Auto-retrato
Ensimesmo-me na aprazibilidade d’um recanto
Onde entôo meu canto, qual feérica ave canora
Em hora prandial, hora de comunhão com a luz
A qual transluz do peito como quem em templo ora
Sou quem está a um passo da angelitude, mas vacila
Quem se envereda por trilha de lucescentes pegadas
As quais se acham atadas por liames indeléveis
Impregnadas de leves recendências ou de atmosferas pesadas
Sou quem almeja embeber-se na luz do que lhe falta alcançar
Quem vê algo abarcar, aquilo que anela
Que diante de si desvela em toda sua visão sublime
Mas que logo se esvai o encanto quando se vê imanente a ela
Sou quem ao belo, embevecido, contempla, extasiado
A deslindar-lhe o segredo, ocultado em seus variados feitios
Descrevendo com atavios, em formas que lhe agrada
Pois com as mesmas, cumpliciada, prende-se a alma em seus lios.
De tudo aquilo que creio, por mais que haja contraste:
Amo o fugaz devaneio de um poeta, seu sonho
E folgo, assim, tão risonho, ao que me alimenta e seduz
... e assim minha vida conduz em um acalanto, destarte.