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UFRJ
A CONTRIBUIÇÃO DA ARQUITETURA NA CONCEPÇÃO DE
EDIFICAÇÕES PENAIS NO RIO DE JANEIRO
Lídia Quièto Viana
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Arquitetura, Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
como parte dos requisitos necessários à obtenção do título
de Mestre em Ciências em Arquitetura, Linha de pesquisa
Qualidade do Lugar e Cultura Contemporânea: uma
proposta de revisão conceitual na perspectiva das redes
de fluxo.
Orientador: Paulo Afonso Rheingantz
Co-Orientadora: Alice de Barros Horizonte Brasileiro
Rio de Janeiro
Março 2009
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ii
A CONTRIBUIÇÃO DA ARQUITETURA NA CONCEPÇÃO DE
EDIFICAÇÕES PENAIS NO RIO DE JANEIRO
Lídia Quièto Viana
Orientador: Paulo Afonso Rheingantz
Co-Orientadora: Alice de Barros Horizonte Brasileiro
Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Arquitetura,
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como
parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Ciências em Arquitetura, Linha
de pesquisa Qualidade do Lugar e Cultura Contemporânea: uma proposta de revisão conceitual
na perspectiva das redes de fluxo.
Aprovada por:
_______________________________________________
Prof. Dr. Paulo Afonso Rheingantz [Orientador]
[PROARQ/FAU/UFRJ]
_______________________________________________
Prof. Dr. Alice de Barros Horizonte Brasileiro [Co-Orientadora]
[DTC/FAU/UFRJ]
_______________________________________________
Prof. Dr. Giselle Arteiro Nielsen Azevedo
[PROARQ/FAU/UFRJ]
_______________________________________________
Prof. Dr. Luiz Carlos Menezes deToledo
[UERJ]
Rio de Janeiro
Março 2009
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iii
Viana, Lídia Quièto.
A Contribuição da Arquitetura na Concepção de Edificações
Penais no Rio de Janeiro/ Lídia Quièto Viana. – Rio de Janeiro:
UFRJ/FAU, 2009.
xi, 303 f.: il.; 31 cm.
Orientador: Paulo Afonso Rheingantz
Co-Orientador: Alice de Barros Horizonte Brasileiro
Dissertação (mestrado) – UFRJ/ PROARQ/ Programa de
Pós-graduação em Arquitetura, 2009.
Referências Bibliográficas: f. 259-267.
1. Arquitetura Penal. 2. Rio de Janeiro. 3. Qualidade do
Lugar. 4. Projeto de Arquitetura. I. Rheingantz, Paulo Afonso. II.
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, Programa de Pós-graduação em
Arquitetura. III. Título.
iv
DEDICATÓRIA
Ao meu querido João Pedro
v
AGRADECIMENTOS
Aos meus sábios orientadores, por serem acima de tudo, professores com olhos
de ver, que tanto me ensinaram com a educação das habilidades e das
sensibilidades e com quem espero poder continuar aprendendo sempre.
Ao Prof. Paulo Afonso Rheingantz, meu orientador, pela orientação constante,
segura e incansável – mesmo quando distante –, pelo incentivo, apoio e pela
incursão no caminho da objetividade entre parentesis.
À Prof. Alice Brasileiro, minha co-orientadora, por ter me acolhido com tanta
dedicação na ausência do Paulo, pela orientação e disponibilidade constantes, por
sua sensatez, pela compreensão e empatia que estabelecemos e tanto contribuiu
nos momentos críticos da pesquisa.
Ao meu eterno professor, William Bittar, por ter despertado a minha curiosidade
sobre as prisões, pela ajuda nas pesquisas, principalmente sobre o caso
brasileiro, por ter acreditado sempre, por sua presença e amizade constantes.
À CAPES e ao CNPq, pela bolsa de estudos que permitiu maior dedicação à
pesquisa.
Ao engenheiro Eduardo König, pelas ricas informações que muito contribuiram
para o desenvolvimento do trabalho, mostrando a importãncia da experiência nos
projetos das unidades penais.
Ao arquiteto Claudio Taulois, pelo rico material, gentimente cedido, e pelas
valiosas informações que muito contribuiram para o desenvolvimento do trabalho.
Ao Prof. Wilson Jorge, pelas informações cedidas.
A todos os funcionários da Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de
Janeiro e São Paulo, pela contribuição inestimável para o desenvolvimento do
trabalho, fornecendo informações que possibilitaram a apreensão e o
conhecimento mais profundo de um ambiente tão singular.
À Prof. Giselle Arteiro, que acompanha minhas pesquisas sobre as prisões desde
a graduação, pelas observações pertinentes na qualificação, pelo apoio e
acolhimento na ausência do Paulo.
À Suzana Martins, por ter possibilitado o acesso a textos raros sobre o tema,
indisponíveis para o público.
À Prof. Vera Tâgari, pelo esclarimento de tantas e difíceis dúvidas.
À Prof. Lais Bronstein, pelo rico aprendizado e material cedido.
À Prof. Claudia Krause, pelo apredizado, incentivo e apoio.
À Prof. Claudia Nóbrega pelo material cedido.
Ao Prof. Luiz Carlos Toledo, pelo material cedido e pelas pertinentes observações
na qualificação
vi
Às amigas que ganhei do PROARQ, Marise Machado, Patrícia Biasi e Denise
Nunes, pela amizade, incentivo, apoio e por compartilharem gentilmente seu
conhecimento em nossas ricas discussões.
Ao meu tio e grande amigo, Adeilton Bairral, pela presença constante em minha
vida, pelas ricas discussões sobre o trabalho e seus caminhos, pela amizade e
apoio.
À minha querida mãe, Neuza Quièto Viana, pelo apoio e carinho de sempre e pela
valiosa e incansável ajuda nas traduções e revisões do trabalho.
Ao meu amigo, Amaro Guimarães, pela sua contribuição, carinho e amizade.
A Bernardo Pires Ferreira, pela facilitação no estabelecimento de alguns contatos.
À Maria da Guia, pela paciência e atenção.
Aos demais professores, colegas e funcionários do PROARQ pela troca de
experiências.
vii
RESUMO
A CONTRIBUIÇÃO DA ARQUITETURA NA CONCEPÇÃO DE
EDIFICAÇÕES PENAIS NO RIO DE JANEIRO
Lídia Quièto Viana
Orientador: Paulo Afonso Rheingantz
Co-Orientador: Alice de Barros Horizonte Brasileiro
Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em
Arquitetura, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro -
UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Ciências em
Arquitetura.
Fundamentado em abordagens derivadas das transformações do pensamento científico
contemporâneo: história crítica, tipologia arquitetônica e abordagem experiencial, este trabalho
apresenta a evolução da arquitetura penal, no Brasil e no mundo, enfatizando unidades na Cidade
do Rio de Janeiro em uso atualmente. Justifica-se pela escassez de pesquisas na área, pelas
evidências de crise no sistema penal brasileiro e pela constatação, por profissionais da área, da
superficialidade com que o tema vem sendo tratado atualmente em alguns casos. Tem como
objetivo principal determinar de que forma a arquitetura e a concepção do espaço penal
podem contribuir na resolução dos problemas atuais das edificações penais, enfatizando o
caso do Rio de Janeiro. Compreendendo que o sistema e espaço penal se constituem a partir de
valores culturais, locais e temporais, a pesquisa apresenta as questões relacionadas à prisão, que
foram direcionando a sua configuração, a aplicação dos modelos e tipologias e suas
transformações, a evolução no Brasil, o atual sistema penal brasileiro, as diretrizes para a
concepção de suas edificações e as contribuições derivadas do entrelaçamento do estudo de
projetos, normas, relatos de profissionais da área e experiências em campo. O desenvolvimento
da pesquisa trouxe a constatação do caráter transdisciplinar e da importância do entrelaçamento
entre o conhecimento técnico, acadêmico e prático na arquitetura penal. Apresenta, como
resultado, alguns aspectos do espaço penal onde a arquitetura pode atuar positivamente:
segurança, salubridade, humanização do espaço, contribuindo principalmente na finalidade da
Instituição: a ressocialização do preso.
Palavras-chave: Arquitetura penal, Rio de Janeiro, Qualidade do Lugar, Projeto de Arquitetura
Rio de Janeiro
Março 2009
viii
ABSTRACT
THE CONTRIBUTION OF ARCHITECTURE IN CONCEPTION OF
PENAL BUILDINGS IN RIO DE JANEIRO
Lídia Quièto Viana
Orientador: Paulo Afonso Rheingantz
Co-Orientador: Alice de Barros Horizonte Brasileiro
Abstract da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em
Arquitetura, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro -
UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Ciências em
Arquitetura.
Based in approaches derived of contemporary scientific though reader: critical history, architectural
typology and Experiential Cognition, this work presents the evolution of prison architecture in Brazil
and in the world, emphasizing penal units in Rio de Janeiro actually in use.
Justify for the scarcity in researches in this area, in the evidences of penal system crisis, and in the
confirmation, of the area professionals, of the superficiality that the theme have been treated
actually in some cases. The principal objective is determinate how the architecture and the
conception of penal space can contribute in resolution of actually problems in the penal
buildings, emphasizing the case of Rio de Janeiro. Comprising that the penal system and
space is constitute from cultural, local and temporal values, the research presents prison related
questions that have been directing its configuration, the application of models and typologies and
transformations, the evolution in Brazil, the actual Brazilian penal system, the directresses for the
conception of its buildings, and the contribution derived of the interlacement of the study of
architectural projects, rules, relates of area professionals and experiences in the place. The
development of research brought the confirmation of the transdisciplinar character and the
importance of the interlacement of the technical, academic and practical knowledge in prison
architecture. Present as result, some aspects in penal space where architecture can actuate
positively: security, salubrity, and space humanization, contributing principally in the finality of
Institution: the prisoner resocialization.
Key-words: Prison Architecture, Rio de Janeiro, Quality of Place, Architectural Planning
Rio de Janeiro
Março 2009
ix
SUMÁRIO
Ficha catalográfica iii
Dedicatória iv
Agradecimentos v
Resumo em português
vii
Resumo em inglês viii
Sumário ix
Lista de quadros xi
Lista de Figuras
xii
APRESENTAÇÃO
xx
INTRODUÇÃO
01
CAPITULO 1
VISÃO DE MUNDO E ESPAÇO PENAL 08
1.1. A Construção do pensamento Contemporâneo 11
1.2. História Crítica 20
1.2.1. Arqueologia do Saber 23
1.2.2. Genealogia do Saber 27
1.3. Abordagem tipológica na Arquitetura Contemporânea 30
1.4. Abordagem Experiencial: transformando a atitude de conhecer
35
CAPITULO 2 – MATERIAIS E MÉTODOS 41
2.1. Aplicação do Conceito de Arqueologia do Saber 44
2.1. Aplicação do Conceito de Genealogia do Saber 45
2.3. Entrevistas 46
2.4. Observação Incorporada 48
2.5. Percurso do Trabalho
50
CAPITULO 3
VISÃO DE MUNDO E CONCEPÇÃO DO ESPAÇO PENAL 52
3.1. Precedentes: condições de existência 54
3.2. Instituição da Pena de Liberdade 72
3.3. Transformações e Ajustes
84
CAPITULO 4
ARQUITETURA PENAL: TIPOLOGIAS E MODELOS 95
4.1. Primeiras experiências 97
4.2. Modelos Penais e Arquitetura 106
4.3. Modelos Penais e suas Variações 129
4.4. Tipologias e Releituras na Arquitetura Penal 136
x
CAPITULO 5
EVOLUÇÃO DA ARQUITETURA PENAL NO BRASIL 147
5.1. Período Colonial: precedentes 149
5.2. Império: a visão sanitária 154
5.3. Instituição da República: visão progressista 159
5.4. Transformações Recentes 167
5.5. Linha do Tempo 180
5.6. O Atual Sistema Penal Brasileiro
184
CAPITULO 6
PROJETOS, RELATOS E IMPRESSÕES NO RIO DE JANEIRO 194
6.1. Projetos, Relatos e Impressões 196
6.2. Considerações sobre a Contribuição da Arquitetura
241
CONSIDERAÇÕES FINAIS
250
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
259
ANEXO 1
Fichas de Entrevistas Semi-Estruturadas 268
ANEXO 2
Fichas de Entrevistas Não-Estruturadas 271
ANEXO 3
Relato Experiencial: Bangu IV 276
ANEXO 4
Relato Experiencial: Talavera Bruce 285
ANEXO 5
Relato Experiencial: Unidade Materno Infantil 293
ANEXO 6
Desenho do Talavera Bruce, por uma presa 298
xi
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 Desdobramentos do pensamento contemporâneo 10
Quadro 2 Arqueologia do Saber 24
Quadro 3 Genealogia do Saber 28
Quadro 4 Modelo e Tipo 32
Quadro 5 Processo cognitivo 38
Quadro 6 Materiais e métodos 43
Quadro 7 Percurso do trabalho, fundamentos e suas questões 51
Quadro 8
Elementos positivos de projeto em algumas unidades penais no Rio
de Janeiro
247
Quadro 9 Objetivos, materiais e métodos e resultados 252
xii
LISTA DE FIGURAS
Figura Título Página
Capítulo 3
Fig. 01 – Cidade medieval 57
Fig. 02 – Nível inferior das prisões, na Escócia 60
Fig. 03 – Prisão de Pierrefons, Château, França 60
Fig. 04 –
Prisão não identificada, na França
61
Fig. 05 – Prisão de Newgate, Londres 61
Fig. 06 – Execução pública, suplício 62
Fig. 07 – Planta da pequena prisão do arquiteto Joseph Furttenbach,1635 67
Fig. 08 – Planta da grande prisão do arquiteto Joseph Furttenbach,1635 67
Fig. 09 – Casa de Correção San Michele, 1705 69
Fig. 10 – Casa de Correção de Milão, 1775 70
Fig. 11 – Casa de Força Ghent, 1772 71
Fig. 12 – Prisão panóptica de Bentham 74
Fig. 13 – Interior de uma prisão panóptica 74
Fig. 14 – Prisão Walnut Street, EUA 75
Fig. 15 – Planta da prisão Walnut Street, EUA 75
Fig. 16 – Prisão de Cherry Hill, EUA 76
Fig. 17 – Prisão de Pentonville, Londres 76
Fig. 18 – Galeria de celas de Auburn 77
Fig. 19 – Prisão de Fresnes 81
Fig. 20 – Youth Prison, EUA, 1968 83
Fig. 21 – Prisão de Blundeston, Inglaterra 86
Fig. 22 – Bloco de vivência da prisão de Blundeston, Inglaterra 88
Fig. 23 – Dayroom, prisão no Arizona, EUA 87
Fig. 24 – ADX Supermax, EUA, 1994 87
Fig. 25 – Penitenciária de Orange, EUA, 1991 88
Fig. 26 – Supermax, Califórnia 89
Fig. 27 – Pátio individual, Pelican Bay 89
Fig. 28 – Prisão de Minnesota, EUA, pátios para banho de sol individual 90
Fig. 29 – Prisão de Pelican Bay, EUA 90
Fig. 30 – Prisão privatizada americana 91
Fig. 31 – Prisão privatizada na Inglaterra, 1997 91
Fig. 32 – Prisão de Manchester, 1993 92
xiii
Capítulo 4
Fig. 33 – Malefizhaus, Alemanha, 1627 98
Fig. 34 – Planta do primeiro pavimento, térreo e subsolo da prisão de Kassel,
Alemanha, 1720
99
Fig. 35 – Projeto de um hospital, 1626 101
Fig. 36 – Hospital dos Inválidos, 1670 101
Fig. 37 – Biblioteca de Boulée, 1784 101
Fig. 38 – Projetos de museus, 1778, 1779 101
Fig. 39 – Terceiro projeto de Newgate, Inglaterra, 1769 102
Fig. 40 – Casa de Força Ghent, 1772 103
Fig. 41 – Casa de Força Ghent, 1772 104
Fig. 42 – Projeto da prisão de Milbank, Inglaterra, 1812 105
Fig. 43 – Escola de Medicina, Paris, 1771 106
Fig. 44 – Concert Hall, 1770 106
Fig. 45 – “Lunatic Tower”, Viena, 1784 107
Fig. 46 – Hotel-Dieu, França, 1785 107
Fig. 47 – Projeto de Ledoux, fábrica, 1808 107
Fig. 48 – Projeto de Durand, biblioteca, 1809 107
Fig. 49 – Gloucester house, 1789. Planta do segundo pavimento 108
Fig. 50 – Penitenciária de Virgínia. Planta original de Bugniet, 1765 109
Fig. 51 – Penitenciária de Virgínia, Richamond, 1803 109
Fig. 52 – Panóptico de Bentham, 1791 111
Fig. 53 – Edinburgh Bridewell, 1791 112
Fig. 54 – Edinburgh Bridewell, 1791 112
Fig. 55 – Penitenciária do Ocidente, EUA, 1833 113
Fig. 56 – Projeto para hospital, 1720 120
Fig. 57 – Projeto para Hotel-Dieu, 1774 120
Fig. 58 – Planta da Penitenciária de Cherry Hill, 1822 116
Fig. 59 – Penitenciária de Cherry Hill, 1822 117
Fig. 60 – Prisão de Pentonville, Londres 118
Fig. 61 – Corte da galeria de celas de Pentonville. 119
Fig. 62 – Ponto central de Pentonville. 119
Fig. 63 – Capela da Penitenciária de Pentonville 119
Fig. 64 – Planta da Penitenciária Nacional do México 120
Fig. 65 – Pátios individuais da Penitenciária Nacional do México 120
Fig. 66 – Galeria de celas e torre central (ao fundo) da Penitenciária Nacional
do México
120
Fig. 67 – Planta da Prisão de Auburn 121
Fig. 68 – Galeria de celas da Prisão de Auburn 121
Fig. 69 – Prisão de Sing Sing, EUA, 1826 122
xiv
Fig. 70 – Galeria de celas da Prisão de Sing Sing, EUA, 1826 122
Fig. 71 – Planta da Penitenciária de Ohio, EUA, 1834 123
Fig. 72 – Prisão La Santé, França, 1862 124
Fig. 73 – Prisão Rendsburg, Alemanha, 1870 124
Fig. 74 – Fachada do Greenwich Hospital, Inglaterra, 1696 124
Fig. 75 – Planta do Greenwich Hospital, Inglaterra, 1694 125
Fig. 76 – Perspectiva da Colônia Mettray, França, 1840 125
Fig. 77 – Planta da Colônia Mettray, França, 1840 126
Fig. 78 – Herbert Hospital, 1860 126
Fig. 79 – Hospital para crianças, 1872 126
Fig. 80 – Wormwood Scrub Prison, Inglaterra, 1874 127
Fig. 81 – Prisão de Fresnes, França, 1898 128
Fig. 82 – Prisão de Fresnes, França, 1898 128
Fig. 83 – Capela da Prisão de Fresnes, França, 1898 128
Fig. 84 – Prisão de Minnesota, 1914 131
Fig. 85 – Eastern State Penitentiary da Pensilvânia, 1927 132
Fig. 86 – Prisão Lewisburg, EUA, 1927 132
Fig. 87 – Instituição Correcional de Ohio, EUA, 1955 133
Fig. 88 – Prisão na Angola, 1955 134
Fig. 89 – bloco em “T”, Blundeston 135
Fig. 90 – bloco linear, prisão de Minnesota 135
Fig. 91 – Foto aérea de Stateville, EUA, 1916 135
Fig. 92 – Bloco de celas de Stateville, EUA, 1916 135
Fig. 93 – Entrada do módulo de vivência, Pelican Bay supermax 137
Fig. 94 – Posto de observação do módulo de vivência, Pelican Bay supermax 137
Fig. 95 – Tipologias de estabelecimentos penais 138
Fig. 96 – Unidades Fleury Mérogis, França, 1967 139
Fig. 97 – Fleury Mérogis, França, 1967 139
Fig. 98 – Bloco de oficinas e bloco de celas ligado ao corredor, Fleury Mérogis,
França, 1967
140
Fig. 99 – cela, Fleury Mérogis, França, 1967 140
Fig. 100 – Prisão de Feltham, Inglaterra, 1975 141
Fig. 101 – Prisão de Feltham, Inglaterra, 1975 141
Fig. 102 –
Prisão em Malmesbury, África do Sul
142
Fig. 103 – Supermax, Africa do Sul 142
Fig. 104 –
York County prison, 2006
142
Fig. 105 – Instituição Correcional Federal, EUA, 1985 143
Fig. 106 – Bloco de celas, Instituição Correcional Federal, EUA, 1985 143
Fig. 107 – United States Penitentiary - Florende, EUA. 1994 144
Fig. 108 – Detalhe da cela, United States Penitentiary - Florende, EUA. 1994 145
xv
Capítulo 5
Fig. 109 – Casa de câmara e cadeia de Ouro Preto e Pelourinho 149
Fig. 110 – Pelourinho e as Igrejas ao fundo, Ouro Preto 149
Fig. 111 – Planta de Jacareí, SP com a casa de câmara e cadeia marcada 150
Fig. 112 – Planta de uma Vila em mato Grosso com a casa de câmara e cadeia
marcada
150
Fig. 113 – Desenho de uma cidade colonial 150
Fig. 114 – Casa de câmara e Cadeia de Mariana 152
Fig. 115 – Planta de situação da casa de câmara e Cadeia de Mariana 152
Fig. 116 – Casa de câmara e Cadeia de Salvador 152
Fig. 117 – Planta de situação da casa de câmara e Cadeia de Salvador 152
Fig. 118 – Desenho de Chamberlland da Prisão do Aljube. 153
Fig. 119 – Cadeia Velha, RJ; em 1919. 153
Fig. 120 – Tribunal da Relação, RJ. 153
Fig. 121 – Fachada da “Cadeia Nova”, 1728 156
Fig. 122 – Plantas da “Cadeia Nova”, 1746 156
Fig. 123 – Projeto da Casa de Correção do Rio de Janeiro, 1834. 157
Fig. 124 –
Hospício Pedro II, RJ
158
Fig. 125 – Hospício Pedro II, RJ 158
Fig. 126 – Santa Casa de Misericórdia, RJ 158
Fig. 127 – Santa Casa de Misericórdia, RJ 158
Fig. 128 – Asilo de Mendicidade, RJ 159
Fig. 129 – Asilo de Mendicidade, RJ 159
Fig. 130 – Casa de Detenção do Recife, PE 159
Fig. 131 – Casa de Detenção do Recife, PE 159
Fig. 132 – Penitenciária do estado de São Paulo 160
Fig. 133 – Vista aérea da Penitenciária do Estado de São Paulo 160
Fig. 134 – Penitenciária José Alkimim 162
Fig. 135 –
Penitenciária José Alkimim, logo após a sua inauguração
162
Fig. 136 –
Penitenciária José Alkimim, vista de um dos blocos de celas e o muro
do pátio
162
Fig. 137 –
Penitenciária José Alkimim, cela.
162
Fig. 138 – Lazareto da Ilha Grande 163
Fig. 139 – Ruína galeria de celas do Instituto Penal Candido Mendes, RJ. 163
Fig. 140 – Foto aérea do Complexo Penitenciário Frei Caneca 163
Fig. 141 – Complexo Penitenciário Frei Caneca. 163
Fig. 142 – Penitenciária Estevão Pinto 165
Fig. 143 – Penitenciária Estevão Pinto, vista do pátio interno. 165
Fig. 144 – Vista geral da Casa de Detenção, SP 166
Fig. 145 – Penitenciária Lemos Brito, BA, 1956 167
xvi
Fig. 146 – Penitenciária Lemos Brito, BA, 1956 167
Fig. 147 – Estatuto do Comando Vermelho 168
Fig. 148 – Foto aérea das novas unidades de Bangu 170
Fig. 149 – Foto aérea do Complexo Penitenciário Nelson Hungria. MG 171
Fig. 150 – Muro divisor entre as unidades do Complexo Nelson Hungria, MG. 171
Fig. 151 – Pátio interno das unidades do Complexo Nelson Hungria, MG. 171
Fig. 152 – Foto do Complexo penitenciário Lemos Brito após suas ampliação 172
Fig. 153 – Unidade padrão em São Paulo, modelo em cruz 172
Fig. 154 – Penitenciária Industrial de Guarapuava 173
Fig. 155 – Penitenciária Industrial de Guarapuava 173
Fig. 156 – Penitenciaria Industrial de Cascavel 173
Fig. 157 –
Manifestação de presos no Carandiru
175
Fig. 158 –
Ônibus queimado nas ruas de São Paulo, uma ação do PCC fora das
unidades penais.
175
Fig. 159 – CRP Presidente Bernardes, SP 176
Fig. 160 – CRP Presidente Bernardes, SP 176
Fig. 161 – Projeto da penitenciária federal de Brasília, DF 177
Fig. 162 – Penitenciária Federal de Catanduvas, PR 178
Fig. 163 – Foto aérea da APAC Santa Luzia 179
Fig. 164 – Fluxograma dos estabelecimentos penais brasileiros 186
Capítulo 6
Fig. 165 – Foto aérea do Complexo Penitenciário de Bangu 197
Fig. 166 – Setorização das novas unidades de Bangu 198
Fig. 167 – Complexo Penitenciário de Bangu. 199
Fig. 168 – Projeto original de Bangu I 200
Fig. 169 – Perspectiva do projeto original de Bangu I. 201
Fig. 170 – Planta baixa de Bangu I 202
Fig. 171 – Esquema volumétrico de uma galeria de celas de Bangu I 202
Fig. 172 – Foto aérea de Bangu I 202
Fig. 173 – Bangu I. 203
Fig. 174 – foto de uma das galerias de Bangu I ocupada pela Polícia Militar após
uma rebelião
203
Fig. 175 – Planta baixa e corte da galeria de celas de Bangu I e II 204
Fig. 176 – Planta baixa da cela de Bangu I e II 204
Fig. 177 – Esquema de montagem dos elementos pré-moldados das celas de
Bangu I e II
205
Fig. 178 – Galeria de celas de Bangu I 207
Fig. 179 – Esquema de uma galeria de celas mais tradicional 207
Fig. 180 – Planta baixa de Bangu II, já modificada 208
Fig. 181 – Foto aérea de Bangu II 208
xvii
Fig. 182 – Foto de uma das galerias de Bangu I ocupada pela Polícia Militar
após uma rebelião.
209
Fig. 183 – Corte da galeria de celas de Bangu II 210
Fig. 184 – Encaixe da peças pré-moldadas, planta da cela de Bangu II 210
Fig. 185 – Detalhamento da luminária de uma cela de Bangu II 210
Fig. 186 – Detalhe dos brises 211
Fig. 187 – Corte da área de apoio e ginásio 211
Fig. 188 – Detalhe da junção das placas de acabamento da cobertura de áreas
comuns
211
Fig. 189 – Projeto do novo Complexo Penitenciário de Bangu 213
Fig. 190 – Perspectiva esquemática das novas unidades de Bangu 213
Fig. 191 – Planta baixa de Bangu III e IV 214
Fig. 192 – Bloco de administração interna e apoio 215
Fig. 193 – Primeiro pavimento do bloco de oficinas/educacional 216
Fig. 194 – Segundo pavimento do bloco de oficinas/educacional 216
Fig. 195 – Bloco do ambulatório médico e cantina 216
Fig. 196 – Planta baixa e corte da galeria de celas e corte de Bangu III e IV 217
Fig. 197 – Cela de Bangu III e IV 218
Fig. 198 – Cela no Carandiru 218
Fig. 199 – Transição da galeria de celas para a circulação principal 219
Fig. 200 – “Cabanas” no pátio do Carandiru 220
Fig. 201 – Fachada principal do bloco intramuros 220
Fig. 202 – Foto aérea da Penitenciária Talavera Bruce e da Unidade materno
Infantil com planta esquemática
223
Fig. 203 – Acesso e bloco da guarda externa 224
Fig. 204 – Bloco da guarda externa 224
Fig. 205 – Capela 224
Fig. 206 – Edificação para a revista de visitantes e entrada para Talavera Bruce 224
Fig. 207 – Planta esquemática da Penitenciária Talavera Bruce e da unidade
materno Infantil
225
Fig. 208 – Planta esquemática da Penitenciária Talavera Bruce e da unidade
materno Infantil
226
Fig. 209 – parte da fachada do bloco de administração 227
Fig. 210 – parte da fachada do bloco de administração 227
Fig. 211 – Pátio principal 228
Fig. 212 – Pátio entre os blocos 228
Fig. 213 – Pátio entre os blocos 228
Fig. 214 – Palestra sobre o câncer de mama no auditório da unidade 229
Fig. 215 – Evento na unidade em dia de visita 229
Fig. 216 – Corredor de acesso a confecção 229
Fig. 217 – Venda de artesanato em dia de visita 229
xviii
Fig. 218 – Salão de beleza 229
Fig. 219 – Corredor principal, mostrando uma das gaiolas e entrada da galeria
marcada
230
Fig. 220 – Corredor principal, ao fundo portão de acesso a um dos pátios, à
esquerda a abertura para a escada de acesso a galeria marcada
230
Fig. 221 – Corte esquemático da galeria dos alojamentos (20 presas) 231
Fig. 222 – Planta esquemática da galeria dos alojamentos (20 presas) 231
Fig. 223 – Croqui da galeria de celas dos alojamentos (20 presas) 231
Fig. 224 – Galeria de celas coletivas (5 presas) 231
Fig. 225 – Planta esquemática do edifício anexo 232
Fig. 226 – Foto da galeria de celas não visitada 232
Fig. 227 – Corte esquemático da galeria de celas 233
Fig. 228 – Planta esquemática da galeria de celas 233
Fig. 229 – Cela 234
Fig. 230 – Detalhe da parede de uma cela 234
Fig. 231 – Cela 234
Fig. 232 – Detalhe com gato de uma das presas 234
Fig. 233 – Edificação principal, Talavera Bruce, desenhada por uma presa e a
planta baixa à direita
236
Fig. 234 – Edificação anexa, Talavera Bruce, desenhada por uma presa e a
planta baixa à direita
236
Fig. 235 – Acesso a Unidade Materno Infantil 237
Fig. 236 – Planta esquemática da unidade materno Infanti 237
Fig. 237 – Entrada da unidade 238
Fig. 238 – Corredor da unidade 238
Fig. 239 –
Lactário da unidade
238
Fig. 240 –
Corte esquemático do alojamento
239
Fig. 241 –
Foto de um dos alojamentos
239
Fig. 242 – Foto de um dos alojamentos 239
Fig. 243 – Unidade materno infantil 240
Fig. 244 – Planta de Bangu III e IV com a marcação das meias paredes de
fechamento do corredor de acesso às galerias de celas
243
Fig. 245 – Galeria de celas com “gaiolas” marcadas 243
Fig. 246 – Corte esquemático de galerias “fundo contra fundo” 244
Fig. 247 – Corte esquemático de galerias com corredor central 244
Fig. 248 – Corte esquemático de galerias com celas/alojamentos somente em
um dos lados
244
Fig. 249 – Corte esquemático de galerias com celas/alojamentos somente em
um dos lados
244
Fig. 250 – Centro de Ressocialização, SP 246
Fig. 251 – Piso do pátio de uma prisão na Áustria 246
Fig. 252 – Pátio de uma prisão na Áustria 246
xix
Fig. 253 – Cela de uma prisão feminina 247
Fig. 254 – Cela da APAC Santa Luzia, MG 247
Anexo 3
Fig. 01 – Mapa geral do Complexo Penitenciário de Bangu 277
Fig. 02 –
Complexo Penitenciário de Bangu: avenida principal
279
Fig. 03 – Croqui do percurso: início da avenida principal do complexo 279
Fig. 04 –
Novas unidades de Bangu
281
Fig. 05 – Croqui do percurso 281
Anexo 4
Fig. 01 – Mapa geral do Complexo Penitenciário de Bangu 286
Fig. 02 –
Mapa da Unidade materno Infantil e Penitenciária Talavera Bruce
288
Fig. 03 – Croqui da entrada dos dois estabelecimentos 288
Anexo 5
Fig. 01 – mapa geral do Complexo Penitenciário de Bangu 294
Fig. 02 –
Mapa da Unidade materno Infantil e Penitenciária Talavera Bruce
295
Fig. 03 – Croqui da entrada dos dois estabelecimentos 295
Anexo 6
Fig. 01 Desenho de uma presa da edificação principal da Penitenciária
Talavera Bruce
299
Fig. 02 Planta baixa esquemática da edificação principal da Penitenciária
Talavera Bruce
300
Fig. 03 Desenho de uma presa da edificação anexa da penitenciária Talavera
Bruce
301
Fig. 04 Planta baixa esquemática da edificação anexa da Penitenciária
Talavera Bruce
302
APRESENTAÇÃO
1 Apresentação
xxi
APRESENTAÇÂO
Em outras palavras, a poesia da ciência é baseada em nossos desejos e interesses, e o
curso seguido pela ciência nos mundos que vivemos é guiado por nossas emoções, não por
nossa razão, na medida em que nossos desejos e emoções constituem as perguntas que
fazemos ao fazermos ciência. (MATURANA, 2001: 147)
Esta pesquisa é o desenvolvimento de um estudo iniciado há seis anos, para a
fundamentação do meu trabalho final de graduação na FAU/UFRJ. O interesse por
temas de enfoque social é antigo, influenciado pela participação em trabalhos voluntários
praticados desde o período escolar e na própria filosofia das escolas onde estudei que
enfatizavam a responsabilidade social de cada indivíduo enquanto cidadão.
O interesse pelo tema arquitetura penal surge do desenvolvimento de uma pesquisa para
a disciplina Arquitetura no Brasil II, por ter sido este um tema nunca abordado ao longo
do curso de graduação. O desenvolvimento do trabalho mostrou a escassez de material
bibliográfico que despertou a minha curiosidade para o complexo tema, muitas vezes
visto por professores e colegas como uma anti-arquitetura ou edificações com pouca
elaboração projetual – meras “caixas”. O interesse pelo estudo da prisão foi muitas vezes
visto com surpresa em eventos e bancas e, não raro, questionado o motivo da
preferência pela prisão frente às coisas belas que poderiam ser estudadas.
A questão penitenciária não faz parte do dia a dia da maior parte da população, é uma
realidade particular, pouco conhecida. O preconceito latente pelos presos, incentivado
pela mídia – que somente aborda o tema prisional em momentos de crise – e presente no
imaginário cultural – conformando a imagem do preso como um indivíduo perigoso e
agressivo – associados à idéia de retribuição e um posicionamento individualista afastam
cada vez mais essa realidade. No entanto, como denunciava um grafite de rua: “enquanto
a metade da população não dorme com fome, a outra metade não dorme com medo dos
que tem fome”. A importância da temática se mostrava cada vez mais evidente,
principalmente porque a violência estava “batendo em nossa porta”
1
,
O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no
qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não
sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte
deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige muita atenção e
1
Além das ações do tráfico de drogas que pararam cidades como São Paulo e Rio de Janeiro,
assaltos e seqüestros, se tornam freqüentes também ações de organizações de presos fora das
unidades penais.
1 Apresentação
xxii
aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno,
não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço
2
. (CALVINO, 1990: 150)
Em 2003, se iniciava a pesquisa para a fundamentação do trabalho final de graduação,
orientada pelo professor William Bittar. Ao longo da pesquisa, foi possível compreender
um pouco mais da história do programa relativo ao tema escolhido e, principalmente,
apreender um pouco mais esse ambiente a partir de visitas e entrevistas com
profissionais da Secretária de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro (SEAP).
Logo ficou evidente que as unidades penais, em todos os períodos históricos estudados,
apresentavam complexos estudos do espaço e sistemas de instalações, além de estarem
profundamente associados aos seus contextos. No entanto apresentavam-se ainda
muitas lacunas, seja pelo fato do material bibliográfico se apresentar fragmentado,
impossibilitando um entendimento mais profundo da evolução do programa e sua relação
com os diversos contextos; seja pela dificuldade na autorização de visitas e informações
sobre as unidades em uso e seus projetos, por questão de segurança.
Quando o trabalho final de graduação foi concluído em julho de 2004, algumas questões
se apresentavam mais claras: o entendimento do sistema penal brasileiro, os tipos de
unidade penal em uso, alguns princípios de projetos – como a setorização, circulação –
relativos à segurança, e um pouco da sua rotina. No entanto, algumas inquietações
persistiam. A partir de alguns contatos pessoais com funcionários da SEAP consegui
realizar mais algumas entrevistas e visitas nas unidades do Complexo de Bangu
3
no final
de 2004. O depoimento de funcionários – principalmente dos agentes penitenciários –
trouxe novos questionamentos sobre o papel da arquitetura: nas unidades, no seu
funcionamento e na sua função social. O contato com um dos arquitetos da SEAP, em
2005, ressaltou a importância do conhecimento do cotidiano do ambiente penal e as
dificuldades decorridas do fato de muitos profissionais que atuam na área não terem esse
conhecimento, assim como a importância da contribuição da arquitetura na humanização
do ambiente penal, nas suas condições sanitárias e na sua função social.
As visitas e entrevistas realizadas e a participação, como ouvinte, em palestras sobre
modificações de projeto em algumas unidades penais, trouxe o questionamento original
da pesquisa: a Avaliação Pós-Ocupação e a Observação Incorporada, aplicadas na
avaliação de desempenho de estabelecimentos penais em operação no Estado do Rio de
Janeiro, podem contribuir para a concepção e a humanização do ambiente penitenciário?
Ao longo do curso do mestrado a dificuldade na visitação das unidades e acesso a
informações de projeto trouxe o redirecionamento da pesquisa, alterando o foco da
2
Grifo nosso.
3
Hoje intitulado Complexo do Gericinó.
1 Apresentação
xxiii
Avaliação de Desempenho – que necessitava da permanência de longo período em
campo – para a arquitetura e concepção do espaço.
A concepção espacial da unidade penal e a sua constituição a partir de seus elementos
arquitetônicos, como em qualquer arquitetura, se relacionam a uma série de fatores que
vem a constituir o ambiente penal. São responsáveis por isolar ou afastar os indivíduos,
possibilitar ou não a visão do exterior, a iluminação natural, a ventilação, direcionar
percursos e a visão, influenciando fortemente o uso do espaço e as sensações nele
experimentadas. Desse modo, a pesquisa apresenta as contribuições trazidas pela
arquitetura para o funcionamento e função social das unidades penais, visando a
melhoria do ambiente penal, uma atuação mais responsiva na elaboração do espaço
penal e a discussão mais profissional e menos preconceituosa sobre o tema prisional.
Todos nós estamos a todo tempo construindo o nosso mundo – que se configura por
coisas belas e feias, infernos e paraísos – e cabe a nós essa responsabilidade de atuar –
a partir de nossas ações e nossas relações com o outro – para que as nossas
construções contribuam para um mundo mais “belo”. Nesse processo de construção não
há saberes mais ou menos importantes ou válidos, mas um entrelaçamento de saberes
de diferente natureza que configuram algumas respostas, interpretações e novas
inquietações em um processo contínuo e infindável. E como diria Rubem Alves, cabe a
nós entender que “o olhar não se encontra nos olhos” (Folha de São Paulo, 26/10/2004:
10) e precisamos saber ver para enxergar alguma beleza no feio, e quem sabe, tornar o
feio mais bonito.
A sabedoria desenvolve-se no respeito pelos outros, no reconhecimento de que o poder
surge pela submissão e perda de dignidade, no reconhecimento de que o amor é a emoção
que constitui a coexistência social, a honestidade e a confiança, e no reconhecimento de
que o mundo que vivemos é sempre, e inevitavelmente, um afazer nosso
4
.
(MATURANA, 159: 2001)
4
Grifo nosso
INTRODUÇÃO
1Introdução
2
INTRODUÇÂO
A arquitetura consiste de algum modo em ordenar o ambiente que nos rodeia, oferecer
melhores possibilidades ao assentamento humano; portanto, as relações que têm a missão
de estabelecer são múltiplas, inter-atuantes entre si; referem-se ao controle do ambiente
físico, à disposição de certas possibilidades de circulação, à organização das funções, de
seu agrupamento ou segregação, de suas relações; responde a certos critérios econômicos,
se move em, e move, certas dimensões tecnológicas, provoca modificações da paisagem,
etc., mas organizar estas relações é algo completamente diferente de sua simples soma, é
o significado que deriva do modo de dar-lhes forma, é colocar-se dentro da tradição da
arquitetura como disciplina, com um novo gesto de comunicação, com uma nova vontade de
transformação da história. (GREGOTTI 1974 apud PATETTA 1997:76)
O presente trabalho está vinculado à linha de pesquisa do PROARQ/UFRJ, Qualidade do
Lugar e Cultura Contemporânea: uma Proposta de Revisão Conceitual na Perspectiva
das Redes de Fluxo, coordenada pelo Professor Paulo Afonso Rheingantz, e resulta da
reflexão acerca da evolução da arquitetura penal – no Brasil e no mundo –, sua relação
com diversos contextos históricos e suas transformações sociais, culturais e jurídicas,
com ênfase na atualidade e foco em algumas unidades penais do Rio de Janeiro. Seu
propósito é identificar as relações estabelecidas entre o objeto de estudo e as questões
que vem direcionando seu percurso e transformações, como: a percepção do mundo, as
teorias da arquitetura e o seu funcionamento prático. Desse modo, a arquitetura penal é
vista aqui como elemento pertencente a uma rede sócio-cultural em constante
transformação.
Se considerarmos a história segundo essa visão ampla, não existe uma arquitetura que
negue o passado ou outra arquitetura que a tenha precedido, não há uma arquitetura que
possa emergir sem exaltar ao mesmo tempo tudo o que ela mesma parece superar. (...) A
linguagem usada é parte inseparável dos mesmos elementos do ofício, e por ela relativa
aos princípios, às técnicas, aos materiais e ao modo de usá-los, aos elementos da
arquitetura e às relações que entre eles se estabelecem nas obras (GRASSI 1966 apud
PATETTA 1997:76).
As regras sociais existem desde os mais remotos tempos, em qualquer grupo social, por
menor que seja. São códigos culturais balizados por valores morais que se estabelecem
a partir da convivência dos indivíduos em defesa dos direitos e da segurança coletiva
determinando as condutas aceitáveis ou não. Para se fazerem valer, estabelecem
punições para as condutas ilícitas que variam cultural e temporalmente. Hoje, essas
punições variam entre a morte do indivíduo, o isolamento, prestação de serviços sociais e
multas. No caso brasileiro, o isolamento é a pena máxima, aplicada aos crimes
considerados mais graves, sendo estas aplicadas em unidades penais.
A prisão, em outros tempos, foi vista como solução, seja na instituição da pena restritiva
de liberdade a partir do isolamento do indivíduo no fim do século XVII, ou no início do
1Introdução
3
século XX a partir da idéia de bem estar social conferida pelo Estado. A decadência do
poder do Estado reduziu o alcance das práticas de proteção social, que associadas ao
estabelecimento do tráfico de drogas e ao alto índice de desemprego vêm configurando
uma realidade pouco esperançosa para as classes baixas, e até mesmo para a classe
média. Grande parte dos jovens de classes mais baixas não vê nenhum valor para a vida,
como mostra um depoimento “Se morrer nasce outro. Ou melhor, ou pior” (Veja,
abril/2006: 89). Já os jovens de classe média vêm perdendo suas regalias devido ao
empobrecimento da família. Inconformados, muitos acabam se envolvendo com o tráfico,
modificando o perfil da população carcerária que vem crescendo continuamente.
A crise no sistema penal e a superlotação em seus estabelecimentos são evidentes.
Mesmo lentamente, o poder público tem procurado realizar uma reforma prisional,
buscando a humanização e melhores condições do espaço penal, já que muitas unidades
penais em estado precário, não fazem cumprir o principal objetivo designado pelo Estado
para esses espaços: a ressocialização do detento. As incertezas da sociedade pós-
industrial e a falta de um questionamento sistemático e profundo por parte da sociedade
evidenciam uma superficialidade, que também se reflete no sistema penal, gerando
ambientes pouco apropriados para os seus fins. A revisão, o entendimento e a
atualização dos paradigmas do espaço penal são necessários para aprimorar a relação
entre arquitetura, prática, sistema penal e contexto.
Ao longo do desenvolvimento do trabalho, constatou-se a escassez de material
bibliográfico que aborde o tema da arquitetura penal – seja sobre a sua evolução
histórica, projetos recentes, a relação do uso do espaço com sua concepção – e
principalmente sobre a contribuição e o papel da arquitetura neste programa
arquitetônico. O estudo das edificações em uso – seja por seus projetos ou experiências
em campo – assim como o relato de diversos funcionários da SEAP, evidencia a
superficialidade com que a concepção do espaço penal muitas vezes vem sendo
abordada. A principal questão (problema) que esta pesquisa pretende responder surge
principalmente das discussões com funcionários da SEAP, arquitetos e engenheiros que
participaram de projetos de unidades penais – sua prática.
De que forma a arquitetura pode contribuir na concepção do espaço penal
possibilitando a melhoria da aplicação do atual sistema penal brasileiro?
A partir desse questionamento, configurou-se o objetivo geral da pesquisa:
Determinar de que forma a arquitetura e a concepção do espaço penal podem
contribuir na resolução dos problemas atuais das edificações penais, enfatizando o
1Introdução
4
caso do Rio de Janeiro. Esse objetivo permeia toda a pesquisa, buscando identificar,
ao longo do tempo, as questões que influenciaram o surgimento dos modelos e tipos
penais, a contribuição de diversas tipologias já adotadas no Brasil e no mundo. Por
reconhecer a amplitude do tema e a diversidade de situações possíveis nos diversos
sistemas penais existentes, este objetivo, presente ao longo de todo o trabalho, será
aplicado com ênfase à concepção penal direcionada ao território nacional, especialmente
em relação à contribuição arquitetônica de algumas unidades na cidade do Rio de
Janeiro, analisadas com mais profundidade.
Em complemento, os objetivos específicos são:
(1) Relacionar a concepção do ambiente penal com diferentes visões de mundo – como
as transformações na percepção de mundo e do crime vêm modificando a forma de punir
e configurando o espaço penal;
(2) Relacionar as tipologias arquitetônicas com a concepção do ambiente penal – de que
forma o espaço penal adapta as tipologias existentes para a finalidade penal;
(3) Apresentar o sistema penal brasileiro e a evolução histórica – como evoluiu o sistema
penal brasileiro e sua relação frente às tipologias e modelos aplicadas no mundo;
(4) Analisar as normas para elaboração das unidades penais hoje utilizadas no Brasil
(5) Refletir sobre a contribuição da arquitetura nesse contexto
Para alcançar os objetivos, foram usados métodos fundamentados nas abordagens
teóricas derivadas de três vertentes de pensamento contemporâneas: Historicismo
Crítico, Tipologia Arquitetônica e Abordagem Experiencial. A escolha da abordagem
teórica partiu de conceitos fundamentados nas transformações que a ciência vem
sofrendo, alterando a percepção do mundo e a forma do pesquisador atuar
cientificamente, pelo fato de que o tema em questão não pode ser estudado
isoladamente, mas junto às questões que o direcionam e influenciam.
Em comum, estas abordagens partem do entendimento do mundo como uma rede de
acontecimentos entrelaçados e transdisciplinares. Desse modo, não se focam apenas no
objeto em si, mas também nas suas relações com as questões que o cercam. O
historicismo crítico possibilitou a identificação das questões que vêm direcionando e
transformado o ambiente e o espaço penal; a tipologia permitiu o estudo do ambiente e
do espaço penal em relação a outros programas, assim como a sua variação derivada da
prática; a abordagem experiencial possibilitou uma apreensão mais profunda do ambiente
1Introdução
5
penal, seu funcionamento prático e seus projetos, possibilitando também a aproximação
com funcionários e presos.
O trabalho foi desenvolvido a partir dos fundamentos teóricos derivados da nova
concepção da ciência (vistos no Capítulo 1), seguidos pela descrição de como os
conceitos apresentados foram aplicados na pesquisa (no Capítulo 2). A seguir (no
Capítulo 3) é feito um delineamento da evolução dos conceitos associados à temática
prisional que possibilitaram o surgimento de modelos e tipologias penais no mundo; a
partir daí, são focalizados os modelos penais e suas transformações que deram origem a
outras tipologias (Capítulo 4). Aproximando o foco de nosso país, é analisada a evolução
das temáticas e tipologias aplicadas no Brasil em relação às tipologias já apresentadas, o
atual sistema penal brasileiro, as diretrizes de seus projetos (Capítulo 5), e na sequência,
é focalizado o entrelaçamento dessas informações – contexto histórico, tipologia, projeto,
normas do sistema penal brasileiro – com os projetos arquitetônicos, o relato de
funcionários e a experiência da pesquisadora em campo (Capítulo 6). Como conclusão
do trabalho, é reforçada a importância que a Arquitetura possui na definição do projeto de
um estabelecimento penal e suas principais contribuições. Nos anexos, são apresentadas
as fichas de entrevistas aplicadas ao longo da pesquisa.
A organização da dissertação em seus capítulos é mais bem detalhada a seguir:
Capítulo 1 – Fundamentos Teóricos: apresenta as abordagens teóricas utilizadas para
o desenvolvimento do trabalho; o conceito de arqueologia do saber do Foucault foi
utilizado com o objetivo de identificar questões temporais associadas ao surgimento dos
modelos e tipologias penais (Capítulo 3); o conceito de genealogia do saber do Foucault
e tipologia arquitetônica de Quincy (1832 apud Argan, Rossi, Montaner, Moneo), foi
utilizado com objetivo de permitir a comparação entre as tipologias e modelos da
arquitetura penal e dos demais programas (Capítulo 4); ambos os conceitos utilizados
anteriormente são aplicados quanto a evolução da arquitetura penal brasileira (Capítulo
5); a Abordagem Experiencial é principalmente aplicada nas experiências em campo e
entrevistas realizadas e permeia o trabalho, mas se aplica principalmente ao Capítulo 6;
Capítulo 2 – Materiais e Métodos`: apresenta e descreve os métodos utilizados para o
desenvolvimento da pesquisa. O estudo se configura principalmente pela pesquisa
bibliográfica, se utilizando de procedimentos práticos – entrevistas e visitas de campo –
com o objetivo de experienciar o ambiente penal, possibilitar um maior envolvimento da
pesquisadora com os usuários do espaço – funcionários e presos – e levantar
informações mais especificas sobre: o projeto da unidade penal e seu funcionamento,
situações cotidianas, problemas e soluções encontrados na prática;
1Introdução
6
Capítulo 3 – Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal: apresenta a evolução da
visão de mundo e do pensamento penal que criaram condições de existência para o
surgimento dos modelos e tipologias penais. Como já foi dito, a lei é baseada em valores
culturais e morais que variam ao longo do tempo, assim como a punição. Essas
mudanças vão trazendo a necessidade de transformações no espaço físico da prisão,
dando origem aos modelos já aplicados, sua variação e o surgimento de novos modelos
e tipologias;
Capítulo 4 – Arquitetura Penal: Tipologias e Modelos: apresenta os modelos e
tipologias penais, sua relação com as teorias da arquitetura, aplicação e ressignificação a
partir da prática. Depois de apresentadas as questões que possibilitaram o surgimento
dos modelos e tipologias penais, esse capítulo trata da ocorrência e da aplicação,
buscando compará-los a outros programas. Desse modo, são identificadas as
adaptações feitas para a finalidade prisional e aquelas derivadas da experiência prática.
Enquanto o Capitulo 3 trata do surgimento, ainda muito associado às idéias e teorias,
este capítulo trata da aplicação dos modelos e tipologias;
Capítulo 5 – Evolução da Arquitetura Penal Brasileira: apresenta a contextualização
da realidade brasileira e sua relação com os fatos e tipologias anteriormente
apresentados no Capítulo 3 e 4. A evolução do sistema penal brasileiro, assim como os
tipos aplicados às suas edificações tem forte relação com as práticas do exterior –
inicialmente usando as leis e o modelo penal de Portugal. Muitas modificações no
tratamento penal, no sistema aplicado e na concepção dos modelos e tipologias
arquitetônicas têm origem nos modelos europeus e americanos, sendo mais tarde
aplicados no Brasil;
Capítulo 6 – O Atual Sistema Penal Brasileiro: Relatos e Impressões: apresenta as
normas do atual sistema penal brasileiro, suas recomendações de projeto e a experiência
prática de funcionários da SEAP, arquitetos e engenheiros que trabalharam em alguns
projetos, assim como a experiência da pesquisadora em campo. O entrelaçamento
dessas informações busca responder a principal questão deste trabalho e identificar as
contribuições da arquitetura na concepção de unidades penais no Rio de Janeiro.
As Considerações Finais apresentam as contribuições de cada capítulo associadas aos
métodos aplicados, alguns possíveis desdobramentos e uma síntese das principais
contribuições da arquitetura na concepção de edificações penais, ressaltando a sua
importância associada ao saber experiencial.
Os Anexos apresentam as fichas de entrevistas aplicadas ao longo da pesquisa.
1Introdução
7
De uma forma geral, este trabalho pretende preencher algumas lacunas encontradas na
escassa bibliografia do tema, possibilitando um melhor entendimento da evolução da
arquitetura penal, sua história e questões relacionadas no Brasil e no mundo,
evidenciando seus motivos. Da mesma forma, pretende apresentar os atuais caminhos
para o tratamento penal e as soluções arquitetônicas empregadas para tanto,
possibilitando uma visão mais desmistificada e um conhecimento mais profundo do tema
abordado, colaborando para uma atuação mais responsiva e abrindo caminho para novas
inquietações e pesquisas. Cabe ressaltar que a pesquisa é de cunho bibliográfico, os
métodos práticos – entrevistas e visitas, são aplicados com o objetivo de complementar
alguns pontos abordados.
É almejada, como principal resultado da pesquisa, a identificação da maneira pela qual a
Arquitetura possa efetivamente contribuir para a melhoria do sistema penal, por meio da
concepção física-espacial das unidades – seja pela tipologia aplicada ou pela
configuração de elementos arquitetônicos. Além disso, é também ambicionado que a
arquitetura das unidades penais possa ser vista como um “vetor atuante” do sistema
penal; um fator que interfira quanto ao sucesso ou não na implantação de novas
unidades e recuperação das já existentes. Nesse ponto, caberá ao arquiteto, com sua
sensibilidade, conceber o projeto de arquitetura de uma unidade penal não somente
como um mecanismo de contenção ou de segurança, mas principalmente, como fator
contribuinte para a salubridade do ambiente e a pretendida ressocialização do detento.
Diante de um tema tão pouco explorado, espera-se contribuir no preenchimento de
algumas de suas muitas lacunas e abrir campo para mais estudos na área.
1
CAPÍTULO
Fundamentos Teóricos
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
9
1. FUNDAMENTOS TEÓRICOS
“A ciência faz parte do complexo de cultura a partir do qual, em cada geração, os homens
tentam encontrar uma forma de coerência intelectual. Ao contrário, esta coerência alimenta
em cada época a interpretação das teorias científicas, determina a ressonância que
suscitam, influencia as concepções que os cientistas se fazem do balanço da sua ciência e
das vias segundo as quais devem orientar suas investigações” (PRIGOGINE & STENGERS,
1997: 01).
A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz
efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua política
“geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como
verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados
verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os
procedimentos que são valorizados para obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm
o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. “[...] por verdade não quero dizer “o
conjunto das coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar”, mas o “conjunto das regras
segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui aos verdadeiros efeitos
específicos de poder”.” (FOUCAULT: 1979: 10-11).
O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo. Todas as percepções
são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou
sinais captados e codificados pelos sentidos (MORIN, 2000:18).
Este capítulo apresenta e descreve os conceitos utilizados no desenvolvimento da
pesquisa, que analisa a arquitetura penal e sua estruturação ao longo do tempo até os
dias atuais, com foco nas unidades do Rio de Janeiro. A pesquisa se estrutura a partir de
três campos do conhecimento: (1) a história – e a interferência de seus acontecimentos
no conceito acerca da prisão e a concepção de seu espaço – a partir do conceito de
arqueologia do saber de Foucault (2008); (2) a história da arquitetura – e sua
interferência na tipologia penal - a partir do conceito de genealogia do saber de Foucault
(1979) e de tipologia arquitetônica de Quincy (1832 apud Argan 2004, Rossi 1998, Moneo
1984 e Montaner 2001); (3) o processo cognitivo – e a experiência em campo de
pesquisa – a partir da abordagem experiencial desenvolvida pelo grupo ProLUGAR
9
.
Para contextualização das abordagens adotadas e melhor compreensão dos fatos e
pensamentos que lhes deram condição de existência foram usados autores como: Santos
(1996), Capra (1996, 2006), Prigogine e Stengers (1997), Morin (1984, 2000, 2003),
Heidegger (1977), Nietzsche (1976), Colquhoun (2004), Argan (2004), Varela (1995),
Maturana (2001), Thompson (1999, 2001), Pedro (1996), entre outros.
9
Grupo de pesquisa Qualidade do Lugar e Paisagem do Programa de Pós-Graduação em
Arquitetura (PROARQ) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), certificado pelo
Diretório Nacional de Grupos de Pesquisa CNPq, cujo site é
http://www.fau.ufrj.br/prolugar/index.htm.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
10
Desse modo, procuramos atualizar as abordagens dos diferentes campos do saber em
que se fundamenta este trabalho, apresentadas a seguir, como mostra o Quadro 1:
Quadro 1 – desdobramentos do pensamento contemporâneo
Desdobramentos aplicados à ciência do saber
Arqueologia
do Saber
Relação entre o espaço penal e
a visão de mundo (ou a
episteme) dos diversos períodos
História crítica
Genealogia do
Saber
Arquitetura Tipologia
Arquitetônica
Relação entre o espaço penal e
outras arquiteturas de uma
mesma visão de mundo (ou
episteme)
Construção do
Pensamento
Contemporâneo
Cognição Abordagem
Experiencial
Relação entre o espaço penal, o
conhecimento prático (de
profissionais da área) e a
experiência (do pesquisador) no
lugar
A pesquisa parte do pressuposto de que a ciência é uma explicação sobre as coisas do
mundo, sujeita às interferências do contexto local, cultural e temporal; desse modo, se
fixa em abordagens derivadas do pensamento contemporâneo. O texto ainda apresenta o
tema a partir de abordagens que se contrapõem à visão mecanicista do mundo,
adotando: a transdisciplinaridade, a contextualização, a interpretação, a experiência e a
emoção.
Compreendendo o pesquisador como um ser humano, as bases e fundamentos que
sustentam a visão teórica adotada evidenciam a postura do autor diante do tema
pesquisado e dos problemas do seu tempo. “A partir do momento que lidamos com um
ser vivo, nós sabemos que o modo de descrição pertinente deve incluir o “ponto de vista”
do ser vivo sobre o seu mundo...” (STENGERS, 2002: 58). Aceitando o homem como um
ser dotado de racionalidade, sentidos e sentimentos, a pesquisa soma a subjetividade –
inerente ao ser humano – ao pensamento racional na construção do conhecimento
científico e na interação homem-ambiente.
Poder-se-ia crer na possibilidade de eliminar o risco de erro, recalcando toda afetividade. De
fato, o sentimento, a raiva, o amor e a amizade podem-nos cegar. Mas é preciso dizer que
já no mundo mamífero e, sobretudo, no mundo humano, o desenvolvimento da inteligência
é inseparável do mundo da afetividade, isto é, da curiosidade, da paixão, que, por sua vez,
são a mola da pesquisa filosófica ou científica (MORIN, 2000:18).
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
11
1.1. A Construção do Pensamento Contemporâneo
O desenvolvimento do humanismo e a exacerbação da razão humana deram à Ciência
Moderna (cartesiana) um status de verdade absoluta, fundamentada no pensamento de
Copérnico (1473-1543), Gilbert (1540-1603). Bacon (1561-1626), Galileu (1564-1642),
Descartes (1596-1650), Pascal (1623-1662) e Newton (1642-1717). A Ciência Moderna
pretende explicar os acontecimentos do mundo real, conformando uma visão de mundo
estabelecida exclusivamente pela razão humana e seus estudos científicos, substituindo
os dogmas religiosos e o senso comum, que não apresentavam uma explicação lógica,
por outros fundados na neutralidade e imparcialidade da verdade científica. “A noção de
universo orgânico, vivo e espiritual foi substituída pela noção do mundo como se ele
fosse uma máquina, e a máquina do mundo converteu-se em metáfora dominante na era
moderna”. (CAPRA, 2006: 49) Uma visão determinista e causal que, segundo Laing
(1982), desconsiderava a experiência do discurso científico, focada no objeto meramente
como matéria. Segundo Bauman (2007: 104) “... o mundo era uma cadeia divina de seres
em que cada criatura tinha seu lugar útil e legítimo, mesmo que a capacidade mental
humana fosse demasiadamente limitada para compreender a sabedoria, a harmonia e o
caráter ordenado do projeto divino”.
Este aviltamento da natureza acaba por aviltar o próprio cientista na medida em que reduz o
suposto diálogo experimental ao exercício de uma prepotência sobre a natureza. O rigor
científico, porque fundado no rigor matemático, é um rigor que quantifica e que, ao
quantificar, desqualifica, um rigor que, ao objetivar os fenômenos, os objectualiza e os
degrada... (SANTOS, 1996: 32)
... o mito de um universo totalmente determinista tem se convertido na ideologia de uma
dominação da natureza de onde nada poderia escapar ao controle do espírito e da técnica
dos humanos (...) Contrariamente, me parece “realista” crer que o real transborda em
riqueza e complexidade ao formal e ao racional. Renunciar ao determinismo ontológico é
abrir-se a idéia que a nossa lógica necessária é insuficiente para conceber a riqueza do real
(MORIN, 1984: 123).
10
O mundo visto como um sistema mecânico foi explicado e comprovado por leis físicas a
partir da organização de suas partes (PRIGOGINE & STENGERS, 1997; CAPRA, 2006;
SANTOS, 1996) e os cientistas passaram a se ocupar em distinguir a verdade –
fundamentada na ciência – do erro em diversos campos do saber. Desse modo, o
10
Tradução livre da autora (... el mito del un universo totalmente determinista se há convertido em
la ideologia de la dominacción de la naturaleza donde nada podría escapar al controle del espíritu
y de la técnica de los humanos (...) Contrariamente a mi parece “realista” creer que lo real
desborda em riqueza y complejidade a lo formal y lo racional. Renunciar a lo determinismo
ontológico és abrir-se a la idéia que la nuestra lógica necessária, és insuficiente para concebir la
riqueza de lo real).
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
12
desenvolvimento das outras ciências estava submetido às suas regras, utilizando muitos
de seus procedimentos. Entre eles a divisão do saber em partes estanques. “Com o firme
estabelecimento da visão mecanicista do mundo no século XVIII, a física tornou-se
naturalmente a base de todas as ciências...” [e complementa com a visão de Descartes]
“... Toda filosofia é como uma árvore. As raízes são a metafísica, o tronco é a física e os
ramos são todas as outras ciências” (CAPRA 2006: 62). Os diversos campos do saber –
ou ciências – passaram a se limitar a si mesmos, reduzindo suas explicações ao seu
próprio campo.
Na ciência moderna o conhecimento avança pela especialização. (...) Sendo um
conhecimento disciplinar, tende a ser um conhecimento disciplinado, isto é, segrega uma
organização do saber orientada para policiar as fronteiras entre as disciplinas e reprimir os
que as quiserem transpor. É hoje reconhecido que a excessiva parcelização e
disciplinarização do saber científico faz do cientista um ignorante especializado (SANTOS,
1996: 46).
A Ciência Moderna se colocou perante a sociedade como uma forma dominante de
validação do conhecimento, fundamentada na neutralidade do pesquisador, que devia se
apresentar dissociado do mundo, operado somente pela razão e pelos fatos. Para fazer
ciência (DESCARTES, 1637), qualquer pesquisador deveria se portar como um
“observador-padrão”, neutro; corpo e mente são completamente dissociados e
independentes, e a natureza, algo amorfo, passivo, a ser dominada e controlada pelo
homem. Mas “A definição de “ciência” nunca é neutra, já que, desde que a ciência dita
moderna existe, o título de ciência confere àquele que se diz “cientista” direitos e
deveres” (STENGERS, 2002: 35).
A idéia de representação também está presente na Modernidade e em sua pretensão de
que conhecer significa representar a realidade
11
com exatidão, dissociada de qualquer
subjetividade, uma visão neutra e transparente. Representar está associado a uma idéia
de mundo como algo estático, determinável. Mas o mundo, em sua relação com o
homem, se apresenta em um contínuo processo de transformação. Segundo Pedro
(1996:92), “o sujeito se modifica à medida que conhece o mundo – conhecer é criar,
nascer junto e não apenas, re-conhecer”. O funcionamento do cérebro está fundado na
enação de mundos diferentes, a percepção do homem não apenas reflete o mundo, mas
o concebe de forma particular, relacionada à vivência individual – o mundo é o que
percebemos dele. (VARELA, 1995). Isso porque: “o sujeito que vê e aquilo que é visto
11
O termo realidade se refere a tudo que é real, ou tudo que existe. No pensamento moderno a
idéia de realidade se associa à idéia de racionalidade e à realidade, ou o real, é tudo aquilo que
pode ser provado com a razão. Neste trabalho o termo realidade se apresenta com uma
conotação e uma perspectiva mais abrangentes: como o que é valido para cada um, em
determinada circunstância.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
13
surgem simultaneamente”. (VARELA, THOMPSON & ROSH, 2003: 227), ou seja: o
sujeito percebe o mundo a partir do que se apresenta a ele, filtrado por suas emoções e
sua história – sua interação mútua.
A partir do século XX, porém, a ciência – especialmente a física – passa por uma
profunda reestruturação de suas bases conceituais fundamentadas nos estudos de
Einstein, Heisenberg, Bohr, Gödel, Prigogine, Stapp, entre outros, e passa a considerar a
possibilidade de que o mundo e suas “coisas” podem não operar exatamente como se
imaginava. A forma de perceber o mundo se modifica, abrindo caminho para novas
interpretações que alteram a concepção de diversas outras ciências, fazendo surgir
novos campos de conhecimento. Santos (1996) sugere a aproximação entre o saber
científico e o senso comum; Capra (1996, 2006) propõe a visão do mundo como um
processo sistêmico; Morin (1984) propõe o saber como conhecimento transdisciplinar;
Prigogine e Stengers (1997) propõem uma nova aliança entre homem e natureza;
Maturana e Varela (1995) propõem que homem e meio fazem parte de um mesmo
processo vital, Foucault (1970) propõe a história como um feixe de acontecimentos
associados a uma episteme.
Desde o século XVII, a física tem sido o exemplo brilhante de uma ciência “exata”, servindo
como modelo para todas as outras ciências. (...) No século XX, entretanto, a física passou
por várias revoluções conceituais. (...) O universo deixou de ser visto como uma máquina
composta de uma profusão de objetos distintos, para apresentar-se agora como um todo
harmonioso e indivisível, uma rede de relações dinâmicas que incluem o observador
humano e sua consciência de um modo essencial. (...) Agora que os físicos ultrapassaram
largamente os limites desse modelo, é chegado o momento de as outras ciências ampliarem
suas filosofias adjacentes (CAPRA, 2006:44, 45).
A teoria da relatividade mostrou a influência do meio e a impossibilidade de se prever, de
forma absoluta, acontecimentos futuros (STENGERS, 2002; SANTOS, 1996; CAPRA,
2006). O princípio da incerteza mostrou a impossibilidade de um observador neutro, já
que sempre há a interferência do observador no objeto: “não conhecemos do real senão
a nossa intervenção nele” (SANTOS, 1996: 26). O teorema da incompletude mostrou que
pode haver proposições verdadeiras, ainda que não se possa demonstrá-las, ou seja:
“certos problemas não podem ser solucionados por nenhum conjunto de
regras/procedimentos” disponíveis (HAWKING, 2001:139). O estudo da microfísica
mostrou que, em sistemas abertos, seus componentes podem se auto-organizar de modo
a alcançar um estado mais satisfatório de forma irreversível, “Em vez da eternidade, a
história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a
interpretação, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da ordem, a desordem;
em vez da necessidade, a criatividade e o acidente” (SANTOS, 1996: 28).
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
14
A idéia de mundo passa de uma máquina composta por partes independentes para um
sistema ecológico
12
, onde cada uma de suas partes participa de um todo único e
indivisível, que inclui o homem, a natureza, as coisas e, fortemente, suas relações.
“Enquanto na mecânica clássica, as propriedades e o comportamento das partes
determinam as propriedades do todo, a situação na mecânica quântica é inversa: é o
todo que determina o comportamento das partes” (CAPRA, 2006: 80). Heisenberg propôs
que “O mundo apresenta-se, pois, como um complicado ciclo de eventos, no qual
conexões de diferentes espécies se alternam, se sobrepõe ou se combinam, e desse
modo determinam a contextura do todo”. Stapp (apud CAPRA, 2006: 76), afirma que
“Uma partícula elementar não é uma entidade não-analisável que tenha existência
independente. É em essência, um conjunto de relações que se estendem a outras
coisas”; já Bateson preconiza que “qualquer coisa devia ser definida por suas relações
com outras coisas e não pelo que é em si mesma” (CAPRA, 2006: 76). Desse modo, a
visão de mundo passa a estar mais associada a uma lógica de rede, focada não nos seus
componentes mas, principalmente, nas suas relações.
Os factos observados têm vindo a escapar ao regime de isolamento prisional que a ciência
os sujeita. Os objectos têm fronteiras cada vez menos definidas; são constituídos por anéis
que se entrecruzam em teias complexas com os dos restantes objectos, a tal ponto que os
objectos em si são menos reais que as relações entre eles (SANTOS, 1996: 33).
O universo material é visto como uma teia dinâmica de eventos inter-relacionados.
Nenhuma das propriedades de qualquer parte dessa teia é fundamental; todas elas
resultam das propriedades das outras partes, e a consistência global de suas inter-relações
determina a estrutura de toda a teia (CAPRA, 1996: 38).
A idéia de uma verdade única e universal é fortemente discutida em diversos campos,
abrindo caminho para as discussões sobre a interpretação, percepção e forma de agir no
mundo – que faz retornar o papel de observador como sujeito –, sua experiência e sua
relação, com o meio, o contexto e o tempo – fatores que condicionam ou possibilitam
suas abordagens. Segundo Nietzsche (1976), seria ingênuo pensar em uma só
interpretação legítima para o mundo, pois não há para o mundo um único sentido. Ele se
corporifica a partir de uma situação e da interpretação de cada um. Assim, a percepção
do mundo e, conseqüentemente, o conhecimento, são sempre perspectivos, não têm
uma existência em si, são resultados de um processo de criação através do e no homem.
12
Cf. Capra (1996: 16) “A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência
fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos
todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes
desses processos)”.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
15
A verdade e a falsidade não mais existem, pois tudo é interpretação, e toda interpretação
é relativista.
Segundo Foucault (1979), interpretar seria se apropriar de sistemas de regras e lhes dar
significação, submetendo-os a outras regras mais particulares. Um sistema de regras não
possui uma essência, algo próprio universalmente inteligível, mas significados relativos a
quem os utiliza e lhes dá direção e sentido, legitimando-os. Desse modo, cada grupo teria
a suas próprias “regras”, ou seja, mecanismos legitimados que distinguem o que é ou não
pertinente a partir de questões políticas, econômicas, culturais e sociais, sendo, portanto,
códigos particulares – estabelecidos, assim, pela relação entre homem e meio – e não
leis universais. A idéia geral será sempre transformada a partir da interpretação
fundamentada no senso comum – uma idéia local, temporal.
A ciência pós-moderna procura reabilitar o senso comum por reconhecer nessa forma de
conhecimento algumas virtualidades para enriquecer a nossa relação com o mundo. (...) O
senso comum faz coincidir causa e intenção; subjaz-lhe uma visão do mundo assente na
ação e no princípio da criatividade e responsabilidade individuais. O senso comum é prático
e pragmático; reproduz-se colado às trajetórias e às experiências de vida de um dado grupo
social e nessa correspondência se afirma fiável e securizante (SANTOS, 1996: 56).
Segundo Heidegger (1977), o erro, porém, está em querer provar a verdade, pois a
realidade se mostra sempre carregada de significações, e o espírito somente pode
perceber sua estrutura, que é a evidência da ação do fazer e não da interpretação ou
compreensão. A verdade é o jogo integrador, uma unidade que dá sentido ao todo. Ela
não pode ser provada porque simplesmente é. Ela acontece no ser do mundo e no
mundo do ser. Assim, a verdade não pode ser singular ou absoluta, mas temporal,
constituída na história. E o ser é a abertura para o desvelamento da verdade, “(...) tudo é
o que é, “é” enquanto condição de possibilidade de poder” (HEIDEGGER, 2000: 66). A
história, a tradição e a experiência passam a ter importante papel, na medida em que se
percebe que o homem e o meio estão fortemente associados, e que a verdade se
constitui dessa relação biunívoca.
A idéia de um observador neutro fica cada vez mais distante, uma vez que as emoções
são disposições corporais dinâmicas que nos fazem optar pelo domínio das ações que
vamos operar. Todas as ações são originadas e realizadas em algum domínio emocional
(MATURANA, 2001:130) “... razão e emoção são fios de uma mesma trama que
possibilita que a mente seja o que é” (PEDRO, 1996: 128). Segundo Dennett (1991), nós
temos acesso limitado ao que acontece em nossas mentes. Assim, não há
intencionalidade em nossos atos, mas ajustes feitos a partir de feedbacks que estão
relacionados com a experiência e, não, com um objetivo prévio. Assim, o pesquisador,
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
16
enquanto ser humano, não é capaz de diferenciar o que é externo a si, pois sempre verá
o mundo a partir de sua percepção, que é constituída pela sua experiência. Segundo
Maturana e Varela (1994), homem e meio são faces de um mesmo processo vital, onde o
homem cria uma relação de circularidade na forma como vê o mundo e age nele num
processo contínuo de produção de si mesmo.
Se formulo uma pergunta sobre a partícula, ele me dá uma resposta sobre a partícula; se
faço uma pergunta sobre a onda ele me dá uma resposta sobre a onda. O elétron não
possui propriedades objetivas independentes da minha mente. (...) Nunca podemos falar da
natureza sem, ao mesmo tempo, falarmos sobre nós mesmos (CAPRA, 2006: 81).
De acordo com Maturana (2001) e Varela, Thompson e Rosch (2003), a ciência é uma
explicação da experiência humana no mundo, e não de uma realidade independente do
homem. Os questionamentos do pesquisador, que são a origem de suas pesquisas,
surgem da própria práxis de viver, das suas experiências, assim como seus métodos e
instrumentos de pesquisa e a interpretação de seus resultados. “... se o procedimento
científico pode ser praticado, é porque ele descobre pontos de acordo notáveis entre
nossas hipóteses teóricas e as respostas experimentais” (PRIGOGINE & STENGERS,
1997: 03). Da mesma forma, cada pesquisador, ainda que aplique os mesmos métodos
em um mesmo tema, tende a ter uma visão diferenciada, seja por sua interpretação dos
resultados, ou por um questionamento inicial diferente – que estão associados à sua
história pessoal.
As decisões que dizem respeito ao valor e à utilização da ciência não são decisões
científicas; constituem o que nós poderíamos chamar de decisões ’existenciais’; são
decisões sobre a maneira de viver, pensar, sentir e se comportar (FEYERABEND apud
STENGERS, 2002: 49).
Segundo Maturana (2001), no processo da evolução restam ou persistem sistemas que
apresentam acoplamento estrutural
13
eficaz na interação entre homem e meio e, dessa
forma, constata-se que este é de fato, uma deriva natural do que não se adéqua e não,
um processo de adaptação dos sistemas vivos por determinação do meio. Portanto, “A
cognição humana, enquanto ação eficaz, embora pertença ao domínio biológico, é
sempre vivida na cultura”. (PEDRO, 1996: 143) É a partir dos valores culturais
compartilhados, do senso comum, muitas vezes imperceptível, que se dá o julgamento de
pertinência ou não nessa interação. “... a descrição da atividade científica não pode, sem
13
Esse termo, acoplamento, será mantido da edição brasileira do livro A Mente Incorporada
(VARELA, THOMPSON & ROSH: 2003), apesar do seu caráter funcionalista que não condiz com
a proposta dos autores. A partir do comentário de Vicente del Rio, em aula ministrada no ano de
2008 no PROARQ/FAU/UFRJ, de que deveria ser verificado o significado e o sentido do texto
original em Inglês, o Pro LUGAR vem utilizando o termo entrelaçamento em seu lugar.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
17
violência, ser separada do mundo a que pertence” (PRIGOGINE & STENGERS, 1997:
09).
A visão do saber como algo diferente de uma verdade universal, associado ao meio, ao
cientista e à sua experiência, trouxe a abertura para a interpretação, ou seja, visões
fragmentadas e significados diferenciados. O desenvolvimento das teorias lingüísticas –
Semiótica
14
, Estruturalismo
15
, Pós-Estruturalismo
16
e Desconstrução
17
– vem a reforçar
essa idéia, provocando mudanças na crítica cultural pós-moderna através da renovação
do interesse pelo significado e pelo simbolismo. Jacques Derrida trabalha dentro da
abordagem da Teoria da Organização
18
, afirmando que Não se trata de renunciar a um
ponto de vista em favor a outro, que seria único e absoluto, mas de encarar a diversidade
de possíveis pontos de vista (DERRIDA, 1975 In NESBITT, 2006: 170). Jonathan Culler
(1982) propõe que “Desconstruir uma posição não é destruí-la... é desfazer e deslocá-la,
situá-la de modo diferente” (CULLER, 1982: 150).
A idéia da diferença se torna muito presente, o objeto passa a ser visto a partir de um
ponto de vista ou de uma premissa negativa, ou seja: uma coisa é o que é enquanto não
é o que as outras coisas são – quanto se diferencia do todo e se torna particular e
identificável. Desse modo, cada elemento – ou fragmento – passa a ser significativo e
dotado de características próprias, que estão associadas ao sistema do qual fazem parte
– trazem vestígios do que já foram e uma idéia do que serão. “Só é possível perceber a
presença do movimento na medida em que, a cada instante, já estão escritos os traços
14
Estudo científico da linguagem como um sistema entre signos que tem uma dimensão estrutural
(sintática – relação signo/significado e significante e suas relações sintáticas) e outra de
significação (semântica). (SAUSSURE: 1986).
15
Focaliza os códigos, as convenções e os processos responsáveis pela inteligibilidade da obra –
significado socialmente inteligível. Ocupa-se das “condições de significação”, relação do texto com
as estruturas e processos particulares para explicar a forma e o significado das obras. A
linguagem é vista como um sistema que depende do meio para ter significação. (PETERS: 2000).
16
Funda a crítica do signo, questionando se o signo se compõe de duas partes (significante e
significado) ou se ele não depende também da presença de todos os outros significantes, que ele
não ativa e dos quais se diferencia. Separa o significante do significado e afirma que o significado
é indeterminado, inesgotável. O leitor deve ter papel ativo como produtor de significado, já que a
realidade é totalmente constituída (produzida e sustentada) por representações, antes que
refletidas por elas. (PETERS: 2000).
17
É uma manifestação do pós-estruturalismo, examina a fundamentação logocêntrica do
pensamento e os fundamentos das disciplinas. Age nas margens para revelar e desmontar as
oposições e pressupostos vulneráveis que estruturam um texto. Busca deslocar certas categorias
filosóficas e tentativas de supremacia que privilegiam um termo em relação a outro em oposições
binárias como ausência/presença. (CULLER: 1982).
18
A abordagem se desenvolve a partir da premissa de que a natureza das organizações sociais
está diretamente associada à cultura. Desenvolveu-se a partir da crise da modernidade e o
estabelecimento do pensamento pós-moderno e as decorrentes alterações culturais, buscando
compreender que alterações traria, essa mudança, nas organizações sociais.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
18
do passado e do futuro (...) o instante presente não é algo dado, mas o produto das
relações entre passado e futuro” (CULLER. 1982: 97). Essa visão busca retomar a
complexidade do mundo e dos processos do conhecimento frente ao reducionismo
modernista. “Se tentarmos reabsorvê-lo [o mundo], reduzi-lo, serão produzidas
metástases, excrescências...” (BAUDRILLARD, 2003:18).
A idéia de que cada elemento é único e faz parte de um todo se reforça: “trata-se do
fragmento, mas que cria em torno dele um verdadeiro espaço simbólico, um vazio ou um
branco. (...) São fragmentos em rede” (BAUDRILLARD, 2003:39).
19
A idéia de rede ou de
sistema não permite o estabelecimento de continuidade linear, pois quando um elemento
se apresenta é rapidamente volatizado pelo sistema, ou seja, interpretado e re-aplicado,
numa espécie de processo que se dá através da lógica da interface. Segundo Bauman
(2007: 09) “A sociedade é cada vez mais vista e tratada como uma “rede” em vez de uma
estrutura (...): ela é percebida e encarada como uma matriz de conexões e desconexões
aleatórias e de um volume essencialmente infinito de permutações possíveis”. Este
contexto do simulacro se constrói de ligações imprevisíveis e não de sucessões
deterministas, apresentando, segundo Jamenson (1996), o tempo fragmentado em
“presentes perpétuos”.
Segundo Bauman (2007: 12) “Nada pode verdadeiramente ser, ou permanecer por muito
tempo, indiferente a qualquer outra coisa: intocado e intocável. O Bem-estar de um lugar,
qualquer que seja, nunca é inocente em relação à miséria de outro”. Os conhecimentos e
saberes não se fecham no limite dos seus campos, mas se encontram abertos a novas
conexões a outros saberes. Interferem-se, se entrecruzam, se alterando mutuamente, de
forma que cada novo conhecimento – ou sua modificação – faz repensar os demais. Não
necessariamente os invalida, mas os modifica, re-interpreta. Não há porto seguro ou
pensamentos definitivos, mas uma contínua transformação que gera incerteza e
insegurança. Não é mais possível determinar e controlar o mundo e suas coisas.
O medo é reconhecidamente o mais sombrio dos demônios que se aninham nas sociedades
abertas de nossa época. Mas é a insegurança do presente e a incerteza do futuro que
produzem e alimentam o medo mais apavorante e menos tolerável. Essa insegurança e
essa incerteza, por sua vez, nascem de um sentimento de impotência: parecemos não estar
mais no controle (...) e, para piorar ainda mais as coisas, faltam-nos ferramentas (...)
(BAUMAN, 2007: 32).
Neste contexto, o historicismo determinista e suas metanarrativas, assim como uma visão
linear e sucessiva dos fatos ou uma observação distante, se tornam insustentáveis.
19
A citação de Baudrillard é usada somente para exemplificar e reforçar a idéia do pensamento
sistêmico utilizado por diversos autores neste período, como, Capra (1996), e Castells, (1996),
entre outros autores já citados no trabalho.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
19
Questões culturais, sociais e psicológicas, antes negadas no saber científico – apesar de
estarem nele camufladas – e tratadas somente em seus campos de conhecimento,
passam a ser parte do saber científico na visão do mundo como um sistema ecológico.
As áreas de conhecimento vão ficando cada vez menos delimitadas, e cada vez mais
transdisciplinares
20
. Ao se desvencilhar da verdade universal, o pensamento pós-
moderno fez emergir conhecimentos e saberes antes ocultados ou excluídos. Foucault
(1979: 96) chamou esses conhecimentos de saberes dominados, ou seja, “blocos de
saber histórico que estavam presentes e mascarados no interior dos conjuntos funcionais
e sistemáticos” – o saber regional, particular, comum, ordinário, diferencial.
Segundo Santos (1996: 58) “Duvidamos suficientemente do passado para imaginarmos o
futuro, mas vivemos demasiadamente o presente para podermos realizar nele o futuro.
Estamos divididos, fragmentados”. É preciso desvendar os fragmentos e, a partir do
conhecimento de suas particularidades, estabelecer possíveis relações associadas a um
ponto comum, como afirma Foucault (1979: 98): “Não quero abolir as inúmeras e
gigantes diferenças, mas, apesar e através dessas diferenças, me parece que existe um
ponto comum”. A fragmentação pós-moderna se fixa em temas, investigando seus
aspectos mais diversos associados a diferentes campos disciplinares de modo a
compreender sua complexidade e as questões que participam de sua formação. Cada
tema é estudado a partir dos demais saberes que o cercam, não importa de que campo
da ciência faça parte, mas a sua relação com o foco abordado.
No paradigma emergente, o conhecimento é total, tem como horizonte a totalidade universal
de que fala Wigner ou a totalidade indivisa de que fala Bohm. Mas sendo total, é também
local. Constitui-se em redor de temas que, em dado momento são adotados por grupos
sociais concretos como projetos de vida local. (...) A fragmentação pós-moderna não é
disciplinar e sim temática. Os temas são galerias por onde os conhecimentos progridem ao
encontro uns dos outros (SANTOS, 1996: 47).
Desse modo, considerando nossa postura frente ao “saber científico”, explicitada até
aqui, o tema Concepção do Espaço Prisional é abordado neste trabalho sob saberes de
diferentes campos do pensamento contemporâneo – história crítica, tipologia
arquitetônica e a abordagem experiencial – que serão a seguir apresentados.
20
Cabe ressaltar aqui a diferença entre os conceitos de transdisciplinaridade e
interdisciplinaridade. O primeiro, como o seu prefixo já diz, transcende as disciplinas e desfaz seus
limites, voltando sua atenção para o conteúdo do conhecimento; o segundo se entre as
disciplinas, ou seja: utiliza diferentes disciplinas estabelecendo relações entre elas, mas ainda
reconhece seus limites e os identifica (MORIN, 1984: 311).
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
20
1.2. História Crítica
Toda história é inevitavelmente condicionada por um modo de abordá-la; não se pode
escrever uma história absoluta, assim como não se pode realizar uma arquitetura absoluta –
mesmo num breve período de tempo, a imagem caleidoscópica altera seu desenho
(FRAMPTON, 2003: VII).
A construção da história na modernidade segue a lógica científico-positivista, busca
purificar os fatos, “decantando encadeamentos naturais” (PEDRO: 1996), selecionando
elementos e acontecimentos pertinentes ao resultado final encontrado no presente. Essa
abordagem histórica busca se configurar (ou então revestir) como verdade absoluta e
neutra, como a ciência e suas explicações do mundo. Consiste no exame objetivo e
exaustivo dos fatos de modo a apreender a essência de um momento histórico e
representá-lo de forma fiel, distanciada e, por isso, verdadeira e absoluta. Usa a lógica
evolucionista, de modo a selecionar e ordenar os fatos, sucessivamente direcionando-os
à causa final, de modo a criar discursos legitimadores.
(...) uma história [determinista] que lançaria sobre o que está atrás dela um olhar de fim de
mundo. Esta história dos historiadores constrói um ponto de apoio fora do tempo; ela
pretende tudo julgar segundo uma objetividade apocalíptica; mas é que ela supõe uma
verdade eterna, uma alma que não morre uma consciência sempre idêntica a si mesma
(FOUCAULT: 1979: 17).
O historicismo crítico se configura como uma abordagem da história fundamentada nas
linhas de pensamento pós-modernas, se contrapondo às metanarrativas da modernidade.
Segundo Colquhoun (2004:23) “A idéia de que os valores mudam e se desenvolvem com
o tempo histórico está hoje tão arraigada no senso comum que é até difícil imaginar um
ponto de vista diferente”, assim afirma que a crítica pós-moderna colocou duas posturas
para a história: (1) a história não é absolutamente determinada; (2) a aceitação da
tradição
21
é, de certa forma, a condição do significado arquitetônico (COLQUHOUN,
2004: 33). Desse modo passa a abordar cada período como algo construído pelo
passado e conformador do futuro, aceitando que cada momento histórico tem uma
história própria, da qual também participa e que não há como determinar o futuro ou,
precisamente, a origem do presente. “A singularidade de nossa cultura, que é produto de
nosso desenvolvimento histórico, deve ser conciliada com o palpável fato de que ela
opera dentro de um contexto histórico e contém em si mesma sua própria memória
histórica” (COLQUHOUN, 2004: 35).
21
C.f. Colquhoun (2004:36) a tradição: “disciplina autônoma – uma disciplina que incorpora em si
mesma um conjunto de normas estéticas que são o resultado de uma acumulação histórica e
cultural que tira daí seu significado”.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
21
Segundo Montaner (2004: 23) “A história há de ser sempre contemporânea, não podendo
se separar de sua identidade com a crítica, a interpretação e o juízo de valores estéticos”.
22
Ainda segundo o autor (2004: 11) a crítica “Constitui uma atividade com o mais amplo
sentido cultural. Sua missão é a de interpretar e contextualizar, e pode entender-se como
uma hermenêutica que desvela origens, relações, significados e essências”.
23
A
abordagem crítica busca desmistificar o objeto de análise, ir fundo em suas raízes,
descobrir que métodos, teorias, pensamentos o conformaram tal como é, de modo a
desvendar o que se encontra implícito no objeto. Para tanto, é necessário que se
quebrem as barreiras das disciplinas e do saber e se aborde a questão de forma
transdisciplinar
24
(MONTANER, 2004: 19). O objeto de análise – seja a arquitetura ou um
período histórico – não é autônomo ou independente, se configura a partir de relações
com diversos campos do saber, não pode ser reduzido, deve ser abordado em sua
complexidade. Da mesma forma, não pode ignorar suas particularidades e as diferentes
interpretações, ainda que se apresentem pontos invariáveis (MONTANER, 2004: 21).
A história crítica se baseia, principalmente, no conceito de Wirkliche Historie
25
de
Nietzsche, sendo também influenciado pelo paradigma Marxista, que busca investigar e
trazer à luz fatos que se ocultam por trás das categorias unificadoras. “Uma crítica
marxista coerente da ideologia (...) não pode deixar de desmistificar as realidades
contingentes e históricas, desprovidas de objetividade e universalidade, que se
escondem por trás dos termos unificadores...” (TAFURI, 1973 In NESBITT, 2006: 394).
Isto contribui para explicar o interesse de diversos autores por temas que sempre
estiveram à margem da história e da sociedade, sendo raramente estudados. Segundo
Foucault (1979: 19), “Uma das características da história é a de não escolher: ela se
coloca no dever de tudo compreender sem distinção de altura; de tudo aceitar, sem fazer
diferença. Nada lhe deve escapar, mas também nada deve ser excluído”. A história não
22
Tradução livre da autora (La historia há de ser siempre contemporânea, no pudiéndose separar
de su identidad com la crítica, la interpretación y el juicio de valores estéticos).
23
Tradução livre da autora (Constituye uma actividad com el más amplio sentido cultural. Su
misión es la de interpretar y contextualizar, y puede entenderse como uma hermenêutica que
desvela orígenes, relaciones, significados y esencias).
24
O autor utiliza o termo multidisciplinar, aqui substituído por transdisciplinar por melhor se
adequar a sua abordagem. O termo multidisciplinar pressupõe uma abordagem interdisciplinar,
diferente da idéia proposta pelo autor. C.f. “Este objetivo se complementa com el estabelecimiento
de interpretaciones multidisciplinares que rompam las barreiras del professionalismo y la
especialización que limitan las prácticas culturales”.
25
C.f. Nietzsche (1976), a história “efetiva”, aquela que incorpora questões que a atravessam, e
mesmo fazem parte do seu processo de construção e destruição. É um olhar mais aproximado das
questões que cercam seus acontecimentos e formam suas variâncias.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
22
deve, portanto, excluir fatos ou temas para comprovar princípios ou estabelecer modelos,
mas construir a história de modo efetivo.
A bem dizer, hoje em dia, a principal tarefa da crítica da ideologia é desfazer os mitos
impotentes e ineficazes que com tanta freqüência subsistem como ilusões que permitem a
sobrevivência de “esperanças anacrônicas no projeto” (TAFURI, 1973 In NESBITT, 2006:
396).
... todo objeto arquitetônico deve ser valorizado nas direções e esperanças dos projetos
coletivos, dentro de um sentido ético e linhas de força da história. (...) A crítica, portanto,
deve desconfiar dos argumentos de poder, deve mostrar os mecanismos de gestão e deve
recordar que os pactos entre os setores dominantes tem imposto uma realidade inapelável
que tem convertido muitas possibilidades em heterodoxias ou utopias não realizadas
26
(MONTANER, 2004: 20).
A história deve levar em conta a realidade de cada período. Realidade essa que tornou
possível o estudo e a aceitação de certas abordagens, temas e pensamentos, sem,
entretanto, considerar essa realidade ingenuamente, como fator determinante e absoluto.
Segundo Stengers (2002: 53) “... o historiador, aqui, se define ele próprio pelo recuo no
tempo, pela diferença entre o que a história das ciências o torna capaz de questionar e o
que essa história definiu como incontestável”, ou seja, o pesquisador está incorporado à
história, seus questionamentos partem da realidade da qual ele faz parte, assim como,
suas abordagens, teorias e métodos. A realidade, o contexto e o tempo do pesquisador
não configuram somente a sua visão de mundo, mas a sua maneira de intervir, operar no
seu campo de trabalho e interpretar teorias e conceitos utilizados. Isso porque segundo a
autora:
... um paradigma não é uma simples maneira de “ver” as coisas, de interrogar ou de
interpretar resultados. Um paradigma é, antes de mais nada, da ordem, da prática. O que se
transmite não é uma visão de mundo, mas uma maneira de fazer, uma maneira não só de
analisar os fenômenos, de lhes conferir um significado teórico, mas também de intervir...
(STENGERS, 2002: 64).
O principal viés teórico desta pesquisa está apoiado no historicismo crítico, mais
precisamente no trabalho de Michel Foucault e, se justifica, por permitir que as análises
históricas aqui apresentadas, sobre a arquitetura penal, sejam devidamente
contextualizadas em suas épocas e analisadas a partir da sua própria visão de mundo,
valores e pensamentos, em contrapartida a uma avaliação distanciada.
26
Tradução livre da autora (... todo objeto arquitectónico deve ser valorado em las direcciones y
esperanzas de los projetos colectivos, dentro de um sentido ético y de unas líneas de fuerza de la
historia. (...) La crítica, por lo tanto, debe desconfiar de los argumentos del poder, debe mostrar los
mecanismos de gestión y debe recordar que los pactos entre los sectores com decisión han
impuesto uma realidad inapelable que há convertido muchas possibilidades em heterodoxias o
utopias no realizadas).
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
23
1. 2. 1. Arqueologia do Saber
O conceito de arqueologia do saber desenvolvido por Foucault (1985, 2008) pode ser
considerado uma abordagem histórica fundamentada na análise de formações
discursivas e sua relação com os diversos campos do saber – científicos ou não. Essa
abordagem está bastante associada aos seus primeiros trabalhos e se baseia fortemente
em conceitos desenvolvidos por Nietzsche (1976), assim como nas linhas de pensamento
estruturalistas. Associa o significado às suas condições de significação e sua
possibilidade de existência a partir da historicidade em que estavam inseridos, de seus
saberes e do senso comum.
"... o que se quer trazer à luz é o campo epistemológico, a episteme onde os
conhecimentos, encarados fora de qualquer critério referente a seu valor racional ou a suas
formas objetivas, enraízam sua positividade e manifestam assim uma história que não é a
de sua perfeição crescente, mas, antes, a de suas condições de possibilidade; neste relato,
o que deve aparecer são, no espaço do saber, as configurações que deram lugar às formas
diversas do conhecimento empírico. Mais que de uma história no sentido tradicional da
palavra, trata-se de uma "arqueologia" (FOUCAULT, 1999: XVIII).
A arqueologia pretende estudar a ordem e as regras inconscientes que dão significado às
coisas dentro de uma rede. São leis inerentes a certas realidades que direcionam a forma
de agir e perceber o mundo definindo os códigos culturais. Participam da configuração da
rede leis governamentais, a linguagem, a técnica, valores, hierarquias, assim como
teorias científicas e filosóficas. Desse modo, se configura como uma abordagem
transdisciplinar que busca a partir do cruzamento de informações de natureza diversa dar
luz a uma visão de mundo local e temporal, suas regras são singulares e só podem ter
valor dentro da realidade estudada. As formações discursivas analisadas participam de
diversos campos de conhecimento, de diferentes formas e distintas funções. Tem como
foco, portanto, não a verdade científica, mas o saber.
Bem diferente, ainda nisto, das descrições epistemológicas ou “arquitetônicas” que analisam
a estrutura interna de uma teoria, o estudo arqueológico está sempre no plural: ele se
exerce em uma multiplicidade de registros; percorre interstícios e desvios; tem seu domínio
no espaço em que as unidades se justapõem, se separam, fixam suas arestas, se
enfrentam, desenham entre si espaços em branco (FOUCAULT, 2008: 177).
O autor entende como saber o “conjunto de elementos, formados de maneira regular por
uma prática discursiva e indispensável à constituição de uma ciência, apesar de não se
destinarem necessariamente a lhe dar um lugar”... (FOUCAULT, 2008: 204). Associa o
saber diretamente ao seu contexto, valores, pensamentos, assim como à própria ciência
e sua constituição – se a ciência se constitui a partir de saberes, e estes a partir da
prática discursiva, o saber científico não é algo puro ou neutro, o campo epistemológico
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
24
está nele presente, precisa ser considerado. “O saber não está contido somente em
demonstrações; pode estar também em ficções, reflexões, narrativas, regulamentos
institucionais, decisões políticas” (FOUCAULT, 2008: 205). O saber, portanto, se constitui
a partir das possibilidades que se apresentam em certas realidades, sendo também
constituído pelo conhecimento vulgar (Quadro 2).
... um saber se define por possibilidades de utilização e de apropriação oferecidas pelo
discurso. (...) Há saberes que são independentes das ciências (que não são nem seu
esboço histórico, nem o avesso vivido); mas não há saber sem uma prática discursiva
definida, e toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ela forma (FOUCAULT,
2008: 203).
O que a arqueologia tenta descrever não é a ciência em sua estrutura específica, mas o
domínio, bem diferente, do saber. Além disso, ela se ocupa do saber em sua relação com
as figuras epistemológicas e as ciências, pode, do mesmo modo, interrogar o saber em uma
direção diferente e descrevê-lo em um outro feixe de relações (FOUCAULT, 2008: 218).
Quadro 2 – arqueologia do saber
A abordagem usa o conceito de arquivo, - que seria uma espécie de domínio, ou campo
de abrangência local e temporal que abrigaria a tradição, o senso comum, os
pensamentos científicos, o conhecimento – e que funcionaria como uma espécie de filtro
na identificação de novas abordagens ou conhecimentos. “Não entendo por esse termo a
soma de todos os textos que uma cultura guardou em seu poder... [mas]... do que faz
com que tantas coisas ditas por tantos homens, há tantos milênios, não tenham surgido
apenas segundo leis do pensamento” (FOUCAULT, 2008: 146).
Deste modo, o arquivo, tanto especifica o campo de aceitação dos saberes como
caracteriza a prática discursiva. “O arquivo é, de início, a lei do que pode ser dito, o
sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares”
(FOUCAULT, 2008: 147). Assim, aceita a regularidade discursiva, como uma visão de
mundo, a condição de existência do saber – que perde seu valor e sentido fora da
regularidade (FOUCAULT, 2008: 163). A regularidade não pressupõe homogeneidade,
mas uma conformação de elementos heterogêneos que atendem a uma idéia ou regra
geral comum, que direciona – mas não determina – seus caminhos, seus pensamentos e
sua intervenção. Cada novo elemento modifica as relações na rede podendo trazer
alterações em suas regras, de modo que a rede é dinâmica – está sempre sujeita às
transformações.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
25
... todo enunciado se relacionava a uma certa regularidade – que nada, por conseguinte,
podia ser considerado como pura e simples criação... Mas vimos também que nenhum
enunciado podia ser considerado como inativo e valer como sombra ou decalque pouco
reais de um enunciado inicial... o menor enunciado – o mais discreto ou banal – coloca em
prática todo o jogo das regras segundo as quais são formados seu objeto... As regras
jamais se apresentam nas formulações; atravessam-nas e constituem para elas um espaço
de coexistência; não podemos, pois, encontrar o enunciado singular que as articularia
(FOUCAULT, 2008: 165).
A dinâmica das formações discursivas está associada às contradições. Destas irão surgir
novos conhecimentos a fim de explicá-las, configurando novas visões de mundo e, assim,
novos saberes
27
– lógica de rede. Desse modo, a contradição não é um erro, mas a
“verdade” originada do saber de uma época que os supera conformando assim,
conhecimentos futuros. Tal fato leva à admissão da idéia de sucessão histórica, que aqui
se dá de modo diverso ao pensamento determinista, como uma espécie de
fundamentação. “A precedência não é um dado irredutível e primeiro... Não basta a
demarcação dos antecedentes para determinar uma ordem discursiva: ela se subordina,
ao contrário, ao discurso que se analisa” (FOUCAULT, 2008: 161). Só é analisável em si
mesma.
Longe de ser indiferente à sucessão, a arqueologia demarca os vetores temporais de
derivação. (...) O que ela [a arqueologia] suspende é o tema de que a sucessão é um
absoluto: um encadeamento primeiro e indissociável a que o discurso estaria submetido
pela lei da sua finitude; e também o tema de que no discurso só há uma forma e um único
nível de sucessão (FOUCAULT, 2008: 190).
A abordagem arqueológica, portanto, busca estabelecer as relações que conformam as
sucessões a partir da continuidade, como um processo complexo que se dá a partir de
alterações em pontos do sistema; não como uma transformação geral a partir de um
elemento único modificando a um só tempo todos os elementos e suas relações. Busca
um feixe de acontecimentos, não uma origem – essa modificação não se dá de forma
maciça, mas a partir de fragmentos associados. “Não se deve mais procurar o ponto de
origem absoluta ou de revolução total, a partir do qual tudo se organiza, tudo se torna
possível e necessário, tudo se extingue para recomeçar” (FOUCAULT, 2008: 165). Uma
nova formação discursiva se conforma a partir de um emaranhado de fatos que
27
Cf. Foucault (2008: 170), ”tal contradição, longe de ser aparência ou acidente do discurso, longe
de ser aquilo de que é preciso libertá-lo para que ele libere, enfim sua verdade aberta, constitui a
própria lei de sua existência: é a partir dela que ele emerge; é ao mesmo tempo para traduzi-la e
supera-la que ele se opõe a falar; é para fugir dela, enquanto ela renasce sem cessar através
dele, que ele continua e recomeça indefinidamente, é por ela estar sempre aquém dele e por ele
jamais poder contorna-la inteiramente que ele muda, se metamorfoseia, escapa de si mesmo em
sua própria continuidade. A contradição funciona então, ao longo do discurso, como o princípio de
sua historicidade”.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
26
modificará uma série de conceitos, objetos, pensamentos, mas não é possível ignorar os
traços do seu passado, sua tradição.
A idéia de um corte que divide de uma só vez, e em um momento dado, todas as formações
discursivas, interrompendo-as com um único movimento e reconstituindo-as segundo as
mesmas regras, não poderia ser mantida. A contemporaneidade de várias transformações
não significa sua exata coincidência cronológica... (FOUCAULT, 2008: 196).
A história arqueológica fundamenta-se no estudo das relações entre fragmentos, a partir
do conceito de Episteme, que diz respeito às formas que nos permitem o acesso ao
conhecimento num dado momento histórico, ou seja, às condições discursivas que
constituem uma epistemologia. A configuração do conhecimento de uma Episteme é
baseada em concepções tão fundamentais, que são imperceptíveis para os envolvidos –
são códigos sócio-culturais que estão presentes em todas as nossas ações, intervenções
e realizações: técnicas, práticas, valores, linguagem, são ordens empíricas (FOUCAULT,
1985: 10). A episteme se relaciona aos processos de uma prática histórica, e se configura
no interior das práticas discursivas, “não é o que se pode saber em uma época, tendo em
conta insuficiências técnicas, hábitos mentais, ou limites colocados pela tradição; é aquilo
que na positividade das práticas discursivas, torna possível a existência das figuras
epistemológicas e das ciências” (FOUCAULT, 2008: 215). É, de certa forma, a idéia de
mundo presente nos homens de cada época, de modo inconsciente, que direciona suas
ações.
Suspeitamos talvez, que a episteme seja algo como uma visão do mundo, uma fatia de
história comum a todos os conhecimentos e que imporia a cada um as mesmas normas e
os mesmos postulados, um estágio geral da razão, uma certa estrutura de pensamento a
que não saberiam escapar os homens de uma época – grande legislação escrita,
definitivamente, por mão anônima. (...) A episteme não é uma forma de conhecimento ou
um tipo de racionalidade que, atravessando as ciências mais diversas, manifestaria a
unidade soberana de um sujeito, de um espírito ou de uma época; é o conjunto das relações
que podem ser descobertas, para uma época dada, entre as ciências, quando estas são
analisadas no nível das regularidades discursivas (FOUCAULT, 2008: 214).
A aplicação da abordagem da história arqueológica no presente trabalho é fundamental
por permitir que se analise a relação da idéia de encarceramento, suas instituições, sua
arquitetura e suas transformações, o surgimento de novos conceitos em diversos
períodos a partir de suas visões de mundo, conformando uma compreensão mais
aproximada e profunda do tema estudado. Para complementar a análise arqueológica,
será utilizado o conceito de Genealogia, que se fixa na relação entre os objetos de uma
mesma episteme e suas características particulares, explicitado a seguir. (FOUCAULT,
1979),
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
27
1. 2. 2. Genealogia do Saber
O conceito de genealogia se desenvolve a partir da interpretação dos conceitos de
Nietzsche e da valorização da dimensão da existência. Foucault passa a questionar como
as práticas sociais engendram certos domínios do saber, desmascarando a neutralidade.
“A razão? Mas ela nasceu de uma maneira inteiramente “desrazoável” – do acaso. A
dedicação à verdade e ao rigor dos métodos científicos? Da paixão dos cientistas, (...) da
necessidade de suprir a paixão – armas lentamente forjadas ao longo das lutas pessoais”
(FOUCAULT: 1979: 12). A partir de tais questionamentos, o autor parte do conceito de
arqueologia, propõe que os acontecimentos precisam de condições de existência para se
estabelecer e prossegue estudando o modo como as transformações ocorrem no interior
das epistemes, levando de uma a outra.
A abordagem genealógica, fundamentada no conceito de genealogia de Nietzsche,
baseia-se em três princípios: (1) Como se formaram as séries de discurso; (2) Qual foi a
norma específica de cada série; (3) Quais foram as suas condições de aparecimento, de
crescimento e variação. Esta abordagem é bastante associada às linhas de pensamento
pós-estruturalistas, fato que se torna claro em sua palestra A Ordem do Discurso (1970),
onde afirma que a verdade, o conhecimento e o saber, assim como a linguagem, a
escrita e o sistema jurídico são jogos de diferenças, onde prevalece o que pode ser
legitimado pela episteme. Contudo, não se propõe a estudar a Episteme, mas se fixa nas
suas relações e no seu jogo de diferenças.
Enquanto a arqueologia é o método próprio à análise da discursividade local, a genealogia é
a tática que, a partir da discursividade local assim descrita, ativa os saberes libertos da
sujeição que emergem desta discursividade [é o] acoplamento do saber erudito e do saber
das pessoas, só foi possível e só se pôde tentar realizála à condição de que fosse
eliminada a tirania dos discursos englobantes com suas hierarquias e com os privilégios da
vanguarda teórica. [...] o acoplamento do conhecimento com as memórias locais, que
permite a constituição de um saber histórico das lutas e a utilização deste saber nas táticas
atuais (FOUCAULT: 1979: 97).
O conceito de Genealogia parte da existência da gênese – um conjunto de objetos
associados por algum elemento ou característica comum – ou seja, se fundamenta na
reincidência dialética de um tipo ou modelo ao longo do tempo, que se dá através da sua
interpretação e aplicação - releitura adaptada a outras particularidades – um outro tempo,
local ou finalidade (Quadro 3). A investigação parte, portanto, da análise da gênese para
estabelecer possíveis pontos geradores da mutação do tipo dentro de um momento
histórico – semelhanças e particularidades que abrigam a idéia comum da mutação
relacionada à conjunção de acontecimentos de uma episteme. O estudo minucioso de
cada caso particular do tipo permite traçar os pontos comuns com a rede da qual fazem
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
28
parte e, a partir de suas peculiaridades, estabelecer pontos que se sobrepõem,
permitindo a identificação do traço geral da mutação. Os fatos históricos podem identificar
as condições de existência para o surgimento de novos elementos e, o estudo da
ocorrência, identificar a mudança que cada particularidade trouxe.
Quadro 3 – genealogia do saber
Ela [A genealogia] deve construir seus “monumentos ciclópicos” não a golpes de “grandes
erros benfazejos”, mas de “pequenas verdades inaparentes estabelecidas por um método
severo”. A genealogia não se opõe a história como a visão altiva e profunda do filósofo ao
olhar de toupeira do cientista; ela se opõe, ao contrário, ao desdobramento meta-histórico
das significações ideais e das indefinidas teleologias. Ela se opõe à pesquisa de “origem”
(FOUCAULT: 1979: 12).
A genealogia seria o estudo dos acontecimentos a partir de seu estabelecimento, sua
origem, mas não aquela associada ao termo Ursprung
28
. Isso porque entendendo o
processo com a lógica da rede o elemento original seria aquele puro, mas seu
estabelecimento, sua existência, forçosamente traria a sua transformação a partir da sua
relação com os outros elementos: “diante de tal aparição, deixa de haver o
distanciamento do juízo, creio que isso é da ordem do devir e da metamorfose. (...) que é
também uma perda da origem, também do fim” (BAUDRILLARD: 2003:18, 49). A
genealogia, portanto, pretende analisar os fatos em sua ocorrência – a partir de
acontecimentos associados que os fizeram emergir e as relações que se estabeleceram,
trazendo a interpretação do objeto original a partir do seu uso e sua “ressignificação”.
Desse modo a genealogia procura demorar-se nas meticulosidades e seus acasos, a fim
de desmascarar as verdades ocultadas na metafísica.
Se o genealogista tem o cuidado de escutar a história em vez de acreditar na metafísica, o
que ele aprende? Que atrás das coisas há “algo inteiramente diferente”: não seu segredo
essencial e sem data, mas o segredo que elas são em essência, ou que sua essência foi
construída peça por peça a partir de figuras que lhe eram estranhas (FOUCAULT: 1979:
12).
Busca-se a partir dos fragmentos dispersos e singulares, revelar a relação que os associa
a uma rede comum. Procura-se, portanto a proveniência (Herkunft), ou seja, o que torna
algo ou alguém pertencente a um grupo, não por suas semelhanças, mas por pequenas
singularidades que se entrecruzam, uma tradição. O valor não está na verdade ou no
28
Ursprung, do alemão, origem. Alinha-se a idéia de essência, Zeitgeist, que seria uma identidade
primeira, livre de interferências externas, pura. (FOUCAULT: 1979: 12)
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
29
discurso estabelecido, mas na ação – sua interpretação e aplicação –, na forma como
esse conhecimento é exteriorizado, e nos acertos e falhas que levaram esse percurso a
se dar dessa maneira e o diferencia do que foi no passado, singularizando-o. Os desejos,
os desvios, as verdades que surgem e se apagam, esse conflito constante inscrito e
marcado em seu percurso imprevisto. “A genealogia, como análise de proveniência está,
portanto, no ponto de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo
inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo” (FOUCAULT: 1979: 15).
Ou seja, deve mostrar de que forma as mudanças nas linhas de pensamento, a partir da
experiência, trazem ajustes ao elemento original – o modelo – e se mostram inscritas no
objeto.
É o descortinar do fato que a genealogia procura tratar, visto como um trecho de uma
série de acontecimentos contínuos, pois não há um fim, mas uma constante
transformação onde emergem acontecimentos derivados de relações entre os tantos
acontecimentos da série e suas diferenças. A emergência (Entestehung) surge de
situações específicas onde por algum motivo, fatos ou conhecimentos são abandonados
em decorrência do aprofundamento de e “ressignificação” de outros. São essas
“ressignificações” que provam o estabelecimento de um conhecimento e o seu valor, pois
a emergência se dá no interstício formado entre essas relações, esse não-lugar é o ponto
comum que as associa e que estabelece um discurso. “...então o devir da humanidade é
uma série de interpretações. E a genealogia deve a sua história [...] como emergências
de interpretações diferentes” (FOUCAULT: 1979: 17). Assim a proveniência designa a
marca e a qualidade do acontecimento, enquanto a emergência designa seu ponto
fundamental, a interseção que os une.
A história efetiva se distingue daquela dos historiadores pelo fato de que ela não se apóia
em nenhuma constância: nada no homem – nem mesmo seu corpo – é bastante fixo para
compreender outros homens e se reconhecer neles. (...) A história será “efetiva” na medida
em que ela reintroduzir o descontínuo em nosso próprio ser. (...) Ela aprofundará aquilo
sobre o que se gosta de fazê-la repousar e se obstinará contra sua pretensa continuidade
(FOUCAULT: 1979: 18).
A abordagem genealógica se associa fortemente à idéia de tipo apresentado a seguir e
se mostrou importante para o desenvolvimento desse trabalho por analisar os objetos a
partir de sua ocorrência, abordando-os na sua efetiva existência – permite assim que se
considere a experiência e suas implicações nos modelos e tipos arquitetônicos penais.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
30
1.3. Abordagem Tipológica na Arquitetura Contemporânea
Porém, por mais diferentes que essas soluções [pós-modernas] possam ser, elas possuem
uma coisa em comum – todas rejeitam a proibição modernista à imitação. Todas até certo
ponto, afrouxam a ligação que o pensamento historicista estabelece entre as formas
artísticas e o Zeitgeist (COLQUHOUN, 2004: 225).
Mais do que corpos teóricos o que encontramos são situações propostas que têm buscado
sua consistência nas condições particulares de cada acontecimento (SOLÁ-MORALES,
1993: 14).
29
A obra de arquitetura não pode ser considerada como um eixo único e isolado, singular e
“irrepetível”, uma vez que sabemos o quanto está condicionada pelo mundo que lhe rodeia
e por sua história. Sua vida se propaga e se faz presente em outras obras em virtude da
condição específica da arquitetura, ao implicar nesta uma cadeia de eixos solidários aos
quais descreve uma mesma estrutura formal (MONEO, 1984: 25).
30
A arquitetura pós-moderna apresenta, como linha comum, um desejo de ultrapassar a
teoria moderna, saindo do reducionismo para entrar na complexidade, opondo-se à
abstração formalista, aos princípios funcionalistas e à ruptura completa com a história.
Desenvolve-se de forma transdisciplinar a partir de enquadramentos ideológicos e da
importação de paradigmas de outras áreas do conhecimento – como a história,
fenomenologia, lingüística, filosofia, etc. O desenvolvimento da teoria crítica atesta que a
história não é absolutamente determinada para um fim, mas acredita que é a tradição que
cria a condição do significado da arquitetura. A valorização da tradição traz o interesse
pela essência da arquitetura e o estudo das linguagens históricas a partir da forma e sua
constituição tradicional, em contraposição à forma definida pela função.
A ênfase no estudo de formas históricas, da essência e do significado da arquitetura traz
grande importância à abordagem do tipo, bastante semelhante à abordagem
genealógica. A idéia de tipo pressupõe um grupo estabelecido de elementos, de alguma
forma associados, ou a idéia de gênese. “O conceito de tipo se baseia fundamentalmente
na possibilidade de agrupar os objetos servindo-se daquelas similitudes estruturais que
lhes são inerentes, poderia dizer-se inclusive, que o tipo permite pensar em grupos”
29
Tradução livre da autora (Más que cuerpos teóricos lo que encontramos son situaciones
propuestas de hecho que han buscado su consistencia en las condiciones particulares de cada
acontecimiento).
30
Tradução livre da autora (La obra de arquitectura no puede ser considerada como um hecho
único y aislado, singular e irrepetible, uma vez que sabemos cuanto está condicionada por el
mundo que lê rodea y por sua história. Su vida se propaga y se hace presente em otras obras em
virtud de la especifica conditión de la arquitectura, al implicar esta uma cadena de hechos
solidários a los cuales describe uma misma estructura formal).
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
31
(MONEO, 1984: 15).
31
Desse modo, o conceito de tipo se baseia no elemento típico,
mais generalista, que funciona como uma base de criação que irá se caracterizar e
apresentar sua identidade – aquilo que o diferencia dos demais elementos de sua gênese
– a partir de seus elementos particulares adaptados à sua realidade. “O conceito de
vagueza ou genericidade do tipo que, portanto, não pode influir diretamente sobre a
invenção e a qualidade estética das formas, explica também a gênese, o modo de
formação do tipo” (ARGAN, 2004: 66).
Essa abordagem, ao contrário da abordagem funcionalista do modelo – que adota a
repetição – busca, através da existência dos modelos anteriormente adotados,
estabelecer seu traço comum a partir dos rastros deixados ao longo do tempo que
permanecem ainda presentes, apesar de suas peculiaridades. “A história da arquitetura
do passado tende a ser analisada como um produto do passado em que se ressaltam
suas inovações e diferenças com respeito à arquitetura do presente” (SOLÁ-MORALES:
1985 In NESBITT: 2006: 254). Entende-se que somos constituídos a partir da nossa
experiência do passado, mas agregamos a ela nossos conhecimentos do presente, lhe
dando novo sentido e direção que irão formar as bases e condições de mudanças
futuras. “... é o conhecimento do passado que constitui o termo de comparação e medida
para o futuro” (ROSSI, 1998: 37). Entendemos que nada é natural ou provém do nada,
como já afirmava Quincy:
... em tudo é necessário um antecedente; nada em nenhum gênero, vem de nada, e isso
não pode deixar de se aplicar a todas as invenções do homem (...) é como uma espécie de
núcleo em torno do qual se aglomeram e se coordenaram em seguida os desdobramentos e
as variações de forma que o objeto era suscetível. (QUINCY, 1832 apud ROSSI, 1998: 26)
Os significados culturais de um período se inter-relacionam, e o significado de qualquer
palavra ou qualquer forma artística singular, depende da exisncia de todas as outras. (...)
a história está presente não somente como um processo em que uma fase anula a fase
anterior, mas também como uma série de rastros que sobrevivem em modos atuais de se
ver o mundo. (COLQUHOUN, 2004: 233)
A abordagem tipológica, então, se dá a partir do entendimento que, passado e presente
fazem parte de um mesmo ciclo de transformação, onde seus elementos se relacionam
continuamente, não estão dissociados nem tampouco se invalidam, mas ao contrário
estão profundamente associados. “... a arquitetura ao contrastar estruturas antigas e
novas, descobre o fundo e a forma em que o passado e o presente se reconhecem
reciprocamente” (SOLÁ-MORALES, 1985 In NESBITT, 2006: 257). Uma nova
31
Tradução livre da autora (El concepto de tipo se basa fundamentalmente em la possibilidad de
agrupar los objectos sirviéndose de aquellas similitudes estructurales que les son inherentes,
podria dicirse incluso, que el tipo permite pensar em grupos).
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
32
interpretação gera novo significado a partir da sua aplicação às antigas formas, de modo
que cada novo objeto arquitetônico está associado à sua história e seus rastros, assim
como à sua realidade presente e local, são variações interligadas. “Também por isso
todas as grandes arquiteturas se repropõem à arquitetura da antiguidade, como se a
relação fosse fixada para sempre; mas cada vez se repropõe com uma individualidade
diferente” (ROSSI, 1998: 152). A idéia do tipo é, portanto, particular, local e temporal, não
pode ser aplicada ou instituída em uma realidade diversa. “... o tipo, entendido como
estrutura formal, está, pelo contrário, ligado intimamente com a realidade, com uma
amplíssima gama de interesses que vão da atividade social à construção” (MONEO,
1984: 16).
32
Segundo Argan (2004), “... o tipo é sempre deduzido da experiência da história” (ARGAN,
2004: 68). O estabelecimento do tipo depende, portanto, da permanência de caracteres
comuns a todos os elementos da série do qual pertencem, sendo parte de um sistema.
Como na genealogia, a abordagem se fixa na aplicação e interpretação de um modelo,
“ressignificando-o” (Quadro 4). A abordagem tipológica se estabelece a partir de um
processo de analogia formal, ou seja, formas reconhecidas através da tradição
apresentando pequenas variações particulares e contextuais pertinentes às exigências do
seu tempo, seu local, enfim, de sua particularidade. “... quando um tipo se fixa na prática
ou na teoria arquitetônicas, ele já existe numa determinada condição histórica da cultura,
como resposta a um conjunto de exigências ideológicas, religiosas ou práticas” (ARGAN,
2004: 66). Desse modo, o estabelecimento do tipo pressupõe que existam condições
sócio-culturais para tal, da mesma forma, reafirma a dissociação entre forma e função, já
que permite diferenciadas leituras associadas a questões de natureza diferente da sua
forma original.
Quadro 4 – modelo e tipo
Formas tradicionais, esvaziadas
do seu valor formal, se relaciona
com a experiência e não com a
função
Ele [o tipo] resulta da experiência de formas realizadas como formas artísticas, mas as
apresenta esvaziadas daquilo que é seu específico valor formal ou artístico: mais
precisamente, priva-as de seu caráter e de sua qualidade de forma e as reporta ao valor
indefinido de uma imagem ou de um signo (ARGAN: 2004: 66).
32
Tradução livre da autora (... el tipo, entendido como estructura forma, está, por el contrario,
ligado intimamente com la realidad, com uma amplíssima gama de intereses que van de la
atividad social a la construcción).
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
33
Segundo Colquhoun (2004) as formas se relacionam aos usos e às tarefas realizadas
nos lugares abrigados pela arquitetura. Por isso, independem de um único momento
histórico. Não é possível isolá-lo completamente, uma vez que ele depende de todos os
outros, de uma conjunção de fatos. “... é exatamente por meio da persistência das formas
anteriores que o sistema pode comunicar significado. Essas formas, ou tipos, interagem
com as tarefas apresentadas à arquitetura, em qualquer época da história, formando todo
o sistema” (COLQUHOUN: 2004: 234). Segundo Rossi (1998: 25), “O tipo vai se
constituindo, pois, de acordo com as necessidades e com as aspirações de beleza: único
mas, variadíssimo em sociedades diferentes, ele está ligado à forma e ao modo de vida”.
Por mais que queira reproduzir o modelo original, as condições locais e temporais vão
sempre lhe dar um direcionamento diferente, um novo modo de ver e intervir:
... nenhum tipo se identifica com uma forma, mesmo sendo todas as formas arquitetônicas
redutíveis a tipos. (...) O tipo é, pois, constante e se apresenta com características de
necessidade; mas, mesmo determinadas, elas reagem com a técnica, com as funções, com
o estilo, com o caráter coletivo e o momento individual do fato arquitetônico (ROSSI, 1998:
27).
O estabelecimento de um tipo arquitetônico está intimamente associado ao modo de
viver: “... a estabilidade de uma sociedade – estabilidade que se reflete tanto nas
atividades, como nas técnicas e nas imagens – é, em ultimo caso, a responsável da
persistência da imagem no espelho da arquitetura” (MONEO, 1984: 16).
33
Segundo
Corona Martinez (2000:112), as transformações no tipo dependem de: (1) adaptações
dimensões, orientações no lote, etc; (2) variações – mudanças no modo de vida; (3) a
relação entre a variação e o ato de projetar. Desse modo, a aplicação da abordagem
tipológica pressupõe a existência de um modelo e propõe a sua interpretação. É,
portanto, uma crítica, como também uma intervenção fundamentada na experiência,
permitindo a liberdade da interpretação a partir da percepção de cada um e sua
adaptação de acordo com a pertinência de cada caso. “Se é assim, e os tipos refletem
modos de vida próprios de uma sociedade, os tipos arquitetônicos pertencem de pleno
direito à área da satisfação do usuário, à dimensão sincrônica do presente” (CORONA
MARTINEZ, 2000: 110).
A idéia de tipo está associada a uma visão holística, característica da cultura
contemporânea, em contrapartida à visão de modelo associada a uma visão mecanicista,
a idéia de um tipo ideal que funciona como uma referencia.
““Tipo” é a idéia genérica,
33
Tradução livre da autora: (la estabilidad de uma sociedad – estabilidad que se refleja tanto en
las actividades como en las técnicas y en las imágenes – es, em último término, la responsable de
la persistência de la imagen em el espejo de la arquitectura).
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
34
platônica, arquetípica, é a forma básica comum da arquitetura; “modelo” é aquilo que é
possível ir repetindo tal qual, como um carimbo que possui uma série de caracteres
recorrentes” (MONTANER, 2001b: 110). Enquanto o tipo se estabelece de forma
analógica e inconsciente – a partir de questões subjetivas como a experiência e a
memória individual e coletiva – o modelo se estabelece por meio da mimese e do
pensamento racional, associado a um ideal distante da realidade, uma situação utópica e
intemporal. É estático, deve ser eterno. Um tipo tem, como referência, um outro tipo que
é transformado, modificado, até mesmo destruído, dando origem a um outro; o modelo
tem, como norma, o ideal.
A palavra tipo não representa tanto a imagem de uma coisa a ser copiada ou imitada
perfeitamente quanto a idéia de um elemento que deve, ele mesmo, servir de regra ao
modelo (...) o modelo, entendido segundo a execução prática da arte, é um objeto que deve
se repetir tal como é; o tipo é, pelo contrário, um objeto, segundo o qual cada um pode
conceber obras que não se assemelhe entre si. Tudo é preciso e dado no modelo; tudo é
mais ou menos vago no “tipo” (QUINCY 1832 apud ROSSI, 1998: 25).
O tipo, que encontrava sua razão de ser na história, na natureza e no uso, não devia,
portanto, ser confundido com o modelo, a repetição mecânica de um objeto. O tipo
manifestava a permanência no objeto, simples e único, daquelas características que o
conectavam com o passado, dando razão assim de uma identidade cunhada anos atrás,
mas sempre presente na imediatez do objeto (MONEO, 1984: 17).
34
Este enfoque teórico, adotado com base no conceito de tipo, se faz necessário por
permitir a comparação entre projetos de diferentes programas – ou funções – e
momentos históricos, possibilitando identificar as transformações sofridas através do
tempo e as adaptações – interpretações. A articulação das análises do mesmo tipo
possibilitam a identificação de suas semelhanças, assim como as diferenças que dão o
caráter de cada obra e sua identificação como tal.
Tal atitude ante a tipologia propõe uma nova dimensão histórica da obra de arquitetura que
ajuda a situá-la no terreno público não como objeto autônomo, mas como elementos criados
no processo de desenvolvimento no tempo da história. Segundo palavras de George Kubler:
“a história é demasiado imprecisa e breve para poder ser considerada simplesmente como
uma sucessão temporal, estruturada mediante períodos de idêntica consistência” (MONEO,
1984: 23).
35
34
Tradução livre da autora: (El tipo, que encontraba su razón de ser em la história, la naturaleza y
el uso, no debia, por tanto, ser confundido com el modelo, la repetición mecânica de um objecto.
El tipo manifestaba la permanência em el objecto, simple y único, de aquellas características que
lo conectaban com el pasado, dando razón así de uma identidad açuñada años atrás, pero
siempre presente em imediatez del objecto).
35
Tradução livre da autora (Uma tal actitud ante la tipologia propone uma nueva dimensión
histórica de la obra de arquitectura que ayuda a situarla en el terreno de lo público no como um
objecto autônomo, sino como elementos creados en el processo de desarrollo en el tiempo de la
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
35
O conceito de tipo pressupõe uma interpretação a partir de uma releitura do objeto
arquitetônico, que pode ser derivada de: (1) uma visão temporal do contexto; (2) uma
mudança – intencional ou não – do caráter de uso de uma determinada área urbana; (3)
de possibilidades econômicas; (4) da visão corporativa – governamental ou privada; ou
(5) decorrente da interação pessoa–ambiente, ou seja, da experiência prática e da
vivência no lugar, que será abordada nesse trabalho junto ao contexto. Isso porque a
adaptação do espaço tem como finalidade melhor atender aos propósitos da atividade
humana no lugar, processo que se dá através da cognição, da constatação dos
problemas e acertos de ordem prática que surgem do próprio uso do espaço em
determinada situação e contexto. Para um melhor entendimento da relação pessoa-
ambiente no espaço penal e do processo cognitivo derivado dessa relação será utilizada
a Abordagem Experiencial, apresentada a seguir.
1.4. Abordagem Experiencial: transformando a atitude de conhecer
O sujeito, que a ciência moderna lançara na diáspora do conhecimento irracional, regressa
investido da tarefa de fazer erguer sobre si uma nova ordem científica (SANTOS, 1996: 43).
Somos igualmente atores e espectadores das transformações que possibilitam novas
modalidades de relações entre nós próprios e o mundo, de modo que qualquer relato será
sempre duplamente parcial: singular, uma vez que o que podemos compreender depende
de nossa situação, sempre local, no mundo, e não definitivo, por dizer respeito a um
acontecimento da nossa contemporaneidade (PEDRO, 1996: 96).
No discurso moderno o espaço é visto como algo genérico, abstrato, meramente
constituído por uma relação funcional, matemática e quantitativa entre suas partes e
elementos resultando em uma arquitetura autônoma, ideal, dissociada de qualquer
sensibilidade – em relação ao contexto ou aos seus usuários (MONTANER, 2001: 31). A
idéia de mundo como um sistema ecológico, por sua vez, passa a tratar o espaço físico
como um lugar a partir de uma visão fenomenológica
36
, ou seja, da indissociabilidade
entre homem e ambiente. O conceito de lugar, ao contrário do conceito de espaço,
considera a experiência humana, tornando o espaço um lugar de vivências, sensações,
de caráter único, particular e qualitativo (Quadro 5). “... o lugar é definido por
substantivos, pelas qualidades das coisas e dos elementos, pelos valores simbólicos e
históricos; é ambiental e está relacionado fenomenologicamente com o corpo humano”
história. Pues según palabras de George Kubler “la história es demasiado imprecisa y breve para
poder ser considerada simplesmente como una sucessión temporal, estructurada mediante
períodos de identica consistancia”).
36
Na abordagem de Merleau-Ponty (2001), Heidegger (1954) e Husserl (1984)
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
36
(MONTANER, 2001: 32). Lefebvre (1991) fala da arquitetura como algo que é produzido
e reproduzido a partir da interação dos indivíduos e da interpretação que cada um dá ao
espaço a partir de sua experiência no lugar e sua história de vida.
A arquitetura produz corpos vivos, cada um com atributos distintos. O fundamento ativo de
um tal corpo, sua presença, não é visível nem legível como tal, nem é objeto de qualquer
discurso, pois reproduz a si mesma dentro daqueles que usam o espaço em questão, dentro
de suas experiências vividas. (LEFEBVRE, 1991: 300)
Segundo Tuan (1983), o espaço só é concreto ou real quando interagimos com ele, pois
a realidade se constitui a partir das nossas experiências – pensamento e sentimento. “O
que começa como espaço indiferenciado transforma-se em lugar à medida que o
conhecemos melhor e o dotamos de valor. (...) O espaço transforma-se em lugar à
medida que adquire definição e significado” (TUAN, 1983: 06; 151). O significado ou
interpretação que damos ao espaço ao idealizá-lo ou experienciá-lo varia com tempo, a
cultura e a nossa própria experiência de vida, memórias, imaginação, que vão, de certo
modo, direcionar as nossas sensações no lugar atribuindo-lhe conotações qualitativas.
Considerando a arquitetura como um lugar de existência da pessoa, suas propriedades e
fenômenos se criam exatamente da presença da pessoa e sua vivência no lugar – a
pessoa é o sujeito da experiência.
A Abordagem Experiencial, desenvolvida pelos pesquisadores do ProLUGAR, baseia-se
na abordagem atuacionista proposta por Varela, Thompson e Rosch (2003) e no
pressuposto de que “não é possível ter acesso a uma realidade independente do
observador, pois ela não é algo pré-determinado, estático e imutável, mas o resultado de
uma explicação que não é independente do observador” (RHEINGANTZ et al, no prelo:
10). Desse modo, compreende a relação pessoa-ambiente como uma interação que se
dá de forma biunívoca num processo constante. “... caracteriza a experiência do homem
no lugar, ou o modo como a um só tempo cada lugar influencia a ação humana; como a
presença humana dá sentido e significado a cada lugar” (RHEINGANTZ et al, no prelo:
10). O lugar não existe sem o ser humano, assim como o ser humano não pode existir
dissociado de um lugar – suas ações estão impregnadas pela sua experiência no lugar e
o lugar constituído a partir de suas necessidades e aspirações, derivadas da sua
experiência de vida.
Essa abordagem pressupõe uma visão ecológica de um mundo onde pessoa e ambiente,
observador e objeto observado, são inseparáveis (RHEINGANTZ, 2004), em
contraposição a visão behaviorista: “Os behavioristas ignoram largamente a interação
mútua e a interdependência entre um organismo vivo e seu meio ambiente natural, o qual
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
37
também é, ele próprio, um organismo” (CAPRA, 2006: 167). A compreensão que os
cientistas têm a respeito do mundo não é necessariamente como ele é, mas sim como
cada indivíduo o percebe, razão pela qual atualmente sugere-se o conceito de
interpretação em substituição ao de representação. "O que observamos não é a natureza
em si, mas a natureza exposta ao nosso método de questionamento" (HEISENBERG,
1959: 42)
37
. Desse modo, recupera-se o senso comum, pois, assim como, sujeito e
mundo estão continuamente modificando-se e influenciando-se, o entendimento do
mundo pela cognição está continuamente se fazendo, constituindo configurações
provisórias, mais do que verdades definitivas (PEDRO: 1996).
... a cognição não é a representação de um mundo que existe de maneira independente,
mas, em vez disso, é uma contínua atividade de criar um mundo por meio do processo de
viver. As interações de um sistema vivo com seu meio ambiente são interações cognitivas, e
o próprio processo da vida é um processo de cognição (CAPRA, 1996: 197).
O aprendizado da vida deve dar consciência de que a “verdadeira vida”, para usar a
expressão de Rimbaud, não está tanto nas necessidades utilitárias – às quais ninguém
consegue escapar –, mas na plenitude de si e na qualidade poética da existência, porque
viver exige, de cada um, lucidez e compreensão ao mesmo tempo, e, mais amplamente, a
mobilização de todas as aptidões humanas (MORIN, 2003: 54).
Segundo Maturana e Varela (1995), pessoa e meio são partes de um mesmo processo
vital – idéia da autopoiese – a partir da circularidade de sua interação. A pessoa constitui
seu próprio mundo na sua prática de viver, de modo que age a partir da forma como
percebe o mundo e percebe o mundo a partir de suas ações, ou seja, sua experiência e
história. Varela et al (2003: 210) propõem que cognição é atuação: “uma história de
acoplamento estrutural que produz um mundo”, ou seja, o ser humano não se transforma
para se adaptar ao meio mas, simplesmente, abandona situações que não se adéquam,
em face de outras mais satisfatórias ao entrelaçamento entre homem e meio. “... o mundo
e a pessoa que o percebe, especificam-se mutuamente” (VARELA et al, 2003: 176). Pode
ser vista, portanto, como uma deriva natural e não uma evolução (VARELA et al, 2003:
201).
Como toda ação humana se dá nesse entrelaçamento, toda ação é ação incorporada: (1)
pelas emoções e sentimentos da pessoa; (2) pelo contexto biológico, psicológico e
cultural – local, história, experiência – indissociáveis do ser humano (VARELA et al: 2003:
177; RHEINGANTZ et al, no prelo: 13). Desse modo, pode-se dizer que o processo
cognitivo funciona como um elo que associa pessoa – dotada de emoções e sentimentos
–, lugar – vivenciado pelo homem – e situação/ocasião – tempo, momento da experiência
37
Tradução livre da autora (lo que observamos no es la naturaleza en sí misma, sino la
naturaleza presentada a nuestro método de investigación).
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
38
do homem no lugar (Quadro 5): “O mundo se efetiva na conexão e na articulação dos
acontecimentos e ocorrências temporal e espacialmente simultâneas, bem como, nas
possibilidades ativadas em cada situação vivenciada” (ALCANTARA, 2008: 19). Isso
porque nem a pessoa, nem o tempo ou o lugar são permanentemente os mesmos, estão
em contínuo processo de transformação a partir da interação e experiência mútua.
Cheguei à conclusão que seja o que for que espaço e tempo signifiquem, lugar e ocasião
significam mais; pois espaço, na visão do homem, é lugar, e tempo, na visão do homem, é
ocasião. Mantidos fora do mecanismo esquizofrênico do pensamento determinista, tempo e
espaço permanecem como abstrações congeladas. (VAN EYCK, 1961: 238 apud FORTY,
2000: 271)
Quadro 5 – Processo Cognitivo
A cognição e o ato de conhecer são, portanto, ações incorporadas, conscientes da
experiência de vida do observador – seu background – que guia suas interpretações,
emoções, sensações e sua interação com um determinado lugar ou ambiente. “O
observador acontece no observar e, quando morre o ser humano que o observador é, o
observador e o observar chegam ao fim”. (MATURANA: 2001: 126) O observador “não
pode produzir explicações ou afirmações que revelem ou conotem nada
independentemente das operações através das quais ele ou ela gera suas explicações e
afirmações” (MATURANA: 2001: 127). Todas as ações operadas pelo ser humano fazem
parte da dinâmica de estados do organismo, sendo fenômenos semelhantes, mas que se
estabelecem a partir de diferentes relações, fazendo surgir as distinções do observador.
Por isso, “Se queremos compreender qualquer atividade humana, devemos atentar para
a emoção
38
que define o domínio de ações no qual aquela atividade acontece e, no
38
Cabe ressaltar a diferente conotação usada pelo autor entre emoção e sentimento, também
compartilhada por Damásio (1996: 145), ressaltada por Rosa Pedro (1996: 130) e Denise
Alcabtara (2008: 16). Para os autores, a emoção se dá como alterações no corpo, reações que
podem se dar de forma mecânica, como relações de causa e efeito no processo biológico. Já o
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
39
processo, aprender a ver quais ações são desejadas naquela emoção” (MATURANA:
2001: 130).
De acordo com Varela, Thompson e Rosch (2003), a ciência é uma explicação da
experiência humana no mundo, e não de uma realidade independente do homem. Na
mesma linha de raciocínio, Maturana (2001: 128) observa que “pensar é agir no domínio
do pensar, andar é agir no domínio do andar (...), e explicar cientificamente é agir no
domínio do explicar científico” (MATURANA: 2001: 128). Em outras palavras, a ciência
passa a ser constituída a partir de ações humanas como conhecer, observar, explicar –
ações incorporadas – e se origina de questões particulares, curiosidades, paixões do
pesquisador . Estas questões particulares se desenvolvem em função direta da
perspectiva do pesquisador, associadas à sua experiência. Em função de sua experiência
e de seus interesses, diferentes pesquisadores, mesmo aplicando os mesmos
procedimentos em uma determinada experiência ou situação, tendem a ter diferentes
interpretações e explicações de suas experiências sejam elas meramente vivenciais ou
científicas. Conforme Maturana, (2001: 134), “há tantos tipos diferentes de explicação
quantos diferentes critérios usarmos (...) para aceitar os diferentes tipos de reformulação
(...) como explicações”.
A atenção e a incorporação das emoções, sensações e estímulos produzidos durante a
observação, bem como a indissociabilidade entre pessoa e ambiente são as principais
contribuições da abordagem experiencial ao estudo das relações pessoa-ambiente. Com
base no pressuposto de Latour (2001: 338) – “não existe um mundo lá fora, não porque
inexista um mundo, mas porque não há uma mente lá dentro” – e no entendimento de
que os comportamentos e as ações observados não se resumem a uma relação de
causa e efeito, a abordagem experiencial busca compreender as razões que justificam os
comportamentos observados, inclusive as emoções embutidas nestas ações. A
abordagem experiencial se ocupa “do modo como o observador pode orientar suas ações
na sua situação local, admitindo-se que essas situações locais mudam constantemente
em função da atividade do observador” (RHEINGANTZ, 2004: 07). Desse modo, a
abordagem experiencial pode vir a contribuir para superar o distanciamento da tradição
behaviorista nas relações pessoa-ambiente, e busca compreender as razões e
motivações dos comportamentos dos seres humanos em sua interação com o ambiente
(RHEINGANTZ et al, no prelo).
sentimento, combina a reação emocional ao afeto da pessoa e os motivos pelos quais certas
sensações emergiram dessa experiência, como memórias de outras experiências. Como exemplo,
podemos citar a tensão causada ao entrar no espaço penal: a tensão é a reação do organismo
causada pela lembrança de episódios agressivos que envolvem esse ambiente, pelo sentimento
de medo.
Fundamentos Teóricos – Capítulo 1
40
Segundo Thompson (1999, 2001), o indivíduo se constitui a partir de sua interação com o
mundo, suas coisas e com as outras pessoas. “No caso humano, o corpo vivo precisa
completar a si mesmo não só nas coisas do mundo, mas em outros seres humanos”
(THOMPSON, 1999: 09)
39
. Em outras palavras, a consciência do observador não está em
sua mente, mas é inerente ao corpo e às suas relações interpessoais – empatia
cognitiva. “A empatia, como a percepção, é uma forma de experiência direta: da mesma
forma que o senso de percepção nos mostra as coisas do mundo em si, e não a
representação das coisas, a empatia nos mostra a experiência do outro, e não a
representação dela” (THOMPSON, 1999: 12).
40
Na mesma linha de raciocínio, Alcantara
(2008: 46) sugere que “Ao interagir empaticamente com os outros sujeitos à sua volta, a
atuação passa a ser um sistema único de elementos autônomos ligados
intrinsecamente”.
A abordagem experiencial da relação pessoa-ambiente, adotada na presente pesquisa,
permite que se identifiquem os atributos qualitativos e as associações entre a
conformação espacial do lugar/ambiente e as experiências dos indivíduos, possibilitando
intervenções e projetos novos que, de fato, sejam pertinentes em relação aos desejos de
seus usuários e ao contexto/programa estudado. A experiência do pesquisador no lugar
traz informações mais significativas do que a interpretação distanciada ou a
representação, por permitir àquele uma interação com o ambiente e a constatação de
suas próprias sensações no lugar. A empatia cognitiva permite proximidade com os
usuários na aplicação dos métodos de pesquisa e sua observação atenta, fatores
fundamentais para o profundo entendimento do contexto estudado – que foge à realidade
do pesquisador. Essa abordagem é fundamental para o desenvolvimento da pesquisa
por proporcionar ao pesquisador a vivência no ambiente penal e uma profunda
apreensão de sua rotina e realidade através da experiência compartilhada de
funcionários e presos no lugar. Apresentados os fundamentos teóricos da pesquisa, será
explicitada a sua forma de aplicação no Capítulo 2 – Materiais e Métodos, a seguir.
39
Tradução livre da autora (In the human case, the lived body must complete itself not simply in
things or the world, but in other human beings.)
40
Tradução livre da autora (Nonetheless, empathy, like perception, is a form of direct experience:
just as sense perception gives us the worldly thing itself, not a representation of the thing, so
empathy gives us the experience of another, not a representation of it).
2
CAPÍTULO
Materiais e Métodos
Materiais e Métodos – Capítulo 2
42
2. MATERIAIS E MÉTODOS
A ciência do paradigma emergente (...) é também assumidamente tradutora, ou seja,
incentiva os conceitos e as teorias desenvolvidos localmente a emigrarem para outros
lugares cognitivos, de modo a poderem ser utilizados fora do seu contexto de origem. É um
conhecimento sobre as condições de possibilidade da ação humana projetada no mundo a
partir de um espaço-tempo local. Um conhecimento desse tipo, é um conhecimento
imetódico, constitui-se a partir da pluralidade metodológica. Cada método é uma linguagem
e a realidade responde na língua em que é perguntada. (SANTOS, 1996: 48)
Este capítulo descreve como os objetivos pretendidos neste trabalho serão alcançados.
Assim, são apresentados os materiais, métodos e instrumentos utilizados ao longo da
pesquisa, justificando sua escolha e forma de aplicação de acordo com as finalidades das
etapas referidas. Considerando o caráter transdisciplinar do trabalho, que não se limita ao
campo da arquitetura, mas o influencia, estão previstos métodos de diferentes naturezas,
com relevante destaque para aqueles que utilizam pesquisa bibliográfica, elemento
fundamental na elaboração das análises apresentadas nos Capítulos 3, 4 e 5. Por esta
razão, diferentemente de um tradicional elenco de métodos “práticos” de pesquisa, no
presente trabalho, grande parte da investigação ocorreu por meio deste procedimento de
cunho teórico. Este processo foi importante, não só porque permitiu a obtenção de novas
informações propriamente ditas, mas também porque contribuiu para a formulação de
raciocínios elaborados a partir da sua análise em conjunto.
Cabe ressaltar a principal questão (problema) que esta pesquisa pretende responder: De
que forma a arquitetura pode contribuir na concepção do espaço penitenciário
possibilitando a melhoria da aplicação do atual sistema penal brasileiro? A partir
desse questionamento, configurou-se o principal objetivo da pesquisa: determinar de
que forma a arquitetura e a concepção do espaço penitenciário podem contribuir
na resolução dos problemas atuais das edificações penais, enfatizando o caso do
Rio de Janeiro.
A pesquisa é fundamentada em abordagens derivadas do pensamento contemporâneo,
focando principalmente as áreas de conhecimento da história, arquitetura e cognição,
segundo as bases teóricas apresentadas no capítulo anterior a partir da aplicação dos
materiais e métodos apresentados no quadro 7:
Materiais e Métodos – Capítulo 2
43
Quadro 6 – Materiais e métodos
Desdobramentos aplicados
à ciência do saber
Principais
Bases Teóricas
Materiais e
Métodos
Arqueologia do
Saber
Foucault (2008)
Pesquisa
bibliográfica com
foco nas questões
que permeiam a
percepção do
crime, as formas
de punição, suas
transformações e
o rebatimento na
concepção do
espaço penal
História
Crítica
Genealogia do
Saber
Foucault (1979)
Arquitetura
Tipologia
Arquitetônica
Argan (2004),
Rossi (1998),
Moneo (1984),
Montaner (2001),
Colquhoun
(2004)
Pesquisa
bibliográfica com
foco em projetos
de edificações
penais e sua
relação com
outros programas
Construção do
Pensamento
Contemporâneo
Cognição
Abordagem
Experiencial
Maturana (2001),
Varela,
Thompson e
Rosch (2003),
Rheingantz,
Alcântara,
Brasileiro,
Azevedo e Araujo
(no prelo)
Entrevistas com
base no conceito
de empatia;
observação
incorporada
Cabe ressaltar que esta é uma pesquisa de cunho bibliográfico que se utiliza de
procedimentos práticos – entrevistas e visitas de campo – somente para alguns pontos
do seu desenvolvimento. Apresentada a estrutura que fundamenta a pesquisa, serão
especificados os materiais e métodos aplicados à pesquisa nos itens seguintes.
Materiais e Métodos – Capítulo 2
44
2.1. Aplicação do Conceito de Arqueologia do Saber
Conforme demonstrado no Capítulo 1, Fundamentos Teóricos, o conceito de Arqueologia
do Saber (FOUCAULT: 1985) busca investigar, a partir de fatos históricos, a origem do
surgimento de discursos e saberes, que aqui é aplicado ao surgimento dos modelos da
arquitetura penal. O conceito fundamenta-se na periodização e busca identificar, nesta
pesquisa, que fatos permitiram o surgimento da prisão a partir da visão de mundo de
cada período. Desse modo, identificam-se os acontecimentos e condições discursivas
que constituíram epistemologias criando a possibilidade do espaço penal se estabelecer
e se transformar, alterando o seu caráter ao longo do tempo.
Esse conceito se relaciona ao objetivo (3) Relacionar a concepção do ambiente penal
com diferentes visões de mundo – como as transformações na percepção de mundo e do
crime vêm modificando a forma de punir e configurando o espaço penal. Aplica-se ao
Capítulo 3: Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal e ao Capítulo 5: Evolução da
Arquitetura Penal no Brasil. Compreende-se, assim, de que forma os vestígios dessa
percepção do mundo, seus valores e a percepção da própria instituição penal estão
materializadas no espaço físico e na forma de conceber o projeto de arquitetura.
Desse modo, a utilização de pesquisa bibliográfica e documentos sobre fatos históricos,
sociais, filosóficos, culturais, criminalistas, jurídicos e tecnológicos de cada período é
adotada para que a partir do entendimento de cada uma das realidades abordadas,
sejam analisados os modelos penais – levantados através de pesquisa bibliográfica e na
internet – originados nos devidos períodos, relacionando-os às respectivas visões de
mundo. Assim, os projetos são analisados a partir da visão de mundo em que foram
concebidos, de acordo com os valores e pensamentos nela presentes, a fim de melhor
compreender o papel da prisão e suas transformações ao longo do tempo.
A partir do levantamento de informações e cruzamento dos dados obtidos, torna-se
possível identificar de que forma a concepção penal vem materializando a visão da
instituição e contribuindo para a aplicação e o cumprimento da pena, dentro de suas
finalidades em cada período. Compreendendo o mundo e suas transformações como um
ciclo único de interação que engloba todas as coisas que se encontram em constante
transformação, cada um de seus elementos se torna resultante de todas as gerações.
Desse modo, o papel da prisão hoje, a configuração do seu espaço e a sua participação
na aplicação do pensamento penal se relacionam à sua história e ao seu papel dentro de
cada realidade, configurando o Capítulo 3 e 5.
Materiais e Métodos – Capítulo 2
45
2.2. Aplicação do Conceito de Genealogia do Saber
Conforme demonstrado no Capítulo 1, Fundamentos Teóricos, o conceito de Genealogia
do Saber (FOUCAULT, 1979) parte da existência da gênese, ou seja, a reincidência
dialética de um tipo ao longo do tempo, que aqui se aplica à arquitetura penal, e se dá
através da sua interpretação e aplicação - releitura adaptada a outras particularidades.
Desse modo, são analisados os tipos penais em sua ocorrência, identificando sua origem
– muitas vezes associada a outros programas de arquitetura – e compreende-se como se
deu a sua apropriação, ou seja, que elementos foram adaptados para o seu programa
específico, tornando-o identificável como tal.
Esse conceito se relaciona ao objetivo (4) Relacionar as tipologias arquitetônicas com a
concepção do ambiente penal – de que forma o espaço penal adapta as tipologias
existentes para a finalidade penal e aplica-se ao Capítulo 4 Arquitetura Penal: Tipologias
e Modelos. Compreende-se assim, de que forma a arquitetura penal vem se apropriando
e dando o seu caráter às tipologias, às linguagens e às teorias da arquitetura presentes a
partir das diferentes realidades e visões de mundo apresentadas no Capítulo 3.
Assim, a utilização de pesquisa bibliográfica sobre as teorias, pensamentos e linguagens
da arquitetura, relacionada às realidades de cada período, é direcionada para que se
obtenha o entendimento do pensamento arquitetônico de cada período e, a partir de
então, analisar a ocorrência dos modelos penais – levantados através de pesquisa
bibliográfica e na internet – ao longo dos períodos estudados. Assim, os projetos são
analisados a partir das linhas de pensamento arquitetônico de cada período, a fim de
melhor compreender as especificidades da arquitetura penal e seus elementos, bem
como, suas transformações ao longo do tempo, sempre relacionadas à respectiva visão
de mundo.
A partir desse levantamento de informações, imagens de projetos e cruzamento dos
dados obtidos, é possível identificar de que forma a arquitetura penal vem refletindo o
pensamento arquitetônico de cada período, direcionando-o para as suas finalidades
específicas. Desse modo, identifica-se o papel da configuração do espaço penal na
aplicação da pena e a sua contribuição dentro do pensamento arquitetônico de cada
período, que se apresenta no Capítulo 4.
Materiais e Métodos – Capítulo 2
46
2.3. Entrevistas
... todo conhecimento é auto-conhecimento. A ciência nada descobre, cria, e o ato criativo
protagonizado por cada cientista e pela comunidade científica no seu conjunto tem de se
conhecer intimamente antes que conheça o que com ele se conhece do real. Os
pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças, os juízos de valor não estão antes nem
depois da explicação científica da natureza ou da sociedade. São parte integrante dessa
mesma explicação. (...) A ciência é autobiográfica. (SANTOS, 1996: 52)
Esse instrumento se relaciona ao objetivo (5) Refletir sobre a contribuição da arquitetura
na concepção do espaço penal frente às necessidades e experiência dos profissionais da
área. Aplica-se principalmente ao Capítulo 6, Relatos e Impressões no Atual Sistema
Penal Brasileiro, a fim de identificar, a partir de suas aplicações a funcionários e
profissionais envolvidos com a temática em questão, a contribuição da concepção do
espaço penal no uso e funcionamento da edificação e as peculiaridades de seu projeto e
dia a dia. Sua utilização foi essencial por permitir a apreensão da experiência – a partir do
conceito de Empatia de Thompson (Capítulo I), a apreensão profunda da experiência do
outro a partir da interação entre indivíduos – de profissionais da área que conhecem
profundamente a rotina do ambiente penal e seus pontos mais críticos. Durante a
aplicação desse instrumento o pesquisador buscou uma aproximação com os
entrevistados a fim de melhor observar suas emoções durante os relatos, resultando em
respostas mais profundas sobre a vivência no ambiente penal.
Segundo Sommer e Sommer (1991) as entrevistas se classificam em: estruturadas, semi-
estruturadas, não-estruturadas. Neste trabalho utilizam-se entrevistas semi-estruturadas
e não-estruturadas. As entrevistas resultaram em importantes informações para a
pesquisa, sendo fundamentais para verificação de algumas assertivas previamente
estabelecidas, assim como equivocadas. Este instrumento permitiu uma maior
aproximação da pesquisadora com os usuários do espaço, profissionais da área de
segurança e de projeto, por permitir que o entrevistado discorra livremente pelo assunto
abordado, possibilitando um maior e mais profundo entendimento de sua realidade
particular. As entrevistas foram aplicadas não só para responder a questões específicas,
mas também a partir de oportunidades que se apresentaram.
Entrevistas não-estruturadas:
As entrevistas não estruturadas foram elaboradas a partir de tópicos (Anexo 2), reunindo
questões especificamente relacionadas com a experiência de cada um dos profissionais
entrevistados. A aplicação se deu em dois grupos profissionais da área:
Materiais e Métodos – Capítulo 2
47
Arquitetos e engenheiros – abordando questões de suas experiências de trabalho
na área, como: a contribuição do projeto de arquitetura, peculiaridades do programa,
dificuldades de execução, localização das edificações e detalhes de alguns projetos
por eles executados. Nesse caso as entrevistas se realizaram em seus ambientes de
trabalho, junto à observação de plantas e outros desenhos dos projetos das unidades
em que participaram. Alguns desses profissionais foram funcionários da SEAP e
outros somente elaboraram projetos de unidades. Muitas informações e questões
foram elucidadas a partir da elaboração de desenhos – croquis – pelos entrevistados,
para exemplificar ou demonstrar o que estavam relatando, ou quando faziam
comparações entre projetos e seus elementos. Valiosas informações foram obtidas
sobre as peculiaridades de projeto e seu processo de elaboração, facilitadas pela
evidencia dos desenhos.
Agentes penitenciários – abordando questões como: a segurança e a vigilância
dos presos em relação à configuração da edificação, funcionalidade e adequação do
edifício nas atividades diárias da edificação, rotina de trabalho na unidade e suas
dificuldades, pontos negativos e positivos. Nesse caso as entrevistas foram
realizadas nas unidades visitadas e na Secretária de Administração Penitenciária de
São Paulo (SAP). As entrevistas realizadas nas unidades foram mais informais,
realizadas ao percorrer a unidade, de modo que muitas questões novas surgiram, a
partir da apreensão do ambiente e da observação de certas situações. Os
entrevistados foram relatando livremente uma série de situações à medida que
fazíamos o percurso e as perguntas iam sendo inseridas em seus relatos. As
entrevistas com os agentes da SAP se realizaram na própria secretaria, de modo
mais formal, principalmente pela falta de imagens e do próprio ambiente. Os agentes
penitenciários se mostraram como principal fonte de pesquisa para a apreensão do
ambiente penal.
Entrevistas semi-estruturadas:
As entrevistas semi-estruturadas foram elaboradas a partir de um roteiro de perguntas
(Anexo 1) direcionado a experiência dos profissionais, apresentando flexibilidade para a
inserção de novas questões e a facilitação do entendimento das perguntas. A aplicação
se deu em dois grupos de profissionais da área:
Psicólogos da SEAP – abordando questões como: a segurança em relação à
configuração da edificação, adequação do edifício nas suas atividades específicas,
rotina de trabalho na unidade e suas dificuldades. Algumas entrevistas foram
realizadas nas unidades visitadas e outras na SEAP. Como no caso dos agentes, as
Materiais e Métodos – Capítulo 2
48
entrevistas realizadas ao longo do percurso das unidades foram mais ricas, como
também mais informais.
Funcionários da área de saúde da SEAP – abordando questões como: a
segurança em relação à configuração da edificação, incidência de doenças nos
presos relacionadas a configuração da edificação, rotina de trabalho na unidade e
suas dificuldades. Essas entrevistas foram realizadas na SEAP, se configurando em
entrevistas mais formais e gerais pela falta do ambiente ou da utilização de desenhos
que exemplificassem situações específicas. Ao longo da entrevista, alguns
entrevistados citaram e descreveram algumas unidades e suas configurações,
ilustrando melhor suas respostas e mesmo comparando situações.
O contato com esses profissionais se deu inicialmente por meio de um conhecimento
pessoal da pesquisadora com duas funcionárias da SEAP, e a partir daí, a rede de
contatos pôde ser expandida para os demais profissionais afins, que se mostraram
disponíveis a contribuir com a presente pesquisa.
2.4. Observação Incorporada
Nenhum debate pode estar purificado dos humores, manias, obsessões, inclusive acritudes
dos próprios debatedores. Não pode haver debate puro, quer dizer, esvaziado de toda
subjetividade e afetividade (MORIN, 1984: 111)
73
A observação em campo de alguns estabelecimentos penais do Rio de Janeiro se
relaciona com o objetivo geral da pesquisa: Determinar de que forma a arquitetura e a
concepção do espaço penal podem contribuir na resolução dos problemas atuais das
edificações penais, enfatizando o caso do Rio de Janeiro. Aplica-se principalmente ao
Capítulo 6, Relatos e Impressões no Atual Sistema Penal Brasileiro, a fim de experienciar
o lugar, proporcionando um maior conhecimento e vivência do ambiente penal por parte
da pesquisadora, com foco na relação do espaço físico com o funcionamento da unidade,
suas normas, usos e finalidades. Do mesmo modo que as entrevistas, as visitas foram
viabilizadas pelo conhecimento prévio e a rede de contatos estabelecida entre a
pesquisadora e funcionários da SEAP. Foram visitados os seguintes estabelecimentos:
Bangu IV, Talavera Bruce e Unidade Materno Infantil Madre Tereza de Calcutá.
73
Tradução livre da autora (Ningún debate puede estar purificado de los humores, manías,
obsesiones, acritudes inclusos, de los propias de los debatientes. No puede haber debate “puro”,
es dicer, vaciado de toda subjetividad y afectividad).
Materiais e Métodos – Capítulo 2
49
Conforme demonstrado no Capítulo 1, Fundamentos Teóricos, a Abordagem Experiencial
(RHEINGANTZ et al, no prelo), adotada pela pesquisadora nas visitas e no próprio
desenvolvimento da investigação, visa obter relatos da experiência do indivíduo no
ambiente de forma mais consciente de suas sensações, contendo assim, significados
somente possíveis a partir da experiência no lugar. O distanciamento do profissional que
concebe o espaço com relação ao seu contexto e realidade gera, muitas vezes,
ambientes dissociados de seus propósitos, conformando espaços genéricos; desse
modo, pretende-se com essa abordagem propiciar ao pesquisador a experiência do lugar,
ao invés de uma interpretação distanciada do ambiente. A Observação Incorporada se
aplica nesta pesquisa como uma atitude do pesquisador que permeia toda a pesquisa,
considerando as suas impressões, sensações e emoções na sua observação e relato.
A Observação Incorporada é um procedimento de pesquisa em desenvolvimento por
pesquisadores do grupo ProLUGAR e se configura como uma aplicação prática da
Abordagem Experiencial. Constitui-se a partir do relato da experiência do indivíduo no
ambiente, de uma forma mais atenta e consciente de suas sensações e emoções,
incorporando a reflexão do pesquisador sobre a própria experiência, somando emoção a
razão (ALCANTARA e RHEINGANTZ, 2007b; 2004). “Ao se ocupar em atentar para o
modo como guia suas ações durante a observação, o pesquisador pode dar mais
atenção ao seu saber intencional” (ALCANTARA, 2008: 72). Uma maneira diferente de
olhar o lugar que se deixa por ele impregnar que não exclui ou renega os métodos
racionais, mas aceita que o pesquisador age pela razão associada à emoção, não
havendo neutralidade.
A atitude se torna operante por meio de anotações, relatos e registros das observações em
cadernos de campo diários – podendo se constituir de textos, croquis, palavras soltas e
impressões – os quais são posteriormente sintetizados em relatórios com o objetivo de
trazer à luz elementos e descobertas subjetivas complementares à análise dos outros
métodos utilizados... (RHEINGANTZ et al, no prelo)
A observação incorporada esteve principalmente presente nas visitas às unidades
penais. Ao percorrer a unidade junto com os funcionários, foram feitas diversas
anotações sobre as sensações da pesquisadora em campo – não é permitido o uso de
gravadores; foram descritas impressões e elaborados desenhos que buscavam registrar
o ambiente visitado – não é permitido o uso de câmeras fotográficas. Logo após a visita –
para que nada fosse “perdido” – as informações foram complementadas com outras
lembranças e elaborados mais desenhos. A percepção dos sons, do cheiro – muito
característico – que dão caráter ao lugar, assim como das sensações que vão
Materiais e Métodos – Capítulo 2
50
modificando a percepção do ambiente e de seus usuários por parte do pesquisador foram
registradas, possibilitando uma avaliação mais profunda da experiência e do ambiente.
A experiência em campo proporcionou a apreensão da relação dos presos com o espaço
penal e a constatação da importância do estabelecimento desses laços no
comportamento do preso e sua ressocialização. Notou-se que ao se apropriar do lugar o
preso o toma como seu, cuida, limpa – isso se nota não só pela aparência, mas também
pelo cheiro – e se orgulha dos objetos por ele confeccionados, fazendo crescer a sua
auto-estima e o interesse em se “recuperar”. Nos ambientes onde não há esse
relacionamento preso-espaço nota-se um comportamento mais agressivo, até mesmo
pelo tom da fala dos presos. O conhecimento prévio de unidades penais permitiu à
pesquisadora a rápida identificação da proximidade dos setores de vivência, a partir da
identificação do cheiro ou de áreas comuns,a partir do som. O registro das sensações em
campo permitiu que posteriormente a pesquisadora pudesse reviver a sua experiência,
facilitando as análises das unidades visitadas.
2.5. O percurso do trabalho
O trabalho se desenvolve a partir da abordagem de conceitos apresentados no Capítulo
1, que permeiam todo o trabalho. A partir da aplicação do conceito de Arqueologia do
Saber pretende-se compreender as condições de existência dos modelos penais em
diferentes momentos históricos, evidenciando as temáticas relacionadas ao tema nos
tempos atuais no Capítulo 3. A partir do entendimento das visões de mundo, que
possibilitaram o surgimento dos modelos penais, pretende-se identificar através do
conceito de Genealogia do Saber, a interpretação dada às tipologias da arquitetura que
geraram as especificidades do programa, abordado no Capítulo 4. A partir de então, a
análise se direciona para o caso brasileiro no Capítulo 5, apresentando a evolução
histórica do programa a partir de fatos históricos que possibilitaram suas transformações
e sua relação com as tipologias apresentadas no Capítulo 4. Finalizando, o Capítulo 6
apresenta o sistema penal brasileiro atual e, a partir de entrevistas e a observação em
campo, apresenta o entrelaçamento da pesquisa sobre algumas unidades penais no Rio
de Janeiro contrapondo a teoria, a experiência prática e vivência do ambiente penal.
O percurso do trabalho e os principais fundamentos e questionamentos que delineiam a
sua configuração, organização e estrutura estão apresentados a seguir, como mostra o
quadro 8. Apresentados os métodos e, após este breve relato sobre o percurso do
trabalho, no próximo capítulo será desenvolvida a relação entre fatos que, ao longo do
Materiais e Métodos – Capítulo 2
51
tempo, foram criando condições para o surgimento de diversas formas de concepção
para o espaço penal.
Quadro 7 – percurso do trabalho, fundamentos e suas questões
Arqueologia do saber: surgimento dos tipos
de arquitetura penal
Genealogia do saber e Abordagem
Tipológica: estudo dos tipos de arquitetura
penal no decorrer de sua aplicação e uso
Fundamentos Teóricos: apresentação dos
conceitos aplicados no desenvolvimento da
pesquisa
Entrelaçamento entre a pesquisa
bibliográfica e a Abordagem Experiencial:
estudo de algumas unidades penais da
cidade do Rio de Janeiro, a partir de análises
de projeto, relatos de profissionais da área e
da observação do pesquisador
Materiais e Métodos: apresentação da
forma como os conceitos foram aplicados no
desenvolvimento da pesquisa
Capítulo 3: Como a percepção do mundo
e seus pensamentos derivados interferem
na concepção da arquitetura e do
ambiente penal?
Capítulo 4: Como se originam as
tipologias penais? As tipologias penais têm
relação com as tipologias de outros
programas? O que as diferencia?
Capítulo 5: como a arquitetura penal
brasileira vem se apresentando através do
tempo? Que fatos possibilitaram tais
configurações?
Capítulo 6: Que normas direcionam o
tratamento penal e a elaboração de suas
unidades no Brasil atual? Como funcionam
as unidades na prática? Que contribuição a
arquitetura traz para o seu funcionamento?
Capítulo 1: Que conceitos e linhas de
pensamentos dão base para a pesquisa?
Capítulo 2: Como utilizar os conceitos que
dão base à pesquisa para alcançar os
objetivos almejados?
3
CAPÍTULO
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
53
3. VISÃO DE MUNDO E CONCEPÇÃO DO ESPAÇO PENAL
Fazer aparecer, em sua pureza, o espaço em que se desenvolvem os acontecimentos
discursivos não é tentar restabelece-lo em um isolamento que nada poderia superar; não é
fechá-lo em si mesmo; é tornar-se livre para descrever, nele e fora dele, jogos de relações
(FOUCAULT, 2008:32).
... se desejamos saber por que certas coisas são como são em nossa desalentadora
arquitetura, devemos dirigir nossa atenção ao povo; pois nossos edifícios, todos, são
apenas uma enorme tela detrás da qual se oculta o conjunto de nosso povo – ainda que
especificamente os edifícios sejam imagens individuais daqueles a quem, como classe, o
povo tenha delegado e confiado seu poder construtivo. Portanto, e de acordo com isto, o
estudo crítico da arquitetura chega a ser não só o estudo direto de uma arte – pois ela é
uma fase menor de um grande fenômeno – mas também, in extenso, um estudo das
condições sociais que a originaram. (SULLIVAN, 1934 apud PATETTA, 1997: 75).
Este capítulo apresenta a relação entre a visão de mundo, a filosofia penal e a
conformação de seu espaço físico. Considerando que a percepção que temos do mundo
se constrói na nossa interação, pretende-se neste capítulo identificar as transformações
sociais, culturais e políticas que possibilitaram a transformação dos espaços penais,
identificando de que forma a configuração do espaço penal contribui na execução da
pena e suas relativas finalidades.
A lei é um código social estabelecido por um grupo que convive e vem a estabelecer
regras de conduta que cerceiam a ação dos indivíduos em detrimento do grupo e seus
valores morais. A prisão surge, então, como um meio de punição ao não cumprimento da
lei, com vistas a resguardar o direito e a segurança dos indivíduos. A história da prisão
caminha junto à história das sociedades e da vida urbana. São os padrões sociais e o
conviver que definem o caráter de suas regras. Se, no passado, as regras eram
discutidas por pequenos grupos, o crescimento das cidades e a complexidade crescente
das sociedades trouxeram a necessidade de sua organização, sendo a prisão o
instrumento de correção, ainda hoje aplicado.
Buscando a compreensão do percurso pelo qual o espaço penal vem passando através
de suas transformações e o seu próprio papel dentro de diversos contextos, este capítulo
foi organizado em três partes, onde se pretende abordar: (1) os precedentes do espaço
penal adotado como ambiente de restrição de liberdade e as transformações que
permitiram o seu estabelecimento; (2) o estabelecimento do espaço penal como ambiente
de restrição de liberdade; (3) as mutações que a conformação do espaço penal vem
sofrendo após o seu estabelecimento, a partir das mudanças na visão de mundo.
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
54
3.1. Precedentes: condições de emergência
Primórdios
Apesar de a prisão existir desde épocas mais remotas, seu caráter era muito diferente do
atual. Na antiguidade as prisões tinham como função isolar e manter os indivíduos presos
até o seu julgamento. As penas estabelecidas nesta época eram a pena de morte, as
corporais e as infamantes
75
. As mutilações e a tortura eram utilizadas para se "arrancar" a
verdade do condenado e os trabalhos forçados também eram muito comuns. Pode-se
dizer, então que, a prisão tinha como função somente a espera para os suplícios, a
mutilação e a morte do indivíduo.
Os espaços de custódia da antiguidade não apresentavam uma arquitetura própria. Eram
usadas edificações abandonadas, muitas vezes em ruínas, subterrâneos e calabouços,
chegando-se até a ocupação de antigos poços coletores de água como prisão – um deles
é ainda conhecido como “a fossa dos condenados”. Nesta época, não se cogitava a pena
de privação da liberdade, já que todas as condenações tinham como finalidade o
cumprimento de uma pena, que muitas vezes terminava com a morte do indivíduo.
Idade Média
O declínio do Império Romano e as constantes invasões bárbaras vão aos poucos
esvaziando as antigas cidades, que não são mais capazes de oferecer segurança a seu
povo. A partir do século V, a população das cidades começa a migrar para o campo. O
cristianismo se estabelece depois de longo período à margem, sendo visto mesmo como
subversivo, o que obriga seus seguidores a buscar o isolamento em grutas e cavernas,
dando origem aos mosteiros isolados. O modelo do mosteiro e a reclusão buscada pelos
clérigos vão sendo seguidos pela população comum sob o signo de “ilhas de paz”,
isoladas das turbulentas e violentas cidades. “Não importa quais fossem as confusões do
mundo exterior, o mosteiro estabelecia, dentro de suas paredes, um tanque de ordem e
serenidade”. (MUMFORD, 1998: 270) A vida se orienta pela subsistência e proteção do
corpo. Muitos trocam a liberdade pela servidão, em troca da proteção dos senhores de
terras.
Segundo Mumford (1998), a própria ampliação do cristianismo está associada à forma de
vida que pregam – o voto de pobreza, o jejum, o isolamento – e sua adequação à dura
situação em que a população atravessava e da qual não se vislumbra saída. A crença
pagã na “Vida, Prosperidade e Saúde” já não é condizente com a realidade, ao contrário
75
Eram penas retributivas, onde o condenado que havia praticado o crime seria difamado em
público.
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
55
da crença cristã que inclui essa realidade, não só lhe dando significado – como castigo
de Deus pelos pecados do homem – como ainda lhe atribui o valor positivo da
recompensa da salvação em sua vida espiritual. Os homens passam a reconhecer os
percalços da vida como fatos originados por seus próprios atos e esse sentimento de
culpa faz com que as dificuldades sejam vistas como uma penitência dada por Deus, o
que as torna mais facilmente aceitas.
O pensamento cristão se utiliza do dualismo maniqueísta (o bem e o mal) fundamentando
conceitos morais a partir da visão do homem como um ser inteligente, dotado do livre-
arbítrio. Segundo Santo Agostinho (Sec. IV: 1995)
76
, o mal (pecado) é a ausência do bem
(inteligência do homem) e o homem, por ser o único Ser que possui inteligência, é
também o único ser capaz de escolher entre o bem e o mal (livre-arbítrio). Desse modo, o
mal não é um ofício de Deus, mas do homem e de suas paixões (que seriam a ausência
de Deus).
Pois bem, se sabes e acreditas que Deus é bom – e não nos é permitido pensar de outra
forma – Deus não pode praticar o mal. (...) Não há nenhuma outra realidade que torne a
mente cúmplice da paixão a não ser a própria vontade e o livre-arbítrio. (SANTO
AGOSTINHO, Sec. IV: 1995: 01 – 11)
Esses valores morais e o modo de vida monástico, fundamentado no valor prático da
restrição da ordem, da disciplina e da honestidade – vão se enraizando nos pequenos
povoados estabelecidos a partir do século V, assim como a própria configuração física e
espacial dessas cidadelas caracterizadas por um aglomerado de pequenas habitações de
vassalos e servos em torno da morada do senhor feudal (WOODHEAD, 1990a: 75).
Apesar do forte poder da Igreja sobre a conduta e os valores morais do homem – únicos
e inflexíveis – que desse modo vão conformando as regras sociais, as pequenas
cidadelas ainda apresentam um caráter local, configurando um grupo de regras próprias.
A maioria das regras dessas cidadelas é estabelecida a partir de um conselho formado
por senhores de terras – os “vilões” – uma espécie de parlamento que, de tempos em
tempos ou em situações de necessidade, se reúne para discutir e estabelecer regras de
conduta (leis) e processar infrações sobre os mais diversos assuntos: questões de terras,
injúrias e rixas pessoais, roubo, assassinato, etc. (WOODHEAD, 1990b: 13). As leis são
transmitidas oralmente, não havendo códigos escritos, o que permite distorções em
76
Data da publicação original do livro Livre-Arbítrio, publicado no Brasil em 1995 pela editora
Paulus, São Paulo.
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
56
situações convenientes (WOODHEAD, 1990b: 39). Predomina o Direito Germânico
77
,
apresentando influências do Direito Ordálico
78
em alguns grupos sociais, que já
aplicavam as provações que iriam predominar futuramente.
O “julgamento” é realizado publicamente e podem ser ouvidas testemunhas. Porém, sua
condução ainda está muito associada a práticas místicas. Muitas vezes o réu é
submetido a provações, como por exemplo, sofrer um ferimento, de modo que a sua cura
prova a sua inocência e caso a ferida inflame, é considerado culpado e nesse caso
recebe a sua pena (WOODHEAD, 1990b: 14). As punições às infrações são em geral
punições corporais, tidas como uma retribuição do mal causado pelo réu, como uma
vingança do grupo social. Também são aplicadas multas (quando o indivíduo não podia
pagar eram convertidas em mutilações), a execução, a escravidão ou o banimento
permanente, que retira do indivíduo todos os seus direitos legais, o que o força a deixar a
cidade.
O aprisionamento não é finalidade da pena, servindo apenas para isolar e impedir a fuga
do réu até que este receba a sua pena, tendo assim somente fins de custódia temporária.
Os espaços utilizados para tanto são improvisados, havendo poucos registros dos
espaços penais deste período (JOHNSTON, 2000: 06).
A partir do século IX, porém, o isolamento já não é capaz de, por si só, oferecer proteção,
“Se o mosteiro havia conduzido a retirada, a cidade conduziu o contra-ataque”
(MUNFORD, 1998: 273). As invasões bárbaras que, inicialmente, tinham como objetivo
saquear, modificam seu caráter e passam a ocupar as terras, o que as direciona para o
campo. Os senhores de terras passam a construir castelos e fortificações em locais
estratégicos, configurando a paisagem clássica da Idade Média dos campos povoados de
castelos e fortificações (Fig. 01). Posteriormente, com o crescimento das cidadelas em
torno dos castelos, passam a construir muralhas de proteção (MUNFORD, 1998: 274). A
insegurança – gerada pelas freqüentes invasões bárbaras – leva os camponeses a
procurar refúgio e a proteção da muralha, que aumentam o poder do senhor e vêm a
estabelecer, de fato, o sistema feudal.
77
Configura-se por “julgamentos,” feitos por conselhos e, penas baseadas em atos de retribuição
do crime como castigo.
78
Configura-se pela influência da metafísica, seus julgamentos se baseavam nas provações pelas
quais o réu deveria passar.
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
57
Fig. 01 – cidade medieval
Fonte: MUNFORD. 1998: 268
A segurança alcançada nas cidades pelas muralhas restabelece a paz, a vida urbana e
comercial, atraindo a população. Com o rápido crescimento das cidades e sua grande
atração, formam-se aglomerados em torno das muralhas. Posteriormente as muralhas
vão sendo estendidas, incluindo a nova população (MUNFORD, 1998: 276). Com as
novas técnicas de cultivo e a relativa paz entre os povos, a produção excedente pode ser
comercializada, trazendo a circulação monetária (ALLAN, 1990: 33). A justiça ainda é
bastante fragmentada, variando localmente, assim como a moeda.
A Igreja passa por um período de crise, com a perda de crédito diante dos abusos dos
clérigos – abuso de gastos, uso de bens da Igreja em proveito próprio, violação explícita
do voto de castidade (ALLAN, 1990: 51). É preciso retomar a ordem e reafirmar os
valores cristãos, que vêm sendo questionados por se apresentarem de modo superficial,
como crenças pouco fundamentadas, que por si só não mais se sustentam. Desse modo,
se inicia a reforma monástica que abrange desde valores – estabelecendo a filosofia
escolástica – até questões administrativas e legislativas – instaurando posteriormente a
Cúria (ALLAN, 1990: 52).
Com o estabelecimento de regras de conduta, é necessário também que a Igreja
consigne “penalidades” para as suas infrações. Essas penalidades são fundamentadas
nas regras estabelecidas por São Benedito no século VI e têm como finalidade
penitenciar e trazer, através da privação, da reflexão e dos ensinamentos cristãos, o
arrependimento, principalmente através do isolamento (JOHNSTON, 2000: 18). A Igreja é
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
58
a primeira instituição a usar o aprisionamento sem direcioná-lo à retribuição, como
finalidade na resolução de problemas disciplinares (JOHNSTON, 2000: 17; PEVSNER,
1997: 160). Muitos monges passam longos períodos trancados em seus dormitórios –
pequenos cômodos com uma cama, uma mesa de estudos, luz para que pudessem ler e
uma pequena abertura por onde recebiam comida e material de estudos (JOHNSTON,
2000: 19)
O pensamento escolástico busca fundamentar as crenças cristãs desacreditadas unindo
a fé à razão, de modo a usar os conhecimentos da razão, mantidos em poder da Igreja,
para fundamentar os valores e crenças cristãs, estabelecendo uma sólida visão de
mundo (comportamento, leis, normas) carregada de valores morais inquestionáveis: os
dogmas (HIRSCHBERGER, 1959: 265). O dogma, visto como uma verdade divina, não
pode ser contestado, pois foi revelado por Deus e alcançado pelo homem através da
inteligência – sendo, assim, um sistema lógico divino. Desse modo une-se a teologia –
baseada na revelação – à filosofia – baseada no exercício da razão.
Para que o pensamento cristão tenha crédito pleno, porém, é preciso que a Igreja dê o
exemplo. Desse modo, no final do século XI a Igreja institui a Cúria, um instrumento
administrativo criado para acompanhar e ordenar os abusos e o caos interno (ALLAN,
1990: 52). Sua abrangência, porém, ultrapassa seus limites e objetivos iniciais. A justiça
européia, ainda muito fragmentada, vem buscando se estabelecer lentamente por meio
de tradições das aldeias e direitos tradicionais de nobres e senhores de terras. As cortes
civis e reais utilizavam penas demasiadamente duras. Por apresentar o mais ordenado,
coerente e humano corpo de leis e regras da Europa, a população comum passa recorrer
à Cúria para questões legais diversas – passando por cima do poder do senhor e do
próprio rei –, consolidando o poder da Igreja (ALLAN, 1990: 54).
Já no início do século XII a lei canônica é codificada. Seus fundamentos se baseiam no
sistema dialético denominado Sic et Non (Sim e Não)
79
. A aplicação deste sistema à lei
canônica resulta em um documento denominado Decretum – “A Concordância de
Cânones Discordantes”, que se torna uma espécie de manual jurídico semi-oficial da
Igreja e que abordava amplas questões. Os monarcas tentam fazer com que a população
resolva seus problemas na sua jurisdição – seu reino – buscando manter o seu poder e o
dos senhores feudais, de julgar e executar de acordo com a sua conveniência. Mas a
Igreja designa “juízes-delegados” que percorrem toda a Europa, fazendo a sua lei
prevalecer sobre qualquer outra. A Igreja caminha para a sonhada posição de exercer a
79
Esse sistema, exposto pelo francês Pedro Abelardo em 1121 consiste em contrapor afirmações
contraditórias, avaliar seus méritos e escolher entre elas (ALLAN, 1990: 53).
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
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“Plenitude e Poder” – a soberania universal dada por Deus ao papado, estando acima de
qualquer instância (ALLAN, 1990: 54).
Nesse período as ordens religiosas buscam endurecer as penalidades e já se encontram,
em algumas Abadias, celas de penitência – pequenos cubículos entre as grossas
paredes, com pequenas aberturas para os altares das igrejas, permitindo que os monges
assistissem as missas sem sair das celas (JOHNSTON, 2000: 20). Os monges
permanecem presos até que provem ter recebido o perdão divino através de algum sinal
de Deus. A partir do século XII as instituições monásticas passam a ter locais construídos
intencionalmente com o propósito de aprisionamento, em geral nos subterrâneos das
instituições, as conhecidas masmorras. Como locais de penitência a Igreja recomenda
pequenas celas individuais escuras e proíbe as penas de morte (JOHNSTON, 2000: 21).
Com o estabelecimento do Decretum, a prisão monástica passa a abrigar também as
pessoas comuns. Os presos que vão para as masmorras, em geral, são considerados
irrecuperáveis, na maioria das vezes reincidentes, e de lá não saem com vida, o que traz
a expressão vade in pace (vá em paz), por serem estas as últimas palavras ouvidas
antes de entrar (JOHNSTON, 2000: 21). Os presos sofrem privações, muitos ficam a pão
e a água ou fazem jejum forçado. Ainda assim, a prisão religiosa é mais branda que as
demais – as penas de morte são proibidas e a tortura é usada somente com fins de
correção – e é por sua iniciativa que surgem as prisões subterrâneas.
A intensificação da vida urbana, a codificação de normas de conduta e a existência de
um aparato judiciário mais eficiente trazem a necessidade de locais próprios para o
aprisionamento e, data deste período, grande parte das prisões medievais contidas em
castelos e fortalezas. Já se aplica a pena restritiva de liberdade, que pode ser temporária
ou perpétua e, quando acontece, tem a finalidade de castigar o indivíduo, apresentando
condições subumanas. Em geral as prisões se localizam nos níveis inferiores ou
subsolos, principalmente das torres, apresentando um acesso restrito. Costumam ocupar
dois pavimentos seno que, as condições do aprisionamento e a seriedade da pena
definem a localização do réu. Quanto pior a infração, mais baixo é o nível. Grande parte
desses locais é adaptada, apresentando anteriormente outras finalidades, como
depósitos (JOHNSTON, 2000: 08).
Os níveis superiores muitas vezes recebem alguma luz e ventilação, fato que não ocorre
nos níveis mais baixos. Nesses locais, a única abertura é um alçapão localizado no teto
(PEVSNER, 1997: 160; JOHNSTON: 2000: 10), por onde os presos entram através de
uma escada de mão ou amarrados por cordas (Fig. 02 e 03), ou uma abertura lateral na
parede elevada do piso, ou shafts de iluminação e ventilação (Fig.02). Algumas prisões
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
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apresentam pequenas “alcovas” ou nichos nas paredes externas (Fig.03) com uma
abertura utilizada para as necessidades dos presos que são despejadas no fosso ou nas
galerias subterrâneas de esgoto (JOHNSTON, 1973: 07; 2000: 10).
Fig. 02 – nível inferior de prisões na Escócia.
Fonte: JOHNSTON, 2000: 11
Fig. 03 – prisão de Pierrefons, Château, França.
Fonte: JOHNSTON, 2000: 10
São também utilizados amplos espaços nas prisões onde se acumulam gaiolas (Fig.04),
que muitas vezes permanecem elevadas do piso, outras mantêm os presos mais
perigosos acorrentados (JOHNSTON, 2000: 08). Por outro lado, alguns presos possuem
grande liberdade, podendo circular pelo castelo ou mesmo trabalhar como funcionários.
A ampliação das muralhas, o crescimento das cidades e o aumento da circulação entre
elas, promovida pela intensificação do comércio, trazem uma maior necessidade de
controle, principalmente por haver agora diversas entradas. Esse controle é realizado em
edificações – Gates – que funcionam como “portarias” das cidades (Fig. 05). Nessas
portarias o fluxo é filtrado e os estranhos são detidos em prisões no seu interior, que
costumam se localizar no pavimento térreo. A separação dos prisioneiros é feita por sexo
e por sua condição de pagar taxas, tendo melhores condições os que melhor pagam por
elas (JOHNSTON, 2000: 12).
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61
Fig. 04 – prisão não identificada na França.
Fonte: JOHNSTON, 2000: 09
Fig. 05 – prisão de Newgate, Londres.
Fonte: JOHNSON: 2000: 12
A Igreja encontra-se no seu apogeu, no século XII, e vem promovendo as Cruzadas pela
Terra Santa, que arrastam multidões de fiéis ávidos na luta pela conquista de Jerusalém,
exterminando as minorias religiosas com que se deparam (ALLAN, 1990). As Cruzadas
se arrastam por quase dois séculos, porém com o passar do tempo seu objetivo original
vai se deturpando. Os monarcas incentivam a fundação de novas cidades e a Igreja
expande seus territórios, muitos cruzados conquistam novas terras para si e lá ficam,
além do que, altos impostos são cobrados dos que não participam de tais incursões, de
modo a financiá-las (MONTESQUIEU, 1995; ALLAN, 1990
; MUNFORD, 1998). Com tudo
isso, a igreja começa a ser vista, por muitos, como um estado secular e não mais como
uma sentinela de Deus, perdendo sua força. Seitas heréticas se multiplicam e, frente a
tudo isso, a igreja instaura a Inquisição (MUNFORD, 1998: 371).
A Inquisição tem como função apurar e julgar indivíduos por heresia e, quando
condenados, são entregues ao Estado, que deveria punir. A população é incentivada a
apurar e entregar indivíduos hereges, que são então inquiridos com direito à defesa
(LIMBORCH: 1816: 197). No caso de haver testemunhas fidedignas e da meia-prova, o
indivíduo é condenado e submetido à tortura para que a dor do corpo o redima do
pecado, salvando a sua alma pelo perdão divino (CASTRO, 1778). A execução da pena
se dá em praça pública para dar o exemplo aos outros indivíduos (Fig. 06).
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
62
Fig. 06 – execução pública, suplício
Fonte: SENNA, 1996:40
A partir de meados do século XIV a Europa atravessa uma grande crise. A peste negra
mata mais de um terço da população, que vê a desgraça como um castigo divino
(MUNFORD, 1998: 376). O reduzido número de trabalhadores se vê valorizado e pede
por melhores condições e direitos igualitários; os altos impostos dificultam a circulação de
mercadorias, fato que, junto às diferentes moedas e a alta inflação, prejudicam
consideravelmente o comércio. Começa a Guerra dos 100 anos, trazendo de novo a
insegurança nos campos. A monarquia, pressionada, começa a ceder frente às
exigências da população comum, que vai ganhando voz. Em meio a tantos percalços, a
população insegura retoma a fé e a Igreja toma partido disso, instaurando o Tribunal do
Santo Ofício no século XV
(ALLAN, 1990).
A Inquisição retorna, ordenada por procedimentos organizados, utilizando o direito
ordálico
80
. O réu é resguardado pela Igreja, geralmente em celas das edificações
monásticas, onde são realizados testemunhos secretos e confissões arrancadas pela
tortura, que agora é aplicada por equipamentos próprios (MUNFORD, 1998: 346). Os
culpados são postos em praça pública e então o carrasco lê o resultado de seu
julgamento, mostrando as provas ou a confissão para que então se inicie o cumprimento
da pena. A pena consta de provas – verdadeiros requintes de crueldade – pelas quais o
indivíduo deve passar para provar que Deus olha por ele (LIMBORCH, 1816: 198).
80
Como já mencionado, configura-se pela influencia da metafísica. Seus julgamentos se
baseavam nas provações pelas quais o réu deveria passar.
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
63
Milhares são mortos na fogueira, decapitados, mutilados, assistidos pelo povo ávido que
tem esse espetáculo como principal distração e atividade de lazer da época (CASTRO,
1778).
A melhor prova de maldade do indivíduo é o abandono que dele faz Deus ao retirar- lhe a
sua ajuda para superar as provas a que é submetido - da água, do fogo, do ferro candente,
etc.- (...) O culpado, isto é, quem não supera a prova, convence a si mesmo de sua própria
maldade e abandono de Deus. Se não tivesse pecado- se não tivesse cometido um delito-
sairia feliz da mesma, não há a menor dúvida. (VALDEZ apud BITTENCOURT, 2000)
Os espaços prisionais, buscando atender ao procedimento da Inquisição, vão ganhando
maior organização e complexidade. Já se usam três tipos de aprisionamento: (1) Murus
largus, onde o preso tem alguma liberdade, podendo circular pelos corredores da prisão;
(2) Murus strictus, onde o preso não sai de sua cela e fica a pão e água; (3) Murus
strictisssimus, que é o mais rígido, onde os presos são acorrentados pelos pés e pelas
mãos dentro de suas celas (JOHNSTON, 2000: 26). As edificações passam também a
abrigar locais para julgamentos e confissões, junto aos locais de aprisionamento.
A partir do século XV, se torna comum também a prisão do Estado que se destina aos
presos por crimes contra o poder do rei ou dos senhores de terras, delitos de traição ou
adversários políticos. Neste caso, podem ser aplicadas as penas comuns (morte,
mutilações), a perda da liberdade – que podia ser temporal ou definitiva – ou o indivíduo
pode receber o perdão real. Os estabelecimentos mais conhecidos são a "Torre de
Londres", a "Bastilha de Paris", "Los Plomos" e a "Ponte dos Suspiros" – porão do
Palácio Ducal de Veneza (JOHNSTON, 2000; BITENCOURT, 2000).
A queda de Constantinopla, no século XV, impede o acesso por mar e terra às Índias e à
Ásia, incentivando a expansão marítima e fazendo com que o mundo se abra para
Europa.
Renascimento e Humanismo
A Igreja vai perdendo poder e territórios, e para manter seus custos – que se elevam
bastante com a Inquisição – passa a estabelecer cotas de pagamento para a salvação. A
partir do século XVI a reforma protestante ganha força, com a frase tema “só a fé salva”,
busca retomar os valores cristãos e Lutero afirma que "Deus não é um juiz severo, mas
um pai compassivo" (DULEMEAU, 1973: 12). Os monarcas, pressionados pela
população, investem em serviços públicos, como calçamento das ruas, limpeza das
cidades evitando as pestes, construção de equipamentos urbanos como hospitais, asilos
e prisões; é a consolidação dos Estados Nacionais e do Absolutismo. Conforme Munford
(1998: 408), alteram-se definitivamente os valores e as relações de poder, como mostram
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
64
as inscrições nas portadas da Abadia de Telema e o complemento nos portões do
palácio: “Faze o que quiseres” “Enquanto agradar o príncipe”.
A abertura das universidades medievais permite a difusão do conhecimento, antes detido
pela Igreja, em diversas áreas como nas artes, na medicina, na matemática e na filosofia,
abrindo uma nova visão do mundo (MUNFORD, 1998: 377). Os novos conhecimentos se
fixam nos estudos da natureza e do homem e abrem as portas para o humanismo, que
faz do homem, enquanto um ser natural, o centro das atenções intelectuais, criando uma
posição antropocêntrica em reação ao teocentrismo, que tem o homem como um ser
vindo de Deus. A crença na razão traz a contestação dos dogmas da Igreja, afirmando
que verdades precisam ser testadas e avaliadas, não são uma questão de fé
(MOUSNER, 1957).
Buscando essa forma de testar e avaliar os fenômenos para uma melhor compreensão
dos fatos da vida e entendimento do mundo é que, a partir do século XVII, se
desenvolvem os métodos científicos e seus procedimentos (MUNFORD, 1998: 377). O
método científico, proposto por Descartes (1637), vem a ser uma forma de analisar o
objeto fundamentado na forma de perceber o mundo; nesse contexto, uma forma lógica e
racionalista: o método deve orientar a razão do homem para que se encontre a verdade.
Seus procedimentos são a observação, a análise, a formulação de hipóteses explicativas,
a verificação das hipóteses e a conclusão. A ciência observa e descreve o mundo
constatando pelo método, leis universais aplicadas a situações diversas, por serem
verdades comprovadas e, por isso, indiscutíveis (PEDRO, 1996).
A Reforma protestante se espalha dando origem a diversas organizações religiosas,
entre elas o Calvinismo. Acredita-se que a pena privativa de liberdade surge em uma
sociedade desenvolvida com o pensamento calvinista cristão, tanto que a prisão privativa
de liberdade usada nesta época é a prisão canônica. Tais espaços penais atendem ao
propósito da clausura, porém ainda se utiliza a fustigação corporal, o isolamento, a
escuridão, etc. O Direito Canônico contribui para o estabelecimento dos primeiros
conceitos modernos de recuperação do delinqüente dando origem ao termo
“penitenciária”, por sua vez originado da palavra penitência (BITENCOURT, 2000: 404).
Como o crime é um pecado contra os homens e contra Deus, é necessário se penitenciar
para se redimir e receber o perdão.
Durante os séculos XVI e XVII a Europa empobrece com as guerras religiosas; as
cidades são destruídas, os núcleos urbanos se estendem e os miseráveis são obrigados
a viver de esmolas, roubos e assassinatos. A delinqüência cresce rapidamente, os presos
- principalmente mendigos – realizam trabalhos forçados de ordem pública e cumprem
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
65
penas já conhecidas. Em 1554 são expulsos da cidade pela primeira vez, enviados para
as províncias (BITENCOURT, 2000: 408). O número de presos, porém, é tão grande que
não é possível utilizar as antigas penas – que também já não se justificam diante de
tantas mudanças sociais, culturais e ideológicas – não é possível matar tanta gente. O
humanismo traz menos violência na execução das penas e a crise traz a necessidade da
força de trabalho do preso e sua produção.
A partir da segunda metade do século XVI, começam a ser construídas prisões que
buscam a correção e recuperação do preso pelo isolamento e trabalho. Essa mudança
no pensamento penal leva ao desenvolvimento das penas restritivas de liberdade, no
futuro. Na Inglaterra, uma minoria do clero, preocupada em se defender da criminalidade,
cria a primeira instituição penal de correção, implantada no castelo de Bridwell, cedido
pelo rei. Baseia-se no trabalho e na disciplina para recuperar o recluso, em geral
pequenos delinqüentes, e tem como principal objetivo a prevenção. É o primeiro caso da
aplicação da pena restritiva de liberdade. O seu sucesso traz, em pouco tempo, a
construção das houses of correction ou Bridwells em vários lugares da Inglaterra. Em
1575, já existe uma lei definindo a sanção para os vagabundos e o alívio para os pobres,
fato que determina a construção de pelo menos um estabelecimento por condado. Esses
estabelecimentos têm como finalidade regenerar, em muitos casos dar uma chance a
esses indivíduos, amparar e não castigar. Em 1697 surge a primeira workhouse,
seguindo os princípios dos Bridwells em Bristol e em 1707 uma em Woncester e outra em
Dublin (JOHNSTON, 2000; SENNA, 1996; VAZ, 2005; MADGE, 1962).
Em 1596 criam-se as Rasphuis – casas de correção – em Amsterdã. As casas de
correção de Amsterdã possuem arquitetura própria, sendo construídas para este fim, pela
primeira vez. A eficiência de seu modelo faz com que ele seja copiado em vários países.
Por outro lado, os grandes delinqüentes continuam a receber as antigas penas. É nessa
época também criada a pena de galés
81
, prisão flutuante
82
, que consiste em destinar
grandes delinqüentes e prisioneiros de guerra a trabalhar nas galés militares,
constituindo-se em uma das mais cruéis penas (JOHNSTON, 2000; SENNA, 1996; VAZ,
2005; MADGE, 1962).
.A partir de meados do século XVI muitas propostas e escritos se fazem sobre a prisão,
asilos, manicômios e reformatórios, em relação às suas condições humanas e à sua
organização. O advogado Credán Tallada publica em 1574 o livro Visita de La Cárcel y
81
Consiste em manter os presos com calcetas presas a correntes nos pés e submetidos a
trabalhos forçados ou a esmolar o seu sustento em áreas públicas.
82
Semelhante a pena de galés, tinha o trabalho forçado e o uso da força bruta dos presos como
motor para navios.
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
66
los Presos, que defende a classificação dos presos por sexo, gravidade do delito e classe
social, para a diferenciação do tratamento – níveis de vigilância e configuração física das
celas – além de propor outros locais, como salas para tortura, oração e banho de sol.
Também propõe que todas as celas, mesmo as que abrigariam os delinqüentes mais
perigosos, não devem ser privadas de luz e ventilação (JOHNSTON, 2000: 40).
Em meados do século XVII, se institui em Florença o Hospício de San Felipe Néri que,
baseado na idéia de Hipólito Francini, destina-se ao tratamento de crianças e jovens
rebeldes. Utiliza o regime celular, com isolamento absoluto em atividades coletivas, de
modo que o interno usa um capuz para que os outros não possam ver o seu rosto. Na
mesma época, Jean Mabillon, monge beneditino francês, escreve um livro sobre a
experiência do Direito Penal Canônico que traz considerações sobre questões discutidas,
mais tarde, com o iluminismo. Defende a reintegração do condenado à comunidade, a
pena proporcional ao delito cometido e a condição mental do condenado (JOHNSTON,
2000; SENNA, 1996; VAZ: 2005; MADGE, 1962).
O arquiteto alemão Joseph Furtttenbach publica em seu livro Architectura Universalis
(1635), dois projetos de prisão (Figs. 07 e 08), onde ele propõe que a severidade do
tratamento do preso deveria variar com a gravidade do crime cometido (JOHNSTON,
2000: 30). Como grande parte dos pensadores e dos projetos, propõe ainda um local de
tortura para os presos que cometam crimes mais graves ou que ofereçam maior perigo.
Utiliza dois pavimentos para possibilitar a separação dos presos. Apesar das muitas
reflexões e propostas, poucas instituições foram construídas de acordo com as novas
recomendações e o tratamento penal ainda se assemelhava muito ao da idade média,
em algumas instituições. Porém, essas propostas foram a base para a reforma carcerária
que se seguiu, no final do século XVIII.
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
67
Fig. 07 – planta da pequena prisão do arquiteto Joseph Furttenbach,1635.
Fonte: JOHNSTON, 2000: 30
Fig. 08 – planta da grande prisão do arquiteto Joseph Furttenbach,1635.
Fonte: PEVSNER, 1997: 160
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
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Iluminismo
O desenvolvimento da ciência e a posição do homem na nova visão de mundo que se
estabelece, traz uma idéia mecanicista do mundo e uma fé no progresso contínuo da
humanidade, que se dá através dos feitos racionais do homem. O mundo agora está em
movimento e todo movimento apresenta direção: o futuro. A Revolução Industrial, no final
do século XVIII, traz a intensificação de uma percepção mecanicista do mundo, a partir
da transformação nas atividades produtivas, e transforma artesãos em operários.
Pensamentos e instituições do passado são contestados e busca-se uma nova
organização social e ideológica (BENÉVOLO 1998: 158). As antigas estruturas feudais se
chocam com as ambições do capitalismo emergente e a nova classe burguesa. O grande
número de pessoas “letradas” tem conhecimento suficiente para contestar e propor
mudanças baseadas na liberdade do homem e seus direitos civis (MOUSNIER;
LABROUSSE, 1958).
O poder absoluto, concentrado em uma só instância, é fortemente contestado. Rousseau
(1762; 1978)
83
aborda as relações sociais e os direitos individuais e defende os direitos
igualitários dentro de um grupo social. Montesquieu (1777; 1995)
84
elabora a “doutrina
dos três poderes” defendendo a divisão da autoridade em três instâncias: o poder
legislativo, executivo e judiciário, buscando assim que um limitasse os poderes do outro.
Defende, também que, as leis não devem ser arbitrárias, mas se relacionar com a
realidade social na qual se insere. Locke (1689; 1998)
85
afirma que o homem é, por
natureza, livre e dotado de razão, e abdica de sua liberdade individual para viver na
sociedade civil, esse pacto deve garantir os direitos naturais do homem e não restringir.
É uma verdade eterna: qualquer pessoa que tenha o poder tende a abusar dele. Para que
não haja abuso, é preciso organizar as coisas de maneira que o poder seja contido pelo
poder. (MONTESQUIEU, 1777: 1995: 34)
(...) é preciso encontrar uma forma de associação que defenda e proteja as pessoas e os
bens de cada associação, de qualquer força comum, e pela qual, cada um, unindo-se a
todos, não obedeça senão a si mesmo, ficando assim tão livre como antes. Tal é problema
que o contrato social soluciona (ROUSSEAU, 1762: 1978: 30)
As mudanças alteram a visão e a forma de julgar o crime. Os julgamentos passam a ser
baseados em verdades “claras e distintas”, alcançadas pela razão e as leis consideradas
83
Data da publicação original do livro “O Contrato Social”, publicado no Brasil em 1978, pela
EditoraAbril Cultural, São Paulo.
84
Data da publicação original do livro “O Espírito das Leis”, publicado no Brasil em 1995, pela
Editora Brasília, Brasília.
85
Data da publicação original do livro “Dois Trabalhos sobre o Governo Civil”, publicado no Brasil
em 1998, pela Editora Martins fontes, São Paulo.
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
69
integralmente, não permitindo interpretações ou distorções. O juiz tem poder somente
para classificar o crime, dentre as leis, e dar a sentença de execução já prescrita. Essa
realidade é também questionada e a discussão sobre o tema trará os fundamentos para o
estabelecimento do Positivismo Jurídico. Diversas instituições passam por reformas,
buscando implantar uma nova concepção de gestão que muitas vezes demandava
alterações físicas nos edifícios sem, porém, estabelecer um novo modelo. “O espírito da
renascença pode ser compreendido na direção da comodidade do corpo” (PEVSNER,
1997: 160)
86
A Casa de Correção de San Michele (Roma, 1701), idealizada pelo Papa Clemente XI, é
a adaptação de um antigo hospício, (Fig. 09). Ela é destinada a abrigar jovens
delinqüentes, órfãos, pobres e idosos (JOHNSTON, 2000: 36; MADGE, 1962: 05). O
regime adotado é o misto: trabalho em comum durante o dia e isolamento noturno,
sempre em silêncio absoluto. Acredita-se na religião associada ao trabalho para a
reabilitação do preso. Suas celas individuais são dotadas de latrinas, um colchão, luz e
ventilação natural, além de apresentar locais comuns para o trabalho. É a primeira
instituição a aplicar os novos conceitos da filosofia penal.
Fig. 09 – Casa de Correção San Michele, 1705.
Fonte: MADGE, 1962: 05
86
Tradução livre da autora (The spirit of Renasssance can be sensed in the way the “comodita del
corpo”)
latrina
área de trabalho
cela
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
70
Já a Casa de Correção de Milão (entre 1750 e 1778), projetada por Francesco Croce,
apesar de apresentar um projeto mais elaborado – utilizando a planta em “T” ou cruz
87
e abrangente (Fig. 10) – com alas femininas e de menores – apresenta poucos avanços
em relação à Casa de Correção de San Michele (JOHNSTON, 2000: 37). Adota o mesmo
regime e apresenta as mesmas condições de conforto – latrinas nas celas, iluminação e
ventilação natural.
Fig. 10 – Casa de Correção de Milão, 1775.
Fonte: MADGE, 1962: 07
A Casa de Força de Ghent. (Bélgica, 1772), projetada pelo arquiteto Malfaison e pelo
padre Kluchman, não utiliza princípios inovadores, mas é a primeira a reunir todos os
princípios defendidos na época, na mesma gestão (Fig. 11). Os delinqüentes eram
separados por sexo, idade, grau de criminalidade e duração da pena. Usava o trabalho
comum durante o dia e o isolamento noturno. Segundo Johnson (2000: 39), essa é a
primeira edificação penal de larga escala a ser construída, assim como, a primeira
contribuição da arquitetura na concepção do espaço penal. A concepção desta edificação
87
Já utilizados na época em hospitais e outros programas.
trabalho fem.
alo
j
amento fem.
trabalho fem.
alo
j
amento fem.
enfermaria
ala
Masc.
alo
j
amento masc.
alo
j
amento masc.
trabalho masc. trabalho masc.
p
átio
p
átio
ala
menores
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
71
permite a separação dos presos segundo as categorias da época, permite as condições
de conforto desejadas,além de apresentar uma organização funcional do espaço.
Fig. 11 – Casa de Força Ghent, 1772.
Fonte: MADGE, 1962: 06
Tais edificações ainda tiram pouco partido da arquitetura como um instrumento de
concepção específico para as instituições penais, mas apresentam modelos de gestão
avançados para a época e melhorias bastante consideráveis quanto à questão sanitária e
ao conforto. Características específicas desse tipo de projeto, como a observação do
preso pelo guarda a uma distância segura, ainda não são contemplados.
3.2. Instituição da Pena Privativa de Liberdade
A defesa em favor da aplicação de penas mais humanas aumenta consideravelmente o
número de presos,devido à diminuição da aplicação da pena de morte, enquanto os
avanços científicos fazem crescer o interesse pelas causas do crime. Novas prisões são
solicitadas e diversos estudos são realizados, concluindo que o comportamento criminoso
estava,geralmente,associado a fatores externos ao indivíduo. A visão racionalista e
progressista tende a excluir tudo que não se encaixa nesse modelo e as instituições
sociais como hospitais, manicômios e prisões se multiplicam para abrigar o grande
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
72
número de indivíduos e isolá-los segundo suas classificações, já que se pensava que o
“vicio” era contagioso (VAZ, 2005: 48).
Destaca-se a pesquisa do reformador John Howard, The State of the Prison, publicada
em dois volumes em 1777 e 1792, que relatavam suas observações após 17 anos
visitando instituições penais em diversos países. Sua pesquisa atesta o péssimo estado
das instituições, seu abandono e sua ineficácia, dando início à reforma prisional. Era
necessária uma mudança, já que as antigas prisões aumentavam a delinqüência e a
reincidência. “Alguns grandes erros em gerenciá-los: os rostos (ou as expressões) das
imagens a seguir declaram, sem palavras, que são muito miseráveis: muitos que foram
saudáveis mudaram em poucos meses para objetos emaciados e abatidos”. (HOWARD,
1777: 07
)
88
Em 1779 o Parlamento inglês estabelece o Ato Penitenciário, que determina que o
governo constitua dois estabelecimentos prisionais – feminino e masculino – que usem os
seguintes princípios: graduação da pena por bom comportamento, isolamento noturno,
dieta suficiente, trabalhos pesados de dia, limpeza e atendimento religioso (VAZ, 2005).
Essas normas são baseadas nos hábitos e na rotina das indústrias. Outros reformadores
abordam questões como a educação, a vigilância e a melhoria das condições.
Neste contexto, a descoberta do corpo como “objeto e alvo de poder” traz a sua
manipulação fortemente influenciada pela lógica militarista. O corpo passa a ser visto
como uma máquina composta de engrenagens que, se bem operadas, funcionam com
perfeição. E, para que um grupo de corpos funcione corretamente, é necessária a correta
organização do grupo – alcançada pela disciplina. Segundo Foucault (1983:125), “... o
soldado tornou-se algo que se fabrica; de uma massa uniforme, de um corpo inapto, fez-
se a máquina de que se precisa; corrijam-se aos poucos as posturas; lentamente uma
coação calculada percorre cada parte do corpo”.
O espaço começa assim a se codificar, recebendo divisões e subdivisões altamente
organizadas. Isso acontece em todas as instituições: escolas, quartéis, hospitais, entre
outros. “A disciplina, arte de dispor em fila, e da técnica para a transformação dos
arranjos. Ela individualiza os corpos por uma localização que não os implanta, mas os
distribui”. (FOUCAULT, 1983: 133). Pensa-se no espaço do indivíduo, no conjunto de
espaços dos espaços individuais sob o mesmo uso, o conjunto de espaços de diversos
usos e finalmente na organização hierárquica desses espaços que resultavam na
88
“Some great errors in management of them: the follow images countenances declare, without
words that they are very miserable: many who went in healthy are in few months changed to
emaciated dejected objects.”
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
73
arquitetura: a geometria que dá forma ao conjunto. Acredita-se que a correta distribuição
dos indivíduos no espaço é essencial para se obter a disciplina – conformadora dos “bons
modelos” de homens. Busca- se decompor os grupos, atuando sobre a individualidade, e
ainda fixar os indivíduos em seus lugares específicos, facilitando a sua localização e
vigilância. A posição do indivíduo dá a sua posição em relação ao todo, e desse modo, o
classifica.
Cada indivíduo no seu lugar; e em cada lugar um indivíduo. Evitar as distribuições por
grupos; decompor as implantações coletivas... O espaço disciplinar tende a se dividir em
tantas parcelas quanto corpos ou elementos há a repartir (FOUCAULT, 1983: 131).
A racionalização passa a fazer parte de diversas instituições e espaços de modo geral,
do zoológico à prisão. O Panóptico – que vê tudo – é um modelo de prisão, criado em
1791 por Jeremy Bentham, filósofo social inglês que acredita que uma prisão possa ser
observada de um só ponto (Figs. 12 e 13). Aborda pela primeira vez a noção de
observação direta do preso sem que este saiba que está sendo observado, assim como a
idéia da observação distante, que mantém em segurança o guarda (JOHNSTON, 2000:
49). Tal fato, não só facilita a vigilância, como torna-a mais eficiente e reduz bastante
seus custos.
Na periferia a construção de um anel; no centro uma torre, esta é vazada por janelas que se
abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma
atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas uma para o interior,
correspondendo às janelas da torre; outra para o exterior, que permite que a luz atravesse a
cela lado a lado. Basta então um vigia na torre central para observar todas as celas. (...) A
visibilidade é uma armadilha (FOUCAULT, 1983: 177).
O projeto de Bentham não é construído, apesar de ser amplamente utilizado, o que
possibilita a exploração de diversas formas de apresentação – circular, semicircular, em
cruz, estrela, hexagonal, formas que apresentam uma centralidade: o ponto de
observação – e variações que seguem o mesmo tema (Figs.12 e 13). Seus princípios
são, ainda hoje, usados em algumas penitenciárias, apesar desse modelo apresentar
problemas como a inflexibilidade da sua forma, que não permite ampliações. Este modelo
não só atende funcionalmente à filosofia penal da época – regimes de rigorosa disciplina
– mas principalmente, é a concretização dos princípios que norteavam essas instituições:
a máquina de vigilância disciplinadora dos homens imperfeitos.
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
74
Fig. 12 – prisão panóptica de Bentham
Fonte: JOHNSTON, 2000: 51
Fig. 13 – interior de uma prisão
panóptica
Fonte: FOUCAULT, 1983: 21
No início do século XIX, a pena restritiva de liberdade é vista como a solução para a
reforma do delinqüente. Acredita-se na sua reabilitação e na capacidade da prisão de
cumprir todas as finalidades da pena.
Aproximadamente na mesma época, em outro continente, surge nos Estados Unidos, no
final do século XVIII, o primeiro sistema penitenciário estabelecido pelo governo
americano, tendo como principal referência os estabelecimentos de Amsterdam e os
Bridwells ingleses. É introduzido um novo caráter à pena de prisão, antes usada como
um meio de custódia e, posteriormente, uma pena privativa de liberdade: o Sistema
Pensilvânico, Filadélfico ou Celular.
Este sistema penitenciário é criado sob influência dos quakers
89
, os responsáveis pela
construção da primeira prisão americana (1776) – Walnut Street (Figs.14 e 15). O
sistema tem como objetivo reformar as prisões, baseadas nas idéias de Howard, de
Beccaria e de Bentham, principalmente em relação ao isolamento do preso, sua principal
característica. O sistema é também baseado nos conceitos religiosos do Direito
Canônico.
89
Membros de seita religiosa fundada no século XVII (EUA e Inglaterra). Não admitem nenhum
sacramento, não prestam juramento à justiça, têm como principal característica o desvio do
puritanismo.
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
75
Fig. 14 – prisão Walnut Street, EUA.
Fonte: MADGE, 1962: 08
Fig. 15 – planta da prisão Walnut Street, EUA.
Fonte: MADGE, 1962: 08
O sistema é estabelecido em 1790 – ano em que é construído um novo bloco na prisão
com celas individuais – pelo governo, que acredita que o isolamento do delinqüente, a
crença em Deus e o afastamento total do álcool trazem a reflexão em tais indivíduos,
criando assim meios e dando os caminhos para sua “salvação”. O sistema, porém, não é
estabelecido por completo e o isolamento é destinado, somente, aos condenados mais
perigosos, ficando os outros em celas comuns, trabalhando em conjunto durante o dia e
sendo a lei do silêncio obrigatória para todos (MADGE, 1962).
Com o crescimento da população penal, o sistema fracassa em poucos anos. É solicitada
então, a construção de duas novas prisões: a ocidental, concluída em 1818, adota o
isolamento absoluto sem ao menos permitir o trabalho nas celas, tornando o regime
impraticável; a prisão oriental, concluída em 1829 que, em função dos problemas com a
prisão ocidental, passa a afrouxar o regime e permitir o trabalho na própria cela
(FOUCAULT, 1983; BITENCOURT, 2000).
O emprego do isolamento e do silêncio reduz bastante os gastos com a vigilância e
impede o emprego de trabalhos realizados em grupo como, por exemplo, o trabalho
industrial que se estabelece nesse período. Apesar de ser um sistema economicamente
muito eficiente e, sua organização institucional manter uma dominação extremamente
eficaz sobre os presos, contradiz o seu principal objetivo: recuperar os condenados. O
Sistema Pensilvânico é, principalmente, adotado na Europa, já que o número de
trabalhadores livres é suficiente para a sua produção e consumo, não necessitando
assim da mão de obra dos presos – o emprego do trabalho na prisão poderia colocar em
risco o trabalho de homens livres.
As instituições que utilizam esse sistema, em geral, adotam um modelo arquitetônico
semelhante ao de Cherry Hill (Fig. 16) nos Estados Unidos – formulado por John
Haviland (1829) e considerado a síntese do sistema celular –; e Pentonville (Fig. 17) em
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
76
Londres – fundamentada nas idéias de Elizabeth Fry (1842). São grandes unidades para
os padrões da época, com capacidade para 400 e 450 presos respectivamente, utilizam
pavilhões que permitem fácil ampliação, assim como sua construção por etapas –
pavilhão por pavilhão. São muito eficientes na separação dos presos chegando a utilizar
espaços para banho de sol individual – no primeiro caso cubículos contíguos às celas e
no segundo em construções circulares entre os blocos. É interessante notar que, no
centro dessas edificações radiais localiza-se sempre o posto de vigilância, ponto nodal do
sistema aplicado.
Fig. 16 – prisão de Cherry Hill, EUA
Fonte: ROSENSTIEHN; SARTOUX, 2006:
89
Fig. 17 – prisão de Pentonville, Londres
Fonte : ROSENSTIEHN; SARTOUX, 2006: 89
A partir de uma análise do sistema Pensilvânico, feita por uma expedição enviada pelo
governador de Nova York em 1796, é criado o Sistema Auburniano, que fica mais
conhecido como silent system, por adotar o sistema do silêncio absoluto entre os presos.
A partir da análise feita, substitui a pena de morte e os castigos corporais pela pena de
prisão. A prisão de Auburn (Fig. 18), porém, só é construída em 1816. Seguindo uma
ordem de 1821, os presos são classificados em três categorias: (1) delinqüentes
reincidentes, que necessitam de isolamento contínuo em celas individuais; (2) os menos
corrigíveis, que necessitam de celas individuais somente três dias da semana e têm
permissão para trabalhar; (3) delinqüentes primários possivelmente "corrigíveis", que só
necessitam de celas individuais em um dia da semana e têm permissão para trabalhar
em conjunto (BITENCOURT, 2000: 93).
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
77
Fig. 18– galeria de celas de Auburn
Fonte:www.prisonsociety.org/about/history.shtml
As celas pequenas e escuras impossibilitam o trabalho impedindo a única distração que
lhes é permitida, tornando o isolamento absoluto desastroso. Em três anos, ao invés de
uma reabilitação, tem-se como resultado mortos e loucos, com exceção de 2 presos em
um universo de 80. Em 1824, é então abolido o isolamento absoluto, permite-se o
trabalho coletivo em silêncio e o isolamento se destina somente ao período noturno
(FOUCAULT, 1983; BITENCOURT, 2000: 93).
"O modelo auburniano pretende servir de modelo ideal à sociedade, um microssomo de
uma sociedade perfeita onde indivíduos se encontrem isolados em sua existência moral,
mas são reunidos sob um enquadramento hierárquico estrito, com o fim de resultarem
produtivos ao sistema" (BITENCOURT, 2000: 95), ou seja, muito eficaz para o governo,
para a imposição do seu poder, mas de pouca eficácia na correção e reabilitação do
preso, que é tratado como uma máquina, seguindo as regras de um rigoroso sistema,
que já traz as influências da revolução industrial.
Como nas fábricas e nos estabelecimentos de trabalho coletivo da época, a disciplina é a
base principal do sistema. No caso da prisão, ela é ainda mais acentuada, em função da
necessidade de controlar um grande número de pessoas que, de alguma forma,
oferecem perigo à sociedade, e que precisam ficar confinadas dividindo um mesmo
espaço. Essa disciplina tem como base os quartéis e a vida militar em seu interior, que
pregava a obediência sem questionamentos ou reflexões, tornando a relação uma
simples questão de subserviência do delinqüente ao poder das autoridades. Analisando a
instituição pelo seu regime e suas regras, pode-se concluir que a disciplina de um preso,
muitas vezes mantida por meio de severos castigos corporais, não se deve à sua reflexão
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
78
e ao seu arrependimento por tal ato, bem como à sua reabilitação, mas ao seu medo, à
sua capacidade de seguir regras e de obedecer.
O sistema utiliza o silêncio como forma de reflexão e meditação, influência do modelo
monástico, mas como no sistema Pensilvânico, o silêncio é uma forma eficaz e
econômica de manter o poder sobre os presos, garantindo a disciplina, facilitando e
custeando a vigilância. O trabalho, por sua vez, é um modo eficaz de educar o preso,
ensinando-lhe um ofício, e de trazer a sua reabilitação, capacitando-o a se reintegrar à
sociedade com uma nova opção de vida. O trabalho na prisão gera bons produtos, além
de disponibilizar mão de obra barata sendo, assim, bastante lucrativo. Porém, todas as
facilidades dessa produção colocam em risco o emprego dos trabalhadores livres, que se
opõem a esse sistema através de seus sindicatos. A pressão é tanta que leva as
autoridades a suspender essa atividade, sendo responsável pelo fracasso do sistema
(BITENCOURT, 2000: 98).
O sistema Auburniano é, principalmente, adotado nos Estados Unidos por ser
economicamente mais vantajoso, já que as celas coletivas possibilitam abrigar um maior
número de pessoas em um espaço menor, além de gerar uma produção maior,
importante para o desenvolvimento do país, naquele momento.
Com o passar do tempo, a pena de morte vai sendo abandonada e a pena privativa de
liberdade se estabelece. Os sistemas penais vão sofrendo reformas regularmente, diante
de análises entre erros e acertos. O sistema progressivo surge como uma reformulação
dos sistemas anteriores com base no sistema Auburniano e nas suas reformas. Além da
função social e econômica, o novo estabelecimento apresenta uma função científica. A
adoção do sistema progressivo torna a pena mais individualizada, sendo então
necessária a observação constante do preso, assim como estudos criminológicos e
psicológicos para aplicação de penas adequadas a cada indivíduo de acordo com seu
histórico, personalidade e tipo de crime cometido, a fim de que seja feita a passagem de
cada indivíduo de um estágio para o outro da pena.
A principal característica deste sistema é o ganho progressivo de regalias, baseado na
boa conduta do preso e no progresso de sua reabilitação, podendo até ser reintegrado à
sociedade antes do final da pena. Outra característica do sistema progressivo é a
classificação dos presos quanto à gravidade do seu delito e a diminuição do rigor em
relação à disciplina, valorizando mais a vontade do preso (BITENCOURT, 2000: 99).
O Sistema Progressivo Inglês é desenvolvido pelo capitão Alexander Maconochie,
governador da ilha Norfolk, em 1840. Para essa ilha australiana são mandados os presos
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
79
reincidentes da pena de transportation, onde o trabalho e a boa conduta podem diminuir
a pena. Todos os presos, ao serem condenados, recebem uma cota de marcas ou vales
que devem adquirir ao longo da pena, de acordo com a gravidade do seu delito. Todos os
dias são avaliadas a sua produtividade e a sua conduta - quanto maior a sua
produtividade e melhor sua conduta, mais vales ou marcas são recebidas. O mau
comportamento, a desobediência e baixa produtividade são punidas com multas, em
vales diminuídos dos já adquiridos. Quando se alcança a cota estabelecida passa-se à
fase seguinte, a liberdade condicional (BITENCOURT, 2000: 100).
O sistema é dividido em três fases: (1) Isolamento celular diurno e noturno: chamado de
período de provas, que tem como objetivo a reflexão do preso sobre o seu delito. Nessa
fase, o trabalho é obrigatório e a alimentação reduzida. (2) Trabalho em comum sob a
regra do silêncio: nesta fase o preso é transferido de estabelecimento para o public
workhouse sob o regime de trabalho coletivo, em absoluto silêncio e isolamento noturno
(BITENCOURT, 2000: 100). Nesta fase o preso é mantido, até conseguir os vales
necessários para receber o ticket leave que lhe dá a liberdade condicional. (3) Liberdade
condicional: nesta fase, o preso obtém uma restrita liberdade, que deve ser cumprida por
certo período com obediência; após esse período, o condenado recebe sua liberdade
definitiva.
O Sistema Progressivo Irlandês, por sua vez, é concebido por Walter Crofton a partir do
sistema de Maconochie. A principal diferença entre os sistemas é a implantação das
"prisões intermediárias", com o objetivo de uma melhor preparação do condenado para a
sua reintegração à sociedade (BITENCOURT, 2000: 102). As "prisões intermediárias"
são uma prova de aptidão, uma quarta fase entre a segunda fase (reclusão) e a liberdade
condicional.
Assim, o sistema é dividido em quatro fases: (1) Reclusão diurna e noturna: segue o
mesmo regime do sistema progressivo inglês e é cumprido em prisões centrais e locais.
(2) Reclusão celular noturna e trabalho coletivo diurno: segue o mesmo regime do
sistema progressivo inglês, mas desta fase ainda não alcança a liberdade condicional. (3)
Período intermediário: essa fase é cumprida em prisões especiais, sem muros ou trancas
com menos rigor, e os trabalhos são realizados no seu exterior. (4) Liberdade
condicional: com as mesmas características do sistema anterior (BITENCOURT, 2000:
103).
Diversos países seguem as alterações do sistema progressivo, criando estabelecimentos
penais com finalidades diferentes, a partir do final do século XIX, cada um atendendo a
uma fase do sistema. Assim se estabelecem os presídios ou casa de correção – que
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
80
abrigam presos provisórios; as prisões de segurança máxima – muito usadas nos
Estados Unidos, conhecidas como supermax; e as prisões de regime aberto e semiaberto
– que atendem aos últimos estágios da pena.
No final do século XIX, o sentimento nacionalista surge como afirmação dos princípios
liberais aplicados à nação. Esta deve então ser entendida como um grupo de indivíduos
dotados de liberdades “naturais” que dividem um território – o Estado – interesses e a
língua (BENÉVOLO, 1998: 372). As colônias européias ganham independência e
governos republicanos se estabelecem. O Estado passa a ter vital importância na vida
social: o controle e a ordem, da mesma forma, seus equipamentos como: escolas,
hospitais, entre outros, já que o governo é o representante da nação. Suas obras são em
geral grandiosas, enaltecendo sua soberania, a identidade nacional e a constante
necessidade de controle da ordem pública.
Neste contexto, a primeira instituição construída para presos provisórios especificamente
é a prisão de Fresnes (Fig. 19), na França, projetada por Francisque Henri-Poussin em
1898. Assume um partido novo, que fica conhecido como telephone-pole-plan, espinha
de peixe ou blocos paralelos. Adota uma distribuição pavilhonar com blocos paralelos,
que facilitam a ventilação e a iluminação natural que são ligados por um corredor
perpendicular. Seus blocos apresentam equipamentos comuns, como locais de trabalho e
postos médicos no pavimento térreo. Os espaços entre os blocos são usados para banho
de sol e exercícios. Esse modelo se difunde amplamente pelo mundo, apresentando
diversas variações (JOHNSTON, 2000: 117).
O Estado moderno e suas instituições têm grande papel social. O crescimento acelerado
e desordenado devido à industrialização das cidades traz condições de insalubridade,
miséria e o aumento da criminalidade e da desordem pública – crescendo o número de
roubos, “vagabundos”, manifestações públicas, etc. É necessário restabelecer a ordem
pública e coletiva e o Estado – maior poder social – assume esta responsabilidade. “A
atração hipnótica da grande cidade deriva-se da sua posição original, como instrumento
do Estado nacional e símbolo de seu poder soberano: nas mais remotas dentre todas as
funções urbanas” (MUNFORD, 1998: 575)
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
81
Fig. 19 – Prisão de Fresnes
Fonte: JOHNSTON, 2000: 117
A modernidade e os Estados Totais têm como papel principal o crescimento do coletivo,
através da urbanização das cidades, fornecimento de infra-estrutura, habitação social e
estabelecimento de instituições públicas como hospitais, prisões, escolas e manicômios.
Desse modo, a criminalidade e seus estudos passam a ter grande importância perante a
função social e disciplinar do Estado.
A Filosofia Penal Moderna
90
, adotada em vários países ocidentais se baseia na verdade
universal através da ciência positivista – fundamentada no evolucionismo – e busca
funcionar como tal. Os estudos científicos e biológicos ditam a verdade sobre a
normalidade, de modo que anomalias físicas, mentais, ou comportamentais são vistas
como problemas que se dão em nível biológico – seja como herança (genótipo) ou por
efeitos do meio (fenótipo) na sua base biológica – devendo, portanto, ser tratados através
dos métodos científicos. Assim, como nos laboratórios, esses indivíduos ditos “anormais”
devem permanecer isolados, para que em um ambiente neutro, possam ser estudados e
analisados e, distante de interferências externas que possam ter motivado a infração,
possam ser tratados e avaliados. Segundo Baratta, “a infração foi prorrogada pela escola
como uma positiva concepção determinista da realidade em que o homem está inserido,
e que, no final, todo o seu comportamento é uma expressão” (2004:32)
91
.
90
Considera-se a filosofia penal moderna como a aplicação dos sistemas restritivos de liberdade
com fim de ressocialização – sistema progressivo – fundamentados em métodos científicos que se
configuraram a partir do fim do século XIX.
91
Tradução livre da autora (El delito era así reconducido por la escuela positiva a una concepción
determinista de la realidad en la que el hombre resulta inserto y de la cual, en fin de cuentas, es
expresión todo su comportamiento).
Visão de Mundo e Concepção do Espaço Penal – Capítulo 3
82
O regime penal utilizado é o progressivo e acredita-se na evolução do indivíduo
direcionada a um fim pré-determinado – a ressocialização. A administração e o
gerenciamento do progresso do preso trazem a necessidade de observação constante,
assim como estudos criminológicos e psicológicos freqüentes. Esses estudos buscam
estabelecer a relação causal-explicativa do delito, delinqüente e as causas para os fatos.
Desse modo, ao longo do período moderno, diversas instituições são construídas em
grandes proporções buscando abrigar todas as fases do tratamento penal, abrigando a
idéia de conjunto presente no período.