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Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
Centro de Filosofia e Ciências Humanas - CFCH
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais - IFCS
Programa de Pós Graduação em Sociologia e Antropologia – PPGSA
AMOR, FAMÍLIA E SOCIEDADE BRASILEIRA:
LITERATURA E VIDA ÍNTIMA NO SÉCULO XIX
Heloisa Helena de Oliveira Santos
Rio de Janeiro
2008
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AMOR, FAMÍLIA E SOCIEDADE BRASILEIRA:
LITERATURA E VIDA ÍNTIMA NO SÉCULO XIX
Heloisa Helena de Oliveira Santos
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós
Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ), como requisito parcial à obtenção do
título de Mestre em Sociologia (com concentração
em Antropologia).
.
Orientadora: Profa. Dra. Mirian Goldenberg
Co-Orientador: Prof. Dr. André Pereira Botelho
Rio de Janeiro
2008
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FICHA CATALOGRÁFICA
Santos, Heloisa Helena de Oliveira.
Amor, família e sociedade brasileira: literatura e vida
íntima no século XIX / Heloisa Helena de Oliveira Santos. Rio de
Janeiro: PPGSA / IFCS / UFRJ, 2008.
x, 140 f.
Orientadores: Mirian Goldenberg e André Pereira Botelho
Dissertação (Mestrado) Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS),
Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA),
2008.
1. Amor. 2. Relações Íntimas. 3. Sociedade Brasileira
Oitocentista. 4. Literatura. 5. Pensamento Social Brasileiro. 6.
Antropologia dos sentimentos / Sociologia da Literatura Tese. I.
Goldenberg, Mirian. II. Botelho, André Pereira. III. Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais,
Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia. IV.
Amor, família e sociedade brasileira: literatura e vida íntima no século
XIX.
AGRADECIMENTOS
Algumas pessoas e instituições devem ser lembradas por terem contribuído nesta
caminhada e conquista chamada dissertação. Primeiramente, minha família. Jurema de
Oliveira Santos, Luiz dos Santos e Thereza Krystina, meus pais e irmã, que me
apoiaram das mais diferentes formas. À Dona Olívia, avó querida que, com seus “70 e
poucos” anos, me diverte e impressiona mais a cada dia. E ao meu tio-irmão Marcos
Antonio. Este trabalho é, em parte, produto do amor deles.
Agradeço a Mirian Goldenberg e André Botelho pela paciência em ler
“milhares” de versões do texto e serem orientadores no sentido mais amplo do termo. À
Mirian, por todo o acompanhamento e dedicação que prestou desde a graduação e por
ter me ensinado coisas que vão muito além da vida acadêmica: coisas que ela
certamente não imagina. Agradeço ao meu orientador e amigo André Botelho pelo
conhecimento, amizade, companheirismo, força, dedicação e apoio nestes últimos anos:
o “Amor” não estaria aqui sem você. À professora Luciana Villas-Bôas, pela amizade,
idéias e dedicação com esta pesquisa, seja pela fundamental participação em minha
qualificação, seja pelo excelente curso ministrado no ano passado e que contribuiu
profundamente com o desenvolvimento desta dissertação. Agradeço ainda a André
Cardoso (e aqui agradeço também a Luciana Villas-Bôas, por ter me apresentado a ele),
pelas conversas e pela solicitude e generosidade em ceder sua tese, antes mesmo de ter
defendido: material que foi fundamental para as reflexões aqui desenvolvidas.
Não posso esquecer de todo corpo docente do PPGSA que contribuiu com as
disciplinas, informações e nas conversas inspiradoras “pelos corredores”. Às
funcionárias Denise e Claúdia, que atendem com enorme paciência a todos os alunos.
Agradeço ainda à CAPES pelo apoio financeiro por meio da bolsa de Mestrado.
Aos amigos, pessoas cuja ausência teria tornado a escrita desta dissertação muito
mais difícil. Agradeço, pela troca de experiências e conhecimento e pela amizade e
apoio não apenas em sala de aula, mas também nos “becos e bares” da vida, a todos os
companheiros de turma no PPGSA e, em especial, a Bernardo Curvelano Freire, Marina
Cordeiro e Suzana Mattos. Aos queridos amigos do NUSC que, apesar de todas as
minhas loucuras, ainda me consideram sua “flor no lodo”: Antonio Brasil, André
Bittencourt, Alexander Eglander, João Paulo Martinez, Lucas Carvalho, Mauricio Hoelz
e Pedro Cazes. Ao grupo da Revista Habitus, aos atuais membros e aos antigos, que me
ajudaram a manter a RH - publicação de que muito me orgulho - neste período
conturbado e fazê-la permanecer – e crescer – não apenas agora, mas durante os últimos
cinco anos. Um agradecimento especial ao companheiro de Editoração Arthur
Bernardes, cuja contribuição tem sido fundamental para a consolidação da RH. Aos
amigos do Colégio Pedro II, em especial Thaíse Alves Galvão e Isabela Boechat, que
sempre apoiaram as minhas escolhas e comemoraram minhas conquistas. Finalmente,
um enorme “Obrigada” aos amigos que me deram muitos (e diferentes) prazeres antes e
durante a dissertação e que, com este amor, ajudaram a manter a minha sanidade:
Bianca Arruda Soares, Carolina Nascimento, Gustavo de Sá, José Luiz Soares, Julia
Leal, Orlando Calheiros, Paloma Malaguti, Sabrina Guergue e Thiago Vieira.
E, para finalizar, deixo um agradecimento especial a todos aqueles que também
participaram na constituição desta dissertação, seja com a amizade, seja com apoio
“técnico”, seja com apoio “físico” e que, eventualmente, esqueci de citar.
“O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capítulo do amor ou dos
amores, que é o seu interesse particular nos livros.”
Narrador do romance Esaú e Jacó de Machado de Assis
RESUMO
Esta dissertação busca compreender, por meio da análise de romances, como as relações
íntimas amorosas foram codificadas na sociedade brasileira do século XIX. Partindo das
sugestões de Niklas Luhmann sobre o papel da literatura na formação da intimidade,
analiso três romances brasileiros do século XIX: A Moreninha (1844) de Joaquim
Manuel de Macedo, Senhora (1875) de José de Alencar e Dom Casmurro (1899) de
Machado de Assis, buscando mapear as concepções e comportamentos associados ao
amor e às relações afetivas entre homens e mulheres. A partir deste levantamento,
comparo os dados destas três narrativas com as teorizações sobre amor, romantismo e
sociedade brasileira do século XIX, dando ênfase às possíveis tensões entre os ideais de
amor romantizado disseminados pelos romances e a organização social familista que
caracteriza o Brasil do período. Compreende-se que estes romances estão sugerindo,
através das histórias dos protagonistas, novas formas de relacionamentos onde o amor é
a base da relação. No entanto, estes romances não conseguem responder às demandas de
uma sociedade que permanece predominantemente familista e que ainda exige os
direitos do proprietário sobre os seus dependentes. Assim, as relações afetivas
fundamentadas no amor apenas se sustentam quando a família é afastada do casal.
Quando esta família está presente, contudo, o amor é manipulado pelo chefe
patriarcalista e sucumbe diante da vontade e do arbítrio do mesmo. Deste modo, até o
século XIX, é possível afirmar que o amor não pode se sustentar como fundamento das
relações amorosas entre homens e mulheres na sociedade brasileira.
Palavras-Chave: Amor, Sociedade Brasileira Oitocentista, Relações Íntimas, Literatura,
Pensamento Social Brasileiro.
ABSTRACT
The main objective of this dissertation is to understand, by analyzing Brazilian novels,
how intimate relationships were codified in the Nineteenth´s Brazilian society. Starting
from Niklas Luhmann's suggestions about literature's role on the intimate formation, we
analyze three Brazilian novels from the XIX century: A Moreninha (1844) by Joaquim
Manuel de Macedo, Senhora (1875) by José de Alencar and Dom Casmurro (1899) by
Machado de Assis, in order to map the conceptions and behaviors linked to love and af-
fective relationships between men and women. With this material, we compare the in-
formation from these three narratives with the theoretical analysis about love, Romantic
Movement and Brazilian society of the nineteenth century, emphasizing the possible
tensions between the ideals of romantic love disseminated by the novels and Brazilian
social organization based on the family, model that characterizes the Brazilian society at
this time. We understand that these novels are suggesting, through the story of the pro-
tagonists, new models of relationships where love is the basis. Nevertheless, these nov-
els can't answer the claims from that (retirar) Brazilian society that remains based on
families' relations and that still demands properties' rights above their dependents. By
this hypothesis, we can say, after the analysis, that relationships based on love only
maintain themselves when the family is away from the couple. But when the family is
near, love is manipulated by the patriarchal owner and succumbs before the wish and
decision of this chief. Therefore, until the XIX century, it is possible to affirm that love
can't sustain itself as the basis for love relationships between men and women in Brazil-
ian society.
Keywords: Love, Nineteen's Brazilian Society, Intimate Relationships, Literature,
Brazilian Social Thought.
SUMÁRIO
Introdução 1
Capítulo 1 - Do amor: A Moreninha, Senhora e as primeiras definições
do sentimento 10
1.1 - Amores Volúveis: A Moreninha e o ponto inicial 10
O Romance 10
As relações íntimas e o amor 12
1.2 - O Amor vai às compras: Senhora e a regeneração da pessoa 33
O Romance 33
As relações íntimas e o amor 39
Capítulo 2 - Da família: Dom Casmurro e a crise do casal amoroso
57
2.1 - Destronando o amor: Dom Casmurro e o problema do indivíduo moderno em
contexto patriarcal 58
O Romance 58
As relações íntimas e o amor 60
Capítulo 3 – Amor e família no Brasil 83
Considerações finais 128
Referência Bibliográficas 138
Introdução
Esta dissertação versa sobre as representações de amor que se disseminaram por
meio de três romances no Brasil durante o século XIX: A Moreninha (1844) de Joaquim
Manuel de Macedo, Senhora (1875) de José de Alencar e Dom Casmurro (1899) de
Machado de Assis, buscando compreender como estas três narrativas relacionaram a
idéia de um amor baseado em escolhas individuais e a sociedade brasileira oitocentista,
tradicionalmente familista. O amor é uma noção que, no senso comum, se refere a um
“sentimento”, podendo ser entendido também como relações sociais que envolveriam,
predominantemente, fatores afetivos. Mas, por outro lado, o amor é uma construção
social, com significados variáveis histórica e culturalmente, sendo que, como
“sentimento”, talvez seja uma das relações sociais mais naturalizadas na sociedade
contemporânea. Pode-se argumentar que uma das formas de recuperar a condição de
construto social do amor - inclusive elucidando sua dimensão processual -, é investigar
as narrativas desenvolvidas ao longo do tempo sobre ele. Daí o recurso aos romances
para a sua investigação não ser aleatório.
Considerando que as diferentes representações sobre o amor nos romances estão
relacionadas com distintos modelos de subjetividade, as perguntas gerais que norteiam
esta dissertação são: Que representações do amor estão sendo disseminadas nos
romances? Quais são as concepções dominantes? Quais são as noções concorrentes?
Como estas formulações se relacionam com a organização da sociedade que estava em
processo de modificação? Como se a codificação da intimidade na sociedade do
século XIX? Deste modo, pretendo comparar os modos como o amor é experimentado
pelas diferentes personagens dos três romances escolhidos, tentando perceber possíveis
relações e tensões entre elas.
Como Niklas Luhmann (1991), compreendemos que a literatura teve papel
fundamental na fixação, codificação e disseminação entre os leitores
1
dos
comportamentos associados à vida íntima e aos relacionamentos amorosos que estavam
em ação na sociedade. O que torna as reflexões de Luhmann sobre literatura e amor
particularmente importantes é a sua visão sobre a modernidade. O autor não considera
1
de se considerar, no entanto, o pequeno número de letrados na sociedade brasileira oitocentista,
presentes, em significativa maioria, entre os membros da elite. No entanto, como aponta Meyer (1996),
era comum o empréstimo de jornais e outras literaturas. Por outro lado, era hábito, entre as classes mais
altas, ler para a família, como lembra um de nossos principais romancistas, José de Alencar (2005) e
como é demonstrado nos romances Senhora e Dom Casmurro que narram situações de leitura coletiva.
Assim, ainda que não lidos diretamente, a literatura não deixava de ser “lida”, experimentada pelos
ouvintes.
que a sociedade moderna seja, prioritariamente, uma sociedade de relações impessoais,
concepção somente compatível, para ele, com análises que tomam a sociedade moderna
centralmente por seu sistema econômico. Luhmann entende que o que caracteriza a
sociedade moderna é também, além deste aumento da possibilidade de estabelecer
relações impessoais, exatamente o seu oposto: a capacidade de fornecer aos indivíduos a
concretização de relações pessoalizadas cada vez mais “intensivas” onde um “maior
número de características individuais e particulares da pessoa ou em princípio todas as
características de uma pessoa individual sejam significativas”
2
.
É necessário enfatizar que, para Luhmann, o amor não é um sentimento, mas um
meio de comunicação que permite a troca de informações sobre o íntimo dos sistemas
psíquicos, os indivíduos. As características pessoais que virão a ser comunicadas são a
visão particularizada de mundo que cada um dos indivíduos possui e que compõem o
seu íntimo. Na sociedade moderna, onde as relações impessoais e pessoais se
intensificam, encontramos a dupla necessidade dos sistemas psíquicos em manter
relações onde este íntimo é preservado e outras onde aquelas informações são as mais
relevantes. Esta importância dada à comunicação do íntimo ocorre porque os sistemas
psíquicos querem ver suas informações pessoais confirmadas no mundo. Para que tal
processo aconteça, um outro particular é solicitado para fazer tal confirmação. No
entanto, trata-se de um problema, pois uma grande dificuldade está em este outro
processar tal confirmação, pois, a princípio, esta visão de mundo é particular, muito
diferenciada das demais, logo não óbvia para o interlocutor
3
. O meio amor funcionaria
codificando estas visões de mundo altamente pessoalizadas e permitiria sua
comunicação improvável
4
, evitando que os sistemas psíquicos, diante da dificuldade,
desistam de comunicar antes mesmo de tentarem. Com estas noções, Luhmann produz
uma teoria particular sobre o amor e sua relação com a sociedade moderna, não
destacando o amor da sociedade como se ele fosse uma criação particular de cada
indivíduo, mas revelando a necessária associação do amor a ela, que o utilizaria como
um meio de se manter a si mesma e, ao mesmo tempo, de permanecer conectada aos
sistemas psíquicos. Noutras palavras, o amor não destaca os indivíduos da sociedade,
mas é o que a ajuda a mantê-los unidos a ela.
A hipótese geral da dissertação é que concomitantemente às alterações que se
processavam na vida íntima da sociedade brasileira oitocentista, noções concorrentes de
2
LUHMANN, 1991: 12.
3
Embora a transmissão de nenhuma informação seja óbvia na comunicação.
4
Mais improvável exatamente por ser muito pessoal.
amor e possibilidades de se constituir o campo dos afetos estavam sendo ensaiadas
também nos romances brasileiros do século XIX. Estas concepções estão
majoritariamente relacionadas à ascensão de modelos de relações afetivas centradas no
amor, relações onde o sentimento passa a ser requisito para a efetivação do matrimônio.
No Brasil do século XIX, formas alternativas de relacionamento amoroso estavam
sendo ensaiadas nas narrativas, envolvendo novos modelos de constituição de casais
formados mais independentemente, resultado da redução da autoridade do patriarca, da
redistribuição de poder dentro da família e do afastamento da parentela extensa que
tinha papel fundamental na constituição do íntimo, especialmente entre as classes
abastadas. Ocorre, deste modo, um processo de reorientação dos valores onde a
literatura, que vinha crescendo em organização e importância em nossa sociedade,
possui papel fundamental. Como ressalta Candido (2006), é no século XIX que a
literatura no Brasil alcança uma melhor organização, sistematizando-se autores, público
e obras
5
. Pode-se lembrar ainda, a partir das reflexões de Freyre (2006b), que romances
"dissolutos" participaram desta mudança, posto que apresentavam padrões que se
distinguiam da prática, onde a decisão sobre os matrimônios dos jovens era conduzida,
prioritariamente, pelo patriarca. Estes romances representariam as “más influencias” das
novas gerações, pois apresentariam novos modelos de comportamentos
6
, subjetividade e
afeto para homens e mulheres. Estas narrativas se inseririam, por outro lado, em um
projeto mais amplo de redefinição da família
7
.
Mas ainda que muitas mudanças tenham se processado no campo dos afetos,
acreditamos que as novas formulações apresentadas por esta literatura de ficção não
conseguem, até aquele momento, resolver a relação tensa que estabelecem com a ainda
principal instituição social da sociedade brasileira da época, a família extensa e, mais
especificamente, com algumas de suas manifestações mais importantes, a autoridade e o
poder do proprietário. Porém, o fato mesmo de estes romances terem por tema relações
5
Lajolo e Zilberman (2002) destacam o impacto que a liberação da imprensa régia para documentos não
oficiais e, posteriormente, da permissão do funcionamento de impressões particulares produziu em nosso
sistema literário.
6
Freyre (2006b) lembra que José de Alencar foi acusado por criar, em seus romances, personagens
femininas cujos comportamentos não eram apropriados. Eram as “tendências românticas” que faziam
com que as moças fugissem com seus amados. “Os romances de José de Alencar, por exemplo, com
‘certas cenas pouco desnudadas’ e certos ‘perfis de mulheres altivas e caprichosas [...] que podem seduzir
a uma jovem inexperiente, levando a querer imitar esses tipos inconvenientes na vida real’” (FREYRE,
2006b: 249).
7
Muricy (1988) mostra como os primeiros romances de Machado de Assis possuíam narrativas
condizentes com as considerações médicas sobre a família que se disseminaram durante o século XIX.
Augusti (1998) revela o caráter pedagógico dos romances de Macedo, onde ideais de mulher e