Download PDF
ads:
Semelhanças entre o Budismo e o Cristianismo –
contribuições ecumênicas do Oriente para o Ocidente
Francisco Adalberto Alves Sobreira
Ceará, 2005
(Edição do Autor)
Licença:
<!--Creative Commons License--><a rel="license" href="
http://creativecommons.org/licenses/by/2.5/br/"><img alt="Creative Commons
License" border="0"
src="http://creativecommons.org/images/public/somerights20.pt.png
"/></a><br/>Esta obra est&#225; licenciada sob uma <a rel="license"
href="http://creativecommons.org/licenses/by/2.5/br/ ">Licen&#231;a Creative
Commons</a>.<!--/Creative Commons License--><!-- <rdf:RDF
xmlns="http://web.resource.org/cc/" xmlns:dc=" http://purl.org/dc/elements/1.1/"
xmlns:rdf="http://www.w3.org/1999/02/22-rdf-syntax-ns#">
<Work rdf:about="">
<license rdf:resource="
http://creativecommons.org/licenses/by/2.5/br/" />
<dc:title>Semelhanças entre o Budismo e o Cristianismo</dc:title>
<dc:date>2006</dc:date>
<dc:description>Monografia de conclusão do curso de licenciamento em
Ciências da Religião, pela UVA/ Ceará</dc:description>
<dc:creator><Agent><dc:title>Adalberto
Sobreira</dc:title></Agent></dc:creator>
<dc:rights><Agent><dc:title>Adalberto
Sobreira</dc:title></Agent></dc:rights>
<dc:type rdf:resource=" http://purl.org/dc/dcmitype/Text" />
</Work>
<License rdf:about="
http://creativecommons.org/licenses/by/2.5/br/"><permits
rdf:resource="http://web.resource.org/cc/Reproduction"/><permits rdf:resource="
http://web.resource.org/cc/Distribution"/><requires
rdf:resource="http://web.resource.org/cc/Notice"/><requires rdf:resource="
http://web.resource.org/cc/Attribution"/><permits
rdf:resource="http://web.resource.org/cc/DerivativeWorks "/></License></rdf:RDF>
-->
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
UNIVERSIDADE DO VALE DO ACARAÚ - UVA
FACULDADE DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA DO NORDESTE – FAETEN
CURSO DE LICENCIATURA PLENA EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
SEMELHANÇAS ENTRE O BUDISMO E O CRISTIANISMO
Contribuições Ecumênicas do Oriente para o Ocidente
Francisco Adalberto Alves Sobreira
Maranguape/ CE
2005
8
ads:
Francisco Adalberto Alves Sobreira
SEMELHANÇAS ENTRE O BUDISMO E O CRISTIANISMO
Contribuições Ecumênicas do Oriente para o Ocidente
Monografia apresentada à Universidade do Vale do Acaraú UVA, como
requisito parcial para obtenção do grau de Licenciatura Plena em Ciências da
Religião, sob a orientação da Profª. Gláucia Narciso.
Maranguape/ CE
2005
9
DEDICATÓRIA
Dedico esse trabalho a minha esposa, aos
meus pais, e a todos aqueles que lutam pelo
respeito entre as religiões.
10
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao Deus de todas as religiões, por ter
se expressado de formas tão diferentes para o
bem da humanidade. Agradeço ainda ao apoio
e co-orientação do Prof. Eduardo de Araújo
Miranda.
11
“Não há absolutamente nada
que não seja mais fácil com o conhecimento.”
(Shantideva)
12
Sumário
Introdução ........................................................................................................................ 08
1. Origem e Correntes atuais .......................................................................................... 10
1.1 Cristianismo ............................................................................................................ 10
1.2 Budismo .................................................................................................................. 11
2. Semelhanças Históricas ................................................................................................ 14
2.1 As mães Imaculadas ............................................................................................. 14
2.2 As profecias após o nascimento ........................................................................... 16
2.3 A busca dos predestinados ................................................................................. 17
2.4 A prova das tentações .......................................................................................... 18
2.5 O preconceito no início da missão ........................................................................... 20
2.6 Autoridade de Buda e Jesus em apresentarem-se como únicos .............................. 22
2.7 A disseminação do conhecimento ........................................................................... 24
2.8 Iluminações ............................................................................................................ 27
3. Semelhanças doutrinárias ................................................................................................ 30
3.1 O primeiro discurso ................................................................................................ 30
3.2 A síntese dos ensinamentos por eles mesmos ............................................................ 31
3.3 Os mandamentos ................................................................................................... 35
3.4 Como tratar os inimigos ............................................................................................. 36
3.5 A fé ........................................................................................................................... 38
3.6 A importância do esforço pessoal .............................................................................. 39
3.7 Crítica à vaidade ................................................................................................... 43
3.8 Concepção de Deus ............................................................................................. 44
Conclusão ........................................................................................................................... 48
Glossário ........................................................................................................................... 50
Bibliografia ........................................................................................................................ 53
13
INTRODUÇÃO
Este trabalho é o reflexo de quase cinco anos de estudos e reflexões acerca do enigma
da inexistência de diferenças entre as religiões, realizado através de pesquisa bibliográfica
comparada.
A principal diferença, e talvez única que exista entre as religiões, é que cada religião
guarda uma determinada “tecnologia espiritual” que poderia complementar e ajudar suas
irmãs a se desenvolverem espiritualmente, quando vistas com olhos ecumênicos.
Traçamos as principais semelhanças entre o Budismo e o Cristianismo, atendo-se mais
à corrente Cristã do Catolicismo Romano, e à corrente Budista Tibetana.
A bibliografia selecionada teve como fundamentos principais a Bíblia Sagrada, em
especial o Livro de Mateus; o livro “O Evangelho de Buda”, do monge Swami Kharishnanda
(1998); a obra “Religiões da Humanidade”, do Padre Waldomiro Piazza (1991); e “O
Despertar do Buda Interior” do Lama ocidental Surya Das (2001). Os termos sublinhados
constam no glossário ao final da obra.
Este trabalho pretende quebrar muitas barreiras e dogmas, mostrando visões de certa
forma polêmicas, quando destroça o mito do ateísmo Budista. Ateísmo seria a negação ou a
omissão em falar sobre Deus? Como o Budismo é então uma religião? Existem Divindades no
Budismo?
O trabalho foi dividido em três capítulos, mostrando no Capítulo I a Origem de cada
religião separadamente e suas linhas de atuação na atualidade;
O Capítulo II um esboço nas semelhanças de fatos históricos entre as duas
religiões, penetrando ainda no campo da Devoção a Maria e ao Buda Feminino, nas
Mortificações e no Proselitismo. Uma análise sobre o sincretismo é explanada especialmente
sobre o ponto de vista oriental, com suas vantagens e conseqüências co-relacionadas.
No Capítulo III apresentamos as semelhanças doutrinárias, procurando intermediar o
14
“fosso” entre o esforço para Iluminação Oriental e Graça Divina do Ocidente. O Budismo
centra todos os esforços espirituais no esforço humano, enquanto no Cristianismo é enfatizada
a como suficiente para a graça Divina. Como conciliar e encontrar semelhanças entre estes
dois pontos opostos? Este é mais um quesito a ser analisado e debatido. Debatemos ainda
sobre a complexa Doutrina do Vazio, sua relação com a vida cotidiana, prática religiosa e a
Negação de Si mesmo; a Fé e as Divindades Budistas .
Esta monografia tem ainda como objetivo esclarecer o Catecismo budista a partir do
ponto de vista de um ocidental que tem tradição familiar no Cristianismo, mas que tem
estudado o Budismo Tibetano, Budismo Zen, o Hinduísmo reformado de Sri Ramakrishna e
os Movimentos Gnósticos contemporâneos, como forma de lançar bases educativas para o
corpo docente e discente da área de Ciências da Religião, que precisam romper as amarras
que os prendem aos conceitos dogmáticos do Ocidente e do Cristianismo em especial, a ponto
de considerar as Escrituras Sagradas e Deus unicamente em sua tradição religiosa, excluindo
as restantes como outrora no período medieval. Nosso tempo não é mais um tempo de
dominação, mas um tempo de ênfase no resgate da paz entre os povos. E enquanto houver os
preconceitos, inclusive religiosos, jamais o mundo poderá viver em paz.
A grande tentativa desse trabalho foi explorar de forma filosófica e antropológica os
fundamentos, semelhanças e contribuições das duas culturas. Acima das diferenças de
linguagem, épocas, costumes, história, influências sociais e econômicas, procurou-se penetrar
na essência das religiões, no real sentido e resultado que servem a cada ser humano que
pratica e se aprofunda sinceramente em sua tradição.
Ao final do estudo, cada um poderá tirar suas próprias conclusões: são o Budismo e o
Cristianismo irmãs gêmeas? É possível o Ocidente aprender com a espiritualidade Oriental? É
possível aprendermos espiritualidade em outras religiões sem abalar a fé?
Não intenção alguma em se pôr ponto final a estas questões, mas de gerar idéias
novas, palpitantes e férteis, que aproximem não simplesmente as culturas, mas principalmente
os povos.
15
1. ORIGEM E CORRENTES ATUAIS
1.1 Cristianismo
O Cristianismo tem início em meados do Século I com Jesus Cristo, absorvendo e
reformando o Judaísmo da época.
Perseguido por ser considerado blasfemo ao se anunciar como filho de Deus, Jesus é
preso e morto na cruz. Após 03 dias ressuscita, e encarrega seus discípulos de difundirem seus
ensinamentos. Seu grande organizador é o apóstolo tardio Paulo.
Os Cristãos são perseguidos a o ano 313 d.C., quando o imperador romano
Constantino lhe concede liberdade de culto. Em 392 d.C. torna-se a religião oficial do
império, e no fim da Idade Média se expande para a América e Ásia. No século XIX chega a
África (ALMANAQUE, 2004, p.126-127).
Divide-se principalmente em três ramos: Catolicismo, Ortodoxos e Protestantes.
Catolicismo: Católico deriva do grego, e quer dizer Universal. Tem rígida hierarquia
centrada no Papa em Roma, e suas principais características são a canonização de seus
mártires, considerados intermediários entre Deus e os homens; a devoção a Maria,
considerada intermediária entre os Cristãos e Jesus, seu filho; e as missas. A expansão do
Catolicismo associa-se com a expansão do império romano. Em 1960 surge dentro do
Catolicismo a corrente chamada Renovação Carismática, que introduz técnicas de
manifestação e cura do Espírito Santo. No mesmo ano surge o movimento da Teologia da
Libertação, principalmente na América Latina, com o emprego de teorias marxistas para
defender a justiça social e a opção pelos pobres. (ALMANAQUE, 2004, p.127-128).
Ortodoxos: Surgiu em 1054 quando o Império Bizantino rejeitou a hierarquia da
16
Igreja de Roma. Veneram santos, utilizam os mesmos rituais, mas rejeitam a infalibilidade
papal, o purgatório (lugar intermediário entre o céu e o inferno) e a doutrina da Imaculada
Conceição, na qual Maria teria nascido sem pecado, concebido virgem e ascendida aos céus
em vida. Aceita o casamento dos padres.
Possui quatro sedes: Jerusalém, Alexandria, Antioquia e Constantinopla
(ALMANAQUE, 2004, p.129).
Protestantismo: Oriunda da Reforma Protestante da Europa no século XVI, onde se
abolem os cultos às imagens, aos santos e à Virgem Maria; suspende-se o celibato dos padres
e o uso do latim nas liturgias. Divide-se ainda em Protestantismo Histórico, Pentecostais e
Neopentecostais.
O Protestantismo histórico abrange as Igrejas surgidas com a Reforma,
que são a Luterana, Presbiteriana, Batista e Metodista.
Os Pentecostais surgem em 1906, em Chicago, E.U.A, em um
movimento denominado “Santidade”, através da crença no poder do Espírito Santo para curar
e garantir a santificação. Atenção especial para a técnica chamada “glossolalia”, que é o dom
de falar línguas desconhecidas. Incluem-se centenas de Igrejas, tais como Assembléia de Deus
e Deus é Amor.
O Neopentecostalismo é formado por grupos autônomos saídos do
Pentecostalismo, que extrapolaram as tradições deste grupo, tais como o forte tom emotivo
dos cultos, forte presença na mídia, expulsões de demônios seguidos de conversão, e
felicidade em vida através de doações à Igreja. Destacam-se as Igrejas Universal do Reino de
Deus e a Sara Nossa Terra.
ainda grupos saídos do Protestantismo que se apóiam em outras
doutrinas ou revelações externas à Bíblia. São as Igrejas dos Mórmons, Adventistas e
Testemunhas de Jeová (ALMANAQUE, 2004, p.129-133).
1.2 Budismo
O Budismo nasceu no Século VI a.C. na Índia, com o príncipe Sidarta Gautama, que
após passar uma vida de luxos afastado de qualquer ato que pudesse mostrar sofrimento,
muda radicalmente ao ver um doente, um velho e um cadáver, abandonando seu palácio para
encontrar a Verdade. Depois de pesadas mortificações, que o importante é o equilíbrio em
sua vida, senta-se para meditar, vence o demônio dos desejos e se Ilumina, reformando a
17
religião predominante, o Hinduísmo, para abrir a espiritualidade a todas as pessoas. Morre aos
80 anos.
Em 253 a.C. o budismo propaga-se por vários países sobre o cetro do rei indiano
Ashoka, que após longas batalhas imperialistas para ampliação do seu reino, arrepende-se da
matança e converte-se ao Budismo, devido o exemplo compassivo de sua esposa.
No século I, desenvolvem-se os conceitos Mahayanas (Grande Veículo), em
contestação aos monges que reservavam unicamente para si a condição de devotos,
designando que a Iluminação seria conseguida mais rapidamente com o sacrifício pelo outro,
ao invés de enclausurar-se do mundo. Isso propaga rapidamente o Budismo entre os leigos,
assemelhando-o muito ao Cristianismo, mas é freado no século VII, após a invasão
muçulmana na Índia.
No Século VII, ao adentrar nas fronteiras do Tibet, o budismo mescla-se com a
religião local chamada de Bon, e adota os ritos mágicos, a devoção e a alguns Deuses
Hindus. Este Budismo foi chamada de corrente Vajrayana (Veículo de Diamante).
A religião Budista é altamente sincretista, pois Buda não é considerando um Deus,
permitindo assim seus seguidores conviverem com outras religiões (ALMANAQUE, 2004,
p.134).
Suas correntes de pensamento são basicamente as linhas Theravada, Tibetana e Zen.
A corrente Budista Theravada são os ortodoxos do Budismo, que enfatizam a vida
monástica e seguem fielmente suas escrituras sem aceitar nenhuma alteração. É comum na
Tailândia, Ceilão, Sri Lanka e todo o sudeste asiático (DHARMANET, 2005).
A corrente Tibetana teve sua origem no Tibet no século VII d.C., com a vinda do
Mestre Indiano de nome Padmasambhava, e enfatizam a devoção aos Mestres chamados de
Lamas, e rituais mágicos advindos da religião primitiva do Tibet. Padmasambhava era dotado
de muitos poderes, e as tradições tibetanas asseguram que ele era um “não nascido”, ou seja,
não nascido de um ventre, pois ele simplesmente surgiu.
O Budismo tibetano divide-se ainda em quatro grandes escolas, das quais o Dalai
Lama é o chefe espiritual de uma, além de ser o chefe político da nação tibetana, invadida
pela China em 1959.
Todas as correntes tibetanas praticam as técnicas tântricas, que são métodos de
meditação dotados de grande poder, oriundos da região da Caxemira na Índia, que podem
incluir práticas de união sexual (SAMUEL, 1997, p.103). Por isso, alguns Mestres Tibetanos
são casados. O Budismo Tibetano disseminou-se também no Nepal, Mongólia e quase toda a
18
região próxima ao Himalaia.
A corrente Zen foi muito difundida na China, Coréia, Vietnam e Japão, e enfatiza a
intuição e a meditação, sem dar grande esboço às teorias (PIAZZA, 1991, p.278-322).
Difundiu-se muito no Japão, a ponto de se confundir com o próprio povo japonês, pois
sincretizou as correntes tradicionais, como o Xintoísmo e o Confucionismo, aliando-se ao
governo quando este favorecia o povo (PIAZZA, 1991, p.321-332). Sua técnica
revolucionária prega a aniquilação da lógica mental, deixando a mente em seu estado natural,
seja através de meditações com perguntas sem respostas, chamadas de Koans, seja através do
Zazen, que é uma meditação que visa estender o espaço de tempo existente entre cada
pensamento, o chamado não-pensar.
19
2. SEMELHANÇAS HISTÓRICAS
Seria o Cristianismo um Budismo simplificado?
A complexidade da filosofia do Budismo, e a extrema simplicidade prática e
emocional de Jesus, podem aparentar um grande fosso entre ambas. O próprio Buda
reconheceu logo após sua iluminação que o conhecimento adquirido seria muito difícil de ser
entendido, chegando até mesmo a pensar em não divulgá-lo para ninguém.
Mas nas suas práxis podem ser detectadas numerosas semelhanças, tanto históricas
quanto doutrinárias.
Iniciaremos analisando as semelhanças históricas de vários eventos ocorridos entre
Eles, e os familiares e discípulos com os quais conviviam.
2.1 As mães Imaculadas
Os nascimentos de Buda e Cristos guardam semelhanças entre a santidade de suas
mães e seu sangue real, como que justificando uma genética espiritual em botão desenvolvido
até o ponto máximo por seus filhos pré-destinados.
Buda nasce de uma Rainha, que imaculada e pura de desejos, de nome Mayadevi
(KHARISHNANDA, 1998, p. 23-25).
Jesus nasce de Maria, a virgem imaculada, cujo esposo possui uma descendência real
oriunda do Rei Davi (Mt 1,1-25). Com o passar dos tempos, Maria foi adorada como a
consoladora, a protetora, a negociante das recompensas e alívio dos castigos, sendo uma das
Santas de máxima adoração dentro do catolicismo.
No entanto, enquanto Maria é santificada por ser a Mãe Imaculada do Salvador, não
acontece o mesmo com a mãe de Buda, Mayadevi.
Mayadevi com todas suas virtudes, após a morte de seu esposo, abandona seu palácio,
converte-se ao Budismo juntamente com seu neto e nora, a família constituída por Buda antes
20
de abandonar o palácio, e todos se tornam monjes. Mas o Budismo sente a necessidade do
acalento de uma Divindade feminina, e doze séculos após, com a introdução do Budismo
no Tibet, é que passam a adorar uma Divindade oriunda da Índia, a Arhat conhecida pelo
nome de Tara.
O Budismo tibetano, embora seja uma religião dominada pelos homens, que a
grande maioria dos seus líderes Lamas é masculina, possui uma grande devoção por Tara,
considerada a protetora do Tibet (DAS, 2001, p.264). Semelhante também com as protetoras
ou “padroeiras” dos estados e municípios do Brasil, as “Nossas Senhoras”.
Tara é um ser que se sacrifica para proteger e liberar todos os seres. Sua história indica
um combate ao machismo, à crença ilusória da superioridade masculina, tal como houve no
Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Em um tempo que se perde no espaço, Tara meditava e
irradiava muita energia, quando foi avistada por alguns monges que ao vê-la exclamaram:
“Grande meditadora, fazemos voto que na próxima encarnação você possa nascer como
homem!”. Tara respondeu: “Meu desejo é que enquanto haja seres sofrendo, eu possa renascer
com o corpo feminino. Estes são meus votos.” Tara deu a lição que o caminho da liberação
não está limitado ao sexo masculino (TARANATHA, 2005). A devoção a Deusa Tara
emocionou e entrou como um raio nas camadas populares da nação Tibetana.
o Cristianismo Católico tem sido muito criticado e incompreendido devido à sua
devoção a Maria, que ao lado de São Francisco, são os santos mais festejados dentro das
camadas populares. As críticas têm vindo especialmente das correntes protestantes, tendo em
vista que a blia não relata fatos especiais que evoquem sua santidade, como por exemplo,
martírios, torturas, milagres ou alguma reforma que tenha feito no Cristianismo. A grande
maioria dos santos tiveram suas beatificações por martírios (Pedro, Paulo, Santa Claus), por
reformas que fizeram (Tomás de Aquino e Agostinho), ou pelos milagres e poderes
manifestados (Francisco de Assis, Santa Tereza D´avila).
E Maria? Suas maiores proezas são o acompanhamento dos sofrimentos do filho, sem
perder a fé. No entanto, podemos analisar com mais profundidade a santidade de Maria, acima
das Escrituras e encontrando a essência religiosa da devoção.
Tal devoção vem do sentimento de necessidade do amor maternal, considerado maior
amor terreno que possa existir. O amor da mãe é incomensurável, sem limites, sem lógica,
sem leis, acima do amor filial, fraterno, sexual e qualquer outro sentimento que possa existir.
O alento, alimento e sentimentos dos filhos são todos ensinados com a ternura materna. E se
fisicamente é assim, por relação e similaridade, o indivíduo que é filho devocional de uma
21
religião, sente a necessidade de um Deus-Mãe, um Deus flexível, consolador, protetor,
sentimental, acalentador. Algo que não se vê no aspecto masculino do Deus-Pai,
especialmente o Deus do Antigo Testamento, guerreiro, vingativo, rígido e recompensador.
A devoção de Deus-Mãe remonta desde as religiões mais primitivas até nossos dias,
como o culto da Mãe do Grande Espírito dos povos siberianos de 20.000 a.C.; Deusa Ísis do
Egito em 3.200 a.C.; Ishtar na Mesotopâmia em 3.000 a.C; a Deusa Kali do Hinduísmo em
2.000 a.C.; e a Deusa Atenas da Grécia em 1.500 a.C (PIAZZA, 1991). Todas essas Deusas
tinham uma veneração tão importante quando ao Deus Supremo de todas essas culturas, como
Zeus, Brahma, Osíris, Tupã, Amon etc.
O Judaísmo retirou o elemento feminino da devoção, e o Cristianismo o retornou. E a
grande figura a preencher esta lacuna é Maria, que mesmo sem participar ou entender
profundamente todo o drama do Filho que culminou com sua dramática morte, o apoiou sem
hesitar nenhum momento.
A devoção a Maria é um culto essencial, matriarcal, de sentimentos profundos, que
preenche os corações dos devotos, especialmente os mais simples. E se torna o devoto mais
sensível, mais espiritualizado, mais consolado e firme na compaixão Cristão, de forma
nenhuma que se renegar esse desenvolvimento devocional acontecido no Cristianismo,
assim como muitas mudanças, acréscimos e cnicas foram implementadas no Budismo ao
longo dos séculos por milhares de Lamas, Rinpoches, Swamis e Mestres Budistas em geral.
2.2 As profecias após o nascimento
Os nascimentos de Buda e Cristo foram considerados em suas épocas distintas como
marcos espirituais, pois seriam o advento da vinda dos Mestres dos Mestres, aqueles que
abririam os olhos até mesmo dos maiores Mestres de seus tempos.
Mesmo com a diferença cronológica de 500 anos entre os dois nascimentos, duas
pessoas aclamadas como sábias fizeram profecias semelhantes sobre a missão que estas
crianças desenvolveriam no mundo.
Buda foi profetizado pelo sábio de nome Asita, que ao vê-lo, profetizou que ele
libertaria o mundo (KHARISHNANDA, 1998, p.23-25).
A liberdade do mundo profetizada por Asita abrange dois objetivos: o sofrimento e o
social. A libertação da cadeia de sofrimentos profetizada aconteceu na época de Buda devido
sua religiosidade estar centrada nisso, abominando as especulações e a necessidade
22
peremptória dos ritos, que era a crença predominante da época. Houve também a libertação
social, pois sua segunda abominação foi a separação dos indivíduos em castas, que excluía
àqueles sem hereditariedade nobre, os chamados párias. Assim, para estes, os ritos de
purificação e recompensas celestes o estavam disponíveis, restando apenas uma vida física
e espiritual de plena amargura.
No Cristianismo temos a figura do Simeão, que na sua profecia encaixa dor e
separação, quando relata que haverá quedas de muitos em Israel, e será alvo de contradição:
Ora, havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; e este homem,
justo e temente a Deus, esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo
estava sobre ele. Simeão o tomou em seus braços, e louvou a Deus, e disse:
E Simeão os abençoou, e disse a Maria, mãe do menino: Eis que este é posto
para queda e para levantamento de muitos em Israel, e para ser alvo de
contradição. (Lucas 2,25-34).
E aconteceu mesmo a consolação de Israel, pois com Jesus também os excluídos
passaram a absorver a benevolência de Deus, independente de ser escravo, gentio, pagão ou
estrangeiro. O Judaísmo da época além de impor inúmeras regras impossíveis de serem