionando
condições iguais de desenvolvimento para todas as crianças”.
Integração é um processo espontâneo e subjetivo, que envolve direta e
pessoalmente o relacionamento entre seres humanos (GLAT, 1995). Se não levarmos
em conta o aspecto psicossocial, corre-se o risco de tornarem-se reducionistas.
A integração social surgiu como oposição à prática da exclusão social, em seu
sentido total, eram consideradas inválidas, inúteis e incapazes para trabalhar. Nas
últimas décadas tem sido o tema mais discutido no Brasil.
Atualmente a prática da integração social dá-se de três formas, segundo Sassaki
(1997):
1) Pela inserção das pessoas com deficiência que conseguem utilizar os espaços
físicos e sociais, os programas e serviços, sem nenhuma modificação da sociedade
(escola, comum, empresa, clube, etc).
2) Pela inserção das pessoas portadoras de deficiência que necessitam de alguma
prestação específica no espaço físico comum, no procedimento da atividade
34
comum, a fim de então, estudar, trabalhar, ter lazer, conviver com pessoas não
deficientes; e,
3) Pela inserção de pessoas com deficiência em ambientes separados dentro dos
sistemas gerais. Exemplo: escola especial junto à comunidade.
Segundo Sassaki (1997), inclusão social seria o processo pelo qual a sociedade
se adapta para poder incluir, em estudos sistemas sociais gerais, pessoas em
necessidades especiais e, simultaneamente, estas se preparam para assumir seus
papéis na sociedade. Trata-se de um processo bilateral no quais as pessoas, ainda
excluídas, e a sociedade buscam equacionar problemas, decidir sobre soluções e
efetivar a equiparação de oportunidades para todos.
Para incluir todas as pessoas, a sociedade deve ser modificada a partir da
compreensão de que é ela que precisa ser capaz de atender as necessidades de seus
membros.
A prática da inclusão social repousa nos seguintes princípios: aceitação das
diferenças individuais, valorização de cada pessoa, a convivência dentro da diversidade
humana e a aprendizagem através da cooperação.
Correr (2003) discutiu em seu artigo a importância de se levar em consideração a
qualidade de vida de pessoas com deficiência principalmente no período em que
passam da adolescência para a vida adulta. O autor faz uma reflexão teórica sobre os
aspectos envolvidos na questão da qualidade de vida. Relaciona a perspectiva
subjetiva e a perspectiva objetiva: as escolhas pessoais e as convenções universais; as
necessidades pessoais e as expectativas sociais; as intervenções pessoais e as
políticas de desenvolvimento da sociedade. O estudo concluiu que qualidade de vida
deve ser compreendida por esse complexo conjunto de fatores, segundo os quais, o
35
sujeito deve adquirir alguns domínios específicos para que desempenhem de maneira
satisfatória os papéis adultos.
Segundo Xavier (2000) a tarefa mais importante do educador é ensinar a criança
a conviver, a se situar como pessoa dentro do grupo. Para isso é necessário que se
ofereçam experiências que façam com que ela descubra o seu mundo, as relações
entre as coisas e as pessoas, entre sua pessoa e os outros e, principalmente, que
descubra as suas próprias possibilidades e tenha a oportunidade de fazer pleno uso
delas. É importante ressaltar que o desenvolvimento varia de indivíduo para indivíduo e
que as práticas pedagógicas na escola tem de ser estabelecidas de acordo com as
necessidades dos educandos levando em conta seu desenvolvimento cognitivo e
biopsicosocial.
Verbrugge e Gette (1994) apud Correr (2003), apontam a deficiência como um
produto resultante da relação entre o sujeito (que pode ou não ser portador de
patologias) e as exigências do meio em que ele vive. Este meio pode oferecer-lhe
condições de participação promovendo mudanças e/ou adaptações nas demandas da
vida comunitária, ou pode também desconsiderar suas diferenças e suas dificuldades
de acesso.
Omote (1995) apud Correr (2003), faz a leitura da deficiência como uma
condição social embora aparentemente iniciada na consideração da diferença, é
construída socialmente, a partir de desvalorização por parte da audiência social.
Aranha (1995 apud CORRER, 2003) propõe ser a deficiência uma condição
social caracterizada pela limitação ou impedimento da participação da pessoa diferente
nas diferentes instâncias do debate de idéias e de tomada de decisões na sociedade.
36
Desde a Idade Média, as relações da sociedade com a pessoa com deficiência
foram marcadas por práticas de eliminação física, de eliminação social, fonte de
piedade, de intolerância, de curiosidade e de estudo (ROCHA, 1997 apud CORRER,
2003).
Halpern (1993 apud CORRER, 2003), discutiu em seu artigo a importância de se
levar em consideração a qualidade de vida de pessoas com deficiência, principalmente
no período em que se passam da adolescência para a vida adulta. O autor faz uma
reflexão teórica sobre os aspectos envolvidos na questão da qualidade de vida.
Os estudos reconhecem a importância de serem criados recursos e colocados à
disposição de todos, para que todos possam acessá-los e assim se sentirem realizados
tanto no plano das necessidades objetivas (alimentação, vestuário, moradia, saúde e
educação) como plano das necessidades subjetivas (satisfação pessoal, felicidade,
filosofia de vida, preferência por tipo de lazer).
Os suportes para o lazer destacam-se como sendo procedimentos que
possibilitam à pessoa com deficiência a vivência do prazer de realizar uma atividade,
sem pressão, sem compromissos de eficiência e sem obrigatoriedade. Ao sujeito com
deficiência e importante que seja viabilizado o acesso a lugares e atividades como:
pesca camping, festas, passeio em parques públicos, visita a parentes ou amigos,
cinema, teatro, circo, e todo e qualquer divertimento que esteja disponíveis aos demais
cidadãos.
37
SÍNTESE SOBRE A DEFICIÊNCIA MENTAL E SÍNDROME DE DOWN
Não existem os diferentes, os especiais, os excepcionais. Cada criança tem a
sua diferença, sua especialidade, sua excepcionalidade. Diversidade humana deveria
ser a palavra de ordem, estampada em letras garrafais em cartazes espallhados pelo
mundo no dia das crianças, no dia dos professores, no Dia das Mães, dos Pais, etc.
reside o paradigma da liberdade. Buscar o normal é como acreditar em mula sem
cabeça, em bicho papão, em curumim, em sereia encantada (WEMECK, 2002).
Segundo (LEJEUNE, 1991), a Síndrome de Down foi descrita pela primeira vez
mais de um século (1866) por um médico inglês, Dr. John Langdon Down. Assim
este autor classificou as crianças com essa síndrome como mongóis devido às
semelhanças físicas, para os ocidentais, que estas tinham com os mongóis, povo
asiático.
Segundo Pueschel (1995), normalmente encontramos 46 cromossomos em cada
célula humana normal. Estes cromossomos estão dispostos em pares, conforme seu
tamanho. São 22 pares de cromossomos “regulares” (autossomos) e dois cromossomos
do sexo, que são o XX na mulher e XY no homem, totalizando 46 cromossomos em
cada célula normal.
Metades dos cromossomos de cada indivíduo são derivadas e a outra metade da
mãe. As células germinativas (espermas e óvulos) têm somente metade do número de
cromossomos encontrado normalmente em outras células do corpo. Tem-se então 23
cromossomos no óvulo e 23 cromossomos no esperma. Em condições normais, quando
o esperma e o óvulo se unem (fecundação) no momento da concepção, haverá um total
de 48 cromossomos na primeira célula (WERNECK, 1992; PUESCHEL, 1995).
38
Segundo Pueschel (1993) enumerou-se os seguintes possíveis fatores que
podem causar a síndrome de Down, fatores como: exposição ao raio X, administração
de certas drogas, problemas hormonais ou imunológicos, espermatocidas e infecções
virais específicas podem vir a concorrer como aparecimento da Síndrome de Down.
Entretanto, um forte argumento através de estudos, que indica que a idade
materna avançada aumenta o risco de nascimento de crianças portadoras de síndrome
de Down (LEFÉVRE, 1981; MUSTAECHI, 1992).
O esporte direcionado às pessoas de deficiência mental surgiu quando Eunice
Kenndy Shriver convidou um grupo de crianças com deficiência mental para
participarem de um churrasco e de jogos externos em sua casa. Foi quando percebeu
que seus convidados apresentavam um potencial maior do que o atribuído a eles.
Assim, tiveram início as Olimpíadas Especiais, em 1962, nos Estados Unidos através
da Fundação Kennedy, um programa nacional de atividades esportivas que oferece a
oportunidade de reunir crianças, praticarem esportes e treinar para competições anuais
em muitas modalidades. Entretanto existia na Europa alguma atividade esportiva
para pessoas portadoras de deficiência mental, com caráter demonstrativo
(PUESCHEL, 1995).
No Brasil, o esporte para portadores de deficiência mental teve seu início em
1973, com a Federação Nacional das APAES. Criou-se a Olimpíada Nacional das
APAES, realizada a cada 2 anos.
Rosadas (1989) define o perfil do portador de deficiência mental, como sendo
aquele indivíduo que embora apresente grau de inteligência abaixo da dia, possui
condições de receber programa curricular adaptado às suas condições pessoais, e
39
alcançar ajustamento social e ocupacional. Na idade adulta pode também alcançar
independência econômica parcial ou total.
No entanto, existem diferentes definições de deficiência mental, em função dos
critérios em que se baseiam segundo a Associação Americana de Deficiência Mental:
“Caracteriza-se por registrar um funcionamento intelectual geral
significativamente abaixo da média oriunda do período de
desenvolvimento, concomitantemente com limitações associadas a
duas ou mais áreas da conduta adaptativa ou da capacidade do
indivíduo em responder adequadamente às demandas da sociedade,
nos seguintes aspectos: comunicação, cuidados pessoais, habilidades
sociais, desempenho na família e comunidade, independência na
locomoção,saúde, e segurança. Desempenho escolar, lazer e
trabalho” (BRASIL, MEC/SEESP, 1994).
As características da deficiência mental são muito variadas e dependem do nível
intelectual, sendo o comprometimento motor e as dificuldades de adaptação social as
mais evidentes. Bueno e Resc (1995) apresentam as