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ROSEMARY FRITSCH BRUM
UMA CIDADE QUE SE CONTA
Imigrantes italianos e narrativas no espaço social da cidade de Porto Alegre (1920
-1937)
Tese apresentada como requisito parcial à
obtenção do grau de Doutora em História,
Programa de Pós-Graduação em História do
Brasil, Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul.
Orientadora: Professora Doutora Núncia
Santoro de Constantino
Porto Alegre, março de 2003
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À Gabriel Neves Camargo que atravessou
comigo a descoberta de que a conquista da própria
narrativa é fazer-se.
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PRÓLOGO
O fato de não pertencer ao grupo de italianos, mais o fato de haver nascido
em Porto Alegre, vivido a infância e a adolescência em Caxias do Sul e, haver
retornado para a cidade nos anos 70, marcou minha narrativa do estranhamento.
Entre duas cidades, seria Porto Alegre minha cidade de appartenenza sociale ou
Caxias do Sul? Quem sabe emulei essa tese para resolver de vez com a questão.
Não adiantou. Como os moraneses, entre dois mundos. Como todos os imigrantes
que mantém laços com os lugares por onde vão desenrolando suas vidas, entre
enredos e tramas narrativas.
Cidade e estranhamento sempre me fascinaram. É o que importa. Os
cronistas locais falam de um local assegurado. Nunca me interessei por certo tipo de
saudosismo, diferente da História urbana, que paira na tranqüila descrição de um
lugar que era, mas mudou tanto até que perdeu sua alma. Ao contrário, aprecio as
mudanças e o efeito dessas, na vida das pessoas que precisam mudar e, continuam
ainda iguais, sem serem idênticas.
Com esta “bagagem identitária”, trôpega, mais afinada com a urbanidade, até
pelo tema da dissertação de mestrado (1984), o Plano Diretor de Porto Alegre e os
movimentos de reintegração de posses e reivindicações sociais das vilas, nos anos
de implantação do Primeiro Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Porto
Alegre - PPDU, lancei-me a conhecer mais ”minha cidade”, (será?), em especial, sob
a perspectiva do estrangeiro.
Uma breve genealogia da viagem dos textos: não poderia escrever esta tese
sem a inspiração de três escritos, os quais chegaram quando estava mais
perceptiva, cada um a seu tempo, pela curiosidade ou pelas os da orientadora, a
quem aproveito para começar a agradecer, Dra. Núncia Santoro de Constantino.
Como o foco é a narrativa do estrangeiro, percorri trilhas que não eram caminhos,
levaram longe, mas não para os propósitos da Tese. Alguns eventos foram decisivos
para trazer de volta a síntese necessária. São obras que salvaram o pensamento
errante, dos oceanos tumultuados para a tarefa de iniciar, fazer andar e, a mais
difícil, concluir a tese.
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Dispensando a formalidade textual de praxe, cito as obras/teses com as quais
dialoguei durante o percurso para que novos aventureiros se interessem.
Primeiramente, a Narrativa e imaginário social: uma leitura das histórias de maloca
antigamente, de Pichvy Cinta Larga. Escritacomotese de Ivete Lara Camargos
Walty, em 1991, na Universidade de o Paulo - USP, li em 1998, quando da
elaboração do projeto de tese apresentado à Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul - PUCRS. Impressionei-me com a narrativa de Pichvy Cinta Larga
tanto quanto Ivete ao trabalhar, hermeneuticamente, a fala de um líder indígena que
sabia ser um texto escrito para brancos.
A obra seguinte, conheci no ano 2000, Occhiacci di legno: nove riflessione
sulla distanza, de Carlo Ginzburg, publicada em 1998, em Milão, Itália. Com
Ginzburg montei ou desmontei toda perspectiva histórica, transportando o
estranhamento, do olhar da arte para o olhar histórico.
Enfim, entre a ma de textos, considero o que li em 2002, o texto mais
esclarecedor sobre a viagem como uma epistemologia do social e o estrangeiro
como agente civilizador. Refiro-me ao La mente del viaggiatore: dall’Odissea al
turismo globale, escrita por Eric J. Leed , traduzida para o italiano e publicada em
Bologna em 1992 , do original em inglês. Esta obra é, para mim, um divisor de águas
nos textos sobre viagem e viajantes, bem como a estrutura mental de uma pessoa
em movimento. Muito própria para perceber nosso mundo globalizado. Da
cosmovisão e narrativa indígena, pela arte do estranhamento até o turismo global,
agora, me dou conta dos laços internos desses textos.
As pessoas e seus textos entraram na tessitura da tese quando deviam, ou
seja, quando eu estava preparada para realizar as entrevistas. Pela mão da
orientadora conheci Carmine e, por ele, Angelina, Antônio e Dalva que conhecia.
Essas pessoas concretizaram o que se ouve dizer: “minha vida daria um livro”. Dada
as exigências acadêmicas, fiz apenas história oral temática com cada um dos
entrevistados, tratando da partida, do transitar e do chegar para compor a narrativa.
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Tenho certa angústia de saber que havia mais, muito mais para acrescentar eis que,
evidentemente, sem cada um deles, o haveria narrativa alguma nessa tese. É
óbvio, mas devo destacar que não haveria esta tese, seria outra, mas não esta.
um ano, entrei e talvez não consiga mais sair do texto de suas vidas. Este é apenas
um dos encantos do trabalho em história oral.
O silêncio de cada um faz brilhar o encobrimento das passagens menos
felizes e o esquecimento traumático. A filosofia de vida adquirida significado às
suas existências. A cidade toda agradece. São eles, os italianos do sul, cidadãos de
Porto Alegre, vindos de Morano-Calabro, que têm na memória fragmentos da
infância na pequena região, a grande travessia rumo ao Brasil, nem sempre
diretamente para Porto Alegre e, que, aqui casaram, trabalharam e vivem para
contar sua história.
Como contraponto, na minha memória ressoaram outras vozes, as daqueles
que entrevistei entre 1995 e 1996, para descobrir quanto ao lugar simbólico do
centro histórico de Caxias do Sul em um projeto que seria o embrião deste, a
appartenenza sociale, termo intraduzível, algo próximo de pertencimento social”. A
modernidade caxiense tornou invisível este centro histórico, a não ser pela memória
dos filhos dos fundadores, tais como o comerciante José Corsetti, o empresário
Dovílio Gianella, o escritor José Clemente Possenato, as professoras Vera Longui,
Magda Longui e Loraine Slomp Giron, descendentes de italianos do norte. As
demais vozes o deram entrevista alguma, mas deixaram suas marcas na minha
existência em Caxias do Sul, cidade de meus avós e de minha mãe. Ou seja,
continuo essa “história de italianos de cidade”, porém, na cidade de Porto Alegre.
Na pesquisa realizada dispus de distintos materiais, os da oficina do escritor,
entrevistas de história oral, jornais, a Coleção do Correio do Povo, disponível no
Museu Hipólito José da Costa, entre outros periódicos. Agradeço e desejo que o
Governo do Estado e os órgãos de Cultura dêem condições para preservar coleções
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inteiras, não mais disponíveis ao público.
Vou produzir um agradecimento, que pode ser um agrado, o qual cresce até
se tornar uma declaração de gratidão, uma gratificação, mas, não nesta ordem,
necessariamente.
Quando essa tese seguir seu caminho para longe de mim e chegar ao leitor,
ainda estarei tentando dispor das palavras para dizer às pessoas o que elas
significam para mim.
Agradeço às Instituições de Ensino e Pesquisa que possibilitaram as
condições para meu estudo que ora concluo.
Agradeço:
À Dra. Núncia Santoro de Constantino, orientadora da tese. Lembro Mallarmé:
“definir é matar, sugerir é criar”. Sugerir é ser cúmplice de um fazer histórico, de algo
pré-figurado, ao qual eu ainda não conseguia dar forma. Sabia que estava lá, mas
difícil de fazer e comunicar. O que ficou no caminho, entre uma ponta e outra, traduz
meu limite até o momento.
A Banca de Tese de Doutorado defendida aos 11 de julho de 2003 :Núncia
Santoro de Constantino (Orientadora, PUCRS), Dra. Ruth Maria Chittó Gauer
(PUCRS), Dr. Charles Monteiro (PUCRS), Dr.Jorge Sarriera (PUCRS) e DR. Andréa
Ciacchi (UF Paraíba).
Ao Governo Brasileiro, através da Universidade Federal do Estado do Rio
Grande do Sul - UFRGS, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - IFCH, e ao
Departamento de História onde se localiza o meu lugar nessa universidade, mais
precisamente, ao Núcleo de História do Rio Grande do Sul, Laboratório de História
Oral. , situo Francisco Carvalho Jr. , colega, amigo e cúmplice da proposta de
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tratar a história oral como narrativa. Aos funcionários colegas também rendo meu
agradecimento.
À Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, através do Centro de
Ciências Humanas, em especial, à Dra. Flávia Verle, na ocasião, Pró- Diretora
Administrativa, pelo empenho em tornar possível meu desejo de realizar o doutorado
em História, sendo da Sociologia. Atravessando, na prática, a interdisciplinaridade.
E, ao Diretor Dr. José Ivo Follmann pela observância rigorosa dos termos. Estendo
também aos funcionários o meu reconhecimento. Da UNISINOS, além dos colegas
do Departamento de Sociologia, nomino Dra. Cleci Eulália Favaro, Dra. Eloisa
Helena Capovilla da Luz Ramos, Dr. Marcos Justo Tramontini, pelas oportunidades,
sugestões e convívio em várias circunstâncias que antecederam, inclusive, os anos
dedicados à tese. Falamos de cidade, imigração, história oral e textos em vários
encontros.
À Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, aos
professores com os quais tive a oportunidade de discutir, trocar e aprender, Dr. Arno
Alvarez Kern, Dra. Ruth Chittó Gauer, Dra. Margaret Marchiori Bakos, Dr. René E.
Gertz, Dra. Núncia Santoro de Constantino. Agradecendo igualmente à colaboração
dos funcionários.
À pessoa da Dra. Chiara Vangelista, de Turim, que trança a mesma urdidura e
abriu espaços para colocar minhas preocupações, sou reconhecida, bem como a
todos que - entre continentes - fazem a vida parecer uma única comunidade de
ideais e idéias contribuindo para a paz e o entendimento entre os povos.
Ao Governo Italiano, pela minha cidadania e pelo curso de italiano na
Associazone Culturale Italiana Del Rio Grande do Sul - ACIRS. Aproveito para citar
Lydia Miotto Gabellini e todos os professores de italiano que encontrei no caminho,
os quais contribuíram para que eu adquirisse uma nova sensibilidade, ao criar a
competência lingüística necessária para a expressão oral e escrita do idioma
7
italiano.
À doutoranda e professora Isabella Vieira de Bem, que, sob o olhar da
literatura inglesa vem discutindo a narratividade sem obscurecer a diferença entre
ficção e ciências humanas em nossas reuniões, nas quais nunca sabemos onde
inicia a amizade ou o prazer do pensamento compartilhado.
No domínio da escrita, Ligia M. Rochenbach, que vem decifrando, traduzindo
e transpondo o que quero comunicar, com clareza e leveza. No mesmo sentido,
incluo na revisão da tese, Maria Inês Szczecinski.
No momento do enfrentamento com os jornais de 1920 e 1937 contei com a
pesquisadora e mestre Marisa Nonenmacher e, sempre sugerindo raridades, puro
encantamento de historiador, José Costa Leite, do Museu de Comunicação José
Hipólito da Costa. Certamente a parte divertida da busca de rastro deve ser
creditada a essa dupla.
Mtuitos sábados foram dedicados a consultar o Acervo do professor Frei
Róvílio Costa, quando iniciei o projeto.
Porém, o trabalho com jornais foi exeqüível com a criação de banco de
dados do doutorando e professor Jeferson Francisco Selbach que, não por acaso,
pesquisa cidades e figuras beijaminianas.
Ao Dr. Mario Fleig e Dr. Ernildo Stein, por me darem as primeiras chaves para
começar a conhecer as possibilidades da hermenêutica da linguagem escrita e oral.
Fazendo uma ponte para o universo privado, lembro de Julio Falavigna,
(Gopala) que quando ensina a respirar, em suas aulas, ensina a pensar.
Estou por concluir o discurso e quero trazer minha família. Os amigos, não os
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nomino para não excluir. Cada um saberá seu lugar. Trago minha família, a que está
aqui e, daqui já se foi, na metáfora mais comum que diz ser a vida uma viagem.
In memorium, meus avós, pequenos comerciantes Luiz Affonso e Ottília
Lermen Fritsch, meus pais, os professores de tantas gerações, Luiz Gonzaga
Ferreira Brum e Eloah Loyre Fritsch Brum, minha irmã Tânia Regina.
Ao Luis Affonso e ao Paulo Ricardo, meus irmãos e aos meus filhos, Pablo
que mora em Londres, Rafael que voltou da Espanha, sem os quais não teria o
senso de comunidade afetiva necessária para liberar minha criatividade.
Em especial, a esses filhos que vão e vem, que me ensinaram, na prática, o
que é saudades e migração na Europa.
Ao Washington Mieres Gonzalez, com quem aprendi o que é ser imigrante no
Rio Grande do Sul, Brasil.
Falo, portanto, com certa autoridade de separações, sonhos, conquistas e
derrotas na cidade.
Aos que acompanharam, em algum momento, meu andar nessa vida, é hora
de agradecer.
E agora, agradeço a você, leitor.
Textos existem na forma de cadernos ou suplementos; a
natureza da produção textual é tanta que o significado é
negado, o que chama para um fim para crítica temática; textos
afirmam o jogo das palavras, testemunhos, e significados. Uma
ênfase mimética coloca estes elementos e posições em
movimento; as dispersa e dissemina, fazendo-os frutificar em
um novo caminho. A ênfase mimética desconstrói textos,
combina seus elementos com outros em novos textos. No jogo
das palavras, novos efeitos tornam-se essência. Cada texto,
em sua referencialidade com outros textos, é um jogo que
opera segundo regras. Um texto é multiplicado no jogo da
contingência e necessidade, uma circunstância a inalterável
condição de qual é o caráter escrito no texto. Os significados
de todos os textos são em princípio indeterminados e imunes
ao fechamento. Derrida, The between-character of mimesis
RESUMO
Esta tese se propõe a mostrar o espaço social de Porto Alegre, no período
compreendido entre 1920 e 1937, através da visão do estrangeiro, em especial,
moraneses calabreses, imigrantes italianos vindos da Itália Meridional e seus
descendentes.
O período entre 1920-1937 é pouco pesquisado em termos de imigração.
Marcado por uma densa atmosfera política, ainda assim os espaços sociais urbanos
são festivos.
Estrangeiros italianos, imigrantes em Porto Alegre, narram a cidade pela
perspectiva da diferença cultural e não da simulação de possíveis pontos de
semelhança. A pesquisa histórica realizada concentrou-se nos estrangeiros e sua
descendência em Porto Alegre e, em particular, nos moraneses que elaboram uma
narrativa decorrente da tradução, da decifração e da comunicação de si na cidade,
estabelecendo uma diferença perante os outros que representou a condição para se
manterem como iguais entre si. Eles elaboram um enredo próprio, com dramas,
mudanças de roteiros, sonhos e decepções, que ocorre tendo como fundo a cidade
já cosmopolita.
À luz da História, utilizando-se em muito da aplicação da história oral,
pensamos um modo de tratamento das narrativas do processo que teceu o caráter
singularizador do universo lingüístico da personagem do estrangeiro imigrante.
Partir, transitar e chegar são os verbos do imigrante. O estrangeiro viajante
não parte, se afasta. Transita, sim, mas não chega, esna cidade de passagem.
Mas o imigrante estrangeiro, de lutar para ser da cidade. Nem sempre é um
vitorioso, a cidade pode massacrá-lo. É o que narram os moraneses.
ABSTRACT
The present thesis intends to portray the social space of Porto Alegre between
1920 and 1937 from a foreign perspective, especially those of ‘Moraneses
Calabreses’, italian immigrants from meridional Italy, and their descendants.
The 1920-1937 period has rarely been researched in terms of immigration,
and even though characterized by a dense politic atmosphere, these social spaces
are festive.
Italian immigrants in Porto Alegre chronicle the city from their cultural view-
point, unique and unassimilated. The historical research carried out concentrates on
the Moraneses, who elaborate a narrative resulting from their translation,
understanding and image of themselves in the city, establishing a difference in the
presence of the others, and consequently a state of equality amongst themselves.
They relate their own plot, dramas, changing, dreams and disillusionments, set in an
already cosmopolitan city.
In the light of history, to a large extent utilizing oral history, the present thesis
focuses on the narrative process, which created the singular character of the
linguistic universe of the immigrant.
To leave, to move through and to arrive are the verbs of these immigrants.
The foreigner never leaves, merely moves away. Moving through, but never arriving,
he is a passer-by in the city. However the foreigner must struggle to belong in the
city. Not always a winner, as the city can destroy him - this is what the moraneses
narrate.
sumário
INTRODUçãO 15
1 CAPITULO TEÓRICO - PARA UMA NARRATIVA DA CIDADE 25
2 PARTIR 43
2.1 A partida da Itália nos anos de 1920 a 1937 44
2.2 Da Antigüidade à modernidade: moraneses partem até chegar a Porto Alegre
51
2.3 Texto de viagem e viagem do texto 57
2.4 Moraneses e a narrativa da partida 62
2.5 O pertencimento moranes ou appartenenza sociale do moranes 65
2.6 De lá, para cá, as cartas 70
2.7 MINIMA MORALIA: reflexões sobre a vida danificada 77
3 TRANSITAR NOS CAMINHOS DENTRO DE SI: HÁ UM DESTINO? 92
3.1 A suspensão da narrativa 93
3.1.1 Fazer-se cúmplice do caminho 98
3.1.2 Viagem à Meca 103
3.2 Transitar nos jornais: a leitura interessada 106
3.2.1 Transitar no Correio do Povo 116
3.2.1.1 Corpo diplomático em movimento 116
3.2.2 Trânsito de imigrantes 139
3.2.3 Transitar entre culturas políticas 148
3.2.4 Trânsito de feiras 160
4 CHEGAR 170
4.1 A cidade para o estrangeiro 171
4.2 Dispositivos e códigos da “cidade dos Italianos” no movimento 180
4.2.1 O avião 188
4.2.2 O automóvel e seus acidentes 189
4.2.3 As avenidas 193
4.2.4 A imagem (o cinema) 195
4.2.5 O som (o rádio, o telégrafo) 199
4.3 Dispositivos e códigos de sociabilidade 205
4.3.1 Os clubes de Tiro, o Remo, o Hipódromo 206
13
4.3.2 A mesa refinada: novos restaurantes comandados por italianos surgem com
novidades 208
4.3.3 Uma sociabilidade em trânsito: a hotelaria moderna 210
4.3.4 A circulação nos salões: poetas, recitadores, escritores, músicos, cantores211
4.3.5 O caso e o acaso do Clube Jocotó 217
4.3.6 Fundar e viver a italianidade na Porto Alegre Moderna 235
4.3.7 Obras e ações assistenciais 269
4.3.8 Transitar na Rua da Praia, estar nas confeitarias, nos cafés 273
5 A CIDADE DE CARNE 280
5.1 Dispositivos e códigos da metáfora sanitária da “cidade dos italianos” 280
5.1.1 A morada da máquina humana 285
5.1.2 Presença de setores dios italianos e descendentes na construção da
cidade: engenheiros, médicos, advogados nas faculdades e sociedades 287
5.2 Sanear, Limpar, Conter, Disciplinar 293
5.2.1 Saúde mental, disciplinamento e imigração 293
5.2.2 Higiene para uma cidade sadia 297
5.2.3 Cresce a cidade, cresce o crime 301
5.3 A cidade das trocas 309
5.3.1 Armazéns, açougues e lotéricas, quase um monopólio moranes em Porto
Alegre 311
5.3.2 Para onde vai a classe operária? 312
5.4 A cidade de pedra. Códigos e dispositivos da estética de pedra 326
6 A CIDADE DO ESPÍRITO 335
6.1 Códigos e Dispositivos para ler, escrever e o saber para os italianos 335
6.2 Formação de trabalhadores para a nova economia: cursos, institutos,
academias 337
6.3 Construção das bases industriais da leitura e da escrita 345
6.4 A Estética aprendida: lições da Itália 350
6.5 A identidade regional diante das lições da Itália: Fornari e Bernardi & Cia 354
7 ARRIVARE 364
CONSIDERAÇÕES FINAIS 389
REFERÊNCIAS BIBLIOGRáFICAS 410
INTRODUçãO
Esta tese propõe-se a mostrar o espaço social de Porto Alegre no período
compreendido entre 1920 e 1937 através da visão perspectiva do estrangeiro, em
especial moraneses calabreses, imigrantes italianos vindos da Itália Meridional e
seus descendentes.
Estrangeiros italianos, imigrantes na cidade de Porto Alegre, narram a cidade
na perspectiva da sua diferença cultural e não da simulação de possíveis pontos de
semelhança. A pesquisa histórica realizada concentrou-se nos estrangeiros e sua
descendência em Porto Alegre e, em particular, nos moraneses que produzem uma
narrativa decorrente da tradução, da decifração e da comunicação de si, na cidade.
Eles elaboram um enredo próprio, com dramas, mudanças de roteiros, sonhos e
decepções, que ocorre tendo como fundo a cidade cosmopolita. Considera-se que
os relatos dos imigrantes tiveram a capacidade de organizar e transmitir suas ações
para as gerações. Não estamos na mesma temporalidade de seus desenhos
espaciais e sociais, mas, sabemos pela historicidade das narrativas que esteve
sempre em jogo a conquista de um significado pessoal, pois ao se narrar o sujeito
organiza um enredo lógico, masserando um material que, de outra forma, seria
apenas massa inerte e caótica de vivências, sensações e memórias esparsas, caso
não houvesse a narrativa.
Partir, transitar e chegar são os verbos do imigrante. O estrangeiro viajante
não parte, se afasta. Transita, sim, mas não chega, esna cidade de passagem.
Mas o imigrante estrangeiro, de lutar para ser da cidade. Nem sempre é um
vitorioso, a cidade pode massacrá-lo. É o que narram os moraneses.
15
As hipóteses que orientaram o material pesquisado foram dirigidas pela noção
de tradição lingüística definida por Hans-Georg Gadamer:
O que chega a nós pelo caminho da tradição lingüística não é o que ficou,
senão algo que se transmite, que se diz a nós mesmos, sob a forma de
relato direto, no que tem sua vida o mito, os usos e costumes, ou sob a
forma da tradição escrita, cujos signos estão destinados imediatamente
para qualquer leitor que está em condições de lê-los.
1
Sabia de antemão, ao optar pela conjuntura existente entre os anos de
1920-1937, que na literatura brasileira o estrangeiro não merece destaque, uma vez
“[...] que a pregação nacionalista está às voltas com a substituição de um programa
estético europeu por outro de fabricação nacional”.
2
O imigrante, enquanto personagem urbano, não é representado na literatura
local. É preciso dizer que essa omissão persiste nas narrativas de outros países que
receberam massivamente os imigrantes italianos. Basta ver que na Argentinae no
Uruguai, países da América Latina que além do Brasil receberam grande mero de
italianos, os imigrantes como um todo são invisíveis também aos olhos da
intelectualidade. A cidade moderna e tecnológica dos anos 20, como Buenos Aires,
Montevidéu e Porto Alegre, não tem espaço de representação para o imigrante. Uma
das possibilidades de romper com esta invisibilidade é a travessia em direção à
Europa, preferencialmente. Esta viagem era uma prática da intelectualidade
latino-americana. Numa delas, abrem-se os olhos do escritor argentino Leopoldo
Marechal, comentado por Camilla Cattarulla, em Adán Buenosayres: periferie urbane
e identitá nazionale:
Falo como argentino de segunda geração e como descendente próximo de
homens europeus [...]. Para ver com alguma claridade em meu país e em
mim mesmo foi necessário que eu visitasse as terras da
Europa
, origem
de nossos pais, e visse como eram aqueles homens antes de sua
imigração. Os vi em suas aldeias e terras, postos numa vida penosa, e com
um sentido heróico da existência que os fazia ou alegres, ou resignados em
sua disciplina, na fé de Deus e na estabilidade de seus costumes. Os tenho
visto: assim eram e assim ainda são, todavia. Que fez nosso país ao
16
oferecer-lhes o deslumbramento de sua riqueza? Os tentou (330-31).
3
Os narradores locais, cronistas, jornalistas, literatos e memorialistas são os
donos da palavra, os produtores das imagens de textos que permanecerão como
atributo de verdade de uma época ou lugar. Toda cidade tem os seus porquês, o
urbano requer uma narração.
Uma sociedade pode aceitar os fatores de inovação trazidos pelo estrangeiro,
enriquecer-se com a perspectiva do estranhamento, adotando modos alienígenas,
mas, ainda assim, desconsiderar sua narrativa. Essa narrativa reúne um
questionamento das dificuldades interpostas pela sociedade de recepção. Além
disso, a narrativa do estrangeiro está amarrada noutra historicidade que não
estabelece continuidade nem fusão com a idéia que a sociedade de recepção faz de
si mesma. Os narradores locais estão, geração a geração, tecendo uma narrativa de
imposição simbólica sobre a sociedade de recepção. Para que a narrativa do
estrangeiro aconteça, é preciso esperar que surjam seus próprios narradores. É o
trabalho de reconfiguração, pois sobre a narrativa morta e congelada, sobre o que se
escreveu a respeito de ser estrangeiro, na perspectiva da sociedade de recepção,
ocorre a nova escrita, ou seja, o narrador estrangeiro escreve sobre si mesmo.
Quando se desdobra esta narrativa, nova temporalidade estabeleceu ao narrador
outra significação para o processo histórico decorrido. É vital que a sociedade mais
ampla abra espaço no centro da teia discursiva, trazendo das margens tais
narrativas.
Moraneses radicados em Porto Alegre, como italianos provenientes do sul da
Itália, não se reconhecem nas práticas sociais nem dos brasileiros, nem dos italianos
oriundi das demais regiões. Sua diferença constrói uma narrativa tanto mais
convincente quanto mais galgam posições na sociedade porto-alegrense.
O singular do período compreendido entre 1920 e 1937 é que, recém, saídos
da Europa, imersa na 1ª Guerra Mundial, os imigrantes, como um todo, encontram
17
na cidade de Porto Alegre o avanço do nacionalismo na cultura e na política
brasileira. Enquanto as elites italianas lutam entre si, entre a busca da solidariedade
ao discurso da italianidade, o fascismo ascende na Itália, bem como há uma reação
liberal e antifascista. No Brasil, os grupos de italianos, em geral, são confrontados
com o discurso e a prática da assimilação cultural de uma brasilidade em
construção, que pode ser regional, como expressão mediatizada pela formação de
cada região, mas, tendo em vista, o pertencimento nacional. A radicalidade do
processo leva os iItalianos, em 1937, a assistirem impotentes a interdição da
expressão pública da língua italiana e seus dialetos, como o moranes, assim como
qualquer outro idioma estrangeiro.
Os jornais trazem a segunda modalidade narrativa importante da presença
italiana em Porto Alegre. No seu limite, permitem ao historiador interpretar a
gramática convencional de qualquer comunicação: o que, o por quê, o como e para
quem desta narração, além de estabelecer quem são os narradores.
As notícias coletadas funcionaram como fios discursivos ligados pela lógica
da pesquisa histórica ao contexto, que trazia sua significância na História. Os
capítulos 4, 5, 6 foram orientados pela pesquisa em jornais. Pequenas histórias
surgem em cada notícia, evidenciando os espaços sociais da cidade,
4
com toda sua
parcialidade e riqueza, sugerindo micro-histórias, concepção que notabilizou o
historiador italiano Carlo Ginzburg. Como um romance, as personagens adquirem
vida própria, subjugam a régua do narrador. Mas sob o olhar disciplinador dos
objetivos da pesquisa histórica proposta, passamos adiante, viramos as ginas. E
construímos um olhar da imprensa, no caso o jornal diário do Correio do Povo, da
Companhia Caldas nior, sobre a presença italiana em Porto Alegre e da narrativa
desta presença na cidade.
Relativo ao trabalho com os jornais, algumas considerações cabem, no
sentido de balizar a compreensão do texto. Estamos tratando de uma dupla
temporalidade. Tal como ocorre na história oral, onde o testemunho prestado no ato
18
da entrevista dirige-se a outra temporalidade, o jornal calca nas cores do presente
um texto resignificado. O jornalista também constitui o acontecimento,
reinterpretando fatos, momentos de seu tempo histórico, congelando a escrita.
O “fazer notícia” muitas vezes está tão próximo do artefato literário não sendo
outra a razão porque a crônica no Brasil. “[...] antes foi ‘folhetim’, ou seja, um artigo
de rodapé sobre as questões do dia - políticas, sociais, artísticas, literárias.”
5
A confluência entre a narrativa do historiador, da literatura e do que faz o
jornalismo estão, pois, no caráter subjetivo e ficcional que está sempre presente.
Na aparente objetividade da notícia, o trabalho textual do jornalista que
seleciona e hierarquiza a partir da sua subjetividade. Reconstrói um passado
projetando na memória futura uma determinada reconfiguração.
Tendo muito presente tais limites, o jornal Correio do Povo, da Companhia
Jornalística Caldas Júnior foi examinado extenuantemente, durante um ano de
trabalho, onde contamos com o auxílio de uma pesquisadora.
Os antecedentes históricos da empresa ligam-se ao processo de trabalho da
imprensa em transição, das bases de um modo de produção artesanal para
industrial. No Rio Grande do Sul, quando começa a circular, em de outubro de
1895, não é mais aquele jornal do século XIX, artesanal, bancado pelo proprietário,
feito para defender idéias conforme Francisco Ricardo de Macedo Rüdiguer.
6
No começo do século XX, muda o quadro, muda o jornal que passa a ser
produzido como indústria, dentro das regras de mercado. Requer a importação de
maquinaria, ampliação da tiragem e da veiculação publicitária.
A tese sobre a narrativa do estrangeiro precipitou incursões interdisciplinares
porque sabemos da fortuidade da história, conforme afirma E. M. Cioran:
19
Contra o que às grandes filosofias da história tem sustentado, a mais óbvia
lição que se pode tirar da leitura de Tucídides, Michelet, Gibbon ou Toynbee
é que na História pode ocorrer qualquer coisa e que apenas depois se
encontra a explicação que transforma o fortuito em necessário. [grifo do
autor].
7
Nossa estratégia, pois, foi evitar o risco da reificação, o imperialismo dos
textos que figuram o estrangeiro em matrizes fixas, portador de uma essência básica
que apenas requer oportunidade de se materializar em algum momento e lugar
qualquer. Manter a lucidez do estranhamento e evitar o discurso pedagógico,
parodiando Simone de Beauvoir, não se nasce estrangeiro, fica-se estrangeiro. A
questão para a contemporaneidade é o que se vai fazer com o estrangeiro que está
diante de s, esquecendo-nos que todos somos estrangeiros na nossa
interioridade. O novo laço comunitário nas Ciências Humanas, alinha Cioran à
Donna Haraway, porquanto:
[...] um conhecedor científico não procura a posição de identidade com o
objeto, mas de objetividade, isto é, de conexão parcial. [...] Instrumentos de
visão mediam pontos de vista,
não
visão imediata desde os pontos de
vista do subjugado. Identidade, incluindo auto-identidade, não produz
ciência, posicionamento crítico produz, isto é, objetividade.
8
Quando não se está em busca da verdade absoluta, mas da veracidade, da
plausibilidade histórica, uma posição relativista é bem-vinda, pois permite alternar
posições entre familiariedade e estranhamento.
A história da narrativa do imigrante urbano provém de uma gramática
impessoal, anulatória mesmo, onde poucos escapam do anonimato. O lugar dessa
palavra é perspectivo e encerra nova série de problemas cognitivistas, apontada
principalmente por Carlo Ginzburg,
9
seguindo as lições, em boa medida, ensinadas
pelos formalistas russos. Numa analogia com a arte, o pontilhismo de Seurat,
10
revolucionou na pintura a consciência do problema dialético no processo artístico.
Para a resolução do problema foi necessária a transformação radical de seu status
20
cognitivo, o que significou a adequação às novas necessidades individuais e sociais
a ser estabelecida sílaba por sílaba, imagem por imagem.
Na analogia do campo histórico com o artístico, uma hermenêutica narrativa
sobre o olhar estrangeiro traz outra perspectiva na percepção da cidade. Uma
narrativa que tem sujeito, mas não tem um único e totalizante centro, uma única
língua. O eu oculto da narrativa, nesta visão, o impera sobre os demais
narradores. O centro da narrativa de fundação da cidade de Porto Alegre é forçado a
abrir espaço para a narrativa que, muitas vezes, vem das margens, como a que
ocupa o migrante em geral. A narrativa desaparece por entre outras narrativas.
Torna-se, necessariamente, múltipla e mimetiza o processo urbano, que mais parece
um caleidoscópio, assumindo inusitadas formas.
Chegamos ao ponto: a função da narrativa no meio social é a mesma, da
poética. Haroldo Campos, ao tratar da ansiedade de um poeta sobre o outro, é
definitivo: “a função da grande obra literária não é resolver as angústias, mas
dar-lhes forma”.
11
Ao evitarmos a reprodução estanque, ad infinitum, da mesma versão
fundatória da cidade, afastamos o risco de se tomar os mesmos fundadores nos
mesmos lugares, reproduzindo o mito da fundação simbólica, que é pura fabulação,
gênero este, que então adquire valor para a História. Mas não basta simplesmente
adotar uma geometria narrativa que consiste em tomar polaridades narrativas, seja
dos que estão “em cima” ou dos que estão “embaixo”. Tal procedimento é, com
certeza, tão pouco elucidativo do processo histórico quanto a posição que vê
irredutibilidade entre a escala da história da macro e da micro-narrativa.
O problema da pesquisa histórica é que, ela mesma é narrativa. Robert
Moses Pechman diz, estudando a representação literária sobre a cidade no Brasil,
que o romance do urbanismo é invenção da cidade. Rama assinala que o príncípio
da cidade é pensá-la e narrá-la. A narrativa torna-se necessária e nasce como
decorrência da anterioridade da imaginação e da sua posterior realização na
21
representação sobre a concretude física. A narrativa da cidade compõe, então, o que
se denomina duplo. Em termos objetivos, repõem-se o problema do duplo na função
da arte e do none literário na periferia capitalista, enquanto o referente, a cidade
brasileira, historicamente, está se formando.
Para processar a pesquisa, um cuidado: o historiador disputa um lugar
privilegiado com os narradores, dado seu compromisso com a objetividade. Como
pólo principal da história narrativa, exige o relato cronológico (nem sempre lógico)
numa ordem que lhe é interna.
À luz da História, utilizando-se, em muito, da aplicação da história oral,
12
pensamos um modo de tratamento das narrativas que teceram o caráter
singularizador do universo lingüístico da personagem do estrangeiro imigrante. Os
fundamentos teórico-metodológicos fogem da concepção de estabelecer a
causalidade entre os dados contidos nos documentos históricos, suas fontes e a
própria historiografia existente. Examinando esses mesmos materiais, do ponto de
vista dos próprios narradores como sujeitos históricos, a ênfase recai sobre a
narrativa, de modo que o pesquisador possa revelar modos de perceber e contar,
mesmo quando subjacentes, indecifráveis, os significados de ser ou ter sido
representado como um estranho na sua contemporaneidade. Ao entendermos que a
composição de tal narrativa expressa sentidos de pertencimento a um lugar, a uma
família e assim por diante, e que movimenta toda a dimensão da necessidade e da
fragilidade da condição humana de reconhecer e ser reconhecido socialmente, é
inevitável o trânsito entre o imaginário, o simbólico e a linguagem, informando,
determinando e ordenando a causalidade pretendida.
Recentes pesquisas no Brasil, como as de Nicolau Sevcenko,
13
aproximam
história e narrativa. Segundo o autor, o presente situa-se na intersecção com um
passado, do qual se faz a narrativa e um futuro, no qual esta se engaja, resultando
em uma história não linear.
22
A condição da alteridade permite tornar menos opaca a instituição da nova
tradição lingüística na experiência urbana, mesmo decorrido mais de um século
dessa transposição. Trabalhamos com possibilidades nas margens. Transitamos,
queremos andar, ser andarilhos porque as novas necessidades requerem esta
atitude. A migração e a série de agudas problemáticas que se colocam para a nova
sociabilidade estendida, globalizada, obrigam à revisão, uma vez que o trabalho
histórico está sempre se refazendo. Pomos em cheque interpretações assentadas
numa historiografia e metodologia que, a seu tempo, foram elucidativas e frutíferas
até certo ponto.
Nesses termos, é impossível pensar a história questionadora do documento,
sem pensar como o giro lingüístico pesou no discurso histórico. Uma hermenêutica
histórica, proposta em reflexões como a de Ricoeur, significa que, esbarrando na
incapacidade de alterar o passado, podemos alterar sua explicação alterando as
interpretações. Para essas leituras, a imprensa é um veículo privilegiado. Não
podemos situar a narrativa dos jornais nos limites do suporte nem no trânsito das
cartas trocadas entre os imigrantes e sua comunidade de origem, em Morano, a
qual se faz presente na distância. Ou, na oralidade, na visitação entre amigos e
parentes, trocando informações, elaborando representações. A narrativa aqui é a
narrativa jornalística, e, portanto, de outra significação para os italianos. E como
significou! No período compreendido entre 1920 e 1937 um dos principais modos de
auto-representação da comunidade italiana para a sociedade abrangente, foi a
imprensa escrita.
Formalmente, a narrativa dos estrangeiros está subdividida em três partes: A
partida, O trânsito no movimento, A chegada. Facilitaria as coisas, haver um antes e
um depois, intercalado por um durante, mas não linearidade narrativa. Como se
verá, os tempos e os espaços são móveis, tanto quanto o sujeito histórico aqui
apresentado. Nas subdivisões estão distribuídas a história oral realizada com
moraneses e seus descendentes, em número de quatro entrevistas de uma a três
horas de duração, entre sessões gravadas e não gravadas.
23
Localizamos os temas através das notícias, elas é que direcionaram a escolha
dos fragmentos. Digitados, compuseram o material central das narrativas no espaço
urbano de Porto Alegre. Surpreendemo-nos, tanto quanto durante as entrevistas,
projetou-se uma outra cidade, agora, trazida pela perspectiva dos estrangeiros. O
modo de dispor e interpretar é uma possibilidade de expor com certa fidedignidade,
sem cair na pura empiria e sem engessar a vida narrada pelos que estão na
memória dos narradores.
Na partida da elaboração do design da pesquisa, percalços, alguns
esperados, eis que próprio do métier, o desapontamento, o encolhimento forçado do
campo de pesquisa. Dados, fontes, entrevistas a fazer e uma certeza: a narrativa do
imigrante, por ele mesmo, depende da competência narrativa que é um atributo
lingüístico, mas, e, mais importante, depende do meio sócio-histórico onde se
concretiza.
Tínhamos de buscar nos jornais, na história oral, na historiografia, mas esta
última, como reconfiguração, de pouco valia para a narrativa do imigrante.
Os objetivos iniciais propostos pela tese sobre a narrativa sinalizam para
outras tantas teses. O cerne da proposta mantém-se, qual seja, analisar o processo
que teceu o caráter singularizador da narrativa dos imigrantes.
O período entre 1920-1937 é pouco pesquisado em termos de imigração.
Marcado por uma densa atmosfera política, ainda assim os espaços sociais urbanos
são festivos, mesmo partilhando daquilo que o escritor italiano, Antonio Tabucchi,
denomina como o fio do desassossego na literatura como sismógrafo da época.
1 CAPITULO TEÓRICO - PARA UMA NARRATIVA DA CIDADE
A narrativa é atributo humano, todos têm e precisam contar histórias, os
estrangeiros e os italianos, em geral, e os moraneses, em particular, m histórias
para contar.
A cidade faz convergir as temporalidades e os grupos humanos que nela
habitam. a narrativa que se faz sobre a cidade, sentido aos grupos humanos e
suas experiências imediatas desdobradas no cenário urbano. Esta narrativa, no
entanto, para existir necessita que haja um urbano para narrar, isto é, um modo de
vida, de morte, até, que possa ser entendido como próprio do convívio citadino.
Deixada a si, a cidade não tem rosto, é preciso que se desdobre em uma
cidade de carne, onde os homens e mulheres lutam pela sobrevivência, em uma
cidade de pedra, onde na materialidade estejam impregnados os projetos, as
estéticas sensíveis de um tempo, de um lugar, assim como é preciso a cidade do
espírito, onde a sensibilidade alcance uma representação, ou um simulacro, em
termos contemporâneos, onde haja a possibilidade de partilhar um significado tão
desprendido da realidade rasa, que possa propor novos ângulos para repensá-la e
agir sobre ela.
Metaforicamente, podemos fazer alusão a três cidades: a Cidade de Carne,
na qual o homem percebe sua existência física e o espaço onde se situa e produz; a
Cidade de Pedra, na qual a percepção da matéria e onde se verifica a presença
do homem na cidade através de suas edificações e simbologias e, por fim, a Cidade
25
do Espírito, na qual se descortina o pensamento do homem, seu intelecto, sua
aprendizagem e o desenvolvimento das habilidades capazes de transmitir o
conhecimento, onde situar-se-ia a narrativa. Essas três cidades, com seus digos e
dispositivos, delineiam o contorno do urbano e motivam as narrativas. Não existe um
urbano idêntico a outro, assim como o existe uma cidade idêntica à outra. Pode
haver uma mesma cidade, porém, sob os usos humanos, as catástrofes naturais,
enfim, toda sorte de fatores que podem incidir sobre ela, mas não será idêntica a ela
própria. E os narradores da cidade sabem disso, tanto que buscam reter ou fixar nas
imagens que configuram, essa anima própria de cada cidade.
Esta anima tem sobrevivido bem aos tempos, inclusive à modernidade. Muitos
temem seu desaparecimento na uniformidade e impessoalidade que vem à reboque.
A modernidade urbana é a síntese de um projeto histórico, onde a presença das
gerações na cidade é negativada. Os anos 20 em diante são os anos da realização
do ideário da modernidade.
Na cidade moderna os homens e mulheres estão reunidos por força do
cálculo pragmático sobre as vantagens do estarem juntos, ou ao menos, próximos
tais como para estabelecer as trocas econômicas e as soluções coletivas para a
reprodução da vida como habitação, saúde e ensino.
Certeau,
14
Chartier e Hartog, dentre os mais expressivos historiadores
contemporâneos, têm discutido a ligação entre história e narrativa. A pesquisa
histórica é ela própria uma narrativa. A leitura de Ricoeur no campo da Filosofia da
Linguagem traz para a história um desafio gramatical: o que se entende ao dizer
“eu”, “nós”, “o outro” na narrativa?
Quanto à cidade, sua narrativa é um duplo produzido sobre um objeto que é
da ordem da materialidade do desenvolvimento urbano.
Em termos concretos, ao tempo em que se põe o duplo na função da arte e
do cânone literário na periferia capitalista, o referente, a cidade brasileira,
26
também está em gestação formando. mencionamos que Pechman ao
examinar o surgimento da representação literária sobre a cidade no Brasil, situa a
ligação do romance com o urbanismo, sendo que este é invenção da cidade.
Estabelece a equação : para haver urbanismo é preciso, antes, haver a cidade.
Rama corrobora, ao afirmar que o princípio da cidade é pensá-la e narrá-la. A
imaginação e sua representação sobre a materialidade é que gera a necessidade da
narrativa.
Por quê é importante que o imigrante possa ler a representação da cidade?
Segundo Ricoeur, a ficção relaciona as distintas temporalidades e suas
instâncias, tais como a tradição, o passado narrado, o futuro. Todas essas
temporalidades sintetizam as ações romanescas que transmitem ao leitor um
discurso epistemológico. Tudo isso aponta para o mundo real que, de outra forma,
não seria alcançável pelos outros gêneros discursivos. A experiência da leitura faz
com que o sujeito entre na literatura, no espaço aberto entre a prática ficcional e o
espaço vivido.
Ricoeur relê a teoria da leitura, de Jauss e de Gadamer, da ação da resposta
que transforma a questão proposta pelo texto. Leitura não é atividade fechada
porque o sujeito está confrontado com o espelho do análogo, porque ele aponta um
mundo referencial (referência metafórica), porque existe nesse confronto com o
espelho do análogo, um espelho correspondente à experiência metafórica. Então, a
prática da leitura se enraiza nas categorias cognitivas do verossímil e do imaginável.
O imaginário trata do possível ao nível cognitivo, onde a leitura não se
desenvolve de modo restrito e desconexo, mas através de duas categorias:
verossímil e imaginável. Apresenta-se, enfim, ao leitor um campo de transição do
homem com o tempo, como apresentação da vida, “ser no tempo”.
Um parênteses: conceitualmente, no plano da narrativa literária, como a parte
mais reconhecida socialmente do universo maior da narrativa, tudo é considerado
27
narrativa, além da própria historiografia. Mas a narrativa também pode desaparecer.
Quando se considera que, tal como a identidade pessoal, a cidade pode ser igual a
si mesma, sem ser idêntica, o desaparecimento da narrativa em sentido amplo
(ditos, provérbios, histórias) põe em risco a própria relação entre as gerações. Das
narrativas entre as gerações, muitas desapareceram. Outras, se refazem desde
os primeiros viajantes, como no Rio Grande do Sul, passam pelos cronistas, pela
lírica, pela literatura, pelo jornal, pela história oral. A narrativa é responsável pelo
princípio de organização do pensamento, da memória e da linguagem que liga o
sujeito com a sua história.
Que interesse pode haver na pesquisa histórica sobre a narrativa de
imigrantes? A resposta é clara, mas não simples. A narrativa está sempre presente,
porque é história e história é narrativa. Mas afora a literatura sobre viajantes,
propriamente dita, muito pouco já foi narrativizado.
Não ocorre o mesmo com a imigração. Dispensa-se argumentos quanto à sua
legitimidade temática. Ao contrário, precisa-se falar e falar cada vez mais sobre
porquê, como, quando e para onde as pessoas, em números assustadores, partem
para não mais voltarem. Há quem já fale em exodus.
Para os que partem, o deslocamento reproduz a primeira ruptura traumática
do gênero humano, o desligamento filial. ressentimentos pela própria memória
social perdida, fraturada.
Para os que são sujeitados a co-habitar com os imigrantes,
constrangimentos quanto ao espaço vital que os seres humanos, a exemplo dos
animais, tão sequiosamente defendem, para não sucumbir.
Paradoxalmente existe pouco adensamento historiográfico sobre imigração
urbana e talvez a sensibilidade, a perspectiva literária tenha feito mais pela recepção
desta personagem que as ciências humanas. Ter-se-á mesclado o fenômeno urbano
aos ciclos do capitalismo periférico, de tal forma que, ao menos no Brasil, o
28
estrangeiro viu-se assimilado muito rapidamente a uma história economicista.
Provavelmente, acompanhando a tendência dos diálogos da história com a
sociologia, desde a consolidação da produção universitária no país.
A possibilidade da narrativa tornar-se objeto histórico está inserida no
contexto das Ciências Humanas que favorece o reconhecimento de uma nova série
de problemas. A opção por privilegiar as sugestões de Paul Ricoeur
15
conduziu a
reflexão sobre a narratividade do estrangeiro em Porto Alegre e se baseou em
algumas soluções de ordem prática quanto ao tratamento com distintos materiais,
tais como a sua definição sobre o parentesco comum entre a historiografia e a
ficção, onde se ressalta que o tempo torna-se tempo humano na medida em que
está articulado de modo narrativo e a narrativa é composta pela experiência
temporal.
Refletindo sobre a extensão desse deslocamento entre os regimes de
temporalidade e de veracidade, conclui-se que a construção do objeto histórico
transita entre o texto narrativo e o simbólico no levantamento das ltiplas
expressões da vida social. Na instituição singularizada do imaginário social de
sujeitos históricos que, em dado processo, buscaram compreender a anima da
cidade, os estrangeiros instituíram sua própria identidade social, como
auto-referência na maneira como os símbolos e os mitos foram incorporados à
linguagem.
Buscamos ver outra cidade através do olhar desses estrangeiros.
Desconfia-se até que as cidades deixadas para trás continuam com o mesmo
quadro de referência e enredo da narrativa. Os resultados consideram as narrativas
e seus diversos níveis discursivos como apreendidos e como o processo de
entender ou interpretar, não apenas, o sentido semântico, como também, a
intencionalidade latente dos materiais em circulação, historiográficos ou não.
A interpretação dirige-se ao drama do estrangeiro que, em seu tempo,
elaborou percepções e rupturas na fantasmagoria do abandono de um modo de vida
29
que lhe conferia significados. Implica perguntas de como o estrangeiro, na tradição
lingüística, edificou e conservou o seu habitar no mundo.
Encontramos aqui o discurso de um texto, a narrativa do estrangeiro. O
enredo, assim como a configuração de acontecimentos narráveis, cabe ao leitor
inferir, como propõe Jonathan Culler.
16
Esta narrativa não é literária e nem historiográfica, embora possa deslizar
para tais registros. Ela provém da sensação continuada de ser um estranho na
cidade, com penetração nos espaços urbanos e modos de ser no espaço que
termina por constituir o espaço social. Deste último é que podemos esperar o relato
do convívio social. E, as histórias, surgem por entre espaços partilhados ou
disputados nas trocas de amizade ou conflito, não importa.
A se considerar o impulso humano de ouvir e contar histórias, pode-se falar
em competência narrativa no âmbito da imigração ou emigração, assim como se fala
sobre a competência lingüística requerida?
E, por que esta narrativa que apenas beira o corpus literário que ainda não é
literatura, poderia interessar ao historiador? E, ainda, tratando-se da imigração, não
tem sido tema tratado à exaustão pelas ciências humanas e sociais, dados os
amplos efeitos econômicos, políticos, sociais e culturais que gera?
Interessa porque do seu olhar de estrangeiro ele reúne o que é distinto,
muitas vezes fragmentado, num todo coerente. Integrado ao processo histórico
coletivo sua narrativa recorta o mundo vivido, ainda que representado por toda
coletividade.
Quando narra a si próprio, o estrangeiro deixa transparecer na sua narrativa
toda coletividade, isto é, todos os elementos que de algum modo participaram da
elaboração de sua experiência e de seu tempo. Quando organiza um relato, oral ou
escrito, sua memória seleciona os eventos desde as impressões passadas, até o
30
presente. Esse processo cessa quando o estrangeiro consegue conferir um
significado coerente para a totalidade de sua experiência.
Na adoção do estudo das narrativas, superam-se as noções de aculturação,
assimilação e integração que, tecidas geração após geração, reduzem os estudos
imigratórios a uma mera seqüência. Ao contrário, percebe-se que o estrangeiro ao
contar sua própria história (ou ao narrar a si mesmo) aciona a elaboração de uma
identidade pessoal (que é narrativa) ou de sua identidade de grupo, frente aos
demais, mas nunca de modo linear. A linearidade existe para trazer a história da
comunicação das gerações e os topos para analisar historicamente as estruturas e
os processos sócio-simbólicos implicados. Dentre as atribuições mais importantes da
narrativa do imigrante está evitar o esquecimento. Ao se contrapor ao quadro do
esquecimento, a narrativa constrói uma outra lógica, evitando os mecanismos
sociais de apagamento.
O apagamento é uma ameaça da modernidade. Segundo Pécaut os
intelectuais brasileiros entre os anos de 1925-1940 estavam preocupados em
organizar a nação:
[...] forjar um povo também é traçar uma cultura capaz de assegurar sua
unidade. É verdade que nem todos os intelectuais da época partilham das
mesmas concepções políticas. Muitos simpatizam com os diversos
movimentos autoritários surgidos após 1930, ou mais tarde aderem ao
Estado Novo instaurado em 1930. Outros, mantêm-se distantes dessa
questão. Em sua grande maioria, contudo, mostram-se de acordo quanto à
rejeição da democracia representativa e ao fortalecimento das funções de
Estado.
17
O período sinaliza para uma intelligentzia ou camada intelectual de cunho
científico, profissional em gestação. As tarefas requeridas colocam a perspectiva dos
sujeitos individuais em plano secundário. Conhecer as realidades mais profundas da
própria dinâmica capitalista e suas determinações, em última instância, requer uma
lógica do social mais quantificável.
31
Uma modernidade, na visão do poeta Ronald de Carvalho:
O homem moderno do Brasil deve criar uma literatura própria, evitar toda
espécie de preconceitos. Ele tem diante dos olhos um mundo virgem, cheio
de promessas excitantes. Organizar este material, dar-lhe estabilidade,
reduzí-lo a sua verdadeira expressão humana, deve ser sua preocupação
fundamental. Uma arte direta, pura, enraizada profundamente na estrutura
nacional, uma arte que fixe todo nosso tumulto em gestação, eis o que deve
preocupar o homem moderno do Brasil. Para isso, é mister que ele estude
não somente os problemas brasileiros, mas o grande problema americano.
O erro primordial das nossas elites, até agora, foi aplicar no Brasil,
artificialmente, a lição européia.
18
Na modernidade urbana como a de Porto Alegre não existe uma praça
comum, mas espaços privados mais ou menos exclusivos ou blicos, cuja
freqüentação é sempre seletiva dos que estão no regime da permanência. E
espaços muito transitórios que estão no regime da velocidade como aceleração do
tempo que encurta este mesmo espaço, como os meios de comunicação, como o
telefone, o rádio, o cinema; os meios de transporte, como o avião e os meios de
reprodução das necessidades vitais, como restaurantes, hotéis e certas modalidades
de lazer representadas pelo tiro, hipódromo, remo, ciclismo.
Este estar junto da modernidade não significa nem solidariedade, nem
amizade. Apenas convívio dadas às circunstâncias, pois a subjetividade moderna é
pouco gregária e muito individualista. A noção de comunidade não tem sentido na
cidade moderna, apenas é uma construção simbólica desejada por alguns e sobre a
qual se tenta convencer os demais. O estrangeiro está mais perto da noção de
moderno, pois realiza em si os atributos da ausência de pertencimento, enquanto é o
melhor adaptado para estimular as trocas na cidade. É o agente da inovação, o
oxigênio da voracidade urbana moderna. Os que estão na cidade, são os
sedentários representantes da reprodução continuada, sem novidades.
Todos esses fatores atuam na moderna cidade de Porto Alegre de 1920 e
1937. Como convivem seus habitantes, na aceleração do tempo, é uma inquirição
justa. Vivem em sociedade, desde que se abandone a idéia de ágora como lugar da
32
civilidade.
A vida não conhecida na cidade de Porto Alegre é trazida pela narrativa, na
recomposição permanente da memória coletiva, ou perto dessa noção. Mas essa
memória é da ordem do contraditório da cidade. Como a alteridade, não se pode ver
na narrativa do estrangeiro uma história narrativa linear. Ao contrário, desde o início
do culo XIX a segmentação existe, a hierarquização social imprimiu no espaço
urbano uma fisionomia heterogênea, comporta espaços mais ou menos seletos ou
deixados no mais completo abandono.
O estrangeiro narra sua experiência diante dos modos de viver, trabalhar,
adoecer e morrer na cidade que é mais conhecida por sua economia ou política,
dada a exigüidade dos estudos sobre imigrações urbanas. As narrativas transpõem
muitas lacunas, principalmente na história oral. Pode-se acompanhar, na distância
do tempo decorrido, mais de um culo dessa transposição, a interpretação, as
correspondências e analogias entre traços e atributos que distinguem e
individualizam a coletividade, na cidade de Porto Alegre.
Mas, tais olhares o são muito presentes. Antes de mais nada, os
componentes da narrativa são da ordem da temporalidade, são voláteis, dependem
da carga de subjetividade do narrador que se dirige para um expectador, leitor ou
ouvinte sempre presente e mudo. Mas não havia condições históricas para tanto.
O estrangeiro, testemunha e sujeito no processo, gera práticas sociais que
não são adaptações do meio rural. Ao contrário, o aseu contraponto. Não foram
narradas aparentemente porque essa narrativa assombrada foi subsumida sob as
forças da coesão social e identitária, num termo um tanto ambíguo, como o da
cultura urbana.
Para reter tal narrativa a estratégia da pesquisa consistiu em partir da noção
de que o significado não é apenas alguma coisa expressa ou refletida na linguagem,
e sim produzido por ela, o que se sabia desde a revolução lingüística de Saussure
33
a Wittgenstein e, que tem em Ricoeur uma elaboração original e, segundo nossa
proposta, operativa. Ao desenvolver seu programa de pesquisa, acentua querer
trabalhar a linguagem como discurso. O desdobramento dessa problemática coloca
ao pesquisador de imediato a pergunta que Ricoeur tenta responder: quem é o
narrador? O que se entende ao dizer “eu”, “nós”, “o outro” na narrativa?
A hermenêutica contemporânea aponta alguns deslizamentos da história para
com as questões antes adstritas ao terreno da teoria literária. Quanto muito, vale
reter a importância para o pesquisador, do procedimento para a problematização e a
distinção entre a narrativa histórica, a ficcional e o Tempo; de como refletir a
relevância da implicação do leitor frente ao texto, quer se trate do texto
historiográfico e/ou literário; de como considerar o círculo hermenêutico implicado.
Ainda, a título de demarcação no campo das possibilidades, as noções de
identidade narrativa, de identidade simbólica e os nexos com o texto-narração que
propõe, no seu firme compromisso com o humano, é outra tradução da prática
historiográfica. É outra causalidade, porque na organização que estabelece o
trabalho de composição narrativa combinada com a tarefa de relacionar o tempo da
narrativa, com a vida e com a ação afetiva, o pesquisador escapa da armadilha
cronológica linear, uma vez que é o relato que ordena.
Segundo Ricoeur, o texto-narração leva ao reconhecimento da identidade
narrativa que, por sua vez, responde a pergunta: quem sou eu? É onde a cultura e a
história se interpõem. As junções entre essas noções e o discurso vão se referir ao
modo como o estudo das narrativas é tomado como texto e paradigma textual, i. e. ,
sempre mediado pela identidade narrativa, mesmo entendendo o limite dado como
necessário, o de que o texto seja identificável com a escrita. Então, o fundamento do
texto deve ser procurado naquilo que se denomina discurso, uma vez que neste está
presente a dialética do distanciamento e da pertença.
Cabe, ao historiador, decodificar a narrativa efetuando a distinção entre
compreender e explicar. A explicação decorre da análise estrutural de um texto,
34
através da qual o mesmo adquire um sentido, uma estrutura. a compreensão
pressupõe um sujeito que se apropria do texto e o traduz, conferindo-lhe uma
significação.
O historiador é sempre o mediador, o hermeneuta, portanto, escolher o
documento tem a ver com a fenomenologia do tempo como processo de
transformação da vivência do indivíduo, seja em narrativa ou outra espécie de dado
histórico.
A narrativa é a única capaz de reter o tempo vivido, a possibilidade do
estrangeiro vir a se constituir como autor nesse novo mundo social. É quando
poderá abrir-se para seus leitores que, assim, podem reconstruir sua vida vivido
através da narração. E, então, está completo o círculo hermenêutico.
Para processar a pesquisa, um cuidado: o historiador disputa um lugar
privilegiado com os narradores, dado seu compromisso com a objetividade. Como
pólo principal da história narrativa, o historiador exige o relato cronológico (nem
sempre lógico) numa ordem que lhe é interna.
O narrador confere sentido à narrativa, cabendo ao historiador buscar a
identidade desta em relação à história, à análise, à descrição do corpo do texto e ao
significado simbólico que o narrador atribuiu ao seu relato. Atuou-se na tese como a
sede da narrativa reflexiva, o intérprete, por excelência, do significado e da
diferença, o sujeito mesmo da hermenêutica realizada.
São narradores, aqueles que partem do tipo de olhar do viajante perceptivo,
atento, não relaxado pelo hábito da paisagem e não envolvido nas sociabilidades
cotidianas, o olhar estrangeiro por definição, contemplado pela narrativa ou crônica
dos viajantes.
O olhar do narrador nativo diferencia-se do olhar do viajante, porque está
eivado pelo compromisso do registro da escrita da história de sua vila ou de sua
35
cidade. Aqui não há muito espaço para o estranhamento, mas, porque precisa
lembrar para não esquecer, afirmar uma memória para a cidade. A postura polifônica
respeita a multiplicidade dos narradores. Entre os sujeitos e suas narrativas
produz-se a intersecção que leva à narrativa do estrangeiro.
A importante noção de identidade narrativa também permite implicar tempo
histórico, que está no modo do relato com o público ao qual se dirige e é parte
constituinte de qualquer relato. A noção do papel identificante da narrativa vale, tanto
para uma comunidade, quanto para um indivíduo. O sujeito retifica e ordena as
histórias que narra sobre si até que, nelas se reconheça.
O acontecimento, o indivíduo, o fato retornam à história, mas retornam de
outro modo. Aqui, uma digressão epistemológica.
Tomando como objeto o tempo, Ricoeur tenta e consegue desestabilizar o
campo epistemológico porque tem como resultado colocar em questão os discursos.
Obriga as Ciências Humanas a se abrirem para um campo perigoso, o das
expressões da linguagem não filosóficas (sem as regras canônicas do discurso da
filosofia que se desenvolve na linguagem) que são utilizadas mas o dominam o
standard, como na filosofia analítica.
19
A partir dos anos 70, com o conceito de tempo como eixo de seu pensamento,
as Ciências Humanas se aproximam do campo das expressões ficcionais. A
possibilidade de contradição no discurso dessas ciências tem como interrogante um
discurso temporal. Seu trabalho está negando, completamente, o aspecto mais
fundamental de seu objeto temporal para construir um objeto científico.
As Ciências Sociais, enfatizando o discurso histórico, associado ao problema
das determinações e da liberdade remetem à Sartre e à liberdade aqui elaborada,
não como existência determinada, como finalidade do ser humano, mas como uma
dedução ou determinação a priori no tempo, ser no tempo. O que implica na
mediação simbólica que permite através da confrontação do análogo da vida, ser e
36
produzir, exercendo a liberdade.
Não é o caso de proceder a um balanço sobre “o retorno da narrativa”, na
polêmica entre Stone e Hobsbawm,
20
mas sim como a narrativa, considerada em si
mesma, é um problema desafiante para o historiador.
21
Sobre esta questão, Cláudio Pereira Elmir
22
traz uma reflexão importante
sobre a controvérsia narrativa. Da última cada, até agora, a Filosofia Analítica da
Linguagem e a hermenêutica-fenomenológica, dentre outras “visitações”, adensa o
debate historiográfico que afirma que “história é narrativa”. Propostas não faltam,
haja vista a proliferação de biografias memoráveis, mais ou menos de cunho
jornalístico, a inquestionável importância da história oral, acompanhada,
invariavelmente, das discussões em torno de seu estatuto epistemológico, ou
mesmo, as propostas do “fim da história” através da diluição das fronteiras entre a
ficção (a incorporação da teoria literária) e a escrita da história. Continuamente,
estão sendo sugeridas novas revisitações às possibilidades teórico-metodológicas,
quando não, rupturas epistemológicas diante dos assentados campos disciplinares.
Um problema como da ordem da narrativa de migrantes sobre sua
constituição como estrangeiro, a de si, como diz Artaud, é tema árido na
historiografia, onde é preciso apresentar documentos e fundo de veracidade para a
escrita.
A história urbana e o encontro do migrante com a cidade moderna precisou
aguardar a superação da predominância da dialética materialista, do peso das fontes
quantificáveis no período. Ao lado de uma mudança paradigmática no uso do jornal,
as cartas, a história oral, a biografia são, hoje, documentos legítimos para justificar
igualmente o retorno da narrativa.
23
Trabalhamos com possibilidades, nas margens. Transitamos, queremos
andar, ser andarilhos porque as novas necessidades requerem esta atitude. A
migração e a série de agudas problemáticas que se colocam para a nova
37
sociabilidade estendida, globalizada, obrigam à revisão, uma vez que o trabalho
histórico está sempre se refazendo.
Nesses termos, é impossível pensar a história questionadora do documento,
sem pensar como a virada lingüística pesou no discurso histórico. Uma
hermenêutica histórica como propõe Ricoeur significa que, esbarrando na
incapacidade de alterar o passado, podemos alterar sua explicação alterando sua
interpretação.
A dimensão mimética significa que o caráter inter-pessoal está dado na
relação do sujeito ou de seu grupo com outros. Ao buscar a narrativa de um sujeito
histórico, encontramos a reinterpretação do vivido. Essa reinterpretação organiza a
pesquisa histórica quando busca quem são os outros e onde a história do sujeito
está incluída. Para tal, o pesquisador necessita contextualizar as ações e as
situações através das quais o sujeito que narra quer concretizar a identificação de si
e dos seus, frente aos demais.
A respeito da questão da verdade em história, salienta-se que a verdade dos
fatos é o tema dos documentos. O “rastro” seria a posição do documento: está lá, é
verdadeiro como documento. Agora, qual é a verdade que esse documento traz para
o historiador? A possibilidade de conhecer a verdade é integrar o passado do
homem ao seu presente e a seu futuro, propiciando, assim, sua reconstrução.
Retomando uma das contribuições de Ricoeur, a verdade está lá, na
articulação de três tempos onde o documento vira “rastro” via sua capacidade de
testemunho do documento. Agora, como descrevê-lo? Tem-se o rastro, o indício, a
relação de causalidade. Mas como está integrado pela mimese, existe um
testemunho de que essa verdade foi. O sujeito historiador é sempre mediado,
portanto, escolher os documentos tem a ver com a fenomenologia do tempo
reformulada pela teoria do análogo, como processo de transformação do sujeito
38
vivido.
Mas, o que necessita o pesquisador em História, no trabalho com as fontes,
em especial, a entrevista em história oral que é vista como uma narrativa que produz
um tipo especial de texto ou discurso? O pesquisador necessita usufruir da abertura
e criar atalhos metodológicos, tal como o jornal. Mas os documentos orais são os
mais complexos, pois exigem mediar a narrativa com o critério da veracidade.
A história oral presta sua validade, quando o objetivo da reconstituição
histórica é a produção da narrativa de imigrantes no espaço social de Porto Alegre.
Ainda que traga a dialogicidade do duo, entrevistado e entrevistador, colocando
frente a frente as subjetividades envolvidas, impondo-se o selo, o filtro da
interpretação do historiador, ainda assim, o texto resultante será material vivo e
aberto a novas interpretações.
Isso é, uma narrativa resultante da entrevista em história oral, é história que
pode ser contestada, emendada, acrescida, suprimida. É um texto sobre o qual
temos outras vantagens: no ato da sua produção, ele presentifica o objeto histórico,
atualizando o presente, contando o passado e se projetando no futuro, sob a
perspectiva do entrevistado.
O sujeito, ao narrar, é o protagonista histórico, senhor de seu destino e, ao
mesmo tempo, colhido pelas circunstâncias. Mas a versatilidade humana, sua
autonomia está sempre latente em tais narrativas. Se são fragmentos, o critério de
entendimento haverá de ser a coerência segundo as pessoas entrevistas, permitindo
que se publique o roteiro de suas vidas para melhor entender o processo histórico.
Não cabe, pois, ao historiador buscar a coerência do texto de entrevista, como se
buscaria em outros tipos de documentos.
Na história oral, a narrativa se faz às custas da memória emprestada dos
descendentes. Ao cruzar sua história com as histórias dos outros, uma memória
social é posta em destaque. Imigrantes estão sempre a falar no s, embora o eu
39
esteja em primeiro plano, e o destino dos demais seja a sua referência.
O resultado é, que, a narrativa final é única de quem narra. Neste momento
podemos dizer que as entrevistas realizadas teceram a trama discursiva, onde cada
entrevista é paradigma desses anos. É possível inferir e usar da imaginação porque
se pode justapor esta narração ao contexto histórico mais amplo. Ou seja, buscar os
pontos de contato entre a escala da vida que pulsa nas narrativas, justapondo-as
sobre a sucessão dos eventos que constituem a historicidade.
Quem recolhe relatos, recolhe a reconfiguração de uma narrativa que se faz
em três tempos. Se aqui estão em ordem quase linear, não foi assim que narraram,
pelo simples fato que os moraneses estão continuamente subvertendo o tempo e o
espaço da narrativa tradicional: se tomarmos o romance tradicional como modelo de
narratividade, com início, meio e fim, sua narrativa transpõe sua existência social em
Porto Alegre. Estão mais para uma pós-modernidade narrativa.
O pesquisador–narrador toma liberdades. Costura como quer, à medida que
lhe vem à consciência os nexos entre seus propósitos de pesquisa histórica e o que
os documentos orais ou não resolvem lhe dar. O eu-reflexivo, por sua vez, edita em
corpus conexos, conforme a proposta da tríplice estrutura que adotamos como
chave da organização e demonstração da Tese. Tem liberdade de intervir na fala e
congelá-la na escrita. Não pretende, no caso da história oral, interpretar para além
do significado que o narrador estrangeiro emigrante deixou transparecer na fala. Ao
longo do trabalho não buscamos nem denunciar uma falsa-consciência, nem
totalizar uma fala onde outras possibilidades históricas o estivessem colocadas
para os narradores.
O caráter, simultaneamente, massificador e fragmentador em alguns
períodos, é superado por outros, quando a noção de uma persistente narrativa é
armazenada na memória social. Seria improvável reter tais registros, a não ser pelo
texto narrativo.
40
As limitações no entendimento dos textos (escritos ouo), diminuem a
expectativa da comunicação entre a fonte oral e os distintos graus de interação do
pesquisador com tais fontes desde os arquivos existentes. Ainda que se queira
introduzir na pesquisa histórica, a dialogicidade com a pessoa-fonte, o estrangeiro
revela que antes da escuta de nós mesmos, deve-se atentar para a escuta dos
imigrantes de segunda, que são raros, e, de terceira geração, cuja comunicação é
turvada pelo pensar em outra língua, pois o que se diz, escreve ou na língua do
país de adoção, foi antes pensado na língua do país de origem. Pode-se falar de
uma língua de casa, dos avós, dos pais, dos filhos e até de uma língua da vida
pública.
Fontes orais foram buscadas enquanto os rastros do “ouvir dizer”, ditos pela
coletivamente, torna-se cativo de um modo de dizer, que pode se notabilizar porque
revela um mito constituído pela linguagem. Se o tempo é narrado, o tempo é
narrativa, como disse Ricoeur. A narrativa realizada pelo migrante, não da história
por ele vivenciada, mas também daquilo que ele tomou conhecimento através das
gerações passadas, quando transformada em símbolo reflete uma filosofia de
linguagem, na qual são utilizados os critérios de veracidade, fidedignidade,
interpretação e compreensão.
A narrativa do migrante é capaz de emprestar um novo sentido à pesquisa
histórica, na medida em que os historiadores a utilizem, submetendo-a aos critérios
por eles adotados.
Mas tais relatos não se apresentam de imediato: a historiografia e a literatura
obscurecem a presença do estrangeiro na cidade quanto à elaboração de uma
narrativa própria. Paradoxalmente, a crescente importância econômica do
estrangeiro, desde o final do século XIX não consegue preencher as lacunas na sua
representação.
Transitar em documentos escritos, como os jornais, requer a consideração de
41
que uma semântica está presente, assim como uma narrativa.
O jornal faz parte da reunião de distintos textos que expressam “momentos”
da ambição de adentrar na atmosfera do discurso produzido na sociedade, no caso,
a cidade pelo olhar do estranho, o estrangeiroimigrante. O trabalho do historiador
contemporâneo com o jornal, quando visa entendê-lo como narrativa, aproxima o
literário do jornalístico. Tomar pela sua narratividade, sua intertextualidade, ou pela
sua recepção, são posturas decorrentes da conversão do paradigma estruturalista
na oficina da história dos anos 30 no Brasil.
A veracidade dos fatos, afirmada pela constituição do discurso da “imprensa
empresa”, é recente. Passado o período romântico, a profissionalização da atividade
de jornalista erige a ética da neutralidade, um pouco da influência positivista do início
do século XX, com certeza.
O “jornal empresa acompanha as grandes transformações políticas neste
período. Desencadeia-se uma institucionalização dos saberes, a busca da
modernização no sistema educacional, bem como a ampliação de leitores.
Como corpus traduzem a noção de um o período que Nicolau Sevcenko
24
metaforiza como montanha russa, ou seja, um período no qual o otimismo e a
confiança no progresso antecede a Grande Guerra com sua carga de apreensões
sobre o futuro da humanidade.
A confluência entre a narrativa do historiador, do escritor e do jornalista está
no caráter subjetivo e ficcional que está sempre presente. Fica claro que na aparente
objetividade da notícia, o trabalho textual do jornalista que seleciona, hierarquiza
a partir da sua subjetividade. Reconstrói um passado projetando na memória do
futuro, uma determinada reconfiguração.
É preciso olhar a cidade dos anos 20 como um projeto de construção sempre
inacabado, sempre em fluidez: o que o existe ainda, na materialidade, torna
42
obsoleto o que está. Como Prometeu, condenado ao martírio eterno da
dilaceração das suas carnes, a cidade moderna está condenada à voracidade da
velocidade de sua transformação.
2 PARTIR
Itália bella mostrati gentile
e i figli tuoi non li abbandonare,
sennò ne vanno tutti in Brasile,
non si recordan più di ritornare.
Anco quà ci sarebbe da lavorar
senza sta’ in America a migrar.
Il secolo presente qui ci lascia,
il millenovecento s’avvicina.
La fame ci han dipinta sulla faccia
e per guarirla un c’é la medicina.
Ogni po’ noi si sente dire: io vo
là dov’è la raccolta del caffè.
Non ci rimane più che preti e frati,
moniche di convento e cappuccini,
e certi commercianti disperati
di tasse non conoscono i confini.
Verrà un di che anche loro dovran partir
Là dov’è la raccolta del caffè.
L`operaio un lavora,
c´è la fame che lo divora.
e quei braccianti
un sanno come si fare a andare avanti
Speremo ni` milenoveccento,
finirà questo tormento.
Ma questo è `iguaio:
í peggio tocca sempre all`operaio.
Com questi scolgi
ci hanno votato tutt`i portafogli
(Les chants des émigrants italiens)
25
44
PARTIR: partida, ato de partir, saída, correr as sete partes do mundo, viajar
pelo mundo todo. Sinonímia de morte, chegar ao fim de uma trajetória, de um
percurso; acabar, finalizar. E de súcia, assembléia, sociedade, convívio familiar.
Como pode tratar-se de reunião de indivíduos de índole. Suciar é vadiar,
divertir-se, entre outros termos. Na etmologia latina, partir é dividir, distribuir; a
acepção da palavra, meter-se em movimento e suas afins derivam da noção de
separação contida na acepção da palavra partir, quebrar, dividir em partes e
provavelmente se trata do fracionamento de partir deixar um lugar.
26
2.1 A partida da Itália nos anos de 1920 a 1937
Para Federico Chabod, a guerra de 1914 coloca em relevo a política
econômica e fiscal do governo que afetou a estrutura social do povo italiano. A Itália,
recém saída do processo de unificação para a formação do estado nacional com a
constituição do reino da Itália de 1861, submeteu-se a uma grande prova militar, ao
contrário da Inglaterra e da França que já contavam com uma secular tradição
nacional militar.
27
A guerra lança seus 36 milhões de habitantes em um empreendimento que
arruína financeiramente a economia italiana.
A situação anterior à guerra era preocupante: o país consumia mais do que
produzia tanto que, “entre 1909 e 1913, a média do excedente de importação sobre
a exportação é de um milhão e 1250 milhões. Sobre um volume total de comércio
internacional de cerca de 5 milhares e meio, a Itália tem um ficit de um milhar e
um quarto”.
28
Nesses anos a emigração é calculada em torno de 873. 000 partidas anuais
sendo, em média, de 650. 000 ao ano no período entre 1909-1913. Os emigrantes
que conseguem economizar, enviam para as famílias, na Itália, suas economias.
Outra forma de fazer frente ao ficit é o turismo.
45
Setores do governo acreditavam que a empresa da guerra seria breve. Não o
foi. A necessidade do governo em levantar mais empréstimos, representou mais
impostos lançados sobre os contribuintes. A pequena e média burguesia,
profissionais liberais, quadros do comércio e da indústria, pequenos proprietários,
até o momento, a base de apoio político do Estado, sofrem perdas irrecuperáveis.
Outro setor a ser atingido é o imobiliário uma vez que o governo para resguardar
parte das perdas da população, bloqueia os aluguéis de bens fundiários e imóveis,
sem que a despesa cesse de aumentar.
Noutro extremo, setores econômicos e grupos sociais ligados à indústria e ao
comércio vão beneficiar-se e fazer fortunas.
No pós-guerra a expectativa frusta os que esperavam a recuperação da
economia. Com o fim da guerra, retira-se o controle do câmbio e a conseqüência é a
queda da lira e o aumento do custo de vida para o país que é importador de grãos,
carvão e petróleo.
Os jovens burgueses que fizeram a guerra engrossam as fileiras das demais
camadas sociais que sofrem a crise financeira. Os dados de distribuição da
ocupação da população em 1914 ainda são de Chabod: empregados na indústria,
28%, no comércio, 8% e na agricultura, os restantes, 55% da população, com,
aproximadamente, 5 milhões de proprietários. Ou seja, o caráter agrícola da
estrutura econômica italiana permanece, apesar do surto industrial ocorrido desde a
unificação do reino da Itália. Tal estrutura, como no período das grandes emigrações
em massa do século anterior, será responsável pela continuidade da emigração.
As causas da emigração no período são, além da guerra, conseqüência do
incorreto manejo das águas, dado o desmatamento descontrolado, principalmente
na Itália central e meridional e, até, nos Alpes ocidentais. O que torna os terrenos
que podem ser convertidos para a agricultura ainda mais exíguos, pois apenas 20%
destes representam terra fértil, sendo os demais, colinas e montanhas. A baixa
fertilidade das terras é herança de culos de uso continuado. exceções, como o
46
vale Padano, o entorno de Nápoles, vales existentes ao longo dos rios da Itália
meridional, a planície de Palermo e a planície de Catania.
29
Agrava-se o quadro, mais ainda, com a estrutura da propriedade
predominantemente organizada a partir dos latifúndios, aproximadamente, entre os 5
milhões de proprietários, sendo que nove em cada dez não detém um hectare. O
arrendamento ou o trabalho, para o grande proprietário rural, tem sido a válvula de
descompressâo social. Eis a origem do braccianti, trabalhador volante proveniente,
sobretudo, da planície padana, nas regiões de Bologna, Ferrara, Cremona, Mantova
e no Piemonte, nas províncias de Vercelli e de Novara, regiões de cultura intensiva.
Mas ao se empregarem com os grandes proprietários rurais, em momentos de crise
agrícola ou de preço, ou ambas, o que ocorre é o rebaixamento do preço do trabalho
dos camponeses.
Quando termina a guerra, os soldados camponeses retornam, acentuando o
problema da desocupação: “Que coisa dar a estes ex-combatentes, uma vez finda a
Guerra?”
30
O quadro político agrava-se em julho-agosto de 1919, quando ocorre a
ocupação de terreno no entorno da capital, pela massa de camponeses. A descrição
sublinha “a bandeira Rossa na cabeça, ao som de uma marcha”. A Calábria e o Vale
Padano, em outubro, também são convulsionados pelos camponeses da liga Rossa,
socialista, vinculados à Confederação Geral do Trabalho, assim como os ligados ao
denominado “bolchevismo branco” e os católicos, cujo líder é o deputado Miglioli. Os
projetos políticos entre católicos e socialistas não coincidem, mesmo assim, eles
operam unidos nas ocupações. Em novembro, as ocupações se estendem para
áreas férteis de Cremona e Soresina com a palavra de ordem: “gestão direta da terra
por parte dos cultivadores, por meio de uma empresa coletiva”.
31
Os efeitos do pós-guerra para os operários industriais serão diversos, ao sul,
onde ainda predomina o artesanato e, ao norte, estão a Fiat, a Ansaldo e outras
47
indústrias, localizadas no chamado “triângulo“ do desenvolvimento industrial, Turim,
Genova e Milão.
32
Por sua vez, entre os socialistas italianos, o jornal Ordine Nuovo, de Antonio
Gramsci questiona as lideranças mais antigas do partido socialista. Ao propor que a
elite operária rediscuta as relações com a Rússia de Lenin, sugere que a luta seja
focada em torno da organização dos conselhos operários para a abolição do
capitalismo.
E o expressivos os socialistas ligados aos setores da indústria moderna
pois são majoritários na “Confederação Geral do Trabalho” que conta, em 1920, com
2 150 000 aderentes: um terço constituído por camponeses e o restante,
essencialmente, composto pela massa operária.
33
Enfim, o quadro político da Itália pós-guerra está dividido entre pátria e classe,
de um lado, os socialistas, os operários e camponeses católicos defendendo a
internacionalização das lutas. De outro lado, os combatentes de guerra conferindo
centralidade às lutas em torno da noção de pátria, muito em função das questões
com o Adriático.
34
Ercole Sori afirma:
[...] ao final do segundo semestre de 1914, a primeira guerra imperialista
mundial coloca uma grande pedra na máquina emigratória italiana: ainda
que por um fato excepcional, à época, o
mercado
internacional de trabalho
livre encontrava o primeiro momento de fechamento. [...] Os repatriamentos
nos países europeus em guerra, foram efetuados em circunstâncias
dramáticas. Os trabalhadores perderam o salário trabalhado e a mobília da
casa onde habitavam e encontram na Itália uma situação econômica difícil:
dos 280, 000 repatriados, entre 15 de agosto e 1 de outubro 1914, uns 60%,
não encontram ocupação.
35
Os mais prejudicados são os operários das regiões do Norte e do Centro, até,
por serem a maioria numérica da emigração nos países europeus, mais ainda que
48
os trabalhadores agrícolas. A situação pesa sobre o governo italiano. A “funçãode
válvula de escape que a emigração representa para a Itália é contestada
internamente também. Os socialistas vêem a emigração como técnica de
descompressão da política italiana e a combatem vigorosamenre sob a liderança de
Coletti em 1925.
36
Em 1927, “o regime fascista e corporativo, pela primeira vez e,
voluntariamente, passou a proibir a imigração”.
37
A saída é voltar-se para o interior, tentar a colonização interna nas áreas
politicamente mais ameaçadoras. Sori cita Campese quando este autor afirma que
no Mezzorgiorno o havia desocupação, enquanto no Norte, sim.
38
A aventura da colonização na Líbia integra a reversão da política emigratória
no período.
Após a contenção da imigração advém a crise mundial de 1930. A visão
socialista de Gramsci, descreve-a, como pensada a partir da existência de uma
reserva nacional de mão de obra em maior quantidade do que aquela que o meio
industrial poderia absorver. O desemprego e a conseqüente pressão no governo de
Mussolini, faz com que se amplie a liberação de passaportes nas áreas sociais mais
agitadas politicamente, como a Ligúria, o Piemonte e algumas províncias da Itália
Central.
Na verdade, para os historiadores italianos, como Sori, esta outorga de
passaportes marcava seu portador com o selo da oposição ao regime. O que impede
nos anos 20, “depois do ascenso do fascismo, separar a motivação econômica
daquela política [...]”.
39
Esta medida, com ”alguma probabilidade, um ato deliberado para filtrar”, os
opositores e recuperar “o senso fascista da comunidade italiana no exterior, velhos e
49
novos e, de controlar o comportamento político dos expatriados [...]”.
40
Mas no caso dos meridionais, para Sori, a emigração reserva peculiaridades,
tal como a orientação no sentido de uma emigração transoceânica, ao invés de se
dirigir para os demais países europeus. Além do mais, entre os meridionais,
verifica-se uma elevadíssima especialização.
41
Destinos podem ser traçados pelas gerações anteriores: os italianos do
Mezzogiorno ao partir estão deixando para trás o da unidade italiana, qual seja a
chamada Questão Meridional.
Nos anos 20, para Gramsci, ela reside na anômala posição que,
historicamente, o sul tem sido destinado a ser uma região agrícola, atrasada, com
relações sociais garantidoras dos latifúndios e da exploração da mão de obra dos
camponeses, mesmo quando estes detém alguma terra. O que, no Risorgimento,
era evidente.
se conformava, embrionariamente, a relação histórica entre o Norte e o
Sul, relação comparável à de uma grande cidade e um vasto campo; na
medida em que essa relação não tinha a característica clássica de um
vínculo orgânico entre província e capital industrial, mas se referia a duas
extensões do território, com tradições civis e culturais profundamente
distintas, todos os elementos que lhe podiam emprestar a dimensão de um
conflito de nacionalidades encontraram-se reforçados.
42
A unidade italiana contempla tal divisão ao fazer prevalecer a dinastia dos
Savóia e a liderança dos empresários e comerciantes do Norte, principalmente, no
Piemonte, apoiados na indústria e economia mais moderna.
Mantém, ao sul, o Estado Pontifical, o rei de Nápoles, sem que fosse
realizado um projeto para o conjunto do país. E, vai a crítica de Gramsci ao
partido da ação naquele momento, Garibaldi, Pisacane, Felice Orsini por terem se
rendido à corrente moderada da burguesia. Daí em diante, ao sul, restou conter sua
insurreição e aderir ao bloco industrial-agrário de modo subalterno, sem perdas de
50
propriedades para os grandes proprietários. O deputado Nitti vai dizer:
[...] desde 1860 havia sido feita uma drenagem constante de capitais do Sul
para o Norte, conseqüência da política desenvolvida pelo Estado, e que
essa drenagem havia impedido o desenvolvimento do Mezzogiorno,
tornando-se um fator essencial do desenvolvimento industrial para o Norte.
Assim, dizia ele, a Itália Meridional transformou-se numa colônia, um
mercado de consumidores, favorecendo o impulso da grande
indústria
do
Norte.
43
Os primeiros meridionais partem em grande número. Como narra a
oficialidade, em 1888, o Ministério do Interior resolve pesquisar porque os portos de
embarque de Gênova estão lotados. As prefeituras de Campobasso, Cosenza,
Potenza, Catanzaro, Salerno, Benevevento em Avellino e Reggio Calabria, recebem
a mesma resposta: miséria, fome e escassez de salários.
O historiador Deliso Villa descreve o espetáculo das chaves para o nada:
Dos povoados da área de Cosenza e de Salerno e da Basilica partem
famílias inteiras. Vão tornar-se americanos. O espetáculo é muito doloroso.
Quando não conseguem vender seus miseráveis pertences, deixam tudo
como está. Nem mesmo fecham a porta de seus casebres. As chaves ficam
penduradas num prego, como um objeto inútil [...].
44
muito tempo a miséria não tem origem na ordem do universo,
preocupação social quanto às causas. O deputado Nitti escreve:
Não foram poucos os camponeses da Basilicata que vi serem vítimas do
bárbaro sistema de arrendamento, trabalhando na esperança de se verem
livres das dívidas contraídas para semear. E muitas vezes o valor da
colheita era inferior às despesas do arrendamento: não sobrava nada para
comer... Até cerca de vinte anos atrás, quem se encontrava nessa
condições virava brigante. O brigantaggio, no Sul, transformara-se em
instituição. Agora se emigra.
45
2.2 Da Antigüidade à modernidade: moraneses partem até chegar a Porto
51
Alegre
Morano, tal como figura na memória de muitos, era uma comunidade agrícola
que, como outras do sul da Itália, via a partida de moraneses aumentar ano a ano.
Balleta números: se em 1870 e 1880 partiam em média dois calabreses em mil
habitantes, entre 1901 e 1910 salta para 32, principalmente nos distritos de
Cosenza, Nicastro e Castrovillari, ao qual Morano pertence.
46
Nem sempre foi
assim. Hoje também não é assim. Na atualidade do Mezzogiorno, a Regione da
Calábria, de onde partiram tantos italianos moderniza-se, apresenta importante setor
agrícola, com o cultivo da oliveira e de cítricos. O setor industrial é ainda muito
manufatureiro, cerâmica e tecido. As indústrias estão em Crotone (química e
metalurgia), Vibo Valentia, Regio Calábria (mecânica) e Catanzaro. Crotone e Vibo
Valentia são duas províncias recentes, datam de 1991.
As províncias são Catanzaro, capital da Regione, Cosenza e Regio di
Calábria, sempre são citadas nas entrevistas dos moraneses. O início da perda
galopante de população gira em torno da Unificação, quando, com seus 5. 000
habitantes, era considerado município médio. Partem agricultores, em sua maioria,
de Castrovillari, Laino e Cassano, entre outros municípios, conforme Cingari, as
estatísticas da sociedade de expulsão nas décadas seguintes demonstra a involução
demográfica da cidade, com exceção da época da Unificação, quando cresce até um
pico para então iniciar um descenso contínuo. É o insólito espetáculo das chaves
nas portas que Villa descrevera anteriormente. A decadência da Calábria já foi
enunciada, embutida na série de problemas que criaram a Questão Meridional.
47
Esses tempos ficam pregados nos relatos dos moraneses, a cidade de pedra
insiste em fixar tais cenários. A zona montanhosa do Maciço Polino onde Morano foi
edificada, está por tudo distante de outras Calábrias menos sombrias. A descrição a
seguir é poética:
Existe uma, luminosíssima, de mar, uma escura da montanha, uma
fervilhante de vida presente, uma de um passado remoto visível, dada a sua
52
diversidade física: é uma região marítima, com aproximadamente 800 km de
costa banhada pelo Tirreno ao oeste e pelo Iono, ao sudoeste. Sila, Serre e
Aspromonte, recoberta de vegetação, além da fauna e fauna típicas. Sila,
mas também em por toda região, era recoberta de florestas.
48
O que os moraneses de Porto Alegre, bem informados e viajados, apreciam
lembrar para situar o mito de fundação da cidade é a sua presença desde a
Antigüidade. A cidade de pedra é antiga e guarda a presença das colônias gregas. A
história de Morano se tece entre invasões, períodos de prosperidade e decadência.
Constitui um senso de pertencimento que transcende o tempo histórico, avança no
tempo mitológico. Poucos imigrantes tem acesso a essa narrativa. O que ficou
marcado foi a impossibilidade de permanecer em Morano, dadas as condições da
Itália, principalmente, desde a sua unificação.
O mito de fundação de Morano perde-se nos tempos em que suas terras são
férteis, à época que o rio Sibari banha o vale próximo à cidade. Isto, porque as
montanhas do Monte Polino protegeram Sibari da população indígena da polis
italiota, que nem mesmo os colonos gregos logravam dominar.
49
Os historiadores que ajudam a contar a história dizem como, depois da
fundação da primeira colônia grega de Reggio, surgiram as outras comunidades da
Magna Grécia (a opulenta Sibari, Crotone, Locri) as quais determinaram profundas
ligações com o Oriente. Mais helênicos, mais orientais, os meridionais vão
construindo sua diferença cultural também na culinária, na sociabilidade do grupo
familiar e na peculiaridade lingüística. Essa tradição se perde em algum ponto, no
entanto.
Placanica descreve estes tempos, antes da chegada dos romanos, quando
entre o terceiro e o segundo século A. C. a região é dominada e suas florestas são
destruidas para alimentar a urbanística e a frota dos vencedores.
50
A adjetivação, “Calábria forte e valorosa”, demonstra-se na sucessão de
53
invasões, incluindo o período bizantino entre 553 e 1060, quando se dá a penetração
dos longobardos. Os sarracenos passam pela Calábria mas não se fixam, fazem as
suas razias. Morano foi assim ocupada por godos, visigodos, longobardos,
gregos-bizantinos e normandos. Em 1000 defende-se a cidade contra os “mouros”,
daí a cabeça de um mouro encimando o escudo de armas da cidade, conforme a
tradição.
À época de Frederico III da Sabóia, Morano é uma Cidade Régia. Nova
distinção, uma vez que no restante da Calábria feudos. Uma situação que se
revela excepcional porque, em todo posterior domínio da Casa de Anjou e da Casa
de Aragão, o feudalismo dominou.
O sul da Itália continental fica em poder da casa de Anjou até 1434, quando
Afonso, rei de Aragão, consegue impor seu domínio a partir de Nápoles. A Casa
Sanseverino, no território moranes desde 1452, com o estabelecimento de um
mosteiro, em 1458, obtém um feudo e estabelece direitos de feudatário. No culo
XVIII, enfim, o ramo espanhol criou o Reino de Nápoles, na Itália meridional.
Constantino escreve sobre a prosperidade da cidade. No século XVI há
destaque para a manufatura de tecidos e o comércio. No culo XIX os laticínios
ainda garantem os famosos queijo caccio-cavallo eos rebanhos ovinos e caprinos
fornecem a matéria-prima para as manufaturas têxteis.
51
Os tecidos de lã agregam prosperidade à Morano em relação às demais
cidades da Calábria. Nos meados do século a autora cita Bixio que fala em 7. 000
habitantes, quando dos 400 demais municípios da região apenas dois possuíam até
10. 000 habitantes. Tudo isso está prestes a acabar.
Giuseppe Lauria introduz no final do culo XIX maquinaria para a cardadura,
fiação e tecelagem de lã. Mesmo assim, paulatinamente, desaparece a indústria
têxtil moranesa, levando ao declínio dos trabalhos das fiandeiras e das atividades
54
exercidas na criação e na pecuária caprina e ovina.
A cidade torna-se decadente, tanto que, no final do século XIX, o viajante
inglês Douglas descreve Moarano como um lugar feio e atrasado, conforme
Constantino. Mas observa que é um município rico porque os moraneses que
emigram enviam dinheiro para suas famílias.
52
A partir de 1878 vão surgir as primeiras notícias de moraneses em Porto
Alegre. Segundo Constantino,
53
eles podem vir diretamente ou, passaram pelos
países do Prata antes de chegar à capital do Rio Grande do Sul. Vão partir
conjugando o verbo ter, imprescindível na lógica do emigrante, como função de
quem chega para sobreviver na cidade estranha, apenas conhecida por relatos. E
irão se manifestar na medida em que ocorrer a decifração bem sucedida dos códigos
e dispositivos da cidade.
Imediatamente trazem a inovação, que é a função do estrangeiro, como tem
sido a do nômade, na sociedade dos sedentários. Ficará para depois, para as
próximas gerações o acesso à escrita literária que fixará esses tempos de sua
fundação na cidade de Porto Alegre.
Ao partir, lançam as raízes para construir uma nova condição de vida. Mal
sabem que vão hifenizar-se para não sucumbirem aos preconceitos e estereótipos
que rondam a construção simbólica em torno da italianidade nas primeiras décadas
do século XX.
Melhor ter a italianidade ítalo-brasileira, como costumam enunciar-se, como
uma referência identitária, mas tripartida, coerente com o fato de que entre esses
estrangeiros, há modos próprios de vivenciar e, portanto, narrar sua visão de mundo.
Combatem, ao seu modo, a unidade do pensamento que quer ver uma comunidade
italiana onde a história continua soldando fossos.
55
Os moraneses que chegam em Porto Alegre encontram outra formação
urbana, produzida de modo que lhes é original.
54
O núcleo urbano da cidade inicia quando um pequeno número de casais
oriundos das Ilhas dos Açores e Madeira alcançam o, então, porto do Dorneles (ou
Porto de Viamão), em 1752.
A singularidade do fenômeno urbano no Rio Grande do Sul começa a se
delinear. De um lado, a criação de gado que origem à sociedade pastoril na
campanha, nas missões e no litoral marítimo-lagunar. De outro, o complexo
imigrante que inicia a economia agrícola com origem portuguesa: trigo, oliveira,
vinha.
Porto Alegre é transformada em capital do continente de São Pedro, em 1773,
substituindo Viamão, o que significa, também, a emergência da função
político-administrativa e militar. Passa de cidade de defesa para cidade Colonial,
dada a importância econômica crescente do porto.
Desse período em diante, a urbanização do continente representa a
integração da Colônia com a matriz, bem como a emergência de novas categorias
sociais, a instalação da nova sociabilidade urbana e dos bitos cosmopolitas. O
cenário discursivo integra o elenco de imagens, utopias, mitos e narrativas sobre a
Polis ideal, portando, polissêmicas comparações. “[...] vêde que céu, que paisagem!
É o céu da Itália, são as paisagens e a vegetação de Provence; estamos em Porto
Alegre!”,
55
exulta o viajante Arsène Isabelle.
Com a vinda dos imigrantes, enriquecida que é com novos modelos de
representações, os mais variados e ricos, as narrativas acompanham a performance
do núcleo original de Porto Alegre nas suas variadas funções. A primordial delas, foi,
como não poderia deixar de ser, econômico-comercial, especialmente de
comercialização de trigo produzido pelos açorianos, os primeiros colonizadores e,
56
posteriormente, a comercialização de produtos das colônias alemãs instaladas a
partir de 1824 e das colônias italianas, a partir de 1875.
O grande movimento do capital no séc. XIX, com a eliminação de milhões de
pessoas do regime de terras europeu, principalmente na Alemanha e na Itália,
coaduna-se com a necessidade de diversificação da base sócio-econômica da
sociedade brasileira. A mudança do regime de trabalho, da mão-de-obra escrava
para o trabalho livre, solicita força de trabalho para o grande empreendimento
cafeicultor no eixo Rio - São Paulo. O caráter complementar da economia regional à
nacional reforça-se.
No sentido da imigração, o Rio Grande do Sul manifesta mais uma vez sua
singularidade, implantando o regime do colonato para a admissão do imigrante,
que se diversificar a base econômica, centrada na pecuária tradicional, que se
abastecer o mercado interno (fazendas de café e núcleos urbanos) com a lavoura
colonial.
56
Para tanto, os imigrantes alemães vão instalar-se na Depressão Central, em
1824, onde está localizada Porto Alegre e, os italianos, desde 1875 na Serra, entre
essa e a região dos Campos de Cima da Serra, onde estão os descendentes de
portugueses dedicados à pecuária.
Com o desenvolvimento do mercado interno, graças à consolidação dos
núcleos coloniais no último quartel do século XIX, Porto Alegre agrega a função
industrial. Entra em franca fase de industrialização a partir de 1890 e ocorre a
propalada passagem para a modernidade, segundo o clássico de Singer.
57
O surto industrial faz parte da onda de industrialização que, pela primeira vez,
varria o país por ocasião do encilhamento. A indústria de Porto Alegre cresce muito
graças à posição geográfica privilegiada da cidade. Cresce através do comércio de
gêneros alimentícios da lavoura colonial e de produtos da indústria nascente que
57
beneficiava as matérias primas do setor agrário, transformadas em vinho, banha,
cerveja e couro.
Analisando a realidade rio-grandense, os estudiosos constatam que, no fin de
siècle, a renovação capitalista partiu do complexo colonial imigrante e não do
complexo da pecuária tradicional. Ou seja, somente depois de esgotar essas
possibilidades de expansão é que ela se lança no mercado nacional, contando, no
entanto, com sólida base regional. É esse fato que acaba capacitando a indústria
porto-alegrense a conquistar a supremacia no Estado.
58
A cidade para onde os italianos se dirigem, pois, é a Porto Alegre que, na
década de 20, apresenta-se como metrópole que o pode mais produzir um
discurso unitário, pois sua periferia (no sentido simbólico) é multiétnica.
2.3 Texto de viagem e viagem do texto
“A penna corre spinta dallo stesso piacere che ti fa correre le strade” é a
epígrafe de Ítalo Calvino, que compara o prazer da escrita ao prazer de correr a
estrada e abre o trabalho de Pino Fasano sobre literatura e viagem. Nele, o autor
detém-se sobre a viagem-literatura, a escrita, o estranhamento, situação de
estrangeiro e no procedimento com que os formalistas russos definem a escrita. A
literatura deveria ser entendida como um ato de espaçamento, onde a palavra russa
é o stranierie, freqüentemente traduzida como “estranhamento”. O que se sabe é a
perspectiva da arte. O estrangeiro, imigrante ou não, por definição - ou sujeição -
sempre adota o perspectivismo.
59
Segundo Sklovskij:
E eis que para dar a sensação da vida, para sentir os objetos, para ter a
58
experiência que a pedra é pedra, existe o que se chama de arte. A
finalidade da arte reside em dar uma sensação do objeto como visão e não
como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento de
singularização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a
forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção.
60
Tal perspectiva, para além da literatura propriamente dita, orienta as
narrativas de fundação de sítios urbanos, de vilas que depois de um tempo
transformam-se em cidades, como ocorreu com Porto Alegre quer por força da sua
economia, posição estratégica ou ambos fatores.
As narrativas de viagem-literatura, na feliz expressão de Fasano, produzem
textos de viagem e viagens do texto. O porto de destino de tais narrativas tem
leitores variados, por vezes, bem localizados e contumazes consumidores desses
relatos, mas também destinos imponderáveis. Podem ser repetidas gerações,
vivificando o mito. Podem ser abandonadas em algum baú ou esquecidas em algum
museu até que o olhar atento de um pesquisador as façam reviver e cumprir seu
destino de fazer circular uma história, um ordenamento em relato, do mundo vivido
pelo narrador. Estrito senso, o narrador não se identifica, necessariamente, com o
autor textual, nem com o autor empírico. O narrador é uma criatura fictícia do autor
textual, que é uma construção do autor empírico.
A adoção do perspectivismo na pesquisa das narrativas exige privilegiar a
percepção sobre o olhar estrangeiro, entre os pontos de encontro e de intersecção,
nem sempre harmoniosos, das fusões de experiências de vida relatadas.
Concretamente, significa buscar a materialidade que sustenta essa variedade
da tradição lingüística nos documentos que tenham referência a Porto Alegre, entre
1920 e 1937. Isto é o próprio processo de urbanização, a experiência de cronistas,
jornalistas, viajantes, seus testemunhos escritos e mesmo a história oral,
demarcando a pluralidade de seus sujeitos e textos.
59
Como de praxe, os primeiros narradores, sempre lembrados, foram os
viajantes do século XIX. Sabe-se que esses foram além do relato-viagem: podem
haver contribuído para a fundação de uma historiografia literária, na “origem” de sua
singularização e brasilidade, como propõe Flora Sussekind. O descritivismo e o
paisagismo dos textos, segundo ela, vão ser incorporados pela literatura, surgindo o
narrador na segunda metade do século, quer como historiador, quer como cronista.
61
O perspectivismo funda a própria literatura nacional, conduz ao olhar distante,
ao deslocamento, à antiga canção alemã para crianças, cujo verso O Brasil não é
longe daqui”, Sussekind se utilizou para intitular uma de suas obras. Lembrando
sempre que a arte supõe esse estranhamento, a sua tese para a origem da literatura
nacional é que tais relatos serviram de referente para esse narrador distante, o que é
mais estranho, estando no Brasil. Isto é, sendo brasileiro (ou o que isso pudesse
representar no século XIX).
Interessa de imediato, para a interpretação do modo de circulação dessas
narrativas, a informação histórica. Quando os viajantes começam a circular nas
costas marítimas, adentrar pelos portos como o de Rio Grande, a visitar os
pequenos e mal construídos núcleos urbanos, a o interior rural, além de
participarem do corpus literário em formação, estão elaborando e gravando imagens,
figurações e impressões desse mundo vivido para o mundo do leitor. Por corpus
literário, entende-se o conjunto de obras e documentos que encerrem certa
literariedade restritiva, ou seja, textos que encerrem uma demonstração narrativa,
textos mais interessados em produzir uma história do que meramente uma
informação.
62
Voltando à Sussekind, o “acreditar-se-á? passa a ser a suspeição da
recepção sobre os relatos, creditados então aos aventureiros, ao olhar maravilhoso e
ao seu desejo de paraíso. o é o caso dos viajantes na categoria em que se
inscreve Saint-Hilaire. Tomado pelo rigor cientificista, sua meta é o mapa, a
60
classificação, a atitude distante, a mesma que leva ao deslocamento do autor para o
narrador neutro, no campo literário. Uma narrativa meticulosa, onde desaparece a
figura do sujeito da narrativa pode ser esperada em tais casos. Mas, a subjetividade
força seu caminhos, quando emite juízos de valor sobre as cenas urbanas, sobre a
civilidade (ou não) dos nativos, seus costumes e sua concepção estética. Não
poderia ser de outra maneira, na medida em que o referente, é o mundo vivido
europeu.
De todo modo, a delimitação da paisagem das regiões percorridas atua na
montagem da representação da nação. Fundada, evidentemente, na Monarquia,
principalmente até os anos 40, funde-se o narrador no viajante, no cronista de
costumes, no historiador.
Agora, saindo do corpus literário, percebendo o perspectivismo na
antropologia de Ilka Boaventura Leite, consegue-se outro ângulo de
entendimentosobre os relatos de viagem. Para ela, existe gênero próprio nesses
relatos. Tais documentos encerram as narrativas de representação do Brasil. O
exotismo é elaborado para o relato, cuja sociedade de recepção é a Europa, assim
como a adequação de novos ritmos e lugares: o viajante traduz a sua idéia de
mundo para um leitor que está no lugar de sua procedência.
63
Fornecer o referencial de identidade, na narrativa, e ser também o estranho,
permitindo ao viajante adentrar e circular na comunidade. Mas a suspensão e um
pertencimento local o deixa à mercê do crédito e do valor dos testemunhos que
obtém. É a suspeição do “acreditar-se-á?” de Sussekind.
Macknow Karen Lisboa vai mais longe: os viajantes, durante todo século XIX,
interessam ao projeto Imperial. As relativas condições de paz no Brasil, sob a
Monarquia, mais o interesse do Imperador em apoiar o esforço científico - inclusive
quanto ao laboratório racial em elaboração (a sociedade mestiça crioula) - estimulam
uma cartografia que se presta aos interesses econômicos, principalmente da
61
Inglaterra, secundariamente, à França e à Alemanha, bem como, ao projeto
imigracional.
64
O importante é que o modo narrativo desses viajantes foi incorporado à
literatura brasileira, além de haver elaborado a imagem do Brasil na atração de
mão-de-obra para a colonização e imigração brasileiras.
Agora, como se pode explicar, que na base de tais narrativas, a viagem em si
possa atuar na personalidade do viajante, transformando a cultura dos tempos? Eric
J. Leed, em La mente del viaggiatore busca sustentar o porquê.
65
Por certo, o que está em jogo, é a importância da narrativa em si, sob
qualquer forma, uma vez sem a narrativa literária ou mesmo as mais próximas
dessa, rompem as relações com o passado, a percepção do ontem ou qualquer
outro modo de apropriação do mundo. Dissipar o sonho não é apenas representá-lo,
é evitar o esquecimento. É não perfazer a vida como era ou como pode ser
recordada, conforme estabelece Benjamin, citado por Buck-Morss.
66
Benjamin temia, nas portas da Segunda Grande Guerra, a perda da
capacidade narrativa, porque o narrador nunca está só, comunica-se com outros
narradores que o antecederam ou que irão sucedê-lo, na memória -legado-
testamento de sua marca ou ferida, dessa cidade ou de tantas outras, embaralhadas
pelo jogo da memória.
Nesse sentido, Bernard Lepetit recorre a Maurice Halbwachs, para quem:
[...] o passado não se conserva e não ressurge idêntico. A cada etapa de
seu desenvolvimento, a sociedade remaneja suas lembranças de forma a
adequá-las às condições do momento de seu funcionamento. Assim, num
processo de reelaboração permanente, de reconstrução perpétua, a
memória exprime as verdades do passado com base nas do presente.
Sendo memória coletiva, é útil ao grupo social que dela se apodere, é parte
de sua própria definição, transforma-se à medida que o grupo evolui.
67
62
Os estudos imigratórios tentam entrelaçar os tempos e o fazem muitas vezes
de modo surpreendente, tal como os moraneses narram sua experiência imigratória
a seguir.
2.4 Moraneses e a narrativa da partida
Ariel Dorfman associa imigração à língua do imigrante. É o caso de
estabelecer o problema do estranhamento a partir das dificuldades que o imigrante
encontra ao desfazer-se de sua língua, que traduz seu modo vida e adota a língua
do país de recepção. Como uma vestimenta, em certo momento, há de se perguntar:
com qual língua eu devo apresentar-me?
As línguas não se expandem somente por meio de conquistas, também
crescem oferecendo um porto seguro àqueles que as procuram em perigo,
àqueles que estão caindo de um lugar muito menos seguro que o útero de
uma mãe, àqueles que, como meus próprios pais, foram obrigados a fugir
da terra natal.
68
Depois das cartas que atraem os moraneses para a emigração, escritas na
língua materna, o movimento que segue é o da expectativa em torno da partida, o
pleno exercício da imaginação.
O que fica para trás é a decisão de partir, tomada na língua natal. Agora
temos o navio, cujo nome é sempre lembrado, último elo da terra que se extingue no
horizonte, como a lembrar aos estrangeiros que irão desembarcar em porto
estranho.
A possibilidade de relatos dessa estrutura em movimento circula na polifonia
lingüística dos imigrantes embarcados.
Na chegada ao destino (?) a narrativa de hoje para o fundo do passado pode
63
representar a perda gradativa da língua materna. O mundo que se abre exige o
abandono da língua dos ancestrais se quizerem sobreviver. Outra possibilidade, ao
invés de revezamento normal de uma língua por outra, é assumir uma jornada
bilíngüe na língua das ruas da cidade de recepção. Como costumamos categorizar,
a “língua do comércio”.
Reinventar-se em uma outra língua é o trânsito da língua. Os pais contam aos
filhos, na língua natal, que contam aos netos em outra língua, tantas vezes é feita e
refeita essa travessia, que a narrativa, quando devolvida ao meio comunicativo, é
devolvida como experiência. Os matizes entre o vivido e “o ouvir dizer” ficam
definitivamente soldados na memória afetiva.
O que configuram as certezas de Angelina, imigrante moranes com seu forte
acento calabrês: “o Brasil? Sempre gostei do Brasil!”. Sempre? Como decifrar a
temporalidade da expressão, senão a partir de uma identidade narrativa. Ao narrar,
Angelina conforma sua identidade efetuando o tempo (da narrativa), com sua vida e
ação efetiva, amálgama completa. Ao não se dizer brasileira, diz-se sempre
apreciadora do país que a recebeu.
Como fazer a narrativa em língua estrangeira, se o seu “mundo da vida”,
composto por variados signos, emblemas, gestos, angústias, desejos e impulsos
cabe no código lingüístico da língua materna? O que está no presente do
pesquisador o as fontes históricas, no reservatório da memória coletiva dos
descendentes, testemunhas indiretas da tradução e da transcriação entre a língua
portuguesa e as demais.
Em razão desse fato lingüístico, a narrativa do imigrante, por ele mesmo, não
pode ser entendida sem a noção de que o pertencimento seja, necessariamente,
fator de homogeneização. Ao contrário, os eventos circunstanciais, ou a “alteração
cronotópica”, podem contribuir em favor da construção de uma heterogeneidade
substantiva à noção de narrativa étnica, dentre eles, a presença do multilingüismo.
64
As narrativas demonstram o princípio do conflito, da diversidade social como
intrínseco à socialização. Deixando nítida a impossibilidade de apreensão da
imagem da mesma experiência para todos, na representação urbana. Dificilmente,
os grupos e os indivíduos do mesmo grupo partilham do mesmo fundo de
significação na cidade.
O ato de narrar-se, tendo como referente a cidade de Porto Alegre, permitiu
ao estrangeiro compreender-se como parte, ainda que fragmento e ansiedade de um
todo histórico do meio social feito de superação, ou não, dos obstáculos. O conflito
faz parte da superação de obstáculos.
Vale lembrar que, na moderna abordagem histórica, a tradição lingüística dos
imigrantes interage com outro meio de linguagem, mas que não redunda no
desaparecimento de uma, em função da outra. A tradução é vista, não como a
anulação da diferença, mas, como um meio de acesso à circulação lingüística, como
reveladora da diferença aí implícita das alteridades.
Conforme Simmel, o conflito é uma faceta da socialização e, pode explicitar
as bases societárias, com as quais o estrangeiro conseguiu a elaboração de um
ponto fixo identitário. Essa localização elucida o trabalho de separação do
estrangeiro entre tradições, culturas, continentes e outras temporalidades. Esse
drama narra o tempo da elaboração da ruptura.
69
O drama da ruptura é que significado ao modo de acessar vivências na
nova cidade, com a carga de experiência de outra materialidade (às vezes sequer
urbana, mas rural mesmo), bem como significado ao modo pelo qual simbolizou
suas instituições, organizou suas marcas do passado de tantas outras cidades
abandonadas, imaginadas, escritas.
Estrangeiro é exatamente o inverso daquele sujeito que se auto define como
pertencente a uma rede de relações de sentido que lhe senso de identidade, de
fazer parte de um todo. O estrangeiro é figura solitária, o que se adjetiva quer
65
dizer-se de algo ou algum lugar. É uma perspectiva identitária que está em jogo.
2.5 O pertencimento moranes ou appartenenza sociale do moranes
O pertencimento étnico, importante categoria explicativa de estudos de
migração, pode ser matizado pela clivagem dos significados existenciais elaborados
segundo princípios de estratificação social.
A complexidade dessa noção, quando aplicada à historiografia urbana da
imigração em Porto Alegre, transcende a fabulação das sociabilidades étnicas ou do
discurso das elites.
70
Esclarecendo: Weber erigiu a profecia da modernidade, a concepção de que o
processo civilizatório teria se completado e a urbanidade moderna seria o grande
testemunho do processo. Nesta ordem social, lamenta, não haveria lugar no mundo
para expressões sociais da ação coletiva que não, as pautadas pelos critérios ditos
“racionais”.
71
A comunidade étnica e o pertencimento, como sentidos subjetivos, afetivos às
lógicas nem tanto racionais, não cabem na sociedade da rotinização do carisma.
Mas, vale lembrar, que, o mesmo Max Weber, percebe que a etnia faz parte
mais classicamente, porque as pessoas se agrupam em função de valores étnicos e
a estratificação é função de poder em relação ao mercado. Assim, o sentido e a
determinação da ação social de base étnica deve ser aproximada, nesta formulação,
aos tipos de fenômenos interligados puramente econômicos ou não, relevantes e
condicionados economicamente. Não teria escrito A ética protestante e o espírito do
capitalismo se pensasse de outra maneira.
72
Para complementar a força da atração com a qual os imigrantes combinam
66
pertencimento local ao étnico, na identidade narrativa, os sociólogos Renzo Gubert e
Giovanna Gadotti , na esteira de Durkhein e Pareto, esclarecem a relação, quando
afirmam que:
[...] uma estável cena física constitui a “memória comumdos
habitantes
.
Os elementos do espaço físico, espécie de constructo do homem.
Constituem um insubstituível ponto de referência mnemônico para reter a
história e os ideais do grupo [...]. E a appartenenza, enquanto dispõe à
solidariedade, constrói a comunidade, a participação, a interiorização dos
valores e metas. É pressuposto da vida social, é pressuposto não apenas
da manutenção do tecido social, mas também de qualquer ação coletiva de
mudança.
73
Colocar em perspectiva o mundo vivido, a dinâmica e o contexto histórico das
ações e situações que possibilitem a identificação do próprio sujeito que narra, exige
um esforço reflexivo para, na busca das narrativas do estrangeiro, encontrar uma
gama de sentimentos que vão desde o anseio até a rejeição da nova identidade de
pertencimento a uma história local. De qualquer maneira, pelo prisma religioso, pode
ser morrer para a vida terrena, nascer para a vida espiritual e assim por diante. Partir
é ato de separação, dor, atenuada conforme a finalidade, a distância, o tempo ou
mesmo o prazer.
Fala-se da dor ao se romper os laços da appartenenza sociale, ou dos
significados do pertencimento sócio-territorial ao lugar. No caso, da cidade natal dos
entrevistados, Morano-Calabro, na Itália, rica história de fundação e sobre suas
formas de sociabilidade. Para a Calábria, existe uma bibliografia consistente sobre a
persistência dos traços camponeses sobre a cultura da região, que explicam, em
grande medida, os laços dessa appartenenza.
74
Pertencentes a determinados extratos sociais, os moraneses empreenderam
a viagem que pontifica sua emigração para distintas regiões da América. Aqui, em
conformidade com a proposição adotada para o desenvolvimento da tese,
trataremos dos imigrantes chegados ao Brasil no início do século XX, mais
precisamente, os que vieram para Porto Alegre entre 1920 e 1937, da produção de
67
suas narrativas e da configuração de sua identidade.
A narrativa da história oral dos moraneses entrevistados traz outra geografia
pode-se dizer, subjetivada socialmente. Não mais aquela da onda emigratória,
impessoal, nem por isso, menos dramática.
As pessoas concederam seu tempo para contar sua história, no breve
contato, não mais que uma entrevista e vários cafezinhos em cada sessão, como
Antonio que até ofertou uma fotografia de seu “Parlamento”, brincadeira de
aposentados que se freqüentam no centro de Porto Alegre. Trata-se de um ponto
fixo, de encontro semanal onde os mais antigos moraneses discutem de tudo
referente à Itália, “menos política”.
Fala-se de estrangeiros e de sua subjetivação social. As ondas emigratórias
guardam senões e diferenças. Os entrevistados preferem falar do presente. Mas
aqui, o foco é a partida e se suspendem suas histórias neste ponto. Será necessário
aguardar os próximos capítulos.
O pertencimento como princípio gerativo do teatro da vida urbana, nesse
início da história, pode tratar da perda da cidade de Morano, da fragmentação
familiar, da tentativa de reconstrução de laços sociais partilhados com tantos outros.
Os descendentes estão sempre por perto, assim como os genros, amigos e
vizinhos, todos ajudando na memória dos mais idosos, ajeitando a narrativa na
ordem dos fatos, narrando sua experiência de descendentes, a que passa pelo filtro
da voz do outro. São vigilantes atenciosos. Coisa de moranes.
Sobre os entrevistados, é momento de dizer que o pai de Dalva resolveu
partir. Assim como os pais de Angelina e os avós de Carmine. Antônio veio pelo ato
de chamada de parentes.
O pai de Dalva partiu para ser livre, era o empreendedor, o avô de Carmine foi
68
dar no Prata e depois veio ao Brasil. Era camponês. Os pais de Angelina vieram
pelo Ato de Chamada do tio. Antonio era sapateiro em Morano. Filomena era criança
de 10 anos, quando partiu.
O ade Carmine foi dos primeiros a partir, mas levou tempo para reunir a
família. Carmine mesmo chegou com 19 anos.
No período de guerra, Dalva viveu com sua mãe na Itália. Aos 21 anos,
quando a guerra acabou, após dez anos sem ver o pai, apenas alimentada pelas
cartas, exceto no período de guerra, veio para o Brasil ao encontro do pai. Este,
inicialmente, emigrara para Costa Rica e depois para o Brasil.
A aventura da partida acentua a capacidade de liberdade condicionada e
condicionante, passo a passo, dia a dia nessas trajetórias coletivas ou individuais.
Desdobra-se o enredo no ritmo do corte entre a diacronia e a sincronia, tece-se o
drama e a comédia dessas vidas.
Partir projeta a identidade étnica. Ser italiano é pertencimento que vem
depois, no Brasil. Em parte, em função das agruras da unificação italiana,
percebe-se, na anônima identificação “italiano”, que isso é novidade para quem se
diz moranes.
Mas ao se dizer assim, cola-se no conceito mais amplo, “meridionais”. E é
remetido, desde então, à variação cultural italiana, às fragilidades históricas do
federalismo Italiano, a sua relação periférica frente ao norte industrializado. Posições
cristalizadas de auto-representação e aqui reproduzidas na duplicação de
sociedades italianas.
O trabalho das gerações capacita para a leitura da ação social. O lento
trânsito da designação de estrangeiro, dizendo que ele não é daqui, não tem origem,
nem raízes, fará com que tarde a ser aceito no quadro de referência cultural. Caso
logre conquistar uma situação socialmente privilegiada, tenderá a se identificar como
69
pertencente à refinada cultura latina.
Partir demonstra, de certa maneira, uma narrativa moranesa que é o tempo
todo defensiva. Acentua, ao mesmo tempo em que lamenta, os valores perecíveis
(os deixados , os de seus ancestrais) no processo de homogeneização das
sociedades humanas, as relações gesellschaft (o percebido na sua descendência,
“mas na Itália está igual”) impondo-se sobre a destruição da gemeinschaft
conforme a dicotomia clássica de Tönnies.
75
Pode-se falar em narrativa de moraneses porque pertencimento ou
appartenenza sociale. Dizer-se, incluir-se na história dos demais, como porta-voz de
uma experiência vivida em comum, partilhada, é fruto do sentimento e da
consciência subjetiva de fazer parte de um grupo e ser reconhecido por ele (assim
como o seu inverso, a exclusão social).
Partir é abrir mão deste mundo construído da apreensão dos
condicionamentos, da orientação seletiva da rede de relações sociais e da
percepção do ambiente e da atenção às mensagens culturais. É desfazer a fina
trama dos distintos níveis de agregação, grupo familiar cindido, perder a integração
na comunidade local, a relação geográfica, a relação ecológica que define a
percepção e a representação dos elementos físicos da paisagem.
Morrer para esta vida é separar-se do âmbito espacial da vida em comum de
Morano, onde foram representados, geograficamente, a riqueza e a variedade de
símbolos de identificação cultural da sociedade italiana. Objetividade e subjetividade
estabelecem a relação afetiva com o território e pode ser visto como “fato social” em
bom sentido durkheiano. O critério crucial da appartenenza sociale será o que
abandonar, o que constituir na nova vida. O que foi deixado para trás é simbolizado
desde a posição atual. É uma avaliação que se faz a partir da situação do presente,
sempre. Se o pertencimento pode ser transferido para a nova cidade, é o que se
verá.
70
A gramática social não erra: os “meus e os outros” inscritos nas falas estão a
traduzir para o historiador a base étnica das relações de integração e conflito, dentro
e fora da comunidade. Residem em Porto Alegre, aproximadamente, 15 mil
moraneses, o triplo da atual população de Morano. E isso sempre dito com muito
orgulho. Os “meus” são “iguais”, denota a pertença étnica se perpetuando como
extensão da solidariedade por semelhança ou, como componente de classe no
sentido deMarx.
76
Os “meus” podem ser operários, trabalhadores, doutores,
continuam sendo os “meus”. Quanto mais longe da cidade-referência, mais atua a
gramática social.
Sob o ângulo das representações coletivas, os moraneses formaram,
historicamente, diferentes interpretações das formas de se processar a construção
dos seus vínculos sociais de solidariedade que estenderam para onde foram.
Alguns, se perderam, o até “esquecidos” pelos narradores. Alguns, se perderam
porque partiram, outros, exatamente porque ficaram e não obedeceram às regras do
grupo.
As afinidades e/ou diferenças, explicam o porquê dos bairros étnicos, quando
não, de toda uma cidade. Deram origem a celebração do local para os seus,
ritualizada na “ida à Morano”. E tecem a trama narrativa.
2.6 De lá, para cá, as cartas
O moranes era atraído pela imagem de Porto Alegre construída nas cartas e
relatos dos viajantes. Como diz, Fernando Pessoa, noutra passagem, “se mover-se
é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que não o seja porque se
descreveu bem”.
77
Mas entre a partida e a chegada, o texto-narração dos entrevistados sobre o
trânsito Itália-Brasil é econômico, lacônico. A ausência do quadro trágico com que,
71
sabemos, eram transportados seus avós, não justifica. Estamos diante de tempos
mais civilizados em relação à imigração espontânea do século XIX. A possibilidade
da economia da narrativa está noutro lugar. Vamos buscar. A pista começa com Eric
J. Leed, quando diz tratar-se do movimento e de sua capacidade de gerar
narratividade.
78
A hipótese é que uma história de viagem, no exato momento de transitar,
entre um partir e um chegar, é de tal importância para a transformação mental do
viajante que interrompe a narrativa. Por quê?
Os viajantes aqui considerados são os moraneses, que, como vimos até
agora, constituem uma verdadeira singularidade, também na narrativa da viagem
heróica, aventureira ou quase iniciática dentro do universo das narrativas de viagem
e de migração.
Mas um ponto zero nesta narrativa, aquele dos empreendedores, dos que
iniciaram a cadeia migratória, são os avós, pais, tios, sempre do sexo masculino, de
preferência solteiros, vinte e poucos anos. Não são os artistas, os intelectuais, os
políticos ou os religiosos que vem para a América. São os aventureiros que “vem
fazer a América”.
Raramente, escrevem diários ou relatos de viagem, a dita literatura de
viagem, constituindo a fundação de uma historiografia literária como propõe
Sussekind, como comentamos na seção Texto de viagem e viagem do texto.
Mas escrevem cartas. O trânsito das cartas implica afirmar que este fora o
mais forte elo de comunicação e de atração entre os de e os de lá. Mais sedutor
que toda a política de propaganda oficial dos países receptores de imigrantes, como
o Brasil em relação à Itália. Não tivemos acesso às cartas, apenas inquirimos sobre
seu conteúdo quando das entrevistas. Mas foi possível ter uma noção do teor, porém
o que nos interessava era a função que as cartas desempenhavam entre os
72
imigrantes.
Há uma narrativa, um autor, um leitor.
Mas não é tão simples assim.
Entre os empreendedores, como foi verbalizado, nem todos escrevem, não
tem acesso à linguagem escrita. As cartas, muitas vezes, são redigidas por outros.
Isto é, são traduzidas e recriadas.
79
As cartas trocadas entre os migrantes podem ser tomadas desde sua
estrutura narrativa, sofrendo o trabalho do historiador, como realizou Natalie Zenmon
Davis, quando inspirada por Stone, trabalhou com as cartas de remissão de crime do
século XVI.
80
As cartas dos que iniciam a cadeia imigratória descrevem a cidade de Porto
Alegre o acometida pelo pavor da guerra, mas receptiva. A cidade apresenta uma
estrutura ou mosaico sócio-espacial acelerada demográfica e culturalmente por
outras vozes de imigrantes que chegam incessantemente, desde meados do século
XIX.
Essa cidade, será, em seguida, ainda mais redesenhada pelo poder blico,
ao dar início às grandes intervenções urbanas, a partir do período Loureiro da Silva,
que modifica o traçado característico das cidades coloniais ibero-americanas.
A distância entre Porto Alegre e Morano é problema acentuado pela
necessidade de decifração do código lingüístico, para alguns. As cartas que vão
para a Itália, na maioria dos casos, necessitam de escritores de boa vontade.
Quando chegam, do outro lado do Oceano, surgem os leitores. Momento público, de
uma escrita que já foi secreta, entre o narrador e o escrevente de cartas.
E falam de trabalho, além da saudade. Do problema da comunicação na
73
cidade das trocas que ignora a língua materna, a que é de casa, a que se fala
quando se está triste, indignado ou amando. Sequer, pode ser entendida pelos
outros como ele, também estrangeiro. Porto Alegre foi mais polifônica que hoje.
Nesta polifonia, nesta Babilônia, há que se lembrar de outras vozes, os grupos
originários, como os lusitanos, os nem tão recentemente imigrados, os italianos da
zona Colonial e seus dialetos que alguns consideram como uma língua são
indecifráveis para os próprios lombardos, friulianos, vênetos que permaneceram na
Itália. Lembramos do poema A aurora do goivo, de Rafael Alberti: “minha língua
natal, de que/me serve em terra estranha?”
81
Mas o estranhamento diante da cidade-metrópole aos olhos destes
moraneses o será o arrasador como o dos lombardos, os vênetos, enfim, os
ainda presos na condição econômica agrária da zona colonial, fustigados (e
fascinados) pela imagem negativa da urbena fala do clero conservador. Não, esses
imigrantes, quase ou mesmo analfabetos, que estão a chamar parentes para o
Brasil, trazem a experiência citadina dada a peculiaridade da urbe italiana, ou,
passaram por Buenos Aires, Montevidéu, até Costa Rica, segundo os relatos. Vão
aderir à modernidade como pedreiros, marmoristas, arquitetos, construtores, etc., na
cidade cada vez mais europeizada.
Vão partir, mas não em massa, como os primeiros imigrantes do século XIX,
que contribuíram para o adensamento humano na cidade despreparada para tal.
Ainda assim, o século XX não prevê aos que imigram nenhum planejamento social
por parte do poder público. A sobrevivência nos tempos difíceis, vai exigir
cooperação e solidariedade entre os seus e, também, da rede comunitária.
Ainda não vão partir de avião, mas a viagem não será aquela dos primeiros
relatos do Bispo Scalabrini verdadeiro “transporte de carne humana”. Diante da cena
dos emigrantes sentados, amontoados, na Estação em Milão, no auge da grande
emigração, aguardando o trem que os levaria até o Mediterrâneo, com destino às
Américas, reflete sobre o ânimo e expectativas dos que partem:
74
Com lágrimas nos olhos, tinham-se despedido do torrão natal, que os ligava
a si por numerosas lembranças. Mas, sem remorso abandonam a pátria,
que apenas lhes era conhecida sob duas formas odiosas: o recrutamento e
as cobranças dos impostos. Pois, para o deserdado, a pátria é a terra que
lhe garante o pão; e lá, bem longe esperavam conseguí-lo, menos
parcimonioso e menos custoso.
82
Ao partir sabem que alguns vão ocupar a periferia da cidade ou os locais de
concentração de imigrantes, deteriorados e anti-higiênicos. Em muitos casos, serão
os párias da imigração. A cidade europeizada descrita nas cartas está no centro, em
usufruto das elitesimigrantes, onde o faltarão traços de distinção social,
estabelecidos pelas formas e usos do espaço urbano. Os palacetes estão a exibir a
afirmação cultural, projetando o futuro possível. Assim parece aos que estão
chegando.
Os moraneses estão investidos da vontade do trabalho. Partem para
sintonizar com o processo dinâmico da cidade de recepção. Vão necessitar queimar
etapas para tornar realidade pessoal a fabulação do “fazer a América”.
Alguns, os que chamam os parentes, estão, já, dando ênfase ao consumo.
Estão diferenciando-se na paisagem urbana com suas igrejas, sociedades artísticas,
associativas, de lazer, etc.
Estão dando início à exploração dos domínios, dos gostos e preferências
estéticas diferenciadas. A cidade promete, aos que vão chegar, a ascensão
econômica do grupo. A acumulação de capitais na cidade-metrópole, conforme
estatísticas da época ou comentários de jornais, principalmente os do Correio do
Povo, apresentam Porto Alegre como uma cidade progressista, resultado do
desenvolvimento da zona colonial.
Os que já estão em Porto Alegre servem de modelo de sucesso, acenam com
um horizonte de trabalho para os que vão partir. Desapegam-se de seus identitários
e, não importa o que são em Morano, aqui a metamorfose do trabalho se fará
75
automaticamente. Entre risos, os entrevistados relatam “era sapateiro, aqui,
verdureiro”, ou pedreiro e assim por diante.
Todos os dias, todas as horas, desde a partida, entram no movimento, na
viagem urbana, traçando de ponta a ponta a cidade das trocas. Abrem mão de um
destino previsível na Itália, dada a fixidez da estrutura econômica, social e política,
pela autonomia pessoal e social.
Desde que entram no navio, o rumor das línguas os põe nas “zonas de
contato”. Explicamos: para Mary Louise Pratt “[tal termo] trata as relações entre
colonizadores e colonizados, ou viajantes e visitantes, não em termos de separação
ou segregação. Mas em termos da presença comum, freqüentemente dentro de
relações radicalmente assimétricas de poder“.
83
De estrangeiro para italiano moranes, as zonas de contato são imediatamente
postas pelo “outro”, que quer ver neste os traços e atributos da distinção do que os
faz socialmente diferentes.
Ingressar em outro sistema de categorização identitária é jogar com certa
maleabilidade. Se a posição de estrangeiro define o estranhamento, ser italiano
moranes é o novo distintivo. Antes de partir bastava ser moranes. Mas sabem que
ao aportar no Brasil, isso não dirá absolutamente nada no imaginário brasileiro. A
metamorfose identitária já começa no navio, na viagem.
Com a fabulação, os quilômetros que estão sendo deixados para trás estão
sendo convertidos em registro oral da cidade natal, agora ideal porque é onde se é
feliz.
Precisa engatar a fabulação na nova existência social, estrangeiro para si
mesmo, percebe que deve converter sua estrangeiridade em distinção. E que nem
necessita ser verdadeiro. Para Bordieu “[...] a força social da representação não é
necessariamente proporcional ao seu valor de verdade”. Não importa que Morano
76
não seja tão maravilhosa, se assim lhes parece. Eles detém um tesouro, e basta.
84
Na bagagem, talvez sem estar muito claro à consciência, vão trazer os
suportes para a reconstrução de suas práticas sociais de viver e morrer. Entre o
antigo e o novo corpo, a dialética da nova organização social do tempo e do espaço.
O giro com as cartas denota que elas corporificam os seres amados,
distantes, é pretexto para a visitação, a freqüentação, o laço social quase terapêutico
(senão o for mesmo) que manterão enquanto puderem. Farão do teatro da vida
urbana a narração mais nítida do que foram e querem ser, entre condicionado e
condicionante.
Para os outros estrangeiros, como os historiadores, vai ficando mais nítida a
estrutura simbólica da experiência mediante a qual se dizem “Primeiro moranes,
depois italiano”. E brasileiro, perguntamos. Agradecem ao Brasil, mas ... É o próprio
grupo a organizar sua representação, seu pertencimento.
A partida inicia um trajeto mental, simbólico que não acompanha,
necessariamente, a trajetória social, econômica. A autonomia da partida se
esvanece sempre e quando encontra um seu idêntico, quando pode fundir-se na
comunidade. É possível transitar entre papéis numa sociedade mais complexa e, é
este fascínio, que o faz definir-se pela partida. Pensa poder interagir com o
semelhante que o recebe, e o diferente, que o estimula a progredir.
O uso estratégico da identidade, sempre vale lembrar, está nas tensões no
campo simbólico que levam hoje ao reforço do discurso da etnia (européia) para
indicar a ascensão social e a posição de sucesso numa sociedade de classe.
Conforme a situação, o discurso da homogeneidade e da heterogeneidade é
utilizado, pragmaticamente. Ao que se sabe, o discurso da homogeneidade mantém
subjacente as rupturas e predações de grupos étnicos.
Trata-se da elaboração do imaginário social onde as diferenças sociais
77
intragrupos são diluídas através da afirmação étnica. No cotidiano, um rito de
separação intraclasse, que nas festas se re-homogeiniza. Existe um mascaramento
ideológico, no qual, o imigrante e sua descendência, são apresentados como ”bem
sucedidos” e a marginalização não conta. A identidade étnica dos moraneses, tal
como, sugere sua narrativa, é erigida como o referente “positivo”, um discurso de
superfície que oculta o discurso subjacente, o da identidade por extrato
sócio-econômico.
2.7 MINIMA MORALIA: reflexões sobre a vida danificada
Minima Moralia é o título do texto em que Theodor Adorno disserta sobre uma
vida danificada. A narrativa da partida de imigrantes é uma vida danificada que
busca superação e realização das condições interpostas pela existencia social. Mas
que narrativa produz uma vida danificada?
85
Se tudo é narrativa, o narrativa, seguindo-se o rigor do princípio de
definição aristotélico. Se tudo é tudo, nada é nada. Desde o título da tese, o objeto
histórico parece diluir-se, sim, mas ... narrativa e narradores ... Quem? O Quê? Para
quê e para quem ? E, Por quê? Eis toda uma analítica existencial, sugerida para o
campo da história.
Quem narra? Quem tem o poder para tal? O quê narra? A própria constituição
de si, segundo as categorias de tempo e espaço. Para que narra? Antes de mais
nada, para si mesmo, para se constituir. Para quem? Para a comunidade de
referência, de destino, de origem.
Se toda obra destinada ao campo da história defronta-se com uma analítica
existencial, quanto mais essa, montada sob perspectiva de quem narra desde o
espaço social da cidade, na posição de um outsider, forasteiro, estrangeiro, recém
78
imigrante.
O estrangeiro contém a fluidez necessária para o trânsito difícil. Mais que a
figura do pária social, por seu não pertencimento, o perspectivismo dessa posição é
mais estratégico, mais que substantivo: permite manter o inusitado em foco,
retirando-se as camadas da assimilação, da percepção domesticada, e, por que o
dizer, embotada.
A narrativa, desde o olhar que se surpreende, surpreendendo ao leitor,
fazendo-o mplice, mais que convidá-lo a tirar os sapatos, desafogar o colarinho e
usufruír da leitura, convida-o a fazer parte do campo da descoberta.
Em geral, o moranes não aprecia ser categorizado, juntamente com os
demais italianos que emigram em massa, no século anterior.
As histórias, a seguir, estão retidas na recusa à situação que implica na
renúncia do objeto do trabalho em si mesmo. O preço, talvez, tenha sido a partida de
Morano, como foi para tantos.
Os estudos imigratórios sobre a Itália dão conta da estratégia de
sobrevivência tradicional, onde se alternavam períodos sedentários com períodos
sazonais de acréscimo de renda pela prática de trabalhos esporádicos por homens e
mulheres. Chama a atenção na sua narrativa, a sensação que passa ao leitor como
se fosse de uma onda varrendo o território italiano, deslocando região a região, até
descaracterizar o equilíbrio dessa sociedade. Senão, vejamos fragmentos sobre as
características da emigração de 1830-60.
Os primeiros a se mover (fazem-no tantos anos, mas agora em maior
número) são os trabalhadores que vivem encostados às fronteiras, ao longo
dos ásperos vales Como, Bergamo, Belluno, Udine. Movem-se os
piemonteses, os bergamaschi, os bellunesi, os friuliani homens e mulheres,
incansáveis andarilhos.
86
79
Estes o trabalhadores sazonais, que se empregam na França, Suíça, no
“vasto império austríaco”, na agricultura, construção de estradas, pontes,
ferrovias...Em seguida, as zonas alpinas são tomadas pela emigração: partem do
Vêneto, da Lombardia. ”Há também a emigração política: depois de cada
insurreição, gente refugiada”. Como Mazzini em 1831, partem os lígures: “vão
para os Estados Unidos, mas se estabelecem, sobretudo, ao longo do Prata[...]”.
87
não são camponeses, são pescadores, artesãos, comerciantes, são
aventureiros, como Garibaldi em 1846. ”Partem os toscanos: os marmoristas de
Carrara, os figurinai(fabricantes ou vendedores de estatuetas (grifo nosso) de Lucca,
os anarquistas de Livorno e de Monte Amianta”.
88
Para ele a passagem da emigração tradicional para a emigração nova se
em 1860.
Coincide com o nascimento da Itália; marca a passagem de uma emigração
tradicional a uma emigração nova. Envolve pela primeira vez, de uma
maneira mais consistente, não mais burgueses empreendedores, mas
camponeses. Desta vez, não por uma estação, mas para sempre. São os
pequenos proprietários os primeiros a partir. São arrendatários e portanto,
não os mais pobres, mas aqueles que possuem alguma coisa e não podem
mais levar a vida adiante, impossibilitados de continuar arrendando terras.
89
Ao mesmo tempo a unificação da Itália quebrou os mercados regionais e criou
um mercado único, aberto à concorrência internacional.
Preferível partir. É o que fazem, entre tantos, os clãs de Angelina, Antonio,
Dalva e Carmine, nossos entrevistados. Partem em épocas distintas, mas todos têm
seus familiares residindo em Porto Alegre entre 1920 e 1937. Angelina é a única
testemunha que conta sobre esses anos diretamente. Os demais, narram sobre um
material filtrado pelo relato de seus pais, irmãos, tios. Mas a experiência desses
estrangeiros é igualmente única.
80
Trabalho da memória social, mais uma possível teoria da experiência que
evoluciona o conhecimento sobre a migração pode ser cogitada. Rina Benmayor e
Andor Skotnes afirmam como o testemunho pessoal ”permite entender como as
matrizes em movimento das forças sociais impactam e moldam os indivíduos, e
como os indivíduos, por sua vez, respondem, agem e produzem mudanças na arena
social mais ampla“.
90
Partir: para Angelina Sanzi Ferraro
91
e seu clã, inicia antes, pelas cartas do
irmão que se encontrava em Porto Alegre desde 1910.
Estamos todos na confortável residência da matriarca Angelina, no bairro
Glória, que concentra muitos moraneses. Sua filha, Conceição Ferraro Maranghello,
e seu genro, Delmar Caetano Maranghello, participam da entrevista.
Ao falarem, seus textos vão organizando, no ato, os fragmentos, o apenas
da memória, mas da experiência da emigração de moraneses no Brasil, em Porto
Alegre. Articulam a narrativa de se pensarem como seres humanos, procuram um
modo de preservar sua identidade.
Entre o herói da tragédia grega que produz a si próprio, o emigrado ou se
adapta e renuncia ao trabalho em si mesmo (alienação em Marx), ou vive a
determinação imposta como necessidade e então, trabalha em seu destino. O leitor
concluirá.
Angelina se apresenta:
“Hoje, estou com 87 anos. Nasci em 19 de setembro de 1915”. Conceição, a
filha, também se apresenta: ”tenho 63 anos, quase 64. Sou descendente”. Seu
marido, também descendente, se diz:
Delmar Caetano Maranghello, nasci em 31 de janeiro de 1928. Meu pai
Salvador Maranghello, nasceu em 8 de janeiro de 1923, A mãe, brasileira,
Maria Maranghello. O meu pai veio aqui em 23. Não falava nada, em
81
brasileiro. Falava italiano, não contava nada. Eu vim aprender o calabres
aqui, nessa roda viva. Hoje entendo mais ou menos.
Lacônico, como lhe condicionaram a tratar as coisas da Itália, uma narrativa
quase perdida.
Ambos, nascidos no Brasil, no entanto intervém na narrativa de Angelina,
como o “ponto” no teatro, ajudando-a na narrativa. Desconfiamos que consideram
incompleto, o que ela poderia dizer sem a sombra da família. Afinal, eles são os
outros dessa narrativa e Angelina está a contar a história de todos.
Tecnicamente, traduzem as perguntas feitas à Angelina, quando esta carrega
no sotaque ou expressões do linguajar calabrês ou quando as perguntas interpõem,
por nosso cacoete acadêmico, a incomunicabilidade.
Depois de se apresentar como pessoa, apresenta o espaço que a define até
hoje, Morano- Calabro: “Minha cidade natal, está em cima”. em cima é a foto
panorâmica de Morano- Calabro, no Monte Polino. “Mas posso dizer como é que é:
muito boa, muito pitoresca, muito ... como é que eu vou dizer ...“.
Toda residência ou local de trabalho de moranes costuma ostentar, no local
de honra, fotos panorâmicas de Morano- Calabro, no Monte Polino. No mapa de
Morano se a rua Porto Alegre. O termo pitoresco é freqüentemente utilizado.
Morano deve sua forma de ocupação ao processo histórico da região, aliada ao
acidente geográfico do Monte Polino, que sujeita a ocupação urbana numa espécie
de carretel, sua edificação em pedra remonta ao período pré-moderno, com a área
rural colada à urbana. O pitoresco pode ser em relação à cidade colonial
brasileira, como nos primórdios de Porto Alegre.
Mas nós viemos para cá, não estava mal, para comer, beber, nós
estávamos muito bem. Tínhamos uma chácara, nós
trabalhávamos
,
comíamos, não faltava nada. Ao contrário, nós fazíamos e tínhamos azeite
para o ano inteiro. Viemos aqui para melhorar de vida, para melhorar.
Graças ao bom Deus que nós melhoramos de vida aqui. Nos contaram
muito bem. De lá, eu quando eu estava lá na minha terra, ah, eu vou para o
82
Brasil, bah, como eu gosto do Brasil.
Na continuidade, Angelina conta sua vinda de navio, sua chegada em Porto
Alegre quando seu irmão a presenteia com um importante símbolo de elegância
feminina, reservado à elite italiana, um chapéu.
Este, é o irmão desbravador de seu grupo familiar. Seduzida pelas cartas, diz
Angelina:
Veio com 24 anos, solteiro, ele que mandou recolher toda família, que ele
achou muito bom aqui. E disse: “vocês vêm para que é uma maravilha”.
Ele dizia para o meu pai, “você vai durar 10 anos a mais”. Porque meu pai
trabalhava na chácara. E aqui não, não trabalhou em chácara. Por que nós
não viemos para emigrar, mas por chamada. Não é como aqueles Italianos
antigos que vieram migrar, e que foram para fora.
Foi o que Angelina e sua família fizeram. As notícias iam se avolumando,
formando o imaginário que fez com que o pai de Angelina decidisse partir. O
desbravador do grupo, o irmão, chama os demais, pelo Ato de Chamada ou de
Lavoro. Para ela, o marcante “gostar do Brasil” pode ter muitos significados, não
como saber.
Não sei porque! Me deu na cabeça de dizer como gostava do Brasil.
Quando cheguei aqui: Bah, parece que cheguei no paraíso [notícias do
Brasil, quem as fornecia?] Não falava com ninguém. Só dizia que eu saia da
minha terra. Eu tinha, esse que está sentado aqui “[refere-se à outra foto,
esta de família, quando alinha a linhagem entre genealogia e ordem de
partida da Itália]. Primeiro veio meu irmão mais velho, depois veio o meu pai
e depois veio o outro meu irmão. E depois vieram eu, minha mãe, meu
irmão, Viemos em quatro na genealogia: eu sou a filha do meio das
mulheres. Primeiro o Luís, depois a Carmela, depois o Salvador, depois eu,
e depois minha irmã pequena.
outra viagem, que é de turismo, na direção de Morano, que uma vez na
vida, deve ser feita - como ir à Meca. Todos os entrevistados foram. Alguns pensam
em retornar, partir novamente. Não é o caso dos entrevistados, mas de seus netos.
83
Delmar lamenta o esquecimento, optando por se refugiar:
[...] isso que vocês estão fazendo agora [a tese e outros trabalhos
históricos], deveria ser feito em 1960. Por que ia pegar todo esse pessoal
antigo, que morreu. Na década de 60, 50, esse pessoal que veio 10, 20,
estaria com 50 anos. Eu estou pensando no pessoal antigo. O padre, aqui
na igreja, ele fez tudo, toda vida do pai dele, do avô dele, ele fez tudo, como
eles saíram de lá, como chegaram aqui, como saíram de Genova. Aqui está
toda família. Mas não é moranes. Mas teve o capricho de fazer isso.
Aproveita para comentar que as condições dos primeiros imigrantes que se
dirigiram para a serra eram difíceis: ”Mato virgem, esses passaram trabalho”.
Já, para Antonio Bianchimano,
92
a narrativa é outra. Estamos agora no local
de comércio, na sua “Casa para todos”, negócio de ferragem e utensílios, na rua
Venâncio Aires, sob ruídos de tráfego intenso. A cidade Baixa em Porto Alegre foi
um bairro de concentração de moraneses e, em certa medida, ainda o é.
Ele tem urgência em falar. Enfim, encontramos um lugar sossegado.
Entra na conversa Filomena Aita, seu marido, Domenico Aita, que apenas
assiste. Antonio remete-se ao recôndito de sua existência e por isso, fala em italiano,
aqui traduzido. Quando se deu conta, passou a falar em português. A impressão, é
que Antonio, ao evocar o tempo da narração de partida, conseguiu fazê-lo, em
italiano, como uma forma de registro mais autêntico e legítimo do que iria narrar.
Meu nome é Antonio Bianchimano nascido em Morano, Itália, em 1924.
Tenho 78 anos. Quando parti, eu era jovem. Da Guerra, participei só no fim.
Depois que terminou a guerra, eu comecei a tentar vir para a América.
Cheguei em 1 de julho de 1949,
pelo
meu tio que me mandou chamar pelo
Ato de Lavoro. Eu cheguei como pedreiro! Até no meu município me
recusei, sou sapateiro! Porém fala daqui, fala de lá, trabalhei um ano como
sota mestre. Aprendi a falar um pouco. Depois compramos uma poteva,
[pequeno estabelecimento] na Rua Santo Antônio, na Independência e após
passados 8 anos mandei chamar minha mulher.
Partir, para Filomena Aita, foi animado, iria rever seu pai, aos 10 anos de
84
idade, em 1946. Segundo Antonio, Filomena, hoje, aos 66 anos, é ”quase da
família”, vizinha e ex-proprietária do “Casa para todos”, negócio levado por Antonio
até sua aposentadoria. Ela é casada com Domenico Aita, “o primeiro imigrante de
Morano a chegar em Porto Alegre depois da guerra”, salienta Antonio. Domenico
não está podendo articular e em silêncio, assente. Domenico, antes de se casar e se
fixar em Porto Alegre, havia passado pelo Prata.
Antonio ri, Domenico escuta e assente. Continua a narrativa de Filomena, sob
o olhar dos 10 anos:
[...] o meu pai que imigrou antes, ele me deixou com 8 meses e eu
cheguei
com 10 anos, a história da guerra, então nos ficamos em Morano
e ele estava no Brasil, ficamos na Itália. Era eu e minha mãe. depois
nasce um menino aqui.
Antonio resolve lembrar do embarque: “quandos vínhamos para cá, era em
Nápoles que se embarcava, direto para Porto Alegre” (Santos, pressume-se).
Já Domenico, diz Filomena: “ele terminou a guerra, daí o irmão mandou
buscar, ficou pouco tempo. Depois. , ele veio com a mãe, o pai e a irmã, não ficou
ninguém lá, veio a família toda”.
Antonio é preciso: “Eu fui então [para a Itália] depois de 1975, estava meu
irmão lá”. Filomena medita; “Por que vieram todos para cá, qual é o mistério?”
Antonio: “O mistério é as guerras. Quantos moraneses! A cidade se triplicou aqui. É
que, quem tinha parente, cada um mandou buscar. Um chamou o outro”. Filomena
não se conforma, insiste:
Sim. mas quem foram os primeiros? Porque que vieram? É, isso é um
mistério. agora está muito melhor que aqui, mas eu amo o Brasil. Me
convidaram prá ficar lá, mas eu me criei
aqui
. Tenho um casal de filhos,
tenho dois netos. Eu não sou naturalizada, Eu me sinto brasileira [risos]. Eu
amo a Itália ... Ele é naturalizado [apontando para o marido] Mas por quê,
alguma mulher se sente mais italiana que brasileira? Não é complicado. Eu
tenho a impressão que alguns se sentem mais ligados à Itália. É que para
morar na Itália, agora, depois de tantos anos não te acostuma mais, a gente
fica um pouco mas o teu pensamento está aqui. Porque as raízes estão
85
aqui. Passear, ir e vir mas pra voltar, não. Eu nunca quis me naturalizar.
se eu for obrigada. [pelos negócios] não atrapalhou. Quando houve aquele
problema na Argentina, no Uruguai, [taxação alfandegária] eu digo, uma vez
que tu vai, não pra pagar. Vai uma vez vai duas. Por quê que eu vou
me naturalizar brasileira, por quê não dá para pagar?
A perda da língua, da memória e da narrativa deve-se ao período posterior à
1937, quando a língua e o ensino, bem como a circulação de livros em idioma
estrangeiro ficou proibida. Quando pedimos relatos, desfilam ilações e uma grande
ausência de significados da distância traumática. Filomena não cessa de se indagar:
O que será que passavam. A gente na Itália, como nós ficamos na época da
Guerra, meu pai ficou aqui, e minha mãe ficou ...[Comunicação?] Não,
nenhuma, a gente não morreu de fome porque
estavam
os avós. E me
lembro que meu pai mandou dinheiro pela Cruz Vermelha e depois não sei
quantos anos, meu pai mandou dinheiro, não veio, me lembro que era um
dinheiro miúdo, e veio um saco. Mas valia, isso é que importa. Agora que
tem o telefone, o padre fala que ninguém se escreve mais. A gente passou
necessidade na época que o pai estava aqui, passou fome, mas graças a
Deus é passado. Alguns até esqueceram dessas memórias, mas o medo foi
tão grande. Então os filhos gostariam de falar mas os pais não gostavam de
falar. Mas antes era uma cidade moderna, boa prá se viver. Na época da
guerra quem tinha os familiares aqui, a gente passou fome lá, na Itália,
porque não tinha nada pra comer. Eu me lembro quando era guria de dizer
para a minha mãe: ” - eu vou brincar prá não te pedir pão”.
Antonio conclui: “Ma siamo contento perche adesso siamo bastante moranes
e sempre se encontramo. Quando morre uma pessoa na nossa comunidade, é no
cemitério, na igreja e tamo bem até agora”. Essa é uma característica dos
moraneses, estar filosoficamente de bem com a vida, o que é comentado inclusive
por italianos de outros grupos.
93
Como para Filomena, partir, para Dalva Di Martino Cassarä,
94
teve o mesmo
sentido de reaver os elos com seu pai, separados que estavam desde antes da
guerra. Este encontro é apenas a sua voz, sem a sombra familiar. Apenas Dalva, na
sua sala da rua Demétrio Ribeiro, Dalva, minha ex-professora de italiano na ACIRS.
Sua narrativa, como a próxima, a de Carmine, é uma visão bastante pessoal
86
da sua trajetória de vida. A referência familiar e do grupo de moraneses ocorre
enquanto coadjuvantes de uma vida partilhada, mas o que sobressai é a reflexão
crítica de si e do grupo, sem a mediação no ato de narrar, dos demais.
Nasci dia 16 de outubro de 1939. Me criei na Itália, em Morano Calabro,
uma cidade pitoresca. Nós estávamos falando de Morano, que idade era
isso? Da lembrança que eu tenho de Morano, sei que não era muito grande
no início. Em relação à evolução havida após a guerra, não somente em
Morano, senão na
Itália
inteira, era um caos. Não tinha emprego, não tinha
nada mais. Mas, afetivamente, era uma cidade pequena, era uma
maravilha. Mas eu larguei Morano no sentido que deixei Morano com muitas
outras pessoas mesmo. Não ficaram parentes, porque papai estava aqui
[em Porto Alegre]. [Fala do pai] Dentro daquele espírito aventureiro, não
ligado à terra, mas as coisas da cidade do comércio ... Ele tinha esse
espírito democrático. Então via aquela coisa de feudalismo e ele não
suportava aquilo. Não quis se meter em política. Mas ele tinha idéias
democráticas. Ele achava que, na época dele, quando era criança, a mãe
dele dizia: “- vai cumprimentar” e ele não queria, “ele era igual a mim”.
Desde criança esta coisa assim. [a família] Morava na cidade. Eu não
conheci nem meu nono, quando eu nasci tinha falecido há tempo. Ele dizia:
“- não tiro o chapéu para ninguém. Eu tiro chapéu para as pessoas amigas,
as pessoas que eu aprecio que são mais do que eu. Que são democráticas.
Não acho que tem que tirar chapéu por ser fulano de tal”. Ele não suportava
e na época ele saiu de lá. Aí ele rompeu com isso e veio fazer a América. É
isso aí, meu pai tinha essas idéias, muito inteligente. Era um filósofo. Mas
eu conheci quase o pai aqui. Me deixou pequena foi uma pessoa assim que
viveu para lá, e para cá, sozinho. Uma carta de oito em oito dias vinha, para
o sustento da família. Foi uma pessoa muito legal. Não posso dizer ao certo
o ano em que chegou, porque o pai atravessou o Atlântico seis ou oito
vezes. A última etapa de viagem dele foi no Brasil, quando se radicou aqui
na Colombo, no comércio, com armazém, por volta de 35. Condições assim
[para buscar a família] ele tinha, mas depois veio àquela guerra, ficamos
trancados. Ficamos cinco anos recebendo notícias, mas depois ficamos
cinco anos sem receber uma carta. por nós, coitadinho, ele estava aflito
em mandar notícias por meio da Cruz Vermelha. A família era a mãe, eu, e
a outra irmã que estava casada que agora também está aqui. [As cartas]
Ele [dizia] das preocupações que ele tinha, como a gente estava, se estava
tudo bem, que ele também dava notícias dele, explicava com andavam os
negócios. E também desde que veio teve um amor sempre pelo Brasil, tanto
que todos me chamam Dalva, porque tinha uma menina muito querida
sobrinha, filha de uma irmã dele que se chamava Dalva, então ele deu além
de carinho pela filha da minha irmã que ela gostava, tinha que ter meu
nome em homenagem ao Brasil, uma coisa assim. [Partir] “Uma coisa assim
que eu tive que deixar o colégio, os colegas, eu tinha quatorze anos, em
cinqüenta e três. Em Morano, Castrovillari também. A gente pegava a
ferrovia, se chamava jamalitrina, se pegava de manhã e voltava-se à tarde.
Às vezes tinha aula às seis da tarde e assim uma vida maravilhosa que
apesar como você disse, tive que deixar. O pai, quando chegou a hora
assim diz: - vai comprar as passagens, eu quero que a família venha
porque eu não vou voltar”. E a mãe ficou meia, sabe como eu digo, mais
uela vidinha que ela tinha nas mãos. “- o que eu vou encontrar? “Mas aqui
[em Porto Alegre] ela tinha duas irmãs, também dois irmãos e eles
escreveram para a mãe: “- não te preocupes, está tudo bem e teu marido
87
tem casa, está tudo tranqüilo”. A casa era no centro; tinha duas casas, uma
quase em frente ao Capitólio, que agora tem o Edifício Dalva. Eu nasci na
Itália e me criei na Demétrio, que tinha naquela quadra entre a Bento
Martins e a Cipriano, um pedaço de rua assim maravilhoso. Tinha muitos e
muitos jovens, então eu tinha chegado. A “italianinha” nessa rua, todo
mundo me procurando, aquela coisa. Então eu comecei a sentir aquele
calor humano que até hoje é assim e eu não tenho nada a dizer contra ter
deixado a Itália. Foi graças aquela gente que me deu um carinho
maravilhoso e ai de quem falar dos gaúchos, que eu sou enraizada nessa
terra maravilhosa. naquela quadra nós de italianos. O pai se dava com
as pessoas e com isso vinha uma vizinha, vinha outra e depois me
convidavam pra ir ao cinema. [A educação] A educação continuou italiana.
A mãe escrevia cartas para Porto Alegre, Rio Grande do Sul e finalmente eu
conheci Porto Alegre. Foi uma imagem muito bonita, era um dia de sol
maravilhoso. Então o que acontece, eu saí de lá com pesar, mas eu tive um
povo que me acolheu. Pessoas maravilhosas que deram ... levantaram meu
astral. Não é que me deixaram esquecer, que isso é uma coisa que não se
esquece. Mãe, pátria e primeiro amor, são coisas que não se esquecem
nunca. Leva sempre no coração”.
Para finalizar este corpus de entrevistas sobre a partida, a narrativa de
Carmine Motta,
95
em seu estabelecimento, a alfaiataria Vestire, na Venâncio Aires,
também na Cidade Baixa. Seu pai aqui estava, aproximadamente, como Angelina e
Salvador, no comércio, com armazém, atividade comum aos moraneses e italianos
em geral. Como Filomena, a guerra o separara da família.
Sua narrativa desdobra-se fluente, sem sombras familiares. Prazerosa e
articulada. Enfim, está acostumado a representar o grupo moranes.
Na primeira fala, corrige minha pronúncia. “Carmine Motta, acentinho em cima
do “a”, a pronúncia certo, não tem o acento, não é? Eu sou italiano nato, eu nasci na
Itália, em Morano Calabro, na Província de Cosenza, na Calábria, no sul da Itália, na
ponta da bota”.
Logo, decide que a sua história começa na história do avô. Como narrador
experiente, sabe que uma história de migração tem sempre um totem fundador, um
ancestral que dá origem ao resto.
Eu vim para cá, em 1961, mas a minha família, família de meu pai, já estava
em Porto Alegre. [Porto Alegre] Bem, naquela época era uma cidade grande
e ali [Morano] era um lugar pequeno, trabalhando na terra, o pessoal
88
vivia da agricultura, enquanto que aqui se podia desenvolver, viver, era o
comércio, vindima. Meu avô vendia fruta ... Então fez duas filhas, mais dois
filhos, um homem e uma mulher e voltou prá cá. E ficou até antes da
guerra. Quando da guerra, ele voltou como patriota para fazer a Primeira
Guerra Mundial em 1915, e ele fez a guerra, nesse meio tempo teve
um outro filho e aí já eram cinco filhos. Aí ele voltou, depois da guerra, disse
que não podia viver porque tinha filho, três filhas mulher, prá casar as
filhas tinha que voltar para Porto Alegre porque aqui ele arrumava algum
dinheiro, ele voltava prá casar as filhas. E ele não voltou mais. E
nesse meio tempo as filhas cresceram, não é, as filhas cresceram,
arrumaram namorado, casavam-se jovens naquela época, não é. Então a
minha mãe, a minha outra tia casou e o filho homem tinha uns vinte e
poucos anos e, em 1935 chamou o filho, o genro, e vieram prá cá. E era prá
vir o resto da família, mas a mulher ficou lá, a esposa dele. Então, em trinta
e cinco, meu tio, os dois genros , mas as mulheres ficaram sempre lá. Era
prá vir prá cá a minha mãe, não o meu pai, depois com certeza viria o resto
da família. Mas estourou a Segunda Guerra Mundial e ficaram presos lá,
não puderam vir prá cá, a minha avó, a minha outra tia, e o outro filho que já
era jovem, que tinha nascido depois da Primeira Guerra Mundial. Nesse
meio tempo estourou a guerra, meu pai teve mais quatro ou cinco anos de
guerra. Terminando a guerra, logo depois em 46, vieram prá cá, a minha
avó, a minha. Bom, em 46 vieram a minha avó para cá, veio a minha tia, o
marido dela já estava aqui de antes da guerra, o outro tio tinha vindo
solteiro, casou aqui. E em quaren ... cinqüenta e um, nós éramos dois filhos
eu e mais o meu irmão. O meu irmão, terminada a guerra em cinqüenta e
um ele veio prá cá. Por quê? Pelo medo, a minha mãe tinha medo que
estourasse mais uma guerra! Porque ela tinha tido na primeira guerra
mundial, o pai, na Segunda Guerra Mundial, o marido e diz, "daqui a um
pouco vou ter os filhos na guerra". Então em cinqüenta e um vem o meu
irmão para cá, mas já estava os parentes aqui. E eu, praticamente fui
educado para vir para a América, para vir para o Brasil. Por quê? Porque
nós tínhamos ficado sozinhos lá, nós tínhamos ficado sozinhos lá na Itália e
todo o resto da família estava aqui. Aos pouquinhos, desde o início do
século vieram prá cá, não é. Então tinha ficado a minha mãe, meu pai e
eu. E eu praticamente fui educado prá vir prá cá. Sempre: "Tu vai prá
América, tu vai para o Brasil". Porque o meu irmão estava aqui. Mas era
uma opção minha. Claro que cresci, comecei a estudar lá, eu tinha que
escolher, fazer uma escolha, não é? Eu morava em um lugar pequeno. Ou
vinha para o Brasil ou emigrava para outro lugar, na própria Itália, que a
Itália já estava começando a se organizar em sessenta. Mas eu optei prá cá
porque estava o resto da família estava aqui, os dois irmãos, vamos
morar juntos, vamos ficar juntos e aí em 1961 eu vim prá cá. Com dezenove
anos, completei dezenove anos aqui. Vai fazer quarenta anos, agora, dia
vinte que eu estou aqui em Porto Alegre. E, é claro que foi uma aventura vir
sozinho ... Depois de dois anos eu vim com aquele idéia de ver se eu
gostava ou não gostava. Porque se eu não gostava, teria ido embora. Mas
vim acabei gostando, fiquei, estou aqui. As notícias, a imagem que eu
tinha? Porto Alegre, lá onde eu nasci, lá em Morano Calabro é praticamente
de casa. É claro que eu não tinha uma noção da cidade. Eu não imaginava
uma cidade tão grande, imaginava uma cidade menor. Mas também não
uma cidade pequena, por que? Porto Alegre, desde o inicio do século,
diversas famílias vieram para e sempre teve uma ligação entre os
porto-alegrenses e os moraneses. E, quando depois veio o pessoal se
estabeleceram aqui, e depois de alguns anos voltaram para lá, sempre
tínhamos algumas informações da cidade, dos costumes. Eram formas de
vida, como a gente vivia aqui e que a gente imaginava que esta cidade -
89
pelo menos eu - que esta cidade era próxima, mais próxima com os
costumes italianos. E na realidade é. Dessas informações que eu recebia lá,
quando os outros voltavam. Mesmo eu que era adolescente, essas coisas,
sempre vinha uma pessoa amiga e minha mãe dizia: “- vamos a visitar a
fulano de tal que veio da América. ”Então a gente ia a visitar prá ver, levar
umas noticias dos parentes, dos amigos. E então desde pequeno eu
escutava: “- um mora aqui, um cara tem isso, o outro tem aquilo. ”Então
havia uma idéia , claro, pálida, da cidade. [Que seria como viver na Itália?]
Eu imaginava isso, eu imaginei, mas na realidade quando cheguei aqui vi
que não era isto, vi que não era bem assim. Ao contrário, eu encontrei uma
cidade completamente diferente de como se vivia na Itália. Quando eu vim
prá cá, meu irmão tinha um negócio na Vigário José Ignácio, na parte de
cima. E nós morávamos lá”.
Como foi depois, Carmine falará mais adiante, assim como da viagem.
Apenas lembra que “é como uma árvore que se tira de um lugar e vai plantar em
outro, eletem que se adaptar entre tantas coisas”.
Bom, o português eu aprendi, eu fiz um curso. Eu tenho o curso ginasial. Lá
[na Itália], naquela época era ginásio. E eu fui fazer um curso com um
conhecido, particular. Me ensinou alguma coisa, Eu aprendi no dia a dia,
mas me deu a base da gramática. Mas na realidade foi no dia a dia. Me
lembro que havia um senhor gerente de banco, do Banco de Crédito Real e
ele passava todos dias por mim e dizia prá mim: “- italianinho, tu tens que
aprender duas palavras por dia”. E todos os dias me dava duas palavras
novas para no outro dia, eu ... te lembrando? O trabalho, pela minha
profissão. Já vim com essa profissão, foi lá, já vim pronto para trabalhar. Fiz
um curso de corte, em Turin, tinha profissão na minha terra, tinha
mestres lá. Ah, e esse senhor, o gerente, me dava duas palavras por dia.
Então nós, depois de algum tempo, depois de alguns meses, já estávamos
falando razoavelmente o português”.
Carmine inventaria as perdas havidas em função das guerras, o
estranhamento dos próprios italianos e seus descendentes, diante da cultura italiana.
Trata-se da narrativa interrompida, que o liga o tempo mítico ao histórico e ao do
calendário. Os pais, ao partir, são os deserdados da Itália. E têm em seus filhos o
espelho da ruptura para as gerações, do laço identitário. No Brasil, não são filhos
para o Estado-Novo. Enfim, é o início da hifenização necessária, criar um terceiro
que ligue as pontas.
[No Estado Novo] O meu avô, aqui em Porto Alegre não era tão sentido
porque aqui a maioria viviam entre eles, não eram ligados à política, não
eram pessoas da alta. Mas de vez em quando havia casos assim na época
90
da guerra aquele pessoal não podia falar. Meu avô foi preso uma vez
porque encontrou um patrício que perguntou pela família. Não era Quinta
Coluna, não era nada, perguntava noticias da família. Passou um
delegado de policia e prendeu ele e meu avô, não levou um dia para
soltarem
. Outros amigos, mesmo brasileiros, que entendiam que aquilo
era uma bobagem e pediam para que soltassem os pobres dos italianos que
estavam presos. Mas teve outros casos que eram mais complicados, não?
O pessoal se ocultava claro. Eu tenho notícias, por exemplo, de pessoas
que eram daqui e viviam aqui pessoas de uma certa idade hoje, que
contavam que naquela época os pais italianos proibiam os filhos de falar
italiano para não ter discriminação. Aquela geração que anos cinqüenta e
sessenta e antes um pouco, toda essa geração não fala italiano e fala
dialeto. Hoje nós sentimos isso com os dirigentes. Tem alguns dirigentes
novos nas entidades italianas eles não se sentem italianos, sendo numa
sociedade italiana, eles sempre tendem a colocar o marco brasileiro por
quê? Porque eles perderam a relação com a cultura italiana. Ultimamente a
Itália está fazendo tudo para resgatar isso, mas são fatos históricos o que
aconteceu com a história da etnia. E foi uma pena porque o Estado do Rio
Grande do Sul poderia ser um estado trilingüe, tranqüilamente não é?
Porque assim como tem o castelhano, poderia ter o italiano, o alemão. Nós
poderíamos falar fluentemente o alemão, o italiano. Um povo culto
[empobrecimento da cultura da cidade]. Claro, quando eu cheguei, eu não
peguei este período, quando cheguei já terminada esta época, tinha uma
nova mentalidade, uma nova forma política dos outros. O único problema
que eu peguei foi, quer dizer, não foi nem para mim que não tinha
consciência naquela época tinha dezenove anos. Foi quando da Revolução
da Legalidade que a minha mãe estava preocupada, porque havia notícias
pelo rádio que havia estourado uma revolução. E ela diz: “- mandei meus
filhos para sair da guerra da Itália eventualmente uma outra guerra e agora
logo vai estourar uma revolução”. E ela sabia que nós morávamos ali,
perto, próximo ao campo ali do palácio Piratini que era onde podia estourar
alguma coisa. Tivemos, claro, naquela época, todos nós depois da
revolução, todos nós, a gente se mantinha neutro. Não entrávamos na
política. Ficamos fora. Naquela época de ditadura irritou tantos talentos e
talvez que podiam se dedicar e talvez porque o pessoal estava com medo
então não se dedicou [literatura] Normalmente isso é um fato de que o
imigrante normalmente vinha com pouco conhecimento literário. Então não
passava ao filho, ao descendente, esse lado; que dizer, é uma opinião
minha, mas eu creio que seja isso. Ele não conseguia passar ao filho para
manter uma tradição familiar, mas quando chegava, quer dizer, ele nunca ia
obrigar, dizer para um filho ler um texto em italiano. Porque ele não
conhecia também. Ele era um sujeito que normalmente vinha da campanha,
vinha com pouca instrução, o nível cultural. Tinha uma cultura popular vindo
da mente deles, então. Passava valores, mas não cultura literária. Por
exemplo era difícil porque ele não a conhecia. Eu, esses tempos dei à
minha filha quando estava no primeiro grau fazendo um curso em italiano,
eu dei um texto para ela o Promessi sposi, do Alessandro Manzoni. Mas
que eu já tinha lido o romance de Alessandro Manzoni, então eu pude dizer
para ela: “- esse texto é bom, vai te interessar”. ”- Agora outra pessoa que
nunca viu falar, que nem sabia quem era Alessandro Manzoni, então não
podia transmitir, por isso. É o fato que aconteceu. É uma maturação, é
verdade, dentro da imigração normalmente o filho quer ocultar, o neto quer
desvendar. E nessa guerra, entre as guerras, esse é o problema. O pessoal
que vinha não tinha conhecimento cultural, então era difícil de transmitir isso
para os filhos [...] Vocês nunca quiseram se informar? O pai não se
informou porque não sabia, era um agricultor, ele não sabia, mas tu, depois
91
na tua intelectualidade, nunca foi tentar mudar, ou tentar pesquisar para ver
também o outro lado? Isso o meu pai não sabia, porque ele nunca tinha
estudado para me transmitir, mas eu vou fazer uma pesquisa, vou me
informar, vou pegar uma literatura, sei lá. Mas então, não são culpados
os pais, vocês também são culpados, nunca se interessaram é isso que
aconteceu nessa faixa sabe, essa faixa de vinte, trinta anos”.
Na sala, uma foto ampliada de Morano- Calabro que existe em todas as
casas de Moraneses, com vista para a cidade. Como sabemos, a população de
Morano é menor que a residente em Porto Alegre, entre oriundi e descendentes.
A narrativa da partida também se faz sob o signo da esperança, como
veremos a seguir.
O que fica em destaque nas narrativas dos entrevistados e ligado à
historiografia da migração, é que a cadeia migratória familiar que conseguiram tecer
em Porto Alegre, interrompeu-se, de fato, apenas nos período das grandes guerras.
Outro comentário a fazer, baseado na historiografia e nos relatos orais, é que
antes da unificação italiana, os calabreses que partiam eram em sua maioria sem
qualificação, mas no início do século XX ocorre um principio de estratificação
social. No período do fascismo a emigração em massa de italianos é interrompida.
Mas ainda assim emigram. Desta feita, confunde-se as motivações anteriores e os
motivos político-ideológicos quando partem também profissionais liberais
descontentes ou perseguidos pela ditadura instalada na Itália. Esses,
preferencialmente, procuram as cidades, a rede estabelecida é menos familiar que a
emigração aqui relatada pelos moraneses, que é uma emigração urbana por
excelência, onde quer que se tenham instalado.
Partem, emigram, mas refazem a rede de convivência no novo meio urbano e
a rede de comunicação com a Itália meridional sempre que possível, ao contrário do
que historicamente ocorreu com outros grupos de italianos de outras regiões, que
estão hoje despertando para a busca das origens de seu ancestrais. É como se
estivessem para realizar o que os moraneses, em parte, sempre buscaram:
92
valorizar, a re-ligação com os tempos míticos, através da narrativa. A cidade conflui
e contribui como fundo de experiência coletiva para tal.
3 TRANSITAR NOS CAMINHOS DENTRO DE SI: HÁ UM DESTINO?
[560] 1921
Qualquer caminho leva a toda parte,
Qualquer caminho
Em qualquer ponto seu em dois se parte
E um leva aonde indica a strada
Outro é sozinho.
Um leva ao fim da mera strada, pára
Onde acabou.
Outro é abstrata margem
.................................................................
No inútil desfilar de sensações
Chamado a vida,
No cambalear coerente de visões
Do [...]
Ah! Os caminhos stão todos em mim.
Qualquer distância ou direção, ou fim
Pertence-me, sou eu. O resto é a parte
De mim que chamo o mundo exterior.
Mas o caminho deus eis se biparte
Em o que eu sou e o alheio a mim.
[...] Fernando Pessoa
96
TRANSITAR: passar ou andar ao longo, entre ou através de; percorrer; mudar
de lugar, situação ou condição, trânsito.
97
A diferença entre as narrativas de Angelina, Dalva, Filomena e Carmine, da
travessia no navio desde o porto italiano até o Brasil, relatadas a seguir e o viajante
sem direção de Fernando Pessoa, é esclarecedora, embora não se abra um abismo.
Antonio, curiosamente, não disse uma palavra sobre a viagem que o trouxe ao
Brasil, os demais partiram decididos. De toda maneira não é mais uma viagem nos
termos dos relatos da migração em massa do século XIX.
98
Destino ou não, vir para América nem sempre significava chegar em Porto
Alegre. Muitos embarcam sem saber ao certo para onde ir. As histórias de imigração
94
estão repletas desse caráter de incertezas e ausência de predestinação. Apenas os
moraneses, a partir do momento que alicerçam sua cadeia migratória, colocam um
destino nas expectativas de emigrar.
Como o eu poético de Pessoa que contém seu próprio caminho, portanto, seu
pertencimento, os imigrantes vão transitar entre mundos distintos. O “mundo italiano”
o qual ficou para trás e lhes diz o que são e o “mundo da América” que irão enfrentar
e precisará ser traduzido, decifrado, isso tudo irá requerer a comunicação entre o
conhecido e o desconhecido, na cidade de Porto Alegre.
3.1 A suspensão da narrativa
Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de
estação
para estação, no comboio do corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as
ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre
diferentes, com afinal, as paisagens são. Se imagino, vejo. Que mais faço
eu se viajo? a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha
que deslocar para sentir.Qualquer estrada, esta mesma estrada de
Entepfuhl, te levará ao fim do mundo’. Mas o fim do mundo, desde que o
mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se
partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito
do mundo. É em nós que as paisagens têm passagem. Por isso, se as
imagino, as crio; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em
Madri, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu
senão em mim mesmo, e no tipo de gênero das minhas sensações? A vida
é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o
que vemos, senão o que somos.
99
Mas todos os nossos protagonistas, ao contrário da literatura de ficção ou da
literatura de expedição científica, são vacilantes quanto à experiência direta da
viagem, do trânsito. Paradoxalmente, o movimento, o deslocamento gera uma
narrativa que omite a história. Interrompe ou empobrece a narração que se
desdobra, até então, tão vívida.
Para Leed é evidente que, quem quer narrar o movimento, enfrenta
95
dificuldades. E indaga:
Que coisa existe no trânsito que dissipa as suas motivações extrínsecas e
gera fins próprios; que tranqüiliza, satisfaz e extingue a condição da
narração e fornece um prazer pelo qual os viajantes habituais despendem a
riqueza e a vida como outros fazem por uma amante dileta?
100
No caso dos imigrantes, o seu senso e sua percepção, bem como os efeitos
da experiência da travessia, produzem um texto exíguo. Por quê frustam a narração
e talvez a linguagem?
As rotinas da vida no navio são inenarráveis, porque são da ordem do
ordinário. Mas por quê o, supostamente, sem dificuldades não pode ser descrito?
Após o drama da partida, abate-se o silêncio e os dias se sucedem. É o maravilhoso
que Angelina não detalha, ou a babel lingüística de Carmine. Os temas da partida
são ricos em detalhes sobre a ruptura da appartenenza e os relatos de chegada são
os mais fabulados de geração para geração. Como um mito, sua narração articula
temporalidade, comunicação, relações entre as gerações, envolve o outro. Transitar,
no que concerne à possibilidade da narratividade, esbarra, agora, com uma quase
impossibilidade. Seriam irrelevantes, as percepções geradas durante o trânsito entre
tempos vividos e espaços percorridos?
Deixemos o sofrimento da partida, aliás, nem toda partida é sofrida.
Imaginemos que a natureza da transformação da mente do imigrante está para
acontecer onde menos se imagina: no movimento. Mas a narrativa desta
transformação empobrece. As tintas da emoção escorrem e se apagam, Na rotina da
viagem, o supostamente normal, ordinário, fácil e prazeroso provoca silêncio.
Não foi sofrimento para Angelina, alguns eventos romperam a rotina. “Ah
gostei muito, o passeio de navio, de vir de navio, bah. [De primeira classe?] De
terceira. Tanto de primeira quanto de terceira estar em cima do mar é igual, mas
tudo bem”.
96
Segundo James Gibson, citado por Leed, “Devemos então perceber para
movermo-nos, mas devemos também movermo-nos para perceber.”
101
Angelina
precisa a duração da viagem, mas congela estas lembranças de modo maravilhoso,
na sua narrativa, nos seus vinte anos: “Durou ... saí de lá, 30 de abril, cheguei aqui,
16 de maio, o durou muito, era um navio novo, naquela época, navio Augusto que
se chamava. Uma viagem maravilhosa, que quando desci do navio fiquei com pena
de terminar de viajar”.
Forçamos a narrativa, pois os entrevistados não comentam muito,
perguntamos o que mais eles poderiam contar sobre a viagem. Conceição (filha de
Angelina) tenta ajudar: “- Mamãe, não te lembras de nenhum fato que aconteceu
dentro do navio?” Angelina não se por entendida: “Não aconteceu nada.
Conceição torna a perguntar: “Não te lembras de nada de bom que aconteceu no
navio?”.
Insistimos, pedimos que comente sobre a língua falada na viagem,
perguntamos se havia apenas italianos à bordo.
Era tudo misturado [o convívio] maravilhoso, estou dizendo que foi
maravilhoso. A viagem, quando terminou a viagem que eu dizia: “as que
pena
terminar
”. Tinha um que passou mal, com mal do mar, que queria me
matar. Eu, para mim foi maravilhoso, bah, ia para cá, ia para lá, subia,
descia, maravilhoso. [Foi um passeio o tempo todo?] Maravilhoso. [É, aos
20 anos, tudo é novidade.] Até namorado encontrei em cima do navio. Tinha
um rapaz que era... até hoje não sei, era italiano, ele ia para a Argentina. E
queria me namorar: ‘Mas não vai dar certo, tu vais para a Argentina, e eu,
para Porto Alegre, como é que nós vamos namorar?’ Até depois teve o
gosto de tirar uma fotografia, e depois me mandou [risos]. [Houve
reencontro?] Não, nunca. Foi namoro de navio. É, namoro de navio.
[risos] Namoro de navio, engraçado. [Escondido do pai?] Naquela época,
Deus o livre, até hoje, agora que eu estou falando. Até hoje tem que ser
segredo.
Carmine já estabelece o trânsito lingüístico desde a viagem.
Bom, a língua, quando eu vim para eu não conhecia nada, nem
uma
palavra de português. Eu vim com um navio chamado Júlio César, era um
bom navio, um navio abbandanza confortável. Não era um navio como
vieram os primeiros imigrantes, tinha piscina a bordo, era bem confortável.
97
Então, dentro do navio me lembro que tinha um padre espanhol que vinha
para cá. Era um botânico. Era um jesuíta. E ele queria falar comigo, eu
gostava de falar espanhol com este padre durante todo percurso que nós
tivemos. E ele de vez em quando chamava um padre brasileiro, que era
carioca, por sinal, para falar comigo em português: “Não, tu tens que
aprender em português, e não o espanhol”. Mas o espanhol me soava mais
fácil, mais prático para eu aprender a falar. E eu conhecia alguma coisa de
espanhol, também gostava de falar com o padre. Mas quando veio aquele
padre brasileiro, que começou a falar em português, ainda carioca, e
chiando, eu não entendia bulhufas. [risos] Não, depois quando chegarmos
ao Brasil, nós vamos ver como vai ser o negócio. Passaram uns dez ou
doze dias naquela atravessada no mar e cheguei ao Rio de Janeiro, em 21
de julho de 1961. Até vou contar um detalhezinho: o meu irmão tinha me
mandado uma carta - nós nos correspondíamos dizendo “acidentalmente
eu não posso ir ao Rio de Janeiro te esperar, vou te mandar um bilhete
aéreo pela Companhia Varig e eles vão se encarregar de te buscar lá e ta”’.
Eu conheci uma velhinha, e o filho disse para ela que viria buscá-la em
Santos, na chegada. E a velha estava preocupada, porque além de não
conhecer ninguém, não saber falar o idioma, nós não tínhamos dinheiro. Eu
tinha um dinheirinho, mas durante o percurso do navio de noite, mesmo
sendo tudo grátis, eu não pagava nada, mas sempre tem uma bebida,
dançar de noite, eu tinha gastado tudo, tinha apenas sete dólares no bolso,
então ela estava apavorada e a zero. [risos] E nós ficamos olhando, mas
não tinha ninguém esperando. Até essa senhora me deu uma fotografia do
filho, para eu ver se tinha alguma pessoa parecida com a fotografia. Daí eu
olhei para uma cara vestido com linho branco, porque o cara na fotografia
estava com linho branco. Eu fui atrás dessa pessoa, o cara me olhou
atravessado, pensando “este cara é louco, entra aqui, correndo”. Quando
olhei bem, não era ele. O cara aí, atrás de mim. Mas aí, depois, tinha um
senhor que era italiano, esperava os outros imigrantes que vinham
normalmente à São Paulo por contrato de trabalho e os levava para os
lugares, nas empresas que tinham contratado essas pessoas. Nós
vínhamos com um Ato de Chamada, o responsável era a pessoa que nos
chamava, no caso, era o meu irmão, e o da senhora era o filho dela. Nós
conversamos e ele disse: “olha eu não tenho nenhuma responsabilidade,
não posso ajudar vocês”. Daí eu contei para ele o que meu irmão tinha
mandado dizer... e telefonaram para a Varig. Daí ele mesmo disse: “vai
telefonar”. o problema da língua, o que eu vou falar, eu não sei falar
português. este senhor falou, telefonou e informaram para ele que teria
vindo um rapaz da Varig trazendo dois bilhetes aéreos e mais um dinheiro
que eles tinham mandado para cá, mas ele se atrasou porque tinham
informado que o navio atracaria mais tarde, mas atracou antes. Pela manhã,
este rapaz veio, nos entregou o bilhete e o dinheiro, e aí, a partir daí, foi
fácil, porque a companhia Varig sempre nos auxiliou, depois, veio nos
buscar. Depois de passar a alfândega, nos levou para o hotel. No outro dia
nos levaram com uma Kombi, nos embarcaram para São Paulo, nos
empacotaram para Porto Alegre e, quando chegamos aqui encontramos
todos os parentes e amigos nos esperando. não era aquela imigração
onde o cara chegava sozinho, até fizemos festa. Ficou gravado na minha
memória.
Segundo Leed, “[...] Existem aqueles viajantes inveterados e habituais - como
Dampier - que não viajam para fazer comércio, adquirir riqueza, fama, mas
98
comerciam, gastam a própria riqueza e tornam-se estranhos para a mulher e os
filhos apenas pelo deslocamento em si”.
102
Alguns moraneses também foram aventureiros.
Carmine recompõe o trânsito do avô:
O meu avô veio solteiro, no fim do século, em 1898. Veio prá cá, mas ele
não veio direto para Porto Alegre, ele foi para Montevidéu e depois teve
uma crise econômica lá, e aí, o pessoal que estavam lá, muitos calabreses,
vieram para Porto Alegre e entre eles, o meu avô. Outros ficaram pelo
caminho. Nós temos italianos calabreses de Santa Vitória do Palmar, por
exemplo. Como é que naquela época o pessoal ia pensar em ir para Santa
Vitória do Palmar? Então nada mais que vir de Montevidéu para cá e alguns
ficaram na fronteira. O meu avô veio nesta época, ele veio solteiro depois
voltou para a Itália no início do século, em 1892. Casou, teve duas filhas,
entre essas minha mãe e depois voltou de novo prá cá. Sempre com uma
viagem paga por ele, uma imigração espontânea, não era uma imigração
coordenada, organizada, como aquela de 1875. E aí, o meu avô veio
depois, em 1907, ficou mais dois anos, e aí, em 1910, no início de 1910 ele
voltou de novo para a Itália... Aí eles arrumaram um dinheirinho, compraram
um pedaço de terra lá, depois viram que não dava para ficar e ele voltou. No
fim estava começando a se acostumar com o sistema daqui do Brasil, em
Porto Alegre, e voltou, e fez mais dois filhos lá.
Apesar das cartas, alguns pais tornaram-se Ulisses para suas filhas e suas
mulheres. Filomena e Dalva não querem falar da viagem, mas de seu final, porque
lá, no Porto, está o pai, aguardando a família da qual estava afastado devido à
migração e à guerra. Tanto que o fato relevante para ambas foi o porto de onde
avistaram o semblante paterno, como se a distância eliminada houvesse sublimado
o tempo perdido.
Dalva conta sobre o espírito aventureiro de seu pai:
Ele sempre foi independente. Antes de vir para o Brasil ele se estabeleceu
em Costa Rica, onde tinha uma loja de calçados. Uma noite veio um
terremoto e ele ficou embaixo dos escombros, perdeu tudo, se salvou ele e
o relógio. E ele ficou 24
horas
embaixo dos escombros, respirando por
uma frestinha sob uma mesa. Quando o salvaram, levaram para o hospital
para dar oxigênio e, quando ele se recuperou tinha neurose do vento.
Quando começava a ventar, ficava aterrorizado. Depois disso, ele voltou
99
para a Itália, foi aí que eu nasci [...].
Filomena conta:
O que me marcou muito foi quando chegamos em Santos. Eu vi um senhor
e achei que fosse meu pai. Não conhecia meu pai, me deixou com 8 meses
e cheguei aqui com 10 anos. eu disse para minha mãe que achava que
aquele era meu pai, porque diziam que era baixinho, careca, e a minha
mãe dizia ‘Não olha, porque não é’. Nem ela o reconheceu. Aí o navio foi se
aproximando, se aproximando, e eu sempre olhando pra ele. E uma hora ...
minha mãe dizia assim: “Não olha, porque no Brasil falam que depois a
pessoa vem atrás”. Que não era para eu olhar, mas eu não tirava os olhos
dele porque achava que era meu pai. Daí, quando o navio começou a
chegar perto, ela o reconheceu. Tinham se passado 10 anos... Era mesmo?
Era meu pai, ela não reconheceu, ela reconheceu quando chegou mais
perto e aquilo me marcou muito porque ela ficou muito nervosa, ela
começou a chorar. Me marcou aquilo lá.
Para Dalva, ao contrário de Angelina, o maravilhoso foi chegar:
Olha, como eu digo, nas primeiras horas, nos primeiros momentos, teve um
pouco de confusão, eu não conhecia a língua, não sabia dizer nem bom dia,
falar contigo e tu não entender... assim como eu te falei, quando nós
chegamos, um dia maravilhoso que nem hoje, o mês de setembro,
exatamente, 22 de setembro de 1954. Até o Rio de Janeiro, nós viemos em
uma companhia italiana. De lá, pegamos um navio, a mãe não quis vir de
avião. O pai teve que retirar as passagens para a viagem [direto à Porto
Alegre]. Porto Alegre, tinha um navio chamado Itaimbé, nunca me esqueço.
É que eu comecei a me sentir triste porque até o Rio de Janeiro, o navio
era italiano. Não tinha problema nenhum. Todo o mundo falava espanhol,
mais ou menos entendia alguma coisa. De para que começou ... meu
Deus, como é que vai ser? E eu chorava de saudades dos meus colegas e
dizia: “Ai Jesus, por quê o pai não voltou para a Itália!” Mas chegando aqui
em Porto Alegre eu vi aquela quantidade de gente, os parentes, primos, os
filhos da minha tia e outros tantos, tanta gente que abanava que eu não
conhecia ninguém.
3.1.1 Fazer-se cúmplice do caminho
Uma trilha pelas montanhas é diferente quando se está caminhando
por
ela
e quando se passa voando sobre ela em um avião. Da mesma forma, a
força de um texto lido é diferente quando, além de lido, ele é copiado a mão.
O passageiro do avião vê apenas o caminho se estendendo pela paisagem,
obedecendo aos ditames do terreno. aquele que segue à pela trilha
passa a compreender a força que ela tem e como essa força se manifesta.
O que para o passageiro do avião é apenas uma paisagem a se descortinar,
0
para o caminhante significa distâncias, belvederes, clareiras, expectativas a
cada curva do caminho; a trilha é como um comandante dando ordens na
frente da batalha.
103
Fazer-se cúmplice do caminho é criar uma condição perceptiva para o novo.
Existe uma perspectiva do caminho que é diversa, conforme uma paisagem quando
vista e quando vivenciada, a perspectiva muda conforme a vivência, a proximidade
ou a contemplação da paisagem.
Podemos tratar da perspectiva da arte ou do translado desta para o fazer
histórico, proposto por Ginzburg,
104
ou seja, o fazer histórico na perspectiva do
estranhamento que resguarda o historiador de tal posição de identificação com o
objeto, o que impediria a objetividade proposta por Donna Haraway.
105
O trânsito no movimento faz cessar a perspectiva e, portanto, a narrativa.
Leed teoriza sobre movimento e percepção. A aceleração do movimento provoca tal
fluxo de sensações e informações capaz de alterar a percepção do viajante. A
viagem, mesmo quando aparenta ser um fim em si mesma, expande os horizontes
porque estende a percepção. De fato, se tal ocorre, é como uma conseqüência do
trânsito no movimento.
Percorrendo o pragmatismo de William James, a teoria da percepção
ambiental de J. Gibson, até mesmo John Locke, Leed realiza importantes reflexões
sobre os temas da viagem no que incide sobre a mente e sobre as culturas. Trata-se
de desejo, motivação e finalidade própria da situação de trânsito em si. Ao invés de
amor ao lugar ou viagem como expiação, reencantar a vida, reiniciando outra no
estrangeiro e originando um novo eu.
Pensamos como Leed, que vai aproximar seus argumentos dos arautos da
velocidade, como o urbanista Paul Virilio, para quem, na velocidade no
movimento, uma nova experiência humana.
106
1
Assim, para Leed, o que no trânsito, no movimento, está nos textos de
viagem desde a Epopéia de Gilgamesh, primeira narração ocidental que pertence à
épica antiga de viagem (transcrita em torno de 2900 a.C.), pois, segundo esta noção:
”Podemos encontrar os sinais do trânsito no caráter do viajante, naquela série de
características do espírito que parecem induzidas pela experiência do trânsito,
características que permanecem, notavelmente, constantes no curso dos milênios.”
107
As hipóteses que formula sobre a estrutura da experiência imposta pelas
condições do movimento sugerem que a viagem muda a relação do viajante com o
lugar. A mentalidade, a personalidade e as relações dos viajantes são afetadas.
Qualquer viajante, seja migrante ou o, sofre mudança no seu aparelho de
percepção, independentemente da finalidade da viagem. No caso do moranes não
uma mudança contínua de lugar, mas, todo um conjunto de fatores presentes
no momento do movimento, entre Morano e Porto Alegre.
No trânsito, o movimento se torna o meio de percepção, além de ser o fator
determinante da situação física do viajante. Isso guia a subjetividade do
viajante, que se torna mais autoconsciente como ‘espectador’ ou
‘observadorde um mundo que lhe passa à frente. Governa percepções de
um mundo objetivo que são percepções “de passagem”, uma seqüência de
panoramas e imagens que, continuamente, se desenrolam diante do
observador [...] e, para compreender os efeitos peculiares ao trânsito é
necessário dar-se conta do papel revestido pelo movimento nas percepções
que o viajante tem do mundo, de si, e do outro.
108
Pelo livre ato da escolha, as pessoas fazem opções. Muitos escolheram
migrar. De todo modo, decisões. A viagem, neste senso, é ato de autonomia,
sempre. Ficar é render-se.
Quando Fernando Pessoa poetiza, faz estremar a condição humana: “Ah!
Os caminhos estão todos em mim / Qualquer distância ou direção, ou fim /
Pertence-me, sou eu. O resto é a parte / De mim que chamo o mundo exterior / Mas
o caminho Deus eis se biparte / Em que eu sou e o alheio a mim [...]”.
109
2
O viajante, o migrante não é atingidopela mudança como massa informe.
os que mudam pouco ou nada, o que, no entanto, demonstra a versatilidade da
comunicação das imagens e das predisposições atuantes.
Para Leed:
Claramente o comportamento do viajante em relação ao período de trânsito
constitui uma variável importante do grau no qual o trânsito transforma e
altera o estado, o espírito e o caráter do próprio viajante [...] O trânsito é
uma seqüência de movimentos que produz transformações do caráter e até
uma identidade, na medida em que é escolhido e é escolhido por si mesmo,
não por motivos ou metas extrínsecas [...] O espírito do viajante não deriva
de uma marca impressa por uma força externa sobre o ser capaz de ter
sensações durante o trânsito, mas do modo no qual o viajante utiliza as
idéias, as impressões e as percepções recolhidas enquanto está em
movimento. Neste sentido como em outros casos, o caráter e os traços do
caráter são levantados na escolha ativa de uma situação e podem ser vistos
como defesa contra o desafio daquela situação. Esses traços podem ser
lidos desde o ponto de vista daquilo de que o viajante se defende.
110
A teoria da percepção explica porque se interrompe a narrativa do migrante
na situação de trânsito: porque a narrativa necessita das regras de significação que
o movimento seqüestra.
A contribuição de Leed está na constatação de que a percepção, durante o
movimento, muda o significado até da casa que ficou para trás, como diz, da
“sacralidade da casa” e predispõe a situação de estrangeiridade na cidade de
recepção, o que é ignorado, no geral. É quando retorna a narrativa.
Comentando Gibson, Leed diz:
Enquanto o viajante se move através do espaço, alguma coisa muda
rapidamente, outra lentamente, outra não muda de fato. As mudanças
derivam do movimento e aquilo que não muda
deriva
do esquema rígido
das superfícies ambientais. Logo, o que não muda focaliza o esquema e
vale como informação sobre este. Portanto, as mudanças precisam do
movimento e voltam como informações de um outro tipo, relativas ao
movimento.
111
3
Para nossos fins, a narrativa interrompe-se porque as percepções do sujeito
ocorrem em tal velocidade e proporção que reduzem a visão de mundo do viajante,
tal como sugere Simmel em sua figura do flaneur transitando na cidade. Sem
autoconsciência, deixando-se quase ao sabor prazeroso da situação, o viajante
muda aspectos ou fixa traços de caráter. Neste ambiente de trânsito, de fluxo, de
movimento, não como sustentar uma narrativa enquanto tal ocorre. Pode-se falar
em estado de fluxo, um esvaziamento da mente e da narratividade.
A viagem amplia significados porque ampliação interna da consciência que
é fonte de continuidade no interior da identidade, mas o desejo seguinte, de
estabilidade, de pertencimento é que possibilita a narrativa. É, pois, impossível
narrar a mudança, apenas o antes (já transfigurado pelo movimento) e o depois.
A preocupação de Benjamin com a perda da narrativa, prende-se, em parte à
fragmentação no interior da identidade do homem moderno na sua busca para
decifrar as regras de significação do mundo em constante movimento, no qual o
viajante é uma metáfora.
3.1.2 Viagem à Meca
outra viagem de turismo na direção de Morano que uma vez na vida, ao
menos, deve ser feita - como ir à Meca. Se o espaço social é um modo de ser nos
lugares, os moraneses reinventam o que seria seu modo de ser até em Morano,
afinal, é o lugar de fundação da narrativa.
Para Fernando Pessoa:
O ambiente é a alma das coisas. Cada coisa tem uma expressão própria, e
essa expressão vem-lhe de fora. Cada coisa é a intersecção de três linhas,
e essas três linhas formam essa coisa: uma quantidade de matéria, o modo
como interpretamos, e o ambiente em que está. [...] Uma breve vista do
campo, por cima de um muro dos arredores, liberta-me mais completamente
do que uma viagem inteira libertaria outro. Todo ponto de visão é um ápice
4
de uma pirâmide invertida, cuja base é indeterminável.
112
Todos os entrevistados refizeram esse caminho para vivificar memórias e
ancestrais. Alguns, pensam em retornar, partir novamente. o é o caso dos
entrevistados. É, o dos netos.
Existe uma memória coletiva presente e revivida por todos da comunidade.
alteridade: como se disse, a narrativa é a história de todos, as vozes estão
sempre se cruzando, inclusive sobre as lacunas, que a memória do grupo tenta
cobrir na superfície. A experiência de Delmar (genro de Angelina e descendente de
moraneses) é narrada por Conceição (sua esposa):
Inclusive quando nós fomos à Itália, tivemos curiosidade de conhecer a
casa que era do pai do avô dele. E as pessoas, porque não tinha mais
familiares do pai dele. E ele não sabia nada, porque o pai não contou onde
era a casa, nem o nome da família. Ele não sabe dos avós. Foi o típico caso
de casar com
brasileira
, o pai dele então... só falava italiano com os
companheiros, fora dali, da casa dele. Mas dentro de casa não. Ele nunca
ouviu o pai contar nada a respeito”.
Filomena, ao contrário de Delmar, relembrou, de chofre, sua infância quando
retornou à sua cidade natal:
As pessoas de Morano sempre mantêm muito relacionamento, então já
eram pessoas que estavam nos esperando. Me lembro de tudo, quando
voltei, me lembrei de tudo. Me
marcou
muito, quando eu fui. Eu fui em
1990, pela primeira vez, que era meu sonho... Mas graças a Deus realizei...
Quando cheguei me senti criança, eu me senti de uniforme de colégio,
me senti de trança, me senti de meia com pompom. Eu tenho a impressão
que alguns se sentem mais ligados à Itália. É que para morar na Itália,
agora, depois de tantos anos a gente não se acostuma mais, a gente fica
um pouco mas o teu pensamento está aqui, porque as raízes estão aqui.
Se eu pudesse, hoje eu voava para lá. Passear, ir e vir, mas para voltar,
não. Eu nunca quis me naturalizar. se eu for obrigada... e não
atrapalhou. [...] Os filhos não foram mas eu levei uma neta, uma neta foi.
Minha neta adorou e está com vontade de ir prá lá. Ela adorou... Fala e
escreve em italiano. O dialeto não, mas ela agora, com essa ida a Itália
[talvez aprenda o dialeto].
5
Dalva conta sobre o tempo que morou na Itália, depois de casada com Nicola,
na Sicília, sua terra:
Eu voltei depois de casada. Primeiro fomos para Sicília porque o meu sogro
queria
me conhecer. Só [contatos] através de fotografias ou de cartas. E
a gente foi para conhecer meu sogro, e de havia uma tia irmã do meu
pai e dizia que estava na Itália, mas eu todo dia ligava [para ela]. Mas
como eu tinha já os dois meninos e já estavam na escola, porque nós fomos
para ficar por pouco tempo [profissão do marido]. Construtor, escritório de
engenharia [motivo da volta] porque era a terra dele. Daí quando nós
chegamos, véspera de natal, as aulas já haviam começado. Depois do 6 de
janeiro que eles têm as aulas de inverno [na Itália], já inscreveram os
meninos e cursaram. E até o meu filho que está na Petrobrás, porque fala
italiano e inglês, mandaram como representante para a Itália. E quando
terminou a reunião [do filho] ele foi para Morano e para Sicília, porque
dentro dele o amor pelas origens [...]. Nós ficamos, era para ficar primeiro
no máximo três meses, mas ficamos quase dois anos, e aproveitei pra
aprimorar o meu italiano. Fiz um curso, estudei mais. Mas era a coisa
daquela época que o dinheiro não valia nada, 1973, 1974 [a crise do
petróleo].Justamente, então nós chegamos [...]. Porque a gente não
vendeu nada. os móveis de quando a gente estava aqui. Daí fazendo a
conta, vendendo aqui, e pegando o dinheiro, não valia nada. De tinha
que mudar em dólar e de em liras. E ele se desiludiu um pouco, tinha o
emprego certo, fez um concurso, e aí depois fizeram a fusão de onde ele ia
trabalhar, que eram três entidades, formaram uma só, e aqueles que
estavam nas outras duas, passaram prá primeira. E aqueles que tinham
feito concurso teriam que esperar. E era um mau momento que a gente
tinha que ficar ou voltar, por causa das crianças. Fosse por mim ou por ele,
teríamos ficado. As crianças iam para o segundo grau. Daí o Pedro Giovani
perguntou: ’- o que tu achas?‘. Botamos todos os pontinhos nos is” e
resolvemos voltar. E começamos de novo [...]. As crianças começaram a
se entrosar. Como eles estavam nas Dores, [colégio] foram recebidos de
braços abertos. Graças à Deus foi tudo bem, não perderam nenhum ano.
Para o pequeno, tiveram que dar aula particular porque ele só falava italiano
e, no final, estava esquecido um pouco do português. Os professores, uns
irmãos para mim, deram aula particular e conseguiram [validar os estudos
realizados na Itália]. Quer dizer que essa passagem foi bem, um pouquinho
dificultoso assim, começar novamente, de novo. Os sacrifícios começaram.
Uma festa nós íamos, outra não. E graças à educação que recebemos dos
pais de saber controlar o dinheiro, o que tem, que não tem, quando posso
gastar [aprendeu] com minha mãe, foi uma grande mãe. Como eu te disse
ela viveu sozinha. Ela que tinha que controlar tudo. Hoje, na volta ao Brasil
tornei-me professora de italiano, da ACIRS, e dou aulas particulares.
Carmine relembra:
Em uma ocasião fui à Itália e encontrei Vicente Dutra, vereador da cidade
de Porto Alegre. Ele é de origem calabresa, a mãe dele é filha de
calabreses. Foi fazer um curso na Universidade de Catanzaro. E nos
encontramos em Morano Calabro, na frente da
bancada
... e ele se
6
entusiasmou tanto. Quando voltou para cá, reuniu os parentes na casa dele,
fizemos uma projeção de slides. E, antes de ir para lá, os parentes dele,
também, não queriam que ele fosse: ‘Tu vai passar fome lá’. A imagem, os
próprios caras não tem idéia, é a idéia do pai: ‘Não, é o nordeste brasileiro’.
Quando o cara chegou lá, disse não, para aí... Parece que os caras não têm
nem idéia. Então, vamos fazer uma projeção de slides. Então juntou todos
eles, vieram professores. Quando estavam passando slides, a olhar aquelas
casas velhas, que são tombadas pelo patrimônio histórico, pela UNESCO,
que são patrimônio histórico da humanidade, aquela cidadezinha ali. E aí,
eles diziam: ‘Ah, aquela casa que tinha o Scadelone? Esta é Scafone da
praça Madalena? Esses são os fatos negativos daqueles imigrantes.
Depois que terminou a projeção, me desculpei: ‘Mas vocês dão a impressão
que sabem só os fatos negativos, mas nunca se preocuparam em saber os
fatos positivos dessa origem de vocês, pensam que na Calábria havia
cabra. Mas a Calábria vem da época dos gregos, de uma cultura milenária,
com pessoas importantes, pessoas que deram luz ao mundo.
Voltar à “Meca” faz parte do cotidiano de Carmine:
Logo depois dos anos setenta e cinco, oitenta começou a
melhorar
e
comecei a participar muito ativamente da comunidade italiana e também
aproveitei a oportunidade de me comunicar mais com a Itália, através da
Sociedade Italiana, na qual cheguei depois à presidência. Mais adiante eu
fui representante da minha região, fui consultor da migração junto à
Calábria. A região da Calábria instituiu uma consulta de imigração e fui
escolhido para participar dessas reuniões. Viajei para a Itália praticamente
todos os anos, em função da sociedade italiana e dos comitês. Depois,
instituíram outros organismos que o governo italiano criou, começou a se
aproximar cada vez mais do imigrante e das pessoas que saíram de lá. Eu
fui presidente do Comitê Italiano, da comunidade de italianos. Hoje, sou
vice-presidente com um mandato de quatro anos. Tenho dois filhos: uma
com vinte e oito e outro com vinte e quatro. Falam italiano, falam dialeto.
Uma é formada psicóloga, outro vai se formar médico no fim do ano. Eu sou
cidadão de Porto Alegre pela Câmara de Vereadores, pela atuação na
comunidade. Depois, com o tempo, eu comecei a freqüentar a sociedade,
comecei a me integrar bastante na comunidade aqui em Porto Alegre,
participei, não dos eventos da comunidade italiana, mas, também, da
comunidade porto-alegrense. Participei de Rotary, sou professor rotariano.
Meu trabalho proporcionou uma série de amizades e atividades que me
honram, tanto que o Governo da Itália me deu o diploma Cavalliere della
Republica por minha atividade dentro da comunidade italiana e
porto-alegrense, respectivamente e a Câmara de Porto Alegre. Isso foi em
noventa e dois.eito de ir e vir. Carmine comenta a recepção dos filhos de
italianos na Itália:
Eu acho muito importante. Muito importante para Itália e importante para a
comunidade italiana que vive fora do país. Porque a
política
italiana, afora
os períodos de guerras, desde o início, quando se formou a etnia italiana,
antes do Estado italiano, a Itália já existia. Aquela foi apenas a unificação do
território de 1860, tanto é que o italiano que vinha antes de essa época
7
vinha de aqueles estadozinhos que haviam se formado na Itália. Quando
perguntavam para ele, ele dizia que era italiano? ‘Não, sou da Aosta, da
Calábria’. Então a política italiana foi sempre voltada para o homem. O que
está fazendo a Itália atual? Está voltada para o homem, para essas
comunidades porque teve um momento em que a Itália teve que mandar
seus filhos para fora, tiveram que sair, pelos seus motivos, não é? Hoje a
Itália está recuperando, está resgatando esta dívida que tem para com os
italianos fora da Itália. E, ao mesmo tempo, está dando oportunidade, por
ser a Itália, hoje, um país moderno, por ser um país, economicamente dos
mais avançados do mundo, está dando oportunidade para que os filhos
desses imigrantes possam aproveitar lá, não na Itália, mas tendo
passaporte europeu, de estudar, se aperfeiçoar, pois é um filho de italiano,
um filho de uma pessoa que é de origem italiana, não precisa ser italiano,
pois não precisa ser da primeira geração. Pode ser até neto de Júlio César.
Pode ter um passaporte italiano e estudar em uma universidade italiana.
Tirar um curso e não pagar nada. E voltar para com uma profissão e se
estabelecer em Porto Alegre, sei lá, ou em qualquer lugar do Brasil, então
são vantagens. E a Itália também tem vantagens com isso, porque vai ter
uma população de pessoas que tem simpatia pelos produtos italianos. [Será
que a Itália esta recebendo bem os italianos além-mar?]. Sim, esses filhos
de italianos, descendentes de italianos, que voltam para a Itália com
passaporte italiano, estão sendo recebidos bem, eles voltam como italianos,
com todos os direitos. [Sem nenhuma discriminação por serem
ítalo-brasileiros?]. Sim, são italianos com todos os direitos, vão votar,
trabalhar. [Participar da vida pública?]. Participar da vida pública, ter o
direito de ir e vir. É a forma moderna de encarar o mundo, porque o mundo
vai ser assim. Hoje, são esses italianos, os descendentes de europeus,
amanhã vai ser o mundo inteiro.
Como é evidente, o trânsito inicial incorpora-se na narrativa como desejo de
retomar, no caso dos moraneses, também uma vida fraturada pelos intervalos da
crise política. A partir da normalidade democrática, retomam com mais vigor a
característica pendular da emigração do grupo, a ponto de, na atualidade,
confundir-se, fazer parte dos ritos do grupo, a viagem à Morano, sem sequer
deter-se nas demais regiões.
3.2 Transitar nos jornais: a leitura interessada
Transitemos no jornal, espreitemos a cidade de Porto Alegre na visão do
jornalismo. Algumas considerações iniciais, no entanto, sobre esse trânsito.
O trabalho do historiador contemporâneo com o jornal, quando visa
8
entendê-lo como narrativa, aproxima o literário do jornalístico. A narratividade, uma
história que valha à pena; a intertextualidade, obras feitas a partir de outras obras e
a recepção o posturas decorrentes da conversão do paradigma estruturalista na
oficina da história dos anos 30 no Brasil. Culler
113
.
A veracidade dos fatos afirmada pela constituição do discurso da imprensa
impressa, é recente. Passado o período romântico, a profissionalização do exercício
da atividade de jornalista erige a ética da neutralidade, um pouco da influência
positivista do século XX, com certeza.
No Brasil, a década de 30 inaugura a criação das universidades, projeto
levado pela intelectualidade desde os anos 20. Passando do bacharelesco para o
científico, o trabalho com o documento jornal representava a possibilidade de colocar
em suspenso o escrito, fazendo-o deslizar para o suporte escrito onde se tentava
discernir quais seriam as forças que guiariam o curso dos acontecimentos, à
despeito dos interesses, das intençõesedas ações individuais.
Walter Galvani historia, no estilo biográfico, a trajetória do Correio do Povo
desde sua fundação por Francisco Antonio Vieira Caldas Júnior até 1994. Em 1989,
o jornal perde seu diretor Breno Alcaraz Caldas, ano em que atinge a marca de
193.000 assinantes, publicando a edição de número 100.
Traça largo panorama biográfico de Caldas Júnior, mas sem perder de vista
que o Correio do Povo constitui-se como um protagonista da vida política, cultural e
econômico-social no Rio Grande do Sul.
Na sua fundação, tendo como principal concorrente o jornal Federação do
Partido Republicano que domina a cena gaúcha, Galvani situa o jornal e aqui não
arrogamos nenhum estudo para contestar a posição do jornal – a linha política
confronta o órgão oficial do bloco no poder, mas em bases as mais empresariais
possíveis.
9
Nos bastidores estão as decisões que emulam os manifestos, os editoriais, as
propostas e os programas do Correio onde o programa político mescla-se com o
projeto estético. Em torno das redações, Galvani conta como se formam autores que
compartilham as leituras do mundo. Projetos que querem dividir o poder no mundo
intelectual. Se fossemos realizar um mapeamento nesse campo, verificaríamos que,
por diversas vezes, os “donos” do jornal conseguiram impor sua leitura do mundo ao
resto da sociedade. Ele nasce para ser um novo jornal, em contraponto ao jornal
Federação, do Partido Republicano Rio-Grandense.
114
No Correio do Povo desfilam italianos e descendentes de italianos, como
Mário Totta, Leonardo Truda, Sud Mennucci, André Carrazzoni, Roque Callage,
Fernando Callage, Ernani Fornari, Agripino Griecco, Silvio Picrini, Menotti del
Picchia, Arquimedes Fortini. Ficamos tentados a seguir seus trânsitos, fica para
outra pesquisa ou para outros historiadores.
115
Curiosamente, na literatura urbana
que emerge nos anos 30, os italianos estão ausentes. Não figuram sequer na
narrativa de seus próprios intelectuais.
No sentido de buscar outros traços, é evidente que a obra de Galvani presta
relevante contribuição para a apreensão da narrativa do espaço social na
perspectiva dos estrangeiros italianos na medida em que, conhecendo os bastidores
do Correio do Povo, compreendemos melhor a presença italiana na cidade. Ao
buscar a freqüentação, a visibilidade, a espacialidade e o conteúdo que dimensiona
ao leitor essa presença, a história oral tem seu suporte na faticidade inscrita nas
suas páginas.
O que queremos reter das folhas amareladas do Correio do Povo é a
invenção da narrativa sobre os italianos no período. Retrocedemos, colhemos
material desde o início do culo, não importa se não está presente diretamente no
texto, porque está no modo como apreendemos a narrativa sobre o grupo.
Essa narrativa não é dilacerada entre a ficção e a realidade, mas,
0
hermeneuticamente, entendida como possibilidade de apreensão de que o jornal é
fonte, objeto e suporte histórico, ao mesmo tempo.
A leitura dessa escritura será uma perspectiva interessada, parcial do que
Italo Calvino, diz sobre a ``Exatidão``: `o uso da palavra é uma incessante
perseguição das coisas, uma aproximação, não de sua substância, mas de sua
infinita variedade, um roçar de sua superfície multiforme e inexaurível`.
116
Como é próprio da imprensa escrita, o jornal é o congelamento da escritura. A
mediação social intransparente e cúmplice, entre o autor legitimado, muitas vezes
anônimo ou encoberto por pseudônimos, o jornalista, a empresa jornalística e sua
direção, bem como o leitor implícito sofrem reinterpretações.
Se estamos par a par com a mudança de perspectiva historiográfica, ao
historiador afinado com a virada lingüística, cabe ver o que o documento diz e como
diz. Os novos campos semânticos alargam as possibilidades da produção histórica.
Tratemos, pois, do transitar no jornal.
Digamos que mais de um trânsito. Do ponto de vista econômico-social, o
Correio do Povo coloca-se como empresa: a inscrição dessa escrita, tem em vista o
público de leitores, visa à ampliação da tiragem e da propaganda veiculada.
O trânsito ideológico do jornal diz respeito ao modo como compartilha dos
interesses dos grupos hegemônicos do Rio Grande do Sul, como erige seus
intelectuais orgânicos como quer Gramsci, como se coloca como elite, na acepção
de Elias ou Pareto.
A história do Correio do Povo assinala uma das possibilidades, no período, de
circulação e luta de imposição na sociedade de Porto Alegre. Seus colaboradores,
funcionários, a luta pelo poder interno e com a sociedade inclusa definem o trânsito
de intelectuais no sentido amplo, formando relações como rede, como propõe
Jean-François Sirinelli. Um programa de análise que caberia para o historiador seria
1
o de tentar "destrinçar" a questão das relações entre as ideologias produzidas ou
veiculadas pelos intelectuais e a cultura política de sua época.
117
Fiquemos dentro do propósito da tese e busquemos no jornal apenas as
relações mais imediatas com a comunidade de leitores italianos e sua narração.
Trazendo nossos protagonistas entrevistados, todos fazem menção à leitura dos
jornais como seu meio de aprendizado da língua, tal qual seus pais e avós.
O jornais italianos citados como leitura, sempre com atraso, mesmo os que
vêm por Buenos Aires e Montevidéu, além de sua pouca distribuição, etc. O que eles
mantém, é a leitura do jornal local mesmo.
Buscam, ainda na leitura, o entretenimento. O Correio do Povo é literário
também, há jornalistas, ensaístas e escritores que disseminam a cultura das
primeiras décadas do século XX. Aliás, entre as fronteiras do jornal com o campo
literário um trânsito de leitores aptos, produzidos pelo acesso social aos bens
simbólicos da cidade de Porto Alegre. Podem decodificar textos, sejam estes as
formas extremas de qualificação social de leitura, como a literatura ou o jornal e
assemelhados (folhetins, almanaques, revistas). Superada a barreira lingüística, a
cultura pode circular entre os italianos, através das páginas do jornal.
A historicidade interna do jornal é descrita por Galvani, quanto às decisões
que não chegam ao público senão de forma acabada, tais como a seção
denominada, em 1895, “Caixa Urbana” e, depois, “Correio do Leitor” (como foi
chamada, pelo menos até a data da impressão da obra de Galvani); a “Seção
Diversa”, datada de 12 de dezembro de 1895, a qual existiu até 1987 e a seção
“Poetas do Sul”, lançada em 1899, embrião das futuras páginas literárias e o
“Caderno de Sábado”. Em 1912, dando seqüência aos folhetins, o Correio, que
publicara Henrique Sinkievicz e Dostoievski, publica Ivanhoé, de Walter Scott e, em
1915, lança o “Almanaque do Correio do Povo”.
118
2
Esta história se passa desde a primeira instalação das oficinas, redação e
administração à rua dos Andradas, n.132. Em 1889, a mudança para o n. 317. Em
1910, o Jornal vai para o terceiro endereço, ainda na rua dos Andradas, n. 138/140.
Uma das primeiras notícias estampadas tratam do empastelamento da
tipografia do Centro, motim e depredação efetuados pela comunidade italiana
indignada com as ofensas publicadas no jornal Volksblatt, ou Gazeta Alemã, que
teria ofendido a Itália e os italianos justo no 20 de setembro, data nacional italiana,
quando comemoram a unificação do país e o Risorgimento. Reunidos em torno das
comemorações na Sociedade Vittorio Emanuelle II: Cantaram unidos o Vapiensiero,
lembrando Giuseppe Verdi, um herói nacional. Após o tumulto, se podia ver
espalhados na sarjeta os restos um exemplar do jornal alemão Volksblatt, o qual
havia sido espatifado pelo povo indignado.
119
Não tesido a primeira, nem a última vez que o jornal ilumina a presença
italiana em Porto Alegre. Ao se ver refletido na sociedade como protagonista do
drama social, essa comunidade vai tornar-se ainda mais visível ao longo das
próximas décadas.
No rés da calçada, o jornal embaixo do braço, imaginemos os leitores
italianos, observando o movimento dos célebres e dos anônimos da cidade. Na
breve pausa, transcorre a produção de sentido do cotidiano acelerado. Entre tantas
urgências, ainda é preciso comunicar-se, saber o que acontece, tomar posição. Os
que não lêem em português, ainda assim, podem inteirar-se no rolar da língua nas
ruas que restam em Porto Alegre.
O que torna o jornal o especial é a capacidade de reunir de modo físico e
simbólico, pessoas que compartilham culturas políticas e leituras de gênero, em uma
época em que outros meios de comunicação estão, ainda, ausentes.
Na trajetória do jornal, o trânsito produz, de certo modo, uma comunidade de
leitores, uma comunidade de sentido. Os imigrantes lêem, como nos conta Dalva
3
sobre seu pai. Inferimos, dada as estatísticas da época, que os moraneses são
leitores, alguns, não todos. Esta leitura proporciona o acesso à língua a ser
decifrada, à semântica e à cultura da cidade.
Os entrevistados afirmam-se apolíticos, desde a primeira geração residente
em Porto Alegre. De fato, não encontramos moraneses figurando, no período, na
camada propriamente política, ao menos, no Jornal O Correio do Povo.
Mas, queiram ou não, fazem parte da cultura política que atravessa o período
e, portanto, o sendo testemunhas, são herdeiros do rico debate ideológico dos
anos 20/30.
Provavelmente, apenas quando o poder lhes retirou a liberdade de expressão
e de leitura nalíngua-mãe, como relata Angelina, ou na lembrança e silêncios dos
pais dos demais, a políticalhes passa a interessarporque transfigura seu cotidiano.
O período entre 1920 e 1937, antecede essa sombra. Muitos racionalizam,
passando rapidamente sobre o interdito, alguns têm casos para contar. Mas
preferem (e toda narrativa é uma organização do vivido) narrar tendo o período que
viria a seguir, de efetiva interdição da língua, como um intervalo, uma suspensão
mesmo.
A narrativa insinua, mas não evolui neste intervalo sem duração. O antes é
pródigo, as possibilidades estão em aberto, os jornais trazem tantas novidades.
Saídos da Grande Guerra, há muito que reconstruir.
espaços sociais urbanos preferenciais para fazer circular a comunicação
interessada: os cafés, a rua da sociabilidade, a “Rua da Praia”, na verdade rua dos
Andradas, mas que na memória social ainda permanece como tal, as imediações da
Livraria Americana, ou da Editora do Globo, bloqueando a vista das vitrines. Porque
é na rua, nos anos 20/30, onde se fazem as trocas culturais e estão os espaços da
4
sociabilidade urbana.
Os estrangeiros, em razão desta condição, estão prevenidos, sabem não
tomar o Jornal como sinonímia de verdade, reconfiguram esta mimese. Buscam
notícias sobre o mundo que fica lá, muito próximo ainda, que é estrangeiro para o
leitor comum. A visão de estrangeiridade espreita a escritura do jornal com sinonímia
da verdade.
Lêem o jornal pela possibilidade de dialogar, discutir e confrontar “o jornal”,
como qualquer leitor assíduo ou assinante. Figuram, até mesmo, como anunciante,
como pode ser comprovado desde o início do Correio do Povo, nos anúncios de
firmas e serviços de várias naturezas, conforme sua crescente inserção econômica
na cidade e da profissionalização da propaganda desde a cada de 10. Outros,
figuram nas notícias. Segundo os corpus aqui propostos (diplomático, imigracionista,
cultural-político e comercial), muitos figuram como protagonistas do drama registrado
no jornal. Nenhum moranes, aparentemente, destaca-se nesses corpus. Aparecerão
no próximo capítulo, referente ao mundo social, menos atravessado pelo ideológico,
em Porto Alegre.
Voltando ao suporte do jornal, Galvani sabe que o fluxo da informação entre a
instantaneidade do fato transformado em notícia pelo jornalista-repórter-editor e seu
consumo pelo leitor depende da inovação tecnológica e das vias de comunicação,
como estradas, ferrovias e navios. Em razão disso, arrola o trânsito do jornal
provinciano para o jornal-empresa através da renovação tecnológica, da primeira
máquina, a Alauzet, o jornal em formato de 39x56 cm e o lançamento, em 1889, do
slogan O Correio do Povo o jornal de maior tiragem e circulação do Estado do Rio
Grande do Sul”, anúncio em policromia na primeira página.
O formato perdura até 1905, quando o novo equipamento importado da
Alemanha, da firma Schelter & Giesecke, é capaz de aumentar o tamanho do jornal
para 49x68 cm. Em 1910, ocorre a modernização da linguagem jornalística. o
eliminados os tratamentos convencionais para as pessoas, o material tipográfico é
5
novo, a primeira máquina rotativa a chegar ao Rio Grande do Sul, uma Marinoni, é a
quinta máquina do Correio. Aos 25 anos de jornalismo de Caldas Júnior é anunciada
a entrada em operação das quatro primeiras máquinas linotipos a operarem em
Porto Alegre.
Em 1912, o Correio publica a primeira fotografia de reportagem de rua no Rio
Grande do Sul, quando chegam à Porto Alegre mais duas máquinas linotipos
importadas.
Um pouco da estética da recepção, de Jauss, poderia inferir um leitor mais
moderno, mas para fazer afirmação disso, precisaríamos conseguir comparar,
perceber a tensão latente. Será que as intenções eram realmente entendidas? Na
passagem do século é difícil porque não história oral possível para saber como
liam o jornal. Mas há narradores atuando na redação, como demonstramos.
E leitores: deduzimos sua presença na crescente tiragem. Em 1895, foram
2.000 jornais diários; 1896, a média de tiragem diária passa para 3.000 exemplares;
1897, segue a mesma média; 1898, a média de tiragem diária salta para 4.000
jornais; cresce para 4.500 exemplares, em 1899; e, em 1900, a tiragem média diária
alcança os 5.000 exemplares.
E começam a constituir-se os espectadores: o cinema inicia a competição
com o jornal, quando, em 27 de fevereiro de 1901, registra-se a projeção com
cinematógrafo no teatro São Pedro.
Em 1903, uma edição, pela primeira vez terá 10 mil exemplares. Sempre
supomos que o potencial de multiplicação dos leitores de apenas um exemplar
redimensiona o número de exemplares vendidos, tal como acontece com os
Almanaques, os folhetins, etc.
Entender a atuação dos grupos que atuam no espaço público, mediados pela
imprensa, é fundamental. As leituras do mundo que passam pelo político, pelo
6
cultural, pelo econômico de algum modo são configuradas como notícias, editoriais,
manifestos.
A empresa-jornal tem sua própria historicidade e, bem resguardada do olho
público. Precisa apresentar-se como produtora de um discurso unitário, que está
longe de refletir a luta interna. Galvani interessa-nos pelos detalhes dessa disputa.
Por opinião, por propriedade, por concepção política ou jornalística, pelo confronto
com a concorrência, com o poder no Estado e na cidade, seu trabalho não foi,
gratuitamente, sub intitulado “Os bastidores da Caldas Júnior”. No período, a crônica
interna revela que esteve longe de ser tranqüila a circulação de gerentes, herdeiros
e a adoção de estratégias de mercado.
Por outro lado, grandes nomes da cultura transitam no jornal, demonstrando a
interface com o jornalismo, ainda pouco reconhecido como profissão. Inclusive,
estimula-se outras incursões empregatícias, para compor a sobrevivência. A
interface mais freqüente é a literária: o início da literatura e dos memorialistas no Rio
Grande do Sul passa pelos jornais, inclusive pelo Correio do Povo. Como por
exemplo, Apolinário Porto Alegre, mestre, líder intelectual e político, ex-professor de
Caldas Júnior e de toda uma importante geração de políticos, intelectuais, morto em
1904.
Em 1909 morrem Daniel Job, o “grande repórter” e José Paulino Azurenha,
co-fundador do Correio. É quando entra para a redação Francisco de Leonardo
Truda. A luta sucessória inicia com a morte em 9 de abril de 1914 do fundador
Caldas Júnior, às vésperas da Grande Guerra. A notícia percorre as páginas dos
jornais A Federação, O Diário, O Eco do Povo, Deutsche Volksblatt, Deutsche
Zeitung e Neue Deustche , todos diários, mais as revista 606, Kodak, Stela D´Itália e
A Fita.
Em 1915, o apresentados novos correspondentes, alguns estrangeiros e
entre eles, Guglielmo Ferrero, em Turim, Itália.
7
Em 1917, é contratado Alcides Maya, escritor e jornalista, como
correspondente na então capital federal, Rio de Janeiro. Em 1918, morre mais um
colaborador do Correio do Povo, professor Apelles Porto Alegre, outro importante
formador de porto-alegrenses. Nesse mesmo ano, a primeira censura da história
do Correio do Povo, com a proibiçãode notícias sobre a epidemia de Influenzia
Espanhola. Quando inicia a nossa história, em 1919, em 19 de julho na grande Festa
da Paz em Porto Alegre, o Redator-chefe do Correio está tratando sobre a “Paz de
Versalhes”.
Propomos nesse momento uma bússola para conduzir a rota da travessia da
leitura do jornal Correio do Povo: seguir os passos dos diplomatas, dos imigrantes,
da circulação de militantes fascistas e antifascistas na cidade e nas feiras comerciais
no circuito Brasil-Itália entre 1920 e 1937.
3.2.1 Transitar no Correio do Povo
3.2.1.1 Corpo diplomático em movimento
Em Porto Alegre, ressoa, em especial, na “colônia” italiana o
re-direcionamento da política externa da Itália de Mussolini, no poder desde 1922.
Emergem, na desordem do desenvolvimento capitalista, programas antagônicos:
“[...] a revolução comunista mundial ou transformação do imperialismo capitalista em
Império” [...], como propõem Michael Hadt e Antonio Negri.
120
A revolução soviética de 1917, seria a Primeira Grande Guerra
Inter-imperialista no contexto dos anos 20, sem deixar alternativas. O crescimento
econômico, a concentração da produção industrial e a difusão do taylorismo o
propostas de organização racional do trabalho e dos mercados para fazer frente ao
perigo da ampliação da revolução de Outubro de 1917.
O mundo assiste à expansão Colonial, possibilitada pela recém fundada Liga
8
das Nações, em 1920 e ao acirramento das crises nos países vencidos na Grande
Guerra: Alemanha, Aústria e Turquia.
Nesses anos as páginas internacionais acendem o Correio do Povo: em 10
de janeiro, em Genebra, a publicação é que o Exército Vermelho derrota a
contra-revolução e as intervenções internacionais e, em 1921, a China funda o
Partido Comunista da China, o PCC.
A Polônia, em 1920 invade e é derrotada na Rússia. Dos EUA, em 1921, vem
a notícia do início do governo republicano de Harding, instaurando a era do Big
Business e da tríade: isolacionismo, conservadorismo e prosperidade material, que
propõem a retração da política novamente ao território americano, contra o
internacionalismo do presidente Wilson durante a Grande Guerra. E firma, com a
Conferência, o Tratado Naval de Washington sobre o Pacífico, em 6 de junho de
1922.
Da Turquia, vem a informação de que Mustafá Kemal é vitorioso sobre os
gregos (em 1919 o levante de Mustafá contra o Sultão dera início à guerra civil
turca).
Da ssia, vem a notícia de que ela sofre a revolta de Kronsdadt e adota a
Nova Política Econômica - NEP, com V.L.Lênin no comando, em 1921.
A grande questão de fundo é o “cordão sanitário”, tentativa de isolar a
revolução soviética que leva Moscou a fazer alianças com os derrotados da Grande
Guerra. A Alemanha de Weimar é o alvo da estratégia, vindo a celebrar com a URSS
(Estado multinacional desde 30 de dezembro), o acordo soviético-alemão de Rapallo
, em 16 de abril de 1922, que, além de relações diplomáticas entre os países, previa
a fabricação de armas alemãs na URSS, proibidas de serem produzidas na
Alemanha pelo Tratado de Versailles.
Enquanto isso, o trânsito do corpo diplomático italiano em Porto Alegre segue
9
a gradativa reestruturação do Estado fascista, com Benito Mussolini no poder desde
a marcha sobre Roma.
A partir de 1927, a imigração assume uma função instrumental para o projeto
político fascista. Muda o discurso e a ação, Mussolini extingue o Secretariado Geral
de Imigração e cria a Diretoria Geral dos italianos no Exterior, em 1927.
A conseqüência direta é a alteração da atuação dos cônsules, como em Porto
Alegre. Anteriormente, para o século XIX, Núncia Santoro de Constantino
examinara a atuação e relatórios emitidos na correspondência consular dando conta
da situação dos italianos em Porto Alegre, no seu livro “O Italiano da esquina”.
121
Agora, na conjuntura entre os anos de 1920/1937, Loraine Slomp Giron
detém-se sobre as particularidades do poder na região italiana (com sede em Caxias
do Sul, formada pelos municípios de Garibaldi, Bento Gonçalves, Alfredo Chaves,
Nova Prata, Antonio Prado e Nova Trento). Diz:
o regime instituiu, por força de lei, uma figura política inexistente. Os antigos
emigrantes sofrem então uma ‘italianização forçada’. Muitos deles,
plenamente integrados na nova pátria, sofrem um retrocesso no processo
de integração, voltando seus interesses à Itália.
122
Para avaliar a extensão dessas alterações na política italiana para a
emigração, Luiza Horn Iotti retrocede ainda mais no arco do tempo. Analisa a Itália
desde à época da Unificação e no seu trabalho “O olhar do poder”, esmiuça as
relações entre a política emigratória italiana, o papel do Ministério das Relações
Exteriores e o Estado italiano no período precedente. Conclui que, entre 1870 e o
início da Grande Guerra, destacam-setrês períodos:
[...] o primeiro, a Unificação, quando se efetivou a montagem do novo
Reino, através da sua organização jurídico-administrativa. Nesta fase, a
política emigratória do governo e das classes
dirigentes
italianas variou
entre posições e grupos que iam desde a nítida oposição ao
desenvolvimento de uma emigração de massa na Itália, até a sua
incondicional defesa, com uma ampla e manobrável série de posições
intermediárias. O segundo iniciou com a ascensão da esquerda ao poder,
0
em 1876, e encontrou plena realização durante o governo Crispi
(1887-1896). Neste período, ocorreu uma reforma no aparato burocrático e
uma radical transformação na orientação da política externa italiana. A
emigração passou a ser encarada como uma solução para os problemas
sócio-econômicos internos do país. E, para garantir o êxito do
empreendimento, o Estado italiano assumiu a direção e a condução do
movimento. O terceiro período começou com a queda de Crispi, em 1896,
estendendo-se até o início da Primeira Guerra Mundial. Esta fase
caracterizou-se pela transformação da economia italiana que, de
essencialmente agrícola, passou a predominantemente industrial, pelo
crescente aumento do fluxo emigratório bem como pelas remessas de
poupança dos emigrantes. A emigração, sob a tutela do Estado italiano,
transformou-se em um negócio rentável para a Itália.
123
Debruçando-se sobre ampla documentação a respeito da estrutura social e
administrativa da carreira diplomática, Iotti conclui que, até 1914, os representantes
diplomáticos da Itália no Rio Grande do Sul,
[...] apesar de pertencerem aos quadros inferiores da carreira diplomática,
possuíam traços que os ligavam às elites dirigentes do Estado italiano. E
compartilhavam da mesma visão sobre a população pobre que havia sido
obrigada a buscar fora do seu país as condições de vida que ele lhes
negava. As relações que se estabeleceram entre eles e os imigrantes
reproduziram, em parte, aquelas existentes, na Itália, antes da emigração. O
Estado italiano e seus representantes continuaram a agir, no Rio Grande do
Sul, com a mesma indiferença, com o mesmo preconceito e desprezo que
haviam manifestado pela população pobre que vivia na Itália.
124
Pela análise dos anos entre 1922 e 1943, com base em ampla documentação,
João Fábio Bertonha afirma que:
[...] as conferências de imigração de 1924 e 1927 (BIANCHI, 1994) é todo
um trabalho para, ao menos em teoria, preparar o emigrante italiano para a
disputa de espaço num quadro internacional de contínuo fechamento dos
espaços de imigração.(FRANZINA, 1994, p. 236-237; BIANCHI, 1994; DE
MICHELIS, 1927 e SULPIZI, 1923). Dentro desta política, o fascismo parece
ter absorvido algumas das idéias nacionalistas sobre como a emigração era
um mal, mas que era uma necessidade obrigatória da Itália e não podia,
assim, ser bloqueada, era imperativo retirar dela a maior quantidade
possível de benefícios para a mãe pátria (GENTILE, 1986; CANNISTRARO,
1979).
125
1
O fato é que o corpo diplomático, sob o comando de Mussolini, é renovado.
Os cônsules recebem imunidades diplomáticas e novas atribuições. O mercado
externo representado pelos imigrantes passa a ser ainda mais interessante, há que
amalgamar uma ideologia nacionalista e ao mesmo tempo cuidadosa,
considerando-se a existência do Estado-Nação brasileira.Os Fasci di combatimento
surgem na Itália antes dosprimeiros fasci all´ estero surgidos no Brasil, em 1923 e
que serão em número de 54, em 1926/27, e, de 3 no Rio Grande do Sul.
126
Esses antecedentes podem auxiliar dimensionar a urdidura histórica por
detrás do suporte material do texto jornalístico do Correio do Povo: a vida do corpo
consular desdobra-se no cotidiano, aparentemente protocolar, interrompidos por
alegres efemérides, visitas e partidas de notáveis.
Transcrevemos alguns textos mais representativos para que o leitor possa
fazer sua própria interpretação, sem a nossa tirania. Para que possa perceber a aura
que cerca a emblemática posição de cônsul no jogo político que se trava e que o
texto narra com paixão.
Situemos os italianos que chegam em Porto Alegre neste contexto, como
cidadãos comuns e sem implicação política. A visibilidade da política externa italiana
é identificável na recepção do corpo consular aos estrangeiros da cidade.
Se a data for 11 de novembro de 1920, os italianos podem dirigir-se ao
Consulado Italiano, sito à rua Duque de Caxias n. 202 que encontram o Cav.
Massimo Goffredo, cônsul italiano. Com grande formalidade, o Cav. está “recebendo
das 10 as 11, as sociedades, escolas e seus compatriotas e das 11 as 12, o corpo
consular”. A razão de tudo isto é que a data é festiva, nada menos que o natalício do
rei Vittorio Emanuelle III, da Itália.
127
Um ano se passa sem novidades noticiáveis neste campo. Em 1922, o Cav.
está de partida para a Itália, em licença. Nenhuma alteração mais grave, assume o
2
consulado na sua ausência, Giano Bozano, vice-cônsul da Espanha, devidamente
nomeado pela embaixada italiana. No Rio de Janeiro, como é praxe, antes de partir
o Cav. Massimo Goffredo apresenta-se à Protásio Alves, Secretário dos Negócios do
Interior e Exterior e às demais autoridades locais. Francisco Luiz Zuliani, secretário
do consulado, segue nas suas funções.
128
Quando o cônsul parte, no Correio do Povo, as notícias são outras. É
acelerado o realinhamento político pós-guerra e o jornal não tem outra saída, senão
a de aumentar o número de seus correspondentes epistolares.
129
Em 1923, seguem as notícias intranqüilizadoras: aproveitando-se da
debilidade social com a hiperinflação na Alemanha, ocorre o pusch de Hitler em
Munique, que fracassa. Mas alerta as demais potências que lançam o plano Dawes
de ajuda, em 1924. Investem capitais norte-americanos e ingleses, na tentativa de
retirar a Alemanha da área de influência soviética, ano em que ocorre a morte de
Lênin na Rússia.
Enquanto isso, ocorrem tentativas de estabilizar as fronteiras do ocidente na
Conferência de Locarno. Do outro lado do mundo, na China, morre Sun Iat Sen e
ascende Chang Kai Chek.
No ano seguinte, 1925, realiza-se o XVI Congresso do PUCS e Stalin alcança
o comando do Comitê Central do partido e do Bureau Político.
Em 12 de março de 1925, manobrando com os temores da crise que
atravessa a Itália, no contexto europeu, o fascismo torna-se partido único na Itália.É
notória a mudança de Mussolini que, em agosto, na mensagem aos italianos do Rio
Grande do Sul reorienta a política em relação à emigração.
A mensagem aos italianos se por ocasião do Cinqüentenário da Imigração.
O Correio do Povo afirma que a data interessa à imprensa na Itália. Em resposta a
3
comunicação enviada pelo comitê pró-comemorações do Estado, expressa o Duce:
Aos filhos da Itália do Rio Grande do Sul - Milão, coração palpitante da nova
e antiga Gente latina, aos confrades do Rio Grande do Sul os quais, sob os
céus ardentes do Trópico, não se esqueceram do plácido céu latino que
as glórias milenárias da pátria imortal, manda a sua mensagem de
saudação
e de augúrio. E tanto se sente mais agradecida e comovida a
nossa cidade, guarda de antigas memórias, e que no entanto se renova no
trabalho e na indomável atividade, quanto acredita que entre vós, nossos
irmãos, um pequeno núcleo povoado ostentará o nome inaugural de “Novo
Milão” Ótimo e grande seja este auspício romano: possa o nome da
patriótica cidade lombarda relembrar sempre aos colonos pioneiros da
Pátria Latina o dulcíssimo nome da Itália, que, em meio os mais sérios
trabalhos de colonização, é como se alçasse o espírito do trabalhador
italiano. Vínculos profundos e quase invisíveis - e por isso mesmo mal
compreendidos por aqueles que não sentem a grandeza do nome e da raça
latina - são estes que ligam os italianos daqui e de do oceano. Possam
estes laços estreitar-se sempre mais e fazerem-se sempre mais firmes de
forma que a grande pátria latina possa da mesma forma ditar - de acordo
com as suas seculares tradições - a sua inteira palavra pacifica de justiça e
de liberdade ao povo do mundo. O secretário geral, E. Pizzagalli. O
intendente, Sen. Mangiagalli.
130
Fica clara a soldadura pretendida por Mussolini, restabelecendo a paternidade
de origem, nela está embutida a idéia de que os pequenos cleos coloniais, que
originariam às cidades do século XX podem ser réplicas das cidades de origem,
desmanchando a possibilidade de singularização do processo imigratório. Uma
appartenenza perfeita que se refaz onde e quando houver italianos espalhados no
mundo.
131
De acordo com essa lógica, os acontecimentos com a família real italiana
devem enlutar os súditos, quando em 7 de janeiro de 1927, a consternação cobre a
"colônia" italiana: morre a rainha-mãe Margarida. O Cav. Julio Bozano, recebe as
condolências no consulado. As bandeiras voltam a tremular à meio-pau em todos os
consulados, nas sociedades italianas e na filial do Banco Francês e Italiano.
132
Luto à parte, esem pleno curso o que os analistas definem como anos de
grande ilusão ou falsa prosperidade, guiados pelo industrialismo e pela sociedade de
consumo, uma vaga idéia de que o poderia haver outra catástrofe como uma
4
nova guerra européia. É a fase que os historiadores denominam de “declínio da
hegemonia Européia”.
133
Para José J. de Andrade Arruda haveriam três ‘fatias’ no período após a
grande guerra. O primeiro período, de 1919 a 1924-28, caracteriza o desejo de todos
os países europeus envolvidos que
procuraram liquidar os resquícios deixados pela guerra [...]; 1924-28 a
1931-33, com o grande surto de prosperidade, que trazia no seu bojo os
elementos da crise detonada nos Estados Unidos em 1929; de 1932-33 a
1939 [...] esforço coletivo para superar a crise, desenvolvendo práticas
intervencionistas jamais utilizadas até então.
134
Entre 1926 e 1928, o Correio do Povo ainda publica a ofensiva do Kuomintang
que inicia, em 1926, a luta contra os Senhores da Guerra na China, após, rompe
com os comunistas, culminando com o grande massacre de Cantão, em junho de
1927.No Tratado de Rapallo, em Berlim, são renovados os acordos anteriores, em
24 de abril de 1926. A Alemanha é enfim admitida na Sociedade das Nações.
Em 1927, na Itália de Mussolini, é tempo de radicalização na política de
emigração. Ainda assim, causa estranheza ao embaixador da Itália no Brasil, de
acordo com o discurso feito em São Paulo e publicado pelo Correio do Povo em
março de 1928, a diminuição da corrente emigratória para o Brasil. Afirma:
Com efeito, o seu número reduziu-se a menos da metade de 1901 até a
presente data, com evidente repercussão em nossa economia. A
responsabilidade desse fato cabe exclusivamente aos nossos governos
que, até hoje, não souberam ou não quiseram encontrar uma solução
harmônica com os nossos interesses, para resolver o importante problema
imigratório. A maneira por que tem sido até agora encarada a questão,
tem servido para enriquecer os negocistas sem escrúpulos, as empresas de
propaganda contraproducente, sem quaisquer garantias para o País.
Nenhum outro país da América oferecerá, talvez, melhores condições ao
imigrante. Eles, porém, o ignoram completamente. A maioria dos que
aportam ao Brasil, vítimas dos intermediários, daqui saem, logo que
podem
, levando a pior impressão. Era já tempo de procurarmos meios
mais eficientes de atrair o emigrante, de sorte que pudéssemos
sub-nacionalizá-los e ao mesmo tempo oferecer-lhes garantias que os
5
fixassem no território nacional.
135
Não apenas os italianos estão deixando de emigrar para o Brasil, como
acirram-se os ânimos dos grupos políticos ligados à disputa ideológica italiana, que
repercute também em Porto Alegre.
O que terá levado à agressão contra o Consulado Italiano na cidade, em 29
de agosto de 1928, senão um episódio dessa disputa transposta para a cena
brasileira, muitos devem perguntar-se ao ler as notícias do Correio do Povo, ”ofensa
grave” que acaba de ser cometida contra o consulado: a placa do mesmo amanhece
coberta de “imundície”. O vice-cônsul Giulio Bozanoapressa-se em comunicar ao
sub-chefe de Polícia, Valentim Aragon, o ocorrido. Desconfia ser um atentado
antifascista, o que leva a autoridade a intimar e interrogar Carlos Gati e um outro
membro do Comitê antifascista. Nada pôde ser apurado e foram liberados.
136
A notícia circula rapidamente na cidade, mas as investigações ocorrem no
maior sigilo, exceto, evidentemente, a convocação do líder antifascista por Valentim
Aragon. O prédio fica sob a guarda policial.
Em 4 de setembro outra investida, desta feita, contra o cônsul. O caso
aparenta não ter conotação política, é antes, de como as relações entre o consulado
e “os súditos” são verticalizadas.
O Correio do Povo narra que o consulado geral da Itália muda-se após a
chegada de seu novo regente, deputado Manfredo Chiostri, indo para a rua dos
Andradas n. 766. No mesmo, residem o cônsul e Guilherme Gobbi, funcionário do
consulado.
No dia da limpeza de Paulina Correia da Silva, que, corriqueiramente, faz nos
últimos 15 anos, um “sujeito“ à custa de dinheiro ou de violência tenta,
desesperadamente, falar com o cônsul. Lutaram e Paulina acabou por ser
6
amordaçada. Ao entrar no prédio, o sujeito “desconhecido, de cor morena, sem
bigodes, de regular altura e mal vestidofoi afugentado pelos cães perdigueiros que
o cônsul utilizara em caçadas na véspera. O nsul então se conta do que está
ocorrendo, liberta Paulina e não hesita: imediatamente comunica o fato às
autoridades policiais, bem como à Oswaldo Aranha, Secretário do Interior e ao
embaixador da Itália junto ao governo brasileiro.
Um soldado da Brigada Militar foi destacado para fazer a segurança do
consulado. ”O caso prossegue com o delegado Valentim Aragon, prendendo Antonio
Campagna, conhecido por suas idéias anti-fascistas, e que no interrogatório não foi
reconhecido por Angelina.”
O episódio rende solidariedade dos Cons. Julio Bozano e Gino Botocchio,
respetivamente vice-cônsules em Porto Alegre e em Bento Gonçalves. “Falando aos
representantes da imprensa, declarou o Dr. Chiostri estranhar o ocorrido, pois não
tem aqui nenhum desafeto, vivendo com a colônia na mais perfeita harmonia.”
137
Em nome do corpo consular, Humberto Bidone, decano do referido corpo e
cônsul geral da Argentina, solidariza-se, mas a maior solidariedade parte do Fascio
Carlo del Prete. No dia seguinte eles compareceram em grande número, “de todas
as classes sociais da colônia”, fazendo, ao chegarem ali, ”a saudação à romana,
com o qual correspondia o representante da nação amiga.”
138
As palavras do cônsul foram contundentes ao salientar que era, de fato, um
atentado em nível político, porque carece de inimigos pessoais.
Frisou no decorrer de sua oração que havia duas correntes, sendo uma do
bolchevismo da Rússia, que é, naturalmente, a que pretende bolchevizar
este ou aquele país com as suas idéias; a outra, porem, era o fascismo, que
agia somente na Itália, que surgiu visando honrar a política nacional, pondo,
sem dúvida, um forte dique ao bolchevismo, quando ele quis penetrar na
sua pátria. Não foi ele constituído para se combater a burguesia, mas sim
para evitar as lutas entre o capital, e o trabalho, reconhecendo que um não
pode viver sem o auxílio de outro. Por meio desse programa, dessa "Carta
Del Lavoro" que todo o mundo reconhece como uma das melhores obras do
fascismo, ficou assegurado o justo valor á cada indivíduo. E, uma vez
7
harmonizando-se todas essas classes, é justo se esperar o bem estar de
uma nação como a Itália, que está ressurgindo forte, coesa para os grandes
destinos da humanidade.
139
A paranóia do cônsul justifica-se. O clima internacional é de intranqüilidade. O
Correio noticia, em 1929, o Acordo de Latrão, que cria o Estado do Vaticano, pondo
trégua na polêmica histórica entre o Estado italiano e a Igreja Católica.
Mais noticias sucedem-se, como as da sede da bolsa americana, o Crack em
1929 precipita a crise de superinvestimento e de subconsumo que chega ao seu
limite. Por maior que seja o leque de intérpretes da crise, ex-post, o fato é que urge
realizar o que ficara pendente desde as tratativas de paz pós-guerra, no sentido da
transformação do capitalismo. Na Itália e na Alemanha “o projeto de reestruturar as
relações capitalistas acabaram evoluindo para o nazismo e fascismo”.
140
Em 1929, as eleições presidenciais na Alemanha dão a vitória a Hindenburg
sobre Hitler no segundo turno. Em 1931, a moratória das dívidas e reparações da
Primeira Grande Guerra, a Alemanha fecha seus bancos e interrompe os
pagamentos, abandonando a SDN. Em 1933, Hitler é chamado para organizar o
governo. As primeiras medidas são no sentido de colocar o Partido Comunista
alemão na ilegalidade, criar uma polícia secreta, a Gestapo e ocupar os sindicatos.
Tais acontecimento são acompanhados, ainda em 1931, pela proclamação da
Segunda República na Espanha, pelo abandono da SDN pela Alemanha e pelo
Japão que invade a Manchúria em 19 de setembro.
Já a política econômica americana, depois da crise da bolsa, vai noutra
direção. Em 1932, nos EUA, é eleito Roosevelt que inaugura o New Deal com as
receitas do economista Keynes, em 1933. É um novo projeto de arranjo entre a
sociedade e o estado sob controle disciplinar da produção capitalista, onde são
implantadas as diretrizes de descolonização, descentralização e disciplinaridade.
141
8
Um parênteses para tratar da dinâmica da política brasileira no período entre
1930 e 1937 e, a partir daí, estabelecer o trânsito de idéias e indivíduos estrangeiros
como segue nas próximas seções.
Referimo-nos ao processo nacional que repercute diretamente na
reorientação da política brasileira frente ao estrangeiro e a avaliação sobre a
continuidade ou não, da colonização e imigração estrangeira no país.
Os pontos principais dizem respeito à ruptura da aliança que vigorara entre as
oligarquias da economia agro-exportadora brasileira nos Estados de São Paulo e
Minas Gerais, com a emergência de novos atores sociais na cena política. Em 1930,
um novo alinhamento político rompe com a chamada “política do café com leite”,
assim chamada a alternância no poder central entre as tradicionais oligarquias
paulistas e mineiras. A crise da Bolsa terá seu papel nisso, tanto para enfraquecer a
base da monocultura de exportação que impõe a direção política nacional, quanto
para fortalecer novas camadas. Principalmente, as urbanas e os setores militares,
bem como as linhas de força que repetem no país, a disputa ideológica no ocidente
europeu, buscando outros projetos para o desenvolvimento nacional. Vai
destacar-se aquele que propõe o nacionalismo na cultura, a construção do homem
brasileiro e o reforço da modernização da sociedade.
Em 1930, sela-se uma coalizão inédita para os parâmetros da política rio-
grandense, de acordo com a história da formação do Estado do Rio Grande do Sul,
desde sua ocupação. Unem-se as forças políticas em torno de um novo líder, Getúlio
Vargas. Muita tinta já foi gasta para estudar o período e sua composição de forças.
Basta assinalar o que Boris Fausto denomina, “o Estado Getulista”,
142
entre
1930 e 1945. É simples: em 1930, os militares impulsionados pelo movimento
tenentista da década anterior, alinham-se aos interesses das camadas de técnicos
diplomados, de jovens políticos e de industriais, resultando em um novo bloco no
poder. O poder regional cede para o poder centralizador emergente, acompanhando
a tendência internacional de reforço do Estado para enfrentar os efeitos e desafios
9
da quebra da Bolsa de Nova York.
Para Fausto, esse Estado que emerge vai atuar politicamente atribuindo às
forças armadas o papel de suporte da futura indústria de base, necessária para
alavancar a industrialização. No plano econômico, vence o projeto industrializante,
mas que não se faz sem antes lançar uma legislação de proteção aos trabalhadores
urbanos, unindo em aliança a burguesia nacional, o aparelho de Estado e as Forças
Armadas.
No Rio Grande do Sul, é delicada a situação. Parece crítico manter o antigo
apoio que Flores da Cunha, em 1932, prestara à Vargas, ao contribuir para debelar a
oposição das oligarquias paulistas descontentes, unidas aos democratas em geral,
que pedem pela Constituição. Dentre esses, no Rio Grande do Sul, em 1932, estava
o partido liberal gaúcho, que sairia derrotado e verá exilarem-se as figuras de Raul
Pilla, Lindolfo Collor, Battista Luzardo, João Neves da Fontoura e Borges de
Medeiros.
A partir de 1935 tem início a ruptura entre Flores da Cunha e Getúlio Vargas.
Uma breve recuperação sobre as linhas de força político-ideológicas desses
anos traz de 1930 até o Estado-Novo, uma cartografia polarizada entre o
Integralismo da Ação Brasileira (AIB) de Plínio Salgado, o Comunismo da Aliança
Nacional Libertadora (ANL), na presidência de Roberto Sisson, entre o Nazismo e o
Fascismo com relativa adesão dos imigrantes, bem como entre o Liberalismo do
partido Libertador. A pretexto de combater o comunismo, Getúlio Vargas retarda a
democratização e, em 1935, implanta a Lei de Segurança Nacional, suspendendo as
liberdades de manifestação e reunião existentes. Esse foi um dos motivos da ruptura
entre a liderança nacional de Getúlio Vargas e a regional de Flores da Cunha, que
insurge-se em 1935; no entanto, o realinhamento da conjuntura política que vai
enfrentar termina por levá-lo ao isolamento do poder. Em 1936, Flores da Cunha
assiste quando Vargas aciona o Estado de Sítio no país, na ante-câmara do que
este faria em 28 de abril de 1937, no Rio Grande do Sul. Ensaio geral do que estava
I0
por vir com o Estado-Novo que estabeleceria as novas diretrizes nacionais.
Em 1937, Getúlio Vargas desarma ou neutraliza, uma a uma as forças
políticas predominantes na década de 30. Mais centralização, mais modernização da
infra-estrutura industrial e menos sociedade civil, essa é a nova cartografia das
alianças políticas regionais com o poder central.
O Estado-Novo será um poder autoritário e centralizador, que facrescer a
economia no setor industrial, às expensas das liberdades democráticas. Os
imigrantes serão duramente atingidos, os estrangeiros verão ameaçados seu
patrimônio, dentre eles, o cultural quando interditada sua liberdade de expressão na
língua-mãe. Muitos imigrantes não conhecem outra língua e os episódio bizarros
sucedem-se quando na cotidianidade das ruas buscam a comunicação mais
corriqueira.
143
Esse é o cenário onde transcorrerá a vida pública de Porto Alegre nos
próximos anos.
Antecedendo todos os últimos episódios, a tônica dos anos que antecedem o
Estado-Novo é o redirecionamento da política externa italiana em relação aos
italianos emigrados e de prestígio. Desde 1923 os italianos que podem traduzir sua
trajetória pessoal em prestígio para a Itália fascista serão homenageados com a
benemerência da “Estrela do mérito ao trabalho de acordo com a estratégia de
conquista comercial e ideológica das colônias all’stero. Um exemplo é a notícia de 7
de junho de 1931 sobre a entrega da benemerência para vários ilustres imigrantes.
[...] por decreto real de 30 de dezembro de 1923, a fim de premiar os que se
destacam pelo seu assíduo e inteligente trabalho. Os estrangeiros
destacados são homenageados pelo governo fascista, pelo decreto de 4 de
setembro de 1927, uma iniciativa do Ministro dos Negócios Estrangeiros [...]
em número não superior a trezentospor ano. Este ano, s. m. o rei da Itália
dignou-se conferir tal benemerência a quatro cavalheiros residentes em
nosso Estado: Srs. Rocio Galo, Aristides Germini, Pedro Mocelin e Januario
Scalzilli [...] A entrega solene ocorre no sábado, 25 do corrente, no
I1
Consulado Geral da Itália.
144
A notícia a seguir, demonstra o trânsito dos representantes do governo
italiano sempre com a deferência que a hierarquia diplomática exige, contando com
a receptividade dos círculos de distinção apropriados. Os mais notórios espaços de
realização das práticas sociais de reconhecimento recíproco são as sociedades
étnicas. Em decorrência desse quadro geral, a sociabilidade das comunidades
italianas é transpassada pelos conteúdos ideológicos que, conjunturalmenre,
solidarizam as elites locais à política italiana all’estero, sobressaido-se, no período, a
tentativa de penetração da ideologia fascista e sua luta por amalgamar as trocas
sociais entre os italianos da cidade.
A Casa dos Italianos recebe em 1931, Piero Parini, diretor geral do Ministério
das Relações Exteriores da Itália. O motivo da vinda desde Roma é visitar as
coletividades italianas residentes na América do Sul.
A visitação inicia pelo Rio de Janeiro, depois Belo Horizonte e São Paulo. O
programa que o espera em Porto Alegre é idêntico aos anteriores ocorridos naquelas
capitais. Sob a direção do nsul geral, Cav. Manfredo Chiostri, os presidentes das
sociedades italianas e autoridades organizam, em princípio, recepção no cais do
porto, recepção da “colônia” na Casa dos Italianos, à rua da Misericórdia e banquete,
no salão da Confeitaria Rocco, com as devidas autoridades presentes ao evento.
Com inscrição no Consulado Geral da Itália e na Casa dos Italianos, a elite
italiana local se refletida na comissão de festa, mas não a intelligentzia
porto-alegrense. É uma amostra, no entanto, representativa dos bem-sucedidos
italianos, compreendendo vários ramos da economia da cidade. Os nomes, a
maioria de descendentes ou oriundi, mesmo do norte da Itália, se repetem nas
festividades e eventos envolvendo a diplomacia italiana. Vale o registro: Giulio
Bozano, Bianca Benoni, Francisco Benoni, Duilio Bernardi, Giuseppe Corsi, Raffaele
Gaspari, Italo Giaccioli, Giuseppe Leonardi, Lorenzo Lotti, Carlo Lubisco, Giov. Batt
I2
Minozzi, Giovanni Monti, Angelo Perone, Angelina Piccoli, Natale Piccoli, Giovanni
Brenna, Giuseppe Ricaldone, Cesare Boarani, Vittorio Scatizzi, Nicola Soriero, Pietro
Boratto.
145
Um intervalo para situar as complicações enfrentadas pelo Correio do Povo
ano de 1932: em março, a política nacional entra em ebulição com a perspectiva de
nova revolução com sede em São Paulo, a qual o jornal não intenciona apoiar. No
contexto latino-americano verifica-se o início da Guerra do Chaco.
Internamente, mudanças significativas no jornal: o redator, André
Carrazzoni, deixa a direção em 14 de julho, vai para a capital federal e de lá continua
a escrever para o Correio do Povo. Permanece na Diretoria Alexandre Alcaraz e o
jornalista Arquimedes Fortini comemora “Jubileu de Prata”.
Como Carrazzoni, pode-se dizer que Fortini fazia parte da intelligentzia local
naqueles anos.
146
A grande notícia na cobertura do Jornal em relação ao trânsito do corpo
consular, é a vinda, em 1932, do Embaixador da Itália junto ao governo brasileiro
Cav. Vittorio Cerrutti. O fato mobiliza a “colônia” pela extensa programação embutida
na sua missão diplomática.
O Correio do Povo utiliza umanarrativa que ensaia um jornalismo neutro. O
interessante quanto ao estilo da narrativa, é que os diálogos são apresentados de
modo que o leitor sinta-se presente à cena, não cabendo ao narrador-jornalista
nenhuma voz narrativa ativa. O resultado são matérias longas, detalhadas, onde se
mescla a narrativa do falante com a do jornalista, por vezes confundindo o leitor, que
não sabe se esdiante da mera transcrição de texto ou se está na presença da
interpretação narrativa.
Assim, acompanhemos a agenda do embaixador. Chega de avião,
desembarcando no cais do porto, onde está sendo esperado. Estará hospedado com
I3
as honras de convidado do Estado, no Grande Hotel. Com este, são três
embaixadores em curto período de tempo a visitar o Estado.
[...] O primeiro foi o conde Bostari, o segundo o barão Luiz Montagna, que
aqui esteve, em 1925, por ocasião da Exposição do Cinqüentenário da
Colonização Italiana e o último, agora o Cav. Cerruti. Além desses altos
diplomatas, tivemos ainda a
visita
, em 1918, de uma embaixada italiana
chefiada pelo ex-deputado Vito Luciani [...].
147
A programação envolve as sociedades italianas e as escolas por elas
mantidas; ao interventor do Estado, sempre com a previsão de retribuição da visita,
cabe recepcionar o corpo consular e a “colônia” italiana. previsão de visitas do
embaixador aos secretários de Estado, comandante da Região, arcebispo e prefeito.
Estão agendados bailes e banquetes oferecidos pelo governo, visita ao quartel do
Comando Geral da Brigada Militar e passeio pela cidade.
Nas visitas aos estabelecimentos industriais e comerciais temos uma amostra
da representatividade dos italianos aqui estabelecidos, ocasião em que os acordos
comerciais são reafirmados. o visitados, entre outros: Dal Molin Mulino
Esperança, Molino Rublo, Domenico Vigna, Distillaria Scalzilli, José Florini, Marmi,
Cipriano Michaletto, Oficina Machanica, Banco Ítalo Franceze per I’America del Sud.
O excepcional, no itinerário, é a visita, em trem especial, à Caxias afim de
acompanhar a Festa da Uva, assistida pelo Palácio do Governo.
Com alguma variação, a cena por onde circula o embaixador é a que
acontece na Sociedade Italiana Principessa Elena di Montenegro, quando após o
aluno Termignoni, falar, discursa Pasquale Santoro, saudando o amor pela pátria
distante. Quando o embaixador responde, seguindo as diretrizes da política externa
italiana, não deixa de frisar:
[...]
filhos
de italianos a que tudo fizessem para se tornarem os melhores
cidadãos do Brasil [...] que o amor constante à pátria longínqua não exclui o
amor profundo e sincero à segunda pátria adotiva, ao Brasil, pois um e outro
desses sentimentos se correspondem e se fundem na mais perfeita
I4
harmonia.
148
O grupo que acompanha o embaixador é seleto, composto, entre outros pelo:
Cav. Giacomo Ungarelli, regente do consulado; cav. Julio Bozano,
vice-cônsul; Dr. Gino Battochio, vice-cônsul em Bento
Gonçalves
; Dr.
Lorenzo Lotti, fiduciário do Fascio Carlo del Prete; o Coronel Orestes
Carneiro da Fontoura, oficial posto à disposição de s. Ex.a. pelo governo do
Estado [...].
149
Hinos patrióticos não faltam, por onde circula e no club Canotiere Duca Degli
Abbruzzi o aguarda uma demanda feita pelo presidente, Raphael Guaspari, “[...]
apela para o estabelecimento de uma linha de navegação entre Gênova e Rio
Grande, iniciativa que seria recebida como um meio eficientíssimo para estreitar,
ainda mais, os laços de afeto existentes entre as duas grandes pátrias [...].”
150
Encerrou o embaixador, a série de suas visitas indo ao consulado geral da
Itália, para receber os componentes do Fascio Del Prete e das Associações de
Ex-Combatentes e de Ex-Oficiais Italianos.
151
No dia seguinte o Correio do Povo publica artigo onde estão reafirmadas as
recíprocas vantagens que os dois países auferem, na continuidade da emigração
[...] Por uma espécie de lei de compensação, entre os velhos países e os
países jovens, em plena fase de formação econômica, se opera uma
contínua permuta de valores sociais, de que é índice a deslocação da mão
de obra. [...] vantagens recíprocas, tanto de ordem material como moral.
152
A impressão que leva da visita, é publicada na capital federal, no Jornal do
Brasil e reproduzida no Correio do Povo. Tanto quanto pregara que os italianos
fossem bons brasileiros, parte com a impressão de que o Estado brasileiro é atento
com os próprios, pois uma vez que mesmo sem ser divulgado previamente, com
relação às habitações de colonos: “[o tratamento] observei que não pode ser mais
I5
elevado. por toda a parte escrúpulo higiênico nas habitações dos trabalhadores,
que obedecem às exigências mais modernas de assistência social [...] ”.
153
Além das funções de intercâmbio entre o Brasil e a Itália, o cônsul na cidade
pode realizar casamentos. Com o consulado já instalado na praça Montevidéu, n. 29,
o que surpreende neste casamento realizado em 11 de agosto e que chama a
atenção do Correio do Povo é o ineditismo do enlace oficial de registro civil, oficiado
pelo Cônsul Geral da Itália, com. Mario Carli:
[...] dois expoentes da colônia italiana: o marques engenheiro Vittorio
Scatizzi com a senhorita Bianca Benoni, filha do
conhecido
médico-cirúrgico dr. Francisco Benoni. A cerimônia assistida pelas
testemunhas e parentes mais próximos dos noivos, desenvolveu-se no mais
rígido cumprimento de estilo fascista [...].
154
O entendimento entre a Itália, seu governo e as sociedades étnicas no
exterior deixa transparecer dificuldades como a interrupção do diálogo entre o
representante italiano e as lideranças locais, ocorrido em 1933. A harmonia nas
relações entre o cônsul em Porto Alegre e as sociedades italianas é habilidade
rompida, ao ponto da remoção do cônsul ser a única atitude do momento. Os
motivos são desencontrados, pela cobertura do Correio do Povo concluímos
tratar-se da inabilidade política do cônsul em respeitar a autonomia das sociedades
italianas, independentes de Roma.
A retirada de um cônsul é assunto delicado, mais ainda a chegada do
próximo, que vem com a missão de refazer o tecido comunitário rompido na
conjuntura politicamente radicalizada.
Em 13 de março de 1934 chega em Porto Alegre, pelo vapor “Itapagé” da
Companhia Costeira, o Cav. Américo Gigli, vice-cônsul da Itália em São Paulo, que
vem assumir as funções de regente do Consulado Geral da Itália no Rio Grande do
Sul, substituindo o comendador Mario Carli. Este, embarca no dia 15, após dois anos
I6
de trabalho no consulado, desgastado com a “colônia“ italiana local.
Ao chegar, o regente Gigli, vai diretamente para o Grande Hotel, sendo
recebido pelo jornalista Rivelli, que há algumas semanas se encontra em Porto
Alegre em missão do governo italiano junto ao governo brasileiro. Rompendo com o
rito de recepção aos diplomatas, as sociedades italianas não se fizeram representar,
enquanto o comendador Mario Carli não partisse. Apenas depois é que iriam,
incorporados ao consulado cumprimentar seu novo representante.
Dias após, em visita ao jornal Correio do Povo, o novo regente manifesta vir
imbuído do desejo de congregar a colônia, bem como trabalhar pela aproximação
entre o Brasil e sua pátria. O Cav. Gigli, fez ainda uma visita às oficinas do “Correio
do Povo”, sendo-lhe dadas informações sobre os diversos departamentos do jornal.
155
Efetivamente, a troca de nsul ocorre em maio, quando, pelo mesmo vapor
"Itanagé", chega o comendador Guilherme Barbarisi. Agora, os representantes da
colônia italiana o aguardam no cais. Vai ser hospedado no mesmo Grande Hotel.
Sua carreira enquadra-se no novo perfil consular pretendido por Mussolini, qual seja:
nascido em Caserta, em 19 de agosto de 1890, formado em ciências econômicas e
comerciais no ano de 1922, em Roma. Concursado na carreira diplomática consular
inicialmente é destacado para Tunis, no ano de 1925. Ao ser promovido a vice-
cônsul de segunda classe, em 1926, é enviado a São Paulo, onde permanece dois
anos. Como cônsul de terceira serve em Mendonza, na Argentina e por mais dois
anos em Charleroi. O cônsul detém a condecoração da Cruz do Mérito de Guerra.
O cônsul ao demonstrar habilidade com a colônia de Porto Alegre, inaugura
um largo período de tranqüilidade. Uma recepção programada pelas sociedades nos
salões da Confeitaria Coroa demonstra o apreço de todos por Barbarisi. Como é
costume, uma hora de arte é programada: “a soprano Sra. Elsa Barsini e o tenor
Antonio Porcello, que foram muito aplaudidos. A linda festa em homenagem ao cav.
I7
Gigli e sua exma. consorte constituiu uma bela página social”.
156
Mas se reina a paz no consulado, as notícias internacionais causam
inquietude. O Correio noticia os 13 milhões de americanos desempregados nos
EUA. Roosevelt anuncia a “Política de Boa Vizinhança”.
Enquanto isso, Hitler acumula as funções de Chanceler e Chefe de Estado.
Tem início o III Reich. É assinado o pacto de não agressão, pelo período de dez
anos, entre Polônia e Alemanha. Em 1935, são divulgadas as Leis de Nuremberg
“para a proteção da raça e da honra alemãs”. É feita a queima de livros proibidos e
iniciam as perseguições aos judeus, com a instalação do primeiro campo de
concentração. O partido Comunista Alemão é posto na ilegalidade, cria-se a
Gestapo, com ocupação das tropas de assalto do partido nazista e os dirigentes
sindicais são enviados para campos de concentração.
Neste ambiente, em 27 de julho de 1935 com. Guilherme Barbarisi anuncia o
apoio para duas efemérides: o "Dia do Colono" e o Centenário Farroupilha. Diante
da presença de italianos na formação do Rio Grande do Sul, na epopéia de
Garibaldi, perfila o italiano e suas virtudes:
Um grande orgulho e uma grande alegria de mim se apossam quando vejo
que entre os colonos inúmeros compatriotas meus, que honrando as
qualidades esplêndidas da raça, pioneiros e construtores da riqueza,
fizeram-se beneméritos tanto para a nova Pátria que os acolhe como para a
grande Pátria de origem. Consagrando a fadiga fecunda dos soldados da
terra o "Dia do Colono" consagra ao mesmo tempo as grandes virtudes
características do italiano: indomável instinto, de progresso, operosidade,
sobriedade. Associando-me às manifestações dos organizadores da
consagração do colono, levanto o meu braço para saudar romanicamente o
Herói da Terra que sobre o sulco do arado embebido com seu másculo suor
olha serenamente impavidamente para o futuro, cônscio do seu papel
magnífico e da sua nobre missão [...].
157
Dois anos após, o Com G. Barbarisi está de partida do Rio Grande do Sul e é
homenageado no Hotel Carraro, retardando-se alguns dias para recepcionar o novo
I8
cônsul, como manda o protocolo.
Faz a saudação Damaso Rocha, promotor público. A Comissão encarregada
das homenagens é composta por Elyseu Paglioli, Dante de Laytano, Ernani Fiori e
sr. Emilio Baldino.
158
Damaso Rocha discursa, dialogando com o cônsul:
Exaltando nos italianos aqui radicados, o sentimento de civismo, não
esquecestes nunca de entrelaçar a saudade e o amor pela pátria de origem,
com o amor e o respeito pela terra que os acolheu [...] despertava também
com o mesmo amor, os sentimentos de caridade no coração dos italianos
do Rio Grande, promovendo uma coleta e doando mais de cem contos de
réis à benemérita instituição do Sanatório Belém. [...]. Particularmente
calara a ação do cônsul [...] ao afirmar o direito dos povos que é o mesmo
direito de Roma sobre o arbítrio e a violência [...]. O manifesto redigido e
lançado àopinião pública
assinalou
a intensificação do movimento de
simpatia na Itália para essa grande República, tendo como conseqüência a
fundação em Roma daquela aristocrática associação de alta
intelectualidade denominada: "Amico del Brasile", presidida pelo gênio de
Marconi e de outras personalidades italianas [...].
159
resta ao cônsul, agradecer e receber do historiador Eduardo Duarte, um
pergaminho assinado por todos os que aderiram às homenagens prestadas. O
cônsul ainda evoca as maiores figuras da Itália afinadas com a revolução farroupilha
que “mostrou a identidade de espírito itálico nos feitos épicos da nossa
nacionalidade”. Encerra pelo Correio do Povo, Renato Costa que enaltece a amizade
do cônsul, sempre amigo dos jornalistas “e homem representativo da Itália
contemporânea”.
160
Em julho de 1936, o Correio noticia o início da Guerra Civil Espanhola e a a
vitória das frentes populares na Espanha e França. A Renânia é retomada por Hitler.
A criação do eixo Roma-Berlim é selada. Alemanha e Japão fazem o pacto
anti-Kominern.
Em 1937, aprofunda-se a Grande Depressão. O Japão lança ofensiva contra
I9
a China. No Brasil, ocorre a implantação do Estado Novo.
mudanças no consulado em Porto Alegre e Emílio Kemp, do Correio vai
homenagear o comendador Guilherme Barbarisi, cônsul que depois de três anos é
transferido em 1937, incorporando-se, assim, às homenagens da colônia italiana. O
banquete foi realizado, no grande salão de festas da Sociedade Dante Alighieri. A
elite estava presente, como em outras importantes ocasiões.
161
Três dias após, o Correio do Povo noticia a vinda do novo cônsul. Este traz
uma mensagem especial, o agradecimento pelo apoio do Brasil contra as sanções à
Itália em 1937. O roteiro da narrativa é conhecido. Primeiro a chegada a bordo do
vapor "Itaguassú", o Cav. Sanvicenzo Magno vem para assumir o cargo de cônsul
da Itália. A recepção é composta pelos conhecidos integrantes da colônia e do
fiduciário do Fascio local, tenente Chiapini. Desta feita hospeda-se no próprio edifício
do consulado:
A carreira do novo cônsul iniciara frente do Consulado Geral da Itália em
Nova York e era, pouco, chefe da Divisão Comercial para os países
transoceânicos junto do Ministério do Exterior e membro das comissões que
tecera os acordos comerciais entre a Itália, o Brasil, a República Argentina,
o Uruguai, a Colômbia, a Bélgica e demais países da Europa Oriental.
162
Como Barbarisi, foi também oficial combatente na Grande Guerra, nas
homenagens, suas primeiras palavras foram “de reafirmação do alto conceito em
que se têm o Brasil em sua pátria, mormente após a sua atitude decidida no caso
das sanções aplicadas contra a Itália”.
E como é tradição, “na Itálica Domus, à rua Misericórdia, nº 108, com a
presença dos membros da colônia italiana e amigos da Itália, terá lugar a cerimônia
do Cambio della Guardia entre o regente Cônsul Geral Comm. Guglielmo Barbarisi e
o seu substituto Commd. Sanvicenzo Magno”.
163
Encerremos esse trânsito diplomático com a certeza de que Porto Alegre é
0
palco privilegiado da política externa italiana direcionada às “colônias” no
estrangeiro. Esse interesse todo não corresponde, apesar da visibilidade que a
imprensa confere aos movimentos estratégicos, ao menor interesse pela sorte dos
imigrantes que continuam a chegar.
A escalada do fascismo faz suas vítimas, como o assassinato em 1924 do
Deputado socialista Giacomo Matteotti na Itália. O fato gera um clima contrário à
diplomacia em Porto Alegre por setores alinhados no combate antifascista. A
preocupação em atrair os italianos para a política pró-fascista e o desinteresse pela
sorte dos imigrantes que chegam fazem o corpo diplomático distanciar-se do italiano
não pertencente à elite da cidade.
3.2.2 Trânsito de imigrantes
Nos bastidores do Correio, voltamos no arco do tempo. Em 30 de agosto de
1920, depois de 19 anos de exílio são repatriados os restos mortais de Gaspar da
Silveira Martins, predecessor de Caldas Jr. no jornalismo.
O Correio do Povo, em de outubro entra no seu 26º ano de circulação e
Emílio Kemp que disputava a chefia de redação com Francisco de Leonardo Truda,
deixa o jornal para ir trabalhar no periódico Amanhã, no Rio de Janeiro, então capital
federal.
No contexto internacional uma modernidade avança sobre os costumes. O
Correio do Povo publica que as mulheres votam pela primeira vez, nos Estados
Unidos. Outra notícia boa é o surgimento do Jazz no país, que iria propagar o novo
gosto musical que repercutiria em Porto Alegre nesses anos.
A narrativa do Correio do Povo confere importância estatística à imigração.
Mas também analisa os prós e contras dela. É preciosista, divulga os nomes dos
navios, números e nacionalidades dos imigrantes, narrando os acontecimentos de
1
modo meticuloso.
A primeira matéria depois da Grande Guerra conta da recepção dos
imigrantes em Porto Alegre. Pela exemplaridade, está na íntegra:
Pelo vapor "Mercedes" chegaram, ontem, a esta capital 17 imigrantes
italianos, 15 alemães e 4 norte-americanos, formando um total de 8 famílias.
Com exceção dos norte-americanos, esses imigrantes são agricultores,
tendo trazido consigo instrumentos agrários.Tanto os alemães como os
italianos, são os primeiros imigrantes dessas nacionalidades que aqui
chegam depois da conflagração européia. A sua viagem durou mais de 60
dias, apesar do que todos eles apresentam aspecto vigoroso. Causou,
entretanto, desagradável impressão a todos quantos o observaram, o fato
ocorrido com esses imigrantes, que aqui desembarcando quase privados de
recursos não encontraram quem os recebesse ou lhes fornecesse, ao
menos, informações sobre o destino que deviam tomar, apesar de terem
sido encaminhados, para este Estado, segundo declararam, pela Diretoria
do Povoamento do Solo. Achavam-se esses imigrantes havia algumas
horas sem saber o que fazer, no trapiche do Loyd Brasileiro, quando um
empregado daquela empresa, se dirigiu ao primeiro posto, a fim de pedir
providências. Ali foi declarado que nada se podia fazer no caso, no qual não
cabia a intervenção daquela repartição policial. Comunicado o fato à
Inspetora do Povoamento do Solo, esta informou que não havia ordem para
receber os imigrantes. Apesar disso, depois de algum tempo, o Dr. Pedro
Virgílio Martins mandou um contínuo, munido de um cartão seu, incumbido
de obter hospedagem, em qualquer hotel, para os imigrantes. Ao mesmo
tempo, prometeu o Dr. Virgílio Martins à pessoa que o procurara telegrafar
com urgência ao Ministério da Agricultura solicitando auxílios para os
imigrantes por conta do governo federal.Nova dificuldade surgia assim
quando, avisado, compareceu ao trapiche do Loyd o professor Giovanni
Della Ragione, regente do consulado da Itália, o qual mandou hospedar os
seus compatriotas no Hotel Roma. Quanto aos alemães conseguiu-se que o
Hotel Ziegler os hospedasse até que amanhã se resolva sobre o destino a
dar-lhes.Merece ser salientado o fato de, enquanto não se decidia sobre o
rumo que deviam tomar os imigrantes, vários populares lhes haviam
oferecido, doces, café, sorvetes e comestíveis, que puderam ser adquiridos
nas imediações do trapiche do Loyd. Os imigrantes declararam que no Rio
de Janeiro aguardam embarque para o nosso Estado ainda umas 500
pessoas.Dado o lamentável fato ocorrido ontem, seria conveniente que em
tempo se tomassem as medidas necessárias para evitar a sua reprodução,
oferecendo aos que procuram a nossa terra, mais agradável acolhida no
momento em que aqui aportam.
164
O cuidado estatístico na notícia seguinte, é um exemplo do preciosismo
2
adotado pelo Correio do Povo:
Segundo os elementos coligidos pela Diretoria do Serviço de Povoamento,
verifica-se que no período de 1820 a 1912, entraram no Brasil, 3.576.275
imigrantes sendo 3.337.903, no período de 1820 a 1913; 82.572, em 1914;
32.206, em 1915; 34.003, em 1916; 31.193, em 1917; 20.501, em 1918,
37.898, em 1919./Por nacionalidades, esses imigrantes estão assim
descriminados: italianos, 1.378.876; portugueses, 1.021.291; espanhóis,
501.378; alemães, 127.321; russos, 105.225; australianos, 79.302;
turco-árabes, 55.120; franceses, 29.665; ingleses, 18.728; suíços, 11.376;
suecos, 5.502; belgas, 5.289, e diversos, 237.232.
165
Desdobrando os números, Ercole Sori comenta o debate interno italiano. A
frente socialista, contrária à emigração e que desde o Congresso de 1920 exortava a
todos para “não emigrarem, para manter elevada [...] a pressão proletária e socialista
sobre os poderes blicos e não prejudicar a luta dos companheiros das outras
nações [...]”.
166
Para eles, o que estava presente na manutenção da emigração eram os
interesses dos liberais italianos, que “com uma linguagem pseudo-internacionalista
(convida), a não respeitarem os vértices das conquistas proletárias em toda parte
onde estejam sendo tocadas”.
167
O quadro é ainda mais complexo a partir de 1921, quando os Estados Unidos,
para onde afluía a massa de imigrantes italianos, começa a estabelecer cotas,
crescentemente, restritivas. Na verdade, a restrição ocorrera em 1915, e fora
legalizada em 1917, com a Literacy Act, decisão que vetava a entrada de emigrantes
analfabetos.
3
Segundo Ercole Soli, os italianos cessam o caráter pendular da emigração,
tomam a decisão de fixar-se no país, dados os constrangimentos crescentes como
esse, dentre outros,da política migratória e dos novos interesses do mercado de
trabalho norte americano.
Fechado o mercado norte americano, a direção da emigração repete a
direção rumo à América Latina: Argentina, Uruguai e Brasil. Sendo uma economia
periférica e enfrentando a crise mundial dos últimos anos, problemas no mercado
latino-americano também. O Brasil, ainda em 1921, adota política de restrição da
imigração, introduzindo, em 1934, o sistema de cotas.
Mas a reviravolta anti-emigratória do fascismo se dá mesmo em 1927:
A nova política emigratória vem anunciada por Musssolini ao final de 1926
[...] Entre 1927 e 1929 foram suprimidos o Comissariato per l`emigrazione
substituído pela Direzione generale degli italini all`estero, o Consiglio
superiore e o Comitato permanente per l´ emigrazione; o Fundo emigrazione
foi incorporado no balanço do Estado e foram abolidas as
jurisdições
especiais para as controvérsias sobre matérias de emigração [Câmara dos
Deputados 1929, 508-11].
168
Na seqüência uma série de restrições são acionadas, até a proibição da
imigração.
169
Enquanto isso, nos bastidores do Correio do Povo que desde 1921 contrata
os serviços da agência americana Associated Press, começa a publicação do
noticiário internacional na primeira gina, sendo implantada reforma de paginação,
nos moldes do mais moderno jornalismo.
A notícia inquietante é o estabelecimento de cotas para imigrantes, de acordo
com sua nacionalidade de origem. Em 1921, 1924 e 1927 o aprovadas no
Congresso, leis que proíbem a imigração procedente da Europa Meridional, Oriental
4
e da Ásia.
O Correio do Povo publica, no plano internacional, que a Irlanda (EIRE)
conquista a independência, libertando-se da Inglaterra. E que os filmes de Charlie
Chaplin batem recorde de público, como novo lazer das multidões, ainda mais que
seus filmes estabelecem uma crítica ao taylorismo, aos ditadores e à emergência do
anônimo urbano na figura do vagabundo.
Voltando à cobertura da imigração, se imaginamos que os maus tratos aos
imigrantes que chegam, cessam de imediato, nos enganamos. Vejamos o que
ocorre em 21 de outubro quando chegam no vapor "Javary", 92 imigrantes de
nacionalidades alemã, italiana, russa, e tchecoeslovaca. Entre eles estão
agricultores e operários.
Não nenhuma autoridade encarregada de recebê-los, providenciar
transporte, alimentação, alojamento, o que for necessário. Como no caso anterior,
esperam anoitecer no trapiche do Loyd Brasileiro. São socorridos por passantes, que
fornecem doces e outros comestíveis aos que não tem como comprar mais nada. Os
imigrantes agricultores irão para o interior e os operários ficarão em Porto Alegre.
170
Diante das estatísticas, um jornalista do jornal “A União”, do Rio de Janeiro
pergunta (republicado no Correio do Povo):
É muito, é pouco? As estatísticas dão conta de que entraram no Brasil, de
1820 a 1920, 3.500.000 imigrantes [...]. É pouco
se
compararmos com a
Argentina, que recebeu, no mesmo período, 5 milhões, e com os Estados
Unidos que receberam 35 milhões. Nos Estados Unidos, um terço da
população é constituída por estrangeiros; na Argentina, a população de
estrangeiros é de cerca de cinqüenta por cento [...].Quer dizer que o Brasil,
para 30 milhões de habitantes, talvez não tenhamos 5 milhões de
estrangeiros. Por um lado, é um bem. Por outro lado, é um mal, porque o
nosso território é muito vasto e precisamos de quem cultive os nossos
campos.
171
5
Em 1923, o Correio do Povo estampa os termos da convenção entre a Itália e
o Brasil referente à emigração. Parecem, na teoria, razoáveis.
172
Examinando mais atentamente os termos do previsto, Angelo Trento pondera
que o que deveria ser um verdadeiro tratado, não passou de simples convenção,
através da qual os trabalhadores italianos adquiriram a mesma cobertura legal e
assistencial dirigida os brasileiros. “A novidade, porém era a cláusula que impunha a
obrigação, para quem quisesse receber trabalhadores italianos, de firmar acordos
com o CGE ou com instituições de assistência, como as sociedades Humanitária e
Bonomelli.”
173
Em 1924, o Correio do Povo redimensiona o espaço da política local e
nacional, que retornam às posições na primeira página. Anuncia a compra de um
aparelho de rádio-telefonia (receptor de rádio) para ajudar o serviço de noticiário
com escuta de estações localizadas em Montevidéu e Buenos Aires.
Apenas Leonardo Truda deixa o cargo de chefia de redação. Por causa de
uma crise de papel branco e cor-de-rosa, o Correio do Povo é impresso um único
dia, em sua história, em papel verde. Fernando Caldas, filho do fundador, retorna
aos quadros do Correio do Povo, como redator. ODiretor Alexandre Alcaraz entra
com petição contra a censura relativa às notícias da revolução de 1924, junto à
Justiça Federal, abstendo-se de publicá-las.
174
As notícias intranqüilizam. notícias de repatriamento nas estatísticas
italianas, em 1924.
As estatísticas completas para 1923, publicadas pelo Comissário Geral da
Emigração Italiana, indicam que durante o ano passado, o número de
emigrantes italianos aumentou em grande proporção, quer no que diz
respeito à emigração ultramarina quer continental. O movimento de
repatriamento ficou, pelo contrário, mais ou menos estacionário, o
acréscimo das repatriações continentais estando quase compensado pela
diminuição das repatriações transoceânicas. O número total dos emigrantes
italianos foi, em 1923, de 348.079, ultrapassando em mais de 100.000, o
número de 1922. No tocante àemigração continental italiana, a França
continua a ser o seu mais importante escoadouro (142.990 imigrantes
6
italianos em 1923, contra 85.815 no ano anterior). Nota-se também um
pequeno aumento da emigração italiana com destino aos demais países
europeus. As Information sociales, o semanário da Repartição Internacional
do Trabalho dão informações minuciosas sobre esse assunto.
175
Novas estatísticas brasileiras revelam, em 1925, que:
[...] segundo os dados apurados pela Diretoria Geral do Serviço de
Povoamento, entraram durante o ano findo, pelos diferentes portos, 98.125
imigrantes de 2a classe e de 3a classe, contra 86.679 em
1923
e 66.968
em 1922. [...] Em ordem decrescente aponta as nacionalidades: portuguesa
(28.267), alemã (22.108), italiana (13.844) espanhola (7.489), polacos
(2010) e outras. Segundo os portos: Belém, 1.154 pessoas; Recife, 951
pessoas; São Salvador, 842 pessoas; Rio de Janeiro, 40.711 pessoas;
Santos 51.300 pessoas; Paranaguá, 279 pessoas; Rio Grande, 2.602
pessoas.
176
Enquanto isso, desponta no noticiário, o surgimento da televisão nos EUA, a
qual revolucionaria a comunicação moderna.
O pouco caso com os imigrantes prossegue em 1926. A narrativa inicia
quando Arlindo Almeida, chefe da estação da Viação Férrea de Rio Grande recebe o
comunicado que um trem transportando imigrantes desde Santa Maria estava por
chegar. “[...] depois de viajar durante 35 horas e 50 minutos. Em 12 vagões, dos
quais 6 de passageiros e 6 de bagagem, viajaram, encerrados, 379 pessoas, entre
homens, mulheres e crianças, de nacionalidade ucraniana, constituindo 75 famílias.”
Resulta que foram atendidos, quando chegam por passantes, que alcançaram
alimentos aos famintos passageiros, enquanto os funcionários da estação
providenciavam alojamentos, assistência médica e a retirada do corpo de uma
criança de um ano que falecera durante a tenebrosa viagem.
177
Indignado, o Correio do Povo questiona, no dia seguinte:
Não sabemos a quem deva atribuir-se a responsabilidade principal dessa
original maneira de atrair e receber os elementos de que carece a nossa
agricultura. Caiba ela à Inspeção de
Povoamento
de Solo, às companhias
agenciadoras ou a quem quer que seja, o censurável abandono a que foram
7
deixados esses imigrantes, o caso é que tais fatos não podem
reproduzir, quando mais não seja por mero espírito de humanidade. Isso é
uma verdade incontrastável, embora dura de ser ouvida.
178
Em 1928, o Correio do Povo estampa as restrições estabelecidas por
Mussolini, com a manchete: "RESTRINGINDO E COMBATENDO A EMIGRAÇÃO
ITALIANA, O SR. MUSSOLLINI ACABA DE ESTABELECER AS CONDIÇÕES EM
QUE ELA SERÁ PERMITIDA”. Fica instituído o Ato de Chamada, pelo o qual todo o
italiano que vier à Porto Alegre, a partir desta data, somente poderá fazê-lo se
chamado por um parente, o que justificaria sua vinda. Assim acontece com os
entrevistados.
Outra exigência do Governo italiano diz respeito à pré-existência de um
contrato de trabalho que não exceda três anos, o qual seria possível apenas quando:
[...] corresponder aos seguintes fins essenciais - do marido para a mulher;
dos pais para os filhos que não sejam do sexo masculino ou de maior idade
ou casados dos dois sexos; do
filho
para seus pais; do irmão para a irmã
celibatária ou viúva, se esta não tiver outras pessoas da família no reino e
do neto para os avós.
179
A estatística que gera a preocupação é a existência de 9.350.000 italianos
residentes no estrangeiro, no ano anterior, contra 40.796.000 vivendo na Itália. “Com
todas essa peias não separa estranhar que venha a suceder o que, anos, se
registrou com os portugueses - crescer consideravelmente a emigração clandestina”.
180
Nova estatística, em 1929, confirma o que vinha sendo apontado: o Serviço
de Informações do Ministério da Agricultura comunica que somou em 1928, segundo
a Diretoria do Serviço de Povoamento, 82.061 entradas contra 101.568 que havia
somado em 1927. Aparece, desde logo, a redução de 19.507 alienígenas,
correspondente a 18,7%.
181
8
Nos últimos anos (1924-1928), o órgão anota ainda a mudança qualitativa do
fluxo migratório:
Enquanto as levas constituídas por alemães, espanhóis e italianos,
sobretudo, espanhóis e italianos acusam a redução que vai refletir em cheio
sobre o grande total, as levas constituídas por japoneses, poloneses, sírios
e portugueses, guardando o efetivo normal, avançam progressivamente,
realizando um ligeiro acréscimo.
182
Nada a estranhar, apenas, segue a análise que a Itália e a Espanha, que mais
vem diminuindo o seu contingente “é simplesmente a conseqüência do fenômeno
geral que a política dos governos de Roma e Madri procurando avolumar a
concentração de braços, busca orientar em proveito da nacionalidade, seja criando
embaraços á saída, seja facilitando os regressos.”
183
Os números são claros. No ano de 1924 somaram 98.125 imigrantes; em
1925, 84.883; em 1926, 121.569; em 1927, 101.568; e em 1928, 82.061.
184
reticências quanto à imigração decorrente da crise de 30. O Correio do
Povo publica desde 1931 matérias para estabelecer o debate sobre o tema.
Observamos os títulos e concluímos que acompanhavam a euforia nacionalista de
cunho autoritário que desembocaria no Estado Novo, em 1937.
185
3.2.3 Transitar entre culturas políticas
Uma breve introdução sobre o interesse dessa seção. A história social e a
história política retornam nos últimos anos com outro sentido. A narrativa de uma
história cronológica, fechada, com estatuto de verdade inatacável feita pelos grandes
homens foi duramente criticada e condenada pelos Annales, na França e também
fora dela, tornando-se uma postura internacional.
A nova historiografia vai apontar para uma história política afastada dessa
historiografia e René Rémond irá propor uma história que tenha em conta a cultura
9
política. Jean-François Sirinelli quer retornar à história política dos intelectuais para
além da noção de campo de Bourdieu, de tal forma que se possa estabelecer as
relações entre a produção e veiculação das ideologias, com a cultura política de sua
época.
186
Outra abordagem, igualmente criteriosa é a de René-Jean Dupuy, quando
pensa a cultura política e a cultura no plano epistemológico, como modo de
entrelaçar a experiência histórica concreta com a filosofia e a compreensão do
mundo pelo pensamento. No caso, quer estabelecer níveis de desvelamento mais
sutis entre o ideológico, o filosófico e o propriamente político.Dirá que:
Duce permite a conservação de estruturas que encobre com sua sombra:
mas encarna o Estado. Mussolini, jurista latino, contentava-se com a razão
de Estado que transformava, irresistivelmente, com muita retórica, em
absoluto, Todo o sistema fascista assenta nesta união indissociável entre
um homem que se reclama de si mesmo trago comigo uma experiência
vivida, experiência de chefe e não de doutrina”, e de um Estado que lhe
deve todo “o Estado, em Itália, é o fascismo”. Não foge às instituições;
conserva as antigas, como se conserva um museu: e as novas que lhe
devem a vida, incorpora-as no seu Estado É bem uma união pessoal que
instaura uma estatocracia entre as corporações e o fascismo.
187
Ainda que não levando muito longe tais idéias na iluminação da cena
ideológica da cidade nesses anos, consideremos essas observações no transitar da
cultura política na escala de um jornal, em determinado período, tendo como foco a
narrativa de italianos, principalmente do sul, para suspender qualquer leitura mais
ingênua.
De qualquer maneira, a cobertura do Correio Do Povo ao debate no período,
demonstra uma das facetas da historiografia da época entre guerras, a que somente
possibilita o entendimento com base em contextos maiores da política internacional
da época, como apontam Trento e Bertonha em suas pesquisas históricas.
Na leitura do jornal, como suporte, averiguamos que o debate foi intenso e,
0
gradativamente, foi obscurecendo a inserção dos italianos no espaço social e
político. E mais: o modo de ser, sua condição de vida, trabalho, prática religiosa, de
lazer, enfim o espaço social na dimensão da cotidianeidade urbana dos italianos
passa a ser apresentada apenas pela visão de uma elite estrategicamente jogando
com o que se revelaria a partir da conjuntura seguinte, nos limites do Estado Novo.
Essas são as notícias do Correio do Povo sobre guerra ideológica. Mas a vida dos
italianos, como dissemos, e, eles, os moraneses o dizem claramente - passava ao
largo de grande parte disso tudo.
O contraponto dessa ideologização da imprensa, é o próximo capítulo. Na fala
dos moraneses, no movimento de chegar à cidade, são dadas outras alternativas,
além das inscritas nas páginas do Correio.
Vejamos o que está escrito.
A Porto Alegre dos anos 20 oferece aos italianos que transitam várias opções
político-ideológicas, mas a mais registrada no Correio do Povo é a polarização entre
fascismo e anti-fascismo. Pelo trânsito intenso de autoridades e intelectuais que
visitam Porto Alegre em claro movimento de propaganda, a impressão é de uma
cidade de italianos cindida entre dois grupos ideológicos: a favor ou contra o
fascismo. O integralismo será a opção católica do antifascismo, mas não figura no
jornal com a densidade que realmente representou no período.
A simpatia por uma ou outra corrente ideológica não transparece nas notícias,
apenas nos artigos como os de Olynto Sanmartin e Fernando Callage, misto de
aprovação ao fascismo e adesão ao coorporativismo do Estado Novo.
Implementando a cena política, os estudantes inauguram as notícias. Pelo
Correio do Povo no dia 27 de maio de 1921 é divulgado a realização do Congresso
do Partido Republicano Federalista, no prédio à rua 7 de Setembro n. 55 A
1
representação de Porto Alegre é constituída por A. de Moraes Fernandes, Raul Pilla,
Araujo Cunha e Edmundo Velho Monteiro, Mario Amaro da Silveira e João Augusto
Schmidt. O Grêmio dos Estudantes Federalistas designa um delegado.
188
Em 18 de dezembro a Federação dos Estudantes Republicanos do Rio
Grande do Sul é reorganizada, sendo sua diretoria da Federação: A. J. Teixeira
Netto, presidente; Antonio J. de Castro Araújo Filho, vice-presidente; Oscar R.
Dornelles, 1o secretário; Hermenegildo Jaymes Varnieri, 2o secretário; José
Fredérico Wicker, tesoureiro; Reynoldo Heckmann, orador e Henrique Ribeiro
Saraiva, bibliotecário. o eles os acadêmicos da Escola Médico-Cirúrgica,
atendendo ao convite do dr. Teixeira Netto.
189
Um registro importante: no Correio do Povo é crescente o espaço aberto para
a divulgação da propaganda fascista e antifascista.
Em geral, os ideólogos buscam confundir a sociabilidade urbana com a
recepção do poder local estatal aos representantes do Estado italiano, o que apóia o
entendimento dos historiadores Trento e Bertonha de que houve uma tentativa de
envolver os italianos, principalmente a burguesia e a pequena-burguesia no projeto
fascista.
Os espaços de sociabilidade são continuamente requisitados para a
publicidade das idéias fascistas. Em 12 de junho de 1926, o Correio do Povo noticia
a conferência realizada no dia anterior, no salão do Palacete Rocco, de Erminio
Gugliucci, jornalista italiano, sobre "A Itália de hoje." O conferencista fez um
minucioso relato da marcha vitoriosa do fascismo até atingir seu estado atual,
concorrendo, poderosamente para o engrandecimento da Itália. Em seguida, fez um
demorado exame e descrição do Rio Grande do Sul, falando do vasto campo que
aqui se encontra aberto à atividade de seus compatriotas. O orador foi muito
aplaudido pelo numeroso auditório presente à conferência. “[...] Um dia antes,
2
realiza-se na sede do ´Comitê Dante Alighier´, uma reunião em que é eleito José
Corsi como presidente do Grupo Fascista Porto-Alegre”.
190
A reação não tarda pois um grupo de membros da colônia italiana de Porto
Alegre,delibera pela fundação de um grupo antifascista. Constituem o comitê diretor:
Amilcar Ferrari, Carlos Galti, Antonio Campagna, Aman Piattelli, Geremia Bini, Luigi
Superti, Afonso Diquigiovanni, Eugenio Zannini, Eriberto Piovesan, Enrico Gherard,
Ferrucio Piattelli e Arduino Bernardo. Nunca é excessivo lembrar a maçonaria
rio-grandense, através da presença no grupo do grão Mestre Marechal Carlos
Frederico de Mesquita. O nome adotado é "Giacomo Matteotti", homenageando a
memória do deputado italiano, que fora assassinado dois anos, na Itália,
presumivelmente pelos fascistas.
Realizam no Hotel Jung, sua reunião, com grande adesão e resolvendo pela
divulgação de artigos de propaganda na imprensa local. Interessa igualmente a
difusão da venda do jornal La Difesa, publicado em São Paulo. Uma idéia é a
publicação de um semanário da propaganda dos ideais antifascista, sendo seu
diretor escolhido o major Dante Pettinelli. A comissão organizadora do Centro
Antifascista Giacomo Matteotti pretende ainda efetuar a publicação de um boletim
semanal ou bimensal. A sede provisória funciona à rua dos Andradas, .1305, altos
da livraria Americana. A comissão vota seus estatutos.
191
A situação dos imigrantes interessa, igualmente aos fascistas e antifascistas.
Em função da situação de imigrantes evadidos do fascismo, a França sedia comitê e
envia representantes para conferir as condições locais de recepção no Rio Grande
3
do Sul. Em 1927, os antifascistas interessam-se em examinar diretamente as
condições de recepção oferecidas aos italianos. Vale o registro mais detalhado pela
representatividade do discurso do qual é portador, reproduzido, com pequenas
variações, pelos demais visitantes antifascistas que transitam em Porto Alegre.
Como os diplomatas, os intelectuais pertencentes às camadas ligadas à
circulação de âmbito internacional, recebem um tratamento especial na cidade.
Espaços sociais de freqüentação restrita são ocupados pelos discursos desses
intelectuais que vem para disputar a adesão das elites locais.
É o que se verifica em 3 de março de 1927, quando chega o jornalista
Candido Testa, arditti da Grande Guerra. Após ser recebido por simpatizantes e
membros do "Grupo Giacomo Matteotti", segue para o Hotel Jung no qual se
hospeda.
192
No dia seguinte, em visita ao Correio do Povo, esclarece os objetivos da sua
viagem. Trata-se do interesse da Comissão Antifascista, com sede em Paris e, do
interesse de Maximo Rocca, no momento o único deputado que se opõem ao
governo italiano, em averiguar as reais condições de transpor diversos milhares de
trabalhadores agrícolas e desocupados para o Brasil. A missão de Testa iniciara
pelos Estados de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, quando se encontrou com o
ministro da Agricultura e o diretor geral do Povoamento do Solo. No Rio Grande do
Sul, em Porto Alegre, pretende visitar várias autoridades, a iniciar pelo presidente do
Estado, Borges de Medeiros.
Na verdade, há certa solidariedade de interesses entre os antifascistas, o
Governo de Mussolini e o Governo francês, quanto a estancar a partida de
emigrantes para a França, evidentemente, por razões distintas. O fato é que as
causas da emigração dos anos recentes têm, na desvalorização da moeda, nas altas
4
taxas cobradas e nas perseguições políticas, a sua especificidade definida.
O Brasil afigura-se com possibilidade de recepcionar os emigrantes impedidos
de regressar à Itália, por motivos políticos.
193
O jornalista Candido Testa, em palestra no salão de festas do Club Caixeral,
com assistência de figuras como do marechal Carlos Fredérico de Mesquita, Attila
Salvaterra e Carlos Gatti, informa que, como representante do Comitê Antifascista
de Paris e da Liga dos Direitos do Homem, representa 300.000 italianos expatriados,
sendo 48.000 desempregados e desprotegidos do Governo de Mussolini, o qual trata
exclusivamente da emigração dos partidários do regime.
Para Testa, a França mantém sua posição democrática com eleições onde
vários socialistas foram eleitos deputados e senadores. Mas, para Mussolini,
desagrada a política francesa de recepção dos italianos. Em razão disso, busca um
incidente diplomático para justificar sua política, apesar da rejeição que sofre pelos
demais líderes europeus. Os atentados que teria sofrido, não passariam de mera
simulação para aumentar o seu prestígio. No caso refere-se a um linchamento
perpetrado por ocasião dos conflitos que reunira cerca de 100.000 pessoas quando
do presumido atentado sofrido pelo "Duce", onde o linchado ficou conhecido como o
“pequeno rtir de Bolonha”. O jornalista reforça sua argumentação citando a
definição de Manzini “herói, aquele que liberta, mesmo pela violência, os tiranos das
pátrias oprimidas e humilhadas [...]”.
194
Afirma que 1927 marca o fim de Mussolini, que está implicado no atentado e
assassínio do deputado socialista Giacomo Matteoti e nas tentativas de supressão
da maçonaria. A ausência de um guia seria a justificativa para a incapacidade
demonstrada pelos antifascistas, de destruir o “gérmen nefasto do fascismo”. Para
esta linha de interpretação da conjuntura política:
5
[...] a aurora de 1928 encontrará a Itália livre do “Duce” [...]. Tece um hino
de admiração ao Brasil e diz, dirigindo-se aos brasileiros: Vós tendes,
escritos em vossa bandeira duas
palavras
admiráveis: "Ordem e
Progresso". Nós, os italianos, proscritos, queremos escrever em nossa
bandeira tricolor: “Liberdade e Justiça”.
195
Duas notícias galvanizam a cidade em 1927, a entrada da Itália na Guerra e a
execução, nos EUA, de Sacco e Vanzetti, como ficaram conhecidos, anarquistas
italianos presos e julgados culpados de atividades políticas.
Um ano depois, os dois blocos ideológicos comemoram, cada qual a seu
modo, mais um aniversário da promulgação da Constituição Italiana.
Em abril, o Grupo Antifascista Giacomo Matteotti reunira-se para eleger nova
diretoria; em junho deposita no pedestal de Giusepe Garibaldi grande bouquet de
flores naturais, com um cartão provocativo:
O Grupo Antifascista Giacomo Matteotti, ao ‘Duce’ de camisas encarnadas,
Giusepe Garibaldi. Paladino da liberdade! Hoje, 46o aniversário de seu
passamento, hoje também aniversário em que foi a constituição da Itália
suprimida pelo ‘Duce’ de camisas pretas. Porto Alegre, 3 de junho de 1928.
196
Em julho de 1928, é o deputado antifascista, Conde Francisco Frola que
chega à Porto ALegre, no "Comandante Capela", vindo de São Paulo, onde se
encontrava há dois anos. A finalidade da visita, convite do Grupo Antifascista
"Giacomo Matteotti e da maçonaria rio-grandense, é debater sobre o regime político
italiano. A vinda inclui uma visita à região colonial. No clube Caixeiral, como Cândido
Testa o fez, profere conferência pública sobre o tema." A origem e o
desenvolvimento do fascismo. Ao partir, ruma para Rio Grande, onde faz uma
conferência, igualmente promoção da maçonaria local e, mais duas palestras em
6
Curitiba:
Anteontem, na sede da Federação Operária, à rua Jerônimo Coelho n. 40,
promovida por uma comissão, realizou-se uma
conferência
sobre o atual
regime fascista, na Itália. Fez-se uma conferência sobre "A atitude das
classes trabalhadoras e dos partidos avançados em face da calamidade
fascista" [...] o palestrante Florentino Carvalho, mais o conde Frola, Attila
Salvaterra e Carlos Ferreira participaram.
197
Vem, pela segunda vez em Porto Alegre, o jornalista italiano Giovani
Amendola do Comitê Democrático Antifascista de Paris, atuando em Buenos Aires,
onde escreve para vários jornais e visita o Correio do Povo.
Satisfeito com o movimento antifascista na América do Sul aproveita para
denunciar que em Paris, “se encontram exilados nada menos que uns 800 jornalistas
da velha nação latina, considerados, em sua pátria como brilhantes penas”. Informa
ainda que o movimento antifascista na Itália propõe a implantação da república
democrática socialista nos moldes da francesa, por não concordarem que a
monarquia se coadune com “as atuais aspirações de todo o povo livre. Aproveitando
sua estada aqui, o confrade Testa fará uma conferência, no Grande Oriente, na
próxima quinta-feira, sobre o tema: ‘A maçonaria italiana’ ".
198
A seqüência de notícias sobre o embate entre os blocos vai esvanecendo-se
para uma cobertura estritamente sobre as recepções aos italianos estrangeiros e
7
residentes comprometidos com o fascismo. Seria fastidioso trazer aqui, mas
caberia estudo histórico. Relacionamos as fontes.
199
Enquanto isso, as bandeiras tremulam no pico dos mastros no consulado
italiano, nas sociedades italianas e no Banco Francês-Italiano comemorando a
promulgação da Constituição da Itália.
200
Setembro é mês do empastelamento do jornal italiano Il Piccolo, em São
Paulo. O episódio é largamente coberto nas matérias EMPASTELAMENTO DE
JORNAL, de 26/09/1928; EM DESAFRONTA DE UMA INJÚRIA 28/O9/1928; O
EMPASTELAMENTO DO "Il PICCOLO 29/09/1928; O EMPASTELAMENTO DO "Il
PICCOLO" de 30/09/1928; NA MADRUGADA DE ONTEM, FOI EMPASTELADO O"
DEUTSCHE POST de 30/9/1928.
201
A narrativa do empastelamento está suficientemente realizada em vários
trabalhos que historiam o incidente político por ocasião da queda do avo dos
italianos Carlo Le Prete e Arturo Ferrarin, na baía da Guanabara, em 8 de agosto. O
vôo havia sido promovido pelo governo de Mussolini.
A queda de Le Prete, após uma convalescença, o leva à morte.
Homenageados como heróis, eis que a imprensa brasileira tem suas simpatias pelo
fascismo.Porém, uma escritora, Maria Lacerda de Souza resolve questionar a
promoção do fato. Lembra que um verdadeiro herói, Ronald Amundsen encontra-se
perdido no pólo norte e não mobilização em torno de seu resgate. Os jornais
italianos Fanfulla e Il Piccolo resolvem polemizar. Está dada a celeuma, que termina
com o empastelamento do Il Piccolo.
Em especial, René Gertz detém-se no episódio para marcar o nacionalismo
crescente da década que acirra os ânimos e incendeia as posições. A faceta do
nacionalismo no Rio Grande do Sul assume vulto suficiente para o empastelamento
do Deutsche Post, criado em 1880 pelo pastor Wilhem Rotermund. O jornal de
8
língua e política germânica é publicado em São Leopoldo, por estudantes exaltados
de Porto Alegre. O motivo do empastelamento foi a solidariedade do jornal alemão
ao jornal italiano de o Paulo, depois desmentida, porém tarde demais para conter
os ânimos.
202
O editorial do Correio do Povo reflete os movimentos populares:
[...] lições de civismo, infelizes das nacionalidades onde os povos assistam
indiferentes aos ultrajes dirigidos ao seu brio, às tradições, a sua soberania.
O desagradável incidente provocado pelo jornal Il Piccolo não deixou,
portanto, de ter a sua vantagem prática, visto que ofereceu ensejo para
documentar como existe vivo, inalterado e firme o sentimento de brasilidade
[...].
203
Durante os conflitos em Porto Alegre, a segurança no consulado italiano é
guarnecida.
Os integralistas, os comunistas e os fascistas que visitam Porto Alegre, têm
espaços nos salões e nos eventos públicos, disputam visibilidade e dividendos
políticos. Mas é a imprensa o grande veículo de circulação de seus ideários,
evidentemente que exceto para os comunistas. As matérias são publicadas no
Correio do Povo, como a de 9 de outubro de 1934, INTEGRALISTAS E
COMUNISTAS sobre a situação em São Paulo:
A criação do fascismo, como a do hitlerismo não passam e reações contra o
comunismo. Na Itália ou na Alemanha, o comunismo esbarra contra duas
barreiras formidáveis, contra dois diques humanos que contém a invasão
vermelha. No Brasil, tenta-se movimento igual. Tanto é igual que contra ele
se assanham os comunistas. Se grandes responsabilidades cabem aos
integralistas, em seu ponto de vista elevado, toca-lhes, por isso mesmo, a
honra de figurar no primeiro plano, face a face, ao comunismo que se
distingue com seu ódio terrível. [...].
204
Sendo acirrado o jogo de posições entre uns e outros, terceiras posições
buscam disputar espaço ideológico. Em 4 de agosto de 1936, CONTRA O
FASCISMO, CONTRA O COMUNISMO, o Correio do Povo produz uma longa
9
matéria sobre a entrevista que Egydio Hervé concede aos jornais da cidade. A
finalidade é lançar um movimento para a juventude:
O que acima ficou dito fundamenta e justifica o movimento de que estamos
tratando. Para levarmos a efeito esse movimento de cultura e de civismo,
necessitamos a criação de dois órgãos: uma revista e um centro
universitário de estudos políticos, de ciência e de arte. A revista terá a
denominação de "Universitas", da qual serei diretor, tendo como
companheiros os acadêmicos José Pinós Pereira e Carlos Armando Gadret.
Procuraremos difundir uma cultura universal, combatendo as doutrinas
exóticas que forem contrárias à nossa índole de povo livre, colaborando
para a formação de uma civilização americana isenta dos erros e
preconceitos que caracterizam a velha civilização européia. O centro
universitário será uma agremiação de estudantes que integram a
Universidade de Porto Alegre. Terá como finalidade uma ação educadora
no terreno político e social, dando oportunidade para que a nossa
mocidade, antes que a paixão e as responsabilidades partidárias a
absorvam, estudem, familiarizem-se com todas as doutrinas políticas e
sociais existentes, afim de que, amanhã, quando responsáveis pelo destino
da nação, os moços saibam construir governos capazes de distribuir e
tornar realidade a justiça social. Como se vê, essa organização será um
centro de democracia e de socialismo.
205
Em 27 de abril de 1937, o Correio do Povo sofre censura, o Governador
Flores da Cunha proíbe a venda e a circulação do jornal em trens e estações da
Viação rrea do Rio Grande do Sul. Em resposta, o busto de Caldas Júnior é
inaugurado na sede da Associação Riograndense de Imprensa (ARI). De certo o
alinhamento do jornal com o governo central, desagradara Flores da Cunha, rompido
com Vargas nesse momento.
Em 10 de novembro ocorre o golpe de Estado, Getúlio Vargas implanta o
Estado Novo, instalando-se a censura à imprensa, o cerceamento das liberdades
políticas e a perseguição aos dissidentes do regime estabelecido, os quais, se
estrangeiros, serão repatriados.
3.2.4 Trânsito de feiras
Nesses anos o mercado brasileiro interessa e muito aos italianos. Feira é a
0
modalidade preferida de fazer circular produtos, na cidade das trocas.
Ao transitar em Porto Alegre, o estrangeiro informa-se pelo jornal, a respeito
do comunicado do embaixador brasileiro, em Roma, ao Ministério da Agricultura, o
qual fala da grande Feira Navegante de produtos das indústrias italianas que irá
percorrer portos do Brasil e dos países do Prata.
Trata-se da segunda, porque a primeira Feira Navegante aconteceu em 1921
e foi organizada pela indústria e pelo comércioda Itália, Yacht real Trinacria, e
percorreu os principais portos do Mediterrâneo.
O embaixador constata o que os comerciantes e industriais brasileiros que
visitaram o país, nos últimos anos, haviam visto, ou seja o progresso italiano em
ramos da indústria tais como automóveis, artigos de eletricidade, aeroplanos,
chapéus e tecidos, destacando-se entre outros países da Europa. Ele verifica ainda,
a possibilidade de estreitamento dos laços comerciais entre o Brasil e a Itália.
A possibilidade comercial existe diante “das numerosas e prósperas colônias
italianas” e para “o bom êxito da Segunda Exposição Navegante estão empenhados
os ministros e os grandes industriais da península, tendo o governo prometido todo o
seu apoio”.
206
La Regia Nave“Itália” vai percorrer alguns portos da América Latina. Em
serviço desde 1889, o transatlântico mercantil alemão, que pode transportar mais de
dois mil passageiros, em três classes, vai cumprir mais uma missão. O navio foi
“batizado” com o nome de Koning Albert. Requisitado na primeira guerra, viu-se
transformado em nave hospital. Novo batismo, novo nome, Ferdinando Palasciano,
para homenagear o médico napolitano precursor da Cruz Vermelha. Após a guerra é
considerado presa de guerra e anexado à frota da Ferrovia do Estado.
A nave, em 1920, assume um caráter diverso, o de transporte de passageiros,
na rota Gênova-New York. Aparece no Brasil quando a Navegazione Generale
1
Italiana o empregara e com o seu derradeiro nome, Itália. Em 1925 foi requisitado
pelo Banco di San Giorgio e um ano após, revendido para demolição.
207
Em 1924 expectativas de incremento das trocas comerciais Brasil-Itália.
Como argumenta Angelo Trento, no entanto, esta viagem do “Itália” aos trópicos,
mais que uma monumental feira de amostras de mais de quinhentas empresas
italianas, com contratos firmados no montante de uma centena de liras, foi
essencialmente política. “A sua frente, porém, estava Giovanni Giuriati, na qualidade
de embaixador extraordinário do fascismo, com o objetivo de entrar em contato com
as coletividades italianas.”
208
Entremos na nave. Ela reserva surpresas,
209
narradas no catálogo
comemorativo, por Bruno Mantura, Ludovico Incisa di Camerana, Tereza Sacchi
Lodispoto e editado em 1999. Especificamente para comentar a mostra e o catálogo
organizado, estão os textos de Maria Paola Maino e outro de Tereza Sacchi
Lodispoto.
São ao todo dezenove salas. Bruno Mantura apresenta a estética em Sartorio,
que chegou a ser pintor cronista em 1917, no front. Ou narra como o artista Giulio
Aristide Sartorio termina por constituir-se Comissário de Bordo para a Bela Arte. E
que vai produzir uma viagem pintada. Pará, Rio Amazonas, Rio Tocantins,
Pernambuco, Bahia, Vitória, Rio de Janeiro Santos, Florianópolis, no Brasil; ainda
Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Perú, Panamá, México, Cuba, Haiti, Colômbia e
Venezuela merecem quadros,queserão expostos em Roma, Palazzo delle
Esposizioni (1926-27); New York, The Anderson Galleries (1927), Milão, Galleria
Pesaro (1929). Galleria Borghese, Roma(1933), Galeria Dedalo, Milão (1934),
Accademia Nazionale di San Luca, Roma (1980), Dipinti del XIX secolo, Finarte. 546,
Roma, (1986).
Ludovico Incisa di Camerana atém-se ao político. Mais que uma feira de
2
produtos da arte e da indústria italiana:
[...] nas cabinas onde estão, de motores de aviação, automóveis,
lavanderias elétricas [...] ambientes montados como um quarto de Dante [...]
um salão vêneto e aquele florentino [...] Ainda existem urnas dadas de
presente com a terra ensangüentada do Carso, de Montello. De Grappa,
das batalhas italianas da Grande Guerra [...] é uma feira na qual triunfa a
estética dannunziana [...].
210
A nave tem um duplo patronato na narrativa: D`Annunzio e Mussolini. Existe
certa sincronia entre os acontecimentos políticos na Itália e o percurso de navegação
da nave:
Curiosamente a expedição terminará por coincidir com um cenário interno
italiano dramático. Em 18 de fevereiro de 1924, quando a nave zarpa de La
Spezia, o Governo fascista não havia se tornado um regime. O sistema
parlamentar mantém certa
aparência
, a estrutura governativa inclui
liberais e moderados, também se a violência da esquadra não é terminada,
assim entra na fase mais atroz. A nave estava avançando no Pacífico,
quando em 10 de junho em Roma vem o seqüestro do deputado socialista
Giacomo Matteotti: aproxima de Valaparaíso, passa do Pacífico no mar do
Caribe quando em agosto vem revelado o cadáver do parlamentar
desaparecido. Quando em 20 de outubro a expedição se conclui os
procedimentos repressivos que encarniçam a imagem e contra os partidos
antifascistas se sucedem: faltam poucas semanas para a volta definitiva de
3 de janeiro 1925, o início do regime.
211
Teresa Sacai Lodispoto detém-se sobre o escopo comercial e cultural da
expedição. Um comunicado estampado no jornal pariginoL`Italie Nouvelle expõe os
propósitos da expedição:
Dar sensação precisa da nossa potencialidade industrial e da
renovada
vontade espiritual e da ação dos italianos; reafirmar nos nossos colacionais
que vivem e operam na América Latina o legítimo orgulho de sentir-se filho
da Itália; acrescentar à nossa exportação, criar novas relações de troca,
aproximar o produtor italiano aos grandes centros de consumo daquelas
terras; estudar o problema da colonização e da emigração.”
212
Ainda se detém nos aspectos da amostra de uma política cultural levada a
3
navegar onde houver comunidades italianas expressivas na América Latina e
Caribe. Uma espécie de estímulo à recepção da cultura italiana e à formação de
leitores.
O processo inicia com o Comissário para a Arte e a Cultura, Eugenio
Coselschi, enviando ao ministro da Instrução Pública Giovanni Gentil, seu projeto de
um opúsculo em italiano, espanhol e português, de modo a divulgar a cultura e a
obra da reforma do ensino em andamento, em 28 de setembro de 1923.
Os livros embarcados para serem distribuídos nas escolas, doados pelo
Ministério dos Negócios do Exterior dão uma amostra da recepção desejada pelo
governo italiano:
Foram deDante, Di Magni, Le terre redente e Annuari delle scuole Italiane
all´estero, I promessi sposi, di Manzoni, I miei ricordi de D`Azeglio, Il piccolo
emigrante, de Cuman Pertile, Cristoforo Colombo de Baccini, Vita e regno,
di Vittorio Emanuele II, de
Massari
, Comando superiore battaglione Piave
e outros portadores dos valores itálicos, ligados à imprensa renascentista e
da mais recente Primeira Guerra Mundial.
213
No ano do circuito da feira de 1924, a intensa comercialização entre os portos
italianos e alguns brasileiros, como o de Porto Alegre fica evidenciado na notícia
sobre as avarias no navio-motor argentino Cruz del Sud procedente de Gênova e
consignado à firma F. Bento & Cia. Sua carga opode ser entregue aos
destinatários pela Alfândega, “sem que sejam exibidos pelos menosos recibos da
cota de 7%, estabelecida para essa avaria”. As firmas prejudicadas são as firmas
consignadas, alemãs e italianas, de C. F. Schmeling, E. Jeaneret, Santos Netto,
Sirangelo e Irmão, Candiota Irmãos e Lubisco, G. Egidi, Adolpho Caorsi e inclusive o
Banco Francês e Italiano. Os itens são os que normalmente são importados, como
obras de bronze, tranças, conservas, azeite, vinho tinto, ácidos, alumínio,
brinquedos, queijo e frutas secas.
214
As exposições são a publicização do homus economicus, as elites urbanas
4
disputam espaço no campo econômico. Em 1926, no arrabalde Menino Deus
comissões nomeadas pelo comissariado da Exposição Geral de Indústrias e da
Agricultura vão julgar trabalhos em vidros e cerâmica, fotografia em bromuro e
fotografia esmaltada.
As firmas premiadas trazem nomes conhecidos, Rafael Pappaléo & Cia.
Limitada, Companhia de Vidros Sul-Brasileira e Fredérico l Kasper, Companhia
Industrial Rio-Grandense, Pedro Pless e Companhia de Vidros Navegantes, Felippe
Monjo.
215
Piatelli & Irmãos são italianos que se estabeleceram com uma oficina de
mármore e granito, materiais muito em voga. Localizados na Lomba do Cemitério n.
7-H, expõem seu mostruário de granito premiado na Exposição da Feira
Internacional de Roma.
Ao Grande Prêmio, soma-se a medalha de ouro na Exposição Feira do
Cinqüentenário da Colonização Italiana. Ambos podem ser apreciados na vitrine do
Correio do Povo. Posteriormente, serão oferecidos ao Museu Júlio de Castilhos.
216
Em 1935, a matéria veiculada no Correio do Povo é extensa. Noticia a
instalação na Itália, em Milão, do Ufficio Comerciale del Brasile, sob a orientação
direta do dr. Luiz Sparano, adido comercial brasileiro junto a nossa delegaçãoem
Roma. A idéia é acelerar as informações para colocar o Brasil na rota econômica
italiana.
O departamento dirigido por Ghilosani, é secundado pelo conterrâneo
Francisco Sparno Medaglia, seu fundador. O jornal Il Sole, de Milão, promove uma
caravana de industriais e exportadores italianos para visitar o Brasil.
Mas a concepção do Ufficio Comerciale de Brasile extrapola o interesse
meramente econômico, uma vez que busca manter a “memória dos patrícios que,
pelo talento e cultura, elevaram o nome do Brasil em estranhas terras”, como o
5
compositor Carlos Gomes e a soprano brasileira Iracema Follador, para o Brasil.
Homenageada a soprano, a colônia brasileira residente em Milão ainda pensa
na organização de um comitê ítalo-brasileiro para comemorar o centenário do
nascimento do maestro e compositor brasileiro Carlos Gomes, que estudou na Itália
e estreou no Teatro Scala, de Milão, com as óperas Guarani e Tosca.
A imprensa italiana está favorável e o jornal Il Popolo d'Itália, órgão do partido
fascista, publicou artigo tratando do tema. Os dirigentes do Ufficio Comerciale de
Brasile, à frente do comitê, estão em entendimentos com as autoridades brasileiras e
italianas. Noticia-se igualmente a visita ao Ufficio del Brasile, das autoridades do
Governo do Rio Grande do Sul, Di Donato, agente comercial, Paschoal Carlos
Magno, funcionário do consulado brasileiro em Londres, sendo atendidos pelos
responsáveis. Viram ainda “o álbum de honra, onde figuram todas as fotografias
referentes à Feira de Milão e a visita da filha do sr. Getúlio Vargas à Itália; a visita
que fez o duque de Bergamo ao pavilhão brasileiro; dr. Macedo Soares; dr. Luiz
Sparano, adido comercial”.
217
O Ufficio del Brasile na Itália, é o primeiro estabelecimento do gênero, mas
existia na Inglaterra, Suíça, Suécia, Canadá e América Central.
A última notícia da matéria é a constituição em Milão, do fascio Argentino,
sendo eleita presidente a jornalista Mercedes Carrasi, Marqueza del Villar, a qual
gentilmente visitou o Ufficio del Brasile. Houve troca de saudações entre os
dirigentes, representantes da colônia brasileira, e Del Villar, levando ao Ufficio
saudações dos argentinos residentes em Milão, ao que foi agradecido por Francisco
Sparano Medaglia.
218
Em 1937, o Correio do Povo comenta o sucesso do Brasil nas feiras
internacionais de Bari e Milão. Na primeira feira, “não faz um ano”, a Feira do
Levante de Bari, o Brasil conquistaduas medalhas de ouro, uma, na qualidade de
6
país como órgão potente de destaque entre trinta e seis países do oriente e
ocidente, e outra, através do Departamento Nacional do Café.
Na segunda feira, a Feira Internacional de Milão, o pavilhão brasileiro é
descrito como:
[...] um moderno conjunto arquitetural, provido, ao centro, de uma
gigantesca torre retangular, encimada pela palavra “Brasil” e no topo
extremo a esfera azul do céu constelado com a legenda
sadia
da nossa
bandeira, obra do arquiteto italiano Giovanni Pallaroli [...].
219
Cria-se a Associação dos "Amigos do Brasil", presidida por G.Marconi, nesta
ocasião. E, em homenagem, o dia 12 de abril foi escolhido como o "Dia do Brasil",
com a aquiescência do embaixador brasileiro em Roma, Adalberto Guerra Duval. A
programação pre no “[...] Palazzo Del Economia Nazionale, a reunião dos
representantes brasileiros e italianos para discussão de um acordo comercial
ítalo-brasileiro, bilateralidade de fornecimentos de matérias primas brasileiras à Itália
e exportação de produtos italianos aos mercados nacionais”. Seguem homenagens
no Teatro Scala, com a música de Carlos Gomes.
220
Na Feira de Milão,o Brasil conquista
[...] três medalhas de ouro decretadas sob aprovação de S. M. o Rei Victor
Manoel III, patrono da Feira Milanesa, sendo uma, para o Ministério do
Trabalho, Indústria e Comércio, outra, para o Departamento Nacional do
Café e a terceira ao nosso adido comercial Dr. Luiz Sparano [...].
221
Também em São Paulo realizam-se feiras e exposições em 1937. Diz a
matéria que:
O visitante depara-se com uma seleção de obras de arte (pintura, escultura,
gravações), mais selecionada para o emigrado
satisfazer
a saudade”.
São trabalhos de artegianato. [...] Todo o resto do pavilhão não é mais do
que uma apoteose do Império, uma apoteose da grandeza e da potência da
Itália dos nossos dias, conjugada como um homem, sob o cetro da Casa
de Savóia e sob a guia de seu Duce; uma apoteose que deverá provocar
orgulho e ufania em seus filhos imigrados e em seus descendentes [...].
7
As documentações, de fato, do Fascismo e da Força Militar, bem como dos
diferentes órgãos da administração dão o caráter grandioso da potência italiana. A
amizade entre as duas nações latinas é lembrada desde a época de Vespuccio, em
exposição onde as documentações registram tais laços.
222
O Correio do Povo noticia a participação italiana na exposição de São Paulo
realizada para celebrar os 50 anos da emigração oficial para o Brasil. Satisfeito por
ocasião do primeiro aniversário do Império na Itália, o Conde Galeazzo Ciano dirigiu,
o domingo último, a seguinte saudação aos brasileiros e aos italianos domiciliados
no Brasil:
Neste dia em que a Itália celebra o primeiro aniversário do
Império
é para
mim razão de grande prazer dirigir a saudação do governo Fascista aos
brasileiros e aos italianos reunidos em São Paulo para assistir a
inauguração do pavilhão italiano junto a Exposição que celebra o
qüinquagésimo aniversário da imigração oficial no Brasil, como assim a toda
e nobre Nação brasileira. A participação italiana à Exposição de S. Paulo
tem, uma significação muito mais vasta que uma simples adesão a uma
iniciativa destinada a favorecer o incremento dos comércios. Com essa
participação o governo fascista quis associar-se às razões ideais que
sugeriram ao governo e ao povo brasileiro essa manifestação, e atestar
uma vez mais que o Brasil ocupa um bem especial lugar entre os amigos da
Itália. É de meu particular agrado tornar-me intérprete de tais sentimentos,
sendo que permanece sempre viva na minha memória a lembrança da
minha estada nesse país e especialmente nessa generosa cidade de São
Paulo, onde os italianos, nas estradas, nas casas e mesmo no ar,
encontram, como num recanto da pátria longínqua, a festeira acolhida que
poderiam achar uma cidade italiana. O Conde Ciano, dirigiu-se depois em
idioma italiano aos seus patrícios, disse: As relações entre o Brasil e a Itália,
experimentaram no ano passado a sua prova de fogo. A lembrança da
atitude do Brasil no momento em que o bom direito da Itália não era
reconhecido, é viva no coração de todos os italianos e, deve ser
particularmente grato às comunidades italianas no Brasil que contribuíram
tão fortemente ao progresso dessa República. Os italianos domiciliados no
Brasil prossigam na sua obra, numa colaboração serena, constante,
afetuosa, para a formação de um Brasil sempre mais próspero, e
lembrem-se que o governo fascista segue com cuidado paterno suas
atividades, inspirando-se na solene palavra do Duce que, assumindo o
governo da Itália renovada, proclamou altamente que onde viva um italiano
ali assiste o amor da Pátria. Possa a saudação que a Pátria envia por meu
intermédio fazer sentir os sentimentos que unem os corações de todos os
italianos de um lado e do outro do oceano, neste dia consagrado à
celebração da fundação do Império Fascista.
223
8
A Grande Exposição Universal de 1900, em Paris, movimenta diversos
italianos em Porto Alegre também, os quais constituíram o Grupo Excursionista
Ítalo-Porto Alegrense para assistirem ao importante evento. Elegem, inclusive, uma
diretoria para tal excursão. Dela fazem parte Luiz Valieira; João Cartosi; Victor
Ferlini; João Pilla; João Paternoster, Josué Pasqualoto e Narciso Morelli.
224
Em visita ao Correio do Povo, em dezembro, Francisco Medaglia, também
editor do jornal Il Brasil de Milão, relata os sucesso das feiras que o Brasil tem
participado, conforme havia sido informado pelo jornal. Aproveita para demonstrar
sua surpresa com o crescimento da cidade, que não via quatro anos, com seus
prédios altos e avenidas. Sobre a propaganda brasileira na Itália, como encarregado
do Escritório de Propaganda Comercial do Brasil em Milão, fala das instalações em
uma das principais ruas da cidade:
Ocupamos uma parte inteira da Galeria Crespi, para onde dão as grandes
vitrines, que permitem ao público examinar e
apreciar
os produtos que ali
se encontrem [...]. Comenta que nas suas conferências, na Rádio de Milão,
divulga “o que somos e aquilo que possuímos”, o que complementa a
propaganda na Itália, feita pelo jornal "Brasil", cuja distribuição é gratuita em
todos os países da Europa e América [...]. Sobre o presidente Getúlio
Vargas, reitera ser conhecido e respeitado. Sobre a Itália [...] vive-se na
mais perfeita ordem. Hoje o povo italiano se apresenta aos demais povos,
com a mesma grandeza e o mesmo valor de que era possuído na época
romana, pois Mussolini, deu á Itália o prestígio que bem merece [...].
225
Algumas considerações são cabíveis, no encerramento deste capítulo. Porto
Alegre, entre os anos de 1920 e 1937, mostra um cenário de intensa circulação de
indivíduos e idéias. A polarização política vai comprimindo a presença italiana na
cidade, tanto por causa da discussão ideológica na Itália, quanto pelo avanço do
Estado Novo no Brasil, tais acontecimentos irão reverter simpatias e adesões
iniciais, pró Itália, para outro eixo de alinhamento político e econômico, os EUA.
O próximo capítulo tratará da cidade de Porto Alegre entre 1920 e 1937, na
perspectiva do viajante. As possibilidades urbanas e suas interdições estão inscritas
9
nos códigos e dispositivos que a cidade propõe ao estrangeiro que chega.
0
4 CHEGAR
A vida bate (3/2/66)
Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
- a mentira, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino,
ó verdade, ó fome
de vida!
O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém,
1
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas. És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas dentro, no coração,
Eu sei,
A vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.
Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
debruçada à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina.
226
Ferreira Gullar
CHEGAR/CHEGADA: ato ou efeito de chegar, momento exato em que se
chega a um lugar (a,c do avião), fim de um movimento percorrido no espaço, ato ou
efeito de aproximar-se, avizinhar(se); aproximação ou contato de uma coisa com a
outra, comparecer rapidamente ou demorar-se pouco em algum lugar.
227
4.1 A cidade para o estrangeiro
Parafraseando Tognato, Porto Alegre é sempre a mesma sem nunca ser
idêntica. É eterna, mas imortal, porque o eterno é atributo do imutável; o imortal,
2
atributo daquilo que prossegue além da morte. O eterno e o imortal estão na escrita
dos cronistas da cidade que decantam suas belezas e feiúras desde sempre. Mas o
estrangeiro, o imigrante que não cessa de chegar, está na franja da representação
literária, precisa aguardar a formação de seus intelectuais orgânicos para ser
incluído na narrativa, lá pelo ano de 1960 em diante.
228
Entre os anos de 1920 e
1937 apenas o jornal, que é lido por eles, os referencia organizando os esquemas de
percepção de si no mundo social da cidade.
Afora a literatura, não como desconsiderar a imigração e a urbanização
das cidades receptoras de imigrantes em escala mundial. A tese debruça-se sobre o
ano de 1920 e de 1937 na Cidade de Porto Alegre e recolhe narrativas que ampliam
tal temporalidade.
Na conjuntura desses anos ainda ressoam os efeitos da I Guerra Mundial,
cujaeconomia vivia nas brechas do próprio conflito internacional. Tanto Diégues Jr.
quanto Boris Fausto apontam que a deflagração da guerra deteve em grande
medida a imigração internacional para a América, a qual voltou a recuperar-se a
partir de 1920, sem jamais retomar o ímpeto anterior. A esta época os imigrantes
estão fracionados familiarmente: parte da família emigrou, outra ainda não pôde,
mas está prestes a partir.
Alguns que aportam em Rio Grande e Porto Alegre estão sendo esperados
por familiares e amigos, característica própria da imigração individual, nos
parâmetros da cadeia imigratória. As histórias se sucedem desenrolando as
situações, nomes, graus de parentesco, é a hora feliz, esta da chegada.
Entre 1930 e 1940 a imigração só perdeu intensidade pela Lei dos Dois
Terços, que estabelecia cotas para entrada de imigrantes estrangeiros, prova do
crescente nacionalismo restritivo. Diégues Jr. afirma que em 1940 a migração se
em número menor que em 1920. Segundo ele:
O texto Constitucional de 1934 [...] Art. 121 § - A entrada de imigrantes
no território nacional [...] não podendo, porém, a corrente de cada país
3
exceder, anualmente, o limite de dois por cento sobre o número total dos
respectivos nacionais fixados no
Brasil
durante os últimos cinqüenta anos.
229
Os protagonistas desta história chegam em Porto Alegre em datas diversas.
Angelina Sanzi Ferraro chega em 1937, com 22 anos; Antonio Bianchimano chega
em 1949, com 25 anos; Dalva DeMartino chega em 1953, com 14 anos e Carmine
Motta chega em 1961, com 19 anos. Mas seus parentes estavam na Porto Alegre
dos anos 20-37 e, é o que lhes vêm na memória.
Nenhum deles sabe precisar muito bem as datas de chegada dos avós e pais
porque tiveram que suportar anos de separação e a cronologia da memória afetiva
tem seus mistérios.
A suspensão do subsídio governamental à imigração e colonização no Brasil,
na ante-sala da II Guerra Mundial, culminou na política de aprisionamento das
línguas estrangeiras, alterando significativamente a liberdade de expressão do
imigrante estrangeiro, causando lacunas na narrativa dos entrevistados. Mesmo
assim, Angelina, Antonio, Carmine e Dalva conseguem nos contar suas histórias a
partir da memória coletiva.
A perspectiva da cidade de Porto Alegre que é conhecida através da narrativa
do estrangeiroelaborada no período entre 1920 e 1937, reflete uma situação de
relativa liberdade de comunicação. A cidade é narrada segundo uma singular teoria
da experiência aliada a um olhar, que é o do estranhamento. Teoria da experiência
porque se refere àquele primeiro nível de compreensão do estrangeiro no seu
mundo, que tanto pode ser o mundo deixado para trás, como o da cidade de
recepção. No curto espaço de sua vida, pela mimesis (imitação) desse mundo ele
elabora a sua narrativa, escreve, lê. O processo finaliza quando o estrangeiro
reconhece-se na sua narrativa ou na dos demais; para alguns, quando passa do
mundo do leitor para o mundo seleto do escritor, após decantar sua própria
4
experiência.
Vai tardar para o estrangeiro ser o construtor da narrativa da polifonia de
Porto Alegre. A narrativa produzida no cânone literário na cidade neste período, é
quase omissa em relação a uma cidade que ressoa entre múltiplos padrões culturais
e lingüísticos. O mesmo não ocorre no jornal.
O estrangeiro vai imprimindo sua marca, não obstante a impossibilidade
conjuntural de figurar na mimese escrita. Como novo modo de experenciar a vida
urbana, o estrangeiro, impulsiona a urbanidade da cidade. Decifra a cidade, lega ao
urbanista-historiador novas chaves para interpretá-la.
Segundo Bernard Lepetit: “se a cidade é um texto, parece-me mais pertinente
e proveitoso analisá-la à luz de uma hermenêutica do que de uma semiologia”. O
conteúdo de um programa que “está por fazer”, acrescenta.
230
pistas, recorre a Marcel Roncayolo nos termos de que a cidade é “uma
categoria da prática social”. Propõe assim, que “a questão das temporalidades
urbanas seja colocada de outra maneira”:
A cidade, como vimos, nunca é absolutamente sincrônica: o tecido urbano,
o comportamento dos citadinos, as políticas de planificação urbanística,
econômica ou social desenvolvem-se segundo
cronologias
diferentes.
Mas ao mesmo tempo, a cidade está inteira no presente. Ou melhor, ela é
inteiramente presentificada por atores sociais nos quais se apóia toda a
carga temporal [...].
231
O que sugere é, antes de associar uma trajetória histórica e uma evolução
futura, “estudar as modalidades de presentificação dos passados. Porque as
sociedade reinterpretam o sentido das formas antigas”. Por isso, acrescenta:
[...] podemos analisar a historicidade como um processo temporal
complexo, no sentido de que o sistema seus
elementos
surgirem de
uma pluralidade de tempos descompassados cujas modalidades de
combinação geram mudança a cada instante. [...] A cidade não dissocia: ao
5
contrário, faz convergirem, num mesmo tempo, os fragmentos de espaço e
os hábitos vindos de diversos momentos do passado.
232
Na mesma direção, como Giulio Argan, que a cidade não seja decifrada pela
sua materialidade, e sim no sentido a seguir:
233
Por cidade não se deve entender apenas um traçado regular dentro de um
espaço, uma distribuição ordenada de funções públicas e privadas,
um
conjunto de edifícios representativos e utilitários. [...] Também são espaço
urbano [...] a zona rural [...] os bosques [...] O espaço figurativo, como
demonstrou muito bem Francastel, não é feito apenas daquilo que se vê,
mas de infinitas coisas que se sabem e se lembram, são notícias. A
mesmo quando pinta uma paisagem natural, um pintor está pintando, na
realidade, um espaço complementar do próprio espaço urbano. O espaço
também é um objeto que se pode possuir e que é possuído. [...] O espaço
urbano, por fim, é a verdadeira ideologia da burguesia, a “representação da
situação de fato em que age”. E, dizendo de fato”, diz-se “imaginário”,
porque a dimensão em que se projeta e se faz não é certamente o local em
que ocasionalmente nos encontramos, mas a imagem mental que cada um
faz do espaço da vida e que, dado o mesmo fundo de experiência é a
mesma.
Bem avisados, vamos adentrar na história urbana no que se refere a entrada
de imigrantes. A primeira constatação é que o espaço urbano de Porto Alegre está
sendo ocupado por uma população bastante diversificada, que aumenta aos saltos.
Vamos aos números: a Fundação de Economia e Estatística, em 1890,
contabiliza em Porto Alegre dados referentes ao ano de 1872: 43.998 habitantes,
entre livres e escravos. Pelo critério de sexo, a população é de 26.409 homens e
26.012 mulheres, no total de 52.421 habitantes.
No Rio Grande do Sul, como um todo, pelo critério da nacionalidade em
1900, 1.013.986 brasileiros, 129.329, estrangeiros e 57.551 ignorados.
Em 1920, reunindo sexo e origem, há, no Rio Grande do Sul, 1.014.905
homens brasileiros, 87.031 homens estrangeiros e 2.050 ignorados, total 1.103.986.
as mulheres brasileiras são em mero de 1.013.185 para 63.994 estrangeiras e
6
1.548 ignoradas, no total de 1.078.727.
No mesmo ano de 1920, em relação ao domínio da leitura, escrita e faixa
etária até os 14 anos, em Porto Alegre há 9.018 homens; 8.830 mulheres, no total de
17.848; na faixa dos 15 anos ou mais, 45.466 homens; 41.4652 mulheres;
perfazendo 87.118, totalizando no geral 104.996 pessoas.
234
É preciso ver, ainda, que neste arco do tempo (1890-1920) estão
compreendidos estrangeiros bem diferenciados socialmente, mas como assinala
Lepetit, a cidade os faz convergir.
Por outro lado, a urbanização de Porto Alegre segue a direção da formação
urbana brasileira, isto é, vai do litoral para o interior, seguindo os ciclos econômicos
da dinâmica internacional e dos arranjos políticos.
Desse modo, camadas e camadas de imigrantes são notícia mesmo antes da
imigração no Brasil Imperial. Por ocasião da Independência do Brasil, em 1822,
predominava na composição demográfica a população nativa, como índios,
descendentes de portugueses e de negros escravizados durante o Brasil-Colônia e
mestiços. Sob o leque do termo migração, abriga-se na formação brasileira,
migrações em massa, forçadas, migrações internacionais dirigidas e permanentes,
como as que possibilitaram a vinda dos casais de açorianos para o Rio Grande do
Sul, bem como migrações temporárias e individuais.
Os registros o precários, mas dados publicados por Artur H. Neiva e J.
Fernando Carneiro informam que entre 1820 e 1839 entraram no Brasil 1.507.581
italianos, 1.428.032 portugueses, 596.961 espanhóis, 233.392 alemães e 182.799
japoneses.
235
Essa pode ser considerada a primeira grande onda imigratória do século XIX
no Brasil. Com o advento da imigração oficial, como política real e a colonização em
alguns pontos do país, o vigor da burguesia periférica parece sublinhado. Os
7
brasileiros, principalmente os negros são preteridos em favor dos imigrantes no
mercado de trabalho, conforme estudos como o de Giralda Seyferth, onde se alinha
a construção da nação ao racismo na política de imigração e colonização brasileira.
236
O crescimento urbano acelerado, as novas categorias cio-econômicas, a
especialização funcional forjam uma nova representação da cultura urbana. O
estrangeiro, de Simmel, que também é visto como o homem diante da metrópole
moderna, vai tecendo relações, inserindo-se na economia, na política (com retardo)
e na sociedade:
Não são as formas da proximidade e da distância espaciais que produzem
os fenômenos da vizinhança ou da estrangeria, por evidente que isto
pareça. Estes fatos são produzidos exclusivamente por fatores espirituais, e
se verificam dentro de uma forma espacial (...). O que tem importância
social não é o espaço, serão o deslocamento e conexão das partes do
espaço, produzidos por fatores espirituais.
237
Além do incremento da população que cresceu quase 100% em 12 anos,
outro fator que, provavelmente tenha influenciado no crescimento da cidade, foi a
atração natural que o centro urbano devia exercer, em termos de oportunidade de
emprego e possibilidade de ascensão social.
Os imigrantes italianos fixados em Porto Alegre, mais especificamente os do
sul, segundo relatório da Câmara, relativamente aos anos de 1884, 1885 e 1889,
totalizam 1.011 indivíduos. Uma estimativa pode ser feita e projetada para a década
de 1880. Desta forma, ter-se-iam fixado em média, anualmente, 344 indivíduos e, na
referida década atingiriam um número total de 3.440, aproximadamente.
Considerando-se as evidências de italianos residindo em Porto Alegre antes de 1880
e a intensificação do fluxo a partir de então, a exemplo do que ocorria em outros
núcleos urbanos brasileiros considerados pólos de atração. O número aproximado
de 6.000 habitantes italianos em Porto Alegre, em 1893, é bem plausível como
8
número de aproximação.
238
Uma das grandes razões para os estrangeiros decidirem-se por Porto Alegre
entre 1920 e 1937 é o mercado de trabalho urbano; outra, o Almanak Riograndense
(1873) que fornece subsídios para o conhecimento da diversificação e da amplitude
do comércio porto-alegrense da época, ao relacionar nomes de proprietários e tipos
de estabelecimentos, entre outras coisas.
239
O imigrante italiano e o meridional, em particular, como o alemão, irão se
tornar elementos importantes da pequena burguesia em Porto Alegre, dando assim
continuidade ao modelo do país de origem. A Itália, na opinião de Paci:
240
“é um
país caracterizado por amplas faixas de pequena burguesia independente, pequena
burguesia artesã e camponesa, isto é, produtora de bens, e pequena burguesia
comercial ou que presta serviço”. Lembra-se, outrossim, que o é o italiano
meridional mais pobre que emigra, pois a emigração espontânea só é possível
àqueles que possuem recursos para custeá-la.
A vida dos nossos protagonistas moraneses escorre por entre a propriedade
de bares e restaurantes com concertos ao ar livre, o que, por sua vez, confere
prestígio ao estrangeiro bem sucedido. Os espaços de sociabilidade são
diferenciados, agregados fortemente pela similitude étnica, é, mesmo, o apogeu das
sociedades étnicas. Assim, erigem formas de veiculação da cultura que sedimenta
sua identidade sócio-cultural na cidade.
Os demais grupos de italianos como um todo, assentados em Porto Alegre,
buscam, em maior ou menor grau, conservar a língua até sua interdição no período
de guerra entre a Itália e a Alemanha, quando o Brasil perfila-se com os aliados.
Buscam, até esse momento, conservar as tradições, as efemérides, prestigiar a
recepção da cultura artística da Itália, reverenciar os eventos políticos marcantes do
Ressurgimento italiano, presentificar os mitos e os heróis da Pátria de origem, como
Garibaldi e os demais heróis italianos que se incorporaram ao processo político do
9
Rio Grande do Sul, como na Revolução Farroupilha.
Em 1920, os imigrantes que chegam não são apenas camponeses. Eles
representam uma pequena burguesia que migra em função da Europa estar
fraturada política e economicamente pela guerra e isolamento de minorias étnicas. A
posição social desses estrangeiros os situa no mercado urbano em posições
vantajosas. Aos demais, o mercado oferece o trabalho industrial e o pequeno
comércio.
Fica evidente a diferença entre os imigrantes, o estrangeiro instalado na
sociedade local e o recém chegado. O primeiro, está inserido em Porto Alegre por
força do processo histórico que deu origem aos grandes deslocamentos
populacionais do século XIX, quando se completa o período da nova geografia
política européia.
Alguns autores, como o citado Diégues Jr., destacam a diferença de
significado e da inserção econômica e política verificada nos diversos períodos de
migração. Chegam a subdividir o processo de inserção do imigrante na sociedade
brasileira, em períodos com características peculiares, ou seja, um período de
1808 a 1850, outro, de 1850 a 1888 e, ainda, de 1888 em diante.
Os primeiros imigrantes vêm para o Brasil por força da expulsão do processo
europeu. A impossibilidade estrutural da reprodução econômica, sem alterar as
relações de poder e os custos sociais da unificação das nações expulsa muitos
camponeses. Mas, também emigrantes urbanos, sequiosos por “Fazer a
América”, que se aproveitam da concorrência internacional pela mão-de-obra
imigrante. O Brasil, através de Dom Pedro II, formula sua política de colonização
para uma sociedade ainda agrária e hierarquizada, dos barões do café do sudeste
aos fazendeiros e criadores do sul.
Com a diversificação das funções da cidade de Porto Alegre, que passa de
trincheira de defesa à importante centro econômico-administrativo, em 1920, há
I0
estrangeiros que efetuam o trampolim rural-urbano, muitos são da zona de
colonização alemã, situada na Depressão Central ou, italiana, na Encosta de Cima
da Serra.
Muito peculiar, nesse período entre guerras, é a vinda de imigrantes
diretamente para Porto Alegre. Movidos por um caráter individual, artistas,
intelectuais e auto-exilados políticos, entre outros, como destaca Angelo Trento,
chegam na cidade. Enfim, existe um largo leque de condições de imigração que
explicam a performance da atual urbanidade e do cosmopolitismo da capital.
241
4.2 Dispositivos e códigos da “cidade dos Italianos” no movimento
Entre os anos de 1920 e 1937, quando os imigrantes chegam a Porto Alegre,
a perspectiva visual da cidade é plana, é a do navio. Nome do navio que nas
narrativas é sempre mencionado, a casa transitória sob os pés, fica gravada na
memória. Não se trata mais da imigração em massa, mas ainda não é tão seletiva
que possa chegar de avião. Alcançassem os ares, confeririam a bela descrição:
[...] colinas graníticas, de vertentes geralmente regulares, alcançando 50,
depois 100, depois 150 metros de altitude, se escalonavam em anfiteatro
(Moinhos de Vento, Monte Serrat, Petrópolis, Partenon, Menino Deus) até 4
ou 5 km do centro, seguidas de colinas mais altas (250 m) e mais íngremes
(Teresópolis, Morro da Polícia, etc.) que fechavam o horizonte [...].
242
E segue a plasticidade da imagem estabelecida sobre a cidade:
Porto Alegre é uma cidade que cresceu pelos vales. Ela é como uma
grande mão. Com o punho apoiado numa curva do Guaíba e com os dedos
a repousarem por entre os morros, acompanhando o
casario
, o curso dos
riachos e se espairando à sombra das colinas e morros que margeiam a
cidade [...].
243
A vista é a do cais. Imaginemos, literariamente, a cena, como Saramago,
I1
sobre a chegada de Ricardo Reis ao porto de Lisboa:
Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas
do rio correm turvas de barro, há cheia nas Lezírias. [...] São poucos os que
vão descer. O vapor atracou, arrearam a escada do portaló, começam a
mostrar-se em baixo, sem pressa, os bagageiros e os descarregadores,
saem dos alpendres e guaritas os guardas-fiscais de serviço, assoma aos
alfandegueiros. A chuva abrandou, quase nada. Juntam-se no alto da
escada os viajantes, hesitando, como se duvidassem de ter sido autorizado
o desembarque, se haverá quarentena, ou temessem os degraus
escorregadios, mas é a cidade silenciosa que os assusta, porventura
morreu a gente nela e a chuva está ciandopara diluir em lama o que
ainda ficou em [...] Descem os primeiros passageiros. De ombros
encurvados sob a chuva monótona, trazem sacos e maletas de mão, e tem
o olhar perdido de quem viveu a viagem como um sonho de imagens
fluidas, entre mar e céu, o metrônomo da proa a subir e a descer, o balanço
da vaga, o horizonte hipnótico. [...] Os viajantes passaram à alfândega,
poucos, como se calculava mas vai levar seu tempo saírem dela, por serem
tantos os papéis a escrever [...] A alfândega é uma antecâmara, um limbo
de passagem, que será lá fora [...].
244
fora é a cidade de Porto Alegre nas primeiras décadas do século XX. Não
estamos “na pele” dos que chegam. Podemos fazer descrições e ilações por conta
da imaginação de relatos de primeira mão, como os de Angelina, Dalva, Antonio,
Filomena e Carmine, que trazem uma Porto Alegre construída pela historicidade e
sob a subjetividade da narrativa. Com os acréscimos por conta da memória dos tios,
I2
irmãos, pais, que aqui viveram entre os anos de 1920 e 1937, trazem uma
cidade na narrativa do espaço social. Uma cidade imaginada interpreta a cidade real
e possibilita a narrativa, remetendo a Ricoeur.
Atravessando a alfândega, os imigrantes são estrangeiros “para nós
mesmos”. Correspondem a números categorizados por etnia, sexo, ocupação e
constituem uma massa anônima que se acotovela no cais, até ser engolida pela
cidade ou desaparecer em direção às colônias. Nada é muito significativo.
245
A quem pode interessar o fato dos imigrantes se defrontarem com a cidade
real, de “Pedra, de Carne e de Espírito”, senão a eles próprios. E -se de ombros.
É a atitude blasé, necessária, do citadino, da modernidade.
Dispositivos e códigos os aguardam: o espaço social da cidade está onde,
como e quando logram estabelecer relações com os demais, suscitando a narrativa
na língua-mãe. Mas a economia da cidade rege sua primeira tarefa de decifração:
vão precisar dominar logo a língua local, a linguagem do mundo social ou da ordem
moral do lugar. Na verdade, é uma batalha.
Leed propõe que a chegada é um processo de identificação porque o viajante
identifica o lugar e o lugar identifica a espécie de viajante que tem pela frente. “A
chegada é um processo de incorporação que desenvolve um senso de ‘coesão’
entre a pessoa e o lugar”.
246
O imigrante, ao partir, destroça e interrompe sua narrativa de pertencimento
ao lugar. No trânsito da viagem suspende novamente sua narrativa porque está
absorvida na nova objetividade, constituindo uma individuação de tudo que antes lhe
conferia significado, a tradição. Ao chegar, este é um “gênero de acontecimento que
cria uma ordem no mundo”. Mas é um mundo em que ele chega como um estranho,
um intruso, um estrangeiro. Que mundo é este, da Porto Alegre dos anos 20?
Ser estrangeiro no período, por mais polifônica que se apresente a cidade, é
I3
ser flexível para circular, alternadamente, entre os círculos de inclusão e exclusão
social. No processo, estão erigidos os dispositivos e os digos da batalha ritual,
visível e declarada.
Simmel tem uma interessante passagem sobre a sociabilidade italiana, que
pode explicar a força dessa flexibilidade na circulação social. Afirma ele,
comparando com outros grupos, como os norte-americanos, que os italianos são,
em geral, politicamente regionalistas. Significa que uma noção provinciana onde
“cada cidade, é extraordinariamente zelosa de sua qualidade e liberdades,
freqüentemente em clara oposição a outras e desconhecendo o valor e o direito de
todos”. A conseqüência gica, aparentemente, seria a presença de um forte sentido
coletivista “com tendências à igualdade. Não ocorre assim, sem dúvida, senão que
as famílias e os indivíduos entre si sintam a comoção mais viva de independência e
diversificação”.
Desse modo, a noção de appartenenza sociale, significa que os grupos de
italianos adquirem a consciência de fazerem parte “de um todo” e serem
reconhecidos por ele a partir das relações tecidas na experiência compartilhada em
comum, mas sob a restrita vigilância da dimensão em que é requerida.
O contato social, para Fredrik Barth, não desfaz a noção de fronteira étnica,
ao contrário, este mesmo contato pode fortalecer o senso das diferenças que
implicam na inclusão ou exclusão:
Em
outras
palavras, as distinções de categorias étnicas não dependem de
uma ausência de mobilidade, contato e informação. Mas acarretam
processos sociais de exclusão e de incorporação pelos quais categorias
discretas são mantidas, apesar [grifo do autor] das transformões na
participação e na pertença no decorrer de histórias de vidas individuais.
247
A existência de italianos na cidade no século XIX, era importante, conforme
Constantino, supõe uma solidariedade comunitária. Na verdade, pelos documentos
que não cessam de ser levantados pela historiografia, tal não existe. Os grupos de
I4
italianos reúnem-se por afinidades identitárias mais complexas que o mero
pertencimento à italianidade.
Um exemplo disso é a Colônia de Vila Nova d´Itália, ocupada por trentinos e
mantovanos, em 1894, por iniciativa imobiliária de Vicente Monteggia. O Correio do
Povo noticia a pujança da Colônia. Ela fornece frutas ao mercado público, com
destaque para as uvas. Moinhos para moagem de milho também constituem o
empreendimento. Como as demais cidades sedes de colonização de italianos, A
Colônia de Vila Nova também promove suas festas da uva.
248
Em 1906, em visita à Porto Alegre, o grande propagandista da cidade para os
investimentos italianos, Vittorio Bucelli, não deixa de visitar e constatar “a energia
preciosa dos colonos Italianos”.
249
O empreendimento agrícola reserva a construção de um monumento ao
fundador em sinal do reconhecimento da cidade ao seu sucesso como industrial,
agricultor, organizador de empresas, construtor e técnico de estradas.
250
A unificação tardia tem seu papel nisso, mas como vimos, não
exclusivamente. A noção do paese, mais a história política das cidades italianas, e
os domínios de reinados teceram a diversidade interna.
251
Chegam da Calábria, da Toscana, do Vêneto, etc. Ser italiano, no senso
contemporâneo, é uma identidade simbólica e narrativa que se desenvolve durante o
processo de instalação na cidade. Dizer-se do paese não auxilia no trabalho da
decifração dos códigos, no domínio dos dispositivos. Já, identificar-se como italiano
acessa a comunicação com os co-nacionais.
Em 1920, quando chegam, Porto Alegre está socialmente estratificada.
Alguns, vão viver nos clubes e sociedades, uma italianidade como constructo das
elites de estrangeiros residentes ou visitantes, a serviço ou não. Outros, retiram-se
I5
para os círculos familiares, para usufruir, simbolicamente, do que lhes dá o senso de
appartenenza sociale: artes, culinária, ritos e visitações, destinando ao público, a
vida do comércio e da língua “brasileira”.
O período, pois, é crítico para os que estão chegando, também pela
exacerbação nacionalista, pelo rescaldo da Grande Guerra. Aqui, são defrontados
com o que Loraine Slomp chama de “retrocessono trabalho de sua instalação na
sociedade brasileira. A particularidade existente entre os anos de 1920 e 1937 é a
tentativa das elites italianas em homogeneizar as identificações no jogo político da
época, como vemos pelos jornais.
A auto-representação para os imigrantes italianos gera uma narrativa de
utilização das subcategorias de nomeação. Podemos entender porque a presença
de pertencimento ao paese émais sólida, para os moraneses, que o constructo
nacional representado pela Itália.Há uma hierarquização na gramática da
enunciação: sou brasileiro(a), moranes-italiano.
O que sucedeu após o ano de 1937 está indelével na fala dos entrevistados: o
silêncio da língua era o silêncio político designado na cidade para o lugar do
estrangeiro e de sua cultura, nos anos seguintes. Nas falas ainda ressoa o
apolitismo dos mais velhos, testemunhas da transição de uma potência posta em
questão. Mas isto é outra história: a do silêncio. Afinal, como diz Antonio é tutto
passado. Siamo tutti uniti e felice.
Ou como Leed:
[...] se o viajante entra no lugar da maneira certa, ele é uma fonte de poder,
de bem, de respeito, saúde e crescimento do ser social. Se entra de
maneira imprópria, é um poluidor, um
perigo
, uma fonte de contágio que
perturba numa ordem sacra de diferenciações, que se materializa em
I6
muros, em divisões e corredores.
252
O primeiro dispositivo que o imigrante encontra é o de uma cidade que tem
pressa: em 1920 o Centro crescera 21%, com seus 33.000 moradores, a Azenha,
30%, com 46.000 moradores, a Glória 9 %, com 15.000 moradores, a Floresta 23%,
com 35.000 moradores e o Bairro São João 15%, com 23.000 moradores.
253
Os
imigrantes que chegam vão-se colocando onde e como podem. Os primeiros
tempos, normalmente, são sublocações ou de “favor” com os parentes aqui
estabelecidos. Muitos italianos estão na Cidade Baixa e no Bonfim.
Os estrangeiros estabelecidos constroem seus palazzos, preferencialmente
na avenida Independência.
Na visão do planejador urbano, o caos é o resultado da contingência física,
somada à economia urbana. Os urbanistas e geógrafos, como Jean Roche,
lamentam a configuração física da cidade e o caos da ocupação urbana. São as
distintas temporalidades dos processos de urbanização, que tecem “essa sucessão
irregular de bairros povoados e de zonas diversas e o crescimento constante da
distância entre os bairros residenciais e o centro”.
254
Mas, a positividade da modernidade da cidade é digna de júbilo. Os que
viajam trazem as novidades, como o estrangeiro, são os fatores de mudança social e
cultural mais forte na dinâmica da cidade. São os que têm a perspectiva do
estranhamento.
O escritor e jornalista, Humberto Gotuzzo, correspondente do Correio do Povo
e afastado da cidade trinta anos, não hesita. Constata: “que estamos superiores
ao Rio [em três coisas] o telefone automático, a grande letra no alto dos bondes e a
proibição da descarga livre, nos automóveis”, e foi o que transmitiu para seu jornal,
“O Jornal do Comércio”. Conclui o jornalista local: “não há, com efeito,
rio-grandenses mais rio-grandenses, que os rio-grandenses que vivem longe do seu
I7
berço”.
255
O atributo da distância aliado à perspicácia do observador e o pertencimento
à terra riograndense, somados, dão credibilidade ao narrador. Não por ser verdade,
mas por assim parecer através da utilização dos recursos da psicologia de massas,
a publicidade enceta a narrativa do novo mundo como um lugar aprazível.Anúncios
como o da Revista Máscara, em 1925, são cada vez mais freqüentes:
A nova luz para um novo mundo é a Lâmpada Edson./Seus representantes
e depositários: Casa Lux./Preços e descontos especiais para revendedores.
/estamos autorizados a nomear novos distribuidores./Solicitam
informações./Emilio Diehl & Cia. /Andradas Ns. 485 - 487/Telefone aut.
4370/Endereço telegr. Lux.
256
A profissionalização do jornalismo evidencia que os jornais da época têm
compromissos com uma narrativa fatual, objetiva, ainda que comprometida com os
destinos da Pólis. A propaganda adapta-se à aceleração tecnológica. As mudanças
econômicas requerem novas competências profissionais, novas quinas de
locomoção e de comunicação, engenhos de moradias, de entretenimento.
Os que podem, fazem seu lazer utilizando a linha de auto-bonde que a firma
Attilio Giordani & Cia. estabeleceu entre Porto Alegre e Santo Antonio da Patrulha.
São feitas duas viagens por semana, obedecendo ao seguinte horário: Saída de
Porto Alegre todas as segundas e quintas-feiras, às 7 horas, impreterivelmente, do
fim da linha de o João. Saídas de Santo Antônio da Patrulha, todas as terças e
sextas-feiras, às 7 horas, impreterivelmente.
257
4.2.1 O avião
Na Odisséia, pergunta-se ao estrangeiro: “quem és? [...] se não és Deus,
podes ser um mensageiro de Deus”. Os aventureiros, os viajantes, os marinheiros,
os exploradores dominaram o conhecimento sobre os mares. O século XX será o
I8
do domínio dos céus, as asas que faltaram a Ícaro.
Os precursores da odisséia de Angelina, Dalva, Antonio, Filomena, Carmine
terão visto o raid do aviador italiano Antonio Locatelli. Se não viram, perderam o
inesquecível espetáculo aéreo proporcionado pelo aviador. São tempos de intensa
propaganda italiana na América Latina. Os espetáculos esportivos também traduzem
a amizade Brasil-Itália, com o acento: esta Itália é moderna, sem negar seu passado
glorioso.
O evento rende homenagens ao intendente José Montaury. O senhor, Dr.
Amilcar Marchesini, Secretário do Aero-Club Brasileiro, em ofício, agradece os
serviços prestados em setembro último ao raid do aviador, ao mesmo tempo em que
nomeia, como representante da diretoria, o intendente, sócio-correspondente no
Estado.
258
O front italiano, durante a guerra, vai deixar um sonho que termina por se
realizar. Esta história quem narra é o jornalista Nilo Rushel, diretor da comissão
organizadora das comemorações da XII Semana de Porto Alegre: Sete anos após o
raid do aviador italiano, em 1927, a Viação Aérea Rio-Grandense – VARIG - é
formada e já se instala no Largo dos Medeiros.
A Varig nasce do sonho de Otto Ernesto Meyer que convence o intendente
Alberto Bins da viabilidade de uma empresa rea no Estado. Vivera a Guerra nos
combates aéreos, como observador artilheiro, no front italiano. Quando retorna,
lança-se no audaz empreendimento. Após alcançar o apoio do governante, fecha as
cotas necessárias com empresários locais, estrutura e coloca a empresa no registro
das companhias aéreas nacionais.
No armazém, junto à casa Bromberg (rua Siqueira Campos) traça os planos
iniciais. “Coloca anúncio no Correio do Povo: precisa-se de um jovem que seja
idealista, conheça datilografia e correspondência em português e alemão [...]
I9
Apresentou-se Ruben Berta, para concretizar o sonho de Ícaro.”
259
A predileção por vôos é antiga na cidade. Onde fora a praça de touros, na
Cidade Baixa, o aeronauta Magalhães Costa se lançara no seu balão “Portugal”,
trazido pelo Lusitânia, no espaço, em sentido ascensional. As ruas da Concórdia e
da República lotam. O tráfego de carros de praça com as parelhas de cavalos é
intenso, todos querem apreciar o vôo. Mas o balão perde altura logo em seguida, caí
na rua da Margem.
No dia seguinte, repete-se a façanha para deleite dos porto-alegrenses. Agora
o espetáculo é beneficente nas proximidades do Teatro Parque até a Praça do
Portão. Quando inicia seu vôo levado pelo vento, é jogado na direção de Pedras
Brancas, não sem antes passar pelas ruas Duque de Caxias e Andradas. Trinta e
sete minutos de vôo, a uma altura de 2.680 metros. Evidentemente, também, foi
condecorado.
260
A Guerra tornou mais mortal os esportes audazes, antes de estimular a
navegação aérea comercial dos anos 20.
4.2.2 O automóvel e seus acidentes
Enquanto isso, os problemas da ocupação urbana acelerada somam-se às
novas necessidades de circular na cidade.
Talvez, o maior símbolo da modernidade das décadas iniciais do século XX
caiba ao automóvel. o inaugurados centros de automóveis, como "o Centro de
Automóveis” da firma Dexheimer e Guaragna, na praça Senador Florencio. Os
automóveis são da marca Buik, último modelo e a agência é a Companhia Geral de
Acessórios de Automóveis Limitada. Com solenidades e festejos, os Buiks
desfilaram nas ruas da capital sob o olhar de admiração dos transeuntes, dadas as
novas cores, melhoramento e, principalmente, pelas sirenes soando livremente. O
automóvel é símbolo inconteste de status. Os atributos de potência e utilidade o
I0
secundários.
261
Em 1924, o número de automóveis em Porto Alegre é de 1.254. A partir do
ano seguinte começa a circular o ônibus.
262
Assim como é festejado, o automóvel vai modificar comportamentos e rotinas:
sair do trabalho, passear despreocupadamente ou sair da escola são movimentos
ameaçados pela incursão de automóveis e chauffeurs no centro da cidade. O que
justifica a abertura, em 1920, de matrículas para o curso de chauffeurs no Instituto
Parobé. “As aulas deste curso foram no ano passado freqüentadas por muitos
proprietários de automóveis e chauffeurs, e neste anoiniciaram-se as aulas com a
1ª turma”.
263
Enquanto isso, os problemas da ocupação urbana acelerada somam-se às
novas necessidades de circular na cidade:
[...] como em todos os pontos da cidade, continuam a andar pela rua
Independência em vertiginosa carreira [...] Ainda ontem, ali se registrou
mais um desastre ocasionado por estes veículos que se vem juntar aos
muitos que ocorreram na referida via pública. A vitima de ontem foi uma
senhorinha, que, depois de haver trabalhado, no centro da cidade, se
recolhia á sua residência, situada à rua Tiradentes. A senhorinha Elsa
Bohel, como é o nome da jovem, ao atravessar à rua Independência,
próximo à rua da Conceição, foi apanhada pelo automóvel n. 784, que vinha
da praça Júlio de Castilhos, com destino ao centro da cidade em furiosa
corrida. Não tendo tempo de se desviar, foi ela apanhada pelo veículo,
recebendo, por isso, graves contusões, além de haver ficado com uma das
pernas fraturadas. O fato indignou a todos que o presenciaram, tendo
populares levado a pobre moça, em estado bastante grave, para a Santa
Casa. Ao dar entrada nesse hospital, foi atendida pelo Dr. Hidelbrando
Varnieri. A polícia tomou conhecimento do fato.
264
As notícias repetem-se, acidentes como o ocorrido em 1922, quando o
passeio despreocupado pela via pública de Sara Leichemberg foi interrompido pelo
automóvel n. 413. Ela foi atendida na Assistência Pública do Distrito, recolheu-se
a sua casa, rua dos Andradas, n.173. O Chauffeur, Antonio Bruno Lotto, foi
apresentado pelo inspetor Ernesto Militão ao delegado de Plantão na chefatura da
I1
polícia.
265
O Dr. Varnieri, no mesmo ano, atende Ana Maria, de 9 anos, filha do operário
Antonio C. Munhoz, trabalhador do cais do porto, colhida na mesma Av.
Independência, próxima à praça Julho de Castilhos, saindo da escola pública.
Atendida, foi recolhida a sua residência na rua Casemiro de Abreu, n. 97.
266
A era do automóvel tem sua contrapartida no mercado ilícito, como o roubo de
peças. Os italianos localizam-se em qualquer ponto da estratificação social na
cidade, portanto podem estar no papel de vítima ou de infrator, segundo a notícia a
seguir.
Automóveis são objeto de desejo para os ladrões que:
[...]
assaltaram
o quintal da residência do sr. José Verdi, à rua Cristovão
Colombo n. 1919, arrombando em seguida, as portas de uma garagem ali
existente, onde tentaram desmontar um auto marca Fiat, de propriedade
daquele cavalheiro, a fim de roubar as peças e maquinismos mais
importantes.
267
A cena descrita a seguir pelo Correio do Povo começa em 1933, com o relato
da venda de objetos roubados em plena luz do dia, percebidos pelo olhar
profissional do guarda nº 435. O delegado Carlos Machado descobre tratar-se de
Theodoro Severino Lima, residente à Avenida Cea n. 456, com sua amásia
Bernardina Modesta de Vargas. Ao ser interrogado, não consegue justificar a
procedência dos objetos.
O auxiliar Frontino da Costa Brasil descobre na casa, grande quantidade de
objetos roubados, provavelmente vendidos por Theodoro à João Rangel D'Angelo,
presumivelmente italiano, residente no Passo da Areia n. 276, diversos pneumáticos
e várias peças de automóvel que igualmente foram apreendidas, ficando detido o
receptador. Demais vítimas foram Augusto Furtado e Eugênio Garcia Sobrinho,
ambos residentes no Passo da Mangueira, Alice Lurando, presumivelmente italiana,
I2
moradora na chácara do Sr. Germano Perenes e Alfredo Ângelo, na rua Conde de
Porto Alegre n. 492. Alguns deles já estiveram na delegacia, onde retiraram os
objetos roubados. Theodoro Severino Lima deverá ser transferido hoje, para a
Colônia Correcional da Cachoeirinha, onde ficará alguns dias de repouso.
268
Nem meliante, nem tima, o esporte do automobilismo galvaniza o final da
década. Em 1937, a ressonância da identidade étnica ou solidariedade é convocada
para impulsionar o esporte. É o que faz Attilio D'Avanzo, ao lançar um apelo aos
italianos residentes no Rio Grande do Sul. Ex-volante, Attilio D'Avanzo, atualmente,
é proprietário dos postos de gasolina "Adimor". Procura o jornal para convocar a
todos para apoiar o volante Norberto Jung. A proposta é arrecadar fundos junto à
colônia italiana para a aquisição de um carro:
[...] gloriosa marca Italiana Alfa Romeu. [...] Lembrai-vos que, sem máquinas
"puro sangue" nada representa o valor pessoal.
Lembrai
-vos que este ano
muitos serão os corredores que chegarão do estrangeiro com possantes
carros, pois só da Argentina virão 6 ou 7 grandes ases [...].
269
Attilio D’Avanzo salienta, que cabe ao Rio Grande do Sul se fazer representar,
uma vez que se trata da mais importante corrida do Brasil e da América do Sul. Os
obstáculos existentes na corrida granjearam a denominação de “Trampolim do
Diabo”. Aciona a comunidade convidando italianos e descendentes a se unirem aos
rio-grandenses como forma de externar ao povo gaúcho, o afeto dos italianos.
A hifenização está em operação desde que:
[...] nossos corações pulsam irmanados com eles, mostrando ao Rio Grande
do Sul e ao Brasil inteiro que amamos esta nossa
segunda
pátria com a
mesma intimidade que os legítimos gaúchos [...]. E exclama: Demos um
verdadeiro “racer” ao nosso ás n. 1, Norberto Jung [...].
270
O jornalista João Henrique narra a chegada triunfante de Norberto Jung à
Porto Alegre. A recepção nas ruas evidencia a popularidade das corridas
I3
automobilísticas, a ovação, a sica com que é recepcionado, tudo o coloca ao lado
dos que foram gloriosos militares e os maiores desportistas gaúchos. O jornalista
estabelece uma comparação:
[...] os jogos de Olímpia e Corinto, onde se coroavam os vencedores e a
modernidade: nos primeiros, os prêmios elevados, os elogios dos governos
e do povo que rendiam hinos aos heróis.[...] E, contam os historiadores
antigos, a multidão de povo era tanta que, para verem o herói passar,
abriam-se buracos nas paredes [...].
271
Na modernidade, continua o jornalista, o empenho, a habilidade e o risco da
própria vida, com a mudança de costumes que substitui o antigo sacrifício de
animais e homens, pelo risco do herói moderno, tal como o automobilista famoso. A
alegria do povo atesta a admiração que esses feitos suscitam, fixados no retrato do
vencedor e seus feitos propagados pelo rádio.
272
4.2.3 As avenidas
Dois aspectos, ao menos justificam a peculiaridade das avenidas de Porto
Alegre, a conformação física e a desordenada ocupação urbana:
Porto Alegre não se assemelha às outras cidades novas da América Latina,
as quais se estendem regularmente em
tabuleiro
a partir do centro, sobre
uma superfície ou um planalto onde não encontram obstáculo algum. Porto
Alegre suporta, ainda hoje[1955], dupla hipoteca de sua localização e de
seu passado [...].
273
José Montaury, tentando administrar o caótico desenvolvimento urbano,
contrata o arquiteto João Moreira Maciel e, eis que a cidade tem um “Plano Geral de
Melhoramentos”. Entre outras medidas, propõe a subdivisão em quarteirões centrais,
projeta a continuação da Avenida Julio de Castilhos (antiga Rua das Flores) e Otávio
Rocha, bem como o alargamento do primitivo Beco do Rosário e da Avenida Borges
de Medeiros.
I4
Nas administrações seguintes, em 1918, foi iniciada a construção do cais do
porto, agregando à cidade uma nova avenida, a Mauá. Em 1924, pode-se circular na
pavimentação de concreto da futura avenida Borges de Medeiros; a Otávio Rocha
alarga o Beco do Rosário.
274
A cidade vai sendo alinhavada por novas avenidas ou pela ampliação das
antigas, como a Alberto Bins. A av. Júlio de Castilhos, liga o centro com a estação
férrea e a av. Benjamin Constant recebe faixa de concreto armado.
275
Os bondes elétricos que começam a serem implantados, em 1907, podem
trafegar. algumas carroças ainda, percorrendo pontos da cidade, para não falar
das bicicletas que, além de esportivas, ainda auxiliam nos serviços de entrega à
domicílio. Quanto aos pedestres, eles que aprendam a atravessar atentamente as
avenidas.
4.2.4 A imagem (o cinema)
O divertimento preferido dos anos 20 é a imagem, ainda mais, a “imagem
sonora” que se torna realidade, em 1929. Alguns se ressentem com a nova estética,
como Georges Duhamael: “É uma máquina de embrutecimento e de dissolução, um
passatempo de iletrados, de criaturas miseráveis iludidas por sua ocupação”.
276
Apesar das críticas que condenam como vulgar o fascínio que o cinema
exerce sobre as multidões, a estética imagética encantaos citadinos. Habitará a
imaginação dos que, como os imigrantes, adotaram o urbanismo como modo de
vida. Ser urbano é ser moderno. Constituem modos que tem gradativamente, após a
Grande Guerra, uma direção, o american way of life. É o início da universalização da
indústria fonográfica com o predomínio da distribuição das empresas americanas. A
produção européia e a estética lutam por espaço. Mas perderão a concorrência ao
longo do tempo para as grandes companhias americanas e suas eficientes redes de
I5
distribuição comercial.
Angelina, por exemplo, é assídua freqüentadora do cinema. O baile, entre os
anos de 1920 e 1937, era interditado para algumas italianas jovens. O mesmo não
ocorria com o cinema, nas matinés, sempre acompanhadas dos adultos.
No Rio Grande do Sul, desde 1909, há uma cinematografia artesanal, “O
Ranchinho do Sertão” de Eduardo Hirtz, encabeça a série.
277
Em Porto Alegre, os italianos são ativos animadores dessa recente cultura de
massa, instalando, projetando e construindo as salas de exibição. Sirangelo e os
irmãos, que eram proprietários do Café Gioconda, arrendam o edifício da rua dos
Andradas, esquina da praça Senador Florêncio, onde funcionava a "Tabacaria
Eden". Lá, vão construir um salão para o novo cinema. O engenheiro Armando Boni
pretende construir uma platéia, duas filas de camarotes e galerias. Para tal
empreendimento, fecham o tradicional Café Gioconda.
278
Conforme Fábio Augusto Steyer houve até um concurso público para batizar o
novo cinema. A apuração foi realizada na confeitaria Rocco, em grande estilo. Vence
o nome “Central”, mas havia preferências por “D`Annunzio” e “Gioconda”. É preciso
lembrar que as orquestras acompanhavam a projeção dos filmes, antes do advento
do cinema falado. O mercado de trabalho dos sicos se amplia, mas desaparecerá
brevemente. Eram chamados de professores, para garantir maior respeitabilidade.
As instalações do “Central” é o que de mais moderno tecnologicamente, até
gerador próprio tem, no seu espaço para 1.500 assentos. Os irmãos gabam-se pela
imprensa que nem no Rio de Janeiro há algo que se compare.
279
Em 1927, o moranes José Faillace manda construir um cinema à avenida
Borges de Medeiros, esquina da rua Demétrio Ribeiro. O arquiteto é Domingos
Rocco, que projeta um salão que terá acomodações para duas mil pessoas, uma
I6
sala de recepção para famílias, sala de espera e bar.
280
Os moraneses são vocacionados para o comércio do cinema em Porto
Alegre. Em 1935, 22 cinemas para uma população de 250 mil pessoas. Muitos
pertencem aos italianos e italianos de Morano.
281
Outra novidade é o cinema no lar. Em 1924, no salão do último andar do
Grande Hotel, local dos grandes eventos de caráter privado, o Pathé-Baby, aparelho
cinematográfico é demonstrado ao público (familiar) pelo sr. Emile Hansé, diretor da
empresa construtora.
Apropriado ao lar, eis que pode ser colocado em qualquer parte com custo
acessível. O diretor, que tem como representantes nesta capital, os srs. Hugo
Gertum & Cia, ressalta a versatilidade do aparelho antes de fazer a passagem de
vários filmes: o seu fácil manejo (até uma criança pode operar) necessita apenas de
uma parede, ou uma tela, para a projeção. A admiração é unânime.
O cinema é lazer para as famílias, permitido às senhoritas, sejam da elite,
sejam das camadas mais populares. Italianos assistem aos filmes que enunciam
modos e modas, fazendo-os viajar entre cenários de outros lugares da longínqua
Itália e, inclusive, até de uma Itália para além do paese.
Traz outros espaços e outra noção de tempo. Começa a concorrer com a
formação de leitores, que vão trair a erudição literária pela formação do espectador.
sociabilidade nas ante-salas dos cinemas, após a exibição, os filmes são
discutidos nos cafés. O cinema é democrático: exibem-se películas nos clubes, nos
sindicatos, nas paróquias. O teatro vai perder o seu lugar. Havia salas nos bairros,
não apenas no centro.
O cinema é documento. Em 1924, Benjamim Camozzato, morador de
Cachoeira, exibe em Porto Alegre o documentário “A Revolução de 23”. Dentista,
mas apaixonado pelo cinema, Camozzato percorre os caminhos do pampa gaúcho
I7
atrás dos heróis desta revolução que dividia as paixões rio-grandenses. Com a
neutralidade de um estrangeiro, é bem recebido por ambas as partes do conflito,
maragatos ou “assissistas” e seus opositores chimangos ou “borgistas”.
Recentemente descoberto pelo pesquisador Antônio Jesus Pfeil, a obra é um
material precioso às teses sobre a cisão política da época.
282
O cinema é, também, político. Em 1932, no salão do cinema Central, é
projetado uma única vez o filme italiano "Campo Mussolini", em sessão para
autoridades, para o Corpo Consular e para os italianos de Porto Alegre. A narrativa é
sobre a “viagem de quatro mil filhos de italianos no exterior, que, no verão passado,
foram conduzidos a Roma e também à alegre vida no campo (chamado por isto
‘Campo Mussolini’), daqueles briosos rapazes nascidos nos diversos países do
mundo, embaixo de céus diversos”.
283
Os escritores temem pela perda de sua importância social e de seu status
recém adquirido na sociedade de poucos ilustrados. Jornalistas buscam paralelos
entre o cinema e a literatura, André Carrazzoni escreve o artigo “Evasões da
Realidade”.
Nele, cita o tema de And Maurois - "Porque ainda se lêem novelas."
Evadir-se, como no cinema. Simples assim. Evadir-se de horizontes limitados. A
estética do maquinismo é a cara da modernidade:
[...] Saturados dos filtros grosseiros do materialismo, reconhecemos, num
momento de divina reconciliação com o sonho e a fantasia, que o
romantismo não sucumbira e continuava a ser a própria essência da nossa
humanidade. Se o progresso, incorpora hoje um novo instrumento de
utilidade ou de prazer aos bens materiais da vida, apaga mais uma ilusão
ingênua e desencadeia mais uma inocência feliz, é somente a figura
efêmera para o irreal que enche o vácuo deixado em torno de nós
..284
A idade do maquinismo não conseguiu inventar o homem-máquina, rígido e
frio no automatismo das ações e reações mecânicas, e enquanto existir o
homem de nervos e sangue, com um coração e uma alma, haverá sobre a
terra uma lágrima, uma emoção, um idílio, um drama, uma paixão, um
sonho - todo esse maravilhoso complexo de romantismo dos seres
I8
civilizados. [...].
285
[...] Mulheres e homens deste século e da vitória da máquina, somos todos
enfermos da alma, enfermos desesperados que apelamos para a suave
medicina do romantismo. Esse romantismo, enquanto não se alterar a
química dos nossos sentimentos, há de constituir a base da própria vida.
286
Em Porto Alegre, os teatros revezam-se com as salas de projeção,
tornando-se extremamente populares. Os cinemas modernos são construídos para o
multiuso entre a projeção de filmes e salão para a apresentação de variados
espetáculos.
No período entre 1924 e 1934, a programação é intensa. Os espetáculos
culturais oferecem uma noção da vida cultural da cidade. Sua simples menção
sugere a captura da atmosfera cultural à semelhança das obras de Nicolau
Sevcenko, quando busca reter o frenético da São Paulo dos anos 20, ou de Hans
Ulrich Gumbrect, quando localiza em um único ano, o de 1926, a vivência da Europa
entre guerras. Poderia igualmente tratar-se de puro desassossego, como Antonio
Tabuchi adjetiva esses anos, seguindo Fernando Pessoa.
Porto Alegre diverte-se, abriga artistas nacionais e estrangeiros. No Teatro
Avenida estréia a Grande Companhia Canzoni di Nápoli; no Cine-Teatro Imperial
apresenta-se o transformista Darwin; no Teatro Apolo realizam-se os concertos do
Clube Hayden; no Cine-Teatro Avenida exibe-se a Grande Companhia de Fantoches
Líricos. O Teatro Carlos Gomes inaugura o cinema falado na cidade, sendo que os
aparelhos instalados são os da Rádio Corporation of America. O filme é “Anjo
Pecador”, da Paramont, com Nanci Carrol e Gary Cooper, sem diálogos, apenas
dançado e cantado.
mais. No Cine-Teatro Central apresenta-se a bailarina Maria Lubinska,
seguida de Joaquim Villa, barítono; no Cine-Teatro Guarani, a chilena Camila Bari
Zanãrtu, apresenta números folclóricos; no Cine-Teatro Baltimore exibe-se a
I9
Companhia de Revista Clan-Clan; no Teatro Avenida apresenta-se a Companhia de
Sainetes e Revista Lyson Gaster, com os atores cômicos, Alfredo Viviani e Nilo Nillo;
no Teatro Baltimore, a Companhia de Revista e Bailados Negros Cubanos
espetáculos; no Cine-Teatro Imperial, os sambistas Francisco Alves, Mario Reis,
Noel Rosa, Nonô e Peri Cunha encantam. no Cine-Teatro Guarani apresenta-se a
transformista italiana tima Miris com a Companhia Cancela; no Teatro Avenida
apresentam-se Batista Júnior, seus bonecos e ventrílocos, bem como os The Black
Stars, estrelas pretas.
287
4.2.5 O som (o rádio, o telégrafo)
Lembramos que o rádio foi o maior meio de comunicação para o aprendizado
da língua pelos imigrantes. É legítima a pergunta de Sylvio Pierini, quando
questiona: “O rádio sustituirá o jornal, ou não?” Para avaliar os 40 anos do Correio
do Povo, Sylvio faz estatísticas:
[...] Tomando-se o século pelo todo, quarenta anos apenas é uma fração de
tempo. Sem ela o século não seria essa fração, para um jornal, coleciona
subsídios da história, é um escrutínio em colunas das lutas e do trabalho do
pensamento cotidiano [...].
288
Ainda enumera:
[...] cooperação pelo progresso do Estado, contribuição pela formação da
prosperidade nacional, observação das mutações políticas no cenário
internacional e nacional, trabalhando como parte integrante nos esforços do
país e nas experiências de seu poder de compreensão e organização;
contato sincero com a opinião pública em todas as suas manifestações de
alegria e mal estar, de revoltas e queixas da liberdade circunscrita aos
caprichos e às conveniências da política e das forças governamentais;
segundos de existência [...].
289
E, conclui:
[...] "Correio do Povo" preparou as reservas de suas tradições éticas que
hoje aproveita para prolongar na influência e nos exemplos de sua
0
orientação em favor dos interesses de seu Estado e preocupado com os
destinos de seu país. É uma etapa de êxito compensada por aplausos do
seu povo, de quem ele se fez o Correio das aspirações sociais e espirituais.
290
[...] O rádio será? Uma razão desfaz a pretensa superioridade do rádio,
no presente, sobre a imprensa: é a razão econômica. O jornal informa,
comenta, defende, vigia, tudo por meio de uma circulação persistente e
barata, de preço acessível a todas as capacidades aquisitivas. A interrupção
de sua publicidade só depende de calamidades públicas. [...].
291
[...] O rádio não. Posse cara, inacessível às capacidades médias e
impossível
às de recursos mínimos. Difusão sujeita, principalmente, ao
fator estático que, só por si, é suficiente para quebrar essa velocidade
magnífica de propagação do som pelas ondas de luz. [...].
292
[...] Releva observar mais: as estações do rádio, para concorrer realmente a
todas as seções da imprensa moderna, necessitam, pelo menos, de uma
organização, humana especializada na técnica de divulgar notícias e tecer
críticas sintéticas e acondicionadas a um ambiente literário proteiforme, de
aspectos mentais contrastantes entre si e em si mesmos. [...].
293
O inventor do rádio, no que tange à precedência, é o porto-alegrense Padre
Landell de Moura, nascido em 1861, que realiza a primeira experiência de
transmissão de voz à distância em 1893, porém as honras foram para o italiano
Guglielmo Marconi, o qual teria inventado o rádio, em 1901.
O inventor do telégrafo, Marconi, é homenageado na cripta da Catedral
Metropolitana, em 1937, as exéquias são prestigiadas pelo cônsul geral da Itália. A
coletividade italiana se faz presente, além de altas autoridades civis e militares,
membros do corpo consular, comissões de sociedades, alunos de escolas italianas e
professores.
O celebrante, o
monsenhor
João Balém, cura da Sé, tendo assistido ao
ato, do solio pontifical o arcebispo D. João Becker. Na exequia celebrada na
Catedral, também compareceram fascistas aqui residentes, ostentando a
sua camisa preta. Junto a essa, perfilados, fizeram a sua homenagem ao
1
grande morto, segundo o ritual fascista [...].
294
D. João Becker profere as palavras de homenagem a Guilherme Marconi. “Et
lux perpetua luceat ei”: E a luz perpétua o ilumine. A Itália, onde os monumentos
ensinam e as estátuas deslumbram, como se aqueles repelissem os anais de Tácito
e estas cantassem os versos de Virgílio [...].”
295
O cientista Marconi, nascido em Bologna no dia 25 de abril de 1874 e falecido
no dia 20 de julho de 1937, foi um grande aliado na aproximação Brasil-Itália.
Viajante inveterado, divulga suas experiências com as ondas hertzianas,
potencializando o conhecimento científico existente até alcançar a invenção da
rádio-telegrafia e da radiofonia.
Marconi segue a saga dos grandes viajantes italianos: atravessou cerca de
noventa vezes o Oceano Atlântico e terminou, em 1933, a volta em redor do mundo.
Fez muitas publicações em italiano e inglês. Paralelamente, às atividades de
cientista, desenvolveu intensa participação política ao aderir ao fascismo. Em 1914,
como senador, representa a Itália na embaixada italiana nos Estados Unidos da
América do Norte. Em 1928, na Conferência de Paz, em Versalhes, é delegado
plenipotenciário. Em 1930, alcança a presidência do Conselho Nacional de
Pesquisas em Roma, quando presidente da Academia Real da Itália e membro do
grande conselho do partido Nacional Fascista. Um ano antes, em 1929, recebe o
título de Marquês. Durante a guerra ítalo-abissínia é voluntário.
A dilatação do tempo e o consumo do espaço deve a Marconi essa nova
dimensão da velocidade. Quando, em 1931, é inaugurada no Rio de Janeiro a
imagem do Cristo Redentor, no alto do Corcovado, em Roma estava Marconi
apertando um botão elétrico.
Quando de sua morte, também o curso de Rádio-Telegrafia da Associação
Cristã de Moços envia telegrama ao cônsul italiano Cav. Magno Sanvicenzo,
2
antecedendo homenagem das sociedades italianas, à noite, dia 28, na Itálica
Domus, solene sessão fúnebre pela passagem do 30º dia do seu falecimento.
Na homenagem, figura em destaque o busto elaborado por Luiz Sanguim,
ladeado pelas bandeiras do Brasil e da Itália. As autoridades presentes o as que
soldam a rede italiana na cidade. Na presidência da mesa, o Comendador Magno
Sanvicenzo; o desembargador André da Rocha, reitor da Universidade; o professor
Gabrielli, inspetor de escolas italianas recentemente aqui chegado. E ainda, o
tenente Fernando Chiapini, fiduciário do Fascio Carlo del Prete; Cav. Attilio Marsiaj e
João Prena, respectivamente, presidente e vice-presidente da Dante Alighieri.
Os discursos enalteceram o perfil múltiplo de Marconi, em
[...] sintonia com [...] o espírito italiano, tanto no progresso das ciências,
como das artes, no direito, e finalmente, na eletricidade, desde os tempos
de Volta [...] Os aplausos são seguidos pela [...] chamada fascista em
homenagem ao morto, tendo todos respondido com a palavra ´presente`.
296
Em nome dos brasileiros, o jornalista Olintho Sanmartin traz impressões da
Itália moderna, que recentemente visitara, além de enaltecer a genialidade do
homenageado. Os vivas vão para Marconi, e Mussolini, à Itália e ao Brasil.
Mas, enfim, virá o rádio substituir o jornal? A expansão do rádio também se
deve ao uso militar na Grande Guerra. Imediatamente, também se descobriu o uso
político. Lenin, Mussolini, Goebells, Ministro da Propaganda de Hitler; Epitácio
Pessoa e Getúlio Vargas são exemplos do poder de difusão das idéias em larga
escala, alcançando o que a escrita não consegue: atingir a massa de analfabetos e
de imigrantes não socializados na leitura em português.
Com a rádio comercial, as propagandas sustentam as emissoras, que são
concessões do governo no Brasil. São bons negócios, além do alto dividendo
político. Relativamente acessíveis à população, quase toda família pode ter um
3
rádio. Nas residências, ao lado da Capelinha de Nossa Senhora, as famílias
começam a colocar seus rádios.
Em 1920, surge a primeira rádio em Porto Alegre, a Rádio Sociedade
Rio-grandense. Segue a Rádio Sociedade Gaúcha, em 1927; a Difusora Porto-
Alegrense, em 1934, junto à casa Coates, do descendente de italianos Artur Pizzoli;
a rádio Farroupilha é de 1935, fundada pelos filhos de Flores da Cunha, Luiz e
Antônio, mais Arnaldo Balvé. Cita à rua Duque de Caxias até o incêndio de 1954, em
decorrência da morte de Getúlio Vargas. Nas próximas cadas fusões e grandes
redes regionais ampliam e fortalecem a rádio do Rio Grande do Sul. As
comunidades ficam ligadas a transmissoras ou retransmissoras locais. Não houve
maior veículo de comunicação, no século XX, do que o rádio.
297
Nas regiões coloniais espaço para o dialeto local, as notas de
nascimentos, falecimentos, religiosas, soldam os laços dos colonos muitas vezes
isolados.
Um registro pertinente, embora fora do arco do tempo da pesquisa, é o fato
dos entrevistados mencionarem a rádio como a grande difusora da cultura brasileira,
mas também, da italiana, com fator de ambientação e apreensão do tom local de
Porto Alegre. Em especial, por ocasião da Segunda Guerra, quando o uso da língua
alemã e italiana é proibido na rádio. Passada a guerra, somente em 1954, após o
longo silêncio, há uma recuperação da cultura italiana. A Radio Itaí, sete dias após
sua fundação, lança um programa semanal apresentado pelo romano Lorenzo
Gabellini, que chegara em Porto Alegre aos 12 anos, intitulado L`ítália al microfono.
Em 1955, o programa segue para a Rádio Difusora, dos padres Capuchinhos,
de grande penetração na Região Colonial Italiana (Caxias do Sul, Bento Gonçalves,
Garibaldi, etc) e continua por mais um ano.
Gabelline, nas duas décadas seguintes, enquanto foi diretor da rádio, dividiu
com Guido Bakos, advogado ligado à coletividade italiana e com Maria Paola
4
Gabellini do Nascimento, professora de língua e cultura italiana, a programação
voltada para a difusão da cultura italiana de alto nível.
Havia interatividade: no quadro Microfono per tutti os ouvintes apresentavam
suas músicas ou temas. Como por exemplo, quando se apresentou o Prof. Angelo
Ricci, professor de língua e cultura italiana, falando sobre o Quinto Centenário de
Leonardo da Vinci. O programa mensurava o nível de informação sobre a Itália,
através de uma espécie de jogos de perguntas e respostas. O quadro Passegiata
attraverso l Itália apresentava temas curiosos. O tempo todo música, desde a lírica
da marcha triunfal de Aída até a popular Vivere, além dos festivais de São Remo.
298
4.3 Dispositivos e códigos de sociabilidade
Os imigrantes, nos anos 20, ao chegarem defrontam-se com a sociabilidade
regulada por novos dispositivos, outra fruição de tempo, outra concepção de espaço.
A cidade de Porto Alegre é cosmopolita desde 1900, sua modernidade
capitalista apresenta o urbanismo como um novo modo de vida desejável e como
sintoma de ascensão social. Os imigrantes preferem a cidade, mas vão ter que
disputá-la com os demais instalados, muitos deles estão entre a burguesia
ascendente. A narrativa da chegada começa a se perder entre as gerações, poucos
vão lembrar os detalhes da chegada, menos ainda vão querer contar para não
esquecer.
As várias modalidades lingüísticas na sociedade complexa exigem do
imigrante o domínio da língua. Sem ela, como diz Clastres, a lei fica gravada no
corpo. Vão aprender a língua para sobreviver na cidade.
Porto Alegre, como toda cidade latino-americana de projeção, vem sendo
construída segundo o projeto das burguesias emergentes. Apropriando-se do
5
espaço público, definem dispositivos de circulação. Como as avenidas, que existem
para a circulação de veículos mas igualmente para o passeio e para ligar os
negócios às moradias. Ou de freqüentação, como os clubes sociais e esportivos,
que existem para a privacidade do ócio, sem o risco do convívio com os
indesejáveis. O modo de ser nesses espaços exige o refinamento do gestual, as
amabilidades. Tal como, a visitação, todos se reconhecem no status de que gozam
os iguais.
Outra categoria de espaço social é o café, mas qualquer um pode
freqüentá-lo. Assim como as confeitarias, os hotéis, os restaurantes, definem “o
estar com” a modernidade: passageiro, utilitarista, anônimo, indiferente. A tristeza do
narrador é a consciência de um mundo que se foi, mais a necessidade de conter os
demais, soldando a memória pessoal à coletiva.
Os círculos da sociabilidade, diz Simmel, conformam os dispositivos de
aceitação e seu reverso, a rejeição dos demais, porque a tolerância com a alteridade
diminui em função da racionalização da vida cada vez mais mercantilizada. A nova
sociabilidade urbana é, pois, menos aristocrática e mais erigida sobre a linhagem
dos comerciantes, dos industriais, dos banqueiros. A imprensa literária no século
XIX, os cronistas, os poetas descrevem a aura perdida.
299
Nada disso faz parte da memória afetiva do estrangeiro quando chega. Ele
deverá assimilar tais dispositivos da memória social da cidade de recepção.
4.3.1 Os clubes de Tiro, o Remo, o Hipódromo
No início do século XX as formas prestigiadas de esporte são o tiro, o remo, o
ciclismo, o hipódromo.
300
Em fevereiro de 1920, inauguram-se os melhoramentos introduzidos no Stand
de Tiro n. 318, no arrabalde deo João. A sexta turma de reservista faz o
6
juramento à bandeira.
Cruz e espada reunidas, ao juramento, segue-se à benção do Stand pelo
arcebispo metropolitano de Porto Alegre, D. João Becker, que desde 1912, governa
a arquidiocese. O arcebispo sempre procura estar entre os fiéis, principalmente, da
maior comunidade católica, que é a italiana.
301
A espada, no caso, representada pelo tiro inaugural do general Ilha Moreira,
comandante da Região. Cruz e espada reunidas, resta a sociabilidade refinada das
confeitarias. De preferência, a proporcionada pela Confeitaria Rocco.
Às 17 horas, no palacete Rocco, ocorre o "chá dançante", no encerramento
das festividades. O detalhe: esta é a maior turma fornecida ultimamente pelos Tiros
de Guerra deste Estado. Na comissão central dos festejos, vários nomes italianos
como João Jorge Fayet e Joaquim Difini.
302
Em agosto, na sede social do Clube Militar de Oficiais da Guarda Nacional,
em Teresópolis, a entrega solene “dos prêmios aos atiradores vencedores do
concurso de tiro de revólver, fuzil e winchester, levado a efeito pelo referido tiro, em
14 de julho próximo findo”. Tais eventos reúnem as famílias da burguesia e dos
militares de Porto Alegre.
303
Em 1934, na sede do clube de Tiro, realiza-se a eleição do conselho
deliberativo e fiscal, que regerá o próximo ano. Vários componentes da chapa a ser
sufragada tem nomes italianos, como o de Joaquim Difini.
304
Várias festas devem
seguir a posse da diretoria.
O remo, também, é importante em 1934. No dia 9 de fevereiro o Correio do
Povo noticia:
Faz hoje, 26 anos que um grupo de membros da colônia italiana e de
admiradores do remo fundou o Club Ducca degli Abbruzzi. [...] Duas vezes
reduzido por temporais, ficando sem garagem e sem material náutico, a sua
7
direção não perdeu a calma. [...] passou para outra época de franca
prosperidade, tendo agora, uma bela sede social e uma excelente flotilha.
305
E segue a enumerar os prêmios alcançados, vários nacionais em 1925, ou
estaduais. Hoje, o Ducca degli Abbruzzi tem a sua frente, o Sr. Jo Maia,
continuador dos ingentes esforços feitos por outros presidentes, entre os quais se
destaca o Sr. Raphael Guaspari.
306
O auditório Araújo Viana é construído junto à praça Marechal Deodoro, em
1929. Nem clube, nem restrito aos associados, vai ser um espaço público
privilegiado para festivais de arte na cidade.
Como toda modernidade, a indústria do cavalo de corrida prospera. Entre a
hierarquização da ordem do lazer, os hipódromos em Porto Alegre ocupam a
preferência do público masculino. Elites e camadas populares encontram-se para as
apostas.
O jornalista italiano Vittorio Bucelli, em visita à Porto Alegre, em 1906 já
vaticinara ao ver o hipódromo na várzea do Rio Gravataí, no arraial dos Navegantes:
[...] os rio-grandenses são criadores de belas e fortes raças eqüinas;
cavalgam como nenhum outro povo do mundo e [sobre isso] Garibaldi se
recordava com orgulho e com emoção dos momentos mais solenes da
campanha do risorgimento italiano. E por conseqüência amava os cavalos,
se não com a exclusividade absoluta dos argentinos, que chegam ao delírio,
com uma paixão imensa.
307
4.3.2 A mesa refinada: novos restaurantes comandados por italianos surgem
com novidades
Os italianos que chegam podem contar com refinamentos culinários,
restaurantes com comida internacional, caseiros e familiares, para todos os níveis de
8
renda.
A Luta, jornal local, publica, jocosamente, a seguinte matéria sobre os novos
hábitos da sociedade porto-alegrense (a brincadeira é a respeito da culinária
francesa):
[...] Indiscutivelmente, Porto Alegre faz progressos, tanto o faz, que se nota
diariamente, até em nossos costumes, os hábitos dos grandes centros da
Europa, aonde se verifica diariamente evolução de progresso.Observações
essas que, qualquer pessoa pode fazê-las, quer na construção de um
palacete chic como na de uma casa para um operário, na ornamentação
aparentosa da sala de um capitalista, como num infeliz trapeiro. Nós aqui,
temos o Restaurant, o Hotel, o Café chic, aonde somos servidos por um
garçom, elegantemente vestido, de esmerada educação, que nos atende
com tal gentileza afrancesada, que nele ler o Menu, feito em pratos
franceses, alemães e italianos, o freguês não entende e fica farto, sem ter
comido, nem entendido nada. Há, até um fato interessante, que aconteceu
com um dos nossos almofadinhas elegantes; entrou ele no "Magestic
Hotel", na entrada o porteiro o esperava e sem ele perceber tirou-lhe a
capa de gabardina, colocando-a no cabide, e apresentou-lhe uma mesa,
que ele assentou-se numa atitude familiar. O garçom trouxe-lhe logo a
carta, ele procurou compreender, leu quatro ou cinco vezes e disse: - O Sr.
faz o favor de ler o Menu porque eu não posso ler de noite. O garçom leu
todo o Menu e ele não entendendo nada, disse: - Traga-me o segundo
prato, porque não gosto de sopa. Veio em seguida peixe. Ele não gostando
de peixe, por formalidade comeu. E disse: - traga o terceiro prato. Veio
peixe escabeche. O freguês comeu empurrando quase, porque é ele um
terrível inimigo de anfíbios. Já incomodado diz: - O moço! Traga-me o quinto
prato! E veio ainda peixe. Desta vez ele, teve que experimentar um
excelente filé de garopa, mastigou o primeiro pedaço, cruzou os talheres e
disse indignado: - Quanto é esta despesa? Me parece até que
confundiram-me com Netuno ou então estou em algum Restaurant no fundo
do Atlântico.
308
Novos restaurantes surgem, oferecem a culinária na interpretação de seus
proprietários. Alguns são italianos, como o inaugurado em grande estilo, em 1922,
por José Pizzati. É o Restaurante-Bar Guarany, no n. 233 da rua dos Andradas,
quadra entre a Travessa Paysandú e rua João Manoel.
309
Dez anos após, nova inauguração, com as reformas modernizadoras. Agora a
firma é Cunha e Pizzatti. Este, “José Pizzatti, um dos mais antigos proprietários de
casas desse gênero em Porto Alegre”. O endereço também muda, está no n. 901. O
9
estilo ‘da sala de refeições, toda escariolada, oferece um excelente aspecto’.
310
a firma Degani & Cia., em 1925, vai expandir seu negócio. Sito igualmente
à rua dos Andradas n. 229, no prédio contíguo ao atual, vai criar uma “seção de bar
e dando maior espaço ao seu salão de refeições. [...]”.
311
Novas especialidades são oferecidas, em 1928, pela Casa Antonello, de
Micalak, Antonello & Cia., no n. 1286, mais uma vez na Andradas.
Os convidados ao lançamento podem provar das iguarias à venda, tais
como fiambres, frutas, bebidas, aperitivos, etc.; dispondo de um amplo
salão, onde seus clientes e famílias
podem
saborear bebidas nacionais e
estrangeiras, assim como gelados, fabricados especialmente para essa
casa e saladas de frutas [...].
312
Em 1931, é o restaurante familiar de Jacob Buttelli, situado no Mercado
Público, que oferece, no dia 4 de julho, aos clientes e jornalistas convidados um
jantar pela passagem de seu natalício.
313
Ainda no mesmo ano, Feoli e Pandolfi, proprietários do Café Bar e Restaurant
Popular, pela passagem de um ano de funcionamento de seu negócio, “oferecerão
às 15 horas, um ágape à imprensa desta capital.” O Restaurant Popular localiza-se à
Avenida João Pessoa n. 179.
314
4.3.3 Uma sociabilidade em trânsito: a hotelaria moderna
O ano de 1920 segue a tendência da década anterior: Constroem-se mais e
mais palacetes. Ocorre uma renovação urbana e arquitetônica. A população cresce
e os lugares são altamente valorizados no espaço urbano, mas as fachadas e seus
interiores devem propiciar real conforto conjugado ao ideal estético da moda. É o
período áureo dos modelistas de prédio. Moderno quer dizer uma citação
0
neoclássica.
315
Assim, onde funcionava o Hotel Sager, situado em frente ao Coliseu, na rua
Voluntários da Pátria, Dyonisio Cabeda, em 1920, está a construir um palacete de
quatro andares. “É o hotel para 120 quartos, [...] dos tipos populares, existentes nas
grandes cidades”. Vão arrendar o hotel “os atuais proprietários do Metrópole Hotel,
devendo a direção ficar a cargo do Sr. C. Binter”.
316
Festas para comemorar a modificação de nome que significam mudança de
clientela. Como a que, em 1922, realiza And Canette. O Hotel Palácio Familiar
recebe a imprensa, hóspedes e pensionistas para comemorar seu novo nome. Antes
chamava-se "Grande Pensão Familiar". Na visitação às dependências do Hotel a
ordem, o asseio a higiene impressiona os convidados. Após o que, seguem as
danças.
317
Os hotéis modernos da capital federal mudam hábitos: “deixar ao seu
hóspede a liberdade de fazer as suas refeições em qualquer parte, lhes
fornecendo, além da cama, o café da manhã.” Esta é a concepção do Hotel Coliseu,
em 1924, que prevê 50 quartos, “com luz direta, encanamento d'água e mobiliário
novo”.
318
Outro hotel a modernizar-se é o Hotel Jung, em 1925. Os melhoramentos são
visíveis na cozinha, onde se segue a exigência da Diretoria de Higiene Municipal,
tais como “azulejos brancos e dotada de material necessário à dependência de tal
natureza”. No momento, o Hotel Jung possui três salas de refeições, com belas
pinturas e espelhos. Nelas podem fazer suas refeições, de uma vez, 220
pessoas.
319
4.3.4 A circulação nos salões: poetas, recitadores, escritores, músicos,
cantores
1
A sociabilidade dos salões em Porto Alegre, na década de 20 e até o ano de
1937, educa a sensibilidade. salões de clubes, de confeitarias, de concertos, de
cinemas, os próprios cafés, salões de bibliotecas, os teatros de elite e os nem tanto.
As ruas o meras passagens entre tais lugares, as avenidas ainda não
entusiasmam a imaginação.
Estes salões o espaços sociais que instituem modos de ser na cidade que
quer sintonizar com o movimento cultural dos tempos modernos. Nestes salões
despregam-se narrativas, crônicas, “causos” e bulas que, de tão repetidas,
inscrevem-se como verdade sobre a cidade e sua gente.
Antes, no culo XIX, a narrativa da cidade passava mais pela conquista das
ruas, pela euforia da mancha escravocrata na cidade, agora, Polis, ainda de
fisionomia colonial, onde os cronistas fixam estes tempos.
Como Antonio A. P. Coruja, que enquanto mora no Rio de Janeiro, na capital
federal, reconfigura a Porto Alegre do séc XIX, no seu Antigualhas: reminiscências
de Porto Alegre.
320
vão longe, pois, os tempos de 1869, quando existe mais que um salão,
existe um grêmio, o Partenon Literário que lança uma revista de mesmo nome, se
localiza no bairro Partenon e, do qual se diz:
[...] uma tribuna para a pugna oratória: uma biblioteca onde reunirá as
obras
mais importantes, relativas à grandiosa trindade de seus estudos:
filosofia, história e literatura: aulas noturnas para os sócios que quisessem
dedicar-se sem dificuldades ao granjeio da ciência e afinal uma revista, tão
necessária como as outras criações.
321
O Partenon Literário situa o momento de formação da literatura
sul-rio-grandense e impera sobre as artes e as letras com a implantação do
regionalismo do tipo pastoril. Isso até os anos de 20 e 30, quando o romance urbano
questiona o arquétipo de gaúcho como tipo social e narrador privilegiado do gaúcho.
2
Ao lado dele há uma vibrante Imprensa Literária já quase esquecida.
322
Em 1920, a ordem urbana é seletiva, porém, de modo diverso. Nas ruas, a
emergência do anônimo urbano: quem passar aquele imigrante ou aqueles
imigrantes? Na literatura, inexistem. O imigrante narrado é o ligado à terra, na cidade
ele suspende sua narrativa e, se quer narrar-se, ou ser abrangido, literariamente, vai
precisar aguardar outros tempos. Os netos vão precisar narrar. Os escritores
repetem o que ocorre na Argentina dos anos 20.
Segundo Camilla Cattarulla, na Argentina, em Buenos Aires, a consolidação
da modernização percorre duas tendências poéticas: a que exalta a tecnologia, a
velocidade, a voracidade das transformações e, a que fica arraigada ao mais
tradicional, ao tempo lento. Ocorre que ambas deixam de ouvir o frêmito das vozes
dos imigrantes. Um nacionalismo lingüístico representado pelo movimento em torno
de Martin Fierro ou o criolismo que influencia Luis Borges. Dos bairros de imigrantes
de onde vinha a polifonia lingüística e cultural, silenciam os escritores, como nos
salões, evidentemente.
323
Em Porto Alegre, no interior dos salões, que não o mais aristocráticos,
como no século de Coruja, todos se candidatam ao cosmopolitismo, mas sem
permitir que os imigrantes façam parte da narrativa de fundação da modernidade.
Os espaços têm sua inspiração no drama social, no intercâmbio de vivências.
Comparando com Buenos Aires, as tendências da tradição e da modernidade assim
como os anônimos das ruas e os notáveis dos salões, compõem a atmosfera mental
dos primeiros passos do romance urbano dos anos “30”. Os cronistas, escritores e
poetas narram o que se passa ou poderia se passar, a verossimilhança que
convence o leitor, deixando de lado a massa de imigrantes.
É o que acontece com Nova York, de John dos Passos, nos anos 20 e, que
vai influenciar a narrativa de Érico Verissimo, entre outros. E, aqui, seguimos em
3
grande parte e com a fidedignidade que permite a situação, a leitura de Maria da
Glória Bordini.
324
Para ela, na narrativa de dos Passos, está presente o fluxo
incessante dos imigrantes, colocando as pessoas frente às situações citadinas que
todos conhecem. Assim, ao utilizar a técnica do contraponto - a qual Verissimo
sempre colocou-se como devedor - seu foco narrativo dirige-se para dentro das
personagens, como se estas percepções fossem suas. Acreditamos que Bordini está
salientando a técnica do cinema infiltrando-se na narrativa moderna. Aponta como
ele, a utilização de flash instantâneos para representar as personagens. Dilaceradas
pela cidade, as personagens olham, mas não vêem. O juízo vem do narrador que
comenta a cena, corta a cena, retoma, como se nenhum outro drama fosse mais
importante na trama que o drama do outro.
Continuando com Bordini, para quem a sensibilidade estética do escritor
americano, ao entrecruzar as vidas, quer trazer a poli e a multivisão dos moradores
da cidade. Ideologicamente, o narrador faz escolhas ao acaso e estas é que
determinam os critérios ideológicos. Lembra do lingüísta Baktin.
Ainda na leitura de Bordini sobre o romance urbano de dos Passos: O
resultado é que as forças impelem e destroem as personagens, que têm como pano
de fundo os preconceitos raciais. Lembrando sempre que ele escreve na perspectiva
dos imigrantes como personagens secundários, os quais o m rostos capazes de
seduzir ou explorar, mas servem para colaborar com as personagens centrais. A
saída para eles, desta condição alienada, será a morte arbitrária a derrota ou a fuga
da cidade. Aos vitoriosos, a perda do espelho do outro, ao preço de sua substância
humana. Resta a cidade, reproduzida com a leva de novos imigrantes, que os
devorará igualmente.
Para dos Passos, a cidade é bela no seu felino, mas não poupa ninguém.
Cada habitante se acredita autônomo, mas no fundo está sempre a cidade e as
individualidades vão se encaixando neste mosaico. A cidade é um sonho para quem
não está nela, encerra Bordini.
4
Deixemos as ruas de Buenos Aires, de Nova York. Entremos na realidade de
Porto Alegre e na ficção urbana em busca dos imigrantes. O historiador Charles
Monteiro e o mestre em teoria literária Cláudio Cruz, levam às últimas
conseqüências a exegese da arte de percorrer os caminhos entre a cidade concreta
de Porto Alegre e sua ficcionalidade.
O primeiro, é conduzido (e nos leva junto), pela narrativa das crônicas de
Aquiles Porto Alegre sobre Porto Alegre de seu tempo, na década de 40 e de Nilo
Rushel, em 1971, sobre a Rua da Praia que vive ou ouviu dizer (pura oralidade).
Cláudio Cruz segue as narrativas de Reynaldo Moura, Érico Veríssimo e
Dyonélio Machado para narrar Porto Alegre no ano de 1935.
Ambos trilham a ficção, a memória e a historiografia urbana, naquilo que o
historiador da cultura urbana, repetindo Robert Moses Pechman, coloca como
equação: “para que o romance urbano nasça, é preciso, antes de tudo, inventar o
urbano, ainda que a cidade exista há muito tempo”. Urbano, um modo de ser na
cidade, urbanidade, civilização.
325
O urbano é, pois, uma construção social, simbólica, narrativa. Conforme sua
inscrição social, as camadas cultas, economicamente privilegiadas e as camadas
populares vão usufruir do que a cidade dispõe. Afinal, essa é uma das fascinações
do modo de vida urbano.
A narrativa feita nos espaços sociais pelos grupos é tão fragmentada quanto o
tempo, que é descontínuo. É um “estar junto” sem nenhum vínculo maior que a
fruição daquele momento. Para a elite, é um diferencial pertencer a agremiações de
caráter estritamente cultural: afastar-se do provincianismo, educar a sensibilidade.
Tudo sem necessitar mesclar-se com o povo.
Na cidade de Porto Alegre, a circulação nos salões, entre 1920 e 1937, é
narrada principalmente nos jornais e revistas. Assim, os leitores comuns, talvez a
5
maioria de imigrantes, podem inteirar-se da vida dos salões mais seletivos. Mas
sempre podem usufruir dos demais espaços sociais, como teatros populares ou
cine-teatros, que não cessam de abrir ao grande público. Lembramos também das
entrevistas: essa sociabilidade produz registros importantes da vivência de Porto
Alegre.
Pelo Correio do Povo, em 1922, as notícias iniciam pela música que vem do
salão do Instituto Musical de Porto Alegre, dirigido pelo maestro Jo Coral. As
preleções sobre a história da música e biografias de autores movimentam a agenda
social, como em agosto, quando o jornalista do referido jornal é o palestrante.
326
Alguns são palestrantes, os demais, ouvintes. Mas, também, uma importante
camada de estrangeiros está se dirigindo para a cidade: são os artistas que no
pós-guerra procuram a América. É um cenário ainda inculto, mas com amplo
mercado de trabalho e, mais importante, relativa democracia intelectual.
Os estrangeiros ou descendentes da 2ª e 3ª geração, que aqui já estão
instalados, distribuem-se em dois modelos de interação social. Os que aderem às
elites locais na freqüentação destes salões e buscam construir uma brasilidade no
cosmopolitismo, sem hifenizar nada, sem priorizar o pertencimento étnico. E, os que
se limitam a freqüentar as sociedades étnicas existentes, sem outra opção, senão a
de interagir com a atmosfera itálica das mesmas.
Há, ainda, o hibridismo daqueles que transitam entre os espaços de
sociabilidade, dos freqüentados pelos mais ecléticos aos mais declaradamente,
étnicos, como determinadas personalidades que são mencionadas nas notícias
relativas aos dois espaços. Mas, na distância do tempo e pelos documentos
existentes, não há como estabelecer a densidade desses casos.
4.3.5 O caso e o acaso do Clube Jocotó
Uma obra de 1969, encontrada num sebo de Porto Alegre, monitora 10 anos
6
da sociabilidade eclética de Porto Alegre. Outras existem, mas são trabalhos
parciais, como história de clubes e que levariam para longe o propósito deste
fragmento sobre a circulação nos salões. Através da obra Um ciclo de cultura social,
Olyntho Sanmartin, colaborador do Correio do Povo, espreita os salões.
327
Parametriza esta seção sobre a sociabilidade dos salões com pertinência
Recorremos à bibliografia apenas para complementar o contexto e as referências
acionadas na sua narrativa, que define como um ciclo sobre um clube.
É uma história cíclica no sentido que perfaz um ciclo da vida cultural da
cidade, entre 1924 e 1934, quando encerra a narrativa. Trata-se de um clube
chamado Jocotó, sob a presidência de Mário Totta, figura que emula as promoções
do clube enquanto foi seu presidente, exatamente no período da narrativa de
Sanmartin.
328
No campo da cultura mais ampla da cidade, que consome cultura no seu
lazer, muito está para ser reconstruído pelo método histórico. Ficamos com o elán
destes eventos. O modo como Sanmartin se encanta com a efervescência das
promoções do clube, que afetam a cidade naquele período. Usa o método da
objetividade da narrativa descritiva, cronológica, não entra nos meandros da crítica
estética. Valoriza as personagens, sem deixar de entremear o contexto político de
1930, que quase suspende as atividades do clube. Ele mesmo é personagem.
O escritor indica suas fontes, como arquivos públicos e particulares.
Provavelmente, os últimos sejam os mais interessantes para a história cultural de
Porto Alegre. De qualquer modo, estão ao dispor para novas consultas. o os
arquivos de testemunhas da época, de Armando Teixeira, Walter Spalding, Tasso
Corrêa, Fernando Corona, Athos Damasceno Ferreira, Guerra Blessman, Alberto de
Oliveira, Pedro Villas Boas e Alberto de Oliveira.
Por paradoxal que pareça, é a história da cultura da cidade que começa na
7
fruição da natureza, alternativa de lazer nos arrabaldes de Tristeza, então, uma das
áreas paradisíacas da Porto Alegre dos anos vinte.
Vamos intrometer a hermenêutica na linearidade de Sammartin, ao explicitar
que é a nossa leitura que está no texto a seguir. Que como sabemos, poderia ser
outra e seria, possivelmente, válida, como a do próprio.
Uma narrativa clássica tem começo, meio e fim. O começo não é a história do
Jocotó. Este é o pretexto para entrar nos salões. Abortamos muitas passagens desta
história do “começo”, mas está lá, na obra de Sanmartin.
O Clube da Tristeza, iniciado na Tristeza, refletirá no panorama cultural e
social de Porto Alegre quando Mário Totta, entre 1924 e 1934, o expandi-lo para o
centro da cidade, margeando ou colocando-se no centro da vida artística e cultural
da cidade, em cujos salões a música, preferencialmente, é clássica, brasileira ou
popular italiana.
Antes dos salões, havia um balneário nessa história. É um trem que liga o
balneário à cidade. um fator humano, representado por Mário Totta, que é um
mecenas moderno em função do capital cultural que possui.
Temos o espaço e a personagem central, vamos à trama da narrativa: A
história está ligada ao lazer porto-alegrense. Referimo-nos aos balneários que as
famílias usufruíam, instalando inclusive casas de veraneio. Canoas, na região
metropolitana, é área de lazer, onde casas de veraneio. Um pouco mais perto,
Belém Velho, Vila Nova (onde italianos instalam-se em comunidades rurais e
produtivas) e Belém Novo também atraem veranistas. Mas, ainda mais próximo, está
o arrebalde da Tristeza, com seu arvoredo, margeando o rio, poetiza Sanmartin.
Em 1918, um grupo de “alegres jovens” têm idéias geradas durante o lazer.
Aproveitando-se do privilégio de acesso fácil através do trem que parte da estação
do riacho, primeiramente junto à Ponte de Pedra, e, após, do centro, na Avenida
8
Borges de Medeiros (evidente que antes das alterações promovidas pelo interventor
Loureiro da Silva) até o arrebalde da Tristeza, criam-se condições para um perfeito
balneário de família ou apenas para freqüentadores temporários. No ir e vir do
trenzinho, rotinas de entretenimento são favorecidas, como bailes, saraus culturais e
carnavalescos.
Na Tristeza, veraneia Mário Totta e a rede de sociabilidade que constitui,
desdobra-se em círculo e depois em “Clube Veranista Jocotó.” Uma entidade é
criada para congregar tanta animação, sendo que o nome é inspirado numa
Companhia Nacional de Revistas, que apresenta um número com “o passo do
jocotó”.
329
A história inicia, portanto, em 1918, segundo as fontes de Sanmartin.
Armando Teixeira, reconhecido como um dos fundadores, divulga, posteriormente,
no jornal “O Veranista”, a fundação do clube em 1923, por um “grupo alegre de
rapazes”: Jo Paiva, Ariovaldo Machado, Luis Lopes, Armando Barcellos, Ruy
Santiago e Mário Lopes e Leonardo Carlucci.Está no jornal:
[...] foi levada a efeito a representação de um interessante espetáculo
humorístico, ao ar livre, com o concurso dos
seguintes
veranistas: Pedro
Paulo da Rocha, Carlos Guaragna, Manoelito Teixeira, Átila Soares, Otávio
Soares e Armando Teixeira. A realização deste divertimento, que alcançou
um ruidoso sucesso, constitui o início do nosso inigualável Jocotó.
330
No jornal “O Veranista”, colabora a intelligentzia, os poetas: Peri Vale Soares,
Zeferino Brasil, Raul Totta e Euclides Lobato. Nas diretorias revezam-se intelectuais,
profissionais liberais, a elite da cidade, desde a pequenina sede, da “Vila Jocotó.”
A primeira diretoria é eleita no dia 24 de fevereiro de 1924, em Porto Alegre,
na residência de Armando Teixeira. Como Presidente Honorário, Mário Totta e
segue a nominata, com o italiano Carlucci fazendo parte da histórica diretoria.
As promoções do clube vão seguir o calendário das festas brasileiras. A
9
principal, o carnaval, é promovida no salão do Cinema Gioconda, na Tristeza. É o
“Encontro do Lampião de Querozene”, em homenagem à cidade que ganha
ambiente noturno para viver, ao se instalar a luz elétrica.
331
Desde 1920, existem, no centro da cidade, o Clube do Comércio de Porto
Alegre, o Clube Caixeiral Porto-Alegrense, a Sociedade Leopoldina, a Associação
dos Empregados no Comércio de Porto Alegre e as sociedades étnicas, como as
Sociedades italianas e alemãs.
O clube, durante 10 anos, aluga os principais salões da cidade para seus
eventos. Como as demais sociedades carnavalescas e recreativas, o Clube
Caixeiral, o Palacete Rocco, o Teatro Apolo, o Bar Florida e o Teatro São Pedro
alocam, quando necessitam, salões para os finos recitais e palestras proferidas por
ilustres.
Sabemos por Sanmartin que, em 1924, o Clube Caixeiral finaliza sua nova
sede, razão pela qual começa a decair a utilização do palacete Rocco. Os salões
são para os bailes elitizados, prática comum na Sociedade Esmeralda, Sociedade de
Filosofia, Sociedade dos Venezianos e Sociedade Filhos do Inferno, com a
presidência do moranes Domingos Faillace.
332
As elites, refugiadas nos salões, desde o início do século XX, no carnaval,
abandonam as ruas ao. Das ruas, querem apenas o curso de automóveis mesmo. A
rua é do povo, no carnaval, conforme Alexandre Lazzari.
Algumas músicas de carnaval o escritas pelo patrono. Os blocos de
carnavalescos são o que de elegante na época. As sociedades co-irmãs:
Esmeralda, Filosofia e Filhos do Inferno, excluindo-se as de negros, promovem
divertidas batalhas de confetes, serpentinas e eleições de rainhas.
Prosseguindo, a segunda data histórica do clube é o dia 9 de outubro de
1924. Nos salões do Caixeral, recém-inaugurado, inicia a tradição das horas de arte
0
do Clube Jocotó. A seqüência é a mesma: uma parte literária, palestra proferida por
um intelectual, execuções musicais com muito canto da lírica italiana e brasileira e,
por fim, danças.
Trata-se de uma inauguração emblemática. Dela participam a soprano Branca
Begorri, acompanhada ao piano por Antonieta Monteiro. A conferência é de
Mansueto Bernardi, sobre a “A vida e os Versos de Alceu Wamosy”. Posteriormente,
vai reunir todo esse material, como parte de sua atividade editorial.
333
As sessões do Clube Jocotó prestaram-se para homenagear e receber
artistas consagrados. A Sociedade Lírica Italiana prestigia os serões, possibilitando
que seus cantores apresentem-se no Clube. Igualmente, os espetáculos, mais
importantes, que vêm à Porto Alegre ensejam a apresentação dos artistas no Jocotó.
As transmissões de rádio levaram longe as sessões do clube, exorbitando os limites
reservados pelo clube aos seus associados. O Jocotó promove, também, festas com
ambientações específicas, como a “Festa Espanhola”. Em 1928, bailados andaluzes
e danças sevilhanas ocorrem no pátio.
Seria fastidioso reprisar a cronologia das horas de arte, fiquemos com um
pequeno recorte sobre a pesquisa de Sanmartin. Perfilemos, primeiramente, os
músicos que passam pelo clube, entre os anos de 1924 e 1928: Gustavo Fest, Gilda
Mancuso, Elise D´Ambrósio, Wilma Hermann, Edile Furtado, Emília Autran, Maria de
Almeida, Carmen Boisson Santos, Nilda Guedes, Odete Faria, Conceição Teixeira,
Euli Mabilde, Sibila Fontoura, Antonieta Monteiro, Maurício Kaan, Clélia Vargas
Linhares , Miranda Neto, Odete Faria, Léo Schneider, Emil Frey, Maria de Lourdes
Rangel. Cantores: Heloisa Couto, Lourdes Nascimento, Patrícia Iracema Folhador,
Irma Dreyer, Sila, Alda Souto, Talita Leão, Hartlieb Lima, Olga Siqueira Campos, a
grande soprano pelotense Zola Amaro, Ofélia Cezimbra, Ada Bonnes, Elsa Borsani,
barítono Emilio Baldino,Cecília Lemos, Olga Pereira, Adelaide Sarraceni e o barítono
Carlo Tagliabue, Olga Carrara e Vicenzo Semper, Pasquala Fossatti, Arlinda Ribeiro,
Anita Brande, Eloisa Couto, Carmen Tôrres. Armando Albuquerque, Olga Fossati,
1
Dora Assmus Graudenz. Sotero Gomes (que também desenha), Dora Assmus
Nepomuceno, Côrte Real, Fernando Herrmann, Onorina Barbosa, Lotar
Blankenhein, Luis Cosme; o violinista russo Borgumil Sykara. Os maestros Gustavo
Adolf Fest, Radamés Gnatalli, Costaguta, Pescia, Julio Gráu, Victor Neves.
também os recitadores, como Zita Coelho e Vargas Neto com seus versos
gauchescos. Em 1928, declama Elena de Magalhães Castro. Nestes tempos
declamar é uma arte requisitada, o que leva à fundaçâo da Companhia de
Declamação, sob a direção do ator Veríssimo Alves, nos anos 30.
O ano de 1928 é importante porque, segundo nossa observação do material
pesquisado e do relato-testemunho de Sanmartin, direciona a passagem das horas
de arte, a passagem do caráter mais reflexivo, que vinha sendo desempenhado na
cena cultural da cidade, para se concentrar no caráter de alto entretenimento, após
1930. Salões como os do Museu Julho de Castilhos e do Teatro São Pedro são
ocupados pelas sessões do clube e dentre os recitadores de 1928 estão Luíza e
Maria Barreto Leite.
Músicos que se apresentam no Clube Jocotó, de 1928 a 1930: Olga Pereira,
Côrte Real, Maurício Kann, Elsa Tschoepke, Nilda Guedes, Fernando Hermann,
Heloisa Couto Radamés Gnatalli, Sotero Gomes e quarteto; José Camargo, Jesus
de Cavíriam, Fidélia Campina, Gustavo Feest, Fidelia Campina, Albino Marone,
Jesus de Cavíria, Julio Fregosirítono Jurandir Aguiar. Recitaram-se Menotti del
Picchia, Corrêa Junior, Raul Machado, Cleómenes Campos, Alfonsus de
Guimarrães, Belmiro Braga, Raul Machado, Rui Cirne Lima, JoLeonardi, Julieta
Teles de Menezes, Jan Hooog, João Batista Pereira, Elsa Bersani Tschospecke, Ada
Bonnes, Julieta Laporta Albuquerque, Olegário Ricardo, Augusto Meyer, Manoel do
Carmo, Cassiano Ricardo, Maria Eugênia Celso, Emílio Baldino e o Trio Alberto
Nepomuceno, composto por: Côrte Real, Radamés Gnattali e Arduino Rogliano;
Augusto Cingolanie, Anita Conti, Augustin Barrios, Andino Abreu, Jaci Martins de
Horne, Carolina Tófoli Culan.
2
Com o movimento revolucionário de outubro de 1930, generalizado em todo
país, o Clube Jocotó foi obrigado a suspender suas atividades.
No dia 29 de novembro de 1930, retorna no salão da Exposição, na Av. 13 de
maio. Nessa ocasião, promove a sua hora de arte com um grupo de professores da
Banda Municipal.
De 1931 em diante, os artistas convidados são nomes que circularam pelo
Jocotó e se encontram consolidados no mercado de arte musical de Porto Alegre. O
clube enfatiza seu caráter mais associativo, enquanto a cidade vai ganhando
espaços em relação ao início do século.
Com outros espaços sociais competindo com os do clube, a centralidade do
Jocotó na vida cultural de Porto Alegre, enfim muda. Mario Totta, seu mentor,
começa a dar sinais de cansaço à frente da agremiação.
Em 1933, o destaque é a Rádio Sociedade Gaúcha, que irradia o programa
lírico de 9 de setembro apresentado no Jocotó, demonstrando o poder de
comunicação que extravasa o exclusivismo do Clube, cujos sócios fazem parte da
elite porto-alegrense, constiuída por muitos nomes italianos.
Os salões do Clube Leopoldina Juvenil abrem as portas para um carnaval
com as co-irmãs no ano de 1934, o último da sua existência. O sábado de Aleluia é
festejado nos salões da Confeitaria Coroa, espaço social cujos proprietários o
italianos.
Agora, iluminemos a face reflexiva do Clube, ainda que ela seja abandonada,
gradativamente, a partir de 1928. À medida em que avança o governo Vargas, após
a revolução de 30, o entretenimento substitui as horas consagradas aos intelectuais
da cidade. Justo no momento em que emerge uma importante geração de escritores
e poetas.
3
Inicialmente, cabe um breve comentário sobre os oradores dos dez anos de
Clube Jocotó. Observados em perspectiva, os artistas e intelectuais que se
apresentam e conferenciam no clube, em sua maioria, constituem a camada da
intelligentzia local. Atuam na cidade que, metaforicamente, denominamos de
“Cidade do Espírito”.
Da mesma forma como destacamos a circulação de artistas nos teatros e nos
salões para ilustrar como, no período entre guerras, a elite de Porto Alegre se
diverte, destacamos a circulação de intelectuais no Clube para ilustrar também uma
projeção importante da narrativa erudita da cidade por seus narradores.
Nas horas culturais mensais do Clube Jocotó essas presenças e o corpus das
conferências indicam, no espaço social que o clube ocupa, uma década decisiva no
debate do campo estético. Como veremos, no que se refere às sociedades italianas,
onde é cultivada a cultura latina, no Clube Jocotó os estilos e gêneros literários
sinalizam tendências em luta de imposição. No campo político é visível que o
crescente modernismo quer definir a feição do nacionalismo no Brasil. A busca da
formulação estética é um tema complexo e, que, foge aos objetivos tanto de
Sanmartin quanto ao nosso, mas cabe indicar o debate em que estão inscritas as
conferências aqui mencionadas apenas por seus títulos.
No sentido da teoria literária de Jauss, os textos expressam o “horizonte de
espectativas” de sua época, ou seja, qual a pergunta que o texto quer responder.
334
O Clube Jocotó é a vitrina dos textos de sua época, onde a escolha dos temas
reflete a existência de um público competente. Tomemos as informações a seguir:
Nos “frementes anos” em que o clube existiu, as conferências iniciam
335
em
1924, quando Alcides Maya conferencia sobre “O belo e o feio”. Pedimos licença à
narrativa de Sanmartim para citar Lea Masina, ao destacar a importância do escritor:
Numa época em que a literatura deveria ser o mais fiel possível à realidade,
o desespero barroco de Maya contribuiu para denunciar a miséria, a
4
incompreensão e o abandono. O [...] “História gaúcha” [...] encerra-se de
modo nostálgico. Os tempos novos, do cosmopolitismo moderno, não
comportam
mais as velhas crenças. Como na história bíblica de
Sansão,
a força abandona o gaúcho, que se rende à organização urbana
e citadina.”
336
Segue-se a conferência de Eduardo Guimaraens, que versa sobre “Os nosso
poetas”. Os poetas riograndenses têm em Augusto Meyer, uma de suas figuras de
destaque:
O simbolismo rio-grandense como expressão de grupo nasceu na praça da
Misericórdia
com Eduardo Guimaraens [Divina Quimera -grifo nosso].
Álvaro Moreira, Felipe de Oliveira, Homero Prates, Carlos de Azevedo.
Antônio Barreto e logo depois contagiou o trio da praça da Harmonia, Alceu
Wamosy, De Souza Júnior, Dyonélio Machado. [...] Parece que o
simbolismo se aquerenciou no Rio Grande do Sul [...] nas paisagens
outonais, em outras predisposições igualmente ponderáveis “Porto Alegre,
cidade roxa” dizia Aldo Mota [...]. Ainda em Pedro Vergara (poeira dos
sonhos, 1922), Athos Damasceno Ferreira (poemas do sonho e da
desesperança, 1926), Paulo de Gouveia (Mansamente,1929) sua influência
é evidente [...] traços de sua influência em Marcelo Gama e Zeferino
Brazil [...].
337
A próxima noitada é com Zeferino Brazil, “príncipe dos poetas
rio-grandenses”, dissertando sobre “A arte de ser feliz”. O orador da noitada seguinte
é Rubens de Barcelos, que disserta sobre “A Dança”. Anos mais tarde ele viria traçar
o perfil geral da evolução literária do Rio Grande do Sul.
338
Antes do fim do ano, Alba Barbedo declama “Pedra”, do patrono Mário Totta.
Mais próximo de seu encerramento, o escritor e poeta Jorge Jobim, fala sobre
“Motivos bizantinos”, onde destaca a importância da defesa da cidade de Bisâncio
na preservação da cultura do Ocidente, alegando que, graças a ela “A Itália pode ler
Platão, que a cristã expandiu-se aa Rússia, que os povos vizinhos adquiriram o
sentido da civilização [...]”.
339
O palestrante e patrono rio Totta fala sobre “O elogio do sacrifício”.
5
Ovacionado, é homenageado pelo presidente da Sociedade Carnavalesca Filhos do
Inferno, o moranes Domingos Faillace, assim como, pela Federação Acadêmica,
entre outros.
João Luso, escritor português residente no Rio de Janeiro, é o orador que
marca o reinício das atividades do ano. Discorre sobre ”A mulher e suas armas”.
Vem à Porto Alegre, sob o pseudônimo literário de Armand Erse. A descrição da sua
chegada é reconstituída por Sanmartin. É o olhar estrangeiro do viajante que tem
suas impressões. É o mesmo olhar que vamos encontrar em outros viajantes
conhecidos da historiografia local. Nas palavras de Sanmartin, o que Luso narra:
[...] do convés do navio em que viajava, ao aproximar-se da cidade, avistou
logo as torres ponteagudas da igreja das Dores, a chaminé fumegante da
usina da Força e Luz e a silenciosa Casa de Correção. Essas três imagens
que se destacavam no panorama urbano, tinham, para o seu espírito [...] o
senso de um tríptico moral muito severo: “Crê, trabalha e vê como te
portas”.
340
Em maio, ocorrem debates sobre a dança, desta feita, a cargo de Fábio de
Barros, que fala sobre “A renascença da dança”. Na noitada seguinte, o patrono
Mário Totta, disserta sobre “Nomes e sobrenomes” enquanto Francis Pelicheck e
Sotero Gomes desenham. Na próxima reunião o regionalista Darcy Azambuja,
notabilizado pela sua obra “No galpão” é o orador, falando sobre costumes, sob o
título “Casar é bom”.
341
O mesmo ocorre com o palestrante Paulo Arinos, pseudônimo de Moysés
Velhinho, o historiador, que na reunião seguinte ao invés de falar sobre o domínio
historiográfico, disserta sobre “Do riso ao sorriso”. Na próxima sessão a parte
literária está com o, recém retornado, poeta modernista Guglielmo de Almeida, cuja
obra demonstra a dimensão do debate travado à época:
Eu queria fazer ver à sociedade inteligente de Porto Alegre que nós todos-
nós a quem uma imprensa mal informada e galhofeira, teima em chamar
“futurista” - nós todos, que nos pusemos a
vanguarda
do movimento
recente de brasilidade, não somos “arrivistas”, não somos “parvenus”, não
6
somos “nouveaux-riches”, na poesia. Não [...] o que eu vou fazer com a
minha obra poética, poderia fazê-lo , por exemplo, com a de Ronald de
Carvalho que estreiou em 1914 com “Luz gloriosa e Sonetos”. Filiou-se em
1922 ao movimento modernista literário com “Epigramas irônicos e
sentimentais” [...].
342
E, segue citando em sua defesa, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Menotti
del Picchia, Ribeiro Couto, Oswald de Andrade. É aplaudidíssimo. Mais adiante, em
setembro de 1925 recebe homenagens da Revista Máscara, de escritores e artistas
locais, por ocasião de uma palestra proferida no teatro São Pedro.
O pintor italiano Angelo Guido, recém-chegado ao meio cultural da cidade, é o
palestrante em outubro que vem para ser professor no Instituto de Belas Artes. O
tema podia ser “A tendência moderna da arte”. Trata dos novos ideais, “cubismo,
futurismo e expressionismo, a paisagem moderna e a poesia na pintura, realidade
espiritualizada, o espírito da nova raça, nacionalismo e universalismo e a crise
espiritual dos nossos tempos.”
343
O orador, a seguir, é Mem de Sá, que trata da “Desilusão” e, é o último do
ano.
Em 1926, as sessões iniciam com o escritor Dionélio Machado, que estréia no
Jocotó, abordando o tema “A mulher e a literatura
344
.
Atores, igualmente, freqüentam o Clube. O comediógrafo, Leopoldo Fróis, que
está em apresentação no Teatro São Pedro, também seu espetáculo. Sobre ele
diz Carlos Reverbel:
[...] o maior ator brasileiro, em certa época, também era grande ator
português e falando com o mesmo sotaque, tanto nos palcos do Brasil como
nos de Portugal. Chamava-se Leopoldo Fróis.
Alcancei
-o e fui seu fã [...]
outro calcanhar de Aquiles do teatro dito brasileiro: as grandes companhias
formavam-se em torno de estrelas consagradas, como Procópio Ferreira,
Dulcina de Moraes ou Leopoldo Fróis. [...]. veio a guerra[a Segunda,
grifo nosso]. E as coisas começaram a mudar de figura com a chegada de
7
diversos diretores europeus [...].
345
Reverbel conclui, dizendo, que essa situação muda o teatro brasileiro,
fazendo-o amadurecer, eis que o texto e a direção passam a ser mais importantes
que o astro, estrela ou ator, como era até então.
Os serões continuam. Segue Augusto Meyer, que fala sobre “Poetas, poetas
e poetas”, o qual, inclusive tem um poema seu, “Aos Chorões”, publicado por Cyro
Martins: “Aos Chorões: Chorões da praia de Belas/molhando as folhas do rio/sois
pescadores de estrelas/ao crepúsculo tardio./O mais velhinho, torto/ao peso de
tantas mágoas/lembra um pensamento absorto/debruçado sobre as águas [...]”.
346
O escritor Osvaldo Orico, em setembro, profere a conferência intitulada “Nós,
os poetas”.
As conferências de 1927 iniciam com a escritora Diva Dantas, que fala sobre
”Os homens e as mulheres de ontem e de hoje”. O uruguaio Augusto Bado profere a
próxima palestra sobre “poetas do Uruguai”. Sotero Cosme, nesta noite vai desenhar
à lápis os convidados presentes, entre eles, o Cônsul Antonio Di Pasça.
Em agosto promove-se uma “Noite gaúcha”, na qual é apresentada a peça
“Gaúchos”, de Martinez Paiva, adaptada por Roque Callage e apresentada por
Oduvaldo Viana. Em setembro, Miranda Netto analisa as obras de Carlos Gomes,
José Maurício, Assuero Garritano e João Schwarz Filho. A medida em que suas
músicas são executadas, Miranda discorre sobre a abrangência e a importância
desses compositores para a arte brasileira.
O escritor Cornélio Pires faz a palestra da próxima noite, em 12 de novembro
de 1927, o mesmo já se havia apresentado no Cine-Teatro Guarani. Na última
noitada do ano, o poeta Zeferino retorna ao Clube Jocotó para falar sobre o
8
“Romantismo”.
Gradativamente, o Clube Jocotó vai sendo absorvido pelos demais salões,
sintoma da cultura de massa impondo-se em Porto Alegre, bem como da diversidade
de espaços sociais onde são apresentados e “consumidos” os bens culturais em
circulação.
Muitas promoções são realizadas pelo Clube Jocotó, em associação com o
Teatro São Pedro. Uma delas, em 1929, a “Noite vienense”, com Margarete Slezak,
da opereta Vienense, Adolf Korner e Harry Payer os quais completam os três duetos.
São utilizados, também, os novos salões dos cinemas, como o do Teatro Carlos
Gomes com a apresentação do “Coro dos cossacos do Don”.
Nessa modalidade, ainda, o Clube oferece aos sócios um espetáculo da
Companhia de Comédias Jaime Costa, que encena no Teatro São Pedro “Quando
elas querem” e“A família colossal”. Ou, o programa vocal com o tenor Armando da
Silva Meconi, o barítono Emílio Baldino e, ao piano, o maestro Milton Calazans. No
dia 12 de junho de 1929, o Jocotó oferece, no Teatro São Pedro, a sua hora de arte.
O professor José Strnd, do conservatório de Praga, interpreta músicas
orientais com sua harpa, sendo a apresentação acompanhada da bailarina Strnd.
A fundação da Sociedade de Cultura Musical, em Porto Alegre, tendo como
presidente, João Pio de Almeida, vem ampliar as opções de boa música e de
formação musical na cidade promovendo, também, a música internacional. Anos
mais tarde ela é ampliada e denominada Sociedade de Cultura Artística (música,
artes plásticas e literatura). Foram eleitos para compor a diretoria: Teófilo Borges de
Barros, Mário Totta e Mansueto Bernardi.
As reuniões dançantes, semanais, seguem pelo Jocotó, sem alterar as horas
de arte, assim como o concerto mensal do Clube Hayden que superlota o tradicional
9
salão do Turner -Bund, outro pólo de freqüentação e espetáculos.
O Clube Hayden, fundado no ano de 1897, retoma seus concertos fazendo
sua centésima apresentação no Teatro São Pedro, em 1930.
Vive-se a intensidade e o apogeu dos espetáculos teatrais. O cinema ainda é
um salão de espetáculos que divide espaço com a projeção das películas, pois o
boom do cinema, ainda, está por vir.
O Teatro São Pedro, por sua vez, apresenta uma variedade de espetáculos
de valor artístico diferenciado. Recebe a Companhia Italiana de Operetas Lea
Candini, promove conferências, como as de João Luso que também se apresenta no
Jocotó e do poeta e jornalista Afonso Lopes de Almeida, a qual versa sobre Artur de
Azevedo.
O alvoroço na cidade, entre dezembro de 1928 e janeiro de 1929, fica por
conta da chegada de Francisco Villaespesa, conhecido como “Príncipe dos poetas
de Espanha”. Osvaldo Aranha, Secretário do Interior faz as honras oficiais ao poeta,
que vem cumprir uma intensa programação.
Concertos musicais, recitais são de praxe. Quando Pina naco se
apresenta, Mansueto Bernardi escreve narrando a trajetória individual da cantora,
que marcou, de certo modo, a escolha do repertório, do estilo de canto, enfim, o
toque de interpretação da artista:
Estuda na Europa, Pina com os maestros Bucceri e Bavagnelli, a princípio,
e De Luca e Brambilla, afinal. De Bento Gonçalves, onde nasceu foi
conhecida por Bernardi, vem a Porto Alegre e estuda antes de partir para a
Itália. [...] De certa forma aliás, não se explicariam os seus repetidos
sucessos nos teatros e salas de concerto da Itália, em que teve
oportunidade de se exibir. O maestro Mascagni, tendo-a examinado,
cera de um lustre, vaticinou-lhe uma carreira brilhante [...]
Quando, em julho, se apresenta Germana Bitencourt, diz Mansueto:
I0
[...] O contraponto é Germana Bittencourt. [...] Conhece também todos os
segredos
do canto. Mas não gorgeia óperas. [...] Mario de Andrade,
Manoel Bandeira, Guilherme de Almeida, João Pinto da Silva [...]
escreveram a respeito [...] de sua fina sensibilidade [...] dá-me a impressão
de um instrumento musical, talvez de uma linda, graciosa, preciosa gaitinha
de boca.
347
A variedade cultural dos artistas caracteriza a época do pós-guerra, visitam a
cidade: o quarteto Tcheco Zika, a Companhia Italiana de Operetas, Clara Weiss e S.
Seddivó, a Companhia Alemã de Comédias, de Otto Mazel e a Companhia Lírica
Ítalo-Brasileira de Saveiro Ferraiol.
Porto Alegre, recebe ainda, a Companhia vara de Dramas e Comédias de
Roman Rich, a Companhia Dramática Alemã, de Leonie Duval e a Grande
Companhia de espetáculos Roulien, de Raul Roulien ao lado de Iracema de Alencar.
No teatro São Pedro repercute o sucesso de Companhia Adelina-Aura-Abranches.
No mesmo teatro, Peri Machado apresenta-se, como Jaime Costa com sua
Companhia de Comédias.
A circulação nos salões gera um blico consistente que assegura a
manutenção das casas de espetáculo.
Dimensionando o espaço da música refinada existe a Sociedade de
Concertos Sinfônicos que realiza no Teatro São Pedro concertos como, os dos
maestros Romeu Tagnin e Assuero Garritano. A maior contralto do mundo, Gabriela
Besanzoni Lage realiza recital beneficente no Teatro São Pedro, para a instituição
“pelas mães e pelas crianças”.
Em maio, Dora Assmus Graudenz retorna da Europa e apresenta-se no
Teatro São Pedro e, em seguida, é a vez de Elsa Bersani Tchoepke.
Destoando levemente, Rody, o ilusionista, atrai platéias ao mesmo teatro.
I1
Músicos brasileiros também têm vez. Marcelo Tupinamainda vai ser ouvido
com seu intérprete, Jurandir de Aguiar no Teatro São Pedro, apenas com música
brasileira.
noites notáveis, como por exemplo, quando Zola Amaro, a cantora patrícia
apresenta-se no Teatro São Pedro em homenagem ao Presidente do Estado,
Getúlio Dornelles Vargas; Odete Faria, pianista conterrânea realiza no salão do
Conservatório Musical seu concerto, assim como o faz Demétrio Ribeiro Sobrinho,
tenor rio-grandense ou quando o Cônsul da Itália, Manfredo Chiostri, mais José
Ricaldone, Cesar Scarini, Francisco Benoni e Carlos Lubisco promovem e levam à
cena no Teatro São Pedro a comédia “Scampolo”, de Dario Nicodemi.
O Teatro Coliseu, desde 1925, dividindo atenções e público contribui
ativamente com vida cultural e social da cidade. Em 1927, o teatro dos irmãos
italianos Petrelli, traz a Companhia Negra de Revista, em outros momentos traz a
Companhia de Comédias de Procópio Ferreira-Abigail Maia. Vicente Celestino e Laís
Areda também se apresentam, seguidamente, com sua Companhia Nacional de
Operetas. A Companhia de Comédias Trianon, de Teixeira Pinto é outra assídua
animadora de seu salão. A Companhia Portuguesa de Revista, de Antonio Macedo é
recebida, assim como a troupe Todor Tsckewloff, tendo Eva Todor, como figura
principal.
O Clube Hayden, também costuma fazer suas audições no Teatro Coliseu.
Alda Garrido apresenta-se com Augusto Anibal e Pedro Celestino. A Companhia
Nacional de Operetas Eugenio Noronha, com Pedro Celestino, Carmen Dora, Maria
Amorim é recepcionada também.
O Coliseu recebe, ainda, a Companhia de Variedades “Kid Wallace”, a
Companhia Sper. Umberto Petrelli, empresário que regressa de viagem de negócios
ao Rio e São Paulo, promove a vinda de Procópio Ferreira, “que apreciaremos no
Coliseu, no Teatro Avenida, na primeira quinzena de março, após percorrer Santos,
I2
Curitiba com sucesso nas temporadas [...]”.
348
O destaque para a última fase é a grande freqüência de companhias mais
populares de entretenimento, como ocorre em março de 1931, quando a Companhia
Nacional de Revistas “Pinto Filho” estréia no Teatro Coliseu.
No Teatro São Pedro apresenta-se a Companhia de comédias Palmerin
Silva-Ceci Medina.
349
Outras cidades vão apreciar, em 1931, os concertos da Orquestra Sinfônica
de Porto Alegre: Sant'Ana do Livramento, Santa Maria e Cachoeira, bem como os 36
professores do Centro Musical Real Portoalegrense, que são dirigidos pelo maestro
patrício José Eggers e secretariado pelo musicista Heitor Manganelli.
350
O Instituto de Cultura Física apresenta programa de bailados com Lia Bastian
Meyer e Liege Siemssen. Outra conquista da cidade, é a inauguração da sala
Beethoven, sendo o italiano A Pizoli, seu proprietário. É o grande espaço de
apresentações de concertos da cidade, apresentando, inclusive, uma novidade, o
instrumento Theremin.
Em 1932, a educação musical é, em parte, proporcionada pelo Maestro
Lunardi, que reside anos em Porto Alegre. Vai dar aulas de piano, solfejo, teoria,
harmonia e canto em italiano, sabendo do gosto dos patrícios pela sica. Sua
formação foi no Real Conservatório de Palermo.
351
Um ano depois, a apresentação do Orfeão Rio Grandense, concerto
proporcionado pelo maestro Leonardi e pelo trabalho orquestral da Banda Municipal,
emocionava o público.
352
No Auditório Araújo Viana ocorre, pela primeira vez, um concerto de Música
I3
clássica, por José Leonardi, Diretor da Banda Municipal.
Enquanto isso, no clube Caixeiral, que faz 50 anos, Carlos Dias Fernando
palestra sobre Rui Barbosa e Raul Pompéia.
Há destaque, também, para as atividades do Clube Musical que apresenta um
concerto sinfônico no Clube Gondoleiros, com a regência de João Leite Maciela.
Enfim, muito mais poderia ser destacado nessa cena cultural de uma década,
detalhadamente reconstituída por Sanmartin e aqui exposta como fragmentos de
uma cidade que pleiteia ser uma metrópole cultural.
Uma hipótese absolutamente heurística: ao examinar o texto-narração,
apenas permitida pelo nosso estranhamento, aventamos seo Clube Jocotópretendeu
mais do que aparentava, se foi mais longe do que as condições permitiam. Não
passa desapercebido na narrativa de Sanmartin, que em algum momento de sua
trajetória “o clube“ (entendamos, seus dirigentes) opta por um perfil mais de
entretenimento, após os acontecimentos ocorridos em torno do ano de 1930.
uma gradativa perda da função formativa intelectual, desde a origem do
Jocotó, que ocorre para alimentar a função de refinado entretenimento da camada
culta da população de Porto Alegre, a qual Sanmartin vive e narra.
Ao contrário das sociedades italianas, que, no período, adotam outro perfil na
programação cultural, o Clube Jocotó vai, gradativamente, diluindo o espaço da
escrita da sociedade do Rio Grande do Sul, ímpeto demonstrado nas origens das
suas noitadas, em função da fruição estética musical e da co-promoção com os
teatros e cinemas de espetáculos mais ao gosto da sociedade de massa que se está
delineando. Muito do glamour representado pelo Clube ficou retido apenas na
I4
mémória de reconstituição como Sanmartin realizou.
4.3.6 Fundar e viver a italianidade na Porto Alegre Moderna
A recepção dos italianos que chegam em Porto Alegre pode ser a das
sociedades italianas existentes.
353
Tais sociedades o frutos do trabalho pretérito, diante do isolamento social
dos primeiros italianos residentes na cidade e tem o objetivo de congregar os grupos
humanos pelo pertencimento étnico. Elas são fundadas na medida em que cresce a
importância social e econômica da imigração. Uma vez que existam italianos, suas
sociedades também existirão, seja na cidade ou na colônia.
O abandono destes imigrantes italianos assombrava o padre Scalabrini: a
indiferença do corpo diplomático, da Igreja e dos imigrantes de levas anteriores,
diante do espetáculo de anomia social a que era submetido o italiano, “escória
dentre todos os imigrantes, os menos classificados socialmente”, nos EUA no final
do século XIX e início do século XX.
354
Reunindo as narrativas dos primeiros viajantes e exploradores, historiadores
conseguem entrever a precoce presença italiana no Brasil, e, em particular, em
Porto Alegre. Fazem parte da imigração individual, são os aventureiros e exilados
políticos. Notadamente, “a Revolução Farroupilha de 1835 atraía figuras como
Garibaldi, Rossetti, Zambeccari ou Anzini [...], e outros militares que vão fixar-se na
província”. Todos farão parte do panteon dos festejados pelas sociedades italianas,
na qual, o mais saliente é o mito de Garibaldi. Na corte, existem italianos desde
1830. Mas nada comparável à expressão numérica que assumem a partir do final do
século XIX.
355
A colônia urbana de Porto Alegre vai formar-se também a partir daqueles
imigrantes vindos do Uruguai, pioneiro na recepção de imigrantes no continente e da
I5
Argentina, convulsionados em crises econômicas. Os entrevistados mencionam
casos deste trânsito antes do estabelecimento definitivo na cidade, bem como, dos
que trazem capitais para “fazer a América”, montado pequenos negócios e
fabriquetas que prosperam.
Segundo a extensa historiografia disponível sobre a colonização italiana do
século XIX no Brasil e no Rio Grande do Sul, os anos de 1876 e 1891,
configuram-se como sendo de grande êxodo italiano. Destinados inicialmente para a
região da Serra do Estado, os imigrantes, agora colonos, fecundam as correntes de
imigrantes da corrente alemã (na verdade reunião de várias etnias, dado o processo
de unificação da Alemanha), iniciada em 1824, para as terras da Real Feitoria do
Linho Cânhamo, hoje a cidade de São Leopoldo. Alguns se evadem do destino
agrário logo que chegam, outros, aguardam os tempos da prosperidade ou da
ruína total, para tentar a vida na cidade.
A situação política na Europa não cessa de ejetar população e não apenas
rural. Técnicos, dicos, professores, artistas, vêm nas levas que os navios não
cessam de despejar nos portos brasileiros. Após a grande guerra, a considerar a
presença de judeus, poloneses, alemães, sírio-libaneses, franceses e espanhóis,
apenas mencionando as correntes mais expressivas, temos, em 1920, uma cidade
cosmpolita, um espaço social de interação multiétnico, uma Babel lingüística.
A metáfora geológica que Leed emprega é legítima quando compara a força
da viagem à força da erosão nos processos geológicos.
356
Jogado na “Cidade de Pedra”, o imigrante italiano tem no associativismo dos
anos iniciais da imigração uma ajuda real. Ao longo dos anos, agrega-se ao elenco
de atribuições das sociedades, a função pedagógica-política. Segundo os jornais,
entre 1920 e 1937, o discurso das sociedades prega a solidariedade, a força da
cultura e da moral italiana.
Pura estratégia de imposição simbólica, a pouca porosidade da elite
porto-alegrense terá desempenhado um papel na constituição de espaços exclusivos
I6
de convívio dos italianos. A representação do estrangeiro é sua categorização como
força de trabalho que se oferece à sociedade. Dignificar o que era indigno, ou seja o
trabalho, na sociedade colonial brasileira.
A economia exige a metamorfose, partidos e camadas dirigentes incorporam
o discurso. Mas de “gringo a comendador”, tarda. Com a última palavra, sempre
Barth.
357
Entre 1920 e 1937 a história social de Porto Alegre, na perspectiva de seletos
grupos de italianos transcorre privadamente, no espaço social das sociedades
italianas. Nas esferas de abrangência dessas sociedades, rotinizam-se
determinados dispositivos muito seletivos, os quais visam entronizar a chegada, a
condição de permanência ou partida dos estrangeiros ou patrícios, Em princípio, se
dividem em sociedades de auxílio e recreativas-culturais. Para Loraine Slomp,
“pobres eram as sociedades dos pequenos produtores rurais, dos operários. Ricas
eram as sociedades criadas pela burguesia urbana”.
358
O certo é que o grau de associativismo de tais sociedades acompanha a
trajetória ascendente dos estrangeiros na cidade, basta consultar a galeria dos
presidentes. O modo de ser elitizado e o associativismo no espaço social de Porto
Alegre define os principaís perfis dessas sociedades.
No século XIX, os italianos são pouco representativos, numericamente, em
Porto Alegre, quando da fundação da primeira sociedade, a Vittorio Emanuelle II, em
1877. A “minúscula colônia” de Porto Alegre somente começa a ser importante nas
décadas iniciais do século XX.
359
Difícil saber quantas sociedades foram fundadas no Rio Grande do Sul, tempo
de duração, perfil dos associados, direção dos investimentos, sede própria e outros
aspectos importantes. No Cinquantenario della Colonizzazione nel Rio Grande del
Sud, Crocetta lamenta a falta de uma estatística que desse conta do porte financeiro,
número de associados e etc. [...] e aquilo que mais conta sob o aspecto moral -
I7
com a função educativa que essas exercem sobre as massas”.
360
Situa em torno de
64 o número de sociedades no Estado, sendo 26 com sede própria.
Por seu turno, a renovação da circulação dos grupos humanos na cidade é
acelerada pelo ímpeto das trocas econômicas. Diz-se que a própria disposição
geográfica de Porto Alegre a destina ao comércio, embora a indústria, em especial a
dos alemães, seja importante no período entre-guerras.
Ainda que haja crise, como o endividamento da municipalidade e os
empréstimos externos de 1909, 1922, 1926 e 1928, a economia representada pelo
imigrante é crescente e decisiva. A cidade mantém-se entre as mais importantes no
período, superando em alguns pontos, Rio de Janeiro e São Paulo.
361
Avultam os negócios e serviços da cidade, estrangeiros trazem capitais os
quais o superados pela importância do impulso das colônias, que, uma vez
passadas as tarefas de instalação, intensificam as trocas econômicas com Porto
Alegre. A formação da pequena burguesia italiana segue os passos da poderosa
burguesia alemã. Estabelecer-se no comércio é importante. Destacar-se na
liderança das sociedades italianas, nessa fase, é mais um modo de ser distintivo no
espaço social, para os bem-sucedidos. É possível que alguns venham a figurar nos
registros policiais ou médico-sanitários que, de alguma forma, contam suas histórias
interrompidas. A narrativa não pode ser apenas triunfalista.
De 1920 em diante, as sociedades italianas tem na coesão étnica, um
importante elemento discursivo, quando reproduzem, externamente, mais que para o
consumo interno, as distinções das hierarquias de origem. Mas, no domínio público
comparecem organicamente integradas como que para perenizar a coesão com os
demais italianos e seus descendentes. Constantino e Ospital detendo-se no caso
histórico dessas sociedades, em Porto Alegre e na cidade de La Plata (Buenos
Aires) mostram a diversidade interna e a dificuldade de coesão.
362
I8
Não é outra a percepção dos entrevistados. Apenas alguns, em cada grupo
familiar, relatam que seus parentes freqüentassem tais sociedades. A diversidade
étnica existente, até hoje, é um dos motivos apontados. Mas a lógica decisiva terá
sido a posição na escala social dos grupos italianos.
No citado trabalho de Crocetta, os ilustres merecem biografias. Normalmente
fundaram sociedades. De todo modo, as sociedades italianas são tomadas como
uma importante referência da vida social de Porto Alegre, senão para todos
imigrantes, para muitos deles, principalmente na visão da camada jornalística.
363
Perscrutemos os jornais. O jornalista (ou repórter), nas páginas do Correio do
Povo desfila a vida pública dessas sociedades. Narra, inserindo os fatos no fluxo
insondável das coisas, os acontecimentos em detalhes corroborativos, trazem os
protagonistas e seus discursos à cena.
A narrativa dominante descreve o cenário das sociedades, a ordem das falas
faz soar os aplausos. Não dissonância, polifonia. Os eventos são comemorativos
e endossam os lugares de memória italiana.
A vibração é a do palestrante ou a da platéia entusiasmada. O narrador oculto
é o jornalista isento. Ao leitor, cabe interpretar, atuar como mplice dessa
configuração. Mais que informação sobre os fatos, tal narrativa traz o tempero da
época, na perspectiva do estrangeiro.
Percebemos desequilíbrio no destaque das sociedades. Algumas, como a
Sociedade Vittorio Emanuelle II e a Sociedade Dante Alighieri são citadas, mas com
os documentos que dispomos, o temos como saber o que se passa nas demais.
Possivelmente, haja dissonância que não figura no Correio do Povo. Os
testemunhos estão presos no tempo, alguns se negam serem entrevistados e se
ressentem nas sombras.
O que está escrito sobre as sociedades, no arco de tempo destes 17 anos
pesquisados no acervo do Museu de Comunicação Social José Hipólito da
I9
Costa-MCSJH, oferece algumas chaves de leitura ou corpus, enquanto sede
reflexiva da leitura:
1) A primeira chave de leitura sugerida é que as sociedades são destaques no
jornal o porque funcionem como clubes esportivos, ou sociais, ou de formação
intelectual. Mas porque são associativistas, pretendem oferecer através dos eventos
que proporcionam, sob o ponto de vita social, a comunicação necessária para o
apoio, a solidariedade e o convívio social entre os estrangeiros, inclusive através dos
eventos educativos, como o caso do ensino da língua italiana. Mas a comunicação e
o entendimento do “ser italiano” varia na conjuntura.
2) A segunda chave de leitura é que a propalada coesão é igualmente filtro. É
produto da hierarquia social e dos pertencimentos étnicos que encasulam os
imigrantes, truncando o laço da dita italianidade. A “Sociedade Moranesi Uniti”,
fundada pelos moraneses, em 1924, não é mais lembrada pelos moraneses
entrevistados na pesquisa da tese porque teve pouca permanência temporal.
3) A terceira chave de leitura é a dimensão comunicativa: fazem circular a
novidade que o viajante traz, mantendo a tradição oral. Não mais como a narrativa
de Marco Polo “que encerra a geografia do lendário e incorpora o real ao
maravilhoso”, mas como a dos viajantes modernos, os quais são cientistas,
intelectuais, professores que perpetuam a linhagem dos primeiros exploradores que
visitaram e escreveram sobre a, então, provinciana cidade, como Saint-Hilaire.
364
Uma vez explicitadas as chaves de leitura, verificamos como o Correio do
Povo narra a presença italiana na cidade.
Meio da oralidade, as sociedades promovem horas-culturais onde os
discursos, as conferências buscam os ingredientes do bom relato, o que desde
Tucídides, deve tratar das áreas desconhecidas, das culturas, da economia, da
política, da topografia, dos povos, como a buscar na Itália moderna, a Roma eterna.
I0
365
Relato ou narrativa que as sociedades cumprem exemplarmente, buscando
solidificar os laços entre Porto Alegre e Itália, estabelecendo trocas, como entre
amigos, mas, nunca como entre iguais. Cantando a Giovenezza:
Questa é la giovenezza che há
si grande
poter di vita ne le rosse vene
da convertire il male come il bene
per le sue tempie, in fulgir de ghirlande.
Questa é la giovenezza poderosa
Che, senza angoscie l´òrzzonte scruta,
E nell´àrida vita a sé tramurta
Gocce di snague in petali di rosa;
Che, se vede cadresi ai piedi, infranta,
La più divina de le sue chimere,
Per un´àltra già sorta che lìcanta;
Questa chòggi mi freme, nel piú bianda
Ritmo di vita e di speranza, in cuore
Oggi, che sono oppressa dal dolore
E ancor proseguo la mia vita cantando
(Anna Severino)
366
O ano de 1920 abre com notícias sobre as comemorações de datas italianas
pelas sociedades. Setembro é a grande data da colônia italiana, evidentemente, a
colônia entendida como constructo identitário, designando uma homogeneidade
étnica fruto da eleboração do próprio discurso.
A efeméride celebra o 50º aniversário da unificação da Itália e é muito
representativa do modo de utilização e da densidade social do mito. A narrativa
contém todos os elementos que reproduzem a presença italiana na cidade, nesses
anos.
367
É formada uma comissão com os presidentes das sociedades italianas locais,
invariavelmente, encabeçada pela autoridade consular que, em 1920, é o Cav.
I1
Maximo Goffredo.
A visibilidade inicia pela escolha de um local onde a face laboral dos italianos
fique destacada, o que implica em exposições públicas do trabalho do imigrante e
em promoção de feiras que afirmam o discurso dominante sobre sua operosidade.
Aliás, sempre presente no discurso das autoridades tanto locais, como italianas, o
I2
acerto do governo brasileiro ao abrir as portas do país ao elemento
estrangeiro, disciplinado, de boa moral, incrementando o desenvolvimento dos dois
países.
368
Em efeméride importante, cabe “a colocação de uma inscrição comemorativa,
em galvanoplastia, no monumento de Garibaldi e Anita”.
369
Ambos o figuras históricas conduzidas a figuras míticas. Freqüentemente,
apresentados como forma de discurso são capazes de resistir ao seu tempo e
transcender a espacialidade mais restrita. Garibaldi e Anita, pela atuação durante a
Revolução Farroupilha e no processo político italiano, são absorvidos pelo discurso
da italianidade em construção. A referência constante à Garibaldi, “herói de dois
mundos” solda o laço mítico e possibilita ao estrangeiro situar-se também como um
sujeito capaz de se designar nos seus próprios enunciados.
O mito vem renovando-se desde o início do culo XX. Em 4 de julho de
1907, a Sociedade Vittorio Emanuelle II descerrara uma lápide de mármore na
data de nascimento de Garibaldi. Nela estava escrito por Adelchi Colnaghi: “In
questa libera terre/ove refuisi di gloria/l`éroe del due mondi/Giusepe Garibaldi/a
pertence ricordo dei posteri/nel cinquantenario della nascita/La colonia
unanime/Pose”.
Placas e monumentos perenizam a homenagem, mas segundo a crítica, não
tem significativo valor estético, apenas histórico. Faz parte da tendência assinalada
por Rudolf Witttkover, citada por Doberstein:
[...] quando nos voltamos para a escultura do séc. XIX, vem-nos à mente
uma série de monumentos históricos dos mais vulgares, que provêm
principalmente da segunda metade do século: os Garibaldi, Vittorio
Emanuelle e outros do gênero, uma espécie de maldição que assola as
cidades européias [...].
370
I3
Mas exatamente pelo seu valor simbólico, as sociedades italianas disseminam
peças na paisagem urbana, nos espaços públicos e nas suas sedes. Para os
críticos, até meados de 1930, tal estatuária carece de valor estético, não apenas em
Porto Alegre.
As bandeiras também o importantes para a densidade social do mito, ainda
mais que uma nova sociedade, a Società dei Reduci di Guerra, acaba de ser
formada pelos súditos que combateram na Grande Guerra. Lembrar que assim como
o avô de Carmine combate nesta guerra, outros partiram de Porto Alegre para lutar
pela Itália em 1914. Uma bandeira bordada “com muito gosto artístico” e medalhas
para os ex-combatentes serão entregues na ocasião da inauguração da nova
associação. As senhoritas Carolina D'Amore, Adelina Del Fiurne, Maria Golfo e
Angelica Camerata participam da elaboração das festividades.
371
A vitrine da casa "A Trocadera" exibe a bandeira, ao lado da fotografia do
patriota italiano Cesar Battisti, quando saía de uma cadeia na Áustria para ser
enforcado. Medalhas para os membros da nova sociedade também estão expostas,
além do álbum de assinaturas.
Nessa simples notícia estão dados os elementos de representação dos
grupos italianos em Porto Alegre. A união das sociedades em torno do evento
uma dimensão da vida cultural da cidade, a qual se reproduz em todo o período na
cobertura do Correio do Povo.
Nesse sentido, destaca-se a liderança política da “Sociedade Dante Alighieri”,
vinculada à Roma, uma espécie de sub-representação política-diplomática italiana,
presente onde houvesse importante imigração. A Casa dos Italianos ou Itálica
Domus, é um projeto de sede coordenado pelo Comitato Dante Alighieri local, que
vai ser implementado, financeiramente, como se pode verificar:
Cav. Settimio Sampó, gerente da sucursal do Banco Francês e Italiano, em
S. Paulo, comunicou ao sr. Carlos Lubisco, presidente da "Dante Alighieri",
que ali foram conseguidos os seguintes donativos para a Casa dos
I4
Italianos: Companhia Puglisi, 1:000$000; Companhia Mecânica e
Importadora de S. Paulo, 1:000$000; Companhia S. A. Moinhos Gamba,
500$000.[...].
372
A sociedade será a referência da política italiana no exterior. Não há como
apreender a posição das demais, em relação à determinação externa sobre a ação
da “Dante Alighieri”, a não ser, apenas pelos jornais. Curiosamente, o jornal mantém
isenção na narrativa, deixa entrever apenas a inteireza de identidade nas iniciativas
das sociedades, como se o houvesse oscilação na condução das mesmas, entre
elas, com a sociedade de Porto Alegre e, internamente, entre seus sócios.
A existência de várias sociedades, aparentemente, não configura desarmonia,
ao contrário. Como percebemos na narrativa dos entrevistados, tal questão é uma
ferida narcísica ainda hoje. A solidariedade tem limites claros e o é horizontal,
nem vertical, nem expressa uma italianidade acima da referência do paese. A
questão nacional italiana é reproduzida no tecido urbano de Porto Alegre.
Em nível de comunicação, na difusão da cultura o domínio do português sem
a perda da língua-mãe é o objetivo expresso de todas sociedades italianas. A língua
italiana e seus dialetos (que alguns lingüístas sugerem como sendo uma língua),
praticados nas sociedades não interditam a dimensão comunicativa da identidade do
imigrante, ao contrário. Tornam impossível e, mesmo indesejável, uma narrativa
comum, empobrecida nos modos de serem semelhantes, sem serem iguais. Basta
observar como ser da região meridional ou do norte é uma pertença que parametriza
e recobre toda narrativa oral e escrita do estrangeiro imigrado, até hoje.
373
Em função da construção da identidade dos grupos urbanos, mais a ausência
de um forte sistema educacional público, as sociedades, além da sociabilidade vão
ter função educativa. Isto é, instrução como Peter Burke entende: “no sentido mais
amplo de ‘socialização’, todo processo pelo qual uma geração mais velha transmite
a sua cultura a uma geração mais jovem, desde o nascimento”.
374
I5
No sentido de instrução formal, o regime republicano no Estado preconiza o
ensino laico, sua liberdade e gratuidade. A reforma do ensino ocorrida em 1906, cria
colégios elementares e grupos escolares, aprimora a Escola Complementar. Em
1924, a taxa de analfabetismo no Estado é de 61,15%, enquanto a de São Paulo é
de 70,17%. O filho do imigrante tem acesso, desde 1906, à Escola Complementar. O
problema é a barreira lingüística a ser atravessada.
375
Ao menos uma das exortações do Bispo Scalabrini cumpre-se nas sociedades
o ensino da língua italiana. Elas vão se aplicar nessa função, seguidas de institutos e
escolas. No século XIX, a Sociedade Vittorio Emanuell II e a Sociedade Principezza
Elena di Montenegro (antes Bella Aurora), no Campo Bom Fim, modestamente
ensaiavam aulas, assim como a Sociedade Regina d´Itália e a Sociedade Elena di
Savóia. No início do século XX, a Sociedade Umberto I e a Sociedade Giovanni
Emanuel (esta por breve tempo) ministram aulas.
O Comitato Dante Alighieri tem, originariamente, compromisso com a
transmissão cultural. Ao longo do período vai construir sede própria, a Casa dos
Italianos, a exemplo da Argentina e dos EUA, reúne num único prédio:
Instituto de Ensino primário e secundário para os filhos de italianos; escola
serial e festiva para operários, e para brasileiros que desejem estudar a
nossa língua e a nossa cultura; biblioteca fixa e circulante para uso dos
sócios, mas reservando algumas salas de estudo, de conversação e de
informações comerciais. Também consultório jurídico gratuito, e ofício de
patronato para os estabelecidos no estado.
376
Em 1924, os membros da colônia agitam-se: falta um ano para o 50o
aniversário da chegada dos primeiros imigrantes italianos ao Rio Grande do Sul.
Como de praxe, a Sociedade "Dante Alighieri" é o espaço social definido para os
preparativos do 20 de setembro.
377
Nesse ano outra sociedade é fundada, desta vez, pelos meridionais. Esta
memória, como tantas outras, perdeu-se em Porto Alegre. Está na escrita, na
I6
historiografia, não está na memória dos moraneses e seus descendentes
entrevistados. Sua breve duração o deixa registros. A notícia veiculada no dia 28
de novembro de 1924, no Correio do Povo, destaca:
Acaba de ser fundada, nesta capital, mais uma sociedade
Italiana
, sob o
nome de Società Italiana"Moranesi Uniti". Os fins da nova sociedade são
beneficentes e instrutivos, e dela farão parte todos os Italianos nascidos em
Morano Calabro, na Itália. Como nesta capital existem muitos filhos dessa
cidade, reuniram-se no domingo passado, no salão da Confeitaria Rocco,
cerca de cem representantes desse departamento da nação amiga e
elegeram a diretoria da nova e útil sociedade. Após essa eleição, foi aberta
I7
uma subscrição entre os presentes, a qual alcançou imediatamente franco
sucesso, pois o capital subscrito atingiu a cerca de cinco contos de réis.
Dada a espontaneidade com que os filhos da cidade de Morano Calabro,
presentes á essa reunião, subscreveram tão elevada importância, é
pensamento da diretoria proceder á nova coleta, a fim de adquirir um prédio
para sede da sociedade. Os Srs. Januario Conte, presidente eleito, Rocco
Gallo, Attilio Mainieri e Domenico Faillace, em comissão, foram ao régio
consulado de S. M. o Rei da Itália, participar-lhe a fundação da Società
Italiana "Moranesi Uniti", sendo recebidos, no salão de honra, pelo Cav.
Luigi Arduini, que, aprovando os fins a que se destina essa sociedade,
felicitou em nome de sua magestade a diretoria por tão feliz idéia. No dia 7
de dezembro próximo haverá mais uma reunião para empossar a primeira
diretoria, já eleita, e para admissão de novos sócios.
378
Segundo Crocetta, a sociedade Moranesi Uniti, fundada a 23 de novembro,
para seus iniciadores, tinha finalidade exclusivamente patriótica.
379
Nas páginas do Correio do Povo a próxima notícia sobre a Moranesi Uniti será
apenas em 1934, quando uma crise entre o cônsul italiano e a Sociedade Dante
Alighieri força a participação de delegados de todas sociedades para conter o
conflito. Nomes de fundadores também aparecem no conselho da Dante Alighieri,
assim como sobrenomes de famílias de meridionais em festas de outras sociedades.
Os entrevistados desconhecem a existência dessa Sociedade. Apenas
Delmar lembra sobre o pai comentar algo em torno de uma construção de sede
levantada pelos moraneses. Mas, não tem certeza.
Conjecturam o que teria acontecido com ela. Teria se fundido à outra
sociedade? Aqueles que poderiam esclarecer, já não estão entre nós.
Mas os anos 20 também o de celebrações fúnebres para os italianos, uma
vez que na morte, ainda mais se gloriosa, reforça-se o elo dos grupos capitaneados
pelas sociedades.
Na leitura do Correio do Povo o espaço social é grandioso, nada menos que a
Catedral Metropolitana de Porto Alegre e a cena transcorre ainda em 1924. A
I8
cerimônia fúnebre é pelo aniversário dos tombados na Guerra. Celebrante, o
cônego Nicolau Marx, mais os padres Leopoldo Neis e Frei Modesto. Mestre de
cerimônias o cônego João Emillio Berwanger, secretário geral do arcebispo, enfim, a
mais alta hierarquia religiosa.
O Arcebispo de Porto Alegre é Dom João Becker, que desde 1912 governa a
arquidiocese. Re Gertz trata sobre a atuação deste, ao atuar pelo “catolicismo
político”, que tem nos imigrantes e seus descendentes, desde que católicos,
evidentemente, seu centro de interesse.
380
O espaço da Catedral é franqueado aos
italianos ilustres, assim como em inúmeras ocasiões alguma autoridade eclesiástica
faz questão de estar prestigiando eventos da “colônia”.
381
A recém criada sociedade dos Reducci della guerra faz as honras com
estandarte em homenagem aos que combateram na guerra, como o avô de Carmine
dentre os imgrantes que de Porto Alegre retornaram à Itália para lutar. Os alunos do
Instituto Dante Alighieri, o gio Cônsul italiano Cav. Luiz Arduini, também fazem
parte do ato fúnebre. A descrição efetuada pelo Correio do Povo da cena é
magestosa: “No meio da Igreja foi armado um alteroso catafalco”, isto é, um estrado
alto tendo ornamentos de coroa de flores naturais, nas cores da bandeira italiana. O
coral das Orfãs de Nossa Senhora da Piedade foi regido e acompanhado ao orgão,
pelo maestro Alberto Wolkmer e, ao violino, por Amadeu Luchesi. No encerramento
da missa, foi entoado Responso sob a luz das tochas acesas dos assistentes. A
plasticidade com que foi descrita a cerimônia não poderia deixar de sensibilizar o
leitor do Correio do Povo.
382
A sagração religiosa é fundamental e está presente em todas datas
importantes, solidificando as relações entre a Igreja Católica e a cidade dos italianos.
Bandeiras voltam a engalanar as sociedades e o consulado para comemorar
mais um aniversário da entrada da Itália na Grande Guerra. As efemérides italianas
I9
são comemoradas em Porto Alegre, rigorosamente.
383
Quanto a esse item, o Bispo Scalabrini ficaria satisfeito. Ele o exagerava
quando exigia maior participação social da Igreja junto aos italianos no exterior.
Diante da conjuntura internacional dos anos que se seguiram à grande imigração,
tende a aumentar a presença da Igreja na América. Mas no sentido ideológico, com
uma solidariedade interessada na base italiana envolvida em negociações com o
poder político que afetam a liberdade religiosa e a língua estrangeira nas escolas.
Muito distinta do século passado, quando o sacerdote exortava os governos, as
autoridades, as sociedades de auxílio diante da calamitosa condição em que se
dava a emigração italiana.
384
Esses anos caracterizam uma conjuntura de intensa divulgação da língua e
da cultura italianas. Em 1927, o Correio do Povo noticia que a seção feminina da
Dante Alighieri inaugura uma biblioteca para sócios e um curso prático da língua
italiana, para senhoras e senhoritas, ministrado pela presidenta, Bicce Luppi.
385
Essa iniciativa fica, em princípio, restrita ao círculo feminino, no entanto a
idéia é a de expandir tais cursos, tanto que, em Roma, João Campelli procura
legalizar juridicamente o comitato local, através da cessão dos titulos respectivos e
beneméritos. O próximo passo é a construção da sede própria, ainda no ano de
1927, à rua da Misericórdia, esquina da General Vitorino.
386
Em 1928, é a vez da Sociedade Emanuelle II, à rua Sete de Setembro, reabrir
o Curso Prático de Língua Italiana, denominado de “sala de leitura e de
conversação”:
[...] A senhorita Bice Luppi fez ressaltar a sua satisfação em trabalhar na
terra brasileira, para a divulgação da língua Italiana. Referiu-se, após, aos
resultados obtidos no ano passado, os quais foram os mais lisonjeiros
possíveis, e
terminou
dizendo que difundir a língua Italiana equivale a
facilitar no estrangeiro o conhecimento do rico patrimônio dos valores
I0
teatrais, científicos, artísticos e históricos de que a Itália é possuidora.
387
Valorizar e divulgar o patrimônio cultural italiano é a preocupação
compartilhada pelo cônsul, quando em visita ao Instituto Ítalo-Brasileiro Dante
Alighieri, dirigido pelo professor Augusto Menegatti e esposa, Sra. Linda Menegatti,
constata o grau de adiantamento dos alunos, que cantam a Addio Giovinezza e o
hino nacional na homenagem que o esperava. O aluno Ascendino Vescovi saúda o
cônsul, seguido do diretor que após dirigir palavras sobre sua pátria, o Brasil, ainda
assim afirma que “os filhos de italianos nunca se esqueceriam da terra de seus
antepassados.” Augusto Menegatti lembra os 10 anos do Instituto e do empenho da
Itália quanto à educação. O cônsul deixa palavras aos alunos, exortando
[...] que a civilização que vem de Roma, tem como base a “força de um
povo”. Credita à imposição da língua, o domínio de Roma no mundo. [...].
Ao Instituto Ítalo-brasileiro Dante Alighieri, que tão nobremente mantêm
acesa a chama do idioma do grande poeta o meu aplauso e o da pátria
reconhecida.
388
O que o impede que proclame ser o Instituto Secundário uma necessidade
para a colônia, dado o seu desenvolvimento atual e com a finalidade desta Escola
Superior corresponder ao Instituto dio Ítalo-brasileiro do Prof. Augusto Menegatti.
389
De fato, em 1933, o Correio do Povo noticia o início do funcionamento das
escolas italianas na "Dante Alighieri, rua da Misericórdia n. 108; na Escola "Umberto
I", rua Visconde do Rio Branco, esquina da rua Quintino Bandeira; na Escola "Elena
di Montenegro", rua General João Telles n. 317; na Escola "Vittorio Emanuelle II",
rua 7 de Setembro e, que, a inscrição é aberta aos alunos não maiores de 14 anos e
não menores de 6 anos. Em tais escolas o ensino da língua italiana é obrigatório,
mais o ensino da língua portuguesa e as demais matérias que o relativas aos
programas da lei brasileira. A centralização fica demonstrada quando a direção
didática cabe ao Real Consulado Geral da Itália. A Itália realizara recentemente uma
I1
reforma no ensino primário, adaptando o ensino às diretrizes do governo. A abertura
desses cursos é reconhecidamente um passo a mais para a fraternidade Brasil e
Itália.
390
Porém, notável é o acordo entre o Consulado Geral da Itália e o Governo do
Estado do Rio Grande do Sul que, em 8 de maio de 1933, instituíram, de forma
facultativa, os curso de língua italiana e literatura nos ginásios estaduais de Porto
Alegre, sendo pioneiros o Anchieta e o de Nossa Senhora do Bom Conselho.
391
Quando, efetivamente, é inaugurado o curso no Ginásio Bom Conselho
comparecem, em grande estilo, o comendador Guglielmi, Barbarisi, nsul geral da
Itália; Luiz Ledda, diretor geral das escolas italianas no Rio Grande do Sul;
Domenico Gaudio, representante do Fanfula, de São Paulo, e os representantes da
imprensa de Porto Alegre desta capital.
392
O próprio cônsul comparece na ocasião do encerramento do primeiro curso
de italiano no Ginásio de Nossa Senhora das Dores dirigido pelo Cav. Gino
Battochio, ex-agente consular da vizinha cidade de Bento Gonçalves. Em nome dos
alunos, agradece o aluno Moreira Lima:
Sou o aluno menor, mas quero fazer também a minha saudação e a minha
homenagem ao digníssimo representante da gloriosa Itália, amiga da minha
grande e cara pátria, o Brasil. Eu falo em nome dos meus colegas do curso
de língua Italiana, e devo dizer que somos muito gratos a V. S. que tanto
interesse tem demonstrado por nós e o Duce Mussolini que mandou-nos
livros tão úteis e belos. Viva o Brasil. Viva a Itália. Viva o nosso Interventor
general Flores da Cunha. Viva o Cônsul Geral da Itália. Viva o Reverendo
Diretor.
393
Juntamente com a língua, os italianos de Porto Alegre, dos anos 30 em
diante, recebem insistentes mensagens da escalada fascista na Europa. A
metamorfose semântica vai tentar o imigrante, brasileiro de adoção, que é um
autêntico italiano e italiano fascista, na lógica de parte das elites das sociedades
italianas. Neste registro, os anos 30 foram pautados por numerosas e repetitivas
I2
comemorações dos feitos de Mussolini, como por exemplo: a “marcha sobre Roma”.
O intenso debate ideológico domina a cena nas sociedades. Os fascistas do
exterior vão cumprindo suas funções de propaganda por aqui, por exemplo, quando
por ocasião dos 10 anos da ascensão de Mussolini, vão merecer comemorações do
Fascio Carlos Del Prete, na Dante Alighieri, no dia 3 de novembro de 1931.
Vale reter os pormenores da narrativa. O Correio do Povo descreve, inclusive,
os trajes dos cavalheiros, uma vez que alguns se apresentam com o fardamento
fascista. As falas, nessa ocasião como as demais, em todo o período, obedecem ao
ritmo das hierarquias das representações consulares e afins. Esta é a ordem: falam
o Comendador Manfredo Chiostri, Cônsul Geral da Itália, o Sr. Lourenço Lotti,
secretário do Fascio local, e o orador oficial Dr. João Monti, subdiretor do Banco
Francês e Italiano.
Aqui, o jornalista dispensa a isenção, é um entre os ouvintes: “sua oração
consistiu num profundo estudo sobre o regime fascista. Enalteceu os seus serviços
prestados à Itália a ponto de hoje se encontrar em tão magnifica posição”. Encerra a
matéria com os aplausos da platéia, antes das danças naquela passagem de sábado
para o domingo.
394
A festa, sim, a festa é a quebra da rotina, do cotidiano e de suas
regras.
Fascismo, italianidade, farroupilha, são elementos da composição narrativa
que quer narrativizar os anos 30, na perspectiva das elites italianas. Ou seja, conferir
uma identidade amalgando símbolos tão caros aos rio-grandenses, à ascensão do
fascismo.
Essa identidade simbolizada vai costurando os mitos tão díspares entre si,
num mesmo registro, sendo o Centenário Farroupilha o realizador da grande síntese.
A mitologização em torno do Duce, do herói dos dois mundos, Garibaldi, dos heróis
farroupilhas marca a discursividade dos grandes eventos e das grandes sociedades
I3
nos anos entre 1930 e 1937.
Como por exemplo, em 1931, quando Porto Alegre recebe a visita da escritora
Anita Garibaldi, neta de Garibaldi. Segundo o Correio do Povo, sua vinda constitui
uma peregrinação para recolher, na América do Sul, dados sobre a atuação do
grande condottiere. Clemenciano Barnasque, autor da matéria, propõe à neta o
lançamento de dois clichês em pintura. Descreve:
No primeiro, [clichê] revive Garibaldi, guiando, na planície rio-grandense, o
transporte, por terra de sua esquadrilha, da barra de Capivara, na Lagoa
dos Patos, à foz do Tramandaí, em 14 de julho de 1839; e o segundo
lembra a destemida Anita fugindo à cavalo, levando ao colo Menotti
Garibaldi, então recém-nascido em local próximo ao mesmo, da épica
façanha um ano depois, como se [...] Que glorioso legado cumpriria a
escritora Anita Garibaldi, lembrando os seus patrícios perpetuar, no
centenário farroupilha, em dois monumentos, no próprio local, a glória de
seus maiores!
395
Em 1932, a crise mundial inquieta especialmente os italianos em Porto Alegre.
Os rumos da política externa ressoam na cidade dos italianos. Muitos, estão fora da
discussão política, estão lutando pela sobrevivência. Outros, porque atuam nas
sociedades, como o tio de Dalva, não têm como se eximir.
No dia 30 de julho, em tom de release de próprio punho, ficamos sabendo que
foi a noite para ir à Sociedade Dante Alighieri, no edifício da Itálica Domus, assistir
“uma conferência que atraiu ali um extraordinário número de pessoas do que de
mais representativo em nossa sociedade e na colônia italiana”.
396
Não é excepcional o evento: nestes anos a Dante Alighieri cumpre sua função
ideológica como o espaço social da narrativa fascista. Discursa o Dr. Giovanni Monti,
“elemento de destaque de nossos meios financeiros e bancários”. Versa sobre
"Considerações sobre a crise mundial”. Presente, o Cônsul da Itália, agora, o
Comendador Mario Carli, e Dr. Duilio Bernardi, presidente da Dante Alighieri, o
Desembargador And da Rocha, presidente do Superior Tribunal do Estado;
cônsules do Uruguai e dos Estados Unidos, e representantes do Instituto Histórico e
Geográfico do Rio Grande do Sul. Tece o panorama da crise e conclui pela:
I4
[...] reabertura da liberdade de imigração e emigração o orador examinando
rapidamente a concepção econômica do Estado Corporativo Fascista que
contém os elementos doutrinários e práticos para coordenar os esforços da
produção e os harmonizar no quadro dos interesses gerais da coletividade.
Uma prolongada salva de palmas reboou por toda sala quando o Dr. Monti
disse suas últimas palavras da conferência que a todos agradou
imensamente. A seguir foi exibido o filme "Ano IX", demonstrando alguns
dos principais trabalhos públicos inaugurados pelo fascismo na Itália. Por
eles se constatou como o Duce, desde a sua ascensão ao governo se
interessa pela grandeza de sua pátria, colocando-a em posto de destaque
entre as demais nações. Foi enfim uma excelente noitada proporcionada
ontem pela Dante Alighieri à coletividade porto-alegrense [...].
397
As notícias dos dias 27 e 30 de outubro reúnem, exemplarmente, o círculo da
sociabilidade fascista. Vejamos o início dessa narrativa, a chegada do navio
“Netúnia” em Rio Grande, com a saudação, pelo Correio do Povo, de seu
comandante aos compatriotas por ocasião do 10º aniversário da “Marcha sobre
Roma”.
Em Porto Alegre as comemorações são coordenadas pelo Cônsul, Mario
Carli, com o apoio das diretorias das sociedades filiadas à Federação das
Sociedades Italianas. Não pode faltar a missa na Cripta da Catedral Metropolitana,
pelo Monsenhor João Balem in memorium aos mártires da Revolução Fascista que
tombaram.” Após a missa, é o momento de ir ao consulado italiano cumprimentar o
cônsul, Comendador Mario Carli.
O fascio Carlo del Prete organiza à noite, no salão nobre da Itálica Domus,
uma solene comemoração.
Acompanhemos a plasticidade da narrativa:
A vasta sala se destaca pela magnífica ornamentação e abundância de luz,
com um grande retrato do Duce, no centro cercado de bandeiras e flores.
[...] Na platéia as camisas pretas de alguns assistentes a presença dos
associados do "Reducci di guerra", com sua condecorações [...]. Os hinos
italiano, brasileiro e Giovinezza são ouvidos com reverência [...] O que
de mais representativo da colônia Italiana e de nossa sociedade participou
da festa, que decorreu com grande entusiasmo. Entre os presentes se
contavam os Srs. Waldemar
Cavalcanti
, representando o interventor
federal; major Alberto Bins, prefeito municipal; cônsules de Uruguai, da
I5
Espanha, de Portugal; da Inglaterra, dos Estados Unidos e da Alemanha;
Dr. Eduardo Duarte, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do
Sul; diretorias de todas as sociedades italianas com os seus estandartes
[...].
Quanto ao discurso, os oradores iniciam por acentuar a presença italiana em
Porto Alegre, quando da exposição para os festejos da chegada da primeira leva de
imigrantes ao estado. O orador, Dr. Duilio Bernardi, presidente da Dante Alighieri
prossegue:
[...] conseguiu demonstrar para grande parte da população daqui que
ignorava por completo os maravilhosos resultados da atividade dos filhos da
Itália. E conclama [...] Aos fascistas estrangeiros. Deveis, considerar-vos
como portadores de uma nova civilização, como os construtores que lançam
hoje as bases do edifício, que realizam tudo aquilo que foi o sonho de tantas
gerações durante a Renascença Italiana; o sonho daqueles que
combateram e morreram de 1915 a 1918 e dos melhores jovens de sangue
vermelho e puríssimo que cedo caíram nas emboscadas armadas pelos
elementos antinacionalistas. [...] foi publicado um livro que se ilustra a
história dos 35 mortos e 212 feridos fascistas no estrangeiro. Prefaciando
essa obra, o Sr. Giovanni Giuratti, presidente da Camara e ex-secretário do
Partido, escreveu o seguinte: Esta resenha de mortos e feridos, este livro de
ouro austero e verdadeiro, é destinado aos finados, na Itália e no
estrangeiro. Mais ainda o estrangeiro, onde está em deblaterar (sic) da
violência fascista nos jornais, na praças e mesmo nas audiências judiciárias,
transformadas muitas vezes, com a cumplicidade de magistrados ou
sectários ou muitos condescendentes, em públicos comícios. Para aqueles
que, além dos Alpes e além dos mares, ostentando o mais ilibado horror do
sangue, armam o braço do sicário e do agressor, e para todos os seus
favorecedores, ao alto e em baixo, este volume quer ser um claro e pacífico
libelo [...].
398
O Dr. Lourenço Lotti, fiduciário do Fascio Carlos del Prete, evoca a trajetória
do Duce: “salvando do comunismo e da anarquia a pátria amada”. A oração do
cônsul sobre a "Itália de Mussolini", como obra de arte, encerra a oratória.
A narrativa do jornal encobre a do cônsul, parcialmente:
[...] se falou que o Duce além de ser uma vontade e um talento político é
também um espírito de artista inclinado as vozes do pensamento, sensível
às visões da poesia, adestrado nos problemas de construção. Ele não é
somente o irmão dos
artistas
e o seu iluminador benéfico. Mas é ele
próprio, em todos os momentos, o artista privilegiado que não constrói
castelos de palavras ou criaturas de gesso. Escolheu a matéria prima de
I6
sua criação - uma nação, um povo - matéria prima que vai modelando a
grandes golpes [...]. Após a sessão solene, realizou-se magnífica hora de
arte.
399
Nem tudo é propaganda fascista nas páginas do Correio do Povo. Há eventos
sociais, sim. Depois da Vittorio Emanuell II, a sociedade mais antiga, em 1933, é a
Elena de Montenegro, a qual completa 40 anos. O baile é o centro das festividades.
Ocorre na sede (até hoje, 2003, está lá), à rua General João Telles, em homenagem
à grande data italiana de Victorio Veneto. O Grande Baile das Flores promete ser
uma festividade brilhante e de magnífico realce social. No outro dia haverá um
churrasco como parte da programação que se extendeu até o dia 12 de novembro.
400
As senhoritas diretoras do Baile constituem a geração das futuras mães de
importantes famílias, como Marietta Marranghello, Gilda Fiorenzano, Esther Zoratto,
Angelina Dellagrave, Clara Contieri, Maria Freda, Norma Campana, Aida Ren,
Claudia Boni, Mafalda Palmini, Iessa e Ida Giampaoli, Irma Fiori, Mariana
Mazzaferro, Irany Moure, Helena Santoro, Algesira Santoro, Ida Perrone, Celeste
Palmini, Ida Gnatali, Luiza Fava, Gilka Cecchini, Norma Pellizari, Laura Rodel e E.
Croceta.
Porém, falta harmonia entre as sociedades, principalmente entre Humberto
Facciotti, presidente da Dante Alighieri e o Cônsul da Itália, Comendador Mario Carli.
O Correio do Povo cobre entre 27 de janeiro e maio, a querela, que terminou com a
volta do cônsul para a Itália e a nomeação de outro diplomata para exercer as
funções de cônsul.
As matérias trazem a repercussão no Rio de Janeiro, e, em Roma.
Desembarca em Porto Alegre o jornalista Cezar Rivelli, diretor da Nuova Itália com a
missão de intermediar a crise. O episódio mostra, apesar do tumulto, o desejo da
“colônia” na posse do edificio da sociedade Dante Alighieri. Não pretende abrir mão
da propriedade em benefício da matriz romana. Exige eleger sua administração, sem
I7
nenhuma interferência, quer do consulado, quer da entidade da matriz, na Itália.
Notícias a respeito da Moranesi Uniti reaparecem durante a crise. É formado o
novo conselho de administração do Comitê Dante Alighieri, o anterior fora destituído
pelo Cônsul Mario Carli, em reunião no dia 26 de janeiro:
[...] com voto unânime de significativa confiança, nomeou para os altos
cargos da diretoria os Srs. Raphael Guaspari,
presidente
; rag. Giovanni
Prenna, vice-presidente; Giovani Eboli, tesoureiro, e Dr. Gesualdo Grocco,
secretário. Esse conselho, que por sua vez foi eleito na anterior assembléia
dos sócios, efetuada no dia 13 do corrente, é composto dos seguintes Srs.:
Dr. Alberto Albertini, Prof. Francisco Benoni, Pedro Bonotto, Januario Conte,
Dr. Gesualdo Grocco, Dr. Duilio Bernardi, Piero Boni, Cav. Julio Bozano,
Alexandre De Meda, João Eboli, Domingo Faillace, José Floriani Filho,
Rapahel Guaspari, Cav. Carlos Lubisco, nob. Attilio Marsiaj, Guido Mondini,
Leonardo Perrone, Natale Piccolli, rag. Giovanni Prenna, Affonso Contieri,
Paschoal Santoro, Dr. João Sassi, Dr. Cesar Scarani, Salvador Longo, José
Difini e Benevenuto Crocetta e dos delegados permanentes das Sociedades
Vittorio Emmanuelle II, Umberto I, Principessa Elena di Montenegro e
Moranesi Uniti. A comissão de contas ficou constituída dos Srs. Francisco
P. Donadio, Dr. José Manganelli e José Maia [...].
401
A antiga Sociedade Elena di Montenegro fica encarregada de receber,
oficialmente, o Comendador Guglielmi Barbarisi, novo Cônsul Geral, em 16 de junho.
O destaque da festa é o “concurso de engarrafamento.“.
[...] Esse concurso destina-se somente aos acondicionamentos de bebidas
baseando-se na melhor apresentação do produto, julgando-se, assim, os
rótulos, colocações dos mesmos, dos selos, arrolhamento, etc. Inúmeros
industrialistas inscreveram-se no concurso [...].
402
A paz volta para as sociedades. E, também, para a Dante Alighieri, que
admitidos novos sócios. Seu novo programa do conselho de administração é
aprovado, aumenta o número de sócios e os donativos para o término das obras da
Casa dos Italianos, ”projeta-se nova feira de amostras, inclusive uma de exclusivos
produtos vindos da Itália.[...] R. Cônsul Geral, Com. Barbarisi, manifestando a este
respeito a sua plena aprovação e prometendo o seu apoio moral para as marche a
I8
serem encaminhadas na Itália”.
403
Tanto foi o apoio que a diretoria pôde se preocupar com as decorações do
edifício da Itálica Domus:
[...] os vitraux policromicos confeccionados pela Casa Genta de Porto
Alegre, contendo ao centro a efígie ladeada por figuras simbólicas da
originária grandeza romana, e em rodapé a célebre oração de Horácio:
Alme Sol, possis nihil Urbe Roma maius videre. Benigno Sol, que tu nada
possas ver maior que a Cidade de Roma!
404
A Comissão de Obras é formada por Duilio Bernardi e Pedro Bonotto.
O projeto arquitetônico prevê a ampliação do espaço para outras instituições
italianas de caráter beneficiente, recreativo ou artístico, bem como a instalação da
Feira Permanente de Amostras de toda e qualquer indústria pertencente aos
italianos e seus descendentes no Rio Grande do Sul.
405
Esta normalidade, pairando sobre as sociedades italianas, permite relembrar
as origens da Sociedade Italiana Vittorio Emanuelle II, que completa 57 anos. Em
julho de 1877, alguns italianos reunidos na casa comercial de Floriol Goldi à rua dos
Andradas n. 251, resolvem criar uma associação e homenageiam o rei da
Unificação, morto naquele ano, pois o nome original era a Società Italiana di Mutuo
Socorro e Benevoleza.
406
A lista dos homenageados é interessante: Mesclam-se desde o presidente
honorário, o herói dos dois mundos, Giusepe Garibaldi, até figuras políticas como
Júlio Prates de Castilhos; o escritor Achiles Porto Alegre; o advogado da entidade
João Menezes de Castro, o intendente J. Montaury de Aguiar Leitão, nome venerado
pelos italianos de Porto Alegre, que o cognominaram "Pai da pobreza
Porto-alegrense" e Giovanni Berutti, pela atividade na construção do suntuoso
edifício social. A nominata expressa a circulação e a trajetória das sociedades,
I9
intercambiando discurso étnico com a sociabilidade mais cosmopolita dos anos 30.
Como dissemos, no Correio do Povo a narrativa de fundação dos italianos
no Rio Grande do Sul é sintetizada no Centenário Farroupilha de 1935. Os mitos
reaparecem e mobilizam os italianos como co-protagonistas, enfeitando os fatos e
dirigindo o enredo.
Monoliticamente, as elites impõem uma narrativa histórica onde os italianos
na sociedade do Rio Grande do Sul, mormente em Porto Alegre, são conduzidos a
um modo de interpretação histórica encobridora da sua própria historicidade.
Estabelece-se desse modo uma justaposição: a composição dessa identidade
narrativa que pretende relacionar o tempo de uma narrativa unívoca e a italianidade,
com a vida e a ação efetiva de cada italiano, em particular.
Os italianos são, simultaneamente, reféns e autores desta intriga, porque são
envolvidos na elaboração de uma ação pretensamente unívoca, mas na verdade,
totalitária do social, apenas conveniente para determinadas frações da colônia
italiana e seus interesses.
Desponta uma pretensa identidade italiana como resultado da fusão de
acontecimentos reais, elevados à categoria de mitos. É o que permite ver
solidariedade entre processos e ideários distintos entre si, tais como a Revolução
Farroupilha e o processo republicano italiano, na versão fascista.
Ao anular os atributos dos símbolos que vão constituir a base da elaboração
dos mitos festejados nas sociedades, se impõe um imaginário descolado da
realidade.
Nestes anos trinta os moraneses passam ao largo dessa mitologização
porque presos às tarefas da decifração dos códigos e dos dispositivos da cidade.
0
Em 7 de maio, Souza Docca, editorialista do Correio do Povo, tenta
desconstruir parte deste imaginário construído pelas elites no campo das artes. Quer
impor limites, trazer veracidade à imaginação do pintor rio-grandense José
Francesco, no quadro intitulado - "A última visão de Anita Garibaldi" Descreve:
[...] onde a heroína brasileira deitada "tendo a seu lado a figura simbólica da
República de 35. Ao fundo, em uma cavalgata da epopéia, aparecem duas
colunas de guerreiros farrapos, flâmulas ao alto, tendo à frente Garibaldi e
Bento Gonçalves. [...] Duvida que [...] a heroína, em seus últimos
momentos, nenhuma manifestação fez que se possa crer pensasse ela na
cruzada
farroupilha. Não há, mesmo, em sua correspondência conhecida,
referências que demonstrem que aquele passado de lutas era uma de suas
preocupações, de todos os momentos, especialmente nos lances arriscados
ou difíceis [...]. E segue estabelecendo feitos que poderiam ser perenizados
pelo gênio do artista [...] Abertura da Assembléia Constituinte [...] A
Constituinte Rio-Grandense de 1842 [onde aparece] Vicente da Fontoura
discutindo a paz na Corte [...].
407
Vocifera com Vitorio Buccelli, em Un viaggio a Rio Grande do Sul, quando diz
que:
Garibaldi trocou com Bento Gonçalves, em 1835 as primeiras idéias para
proclamação da República Rio-grandense, à sombra do histórico cipreste de
Pedras Brancas, que ela transforma em ‘figueira’ e páginas adiante,
metamorfosea em ‘umbu’. No ano da Revolução, Garibaldi nem o solo
americano havia pisado [...].
408
E, segue detalhando as bases do que denominamos, noutra perspectiva a
narrativa mítica de Garibaldi,
[...] donde [...] com essa falta de fundamento histórico e com aqueles
anacronismos flagrantes, se tem criado uma lenda em torno de Garibaldi no
Rio Grande do Sul [...] mas que, lamentavelmente, o tem sobreposto a
vultos de proporções maiores que as suas, quer no terreno das idéias, quer
na constância da luta, durante a cruzada homérica.
409
O Centenário Farroupilha aproxima-se. É necessário tomar providências.
Organiza-se um Comitê Colonial, cujo local de reuniões, é a Itálica Domus. O Cônsul
1
Barbarisi envia telegrama submetendo à aprovação, o programa, o qual foi
aprovado. Em maio, lembra o cônsul, comemora-se o natal de Roma (Aniversário de
Roma), a Festa do Trabalho Italiano e o martírio de Tiradentes. Mais mitos sendo
solidarizados, unindo a história de dois mundos afins.
Para participar do Centenário, a colônia reunida na Itálica Domus decide erigir
“um monumento à caridade.” Em outros termos, será a ampliação das dependências
do Sanatório Belém, obra de Pereira Filho, no bairro Belém Novo.
Para tanto é preciso uma subscrição pública. E o Cav. Rocchetto Guido
Mondini descreve o público presente à reunião e relembra outras cenas passadas
“um montão de cabeças prateadas a refletir um passado de ativa produtividade”, a
começar pelo presidente Guaspari, mais Provenzano, o Gattoni Crocetta, o Cav.
Rocchetto.
410
O pavilhão terá o nome do grande fisiólogo italiano Forlanini:
É o espirito de confraternização ítalo-riograndense que sincero e leal, surge
expontâneo, evocando e renovando o passado. Em 1835 José Garibaldi
com um reduzido grupo de patrícios irmanava-se aos novos ideais
republicanos de Bento Gonçalves e de seus, para realizarem a nova pátria
mais digna. Decorridos cem anos, hoje os netos daqueles primeiros
romeiros multiplicados, agora para aqui atraídos pelo ideal do trabalho e
recebidos como irmãos, identificando-se cada vez mais com os filhos desta
grandiosa terra, sem o mínimo esforço encontram-se num terreno mais
produtivo ainda, a comemorar os feitos dos antepassados. E os que no
primeiro encontro entre o presidente do Sanatório Belém professor Pereira
Filho e o presidente do Comitato Italiano pró-Farroupilha, Sr. Raphael
Guaspari, surge a idéia do pavilhão e do nome que perpetuará a grande
gloria da Itália e da terapêutica anti-tubercular e do professor Forlanini. Por
uma coincidência digna de ressalto nos últimos meses do ano findo, Roma
inaugurava o maior sanatório antitubercular do mundo, dedicando ao nome
de seu grande Duce; mas que por determinação do mesmo era intitulado ao
grande nome de Forlanini. O Rio Grande terá em breve com este mesmo
nome a um de seus pavilhões o maior sanatório antitubercular da América
Latina.
411
O Comitê Colonial, presidido por Eliseu Paglioli, reúne descendentes de
italianos e convida “portadores de um título universitário, escritores, jornalistas e
2
estudantes [...]”.
412
Em continuidade às comemorações relativas a 1935, no dia 28 de maio,
comemora-se mais um ano da entrada da Itália na Grande Guerra. Os que
sucumbiram são homenageados em promoção da Associação de Ex-Combatentes
Italianos, ocasião em que flores e placas são ofertadas durante as festividades.
Na sede do club Sportivo Balbo, onde funciona também o Fascio Carlos Del
Prete, à rua Dr. Timotheo, o Major Angelo Gattoni recepciona os convidados. O
menino Paolini, profere palavras que “arrancaram muitos aplausos”. Hinos patrióticos
foram entoados por 300 alunos de escolas italianas e espetáculos com ginásticas
conferem grande destaque à festa da Associação dos Ex-Combatentes Italianos.
413
Ainda em 1935, como parte dos festejos farroupilhas, o Comendador
Barbarisi, Rafael Guaspari, Presidente da Dante Alighieri reúnem-se com as
comissões de outras corporações, alunos de escolas ítalo-brasileiras para inaugurar
um monumento à Vicente Monteggia, fundador de Vila Nova. Falecido em 1934, o
italiano é exemplar quanto ao perfil do italiano bem-sucedido, que as sociedades
fazem questão de destacar.
414
Vejamos o que narra o Correio do a Povo, sobre a trajetória de sucesso de
Monteggia, na oratória do professor Francisco Benoni:
De humilde origem, ainda moço deixou sua pátria, para exercer a sua
atividade na Tunísia, na África, tendo, depois, vindo para aqui, trabalhar na
construção da então estrada de ferro da Margem a Santa Maria, na estrada
de ferro de Paranaguá e Curitiba, e no edifício onde, hoje, se encontra o
Colégio Militar. Seguiu,
depois
, em 1885, para Alfredo Chaves, afim de ali,
localizar os primeiros imigrantes italianos, passando, após a trabalhar em
Porto Alegre, para fundar, nos seus arredores, Villa Nova, que, devido aos
seus esforços, muito progrediu, especialmente a viti-vinicultura. Fundou, ali,
também um moinho, para moagem de milho, e se esforçou, ainda, pela
construção do ramal ferroviário do Riacho a Villa Nova. Todos os esforços
do operoso italiano, se destacaram bastante em vários certames,
principalmente no realizado quando aqui esteve a embaixada Luciani, no
ano de 1918. [...] Após o discurso do Dr. Paulo Bozano, em nome do
prefeito da capital, o nosso colaborador Guido Mondini improvisou uma
3
saudação, como velho imigrante [...].
415
No ano seguinte, em 1936, na Itálica Domus, volta a ressoar a crise política e
econômica a qual atravessa a Itália de Mussolini. O evento assinala:
[...] passagem do terceiro mês das sanções econômicas decretadas pela
Liga
das
Nações, em 18 de novembro do ano passado”. Presentes o
cônsul Barbarisi, Angelo Gattoni, secretário do Fascio Carlo Del Prete;
engenheiro Guido Baggio, presidente da Comissão de Assistência e
Propaganda; José Prena, vice-presidente da Dante Alighieri; Dr. Agostinho
Fausto e dr. Dante Laytano. Discursam Luiz M. Leo, vindo do Rio Grande,
Angelo Gattoni e Dante Laytano, discursos esses todos de enaltecimento ao
valor e a resistência dos italianos encerrada a cerimônia, pelas 23 horas.
416
Ainda, nesse ano, comemora-se na sede o décimo sétimo aniversário de
fundação dos Fascios, mais os quatro meses de sanção contra a Itália. Discursos
antecedem a hora de arte com as sopranos Olga Pereira, Lindomar Lima e Lina
Gabellini; os tenores Dante Micheletto e Henrique Gherardi; o barítono Emilio
Baldino e o violinista Carlos Barone
[...]. Antes de dar inicio à hora de arte, o dr. Agostinho Fausto, diretor da
Hora de Rádio Italiana na rádio Difusora Porto Alegrense, apresentou os
artistas que, com amor e carinho se dedicam, gratuitamente, à hora Italiana,
elogiando sua obra grandemente benemérita e apontando-os ao
reconhecimento de todos os italianos. [...].
417
Outro exemplo da solidariedade mítica construída é o congraçamento da
Itálica Domus, em abril, desta feita, o Natal do suposto nascimento de Roma, o
martírio de Tiradentes e o dia do Trabalho na Itália, em 21 de abril. Presidindo o ato
esteve o Comendador Barbarisi. Iniciaram compondo a mesa solene: deputado
Adolpho Dupot, Agostinho Fausto, Eduardo Duarte, secretário perpétuo do Instituto
Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Dr. Guido Baggio e rag. José Prena,
diretor do Banco Francês e Italiano. No encerramento, o Cônsul Barbarisi exorta:
Meus patrícios! Camaradas de pé! Um minuto de recolhimento e de silêncio
4
seja dedicado aos que gloriosamente tombaram na
África
Oriental. O povo
italiano, hoje, em toda parte, e até na África, está reunido para celebrar a
Festa di Lavoro; rende graças a Deus e, diante do Altar onde a divindade da
Pátria recorda a juventude imolada, o trabalho do povo que avança, de sua
civilização que deixa sulcos indeléveis até no solo africano, abençoa o
trabalho que cria o bem-estar, não às famílias mas a toda a nação,
repetindo entre cânticos e epinícios a invocação de Horácio: "O Sol, faze
com que eu não possa ver coisa maior que Roma!
418
Outro aconteceimento, é a festa da Dante Alighieri. “Colônia Italiana em festa”
é a manchete do Correio do Povo no dia 7 de maio, por ocasião da tomada de Addis
Abeba. Nesse epísódio, registra-se a tentativa do governo italiano em constituir um
império Colonialista, na África, à exemplo das demais potências européias no
período. Vai reverter a política externa, brevemente. Mas este é o momento de
comemorações pelo império que Mussolini tenta construir.
Retomemos: A festa cívica no salão da Itália Domus consiste na leitura dos
telegramas transcritos na íntegra, no jornal, enviados pela colônia italiana do estado
e lido pelo cônsul Barbarisi, ao rei Victor Emmanuelle III, à Benito Mussolini, ao
general Badoglio e ao embaixador junto ao governo brasileiro. Entre os que
discursaram, além do nsul, Agostinho Fausto, Gattoni. O Deputado Dupont,
segundo o jornal:
Exaltou a personalidade de Benito Mussolini e, referindo-se ao soldado
italiano, disse que não somente a este cabem os louros da vitória: também
aos italianos residentes, no Brasil, aqui no Rio Grande os quais embora não
podendo, por razões justificáveis, acudir ao chamamento da Pátria, nem por
isso deixaram de servi-la com a sua fé, com o seu entusiasmo e com
vultuosa contribuição material. E, depois de outras inflamadas
considerações sobre o motivo patriótico que ali congregava italianos e
amigos da Itália, a tomada de Addis Abeba, o deputado Dupont, erguendo a
destra, símbolo da saudação romana, perorou entre entusiásticos aplausos
da enorme assistência.
419
Não é sobre toda sociabilidade das sociedades que paira o espectro da
guerra. Uma forma de promoção da italianidade, além da estética da morte até aqui
apresentada pelo Correio do Povo, é a da vida italiana na sua versão veneziana. Em
5
maio o Club Canottieri Duca Degli Abruzzi no recinto do Parque Farroupilla vai
acender a imaginação dos porto-alegrenses: nada mais, nada menos que a
reprodução do ambiente da Veneza dos Doges, ao invés dos fogos de artifício. No
lago da exposição será reconstituída uma noite veneziana “[...] para deleite do
público da capital. Entoando as lindas canções napolitanas, venezianas [...], os
cantores, todos em seus trajes característicos darão uma nota de remarcado bom
gosto. É uma festa cheia de delicadeza [...]”.
420
No recinto da exposição estão
previstas quermesses com atrativos organizados pelas senhoras e senhoritas sócias
e torcedoras do Club. Na sede da Canottieri serão ultimados os preparativos.
Em agosto, a Itálica Domus apresenta sua feição educativa cívica: Festeja-se
[...] a Independência do nosso país, a direção didática das Escolas
Ítalo-Brasileiras, realizou, ontem, à noite, na Itálica Domus, uma brilhante
festa escolar, que transcorreu cheia de entusiasmo [...] Todos alunos das
Escolas Dante Alighieri estavam presentes, além do Cônsul Barbarisi.
421
Em outubro, seria a vez da homenagem aos que regressam da Campanha da
Abissínia, na sede, destancando-se o tenente Italio Giaccioli e os sargentos Paoletto
e Troffolino Domenico.
422
A face assistencial da colônia italiana retorna na Itálica Domus no ano,
através do Comitê Colonial Italiano Pró-Centenário Farroupilha. Cumprida a primeira
etapa da construção do Pavilhão Forlanini do Sanatório Belém (de 120 contos de
réis e de todos os móveis e utensílios), a segunda etapa:
[...] é
inauguração
dos retratos de Garibaldi e Anita, de Zambeccari,
Anzani, Costellini etc. na sala das recepções da Dante Alighieri (Itálica
Domus) e da exposição de uma grande coroa de louros no obelisco erigido
no Campo da Redenção como lembrança do Cinqüentenário da
Colonização Italiana no Rio Grande e no qual figuram os medalhões em
bronze de Zambecari, e a placa com os nomes de todos os Italianos que
participaram da campanha farroupilha. Seguirá a cerimonia do
descobrimento de uma lápide na fachada do edifício da Prefeitura Municipal
de Viamão em homenagem à memória de Luiz Rossetti, figura proeminente
da revolução de 1835, morto no combate do Passo do Vigário e 23 de
6
novembro de 1840. [...].
Nada sem, antes, ir ao palácio levar o convite do Cônsul Barbarisi e do
presidente da Dante Alighieri, Cav. Attilio Marsiaj, para sua Exa. o governador,
General Flores da Cunha para “intervir à cerimonia de Viamão, marcada para às 10
horas”:
Da Itálica Domus , após a inauguração dos retratos, segue o cortejo de
automóveis e auto-ônibus, para Viamão, “cujo prefeito receberá os
visitantes e descobrirá a lápide dedicada a Luiz Rossetti, tendo também
providenciado em aplicar o nome do mesmo herói a uma rua que será
escolhida pelo Instituto Histórico e Geográfico do Estado [...] A lista dos
oradores prevê as falas de Gesnualdo Crocco pelo Comitê Italiano, o
Eduardo Duarte, secretário perpétuo do Instituto Histórico Geográfico, o
revdo. Américo Cabral de Oliveira“ em nome da população de Viamão [...].
423
Incluído nas homenagens, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do
Sul, recebe da comissão formada pela colônia, um retrato de Tito Livio Zambeccari,
idêntico ao que existe na Dante Alighieri.
424
O ano de 1937 marca a comemoração pelas sociedades italianas da capital,
do Comitê Colonial para o primeiro aniversáriodo império italiano sobre a vitória
militar na Etiópia.A homenagem especial será o descerramento das lápides com os
nomes dos sócios que contribuíram “com as quantias mínimas de cinco e um contos,
respectivamente, para a edificação da suntuosa sede da Dante Alighieri (Itálica
Domus), à rua Misericórdia”.
425
Nesse ano, a marcha sobre Roma completa seu 15 aniversário e a iniciativa
de comemorar cabe a Fascio Carlos Del Prete. A Companhia Canzone di Napoli,
que, especialmente, se apresentará no Teatro São Pedro. No domingo, com todas
as autoridades presentes “o campo desportivo do Club Canottieri Duca Degli Abruzzi
propiciará exercícios ginásticos e corais dos alunos das escolas ítalo-brasileiras,
seguindo a cerimonia comemorativa da Marcha sobre Roma, sendo orador oficial o
7
Dr. Cav. Romolo Carbone”.
426
A língua italiana volta a ser notícia em função das escolas italianas, dentro do
projeto fascista. Em 1937, a difusão da língua em Porto Alegre, sempre dirigida por
Gino Battochio, é comemorada nos ginásios Anchieta, Sevigné, Nossa Senhora das
Dores, Bom Conselho, Escola Normal, Colégio Americano, Instituto Porto Alegre,
Ginásio Nossa Senhora do Rosário. Homenagens presididas pelo então cônsul da
Itália, comendador Sanvicenzo Magno, com a presença do tenente Fernando
Chiappini, inspetor dos Fascios.
427
No entanto, a escalada da língua italiana em Porto Alegre vai ser interrompida
e não apenas no âmbito das sociedades.
Assim questiona Menotti del Picchia, nas páginas do Correio do Povo, por não
compreender a abolição do ensino da língua italiana das escolas. E com pedagogia,
enumera-as
[...] Em primeiro lugar, porque é um dos mais belos do mundo. Em segundo
lugar, porque hoje é uma das línguas vivas que mais interessam á
humanidade, dada a importância internacional sempre crescente do Império
Italiano. Em terceiro lugar, porque no Brasil, há mais de um milhão de filhos
da gloriosa península [...].
Faz desfilar o pensamento jurídico de Carrara, Pessina, Cogliolo, Ferri. “Nas
artes plásticas e na música, é a pátria de Mazaccio e de Palestrina, a mestra dos
povos”. Em literatura, bastaria a "Divina Comédia" - o poema supremo - para
justificar um profundo conhecimento dessa língua. Petrarca, Boccacio, Aretino,
Gerrazzi, De Amicis, Carducci. “[...] É o idioma revelador das surpresas modernas de
um Pirandello ou de um Rosso de San Secondo, de um Papini ou de um Marinetti,
de um Gavoni ou de um Tambari, das proclamações cesarescas de um Mussolini ou
de uma conferência de um Marconi.” Critica, ainda, os latinistas, o grego e o latim
que entram nos currículos.
428
8
4.3.7 Obras e ações assistenciais
A década exige: crise de emprego, de habitação, de saúde nesses anos.
Maçons, católicos e espíritas atuam nas obras sociais. Os italianos se encontram em
todos os segmentos.
A presença da maçonaria na medicina se verifica através do Grande Oriente
do Rio Grande do Sul que instala um consultório dico gratuito, em 1920. Novos
nomes italianos surgem, como Carlos Conti e Vicente Giannone.
429
A Federação Espírita do Rio Grande do Sul também data de 1920, a qual
passa a funcionar desde o dia 17 de outubro, provisoriamente no "Centro Allan
Kardec", à rua General Vitorino n. 22. Nomes como de Ernani Muzell compõem a
diretoria.
430
O Natal dos Pobres, em 1921, é promovido pela diretoria do "Centro Católico",
no Colégio Anchieta, sob a presidência do Rev. Padre Clemente Rehm. Igualmente
se verifica a presença de italianos na comissão, como o coronel José Ferreira Porta,
Lorenço Piccardo.
431
A hora de arte do Clube Jocotó, no dia 25 de novembro de 1927, é em prol da
maternidade da Santa Casa. Vindo, especialmente, de o Paulo para participar o
“Quarteto Brasil”, Luis Figueras, Valter Riley, Franck Smith e Venceslau Satoklaca.
Honorina Corrêa Barbosa canta árias. A seguir, o minueto é dançado com trajes de
estilo. Também haverá uma apresentação no Teatro São Pedro.
A “Associação São Francisco de Assis” recebe doações pelo festival de arte
do Jocotó. Ao piano, Miranda Neto; ao violino, Fernando Hermann e, ao piano, Ilse
Woebke. Na parte literária colaboram Mansueto Bernardi, Augusto Meyer, Darci
Azambuja. Pina Monaco vocaliza e Elisena D´Ambrosio acompanha ao piano.
432
9
Um grande edifício está planejado em 1929, o “Pão dos Pobres”. O presidente
da comissão construtora é Eduardo Secco. Está de partida em viagem de lazer para
a Europa. Antes, despede-se dos órfãos do Orfanotrófio de Santo Antonio.
433
Quem sempre exerceu função de assistência médica aos pobres é a Santa
Casa. Em 1930, inaugura sua nova Maternidade.
Em 1931, o abrigo noturno “Dias da Cruz” promove o “Dia dos sem tetos” para
aumentar o edificio do Abrigo Noturno. Vários nomes italianos na diretoria, entre eles
Gilda Meneghini, Athalea L. Amorety, Thereza Vanini. A proposta de atendimento é
passar de oitenta para duzentas pessoas. Para alguns parece exagero.
[...] mas a lotação em apenas dois meses de assistência está em torno de
uma centena de pessoas desempregadas com o fechamento dos
estabelecimentos comerciais e industriais
agravado
pela paralisação das
obras públicas municipais está perfeitamente justificado o número de leitos
que foram previstos.
434
Um banco pode ser considerado comunitário se for como o Banco Francês e
Italiano. Sua sucursal está instalada em prédio próprio, adquirido do Banco Porto-
Alegrense. Construído à rua Sete de Setembro acompanhando o boom da
arquitetura de elites destes anos, o estilo renascentista foi executado nos três
andares.
O caráter comunitário do banco deve-se ao fato de que, em 1917, quando
começa a operar aqui, funcionava na rua General Câmara, em prédio alugado, em
função do desdobramento e intensidade das operações, de ano para ano, a sucursal
deixa de depender de São Paulo e se torna autônoma para atuar nas suas duas
agências, uma no Rio Grande e outra em Caxias do Sul. São seus dirigentes “[...] os
Srs. Sampaio, De Athaus, Apolinari, Haeberlain e Cezar Scarini, diretor desde o ano
de 1924. Como sub-diretores, servem os Srs. dr. João Monti e José Prenne."
435
Outro aspecto do assistencialismo italiano ocorre por ocasião dos
0
testamentos. Como acontece em 1932, quando morre o meridional Nicolau Rocco,
da Confeitaria Rocco. Não tendo filhos, deixa em testamento grande soma aos
pobres da cidade. Cada orfanato de Porto Alegre receberá
5000$; 50000$ a órfãs pobres, a juízo do testamenteiro, como dote de
casamento; 5000$ a cada afilhado de batismo; aproximadamente 1000$ a
cada operário que estiver trabalhando na fábrica e confeitaria com exceção
de três empregados antigos, que foram contemplados com 5000$ cada um
[...].
Os familiares próximos receberam;
[...] a cada um dos quatro filhos do Sr. José Irace legou 50:000$000; deixou
a quatro sobrinhas órfãs, residentes na Itália, filhas de Victorio Rocco, Irace
e Vicenzo Rocco, duzentas mil liras a cada uma; duas sobrinhas, filhas de
Bassomaria Rocco, cinqüenta mil liras a Tina e Lydia Campelli, filhas do Dr.
Giovanni Campelli. Os remanescentes tocarão ao único sobrinho. residente
nesta capital, Sr. José Irace, testamento instituído. Os legados supra
ultapassaram a quantia de 1.000.000$.
436
Também é importante a demanda por tarifas sociais para os estudantes. Nem
todos são provenientes de famílias abastadas, principalmente os estudantes de
medicina e direito. Tanto é assim que, em 1934, uma tarifa social é pedida. Carlos
Caroni, pelas páginas do Correio do Povo, solicita a redução das passagens de
bonde aos alunos dos cursos superiores, campanha que o jornal fizera em 1933.
A matéria chama-se “QUEIXAS DO PÚBLICO”.
[...] No entretanto, noutras capitais do país a idéia vingou e, em São Paulo,
por exemplo, há quase dois anos, por intermédio do prefeito, a "Light"
rediziu para cem réis o preço das passagens aos acadêmicos [...] há pouco,
o benemérito Governo Provisório, atendendo os justos pedidos que lhe
eram feitos de todos os pontos do país, reduziu em boa proporção as taxas
e emolumentos cobrados das escolas [...] fica lançada por intermédio do
"Correio do Povo", tão solícito em ouvir os estudantes, o apelo dos mesmos
ao nosso digníssimo Prefeito, para pleitear junto a Cia. Carris Porto
Alegrense a desejada redução, ao menos em cinqüenta por cento, ou seja,
equiparada a dos ginasiano Carlos Caroni."
437
1
4.3.8 Transitar na Rua da Praia, estar nas confeitarias, nos cafés
A principal rua de Porto Alegre, rua dos Andradas, é conhecida como rua da
Praia e também é espaço transitivo. É referência da sociabilidade nesses anos.
Passear, fazer o footing, ver, ser visto, fazer compras de produtos requintados, ir aos
cinemas.
foi espaço de grandes comemorações, como quando um s da
Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, quando se promoveu uma
caminhada de caráter festivo, com bandas, várias entidades étnicas e classistas,
populares em geral, capitaneadas pelas lideranças. Manifestações semelhantes
seriam realizadas em outras ocasiões importantes.
Ricardo de Aguiar Pacheco escreve: “assim as ruas da cidade se tornam
palco do fazer político, se tornam local possível de expressar apoio. Ou mesmo
desagrado à determinada questão pública. O sujeito dessas manifestações é a
multidão [...]”.
438
Por agregar pessoas, podem irromper desentendimentos e graves. Como o
que envolveu Antonio Libero Poletto, Felipe e Mauricio Reguinan. O Correio do Povo
noticia no dia 4 de abril de 1924, “DESORDEM NA RUA DOS ANDRADAS”:
Ontem, às 20 1/2 horas, quando mais intenso era o movimento popular na
rua dos Andradas, ocorreu, em frente à Confeitaria Colombo, uma
desordem que poderia ter tido graves conseqüências. O fato em si não teve
grande importância, pois não passou, como acima dissemos, de uma
desordem. Antonio Libero Poletto, Felipe e Mauricio Reguinan haviam tido
na noite de anteontem, em uma casa de tavolagem, uma alteração,
motivada por questões de jogo, pois os mesmos na noite anterior haviam
furtado a um senhor à rua Santa Cruz, nos jogos denominados "tapinhas" e
"pula macaco" a importância de 3:600$000. Esse fato passou-se no "chopp"
denominado "Ponto Chic", à rua 24 de Maio, sendo a divisão do "lucro" o
motivo principal da discussão. Ontem, encontrando-se na rua dos Andradas,
travaram-se novamente de razões e, para não destoar da praxe aqui
seguida, foram arrancados revólveres e houve ameaças de fazer uso deles.
Houve, como é natural, pânico e correrias, o que ocasionou um grande
susto às famílias que, em demanda dos cinemas, por ali passavam.
Felizmente, porém, devido à enérgica intervenção do agente n. 43,
Domingos dos Santos, os "valentes" foram desarmados, indo, depois,
2
refrear os seus ímpetos nos xadrezes do 1o posto policial.
439
O que prevalece, ao longo dos anos, é a função comercial e de lazer da rua.
No decorrer deste século, a arquitetura comercial vai substituir os primeiros
estabelecimentos na rua da Praia.
Prédios comerciais próprios, somente seus, altaneiros, grandes e modernos
magazines e lojas de departamentos, no início, nem tanto assim, que
mexiam com o imaginário social. Práticos no sentido de procurar atender a
todos ou mesmo uma pequena parcela, mas de forma completa, como nas
lojas Bromberg (1909), Renner (19??), Guaspari (1936), Sloper (1938),
Mesbla (1944). [...].
440
Os “arranha-céus”, assim o podem ser denominados, em 1920. O Café
Colombo, na General Câmara, o velho e o histórico Malakof, na Praça Montevidéu e
o Grande Hotel (primitivo), não passavam de dois ou três pisos. Arranha-céus
mesmo, é o da esquina da rua Marechal Floriano com a Gervásio Pinto de Oliveira,
seguido do Edifício Imperial, na Praça Senador Florêncio e do Novo Hotel Yung, na
Av. Otávio Rocha, esquina Marechal Floriano. Todos por obra de Azevedo
Moura-Gertum S.
441
A rua possibilita as trocas, reúne no convívio diário, os formadores de opinião,
que fazem circular informações, “plantam” boatos e criam piadas.
442
. Ponto de
encontro de amigos. traje especial para circular na rua centenária. Nilo Ruschel
apresenta os tipos humanos nas proximidades dos anos 40. Algo terá mudado de 20
a 40. Relata o que lembra, pede emprestada a memória do “grupo da “Dona Maria”:
Olavo Guedes, Rui Netto, Lupíscinio Rodrigues, Luiz Caccatori, João Freire, Madico,
Demóstenes Gonzales, mais a supervisão de Diogo Ferrás Filho, Athos Damasceno
Ferreira, Walter Spalding e Fernando Corona.
443
Pode-se também olhar para a rua e a cidade de Porto Alegre e compará-las
com a Itália, como faz Arséne Isabelle, em 20 de março de 1834: “Vede que céu,
3
que paisagem! É o céu da Itália; são as paisagens e a vegetação de Provence;
estamos em Porto Alegre! [...] Duas, entre outras, a rua da Praia e a da Igreja o
interessantes pelo grande número de lindas casas que possuem.”
444
E narra, pontilhando, fotografando. Às vezes se extende em comentários,
explicação que exige do leitor certo pré-requisito. Situa os pontos físicos apenas
para ilustrar que na rua circula o comércio, a vida cultural e social da cidade.
Já na narrativa de Ruschel
[...] a rua define-se não pelos que nela circulam, mas pelo ponto de fixidez
nesse nomadismo diário. [...] o Café Nacional era o limite da Rua da Praia
pelo lado nascente, pois que ela nascia mesmo a oeste, na Confeitaria
Colombo. Da General Câmara à Vigário José Inácio ou seja, da ladeira à
Rua do Rosário, é que morava a Rua da Praia até a década de trinta. O
resto é Rua dos Andradas, como quer o mapa da cidade.
445
Arrola farmácias como a Central na esquina da Marechal Floriano, mais
adiante cita a casa Masson, depois a confeitaria Rosicler, a casa Ao Preço Fixo. O
cine Ópera, o Cados Turfistas, o Café do Lulu, dono do Clube dos Caçadores, na
Rua Nova ou Andrade Neves onde havia muita música e roleta.
O importante para o jornalista, em qualquer cidade, é a existência dos cafés,
como o Café Suíça, de Guaragna que abriga os jornalistas na madrugada após
fechar a edição do jornal.
Cidade que se preze tem seus alienados, como o italiano Arlindo que
freqüenta a confeitaria Colombo, cantando “Serenatta de Arlequim” ou o Maecchiare,
um miserável das ruas.
Impossível não nomear a Livraria do Globo, onde nasce, por sugestão do
então Presidente do Estado, Getúlio Vargas, a Revista do Globo, a qual Mansueto
Bernardi dá forma em 1929. Encobrindo as vitrines, o ponto é de Osvaldo Vergara,
Moisés Velhinho, Osvaldo Aranha, Rubens de Barcellos, Athos Damasceno Ferreira,
4
Carlos Dante de Moraes, Walter Splading Behregaray. Faz desfilar a intelligentzia,
Eugenio Brito, Raul de Bittencourt, Paulo Hasslocher, Sotero Gomes, Theodemiro
Tostes, Augusto Meyer, Otávio Telles de Freitas, Pery Machado, Rui Cirne Lima,
Maestro Radamés Gnatalli, Mansueto Bernardi, Romeu Fossatti, Vianna Moog. o
são muitos os descendentes de italianos na intelligentezia de Porto Alegre, nesses
anos, para não falar dos estrangeiros em geral.
E segue narrando, aqui, a Casa Kreiger, adiante, mais confeitarias, como a
Confeitaria Woltmann, a Central. Casa de Brinquedos, duas, a Tricolor - importados
da Alemanha e a Abelheira, na esquina da Marechal Floriano, a Moda Infantil e,
assim por diante.
Engraxatarias, casas lotéricas, toda sorte de negócios, enfim. Ruschel
recorda o hábito do porto-alegrense de, aos domingos, quando encerrava a missa,
com a passagem das elegantes, os homens costumava lustrar os sapatos, ou
melhor, as botinas de cano de camurça e carregar o “Correio do Povo” sob o braço
era o motivo aparente.
446
O cafezinho era servido em mesas. Alguns se apoderavam de espaços, como
uma porta, uma parede, uma esquina. A esquina da Central era também o ponto do
jornalista Fortini. “Postava-se de lápis em punho, taquigrafando, pois quem tivesse
notícia para o Correio ia levá-la direto a ele. E ficava à mão, rondando as rodas dos
políticos, formadas no largo dos Medeiros”.
447
Os bares, então, o Salatino, o Antonello, o Continental, a Bela Gaúcha, O
Ziper Franz, alternando lugares com cinemas, quando de saíam. O edifício
Imperial foi o primeiro arranha-céus, com um cinema de dois mil lugares.
Já as confeitarias, como a confeitaria Rocco, situada à rua Riachuelo, esquina
da rua Dr. Flores pode ser o centro da sociabilidade urbana de Porto Alegre nesses
anos. Pelos seus salões circularam as personagens mais destacadas da vida
5
política, cultural e social de Porto Alegre entre os anos de 1920 e 1940.
As confeitarias funcionam com espaço para celebrações de todo o tipo,
competindo com os clubes. Maronese escreve sobre a sociabilidade porto-alegrense
no período, descreve os ambientes, a caricatura social do teatro da sociabilidade da
modernidade.
448
As vanguardas de todo tipo rotinizam lugares, fazem freqüentação à
determinados cafés, confeitarias, bares. No princípio do século é uma vivência
partilhada durante uma vida, mesmo que efêmera, afinal, o poucas horas
distribuídas nas semanas, nos meses.
Alguns lugares adquirem anima. A confeitaria Rocco é um desses lugares.
Divide com a efeméride, o homenageado, o que for, a marca do instante que se
grava na memória, o pequeno detalhe em função da cena toda.
Em 1926, realiza-se no salão do Palacete Rocco, a conferência do sr. Erminio
Gugliucci, jornalista italiano, sobre
"A Itália de hoje", na qual faz o relato da marcha vitoriosa do fascismo até
seu atual estado, concorrendo, poderosamente para o engrandecimento da
Itália. Em seguida, fez um demorado exame e uma descrição do Rio Grande
do Sul, falando do vasto campo que aqui se encontra aberto à atividade de
seus compatriotas [...].
449
Em 1931, quando retorna da Itália, após dois anos, Rocco faz questão de
visitar a redação do Correio do Povo.
450
Mais do que a rua, a avenida, o espaço público de confeitarias é apropriado e
selecionado por regras tênues de appartenenza de distintos tons étnicos e culturais.
Tem, paradoxalmente, o poder da convergência, da suspensão das hierarquias
econômicas, pelo rito pessoal, talento especial ou, o que seja, uma certa
6
transgressão charmosa da ordem burguesa.
Nesse ano, a “Liga feminina pró-Estado Leigo” reúne-se no salão do palacete
Rocco. Discute sobre o papel da mulher, “cooperadora da grandeza e felicidade da
Pátria”. Italianas ou descendentes fazem parte da diretoria como Rina Pierini Angela
Giacobbe, Gilda Meneghini.
451
Em 1932, a Confeitaria Rocco reabre, após estar finalizada a partilha dos
bens deixados por Nicolau Rocco.
A partir desses fragmentos, consideramos que a sociabilidade no período é
multipla, fazendo confluir os grupos humanos que circulam na cidade. As pessoas
freqüentam os ambientes sociais para conviverem, para se reconhecerem, ainda que
não privadamente, como seres que possuem o mesmo estilo de vida e fazem uma
leitura especial do mundo. O estrangeiro que aqui chega necessita ser iniciado
nesses rituais.
Os italianos e os moraneses, em particular, ao chegarem entre os anos de
1920 e 1937 encontram espaços sociais que deverão compartilhar. E, decifrar,
traduzir para sua própria experiência, a cidade inscrita em distintas temporalidades.
Os códigos e dispositivos da sociabilidade moderna são vorazes dada a
aceleração do tempo presente. Estabelecem os que vão ser incluídos e excluídos ao
longo do período.
Ser italiano nessas décadas, é moeda de cotação social variável conforme a
aproximação dos anos 20 e 30, bem como o posterior afastamento do governo
brasileiro da Itália, ao final do período. De qualquer modo, os italianos são modernos
e, como tal, agentes da modernidade que a cidade busca.
A sociabilidade propicia a circulação e a narrativa de italianos cingida entre o
pertencimento étnico ou, não. Esse espaço social é, por direito, das sociedades
7
italianas. E, é capturado, em parte, pela ofensiva fascista desde a tomada do poder
por Mussolini.
O espaço social é difuso entre espaços cosmopolitas, glamorizados pela
circulação cultural de outras formações sociais européias, norte-amercanas e, é
claro, o regional-nacional que está em passo crescente na cena cultural dos anos
30.
A narrativa moranesa de história oral sobre este design social é toda ela o
trabalho de decifração desses códigos e dispositivos, que tem na aprendizagem da
língua o inicial desafio dessa cidade. O refúgio está na vivência do grupo, no espaço
social familiar, revitalizando continuamente a rede emigratória que os trouxe até
Porto Alegre.
A seguir, teremos a “Cidade de Carne”, onde os fragmentos demonstram a
tríplice atuação do urbanismo eugenista, do novo caráter dos conflitos entre o capital
e o trabalho, sob o governo de Getúlio Vargas e as tentativas de imposição de uma
certa apreensão da estética latina na “Cidade de Pedra”.
5 A CIDADE DE CARNE
5.1 Dispositivos e códigos da metáfora sanitária da “cidade dos italianos”
No início da década de 20 as cidades de dimensões como Porto Alegre
realizam suas primeiras reformas urbanas, leia-se principalmente sanitárias. As
principais cidades como São Paulo e Rio de Janeiro ensaiam as intervenções
urbanísticas para redimensionar o espaço físico diante da amplitude das novas
funções na economia moderna brasileira.
Podemos denominar a dinâmica implicada como Metáfora Sanitária, termo
que pode ser atribuído ao urbanista italiano Giuseppe de Luca, sobre o processo
realizado na Itália, à época da emigração em massa, após a unificação do reino.
O urbanista define essa metáfora como a prática urbana de motivação, mas
não apenas, de motivação essencialmente higiênica, ou de fundo moralístico que
redundaria em processos econômicos especulativos. Metáfora concreta, porque
define um aparato normativo inscrito no corpo legislativo do Estado como “leis
especiais”.
452
No Brasil, a condição sanitária afeta tanto o quadro de qualidade de vida
urbana, como a rural. na Itália, em 1871, quando realizou-se a unificação, o país
era eminentemente rural e a colonização interna foi sustentáculo social da massa de
pequenos proprietários e trabalhadores em geral.
9
Após a unificação italiana, as próximas dezenas de anos serão de tentativas
dos principiais municípios, alguns do Sul, como Nápoles, de pleitearem
investimentos para edificações e ampliações urbanas, às custas da expropriação.
Planos de política econômica que visam, antes de mais nada, a renda fundiária. A
situação foi detonada pela grande epidemia de cólera de 1884/85 que assolou o
país, à época e que os imigrantes contam aos filhos e netos. A pesquisa realizada
pelas autoridades sobre as condições de higiene e sanitarismo no país foi
assombrosamente desanimadora: super lotação, higiene precária, grassam as
epidemias. Nápoles é a primeira a introduzir as ”leis especiais”. Na análise dos
urbanistas, estas leis, embora fluam para uma imposição positivista e intrusiva sobre
a propriedade privada, emana de duas e bem distintas concepções de saúde, a
coletiva e a individual.
As leis, de fato, representam o ponto de encontro de duas culturas diversas:
de formação médica, segundo a qual todos os males tem uma explicação e
são curados com boa dose de medicina e/ou com intervenções cirúrgicas
reparadoras; e aquela da engenharia técnica, segundo a qual um
ordenamento e uma razoável organização do assento físico e do território
pode
portanto trazer felicidade na vida individual.
453
Na origem, está o positivismo como “depositário da verdade” e seu sentido de
justiça com progresso. Na prática, em 1888, as leis instituem a figura do “médico
oficial sanitário” com poderes que limitam, inclusive, o princípio da inviolabilidade da
propriedade privada. Engenheiros sanitários igualmente o formados para atuarem
com força de lei. Francesco Crispi será o Ministro do Interior encarregado da ampla
reforma. Podem inspecionar, interditar, liberar as habitações e os negócios.
Mas a rígida estrutura social italiana vai impedir a realização plena da
erradicação das condições de exploração dos camponeses no campo, porque os
grandes proprietários obstaculizam a ação fiscalizadora-moralizadora do Estado. A
diferença entre o campo e a cidade só faz aumentar, haja vista que mesmo diante da
crise econômica do país, as principais cidades são transformadas, principalmente os
centros históricos. Dois conceitos reorganizam esta intervenção: o belo e o útil. A
I0
discussão parlamentar é intensa e visa compatibilizá-los, como no caso de Nápoles:
“já encantadora, transformada na mais bela, na mais encantadora cidade do mundo”.
454
A noção do belo deveria ser acompanhada da noção do que é sadio.
As referências às condições sanitárias e às doenças, na descrição da Itália
deixada para trás na historiografia da imigração são imcompatíveis com as leis
migratórias crescentemente seletivas: o Brasil quer apenas trabalhadores sadios,
conforme o imperativo da eugenia em voga.
O passado insalubre é pesadelo para os recém–chegados em Porto Alegre, o
qual se repete quando a realidade imediata da cidade em 1920 destina ao imigrante
pobre o alojamento em zonas insalubres, ainda sem tratamento sanitário,
infraestrutura urbana, reproduzindo as condições deixadas para trás.
À época da intervenção italiana na sua condição sanitária, o Rio Grande do
Sul, principalmente Porto Alegre, está sob domínio político do castilismo. o lhe é
estranha a mentalidade dos dicos e engenheiros sanitários italianos. Ao contrário,
a leitura positivista da realidade que organiza o horizonte ideológico do bloco no
poder no Estado coaduna-se idealmente com essa visão do urbano.
Os intendentes de inspiração positivista, embora existindo a disposição, não
teriam sucesso para transformar a cidade de então, na sonhada cidade progressista.
A velocidade com que aumenta a densidade demográfica e sua importância
econômica, nas primeiras décadas do século XX, supera os recursos existentes.
Não conseguiriam os líderes do Partido Republicano Rio-Grandense-PRR incorporar
dignamente o proletariado à sociedade moderna, como prega sua doutrina.
455
Senão vejamos: em 1920, no centro, residem 33.000 pessoas, na Azenha
estão outros 46.000, na Glória, 15.000, na Floresta, 35.000 e São João, 23.000. Nos
I1
dois últimos concentram-se os imigrantes, principalmente, atraídos pelos
baixos preços dos aluguéis e habitações, além de próximo às fabricas.
Principalmente o bairro o João terá um crescimento explosivo nas décadas
seguintes. As condições sanitárias, ruins no dito centro, pioram nos bairros, apenas
a zona do Porto melhora com a continuidade do aterro iniciado em 1918 e finalizado
com grande júbilo para a administração em 1921.
A geografia não ajuda a ocupação ordenada. A cidade está “condenada”, para
o geógrafo, Jean Roche, uma disposição radial, ou seja, o escoamento
longitudinal é facilitado apenas pelos eixos de circulação instalados nos terraplenos.
O restante do espaço a ser ocupado é dificultado pelas colinas graníticas de
vertentes, em princípio regulares, depois de certa altitude, as quais se “escalonavam
em anfiteatro” pelos bairros Moinhos de Vento, Monta Serrota, Petrópolis, Partenon,
Menino Deus, num raio de 4 ou 5 km do centro, mas interrompidos por colinas ainda
mais altas, íngremes como nos bairros Teresópolis, Morro da Polícia, etc. Os últimos
bairros não vão ser saneados na mesma velocidade dos primeiros quando em 1874
já se iniciam os trabalhos de saneamento.
456
As administrações devem verificar os serviços de abastecimento de água, luz,
sistema de esgotos, policiamento ostensivo e regular. Mas não recursos, e os
empréstimos que são constantes e sempre insuficientes, só fazem aumentar a dívida
pública.
457
Como na Itália, a imposição política no Brasil no final dos anos 30 acelera a
intervenção urbana, pois governantes nomeados centralizam as decisões sem
necessitar barganhar com a sociedade.
458
I2
Em 10 de novembro de 1937, o presidente Getúlio Vargas chefia o golpe,
revoga a Constituição, dissolve o Congresso e os partidos políticos, suspende as
garantias individuais constitucionais e implanta o Estado Novo.
459
Flores da Cunha, no poder desde 1934, cede e após renunciar, se exila em
Montevidéu. Extingue-se com ele a geração que monopolizara o poder em Porto
Alegre e no Estado do Rio Grande do Sul. O Estado sob intervenção, é comandado
em caráter provisório pelo General Daltro Filho. Entre o novo grupo de poder é
escolhido José Loureiro da Silva, o “charrua”, que toma posse em 19 de outubro de
1937.
460
No discurso de posseLoureiro da Silva, prefeito interventor, assevera que
essa situação urbana preocupe “não aqueles que governam a comuna, como
aqueles que se acham nos mais altos postos da administração do Estado”,
propondo-se a dar “atenção para solucionar a situação da pobreza
porto-alegrense[...]”.
461
Os dispositivos e códigos de Porto Alegre não são indecifráveis para o novo
administrador até porque não são novidades para ele: desde 28 de maio de 1925, o
intendente Otávio Rocha o nomeia Superintendente do Distrito de Porto Alegre e,
em seguida, Delegado de Polícia do mesmo distrito, por intermédio do Chefe de
Polícia, Armando Azambuja.
462
Loureiro da Silva fez as desapropriações como e quando quis, mudando
radicalmente a fisionomia da cidade no período seguinte através de obras para o
saneamento dos bairros Navegantes e São João e realiza da canalização do riacho
Ipiranga, áreas totalmente insalubres nas décadas anteriores.
463
5.1.1 A morada da máquina humana
Os dispositivos da morada moderna requerem salubridade, segurança,
I3
higiene pública fornecidos pelo poder público.
Na suave sociabilidade cosmopolita, o contraste fica por conta das péssimas
condições dos imóveis urbanos. Perfilados, são um tributo à condição operária de 20
e 30.
464
O assistencialismo religioso atenua as situações, como no caso da chegada
do irmão de Angelina em Porto Alegre. Como ele, outros imigrantes italianos
solteiros, podem socorrer-se da hospedagem que oferece o Seminário, localizado
nos fundos da Igreja Matriz.
Com relação aos incêndios, não há o que fazer. Acontecem porque as
instalações das habitações dos imigrantes pobres o precárias. Peças ou casa de
aluguel, na sua maioria, o péssimo acesso pelas “estradas” dificulta o socorro. Em
outros casos, quando seguros cobrindo os sinistros, o empreendimento é de certo
porte, não se pode situar como inserção dos imigrantes pobres que chegam em
Porto Alegre. Nestes anos o capitão do Corpo de bombeiros é Manoel Pozzo Bravo.
No dia 16 de maio de 1920, no Mont Serrat, no prédio n. 11, da rua Fabricio
Pillar, foi destruído à noite, o prédio alugado, os móveis, tudo fora do seguro. O
prédio pertencia a Adolpho Koertzsch e era habitado por Antonio Francisco Cunha e
sua família. No local do incêndio estiveram José Montaury, intendente municipal,
Vianna Marques, delegado de polícia e o capitão Eduardo Sarmento, subintendente
do 3o distrito.
465
Também foram despertados à noite por um incêndio os moradores da rua
Voluntários da Pátria, nas proximidades da rua Ernesto Alves “[...] O fogo, que
principiara no casebre no. 4 da referida avenida, tomou, então, maiores proporções,
comunicando-se aos prédios vizinhos [...]”. Instantes após, estavam completamente
destruídos o casebre, grande parte da oficina de móveis do Sr. Adolpho Cothr,
situada no prédio n. 365, a caldeira de cobre da firma Timing e Bednarski, a qual
ocupava o prédio n. 367 e a oficina de espelhação e atelier fotográfico do sr.
I4
Fernando da Cunha Junior, fica aos fundos do prédio no. 363.
O prejuízo não foi total porque o fogo foi contido, após haver destruído parte
dos prédios acima. Os moradores das proximidades, temendo a propagação do
fogo, ao retirarem seus móveis para a via pública, muitos desses se quebraram e
outros foram enlameados dadas as condições da rua Voluntários da Pátria.
Os imóveis de moradia próximos aos imóveis de pequenas fábricas, com
materiais inflamáveis atestam as condições de habitação dos imigrantes pobres.
Viana Marques, delegado de plantão, nestas situações comparece ao local, faz o
inquérito, mas nada obtém com Caetano da Conceição e Analecto Dantas,
moradores do primeiro casebre a ser incendiado.
466
Outro incêndio, na Voluntários da Pátria, igualmente na madrugada, ocorre no
prédio n. 63-B. No pavimento rreo funcionava o laboratório “João Wesp”, morador
à rua Conde de Porto Alegre n. 65, mas o fogo irrompe no andar superior, que se
encontrava desocupado. Previdente, as existências do laboratório estavam
asseguradas.
467
Porto Alegre, como toda cidade de recepção de o-de-obra migrante, não
garante espaços urbanos condizentes com a promessa da modernidade.
5.1.2 Presença de setores médios italianos e descendentes na construção da
cidade: engenheiros, médicos, advogados nas faculdades e sociedades
A presença de setores médios de italianos e descendentes na construção da
cidade é marcante. De certo modo a dimensão social dessa formação liga-se à
presença de fortes segmentos de orientação católica na formação da juventude
nestes anos.
468
É possível localizar italianos e seus descendentes em 1922, quando a Escola
de Engenharia forma mais uma turma de engenheiros. O paraninfo, Dr. Duilio
I5
Bernardi, lente das cadeiras de pontes e estabilidade das construções. Assim como
alguns formandos, como Bonifácio Bettiol. “[...] Prestam ainda uma homenagem ao
dr. Lino Carneiro da Fontoura, falecido no Rio de Janeiro, e que, por algum tempo,
exerceu o cargo de engenheiro-chefe do Instituto de Engenharia e outra homenagem
ao Dr. Saturnino de Brito”.
469
Também na área de formação jurídica estão os italianos. Em 1924 é a
admissão festiva dos colegas matriculados no primeiro ano do curso jurídico. Em
nome do Centro Acadêmico, são recebidos pelo acadêmico Annibal di Primio Beck.
Ainda neste ano é lembrada a fundação dos cursos jurídicos no Brasil, a 11 de
agosto.
470
Percebe-se uma concentração de nomes italianos nos cursos e na atuação
profissional em saúde. Impressiona porque não são apenas os médicos, mas
famacêuticos e outras categorias profissionais, de todas regiões da Itália, natos ou
descendentes.
A obrigatoriedade do diploma brasileiro para o exercício da medicina que
ocorre apenas em 1932, sob pressão dos interesses corporativos, pode ser a
explicação. No período entre guerras, muita disputa entre médicos diplomados e
não-diplomados no Brasil. Principalmente após da Primeira Guerra Mundial, vêm
médicos da Europa, sobretudo italianos, que se instalam no Rio Grande do Sul por
não haver exigências de provas de habilitação. Isso acirra a hostilidade nas
categorias, principalmente na médica. Os “não diplomados” o discriminados e vão
ser excluídos ao longo do período.
471
Não podemos deduzir que a medicina seja apenas carreira das camadas
enriquecidas da cidade. O Correio do Povo em 1920 noticia o auxílio para os
estudos universitários proposto pelo Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina,
uma espécie de caixa para subsidiar as custas do curso.
I6
Tal sistema existe nas universidades americanas, francesas e na de
Coimbra. A denominada "Caixa do Estudante" tem na comissão alunos como José
Candido Lupi a qual busca sensibilizar o poder blico e a sociedade em geral para
a necessidade de apoio. Ao que parece a receptividade é alcançada, uma vez que
as promoções são bem recebidas pelo público, jáz que várias instituições e o
comércio da capital colaboram como o instituto a ser fundado. É o que ilustra o
anúncio: “Hoje, no Cinema Orion", será levado a efeito um festival com a exibição de
um "filme" e números de variedades com arrecadação para a “Caixa”.
472
A capacidade hospitalar, por sua vez, acompanha o crescimento da cidade.
Desde 1918 a cidade tem seis estabelecimentos hospitalares. Entre os subordinados
ao governo estão: o Hospital de Isolamento no arrabalde o José, o Hospital da
Brigada Militar, no Bairro Cristal e o Hospital São Pedro. também o Hospital
Divisionário, à rua Duque de Caxias, de propriedade do governo da União.
473
Os doutorandos da Faculdade de Medicina, alguns beneficiados pela “Caixa
do estudante”, podem trabalhar no Hospital da Sociedade Portuguesa de
Beneficência, à Avenida Independência ou na Santa Casa, na praça Dom Feliciano.
474
A Santa Casa é o principal equipamento médico da cidade nos anos 20 e 37,
onde os imigrantes da cidade e do interior podem curar-se. Daí ser igualmente fonte
de pesquisa historiográfica importante da imigração no Rio Grande do Sul. Casos
como o de Josefina são comuns, nas páginas do Correio do Povo: “de guia passada
pelo 5o posto policial, foi, ontem recolhida à Santa Casa de Misericórdia Josefina
Ottolote, com 50 anos de idade, viúva, italiana e residente na Tristeza”.
475
Seguindo o desenvolvimento da área de saúde, a Santa Casa especialização
aos enfermeiros. Dr. Victor de Britto, provedor da instituição, cria um curso de
enfermeiros em 1920. O corpo docente conta com os doutores Octacilio Rosa,
Sarmento Leite, Guerra Blesmann e o Dr. Hildebrando Varnieri, cirurgião interno. O
I7
curso é “modelado pelas congêneres dos Estados Unidos da América do Norte”.
Quer ainda o provedor aumentar o número de parteiras para o serviço de obstetrícia
[...]”.
476
A preocupação do provedor justifica-se pelo crescimento desenfreado de
Porto Alegre.
Como cirugião, Hildebrando Varnieri figura várias vezes nas páginas do
Correio do Povo, como quando atendeu na Santa Casa uma criança de três meses
de idade. Esta engulira um prego, na brincadeira da irmã. “[...] Atendendo a pouca
idade da criança, procurou-se, antes de tudo, evitar uma operação. Mas, devido o
estado em que se achava, resolveu-se, por fim, praticá-la”.
477
Em 1924 ainda que aumentar as clausuras para as irmãs de caridade que
são enfermeiras. O provedor, Coronel Amorin, e outros membros da administração
abrem a concorrência da obra. Disputam alguns arquitetos conhecidos, como
Borsatto e Laim, cujo projeto prevê a construção do edifício por 65 contos de réis, ou
Ribeiro e Tomattis, que orçam a obra em 71 contos de réis ou ainda Leonidas Tellino
que propõe o valor de 73 contos de réis.
478
A Faculdade de Medicina de Porto Alegre, no dia 26 de julho de 1924, está
fazendo 26 anos. O Correio do Povo noticia a solenidade, presidida por seu Diretor,
Professor Sarmento Leite que na presença de auxiliares de ensino e de
representantes do Centro Acadêmico, incluindo seu presidente, o aluno Antonio
Bottini inaugura o retrato do Dr. Dioclecio Pereira.
479
Como parte da área de saúde médica, na Diretoria de Higiene é freqüente a
presença de nomes italianos, tal como quando concorrem ao Concurso de médicos
auxiliares: Raul di Primio e Jandyr Faillace, descendente de moranes.
480
No Hospital Alemão, obra concluída em 1927, os médicos podem operar. O
I8
Dr. Dino Vanucci, auxiliado pelo Dr. Renzo Rosa e pelo acadêmico Py Difini,
orientado pelo Dr. Etzberger realizam com sucesso duas cirurgias de estômago
utilizando técnicas inovadoras.
481
Infelizmente o cirurgião está de partida em 1929 para São Paulo. Ele,
professor de universidade italiana, valida seu diploma perante a Faculdade de
Medicina, como outros o fazem. Sua partida é “[...] lamentada entre a colônia
italiana, que o tinha como um dos elementos representativos [...]. as homenagens,
evidentemente, estão programadas para o salão da Confeitaria Rocco [...]”
482
.
Em 1931 médicos são homenageados. O primeiro é o Dr. Benoni, pelos seus
25o de formatura, em grande gala e na presença do cônsul da Itália, na sede da
Casa degli Italiani. A homenagem é precedida pelo Dr. Lourenço Lotti, que louva o
labor de mais um italiano devotado à cura.
483
O segundo é o Dr. Rodolpho Josetti,
que chega pelo avião da Condor. Médico-operador rio-grandense visita Porto Alegre,
pois reside há anos na Capital Federal. Fará, na Sociedade de Medicina, a convite
de seu Presidente, Dr. Octávio de Souza, uma conferência. “O professor Josetti virá
acompanhado de sua exma. esposa D. Alba Gomes Josetti, filha do ilustre
bacteriologista rio-grandense Dr. Eunli Gomes e neta do saudoso professor
Fernando Gomes”.
484
Não se mede elogios ao médico que tratará da cirurgia da tuberculose
pulmonar, isso porque:
Sua vitória é a do Rio Grande do Sul [...]. O acadêmico que
ontem
saiu
daqui apenas levando as credenciais da glória paterna pode voltar hoje com
os títulos todos que lhe conferem uma personalidade tão vigorosa, entre os
nossos homens de ciência.[...]. Sua ascendência paterna é de prestígio,
pois o seu pai, Dr. João Adolpho Josetti, é o “notável cirurgião cujo nome
vive na lembrança da coletividade porto-alegrense [...]. As cifras da
incidência da tuberculose em Porto Alegre atestam a validade desta [...]
contribuição poderosa para o estudo e o combate ao flagelo que tantas
devastações produz em todos os países do mundo [...].
485
I9
No ano seguinte, em 24 de julho de 1932 a notícia vem da Sociedade de
Medicina. Trata-se da conferência do Dr. Nicolino Rocco, também sobre o tema
"Contribuição ao estudo das cavernas pulmonares". Moranes, Rocco é mais um bem
sucedido médico.
486
Os médicos bem sucedidos costumam viajar para a Europa e se são italianos
ou de ascendência italiana, como Bartholomeu Tachini, conhecido médico da cidade
de Bento Gonçalves, a ida à Itália é uma viagem imprescindível. Retornam
entusiasmados com o progresso do país. Tachini chega a comentar em entrevista ao
Correio do Povo que a decisão do governo italiano de encaminhar uma boa parte da
população excedente para Tripolitana foi excelente. Essa migração faz parte das
impressões da apreciação da sua viagem a tria: “Um geral progresso por toda a
parte [...] a Itália marcha numa escala progressiva [...].”
487
Bem sucedidos, apreciados na comunidade, médicos de ascendência italiana
tem o exemplo da figura do Dr. Elyseu Paglioli, egresso da “Geração Católica”.
Docente livre da faculdade, aparece como noticia no Correio do Povo, em 1932,
oferecendo uma festa aos formandos, dos quais é paraninfo, na sua chácara de
Ipanema, onde foi servido “churrasco, regado a Chopp”. Após, foi improvisada uma
“divertida hora de arte [...]”.
488
A modernidade requer especializações profissionais, as quais os italianos e
seus descendentes irão procurar adquirir e desempenhar na sociedade. Como
portadores de capital simbólico consolidam a camada média porto-alegrense.
5.2 Sanear, Limpar, Conter, Disciplinar
O estrangeiro pode ingressar na Porto Alegre dos anos 20 pelos clubes,
salões, cafés ou deslizar pelas margens, fazendo outra navegação social, como
V0
metaforiza Roberto DaMatta.
489
Mas, encontra de todos modos, a máquina
castilhista de governo entre 1896 e 1937. Os órgãos da administração pública
encarregados da segurança e higiene estão afetos à Intendência.
Entre a máquina e os estrangeiros, temos as notícias do Correio do Povo. De
1920 a 1937 mostram a outra face do estrangeiro, a qual pode desconstruir o
discurso de autoridade sobre o estereótipo do imigrante ordeiro, trabalhador, sadio e
alimentado pela literatura.
Tratemos, pois, das margens, na narrativa do Correio do Povo.
5.2.1 Saúde mental, disciplinamento e imigração
A ruptura das referências identitárias aliada à impossibilidade de estabelecer
novos vínculos sociais na cidade de recepção pode superar o limite humano da
sanidade mental.
A história da imigração desde a produção da loucura, ainda está para ser
contada. Fiquemos a olhar por uma fresta os anônimos que constam em notas
nos jornais, mais pela bizarria. O louco não tem como narrar sua desventura na
cidade. Nem ninguém o fará por ele.
Em Porto Alegre o imigrante pode oscilar entre a Cadeia Municipal e o
Hospício São Pedro, na pendularidade entre o crime e a alienação mental, que lhe
retira a responsabilidade civil sobre seus atos.
Apenas a sociedade é responsável pela segurança blica, retirando o
alienado dos olhos, digamos, das ruas da cidade. O Hospital o Pedro “a grande
obra do ´hospício` foi planejada para ocupar um espaço afastado do centro urbano,
entre o Riacho e a antiga estrada do Mato Grosso(hoje Av. Bento Gonçalves). A
data de fundação foi 29 de junho de 1884.
490
V1
Em 1920, com o adensamento urbano, está em área urbanizada e cercada
de moradias. Tanto que, facilmente, os internos podem tomar as ruas de Porto
Alegre. Aos 16 de outubro de 1920 o Correio do Povo noticia a fuga do Hospício São
Pedro, de “três alienados, que para ali haviam sido removidos da Casa de Correção,
onde cumpriam sentença. Eram eles Trajano Schutz, João Francisco Marcill e João
Ronco, condenados respectivamente, à 8, 10 e 30 anos de prisão celular [...]”. A
notícia informa ainda, a prisão de dois deles em São Leopoldo, “dirigindo-se uma
escolta da Chefatura de Polícia, afim de reconduzí-los para esta capital.”
491
Quais
seus crimes, não sabemos.
No ano de 1924 sabemos qual o crime mas se desconhece o motivo. A
manchete: “VANDALISMO OU LOUCURA?”, o fato tem repercussão junto aos
católicos. A narrativa é a seguinte: Uberto Bohringer depreda o interior da igreja de
São Pedro. Recolhido à Casa de Correção, por ordem do Dr. Alceu Barbedo,
delegado judiciário do 1o distrito. Indignados, estudantes de Medicina como Antonio
Louzada, Antonio Botini, Mario Bernd, Pascoal Pereira e Carlos Bento, convidam
“todos os centros acadêmicos desta capital para, num gesto de protesto e ao mesmo
tempo de auxílio, empreender a reconstrução das partes danificadas do templo [...]”.
Organiza-se um bando precatório para a coleta de donativos, com o que há
de mais representativo na comunidade católica: a Congregação Mater Salvatoris de
Acadêmicos e Formados, do Ginásio Anchieta. Planejam sair à rua na próxima
terça-feira, após a reunião, que será na sede da União dos Moços Católicos, à rua
dos Andradas n. 150, às 14 horas.
492
O desequilíbrio do imigrante foi confirmado por Vicente Stillner, em cuja casa
Uberto residia:
[...] (vem) inutilizando várias imagens dos santos e outros objetos que se
achavam sobre o altar [...] disse o Sr. Vicente Stillner que Boeringer já
estava, tempos, em observação médica com os drs. Fredérico Falk e J.
Cardinal [...]. Em vista de tais informações, as autoridades já se entenderam
com o administrador da Casa de Correção, no sentido de Uberto ali ficar em
V2
observação médica.[...].
493
Em 1929 a Sociedade Pestalozzi, à rua Andradas 1766, trata da localização e
inauguração do Instituto Pestalozzi, que tem apoio do Governo do Estado e da
Intendência Municipal. Dedicado à educação de meninos “débeis físicos e mentais e
de retardados”.
494
Em 1932 a saúde mental é discutida na Semana Anti-alcóolica, promovida
pela Liga Brasileira de Higiene Mental. Preside os trabalhos Miguel Couto.
Realiza-se a palestra intitulada “Profilaxia mental dos imigrantes”, por Xavier de
Oliveira. Seus pontos de vista expressam a visão higienista deste período embutida
na política de imigração, que restringe algumas raças. Pura eugenia. À medida que
se imprime cotas restritivas à entrada de estrangeiros, coloca-se sob suspeita esta
estrangeiridade, antes tão obsequiada pela sua “superior” força de trabalho.
[...] a) que é muito elevada a cota (de) psicopatas entre os imigrantes no
Brasil; b) que as suas desordens mentais explodem, geralmente, dentro dos
seis primeiros meses após a sua chegada; c) que um dos fatores mais
importantes, entre os que de muito influem para esse efeito, é a falta de
seleção mental do imigrante, feito em seu país de origem, imediatamente,
antes da sua emigração.
Propõe uma série de medidas de profilaxia defensiva:
[...] a) aconselhar o governo a por em execução a lei de 1921, que proíbe a
entrada de psicopatas no Brasil, acrescida dos seguintes complementos; b)
que em sua prole, caso a tenha, não haja filhos doentes mentais ou
nervosos ou, simplesmente, com taras evidentemente menores ou mentais;
c) que não sejam sifilíticos, verificado pelo controle obrigatório da reação de
Wassermann, no sangue ou liquor, a juízo da junta médica que o examinar
em seu país de origem ou de destino; d) que não sejam, alcoolatas, no
sentido psiquiátrico desta palavra; e) que não sejam portadores de outras
toxicomanias; f) que seja permitida a entrada no país de imigrantes da
raça branca; g) que seja expressamente proibida, para o efeito de
residência além de seis meses, a entrada, no país, de quaisquer elementos
das raças negras e amarela; h) que seja previamente feito exame de
sanidade mental para todo estrangeiro que se queira naturalizar brasileiro; i)
para a efetivação das medidas acima aconselhadas, o governo entrará em
acordo com as nações emigratórias, para que seja, obrigatoriamente, feito o
exame médico-psiquiátrico do imigrante que se dirige ao Brasil, da forma
V3
como for combinado com as nossas autoridades diplomáticas e consulares
nesses países.
Propõem também as seguintes medidas de profilaxia, agressiva:
[...] 1) fazer repatriar, imediatamente, ao seu país de nascimento, a
todo
imigrante que se tornou, ou se vier a tornar alienado, durante os primeiros
seis meses após a sua chegada a qualquer porto do Brasil; 2) repatriar,
igualmente, aqueles que enfermaram depois dos primeiros seis meses e
antes dos primeiros seis anos, após a sua chegada, e cuja moléstia for
julgada incurável no estado atual da ciência; 3) a manter e tratar como se
fossem nacionais os imigrantes que enfermarem depois de seis anos
consecutivos de residência no país; 4) expulsar, sumariamente, a todo
estrangeiro, homem ou mulher, que for verificado ser toxicômano
reincidente; 5) a deferir á Liga Brasileira de Higiene Mental a inspeção
médico-psiquiátrica e eugenica de todos os imigrantes que se destinam ao
Brasil, habilitando-a com os devidos recursos materiais e legais, não
podendo entrar no país nenhum alienígena que não tenha a sua ficha
mental, previamente, feita por especialista daquela instituição.[...]
495
A deportação é a saída para os indesejáveis. O serviço de vigilância no Cais
do Porto de Porto Alegre, a cada desembarque de passageiros de vapores vindos do
Rio de Janeiro e portos do norte do país, examina e, se for o caso, deporta
imediatamente. Exemplo disso é o caso de:
José Piacenza, de cor branca, com 46 anos de idade e natural da Itália.
Esse
criminoso
, que também usa os nomes de Antonio Villanova Brum e
José Silveira, foi preso no interior de um bonde quando tentava dar um
"golpe" na carteira de um passageiro que viajava a seu lado[...]. estivera
no Rio de Janeiro e Paranaguá.
496
Loucos, alienados, desempregados, infratores, todos oferecem o espetáculo
da imigração sem critérios. As propostas sobre a imigração selecionada galvanizam
os anos 30. Teme-se a importação da degenerescência mental e a sua reprodução
“[...] Fazemos caso importante da qualidade. E com isso nem sempre conseguimos
apurar uma imigração de fato produtora [...] Basta dizer que entre s a imigração é
de pura competência policial[...].”
497
V4
5.2.2 Higiene para uma cidade sadia
A saúde pública também preocupa. As condições de moradia dos imigrantes
no geral, não são das melhores. A peste bubônica grassa onde as condições de
higiene falham. Em 1922, na rua Voluntários da Pátria n. 269B onde está a funilaria
e a residência de Braz Fiorenzano, seu filho de 11 anos é acometido pela peste.
Flores Soares, adjunto diretor da “Higiene” interdita o prédio para desinfecção.
Verificou que se achava infectado como o germe da peste bubônica. Felizmente, a
saúde do menino foi restabelecida.
498
Ainda nesse ano o Correio do Povo noticia outros casos. A incidência é tal,
que uma ação mais efetiva se faz necessária. Entre as medidas profiláticas tomadas
pela Diretoria de Higiene, está a desinfecção de todos os cinemas da capital, a
iniciar pelo Cinema Teatro Guarany.
499
Na cidade, a área com um número maior de casos, alguns fatais, é na rua
João Alfredo. Os pacientes são tratados no Hospital de Isolamento, no arrabalde de
S. José, como o ocorrido com Caetano Berlese, do comércio desta praça.
Adoecendo, foi chamado para atendê-lo o Dr. Hermeto Tourinho.Tratado em tempo,
restabeleceu-se.
500
Não foi a sorte do ator Victor Sohne, com 38 anos de idade, natural deste
Estado, casado e residente numa pensão da rua Voluntários da Pátria e fazia parte
da Companhia Cancella que trabalhava no Cine Teatro Coliseu:
Domingo, adoecendo, foi ele levado para a Beneficência Portuguesa e,
sendo examinado pelo Dr. Serapião Mariante,
verificou
-se que ele se
achava atacado de peste bubônica [...] Removido pra o Hospital de
Isolamento, onde veio a falecer na manhã de ontem.[...] O quarto de
hospital e a pensão onde morava foram desinfetados.
501
Mas se algo que afeta tanto imigrantes quanto nacionais, são as condições
V5
de higiene da via pública, as quais deixam a desejar em 1925. Preocupado com a
situação, Octavio Rocha, intendente municipal, “entendeu-se, dias, com o general
Adalberto Petrazzi, diretor-presidente do Corpo de Bombeiros para que o serviço de
lavagem do Mercado Municipal seja, doravante, feito por essa coorporação.”
502
A irrigação das ruas também vai ser executada pela corporação. Controle de
epidemias, limpeza pública, a cidade moderna necessita vigiar as condições da
alimentação fornecidas pelos estabelecimentos.
Muitos italianos de Morano-Calabro essão estabelecidos como açougueiros
em Porto Alegre, alguns até grandes atacadistas, como Genaro Conte. Mas dentre
os italianos em geral e, proprietários de açougues, em particular, alguns transgridem
as normas. A Diretoria de Higiene da Intendência Municipal multa em 50$000, Pedro
di Luca, à rua José do Patrocinio n. 58, expôs á venda carne em decomposição;
Caetano Diffini, à rua Riachuelo n. 278-A, por falta de higiene; em 100$000 Martins
Caetano, por infração do edital de 5 de janeiro de 1925.
503
Carne vendida depois do horário é o motivo da multa de mesmo valor para
Francisco Donato, à rua Marcilio Dias n. 148, no seu açougue.
504
Em 1927, os marchantes aumentam o preço da carne levando a
municipalidade a permitir a instalação de matadouros de emergência para fazer
frente à necessidade de consumo da população de Porto Alegre. Os proprietários de
açougue fecham seus negócios, provisoriamente, em protesto.
Jacob Hackmann habilita-se. É proprietário de açougue Tigre, no Mercado
Público, com filiais nos bairros Passo da Areia, onde improvisa matadouro com
salsicharia anexa, no bairro Moinhos de Vento e na Rua Voluntários da Pátria. A
carne vem de pedras Brancas e da região serrana. Para todo o esquema montado, a
Higiene Municipal faz a sua vistoria.
505
V6
A Diretoria da Higiene Municipal tem muito trabalho pela frente. Em 1926 a
fábrica de caramelos e balas de Michelon, Quintella & Cia. Transfere-se para novo
prédio à rua S. Pedro n. 172, construído conforme as especificações daquela
diretoria. A visita é narrada:
[...] “prédio todo de material, com amplas aberturas, tendo ao centro uma
vasta sala de duzentos metros quadrados, destinada ao fabrico de cerca de
50 qualidades de balas e caramelos, com matéria prima de primeira ordem”.
A escariola reveste a sala onde trabalham as operárias [...] mesas de
mármore, as máquinas todas movidas a eletricidade [...] piso é todo de
cimento [...] na parte externa, banheiros para os empregados, patentes,
vestiários, etc. [...] Breve vão expandir para o fabrico de artigos de chocolate
[...] (a produção) é, presentemente, de cerca de mil quilos diários [...] que
são vendidos nas principais praças deste e de outros Estados.
506
A brica de Gelados Excelsior de Aldo Borri estabelece-se no prédio n. 1648
da rua dos Andradas, segundo os principais requisitos higiênicos e equipamentos
modernos, à eletricidade. Podem fabricar os gelados Cascata Sibilina, Spumone e
Torroni. Um caminhão com câmara frigorífica, especialmente construída, fará a
entrega domiciliar.
507
A empresa Salvador Pappalardo & Cia, se estabelece à avenida Oswaldo
Aranha, 396, com fabrica de massas alimentícias, principalmente massas de sêmola,
ovos e pastilhas para diabéticos, além de massas com verdura e espinafre.
508
A confeitaria Cestari, de Cestari & Irmãos, que se localiza no Caminho do
Meio, está sob suspeita: em 1931 a Diretoria de Higiene investiga um caso de
envenenamento. A noticia relata que em uma festa ocorrida na residência de João
Artur Pezarozzi, à rua Paulino Teixeira n.282 pessoas teriam sido envenenados por
doces fornecidos pela Confeitaria. Coletada amostra dos doces e examinada no
Laboratório da Diretoria de Higiene.
[...] Secundando essa providência, o professor Fernando de Freitas e
Castro, Diretor da Higiene e Saúde Pública do Estado, designou o Dr. Ary
Vianna, diretor do Centro de Saúde do distrito sanitário, para proceder a
rigoroso inquérito [...] nada encontrou de procedente, e encerrado está o
V7
caso.
Nota-se a preocupação com a imagem pública que associa modernidade,
higiene e prestação de serviço atenciosa.
A Confeitaria Cestari faz questão de divulgar as instalações da fábrica para
que sejam conhecidas pelo blico. A narrativa do Correio do Povo traz a imagem
de um amplo e moderno prédio, que conta com um primeiro grande salão para a
venda a varejo, cujo piso é de mosaico e as paredes revestidas de ladrilhos
vidrados. Para expor a mercadoria, existe um balcão, dos mais modernos no gênero,
onde o freguês pode apreciá-la através de três amplas e bonitas vitrines. A sala que
segue o salão, é de piso de mosaico, sendo as paredes revestidas de ladrilhos
vidrados, aliás como o restante das dependências do prédio. a sala de contagem,
onde são expedidos os doces, dispõe de um sistema de gavetas, ladeadas por um
depósito de bandejas de papel. A sala de depósito de farinhas segue esta sala de
manipulação. E mais, como as sofisticadas máquinas do gênero, com dois fornos
a vulcão, e 15 fogões modernos, onde se cozinha-se as frutas e as marmeladas.
509
5.2.3 Cresce a cidade, cresce o crime
É preciso mais segurança pública. O estrangeiro pode não ser trabalhador,
ordeiro, ou pode ser roubado por outro estrangeiro. No dia 19 de agosto de 1920, o
Correio do Povo noticia que Francisco Barbosa Fusquini constata a tentativa de
arrombamento do cofre, no seu escritório comercial, à rua General Câmara no 53.
510
Sequer as caixas de penas Mallat, encomendadas por Barcellos, Bertaso &
Cia., proprietários da Livraria do Globo deixam de ser roubadas e vendidas no
mercado paralelo. Oferecidas às firmas locais por preço inferior, o fato precipitou
diligências que conduziram a um catreiro e um tripulante da chata. Quando
passavam pela Alfândega, os proprietários da livraria averiguaram que a caixa
V8
estava arrombada:
Sabe-se, pelas diligências efetuadas, que encostado ao trapiche onde se
achava atracada a chata, havia um saco onde eram depositadas às caixas
de penas que, aos poucos, eram retiradas do caixão. Alguns dos
compradores têm restituído as penas compradas.
511
“Os amigos do alheio” estão cada vez mais audazes, conforme o fato narrado
a seguir, ocorrido em 1922:
[...] Contando com o mau policiamento da cidade, cada vez mais deficiente,
os ladrões redobram de ousadia, chegando ao ponto de assaltar a uma
mulher em plena via pública, no intuito de arrancar-lhe as jóias que a ornam
[...]. Cerca de 20 horas de anteontem, sexta-feira da Paixão, a mulher
Odette Fiori, residente à rua General Canabarro no 52, saiu a dar um
passeio em companhia de sua amiga Inah Miranda. Pouco depois, quando
subiam a rua dos Andradas, notou Odette estar sendo seguida por um
indivíduo de cor negra [...].
Ao chegar, porém, à esquina da rua do Arroio, Odette Fiori vê-se
inopinadamente agredida pelo indivíduo que a seguia, o qual procurava arrancar-lhe
das orelhas um par de brincos com brilhantes. “[...] Reagindo, descalça um sapato
ao ser atirada ao chão e fere “a cara do perigoso ladrão.”
Policiais acorrem e prendem o assaltante que na Chefatura de Policia
identificou-se como José Rodrigues e disse ter 30 anos de idade. Odette Fiori, ferida,
foi atendida na assistência do posto e após recolheu-se a sua casa. “A jóia que
despertara a cobiça do ladrão era do valor aproximado de 1:400$000."
512
Muitos moraneses são proprietários de lotéricas e não conseguem ficar
imunes aos falsários de bilhetes de loteria no Estado. Os falsários João Terlera e
Dionysio Barronio são presos e soltos. O golpe foi descoberto quando tentam
adquirir três originais dos números de propriedade exclusiva da Administração da
Loteria do Estado na firma Broda, Dohnes & Cia., proprietária da Casa Beck. O
funcionário pretextou aceitar o pedido, mas entra em contado com Demarchi & Cia.,
V9
concessionários da Loteria do Estado, fazendo-lhes entrega do original em questão.
Avisada a polícia, são presos quando vão buscar a encomenda.
513
As arruaças são comuns na cidade moderna e a função policial é assegurar a
ordem pública, dirimindo os conflitos. Mas, às vezes um policial é ferido, como
aconteceu na casa de negócio de José Jorge Motri e Alberto Martins do Valle,
localizada no arrabalde da Tristeza.
Angelino Vieira e Theodoro Stanger estavam fazendo desordens, à tarde.
Foram chamados ao local o inspetor João Ramos de Oliveira, comandante do
destacamento de Tristeza e mais dois agentes, entre eles Pedro Rodrigues da Silva,
os quais foram agredidos,
[...] Theodoro Stanger, armado de uma faca, investiu contra o agente Pedro
Rodrigues da Silva, com ela conseguindo vazar a vista esquerda do referido
agente. O outro agressor, Angelino Vieira, também fez uso de uma pistola,
cuja cápsula, felizmente, não conseguiu detonar [...].
514
os que se destacam na luta contra o crime: O coronel Affonso Emilio
Massot é homenageado em 18 de maio de 1922. Completa o aniversário de sua
nomeação para o cargo de comandante efetivo da Brigada Militar e vai ganhar um
quadro ofertado pelos oficiais da milícia estadual.
515
A Guarda Municipal, posteriormente, a polícia Administrativa e a Brigada
Militar são os responsáveis em alguns distritos de Porto Alegre pela manutenção da
ordem desejada.
516
Tal ordem é difícil de ser mantida na área da cidade maldita: a
polícia promete fechar espeluncas na capital, a cada conflito mais rio. A
sociabilidade implica em confronto e desavenças. No Club Ibá, situado à Travessa 2
de Fevereiro, um mulher perde a vida. Outras ficam feridas.
No interior do Club Rengt-Baal, à rua Andrade Neves, n. 29, numa
discussão de jogo, João Mutti, julgando-se roubado numa parada de
50$000 que jogara no "bacarat", puxou do seu revolver e desfechou por 3
ou 4 vezes. Os tiros terminam por atingir [...] Agostinho Gasper, branco,
0
com 40 anos de idade, solteiro, residente á rua Barros Cassal n. 19(..)
desarmado e preso pelo inspetor da policia administrativa do 1o posto,
Ernesto Militão, que apreendeu, também a arma de que se utilizara
ele.[...].Passaram-se, no entanto, os dias, e a medida(de fechamento)
passou, ao que parece, para o rol das coisas esquecidas.
517
Há, igualmente, empenho em controlar a área do meretrício. Os jornais
arremetem contra a falta de decoro urbano: "Engana-se muita gente em acreditar
haver sido resolvido o problema do meretrício em Porto Alegre. A princípio, as
autoridades se esforçaram em afastar, do coração da cidade, os prostíbulos que
ofereciam um espetáculo degradante aos olhos dos habitantes e forasteiros”. A
reforma moral localiza as mulheres de vida fácil nas ruas Espírito Santo e São João,
Beco do Oitavo e travessas Cruzeiro e Bento Gonçalves, afastando-as dali.
Trabalho em vão, pois em certas ruas do centro as meretrizes retornam,
afligindo as famílias residentes nas proximidades. Não basta os jornais denunciarem
o abuso porque o próprio “1º delegado-auxiliar está cansado de dizer que não admite
a interferência da imprensa em seus serviços”. Chama a atenção, o caso da rua
General Bento Martins, onde ocorre a ocupação de dois prédios pelas meretrizes.
Quando o delegado Cidade fez uma inspeção no “antro” da cafetina "Mimi", instalada
no prédio n. 150, a visita daquela autoridade ao local foi recebida com satisfação,
pois julgava-se que ela iria enfim remover tal impecilho da Rua Bento Martins.
Passaram-se mais quinze dias e a autoridade fez nova visita à casa de “Mimi. O
clichê da notícia é ilustrativo:
A antiga "Pensão Rosita" hoje de propriedade da cafetina Maria
Batrochi
.
[...] é destinada somente às mulheres que trabalham no "Clube de
Caçadores". Maria Batrochi expulsou dali todas as nacionais, trocando-as
pelas estrangeiras. Ficou ela, pois, senhora do "mercado", visto haver
desaparecido sua maior concorrente, Catharina Scuderoni.
518
Os ambientes públicos assim como aproximam os grupos urbanos, ensejam
desavenças. Os imigrantes podem passar de uma reunião agradável para um
desentendimento por insignificâncias, mas com conseqüências. Como relata o
1
Correio do Povo, quando se achavam reunidos em um armazém situado à rua
Cristovão Colombo, próximo da rua Felix da Cunha, Alfredo Gress, Oscar Westphal,
Salvador Giglio e outros rapazes:
A reunião decorria amigável e no meio de intensa "alegria", quando, por
questões surgidas no momento entre dois rapazes do grupo, houve um
conflito [...] Alfredo Gress ferido levemente, na cabeça por Salvador Giglio,
com uma garrafa [...] Acreditando tudo terminado, ao sair para a rua, ao
chegar á esquina da
Félix
da Cunha recebeu um tiro de Alfredo na parte
posterior do pescoço. Atendido pala Assistência Pública do Distrito, vai
prestar depoimento à Chefatura de Polícia. As versões sobre os fatos não
coincidem.
519
O tipo mais urbano de delito é o praticado pelos batedores de carteiras, os
quais são localizados nas imediações dos bancos. Nessa ocasião, a vítima é
Fernando Scotti, representante de jornais italianos. Tomada a decisão de retornar à
Itália, dirige-se ao Banco Francês e Italiano, ”para transformar, em liras, 4 contos de
réis, produto de suas economias”. Pela parte da manhã não há a taxa-cambial, então
Scotti retorna à tarde. Nesse ínterim, passando pela frente do Banco
Brasileiro-Alemão, recebe um empurrão “de dois indivíduos, bem trajados, parando
na sua frente, obstaram-lhe o passo, enquanto o outro, pelas costas, lhe deu um
empurrão”. Ele não importância e segue até o Mercado Público, “onde tomou um
auto-caminhão da linha de S. João, voltando, mais tarde, para o centro da cidade.”
Quando vai adentrar no Banco Francês e Italiano, percebe a falta do dinheiro
entendendo a razão do fato acontecido com os dois sujeitos. “Cientificado o fato por
todos que conhecem aquele cavalheiro, foi ele lamentadíssimo, pois, ao cabo de
alguns anos de árduo trabalho é que ele conseguira reunir algum dinheiro para voltar
à terra natal, da qual se encontra ausente há 20 anos”.
520
A cidade maldita não tem contemplação com os interioranos também. Ao
chegar de Ijuí, José Sanfelice, negociante, foi abordado por um indivíduo que disse
ser seu freguês e o convida a dar um passeio de automóvel, para conhecer a cidade.
Nesse momento aproximam-se outros dois companheiros do desconhecido. Na
altura do Areal da Baronesa, conforme declaração posterior, o presumido freguês diz
2
ter um bilhete de loteria, premiado na extração do sábado e não poder descontar
ainda e pede um adiantamento à José. Este mostra a quantia de 10:000$000 que
leva. E assente. Terminado o passeio, ao recolher-se no hotel dá-se conta que no
seu bolso agora só há um maço de papel velho. Darão Barbosa, delegado de
Plantão desconfia de “Mãozinha” e “Pivete”, mas desconhece a terceira
personagem.
521
Estrangeiros continuam sendo recolhidos pela polícia. Dessa feita:
[...] Dr. Pompilio de Almeida, sub-intendente do distrito, informa
que
foram presos e recolhidos ao xadrez vários vigaristas, dentre os quais
Rodolpho Stol, Francisco Chagas, Oliveira Silva Bragga, Stella Giuseppe e
Jacques Califf. [...]. Também prende vários desordeiros e bêbados, que
perambulavam pelas ruas do 1o distrito.
522
Porto Alegre foi considerada “paraíso dos punguistas”. Porém, o problema
ameniza com a segurança policial. Agora, anos mais tarde, nova turma de
punguistas assola as imediações dos hotéis, como os quatro estrangeiros que são
presos, conforme a narrativa:
Essa diligência teve seu início no abrigo da Praça 15 de Novembro, numa
hora de grande agitação, hora em que todos acorrem para aquele local a
fim de tomarem condução: Meio dia. Entre a multidão que se aglomerara no
abrigo a atenção do policial foi despertada para dois indivíduos que falavam
desembaraçadamente o idioma italiano [...].
Os todos de trabalho dos punguistas foram observados sob a supervisão
de Dr. Amantino Fagundes, delegado: embarque, desembarque, conduta dentro
do bonde que resolve expedir voz de prisão. Os presos negaram mas acabaram
confessando “[...] Na presença do Dr. Amantino Fagundes os dois ‘peritos’ fizeram
algumas demonstrações práticas de como se ‘limpa’ uma descuidada vítima. A
própria carteira do delegado eles ‘bateram’ mas ... apenas por experiência”. O grupo
todo foi identificado, eram Luiz Mariani, Francisco Russo, e mais outros dois. E tem o
3
mesmo destino, a expulsão do território.
523
Os armazéns de italianos também são assaltados. Não uma, mas várias
vezes. A notícia narra que na avenida Veneza n. 19-A, estabelecido com uma casa
comercial, Luiz Francisco Missoni, que também reside ali, surpreende um indivíduo e
uma carroça entrando no estabelecimento. Alertado, atira com seu revólver e põem
em fuga os ladrões. “Com esta, é a terceira vez que os larápios assaltam o armazém
da rua Veneza, sendo que, na segunda vez conseguiram levar 400$000 em dinheiro
que se encontravam numa gaveta”.
524
O Correio do Povo descreve a cena de que Porto Alegre foi “palco”, como um
Far West americano.. Narra “[...] Queremo-nos referir a uma intentona de assalto
levado a efeito por um malfeitor que, de revólver em punho, pretendeu roubar uma
agência de loterias situada à rua Voluntários da Pátria.” O assaltante fere o
proprietário da Agência Tesouro, Marroni Leonardi, que funciona no prédio n. 519 da
referida rua. Em seu depoimento, ele relata como foi surpreendido pelo assaltante e
mesmo ferido com a coronhada de revólver que recebeu, deu o alarme. “[...]
atendido foi encaminhado ao Dr. João Pompilio de Almeida Filho, delegado de
plantão, o qual tomou logo imediatas providências no sentido de ser encontrado o
perigoso gatuno".
525
A propriedades dos açougues em Porto Alegre pertence em sua maioria aos
italianos, muitos deles moraneses. E não estão livres dos assaltos. O
estabelecimento do moranes Gustavo Maineri à rua Venâncio Aires, n. 1417 tem a
porta arrombada. Os policiais, alertados pelos passantes Pedro Ferreira, residente à
rua Boa Vista, n.2397 e José Guinadelli, morador do Caminho do Meio. O
proprietário, avisado pela polícia, constata ao chegar, o arrombamento da máquina
registradora e o desaparecimento de 50$000, aproximadamente.
526
Outro italiano, Carlos Maineri, também tem o seu açougue “Bom Gosto”, à rua
Santa Catarina (hoje, Dr. Flores), n. 391, arrombado, quase simultaneamente ao
4
assalto do estabelecimento de seu compatriota Gustavo Maineri. Dessa feita, o
proprietário se encontrava dormindo na casa conjugada ao açougue, mas nada
pressentiu. Porém, sua sorte foi melhor: o ladrão foi surpreendido carregando a
gaveta da caixa registradora pela “mulher Diva de tal”, quando descia a rua da
cadeia, indo para sua residência. O ladrão abandona a gaveta e foge, deixando para
trás 100$000, que foram encontrados pelos policiais alertados por Diva e outro
passante.
527
Wirth define o urbanismo como modo de vida no qual está presente o decoro
e a urbanidade. Tal atitude faz falta a Orestes Lormandi, 38 anos, nacionalidade
italiana, sapateiro, morador à rua Sertório n. 41. Orestes estava no Café Brasil sito à
Avenida Eduardo n. 1.465, de propriedade do Sr. Attilio Demeghini, arrabalde de São
João
[...] achava-se bebendo cerveja com atitudes inconvenientes, provocando a
todos que dele se aproximava. [...] Justamente atemorizado com o que
viesse a suceder, o Sr. Attilio saiu à rua afim de chamar um policial e fazer
com que este providenciasse para a retirada do inconveniente freguês.[...].
Encontra o guarda civil número 226, Bento Alves dos Santos, que o acode. Há
troca de tiros e um atinge o sapateiro que vem a falecer. “Depois, nas diligências, a
identidade do italiano é revelada, assim como o fato de estar em liberdade
condicional por homicídio praticado no município de Novo Hamburgo, fora outros
registros por desordens”.
528
Entre os advogados que atuam na “cidade de carne”, encontra-se o Dr.
Alberto Pasqualini, o qual faz a defesa do, remotamente, compatriota, Luiz Bettio.
Ocorre que:
[...] Há meses no "Restaurant Ponto Chic", situado no fim da linha do
arrabalde da Glória, Luiz Bettio e outros promoveram um grande conflito,
em que houve vários feridos, inclusive o proprietário daquele negócio Sr.
Francisco Marzano.[...] O juiz pronunciou o réu Luiz Bettio nas penas do
artigo 304 do Código
Penal
, por crime de ferimentos graves e
5
impronunciou as demais pessoas envolvidas.
529
Localizado à Praça Marechal Deodoro, em 1933, o Teatro São Pedro está
75 anos de sua inauguração. Ainda conserva sua elegância inicial, mas merece
cuidados. A noite é de gala, apresenta-se a pianista Dylla Josetti. O jornal conta que:
[...] À hora do início do concerto o gatuno comprou na bilheteria uma
entrada e encaminhou-se tranqüilamente para o interior do Teatro São
Pedro. fora chovia torrencialmente. Ficou o esperto na sala de espera,
como qualquer gentleman. Bem trajado, quem suspeitaria, naquele
momento! Inicia o concerto. Nesse ínterim, o “gatuno”, “[...] encaminhou-se
naturalmente, como se fosse empregado do teatro, para os bastidores.[...]
Mais alguns passos e, como um clandestino, penetrou nos bastidores do
São Pedro sem ser pressentido. Abriu a porta de um camarim e nele
penetrou de um golpe. Subtraiu, dali, então, uma rica pulseira de platina,
cravejada de brilhantes, no valor de três cédulas de 50$ e mais alguns
objetos [...]”. Foge naturalmente. Quando Dylla Josetti no término do
concerto, dirige-se aos bastidores do teatro, dá-se conta do ocorrido. “O fato
foi levado a seguir ao conhecimento da polícia, achando-se encarregado
das diligências o Dr. Oscar Daudt Filho, 1º delegado auxiliar”.
530
5.3 A cidade das trocas
Imigrantes italianos que chegam, imigrantes bem sucedidos que partem. Em
1921 continuam a chegar imigrantes. Dia 21 de outubro, por exemplo, pelo vapor
"Javary", chegam noventa e dois imigrantes de nacionalidades alemã, italiana, russa,
e tchecoeslovaca. Como sempre, a maior parte apenas transita por Porto Alegre,
seu destino é o interior do Estado. São agricultores. Mas, alguns veem para ficar na
cidade, são operários.
Entre esses, um grupo que não tem ninguém a sua espera, o qual fica no
trapiche do Lloyd Brasileiro até cair à noite. Sem meios para providenciar uma
refeição, são auxiliados por pessoas da cidade que se mobilizam e improvisam
“alguns doces e outros comestíveis, fornecendo-os aos que precisavam”.
531
6
Essas e outras situações continuariam a serem discutidas na Conferência
Internacional de Emigração e Imigração, divulgada em 1927, realizada em Havana,
Cuba. A primeira ocorreu em Roma no ano de 1924 com delegados de cinqüenta e
nove Estados, trinta da Europa; dezenove da América; dezeseis da Ásia; um da
África e três da Oceania.
532
Apesar das restrições impostas para a saída da Itália, como o Ato de
Chamada e a existência de contrato de trabalho previamento estabelecido, o êxodo
italiano não cessa. “[...] A previsão é, como acontece com a emigração portuguesa,
que aumente a clandestinidade na emigração”.
533
A população advinda da imigração tem seu adensamento somado ao
crescimento vegetativo, em Porto Alegre, bem como aos que irão estabelecer
negócios na capital, uma filial ou mesmo a matriz. É o caso das indústrias Renner
que se transfere de São Sebastião do Caí e amplia a fábrica, dado o aumento da
demanda dos seus produtos em função da guerra, tais como as famosas capas de lã
Renner.
534
Desde 1920, os operários estrangeiros iriam encontrar emprego, tanto na
Renner, como em bricas em Navegantes e São João. Os estabelecimentos
surgiriam em barracões, mas acompanhando a industrialização brasileira do período,
iriam se transformar em corporações empresariais modernas, com novos processos
de trabalho e diversificação da linha de produtos. A própria Renner inovaria, ao unir
primeiramente os setores de fiação, tecelagem e confecção numa mesma unidade
fabril e, depois, por investir na indústria de calçados, feltro, porcelanas, cimento,
tintas e máquinas de costura.
Diz Francisco Riopardense de Macedo:
A velha cidade, o primitivo núcleo, passa a ser mais freqüentado pelos
moradores dos bairros, primitivos arraiais que, então dispunham de maiores
facilidades de transporte. O melhor comércio, por isso mesmo, se localizou
naquele núcleo aumentando a importância das radiais que o ligavam aos
7
centros de consumo, dele distantes de cinco a sete quilômetros [...].
O crescimento dos bairros distantes tais como Glória e Teresópolis, mais
tarde, Petrópolis e Tristeza se explicam por esse fato.
535
A possibilidade de emprego que existe na crescente indústria de Navegantes
e São João, ocorre em função da substituição do artesanato pela indústria na várzea
do Gravataí. O proletariado porto-alegrense é uma realidade com o crescimento
demográfico que se alia ao uso da força motriz desde a guerra.
A indústria italiana investe na cidade. Ao chegar em Porto Alegre o
estrangeiro pode se empregar na nova filial da firma Ercole Marelli, com sede em
Milão, na Itália. O depósito de motores elétricos, ventiladores, bombas centrífugas e
outros produtos de seu fabrico, se situa na cidade à rua Uruguai, n. 4.
536
5.3.1 Armazéns, açougues e lotéricas, quase um monopólio moranes em
Porto Alegre
O estrangeiro é amigo ou inimigo. Os ingleses vão mais longe: senão é
comerciante, é um inimigo, segundo Leed.
537
Miguel Bodea examina o censo demográfico de 1920. Trabalha com
estatísticas. O que nos interessa é localizar a população classificada como
estrangeira. O censo registra para Porto Alegre uma população de 179.263 pessoas,
das quais 53.178 estão na categoria “profissão não-declarada ou mal definida”,
dessas, estão no setor terciário, desempregadas ou subempregadas, não como
determinar. Da população definida no censo estão no comércio, 23,4%; na indústria,
31,7%; no transporte, 63% do total. Excluídos os proprietários, gerentes e
autônomos, essas constituem as classes trabalhadoras urbanas de Porto Alegre.
Segundo o censo, na pesquisa de Bodea, os estrangeiros são 27,7% dos
8
empregados na indústria; 12,75%, nos transportes; em torno de 26,35%, no
comércio. No total, 74,7% constituem nacionais e 25,3%, estrangeiros. na
interpretação de Bodea,
Em o Paulo, para efeito comparativo, a proporção de trabalhadores
estrangeiros é mais que o dobro de Porto Alegre. A conclusão é que a imigração
estrangeira dirigia-se, no Rio Grande do Sul, sobretudo, para as áreas rurais. Os
descendentes dos antigos colonos açorianos é que fornecem a maior parcela da
mão-de-obra urbana.
538
De todo modo, a comparar com a presença da mão-de obra alemã
empregada, os autores deduzem que há baixa representatividade dos italianos,
ainda que as estatísticas sejam vagas e demonstrem algum crescimento.
539
Pode-se, então, afirmar que os italianos se fazem representar em diversas
atividades, porém se encontram concentrados em algumas delas, tais como na
venda de calçados; secos e molhados; fazendas e miudezas; bares e cafés; venda
de loterias; assim como a comercialização de gêneros alimentícios, onde se
verificam muitos proprietários de açougues.
540
5.3.2 Para onde vai a classe operária?
Os italianos que chegam a Porto Alegre buscam o trabalho que o meio urbano
propicia. Onde trabalho, conflito social e na modernidade capitalista,
organização coletiva de trabalho.
As condições de trabalho para a família operária imigrante são difíceis. Os
menores não estão estudando, mas trabalhando. Às vezes ocorrem tragédias, como
a que vitimou Constança Iloreschi, operária de 14 anos, na funilaria a vapor, situada
à rua comentador Coruja n. 112. Atendida na enfermaria da Santa Casa, não
9
resistiu.
541
Em 1910, organizam-se os sindicatos no Rio Grande do Sul. Os
anarco-sindicalistas e a Federação Operária do Rio Grande do Sul-FORGS são a
contrapartida da expansão da industrialização e da urbanização. Mais tarde, o
socialismo e o comunismo avançam no meio operário.
542
A Igreja Católica, nos anos vinte e trinta, teme a escalada de tais
organizações que possam dividir os trabalhadores e afastá-los do raio de sua ação.
A década de 30 começa com a grande crise do capital, o “crac” da Bolsa nos EUA. O
Estado-Novo lança, em 19 de março de 1931, a lei de sindicalização n. 19.770,
elaborada por Getúlio Vargas, Osvaldo Aranha e Lindolfo Collor, a qual entre outros
itens, regulamenta a sindicalização das classes patronais e operárias.
Como parte da conjuntura corporativista, ocorre a crise da FORGS, após a
nova lei de sindicalização. Nesse ínterim e, contra o avanço do pensamento
materialista-comunista, surge a nova estratégia do corporativismo reformista da
igreja, segundo Astor Antônio Diehl. Desde 1922, a igreja se revolve diante dos
novos fatos. A questão social terá uma resposta: a criação dos círculos operários. O
primeiro surge em Pelotas, em 1932. Em 1934, será a vez de Porto Alegre.
Álvaro Barreto, fazendo trabalho historiográfico, pontua que ao trabalho inicial
de Diehl somaram-se outros, os quais apontam para a tensão interna na implantação
dos círculos (ou circulismo), como os choques que se verificam na hierarquia da
Igreja e na jurisdição eclesiástica de Dom João Becker.
Segundo Diehl, D. João Becker, ainda que entusiasmado com as propostas
da revolução de 1930, o tinha sua ação dirigida para os problemas sociais, mas
voltada aos valores cristãos. Na sua visão, o trabalhador rural detinha tais valores,
ao passo que o industrialismo levava ao laicismo. Os setores populares, diante da
elite e da classe média urbana, na concepção do Cardeal Leme, eram o foco da
0
ação da igreja. O proletariado interessa aos comunistas, nessa ordem de fatores.
A vanguarda intelectual católica que colabora com o circulismo é composta
por dois descendentes de italianos, Ernani Maria Fiori e Valério Alberton, mais o
Centro Católico Acadêmico, a Ação Brasileira de Renovação Social e os Centros de
Juventude Católica criados por Alberton.
543
No entanto, ainda existe pouca densidade historiográfica sobre a presença
dos grupos de italianos em quaisquer destes níveis de associativismo para a cidade,
além do citado trabalho de Stella Borges sobre o período pré anos trinta.
Utilizando-se da periodização de João Batista Marçal, o qual situa três períodos: o
primeiro, no final do século XIX, de 1877 a 1892 , mais precisamente à época da
fundação da Sociedade de Mútuo Socorro e Beneficência Vittorio Emanuelle; o
segundo, social democrata, de 1892 a 1910, à época da fundação da “União do
Trabalho” em Rio Grande; o terceiro período, de 1910 a 1930, com a FORGS
anarquista.
544
A aproximação da Igreja em direção à comunidade católica de Porto Alegre se
verifica junto às elites e às sociedades italianas no período que antecede a Segunda
Guerra e junto ao operariado, através dos círculos operários, coincidindo com a
implantação do Estado Novo.
Ainda segundo Diehl, em 1934 são fundados os círculos de Petrópolis, São
João, Navegantes e São Geraldo. Em 1935 o fundados os círculos de Lourdes,
Floresta, Central e Mont Serrat. Todos visam disputar o operariado junto aos
anarquistas e comunistas. A expansão geográfica acompanha a localização da
moradia operária, do centro para os bairros Partenom, Glória, Tristeza e Cristo
Redentor.
545
Os italianos são minoria na indústria em Porto Alegre nos anos 20/30.
Participam da vida associativista nos círculos operários, nos sindicatos, tomam parte
1
nas greves e em outras manifestações coletivas, mas em número reduzido. Podem
ser encontrados, majoritariamente, nos setores do comércio, como proprietários ou
empregados e nos setores de seviços.
A conjuntura sindical é rica, também, em acontecimentos e não apenas em
orientações ideológicas. É um período de realinhamento das organizações diante do
Estado Brasileiro. Leis são baixadas na verticalização da estrutura corporativa. No
Correio do Povo, a cobertura dos conflitos classistas tem o tom da conjuntura política
coorporativista, ao ver do articulista Fernando Callage, nesta seção. Muitas notícias
são suscintas, não expressam em toda a extensão, a movimentação dos
trabalhadores. São manchetes sem continuidade. Deveríamos perseguir os rastros
para compreender a totalidade do processo. Não é possível, fiquemos na superfície
do mero registro.
Algumas notícias foram selecionadas segundo o critério da relevância
econômica e política. Ponhamo-nos no lugar do estrangeiro que chega à Porto
Alegre, qual o espetáculo do mundo do trabalho que o aguarda? Alguns são
trabalhadores sazonais, poucos especializados; outros são industriais ou
comerciantes que chegaram mais tempo. Alguns, nasceram no Brasil.
Acompanhemos as manchetes, elas podem contar parte do mundo do trabalho
desses italianos.
Os conflitos quanto à jornada de trabalho são freqüentes, como ocorre com os
comerciantes varejistas. Em 1920, os comerciantes de secos e molhados, com
negócios às ruas Duque de Caxias, Riachuelo, Andradas, Sete de Setembro e
Coronel Fernando Machado, tentam manter fechadas as portas de seus
estabelecimentos aos domingos.
A categoria, no entanto, o concorda. Alguns abrem os estabelecimentos. A
4 de abril do corrente ano, enfrentamento quando um grupo de empregados
manifesta-se, publicamente, e pede o fechamento dos estabelecimentos. O conflito
eclode, quando, chegando à rua Coronel Fernando Machado no estabelecimento de
2
David Kalil, na casa n. 190, defrontam-se com os caixeiros Vicente de Paiva Lima,
Jesuino Francisco dos Santos Junior, João Octavio de Carvalho Bastos, Celso de
Araujo Moreira, Virgilio Alrite da Silva, Nathaniel Pinto Ribeiro e Francisco de Araujo
Ornellas. Ferem-se o proprietário do armazém e o seu empregado, Simão Dippe.
Os caixeiros são presos e conduzidos à Chefatura de Policia e, após, levados
para a Casa de Correção. Um habeas-corpus impetrado pelo Dr. Lyno Dias os libera.
O Ministério Público apresenta denúncia ao Dr. Valentin Aragon que se achava no
exercício do cargo de juiz da vara criminal.
No decorrer do processo foram os autos conclusos ao Dr. Caio da Cunha
Cavalcanti, juiz da comarca da vara que, em sentença, acaba de “julgar
improcedente a denúncia para o pronunciar os acusados dos crimes que lhes são
imputados”, como se verifica:
Deixa, assim, de reconhecer as provas do processo em relação à co-autoria
dos indiciados no crime de dano, por ser de ação privada [...] “salvo
existência de flagrante" (artigo do Código do Processo Penal), que, na
realidade, não ocorreu na espécie, não obstante constar do auto de fls. 8,
cujo conteúdo foi completamente anulado pelos depoimentos dos
condutores dos indiciados e testemunhas que subscreveram o dito auto,
conforme se verifica de fls. 96 verso, 101 a 104.
546
Em 10 de setembro de 1924, a manchete, “GREVE DE GARÇONS”, noticia
que a Confeitaria Colombo, propriedade da firma J. Romba & Cia., figura como
espaço de negociação por melhores salários.
A narrativa conta de uma ação muito breve, logo resolvida. Os garçons
pleiteiam e conseguem - em breves horas de negociação - “um aumento para cada
um, de 20$000 nos seus vencimentos, que passaram a ser de 100$000 mensais”.
Coisa que se passa em poucas horas, entre a meia-noite e o dia seguinte. Mas é
greve, não é simples paralização.
547
Em 17 de janeiro de 1925, a manchete, “REUNIÃO DE AÇOUGUEIROS”,
548
3
relata o encontro dos pequenos proprietários de açougue que acontece na sede da
Associação Comercial dos Varejistas, o qual versa sobre a classe. Esse setor, tal
qual às casas de comestíveis, é, largamente, ocupado por italianos e moraneses.
Entre vários assuntos, vão eleger a nova diretoria. Vários italianos meridionais
são eleitos: Presidente, Lourenço Melchionna; vice-presidente, Jorge Elias Filho;
secretário, Odorino Paganotto; secretário, Celestino Curcio; tesoureiro,
Guilherme Bolze; 2º tesoureiro, Caetano Rosito; conselheiros, Fidelis Marranghello,
Miguel Melchiona, João Paganotto, Bertolino Corrêa, Rocco Faillace, José Rosito,
Salvador Amadeu, Rocco Rosito, José Fernandes Rodrigues e Bernardino
Marranghello; suplentes, Domingos Papaleo, Antonio Ferrari, Pedro Faillace, Carlos
Aronne; revisores de contas, Attilio Mainieri e João Fernandes Rodrigues.
Os açougueiros insurgem-se contra o trust da carne, eis que os marchantes
monopolizam a venda, trabalhando com um produto de ssima qualidade e com
alto preço, inclusive, ameaçando fechar-lhes o negócio, caso discordem. Um dos
oradores sugere imprimir um aviso ao povo e à imprensa sobre a carne “que é de
péssima qualidade, pois se é comprada baratíssima, [...] e inadequado o meio de
condução da carne”.
549
Passemos para 1925. Nesse ano, o assunto dominante no Correio do Povo é
a panificação: em 10 de março: “FUSÃO DE PADARIAS”. No sete de julho temos a
reunião, na confeitaria Rocco, dos panificadores. Presentes os proprietários das
padarias Popular, Tristeza, Piccini, Universal, Delgado, Weimann e Panificadora.
Alexandre Piccini dirige os trabalhos. Esta fusão vai ser a União dos Proprietários de
Padarias.
550
Em 5 de setembro, sob a manchete: “GREVE DOS PADEIROS”, informa-se a
reunião na confeitaria Rocco, da União dos Proprietários de Padarias, estando
presentes quarenta e sete cios, muitos são italianos. No aguardo de
entendimentos com o intendente Municipal, Octávio Rocha, sobre um memorial que
4
lhe haviam enviado, ainda sem resposta, o advogado da União, Attilla Salavaterra,
mostra a conveniência do fechamento de todos estabelecimentos padeirais. Deixam
de fabricar o pão e também os biscoitos dias 5 e 6. O Comissariado do
abastecimento vai fabricar o pão.
551
Em 6 de setembro de 1925: “O PÃO EM PORTO ALEGRE”, noticia que os
proprietários reunidos estão resolvidos a voltar a fabricar pão e biscoito. Na reunião,
Francisco Fabres da Rocha, secretário de Otávio Rocha, comparece para discutir o
preço do pão. A Comissão constituída por Alexander Piccini, Romeu Pianca, Miguel
Paris, Manoel Alexandre da Silva e Francisco N. Bastos é recebida pelo Intendente
que pondera sobre os preços estabelecidos pelo Comissariado de Abastecimento
Público, ao que, os panificadores retrucam alegando que os preços estavam muito
baixos. A solução seria o erário público assumir o ônus por meio de novos impostos.
A Comissão de Panificadores, ao retornar para o edifício da Confeitaria
Rocco, pondera que o preço deva ser superior ao estabelecido pelo Comissariado
de Abastecimento blico. Resta a este, então, arrendar a padaria Bermudez, à rua
Demétrio Ribeiro e panificara para a população, uma vez que não há acordo.
A Casa de Correção, tendo em vista a greve, aumentara a produção para
abastecer o Hospício São Pedro e a Brigada Militar. A colônia Jacuhy produz para a
Santa Casa de Misericórdia, o Hospital Militar do Exército e alguns hotéis. O
problema é o fermento porquê as padarias recusavam seu fornecimento, o que foi
resolvido pela Cervejaria Bopp. O administrador da Casa de Correção, Plínio de
Azevedo, declara que anos atrás, quando houve a greve geral, vendera pão às
pessoas pobres no portão principal do estabelecimento.
552
No dia 12: “O PÃO EM PORTO ALEGRE” é a manchete que noticia como a
Comissão de Proprietários, em negociação com Dr. Borges de Medeiros, resolve
reiniciar a panificação, uma vez que baixara o preço da farinha. A produção volta à
5
normalidade.
553
Avançemos para 17 de maio de 1927. A manchete: “UM COMÍCIO”, trata do
comício ocorrido na praça Senador Florencio, dia 15, em protesto contra a
condenação à morte, pelo tribunal da América do Norte, dos operários Nicolau
Sacco e Bartholomeu Vanzetti. O consulado dos Estados Unidos se manteve
fechado. Aos 24 de maio, a notícia “A EXECUÇÃO DE SACCO E VANZETTI”,
convulsiona a cidade. Reunidos em frente ao Correio do Povo, aguardam a notícia
que chega às 9 horas, sendo o telegrama afixado no placar do jornal. Os operários
dos estaleiros Mabilde & Cia. e de outras oficinas abandonam o trabalho em
protesto. Para manter a ordem, o Chefe de Polícia, Valentim Aragon, ordena que o
piquete da Chefatura de Brigada aguarde em prontidão.
554
Em 12 de janeiro de 1929, outra manchete: “DECLARAM - SE ONTEM EM
GREVE PACÍFICA MAIS DE 1.000 OPERÁRIOS DOS NOSSOS
ESTABELECIMENTOS FABRIS”, a notícia narra a greve pela aplicação da lei de
férias que, iniciada na fábrica de móveis Walter Gerdau à rua Voluntários da Pátria,
repercute na A. J. Renner, depois na F.G. Bier & CIA, Fábrica da Fiação e Tecidos
Porto Alegre. Os empresários entrevistados alegam a impossibilidade de se cumprir
à lei. O diretor da Fiação e Tecidos Porto-Alegrense, Possidonio da Cunha, reitera
que o próprio Conselho Nacional do Trabalho no Rio de Janeiro é contrário,
deixando de nomear até o presente, os fiscais.
[...] A lei de férias existe, mas é uma coisa muito complicada. É difícil dar
férias aos operários sem graves prejuízos para as indústrias, porquê cada
um deles dentro do seu ofício, representa um valor inestimável e se torna,
às vezes, um elemento insusbtituível, momentaneamente [...].
555
Em 15 de janeiro de 1929: “A GREVE DOS OPERÁRIOS FABRIS”, noticia a
reunião, ocorrida domingo na Praça dos Navegantes, dos operários que pleiteavam
a execução da lei de férias através de greve pacífica. Os advogados Pinheiro
Machado e Oliveira de Deus Vieira Filho concitam os operários a acatarem a palavra
6
do governo e retornarem ao trabalho. Carlos Ferrari não concorda com as
promessas. Discursam ainda, Paulo Hegenfurth e Antonio Nalepinski. Os operários
das fábricas A J.Renner & Cia, Gerdau, F. G. Bier e Fiação de Tecidos Porto-
Alegrense voltam ao trabalho, cumprindo acordo com Oswaldo Aranha,
Subsecretário do Interior e o Desembargador Florêncio de Abreu, Chefe de Polícia e
intermediário do Presidente do Estado na questão.
556
No dia 1 de janeiro de 1931, a notícia: “A VERBA DE IMIGRAÇÃO NO
AUXÍILIO DOS SEM TRABALHO”, trata da aplicação dos saldos de verba do art. 6
o
,
da Lei no. 5.759 de 27 de dezembro de 1929, na localização de trabalhadores
desocupados, como se verifica:
[...] Decreta: Art. 1o - As despesas decorrentes do transporte, localização,
hospedagem e assistência aos trabalhadores, nos termos do art. do
Decreto n. 19.482, de 12 de dezembro de 1930, construção de linhas
coloniais e estradas de rodagem, inclusive o pagamento de mensalidades,
diárias e salários do pessoal técnico, auxiliares e trabalhadores em geral,
empregados
nesses serviços, serão custeadas, nos exercícios de 1930 e
1931, pelos saldos apurados, desde já, na verba do art. 6
o
, da Lei n.
5.743, de 27 de dezembro de 1929, nas consignações - Pessoal e Material -
Indistintamente, os quais serão fundidos e discriminados de acordo com as
conveniências do serviço.
557
Em 8 de fevereiro de 1931, a manchete: “AS FÉRIAS DOS OPERÁRIOS”,
trata do telegrama entre Aristides Casado, adido do gabinete do Ministério do
Trabalho, Indústria e Comércio, atualmente na capital, e Lindolfo Collor, Ministro do
Trabalho, o qual versa sobre entendimentos com industriais e uma próxima reunião
no centro industrial sobre a questão.
558
Em 6 de novembro, a manchete: “GRAVE CONFLITO NO MERCADO
PÚBLICO”, alude ao estopim de um conflito que tem como cenário o, sossegado,
Café Provenzano, localizado no Mercado Público. Os protagonistas são Plinio
Montano, comerciante estabelecido em Belém Novo, no lugar denominado "Costa do
Cerro" e Rogerio Mutinelli, funcionário da firma Rogerio Fava, à Avenida Julio de
7
Castilhos. O que pode ser um atrito pessoal é, na verdade, desacordo comercial. A
cena, segundo o Correio do Povo, inicia na manhã do dia 5, quando
[...] Rogerio Mutinelli, achava-se sentado em uma das primeiras mesas
daquele café palestrando com os Srs. Julio Monteggia e Alfredo Scherer.
Em dado momento, Plinio Montano, ali penetrando, encaminhou-se
rapidamente a Rogerio Mutinelli, dando-lhe forte soco que o lançou ao solo.
[...] Quando quis reagir, recebeu mais um golpe, desta vez de faca, na
cabeça [...].
Teria continuado a agressão, não fosse contido por Ernesto Fortes que
[...] desferiu-lhe violento pontapé, atirando-o à distância. Na queda, Plínio
Montano feriu-se em uma perna, com sua própria faca. [...] Plínio foge mas,
como portava a arma, [...] foi preso pelo guarda-civil no 56, João Eviro
Nascimento, não sem antes entrar em luta.
Os antecedentes foram relatados à autoridade. Iniciados quando, a 7 do mês
passado, Plinio entra em negociação com Rogerio Mutinelli no estabelecimento
comercial de Rogerio Fava sobre o preço da farinha de mandioca. Ao discordar do
valor estipulado, Montano ouve de Mutinelli: "Vocês estão sempre com espírito de
judeu." Ao que Montano retrucou: "Ora, deixa de dizer asneiras." Mal havia
terminado estas palavras, o autor delas recebeu um formidável murro no nariz,
desferido pelo seu antagonista. Montano, desfalecido, foi transportado para a
Farmácia Calleya, onde foi medicado por um clínico. Sob suspeita de fratura,
procura o Dr. J. G. Valentim.
O incidente termina com o atendimento médico a ambos e a prisão em
flagrante de Plinio. Rogério foi removido para o Hospital da Beneficência Portuguesa
e Plinio Montano para a Casa de Correção. O primeiro, de cor branca, casado, com
34 anos e morador à rua Coronel Bordini no 995; o segundo, de cor branca, casado,
com 30 anos de idade e residente em Belém Novo, onde aguarda competente
processo.
559
Em 10 de abril de 1931, a manchete é: “O CRIME DA RUA RAMIRO
8
BARCELLOS”. A notícia narra como meses, Victorio Vetorello, ex-empregado da
Padaria Piccini desentendeu-se com o patrão, João Juncker, à rua Ramiro Barcellos,
ferindo-o, gravemente, com vários tiros de revólver. Nada adiantou ser atendido no
Hospital Alemão, no qual veio a falecer. Preso, Vetorello é processado pelos crimes
de estelionato e de homicídio. Seu advogado Dr. Pio Pinto Torelly impetra ao
Superior Tribunal do Estado, uma ordem de habeas-corpus. “[...] Relatado o pedido
pelo Desembargador André da Rocha, resolveram, por unanimidade de votos,
denegar a ordem impetrada”.
560
Já, no ambiente dos açougues, jovens podem se tornar assassinos. No bairro
Moinhos de Vento, à Rua Padre Chagas, o conflito entre dois distribuidores de carne
chega ao limite. Antagonizados em função da distribuição da carne de Porto Alegre,
o empregado do açougue "Trieste", à rua Cristovão Colombo n. 1932, de Francisco
Donadio, o menor Francisco Ferreira Filho, de cor branca e com 16 anos de idade
desfere um tiro mortal em Carmine Carbone, italiano, com 28 anos de idade e que a
pouco mais de 10 semanas chegara da Calábria.
A história começa quando o menor Francisco, que tinha sua clientela diária de
distribuição de carne o fazia na carroça do açougue, até o momento em que resolve
trabalhar para um competidor, o açougue "Roma", à rua Moinhos de Vento, com
Nova York, n. 1395, de Francisco de Oliveira, quando passa a entregar a carne de
bicicleta.
Para preencher a lacuna deste trabalhador, o proprietário do açougue
”Triestre” contrata o calabres Carmine, ainda que este não se expressa em
português. Como Francisco, ele entrega a carne de bicicleta.
O menor Francisco quer manter seus antigos fregueses o que Carmine não
aceita, sucedendo-se os conflitos. Certo dia, Carmine agride o jovem com uma
bofetada. Chorando, o jovem recorre ao patrão e diz que quer comprar um revólver e
se vingar.
9
Dissuadido, aguarda seu salário do mês e adquire a arma. Fica ,então, a
espreita de seu desafeto. Certa manhã, encontram-se, atendendo a mesma cliente
na residência de Ottilio Boeira. Recebendo alternadamente os fornecedores, a Sra
Boeria fica confusa.
Quando se retirava, o jovem Francisco é atingido pela navalha de Carmine, ao
revidar, atira contra o italiano e foge, alegando haver se defendido quando passa
pela alfaiataria de Antonio Manzzoni, casa 220. Ao chegar a ambulância e o socorro,
o calabrês está morto. As testemunhas recolhem os fatos para o capitão Armando
Ferreira estabelecer seu inquérito.
561
Em 9 de julho, ainda em 1931, “A FUNDAÇÃO DO SINDICATO DOS
MOLEIROS” é a notícia da reunião que congrega 16 moinhos, essencialmente,
rio-grandenses de vários municípios. Aristides Germani, que fora agraciado pel
Governo Italiano com a “Estrela do Mérito ao Trabalho” é um dos líderes do
movimento. Possuindo dois moinhos em Caxias do Sul, aproveita a oportunidade
para revelar problemas que afetam a indústria, como a falta de estradas para
transportar a produção dos colonos, entre outros itens, comunicados ao
presidente Getúlio Vargas e denunciados em documento da Sociedade Nacional da
Agricultura.
562
Quase simultaneamente, em 19 de agosto,a manchete é: “MOVIMENTO
OPERÁRIO SINDICATO PADEIRAL”, que dia 23 comemora seu décimo oitavo
aniversário com uma sessão solene da Sociedade União e Progresso, à rua
Casemiro de Abreu. Aproveitam para prestar homenagem à memória dos militantes
operários italianos Sacco e Vanzetti, eletrocrutados um ano nos EUA. Fala na
ocasião o representante do Comitê Pró Organização Proletária.
No final de 1933 e no início de 1934, irrompe a greve dos padeiros. O laço
que define o movimento ascendente que tem seu ápice em 1935 é apresentado na
historiografia existente repassada por Alexandre Fortes. Em jogo na conjuntura a
0
nova relação entre o governo Getúlio Vargas e os trabalhadores organizados.
563
Em 16 de outubro de 1933 a manchete pode parecer banal, um caso isolado.
Na verdade, espelha as visões sobre a regulação das leis trabalhistas na fase de
sua implantação. A manchete é: “UM CONFLITO ENTRE BARBEIROS”. A narrativa
inicia:
Feriado ... Quem não gosta de uma folga? Nem toda a gente, ao que
parece. [...] e relata a intervenção da polícia na discussão havida à rua Cel.
Genuíno. O caso que acaba no noticiário policial ocorre no salão de
barbeiros à rua Cel. Genuino, quando os barbeiros João de Oliveira, de cor
mista, com 28 anos de idade, residente à rua José do Patrocínio e Angelino
Cabretti, de cor branca, com 32 anos de idade, residente à avenida Victoria
no 93”, desentendem-se sobre o fechamento ou não do estabelecimento,
em razão do decreto de feriado nacional. Os "fígaros" chegam a sacar de
suas navalhas bem afiadas e Angelino Cabretti é ferido e, depois, internado
na Santa Casa. Poderia ser pior, não fosse a intervenção de populares e da
polícia.
564
Na mesma ordem da cotidianeidade, longe da cobertura jonalística dos
grandes acontecimentos, perdida numa simples manchete, encontra-se: “CONFLITO
NUMA PEDREIRA”. O conflito de operários italianos tendo como cenário a pedreira
de Leonardo & Cia., à Estrada do Mato Grosso, bairro do Partenon.
A narrativa diz que a contenda inicia-se quando Amadeu Paradizzi, casado,
com 40 anos de idade, pedreiro, italiano, residente à rua Machado de Assis
desentende-se com Saul Bernardi, solteiro, com 26 anos, domiciliado à rua Botafogo
n. 919, por cinco minutos de trabalho. “[...] A síntese da matéria é a desavença entre
eles“ porque Amadeu ponderou ao seu colega Saul que este deixara o trabalho
cinco minutos antes da hora regulamentar
[...] O que parecia ser frugal, evoluiu para Saul, que, ao acabar de telefonar,
foi agredido a pauladas por Amadeu, que o esperava. A precipitação das
ações envolveu o uso de faca e até o revólver disparado por Amadeu,
contra o jovem, sem sucesso. Saul, foi no Posto Central da Assistência
Pública [...].
1
Depois comunicou o fato na delegacia de policia “Essa autoridade ordenou
a prisão do pedreiro Amadeu Paradizzi, que ainda não foi levado à sua presença”.
565
Avancemos para 3 de março de 1937, a manchete: “REÚNEM-SE OS
OPERÁRIOS PORTO-ALEGRENSES”, conta do comício promovido no domingo
pelo Círculo Operário Porto-Alegrense. Ocorrido ao lado da Igreja o Pedro, no
arrabalde da Floresta com hinos do Brasil e Operário. Discursaram Mario Marins, A.
Ladeira, Damasco Rocha, o deputado classista Carlos Santos e Nyro Rosa, com
entusiasmo e patriotismo.
566
No mesmo dia, Fernado Callage escreve sob o título: “AÇÃO CATÓLICA
BRASILEIRA”, texto no qual narra o trabalho da Ação Católica no interesse das
classes operárias sob os princípios renovadores da encíclica “Rerum Novarum” de
Leão XIII, propondo-se a resolvê-los de modo cristão e humano e sua expansão:
[...] notadamente no Rio Grande do Sul, onde atualmente cerca de 20 mil
operários recebem assistência de toda natureza, vem se destacando entre
nós de maneira impressionante, principalmente, na campanha cristã e
patriótica contra o comunismo dissolvente[...].
567
No dia 2 de abril, na matéria intitulada: “O TRABALHO E O CAPITAL NO SEU
MÚTUO ENTENDIMENTO”, Fernado Callage, do Correio do Povo defende:
[...] verdadeiramente um Estado Corporativista poderá
prestar
eficientemente assistência moral e material ao operário e assegurar-lhe
todos os seus direitos. Todo sindicato nessas condições, fora do estado,
estará sempre sujeito as explorações dos marxistas e a vontade dos
patrões [...]. O Brasil vem realizando essa obra salutar ao mesmo tempo
justa e necessária para que todos possam, sem dissídios, dentro das suas
associações, das suas organizações, dos seus sindicatos, colher uma soma
enorme dos mais salutares benefícios [...]
568
Em 23 de dezembro, no artigo intitulado: “ASSISTÊNCIA SOCIAL AO
2
OPERÁRIO”, Fernando Callage retorna, agora, tratando sobre as novas leis
trabalhistas que beneficiam o trabalhador ,mas não o compreendidas e aplicadas
em toda sua amplitude pelos industriais, os quais não entendem que:
A melhor arma contra o comunismo dissolvente é lhes dar o maior número
de benefícios. O próprio industrialista nunca deveria esperar da parte do
governo, nos dias nebulosos de hoje, obrigações nesse sentido; ele mesmo,
como um bom psicólogo, deveria ser o primeiro a empreender, dentro de
sua própria fábrica obras sociais que elevassem o nível de vida do
trabalhador e fizesse deste um seu amigo, um seu auxiliar dedicado.
Devemos ter sempre presente o seguinte: o operário feliz não faz revolução
e nem se rebela contra seus patrões. Ademais, nunca haverá paz durável
entre os homens se não houver justiça social [...]
569
5.4 A cidade de pedra. Códigos e dispositivos da estética de pedra
Quando os italianos chegam, uma cidade edificada. Uma anima congelada
na pedra. Eles decifrarão tais signos quanto mais assemelhados forem com a cultura
latina que trazem.
As arquiteturas dos lugares são elaborações e estruturações da
humanidade que através das elaborações materiais das trocas, dos
encontros, das técnicas de exclusão que criam espaços privados que não
devem ser alcançados pelas vistas dos estrangeiros. Um lugar ordenado,
cidade, vila ou localidade turística, é apenas uma materializão da sua
realidade intrínseca, das relações, identidade e comportamento que o
formam. Para Suzanne Langer uma cultura é um “sistema de ações” que se
entrelaçam e se interseccionam, um desenho funcional contínuo. Com tal é
intangível e invisível. A territorialização destas relações rende visibilidade
nos muros externos da cidade, nas portas, nos canais, nos corredores e
nestas estruturas materializadas do lugar, o viajante é introduzido e
absorvido”.
570
A modernidade arquitetônica avança. Para Doberstein, a arquitetura religiosa
no estado no período 1920-40, teve um impulso o espetacular como o surto da
arquitetura civil das décadas anteriores. Em síntese, para ele, o primeiro ímpeto foi
dado ”pelo desenvolvimento das forças produtivas”; este será pela mobilização do
3
catolicismo regional, integrante do movimento conhecido com “Ação Católica”, que
consistia na participação dos seculares no apostolado hierárquico [...].”
571
Após a Grande Guerra, os italianos que chegam podem receber juntamente
com a impressão estética, a exortação lamentosa do arcebispo D. João Becker “[...]
que a louca fúria da guerra, ora finda, tenha destruído tantas e tão formosas igrejas
no velho continente [...] levantemo-nos e edifiquemos a nossa catedral [...].”
572
O arcebispo inicia assim as obras da nova Catedral Metropolitana nos
primeiros dias de março de 1920. O cônego Dom João Maria Balem, recém
nomeado pelo Arcebispo Metropolitano será também o diretor fiscal das obras.
A obra arquitetônica começa em 1921 quando o arcebispo festeja seu jubileu
e benze a primeira pedra da futura catedral que se concretizará com doações,
inclusive do comitato para a comemoração do cinqüentenário da colonização italiana
no Estado. O arquiteto é Giovani Battista Giovenale, membro da comissão de Arte
Sacra do Vaticano.
573
O projeto traz justificativas:
Se bem que para o uso prático bastasse um campanário, [...] preferiu-se
dois de proporções discretas [...] para conservar o tipo tradicional das
igrejas coloniais e aquelas das Missões Jesuíticas; para criar simetria o
projeto, e finalmente para não diminuir a grandiosa impressão da cúpula,
que deve manter a nota característica e dominante do Monumento [...]
574
.
A edificação da catedral metropolitana de Porto Alegre foi possibilitada,
também pela efetiva colaboração da comunidade italiana que através de seu espírito
associativista faz contribuição em dinheiro, como se pode verificar:
O Comitato per la comemorazione del Cinquantenario della Colonizzazzione
arrecada
15
: 000$000.
575
4
Para a construção comemorativa proposta, em 1920, os italianos concorrem
com outros empreiteiros para construir um monumento aos heróis de 35 e um
pantheon jazigo perpétuo dos rio-grandenses notáveis e devotados ao Estado. A
encomenda é da Secretaria de Obras. A comissão julgadora é constituída por José
Coelho Pereira, diretor das Obras Públicas, Manoel Viterbo de Carvalho, Adolpho
Stern, José Moreira Maciel e pelo Professor Giuseppe Gaudensi.
As propostas foram apresentadas por José Belloni, José Mariné & Mattos e
Germano Dreschler & Filhos, para o monumento e, para o pantheon, por Theophilo
de Barros, José Bellioni e José Franceschi, Germano Dreschler & Filhos, Jesus M.
Corona Alonso e Wilh Haverkamp. Quanto ao monumento, nenhuma proposta foi
aceita. para o Pantheon, fica em 1o lugar - o projeto do engenheiro Theophilo de
Barros. Os demais não atenderam ao estilo requerido que tinha o clássico como
base. Em outra oportunidade haverá, diz a notícia, uma nova abertura de
concorrência para o monumento a Bento Gonçalves.
576
Quanto às construções particulares, os anos 20 em Porto Alegre definem uma
tendência iniciada aproximadamente dez anos antes para o estilo de morar daselites
urbanas. Nos pontos nobres da cidade, os projetos apresentam novas plantas,
reservando inclusive espaço para a garagem. Na vida social, se acelera a
freqüentação aos ambientes públicos e também às recepções domésticas, os
saraus. O projeto da fachada tem estilo mas os interiores são uma combinação da
vida burguesa privada, da visitação e encontros de uma vida social mais seletiva.
577
A ascensão econômica dos grupos de italianos deve refletir-se na casa, ou
melhor, pallazo ou palacete. Assim como o local dos negócios. É o que faz Angelo
M. La Porta, concessionário da Loteria de Santa Catarina, que adquiriu dois prédios,
“sob os ns. 226 e 228 da rua dos Andradas, esquina da Uruguai”. Vai demolí-los
para construir
[...] um palacete de quatro andares, cuja planta foi executada pelo arquiteto
Augusto Sertori. Cada pavimento terá quinze peças e a sua construção
obedecerá aos estilos modernos. O novo edifício, que muito cooperará para
5
embelezar aquela esquina da nossa principal artéria, será dotado de
elevadores.
578
A cidade de pedra pode ser narrada também pela estatuária, suporte de uma
linguagem estética. O estrangeiro pode observar e tentar descrever as inscrições da
gramática solene da estatuária na paisagem urbana. Não fazendo parte daquela
cultura tarda para decifrar os significados, permanece nos signos, na exterioridade,
até que, como disse o entrevistado Carmine: “entenda a cultura da cidade”. O
estranhamento é o da arte, mas é também o do sujeito diante da arte e dos
significados históricos que não interpreta imediatamente. É uma linguagem de
sentidos mais profundos, requer tempo e convívio social.
A estatuária quando rende homenagens, constitui parte do discurso mais
específico e social, o da nobilização, embora varie seu valor estético, como assinala
Doberstein.
579
Mas nessa gramática o valor simbólico sobrepõe-se ao estético
As estátuas contam fatos, episódios ou simplesmente apresentam os heróis
da anima da cidade para os forasteiros.
O suporte físico e a sociabilidade proposta variam. Compõem a narrativa não
apenas praças, avenidas, corredores, mas igualmente cemitérios. A estatuária
cemiterial está na tradição moderna da ligação dos vivos com seus mortos.
Para um importante escultor, uma simples coroa de bronze não de
valorizar seu gênio. Giuseppe Gaudenzi é o escultor da homenagem póstuma feita
ao Professor Pasqual, ex-presidente do Centro Musical Porto-Alegrense que seus
alunos e admiradores da música prestam em 1925, o que valoriza a ambos.
Alexandre Gnatalli, então presidente do centro, pronuncia as palavras de saudade.
580
Não dizia Augusto Comte que “os vivos são mais e mais governados pelos
6
mortos?” A recepção do positivismo no Rio Grande do Sul, em grande parte
incrementa a estatuária. Pode haver influenciado na homenagem no mausoléu
mandado construir pela Brigada Militar, homenageando o Coronel Affonso Emilio
Massot. O patrício distante de Michelangelo, o escultor José Gaudenzi cinzela a
pedra, na cidade de pedra.
581
A formação artística de Gaudenzi vem dos mestres italianos, Celini, Ferrari,
Cesare Bozzani, com os quais estudou antes de chegar ao Brasil.
582
Mas a maior visibilidade da estatuária de comemoração, nos anos 30, é o
Centenário Farroupilha que começa a ser preparado com antecedência.
As sociedades italianas optam por um “monumento social”, ampliando o
Sanatório Belém, com o Pavilhão Forlanini. Sua presença está perenizada desde a
inauguração como o aporte financeiro da coletividade e seus intelectuais de
descendência italiana mais próximos.
“Os lugares de memória”, no entanto, tem que ser instituídos. Dois anos
antes, reiniciara a disputa pela edificação da estátua eqüestre do grande líder
farrapo, Bento Gonçalves, a ser instalada na ponte da Azenha.
O escultor vencedor é Antonio Caringi, de Pelotas, que chegou jovem em
Porto Alegre. Após estudar no Rio de Janeiro, estuda na Akademie der Bildenden
Kunst em Munich, Alemanha.
Para construir o monumento expõe maquetes no Teatro São Pedro aos
jornalistas e vence. Mas antes, para idealizar o projeto, quando retorna da
Alemanha, Caringi cerca-se de alguns elementos que compõe a narrativa dos anos
30 sobre os farrapos, o general e os índios. Refigura e massera, narrando ao seu
modo.
Em entrevista, revela que mergulhou no passado, principalmente, através da
7
obra de Alcides Maya, Othelo Rosa, Felix Contreiras Rodrigues e Gustavo Barroso.
Para compor com maior autenticidade a obra, chega a conseguir a espada e as
condecorações de Bento Gonçalves, assim como as botas e esporas que ele usava.
Utilizou o melhor retrato a óleo de Bento Gonçalves. Explica que o cavalo da estátua
não é apenas uma reprodução naturalista, mas a estilização do nosso cavalo crioulo:
“forte, sadio e redondo”.
583
Nesse ínterim recebe a encomenda da cidade de Pelotas para criar um
monumento durante os festejos do centenário. Sem imposição, Caringi desce na
escala social e propõe a “sentinela farroupilha”.
Aproveita para homenagear o gaúcho pobre,
[...] o rebelde humilde, o soldado farrapo, o peão da estancia. Deve chegar
[...] em que reproduzo a sentinela de 35 com a fisionomia máscula do índio
charrua, trazendo a indumentária usada aqui um século: o xiripá, o
poncho, bota de cano a meio-pé, o lenço ao pescoço com o laço de 35 [...].
584
Esses são os elementos da linguagem de Caringi para cinzelar, na visão de
artista, a narrativa histórica do Rio Grande do Sul e da Revolução Farroupilha,
inseparáveis e rediscutidas ad eternun.
Mas nada disso constitui o universo de representações do estrangeiro
comum, aquele que, diferentemente dos demais italianos que participaram do
episódio histórico não entraram na galeria dos homenageáveis. Se como simples
espectador, estando nas proximidades do evento, quiser assisti-lo, vai sujeitar-se à
imprevisibilidade do tempo. Talvez ignore a importância do ato e deslumbre-se com
a beleza da estátua.
Noticia o Correio do Povo:
[...] torrencial chuva caída momentos antes de começar a solene
inauguração do monumento do general Bento Gonçalves, como
8
encerramento das solenidades do Centenário Farroupilha, impediu que ela
tivesse a esperada imponência. Mesmo assim, regular massa popular e
altas autoridades compareceram ao ato.
As autoridades que descerram o monumento são os generais Flores da
Cunha e Parga, convidadas pelo prefeito major Alberto Bins, assistidos pelo
governador José Antonio Flores da Cunha.
O deputado Dario Crespo, bisneto de Bento Gonçalves, discursa agradecendo
e destacando a conveniência da data com a a necessidade de união política da
conjuntura do anos de 35:
No acontecimento dessa hora política, o Rio Grande levanta o melhor
monumento à gloria dos farrapos. Porquê procura, e de preservar, o
patrimônio sagrado que lhes legara. Porquê se une,
como
outrora, quando
à sombra de perigo comum se projeta sobre a Pátria. Porquê se irmana na
mesma inquebrantável, numa obra de construção patriótica. um
século, redobrado de glórias, Bento Gonçalves cumpria o destino de
comandar o Rio Grande. Que o seu espírito paire sobre a terra que ele mais
amou como nome tutelar inspirando e iluminando a todos nós, aos nossos
filhos, aos filhos dos nossos filhos pelas idades afora [...].
585
Mas as estátuas existem para a solidão. O articulista do Correio do Povo
devaneia quando passa pelo Parque da Redenção e recorda do poema de
Raymundo Corrêa: “Aqui outrora hinos [...]. a estátua de Bento Gonçalves dava
uma nota de vida aquele recinto abandonado.” Referencia o artista Antonio Caringi
“[...] o seu autor, é, talvez, neste momento, o escultor mais vigoroso do Brasil
moderno. O seu temperamento parece que foi trabalho para cantar os motivos
heróicos [...].”
586
A próxima parada de Caringi é a Argentina, onde disputa a edificação da
estátua do General Roca
587
Solidarizemos as “Cidades de Carne e a “Cidade de Pedra”, antes de
completarmos a metáfora. O que concluímos dessas narrativas é que a higienizada
9
“Cidade de Carne” representa um texto da cidade de estrangeiros, onde a luta
cotidiana pela sobrevivência física e moral é cruel. Alguns se alienam durante essa
luta. A cidade tem seus hospícios para fazer desaparecer da vista do público
esses fracassados da cidade. Alguns se envolvem nos crimes ou nas desavenças
comuns ao compartilhar seu espaço vital com os demais anônimos da cidade.
Também percebemos os percalços da aplicação das novas leis trabalhistas e
entre os trabalhadores, entre eles, muitos estrangeiros, agora proprietários dos
meios de produção, a explodir nos conflitos que quebraram os laços de
pertencimentos étnicos, para restarem no que realmente o: conflito entre o capital
e o trabalho.
Por fim, como a estética de pedra, que antes de tudo é arte imobilizada na
pedra, a “Cidade de Pedra” deixa-se perceber, na conjuntura, como tentativa de
acento corroboratório das marcas de uma italianidade construída simbolicamente
fora da Itália.
Para finalizar o trabalho com os fragmentos das narrativas, temos, a seguir,
na “Cidade do Espírito”, como os italianos estão traçando sua luta na tentativa de se
apoderar do mundo das palavras. E inscrever sua história, na história da cidade,
como portadores da cultura, mais que italiana, latina, na contramão do crescente
nacionalismo cultural iniciado no Brasil nos anos 20.
6 A CIDADE DO ESPÍRITO
6.1 Códigos e Dispositivos para ler, escrever e o saber para os italianos
A cidade existe na sua materialidade, o urbano é a invenção social da cidade,
como já disse Robert Moses Pechmam. Lembremo-nos de Argan, para quem o
espaço urbano é ideologia burguesa, a representação e o imaginário de uma
situação. Ou de Lepetit, propondo uma hermenêutica da cidade como um texto, mais
que uma semiologia. Ou de Roncayolo, quando aponta como a cidade é
presentificação, por atores sociais, de toda assincronia existente sobre ela.
588
A síntese dessa discussão é que narrar uma cidade, no romance, é
possível quando o urbano tenha sido inventado. Ele não é natural da cidade. E a
cidade não é apenas a sua materialidade. É a projeção da imaginação de seus
fundadores, a qual os historiadores da cidade, como Charles Monteiro trazem sobre
Porto Alegre, guardam como narrativas. Cruzam uma linha tênue entre a ficção e a
realidade, de modo a eternizar Porto Alegre para os que lhe sucedem, ao ponto
dessas imagens figurarem como a cidade real que um dia existiu.
589
São nessas cidades, nesses cenários que a criação humana dispõe,
meticulosamente, do espaço para sugerir ao passante a sensação de continuidade
de algo que ficou atrás. Na verdade, são verdadeiras cidades de lugares de
“memórias” inventadas, sem falar da inovação que qualquer ambiente físico impõem
ao recém chegado, antes de metamorfosear-se em tradição.
V1
Pechman sugere que “para transformar cidades de pedra em cidades
urbanas”, é necessário dar a todas às edificações que compreendem uma cidade
“um enquadramento numa teia discursiva, de tal maneira que a dureza da pedra não
se reconheça mais na alma mineral, mas somente na fluidez dos discursos”
590
Essa teia discursiva que transforma cidade de pedra em cidade do espírito,
literariamente falando, surge na cultura brasileira em torno de 1930. A importância
da representação do urbano, sempre tardia em relação ao surgimento da cidade,
evidentemente, prega-se em dois argumentos.
O primeiro argumento vem de Angel Rama, quando aponta como a cidade é
fruto da capacidade humana de representar o mundo em imagem. O segundo
argumento é de Richard Williams, para quem a função do romancista urbano seria,
tornar conhecível a natureza da vida urbana, para dessa maneira adentrar na
natureza da vida humana.
591
Uma cidade e sua representação literária é como a urbanidade e o suporte do
que faz a qualidade de vida urbana desejável, tais como equipamentos urbanos,
meios de vida, comunicação.
Mas para haver discurso possível, os pré-requisitos são muitos e o acesso a
eles, mais seletivo ainda, como veremos a seguir.
6.2 Formação de trabalhadores para a nova economia: cursos, institutos,
academias
A modernidade chega na cidade de Porto Alegre, e com ela, a necessidade
de qualificação da o-de-obra local. O imigrante que chega depara-se com um
mercado de trabalho exigente. A inserção na economia urbana é seletiva.
V2
Em 1920 pode-se matricular nos diferentes curso do Instituto Parobé, que
conta com 717 alunos, sendo 480 do curso diurno, 185 do noturno e 52 do curso
feminino.
As professoras do novo curso feminino são Ida Lima e Agrippina Travassos
Alves Py. Para a ginástica, o professor Ernesto Gräffe e para a jardinagem, Emilio
Schenk. O material da Escola de Engenharia está encomendado para o curso
feminino. A reforma da maquinaria das diversas oficinas também foi
providenciado.
No fim do mês haverá o lançamento da pedra fundamental do edifício
definitivo do curso. Terá três andares e será localizado à rua de Março, na área
compreendida entre o Instituto Electro Técnica e a Escola de Direito.
592
Além das profissões modernas, é possível acompanhar a discussão da
ciência e tecnologia atuais. A conferência do jornalista Leonardo Truda "O futuro
econômico do Rio Grande do Sul”, a primeira da série ocorre no "Grêmio dos
Acadêmicos do Instituto Borges de Medeiros”.
593
Área importante para a economia de todo Estado, mas que interessa
particularmente aos italianos, é o aprimoramento da vitivinicultura. O Instituto
promove sob a presidência de Egydio Hervé, a reunião dos seus professores e do
palestrante convidado Fulvio Albertoni, chefe da seção de viticultura, falou sobre o
vinho italiano "Marsala". Em primeiro lugar salientou suas propriedades higiênicas,
que se assemelham às do Porto, Jerez e Madeira. Traz a referência do fisiologista
italiano Paulo de Mantegazza:
[...] que o classifica como um dos melhores vinhos alcoólicos, devido à sua
ação benéfica sobre os nervos motores. Este vinho é produzido
especialmente na Ilha Sicilia. Os vinhedos acham-se nas encostas dos
morros em terrenos terciários-pliocenos e solos argilosos-calcários.
594
V3
De todo modo, qualquer setor da economia moderna exige técnicos
especializados. Não se empregando diretamente na produção, vários serviços
terciários estão disponíveis para os estrangeiros que chegam. Uma opção é fazer,
em 1921, o curso de guarda-livros no Instituto Comercial Israel Torres Barcelos.
Para estimular novos alunos, a turma de formandos tem sua fotografia
exposta na vitrine da Livraria Globo. Vários nomes Italianos figuram entre os
formandos, como Francisco Muratore, Hilario Bettanim, Victorio di Giorgio, e no
corpo docente, como examinador, Ernesto Pellanda.
595
Em 1931, a cena repete-se, com direito a foto dos formandos da turma de
1930, agora numa das vitrinas da Casa Rheingantz, à rua dos Andradas. O curso
ocorre no Colégio Narciso Berlese, à rua Garibaldi n. 1281 e tem como
homenageado Raul Pilla, descendente de italianos. “Esta é a décima quinta turma de
guarda-livros do Colégio Narciso Berlese, estabelecimento de ensino que vem
prestando relevantes serviços à mocidade desde 1919”.
596
Ainda em 1922, mais um curso comercial é fundado, incluindo nomes italianos
igualmente. Desta feita é o curso que oferece 32 matrículas, em carga horária diária
no prédio n. 381 da rua dos Andradas. O Diretor Antonio Porto Junior e o fiscal, José
P. Rebello trabalham juntamente com os demais professores, Abelardo Marques,
Germano Krumeneri e Januario Lippo.
Como exige a modernidade contábil, as disciplinas são escrituração mercantil,
contabilidade e lculo comercial, datilografia, correspondência e noções de
aritmética.
597
Nessa década são comuns os anúncios desses estabelecimentos,
como publica a revista Máscara, em 1925:
Instituto Médio Ítalo-brasileiro A.Menegatti, Escola Elementar, Curso
Comercial, Curso Preparatório Acelerado, Línguas de ensino: Portuguesa -
Italiana Francesa; Facultativas: Alemã Inglesa. Pedidos e
esclarecimentos ao Diretor Professor A. Menegatti. Rua Riachuelo, 156 -
V4
Porto Alegre.
598
Mas também é preciso conhecer o espaço físico e a história onde se assenta
a modernidade. Cabe à geração de 1920 fundar a narrativa oficial do Rio Grande do
Sul, quando cria o Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Sul.
A reunião promovida por Octavio Augusto de Faria, Tenente Souza Docca,
Capitão Manoel Joaquim de Faria Corrêa e Dr. Florencio de Abreu e Silva é a
segunda, mas agora exitosa na tentativa de fundar o Instituto. Na solenidade Amaro
Baptista recorda que, em 1917, houve a mesma iniciativa em Porto Alegre, além do
próprio, Demetrio Ribeiro, Antão de Faria, Marechal João Candido Jacques também
participaram.
O salão do Arquivo Público é cedido por Borges de Medeiros, presidente do
Estado, Governo do Estado, orgulhoso com a iniciativa. Estão a postos Octavio
Augusto de Faria, Tenente Souza Docca, Capitão Manoel Joaquim de Faria Corrêa,
Florencio de Abreu e Silva, Amaro Baptista, José Paulo Ribeiro, Achylles Porto
Alegre, Delfino M. Riet, Dr. José Zeferino da Cunha, Alfonso Guerreiro Lima, Padre
João Baptista Hafkemeyer, por si e pelo Padre Carlos Teschauer, coronel Aurelio
Porto, José Vieira de Rezende, coronel João Maia, monsenhor Mariano da Rocha,
Armando Dias de Azevedo, Arthur Candal, Dr. Eduardo Duarte, Leonardo Truda,
Tenente Souza Docca.
O Instituto já lançara um trabalho de Protasio Alves sobre a questão de limites
entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Cria-se uma comissão para fundar, efetivamente, o Instituto constituída pelo
Professor Achylles Porto Alegre, Monsenhor Mariano da Rocha e Capitão Manoel
Joaquim Faria Corrêa, comunicando-se ao presidente do estado a fundação oficial.
599
V5
Em 1921, o Instituto recomeça suas publicações com o segundo número da
"Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul", que tem na
comissão de redação Artur Candal, J.B. Afkemeyer, Leonardo Truda e Lindolpho
Collor. A gráfica é a Globo, "[...] com 150 páginas, com abundante matéria sobre
vocabulário, história e da geografia do Rio Grande, firmada por consagrados
estudiosos da vida do passado do nosso Estado. O referido volume constitui, de fato,
um importante repositório, uma fonte magnifica para estudos”.
600
O acervo vai ser constituído ao longo dos anos. A narrativa histórica está em
andamento. Aqui reforçando a construção do passado, ali questionando. Souza
Doca, um dos fundadores e ativo historiador, é indicado, pelo Ministério das
Relações Exteriores, para “reformar a nossa história no que diz respeito ao Brasil e à
República Argentina”. O jornalista Callage aproveita para mostrar afinidades: “[...] por
sermos acordes no mesmo ponto de vista com relação ao movimento revolucionário
de ‘35’, cujo caráter, acentuadamente republicano e brasileiro, procuramos destacar
em nossos livros”, o elogia nas páginas do Correio do Povo, comparando-o à
Capristano de Abreu e cita "O Brasil no Prata", "A Missão Ponsonhy" e a
"Independência Uruguaia", escritos que revelam esse mesmo espírito.
Callage destaca a: "Ideologia Federativa na Cruzada Farroupilha". Nessa obra
lançada em 1933, como nas posteriores, ressalta com aquele mesmo carinho,
elegância, critério, a pureza do sentimento federativo dos baluartes de 35 [...]
General Bento Manoel Ribeiro, estudo este publicado na "Revista do Instituto
Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul", em que reabilita a memória do ilustre
militar[...].”
601
A Biblioteca Pública para montar o seu acervo que está sendo composto, tal
qual o do Instituto, necessita de funcionários especializados. Qualquer cidadão pode
concorrer, desde que habilitado e brasileiros naturalizados, enfim é cargo público.
Seleciona a comissão composta por
Carlos Augusto Cruz e Balthazar dos Santos Paz, sob a Presidência do Dr.
V6
Decio Coimbra, Diretor Geral da Secretaria do Interior, resolveu julgar
habilitados os seguintes candidatos, por ordem de merecimento:
Theodomiro Tostes, Octacilio Marques de Oliveira e José Ernesto Müller.
602
Sendo a modernidade exigente, que se operar máquinas cada vez mais
sofisticadas, tecnologias o lançadas no mercado, novas relações de trabalho o
necessárias. Ensina-se datilografia e qualquer italiano pode aprender. No antigo
Ginásio Bom Conselho, é rigoroso o exame final do primeiro curso. O irmão Pedro,
diretor do Colégio Santo Antonio do Parthenon, e o jornalista Archymedes Fortini da
Escola Superior de Comércio, assistem as provas: os alunos precisam escrever à
máquina um trecho literário e uma carta comercial. Presente também a diretora,
madre Benicia. Entre os aprovados, encontram-se Mary Torelly, Orvalino Franciosi,
Annita Manico, Nelly Torelly.
603
É coerente a preocupação com a competência lingüística, a aquisição de
capacidade de leitura e escrita, na cidade. perguntas recorrentes: haverá mais
analfabetismo entre os imigrantes que chegam nos portos ou entre os nacionais que
também chegam nos portos? E entre os imigrantes, como se dá a distribuição entre
saber ler e escrever? O progresso, enfim, se deve ao imigrante por ser mais
instruído? É ainda Fernando Callage, pelas páginas do Correio do Povo a ensaiar
comparações e conclusões. Parece crer que não porque tanto alardear o
analfabetismo brasileiro e portanto engrandecer o estrangeiro nesse item. Apoia-se
em trabalhos apresentados no Instituto Histórico e Geográfico, em 1929, por
Marcello Piza, então Diretor do Departamento Estadual do Trabalho, denominado
"Movimento Imigratório de São Paulo", quanto ao grau de instrução dos imigrantes,
de 1908 á 1931:
Num total de 1.064.355 verificamos, entre algumas nacionalidades, que
mais forneceram colonos, a seguinte e interessante estatística:
NACIONALIDADES TOTAL: SABEM LER, NÃO SABEM, ALFABETIZADOS
e %: Alemães: 38.033, 32.745, 5.288, 86,9%; Franceses 2.749, 2.375, 374,
86,3%; Letos: 3.219, 2.679, 540, 83,2%; Húngaros: 4.860, 3.851, 1.002,
79,7%; Brasileiros: 85.058, 66.545, 10.513, 78,2%; Poloneses: 10.827,
8.224, 2.603, 75,9%; Austríacos: 14.402, 10.745, 3.657, 74,6%; Japoneses:
103.765, 76.552, 27.213, 73,8%; Yugoslavos: 21.005, 15.017, 5.988, 71,4%;
V7
Romenos: 22.734, 15.951, 6.782, 70,1%; Russos: 10.228, 6.764, 3.464,
66,1%; Lituanos: 19.981, 13.126, 6.845, 65,0%; Sírios: 16.382, 10.095,
6.287, 61,6%; Italianos: 197.113, 114.103, 82.310, 58,2% [grifo nosso];
Portugueses: 260.742, 107.536, 153.206, 41,2%; Turcos: 26.219, 10.009,
16.210, 38,2%; Espanhóis: 206.004, 55.987, 150.017, 27,1%. São
impressionantes os algarismos referentes aos imigrantes não alfabetizados
saídos da Espanha, Portugal, Itália e Japão, em cotejo com o Brasil. Basta o
leitor olhar para o presente quadro, para ter uma idéia exata do grau de
instrução desses povos de civilização antiga em comparação com o Brasil
[...].
604
Entre os motivos que explicam o analfabetismo no Brasil, a realidade física e
a ausência de comunicações concorrem para a baixa difusão do ensino primário e
secundário. “Somos como conceitua um sociólogo, um povo que se ignora a si
mesmo”.
605
A presença dos nacionais fica nítida quando se sabe que dos “[...] 64.885
brasileiros desembarcados em Santos, entre 1908 e 1928, apenas 13.940 não
sabiam lêr e escrever [...]”. E terminava os seus judiciosos conceitos com estas
oportunas palavras: "O grande progresso de São Paulo não é devido ao esforço
estrangeiro, mas sobretudo, ao nacional [...].”
606
A conclusão não poderia ser outra:
“[...]uma demonstração positiva real, do nosso adiantamento em face do velho e
decantado mundo civilizado; de que somos, na nossa ingenuidade, eternos
enamorados [...]”.
607
No dia 21 de abril de 1935 é fundado o Instituto Italo-Riograndense que, em
09 de julho do ano seguinte passa a se denominar Instituto de Cultura
Ítalo-Riograndense, o qual desenvolve atividades ligadas à cultura e língua italianas.
Os estrangeiros que chegam podem sentir-se na Itália, novamente. O Instituto
Ítalo-Riograndense apóia, principalmente, a instalação de cursos de língua nos
estabelecimentos de ensino da capital. Como por exemplo, na escola normal, cujo
diretor Emilio Kemp recepciona os convidados, o cônsul Barbarisi, o professor do
curso, Gino Batocchio. Apenas que estas aulas não são abertas ao grande público:
“Apenas alunos do ano daquela escola e pelas alunas-mestras e professoras que
V8
o quiserem [...]”.
608
Na noite do dia nove, o salão de conferências da Biblioteca Pública do Estado
é o espaço da sociabilidade, da fraternidade Brasil-Itália.
Essas e outras promoções consolidam o Instituto recém fundado. A sessão é
presidida pelo Desembargador André da Rocha, presidente do Instituto
Ítalo-Riograndense, cuja mesa conta com Othelo Rosa, secretário da Educação e
Saúde Pública e Interior; Guilherme Barbarisi, Cônsul Geral da Itália; Moysés
Vellinho e José Ricaldone, oradores oficiais da noite. Lugares de honra para o
Capitão Octaviano Paixão Coelho, representante do Governador do Estado;
Leonardo Macedonia, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico; Léo Arruda,
líder da maioria da Assembléia dos Representantes; Dr. Constantino Martins,
subprocurador Geral do Estado como Representante do Presidente do Tribunal
Eleitoral e do Presidente da Corte de Apelação. O nego José Balem,
representante do Arcebispo Metropolitano; os cônegos Cleto Bevegnú e José Nadal.
Fausto Gino Batochio e Dante de Laytano, são os secretários gerais do Instituto.
Quando a palavra finalmente passa para o cônsul, este trata de lembrar que a
ação do Instituto alinha-se à Associação dos Amigos do Brasil e à Associação dos
Amigos da Itália, sob o beneplácito do “Duce”, de Guglielmo Marconi, de Aluizio de
Castro. Outros oradores da sessão como Moysés Vellinho e José Ricaldone
secundam o cônsul, na mesma linha de argumentação.
609
Uma das modalidades de trabalhadores para a nova economia é a que
desponta pela formação acadêmica, a qual passa pela visita de cientistas, como a
do professor Guido Finzi em 1937, de grande interesse para a agropecuária do
Estado.
Procedente de Buenos Aires, o médico veterinário italiano, com “notáveis
trabalhos bactereológicos” participa de palestras na Escola de Agronomia e
V9
Veterinária da Universidade de Porto Alegre. Vem porque os estudantes de Medicina
Veterinária, sabendo de sua estada em Buenos Aires solicitam sua presença, por
intermédio do Centro de Acadêmicos, da Federação das Associações Rurais do Rio
Grande do Sul, dos professores Desiderio Finamor, Delphim Mesquita Barbosa, José
Ricaldone e do presidente do Grêmio Footboll Porto-alegrense. A trajetória científica
de Guido Finzi perfaz sua função como Reitor da Faculdade de Medicina Veterinária
da Real Universidade de Milão, “como delegado italiano ao Congresso de Zootecnia
de Nova York.[...] e na "Real Academia de Lincei, na Sociedade de Medicina de
Milão, [...] e na Academia de Ciências de Paris", [...] ciclo de conferências no
Instituto Carlos Forlanini de Roma, o maior centro de estudos da tuberculose[...]”.
610
O afã sede da reconstrução histórica e da memória do Rio Grande do Sul e
sua fundação, o crescente intercâmbio de cientistas ligados às áreas econômicas do
Estado, a formação ténica e comercial são elementos requeridos pela modernidade.
Mas, é necessário assegurar o mercado da cultura, criar um mercado
ampliado de leitores e alguns escritores para a representação literária da cidade.
6.3 Construção das bases industriais da leitura e da escrita
uma história, publicada em 6 de agosto de 1931, pelo Correio do Povo de
Albino R. Bordini. O Título é “Decepção”. A personagem Lourenço é representativa
da mentalidade camponesa dos anos 30, no que se refere à restrição da leitura e da
escrita:
Para que ler e escrever, dizia ele, não me faz falta, vivo muito bem assim...
Nascera e se criara no campo; era um raro exemplo de robustez, força e
vigor.[...] nas lides campeiras; um moço, ninguém tinha mais certeza no
laço, [...] e mais galhardia em cima do cavalo, mais graça na dança nem
mais amores no coração simples e bom. Fora sempre um triunfador no seu
meio; só não vencera papel e tinta [...].
611
0
A narrativa segue justificando os limites e a desimportância da alfabetização
diante do livro da natureza que, este sim, dominava na sua poesia, nas
[...] páginas verdes dos campos [...] amor e alegria, deram-lhe a esposa - a
mais linda morena que jamais vira - e o filho travesso e ladino como ele só.
Nem páginas de tristeza faltaram na biblioteca de Lourenço:[...] a morte da
companheira, [...] a do filho. Deixou-lhe este um netinho Paulo [...].
612
A história segue com o convencimento de um amigo sobre a necessidade de
colocar os estudos na vida do rapaz, o que exigiria mudar-se para a cidade.
Lourenço resiste, mas cede, justificando: “- Para que? A escola dá canseira; a
cidade, perdição... - Para aprender a ler e escrever, para instruir, enfim. - Não há
necessidade. Lerá como o pai e o avô nos ventos, nas nuvens, na lua [...]
O amigo promete novas possibilidades no futuro do rapaz: “- Pó.derias fazer
do rapaz, um doutor... - O que?! Fazer deste piá, um doutor?! - Sim. É mandá-lo
estudar. Lourenço calou-se. Ficou pensando... Decidiu-se”: faria do rapaz, um
doutor! [...].”
O enredo transcorre entre as tentativas do velho em rabiscar e conseguir,
enfim ler e escrever para o neto, porque em três anos tivera notícias por
estranhos. Enfim, chega a resposta da carta de Lourenço. E o drama se completa,
na guinada da narrativa:
- Imaginasse o avô que ele fora forçado, sim, forçado pelas
necessidades
da vida da cidade, a que a mesquinhez dos ordenados não faz frente, a
desviar por várias vezes, pequenas quantias da caixa do patrão; [...] ele
abandonara os estudos, e se empregara no comércio. Agora, [...] seria
preso se o avôzinho não lhe valesse, mandando o dinheiro[...].
613
O velho retoma a narrativa,
[...] “dobra a carta e com a caneta”, fere o papel: ladrão, ladrão, ladrão...
Depois, num movimento brusco quebrou a pena e rasgou livro e caderno,
enquanto que amarga lágrima lhe rolava pela enrrugada face. Para aquilo é
1
que ele fora aprender a ler e escrever!.
614
A escrita e a cidade, duas fontes de perdição, nada falta nesta narrativa.
Desde Platão, a linguagem escrita é suspeita, mas necessária. A imprensa
tem seu papel civilizador. Barcellos, Bertaso & C., da Livraria do Globo, Mansueto
Bernardi e João Pinto da Silva querem transformar Porto Alegre em importante
centro editorial. Em 1920, os dois últimos, estão com as provas prontas de mais um
"Almanack do Globo" por eles dirigido.
615
Alternando funções, finalmente, em 1924 Mansueto Bernardi abandona o
funcionalismo público e assume a direção da Livraria do Globo. Renuncia ao
mandato de Intendente do Município de São Leopoldo, além do cargo eletivo ora
resignado, as funções de Professor Público, Oficial da Secretaria da Fazenda,
Secretário da Presidência do Estado e Diretor do Expediente da Secretaria das
Obras Públicas, ao todo, são 20 anos de serviço estadual.
616
Também cresce o mercado tipográfico. A "Tribuna Italiana", adquiriu a
tipografia de Grunemberg e Trein ex-Cesar Reinhardt, por conta da Sociedade
Anônima Gráfica Italiana. Esta, além de publicar diariamente a Tribuna Italiana,
explorará as indústrias gráficas.
617
A leitura dos jornais do Prata é comum, nos anos 20 e 30, entre os italianos.
Como em muitos casos a imigração que começara pela Argentina ou Uruguai, traz o
hábito de consumo desses jornais o que mantém as ligações com estes países.
Por isso, o que comemorar também na capital em 1932 quando ocorre o
63º aniversário de publicidade de La Prensa, de Buenos Aires. Fredérico Castelletti,
representante, recebe os comprimentos. Na recepção, no Edifício Oliveira, o
jornalista Archymedes Fortini acresce às saudações:
2
se disse que ‘os homens da pena do mundo inteiro constituem uma
grande e gloriosa família, onde muito afeto e muita admiração’ [...]. em
ver como um jornal da respeitabilidade de La Prensa conquista a golpes de
inteligência e de fraternidade universal e mormente sul-americana, um lugar
tão saliente.
618
O papel constitui uma das bases industriais da leitura e da escrita, sua
disposição no mercado é imprescindível para a circulação da notícia. O Correio do
Povo, por exemplo, teve uma ocasião na qual ficou sem papel para rodar o jornal,
mas na maioria das vezes, ele o emprestava aos concorrentes. É crônica a questão
do papel no período. Sem ele, não periodicidade, sem ela, não jornalismo em
bases empresariais. Como ocorre com qualquer editora.
Em 1935 Menotti del Picchia, como empresário e editor questiona:
Um dos aspectos mais vexatórios do trust nacional do papel é a posição
humilhante em que fica a nossa imprensa, sujeita, ao controle de suas
edições, à obrigatoriedade do registro para poder importar papel e a multas
mortais diante de qualquer descuido [...].
E segue expondo as limitações de toda ordem que a indústria do papel impõe
aos jornais, editoras, tipografias, enfim, o mercado da escrita empresarial. “[...] No
Brasil novo e livre não há mais lugar para comodistas, tímidos ou poltrões”.
Refere-se ao silêncio dos demais sobre a situação. Ao seu ver, o Brasil novo é o da
era Vargas.
619
Mas não basta mercado empresarial, é necessário mercado de escritores,
consumidores-leitores. Uma recepção razoável que, afinal sustente o resto.
620
O jornalista And Carrazoni em 1936 acredita que recepção da leitura,
seja no jornalísmo, seja na literatura, tendo inclusive escrito artigo afirmando que “já
se lê no Brasil”. Apoiado nos depoimentos dos editores, dos livreiros e dos escritores
do país, distingue ainda os públicos do jornal e o do livro:
3
O primeiro está sob o signo da quantidade, enquanto o segundo supõe o
ascendente exclusivo da qualidade. O jornal representa a vitória da
multidão, no apetite do fato [...] o livro reclama o ócio aristocrático das elites,
com a paixão da idéia, a estima do pensamento, o exercício da reflexão [...].
621
Em qualquer caso,
[...] a circulação das idéias é pura função de maior ou menor coeficiente de
cultura popular. A nossa Academia de Letras, coroamento, como todas as
Academias, da majestosa e secular arquitetura do gênio nacional, ainda não
penetrou nos sertões bravios, nos mesmos sertões em que um Antonio
Conselheiro ou um Virgulino Ferreira conquistaram uma celebridade não
acadêmica.[...].
622
Carrazoni confia nas patrulhas da Cruzada Nacional da Educação. Mas
uma perda. E uma projeção do fenômeno das comunicações que surge nos anos 30:
Daqui a trinta ou quarenta anos, quando os sertões estiverem incorporados
à rede de comunicações da inteligência brasileira, os grandes nomes de
hoje talvez sejam murmurados com uma curiosidade sem flama, como
relíquias de museu literário.[...].
623
Traz em apoio Georges Duhamel, para estabelecer a diferença entre
estatísticas demográficas e sensibilidade estética:
Sobre o tema, Georges Duhamell oferece-nos lição recentissima. Para esse
médico, que sabe escrever prodigiosamente bem, ler é algo mais do que ler
apenas. Ler, para Duhamel, quer dizer "élire, c'est-á direchoisir". Em
resumo: ler, eleger, escolher. Pequena experiência de leitura
leva
-me a
anotar, sem maior originalidade, que ler é um equivalente de descobrir. Em
cada livro que abrimos morde-nos o excitante de novas aventuras do
espírito, e novas possibilidades de alargamento do mundo humano
[...].Quem escreve paga seu tributo a um egoísmo inspirador, o egoísmo de
ser lido. O leitor, por isso mesmo, é a ressonância do escritor, a certeza de
que o seu apelo desperta generosa vibração, a esperança do
prolongamento de sua mensagem na sonoridade de outras vidas e de
outros destinos."
624
Em 1937, o problemao é estético, é a onda nacionalista avançando sobre o
4
ensino nas escolas estrangeiras. O Correio do Povo publica um comentário onde as
limitações das leis reguladoras da matéria estão sendo aprovadas sobre a
nacionalização do ensino das escolas italianas e alemã no meio Colonial.
Previne o artigo sobre a conveniência de:
[...] dotar os núcleos de imigração de escolas suficientes e de professores
eficientes.[...] Depois de termos a certeza de que as escolas nacionais não
faltam, de que igualmente não faltam os professores nacionais, então
faremos uma lei explícita que [...] cerceie na íntegra o grave fenômeno da
nossa desnacionalização psíquica, [...] da infância na língua, na pedagogia
e nos costumes nacionais.[...]
625
E conclui: “Que existe o perigo, já
estamos cansados de saber. Saibamos, pois, subjugá-lo.
626
O nacionalismo no período estreita a polifonia trazida pela migração e a
educação fará sua parte, vigiando o idioma e a cultura nacional, sobre a rede
instalada pelos imigrantes e suas elites.
Não se pense que a estética latina recua diante da ofensiva nacionalista. Ela
reivindica foro de universalidade, de construtora da sensibilidade artística da
humanidade. E, portanto, irrevogável conquista que ultrapassa os limites de uma
nação, ainda que o berço central seja a Itália.
6.4 A Estética aprendida: lições da Itália
Os italianos que chegam podem apreciar a obra de Julio Gavroski. Recém
chegado de uma temporada onde residiu e trabalhou em São Paulo visita o Correio
do Povo em 1921 e comunica que vai radicar-se em Porto Alegre. A exposição
marca sua fixação na cidade. Entre uma cidade e outra, Florença, foi a cidade do
estudo, da recepção da estética das artes, na Escola de Belas Artes.
627
Na cena artística as notícias internacionais trazem que em 1925 Constantin
5
Stanislavski revoluciona a arte da interpretação teatral. Também ocorre a estréia o
cantor de jazz Al Jonson, que se populariza através do cantor e trompetista Louis
Armstrong.
Muitos podem ter seus retratos pintados e encomendarem obras aos artistas
italianos em Porto Alegre. Os generais, como é praxe, apreciam eternizar-se. É o
que acontece, quando em 1926 o general Andrade Neves, comandante da 3a
Região Militar, é pintado por José Boscagli, no seu atelier à rua dos Andradas.
Em 1933 o pintor Leopoldo Gotuzzo está em Porto Alegre. Expõe ao público
seus quadros. “Afirmação magnífica de um temperamento de classe servido por um
senso vigoroso de equilíbrio e beleza, ele se destaca no meio artístico do país como
das suas mais expressivas personalidades”.
628
É tempo igualmente de estréia do filme falado. E a estética norte- americana
avança: Walt Disney cria a personagem do Michey Mouse.
629
O Correio do Povo noticia a palestra de Hermínio Gugiucci, jornalista do
Fanfulla de o Paulo, no salão da Sociedade Vittorio Emanuele II. Dissertará sobre
La sorgente poética nell'anima Italiana.
630
Outro italiano que visita a cidade é Maximo Bontempelli, membro da Real
Academia da Itália, vindo de Buenos Aires, pelo avião da Pan Air. Apresentado como
grande vulto das correntes modernas do pensamento italiano, o lombardo nos seus
51 anos, é Doutor em Filosofia e Letras.
Como jornalista e intelectual italiano, juntamente com Marinetti, fundou o
Futurismo. Suas obras, para além da participação nos “maiores jornais da península
e da Europa”, São romances como "Vida intensa"; "A mulher dos meus sonhos";
"Nossa Deusa" (teatro); "Filho de duas mães"; "Minnie, a ndida" (teatro); "Estado
de graça" (interpretações); "Vida e morte de Adria e de seus filhos"; "O Neosofista"
6
(escritos); "Viagens e descobertas".
A Livraria do Globo também exporá em poucos dias, a tradução esmerada da
obra “Vida e Morte de Adria e seus filhos”, de Botempelli. Uma conferência se
proferida na Itálica Domus "Il Oitocento e il novecento, pelo próprio, que, depois de
alguns dias partirá pelo avião da Condor, rumo à capital da República.
631
Sobre a vinda de Bontempelli, o Correio do Povo publica um artigo veemente
de Reynaldo Moura. Nele, o jornalista comenta como Mussolini cumpre “o ciclo de
um destino augusto que o torna, diante do mundo, uma das mais impressionantes
grandezas pessoais da hora que passa”. Conclui afirmando que o líder fascista fez
germinar na Itália o milagre de uma nova Renascença.
Moura desagrava o cônsul Mario Carli, lembrando que, quando ocupara a
representação de Roma no Sul do Brasil, convivera com D'Annunzio, e efetuaria no
Rio Grande do Sul a divulgação literária “dos valores da Itália nova.” O que seria
acompanhado pela divulgação de autores italianos modernos pela atividade editorial
da Revista do Globo, inclusive. “Pirandelo compareceu com a risonha amargura de
sua filosofia”.
Sobre a literatura, acredita ser “uma necessidade orgânica da nossa
insuficiência. Antes de Freud o homem se definia nessa vocação incoercível do
prazer animal pelas representações”.
Sobre a última obra de Bontempelli, comenta, o ambiente da Cidade Eterna,
reproduzindo a representação do escritor. E pergunta: “Que em Roma quando as
portas da aurora derramam sobre a cidade a glória de um renascimento? É a
expressão espiritual da cidade que se desdobra, dentro da luz, uma vitória mística”.
E insere o mundo moderno por entre as pedras de Roma e nos ares, desde as asas
dos aviões “embora das pedras eternas se desprende sempre eflúvio que perfuma
de nobreza a atmosfera radiante, para que ela permaneça lúcida como uma alma
tranqüila, dentro da qual a festa do mundo encontra uma imprevista ressonância”. O
7
que é incomparável.
Novamente a idéia de que uma cidade é a mesma, sem ser idêntica.
Esse espírito da cidade repercute nos homens e suscita nos escritores “o
mesmo estado da alma da cidade. Diante da admiração dos outros, longe da vila
Borghese, da tranqüilidade dos palácios, da sombra dos jardins e dos braços de
mármore da cidade, os homens exclamam: - Ah! mas eu sou romano. Essa são as
impressões da obra, onde Bontempelli recria um estilo de vida onde “Mesmo os
automóveis que deslizam pelas estradas dos arrabaldes romanos, são diferentes,
têm um estilo próprio, no brilho e no élan da corrida, que os torna também criaturas
participantes das forças misteriosas e serenas desse ambiente de sonho”
Mas uma cidade não se revela senão “nas ocasiões oportunas - como em
todas as cidades o mundo da aristocracia - mas que em Roma adquire uma
personalidade inconfundível. Adria vem do segredo suave dessa esfera”.
Bontempelli diz “Adria é mais bela do que a luz. Adria e Deus, tão distantes
da ternura humana, que as orgulhosas tradições da cidade mística podem
compreender! Que belo espetáculo!”.
632
Para encerrar essa seção, nada melhor que o artigo que o Correio publica de
Dante de Laytano, em 1936. Ao participar do congresso cultural em Buenos Aires,
reunindo escritores de todo mundo fugindo da paisagem nacional, encontraram-se
uma vez por ano, numa grande cidade do nosso amável planeta, que ainda pensa
em brincar de guerra”.
Da Itália vem Marinetti, Puccini e Ungaretti participar do torneio de palavras,
São homens que não se abalam com nada, “numa placidez augustamente helênica
ou florentina, deslizam pela vida como alhuetas doiradas e formosas.” Como a Itália
que “é um lindo país de poesia, as passagens sobre canais chamam-se ponte dos
suspiros, as igrejas nas cidades famosas tomam o nome Santa Maria das Flores e a
8
suavidade mística da Umbria do poverello [...]”.
Dante de Laytano apresenta ao leitor o “africanismo literário” de Marinetti,
presente no “derramamento rítmico dos negros cantores e tocadores e sua curiosa
‘eletricidade sensual’ haveria de caber melhor na languidez amorosa das argentinas
milongas”. Ainda acrescenta que o autor de "Cinco almas numa bomba" estivera
em Buenos Aires.
De Giuseppe Ungaretti dirá que, como Marinetti, “é italiano do Egito. Arrojada
expressão e vanguardismo melhor definem sua estética, sendo o autor de Il porto
sepolto e Allegria dei Naufragi duas mensagens de loucura poética, doidice lúcida
mas gritantes duma beleza inédita nascida nas trincheiras de 14”.
Sobre Mario Puccini, “vindo mais ou menos, da poesia de Rembrandt, dos
simbolistas mas editor, jornalista e livreiro e oficial na frota da grande guerra,
transformou-se num espírito agilmente contemporâneo, que deu algumas novelas
mesmo admiráveis. E encerra afirmando: “três homens, num instante da
modernidade, foram os embaixadores da Nova Itália literária nas províncias
intelectuais da América [...].
633
São breves lições da estética italiana. Mas existem outras estéticas na cidade
de Porto Alegre. E os estrangeiros italianos ou seus descendentes não estão
autorizados a se pronunciar sobre elas. Uma delas é a que envolve a identidade
regional que tem no cerne a figura do gaúcho.
6.5 A identidade regional diante das lições da Itália: Fornari e Bernardi & Cia
Como temos narrado, a recepção da estética italiana é visível nas gerações
de intelectuais da cena de Porto Alegre de 20 e 37, em função da condição de
capital e de lo cultural. Marca tanto os estrangeiros recém chegados, como os
9
nascidos no Brasil, descendentes de italianos chegados no final do século XIX. A
língua Italiana, a latinidade e não são necessariamente o mesmo, vive momentos de
alta recepção na cidade. Divide espaço com a tradição francesa e alemã, está no
início a presença norte-americana, na literatura , mas principalmente através do jazz
e do cinema.
O regionalismo e o simbolismo dominam a estética local, traduzindo estas
influências. O local- regional- nacional é sintetizado na Semana da arte moderna de
São Paulo de 22, que embala o novo nacionalismo político.
A aproximação do nacionalismo e da vanguarda estética moderna é saudada
por Fernando Callage no Correio do Povo:
Presentemente vemos o homem de letra ocupando brilhantes posições,
como acontece em São Paulo, onde o Sr. Mário de Andrade, é o atual
diretor do Departamento Municipal de Cultura. Sua ação se tem feito
sentir com a criação de bibliotecas circulantes, infantis, cinemas educativos
e audições públicas pelas grandes orquestras sinfônicas que possui esta
capital. A transição que sofremos foi, sob muitos pontos de vista, notável.
Avançamos uma larga etapa na evolução do nosso pensamento e da nossa
cultura.[...].
634
A elaboração simbólica da cidade pelo campo artístico-literário tarda, mas
coloca-se nestes anos como o rompimento com o passadismo Colonial brasileiro. A
cidade e sua representação demora o tempo da urbanização da economia, em torno
dos anos 30, que culmina a falência do antigo jogo político nacional da República
Velha.
A representação literária e poética da imigração, signo da modernidade,
ocorre tardiamente. Se o romance precisa do jornal, a poesia mais ainda. E precisa
também, de um blico de leitores competentes. Descendentes de italianos
fazem-se escritores, poetas, jornalista literatos e críticos. Porto Alegre, cidade na
qual circulam jornais modernos como o Correio do Povo, Diário de Notícias e
revistas, como a Máscara, propicia o trânsito da camada intelectual. A genealogia
0
dessa geração pode ser resumida, embora eles sejam muitos e produtivos.
635
Sem o menor interesses em traçar a epopéia da imigração estão os
regionalistas como Simões Lopes Netto, Alcides Maya, Cesimbra Jaques, e os não
regionalistas: “o Rio Grande do Sul conta com Alvaro Moreyra, Manoel do Carmo,
Felippe de Oliveira, Eduardo Guimaraens, Mansueto Bernardi, Paulo Labarte, Pery
Mello, Cezar de Castro, Homero Prates”.
636
Roque Callage é especial entre todos: consagrado regionalista, o cultiva
sua perspectiva de filho de imigrantes e seo grande cronista da cidade de Porto
Alegre de 1925, na seção diária denominada “A cidade” que assinará no Diário de
Notícias, até seu falecimento em 1931. Em 20 está entregando os originais dos
"Crônicas e contos” a Augusto Corrêa e Dania, proprietários da "Livraria Brasil". Esta
obra reúne material disperso entre jornais e revistas, deste cronista regionalista,
paradoxalmente, meticuloso narrador da cidade. Já publicara "Terra natal".
637
Ao mesmo tempo, influenciado por regionalistas como Simões Lopes Netto,
Alcides Maya, Cesimbra Jaques e, no plano nacional, por Euclides da Cunha,
preocupa-se com as realidades do homem do interior, “quase um sociólogo”, dizem,
é um dos mentores do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Sul. Divulga
sua obra na capital da república, Rio de Janeiro onde escreve para vários jornais. Na
cidade de São Paulo, em 1923 fez-se amigo de Monteiro Lobato e do poeta
Cassiano Ricardo.
638
A narrativa de Roque Callage contempla o pampa gaúcho. É reconhecido
como o segundo maior regionalista depois de Alcides Maya.
639
Em 1926, publicará
o "Vocabulário Gaúcho", entre outras tantas obras. “Estão, aí, reunidos cerca de dois
mil termos da nossa linguagem gauchesca. A edição é da Livraria do Globo [...].”
640
Outro livro no prelo da Livraria do Globo: “[...] o livro de cenas crioulas da vida
rio-grandense, "Quero-Quero" [...] são interessantes contos, assim intitulados:
1
Quero-Quero, No Pouso, Nem amarrado, Ritóca, Resistência, A lo bruto, Velho
hábito, Gauchito, Tinha que ser... , Maldade, Ao descambar do sol, Traição,
Tropicão, O Minuano e Lida Nova.”
641
Trata-se de um descendente de italianos construindo uma obra universal, se
considerarmos as discussões mais lúcidas sobre o sentido do regionalismo literário.
A cidade, no entanto, não atrai sua narrativa. A maestria de Callage soube não
confrontar o pampa e seus mitos. No regionalismo deixou imagens perenes da
representação literária do homem-gaúcho e sua paisagem..
Ernani Fornari não terá a mesma sorte. Nem regionalista e nem escritor da
cidade publica em 1924: “Missa de ternura e de humanidade”. Sérgio Gouveia
satiriza a indiferença modernista sobre a obra de Fornari:
[...] o futurismo era quase uma nebulosa e a obra de Marinetti alguma coisa
muito citada mas pouquíssimo entendida [...] Ernani encolheu os ombros e
deu a publicidade de um livro de sonetos. Bem recebido. Mal recebido. [...]
Depois veio “Trem da Serra”. Versos modernos. Não se podia dizer que o
poeta era passadista [...] depois, “Praia dos milagres” [...] segunda edição
do “Missal” que horror! Em pleno século vinte, de arranha-céus, zeppelins e
outras coisas colossais [...].
642
Ainda em 1924, deu de ombros: O início desta história é quando Ernani
Fornari escreve a poesia “Gaúcho” e homenageia Alcides Maya, publicando-a na
revista Mascara, em 6 de fevereiro de 1925. Foi criticado por um leitor. Como um
estrangeiro ousa poetizar o arquétipo do gaúcho? O “conflito das representações”
cai sobre Fornari e grava a lição de que sendo uma vez estrangeiro, será sempre
estrangeiro. Não tem competência narrativa para tratar do que o lhe pertence, isto
é, a mitologização que é recente e vai ser maior ainda nas próximas décadas, em
torno do gaúcho, sendo ele um estranho.
643
De uma maneira geral, os imigrantes articulam muito no seu discurso o
pertencimento local, colando, se for o caso, vários pertencimentos numa certa
2
hierarquia, hifenizando-o. O conceito de hifenização, de Lesser
644
, parece-nos,
funciona com a dialética da inclusão e exclusão, uma vez que reconhece na
identidade, um ser igual, mas o idêntico. É o que fazem os moraneses, como se
verifica através dos entrevistados, os quais utilizam essa dialética quase como um
escudo de uma appartenenza flexível, porosa, mas que luta por ser reconhecida, tal
como os frutos de uma mesma árvore.
Fornari é deixado na sua estrangeiridade, na sua condição de filho de
imigrantes do século XIX, como uma cicatriz narcísica, não como emblema ou troféu
da odisséia dos que atravessam o oceano para fazer “a América”. Apenas um
estrangeiro, rapidamente ejetado, embora pertença à segunda geração de
imigrantes italianos em Porto Alegre. Isto porque narra um tipo que agride a
positividade da representação simbólica dominante sobre o tipo identitário, “o
gaúcho”. Vamos à poesia:
O GAÚCHO
para Alcides Maya por Ernani Fornari
Misto de justo e mau, / Tisnado nas garruchas, / Tem orgulhos de rei, e
humildades de escravo; / Livre como o pampeiro, / E como as armas, bravo;
/ Põe o amor na cordeôna, e a raiva nas garruchas. / Herdou dos espanhóis
/ O gesto exagerado; / Do aborígena herdou bravura e crenças bruxas; /
Traz no olhar a altivez / Das coxilhas gaúchas, / No sangue o ardor do
pampa ao sol ardente e bravo... / E mata como um deus. / E como os
deuses
tomba
; / Desconfia de quem lhe enjeita a cuia e bomba. / Beija a
infância no olhar, / Despreza o vil e o concho. / Tem sempre o rancho
aberto, embora noite seja, / E a adaga sempre pronta / A abater na peleja /
Quem ousado e agressor tente "pisar-lhe o poncho".
645
Um leitor da revista Máscara, descontente com o teor da poesia, escreve à
Revista, argumentado contra Fornari e sua descrição do que entende por ser
gaúcho. Por dever de exercício, a revista publica sua carta na edição de 1 de janeiro
de 1925, a qual diz:
Redator d' "A Máscara". Permita-me que como rio-grandense, como
gaúcho, proteste, energicamente, contra os conceitos que o seu
colaborador E. Fornari externa sobre a nossa pujante raça, na sua poesia
3
"Gaúcho", publicada no último e apreciado número dessa revista. O gaúcho
não é "misto de justo e mau" mas, justo e leal. "Humildades de escravo",
para o representante do Pampa, se não é injúria, anda perto... O gaúcho é
altivo, é independente, é orgulhoso. Talvez para E. Fornari, que é
estrangeiro, o gaúcho tenha estes tristes defeitos. Para quem o conhece,
não tem. é estranhável que a "Máscara" publique versos que
desconsideram o Rio Grande do Sul. Atenciosas saudações. A. M. J..
Constante leitor".
646
O editorialista defende a ética profissional mas considera injusta a crítica
porquê:
[...] esse poeta pode ter cometido injustiças nos conceitos emitidos sobre o
gaúcho - e somos de opinião de que o nosso
colaborador
não conhece de
perto o caráter do rio-grandense, certamente não teria publicado a poesia
em discussão - mas o que não pode ser posto em dúvida é o espírito, já não
diremos de nacionalidade, mas de regionalismo de que tantas provas tem
dado o nosso colaborador. Descendente, embora de uma nobre raça
estrangeira, o Sr. Ernani Fornari é tão rio-grandense como os que mais o
forem. Quanto à publicação dos versos em questão, temos apenas a dizer
ao nosso "constante leitor" que a "Máscara" não assume a responsabilidade
das opiniões, competentemente assinadas de seus colaboradores.
647
Ernani Fornari revida asperamente e escreve “ao amigo De Souza” o que
qualifica como “acesso de epilepsia regional”. Está na íntegra pelo preciosismo da
resposta:
Ao lê-la tive a impressão de que o autor, na pitoresca
expressão
gauchesca, é um "abalanceado dos cascos". Foi o mais eloqüente
auto-atestado de uma ignorância e nenhum senso que jamais vi algum
homem passar: das duas, uma: ou esse tal A. M. J. teve meningite, ou
tomou chá em pequeno. Quem é finalmente essa criatura, de cérebro tão
complicado, De Souza? Vê tu se m'a descobres que a cabeça desse
cidadão exposta em posta alugada à Rua dos Andradas, junto ao "jumento
fenômeno” que anda por em exibição, é bem capaz de reerguer a mais
claudicante empresa deste gênero. Sem ter compreendido o espírito, o
fundo da tese que me produz versificar, ignorante dos mais rudimentares
princípios da psicologia e de ética rio-grandenses, esse ungido devoto da
Nossa Senhora Imbecilidade, depois de decompor a minha peça poética,
estultamente, reza uma Salve-rainha de sandices, e desaba, cérebro
abaixo, um rosário grotesco de impropriedades. A Providência, tão justa
quando mais diferençou os asnos dos fidalgos cavalos pelo tamanho das
4
orelhas, devia mostrar-se, ainda uma vez eqüitativa substituindo a velha,
roída e cansada cabeça do infeliz Ugolino. uma gente fazendo juz a
essa vaga. Dêem-se-lhe novos dentes ao vingativo cardeal dantesco, e a
cabeça microcefálica desse coitado se de sentir muito a gosto, ali, entre
as caldeirinhas, sentindo ecoar no vazio baú craneado o doce encanto dos
atritos, a rítmica raspagem do violento cafuné mandibular. Eu podia,
justificar, perfeitamente, os meus versos. Mas para que?... Não vale a pena:
gastar cera com ruim defunto". A esse senhor da cabeça da cabeça de
ninho de tico-tico aconselho, unicamente, a leitura daquela expressiva
fábula de La Fontaine: "A rapoza, o leão e o burro". E dizer que ainda há um
padeiro que se levanta de madrugada para dar pão a um homem desses.
Do ex-corde. Ernani Fornari.
648
Nos próximos anos Ernani Fornari não se expõe à ira do leitor. A geração
D’Annunziana melhor interpreta a sua narrativa. Além dele, fazem parte desta
geração Eduardo Guimaraens, João Pinto da Silva, De Souza nior, Felipe de
Oliveira, Homero Prates, Rubens de Barcellos, Álvaro Moreira. Todos são
influenciados por Mansueto Bernardi.
649
O MINUANO
Mansueto Bernardi
Contra o dorso indefeso das coxilhas / o Minuano rígido arremete. / Três
dias sucessivos arremete, / na sua profissão de saneamento. / Com os seus
longos uivos de leopardo / e os seus silvos estrídulos de serpe; / Com seu
ímpeto frio e sibilante / e o seu açoite revolucionário, / fecha e escancara
portas e janelas, / por cerros e quebradas assobia, / em todos os espaços
se intromete, / por todas as gargantas e orifícios, / elástico e invisível se
insinua. / As árvores fustiga e os animais / Revolve os ninhos. As mulheres
despenteia / e encarapela rios e lagoas. / Poderoso exaustor, limpa
completamente / os miasmas e gazes deletérios / que soem dos monturos e
paus, / as impurezas todas que andam no ar. / Num relâmpago, espana o
leite dos caminhos / que através da campanha serpenteiam, / no mesmo
andar que na cidade o das ruas / e a fumaça das fábricas dissolve. / De
tal sorte que, após sua passagem / renovadora e clarificadora, / do norte ao
sul, no pampa ou na montanha, / uma vera delicia é o respirar. / Porém não
basta que, fisicamente, / o nosso meio apenas tu saneies. / Sobre toda a
extensão da pátria urge que sopres / e com tuas rajadas purifiques / o ar
moral que muito ela respira, / saturado de tóxicos mortais. /
Desencadeia, pois, teu é isto, ó Minuano / E antes de tudo e sem detença
varre / a discórdia que aparta os irmãos dos irmãos. / Arrefece o calor da
luta inglória. / Apaga os fogos dos acampamentos / todos os fogos dos
acampamentos / que com seu brilho hostil, dentro da noite imensa / tais
como insulto são a imagem do Cruzeiro. / Tange, acomete, alue todas as
atalaias, / de onde os irmãos com ódio espreitam os irmãos! / E varre a
fraude, em suas formas todas. / Varre a violência, e todos os seus males. /
Varre as más ambições que corvejam / sobre os corpos de irmãos mortos
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pelos irmãos!
650
A recepção da estética simbolista italiana, pois, quer pelos seus “patrícios”
radicados em Porto Alegre, descendentes ou, simplesmente, por intelectuais, artistas
e leitores trazem o “Crepusculare”: Dante, Petrarca e Leopardi que influenciam os
poetas gaúchos. Simbolistas seguiam Samain, Verlaine, Rimbaub, Verharren, Jules
Laforgue, mas também Pascoli e D’Annunzio. “Simbolistas e primeiros modernistas
6
encontraram nos “crepusculares” Guido Gozzano, Sergio Corazzini e Aldo
Pallazeschi, a atmosfera apropriada aos seus entardeceres nevoentos.
651
Embora não “fosse um genuíno poeta” representante do Modernismo, neste
mesmo ano de 1925, Mansueto Bernardi, em sua casa no Menino Deus, apresenta
Guilherme de Almeida, aos poetas modernistas do Rio Grande do Sul. Na foto tirada
nessa ocasião estão, entre outros, Francis Pelicheck, Pedro Vergara, Renato Costa,
João Pinto da Silva, Eduardo Guimaraens, Angelo Guido, Vargas Neto, Ernani
Fornari, Fernando Corona, Athos Damasceno Ferreira, De Souza Júnior, Moysés
Vellinho, Rui Cirne Lima, Luiz Vergara, Eurico Rodrigues e Darcy Azambuja.
652
Ernani Fornari volta a ser notícia em 1932, agora no Correio do Povo. Cacy
Cordovil avalia que seu livro de contos “Guerra das fechaduras” revoluciona,
iniciando, fora do regionalismo, uma nova era do conto “[...] uma tal variedade de
assuntos e imagens, que, terminando, fica-se com a impressão de ter visto,
sucessivas, as transformações sem conta de um caleidoscópio [...].”
653
No mesmo número Érico Veríssimo vibra com o ataque que os personagens
fazem ao autor Ernani Fornari:
Todos [...] para frente! Ajustemos contas com o autor! E todas as
personagens dos contos de “Guerra das fechaduras” formam em tumulto, a
dois de fundo e marcham ao som de um canto de guerra, truculentos e
agitados. Em busca do Sr. Fornari. Na frente do bloco “baliza” impávido e
desinquieto-Nanquinote. dias que não vejo o poeta do “Trem da serra”.
Temo pela sua vida. Será que os bonecos o encontraram?
654
Em 1933, Sergio Gouveia do Correio do Povo relembra o tardio
reconhecimento da obra de Fornari “[...] o culto que se prestava até dez anos atrás,
quando copiando o movimento modernista da Europa, conduzimo-lo para rumos
incertos e finalidades duvidosas, até a decadência atual em que se encontram arte
literatura no Brasil [...]”. Um longo espaço de tempo para esfriar as costas e eis a
“Guerra das fechaduras”, com três edições lotadas. “[...] vem ‘O homem que era
7
dois’, aí virá a ‘Teoria do estalo’ ”.
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Em 17 de junho de 1934 a manchete: CONSAGRAÇÃO DE DOIS
ESCRITORES RIOGRANDENSES do Correio do Povo trata da tradução para o
italiano, de Ernani Fornari e Érico Veríssimo. “[...] As obras traduzidas são “Clarissa”,
de Érico Veríssimo e a “Guerra das Fechaduras”, de Ernani Fornari. Para o
comentarista, a tradução pelo escritor e jornalista Aldo Deci para a língua de
Pirandello fará essa obras “parecer coisa nova”.
O caráter de grande promotor da cultura em Porto Alegre é simbolizado no elo
que une Érico Veríssimo a Ernani Fornari: Mansueto Bernardi.
Érico Veríssimo, nascido em 1905, filho de emigrados portugueses e tropeiros
de Sorocaba, percorre uma trajetória de escritor amador até encontrar com Bernardi.
Apenas em 1928 terá trabalhos publicados na Revista Globo em Porto Alegre, os
contos “Ladrão de cavalos” e “A tragédia de um homem gordo”. Ainda que o Correio
do Povo publique em 1929 “A lâmpada mágica”, apenas em 1930 ao entrar em
contato com Bernardi quando vai trabalhar como secretário da Revista do Globo, é
que sua carreira adquire o profissionalismo requerido para a função de escritor na
sociedade moderna.
No ano seguinte, Veríssimo ainda escreve para o Correio do Povo e para o
Diário de Notícias. Em 1932 publica “Fantoches”, contos com influências de Ibsen,
Shaw, Anatole France e Pirandello. Em 1933 ocorre o sucesso de “Clarissa”,
publicado pela editora Globo de Henrique Bertaso, outro grande promotor da cultura
da cidade.
656
Passando ao largo dessa presença italiana, em 1936, o descendente de
italianos, Fernando Callage, irmão de Roque Callage, preocupa-se com a construção
do nacional, da cultura genuinamente brasileira, sem italianidade, portanto.
O jornalista celebra o ressurgimento da Academia de Letras no Rio Grande do
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Sul, um grande momento literário nacional e local, em especial, com o livro “Clarissa”
de Érico Veríssimo e também "Caminhos cruzados" e "Música ao longe", seus
romances rescentes realçam mais ainda o valor de Veríssimo como figura marcante
nas letras nacionais [...]”, ambos de 1935.
657
Essa é a paisagem final da perspectiva desde o estrangeiro. O momento da
reconfiguração, quando a narrativa poderia ser retomada pelo estrangeiro de seu
lugar mais nobre - o literário e não o foi.
A literatura absorve o regional, o nacional mas não a presença do imigrante
urbano. Não lugar na estética para a diversidade estrangeira quando os tempos
são de construção do homem brasileiro. Não recebe representação literária pela sua
condição estrangeira e nem pode representar o que seja ser gaúcho, uma vez que
para o consenso social, nem brasileiro é.
Acompanhemos através das narrativas como se colocam os entrevistados na
cidade de Porto Alegre.
7 ARRIVARE
O “chegar” conclui as condições para a completa narrativa, a qual é tomada
como estrutura que supõe partir, transitar e chegar conforme Leed. Do amálgama
entre migração e estrangeiridade, brota o eu que narra entre o tempo mítico, o
tempo histórico, o tempo cronológico.
A narrativa de quem parte trata da sofrida separação da appartenenza
sociale, do ato de libertação do mundo, da vida e do trabalho alienado. O migrante
vai, semanticamente, tornar-se um estrangeiro, também para si. a narrativa no
trânsito, na viagem é quase suspensa porque o narrador está preso no “paradoxo de
percepção do tempo como nomeia Santo Agostinho. A narrativa necessita de
eventos, de intervalos entre os eventos e do envolvimento com eles porquê o tempo
depende da natureza, da direção das vivências, que no limite da viagem é pouco
expressivo, embora possamos, como fizemos, tratar de outros trânsitos.
Agora, a narrativa da chegada fecha o ciclo. Se antes havia uma vaga
pré-noção da emigração, agora a realidade se afirma pela impossibilidade de voltar
atrás. Atrás é muito longe, está no passado, já foi. Resta o aqui, o agora e o futuro.
Agora é uma circularidade na narração moranesa. Chegar está pregado na
volta a Morano que é o início de tudo para os moraneses. Da suas vidas concretas,
lançam, enfim, a narrativa que lhes diz quem são. O que estava danificado na
mínima moralia agora solda o tempo mítico, o tempo histórico e o tempo cronológico.
0
Chegar, para Angelina, Calvino e Rama que se ocupam da representação
sobre as cidades, é confrontrar a cidade entre o que se imaginou, antes de
conhecê-la e a vivência da experiência.
Angelina imaginou Porto Alegre apenas não escreveu sobre ela. Pode falar e
fala. Conta como as notícias que chegavam a Morano mobilizavam sua vontade de
partir, chegar logo. O narrador mesmo foi Luis, seu irmão. Na entrevista, este é
mencionado com reverência. Afinal, é o desbravador, o que ampara a trajetória de
Angelina e sua família, o que irá distribuir conselhos aos sobrinhos. O que dá início à
cadeia imigratória.
A recomposição da diáspora familiar ocorre na medida em que Luis escreve
para a família contando da cidade e das oportunidades que aqui se encontram.
Acende o imaginário de Angelina “vocês vem pra que é uma maravilha. Ele dizia
para o meu pai: ‘você vai durar 10 anos a mais’ ”. Tais descrições constituem o
fundo de realidade que fizeram com que sem conhecer o Brasil, Angelina tecesse o
país:
[...] a expectativa era aquela alegria de sair de minha terra e chegar na
Mérica. Mérica... E, cheguei aqui e, graças a Deus e gostei muito, a alegria
de vir era maior do que a de deixar, tanto que me naturalizei brasileira em
1970. Olha, para me naturalizar brasileira é renunciar a pátria, (riso) e
renunciei, por quê? Porquê aqui me encontrei melhor, a gente cresceu por
tudo.
Os anos 30 são de restrição da migração na Europa. Luis, o irmão de
Angelina, precisa fazer mais para solicitar a vinda dos familiares. Progressivamente
a política da migração torna-se restritiva também no Brasil e estabelece a exigência
de outros quesitos para haver a permissão da migração de familiares. E assim ele
procede.
Para o entrevistador, Luis é apenas “aquele que está sentado na fotografia de
família”. Mas o estranhamento passa rápido, à medida que a narrativa desenha o
1
perfil desse irmão.
Conceição, a filha de Angelina, força a memória anterior a esse tio “meu avô
contava, porquê ele chegou aqui em 1800, ele contava que tinha ido primeiro para o
Uruguai, mas como ele foi para o Uruguai, eu não me lembro dele contar essas
histórias”.
Angelina relembra como foram duros esses anos. Pouco comentados, fazem
parte do acervo traumático familiar:
[...] depois o meu irmão também, morava perto do Capitólio, quem chegava
primeiro botava a panela no fogo...Aquela fotografia...Eram todos homens,
uns solteiros. eles vieram pra melhorar de vida. não tinha nada,
antigamente. Não precisava chamar, [o ato de Chamada] quando meu
irmão veio, em 24, o meu pai mandou fazer o passaporte, pagou a
passagem para cá, ele veio, não precisava nem chamar. Eu me lembro dele
contar que não tinha luz na rua, os bondes puxados por burro, e que eles
moravam no seminário”.
Delmar, o genro de Angelina, cujo pai chegara no mesmo período, anui: “ah
passavam trabalho também. O que chegava primeiro, acendia o fogareiro à
querosene”. Este seminário ficava junto à atual Catedral Metropolitana e funcionava
como uma pensão para jovens imigrantes solteiros.
A expressão “passava trabalho também” é uma analogia com a imigração
colonial do Rio Grande do Sul, amplamente narrada pela historiografia. Uma
odisséia urbana também tem seu valor, quererá dizer Delmar?
Outra é a narrativa de Angelina que ainda está maravilhada com a chegada,
como esteve durante a viagem de navio e toda a expectativa de vir para a América.
Outra cidade sem ser idêntica a de seu irmão, é descrita. Prenuncia seu novo estilo
de vida, onde a dificuldade com a língua é transponível:
Achei maravilhoso. O meu irmão mais velho foi me buscar em Rio Grande.
Aqui se usava chapéu, em 36, e o meu irmão não queria que eu
desembarcasse aqui em Porto Alegre sem chapéu. Daí ele procurou uma
chapelaria, era domingo, mas procurou, achou, comprou o chapéu. Achei
2
maravilhoso, desembarcar de chapéu. Porquê lá na minha terra era só
aquela gente finíssima, de alta que tinha chapéu. Eu cheguei no primeiro dia
aqui com chapéu, eu me sentia a mais rica, claro, moça...(risos).[...] [circular
na cidade]. Foi um pouco difícil... eu ia comprar uma coisa e não sabia dizer
em português. Então quando ia comprar, por exemplo, a primeira vez que
fui comprar pressão. Ah eu quero aquele que faz assim...”Pessão”, pronto
entrou na cabeça “pressão” [botões de segurança de blusas
femininas].Querosene, não é petróleo, queria um litro de petróleo,
querosene, pronto, querosene. Fiz até o terceiro ano na Itália. E falando, ah,
eu trabalhei no armazém e depois do armazém, colégio, aprendi o
português porque a gente era obrigado a falar. O pessoal pedia as coisas,
coisa fácil, arroz e feijão. Mas, fui aprendendo, na prática. Tinha vinte e três
anos, quando comecei no armazém e trabalhei doze anos, até os trinta e
cinco anos.
Chegar é sempre em local provisório, junto aos parentes, entre eles, está o tio
Salvador que será necessário nessa narrativa. “Quando cheguei em Porto Alegre fui
para a casa do meu irmão, na Lima e Silva”. casar envolve estabelecer-se,
mudar “depois me casei e fui para Santana. Depois fui para a Glória, onde estou
desde 1939, até agora”.
Os tempos de chegada são os da sociabilidade dos anos 30 no meio cultural
de Porto Alegre. Para uma jovem, vinda de Morano, nem todas práticas culturais e
sociais são permitidas. “Havia o cinema no qual o tio Salvador nos levava muito a
passear. Baile não, nem se falava, nós não costumávamos, não tínhamos aquele
hábito. [...]. Teatro, quando tinha um teatrinho. E muita visita, patrícios, nós íamos lá,
eles vinham aqui, festas da família”.
Sempre em tom de festa, a prática religiosa é vivenciada como
desdobramento da sociabilidade do estrangeiro na cidade: “Sou Católica Apostólica
Romana. Na Itália freqüentava muito à igreja e aqui continuei. Assim como
participava das festividades da igreja, todas”. Enfatiza “todas”.
A narrativa do viver em Porto Alegre nos anos 30, da mulher imigrante traz a
afetividade associada à constituição da família onde um novo status está para ser
constituído. Para as moranesas, implica casamento com moranes. E trabalho, muito
trabalho nestes primeiros anos. Saborosamente, conta fazendo brilhar seus olhos
3
claros:
[...] casei com vinte e dois anos mesmo. Com vinte e três, ganhei ela
[Conceição]. Depois que cheguei aqui, em seis meses arranjei namorado, o
Salvador, foi muito fácil. Era de lá, conhecia de vista, de bom dia e boa
tarde. quando cheguei aqui, ele foi buscar um pacote que a mãe dele
mandou por mim, era costume. E ele foi buscar o pacotinho. Depois quando
ele foi embora até me depreciou. Era tão bonita
quando
tava na Itália,
agora depois da viagem... E depois de seis meses ele veio me comprar
[comprar?] Até foi gozado. Deixou-me com 17 anos lá. Cheguei aqui um
pouco desfigurada. [Explica Conceição: “eles se conheciam, era amigo do
irmão dela]. E depois no nosso tempo namoro era por recado. Não era
namoro como hoje. Mas naquela época pelo menos eu, casei a gosto do
meu pai. Mas tu gostavas do rapaz, mas meu pai não gostava e eu não
casava. A gente obedecia aos pais antigamente (risos) Casei, tive filhos,
sempre trabalhando. Depois que nasceu o segundo filho, não mais. Eu tinha
trinta e seis anos quando eu tive o Salvador. Era muito esperta. Analfabeta,
mas esperta de não ter muitos filhos.
Além da chegada em si, do trabalho, do casamento a sociabilidade das
sociedades italianas. Da sociedade que os italianos fundaram em 28 de janeiro de
1924, a Sociedade Italiana Moraneses Unidos, ninguém lembra, mesmo quando
mostramos o recorte de jornal:
Antes de nós chegarmos aqui, existia a sociedade Dante Alighieri [...]
naquela época quando fundaram a Sociedade Italiana os moraneses
ajudaram na construção. Naquela época eram mais unidos do que hoje
[freqüentava ?] Só a Sociedade Italiana, nessa sociedade italiana que existe
até hoje meu marido, Salvador Ferraro foi conselheiro. Após os anos
cinqüenta, depois do armazém ele começou a freqüentar os jantares, as
datas comemorativas.
A cidade pluriétnica não rompe a sociabilidade seletiva. Mesmo no conjunto
dos italianos de Porto Alegre preserva-se a distância e, com os não-italianos,
estrangeiros ou não, restam as relações comerciais “ia muito alemão e com o papai
ia muito judeu, o próprio comércio ajuda”.
Começamos a compreender o significado moranesi uniti. Diz Conceição:
“eram muito unidos, entre eles, eram mais os moraneses”.
4
A sensação que vai impondo-se é a de uma cidade dentro da outra.
Estimulada por sua vivência, Conceição, nascida em Porto Alegre, tem uma visão
mais aguda que a própria Angelina desse estar-junto dos moraneses que povoaram
sua infância e juventude. São “eles”, os moraneses, na sua gramática social.
ressentimentos, é verdade. Há uma fresta por ser brasileira, que ela consegue
absorver até certo ponto. O que já foi uma vitória pessoal:
[...] quando a gente fazia uma festa convidava todo mundo. Quando ela [a
mãe ] casou aqui tinha trezentas pessoas. Mas a festa era só nós, os
patrícios, italianos e de Morano. [Por hipótese, quando uma pessoa não era
de Morano, como era recebida] Eu acho que os italianos do norte não eram
muito bem recebidos. Inclusive na Sociedade Italiana. Isso foi sempre
assim. Quando era presidente alguém do norte da Itália, eles não gostavam
da base italiana do sul. Quando era da base italiana do norte, o presidente,
falava o gramatical. Quando nós nos juntávamos, era o dialeto, então ficava
uma mistura. Até hoje quando chega um moranes, se fala em dialeto[os
italianos do norte são quase como se fosse outro país]. É, eu acho que
havia, não sei, se não há uma rivalidade. Mas os do norte fundaram juntos a
Sociedade Italiana. No início eram os moraneses como colaboradores,
pela placa que tem [origens da distinção]. Olha eu acho que os italianos
até por sobrenomes, foram fortes em Porto Alegre. A separação que tem
aqui é reflexo da separação que havia lá: o norte é mais politizado, mais
empresas, no sul há mais agricultores.[...]. A gente não tinha contato com os
italianos do norte, na geração do meu irmão, as sociedades são algumas
a mais, nunca freqüentei. E os moraneses criaram as filhas muito fechadas,
poucas estudavam, eu estudei porquê me rebelei, fiz o Normal. Não
queriam que andasse na rua. Eu sei que da minha geração tem poucas que
estudaram. Nunca exerci, porquê casei em seguida, infelizmente. Foram
duas coisas que eu acho que marcou, poucas estudaram, apenas tiravam
primário. Os moraneses achavam que a filha mulher tinha que aprender a
costurar e cozinhar. Não tinha baile nada. E eu me rebelei, queria. Um tio
meu, me ajudou, por que as filhas dele estudaram e tiraram faculdade. Uma
se formou professora de línguas, outra de canto. Ele valorizava e deixava.
Poucas guiavam automóvel. As filhas de moraneses não podiam nem ir até
esquina. Não deixavam nada [temor] Que os rapazes pegassem elas para
que não engravidassem. A maioria casava com os moraneses.
[comparando com os de Morano] Agora elass tão bem modernizadas.
Conceição absorveu certo estranhamento em relação aos moraneses. Atua
como intérprete na entrevista, afinal estamos tratando do que ela conhece desde
sempre, porquê nasceu e viveu em Porto Alegre. Sobre ser moranes
[...] o que distingue é a tradição, a culinária que é impressionante pelo
pessoal de Caxias, os casamentos e a língua que não deixam de falar. E
procuram estarem unidos, nas tristezas e nas festas. A gente que os
5
brasileiros notam essa união em missa de sétimo dia.
Angelina diz: “eu procurei sempre de melhorar, em tudo”. Não apenas ela,
pois a alta freqüência, desde o início do culo XX, de sobrenomes italianos em
qualquer indicador social de Porto Alegre, conta da forte presença italiana na
cidade.
Para Conceição “dá para gente pensar que aqui predominam os italianos do
sul” que superaram as barreiras lingüísticas como e quando podiam, segundo ela:
Não freqüentavam os cursos, aprendiam no comércio e na força de
vontade, para trabalhar, é bem fácil. Eu tinha 9 anos quando um tio meu
veio e foi fácil...Nós temos moraneses antigos que vieram assim como ela,
que se destacaram no comércio. Meu pai teve armazém primeiro, aqui na
Glória, depois foi para a Azenha, perto do campo do Grêmio, e depois foi
para o Centro, com uma casa lotérica, que é uma das coisas mais
marcantes
entre os moraneses. muitos açougueiros época],
armazéns, restaurantes, poucos, como o Copacabana do primo dela], o
Célia Irmãos (tecidos).Para mim a pessoa que mais se destacou e que já foi
homenageada foi o Feoli, da Cambial. O Feoli, depois do Célia Irmãos, foi
ele, que teve seis ou sete lojas. Ele se destacou, veio vindo pequenininho. E
depois os açougueiros, pessoal de mercado, mas isso é uma nova leva.
A identidade étnica é controvertida e a sociabilidade é pautada por ela.
Angelina quando voltou a Meca, digo, a Morano, o foi como brasileira ou
moranesa e sim, como americana:
É por isso que a gente se naturalizou brasileiro. Não sou italiana, aqui sou
brasileira. Quando a gente vai e chamam de “americaaaaaano” [a última
vez foi quatorze anos] para mim foi sempre bom
porquê
tenho parente
lá. A primeira vez foi em 62. Que nunca pensava que ia, porquê não
pensava que ia voltar. Mas quando cheguei, a primeira vez, tive uma
sensação extraordinária, aqueles vizinhos, tudo me arrodeando ... Sabe o
filme da Lolobrigida, quando a Lolobrigida chega numa cidadezinha e todos
arrodearam ela? foi assim que me senti, umas cem pessoas todas: como
vai, como vai, ah te conheço? Naquela época era difícil, por isso quando
chegava um americano era assim, eles chamavam americano. Lá de volta à
Itália, imagina o que era a curiosidade, como se vestia, tudo isso era
observado.[E essa diferença de ser da América Latina, distingüiam?]. Não.
E estava a irmã do meu marido. Então enquanto eu estive lá, parece
mentira, um mês eu não saí de lá, recebendo visitas, tal qual a mãe dele,
6
que recebia um irmão da América, havia visitas também da vizinhança.
Conceição ilustra que em Porto Alegre a visitação ainda é cultivada:
[...] só para comparares, ela fez uma cirurgia em maio, até uns quinze dias
atrás e recebia visita, a casa quase nunca estava vazia. [temas de
conversação] Assunto de família, não se fala de economia. É alguma coisa
que acontece com os amigos. Um pouco com os da minha idade e em
menor escala com os mais moços. A turma dela [de Angelina] é a que mais
visita, da idade dela [Conceição] poucos, a maioria com sessenta,
setenta anos.
Angelina acrescenta: “as filhas duma amiga também vem, pouco mas vem,
mas são as mais velhas”. Angelina tem um atributo extra: conhece os apelidos,
nomes próprios de família e da da comunidade. Chegando a Morano se tratam
através dos apelidos nas visitações.
Conceição lembra de como viveu esta sociabilidade na cidade dos anos 30:
Tenho a lembrança alegre de que todos os domingos eles se visitavam,
marcou minha infância, pegava dois bondes, voltava dormindo.
Aquele
convívio, todos os domingos, não família mas os amigos também. Então
sinto saudade daquele tempo. Aquela geração da minha idade, a gente se
perdeu. Aquela amizade era uma festa, um tocava gaita e todo mundo
dançava tarantella.
Nem tudo foram flores. No início da década de 40 haveria a definitiva
interdição da língua estrangeira. Como o moranes aprendia primeiro o dialeto e
depois o italiano se a escola propiciar, a narrativa é truncada. Angelina sombreia os
olhos:
[...] olha, aquela época foi um pouco ruim, não se podia falar o italiano. Mas
como tinha pessoa velha que nunca aprendeu a falar brasileiro, quando se
encontravam falavam em moranese. Naquela época, dois estavam na praça
da Matriz, parlando moranese prenderam os dois!Aí o filho dele disse: mas
como foram prender! Ó cristo, vão prender alguém que não sabe falar
[português]. Aquilo foi uma piada mesmo!
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Conceição tinha medo: “eu tinha muito medo, eu era criança e via eles
falarem que tinham muito medo. Aquilo causou um trauma. Eles tinham medo de
perder as coisas, ter uma casa tirada, eu sentia no meu pai. Até pouco antes de
morrer, ele sempre teve medo”.
A narrativa do moranes deixa claro que o centro da afirmação do grupo na
cidade de Porto Alegre, nos anos 20 em diante, foi a vida econômica mas com muita
energia dispensada na manutenção dos laços comunitários.
A estratificação social decorrente das posições diferenciadas na estrutura
social não provocou dano nos laços comunitários dessas gerações. Entre danos e
perdas, Angelina dá o veredictun: “Melhor aqui. Isso é engraçado! Nós virmos de lá e
trabalhar no comércio aqui, já foi uma grande coisa”.
“Muitos que vieram também trabalharam com o marido”, acrescenta
Conceição [acumulação do capital inicial]. Dinheiro emprestado dos que
tinham vindo antes. O meu avô vendia frutas de balaio. Mas logo que eles
chegaram, faziam isso prá aprender a andar na cidade. Até se perdiam
porque, lógico, para quem vinha de uma cidadezinha, Porto Alegre era
uma cidade grande.
“Todo mundo fez o futuro”, soma Angelina [cidade italiana é próxima da área
agrícola, então mesmo o agricultor tem uma experiência urbana] e caminhando
bastante sim, porque a agricultura deles o era na cidade, não tinha nada. Aparece
o morro daqui [a foto de Morano] aquilo lá, não ia de auto, a pé. Lá, eles tinham
que caminhar cinco quilômetros. Na minha época nós íamos a pé, cinco horas de
caminhada.
Angelina sempre arrojada, aprendeu a dirigir aos sessenta anos, é uma
viajante ainda. Atribui a sua personalidade o sucesso no partir, transitar e chegar
porquê esses eventos estão continuamente reconfigurando sua narrativa. Onde está
seu lugar? No modo de ser no espaço social que ela e tantos outros, como ela,
construíram entre Porto Alegre e Morano-Calabro.
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Para Antonio Bianchimano, chegar em Porto Alegre foi em 1949 aos vinte e
quatro anos. Apenas quando termina a Segunda Guerra Mundial tenta vir para a
América. Seu tio envia-lhe o Ato de Chamada. Chega como pedreiro, sendo
sapateiro. Diz isso com certa indignação porquê na Itália jamais aceitou ser pedreiro.
Trabalhou um ano com um mestre e aprendeu a falar um pouco. Parlando, parlando
se aprende um pouquinho. Antonio comenta:
As pessoas vindas da Argentina, cada uma, coitada daquela gente, todos
analfabetos, não reconhecendo letra de bonde, não sabiam ler, com a força de
vontade.
Retomamos do ponto em que chama a esposa, em 1958:
[...] la mia signora. Era casado ma no era casado... Eu tinha vinte e quatro,
a minha esposa vinte e sete, vinte e poucos anos. Naquela época
trabalhava a base do caderno, fazia um fiado. [empréstimos dos parentes
para montar negócio] Não tinha essas coisas. Eu comprei uma casa na
Venâncio Aires, eu e o meu amigo Salvatore. Trabalhamos quase 30 anos.
Compramos sapatos colegiais. Naquela época não era como agora, que
cada um escolhe um sapato, era de um modelo. Depois abrimos uma
loja grande, três mil pares de sapatos. Depois me aposentei. Primeiro
começamos na Casa Masson.
Filomena Aita, “vizinha, quase da família”, chegou de Morano em 1946,
esperada pelo pai que estava aqui desde 1936. Teve uma chegada emocionada em
Santos. Só conseguia ver seu pai.
Estar em Porto Alegre era estar com seu pai, sua mãe, a família que a
Grande Guerra separou, enfim reunida.
Vindo de Morano para Porto Alegre, foi um contraste, nós chegamos e
fomos para a terra do campo do Grêmio. Me chamou um pouquinho
assim a atenção que achamos uma casa de madeira, sentimos um pouco
aquilo lá, não estava acostumada. Em Morano era tudo pedra. [A língua] Ah,
eu fui para o colégio, fui para a escola, estudei um pouco no Colégio da
Glória. Mas sabe queisso é interessante? Veio o meu avô, meu avô
mandou buscar minha avó, mandaram buscar meu pai, “uma roda”, mas por
quê? E dizem assim. Muita gente em Morano tinha uma idéia que se iria
ao Brasil e para Porto Alegre. Não sei se para levar uma vida melhor, mas
naquela época para todo mundo era difícil. Mas como vinha todo mundo prá
9
deveria ser melhor aqui. E talvez uma influência de um para o outro.
Claro, é que eles falavam que iam fazer a vida. E no início sem saber falar
português. Sim eu acho que passaram muito trabalho, os primeiros que
chegaram aqui. Uma pessoa que vinha para a América dependia de que
alguém escrevesse por ela. Era tudo analfabeto, a maioria. [lembra o filme
“Central do Brasil “?e Filomena concorda]. Depois não é mais como
antigamente, agora os filhos estão estudando se fazendo advogado. em
Morano tinha aquela época até o 5. o ano, depois tinha que sair, ir à
Castrovilari, era 7 km, 15 minutos. Para estudar acho que em Nápoles, mas
naquela época ninguém estudava.
A impressão da cidade revela grande contraste, eis que, em Morano,
predominava a utilização de pedras, enquanto em Porto Alegre, afora o perímetro
central, predominava a alvenaria.
A sociabilidade foi na Sociedade Italiana e, mais recentemente, na Sociedade
Calabresa que tem 10 anos de fundação.
Diz Antônio Bianchimano: “Apesar de tudo, quando nos juntamos estamos
contentíssimos. Cada um se chama diferente. Todos se conhecem por apelido.
Perue se chiada um chocha”.
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Filomena confirma:
Tu chegas lá em Morano e pergunta pela Aita, ninguém sabe, mas pergunta
pelo Domenico (seu marido), todo mundo sabe. Mas a italianidade continua
a manter distinções [contatos com italianos do norte]. Muito pouco, mais a
gente é calabres.[...] É, mas é mais entre nós mesmos [diferença entre as
sociedades]. É que a Calabresa é fundada por calabres, primeiro, na rua
Botafogo, depois na Medianeira e, depois, foi para lá, na Olavo Bilac. O
Dante de Laytano, historiador, escreveu sobre isso.
Mais uma vez o rádio está presente na comunicação dos grupos de italianos
radicados em Porto Alegre e, em outras cidades de forte presença de imigrantes
italianos. Lembra Antonio: ”Há o Carmine Motta que está sempre presente, uma
pessoa maravilhosa. Apresenta todos domingos, das oito e meia até as nove e meia,
o programa La Domenica Italiana”.
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Perguntamos sobre o trabalho de reconstituição histórica, como situar a
Società Moranesi Uniti, Filomena se manifesta: “acho maravilhoso, por quê queo?
Sobre a Moranesi Uniti, de 1924, eu mesma não conheço. Que fim levou?”. É um
mistério tanto quanto os primeiros a chegar em Porto Alegre, pontos obscuros de
uma narrativa que está se fazendo ainda.
Historicamente, também é interessante observar, através das gerações, o
comportamento das mulheres moranesas “de lá” e “de o qual enseja
comparações:
Mas por quê? alguma mulher se sente mais italiana que brasileira? Não é
complicado. Eu tenho a impressão que algumas se sentem mais ligadas a
Itália. Claro, uma pessoa de mais idade continua com a cabeça antiga, mas
a mocidade está
muito
moderna, [na Itália] às vezes até pior que aqui. Aqui
já misturou tudo. Isso [casamento apenas entre moraneses] era. Agora
já é uma outra juventude. E agora estão todos se separando...
Antonio o está interessado em avaliar o comportamento de geração, o que
entende é de sociabilidade. Ele convida:
No primeiro domingo de cada mês o salão é requisitado para a festa dos
moraneses em Porto Alegre. E depois vamos fazer a Festa da Nossa
Senhora do Carmo. I moranese son tutti viti. Em Morano, na festa da
Madona Del Carmo, a maior festa que em Morano e, agora, o padre
daqui foi à festa. E quando a Madona chegou na praça, o padre falou, “que
beleza, quantos moraneses de Porto Alegre estão aqui?”. E todos se
levantaram! Muitos, muitos ficaram contentes.No mês de maio
[reverenciam] eu tenho uma réplica da estátua, da Madona Del Carmo.
Antonio entende de sociabilidade: lendo a matéria do Correio do Povo de 19
de março de 1996, ri e confirma a notícia:
Um “Parlamento Italiano em Porto Alegre.” mais de dez anos, todas as
manhãs, das 10h30min, às 11h30min, no primeiro andar da galeria Masson,
um grupo de italianos se reúne para discutir os mais variados assuntos,
principalmente sobre as novidades da Itália e futebol. É o “Parlamento
Italiano”. A característica do grupo: seus integrantes são
oriundos
da
vecchia Itália e todos são aposentados, que desfrutam uma hora diária,
inclusive nos sábados, neste “clube do bolinha”. Outra: a maioria é do grupo
calabrês. O patriarca do “Parlamento” é Luigi Santi, de oitenta e três anos,
1
que veio com dezesete anos para o Brasil. As histórias do grupo são muitas.
Na sua maioria, vieram para o Brasil na época da Guerra quando o Cime,
órgão que tratava da imigração de italianos para o exterior, facilitou a vinda
daqueles que tinham familiares aqui. Muitos desses italianos integrantes do
“Parlamento” vieram jovens, constituíram família, abriram seu próprio
negócio e hoje se reúnem para falar daquele tempo, das mudanças e
progresso da Itália. Uma única recomendação eles têm; “falta informação da
Itália”, as notícias conseguidas são transmitidas por familiares que
ficaram. Não um órgão que possibilite o conhecimento dos fatos. “Os
jornais quando divulgam alguma coisa, publicam dados errados”, diz Sansi.
[Hoje a RAI].Em clima de amizade e confraternizão, o “Parlamento
Italiano” tem normas, entre elas, não falar de política. Faz parte do estatuto
do grupo, os dois únicos artigos: aquele que entra na confraria, na primeira
vez não paga o cafezinho e quem está de aniversário, paga a rodada.
Na atualidade, o “Parlamento” se denomina Nossa Senhora do Carmo -turma
do cafezinho e está na Galeria Chaves. É composto pela quase totalidade do grupo
de 1986, mais alguns novos integrantes. São eles: Fedele Arona , Carmine Severino,
Michele Tavaniello, Francesco Anele, Leonardo Scorza, Gaspare Bruno, Giovane
Arona, Genaro Feoli, Domenico Vitola, Pasqualino Morelli, Antonio Severino, Hugo
Vieira, Carmine Di Martino, José Bado Gulart, Carmine Marrone, Leonardo Aita,
Carmine Sanzi, Francesco Barletta, Zelmar Leonardelli, Rui Barbosa, Ele (Antonio
Bianchimano), Francesco Vitola. O mais novo, nascido no ano de 1953, o mais
velho, nascido em 1915, segundo Antonio que, por essas e outras atividades, é
conhecido como “xerife da Botafogo”.
Em contrapartida, a animosidade para com o estrangeiro foi vivida
diretamente por Antonio e Filomena. Antonio apresta-se a dizer “eu sou
naturalizado”. Como Angelina, Antonio terá concordado com a naturalização por
força da atividade econômica e do resíduo das guerras, desfavorável aos italianos e
alemães. Filomena não optou pela naturalização e seus negócios não foram
afetados, talvez, por ser adulta nos anos em que diluição da xenofobia, quando
montou seu negócio de bazar. Mas de menina recorda Filomena:
Quanto ao período de proibição da língua] Eles não podiam falar, tal qual
ocorria com papai na Argentina. Eu me lembro em São Paulo, no Balestra
Itália não podia mais jogar, a luz tinha que apagar. Alguns até esqueceram
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dessas memórias, mas o medo foi grande.
Dalva Demartino chegou em Porto Alegre em 1955, sua casa era no centro,
tinha duas casas, uma quase em frente ao edifício Capitólio, que agora tem o edifício
Dalva, cujo terreno o pai dera “para essas companhias construtoras”.
[...] aos quatorze anos, fui estudar no Colégio Sevigné. [adaptação,
educação].Continuou italiana. Na época era como era para todos os
valores: não podia sair de casa, não se podia chegar em casa muito tarde.
Mas podia ter amizades no colégio. Eu procurava sempre a essas alturas
me entrosar aqui, porquê já que eu tenho que viver aqui, tenho que
conhecer também as coisas daqui meus coleguinhas, as turmas. Assim que
eles iam dormir na casa de uma, de outra, isso eu não podia fazer, que a
mãe não deixava. E a vida continua? Sempre nos dizendo para a gente se
cuidar, a parte mais bonita, aquela história que casando, tinha que ser pura
[entre namoro e casamento] Demorou sim, bastante. Tinha um namorado e
depois não deu certo e, de repente, uma noite fomos em uma reunião
dançante. Nós íamos muito à reunião dançante com os colegas. Eu tinha
mais ou menos a mesma idade que o meu filho tem hoje. Nós tínhamos
muita amizade e nós íamos dançar na Faculdade de Engenharia, que
começava às nove horas e terminava à meia-noite, uma hora. Então quer
dizer que aquele círculo de amizade foi se formando cada vez mais
[aprendizado da língua]. como tenho dito, sempre procurei aprender, fiz
questão. Tinha dificuldades sim, mas aos pouquinhos eu lia em voz alta
para ver se eu conseguia [professor particular?] E aí não precisou de
professor particular nem nada, fui aprendendo a conversação. Depois a
convivência diária com a língua, né? É claro que até hoje não tenho
pronúncia exata como eu gostaria, mas procurei sempre [ser professora de
italiano] Bom, o caso de ser professora eu tive uma boa base de italiano e
começou com aulas particulares, com o pessoal: “ah, tu me ensina italiano?”
Isso na Demétrio, por brincadeira. Então, desde mocinha a gente cantava
junto, conhecia um pouco de gramática [sociabilidade, casamento e família]
Sempre ótima, até hoje. Sempre teve amizade da Dalva com todo mundo
que me conhece, o pessoal que eu conheço no relacionamento não tem
problema nenhum. Eu conheci meu marido no Dino Dasan, uma sociedade
italiana, depois, casei aos 29 anos [trabalho e cuidados de filha] eu estava
em casa porquê a minha mãe começou a ficar doente. Eu era a última filha
porquê a outra minha irmã, quando nós chegamos, em seguida encontrou
um rapaz que era de Morano, então quer dizer, a caçula fica em casa
cuidando do pai e da mãe. Nesse intermédio nós estávamos na casa da
minha irmã esperando o pai que não vinha nunca e ele tinha sido atropelado
e foi então que eu não sabia. Mãe doente, o pai também, e fui então cuidar
deles [aulas] às vezes, sim, às vezes não, depois como eu disse, casei
tive dois filhos, um tem trinta e três anos e, o outro trinta e cinco. Um tirou
Faculdade de Engenharia, depois foi tirar em Salvador Engenharia
Petrolífera e está na Petrobrás... está em Macari. O outro filho se formou
em Veterinária e está aqui, em Porto Alegre.
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A utilização da língua italiana oscila entre o período de interdição e a fase
pujante da cultura italiana, nos anos cinqüenta.
[...] tinha um curso que ia ter, ia começar as aulas de italiano e eu fiz um
teste, pelo Cultural Italiano, me chamaram e tudo
começou
. Vai fazer dez
anos que estou com eles e também minhas aulas particulares continuam. E
tem muita procura. Quando cheguei era mais aquela curiosidade de saber e
aquele interesse em conhecer algo então perguntavam para mim, eram
muitos italianos e filhos de italianos. Isso na época daquele realismo e dos
filmes italianos, ai meus Deus, aqueles artistas, aquela coisa toda que o
pessoal se encantava. Quer dizer, havia aquela curiosidade. E começou:
“como é a música, o cinema. O Festival de San Remo era transmitido, tinhs
aquelas canções bonitas.
Mas o desconhecimento da língua remete à sombria época da interdição:
[...] porquê tinha tido aquela parte assim durante a guerra que não podia
falar italiano e os pais até proibiam os filhos. O pai contava assim que não
podia falar, sequer se reunir. Até ele contou uma coisa assim: era sete de
setembro e havia a Feira da Pátria com o desfile na João Pessoa, que
agora é na Perimetral. Então, faz muito tempo, meu pai diz que estava
com um senhor, um amigo dele e estavam falando italiano, chegou um
policial que disse: “Gringo sujo”, falando nessa língua horrorosa, “vão ser
presos”. Daí disseram: “um momentinho, eu vou dizer que neste
momento estou falando com esse senhor idoso que não entende muito bem
o
português
, então estava dizendo da beleza do desfile”, ao que o policial
respondeu: “Dessa vez, tudo bem, mas estamos de olho em vocês”. Não sei
se eles tinham medo, não, ele se livrou de ser preso. O meu tio teve oito
dias ou mais preso. Ele era muito amigo do Caldas Junior, do Correio do
Povo, diz que meu tio era barbeiro dele. Eles eram muito amigos, faziam
janta juntos. Quando ele ficou sabendo, pela barbearia fechada, o que
aconteceu, tomou providências. Então era verdade. Não se falava, ninguém
escutava música. Desde que o Brasil entrou na guerra contra a Itália,
Alemanha e Japão, começou o medo de represálias. E, depois, o pai que
contava que os pracinhas que foram pra lá, brasileiros de todo mundo,
contavam que foram muito bem tratados. Eles diziam para a família fomos
tratados muito bem”. No começo àquela coisa: bom, nós tratamos esses
daqui bem e os nossos lá, são bem tratados”. Começou a mudar a
mentalidade mais nessa época. Não é que um povo seja ruim, é o que
acontece quando o sentimento de ódio toma conta e se discute muito.
Os italianos moraneses que pertenciam à elite de italianos de Porto Alegre
freqüentavam espaços sociais prestigiados:
Meu pai e esse tio contavam que eles iam à sociedade porquê eram da elite
dos italianos porto-alegrenses. Reuniam-se quando era Natal, festa ou
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Reveillon, todos na confeitaria Rocco que era famosíssima. Ele é quem
construiu o maravilhoso prédio que agora foi tombado. O pai nem ia tanto
que ele era reservado, não era muito de festa, mas meu tio sim. Esse tio era
barbeiro, dono da Barbearia Roma que ficava na Rua da Praia. Não existe
mais. Trabalhou até ter um enfarte. Outro tio, o Leão, irmão da minha mãe,
também tinha barbearia, dava banhos, tinham suas banheiras. Essa
barbearia era no antigo Grande Hotel que era famosíssimo. Tio Leão se
dava muito com o dono do Grande Hotel [essa elite animava a vida cultural]
O Teatro São Pedro, as óperas vinham sempre, vinha companhia da
Argentina que traziam as montagens, então eles tinham uma vida ativa
culturalmente. E havia o Instituto Dante Alighieri que era um pouco de tudo:
escola, sociedade e instituto. Era aqui na Duque, se não me engano.
Dalva tem uma foto para mostrar, a de família, onde está o tio paterno que
praticava bocha e freqüentava o Prado. Prado?, dizia o tio [que não era onde está
agora], era lá que os homens se combinavam as turmas.
O lugar social da sociabilidade das mulheres:
Era em casa, com minha mãe e a irmã mais velha. Então nos fins de
semana quando a gente estava na Demétrio, todos perguntavam se tinha
festa. Porquê todos os parentes iam visitar a mãe e o pai. E os homens iam
jogar carta e a mãe preparava comidas assim. Isso amenizava um pouco
aquela saudade da terra, porquê todo mundo falava em italiano.
A formação de leitores se dava em Porto Alegre, como a de seu pai, o qual
teve ainda, o convívio com o grupo da editora Globo, com o Henrique Bertazo,
descendente dos italianos do norte:
É isso aí, meu pai tinha essas idéias, muito inteligente. Era um filósofo [lia]
O Correio do Povo era o melhor meio de
comunicação
[o jornal italiano
demorava pra chegar, vinha de Buenos Aires] Adorava rádio, depois que
veio a rádio foi a principal coisa para falar português [leitura] Ele lia muito.
Acho que eu puxei dele, eu não sei o por quê, eu adoro ler. E ele tinha esse
hábito, me deixou essa herança. Dizia: a leitura abre muitas portas, viajas
com a imaginação”. Lia-se de tudo.
O espaço social da cultura nos anos 20/30, em Porto Alegre, segundo Dalva
são os meridionais porquê:
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[...] os que criaram a parte social foram os do sul, as confeitarias. Mas todo
o comércio atual, todos eles são de filhos de meridionais, hoje são médicos
engenheiros, arquitetos. Eles lutaram para dar aos filhos condições para o
que eles queriam ser. Eles se projetaram nos filhos. Todos os que aqui
chegaram: “o que não deu para eu ser, o meu filho vai ser. E conseguiram.
Mesmo aqui entre os italianos havia, como até hoje, essa discriminação
nortexsul. Com muito pesar. Tu como é imigrante veio pra deixastes a
tua terra, que é do norte, como eu deixei a do sul. Outra coisa que acho, a
Itália do norte sempre foi a mais privilegiada no ponto de vista de indústrias,
de comércio, devido aos governos. Isso porque a casa Savóia, a casa real
era toda de cima [separação] É, mas isso não acontece, depois de tanta
luta para a unificação italiana, de repente vem um louco [aquele louco
deve ser Mussolini].. Quem acha bom é uma pena. É uma parte feia do
povo. O caso é que se sentem superiores. Pode ser que tenham
superioridade, mas não inteligência, porquê o povo do sul é muito
inteligente, filosófico, mais ligado às humanidades, àquela tradição latina.
Eu tive uma colega, que depois de fazer um curso em Peruggia,
[Universidade para estrangeiros de Perugia] fiquei dois meses. A própria
Associação Italiana promove os cursos seus professores, alunos. -Eu fiquei
com uma vontade de conhecer o sul, ela disse.-‘olha, eu termino o curso e
me toco prá lá, se tu quiseres vir... -Mas como é que vai ser? -Olha a gente
vê.-Mas eu não posso ir agora. –Por que? - Porque agora eu tenho que
visitar uns parente. - Tu sabes que ela veio, ficou encantada, não deixaram
ela ir em hotel nenhum...tanto na Sicília como lá. -Meu Deus, meus parente
no norte não me deram a mínima...Ela se encantou .[cultura dos
meridionais] É uma coisa antiga. no Norte eles tinham indústria, fábrica
e, no sul era mais assim, na faixa agrícola. Então eles acham que é um
povo que não tinha cultura.
Conclui Dalva:
[...] eu acho assim, da minha parte, que eu me entroso como todo mundo.
Eu acho assim que um pedaço da Itália está aqui, eu estou dentro da Itália,
seja do norte, do sul, ou do centro.[brasileiros, amizades] Eu sempre quis,
fiz questão de estar no meio deles. Eu sou gaúcha, adoro essa terra.
Chegar para Carmine em Porto Alegre foi em 1961. Tem hoje da cidade uma
avaliação similar aos demais entrevistados: mescla de pertencimento de gauchismo,
brasilidade e italianidade, verdadeiro caleidoscópio da matriz de sua significação no
espaço social de Porto Alegre.
[...] como cidade, é uma cidade bem organizada em relação a muitas
cidades italianas, com uma infra-estrutura boa. O único problema são os
cinturões de miséria que estão no
entorno
da cidade. Esse sim é um
problema que não tem nada a ver com as cidades italianas. Mesmo que
tenha, é de uma forma diferente, isto que eu vejo. Agora, como organização
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a cidade é bem organizada. Culturalmente é uma cidade com atividade
cultural bastante elevada. O povo de Porto Alegre tem alto percentual de
cultura. São poucas as pessoas assim. Quando se vai a outro lugar,
destacam-se os porto-alegrenses, os gaúchos. Uma ocasião estava na
praia em Santa Catarina e observei o comportamento de uma pessoa. Eu a
cumprimentei. “Sou gaúcho, disse a pessoa. Só podia ser“, disse eu. E esta
impressão não é só minha. Vieram para cá alguns amigos meus da Itália. E
eles tiveram a mesma sensação “mas aqui parece uma cidade européia!”
Em que sentido? Até no comportamento das pessoas, nas atividades
culturais. Por exemplo, teatro, uma cidade que tem orquestra sinfônica,
diversos museus, não apenas fisicamente, mas teatro que funciona. No
fundo eu sou um homem feliz porquê brasileiro, particularmente, no Rio
Grande do Sul porquê conheço melhor e me adaptei, convivo e me sinto
mais gaúcho que brasileiro. Claro, norte, nordeste, conheço muito pouco,
não significa que não tem nada a ver. Mas com o Rio Grande do Sul tem
muito a ver. Então este vínculo com o Rio Grande do Sul, o Brasil deixou
me tornar um brasileiro, um gaúcho, sem me tirar àquela identidade cultural.
Continuo a ser o italiano que eu sou. E isso é muito bom. E assim que
deveria ser um o povo, nunca deveriam tirar a sua identidade, o que seria
uma violência com a pessoa, isso permaneceria. Aconteceu na época nos
Estados Unidos e em outros países, mas aqueles que são italianos,
continuam italianos, quem é judeu continua judeu, brasileiro é brasileiro.
Uma coisa agora, aquele brasileiro que migra, vai tirar a identidade? Ao
contrário, continua brasileiro, tem que ser respeitado como tal. Ele pode ser
integrado, mas não tirar a identidade, não.
Carmine, como sabemos, já veio com a profissão de alfaiate e segue na
profissão. É proprietário, juntamente com sua mulher, da Loja Vestire, moda
feminina, masculina, infantil e alfaiataria, na Venâncio Aires.
Os primeiros passos para a competência lingüística que hoje demonstra,
Carmine como os demais, atribui ao mundo do trabalho:
[...] já no início comecei a trabalhar com brasileiros e normalmente os outros
patrícios que vinham trabalhavam com outro italiano, então não se
esforçavam em aprender. E eu não, desde o primeiro dia eu já comecei a
trabalhar com pessoas com as quase eu tinha que me esforçar para
aprender. Então às vezes dava um problema, mas a leitura ajudava, o rádio
principalmente. Eu vou te contar uma coisa assim. Eu sou alfaiate, desde
que eu vim em sessenta e um, quando eu comecei a trabalhar. No início eu
trabalhei numa empresa da Renner, até poder trabalhar por conta própria. A
partir daí eu comprei um rádio, um rádio desses de válvula. Eu sempre fui fã
da Rádio Guaíba com o pessoal da Rádio, eu tive sempre boas informações
e também aprendi o linguajar bem falado, por escutar todo o dia. E a minha
profissão me essa vantagem de trabalhar e escutar.Quando trabalhava
na empresa, é claro que eu não podia. Até vou te contar uma historinha.
Quando, logo que fui trabalhar na empresa, na Itália o pessoal canta,
trabalhando (risos) aí comecei a trabalhar e a cantar. E veio o dono, o chefe
da seção: “- Italiano, não dá para cantar. - Ora, por quê, qual é o problema?
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- Não para cantar porquê o vizinho não gosta.” Não tinha coragem de
dizer porquê não se usava, sei por quê. E ele disse que era o vizinho e
aqui não dá nem para cantar (risos).[Além do Rádio]. Em geral leitura,
jornal, geralmente Correio do Povo, Folha da Tarde. Naquela época para
conseguir um jornal italiano era difícil, não era como hoje para conseguir um
jornal italiano. Tinha uma loja de jornais na Vittorino. Eu comprava um jornal
que chegava atrasado. Era o Domenica Del Corriere que vinha com um mês
de atraso. Rádio, televisão, dificilmente havia alguma coisa. Hoje não.
Temos a RAI em casa, a NET
Carmine muito cedo se deu conta das sutilezas culturais que deveria
observar, se quisesse circular com desenvoltura na cidade. As notícias, a imagem
que tinha de Porto Alegre, não lhe deram uma noção da cidade neste nível.
Relembramos suas palavras:
[...] eu não imaginava uma cidade tão grande, imaginava uma cidade
menor. Mas também não uma cidade pequena, por quê? Essa cidade desde
o inicio do século teve uma ligação entre os porto-alegrenses e os
moraneses, diversas famílias vieram para aqui [seria como viver na Itália] eu
imaginava isso, eu imaginei, mas na realidade quando cheguei aqui vi que
não era isto, vi que não era bem assim. Ao contrário, eu encontrei uma
cidade completamente diferente de como se vivia na Itália. Do sistema, dos
costumes, até a forma de brincar com as pessoas. Uma coisa é conviver
dentro de uma comunidade italiana, outra coisa é com a comunidade
porto-alegrense, é completamente diferente. Então havia, eu tive que me
reciclar, me adaptar, fazer um novo toraggio detodo esse tempo que eu
tinha pensado, enfim, que era completamente diferente. Mas isso é uma
questão de tempo: com o tempo é que a gente vai adquirindo os costumes,
a cultura da própria cidade, entende? e tu devagarito começa a te comportar
como portoalegrense depois. Mas isso no início dá um choque.
Com relação ao domínio da língua do país de recepção, Carmine afirma:
Nunca se integra, dificilmente se integra ao ambiente [mensagens na
linguagem] que ele não capta. Sobrevive, mas fica fora do cntexto sócio
cultural do meio que o acolheu. Nasce, vem e morre e ele fica sempre fora.
Isso aconteceu com diversos de nossos conterrâneos que vieram com
pouca instrução e talvez sem nada. Eles tiveram que manter sempre aquele
invetre entre as famílias deles mesmos. A própria sociedade
porto-alegrense não deixou. Porto-alegrense, ou brasileira, ou qualquer
outra sociedade, fica difícil para tu entrares, entende? Tem-se que tem que
dominar o idioma.O meio lingüístico, então fica difícil para um e para outro,
para o cara te entender e para tu entender ele.
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Carmine comenta sua experiência de ser italiano:
Dependendo do meio afastava ou não. No meio do trabalho, havia este
problema: o cara era rejeitado, um pouco era, não digo descriminado, havia
uma certa diferença. Não sei, talvez porquê vinha de fora. Não sei, talvez
porquê, no meio de trabalho, as pessoas não eram pessoas de uma cultura
elevada, não é ? Tinham uma média cultura para baixa então, sentiam que
a pessoa que estava entrando no mercado de trabalho deles estava
competindo [competição] então, criava, às vezes, umas desavenças, uns
obstáculos. Mas, no meio desses, sempre tinha alguém que te acolhia muito
bem, que te respeitava. Foi bem diferente de quando eu comecei a trabalhar
por conta, ao abrir meu ateliê. O dia que eu comecei a trabalhar com uma
faixa de pessoas de cultura mais elevada, então havia mais respeito do que
com àquelas pessoas que eram de cultura mais baixa. As pessoas te
respeitavam, te admiravam, foi diferente a coisa, ao ofício e à pessoa.
Porquê a pessoa de cultura, ela sabia que tu vinha de um meio cultural, de
um país, enfim, que era de uma cultura milenar e que tinha tradição. E além
disso, nós todos - vou falar até em nome dos outros- o imigrante em si é
uma pessoa que até se submete. É submisso, um pouco. Então essa
submissão depende de como é vista. Se, é vista por uma pessoa
inteligente, culta, ele como uma pessoa que tem que ser respeitada.
Agora, se é visto por uma pessoa inculta, diz o cara: um cara qualquer".
Depende da forma, do ângulo como é visto este cidadão. De qualquer
forma, no início é sempre problemático. O maior problema é o idioma. Que
tu não conhecendo o sistema, que tu não conhecendo o sistema da cidade,
das pessoas, dos costumes, tu às vezes tu te choca até uma brincadeira. Tu
brinca de uma forma que às vezes é ofensiva para uma outra pessoa. Ou
vice-versa, a pessoa está brincando contigo e tu está pensando que ela
te ofendendo e tu não está entendendo que é uma brincadeira.
A transitoriedade do imigrante reflete-se na provisoridade da moradia. Até
conseguir se estabelecer o estrangeiro percorre lugares em Porto Alegre. Enfim, se
fixa em um espaço, como Angelina, Antônio, Filomena, Dalva. Carmine conta sua
experiência:
Quando eu vim para cá, meu irmão tinha um negócio na Vigário José
Ignácio, na parte de cima. E nós morávamos lá. Mas logo depois que eu
cheguei, meu irmão tinha comprado um apartamento que estava em
construção na Octávio Correa e fomos morar lá. Poucos meses depois
vieram meus pais e fomos morar na Venâncio Aires. Então sempre morei na
Venâncio Aires. Sempre nesta área da cidade. E agora estou morando na
Lima e Silva [as transformações urbanas desde os anos sessenta] Toda
essa transformação da cidade desde a época de adolescente, no auge da
Rua da Praia, aos domingos, às cinco horas, tinha mais ou menos vinte ou
trinta rapazes na base da minha idade, nos juntávamos na Praça da
Alfândega para esperar a saída do cinema. Que dizer, nós, por sermos
jovens começamos a viver com outros jovens de Porto Alegre.
Freqüentávamos os mesmo lugares que os jovens porto-alegrenses, a
Reitoria, a Casa dos Estudantes, para dançar, a Casa de Portugal, sei lá,
9
essas sociedades, essas mesmas que nós, os jovens na época
freqüentávamos.
O problema de ser estrangeiro, do ponto de vista do estranhamento social,
afora o mundo do trabalho onde dominam as relações competitivas, é fator de
interesse, novidade e curiosidade.
[discriminação] não, não. Nunca teve esse problema, ao
contrário
: sempre
até com as meninas nos fazíamos sucesso por sermos Italianos. Casei com
italiana, mas que veio pequena de lá”.
Práticas de leitura de um jovem estrangeiro:
Não lia, aos dezenove anos, logo na vinda a Porto Alegre o que era
acessível não era a literatura mais profunda. Normalmente lia jornais e
revistas. A Revista Globo era uma revista que lia toda semana na casa do
meu irmão, tinha outra revista que eu comprava muito que era Cruzeiro e
assim a gente começou. Mas hoje, por exemplo, quando tenho tempo para
ler, continuo a ler a literatura italiana para não perder o hábito. Porquê
mesmo que a gente se integre, se adapte, viva e conviva, aquela formação
inicial, aquela continua sendo fundamental, porquê aos 19 anos se é um
adulto.
Fazendo um cômputo, Carmine pode ser considerado um intelectual orgânico
da comunidade moranesa. Pondera a trajetória dos meridionais no espaço social de
Porto Alegre:
Atuação política não, mas em campo acadêmico e cultural. Não apenas
cultural. Política, diretamente, não. Na comunidade italiana de Porto Alegre
são poucos na política, recém que começaram, como Luiz Vicente Dutra, no
início. Bertazzo, fundador da editora Globo, era um oásis de inteligência
vinha de um cepo cultural [mas não era moranes e nem escreve sobre os
italianos urbanos]. Também há outro fato, normalmente o italiano, a primeira
geração, ele tem um pouco de medo de descrever e de se colocar e de falar
a sua origem, porquê, normalmente, essa é pobre e dramática. Então ele
faz de tudo nesse ponto para ocultar e se adaptar bem aos valores: “eu sou
brasileiro agora, eu tenho a minha vida, tudo bem.” Normalmente, dos
que tem uma profissão, uma atividade econômica poucos tem a coragem de
contar. Eu sou um cara diferente, porque eu me realizei mas não posso
esquecer aquilo que me valoriza, aquele passado na Calábria, a minha
saída. Eu conto pra meus filhos a minha história: como foi e como não foi.
Eu acho isso uma valorização, mas tem pessoas que não, que ocultam. Não
constróem a mesma história que chegam aqui e não sabem de mais
V0
nada, não se lembram de mais nada. Ocultam e por quê? E o filho? Esse é
um fato interessante dentro da comunidade dos calabreses de Porto Alegre,
quer dizer as outras comunidades italianas que vieram pra tiveram de
passar três, quatro gerações para que os filhos pudessem ser colocados
dentro da comunidade como pessoas de um certo nível. Os primeiros, o pai
era camponês, agricultor e o filho se tornou agricultor, o neto continuou
agricultor da quarta geração. Na quarta, às vezes na terceira geração
começaram a surgirem médicos. Na comunidade calabresa, na primeira
geração, a caraterística profissional é diferente, os filhos não desempenham
a mesma atividade dos pais, necessariamente. Dentro da cidade, um filho
de calabreses, se o pai fosse bilheteiro nem sempre o filho o seria; se o pai
fosse sapateiro, dificilmente o filho também seria sapateiro, poderia ser
médico ou engenheiro. Então, era uma classe intelectual sem capacidade
para produzir uma literatura, uma sociedade não organizada para o poder. A
guerra atrapalhou um pouco também. Então não tiveram capacidade de
colocar a história real para que ela fosse vista pelos filhos como uma coisa
importante vinda do pai, ao contrário. E também porque no meio social o
cara levantou vôo muito alto, já de primeira. Então o filho que se forma, o
pai dele é pessoa simples, o cara que tem açougue, o cara que trabalha no
comercinho. De repente, o filho se torna um médico famoso ou um
engenheiro que começa a freqüentar a alta sociedade porto-alegrense,
atrapalha o pai ser açougueiro, a origem do pai. É uma coisa natural. Então
se ele consegue ocultar dentro da família, ele é um tipo. Dentro da
sociedade é outro, por que ali convive com outros doutores e os outros
doutores são filhos de pessoas ilustres. É, são pessoas de certo nível
social, então ele se atrapalha um pouco. E nesses últimos anos nós
resgatamos, ... dez ou onze anos para começamos a resgatar. E
começaram a aparecer os intelectuais. Esse é um trabalho também que a
Núncia, professora Núncia teve uma participação importante. E outra
professora que faleceu, Maria Feoli Guaragna, em 1986 nós tivemos o
Encontro de Estudos sobre a presença calabresa em Porto Alegre.
Justamente para quê? Dar à classe intelectual desses calabreses motivos
para começar a participar. Começar a vir para a comunidade. O que é que
acontecia? O cara chegava a ser importante e se afastava da comunidade,
vivia a vida dele; aquele outro, mais um aqui, outro ali, em separado.
Enquanto que, se aquele que participava da comunidade tivesse puxado um
pouquinho o outro, teria sido mais fácil a integração. O fato cultural mais
importante é que não tínhamos nada escrito até doze, quinze anos atrás,
nada. Hoje temos alguma coisa, por exemplo, intelectuais como o Doutor
Carlos Laytano que fez romances até sobre esta imigração calabresa de
Morano. É uma maturação. É verdade, dentro da imigração, normalmente, o
filho quer ocultar, o neto quer desvendar. Uma vez eu estava em Caxias,
em uma palestra da professora Vitaliana Frosi que estava dizendo uma
coisa certa: “antes nós tínhamos vergonha de sermos filho de colonos, hoje
nos orgulhamos de sermos filhos dos pioneiros”, não é? Essa é a historia da
emigração, complexa, dramática no fim, mas ela te experiência de vida,
um enriquecimento que se tu não tivesse sido imigrante, não tivesse tido
nunca esse conhecimento pela convivência com outras raças complemente
diferentes. Claro, como eu disse, no inicio dramático, aquele negócio da
família, dos amigos, isso tudo de começar tudo de novo. Mas depois tem
isso ...
Suspendemos nossa narrativa neste ponto. Não muito a acrescentar.
V1
Podemos interpretar, isso sim. Busquemos uma interpretação que seja uma síntese
dessas vidas narradas. Impossível, mas na condição da comunicação que conclui a
tese, sinalizamos algumas considerações específicas da fala da situação de
entrevista.
Iniciemos com a mais genuína das entrevistas, no sentido de sua
estrangeiridade nos anos 30. Na narrativa de Angelina aparece o modo como
educou sua sociabilidade na coexistência entre iguais, em família. Ela, como uma
senhorita de seu tempo, teve sua sociabilidade restrita ao espaço exclusivo da
sociabilidade do grupo, caracterizado por reuniões e casamentos endógenos. Nesse
estar junto, circulam os relatos orais e escritos de pais, tios sobre a cidade de
Morano e a nova cidade que estão decifrando. Essa decifração redunda num lugar
assegurado, onde o grupo se vê e é visto, outro aspecto da sociabilidade urbana.
Tanta confiança não cabe na “Cidade de Pedra” e na “Cidade de Carne”,
onde circulou, no seu dialeto aportuguesado, mas suficiente para as trocas
econômicas que permitiram a constituição da sua vida de adulta e a fundação de seu
clã familiar.
Quando chega na moderna cidade de Porto Alegre, apreciava tudo, guindada
ao melhor do estilo de vida das jovens da elite de sua Morano. Chega dando
continuidade à cadeia emigratória que caracteriza a emigração urbana. Seu irmão,
que mandara chamar toda família, é “jovem de visão”, está na década de 20,
havendo-se com as metáforas da cidade que utilizamos, a de carne, a de pedra, e a
do espírito.
Seu tio é o conselheiro do grupo, o “bancoque empresta os capitais iniciais
para os pequenos negócios. Educa sua prole dentro das exigências da
modernidade.
Esse tio é o protótipo do italiano moderno, certamente te freqüentado os
espaços de sociabilidade étnica ou cosmopolita, é um italiano adulto de sua época.
V2
Terá visto nas sociedades italianas o mesmo que “os de fora”: espaço de
convivência da cultura italiana, o senso de pertencimento ao segundo grupo,
numericamente, mais importante da cidade cosmopolita, seguindo os alemães.
Ainda que sua adesão tenha sido disputada pelo discurso fascista, não se terá
deixado conquistar totalmente. Em autodefesa, os moraneses se autodefinem como
apolíticos. Fiquemos com a afirmação.
A filha de Angelina, Conceição, como a e, foi criada nos moldes da
educação dos italianos do sul, muita família, pouco estranhamento. Seu marido,
Delmar, adquiriu o senso do pertencimento moranes quando convive na família de
Angelina, pois seus pais mantinham um casamento misto, onde o dialeto e as
tradições moranesas não eram cultivadas.
Antônio chega nos anos 40, atingido em cheio pelas austeridades do
Estado-Novo de Getúlio Vargas. Em Porto Alegre está seu tio, que manda chamá-lo.
Seu sócio e amigo, Domenico, é o primeiro moranes a chegar em Porto Alegre
depois da segunda guerra e é casado com Filomena.
Filomena orbita, como tantos, entre Morano que deixou também nos anos 40
e retornou a ver, como os demais, em idade adulta e a vida feita no Brasil, em Porto
Alegre. Veio acossada pela crise italiana de guerra. E sua emoção ao chegar foi a de
reencontrar seu pai. Seus filhos têm idéia de se estabelecer na Itália moderna, como
grande parte da terceira geração, portadores do passaporte italiano.
Antônio quer esquecer os episódios ruins da vida na Calábria e nos
primeiros tempos de Brasil. Quer presentificar uma vida feliz e cercada do convívio
que ele mesmo e outros criaram, o “parlamento” moranes. A tônica da vida de
Antônio é o seu presente, as festas da padroeira Nossa Senhora do Carmo, o dia do
nhoque, um tipo de pasta italiana, comemorado a cada fim de mês.
Dalva também chega nos anos 40, em tempo de usufruir uma vida confortável
V3
que seu pai constrói sozinho desde os anos 20. Chega desconhecendo este pai que
a imigração e, depois a guerra, separara. Seu pai teve um estilo pessoal, “livre
pensador”, sobrevive só na cidade.
Ele e seu tio, irmão do pai, viveram a sociabilidade das sociedades italianas, a
vida cultural de Porto Alegre, o Palacete Rocco. Caldas Junior libera seu tio da
prisão por falar italiano em Porto Alegre, à época de Getúlio Vargas; é amigo de
Bertazzo da Editora Globo. Essa freqüentação social ampliada do pai, mais a
abertura social para um comportamento autônomo da mulher, possibilitaram nos
anos 50 uma juventude de estudos e uma sociabilidade não restrita aos moraneses.
Vai morar na Itália com a família que constituiu no Brasil, mas volta e ensina a língua
italiana até hoje.
Carmine é o imigrante dos anos 60, embora seu avô estivesse em Porto
Alegre desde 1910, aproximadamente, quando retorna para a Itália e luta na guerra
de 1914.
Entre seu avô e ele, duas guerras onde a Itália saí destroçada. Emigrar já não
é aquela aventura do século XIX. Logo que pode, participa da vida social dos
moraneses, articula entre moraneses a realização do gemellaggio entre Porto Alegre
e Morano-Calabro.
Trabalha em prol da representação social dos moraneses em Porto Alegre e,
destes, em Morano. A visibilidade desse papel está no gemellaggio comemorado em
outubro de 2002, quando a cidade recepciona o sindaco e autoridades de Morano,
promovendo várias atividades de integração na comunidade.
Seus filhos, formados, aprenderam a língua italiana e Carmine pode, enfim
sugerir os grandes nomes da literatura italiana ignorada por muitos moraneses. Está
surgindo a camada de intelectuais para contar a história dos moraneses e fazer
narrativa literária.
659
V4
Carmine, como os demais, lamenta a existência de sociedade italianas que
pulverizam os italianos da cidade, em 2003, tal como nos séculos anteriores.
Reproduz-se entre as sociedades, o fato genuíno da peculiar formação histórica
italiana, a anterioridade do paese. É o aspecto regional, reforçado pelo processo de
unificação italiana que, a os dias atuais é responsável pelo desnível de
desenvolvimento interno.
Culturas que não se fundem, que mantêm a diferença, a qual foi a base da
principal estratégia de sobrevivência dos moraneses em Porto Alegre. A narrativa
que nos chega é o texto-narração da perspectiva moranesa da confluência que a
cidade engendra.
Finalizemos com Leed:
660
Uma comparação entre a força da viagem e aquela da erosão nos
processos geológicos pode ser oportuna: arranca o sedimento mais mole e
recente para esculpir e revelar ao mesmo tempo camadas mais antigas,
duras, de história, seja pessoal, seja cultural. As partidas evocam a primeira
separação da infância, o trânsito a primeira experiência de fuga e liberdade
física, as chegadas, a magia de um retorno ao início e o encontro da coesão
com o outro.[...] Mas a chegada da outra imagem da força da mobilidade,
porque nessa fase, tal força é reconhecível como produto, não da
dissociação e do distanciamento, mas da associação humana formada
mediante procedimentos de identificação e incorporamento que reiniciam ou
cancelam a identidade precedente.
Contrários à Leed, os moraneses o querem que, na chegada, se anule o
que os define: moraneses. Ao menos que a cidade de chegada seja, enfim, Morano,
unindo os tempos da narrativa: histórico, mítico e cronológico.
[...] que outra imagem completamente diferente da força da mobilidade,
porque nessa fase, tal força é reconhecível como
produto
, não da
dissociação e do distanciamento mas das associações humanas formadas
mediante procedimentos de identificação e incorporação que substituem ou
anulam identidades anteriores.
V5
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Essa tese trata de sonhos. Fazer, vencer, viver numa cidade, é a projeção de
um sonho. Os sonhos podem ser repetitivos, excepcionais, o deixarem lastro na
passagem do inconsciente para aquele momento da semi-vigília beijaminiana, ou
podemos nos recordar dos fragmentos num sentido quase racional.
O surrealismo fez a estética e a escola do sonho. Quando o fez, a promessa
iluminista de progresso e superioridade da razão humana estava desassossegada
com a extensão da guerra européia de 1914-1918.
Entre 1920 e 1937 os moraneses em Porto Alegre, recém-chegados ou
instalados, manifestavam indícios da sua conquista na cidade, através da tradução,
da transposição, da decifração e da comunicação de si mesmos de modo muito
singular. o impor-se a partir da sua diferença para se manterem iguais. A força da
integração e appartenenza sociale, é o que os tornou um grupo com forte identidade.
Suas narrativas terão contribuído para isso proporcionando-lhes um senso de
autovalorização pessoal e social.
Como fração dos grupos de imigrantes em geral, sua narrativa sobre a cidade
foi possível sob condições históricas e sociais favoráveis, que não foi o caso da
conjuntura da pesquisa histórica, espremida entre guerras e com o processo de
instalação do Estado Novo no Brasil.
A historiografia, a história oral e os jornais trazem as modalidades narrativas
mais importantes da presença italiana em Porto Alegre. Os moraneses foram
espreitados no caudal dessa presença, uma vez que importava percebê-los em
V7
contato com a cidade, através dos demais italianos. Quando nos demos conta, eles
estavam na cidade, entre 1920 e 1937, de modo mais expressivo que as estatísticas
induzem a pensar.
A migração está na fala dos entrevistados, nas lacunas e no resultado da
interdição da língua. Todos têm um silêncio para contar, pois como narrativizar sem
a língua-mãe? Onde buscar a tradução dos sentimentos mais profundos, senão
naquelas palavras que aprendemos por puro ensaio, erro ou emulação no
meio-ambiente. Sentimentos e representações intraduzíveis. Para poder falar,
partiram. Mas, aqui irão suspender novamente a narrativa, após 1937, por ironia da
História.
Talvez o pesadelo da guerra tenha desfeito a fronteira entre os estados de
consciência dessa geração de 1920 e 1937, bem como daquilo que a humanidade
poderia e fez ao longo dos tempos. E, que alguns transformaram em feitos gloriosos,
coisas das quais as gerações futuras devam se orgulhar.
Esse é o material da heróica história do imigrante que é recontada com
reverência, pouca linearidade e sem muita exatidão factual pelos descendentes. Não
importa. Memórias, cartas, relatos têm a tendecialidade esperada e desejável. A
grande História trilha o caminho da prova, do inquérito, não importa, ambas são
pontos de vistas que confluem.
E a memória, seja patrimonial, seja imaterial, não falamos impropriamente em
“resgate” histórico, a todo hora? Buscar algo que está em algum lugar,
cristalizado, à espera de interesses e sensibilidades. Tudo para congelar novamente
na escritura.
A narrativa, a história oral, o jornal, os impressos acadêmicos ou
memorialistas, a literatura, os folhetos e os folhetins, sons e imagens, todos estão
sempre remoendo materiais, memórias, falas que um dia serão história. Fundo de
história do que já foi vida palpitando, trabalho morto, como diz Marx, “pedras”
V8
revividas pelo trabalho humano.
O estrangeiro quando se acerca de uma cidade está entrando no sonho dos
que o antecederam. Como fantasma, deve decifrar novos códigos, novos
dispositivos. Mas o o faz como alma despida de capacidade de significação e de
representação. Busca no seu ser um meio de comunicação com esta exterioridade,
até torná-la parte de seu próprio repertório.
De tanto embaralhar as referências, produz um novo significado, aquele que
lhe permite suportar e superar o “eu que se foi para sempre. É o ônus do
distanciamento, uma nova perspectiva é elaborada, independente de seu apego a
uma pretensa identidade.
O estrangeiro descobre que é imigrante quando os demais lhe mostram,
sistematicamente, que ele não é dali, podendo ali estar, no máximo por alguma
conveniência do grupo ou do lugar. Mas é da ordem pragmática. Basta um passo em
falso e esta condição provisória e condescendente lhe é retirada.
Pode até ficar sem sua língua, aquela por onde a vida adquire a possibilidade
de comunicação humana e social. Constitui-se em tribos para sobreviver. A afinidade
no novo lugar, com pessoas que talvez nem tomasse conhecimento no lugar da
appartenenza é condição vital. Não é o caso dos moraneses, evidentemente, mas de
tantos outros imigrantes que não tem essa rede ao seu dispor. Aliás, modernamente,
o que é muito comum.
Precisa de trabalho, de casa, de comida. Necessita de algum lazer, amor,
sexo, família, quem sabe alguma religião e arte. Participar da vida da Polis? Apenas
quando convidado, por enquanto é massa anômica e anônima. A qualquer momento
pode ser mandado embora, com a roupa do corpo. A derrota total, mas não havia
publicado que só voltaria vitorioso?
Precisa apoderar-se da cidade que não é sua, tornar-se o imprescindível
V9
quanto os donos do lugar. Mas precisa fazê-lo pela diferença e, não por ser igual a
eles. Mostrar-lhes um novo modo de viver a cidade, mostrar inovação, que vai
metamorfosear como tradição do lugar de onde veio e, quem sabe, nem tinha
acesso à terra, à culinária e à cultura letrada.
Para participar da fundação da anima da cidade, precisa fazer com que os
donos da memória do lugar abram a guarda. Polifonia, sim, mas sob controle. A
cidade importante sempre foi polifônica, mas alguns encobrem esta multiplicidade e
controlam uma narrativa totalizadora e totalitária. O estrangeiro às vezes, sequer
pode falar a sua língua, quanto mais fazer literatura, que é mais abrangente que
fazer historiografia, ou sociologia.
Buscamos na Tese reescrever um certo clima de época. Fazer uma seleção
de materiais cujo resultado conquistasse uma possibilidade de abertura às
interpretações. O que seria dado ao estrangeiro dispor em Porto Alegre entre os
anos de 1920 e 1937, tentemos nos situar como se pudéssemos estar
acompanhando seus passos e participando de suas decisões.
O jornal Correio do Povo, entre 1920 e 1937, permitiu a interpretação da
gramática convencional da comunicação, respondendo o quê, por quê, como e para
quem da narração, além de estabelecer os narradores. Foi muito útil e até,
imprescindível para a elaboração da Tese.
O jornal e seus fragmentos considerados como corpus, nesse momento, mais
do que os fatos em si, que são igualmente narrativas, foram encaminhando à
pesquisa histórica, além de trazerem o tempero da época, com seus adjetivos e sua
tentativa de neutralidade profissional.
Por quê a narrativa literária de Porto Alegre não conteve o estrangeiro, mas o
fez em outro tempo histórico, tornou-se uma questão mais emuladora, deixando
passar o narrativizável nos espaços de vida e morte da cidade.
I0
Escolhemos o grupo de moraneses para ser o detetive do inquérito. Através
deste detetive, procuramos os rastros, como ensina o filósofo Paul Ricoeur e
historiadores interessados em perspectivismo, como Ginsburg, bom leitor de Edgar
Allan Poe.
A metáfora da viagem do estrangeiro devemos à Eric Leed.
A concepção do trabalho com a narrativa de imigrantes exigiu, para um
melhor entendimento, o capítulo um que é mais uma comunicação da estratégia
reflexiva adotada no decorrer da pesquisa do que um trajeto teórico-historiográfico
sobre a narrativa e a história.
O estrangeiro teria sido assimilado pela cidade que o recebeu? Pensamos
que não, pelo menos no sentido convencional, pois seria considerar ausente a
relação dialógica da interação humana. Ao contrário, a pesquisa revelou, que entre
1920 e 1937, os grupos de italianos na cidade de Porto Alegre buscavam afirmar-se,
deixando transparecer as diferenças que traziam. Inovação é civilização sim,
concordam os sequiosos de novidades.
A narrativa recolhe desses dramas de imigrantes, as rgulas, os pontos, as
interrogações e as exclamações de um enredo irônico. Na atuação em história oral,
o entrevistado interioriza o olhar para acessar este enredo que o está lá. Ele e o
pesquisador fazem, juntos, o “entelhamento”. É trabalho de memória, sim, mas
também da linguagem que a enforma. Os silêncios, os risos, os gestos, o tom da voz
não passam para o texto escrito, mas o pesquisador que os intui ou percebe, busca
compreendê-los e interpretá-los no contexto da pesquisa, de tal modo que integram
a narrativa tanto quanto aquilo que é lançado no papel. É o trabalho vivo que revive
as “pedras”.
A narrativa não se faz sem a cumplicidade do pesquisador. Ela se finaliza em
frases que mais interrogam, como é próprio da oralidade fabular - sobre o antes,
que, quem sabe, poderia ter sido como modo de apaziguar o presente e pregar o
I1
futuro.
Percorremos a narrativa tradicional da migração. Percebemos que na
superfície, é como um conto de fadas. um desterro, uma mãe ou pai ou ambos,
malvados, que abandonam seus filhos à própria sorte. Os adultos admiradores de
histórias infantis, sem muita psicanálise para decifrar tais artefatos, vão entender
logo a analogia.
No caminho há muitos perigos e adversidades para testar o caráter e a
inteligência do herói. Ao final, sobrevive o mais astuto, o mais flexível, àquele que
melhor soube decifrar os sinais para daí, então, estabelecer estratégias.
Talvez, por isso, a narrativa da migração tenha sempre um “nós” e um “eu”
individualizado. Principalmente, se o contexto por onde o enredo se desdobra for o
urbano, a cidade. A cidade é, por si mesma, o altar da individualização. Vem-se para
a cidade para vencê-la. Não é relação amorosa como a daquele que sempre esteve
aqui, desde que se lembra de andar e se comunicar.
A melhor figura até hoje criada pelos pensadores sobre a cidade é que cada
cidade tem um anima, sendo o estrangeiro, o melhor preparado para percebê-lo.
Inclusive, porque tem o equipamento do estranhamento, os sentidos todos
aguçados. A percepção ainda não rotinizada, como a paixão humana existente no
início dos relacionamentos.
Não um depoimento pessoal ou biografia de escritor que não acentue o
distanciamento como condição ideal para melhor entender a si e aos outros e, por
extensão, a sua cidade.
O desterro e o exílio são as faces mais dramáticas do distanciamento porque
significam a exclusão absoluta, A interdição do imobilizado que um ser humano
possa atravessar, produz arte exatamente porque transborda o desejo da soldadura
com o partido: família, cidade, pátria. Por isso que a arte é filha do estranhamento e
I2
mãe da ligação.
A vitória sobre a cidade é a vitória sobre a cidade que teve que abandonar.
Mesmo que seja para encetar a aventura, mesmo que seja para constituir sua
epopéia pessoal. Quem migra, luta por deixar sua marca gloriosa de onde partiu
mesmo que não deixe traços na memória dos que ficaram, nem nas pedras por onde
passou.
A analogia com os contos de fadas se mantém porque quando “todos foram
felizes para sempre”, pode significar que os vazios foram preenchidos de alguma
forma, ao menos na narrativa.
No plano da epopéia, Ulisses quando retorna o é reconhecido pela mulher,
nem pelos filhos, volta mais desterrado do que quando partiu. Estes são os medos
do migrante, o esquecimento e o estranhamento dos que deixou para atrás.
Atualmente, temos a internet, as micro-câmeras, os celulares, há um novo tipo
de distanciamento. Antes da aceleração das comunicações quando a notícia
dependia da viagem de navio transoceânico e as cartas e as notícias eram tudo na
comunicação, a imaginação e o artesanato da memória também eram tudo no
pertencimento ao lugar.
Os moraneses permitiram que esta tese chegasse ao seu fim. Que é sempre
um recomeço. Mas, academicamente, é a conclusão de uma etapa na formação
profissional.
Esse grupo peculiar de italianos e seus descendentes, cidadãos de Porto
Alegre, cidade que comemorou o gemellaggio com Morano-Calabro; capital do
estado da nação Brasil, o mais meridional, talvez representem a cidade de um modo
mais profundo do que suas narrativas deixem entrever.
Não seriam os primeiros a estabelecer pontos em comum. Buccelli não
I3
comparara o clima de Porto Alegre ao da Itália, em sua visita à cidade, em 1906? E
no século anterior, não o fizera Arsène Isabelle.
A hermenêutica é o método da suspeita, no sentido de que algo está sempre
ali para ser decifrado, é a exigência também para o fazer-se histórico. Ligados pela
narrativa, soldando a hermenêutica à história e depois, muito depois, à escrita para
congelar a oralidade, como Ranciére estabelece.
A história de Porto Alegre, em cada época, tem sido reescrita pelos que têm
acesso a determinados meios privilegiados, tais como tempo, ócio criativo para olhar
para a cidade e pensar: Como foi? Como poderia ter sido? Como foi e nunca
saberemos? O que o historiador-escritor-memorialista faz é tecer de um lugar
assegurado, a trama real numa trama fictícia, porém plausível, verossímil.
Quando a visão brasileira, de Flora Süssekind e a visão norte-americana, de
Eric Leed se unem para afirmar que a expectativa sobre a narrativa do viajante, seja,
tanto da ordem do maravilhoso, quanto, da ordem da vida, do criticismo,
permitindo para a platéia-leitor a possibilidade do “acreditar-se-á?” não é pouca a
responsabilidade social do historiador.
O historiador é confrontado com as interpretações, as fragilidades e as
limitações de toda espécie de documentos (fidedignidade, veracidade, etc) e, ainda
assim ele quer contar a sua história, a sedução da História.
Com o mesmo prazer que ouvimos histórias infantis onde o final é feliz - para
os que praticam o bem - lemos, pesquisamos e queremos saber mais da “História”,
para confrontá-la com o passado que se foi, com o presente e com o futuro, o que
pode significar o fim do final feliz, porque afinal, estávamos todos nos enganando
mesmo.
No período, entre os anos de 1920 e 1937, percorrido pelo olhar histórico, os
protagonistas estavam exatamente como s, em desassossego. Se houve uma
I4
grande guerra, pode haver mais uma e a próxima. O Brasil é um lugar seguro, vive o
tempo da sua modernidade, está se abrindo para as novidades da tecnologia, por
quê não?
uma fluidez na sociedade brasileira que permite a ascensão econômica e
uma pergunta secundária sobre títulos de nobreza, como é próprio do discurso da
invenção da “América”.
Os europeus são valorizados pelo reservatório cultural que representam, são
pelo menos, portadores da civilização ocidental. Por quê não recebê-los bem? São
valorosos trabalhadores, não são? Afinal, isso é repetido à exaustão pelos
pensadores sociais do início do século, bem como pelos diversos atores sociais
diretamente interessados, quais sejam os empresários e os fazendeiros, as
empresas de navegação e emigração.
As considerações finais resumem o que foi ficando ao longo do caminho. A
produção de uma narrativa do estrangeiro, por ele mesmo, e sob seu ponto de vista
sobre a cidade.
Buscamos um roteiro, um drama contado na perspectiva de quem não é
daqui. O que alinhamos é o que Ricoeur chama de “entelhamento”, isto é, telhas
mesmo, umas sobre as outras dispostas a formar uma estrutura. O telhado cobre a
casa. A narrativa é o entelhamento da casa ou da vida vivida, que é contida pelo
telhado, mas quando ocorrem os vendavais, não é o telhado o primeiro a ser
atingido? E fica a casa, na maioria dos casos, a depender de sua estrutura física.
Quanto mais avançavamos na tese, buscando o porquê do quase total
encobrimento da narrativa do estrangeiro no período entre 1920-1937, deparávamos
com a estrutura da casa. Numa boa concepção dialética e dialógica, a linguagem
constrói o mundo, verbaliza e cria significado. Não é suporte desvalido de alma. A
escrita, mais que a linguagem, limita a linguagem viva, limita a oralidade. Apenas
para exemplificar, o que resta da narrativa dos entrevistados dessa tese, agora que
I5
é escrita? A interpretação do leitor, a reconfiguração. O que passou para a escrita,
do dialogismo de uma entrevista em história oral, a formulação do pensamento em
ato comunicativo, a memória estabelecendo o roteiro, as lacunas das áreas do
desprazer que não quer vir à tona?
A migração é sempre ruptura. A narrativa refaz a ruptura, ou melhor, faz o
“entelhamento” da ruptura. A casa que o entrevistado deixa aparente é aquela
contida pela possibilidade de ser narrativizável.
Quando o pesquisador edita uma entrevista, faz outro roteiro, de acordo com
o objetivo da pesquisa, agindo como agiria com qualquer documento, de modo a
garantir a objetividade no perspectivismo.
Vai para as demais fontes com a narrativa dos entrevistados martelando
perguntas, suspendendo a massa de escritas existentes. Sim, está diante de uma
outra perspectiva. Vai considerar ou vai totalizar na massa das demais escritas,
sempre cabe uma decisão, por vezes, de ordem historiográfica, por vezes da ordem
da eticidade.
Uma cidade narrada por um narrador autônomo das implicações acadêmicas
não é menos determinada por outros compromissos, o nos iludamos. Ela não está
aí em estado de fluidez da consciência. O emigrante é um sobrevivente e assim quer
parecer.
O texto-narração que formula, traz a gramática social que cabe ao
pesquisador, sim decodificar. sempre um eu, nós e os outros. Mas não vamos
pensar em fixidez, muita transitividade nos pronomes pessoais. Como no
conceito de etnia, por exemplo, que não passa de um constructo mantido quando e
onde interessa ao seu portador ou signatário.
As comemorações étnicas, fundacionais estão a serviço dessa dinâmica
social, que depois é simbólica. Não nos entendam incorretamente. Para alguém
I6
poder dizer eu sou, é necessário que os demais atuem como espelho ou
contra-referência, que estabeleçam a possibilidade da individuação. Então o
imigrante pode dizer eu sou. Não se nasce imigrante, fica-se, lembremo-nos da
analogia com Simone de Beauvoir.
Com exceção dos escritores John dos Passos, nos EUA e Borges, na
América Latina, os romancistas urbanos locais tardam a reconhecer a presença dos
imigrantes na cidade. O imigrante visto por ele mesmo irá transparecer apenas
quando ele produzir literariamente, o que, no Rio Grande do Sul, ocorrerá por volta
de 1960, aproximadamente.
Fala-se de resgate histórico. Mas, resgatar exatamente o que? Se o ir para a
memória é sempre a renovada construção de um roteiro inédito.
O roteiro da história dos imigrantes seguiu três temporalidades traumáticas:
partir, transitar e chegar à cidade de Porto Alegre, os quais ordenaram a disposição
formal da tese. As armadilhas desta lógica de exposição, ou demonstração, no
entanto, apresentraram-se desde a primeira entrevista. Os moraneses entrevistados
não funcionam assim. Levantaram uma dúvida paralizante: eles ou o imigrante em
geral atuam na mesma lógica e os estudos imigratórios, aos poucos, estão se dando
conta disso. Colocamos um entelhamento indevido nos trabalhos históricos, na
contra mão da identidade narrativa dos imigrantes, congelamos a vida contada e
remontada desde o presente?
Como Calvino em, “As cidades e o céu”, ao narrar que na cidade de Eudóxia
existe um tapete no qual a exata forma da cidade pode ser contemplada, uma vez
que ela se estende de modo pouco compreensível, “entre vielas tortuosas, escadas,
becos, casebres”. Mas que na primeira impressão não parece em nada com a
cidade. Mas que olhando atentamente, a cada ponto do tapete corresponde a um
ponto da cidade. As verdadeiras relações ... as quais se evadem aos olhos
distraídos pelo vaivém, pelos enxames, pela multidão. Quando tudo silencia, os
odores deixam de exalar e confundir, cessa toda perspectiva parcial ... o tapete
I7
prova que existe um ponto no qual a cidade mostra as suas verdadeiras proporções,
o esquema geométrico implícito nos mínimos detalhes.
O útil na existência desse tapete é que, se é fácil perder-se em Eudóxia, basta
observar o tapete para retomar a direção ... cada habitante de Eudóxia compara a
ordem imóvel do tapete a uma imagem sua da cidade, uma angústia sua e todos
podem encontrar, escondidas entre os arabescos, uma resposta à história de suas
vidas, às vicissitudes do destino.
Um oráculo foi interrogado para decifrar a estranha relação entre a cidade e o
tapete. “Um dos dois objetos - foi a resposta - tem a forma que os deuses deram ao
céu estrelado e às órbitas, nas quais os mundos giram; o outro é reflexo
aproximativo do primeiro, como todas as obras humanas”. Então, confirma-se o que
todos desconfiavam, diz Calvino, de que o desenho harmônico era de feitura divina.
E por outra interpretação “que o verdadeiro mapa do universo seja a cidade de
Eudóxia, assim como é, uma mancha que se estende sem forma, com ruas em
ziguezague, casas que na grande poeira desabam umas sobre as outras, incêndios,
gritos na multidão”.
A idéia é que possa existir um objeto que represente em detalhes, a totalidade
do universo. Mas que o universo possa ser ele, o caótico, repondo o dilema de
Galileu.
Esse objeto de representação permite ao homem situar-se no mundo e torna
possível mimetizar, fazer a representação simbólica do mundo.
Então, se a cidade é algo em movimento, ela pode ser representada como o
tapete de Eudóxia, sendo a relação entre o objeto e sua representação, um mistério
que somente um oráculo, o qual tem força sobrenatural, poderá esclarecer.
A narrativa é a tentativa humana de alcançar o oráculo, o local mais alto por
I8
onde se possam divisar os destinos inscritos nos céus.
Narrar a cidade é tentar ligá-la aos céus. Quem de nós, quando está perdido e
busca orientação, o olha para os céus? E, quem de nós, quando está desolado,
não anda cravando nas pedras da cidade, passos demarcando sua presença, ao
menos naquele breve contato?
O nômade, o andarilho, o viajante, o estrangeiro não pertencem àquelas
pedras, àquele lugar. Não sendo sedentários, esses tipos sociais sabem que outros
passos virão e, mais outros que encobrirão os seus. Para ser imigrante é preciso
imprimir nas pedras sua presença. É necessário decifrar o “tapete da cidade”, é
preciso fazer um “entelhamento” narrativo e questionar a narração onipotente dos
donos do lugar.
Isso leva tempo. Em Porto Alegre, foi preciso esperar o início da
metropolização da cidade. Quando os donos da palavra necessitaram negociar seu
centro com a narrativa que estava vindo das margens, das periferias, dos imigrantes,
dos estrangeiros, agora co-nacionais. Pura memória, quase nada mais de
testemunho, a não ser a cobertura infantil onírica do “ouvir dizer” e do “realmente”
vivido. É por essa razão que a narrativa de chegar em Porto Alegre abre a última
parte da Tese. As reminiscências estão lá, os protagonistas do período entre os
anos de 1920 e 1937, estão decifrando o tapete. Não narrativizaram. Não tinham
condições de simbolizar, precisavam sobreviver. Por isso a história oral é
insubstituível. Como mais reter o esforço da mimese que não gera escrita ?
Reprisemos a gica da descoberta, refaçamos o caminho. Queríamos buscar
nos diferentes momentos dos verbos do imigrante, partir, transitar e chegar, como as
diferentes fontes, orais e impressas, colocaram em perspectiva e fabularam este
transe. Nas entrevistas em história oral, os entrevistados fizeram um relato da
retenção da memória social e coletiva sobre os verbos partir, transitar e chegar à
Porto Alegre, desde o ponto de sua trajetória presente. Ao se narrarem, não o
fizeram de modo isolado do contexto social e histórico. Ao contrário, todos aqueles
I9
que de algum modo participaram de suas experiências no tempo, ajudaram a
organizar sua elaboração no enredo das narrativas. Por outro lado, diluiu-se o
caráter aparentemente massificador e fragmentado do conhecimento histórico sobre
algumas passagens nessa trama narrativa.
Ficou evidente como a narrativa moranesa dependeu de uma autovalorização
positiva que foi trabalho de gerações. Se, as pré-noções da cidade de recepção
traziam envolto um alo quase irreal, na medida em que adquiriam a competência
para dominar o código lingüístico, sem abrir mão do todo, de sua própria tradição
lingüística, os moraneses puderam decifrar o meio urbano. No processo de
decodificação das cidades de recepção os estrangeiros foram auxiliados pela leitura
de jornais, almanaques, etc, bem como, pelo rádio. Atualmente, podem
reconfigurar o material escrito sobre a cidade e sua presença nela. produziram
seus próprios intelectuais.
Na primeira parte, tratamos de apreender a emigração de italianos no período
denominado entre guerras, o qual está pouco presente na historiografia. Exceção
seja feita, para citar Angelo Trento e Carlos Diegues Jr., que muito auxiliaram para o
entendimento dessa conjuntura o peculiar.A salientar o risco do anacronismo que
paira na leitura. Para nós, entre guerras, para eles, talvez a Europa com a entrada
dos EUA não se lançasse mais numa aventura assim. A motivação é, então,
econômica, de uma Itália que ao fazer sua unificação manteve uma estrutura social
desigual afora os percalços da sua modernização nos principais ramos de sua
economia.
A terra, o trabalho, a liberdade e a aventura emulam os emigrantes do século
XX. Não mais rumo ao desconhecido como o fantástico deslocamento de famílias
inteiras no século XIX motivados pelas empresas colonizadoras, pela Igreja e pela
indiferença da burguesia italiana.
O estabelecimento da migração em cadeia é a relação mais significativa da
emigração entre o culo XIX e o culo XX. Nunca lembrada pelas autoridades
0
italianas ou brasileiras, essa é a relação que viabilizará a imigração urbana. E na
mesma medida em que os bem sucedidos colonos demandam a cidade e seus
recursos como salto para a civilização (educação e saúde, basicamente),
prescindem de uma rede familiar porque detém uma acumulação primitiva para
buscar a cidade. Ou, são trabalhadores sazonais que “resolvem” enfrentar o meio
urbano.
Na segunda parte, mais metafórica, o trânsito representou o tempo de espera
da percepção do novo como propõe Leed. Para elaborar o que havia ficado para
trás, para sempre na composição de uma identidade narrativa de ser agora um
estrangeiro, um nada. É que, na cidade que aportam pelo mar para a grande massa,
porque a aviação era para os heróis, esportistas, militares destemidos, os múltiplos
narradores querem dizer o que são e para onde vão.
Um contexto ideologizado onde muitas vezes o italiano é remetido às práticas
sociais e alinhamentos que não desejaria. Emigra para ser um dito? Trata-se de
uma armadilha? E os co-nacionais, nisto, que estão vivendo a construção da
brasilidade, principalmente na arte, na literatura esses italianos não o estrangeiros
que ameaçam a pureza da alma brasileira com seu europeísmo? Para não falar da
crescente recepção da modernidade representada pela cultura e tecnologia
norte-americana. A história oral narra a fugacidade deste momento entre a partida e
chegada, uma narrativa suspensa como se quisesse retomar o fôlego para enfrentar
a cidade, que o é mais uma imagem que chega através de cartas e relatos, mas
sim, a realidade que se apresenta sem retorno, ao menos de imediato.
O trânsito nos documentos escritos como o jornal requereu uma semântica,
além da narrativa. Selecionamos corpus de temas que foram dispostos na lógica do
momento de transitar na viagem, para os entrevistados, na cidade segundo a
mediação da escrita jornalística.
Os fragmentos de notícias, em especial do Jornal Diário Correio do Povo
presentifica Porto Alegre movimentada pelo trânsito de diplomatas, imigrantes de
1
passagem, debate de idéias políticas, feiras de demonstração da modernidade
industrial da Itália e do do Rio Grande do Sul. Fossemos desenhar uma sintaxe dos
espaços sociais ocupados pelas trocas entre indivíduos e idéias nesses anos tendo
a cobertura jornalística como suporte interessado neste trânsito, restaria um cenário
de crescente politização e incertezas; de otimismo e de confiança no futuro da
modernidade e de narrativas do desassossego daqueles que, saídos de uma guerra,
podem estar vivendo a impossibilidade desse futuro e de sua positividade.
Na terceira parte, chegar à cidade além da história oral, a pesquisa do jornal
também estava a indicar que se é notícia e envolve italianos - ou o que se denomina
italianos, na época - interessa. Para assombro - e mais dificuldades para o
fechamento da tese, um apaixonante cenário se abriu. Pretendíamos registrar a
novidade trazida pelo estrangeiro diante dos códigos e dispositivos estabelecidos
pela modernidade da sociedade local colocando-nos, pela escrita, numa
temporalidade mais próxima de sua ação ou discurso.
A narrativa do jornal foi um olhar desde “fora”, através da perspectiva das três
cidades: a de carne, a de pedra e a do espírito, alternado por olhares desde “dentro”,
através da perspectiva do espaço reservado às elites que tentaram falar sobre quem
eram os italianos nos tempos mitológicos, históricos e cronológicos para os próprios,
além do alcance desses discursos nas sociedades brasileira e italiana, em especial.
Como na segunda parte trabalhamos nos fragmentos o que foi viável em
termos do tempo disponível sempre exíguo, muito ficou entre o acontecimento e sua
narrativa reflexiva, ligando a teia discursiva ao fundo dos mecanismos sociais
dominantes no período. A considerar que foi uma opção não totalizar
autoritariamente a narratividade. Não demos por encerrada a contextualização
histórica onde falta pesquisa substantiva. Encobrir, mais que desvelar, seria uma
contradição à proposta da tese. Aguardamos que outros pesquisadores o façam.
A metáfora da “Cidade de Carne”, da “Cidade de Pedra” e da “Cidade do
Espírito” buscou, assim, abranger a tripartida exigência feita ao estrangeiro na
2
cidade de recepção. A cidade e seus espaços sociais são modos de ser, mediados
por dispositivos e digos. Buscou-se demonstrar a determinação, mas também o
leque de possibilidades abertas para o imigrante ou estrangeiro em geral, entre os
anos de 1920 e 1937, quando inicia uma conjuntura desfavorável para ele.
As conclusões sobre os diferentes momentos colocados em perspectiva nas
diferentes fontes apontam para a árdua tarefa da transposição, tradução decifração
e comunicação de estrangeiros com os moraneses sem abrir mão do senso de
pertencimento ou appartenenza ao grupo. Irão estabelecer o modo de ser no espaço
social, uma diferença que lhes garantiu serem iguais entre si, reforçando-se como
grupo na cidade, ainda que se hifenizando.
Os moraneses, como os demais italianos como ficou demonstrado na leitura
da imprensa diária, como o Correio do Povo, necessitaram haver-se, de 1920 em
diante, com a grandeza e a miséria da utopia da modernidade urbana, desde à
aceleração da nova percepção do tempo pelo movimento, passando pela
sociabilidade nos espaços públicos ou restritos. A metáfora, bem utilizada, sem
esconder a dificuldade de seu uso, abre possibilidades para essa demonstração
fragmentada do cotidiano que pulsa no jornal. Entre a escrita do jornal, do jornalismo
da época e da narrativa oral dos moraneses, interpusemos a cidade tríplice, a
metáfora.
A metáfora sanitária que quis na “Cidade de Carne" disciplinar os indivíduos,
principalmente os estrangeiros, de acordo com os modos de viver, ter acesso ao
mercado de trabalho, trabalhar, conter os antisociais e morrer na cidade de Porto
Alegre das primeiras décadas do século XX.
A “Cidade de Pedra”, que foi o espaço da representação da elite na escultura,
na arquitetura, buscou reproduzir um gosto mais próximo da cultura clássica, da
cultura latina ou apenas a serviço da imposição ideológica ?
A “Cidade do Espírito”, que pretendeu montar o espaço da cultura e da
3
formação cnica, o tracejar das estéticas e das identidades. A viagem aqui não é a
metáfora, é a condição do imigrante que foi percorrida pela lente de Leed, mostrando
o valor do perspectivismo para a individuação que assegura o autovalor pessoal.
Por quê partir é a pergunta que se faz ao imigrante, a fixidez não é o modo
humano de ser? O nomadismo é o modo perspectivista de vivenciar e interpretar o
mundo. A arte não consiste no estranhamento?
Igual, mas o o mesmo, a ipseidade e a mesmidade de Ricoeur. Complexo.
Ser idêntico sem ser o mesmo. Vale para viajantes de toda espécie e vale para as
narrativas. Vale para a cidade e para qualquer lugar. Por quê, outra razão o viajante
busca surpreender-se, maravilhar-se com a mesma intensidade que busca
inscrições familiares que esclareçam suas origens, dizendo quem ele é, de onde ele
vem, ou o que aquele lugar tem de semelhante com o lugar conhecido, conquistado
e morto para maravilhar-se? Por quê razão o ser humano se põe em movimento?
Porque sai pela terra, mar e ar, agora uma trivialidade conquistada, senão para
colocar-se em contato com ele mesmo, através de uma percepção excitada, uma
narrativa suspensa, sem condições de ser realizada porque no movimento não se
produz narrativa.
Podemos dizer que um dos desafios da pós-modernidade é a perda
incessante do referencial. A viagem de turismo, o grande negócio do século XXI, a
chaminé sem fumaça.
Depois, quando a percepção se traduzir em significado pela presença do
referente, o sujeito irá elaborar e congelar na escrita, nas artes aquilo que foi. É
por essa razão que, entre obra e criatura um distanciamento posterior, de outra
natureza, porque a obra não lhe pertence, é de um passado que tentou conter na
pedra, na tinta, na dança, na sica, na encenação, na imagem, enfim, na
fugacidade. Porém, quando se torna repetição não é mais criação. Perde o elan a
entrega, o êxtase. A arte de uma época não é simples espelho. É narratividade. Mais
4
que Adorno, Gadamer.
Nas narrativas, os registros lingüísticos utilizam expressões comuns mas
significativas. Trata-se da busca da autonomia pessoal que inicia no ato da partida,
segue no trânsito (como tratamos na tese) até o momento de cair no abismo do
chegar.
Como medusa, “Chegar” lança ao sujeito inscrições, representações, signos
diacríticos, classificações, distinções e exclusões. O sujeito nunca está tão livre
quanto no momento em que parte, nunca está tão preso, desfigurado quanto no
momento em que chega.
O uso estratégico da identidade não se verifica quando o ser humano diz “eu
sou”, mas ocorre quando a pessoa pode livrar-se da carcaça social auto-imposta e
dizer “eu não sou”.
Língua, terra e e (sangue) são elementos que definem o sujeito ou apenas
são usados por ele? A resposta é de ordem tribalista, em grupo, o sujeito compensa
sua falta de guelras para nadar e de asas para voar.
Assim como busca a individuação, o ser humano procura a sua humanidade
no outro. Da mesma forma, quando nega a humanidade, está negando a existência
de outros da mesma espécie; quando racionaliza e pensa é que está excluindo o
outro.
O estrangeiro suscita a sociabilidade pela diferença. Isso o faz pertencer à
tribo, não o contrário. Pode imitar e esse é o primeiro mandamento da vida em
sociedade, ser igual, mas não idêntico. Esse é o drama social do migrante.
Os primeiros estudos sobre imigração elegeram como categoria central à
assimilação, partindo do pressuposto de que era a moeda da sociabilidade a ser
conquistada pelo estranho. Partiam da fixidez, da noção de permanência das
5
sociedades. Quem partia rompia com a matriz de significações, parente próxima de
uma concepção essencialista de identidade.
O existencialismo na filosofia e na cultura do século XX, bem como as
guerras, deram sua contribuição ajudando a virar de ponta cabeça essas e outras
noções.
A globalização atual está completando o que o século XX iniciou. Neste
parâmetro, a tese foi orientada. Uma história narrada da ipseidade.
Ao recortar o período entre guerras, definição que apenas a perspectiva da
temporalidade histórica permite, buscamos apreender o imigrante a partir de uma
guerra que não se repetiria, paradoxalmente.
O combate epistemológico foi com a razão onipotente do historiador que trata
a História como uma sucessão de mal entendidos, de visões e ações limitadas dos
protagonistas diante da ferocidade dos condicionantes, os demiurgos, os
proprietários da narrativa.
Por isso, são tantos nomes citados. Eles é que produziram os acontecimentos
nas condições dadas pela história dentro das boas lições de Marx. A história
narrativa que anula a singularidade dos João e Maria, aqui, mais os Giusepe e
Marieta, pode produzir uma macro-história importante e de larga duração. Mas o
diálogo da história com as demais áreas do conhecimento se faz por “n” estratégias,
sendo a de Braudel, uma das mais importantes. Mesmo Ricoeur não vislumbra uma
narrativa, no Mediterrâneo de Braudel?
Foi prazeroso pensar numa história sem fim. Rebater com a narrativa dos
entrevistados que do presente lançam um olhar ético para si, para os seus,
iluminando alguns pontos e encobrindo outros, o fascínio da dialogicidade narrativa
face a face, jogando o seu roteiro sobre o nosso.
6
Um desafio ao apoderamento da História: eles tinham uma história para
contar, nós tínhamos dados históricos para confrontar. A história se fazendo, entre
os impérios da oralidade e da escrita, pela interpretação, pela hermenêutica
partilhada.
Surpresas no caminho. Ou acidentes de percurso. A tese, no projeto, era
imensa, pretendíamos chegar até o momento da produção da narrativa literária dos
descendentes dos imigrantes do século XIX, uma vez que a intelligentzia local
desconhece os imigrantes na fundação e narração da cidade. A crônica é ibérica e
ponto. Venceram aos platinos, como demonstrou a historiografia de Ieda Gudfried.
Momento de reconfiguração das primeiras narrativas, com Moacyr Scliar, José
Clemente Pozenatto.
O tempo é inimigo da perfeição, o prazo a cumprir cerceava a possibilidade da
pretensiosa - hoje reconhecemos - proposta. Optamos desde a qualificação pela
narrativa de estrangeiros, sim, mas emigrados recentes da Itália entre-guerras. Se a
cidade é alemã, como interpretaram Paul Singer e tantos outros fascinados pela
sociabilidade alemã na cidade, faríamos outra leitura, a cidade dos italianos.
Os acidentes de percurso foram provocados pelas surpresas no caminho.
Havia e outra história urbana de Porto Alegre a ser contada. O Dr. Arno Kern,
professor nas aulas do Doutorado da PUCRS utilizava uma bela expressão: “abrir
uma nova página na História”. alcançamos a compreensão do desafio presente
na frase escrevendo a tese. Quanto mais descobríamos, mais havia por descobrir.
Descobrir no sentido de uma crescente inquietação e insatisfação com o
conhecimento historiográfico acumulado.
As conclusões sobre os diferentes momentos colocados em perspectiva nas
diferentes fontes são como a perspectiva da viagem de navio. Depois da segurança
do cais – a narrativa disponível - a imensidão do mar.
Portanto, essa tese é o ponto de chegada entre a nossa pretensão e o “giro”
7
mais do que lingüístico que a história urbana narrada pelos grupos de italianos aqui
chegados, em especial, a quem não cansamos de agradecer, os moraneses, os
quais emprestaram sua narrativa para incorporar-se a nossa.
Comprovamos que contar a história de Porto Alegre através da perspectiva do
imigrante moranes, recuperou o sentido de ser humano, segundo uma identidade
narrativa constituída no seu próprio mundo histórico. Na posição de quem conta para
atar os nós soltos de um tapete que tem significado quando tecido por várias
mãos, em cooperação criativa. A expressão: “quem conta um conto aumenta um
ponto” propõe uma analogia sensata.
Se conseguimos emocionar, fazer refletir e contar histórias chegamos a
terceira parte: chegar, não na cidade, mas no fim que é apenas a suspensão da
narrativa sobre uma cidade, sob a perspectiva do estranhamento.
fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim fim
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CENTRO Antifascista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 176, p. 4, 08
jul. 1926.
CENTRO de automóveis. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 147, p. 4,
17 jun. 1927.
CENTRO dos acadêmicos de Direito. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n.
89, p. 4, 15 abr. 1924.
CENTRO dos acadêmicos de Direito. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX,
n.176, p. 4, 23 jul. 1924.
CENTRO Musical Porto-Alegrense. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n.
162, p. 4, 10 jul. 1925.
CHEGADA de imigrantes. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 254, p. 4,
22 out. 1921.
CHEGADA de uma leva de imigrantes. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII,
n. 51, p. 6, 03 mar. 1926.
CINQUENTENARIO da imigração italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX,
n. 187, p. 4, 05 ago. 1924.
CLUB Duca Degli Abruzzi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 114, p. 12,
V7
16 maio 1936.
COLUNA diversos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 37, p. 2, 29 ago.
1937.
COM 16 anos, apenas, praticou ontem um crime. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XXXVIII, n. 278, p. 5, 06 dez. 1932.
COMITATO Dante Alighieri. Correio do Povo,Porto Alegre, ano XXXIII, n. 218, p. 4,
08 set. 1927.
CONCURSO na Biblioteca Pública. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n.
157, p. 4, 01 jul. 1921.
CONDECORADOS pelo governo italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXVII, n. 157, p. 4, 07 jul. 1931.
CONFERÊNCIA anti-fascista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 57, p.
5, 09 mar 1927.
CONFERÊNCIA anti-fascista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 167, p.
4, 14 jul. 1928.
CONFERENCIA contra o fascismo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXIV, n.
184, p. 4, 03 ago. 1928.
CONFERÊNCIA de um jornalista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 37,
p. 4, 13 fev. 1926.
CONFERÊNCIA Internacional de Emigração e Imigração. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXXIII, n. 182, p. 4, 26 jul. 1927.
CONFERÊNCIA. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 168, p. 4, 22 jul.
1920.
CONFETARIA Rocco. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 2, p. 4, 03 jan.
1931.
CONFLITO e ferimentos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 180, p 4, 08
ago. 1924.
CONFLITO numa pedreira. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 63, p. 5, 17
V8
mar. 1934.
CONGRESSO Federalista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 173, p. 4,
20 jul. 1921.
CONSIDERAÇÕES sobre a crise mundial. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXVIII, n. 180, p. 10, 31 jul. 1932.
CONSTRUÇÃO de um panteon e de um monumento. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXVI, n. 180, p 4, 5 ago. 1920.
CONSTRUÇÃO de uma sede. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 119,
p. 5, 20 maio 1928.
CONSTRUÇÃO de um palacete. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 52, p.
4, 01 mar. 1924.
CONSULADO da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 173, p. 4, 20
jul. 1921.
CONSULADO da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 116, p. 16, 19
maio 1937.
CONSULTÓRIO médico gratuito. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 244,
p. 4, 19 out. 1920.
CONTRA o fascismo, contra o comunismo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XLII, n. 182, p. 13, 04 ago. 1936.
CONVENÇÃO entre a Itália e o Brasil. Correio do Povo, Porto Alegre, ano I, n. 4, p.
2, 30 jul. 1923.
CORREIO DO POVO. Porto Alegre, ano XXX, n. 176, 23 jul. 1924.
CORREIO DO POVO. Porto Alegre, ano XLIII, n. 116, 19 maio 1937.
CORREIO DO POVO. Porto Alegre, ano XLIII, n. 219, 19 set. 1937.
CRONICAS e contos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 167, p. 4, 21 jul.
1920.
CRONICAS e contos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 255, p. 4, 31 out.
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1920.
CURSO Comercial. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 28, p. 4, 02 fev.
1922.
CURSO Prático da Lingua Italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n.
139, p. 4, 08 jul. 1927.
DECLARARAM-SE, ontem, em greve pacífica, mais de 1. 000 operários dos nossos
estabelecimentos fabris. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXV, n. 10, p. 5, 12
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DEL PICCHIA, Menotti. Os jornais e o papel nacional. Correio do Povo, Porto
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DEL PICCHIA, Menotti del Picchia. A língua italiana. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XLIII, n. 143, p. 5, 19 jul. 1937.
DESASTRE. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 32, p. 4, 07 fev. 1920.
DESORDEM na Rua dos Andradas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 80,
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DIFUNDINDO a lingua de Dante. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 137, p.
11, 04 jul. 1935.
DIRETORIA de Higiene. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 253, p. 4, 21
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DISCURSANDO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 77, p. 3, 31 mar.
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DOCCA, Souza. A ultima visão de Anita Garibaldi. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XLI, n. 106, p. 3, 07 maio 1935.
DR. RODOLPHO Josetti. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 260, p. 4,
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ECOS de um conflito. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 39, p. 4, 17
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EM DESAFRONTA de uma injúria. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n.
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230, p. 1, 26 set. 1928.
EM FAVOR dos desamparados. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n.
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EM PROPAGANDA do encaminhamento de imigrantes. Correio do Povo, Porto
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EM TORNO da questão imigratória. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 119,
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EM TORNO de um envenenamento atribuído a doces da confeitaria CESTARI.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 303, p. 11, 27 dez. 1931.
ENGENHEIROS de 1922. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 126, p. 4,
30 maio 1922.
ENGOLIU um prego. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 12, p. 4, 14 jan.
1922.
ENSINO e nacionalismo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 231, p. 5, 03
out. 1937.
ENTRADA da Itália na guerra. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 129, p.
4, 27 maio 1927.
ENTRADAS de imigrantes. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 101, p. 3, 03
maio 1934.
EVASÃO de alienados. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 267, p. 4, 16
nov. 1920.
EXPOSIÇÃO de frutas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 26, p. 4, 31
jan. 1922.
EXPOSIÇÃO geral de indústria e de agricultura. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXII, n. 77, p. 4, 02 abr. 1926.
FÁBRICA de caramelos e balas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 162,
p. 4, 11 jul. 1926.
FÁBRICA de gelados Excelsior. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 292,
I1
p. 4, 03 dez. 1927.
FACULDADE de Medicina. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 179, p. 4,
26 jul. 1924.
FALSIFICAÇÃO de bilhetes de loteria. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII,
n. 12, p. 4, 14 jan. 1922.
FATO reprovável. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 206, p. 4, 29 ago.
1928.
FEDERAÇÃO dos estudantes republicanos do Rio Grande do Sul. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XXVII, n. 225, p 4, 18 dez. 1921.
FEDERAÇÃO Espírita do Rio Grande do Sul. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXVI, n. 244, p. 4, 26 out. 1920.
FESTA da Uva em Vila Nova. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXXIX, n. 11, p.
4, 13 jan. 1933.
FESTEJOS da Colônia italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 59, p.
16, 12 mar. 1937.
FILIAL de uma casa italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 261, p. 4,
09 nov. 1920.
FOI inaugurada, ontem, a estátua eqüestre de Bento Gonçalves. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XLII, n. 13, p. 10, 16 nov. 1935.
FUSÃO de padarias. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 58, p. 4, 10 mar.
1925.
GATUNOS carnívoros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 253, p. 5, 29
out. 1931.
GOUVÊA, Sergio. O espírito e o coração na obra de Ernani Fornari. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 144, p. 3, 23 jul. 1933.
GRANDE desordem num club. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX n. 133, p.
4, 05 jul. 1924.
GRAVE conflito no Mercado Público. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n.
I2
260, p. 5, 06 nov. 1931.
GREVE de garçons. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 218, p. 4, 10 set.
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GREVE dos padeiros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 211, p. 6, 05
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GRUPO fascista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 136, p. 4, 12 jul.
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GRUPO Giacomo Matteotti. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 225, p. 4,
26 abr. 1928.
HENRIQUE, João. Impressões. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 92, p.
9, 21 abr. 1937.
HOMENAGEM a um clínico italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n.
282, p. 12, 02 dez. 1931.
HOMENAGEM a um médico. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXV, n. 34, p. 4,
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HOMENAGEM ao Consul da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n.
100, p. 7, 30 abr. 1937a.
HOMENAGEM ao Consul da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 99,
p. 18, 29 abr. 1937b.
HOMENAGEM ao Coronel Massot. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n.
116, p. 4, 18 maio 1922.
HOMENAGEM ao inventor do rádio. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n.
197, n. 174, p. 3, 24 ago. 1937.
HOMENAGEM aos que regressam da Campanha da Abissinia. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XLII, n. 246, p. 4, 18 out. 1936.
HOMENAGEM póstuma. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 169, p. 5, 27
jul. 1937.
HOTEL Coliseu. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 224, p. 4, 17 set.
I3
1924.
HOTEL Jung. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 208, p. 4, 02 set. 1925.
HOTEL Palácio. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 54, p. 4, 05 mar.
1922.
IMIGRAÇÃO e desempregados. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 210,
p. 3, 08 set. 1933.
IMIGRAÇÃO e lei. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 191, p. 3, 16 ago.
1934.
IMIGRAÇÃO selecionada. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 220, p. 4,
16 set. 1932.
IMIGRAÇÃO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 197, p. 5, 24 ago.
1933.
IMIGRANTES abandonados. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 146, 21
jun. 1928.
IMPORTANTES intervenções cirúrgicas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXIV, n. 177, 26 jul. 1928.
IMPRESSÕES da Itália, Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 183, 06 ago.
1933.
INAUGURAÇÃO de um mausoléu. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n.
256, 21 out. 1927.
INAUGURAÇÃO de um monumento. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.
280, 01 dez. 1935.
INCÊNDIO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 115, 16 maio 1920.
INCÊNDIO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 169, 23 jul. 1920.
INSTITUTO Borges de Medeiros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 218,
10 set. 1921.
INSTITUTO de Cultura Ítalo-Rio Grandense. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
I4
XLII, n. 161, 10 jul. 1936.
INSTITUTO Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXVI, n. 181, 06 ago. 1920.
INSTITUTO Musical. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 156, 08 jul. 1920.
INSTITUTO Parobé. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 108, 08 maio
1920.
INTEGRALISTAS e comunistas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 236, 09
out. 1934.
ITALIANOS do Rio Grande do Sul. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 294,
15 dez. 1935.
JORNALISTA Italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 222, 06 set.
1928.
LIGA Feminina Pró-Estado Leigo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n.
224, 29 set. 1931.
LINHA de Auto-Bonde. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 245, 15 out.
1925.
MAESTRO Lunardi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 44, 23 fev.
1932.
MASSAS alimentícias. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 64, 17 mar.
1932.
MATADOUROS de emergência. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 256,,
21 out. 1927.
MELHORAMENTOS no Hospital São Pedro. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXIV, n. 71,04 mar. 1928.
MENINA apanhada por um automóvel. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII,
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MEYER, Augusto. Cinquenta anos de vida literária. Correio do Povo, Porto Alegre,
01 out. 1945.
MONDIM, Guido. A colônia italiana e o sanatório Belém. Correio do Povo, Porto
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Alegre, ano XLI, n. 127, 02 jul. 1935.
MOSTRUÁRIO de granito. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 175, 20
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MOVIMENTO imigratório. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 126, 01 jun.
1935.
MULTAS. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 11, 14 jan. 1925.
NA COLÕNIA italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 255, 27 out.
1932.
NA MADRUGADA de ontem, foi empastelado o "Deutsche Post". Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XXXIV, n. 234, 30 set. 1928.
NÃO NECESSITAMOS imigrantes por ora. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL,
n. 88, 17 abr. 1934.
NATAL dos pobres. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 272, 13 nov.
1921.
NOTAS de arte. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 115, 18 maio 1933.
NOVA sede da Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 199,
21 ago. 1928.
NOVA sociedade italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 286, 28 nov.
1924.
NOVO Cinema. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 191, 02 jul. 1920.
NOVO Cinema. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 191, 07 ago. 1927.
NOVO Hotel. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 217, 17 set. 1920.
NOVOS Guarda-livros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 247, 14 out.
1921.
O "GATO" Theodoro Lima vai para a colônia. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXIX, n. 244, 20 out. 1933.
I6
O 11 º ANIVERSÁRIO do fascismo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano – XXXIX, n.
252, 31 out. 1933.
O ANIVERSÁRIO da marcha sobre Roma. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII,
n. 255, 29 out. 1936.
O ATENTADO ao consulado da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV,
n. 212, 05 set. 1928.
O ATENTADO de ontem ao consulado da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXIV, n. 211, 04 set. 1928.
O BANQUETE de ontem ao consul da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XLIII, n. 111, 13 maio 1937.
O CINQÜENTENÁRIO da imigração italiana no estado. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXX, n. 179, 26 jul. 1924.
O CRIME da Rua Ramiro Barcelos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n.
83, 10 abr. 1931.
O DIA do Colono. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 174, 27 jul. 1935.
O DÓLAR para a tria. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 18, 22 jan.
1936.
O DÓLAR para a tria. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 19, 23 jan.
1936.
O EMBAIXADOR da Itália fala sobre o R. G. do Sul. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XXXVIII, n. 59, 11 mar. 1932.
O EMPASTELAMENTO do "Il Piccolo". Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV,
n. 232, 28 set. 1928.
O EMPASTELAMENTO do "Il Piccolo". Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV,
n. 233, 29 set. 1928.
O ENSINO de italiano no Ginásio de Nossa Senhora das Dôres. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XL, n. 263, 10 nov. 1934.
O ENSINO de italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 112, 14 maio
I7
1933.
O FUNDADOR de Vila Nova. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 281, 03
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O GATUNO em ação. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 192, 12 ago.
1928.
O MOVIMENTO da colônia italiana em prol do dólar para a pátria. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XLII, n. 3, 4/ jan. 1936.
O MOVIMENTO imigratório no quinqüênio de 1924-1928. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXXV, p. 7, 01 jun. 1929.
O NOVO cônsul da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 125, 31 maio
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O NOVO regente do consulado da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n.
67, 22 mar. 1934.
O PANTEON Rio-Grandense e o Monumento aos Heróis de 35. Correio do Povo,
Porto Alegre, anoXXVI, n. 217, 17 set. 1920.
O PÃO em Porto Alegre. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 217, 12 set.
1925.
O PÃO em Porto Alegre. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 212, 06 set.
1925.
O PROBLEMA imigrátorio sob o ponto de vista da higiene mental. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 218, 14 set. 1932.
O REGENTE do consulado da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 60,
14 mar. 1934.
O X ANIVERSÁRIO da marcha sobre Roma. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXVIII, n. 258, 30 out. 1932.
ORQUESTRA sinfônica. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 165, 16 jul.
1931.
OS "BATEDORES" de carteira nas imediações dos bancos. Correio do Povo, Porto
I8
Alegre, ano XXXIII, n. 187, 02 ago. 1927.
OS "PUNGUISTAS" em Porto Alegre. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 26,
01 fev. 1934.
OS ASSALTOS a mão armada. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 215,
13 set. 1931.
OS EMIGRANTES italianos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 182, 30
jul. 1924.
OS ITALIANOS comemoram, hoje, em todo o mundo o "Dia da Aliança". Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 294, 18 dez. 1935.
OS QUE aprendem a arte de escrever a máquina. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XXXIX, n. 247, 24 out. 1933.
P. C. L. Antonio Caringi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 166, 16 jul.
1936.
P. S. , As escolas italianas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 259, 03 nov.
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P. S. Ação do fascismo contra a desocupação. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
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PELA causa da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 17, 21 jan. 1936.
PELA causa da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 18, 22 jan. 1936.
PELA divulgação da lingua italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n.
287, 09 dez. 1937.
PELOS italianos mortos na guerra. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 266,
05 nov. 1924.
PESTE bubônica. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 16, 19 jan. 1922.
PESTE bubônica. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 46, 23 fev. 1922.
PESTE bubônica. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 61, 14 mar. 1922.
I9
PESTE bubônica. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 97, 26 abr. 1922.
PETRELLI, Umberto. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 44, 23 fev.
1932.
PICCHIA, Menotti del. A lingua italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n.
143, 19 jun. 1937.
PIERINI, Sylvio. Cotas de imigração. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n.
72, 26 mar. 1936.
PIERINI, Sylvio. Quarenta anos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 229, 01
out. 1935.
PINA Mónaco e Germana Bittencourt. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n.
131, 29 maio 1927.
PINTOR Brasileiro. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 217, 09 set. 1921.
PORTO ALEGRE por dentro, a luta. Correio do Povo, Porto Alegre, ano 1, n. 105,
30 maio 1924.
PRINCÍPIO de incêndio. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 156, 02 jul.
1924.
PRISÃO de vigaristas e desordeiros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n.
189, 05 ago. 1927.
PROPAGANDA da lingua italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n.
120, 22 maio 1928.
QUERO-QUERO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 150, 21 jun. 1927.
REAGIU à prisão e foi morto pelo policial. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXVIII, n. 3, 05 jan. 1932.
RECOLHIDA à Santa Casa. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 309, 27
dez. 1924.
RENÚNCIA de Intendente. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 88, 13 abri.
1924.
I0
RESTAURANTE-BAR Guarany. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 40,
16 fev. 1922.
RESTAURANTE Guarany. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 86, 13
abr. 1932.
RESTAURANTE Familiar. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 155, 04
jul. 1931.
RESTAURANTE Popular. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 253, 29
out. 1931.
RESTRINGINDO e combatendo a emigração italiana, o Sr. Mussolini acaba de
estabelecer as condições em que ela será permitida. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXXIV, n. 196, 17 ago. 1928.
REÚNEM-SE os operários portoalegrenses. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XLIII, n. 51, 03 mar. 1937.
REUNIÃO de açougueiros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 15, 17 jan.
1925.
REVISTA do Instituto Histórico. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 162,
07 jul. 1921.
ROUBO de penas para escrever. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 86,
18 dez. 1920.
SANMARTIN, Olyntho. O relevo do Brasil na Feira de Milão. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XLIII, n. 118, 21 maio 1937.
SANTA Casa. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 153, 04 jul. 1920.
SANTA Casa. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 72, 26 mar. 1924.
SAUDANDO os italianos do Brasil. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 110,
12 maio 1937.
SENHORINHA apanhada por um automóvel. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXVI, n. 179, 27 jul. 1921.
SILVEIRA, Geraldino. Colonização e comércio. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
I1
XXXVII, n. 119, 25 maio 1931.
SOCIEDADE Anônima Gráfica Italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII,
n. 144, 20 jun. 1926.
SOCIEDADE Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 123, 29
maio 1934.
SOCIEDADE Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 139, 16 jun.
1934.
SOCIEDADE Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 228, 29
set. 1934.
SOCIEDADE Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 70, 24
mar. 1936.
SOCIEDADE de Medicina. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 174, 24
jul. 1932.
SOCIEDADE Helena di Montenegro. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 139,
16 jun. 1934.
SOCIEDADE Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 263, 10
nov. 1934.
SOCIEDADE Pestalozzi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXV, n. 8, 10 jan.
1929.
TESTAMENTO do Sr. Nicolau Rocco. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII,
n. 180, 31 jul. 1932.
TIRO da guarda nacional. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 180, 05 ago.
1920.
TIRO de guerra. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 46, 25 fev. 1920.
TIRO de guerra. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 310, 28 dez. 1924.
TURMA de Guarda-Livros do Colégio Narciso Berlese. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXXVII, n. 27, 01 fev. 1931.
I2
UM AUDACIOSO roubo no Teatro S. Pedro. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXIX, n. 231, 04 out. 1933.
UM CASAMENTO no Consulado da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXVIII, n. 189, 11 ago. 1932.
UM CLUBE com reais serviços ao remo rio-grandense. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XL, n. 33, 09 fev. 1934.
UM COMÍCIO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 120, 17 maio 1927.
UM CONFLITO entre barbeiros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 265,
16 nov. 1933.
UM DECRETO complexo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 109, 12 maio
1934.
UM FILME fascista no cinema central. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII,
n. 97, 26 abr. 1932.
UM GRANDE escritor italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 222,
22 set. 1933.
UM INCIDENTE entre o Cônsul da Itália e o Presidente Dante Alighieri. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 22, 27 nov. 1934.
UM POLICIAL ferido num conflito. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n.
102, 02 maio 1922.
UM RETRATO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 159, 08 jul. 1926.
UM SÉCULO de imigração. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 30, 04
fev. 1922.
UMA BELA festa dos ex-combatentes italianos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XL, n. 266, 14 nov. 1934.
UMA BRILHANTE festa promovida pela Colonia Italiana. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XLII, n. 94, 22 abr. 1936.
UMA COMEMORAÇÃO da Colônia Italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
I3
XLII, n. 42, 19 fev. 1936.
UMA FESTA de confraternização na Sociedade Elena de Montenegro. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 147, 26 jul. 1934.
UMA FESTA em Ipanema. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 229, 11
out. 1933.
UMA HOMENAGEM da Colônia Italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII,
n. 226, 25 set. 1936.
UMA MENSAGEM aos italianos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 208,
02 set. 1925.
UMA SAUDAÇÃO do embaixador italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL,
n. 259, 06 nov. 1934.
UMA SESSÃO extraordinária na Sociedade de Medicina. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXXVII, n. 265, 12 nov. 1931.
VANDALISMO ou loucura? Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 148, 22 jun.
1924.
VANDALISMO ou loucura? Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 149, 24 jun.
1924.
VÁRIOS. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 71, 24 mar. 1928.
VERISSIMO, Érico . Naniquinote e o sr. Ernani Fornari. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXXVIII, n. 20, 24 jan. 1932.
VIGARICE. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 97, 27 abri. 1926.
VISITA de despedida ao Pão dos pobres. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXV, n. 108, 09 maio 1929.
VOCABULÁRIO Gaúcho. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 72, 27 mar.
1926.
b) Outros
A LOCALIZAÇÃO do Meretrício. Estado do Rio Grande, ano 1, n. 188, 03 jun.
I4
1930.
ANÚNCIO. Máscara,Porto Alegre, ano VIII, n. IV, 6 fev. 1925.
FEIRA navegante italiana para os portos do Brasil. Mercúrio,Porto Alegre, 09 jul.
1923.
MÁSCARA. Porto Alegre, ano VII, n. III, 01 jan. 1925.
MÁSCARA. Porto Alegre, ano VIII, n. IV, 06 fev. 1925.
1
GADAMER, Hans-Georg. Verdad y método. Sígueme: Salamanca, 1993. v. 1, p. 468. Cito: “Lo que
llega a nosotros por el camino de la tradición lingüistica no es lo que quedado sino algo que se
trasmite, que se nos dice a nosostros, bien bajo la forma del relato directo, en la que tiene su vida el
mito, la leyenda, los usos e costumbres, bien bajo la forma de la tradición escrita, cuyos signos están
destinados inmediatamente para cualquier lector que esté en condiciones de leerlos”.
I5
1
ARANTES, Otília Beatriz Fiori; ARANTES, Paulo Eduardo. Sentido da formação. Três estudos
sobre Antonio Candido, Gilda de Mello e Lucio Costa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. p. 78
2
SCACCIII, Anna; CATARRULLA, Camila; GIOCELLI, Cristina. Cittá reali e immaginarie: del
continente americano. Roma: Editrice Internazionale, 1998. p. 577. Cito: “Hablo como argentino de
segunda generación y como descendiente cercano de hombres europeus [...]. Para ver com alguna
claridad en mi país y en mí mismo fue necesario que yo visitara las tierras de Europa, cuna de
nuestros padres, y viese cómo eran aquellos hombres antes de su emigración. Los vi en sus aldeas y
terruños, puestos en una vida penosa, y com un sentido heroico de la existencia que los hacía o
alegres o resignados en su disciplina, en la fe de su Dios y en la estabilidad de sus costumbres. Los
he visto: así eran e así son todavia ? Qué hizo nuestro país al ofrecerle el deslumbramiento de su
riqueza? Los há tentado. (330-31)”.
3
Por espaço social entendemos, como Simmel, ações que têm lugar entre homens, ações recíprocas
ou como propõe Kant, que dispõem da “possibilidade de convivência”. SIMMEL, Jorge. Sociologia:
estudios sobre las formas de socializaciòn. Buenos Aires: Espasa-Calpe, 1939. p. 208.
4
CANDIDO, Antonio et al. Vida ao rés-do-chão. In: A crônica: o gênero, sua fixação e suas
transformações no Brasil. Campinas, SP: Editora da UNICAMP; Rio de Janeiro: Fundação Casa de
Rui Barbosa, 1992. p. 151.
5
RÜDIGHER, Francisco Ricardo. O panorama da imprensa gaúcha. São Leopoldo, UNISINOS, 17
ago. 2002. (Informação verbal).
6
CIORAN apud SAVATER, Fernando. Ensayo sobre Cioran. Madri: Espasa Calpe, 1992. p. 119.
Cito: “Contra lo que las grandes filosofias da la História han sostenido, la mas obvia lección que
puede ascarse de la lectura de Tucidides, Michelet, Gibbon o Toynbee es que la Historia puede pasar
qualquier cosa y que solo después se urde la explicación que transforma lo fortuito en necessario”.
[grifo do autor].
7
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da
perspectiva parcial. Cadernos Pagú, [s. l. ], n. 5, p. 26-27, 1995.
8
O olhar do estranhamento e do perspectivismo atravessa todo campo artístico. Ginzburg desloca
este olhar para o campo histórico. GINZBURG, Carlo. Occhiacci di legno: nove riflessioni sulla
distanza. Milano: Feltrinelli, 1998.
9
READ, Herbert. História da pintura moderna. São Paulo: Círculo do Livro, 1974. p. 28. Para o
crítico, “o pontilhismo era uma técnica que envolvia a decomposição das cores presentes na natureza
em matizes componentes, transferindo estes para a tela em seu estado puro ou primário, como
minúsculas. Ao dedicar-se ao exame atento das possibilidades dos efeitos da ótica e cor, mais que
mera técnica, Seurat logra o que Paul Valery denominaria de sistema unificado de sensibilidade e
atividade humana pinceladas ou pontos, e deixando à retina do espectador a tarefa de reconstituir os
matizes ‘numa mistura óptica’ ”.
10
CAMPOS, Haroldo. A Bíblia hebraica é uma partitura. In: SLAVUTZKY, Abraão (Org.). A paixão de
ser: depoimentos e ensaios sobre a identidade judaica. Porto Alegre: Artes e ofícios, 1998. p. 45.
12
Ver sobre a história oral a bibliografia internacional e nacional que já é importante. Para uma
revisão crítica do “estado da arte” no Rio Grande do Sul, ver PENNA, Rejane Silva. Fontes orais e
historiografia do Rio Grande do Sul: novas perspectivas ou falsos avanços? 2003. Tese
(Doutorado)- Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas, Programa de Pós- Graduação em História, Porto Alegre, 2003.
11
SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos
frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
12
CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. Campinas: Papirus, 1995; CHARTIER, Roger. A
história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL, 1990; HARTOG, François. A arte
da narrativa histórica. In: BOUTIER, Jean; JULIA, Dominique (Orgs.). Passados recompostos:
campos e canteiros da História. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, Ed. FGV, 1998.
13
RICOEUR, Paul. O si mesmo como um outro. Campinas: Papirus, 1991; ____. Tempo e
narrativa. Campinas: Papirus, 1994. v. 1-3.
14
CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução. São Paulo: Beca Produções, 1999.
15
PÉCAUT, Daniel. Os intelectuais e a política no Brasil: entre o povo e a nação. São Paulo:
I6
Ática, 1990. p. 15. Ver igualmente WEBER, João Hernesto. A nação e o paraíso: a construção da
nacionalidade na historiografia literária brasileira. Florianópolis: UFCS, 1997.
16
BRASIL, Assis. Teoria e prática da crítica literária. Rio de Janeiro: TOPBOOKS, 1995. p. 34.
17
BRUM, Rosemary Fritsch. Pressupostos teórico-metodológicos da história oral: primeiras
aproximações entre Paul Ricoeur e a problemática da narrativa. São Leopoldo, UNISINOS, 1999.
(Informação verbal).
18
STONE, Lawrence. El resurgimiento de la história narrativa: reflexiones acerca de una nueva e
vieja história, el pasado y el presente. México: Fondo de Cultura Economica, 1986; HOBSBAWM,
Eric. El renascimento de la história narrativa: algunos comentários. Histórias, México, n. 14, jul. /set.
1986.
19
BURKE, Peter. (Org.). A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo. UNESP, 1992;
______; PORTER, Roy (Orgs.). Linguagem, indivíduo e sociedade: história social da linguagem.
São Paulo: UNESP, 1992; VEYNE, Paul. Como se escribe la história: Foucault revoluciona la
história, Madrid, Alianza Editorial, 1984. p. 20-32; WHITE, Hyden. Meta-história: a imaginação
histórica do século XIX. São Paulo: EDUSP, 1992. (Coleção Ponta, v. 4).
20
ELMIR. Cláudio Pereira. A história devorada: no rastro do crime do arvoredo. 2002. Tese
(Doutorado)- Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Porto Alegre, 2002. Ver principalmente A controvérsia narrativa p. 31-62.
21
REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA. Biografias. São Paulo: ANPUH/EdUnijuí, v. 17, n. 33,
1997.
22
SEVCENKO, Nicolau; SOUZA, Laura de Mello (Coord.); SCWARCZ,Lilia Moritz (Coord.). A
corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
(Virando séculos, 7).
23
BELA ITÁLIA, SÊ GENTIL. Trata-se de uma canção polêmica recolhida em Porciano, Município de
Stia, Província de Arezzo, onde a emigração para as Américas foi muito importante no final do século
XIX e no início do século XX. Por dedução, a canção pode ser datada no ano 1899. O texto que
apresentamos corresponde à versão dada por Caterina Bueno na apresentação popular Ci ragiono e
canto (material original coordenado por Cesare Bermani e Franco Coggiola, direção de Dario Fo),
gravado como parte integrante da coleção Dischi del Sole. Cito: Bela Itália, gentil/1. Bela Itália,
gentil/e não abandones os filhos teus/senão vão todos para o Brasil/e não voltam mais. /Aqui deveria
haver trabalho sem que se precisasse emigrar para a América. 2. Este século está nos deixando/e o
mil e novecentos se aproxima. /A fome temos estampada no rosto/e para curá-la não remédio.
/Em toda parte ouve-se dizer: eu vou/para lá onde se faz a colheita do café. /3. Aqui não restam mais
que padres e frades, freiras de convento e capuchinhos, e alguns comerciantes desesperados/que
pagam impostos sem fim. /Virá o dia em que também eles deverão partir/para onde se faz a
colheita do café. /4. O operário não trabalha/a fome o devora/E aqueles Braccianti/Não sabem como
fazer para ir em frente. /5. Tenhamos esperança no mil e novecentos/acabará o nosso tormento. Mas
este é o problema, o pior cabe sempre ao operário. /6. Com estes obstáculos/esvaziaram nossa
carteira.
24
DICIONÁRIO Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. verbete partida, p.
2139, verbete partir p. 2140; verbete súcia p. 2631.
25
CHABOD, Federico l. L´Italia contemporânea. (1918-1948). Turino: Eunadi, 1961. (Piccola
Biblioteca Einaudi, II). p. 28. O que segue está no capítulo segundo: Consequências econômicas e
sociais da guerra, p. 26-40.
26
Ibid., p. 27-28.
27
CHABOD, 1961, p. 33.
28
Ibid., p. 34.
29
Ibid., p. 35.
30
CHABOD, 1961, p. 36.
31
Ibid., p. 37.
32
Ibid., p. 38.
33
SORI, Ercole. L´Emigrazione Italiana dall´unità alla seconda guerra mondiale. Bologna: Il
Mulino, 1979. p. 401. O que segue está no capítulo décimo: A emigração ao exterior no período entre
I7
as duas guerras, p. 401-440.
34
SORI, 1979, p. 406.
35
Ibid., p. 431.
36
Ibid., p. 433.
37
Ibid., p. 436.
38
SORI, 1979, p. 437.
39
Ibid. Ver A destinação dos fluxos emigratórios, p. 28-31.
40
MACCHIOCI, Maria-Antonieta. O Mezzogiorno na formação do Estado italiano e no Risorgimento
In: _______. A favor de Gramsci. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. p. 100-132. p. 109.
41
MACCHIOCI, 1976, p. 118.
42
VILLA, Deliso. História esquecida. Fundação Pró- Memória de São Caetano do Sul, 2000. (Série
documenta). p. 154.
43
Ibid., p. 54.
44
BALLETTA, Francesco. Emigrazione e struttura demografica in Calabria nei primi cinquanta anni di
unità nazionale. In: BORZOMATI, Pietro (Org.). L`emigrazione calabrese dall`unità ad oggi. Roma:
Centro Studi Emigrazione, 1982. p. 11.
45
CINCARI, Gaetano. Storia della Calabria all´Unità a oggi. Roma-Bari: Laterza, 1982. p. 104.
46
ASSOCIAÇÃO DE CULTURA ITALIANA DO RIO GRANDE DO SUL. ACIRS. Corso di lingua
italiana, Calábria: [s. n. ], [s. d. ]. Ver igualmente LA REGIONE Calabria. Emigrazione. Rivista della
Giunta Regionale della Calabria, Catanzaro: Abramo, Ufficio Stampa Regione Calabria, anno VII, 1
gennaio, p. 16-17, 1994.
47
CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Emigração em Morano Calabro. In: _______. O italiano da
esquina: imigrantes na sociedade porto-alegrense. Porto Alegre: EST, 1991. p. 81-86.
48
PLACANICA, Augusto. I caratteri originali. In: BEVILACQUA, Piero; PLACANICA, Augusto. (Orgs.).
Storia d´Italia- Le regioni dall´Unità ad oggi: la Calabria. Turim: Einaudi, 1985. p. 216.
49
CONSTANTINO, 1991, p. 86-87.
50
DOUGLAS, Norman. Vecchia Calabria. Florença: Giunti Marzocco, 1983. p. 195.
51
CONSTANTINO, 1991, p. 92-94.
52
MACEDO, Francisco Riopardense de. Porto Alegre: origem e crescimento. Porto Alegre: Sulina,
1968; MARTINI, Maria Luiza. Rua da Praia: corredor cultural. Porto Alegre: SMC, 1997.
53
ISABELLE, Arsène. Viagens ao Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Museu Júlio de Castilhos,
1946. p. 64-67.
54
ROCHE, Jean. A colonização alemã e o Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1969. v. 2.
55
SINGER, Paul. Desenvolvimento econômico e evolução urbana. São Paulo: Editora Nacional,
EDUSP, 1974; REICHEL, Heloisa Jochims. Industrialização no Rio Grande do Sul na República
Velha. In: DACANAL, J. H. ; GONZAGA, S. RS: Economia & política. Porto Alegre: Mercado Aberto,
1979. p. 255-276.
56
LAGEMANN, Eugênio. Industrialização e imigração no Rio Grande do Sul. In: DACANAL, J. H. ;
GONZAGA, Sergius (Orgs.). RS: Imigração e colonização. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980. p.
114-133.
57
FASANO, Pino. Letteratura e viaggio. Roma: Bari, 1999.
58
Ver ainda SKOLOVSKIJ, “arte como procedimento” de 1916. In: SILVA, Vitor Manuel de Aguiar.
Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1999. v. 1, p. 51.
59
SUSSEKIND, Flora. O Brasil não é longe daqui: onarrador, a viagem. Companhia das Letras:
São Paulo, 1990. Da mesma autora ver igualmente Com os olhos dos outros. In: Papéis colados.
Ensaios: Rio de Janeiro: EdUFRJ, 1993.
60
Ver CULLER, Jonathan Teoria literária: uma introdução. São Paulo: Beca, 1999. p. 26-48; ver
igualmente COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte:
UFMG, 2001. p. 29-45.
61
LEITE, Ilka Boaventura. Antropologia da viagem:escravos e libertos em Minas Gerais no século
I8
XIX. Belo Horizonte: ED UFMG, 1996.
62
LISBOA, Macknow Karen. Olhares estrangeiros sobre o Brasil. In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.).
Viagem incompleta. A experiência brasileira (1500-2000). Formação: histórias. São Paulo: SENAC,
2000. p. 256-296. Para o Rio Grande do Sul ver MARCHIORI, José Newton Cardoso; NOAL Filho,
Valter Antonio. (Orgs.). Santa Maria: relatos e impressões de viagem. Santa Maria: EdUFSM, 1997;
FRANCO (Org.); TAUNAY, Visconde de. Amor ao Brasil: catálogo de estrangeiros ilustres e
prestimosos. (1800-1892). São Leopoldo, EDUNISINOS, 1998.
63
LEED, Eric J. La mente del viaggiatore: dall’ Odissea al turismo globale. Bologna: Societá
editrice il Mulino, 1992.
64
Ver BUCK-MORSS, Susan. La ciudad como mundo de ensueños y catástrofe: “A obra de
Benjamin Passagen-Werk tenía una finalidad política. Su objetivo no era representar el ensueño, sino
disiparlo. Benjamin queria presentar la historia pasada de lo colectivo del mismo modo en que Proust
había presentado su historia personal: no ´la vida como era´, ni siquiera la vida recordada, sino la vida
como sido ´olvidada` (II, 311): ´Esta obra trata del despertar del siglo XIX” (V, 580)”. In:
ANDRADE, Ana Luiza; CAMARGO, Maria Lucia; ANTELO, Rául (Orgs.) Leituras do ciclo.
Florianópolis: ABRALIC: Chapecó: GRIFOS, 1999. p. 277
65
ANDRADE, 1999, p. 149.
66
DORFMAN, Ariel. Uma vida em trânsito: memórias de um homem entre duas culturas. Rio de
Janeiro: Objetiva, 1998. p. 26.
.
67
SIMMEL, Jorge. Sociologia: estudios sobre las formas de socialización. Buenos Aires:
Espasa-Calpe, 1939.
68
BRUM, Rosemary Fritsch. A paisagem urbana de Caxias do Sul: um estudo do pertencimento
sócio-espacial da população de origem italiana. 1995. Monografia (Especialização)- Pós-Graduação
em Filosofia, Curso de Especialização em Filosofia do Conhecimento e da Linguagem, Centro de
Ciências Humanas, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 1995.
69
Esses conceitos podem ser acompanhados, entre outras obras, em WEBER, Max. Economia y
sociedad. Ciudad del México: Fondo de Cultura Econômica, 1996. p. 695-117.
70
Ver WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Abril Cutural,
1974. (Os pensadores, v. XXXVII). p. 181-238.
71
GUBERT, Renzo; GADOTTI, Giovana. La struttura sócio spaciale: contributi sociologici allá
pianificacione dell centro storico. Milano: Franco Angeli, 1986. p. 18. Cito: “[...] una stabile scena fisica
costituisce la `memoria comune`degli abitanti. Gli elementi dello spazio fisico, specie quelli costruiti
dall`uomo, costituiscono un insostituibile punto di riferimento mnemonico per ritenere la storia e gli
ideali del grupo [...]. E l´appartenenza, inquanto dispone alla solidarietà, alla cotruzione della
comunità, alla partecipazione, alla interiorizzazione di valori e mete, è presupposto di vita sociale, é
presupposto non solo del mantenimento del tessuto sociale, ma anche di qualsiaisi azione colletiva di
mutamento”.
72
CORRADO, Alvaro. Calabria. Prefazione di Libero Bigiaretti. Con un saggio di Domenico
Scafoglio. Vibo Valentia: Qualecultura-Jaca Book, 1990.
73
TONNIES, F. descreveu a urbanização como a passagem de uma comunidade baseada nos bens
hereditários, a uma sociedade construída sobre laços de escolha e assimilação. In: Enciclopédia
Einaudi. Região v. 8. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986. p. 427.
74
MARX, Carlos; ENGELS, Federico. La ideologia alemana. Montevideo: Ediciones Pueblos
Unidos, 1971. p. 60-61.
75
PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Composto por Bernardo Soares, ajudante de
guarda-livros na cidade de Lisboa. In: RICHARD Zenith, (Org.). São Paulo: Companhia das letras,
1999. p. 63. 26, p. 63
76
Eric Leed quer entender como a viagem plasma e muda a história humana. No afastamento
espacial dos indivíduos moldam-se comportamentos nos grupos sociais que modificam sua própria
dinâmica. Ao entender que a viagem porta uma estrutura e que os atos de partir, transitar e chegar,
são processos que modificam a percepção, o comportamento e as relações sociais do ser humano,
Leed realiza uma história da viagem que parece-nos uma hipótese civilizatória nômade. LEED, 1992.
77
Como podem ser tomadas desde o ponto de vista de material de escritura auto-referencial e o
I9
novo sujeito na narração. Ver a obra organizada por SANTOS, Maria Teresa Cunha; BASTOS, Maria
Helena Câmara; MIGNOT, Ana Chrytina Venancio (Orgs.). Refúgios do eu: educação, história,
escrita autobiográfica. Florianópolis: Mulheres, 2000.
78
DAVIS, Natalie Zemon. Histórias de perdão: e seus narradores na França do século XVI. São
Paulo: Companhia das Letras, 2001.
79
SCALABRINI, João Batista. A emigração italiana na América. Porto Alegre: Escola Superior de
Teologia São Lourenço de Brindes, Centro de Estudos de Pastoral Migratória; Caxias do Sul:
Universidade de Caxias do Sul, 1979. p. 43-45.
80
PRATT, Mary Louise. Os olhos do império:relatos de viagem e transculturação. Baurú: EDUSC,
1999. p. 7.
81
BOURDIEU, Pierre. L`identité et la répresentation: eléments pour une reflexion critique sur l´idée
de région. Actes de la recherche en Sciences sociales, Paris, n, 35, p. 68, 1983.
82
ADORNO, Theodor. Minima moralia:reflexões a partir da vida danificada. São Paulo: Ática, 1992.
83
VILLA, 2000, p. 52.
84
VILLA, 2000, p. 52.
85
Ibid., p. 52.
86
Ibid., p. 52.
87
Ver THOMPSON, Alistair. Histórias (co)movedoras: história oral e estudos de migração. Revista
Brasileira de História, Viagens e viajantes, São Paulo: ANPUH/Humanitas, v. 22, p. 345, 2002.
88
A entrevista foi realizada no dia 29 de setembro de 2002. Inicialmente prevista para durar uma
hora, acabou gerando duas horas de gravação ao participarem a filha, Conceição Ferraro Maranglello
e seu marido, Delmar Caetano Maranghello, acabou totalizando duas horas de gravação. A
intervenção, de todo modo, da fala dos familiares no relato de Angelina Sanzi Ferraro permitiu-nos
uma narrativa enriquecida pela experiência destes.
89
A entrevista foi concedida no dia 25 de setembro de 2002. Como o ocorrido na entrevista anterior,
com Angelina, participaram Filomena Aita e seu marido Domenico, impossibilitado de falar por um
recente problema de saúde.
90
Entrevista realizada em 2 de outubro de 2002, na sua residência à rua Santo Antonio, gravada,
com Lydia Theresa Miotto Gabellini, filha de venetos. Na ocasião recebi uma cópia do diário de
memórias de seu pai, relatando sua vida desde a Itália, com seus pais, passando pelo trabalho nas
plantações de café em São Paulo até conseguirem chegar, de fato, no Rio Grande do Sul. Seus avós,
pois, foram localizados em Alfredo Chaves, hoje Passo Fundo pela “Comissão de terra e
colonização”, em 1888.
91
Entrevista realizada em 28 de setembro de 2002. Embora nos conhecêssemos anteriormente, a
indicação de seu nome foi feita por Carmine Motta, liderança do grupo moranes e sobrinho de
Angelina. A entrevista, ao contrário das anteriores, teve cumprido todo o ritual da entrevista em
história oral e durou uma hora de gravação, intercalada com fotos que surgiam e recortes de jornais
antigos.
92
A entrevista foi realizada no dia 16 de julho de 2001 e de gravação dispendemos 1 hora. Foi a
primeira entrevista realizada com moranes, mas como Carmine foi o último a chegar em Porto Alegre,
optei por deixar sua narrativa após as demais. Além disso, sua visão é tanto retrospectiva, ao pensar
Morano como a cidade mítica da cultura antiga, como projetiva, ao pensar Porto Alegre como a
cidade irmã de Morano, o gemellaggio na direção da aproximação e intercâmbio entre as duas
cidades e seus moraneses.
93
PESSOA, Fernando. Obra poética. Volume único. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar, Biblioteca
Luso-Brasileira, 1965. p. 497-498. [560].
94
DICIONÁRIO Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 2751.
95
MAESTRI, Mario. Travessia oceânica. In: Os senhores da serra: a colonização italiana no Rio
Grande do Sul. (1875-1914). Passo Fundo: UPF, 2000. v. 2. (Il brasile italiano-500 anos de História).
p. 45-50.
96
PESSOA, 1999, p. 452. [451].
0
97
“Che cosa c´é nel transito che consuma le motivazioni ad esso estrinseche e genera fini propri;
tranquillizza e soddisfa, estingue le conddizioni della narrazione, e fornisce un piacere per il quale i
viaggiatori abituali spendono la ricchezza e la vita come altri fanno per una amante diletta?” LEED,
Eric J. La mente del viaggiatore: dall’Odissea al turismo globale. Bologna: Società Editrice Il Mulino,
1992. p. 76.
98
“Dobbiamo dunque percepire per muoverci, ma dobbiamo anche muoverci per percepire”
(GIBSON, p 223) LEED, 1992, p. 88.
99
“E ci sono quei viaggiatori inveterati e abituali –come Dampier- che non viaggiano per
commerciare, acquisire ricchezza, fama, ma commerciano, spendono la propria ricchezza e diventano
estranei per la moglie e i figli soltanto per lo spostamento in sé. ” LEED, 1992, p. 75.
100
PARINI, Jay. A travessia de Benjamin: aaventura de um filósofo fugindo do nazismo. Rio de
Janeiro/São Paulo: Record, 1999. p. 317.
101
GINZBURG, Carlo. Occhiacci di legno: nove riflessioni sulla distanza. Milano: Feltrinelli, 1998.
102
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da
perspectiva parcial. Cadernos Pagú, [s. l. ], n. 5, p. 26-27, 1995.
103
VIRILIO, Paul. O espaço crítico: e as perspectivas do tempo real. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.
(Coleção TRANS).
104
“Possiamo trovare i segni del transito nel “carattere” del viaggiatore, in quella serie di
caratteristiche dello “spirito”che sembrano indotte dall`esperienza del transito, caratteristiche che sono
rimaste notevolmente costanti nel corso di millenni. ”. LEED, 1992, p. 76.
105
‘ Nel transito il movimento diventa il mezzo di percepzione, oltre che il fattore che più determina la
situazione fisica del viaggiatore. Esso guida la soggettività del viaggiatore, che diventa più
consapevole di sé come”spettatore” o “osservatore” di un modo che gli passa davanti. Governa
percezioni di un mondo oggettivo che sono percezioni “di passagio”, di un susseguirsi di ”vedute” e
immagini che continuamente si srotolano davanti all`osservatore. [...] e per capire gli effetti peculiari al
transito bisogna rendersi conto del ruolo rivestito dal movimento nelle percezioni che il viaggiatori ha
del mondo, di sé e dell´altro. ”. LEED, op. cit., p. 78.
106
LEED, 1992, p. 498.
107
“Chiaramente l’ ”atteggiamento” del viaggiatore verso il periodo del transito costituice una
variabile importante del grado in cui il transito trasforma e altera lo stato, lo spirito e il carattere del
viaggiatore stesso [...]. Il transito é una sequenza di movimento che produce trasformazioni del
carattere e persino unadentità, nella misura in cui scelto ed é scelto per se stesso, non per scopi o
mete estrinseche [...]. Lo “spirito del viaggiatore”non deriva da una “forza”esterna sull’éssere senziete,
durante il transito, ma dal modo in cui il viaggiatore utilizza le idee, le impressioni e le percezioni
racolte mentre é in movimento. In questo come in altri casi, il carattere e i lineamenti del carattere
vengono formati nella scelta attiva di una situazione e possono esser visti come difese erette contro il
disagio di quella situazione. Questi lineamenti possono essere letti dal punto di vest di ció da cui ci si
difende. LEED, op. cit., p. 78-79.
108
“Mentre il viaggiatore si muove attraverso lo spazio, alcune cose mutano rapidamente, altre
lentamente, altre non mutano affatto. I mutamenti derivano dalla locomozione e i non mutamenti dallo
schema rigido delle superfici ambientalli. Quindi, i non mutamenti precisano lo schema e valgano
come informazioni su di esso; i mutamenti precisano la locomozione e valgano come informazioni di
un altro tipo, relative alla locomozione”. LEED, 1992, p. 88.
109
PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Composto por Bernardo Soares, ajudante de
guarda-livros na cidade de Lisboa. In: RICHARD Zenith, (Org.). São Paulo: Companhia das Letras,
1999. p. 63 [58] e 119 [91].
110
CULLER, Jonathan. O que é literatura e tem ela importância? In:_____Teoria literária: uma
introdução. São Paulo: Beca, 1999. p. 33 e 40.
111
GALVANI, Walter. Um século de poder: os bastidores da Caldas Júníor. Porto Alegre: Mercado
Aaberto, 1995. (Série Documento).
112
CLEMENTE, Elvo. Correio do povo e a literatura. In: FLORES, Hilda Agnes Hubner. (Org.).
Correio do Povo- 100 Anos. Porto Alegre: Círculo de Pesquisas Literárias, Nova Dimensão, 1995. p.
97-102.
1
113
CALVINO, Italo. Seis propostas para o novo milênio. Citado por ELMIR, Cláudio Pereira. As
armadilhas do jornal: algumas considerações metodológicas de seu uso para a pesquisa histórica.
Cadernos do PPG em História da UFRGS, Porto Alegre: UFGRS, n. 13, p. 19-29, dez. 1995.
114
SIRINELLI, Jean- François. Os intelectuais. In: RÈMOND, René. (Org.). Por uma história
política. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996. p. 261.
115
Os Almanaques eram comumente publicados em italiano e alemão. O Correio do Povo inova ao
iniciar publicações em português. Um exemplo é o Kalender, publicado entre 1855 e 1941, e
destinado à comunidade alemã, conforme GRUTZMANN, Ingrid. O Kalender na imigração alemã na
Argentina, no Brasil e no Chile. São Leopoldo, 16 ago. 2002. (Informação verbal). Outro, é o
Almacco Italiano IIIustrado Del Giornale La Patria, publicado em 1921, Porto Alegre, ano V, Direção
de Caetano Blancato.
116
Os acontecimentos podem ser acompanhados em LEMOS, Rodrigo Lemos; CONSTANTINO,
Núncia Santoro de. Diversidade e tensões: Porto Alegre no final do século XIX. Estudos
ibero-americanos,Porto Alegre: PUCRS, v. XXII, n. 1, p. 95-102, 1996.
117
HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 261-262.
118
CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O italiano da esquina: imigrantes na sociedade
Porto-Alegrense. Porto Alegre: EST, 1991. p. 56.
119
GIRON, Loraine Slomp. As sombras do Littorio: o fascismo no Rio Grande do Sul. Porto
Alegre: Parlenda , 1994. p. 71.
120
IOTTI, Luiza Horn. O olhar do poder. Porto Alegre: EDIPURS, 2001. p. 44. Citando
CANDELORO, a autora divide a história da Itália, de 1860 a 1914, em três períodos: a construção do
Estado unitário (1860-1871), o desenvolvimento do capitalismo e do movimento operário.
121
Ibid., p. 82.
122
BERTONHA, João Fábio. Sob o signo do fascio: o fascismo, os imigrantes italianos e o Brasil.
1922-1943. 1999. Tese (Doutorado)- 1999, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1999.
123
BERTONHA, 1999, p. 78. O autor cita ‘Seicento fasci Itáliani all´stero’in Il Legionario, III/44.
30/11/1926 e TRENTO (1994, p. 252).
124
ANIVERSÁRIO Regio. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 263, p. 4, 11 nov. 1920.
125
CONSULADO da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 173, p. 4, 20 jul. 1921.
126
Internamente assume a direção Leonardo Truda. A Associated Press, no esforço financeiro de
João Obino, diretor financeiro, começa a enviar material para o jornal, conforme GALVANI, 1995, p.
227-235.
127
UMA MENSAGEM aos italianos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 208, p. 4, 02 set.
1925.
128
A ressonância nas ciências sociais dessas concepções dão origem a trabalhos que visam
estabelecer relações entre o teritório e as formas sociais de simbolização dos laços dos grupos com
uma presumível matriz étnica. Um exemplo dessas pesquisas estão em GUBERT, Renzo; GADOTTI,
Giovanna. La struttura socio spaziale di Trento:contributi sociologici alla pianificazione dell centro
storico. Milano: Franco Angeli, 1986.
129
A MORTE da Rainha-Mãe Margarida. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 5, p. 4, 07
jan. 1926.
130
VIZENTINI, Paulo Fagundes. História do século XX. Porto Alegre: Novo Século, 2000. p. 11-58.
131
ARRUDA, José Jobson de Andrade. A crise do capitalismo liberal. In: REIS FILHO et al (Orgs.).
O século XX: o tempo das crises, revoluções, fascismos e guerras. Rio de Janeiro: Civilização
brasileira, 2000. v. II, p. 11-34, p. 22.
132
DISCURSANDO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 77, p. 3, 31 mar. 1928.
133
FATO reprovável. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 206, p. 4, 29 ago. 1928.
134
O ATENTADO de ontem ao consulado da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n.
211, p. 4, 04 set. 1928.
135
Ibid., loc. cit.
136
O ATENTADO ao consulado da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 212, p. 7, 05
2
set. 1928.
137
HARDT; NEGRI, 2001, p. 263.
138
Ibid., p. 263-270.
139
FAUSTO, Boris. O Estado Getulista. In: _______. História concisa do Brasil. São Paulo:
EDUSP/Imprensa Oficial do Estado, 2001a. p. 185-218.
140
FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. São Paulo: EDUSP/Imprensa Oficial do Estado,
2001b; BELLITANI, Adriana, Iop. Conspiração contra o Estado Novo. Porto Alegre: EDIPUCRS,
2002; sobre a interdição da língua estrangeira, ver, entre outros, SGANZERLA, Cláudia Mara. A lei
do silêncio: repressão e nacionalização no Estado Novo em Guaporé (1937-1945). Passo Fundo:
UPF, 2001.
141
CONDECORADOS pelo governo italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 157, p.
4, 07 jul. 1931.
142
A VIAGEM de um diplomata italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 289, p. 7, 10
dez. 1931.
143
André Carrazzoni nascido em 1896, é descendente de italianos que se localizaram,
primeiramente em Livramento. Após trabalhar no Diário de Notícias, trabalhou no Correio do Povo.
Deixou versos, uma biografia e um perfil de estudante sobre Getúlio Vargas (1939 e 1940), por onde
podemos apreciar sua simpatia ao governante; produziu no jornalismo político e literário. Algumas
de suas obras: Horas perdidas (1918)- versos, A poesia e a prosa do cotidiano (1957)- crônicas, Alma
da terra (1962)- novela. Poema das quatro estações (1969); Arquimedes Fortini, nascido em Argel, de
pais Italianos, chega em 1892 em Porto Alegre. Trabalhou no Correio do Povo, editou a revista de
esportes Revista Esportiva. Entre outros, escreveu O 75
O
Aniversário da colonizão Italiana no Rio
Grande do Sul (1950), Revivendo o passado (1951); Porto Alegre através dos tempos (1962); O
poder da fé em Santo Antônio (1967); Viagem sentimental (1968). In: SULIANI, Antônio (Org.). Etnias
& carisma. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001. p. 402.
144
AS VISITAS de ontem do Embaixador Cerruti. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n.
46, p. 7, 25 fev. 1932a.
145
AS VISITAS, 1932a, p. 7.
146
Ibid., loc. cit.
147
Ibid., loc. cit.
148
Ibid., loc. cit.
149
AS VISITAS de ontem do Embaixador Cerruti. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n.
47, p. 3, 26 fev. 1932b.
150
O EMBAIXADOR da Itália fala sobre o R. G. do Sul. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII,
n. 59, p. 10, 11 mar. 1932.
151
UM CASAMENTO no Consulado da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 189, p.
7, 11 ago. 1932.
152
O NOVO regente do consulado da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 67, p. 11, 22
mar. 1934.
153
O NOVO cônsul da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 125, p. 9, 31 maio 1934.
154
O DIA do Colono. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 174, p. 7, 27 jul. 1935.
155
HOMENAGEM ao Consul da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 99, p. 18, 29 abr.
1937b.
156
HOMENAGEM ao Consul da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 100, p. 7, 30 abr.
1937a.
157
Ibid., loc. cit.
158
O BANQUETE de ontem ao consul da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 111, p.
14, 13 maio 1937.
159
Ibid., loc. cit.
160
CONSULADO da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 116, p. 16, 19 maio 1937.
161
A IMIGRAÇÃO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 50, p. 4, 29 fev. 1920.
3
162
A IMIGRAÇÃO para o Brasil. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 156, p. 4, 08 jul. 1920.
163
ERCOLE, Sori. L’ Emigrazione italiana dall’unità alla seconda guerra mondiale. Bologna: IL
Mulino, 1979. p. 406.
164
Ibid., loc. cit.
165
A IMIGRAÇÃO..., 08 jul. 1920, p. 430.
166
Ibid., p. 431.
167
CHEGADA de imigrantes. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 254, p. 4, 22 out. 1921.
168
UM SÉCULO de imigração. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 30, p. 4, 04 fev. 1922.
169
CONVENÇÃO entre a Italia e o Brasil. Correio do Povo, Porto Alegre, ano I, n. 4, p. 2, 30 jul.
1923. Foi sancionada pelo Sr. Presidente da República, no dia 26 de maio próximo findo, a resolução
do Congresso Nacional que aprova a Convenção de Emigração e Trabalho assinada em Roma em 8
de Outubro de 1921. Damos a seguir, na integra, o texto em português dessa convenção: "O
Presidente dos Estados Unidos do Brasil e Sua Majestade o Rei da Itália, reservando-se a faculdade
de negociar um Tratado Geral de Emigração e Trabalho a bem dos nacionais dos dois países,
concordaram celebrar uma convenção para estabelecer a igualdade de tratamento entre os cidadãos
das duas nações no que se refere aos benefícios das leis sobre os infortúnios do trabalho a adotar as
medidas necessárias para facilitar tanto quanto possível o movimento da emigração e o tratamento
dos trabalhadores imigrantes. Para esse fim nomearam os seus plenipotenciários: O Presidente dos
Estados Unidos do Brasil, S. Ex. o Sr. Luiz Martins de Souza Dantas, Embaixador dos Estados
Unidos do Brasil na Itália. Sua Majestade, o Rei da Itália: S. E. Cav. de G. C. De Michelis Giuseppe,
Comissário Geral da Emigração, os quais, depois de trocarem os respectivos plenos poderes
reconhecidos em boa e devida forma, convieram nas seguintes condições: Art. 1o - As indenizões,
os benefícios e os privilégios estabelecidos pelas leis e pelos regulamentos sobre reparação de
infortúnios do trabalho, serão reconhecidos em cada um dos dois países aos cidadãos do outro e aos
seus beneficiários legais que a eles tiverem direito, sem a condição de residência ou outra condição
que não seja exigida para os nacionais. Art. - Os contratos de Trabalho, individuais e coletivos,
efetuados na Itália por trabalhadores italianos para serem executados no Brasil, nele terão pleno vigor
se não forem contráriosàordem pública. Art. 3º - Os dois Governos facilitarão a conclusão e execução
dos acordos que as Administrações competentes dos Estados Unidos do Brasil efetuarem com o
Comissário Geral da emigração italiana, para o encaminhamento e condições de emprego dos
trabalhadores italianos, com a condição que tais acordos sejam previamente submetidos à aprovação
do Governo Federal e do Governo do Estado, no qual tiverem de ser executados. Art. 4º - O Governo
Brasileiro, quando instalado o seu Departamento Nacional do Trabalho e do acordo com os seus
Regulamentos, velar pela rigorosa inspeção do trabalho e melhor colocação dos imigrantes italianos,
fiscalizando a perfeita execução dos contratos celebrados com esses imigrantes. Art. - O Governo
Brasileiro facilitará a organização e funcionamento das Sociedades cooperativas de consumo, de
crédito, de previdência, etc., entre trabalhadores agrícolas, concedendo-lhes as possíveis facilidades.
Art. 6o - Os imigrantes italianos gozarão no Brasil de todas as facilidades, benefícios e privilégios que
são concedidos ou venham a serem concedidos aos imigrantes de outros países. Art. 7o - O Governo
Brasileiro facilitará a ação das Sociedades que regularmente se constituírem entre italianos no Brasil
com o propósito de aconselhar os imigrantes italianos e lhes facilitar o trabalho. Art. 8o - A presente
convocação entrará em vigor depois de aprovada pelo Congresso Nacional brasileiro e pelo
Parlamento Italiano e de ratificada pelos Governos respectivos. Vigorará enquanto não for
denunciada por uma das partes, com antecedência, pelo menos, de seis meses. Roma, 8 de Outubro
de 1921".
170
TRENTO, Angelo. Do outro lado do Atlântico: um século de imigração italiana no Brasil. São
Paulo: Nobel/Istituto di Cultura di San Paolo/Instituto Cultural ìtalo-Brasileiro, 1988b. p. 273-274.
171
A revolta tenentista de outubro de 1924, liderada pelo tenente João Alberto e o capitão Luís
Carlos Prestes, com apoio do oposição gaúcha ao PRR, desloca-se em direção ao Paraná, indo
unir-se em 1925 ao movimento tenentista de São Paulo. A idéia de percorrer o país, levando os ideais
antioligárquicos cunhou o nome da Coluna Prestes, que percorreu 24 mil quilômetros até 1927,
quando se embrenha na Bolívia e no Paraguai. In FAUSTO, 2001b. Especialmente A primeira
República (1889-1930). p. 139-185.
172
OS EMIGRANTES italianos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 182, p. 4, 30 jul. 1924.
4
173
A IMIGRAÇÃO em 1924. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 113, p. 4, 14 maio 1925.
174
CHEGADA de uma leva de imigrantes. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 51, p. 6, 03
mar. 1926.
175
A RECEPÇÃO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 52, p. 3, 04 mar. 1926.
176
RESTRINGINDO e combatendo a emigração italiana, o Sr. Mussolini acaba de estabelecer as
condições em que ela será permitida. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 196, p. 3, 17
ago. 1928.
177
Ibid., loc. cit.
178
Ibid., loc. cit.
179
O MOVIMENTO imigratório no qüinqüênio de 1924-1928. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXV, n. 128, p. 7, 01 jun. 1929.
180
Ibid., loc. cit.
181
Ibid., loc. cit.
182
SILVEIRA, Geraldino. Colonização e comércio. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n.
119, p. 3, 25 maio 1931; IMIGRAÇÃO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 197, p. 5, 24
ago. 1933; IMIGRAÇÃO e desempregados. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 210, p. 3,
08 set. 1933; CALLAGE, Fernando. Nacionalização do imigrante. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXIX, n. 281, p. 3, 09 dez. 1933; NÃO NECESSITAMOS imigrantes por ora. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XL, n. 88, p. 3, 17 abr. 1934; ENTRADAS de imigrantes. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XL, n. 101, p. 3, 03 maio 1934; ADMINISTRAÇÃO e quantidade territorial. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 103, p. 3, 05 maio 1934; ENTRADAS de imigrantes. Correio do Povo
, Porto Alegre, ano XL, n. 101, p. 3, 03 maio 1934; ADMINISTRAÇÃO e quantidade territorial. Correio
do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 103, p. 3, 05 maio 1934; UM DECRETO complexo. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 109, p. 3, 12 maio 1934; EM TORNO da questão imigratória. Correio
do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 119, p. 3, 24 maio 1934; IMIGRAÇÃO e lei. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XL, n. 191, p. 3, 16 ago. 1934; MOVIMENTO imigratório. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XLI, n. 126, p. 4, 01 jun. 1935; PIERINI, Sylvio. Cotas de imigração. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XLII, n. 72, p. 3, 26 mar. 1936; CALLAGE, Fernando. O despovoamento do solo.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 224, p. 5, 23 set. 1936b.
183
As indicações desta leitura historiográfica foram sugeridas pela professora Tânia Regina de Luca,
em palestra privada na UNISINOS, durante o Seminário Nacional Imigração e Imprensa. RÈMOND,
René. (Org.). Por uma história política. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996. Em especial o texto de Jean-
François Sirinelli. Os intelectuais. p. 231-270.
184
DUPUY, René-Jean. Entre o poder e o cidadão, a sombra vã da liberdade. In: DUBY, Georges.
(Org.). A civilização latina: dos tempos antigos ao mundo moderno. Lisboa: Publicações Dom
Quixote, 1989. p. 80.
185
CONGRESSO Federalista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 173, p. 4, 20 jul. 1921.
186
FEDERAÇÃO dos estudantes republicanos do Rio Grande do Sul. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXVII, n. 225, p. 4, 18 dez. 1921.
187
GRUPO fascista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 136, p. 4, 12 jul. 1926.
188
CENTRO Antifascista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 176, p. 4, 08 jul. 1926. “Os
parágrafos dizem: § 1o - O fim do Centro Giacomo Matteotti é: combater o fascismo italiano, que no
estrangeiro, especialmente, serve para desunir os componentes das diversas nacionalidades, dos
mesmos italianos entre si, e criar antipatias entre eles e os brasileiros, reunir todos os homens, em
geral, e os iItalianos aqui residentes, em particular, sob a bandeira deste país hospitaleiro e pregar a
harmonia completa entre todos os homens no âmbito das leis da nação, sem influir de modo qualquer
nas questões sociais. § 2o - O combate deve-se efetuar por meio da palavra, da imprensa,
conferências públicas etc., etc. "
189
EM PROPAGANDA do encaminhamento de imigrantes. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXIII, n. 52, p. 5, 03 mar. 1927.
190
EM PROPAGANDA..., 1927, p. 5.
191
EM PROPAGANDA..., 1927, p. 5.
5
192
CONFERÊNCIA antifascista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 57, p. 5, 09 mar.
1927.
193
A CONSTITUIÇÃO da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 132, p. 4, 05 jun.
1928.
194
A CHEGADA de um deputado italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, anoXXXIV, n. 162, p. 5,
08 jul. 1928 CONFERÊNCIA antifascista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 167, p. 4, 14
jul. 1928; A VISITA do Conde Francisco Férula. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 170,
p. 4, 18 jul. 1928 A VISITA do Conde Férula. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 184, p. 4,
03 ago. 1928; CONFERÊNCIA contra o fascismo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXIV, n. 184,
p. 4, 03 ago. 1928.
195
JORNALISTA Italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 222, p. 4, 06 set. 1928.
196
A MARCHA sobre Roma. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 257, p. 40, 08 nov.
1931; A CHEGADA do diretor geral dos fasci italianos no exterior. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XXXVII, n. 294, p. 7, 16 dez. 1931; A VISITA do embaixador do fascismo. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XXXVII, n. 296, p. 3, 18 dez. 1931; NA COLONIA italiana. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXXVIII, n. 255, p. 8, 27 out. 1932; ANIVERSÁRIO da Marcha sobre Roma. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 258, p. 9, 30 out. 1932; O 11O ANIVERSÁRIO do fascismo.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 252, p. 11, 31 out. 1933; A MARCHA dos fascistas
sobre Roma. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 255, p. 13, 31 out. 1934; UMA SAUDAÇÃO
do embaixador italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 259, p. 14, 06 nov. 1934;
ANIVERSÁRIO Natalício do Rei da Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 264, p. 17, 11
nov. 1934; UMA BELA festa dos ex-combatentes italianos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n.
266, p. 7, 14 nov. 1934; A DATA aniversaria a fundação dos fasci de combate. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XLI, n. 57, p. 11, 10 mar. 1935; A ENTRADA da Itália na Grande Guerra. Correio
do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 122, p. 3, 28 maio 1935; ITALIANOS do Rio Grande do Sul.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 294, p. 1, 15 dez. 1935. OS ITALIANOS comemoram,
hoje, em todo o mundo o "Dia da Aliança". Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 294, p. 1, 18
dez. 1935; O MOVIMENTO da colonia italiana em prol do dólar para a pátria. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XLII, n. 3, p. 4, 4/jan. 1936; O ANIVERSÁRIO da marcha sobre Roma. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XLII, n. 255, p. 9, 29 out. 1936; P. S. Ação do fascismo contra a desocupação.
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 256, p. 5, 30 out. 1936; PELA causa da Itália. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 17, p. 7, 21 jan. 1936; PELA causa da Itália. Correio do Povo,Porto
Alegre, ano XLII, n. 18, p. 4, 22 jan. 1936; O DÓLAR para a pátria. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XLII, n. 18, p. 4, 22 jan. 1936; O DÓLAR para a pátria. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII,
n. 19, p. 4, 23 jan. 1936; AS PROVAS de patriotismo dos italianos residentes no Brasil. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 52, p. 8, 03 mar. 1936; A COLONIA italiana em festa. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 106, p. 11, 07 maio 1936; A MARCHA sobre Roma. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 254, p. 6, 30 out. 1937; C. L. As mais recentes iniciativas da cultura
italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 217, p. 5, 15 set. 1936; Ver BOBBIO,Norberto.
Intermédio de guerra. In: Perfil ideológico del siglo XX en Itália. México:Fendo de Cultura
Econômica (Breviários) 1993. p. 158-177; CORREIO DO POVO. Porto Alegre, ano XLIII, n. 116, 19
maio 1937, publica a visita do presidente do senado italiano, que percorre algumas capitais , Luiz
Federzoni. Escritor, entre suas obras figuram "Il Corruttore" (1900); "Il Contemporanea" (1904);
"L'Allegra Novita" ( 1905); "Il Lucignola Dell'Ideale" (1906); "Alfredo Orian" (1910); "Ignacio Zuloaga"
(1912); "U'Itália Nell Egeo" (1913); "G. Casanova" (1913); "La Dalmazia che aspetta" (1915); "Il
Trattate di Rapallo" (1921; e outras obras especialmente de caráter político.
197
A CONSTITUIÇÃO ..., 1928, p. 4.
198
EM DESAFRONTA de uma injúria. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 230, p. 1, 26
set. 1928; O EMPASTELLAMENTO do "Il Piccolo". Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n.
232, p. 1, 28 set. 1928; O EMPASTELAMENTO do "Il Piccolo". Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXIV, n. 233, p. 5, 29 set. 1928; NA MADRUGADA de ontem, foi empastelado o "Deutsche Post".
Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 234, p. 7, 30 set. 1928.
199
GERTZ, René E. O empastelamento da Deutsche Post em 1928. Reunião Anual da Sociedade
Brasileira de Pesquisa Histórica (18;1998:Rio de Janeiro). In: REUNIÃO DA SBPH/SOCIEDADE
6
BRASILEIRA DE PESQUISA HISTÓRICA, XVIII, Anais ...Curitiba: SBPH, 1998. p. 339-343.
200
NA MADRUGADA...1928, p. 7.
201
INTEGRALISTAS e comunistas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 236, p. 3, 09 out.
1934.
202
CONTRA o fascismo, contra o comunismo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 182, p.
13, 04 ago. 1936
203
FEIRA navegante italiana para os portos do Brasil. Mercúrio,Porto Alegre, p. 3, 09 jul. 1923.
204
SARTORIO. Crociera della Regia Nave “Itália” nell´America Latina. Roma: instituto
Ítalo-Latino Americano, 9 dicembre 1999-5 febraio 2000, 1924. O que segue está nesta publicação
especial.
205
TRENTO, Angelo. O período entre as duas guerras. In: TRENTO, Angelo. Do outro lado do
Atlântico. Um século de imigração Italiana no Brasil. São Paulo: Nobel/Instituto Italiano di Cultura di
San Paolo/Instituto Ítalo-brasileiro, 1988a. p. 267-404, p. 307.
206
SARTORIO, 2000, p. 178.
207
CAMERANA, Ludovico Incisa di. La grande traversata di un Vittoriale galleggiante. In:
SARTORIO. Crociera della Regia Nave “Italia” nell´America Latina. Roma: instituto Italo-Latino
Americano, 9 dicembre 1999-5 febraio 2000, 1924. p. 1.
208
CAMERANA, 2000, p. 1.
209
Id., 1924, p. 14.
210
CAMERANA, 1924, p. 15.
211
AVARIA Grossa. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 305, p. 4, 20 dez. 1924.
212
EXPOSIÇÃO geral de indústria e de agricultura. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 77,
p. 4, 02 abr. 1926.
213
MOSTRUÁRIO de granito. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 175, p. 4, 20 jul. 1927.
214
MOSTRUÁRIO ..., 1927, p. 4.
215
A PROPAGANDA do Brasil na Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 175, p. 10, 28
jul. 1935.
216
SANMARTIN, Olyntho. O Brasil na Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 89, p. 5,
17 abr. 1937.
217
O RELEVO do Brasil na Feira de Milão. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 118, p. 5, 21
maio 1937.
218
SANMARTIN, Olyntho. O relevo do Brasil na Feira de Milão. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XLIII, n. 118, 21 maio 1937. p. 5.
219
A ITÁLIA na Exposição de São Paulo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 143, p. 19, 20
jun. 1937.
220
SAUDANDO os italianos do Brasil. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 110, p. 7, 12
maio 1937.
221
COLUNA diversos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 37, p. 2, 29 ago. 1937.
222
A PROPAGANDA do Brasil na Itália. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 282, p. 14, 03
dez. 1937.
223
GULLAR, Ferreira. Dentro da noite veloz. São Paulo: Círculo do Livro, (1962-1974). p. 64.
2
DICIONÁRIO Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 697.
224
O que não significa a ausência das formas narratórias, o que permite ao historiador buscar os
documentos escritos (e orais) que circulam na cidade e que produzem um tecido narrativo tão variado
a ponto de avistar novos narradores na re-criação da narrativa. Quanto ao campo literário do Rio
Grande do Sul, a discussão é complexa. Apenas indicamos que sua representação literária envolveu
gerações de escritores que se sucederam na construção e questionamento da originalidade da
literatura local. Como parte do corpus em questão, essa representação leva em conta a legitimidade
identitária da principal figura da cultura, o gaúcho”. Alguns críticos, como Regina Zilberman, datam
principalmente após a revolução farroupilha, a coleta do cancioneiro popular mais antigo a respeito,
7
que daria o fundamento do que se seguiria. Nos anos entre 1920 e 1937 a literatura urbana
contempla “o gaúcho” não mais altaneiro como nos primeiros tempos da representação literária, mas
despojado, decaído no seu papel social identitário, em razão da crise econômica na formação que lhe
dá significado, o pampa gaúcho. Esse gaúcho migra para a cidade. No entanto os imigrantes
europeus não participam da representação mais nobre da literatura. Pouco ou nada sensibilizam
escritores da envergadura de Alcides Maya, João Simões Lopes Neto, Amaro Juvenal e depois Darcy
Azambuja; ou a geração de Pedro Wyne, Cyro Martins, Aureliano de Figueiredo Pinto, Ivan Pedro de
Martins. Na ficção urbana dos anos 30 o espaço de representação pertence aos produtores e
consumidores da vida urbana e seus dramas, como em Dyonélio Machado. Afora Vianna Moog, a
imigração européia será tematizada penas com Josué Guimarães e muito recentemente com José
Clemente Posenato e Moacyr Scliar, para citar os mais consagrados pela crítica e pelo público de
leitores. Imigrantes na cidade, quando aparecem literariamente, são diluídos ou fragmentados sob o
sistema de categorização sociológica weberiana ou marxista, até bem recentemente. Ver
ZILBERMAN, Regina. Roteiro de uma literatura singular. Porto Alegre: Ed. da Universidade, 1992.
(Síntese Rio-grandense).
225
Para a política de restrição ver ainda DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. Imigração, urbanização e
industrialização: estudos sobre alguns aspectos da contribuição cultural do imigrante no Brasil. Rio
de Janeiro: Instituto Nacional de Estudos pedagógicos/Ministério da Educação e Cultura, 1964. p.
334-141.
226
LEPETIT, Bernard. É possível uma hermenêutica urbana? In: SALGUEIRO, Heliana Angotti. Por
uma nova história urbana: Bernard Lepetit. São Paulo: EDUSP, 2001. p. 137-154. p. 152.
227
LEPETIT, 2001, p. 145.
228
Ibid., p. 141.
229
ARGAN, Grulho. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p.
43.
230
FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA. De Província de São Pedro a Estado do Rio
Grande do Sul. Censo do RS: 1803-1950. Porto Alegre: Governo do Estado do Rio Grande do Sul,
1981. p. 81. p. 95, p. 125, p. 129.
231
CARNEIRO, J. F. Imigração e colonização no Brasil. Rio de Janeiro, São Paulo: Faculdade de
Filosofia, 1950. p. 34.
232
A autora ainda cita Mauss, para quem a crença na raça, língua e civilização comuns embasa as
ideologias nacionalistas que marcam a passagem do século XIX ao XX. [...] a raça cria a
nacionalidade num grande número de espíritos [...] e porque a nação criou a raça, acreditamos que a
raça criou a nação. (Mauss, 1969, p. 595-596). SEYFERTH, Giralda. Construindo a nação:
hierarquias raciais e o papel do racismo na política de imigração e colonização. In: MAIO, Marcos
Chor e SANTOS, Ricardo Ventura. Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: FioCruz, 1995. p.
41-58.
233
SIMMEL, Jorge. Sociologia: estudios sobre las formas de socialización. Buenos Aires: Espasa –
Calpe, 1939. p. 208. Cito: No son las formas de la proximidad y distancia espaciales las que
producen los fenómenos da la vencidad o extranjeria, por evidente que esto parezca. Estos hechos
son produzidos exclusivamente por factores espirituales, y se verifican dentro de una forma espacial
[...]. Lo que tiene importancia social no es el espacio, sino el eslabonamento y conexion de las partes
del espacio, produzidos por factores espirituales”.
234
CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O italiano da esquina: imigrantes na sociedade
Porto-Alegrense. Porto Alegre: EST, 1991. p. 59.
235
Almanak Riograndense, como outros almanaques, era destinado a leitores específicos e leais.
236
PACI, Massimo. La struttura sociale italiana: costanti storiche e trasformazione recenti.
Bologna: Il Mulino, 1982. p. 115-116.
237
Ver TRENTO, Angelo. O período entre as duas guerras. In: ______. Do outro lado do Atlântico:
um século de imigração italiana no Brasil. São Paulo: Nobel/Instituto Italiano di Cultura di San
Paolo/Instituto Ítalo-brasileiro, 1988a. p. 267-404.
238
ROCHE, Jean. Porto Alegre- Metrópole do Brasil Meridional. Revista Geografia urbana, São
Paulo, n. 19, p. 35, mar. 1965.
8
239
COMISSÃO ESPECIAL designada pelo Prefeito Municipal. Levantamento econômico-social das
malocas existentes em Porto Alegre, dez. 1951.
240
SARAMAGO, José. O ano da morte de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia das letras, 1998.
p. 11-14.
241
KRISTEVA, Júlia. Estrangeiros para nós mesmos. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
242
LEED, Eric J. La mente del viaggiatore: d´all Odissea al turismo globale. Bologna: Societá
editrice Il Mulino, 1992. p. 111.
243
BARTH, Fredrik. Grupos étnicos e suas fronteiras. In: POUTIGNAT, Philippe; STREIFF-FENART,
Jocelyne. Teorias da etnicidade:seguido de grupos étnicos e suas fronteiras de Fredrik Barth. São
Paulo: Fundação UNESP, 1998. p. 185-227. p. 188.
244
EXPOSIÇÃO de frutas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 26, p. 4, 31 jan. 1922;
FESTA da Uva em Vila Nova. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXXIX, n. 11, p. 4, 13 jan. 1933.
245
BUCELLI, Vittorio. Un viaggio a Rio Grande del Sud. Milão: Pallestrini, 1906. p. 140-141.
246
O FUNDADOR de Vila Nova. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 281, p. 9, 03 dez. 1935.
247
POSSAMAI, Paulo Cesar. Os trentinos no Rio Grande do Sul (1875-1919). Mostra uma face
desta singularidade, em relação aos trentinos, que embora etnicamente italianos, eram súditos do
Império Austro-Húngaro. O fato vai diferenciar italianos e trentinos até a incorporação da província de
Trento ao território italiano em 1919. O sentimento de ligação dos imigrantes com o Trentino e com a
monarquia austríaca foi alimentado pelo clero católico como uma forma de preservá-los da
propaganda anticlerical que era divulgada pelos liberais italianos. Fornece cifras de entrada no
estado: 54% de vênetos, 33% de lombardos, 7% de trentinos, 4,5% de friulanos e 1,5% de outras
proveniências. Em Porto Alegre editam o jornall Il Trentino, em1915 quando em 1917, passa a
chamar-se Áustria Nova, e define-se como “órgão dos austro-húngaros no Brasil”. O surgimento de
um jornal redigido em italiano que se dirigia aos imigrantes trentinos buscando manter entre os
mesmos o sentimento de lealdade ao império austro-húngaro não deixa de ser um importante sinal da
existência de um forte sentimento de identidade coletiva que opunha os trentinos aos italianos,
superando mesmo a etnicidade em comum” conclui Possamai (no prelo).
248
LEED, 1992, p. 115. Cito: ”Se il viaggiatore entra nel luogo nella maniera giusta egli e una fonte di
potenza, di bene, diespetto, salute e accrescimento dell´essere sociale. Se entra in maniera impropria
é inquinatore, un pericolo, una fonte di contagio che scompiglia un ordine sacro di differenzizzioni che
si materalizzano in mura, pattizioni, corridoi.
249
FERRETTI, Rosemary Brum. Uma casa nas costas: análise do movimento social urbano de
Porto Alegre 1975-198. Dissertação (Mestrado), Curso de Pós-Graduação em Antropologia, Política e
Sociologia, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Porto Alegre, 1985.
250
FERRETTI, 1985, p. 42.
251
VÁRIOS. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 71, p. 3, 24 mar. 1928.
252
ANÚNCIO. Mascara,Porto Alegre, ano VIII, n. IV, p. 156, 6 fev. 1925.
253
LINHA de Auto-Bonde. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 245, p. 4, 15 out. 1925.
254
AERO Clube Brasileiro. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 331, p. 4, 07 fev. 1920.
255
RUSCHEL, Nilo. Rua da Praia. Porto Alegre: Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1971. p. 117.
256
AERO ..., 1920, p. 4.
257
CENTRO de automóveis. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 147, p. 4, 17 jun. 1927.
258
MACEDO, Francisco Riopardense de. Porto Alegre: origem e crescimento. Porto Alegre: Sulina,
1968. p. 109.
259
INSTITUTO Parobé. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 108, p. 4, 08 maio 1920.
260
SENHORINHA apanhada por um automóvel. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVI, n. 179,
p. 4, 27 jul. 1921.
261
APANHADA por um automóvel. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 25, p. 4, 29 jan.
1922.
262
MENINA apanhada por um automóvel. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 98, p. 4, 25
9
abr. 1922.
263
O GATUNO em ação. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 192, p. 5, 12 ago. 1928. p.
15.
264
O "GATO" Theodoro Lima vai para a colonia. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 244,
p. 5, 20 out. 1933.
265
ATTILIO D'Avanzo lança um apelo aos italianos residentes no Rio Grande do Sul. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 85, p. 14, 13 abr. 1937.
266
ATTILIO, 1937, p. 14.
267
HENRIQUE, João. Impressões. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 92, p. 9, 21 abr.
1937.
268
Ibid., loc. cit.
269
COMISSÂO ESPECIAL …, 1951; FERRETTI, 1985.
270
MACEDO, 1968, p. 109-110.
271
Nova incisões urbanas aguardam a modernização desejada para a cidade, principalmente no
centro histórico. A bibliografia existente é importante. FERRETTI, Rosemary Brum. Uma casa nas
costas: análise do movimento social urbano de Porto Alegre 1975-1985. Dissertação (Mestrado)-
Curso de Pós-Graduação em Antropologia, Política e Sociologia, Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1985; PESAVENTO, Sandra
Jatahy. (Coord.). Memória Porto Alegre: espaço e vivências. Porto Alegre: Prefeitura Municipal de
Porto Alegre/Ed. da Universidade/UFRGS, 1990; MONTEIRO, Charles. Porto Alegre. urbanização e
modernidade. A construção social do espaço urbano. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995. (Coleção
História 4); MACHADO, Nara Helena Naumann. Modernidade, arquitetura e urbanismo: o centro
de Porto Alegre. 1998. Tese (Doutorado)- Curso de Pós-Graduação em História, Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1998. ;
SEBBEN, Maria da Graça. Revitalização de áreas urbanas: um estudo de caso: a rua Voluntários
da Pátria. 1999. Dissertação (Mestrado)- Curso de Pós-Graduação em História, Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1999;
MATTAR, Leila Nesralla. Porto Alegre: Voluntários da Pátria e a experiência da rua plurifuncional
(1900-1930). 2001. Dissertação (Mestrado)- Curso de Pós-Graduação em História, Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre,
2001. Para Brasil na passagem para o século XX, ver ARAÚJO, Hermetes Reis de. D´Une nature á
l`áutre: techinique, construction de l´espace et transformation sociale (Brésil, 1850-1910). 1997.
Thése (Doctorat)- UFR de Géographie, Histoire et Sciences de la Société, Doctorat en Histoire et
Civilisation Université de Paris VII, Paris, 1997.
272
FERRO, Marc. O filme. Uma contra –análise da sociedade? In: LE GOFF, Jacques; NORA,
Pierre. História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p. 199-215.
273
Segue-se- Francisco Santos (1913-1914), “O crime dos banhados” e “A mulher do chiqueiro”. E.
C. Kerrigan (1927-1929) Amor que redime” e “Revelação”. Eduardo Abelim considerado um dos
grandes pioneiros filmou “O castigo do orgulho” (1927) e “O pecado da vaidade” (1931). Quando da
Revolução de 30, com uma câmara, filma o envolvimento dos gaúchos no processo revolucionário.
MERTEN, Luiz Carlos. A aventura do cinema gaúcho. São Leopoldo: Ed. UNISINOS, 2002.
274
NOVO Cinema. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 191, p. 5, 07 ago. 1927.
275
STEYER, Fábio Augusto. Cinema e imprensa e sociedade em Porto Alegre. (1896-1930).
Porto alegre: EDIPUCRS, 2001. (Coleção História 45). p. 76.
276
NOVO ..., 1927, p. 5.
277
FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre:guia histórico. Porto Alegre: Editora da
Universidade/UFRGS, 1998. Verbete Cinemas, p. 113-114.
278
Película disponível na Cinemateca Brasileira, São Paulo.
279
UM FILME fascista no cinema central. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 97, p. 4,
26 abr. 1932.
280
CARRAZZONI, André. Evasões da realidade. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 191, p.
3, 16 ago. 1934.
0
281
Id. Evasões da realidade. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 191, p. 3, 16 ago. 1934.
282
Id. Evasões da realidade. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 191, p. 3, 16 ago. 1934.
283
SANMARTIN, Olynto. Um ciclo de cultura social. Porto Alegre:Sulina, 1969. Sobre
especificamente o teatro ver, HESSEL, Lothar. O teatro no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed da
Universidade, UFRGS, 1999.
284
PIERINI, Sylvio. Quarenta anos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 229, p. 3, 01 out.
1935.
285
Ibid., loc. cit.
286
Ibid., loc. cit.
287
Ibid., loc. cit.
288
Ibid., loc. cit.
289
PIERINI, 1935, p. 3.
290
HOMENAGEM póstuma. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 169, p. 5, 27 jul. 1937.
291
Ibid., loc. cit.
292
HOMENAGEM ao inventor do rádio. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 197, n. 174, p.
3, 24 ago. 1937.
293
NEUBERGER, Lotário. O rádio no RS. In: NEUBERGER, Lotário. RS no contexto do Brasil.
Círculo de pesquisas literárias. Porto Alegre: EDIPLAT, 2000. p. 79-84.
294
Palestra proferida na sessão extraordinária da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, 2002, em
homenagem ao radialista, e redigida por Lídia Gabellini, ex-proprietária da rádio. A quem
agradecemos a doação. (Informação verbal)
295
FERREIRA, Athos Damasceno Ferreira. Imprensa literária no séc. XIX. Porto Alegre: Editora da
URGS, 1975. Ver PORTO ALEGRE, Aquylles. História popular de Porto Alegre. Porto
Alegre:EU/Porto Alegre, 1994. Ver MEYER, Augusto. Segredos da infância: no tempo da flor. Porto
Alegre:IEL/Editora da Universidade/UFRGS, 1996. Ver ALMEIDA, Marlene Medaglia. Na trilha de um
Andarengo (1877-1944). Porto Alegre: IEL/EDIPUCRS, [s. d. ]. (Coleção Ensaios). Ver
BAUGMGARTEN, Carlos Alexandre. A crítica literária no Rio Grande do Sul. Do romantismo ao
modernismo. Porto Alegre: IEL/EDIPUCRS, 1997. (Coleção Ensaios). Ver MASINA, Lea; MAYA,
Alcides. Um sátiro na terra do Currupira. Porto Alegre; IEL/UNISINOS, 1998.
296
RAMOS, Eloisa Capovilla da Luz. O teatro da sociabilidade: um estudo dos clubes sociais com
espeços de representação das elites alemãs e teuto-brasileiras: São Leopoldo,1850/1930. 2000.
Teses (Doutorado) Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em
História, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2000.
297
GERTZ, René. O aviador e o carroceiro: política, etnia e religião no Rio Grande do Sul dos
anos 1920. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002. (Coleção História, 50). p. 89-123.
298
TIRO de guerra. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 46, p. 4, 25 fev. 1920.
299
TIRO da guarda nacional. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 180, p. 4, 05 ago. 1920.
300
TIRO de guerra. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 310, p. 4, 28 dez. 1924.
301
UM CLUBE com reais serviços ao remo rio-grandense. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL,
n. 33, p. 7, 09 fev. 1934.
302
UM CLUBE ..., 1934, p. 7.
303
BUCELLI, 1906, p. 98.
304
PORTO ALEGRE por dentro, a luta. Correio do Povo, Porto Alegre, ano 1, n. 105, p. 1, 30 maio
1924.
305
RESTAURANTE-BAR Guarany. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 40, p. 4, 16 fev.
1922
306
RESTAURANT Guarany. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 86, p. 4, 13 abr. 1932.
307
BAR-RESTAURANT. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 132, p. 4, 05 jun. 1925.
308
CASA Antonello. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 250, p. 4, 19 out. 1928.
309
RESTAURANTE Familiar. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 155, 04 jul. 1931.
1
310
RESTAURANTE Popular. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 253, p. 4, 29 out. 1931.
311
CARVALHO, Haroldo Loguercio. A modernização em Porto Alegre e a modernidade do
Majestic Hotel. 1994. Dissertação (Mestrado)- Instituto de Filosofia e Cências Humanas, Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1994.
312
NOVO Hotel. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 217, p. 4, 17 set. 1920.
313
HOTEL Palácio. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 54, p. 4, 05 mar. 1922.
314
HOTEL Coliseu. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 224, p. 4, 17 set. 1924.
315
HOTEL Jung. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 208, p. 4, 02 set. 1925.
316
CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas: reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre:
Companhia União de Seguros Gerais, 1983.
317
FERREIRA, 1975, p. 56.
318
ZILBERMAN, Regina. Literatura gaúcha. temas e figuras da ficção e da poesia do Rio Grande
do Sul. Porto Alegre: L&PM, 1985; MARTINS, Maria Helena (Org.). Cyro Martins 90 anos. Porto
Alegre: CELPE/IEL/CORAG, 1999; VELLINHO, Moysés. Partenon Literário. Edição comemorativa
aos 130 anos da Sociedade Parthenon Litterário. (1868-1998). Porto Alegre: Arquivo Histórico de
Porto Alegre, 1998.
319
CATTARULLA, Camilla. Adan Buenosayres: periferie urbene e identità nazionale. In: GIOCELLI,
Cristina; CATTARULLA, Camilla; SCACCIII, Anna. Cittá reali e immaginarie: del continente
americano. Roma: Edizioni Associate Editrice Internazionale, 1998. p. 571-599.
320
BORDINI, Maria da Gloria. Nova York, de John dos Passos. Porto Alegre, set. 1997.
(Informação verbal).
321
MONTEIRO, Charles. Porto Alegre e suas escritas: histórias e memórias (1940-1972). 2001
Tese (Doutorado)- Programa de História, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, São
Paulo, 2001; CRUZ, Cláudio. Literatura e cidade moderna. Porto Alegre 1935. Porto Alegre:
EDIPUCRS/IEL, 1994a. (Coleção Ensaios); PECHMAN, Robert Moses. Cidades estreitamente
vigiadas: o detetive e o urbanista. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.
322
INSTITUTO Musical. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 156, p. 4, 08 jul. 1920.
323
SANMARTIN, 1969. Sobre especificamente o teatro ver, HESSEL, Lothar. O teatro no Rio
Grande do Sul. Porto Alegre: Ed da Universidade, UFRGS, 1999.
324
O mentor do clube, Mario Totta, nascido em Porto Alegre em 1886 e descendente de Italianos,
além de sua projeção na cidade como médico, professor, é um dos fundadores do jornal Diário de
Notícias, onde desenvolveu uma carreira de escritor ao lado da de jornalista.
325
SANMARTIN, 1969, p. 65.
326
Ibid., p. 65.
327
CONSTANTINO, Núncia Santoro de. A conquista do tempo noturno: Porto Alegre “moderna”.
Estudos Estudos Ibero-Americanos, Porto alegre, v. 20, n. 2, p. 65-84, 1994.
328
SANMARTIN, 1969, p. 46-47. Ver LAZZARI, Alexandre. Certas coisas não são para que o
povo as faça: carnaval em Porto Alegre 1870-1915. Dissertação (Mestrado)- Universidade Estadual
de Campinas, Campinas, 1998.
329
SANMARTIN, 1969, p. 76. Mansueto Bernardi, nascido em Àsolo, Treviso (norte) é escritor,
poeta, e grande promotor cultural da cidade, através da Livraria do Globo, de outro Italiano, José
Bertaso. A bibliografia completa da obra de Mansueto Bernardi está em: BERNARDI, Mansueto.
Terra convalescente. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes/Livraria
Sulina, 1998. (Obras Completas, v. 1).
330
JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo:
Ática, 1994. p. 40-50.
331
Seria igualmente fastidioso enumerar a data completa das apresentações. Para complementar
essas informaçôes, ver SANMARTIN, 1969.
332
MASINA, 1998, p. 236.
333
MEYER, Augusto. Cinqüenta anos de vida literária. Correio do Povo, Porto Alegre, p. 4-7, 01
out. 1945. SILVA, Maria Luiza Berwanger da. Paisagens reinventadas: traços franceses no
2
simbolismo sul-rio-grandenses. Porto Alegre: Ed. da Universidade, UFRGS, 1999. p. 345-346.
334
Escreve em 1955 O estudos rio-grandenses: motivos de história e literatura. Editado pela
Globo. Ver MAROBIN, Luiz. Painéis da literatura gaúcha. São Leopoldo: Ed Unisinos, 1995. p.
23-24.
335
SANMARTIN, 1969, p. 80.
336
SANMARTIN, 1969, p. 87.
337
MOREIRA. Maria Eunice. Regionalismo e literatura: no Rio Grande do Sul. Porto Alegre:
EST/ICP, 1982.
338
SANMARTIN, 1969, p. 93. A discussão histórica sobre o tema é consistente. Ver LIPPI, Oliveira
Lúcia. A questão nacional na primeira república. São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 95-109; p.
111-126; p. 127-143; LAUERHASS, Jn. Ludwig. Getúlio Vargas e o triunfo do nacionalismo
brasileiro. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1986. p. 35-58; p. 59-82; MOTTA, Marly. Silva
da. A nação faz 100 Anos. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1992; VELLOSO, Mônica
Pimenta. A literatura como espelho da nação. Estudos históricos, v. 1, n. 2, p. 239-263, 1988;
BAUGMGARTEN, Carlos Alexandre. A crítica literária no Rio Grande do Sul: do romantismo ao
modernismo. Porto Alegre: IEL/EDIPUCRS, 1997. (Coleção Ensaios); LEITE, Ligia Chiappini.
Modernismo no Rio Grande do Sul: materiais para seu estudo. São Paulo: Instituto de Estudos
Avançados, 1972.
339
SANMARTIN, 1969, p. 94; ver FABRIS, Annateresa. Futurismo e cubismo no Brasil. São
Paulo: Fundação Memorial da América Latina/Parlamento Latino Americano, 1999. (Coleção Memo).
340
Em 1926 Dyonélio Machado escreve O estadista, seu primeiro livro de ficção. Está longe ainda
do Os ratos, de 1935 que o projetaria nacionalmente. Mas já é reconhecido nas rodas literárias, como
será na política dos próximos tempos e na medicina, como psquiatra. Ver CRUZ, Cláudio. Os ratos.
In: _______. Literatura e cidade moderna. Porto Alegre 1935. Porto Alegre: EDIPUCRS/IEL, 1994a.
p. 89-142. (Coleção Ensaios); GRAWUNDER, Maria Zenilda. Instituição Literária: análise da
legitimação da obra de Dyonelio Machado. Porto Alegre: IEL/EDIPUCRS, 1997. (Coleção Ensaios).
341
REVERBEL, Carlos; LAITANO Cláudia. Arca de Blau: memórias. Porto Alegre: Artes e Ofícios,
1993. p. 61-62.
342
Em 26 Alcides Maya já escrevera alguns poemas (1922-1923), Coração verde (1924-1925),
Giraluz (1926-1927) In: MARTINS, Cyro. Perpectivas de Augusto Meyer In: Escritores gaúchos.
Porto Alegre: Movimento, 1981.
343
PINA Mónaco e Germana Bittencourt. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 131, p. 3, 29
maio 1927.
344
PETRELLI, Umberto. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 44, p. 4, 23 fev. 1932.
345
Ver HESSEL, 1999, p. 9-49.
346
ORQUESTRA sinfônica. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 165, p. 4, 16 jul. 1931.
347
MAESTRO Lunardi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 44, p. 4, 23 fev. 1932.
348
NOTAS de arte. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 115, p. 5, 18 maio 1933.
349
Estranhamente é escassa a historiografia sobre as sociedades italianas. Citamos
CONSTANTINO, 1991b, que faz a pesquisa histórica até 1991; para a pesquisa até 1925, ver o
CROCETTA, B. Le associazioni. In: CINQUANTENARIO DELLA COLONIZZAZIONE ITALIANA
NELLO STATO DEL RIO GRANDE DEL SUD. “1885-1925”. Porto Alegre: Globo; Roma: Ministro
degli Affari Esteri, 1925. p. 364-397. Principalmente até 1925, traz a nominata das diretorias é
referência documental importante para a historiografia das sociedades. As sociedades ainda
existentes como Sociedade Italianado Rio Grande do Sul, cita à rua João Telles, fundada em 1893
está constituindo acervo próprio. A Sociedade Calabresa, fundada em 1992 do mesmo modo está
organizando importante acervo sobre a presença dos meridionais em Porto Alegre, como ficou claro
nas recentes comemorações do Gemellaggio, de 18 de novembro a 30 de novembro de 2002. O
Gemellaggio comemora 20 anos de unção da cidade de Morano- Calabro, cidade- irmã de Porto
Alegre.
350
SCALABRINI, João Batista. A emigração italiana na América. Porto Alegre: Escola Superior de
Teologia São Lourenço de Brindes, Centro de Estudos de Pastoral Migratória, Caxias do Sul:
Universidade de Caxias do Sul, 1979. p. 192-206.
3
351
CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Italianos na cidade. A imigração itálica nas cidades
brasileiras. Passo Fundo: UPF Editora/Associazione culturale Italianadel RS - ACIRS, 2000. (Il Brasile
Italiano. 500 anos de História). p. 27. Ver BERNARDI, Mansueto. Gli Italiani e la Republica di Piratini.
In: LA COOPERAZIONE DEGLI ITALIANI AL PROGRESSO CIVILE ED ECONOMICO DEL RIO
GRANDE DEL SUD. Ópera pubblicata in occasione delle feste commemorative del cinquantenario
della colonizzazione Italiana nello stato (1875-1925). Porto Alegre: Ed. Globo. p. 35-46.
352
LEED, 1992, p. 158.
353
A mudança semântica reflete uma atribuição positiva ao imigrante se bem sucedido socialmente.
Ver POUTIGNAT, Philippe. Teorias da etnicidade: seguido de grupos étnicos e suas fronteiras de
Fredrik Barth/Philippe Poutignat, Joceline Streiff-Fenart. São Paulo: UNESP, 1998. (Biblioteca
Básica). Pode ser autodesignação utilizando estereótipos positivamente, como nos depoimentos de
jovens imigrantes brasileiros beneficiados, muitos deles, com a dupla cidadania italiana. In: A PLACE
in the sun. Jungle Drums, London, n. 1, 2003.
354
GIRON, Loraine Stomp. As sombras do littorio: o fascismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre:
Parlenda, 1994. p. 47.
355
A Vittorio Emanuelle II, na origem Mutuo Socorro e Benevolenza, datada de 1877, com perfil
eminentemente cultural, em se tratando da primeira sociedade em Porto Alegre, teve como Pres. de
honra Giuseppe Garibaldi e obteve sua sede própria em 1904. Seguem-se as sociedades Principezza
Elena di Montenegro, 1893; Umberto I, 1900; Giovani Emanuel, 1902; na Tristeza em 1885 fundam a
Giuseppe Mazzini, para assistência médica. A sociedade Moranesi Uniti, teve sua primeira diretoria
em 23 de novembro de 1924, a qual contava com: Dr. Angelo Perrone, Gennaro Conte, Angelo
Rosito, Domenico Faillace, Leonardo Perrone, Giuseppe Faillace, Rocco Rosito, Nicola Faillace,
Biagio Marroni, Pietro Faillace. A que terá caráter mais polivalente será a Società Nazionale Dante
Alighieri, fundada pelo Comitato local, em 1914, com sede em Roma, fazendo a ligação com o grupo
local. Originariamente presta apoio aos familiares dos jovens que participam da guerra, após o que
proporciona ensino e difusão da cultura. Ver CROCETTA, B. Le associazioni. In: CINQUANTENARIO
DELLA COLONIZZAZIONE ITALIANA NELLO STATO DEL RIO GRANDE DEL SUD. “1885-1925”.
Porto Alegre: Globo; Roma: Ministro degli Affari Esteri, 1925. p. 364-397.
356
CROCETTA, 1925, p. 364
357
Sobre o individamento, a obra referência é BAKOS, Margaret Marquiori. Porto Alegre: e seus
eternos intendentes. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996. (Coleção História, 11). P. 81-89. FRANCO,
Sérgio. Porto Alegre e seu comércio. Porto Alegre: Associação Comercial de Porto Alegre, 1983.
(Edição Comemorativa do 125o Aniversário da Associação Comercial de Porto Alegre); ver SINGER,
Paul. Desenvolvimento econômico e evolução urbana. São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1974.
358
CONSTANTINO, Núncia Santoro de; OSPITAL, María Silvia. Costrução da identidade e
associações italianas: La Plata e Porto Alegre (1880-1920). Estudos Ibero-Americanos, Porto
Alegre: PUCRS, v. XXV, n. 2, p. 131-146, dez. 1999. Ver igualmente DEVOTO, Fernando.
Participación y conflictos en las sociedades italianas en Argentina (1866-1914). In: ROSOLI,
Gianfausto (Org.). La imigración italiana em la Argentina. Buenos Aires: Biblos, 2000. p. 141-164.
359
Para PECHMAN, 2002, 2002, p. 334, “trata-se de, pois, perceber como essa conjuntura
estrutura-se em camadas que podem ser lidas no ‘texto’ ou, no caso se deseje, no ‘corpo’ da cidade
tanto horizontal como verticalmente, e que quando articuladas, funcionam como um guia [...], o mapa,
através do qual se penetra na carne dessa cidade para descobrir o segredo de suas pedras.
Podemos nomear essas camadas como sendo: a camada literária, a camada policial-jurídica, a
camada cietítífica e a camada urbanística”.
360
YERASIMOS, Stéphane. Introdução. In: POLO, Marco. O livro das maravilhas: adescrição do
mundo. Porto Alegre: L&PM, 1994. SAINT HILAIRE, Auguste François César Prouvençal de. Voyage
à Rio Grande do Sul (1820-1821), Publicada em Orleans, Arquivo Nacional, 1887.
361
GRIJÓ, Luiz Alberto. De Aquiles a Péricles: do herói da epopéia ao grande homem da história. In:
FELIX, Loiva Otero; ELMIR, Cláudio P. Mitos e heróis: construção de imaginários. Porto Alegre: Ed.
Universidade/UFRGS, 1998. p. 53-74. Ver igualmente CESAR, Temístocles. Sob o firmamento da
história: o “mito” do texto como representação objetiva do passado. In: Mitos e heróis,p. 163-178.
362
BLANCATO, 1921, p. 185.
363
20 DE SETEMBRO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 204, p. 4, 02 set. 1920a.
4
364
LA COOPERAZIONE DEGLI ITALIANI AL PROGRESSO CIVILE ED ECONOMICO DEL RIO
GRANDE DEL SUD. Opera pubblicata in ocasione delle feste commemorative del cinquantenario
delle colonizzazione italiana nello stato (1875-1925); La relazione dell’on. Luciani sull’Ambasciata
Straordinaria al Brasile. In: BLANCATO, Caetano (Dir.). Alamanacco italiano illustrato del giornale
“La Patria”. Porto Alegre, Anno V, 1921, p. 186-194; ESPÍNOLA, Claúdia Macedo. Tutti Buona
Gente: odiscurso sobre os imigrantes italianos e seus descendentes no Rio Grande do Sul durante a
Primeira Guerra Mundial. Trabalho de conclusão de Curso (Graduação)- Curso de Graduação em
História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul, Porto Alegre, 1997.
365
20 DE SETEMBRO,Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 204, p. 4, 17 set. 1920a.
366
DOBERSTEIN, Arnoldo Walter. Estatuários, catolicismo e gauchismo. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 2002. (Coleção História, 47). p. 124.
367
20 DE SETEMBRO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 217, p. 4, 17 set. 1920b.
368
CASA dos italianos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 242, p. 4, 16 out. 1920.
369
ASSOCIATION FREUDIENNE INTERNATIONALE´E MAISON DE, Lámerique Latine. Um
incosciente pós-colonial: se é que ele existe. Porto Alegre: Artes e Ofício, 2000. Ver ASSOCIAÇÃO
PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE. Imigração e fundações. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.
Ver ainda BORGES, Stella. Italianos: Porto Alegre e trabalho. Porto Alegre: EST, 1993.
370
BURKE, Peter. Veneza e Amsterdã: um estudo das elites do século XVII. São Paulo:
Brasiliense, 1991. p. 68.
371
CROCETTA, B. Le associazioni. In: CINQUANTENARIO DELLA COLONIZZAZIONE ITALIANA
NELLO STATO DEL RIO GRANDE DEL SUD. “1885-1925”. Porto Alegre: Globo; Roma: Ministro
degli Affari Esteri, 1925. Instrução primária, p. 495. Por outro lado a criação da Secretaria de
Educação e Saúde Pública processou-se apenas pelo decreto n. 5969, de 26 de junho de 1935, sob o
selo da “Escola Nova”, experiência que desde os fins do século XIX entusiasmava a Europa, os EUA.
KREMER, Alda Cardosol. Panorama da educação. In: ______. Rio Grande do Sul: terra e povo.
Porto Alegre: Globo, 1969. p. 259-287. Quanto às congregações católicas e a educação, no período,
ver Opera di sacerdoti e congregazioni Italiane nel progresso religioso, nello sviluppo dell`arte, dell
ïstruzione e dell`assistenza nello Sato. In: LA COOPERAZIONE DEGLI ITALIANI AL PROGRESSO
CIVILE ED ECONOMICO DEL RIO GRANDE DEL SUD. Opera pubblicata in ocasione delle feste
commemorative del cinquantenario delle colonizzazione italiana nello stato (1875-1925); La relazione
dell’on. Luciani sull’Ambasciata Straordinaria al Brasile. In: BLANCATO, Caetano (Dir.). Alamanacco
italiano illustrato del giornale “La Patria”. Porto Alegre, Anno V, 1921. p. 153-192.
372
CROCETTA, 1925, p. 374; A luta pela construção da sede pode ser acompanhada nas notícias
CONSTRUÇÃO de uma sede. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 119, p. 5, 20 maio
1928, Desde novembro último que a Sociedade Italiana "Dante Alighieri" está construindo um edifício,
à rua da Misericórdia, esquina da General Vitorino. A direção daquela sociedade resolveu, agora,
lançar um empréstimo, entre sócios e a colônia italiana, na importância de 200 contos de reis, a fim
de concluir a obra. Dará ela, em garantia hipotecária, o terreno e o prédio, que, quando concluído,
tem um valor de cerca de 500 contos de reis. Quanto ao juro, será de 7% ao ano, fazendo,
anualmente, certas amortizações com o produto das partes do prédio que serão alugadas. [...]; NOVA
sede da Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 199, p. 4, 21 ago. 1928, [...]
Em assembléia geral realizada poucos dias, o Comité Feminino da mesma sociedade resolveu
organizar uma "Centuaria d'Onore", composta de senhoras e senhoritas que contribuiram com
determinadas quantias em benefício da sede acima, que também se chamará "Casa dos Italianos".
Para encerrar a lista das componentes dessa "Centuaria d'Onore" foi resolvido levar a efeito, no dia 6
de setembro, um cdançante, precedido de uma hora de arte, na qual tomarão parte elementos de
destaque do nosso mundo artístico [...];SOCIEDADE Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XL, n. 123, p. 9, 29 maio 1934, [...] Além de solucionar os velhos compromissos e intensificar os
meios de propaganda para conseguir as finalidades sociais, conta a nova diretoria da Dante Alighieri
com a ativa cooperação de todos os sócios e com a plena solidariedade da colônia italiana para
completar o suntuoso edifício da "Itália Domus", que, como seu proprio nome indica, significa a casa
de todos os italianos, não só da capital mas do Estado, à semelhança das "Casas dos Italianos", que
com o mesmo segnificado simbólico foram construídos em Paris, Chambery, Alger, Tanger,
5
Barcelona, Mônaco, Baviera, Sofia, Beirute, Calcutá, Pequim, Rio de Janeiro, Salonicco, Basilea,
Zurich, etc. [...]”.
373
O CINQÜENTENÁRIO da imigração italiana no estado. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX,
n. 179, p. 4, 26 jul. 1924; CINQÜENTENÁRIO da imigração italiana. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XXX, n. 187, p. 4, 05 ago. 1924.
374
NOVA sociedade italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 286, p. 4, 28 nov. 1924.
375
CROCETTA, 1925, p. 373: La prima Amministrazione sociale é risultada cosi composta:
presidente: Conte Genaro; vice-presidente, Faillace Nicola; 2 vice-presidente, Faillace Domenico; 1
segretario, Mainieri Attilio; 2 segretario, Rosito Angelo; 1 tesorieri, Faillace Francesco; 2 tesorieri,
Marroni Biagio; -cosiglieri:Mainieri Carmine;Gallo Rocco, Lo Tufo Antonio, Mainieri Luigi, Faillace
Pietro, Faillace Francesco, Mainieri Matteo, Anele Pasquale, Ferrari Pasquale, Celia Giovanni,
Marroni Fideli Mainieri Aprilucio.
376
GERTZ, 2002.
377
Sobre as relações do arcebispo Dom João Becker e a política nacionalista, ver DREHER, Martin.
(Org.). Populações rio-grandenses e modelos de igreja. Porto Alegre/São Leopoldo l:
EST/Sinodal, 1998.
378
PELOS italianos mortos na guerra. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 266, p. 4, 05 nov.
1924.
379
A ENTRADA da Itália na Guerra. Correio do Povo, Porto Alegre, anoXXXIII, n. 129, p. 4, 27 maio
1927.
380
Por sua atuação junto aos imigrantes, a obra de Scalabrini é sempre lembrada. Entre outros, ver
RIZZARDO, Redovino. Os scalabrinianos no Brasil; missionários que salvaram a e a civilização de
um povo. In: SULIANI, Antõnio (Org.). Etnias & carisma. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001. p.
919-934. Desde uma perspectiva política ver RODEGHERO, Carla. O diabo é vermelho: imaginário
anticomunista e Igreja católica no Rio Grande do Sul (1945-1964). 1996. Dissertação (Mestrado)-
Programa de Pós-Graduação em História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1996; ver GERTZ, 2002.
381
CURSO Prático da Língua Italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 139, p. 4, 08
jul. 1927.
382
COMITATO Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 218, p. 4, 08 set.
1927.
383
PROPAGANDA da língua italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 120, p. 4, 22
maio 1928.
384
CASAS de Ensino Instituto Ítalo-Brasileiro Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXIV, n. 146, p. 8, 21 jun. 1928.
385
CROCETTA, 1925, p. 403.
386
A REORGANIZAÇÃO das escolas italianas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 51, p.
3, 02 mar. 1933.
387
O ENSINO de italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 112, p. 4, 14 maio 1933.
388
A INAUGURAÇÃO do Curso de italiano no Ginásio Bom Conselho. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XLI, n. 76, p. 13, 02 abr. 1935.
389
O ENSINO de italiano no Ginásio de Nossa Senhora das Dôres. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XL, n. 263, p. 13, 10 nov. 1934.
390
A MARCHA sobre Roma. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 257, p. 40, 08 nov.
1931.
391
BANASQUE, Clemenciano. Um apelo à colônia italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXVII, n. 195, p. 14, 20 ago. 1931.
392
CONSIDERAÇÕES sobre a crise mundial. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 180,
p. 10, 31 jul. 1932.
393
Ibid., loc. cit.
394
NA COLÔNIA italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 255, p. 8, 27 out. 1932; O
X ANIVERSÁRIO da marcha sobre Roma. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 258, p. 9,
6
30 out. 1932.
395
O X ANIVERSÁRIO..., 1932, p. 9.
396
40
O
ANIVERSÁRIO da sociedade Elena de Montenegro. Correio do Povo, Porto Alegre, ano -
XXXIX N. 255 p. 9. 4 nov. 1933
397
SOCIEDADE Elena di Montenegro. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 139, p. 14, 16 jun.
1934.
398
SOCIEDADE Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 139, p. 4, 16 jun. 1934;
UMA FESTA de confraternização na Sociedade Elena de Montenegro. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XL, n. 147, p. 16, 26 jul. 1934.
399
SOCIEDADE Dante Alighieri. Correio do Povo,Porto Alegre, ano XL, n. 123, p. 9, 29 maio 1934.
400
SOCIEDADE Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 228, p. 16, 29 set. 1934.
.
401
SOCIEDADE Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 263, p. 4, 10 nov. 1934.
402
A MAIS antiga sociedade italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 181, p. 110, 4 ago.
1934.
403
DOCCA, Souza. A última visão de Anita Garibaldi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n.
106, p. 3, 07 maio 1935.
404
DOCCA, 1935, p. 3.
405
Ibid., loc. cit.
406
MONDIN, Guido. A colônia italiana e o sanatório Belém. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI,
n. 127, p. 10, 02 jul. 1935.
407
A COLÔNIA italiana e o Centenário Farroupilha. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 133,
p. 13, 09 jun. 1935.
408
A COLÔNIA italiana e o Centenário Farroupilha. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 249,
p. 4, 24 out. 1935.
409
A ENTRADA da Itália na Grande Guerra. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 122, p. 3, 28
maio 1935.
410
INAUGURAÇÃO de um monumento. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 280, p. 4, 01
dez. 1935.
411
O FUNDADOR..., 1935, p. 9.
412
UMA COMEMORAÇÃO da Colônia Italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 42, p.
10, 19 fev. 1936.
413
SOCIEDADE Dante Alighieri. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 70, p. 5, 24 mar. 1936.
414
UMA BRILHANTE festa promovida pela Colônia Italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XLII, n. 94, p. 7, 22 abr. 1936.
415
A COLÔNIA italiana em festa. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 106, p. 11, 07 maio
1936.
416
CLUB Duca Degli Abruzzi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 114, p. 12, 16 maio 1936.
417
A COLÕNIA italiana e o 7 de setembro. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 216, p. 15,
13 set. 1936.
418
HOMENAGEM aos que regressam da Campanha da Abissínia. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XLII, n. 246, p. 4, 18 out. 1936.
419
A COLÕNIA Italiana e o Centenario Farroupilha. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 276,
p. 15, 22 nov. 1936.
420
UMA HOMENAGEM da Colônia Italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 226, p. 9,
25 set. 1936.
421
FESTEJOS da Colônia Italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 59, p. 16, 12 mar.
1937.
422
A MARCHA sobre Roma. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 252, p. 6, 28 out. 1937.
423
P. S. As escolas italianas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 259, p. 6, 03 nov. 1936;
7
PELA divulgação da língua italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 287, p. 16, 09 dez.
1937.
424
PICCHIA, Menotti del. A língua italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 143, p. 5, 19
jun. 1937.
425
CONSULTÓRIO médico gratuito. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 244, p. 4, 19 out.
1920.
426
FEDERAÇÃO Espírita do Rio Grande do Sul. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 244,
p. 4, 26 out. 1920.
427
NATAL dos pobres. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 272, p. 4, 13 nov. 1921.
428
SANMARTIN, 1969.
429
VISITA de despedida ao Pão dos pobres. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXV, n. 108, p. 4,
09 maio 1929.
430
EM FAVOR dos desamparados. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 181, p. 7, 04 ago.
1931.
431
BANCO Francês Italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 258, p. 4, 04 nov. 1931.
432
TESTAMENTO do Sr. Nicolau Rocco. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 180, p. 4,
31 jul. 1932; Jurídico herança contestada Sr. Rocco. O Sr. José Irace, sobrinho e testamenteiro dos
bens deixados pelo seu tio Nicolau Rocco, dirigiu uma petição ao Dr. James Macedonia Franco, 4o
juiz distrital, dizendo que queria providenciar sobre a publicação de edital relativamente à citação dos
herdeiros daquelle extinto industrialista. A propósito, alega o Sr. José Irace, no seu requerimento
como testamenteiro que é, no testamento hológrafo, que, de acordo com o artigo 1. 646 do Código
Civil Brasileiro, queria providenciar sobre a publicação em juizo, ‘com a citação dos herdeiros
legítimos’, do testamento particular deixado por seu tio Nicolau Rocco. - que o rol dos herdeiros, a
saber: No Brasil (Porto Alegre), existe um só suplicante (sobrinho) filho da finada Victoria Rocco Irace
(irmã pré-morta do ‘de cujus’); na Itália, além de duas irmãs do suplicante, um irmão do ‘de cujos’;
duas sobrinhas, filhas do irmão pré-morto, Vicenzo Rocco, e seis sobrinhos (dois dos quais
domiciliados na Argentina, filhos de Concetta Rocco Sbrocco, irmã pré-morta do ‘de cujus’ - que ele,
José Irace, ignorando o lugar certo da maioria dos herdeiros, queria citá-los por edital (Comentário ao
artigo 1. 646 do Código citado, anotado pelo Dr. João Luiz Alves), com um prazo razoável, para
comparecerem à primeira audiência, após a transcorrência do edital, e assistirem à inquirição das
testemunhas instrumentárias que intervierem no testamento particular, diligência que procederá à sua
confirmação. Assim, requeria a expedição do competente edital citatório dos herdeiros do finado
Nicolau Rocco, nos termos acima expostos, justificada previamente a ausência (artigo 288 do Código
Civil e Comercial do Estado) com as testemunhas abaixo designadas - tudo com a intimação do
curador de ausentes. As testemunhas que deverão comparecer, independente de citação, são os Srs.
João Spolidoro e Jacintho Rainoni”.
433
AS QUEIXAS do público. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 52, p. 11, 4 mar. 1934.
434
PACHECO, Ricardo de Aguiar. O cidadão está nas ruas: representações e práticas acerca da
cidadania republicana em Porto Alegre (1889-1991). Porto Alegre: Ed da universidade/UFGRS, 2001.
p. 128.
435
DESORDEM na Rua dos Andradas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 80, p. 4, 04 abr.
1924; Ver MACIEL, Renato de Junior. Anedotário da Rua da Praia. Porto Alegre/Rio de janeiro:
Globo, 1982.
436
CANEZ, Anna Paula. Fernando Corona: e os caminhos da arquitetura moderna em Porto
Alegre. Porto Alegre: EU/Porto Alegre/Faculdades Integradas do Instituto Ritter dos Reis, 1998. p. 94.
437
SANMARTIN, 1969, p. 44.
438
MACIEL, 1982.
439
Com Fernando Corona, espanhol, a cidade recebe prédios modernos, mas com referências
clássicas. Constrói a arquitetura da exposição comemorativa do Centenário Farropupilha de 1935, o
Instituto de Educação (1934), o edifício Guaspari (1936), o prédio do Banco do Comércio (1926),
Instituto de Educação Flores da Cunha (1934). Em 1914 trabalha como escultor-decorador na firma
de seu pai, Corona e Guiringuelli, mas teve parceria com Agnello Nilo de Lucca, paulista, de
descendência italiana. Com ele, Corona projeta a Galeria Chaves e De Lucca; trabalhando para a
8
firma Azevedo Moura e Gertum projeta os edifícios Imperial e Frederico Mentz (Hotel Yong ). Ver
CANEZ, 1998.
440
RUSCHEL, 1971, p. 64-65.
441
Ibid., p. 5.
442
RUSCHEL, 1971, p. 13.
443
RUSCHEL, 1971, p. 15.
444
MARONEZE, Luiz Antõnio Gloger. Espaços de sociabilidade e memória: fragmentos da “vida
pública” porto-alegrense entre os anos de 1890 e 1930. 1988. Dissertação (Mestrado)- Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre,
1994.
445
HOMENAGEM a um médico. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXV, n. 34, p. 4, 09 fev. 1929.
446
CONFETARIA Rocco. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 2, p. 4, 03 jan. 1931.
447
LIGA Feminina Pró-Estado Leigo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 224, p. 4, 29
set. 1931.
448
DE LUCA, Giuseppe. La metáfora sanitária nella costruzione della città moderna in Itália. Storia
urbana, [s. l. ], n, 57, 1991.
449
DE LUCA, 1991.
450
DE LUCA, 1991.
451
Em 40 anos o Partido Republicano Rio-Grandense monopoliza o poder, sendo que, no período,
apenas três intendentes administram Porto Alegre, a saber: O primeiro foi José Montaury de Aguiar
Leitão que permaneceu 27 anos no poder, o segundo foi Otávio Rocha, que veio a falecer no decorrer
do seu mandato e o último foi Alberto Bins, que exerceu o poder aproximadamente por dez anos.
BAKOS, Margareth. Porto Alegre: e seus eternos intendentes. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.
(Coleção história 11). p. 45.
452
ROCHE, Jean. Porto Alegre: metrópole do Brasil meridional. In: Revista Geografia Urbana, (19):
mar, 1955, São Paulo, p. 35.
453
BAKOS, 1996.
454
DE GRANDI, Celito. Loureiro da Silva: o charrua. Porto Alegre: Literalis, 2002. Porto Alegre,
durante o Estado Novo, sofre grandes intervenções urbanas através de seu prefeito interventor,
Loureiro da Silva Chaves, que alcança realizar obras sem submeter à Camara de Vereadores. O
autoritarismo impulsiona o urbanista.
455
FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. São Paulo: EDUSP/Imprensa Oficial do Estado,
2001b.
456
Flores da Cunha, interventor eleito no primeiro Governo Constitucional por eleição indireta,
conforme a Constituição promulgada em 1934, no governo de Getúlio Vargas, ainda tenta conviver
com a oposição. E o consegue, até 21 de outubro de 1937, quando finalmente renuncia. Ver entre
outros, BELLINTANI, Adriana Iop. Conspiração contra o Estado Novo. Poto Alegre: EDIPUCRS,
2002.
457
DE GRANDI, 2002, p. 89.
458
DE GRANDI, op. cit., p. 56.
459
Sobre os problemas urbanos de Porto Alegre e as tentativas de planificação e intervenção
urbana, ver MACEDO, Francisco Rio-pardense de. Porto Alegre: origem e crescimento. Porto
Alegre: Sulina, 1968. p. 112. Nessa obra, cita os autores do Plano Geral de Melhoramentos do
arquiteto contratado, José Moreira Maciel e em seguida os engenheiros Edvaldo Paiva e Luiz Artur
Ubatuba de Farias, que tentam transpor para a cidade os Planos do Rio de Janeiro, do arquiteto
Agache e do Plano de Avenidas de São Paulo, proposto por Prestes Maia. De todo modo são
intervenções viárias ou de saneamento pontual, antes que oriundas de um planejamento em função
das crescentes necessidades do desenvolvimento urbano de Porto Alegre e de sua população como
um todo. Sobre esse aspecto ver, entre outros,FERRETTI, Rosemary Brum. Uma casa nas costas:
análise do movimento social urbano de Porto Alegre 1975-198. 1985. Dissertação (Mestrado)- Curso
de Pós-Graduação em Antropologia, Política e Sociologia, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1985.
9
460
As condições de habitação do proletariado vão deteriorar quanto mais aumenta o adensamento
demográfico da capital, centro de atração da mão de obra regional como pólo industrial e comercial
do Estado. Tendo límitrofe as ricas regiões das ex-colônias, como Novo Hamburgo, São Leopoldo e
Caxias do Sul, Bento Gonçalves, na serra, ainda recebe o excedente de mão de obra proveniente da
crise econômica do complexo agro-pastoril do sul do Estado. Ver. FERRETTI, op. cit.
461
INCÊNDIO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 115, p. 5, 16 maio 1920.
462
INCÊNDIO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 169, p. 5, 23 jul. 1920.
463
PRINCÍPIO de incêndio. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 156, p. 4, 02 jul. 1924.
464
É necessário uma longa nota, sintetizando o estudo de Fernando Casses Trindade, segundo o
qual, a “geração católica” foi o grupo “ideológico” mais importante no Rio Grande do Sul a partir da
década de 20 até os anos 50. a geração positivista formada no final do século XIX e consolidada
no poder até a revolução de 30, dissemina sua ação em tão variados campos do conhecimento que
estão longe da unidade dos católicos, centrados na ação dos jesuítas no Estado. No plano da
docência os jesuítas iniciam sua expansão em 1869, no Colégio Nossa Senhora da Conceição, em
São Leopoldo, cidade de colonização alemã, quando transferem a ênfase pedagógica para Porto
Alegre, em 1890 no Colégio Anchieta. Para Fernando, o Colégio destaca-se entre os demais pela sua
Congregação Mariana, que foi o verdadeiro ”berço da geração católica” interessada na formação
intelectual e moral de seus aficionados. O núcleo mais consolidado foi o universitário denominado
Mater Salvatoris e presente nas faculdades desde 1910. Segundo ele, os positivistas dominavam as
faculdades de Engenharia, Direito e Medicina; já os católicos dominavam desde a fundação da
Faculdade de Porto Alegre, principalmente na Faculdade de Filosofia. Outra importante instituição do
período é a Ação Católica Oficial. A formação da “geração católica” nos anos secundários se dá antes
da revolução de 30. Em 1931 foi criado o Centro Católico de Acadêmicos que avança para dominar
as faculdades oficiais. Logo após a revolução é organizada a Liga Eleitoral Católica-LEG, em 1932,
que luta pela inclusão na constituição dos ideais católicos, convencendo alguns partidos a defender
tais propósitos, a LEG enfrentará os maçons e os positivistas. Mas diminui sua força porque a
hierarquia católica cinde-se entre D. João Becker que apóia o Partido Republicano Liberal, fundado
por Flores da Cunha, e o bispo de Uruguaiana, D. Ernesto José Pinheiro que discorda do interventor
que apóia o governo central. O Partido Republicano Rio-Grandense-PRR e o Partido Libertador-PL,
reunidos na Frente Única Rio-Grandense rompem com Flores da Cunha, o que acirra a cisão da
hierarquia católica no Estado. Em 1933 ocorre o Congresso Universitário Rio-Grandense, tendo
Francisco Machado Carrion na presidência e Ernani Fiori na vice-presidência, com apoio do
interventor Flores da Cunha, essa foi a primeira ação política pública dessa geração. A revista “Idade
Nova”, de 1934 é parte dessa estratégia, tal como o projeto da Universidade de Porto Alegre feito
pelos signatários do documento de 1934, dentre os quais havia muitos representantes da “geração
católica”. O Centro Católico de Acadêmicos foi o berço de centros católicos da juventude, em torno de
quarenta na capital e no interior. A ambição era formar uma federação da juventude católica. Na
Itália, havia a Ação Católica desde 1920, e o papa Pio XI exortava os países católicos a seguirem o
modelo, tarefa que, no Brasil, Dom João Becker toma a si, desde 1929, apenas em 1931, a iniciativa
começa a vingar. O problema é a aceitação da hierarquia religiosa e a possível perda de espaço da
“geração católica” vinda do Colégio Anchieta e que gera restrições. O que resulta de efetivo é que a
geração entre 20 e 40 influencia o nascimento da Faculdade de Filosofia. TRINDADE, Fernando
Casses. Uma contribuição á história da Faculdade de Filosofia da UFGRS. Revista do Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas, Porto Alegre: UFGRS, ano x, 198239-53, 1983.
465
ENGENHEIROS de 1922. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 126, p. 4, 30 maio 1922;
CENTRO dos acadêmicos de Direito. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 176, p. 4, 23 jul.
1924.
466
CENTRO dos acadêmicos de Direito. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 89, p. 4, 15
abr. 1924.
467
WEBER, Beatriz Teixeira. As artes de curar: medicina, religião, magia e positivismo na
República Rio-Grandense-1889-1928. Santa Maria: Ed da UFSM; Baurú: EDUSC, Universidade do
Sagrado Coração, 1999. Ver o verbete Moinhos de Vento, Hospital FRANCO, Sérgio da Costa. Porto
Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1998. p. 278.
468
CENTRO Acadêmico da Faculdade de Medicina. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n.
V0
188, p. 4, 14 ago. 1920.
469
ABRAÃO, Janete Silveira. A “Espanhola” em Porto Alegre. 1918. 1995. Dissertação
(Mestrado) Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas, Porto Alegre, 1995. p. 57.
470
Ver o verbete Santa Casa de Misericórdia. FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia
histórico. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1998. p. 360-363 e p. 278.
471
RECOLHIDA à Santa Casa. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 309, p. 4, 27 dez. 1924.
472
SANTA Casa. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 153, p. 4, 04 jul. 1920.
473
ENGOLIU um prego. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 12, p. 4, 14 jan. 1922.
474
SANTA CASA, 1924, p. 4.
475
FACULDADE de Medicina. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 179, p. 4, 26 jul. 1924.
476
DIRETORIA de Higiene. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 253, p. 4, 21 out. 1924.
477
IMPORTANTES intervenções cirúrgicas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 177, 26
jul. 1928; ver o verbete Moinhos de vento, Hospital FRANCO, 1998, p. 278.
478
HOMENAGEM a um médico. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXV, n. 34, p. 4, 09 fev. 1929.
479
HOMENAGEM a um clínico italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 282, p. 12,
02 dez. 1931.
480
DR. RODOLPHO Josetti. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 260, p. 4, 06 nov. 1931.
481
UMA SESSÃO extraordinária na Sociedade de Medicina. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXVII, n. 265, p. 14, 12 nov. 1931.
482
SOCIEDADE de Medicina. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 174, p. 4, 24 jul. 1932.
483
IMPRESSÕES da Itália, Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 183, p. 9, 06 ago. 1933.
484
UMA FESTA em Ipanema. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 229, p. 44, 11 out.
1933.
485
DaMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
486
OLIVEIRA, Clovis Silveira de. Porto Alegre: a cidade e sua formação. Porto Alegre: Metrópole,
1993. p. 149.
487
EVASÃO de alienados. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 267, p. 4, 16 nov. 1920.
488
VANDALISMO ou loucura? Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 148, p. 4, 22 jun. 1924.
489
VANDALISMO ou loucura? Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 149, p. 4, 24 jun. 1924.
490
SOCIEDADE Pestalozzi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXV, n. 8, p. 4, 10 jan. 1929.
491
O PROBLEMA imigrátorio sob o ponto de vista da higiene mental. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXXVIII, n. 218, p. 7, 14 set. 1932.
492
A CAMPANHA contra os indesejáveis. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 185, p. 5,
06 ago. 1932.
493
IMIGRAÇÃO selecionada. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 220, p. 4, 16 set.
1932. ; A SELEÇÃO imigratória. Correio do Povo, Porto Alegre, n. 217, p. 81, 8 set. 1932.
494
PESTE bubônica. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 16, p. 4, 19 jan. 1922.
495
PESTE bubônica. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 46, p. 4, 23 fev. 1922.
496
PESTE bubônica. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 97, p. 4, 26 abr. 1922.
497
PESTE bubônica. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 61, p. 4, 14 mar. 1922.
498
A HIGIENE do Mercado Municipal. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 9, p. 4, 11 jan.
1925.
499
MULTAS,Correio do PovoPorto Alegre, ano XXXI, n. 11p. 4, 14 jan. 1925.
500
REUNIÃO de açougueiros, Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 15, p. 4, 17 jan 1925.
501
MATADOUROS de emergência. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 256, p. 4, 21 out.
1927.
502
FÁBRICA de caramelos e balas. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 162, p. 4, 11 jul.
1926.
V1
503
FÁBRICA de gelados Excelsior. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 292, p. 4, 03 dez.
1927.
504
MASSAS alimentícias. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 64, p. 4, 17 mar. 1932.
505
EM TORNO de um envenenamento atribuído a doces da confeitaria CESTARI. Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XXXVII, n. 303, p. 11, 27 dez. 1931.
506
ARROMBAMENTO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 192, p. 4, 09 ago. 1920.
507
ROUBO de penas para escrever. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 86, p. 4, 18 dez.
1920.
508
ASSALTO em plena rua. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 86, p. 4, 16 abr. 1922.
509
FALSIFICAÇÃO de bilhetes de loteria. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 12, p. 4, 14
jan. 1922.
510
UM POLICIAL ferido num conflito. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 102, p. 4, 02
maio 1922.
511
HOMENAGEM ao Coronel Massot. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 116, p. 4, 18
maio 1922.
512
SIMÕES, Rodrigo Lemos. Porto Alegre 1890-1920: resistência popular e controle social. 1999.
Dissertação (Mestrado)- Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Instituto de filosofia e
Ciências Humanas, Porto Alegre, 1999. p. 42.
513
GRANDE desordem num club. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX n. 133, p. 4, 05 jul. 1924.
514
A LOCALIZAÇÃO do Meretrício. Estado do Rio Grande, ano 1, n. 188, p. 6, 03 jun. 1930.
515
CONFLITO e ferimentos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 180, p 4, 08 ago. 1924.
516
OS "BATEDORES" de carteira nas imediações dos bancos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXIII, n. 187, p. 4, 02 ago. 1927.
517
VIGARICE. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 97, p. 5, 27 abri. 1926.
518
PRISÃO de vigaristas e desordeiros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 189, p. 4, 05
ago. 1927.
519
OS "PUNGUISTAS" em Porto Alegre. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 26, p. 5, 01 fev.
1934.
520
ARMAZÉM assaltado. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 122, p. 4, 24 maio 1928.
521
OS ASSALTOS à mão armada. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 215, p. 5, 13 set.
1931.
522
GATUNOS carnívoros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 253, p. 5, 29 out. 1931.
523
Ibid., loc. cit.
524
REAGIU à prisão e foi morto pelo policial. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 3, p. 3,
05 jan. 1932.
525
ECOS DE UM CONFLITO. Correio do Povo, Porto Alegre anoXXXVIII, n. 39, p. 4 17 fev. 1932
526
UM AUDACIOSO roubo no Teatro S. Pedro. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 231,
p. 5, 04 out. 1933.
527
CHEGADA de imigrantes. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 254, p. 4, 22 out. 1921.
528
CONFERÊNCIA Internacional de Emigração e Imigração. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXIII, n. 182, p. 4, 26 jul. 1927.
529
RESTRINGINDO e combatendo a emigração italiana, o Sr. Mussolini acaba de estabelecer as
condições em que ela será permitida. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIV, n. 196, p. 3, 17
ago. 1928.
530
REISCHEL, Heloisa Jochims. O surgimento de uma grande empresa no parque industrial
gaúcho. O caso das indústria Renner. Pesquisa FINEP/UFRGS. Processo de industrialização do Rio
Grande do Sul 1889-1945. Asssessoria de Francisco Carvalho Junior e Marcia Lewis. Porto Alegre,
1984. (Mimeo). p. 29.
531
MACEDO, 1968.
532
FILIAL de uma casa italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 261, p. 4, 09 nov.
V2
1920.
533
LEED, Eric J. La mente del viaggiatore: d´all Odissea al turismo globale. Bologna: Societá
editrice il Mulino, 1992.
534
BODEA, MIGUEL. A greve de 1917: as origens do trabalhismo gaúcho. Porto Alegre:
Pró-Arte/LPM, 1977. p. 27.
535
BORGES, Stella. Italianos: Porto Alegre e trabalho. Porto Alegre: EST, 1993.
536
CONSTANTINO, Núncia Santoro de. O italiano da esquina: imigrantes na sociedade
Porto-Alegrense. Porto Alegre: EST, 1991b. p. 115-138.
537
DESASTRE. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 32, p. 4, 07 fev. 1920.
538
O que segue está apoiado em DIEHL, Astor Antônio. Círculos operáriosno Rio Grande do Sul.
Porto Alegre: EDIPUCRS, 1990.
539
BARRETO, Álvaro. Uma avaliação da produção historiográfica sobre os círculos operários. Anos
90,Revista do Programa de Pós-Graduação em História, Porto Alegre: Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, n. 7, p. 127-147, jul. 1997. Ver igualmente TRINDADE, Fernando, 1983.
540
BORGES, 1993.
541
DIEHL, 1990, p. 65.
542
ASSALTO a um armazém. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 269, p. 4, 18 nov. 1920.
543
GREVE de garçons. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 218, p. 4, 10 set. 1924.
544
REUNIÃO de açougueiros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 15, p. 4, 17 jan. 1925.
545
REUNIÃO de açougueiros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 15, p. 4, 17 jan. 1925.
546
FUSÃO de padarias. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 58, p. 4, 10 mar. 1925.
547
GREVE dos padeiros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 211, p. 6, 05 set. 1925.
548
O PÃO em Porto Alegre. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 212, p 3, 06 set. 1925.
549
O PÃO em Porto Alegre. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 217, p. 6, 12 set. 1925.
550
UM COMÍCIO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 120, p. 4, 17 maio 1927.
551
DECLARARAM-SE, ontem, em greve pacífica, mais de 1. 000 operários dos nossos
estabelecimentos fabris. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXV, n. 10, p. 5, 12 jan. 1929.
552
A GREVE dos operários fabris. Correio do Povo, Porto Alegre, anoXXXV, n. 12, p. 4, 15 jan.
1929.
553
A VERBA de imigração no Auxílio dos Sem Trabalho. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXVII, n. 1, p. 4, 01 jan. 1931.
554
AS FÉRIAS aos operários. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 33, p. 4, 08 fev. 1931.
555
GRAVE conflito no Mercado Público. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 260, p. 5, 06
nov. 1931.
556
O CRIME da Rua Ramiro Barcelos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 83, p. 4, 10
abr. 1931.
557
COM 16 anos, apenas, praticou ontem um crime. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n.
278, p. 5, 06 dez. 1932.
558
A FUNDAÇÃO do Sindicato dos Moleiros. Correio do Povo, Porto Alegre, anoXXXVII, n. 155, p.
5, 09 jul. 1931. Ver NETTO, Campos. O cavaliere Aristides Germani. Porto Alegre: EST, 1978.
Relato da odisséia deste cremonês chegado ao Brasil em 1885, e que se dirigindo para o interior de
Caxias do Sul, onde é aguardado por familiares, anos depois instaura a base da moagem do trigo no
Estado.
559
FORTES, Alexandre. Como era gostoso meu pão francês. A greve dos padeiros de Porto Alegre
(1933-1934). Anos 90. Revista do Programa de Pós-Graduação em História, Porto Alegre:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, n. 7, p. 88-126, jul. 1997.
560
UM CONFLITO entre barbeiros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 265, p. 5, 16 nov.
1933.
561
CONFLITO numa pedreira. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XL, n. 63, p. 5, 17 mar. 1934
562
REÚNEM-SE os operários portoalegrenses. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 51, p. 9,
V3
03 mar. 1937.
563
CALLAGE, Fernando. Ação católica brasileira. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 51,
p. 5, 03 mar. 1937b.
564
CALLAGE, Fernando Callage. O trabalho e o capital no seu mútuo entendimento. Correio do
Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 76, p. 5, 02 abr. 1937a.
565
CALLAGE, Fernando. Assistência social ao operário. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII,
n. 299, p. 5, 23 dez. 1937c.
566
LEED, 1992, p. 112. Cito: “Le architetture del luogo sono um laborazione e strutturazione dell’
umanità che le attraversa, un elaborazione materiale degli scambi, degli incontri, delle tecniche di
esclusione che creano spazi privati, che non devono essere raggiunti dallo sguardo di estranei. Il
‘luogo’ ordinato, città, villagio o località turistica, è solo una materializzazione della realtà intrinseca, di
quei rapporti, identità e comportamenti che lo formano. Per Suzanne Langer una cultura è un ‘sistema
di azioni che si intrecciano e si intersecano, un disegno funzionale continuo. Come tale é intangibile e
invisibile ‘. La territorializzazione di questi rapporti rende visibile nelle mura, nelle porte, nei canali, nei
corridoi e in queste strutture materalizzate del luogo il viaggiatore viene indrotto e assorbito”.
567
DOBERSTEIN, Arnoldo Walter. Estatuários, catolicismo e gauchismo. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 2002. (Coleção História 47). p. 213.
568
DOBERSTEIN, 2002, p. 214.
569
CROCETTA, B. Cattedrale metropolitana di Porto Alegre. In: CINQUANTENARIO DELLA
COLONIZZAZIONE ITALIANA NELLO STATO DEL RIO GRANDE DEL SUD. “1885-1925”, 1925. p.
471-479; ver o verbete Catedral Metropolitana In: FRANCO, 1998, p. 105-106.
570
CROCETTA, 1925, p. 472.
571
CROCETTA, 1925, p. 479.
572
CONSTRUÇÃO de um panteon e de um monumento. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI,
n. 180, p 4, 5 ago. 1920; O PANTEON Rio-Grandense e o Monumento aos Heróis de 35. Correio do
Povo, Porto Alegre, anoXXVI, n. 217, p. 4, 17 set. 1920.
573
GÉA, Lúcia Segala. Arquitetura residencial da elite porto-alegrense (1893-1929). In: WEIMER,
Gunter. (Org.). História, teoria e cultura. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2000. p. 11-46. ; WEIMER,
Gunter estruturas sociais gaúchas e arquitetura. In: BERTUSSI, Iroquez et al (Org.). Arquitetura no
Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983. p. 155-190; MONTEIRO, Charles. Porto
Alegre: urbanização e modernidade, a construção social do espaço urbano. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 1995. (Coleção História, 4); MACHADO, Nara Helena Naumann. Modernidade,
arquitetura e urbanismo: o centro de Porto Alegre. 1998. Tese (Doutorado)- Curso de
Pós-Graduação em História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1998.
574
CONSTRUÇÃO de um palacete. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 52, p. 4, 01 mar.
1924.
575
DOBERSTEIN, 2002.
576
CENTRO Musical Porto-Alegrense. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 162, p. 4, 10 jul.
1925.
577
INAUGURAÇÃO de um mausoléu. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 256, 21 out.
1927. Giuseppe Gaudenzi é considerado um modelador. Chegado em Porto Alegre em 1910,
contratado pala Escola de Engenharia, foi entre outros trabalhos, o modelador dos Atlantes, da
Confeitaria Rocco. Ver DOBERSTEIN, 2002, p. 89-103.
578
DOBERSTEIN, op. cit., p. 103, nota 25.
579
DOBERSTEIN, 2002.
580
DOBERSTEIN, 2002, p. 10.
581
FOI inaugurada, ontem, a estátua eqüestre de Bento Gonçalves. Correio do Povo, Porto Alegre,
ano XLII, n. 13, p. 10, 16 nov. 1935.
582
P. C. L. Antonio Caringi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 166, p. 3, 16 jul. 1936.
583
ANTONIO Caringi em Buenos Aires. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 306, p. 7, 29
dez. 1936.
V4
584
PECHMAN, Robert Moses. Cidades estreitamente vigiadas:o detetive e o urbanista. Rio de
Janeiro: Casa da Palavra, 2002. ARGAN, Giulio. História da arte como história da cidade. São Paulo:
Martins Fontes, 1993. LEPETIT, Bernard. É possível uma hermenêutica urban? In: SALGUEIRO,
Heliana Angotti. Por uma nova história urbana: Bernard Lepetit. São Paulo: EDUSP, 2001, p.
137-154.
585
Nem menos as cidades históricas resistem. A historicidade pode estar no limite do regime da
imaginação. É quando algumas cidades, principalmente as ditas “colôniais” no Rio Grande do Sul são
erigidas como réplicas reduzidas de algo existente, abandonado e portanto, idealizado no jogo da
memória.
586
PECHMAN, 2002, p. 204. Cita Pedra e discurso: cidade, história e literatura. In: AGUIAR, Flavio et
al. Gêneros de fronteira: cruzamentos entre o histórico e o literário. São Paulo: Xamã, 1997. p. 101.
587
As obras citadas são RAMA, Angel. A cidade das letras. São Paulo: Brasiliense, 1984 e
WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura. São Paulo: Compahia das
letras, 1989.
588
INSTITUTO Parobé. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 108, p. 4, 08 maio 1920.
589
CONFERÊNCIA. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 168, p. 4, 22 jul. 1920.
590
INSTITUTO Borges de Medeiros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 218, p. 4, 10 set.
1921.
591
NOVOS Guarda-livros. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 247, p. 4, 14 out. 1921.
592
TURMA de Guarda-Livros do Colégio Narciso Berlese. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXVII, n. 27, p. 4, 01 fev. 1931.
593
CURSO Comercial. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVIII, n. 28, p. 4, 02 fev. 1922.
594
MÁSCARA. Porto Alegre, ano VIII, n. IV, p. 4, 06 fev. 1925.
595
INSTITUTO Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXVI, n. 181, p. 4, 06 ago. 1920.
596
REVISTA do Instituto Histórico. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 162, p. 2, 07 jul.
1921.
597
CALLAGE, Fernando. Souza Docca - Historiador Gaúcho. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XLII, n. 269, p. 5, 14 nov. 1936c.
598
CONCURSO na Biblioteca Pública. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 157, p. 4, 01
jul. 1921.
599
OS QUE aprendem a arte de escrever à máquina. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n.
247, p. 22, 24 out. 1933.
600
CALLAGE, Fernando. A instrução dos imigrantes estrangeiros e a do colono brasileiro. Um
confronto oportuno. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 169, p. 5, 19 jul. 1932.
601
Ibid., loc. cit.
602
Ibid., loc. cit.
603
CALLAGE, 1932.
604
DIFUNDINDO a língua de Dante. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI, n. 137, p. 11, 04 jul.
1935.
605
INSTITUTO de Cultura Ítalo-Rio Grandense. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 161, p.
6, 10 jul. 1936.
606
A VISITA do professor Guido Finzi. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 232, p. 11, 05
out. 1937.
607
BORDINI, Albino R. Decepção. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 210,p. 11, 06 set.
1931.
608
Ibid., loc. cit.
609
BORDINI, Albino R. Decepção. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVII, n. 210,p. 11, 06 set.
1931.
610
Ibid.
611
ALMANACK do Globo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 260, 07 nov. 1920.
V5
612
RENÚNCIA de Intendente. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXX, n. 88, p. 4, 13 abri. 1924.
613
SOCIEDADE Anonima Gráfica Italiana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 144, p. 4,
20 jun. 1926.
614
63
O
ANIVERSÁRIO de "la prensa". Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXVIII, n. 248, p. 4, 19
out. 1932.
615
DEL PICCHIA, Menotti. Os jornais e o papel nacional. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLI,
n. 159, p. 3, 10 jul. 1935.
616
Tomamos a liberdade de aqui utilizar um conceito moderno da teoria literária qual seja a “estética
da recepção” de Jauss, uma interpretação hermenêutica de textos onde o leitor não é o sujeito
passivo na recepção. JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria
literária. São Paulo: Ática, 1994. p. 28-30.
617
CARRAZZONI, André. Ler, escolher, descobrir. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n. 121,
p. 3, 24 maio 1936.
618
Ibid., loc. cit..
619
CARRAZZONI, 1936, p. 3.
620
Ibid.
621
ENSINO e nacionalismo. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLIII, n. 231, p. 5, 03 out. 1937.
622
Ibid.
623
PINTOR Brasileiro. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVII, n. 217, p. 4, 09 set. 1921.
624
NOTAS de arte. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 115, p. 5, 18 maio 1933.
625
CUMBRECHT, Hans Ulrich. Em 1926: vivendo no limite do tempo. Rio de Janeiro/São Paulo:
Recorda, 1999. Para o Brasil, ver SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo
sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
626
CONFERÊNCIA de um jornalista. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 37, p. 4, 13 fev.
1926. A definição e a diferença entre cultura italiana, latinidade e do sentido da língua italiana
adotadas nessa tese tem sua fonte na obra A civilização latina de Georges Duby, onde à p. 20,
assevera: “a latinidade, para aqueles que a propagaram até aos antípodas, não era apenas maneira
de falar e escrever. Era maneira de aprender a vida, um sistema de pensamento, um conjunto de
atitudes moldadas por uma longa tradição simultaneamente cívica e religiosa. “
627
UM GRANDE escritor italiano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n. 222, p. 12, 22 set.
1933.
628
ADRIA-BONTEMPELLI sentindo a vida romana. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIX, n.
294, p. 3, 20 dez. 1933.
629
A EQUIPE italiana no torneio literário de Buenos Aires. Correio do Povo, Porto Alegre, anoXLII,
n. 260, p. 5, 4 nov. 1936.
630
CALLAGE, Fernando. Alguns escritores gaúchos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XLII, n.
156, p. 3, 04 jul. 1936a.
631
Francisco Leonardo Truda, nascido em Porto Alegre, em 1886; Roque Oliveira Callage nasce em
Santa Maria, em 1886, filho de italiano; Arquimedes Fortini, nascido em Argel, em 1887, com seus
pais italianos em 1892 chegam à Porto Alegre; André Carazzoni, nascido em 1895, de pai italiano,
transita entre várias cidades, até fixar-se em Porto Alegre; Arlindo Pasqualini, nascido em 1911, filho
de italianos, chega adolescente em Porto Alegre; Mansueto Bernardi, nascido em Asolo, Treviso, em
1888, chega à Alfredo Chaves, atual Veranópolis e definitivamente em Porto Alegre em 1918; Ernani
Fornari, nascido em Rio Grande em 1899, filho de italianos, estabelece-se em Porto Alegre e depois
no Rio de Janeiro na década de 20.
632
GUIMARÃES, Renato de Freitas. Roque Callage: homenagem que lhes presta um grupo de
amigos em comemoração ao primeiro aniversário de sua morte. Porto Alegre: Livraria do Globo,
1932. p. 83-85
633
CRÔNICAS e contos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 167, p. 4, 21 jul. 1920;
CRÔNICAS e contos. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXVI, n. 255, p. 4, 31 out. 1920.
634
CALLAGE, Fernando. Alguns traços da vida íntima de Roque Callage. In: GUIMARÃES, Renato
de Freitas. Roque Callage: homenagem que lhe presta um grupo de amigos por ocasião do primeiro
V6
aniversario de sua morte. Porto Alegre: Globo, 1932. p. 98-110.
635
PORTO, Aurélio. Callage. In: GUIMARÃES, Renato de Freitas. Roque Callage: homenagem que
lhe presta um grupo de amigos ao primeiro aniversario de sua morte. Porto Alegre: Globo, 1932 p.
59-62.
636
VOCABULÁRIO Gaucho. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXII, n. 72, p. 4, 27 mar. 1926.
637
QUERO-QUERO. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXIII, n. 150, p. 4, 21 jun. 1927.
638
GOUVÊA, Sergio. O espírito e o coração na obra de Ernani Fornari. Correio do Povo, Porto
Alegre, ano XXXIX, n. 144, p. 3, 23 jul. 1933.
639
OLIVEN, Ruben. A parte e o todo: a diversidade cultural no Brasil-nação. Petrópolis: UNESP,
1992.
640
LESSER, Jefrey. A negociação da identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela
etnicidade no Brasil. São Paulo:UNESP, 2001.
641
MÁSCARA. Porto Alegre, ano VII, n. III, p. 31, 01 jan. 1925.
642
MÁSCARA. Porto Alegre, ano VIII, n. IV, p. 71, 06 fev. 1925.
643
Ibid., loc. cit.
644
MARCON, Itálico. Carta para Mansueto Bernardi no céu. In:MARCON, Itálico; COSTA, Rovílio
(Orgs.). Obras completas: terra convalescente Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São
Lourenço de Brindes, Livraria Sulina, 1980. V. 1. (Obras Completas de Mansueto Bernardi). p. 31-34.
645
BERNARDI, Manueto. Ao Minuano. Correio do Povo, Porto Alegre, ano XXXI, n. 173, p. 3, 23
jul. 1925.
646
DEGRAZIA, José Eduardo. Poesias escolhidas: poetas italianos contemporâneos. Porto Alegre:
Sagra-D c Luzzatto, Porto Alegre, 1995. p. 8. Ver igualmente CESAR, Guilermino. Mansueto, o
‘crepusculare´. In: CARVALHAL, (Org.). Notícia do Rio Grande: literatura. Guilermino Cesar, Porto
Alegre:Instituto Estadual do Livro/Editora da Universidade, 1994, p. 121-124; MARCON; COSTA
1980.
647
MARCON; COSTA, 1980.
648
VERISSIMO, Érico l. Naniquinote e o Sr. Ernani Fornari. Correio do Povo, Porto Alegre, ano
XXXVIII, n. 20, p. 11. 24 jan. 1932; outras críticas favoráveis haviam sido realizadas nos dias 10 a
14 do mesmo mês, no jornal. Em 1933 novas críticas igualmente favoráveis no Correio do Povo,
Porto Alegre, ano XXXIX, n. 144, p. 3, 26 jun. 1933.
649
Ibid., p. 11.
650
GOUVEA, 1933, p. 3; ver igualmente as edições de 26 e 29 seguintes.
651
VERISSIMO, Erico. Solo de clarineta: memórias. Porto Alegre: Globo, 1973. v. 1; CHAVES,
Flávio Loureiro. Erico Verissimo o escritor e seu tempo. Porto Alegre: Ed. da
Universidade/UFGRS, 2001.
652
CALLAGE, 1936a, p. 3.
653
Nas entrevistas com os mais velhos, o uso de apelido para identificar as famílias é um referente
de geração. Os italianos ou descendentes mais jovens não se reconhecem pelos apelidos dessa
singular genealogia complementar. Angelina pode nomear todos os apelidos dos moraneses
atualmente residindo na cidade. Ver LAYTANO, DANTE de. In Presença Calabresa, Porto Alegre:
EST, 1988, p. 40-44.
654
Em 1986, de 20 a 23 de outubro o Centro Ítalo Brasileiro realiza em Porto Alegre o “Encontro de
estudos sobre a presença calabresa em Porto Alegre”; dez anos depois, em 1996 de 14 a 18 de
outubro o Centro Calabrese del rio Grande do Sul organiza a 1
a
Settimana Calabrese.,
655
LEED, Eric J. La mente del viaggiatore. D´all Odissea al turismo globale. Bologna: Socie
editrice il Mulino, 1992. Cito: “Il paragone tra la forza del viaggio e quella dell’erosione nei processi
gealogici può essere calzante: stacca le sedimentazioni più molli e recenti per scolpire e rivelare nello
stesso tempo straiti più antichi e duri di storia, sia personale sia culturale. Le partenze evocano le
prime separazioni dell’ínfanzia, il transito le prime esperienze di fuga e libertà fisica, gli arrivi la magia
di un ritorno ad inizi e il raggiungimento della coesione com altri. [...] Ma l’arrivo ci tutt’altra
immagine della forza delle mobilità, perché in questa fase tale forza é riconoscibile come prodotto non
V7
della dissociazione e del distanziamento, ma delle associazioni umane formate mediante procedure di
identificazione e incorporamento, che rimpiazzano o cancellano identità precedenti. p. 157.
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