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havia, salvo melhores lembranças, nove perfurações. Essas perfurações do lado esquerdo
eram pequenininhas, mas, na saída das balas, que na maioria se alojaram no estofamento do
Jipe, do outro lado, eram buracos mesmo. É que eram balas “dum dum” que iam abrindo por
onde passavam. Nesse ponto a notícia correu, e o hospital de pequeno porte na época foi
insuficiente pelo tanto de gente que chegou pra ter certeza que o “Camisa de Couro” havia
morrido. No outro dia então, no funeral, como eu disse no início, quando o “Camisa de Couro”
morreu, Três Lagoas teve o maior enterro com a maior presença de público até hoje, tinha mais
de cem veículos. Olha que Três Lagoas era pequena na época
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, continua pequena, mas era
bem menor. E muita gente, gente a pé, gente de charrete, gente de avião, gente de todo jeito
que tinha direito. Ele já tinha baixado a sepultura, já estavam fechando a sepultura quando a
esposa do deputado desceu de avião
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. Ela chegou fazendo barulho pediu para abrirem a
sepultura que estava quase fechada. Abriram o caixão pra ela ter certeza que era o “Camisa de
Couro” que estava enterrado. Salvo melhor juízo o nome dela era Madalena, um nome assim.
Eu não assisti ao funeral.”
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No mesmo dia oito de novembro de 1961, no mesmo horário, em frente
ao relógio
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, o jovem padeiro Ibraim, amigo de farra de “Camisa de Couro”,
enquanto esperava a segunda sessão do cinema começar, conversava com
amigos logo ali. O senhor Ibraim assim nos contou o que aconteceu naquela
noite:
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“Eu estava lá no relógio eu e o Magid. Aí o trem que vinha de Bauru para Campo
Grande chegava às 19horas. Aí o trem parou e o “João Carapina” estava esperando ele pra
levar ele embora. Aí, enquanto a gente esperava a segunda sessão do cinema, nós escutamos
três rajadas “tá, tá, tá...”, mas não era metralhadora não, era revólver mesmo. Aí saímos, tudo
correndo pra ver. E era o “Camisa de Couro”, ele estava lá, chegou a sacar os dois revólveres,
mas a morte dele foi tão instantânea que não deu nem tempo. Ele morreu na hora, ali. Naquele
tempo não tinha IML (Instituto Médico Legal) era tudo bagunçado, no próprio jipe mesmo
levaram. Aí falamos, vamos dar um jeito e levamos. Aí tiramos as roupas e estava tudo
ensangüentado, aí lavamos tudo e pusemos algodão nos buracos das balas. O velório foi na
casa do João Carapina, naquele tempo não tinha velório, era tudo em casa. Lembro de muito
avião de Cassilândia, Paranaíba tinha muitos. O velório tinha muita gente e muita gente
estranha. Nesse momento uma das irmãs do senhor Ibraim comenta: - Ele foi enterrado como
indigente, né? O senhor Ibraim imediatamente responde: - Que indigente, o quê? Tinha mais
de mil pessoas no cemitério, sô! O enterro era às quatro horas (16horas). Eram cinco horas
(17horas) e já estava tudo enterrado. Aí enterrou tudo e desceu um aviãozinho “teco-teco” no
campo de aviação. O José Ribeiro, que era taxista de “pé-de-bode”, foi lá, pegou a viúva no
campo de aviação e levou para o cemitério, era a viúva de Mirassol
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. Nós íamos vindo embora
quando ela fez todo mundo voltar com quatro jagunços tudo armado. Fez nós voltar pra tirar
ele. Chegamos lá, chamamos o coveiro e ele tirou os tijolos, tirou o caixão e ela mandou abrir e
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Segundo, dados coletados, Três Lagoas tinha uma população em torno de 15.000 habitantes em 1961.
Hoje sua população deve estar em torno de 85.000 habitantes.
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O senhor Carlos se refere aqui à viúva do deputado Anísio José Moreira, a fazendeira Madalena Vieira
Moreira, da cidade de Mirassol, estado de São Paulo, que posteriormente a esse episódio do enterro de
“Camisa de Couro” tem seu nome envolvido no assassinato do Juiz de Direito da cidade de Mirassol,
doutor Jaime Garcia Pereira, que veio a ocorrer onze dias depois do enterro de “Camisa de Couro”. O
assassinato do doutor Jaime Garcia Pereira ocorreu no dia 20 de novembro de 1961 na cidade de
Mirassol, no estado de São Paulo e “Camisa de Couro” foi enterrado no dia 9 de novembro de 1961, na
cidade de Três Lagoas, no estado de Mato Grosso.
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Entrevista coletada em Três Lagoas com o fazendeiro e pecuarista senhor Carlos, no dia 22/1/2003.
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Existe um relógio construído bem no meio das principais avenidas do centro da cidade. A estação
ferroviária fica logo em frente.
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Entrevista coletada no município de Três Lagoas no dia 16/1/2006.
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A viúva do deputado Anísio José Moreira, a fazendeira Madalena Vieira Moreira.