"Há de ser gente nova, ia pensando o sacristão, mas hóspede em alguma casa, decerto,
porque não há casa vazia na praia, e o número é da do Comendador Brito. Parentes,
serão? Que parentes, se nunca ouvi... ? Amigos, não sei; conhecidos, talvez, simples
conhecidos. Mas então mandariam cabriolet? Este mesmo preto é novo na casa; há de
ser escravo de um dos moribundos, ou de ambos."
Era assim que João das Mercês ia cogitando, e não foi por muito tempo. O cabriolet
parou à porta de um sobrado, justamente a casa do Comendador Brito, José Martins de
Brito. Já havia algumas pessoas embaixo com velas, o padre e o sacristão apearam-se e
subiram a escada, acompanhados do comendador. A esposa deste, no patamar, beijou o
anel ao padre. Gente grande, crianças, escravos, um burburinho surdo, meia claridade, e
os dous moribundos à espera, cada um no seu quarto, ao fundo.
Tudo se passou, como é de uso e regra, em tais ocasiões. Nhô Pedrinho foi absolvido e
ungido, nhã Anunciada também, e o coadjutor despediu-se da casa para tornar à matriz
com o sacristão. Este não se despediu do comendador sem lhe perguntar ao ouvido se os
dous eram parentes seus. Não, não eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de um
sobrinho que vivia em Campinas; uma história terrível... Os olhos de João das Mercês
escutaram arregaladamente estas duas palavras, e disseram, sem falar, que viriam ouvir
o resto -- talvez naquela mesma noite. Tudo foi rápido, porque o padre descia a escada,
era força ir com ele.
Foi tão curta a moda do cabriolet que este provavelmente não levou outro padre a
moribundos. Ficou-lhe a anedota, que vou acabar já, tão escassa foi ela, uma anedota de
nada. Não importa. Qualquer que fosse o tamanho ou a importância, era sempre uma
fatia de vida para o sacristão, que ajudou o padre a guardar o pão sagrado, a despir a
sobrepeliz, e a fazer tudo mais, antes de se despedir e sair. Saiu, enfim, a pé, rua acima,
praia fora, até parar à porta do comendador.
Em caminho foi evocando toda a vida daquele homem, antes e depois da comenda.
Compôs o negócio, que era fornecimento de navios, creio eu, a família, as festas dadas,
os cargos paroquiais, comerciais e eleitorais, e daqui aos boatos e anedotas não houve
mais que um passo ou dois. A grande memória de João das Mercês guardava todas as