a cólera, a forma de sua melodia, numa palavra, representa com tal verdade os sentimentos mais íntimos,
que a alma de quem escuta fica maravilhosamente comovida, embevecida e inflamada.
No fim do ofício divino, o povo e o padre rezam juntos rezas solenes, formuladas em termos
determinados por lei, e de maneira a cada um reportar a si mesmo o que todos recitam em comum.
Nessas preces, os ouvintes reconhecem Deus como autor da criação e da conservação de todos os bens;
rendem-lhe graças pelos numerosos benefícios recebidos Agradecem a Deus, em particular, tê-los feito
nascer, por insigne favor, no seio da república mais feliz e da religião que lhes parece ser a verdadeira.
Entretanto, se esta crença for um erro, se existir um governo e um culto melhores, mais propícios ao
Eterno, suplicam sua divina bondade de lhes trazer revelação, declarando-se prontos a obedecer, em tudo,
a sua vontade. Mas, ao contrário, se o culto e o governo da Utopia são os mais perfeitos, pedem então a
Deus que lhes conceda o favor de perseverar, e que conduza o resto dos homens às mesmas instituições
religiosas e sociais; a não ser que, nos seus desígnios impenetráveis, tenha por bom esta grande
diversidade de religiões. Finalmente suplicam à misericórdia divina recebê-los em paz, depois de uma
boa morte. Não ousam pedir ao céu prolongar ou abreviar a duração da própria vida; mas o que dizem a
Deus, sem temer ofender bua majestade, é que prefiririam chegar a ele pela morte mais penosa do que
ficar muito tempo privados de sua presença na vida mais venturosa.
Terminada esta prece, todo mundo se prosterna de novo e se ergue momentos depois para ir jantar. O
resto do dia é empregado em jogos e exercícios militares...
Tenho tentado, continuou Rafael, descrever-vos a forma desta república, que julgo ser, não somente a
melhor, como a única que pode se arrogar, com boa justiça, do nome de república. Porque, em qualquer
outra parte, aqueles que falam de interesse geral não cuidam senão de seu interesse pessoal; enquanto que
lá, onde não se possui nada em particular, todo mundo se ocupa seriamente da causa pública, pois o bem
particular realmente se confunde com o bem geral. Qual o homem que, em outro lugar, não sabe que se
abandonar os seus próprios negócios, por mais florescente que esteja a república, não deixará, por isso,
de morrer de fome? Daí a necessidade com que pensam em si antes de pensar em seu país, isto é, no seu
próximo.
Na Utopia, ao contrário, onde tudo pertence a todos, não pode faltar nada a ninguém, desde que os
celeiros públicos estão cheios. A fortuna do Estado nunca é injustamente distribuída naquele país; não se
vêm nem pobres nem mendigos, e ainda que ninguém tenha nada de seu, no entretanto todo mundo é
rico. Existe, na realidade, mais bela riqueza do que viver alegre e tranqüilo, sem inquietações nem
cuidados? Existe sorte mais feliz do que não tremer pela existência, não ser azoinado pelos pedidos e
queixas da esposa, não temer a pobreza para seu filho, não apoquentar-se pelo dote da filha; mas estar
sempre seguro e certo da existência e do bem estar, seu e dos seus, mulher, filhos, netos, bisnetos, até à
mais longínqua posteridade de que poderia orgulhar-se um fidalgo?
A república utopiana garante essas vantagens aos que, inválidos hoje, outrora trabalharam tão bem
quanto os cidadãos ativos aptos a trabalhar.
Gostaria de ver alguém, aqui, que ousasse comparar esta justiça à justiça das outras nações. Eu, de
mim, estou pronto a morrer se me mostrarem nas outras nações o menor sinal de eqüidade e justiça.
É justo que um nobre, um ourives, um usurário, um homem que não produz senão objetos de luxo,
inúteis ao Estado, é justo que tais indivíduos levem uma vida caprichosa e esplêndida por entre a
ociosidade e ocupações frívolas, enquanto que um trabalhador, um carreteiro, um artesão, um lavrador
vivem uma negra miséria, mal podendo alimentar-se? E, no entanto, os últimos estão amarrados a um
trabalho tão pesado e tão penoso que as bestas de carga mal suportariam; tão necessário que nenhuma
sociedade poderia subsistir um ano sem ele. Na verdade, a condição de uma besta de carga parece mil
vezes preferível; esta trabalha menos tempo, sua alimentação não chega a ser pior, e é mesmo mais
conforme aos seus gostos. E depois, o animal não teme o futuro.