— Fiz mal, muito mal...
Para remediar o mal feito, transferiu as cartas para a casa da sobrinha, e ia lá jogar, à
noite, com o Chico Borges. Mas a fortuna, quando flagela um homem, corta-lhe todas as
vazas. Quatro meses depois, os recém-casados foram para a Europa; a solidão alargou-se de
toda a extensão do mar. Falcão contava então cinqüenta e quatro anos. Já estava mais
consolado do casamento de Jacinta; tinha mesmo o plano de ir morar com eles, ou de graça,
ou mediante uma pequena retribuição, que calculou ser muito mais econômica do que a
despesa de viver só. Tudo se esboroou; ei-lo outra vez na situação de oito anos antes, com a
diferença que a sorte arrancara-lhe a taça entre dois goles.
Vai senão quando cai-lhe outra sobrinha em casa. Era a filha da irmã viúva, que
morreu e lhe pediu a esmola de tomar conta dela. Falcão não prometeu nada, porque um
certo instinto o levava a não prometer coisa nenhuma a ninguém, mas a verdade é que
recolheu a sobrinha, tão depressa a irmã fechou os olhos. Não teve constrangimento; ao
contrário, abriu-lhe as portas de casa, com um alvoroço de namorado, e quase abençoou a
morte da irmã. Era outra vez a filha perdida.
— Esta há de fechar-me os olhos, dizia ele consigo.
Não era fácil. Virgínia tinha dezoito anos, feições lindas e originais; era grande e
vistosa. Para evitar que lha levassem, Falcão começou por onde acabara da primeira vez: —
janelas cerradas, advertências à preta, raros passeios, só com ele e de olhos baixos. Virgínia
não se mostrou enfadada. — Nunca fui janeleira, dizia ela, e acho muito feio que uma moça
viva com o sentido na rua. Outra cautela do Falcão foi não trazer para casa senão parceiros
de cinqüenta anos para cima ou casados. Enfim, não cuidou mais da baixa das ações. E tudo
isso era desnecessário, porque a sobrinha não cuidava realmente senão dele e da casa. Às
vezes, como a vista do tio começava a diminuir muito, lia-lhe ela mesma alguma página do
Saint-Clair das Ilhas. Para suprir os parceiros, quando eles faltavam, aprendeu a jogar
cartas, e, entendendo que o tio gostava de ganhar, deixava-se sempre perder. Ia mais longe:
quando perdia muito, fingia-se zangada ou triste, com o único fim de dar ao tio um
acréscimo de prazer. Ele ria então à larga, mofava dela, achava-lhe o nariz comprido, pedia
um lenço para enxugar-lhe as lágrimas; mas não deixava de contar os seus tentos de dez em
dez minutos, e se algum caía no chão (eram grãos de milho) descia a vela para apanhá-lo.
No fim de três meses, Falcão adoeceu. A moléstia não foi grave nem longa; mas o
terror da morte apoderou-se-lhe do espírito, e foi então que se pôde ver toda a afeição que
ele tinha à moça. Cada visita que se lhe chegava, era recebida com rispidez, ou pelo menos
com sequidão. Os mais íntimos padeciam mais, porque ele dizia-lhes brutalmente que ainda
não era cadáver, que a carniça ainda estava viva, que os urubus enganavam-se de cheiro,
etc. Mas nunca Virgínia achou nele um só instante de mau humor. Falcão obedecia-lhe em
tudo, com uma passividade de criança, e, quando ria, é porque ela o fazia rir.
— Vamos, tome o remédio, deixe-se disso, vosmecê agora é meu filho...
Falcão sorria e bebia a droga. Ela sentava-se ao pé da cama, contando-lhe histórias;
espiava o relógio para dar-lhe os caldos ou a galinha, lia-lhe o sempiterno Saint-Clair. Veio