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Márcio Meirelles Gouvêa Júnior
A Viagem dos Argonautas:
A Construção da Virtus Flaquiana
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Letras: Estudos Literários da
Faculdade de Letras UFMG, como requisito
parcial à obtenção do título de Mestre em
Letras: Estudos Literários.
Área de Concentração: Estudos Clássicos.
Orientadora: Profa. Dra. Sandra Maria
Gualberto Bianchet.
Belo Horizonte
Faculdade de Letras da UFMG
2007
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Agradecimentos
À minha mãe, pelas tantas enciclopédias e coleções de minha juventude.
À Lucimeire, pela impagável dedicação e pela grande amizade.
Ao Eduardo, pelo incansável apoio e pelas exaustivas leituras de minhas traduções.
Ao Guilherme, pela imensa generosidade nas sugestões sempre acolhidas.
À Sandra, minha orientadora, pela paciência durante todo esse percurso.
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Resumo
Esta dissertação tem por escopo o estudo do modelo de herói épico presente nas
Argonautica, de Valério Flaco. Seu objetivo foi buscado a partir do cotejo sistemático dos
episódios presentes nos quatro primeiros cantos da obra com a tradição literária do mito
argonáutico, em função do inarredável caráter tardio do autor. Assim, por meio da comparação
das narrativas poéticas emuladas pelo poeta latino, foi possível determinar um elenco de
virtudes características do principal herói da obra condizente com as condições históricas,
políticas e filosóficas da época em que o poema foi escrito.
Palavras-chave: Argonautica, Valério Flaco, Poesia Épica, Herói.
Abstract
This dissertation aims to study the heroic epic model of Valerius Flaccus' Argonautica.
It's objective could be accomplished through a sistematic comparison between the episodes
from the first four books and the literary tradition of the argonautic myth, due to the author's
tardive character. So, with such comparison of the poetic narratives emulated by our latin poet,
it was possible to determinate the suitable virtues - all of them characteristic to the central hero
for the historic, politic and philosophic circumstances of the age in which the poem was
written.
4
SUMÁRIO
1 Apresentação ...................................................................................................................................... 6
1.1 A Épica no Período Flaviano ...................................................................................................6
1.2 Valerius Flaccus e as Argonautica ............................................................................................. 8
1.3 A viagem iniciática dos Argonautas e a busca pelas virtudes ........................................... 13
1.4 O Estudo .................................................................................................................................. 14
2 Tempos e Heróis: A evolução histórico-lierária do modelo de herói épico ............. 15
2.1 Introdução: o conceito de herói .............................................................................................15
2.2 A evolução literária do modelo de herói ............................................................................. 16
2.3 Conclusão ................................................................................................................................. 58
3 A Tradição Literária do Mito Argonáutico ...........................................................................60
3.1 Período Arcaico da literatura grega .......................................................................................60
3.2 Período Clássico da literatura grega ..................................................................................... 75
3.3 Período Alexandrino ...............................................................................................................78
3.4 Período Republicano Latino até os Neotéricos ................................................................. 86
3.5 Período de Augusto, ou a Geração de Ouro da literatura latina ..................................... 90
3.6 Apolodoro de Atenas, ou Pseudo-Apolodoro ................................................................... 98
3.7 Período da Geração de Prata da literatura latina .............................................................. 100
4 Episódios das Argonáuticas Latinas ................................................................................... 104
4.1 Introdução ...............................................................................................................................104
4.2 Preparativos, Embarque e Partida – ou a Gloria: vv. I, 22/850 ......................................105
4.3 As Mulheres de Lemnos – ou a Pietas: vv. II, 72/431 ..................................................... 111
4.4 O Resgate de Hesíone – ou a Fortitudo hercúlea: vv. 451/578 ....................................... 120
4.5 A Morte de Cízico – ou a Virtus guerreira: vv. II, 653/ III, 464 ................................... 123
4.6 O Rapto de Hilas – ou a Auctoritas: vv. III, 481/ IV, 81 ................................................ 130
4.7 O Combate de Pólux e Âmico – ou a Indoles: vv. IV, 99/343 ....................................... 140
5
4.8 Fineu, as Harpias e os Boréades – ou a Prudentia vv. IV, 422-636 ................................ 147
4.9 Conclusão: A Passagem das Simplégades – ou o vir heroicus vv. IV, 635-761 .............. 152
5 Conlusão –
Dux Argonautarum
............................................................................................ 156
6 Referências Bibliográficas ...................................................................................................... 161
7 Apêndice –
As Argonáuticas Latinas
, de Valérius Flaccus. Cantos I a IV ...............168
7.1 Canto I .................................................................................................................................... 169
7.2 Canto II .................................................................................................................................. 205
7.3 Canto III ................................................................................................................................. 233
7.4 Canto IV ................................................................................................................................. 264
6
Apresentação
1 – A Épica no Período Flaviano
O advento dinástico dos imperadores flavianos (69-96 d.C.) não apenas pôs fim aos
distúrbios provocados pela sucessão do último representante da casa Júlio-Claudiana, deu
também início a um novo período da literatura latina. Os suicídios de Lucano, de Sêneca e de
Petrônio, entre 65 e 66, bem como a morte voluntária do Princeps, em 69, marcaram o
encerramento da valorização literária da estética que a posteridade chamou de anticlássica,
desenvolvida nos últimos anos do principado de Nero, fruto das profundas inquietações
sociais causadas pela celerada tirania do imperador. Ao gosto poético inflamado e
grandiloqüente, impregnado do asianismo da retórica dos declamadores, ávido por efeitos
patéticos e movido por notável vigor dramático e por cores exageradas, contrapôs-se, então, a
busca pela sobriedade clássica dos tempos de Cícero, de Virgílio e de Horácio, em uma tentativa
de recuperação ideológica da estabilidade política alcançada pelo Império no governo de
Augusto. Era o início do neoclassicismo flaviano
1
.
De fato, essa profunda alteração no estilo da produção artística e literária decorreu
principalmente da política cultural dos novos principes. Graças aos incentivos de Vespasiano, foi
retomada a colaboração entre os intelectuais e o Regime Imperial o significativa durante o
principado de Augusto. Ademais, com o início do governo de Domiciano, regressaram os
mecenatos imperiais e privados, com o conseqüente relançamento de abundante produção
1
CITRONI, M., CONSOLINO, F. E., LABATE, M., NARDUCCI, E. (Edd.) Literatura de Roma Antiga. Lisboa.
Fundação Calouste Gulbenkian. 2006. 824p.
7
literária
2
. No entanto, o gido controle imperial flaviano o da literatura, mas de toda a
propaganda do período, cooptou e direcionou esses escritores, que passaram a produzir,
sobretudo, panegíricos adulatórios ao Imperador.
Nessa literatura de aparato, a poesia épica mereceu tratamento especial. Provém desse
período o maior número de poemas do gênero restantes da Antigüidade: Argonautica, de
Valério Flaco; Punica, de Sílio Itálico e Tebaida e Aquileida, de Estácio. A política de restauração
da pretérita glória otaviana levada a cabo pelos novos imperadores, motivadora não só da larga
re-emissão numismática das séries com as efígies dos primeiros Júlio-Claudianos, mas também
da reconstrução dos templos dinásticos demolidos por Nero, incentivava, assim, aqueles poetas
a celebrarem, com seu canto, a casa reinante, segundo o modelo criado por Virgílio, com a
Eneida. Então, na prática emulatória típica da Antigüidade, por meio de intrincados
virtuosismos técnicos, estabeleceram-se artifícios de re-elaboração e de recomposição das
formas clássicas. No entanto, como a recente influência estilística dos poetas anticlássicos não
pôde ser apagada, criou-se, nas letras latinas, uma nova e inevitável dimensão poética, fruto da
tensa conjugação das duas matrizes literárias conflitantes existentes no período o classicismo e
o anticlacissismo. Às temáticas mitológicas e históricas remotas, desenvolvidas tanto no período
republicano quanto no início do Império, aliaram-se os tons sombrios, sinistros e macabros, os
aspectos anômalos e as realidades surpreendentes típicas do Sêneca trágico e do épico Lucano.
Finalmente, a literatura desenvolvida nesse período jamais esteve livre da recorrência
não aos modelos virgilianos, mas a toda a herança poética da antigüidade recorrência esta
que pode ser aferida nas constantes alusões, citações, antífrases e apropriações feitas pelos
poetas da corte dos Flávios. Ressoavam em seus versos ecos de Homero e Hesíodo, de
Ésquilo e Píndaro, de Apolônio e Calímaco, de Ênio e Catulo, a percorrer toda a história
2
WOODSIDE, M. St. A., Vespasian’s Patronage of Education and Arts”. Transactions and Proceedings of the
American Philological Association, Vol. 73, 1942, 123p.
8
literária, em um exercício constante emulação e de diálogo. Por isso, para compreensão das
obras do período, faz-se imprescindível ao leitor moderno percorrer, ainda que minimamente,
a trajetória dos modelos literários que inspiraram aqueles poetas, para, no cotejo do legado
clássico com suas obras, perceber as relações estabelecidas pelo autor.
2 – Valerius Flaccus e as
Argonautica
O único registro confiável acerca do poeta das Argonautica, proveniente ainda da
Antigüidade, foi transmitido por Quintiliano no breve lamento deixado em razão de sua morte
multum in Valerio Flacco nuper amisimus: “Há pouco, muito perdemos com Valério Flaco”
(Institutio Oratoria, X, 1, 90). Trata-se, certamente, de uma singela nota aposta no rol dos autores
latinos elencados pelo gramático, mas que foi capaz de fornecer à história da literatura a
exclusiva indicação da data limite do presumível encerramento da composição do poema,
definida pelo ano de 95 d.C., quando da publicação da obra do mestre retórico
3
. As demais
informações sobre a vida do poeta foram extraídas, com todos os riscos de imprecisão daí
decorrentes, da obra do próprio escritor e de precárias anotações deixadas nos manuscritos
medievais que transmitiram seu texto. Graças a um desses manuscritos o Códice Vaticano
3277, do século IX
4
–, pretendeu-se adicionar aos nomina poetae referidos por Quintiliano os
epítetos de Setinus Balbus, em pretensa e frágil indicação ao local de seu nascimento a região
da Sétia, no Lácio. Por outro lado, pela leitura do proêmio das Argonautica (I, 5-6)
5
e pelo
3
As tentativas de datação das Argonautica ocupam a maior parte dos estudos sobre a obra. Para tanto, ver: SYME,
Ronald. “The Argonautica of Valerius Flaccus”. The Classical Quartely, XXIII, nr. 3/4, 1929.; TORRES-
MURCIANO, Antonio R. “El proemio de Valerio Flaco una lectura retórica”. Cuadernos de Filología Clásica.
Estudios Latinos, vol. 25, nr. 1, 2005.; STRAND, Johnny, Notes on Valerius Flaccus Argonautica. Götemborg, 1972.;
MOREDA, Santiago L. Valerio Flaco – Las Argonáuticas. Madrid, Ediciones Akal, 1996.
4
TORRES-MURCIANO, Antonio R. Op. Cit. 22p.
5
“Phoebe, mone, si Cumaeae mihi conscia vatis/Stat casta cortina domo” – Inspira-me, Febo, se em minha casa
está a cortina (a bacia da trípode) da Sibila de Cuma. (I, 5-6)
9
consenso dos estudiosos
6
, concluiu-se que Flaco fora um dos quindecemviri sacris faciundis, um
dos quinze sacerdotes a serviço de Apolo, responsáveis pela guarda e pela consulta dos
sagrados Livros Sibilinos, ou seja, um dos exclusivos intérpretes, demandados apenas pelo
Imperador e pelo Senado, dos livros que conteriam os vaticínios e os rituais concernentes aos
destinos de Roma
7
nenhuma guerra e nenhum tratado poderiam ser encetados sem a prévia
consulta a esses oráculos
8
.
Por seu turno, se para a data de conclusão, ou de interrupção, do poema o texto de
Quintiliano forneceu seu terminus ad quem, foram mais uma vez os próprios versos de Valério
Flaco que deram indicações da data de início, ou pelo menos do período de produção das
Argonautica latinas: a invocação a Vespasiano (I, 7-12); a referência à destruição de Jerusalém,
no ano 70 (I, 13); a homenagem às pretensões literárias de Domiciano (I, 12); a instituição do
culto divino a Vespasiano (I, 15); a erupção do Vesúvio (III, 207-208; IV 507 e ss.) e as
esparsas indicações acerca da campanha de Domiciano contra os Sármatas, no ano de 89 d.C.
9
Quanto ao corpus do poema propriamente dito, embora haja evidências de sua
veiculação parcial em coletâneas e florilégios medievais
10
, seu texto integral ou aquele que
alcançou a modernidade apenas foi descoberto em 1416, no mosteiro de Sanctus Gallus, na
atual Suíça, pelo humanista florentino Poggio, que o transcreveu e o pôs em circulação treze
anos mais tarde
11
. Tratava-se de um conjunto, hoje perdido, de 5.592 versos hexâmetros,
dispostos em oito cantos, interrompidos bruscamente antes da conclusão da narrativa poética.
6
EHRLERS, W. W., Gai Valeri Flacci Argonauticon libros octo. Stuttgart, Bibliotheca Teubneriana, 1980, V p.;
SUMMERS, Walter C., A Study of The Argonautica of Valerius Flaccus. London, Cambridge, 1894.
7
CAEROLS, José J. “Libros Sibilinos y quindecénviros en la Historia Augusta”. Cuadernos de Filologia Clásica
Estudios Latinos. Nº 15- 1998. 364p.
8
SCHEID, John. “O Sacerdote”. O Homem Romano Edd. Andrea Giardina. Lisboa. Editorial Presença. 1992.
67p.
9
SYME, Ronald. “The Argonautica of Valerius Flaccus”. The Classical Quartely, XXIII, nr. 3/4, 1929. 132p.
10
COULSON, Frank. T. “New evidence for the circulation of the text of Valerius Flaccus?” Classical Philology,
LXXXI, 1986. 58p. e ULLMAN, B. L. “Valerius Flaccus in the Mediaeval Florilegia”. Classical Philology, XXVI,
1931, 21p.
11
SUMMERS, Walter C. Op. Cit. 1p.
10
Essa incompletude
12
do texto, por sua vez, ocasionou acirrados e inconclusivos debates que
buscaram inferir a provável extensão original do poema se composto por oito cantos, em
estreita correlação com os quatro cantos das Argonautica de Apolônio de Rodes, ou, por outra,
se composto por doze cantos, aos moldes da Eneida
13
. Apesar das óbvias incertezas, a opinião
majoritária atual faz crer que o poema flaquiano devesse contar apenas com os oito cantos
atuais; e que a parte faltante, estimada em 300 versos, a julgar pela média dos demais cantos,
em vez dede ter perdido, talvez mesmo nunca tenha sido escrita
14
.
Quanto à temática das Argonautica, pouco ineditismo substancial houve na obra
flaquiana. A saga dos jovens desbravadores do Ponto Euxino, que partiram em busca do
Velocino de Ouro e que, com ele, trouxeram para a Hélade a terrível Medéia, encontrava-se
presente desde os primórdios da literatura ocidental, citada nas obras de Homero e de
Hesíodo. No entanto, pela iniciativa de Valério Flaco, o canto dos navegantes foi atualizado
para a realidade da Roma Imperial flaviana, posto que sem qualquer servilismo por parte do
poeta para com os modelos que este utilizou ao contrário de Varrão Atacino que, com suas
Argonautica, foi chamado de mero tradutor das obras de outrem
15
. Assim, o vetusto epos de
celebração da abertura do mar oriental pelos povos heládicos recebeu novo tratamento,
passando a festejar, sob o argumento de comemorar o feito náutico de Vespasiano no périplo
do mar da Escócia (I, 7-9), o novo governo dos Flávios.
Quanto ao poema em si, em uma interpretação que privilegia a hipótese de sua
extensão original em oito cantos em paralelo estrutural com a divisão em duas metades da
Eneida, segundo a qual a primeira parte do poema de Virgílio corresponderia à viagem
12
HERSKOWITZ, Debra. Valerius Flaccus’ Argonautica Abbreviated Voyages in Silver Latin Epic. London,
Clarendon Press, 1998. 1p e ss.
13
LIBERMAN, Gauthier. “Autour d’un nouveau Valerius Flaccus”. Revue de Philologie, de Littérature et d’histoire
anciennes, tome LXXVI, 2002. 302p.
14
MOREDA, Santiago L. Valerio Flaco – Las Argonáuticas. Madrid, Ediciones Akal, 1996. 28p.
15
QUINTILIANO, Institutio Oratória, X, 1, 87.
11
formadora do herói; e a segunda, ao canto de seus feitos – também as Argonautica apresentam-
se, no seu atual estado de conservação, cindidas em duas grandes seções: a viagem dos
argonautas, nos seus primeiros quatro cantos, e os feitos de Jasão na Cólquida, nos quarto
derradeiros
16
. Na porção inicial, concorreram todos os marinheiros, em episódios de curtas
aventuras, por meio das quais foram provadas e enaltecidas suas virtudes; na metade final, após
um grande combate em que tanto os heróis quanto seu capitão exerceram suas qualidades
comprovadas, seguiu-se a gesta de Jasão, capaz de angariar os favores de Medéia e de cumprir
os difíceis trabalhos lhe impostos pelo tirânico e pérfido Eetes.
quanto à estrutura poética da obra, Valério Flaco seguiu praticamente todos os topoi
do canto épico. Estão presentes os elementos característicos do exórdio (proposição e
invocação), os catálogos dos heróis, a cena da tempestade, o completo aparato divino, inclusive
com as desavenças entre as divindades (Juno, Minerva e Vênus, como deusas favoráveis; Sol e
Marte, como deuses opositores), e mesmo uma cena de vaticínio que, embora não seja uma
verdadeira catábase, prediz os eventos futuros, em nova recorrência ao encontro de Enéias e
Anquise no Orco. No que concerne aos deuses, estes foram tratados, sobretudo, de modo
decorativo, respondendo à feição racionalista da época; no entanto, mantiveram seu poder
alegórico, notadamente Júpiter, para anunciar a grandeza de Roma e de seu Império.
Finalmente, quanto ao herói das Argonautica, este se revelou herdeiro inequívoco de
toda a tradição épica. Êmulo aguerrido de seus pares literários, ele conseguiu suplantá-los, a
ressaltar as qualidades de cada um daqueles, e a rechaçar seus defeitos, aquilatados no tempo
flaviano. Por isso, como os guerreiros iliádicos e como o Enéias latino, o Jasão flaquiano
mostrou-se indômito combatente, capaz de enfrentar as batalhas e de existir em uma sociedade
16
Embora essa divisão do poema seja clara, Valério Flaco não a fez coincidir exatamente com a repartição dos
cantos, que a cnica maneirista dos escritores do período neoclássico valorizava essa assimetria. De fato, a
chegada dos marinheiros à Cólquida deu-se a partir do verso V, 190. Para o assunto, ver MOREDA, Santiago L.
Op. Cit. 30p.
12
predominantemente bélica e castrense, como a romana imperial; por outro lado, como o herói
odissíaco, o capitão dos Argonautas alcançaria sua glória e fama a partir da realização de
ingentes trabalhos, em uma valorização inequívoca da patientia, ou melhor, da capacidade de
padecimento ou de tolerância perante os sofrimentos tipicamente romana; contudo, outra vez
como Enéias, Jasão ainda se revelou pio e reverente, como o deveria ser o cidadão ideal do
Império formado por Augusto; finalmente, como o Jasão helenístico, o herói latino fez-se
diplomático e sedutor, em uma adequação precisa e necessária aos tempos cosmopolitas do
final do século I d.C., quando Roma, à semelhança do império de Alexandre, atingia sua
máxima abrangência
17
.
3 – A Viagem Iniciática dos Argonautas e a Busca pelas Virtudes
Embora o evidente conteúdo encomiástico do proêmio da obra flaquiana, a viagem dos
primeiros marinheiros, objeto dos quatro cantos iniciais das Argonautica, não serviu apenas para
celebrar os feitos da casa dinástica reinante. Por meio de seu epos, Valério Flaco, o presumível
quindevenvir responsável pela guarda e pela interpretação dos Livros Sibilinos, pôde também
enaltecer Roma – detentora última e máxima do mando do mundo, conforme os inderrogáveis
desígnios de Júpiter (I, 531-533) e seus modelos de excelência. Nesse sentido, a viagem dos
intrépidos nautas representaria principalmente a própria concepção estóica vigente no Império
de desenvolvimento individual e de paulatina busca pelas virtudes, em recorrência literária ao
modelo consubstanciado na viagem de Enéias, que só se tornara um verdadeiro romano ao fim
17
MOREDA, Santiago L. Op. Cit. 36p.
13
de sua peregrinação iniciática rumo ao Lácio. Entretanto, como a tradição poética do mito
argonáutico se encontrava bastante assentada, pelos muitos séculos de meticulosa e copiosa
transmissão da narrativa, restava ao poeta tardio latino pouca possibilidade de criação de novos
episódios ou de substancial alteração da tradição. Por esse motivo, os movimentos mais
importantes ocorridos no interior do poema não foram os de criação da narrativa, mas sim os
de aproximação e de afastamento dos modelos utilizados – principalmente as Argonautica
helenísticas, de Apolônio de Rodes, e a Eneida virgiliana. Os distanciamentos críticos
construídos por Valério Flaco, imediatamente percebidos por seu público familiarizado com as
versões do mito e com os textos canônicos manipulados pelo poeta, constituiriam, portanto,
um elemento fundamental para a própria formação da obra. Assim, ao alterar sutilmente os
eventos consagrados nos poemas de antanho, Valério Flaco pôde evidenciar o herói de seu
canto épico, representante supremo das virtudes de seu tempo.
4 – O Estudo
Este estudo das Argonautica tem por escopo demonstrar, no poema de Valério Flaco, a
edificação de um cânone épico das virtudes latinas do período flaviano, cânone este
evidenciado nas sutis e consistentes alterações dos modelos emulados pelo autor. Para tanto, a
viagem iniciática dos argonautas serviu como guia do trabalho, porquanto os jovens heróis
cumprissem sua formação valorosa no correr dos episódios. Segundo essa metodologia,
contudo, tornou-se imprescindível a preliminar determinação de duas grandes vertentes da
tradição literária, sem as quais os movimentos de distanciamento e de aproximação para com
os cânones não se desvelariam a transmissão poética do mito argonáutico e o devir do
conceito de herói épico, temas objeto dos dois primeiros capítulos da dissertação. A partir daí
14
tornou-se possível e viável a análise de cada um dos episódios da viagem da nau Argo, no
terceiro capítulo deste trabalho.
No entanto, para uma robusta categorização das qualidades épicas destacadas nos
episódios da viagem dos Argonautas, fez-se necessário também determinar o viés filosófico
norteador da obra, resultando daí a percepção da inconteste opção do poeta pela doutrina do
Pórtico. Todavia, embora conhecido o direcionamento filosófico do poema, foi ainda mister
buscar nos escritores relativamente coevos de Valério Flaco um rol de virtudes apto a
representar o pensamento estóico latino tardio, sendo a Carta XC a Lucílio, de Sêneca,
providencial para o feito. Desse modo, a partir do pensamento senequiano, foi finalmente
conseguida a determinação das quatro basilares virtudes práticas estóicas iustitia, fortitudo,
temperantia e prudentia a partir das quais o modelo pretendido pelo vate quindevenvir ganhou
completo sentido, revelando um modelo de herói omnicompetente
18
, portador supremo das
virtudes de seu tempo.
Finalmente, encontra-se no Apêndice deste trabalho uma proposta de tradução poética
dos quatro primeiros cantos das Argonautica, feita a partir do texto estabelecido por Ehlers, na
edição alemã da editora Teubner. Embora não constitua precípuo objeto deste estudo, sua
produção foi resultado das pesquisas efetuadas no seu curso. A opção pelo verso metrificado
deu-se no intuito de preservar o caráter grandioso e poético do canto épico, indissociável do
ritmo marcial e da cadência marcada encontrados no original. Por sua vez, a escolha do metro
dodecassílabo, em duas de suas modalidades formais (4x4x4, ou 6x6, com cesura), permitiu a
largueza do verso capaz de conter toda a brevitas flaquiana.
18
BOWRA, C. M., “Aeneas and the Stoic Ideal”. Greece & Rome, Vol. 3, No. 7, 1933, 13p.
15
CAPÍTULO I
Tempos e Heróis:
A evolução histórico-literária do modelo de herói épico
1 – Introdução: O Conceito de Herói
Apenas pelo Canto dos poetas os homens da antigüidade acreditavam adquirir a fama
imorredoura, tornando-se, então, os verdadeiros heróis, partícipes da própria deusa
Mnemosýne
19
. pela Palavra do aedo, pelo discurso ritmado proferido sob a inspiração das
Musas as filhas da Memória e do Poder Supremo de Zeus o homem ordinário poderia ser
guindado às altas honrarias da lembrança perpétua da humanidade. Somente no Canto haveria
Glória
20
. Tal era a sentença de Helena no Canto VI da Ilíada, ao justificar seus atos e desatinos
perante Heitor:
Ah! Cruel condição! De Jove opressos,
Fábula às gentes no porvir seremos.
Ilíada, VI, 318-319
21
.
Inseparável do herói era, pois, o poeta
22
, que além de ganhar a própria fama cantando
os feitos gloriosos, ainda propalava as façanhas e as altas realizações da linhagem daqueles que
merecessem o penhor de sua voz. Afinal, um feito sem canto era tão-só matéria para o
19
TORRANO, Jaa, “O (conceito de) Mito em Homero e Hesíodo”. Boletim do CPA, Campinas, nº 4, 1997. 27p.
20
BRANDÃO, Jacyntho L., “Primórdios do Épico”. In APPEL, Myrna B.; GOETTEMS. Míriam B. (edd). As
Formas do Épico. Editora Movimento. Porto Alegre. 1992. 40p.
21
HOMERO. Ilíada. Tradução de Manoel Odorico Mendes. São Paulo. Atena Editora. 1967. 130p.
22
LÉVÊQUE, Pierre. As Primeiras Civilizações: Volume III Os Indo-Europeus e os Semitas. Lisboa. Edições 70. 1990.
66p.
16
esquecimento
23
. Por isso, a compreensão de que o objetivo último das realizações heróicas
seria sempre a voz do aedo, veículo propiciatório da fama tanto na vida quando depois da
morte
24
.
Mas a voz do poeta, que enaltecia as virtudes do mortal e concedia-lhe a eternidade,
não era apenas uma voz singular; era antes a voz coletiva que sintetizava as aspirações de todo
um povo e de seu tempo, inspirando nos homens vigor nos contratempos e deleite nos
períodos de paz. Por isso, em contrapartida, o canto dos rapsodos era também fonte de
inspiração para aqueles que pretendessem alcançar a celebridade, tornando-se, portanto, o
modelo das virtudes e o direcionamento da percepção da realidade
25
. Essa era, em suma, a
função educacional (ou paidética) das obras épicas antigas, que tanto norteou a formação dos
homens da antigüidade.
2 – A Evolução Literária do Modelo de Herói
Considerados os fundadores da literatura ocidental, os dois grandes poemas épicos
atribuídos a Homero cantaram os feitos e as glórias de uma aristocracia guerreira arcaica, com
seus valores e suas virtudes marcadamente idealizados. Narraram-se ali alguns dos eventos
concernentes ao último ano da Guerra de Tróia na Ilíada e as peripécias de Ulisses em sua
viagem de regresso às suas terras e ao seu palácio – na Odisséia
26
. Tratou-se, de fato, da
esplendorosa recriação de um mundo inserido no passado heróico mítico da Idade do Bronze,
23
BRANDÃO, Jacyntho L. Op. Cit. 49p
24
WEST, M. L., “The rise of the greek epic”. Journal of Hellenic Studies, CVIII, 1988. 153p.
25
BRANDÃO, Jacyntho L. Op. Cit. 40p.
26
FERREIRA, José Ribeiro. Civilizações Clássicas I – Grécia. Universidade Aberta, Lisboa, 1996. 57p.
17
no qual os guerreiros seriam reis ou filhos de deuses
27
, superiores, por conseguinte, aos seres
do presente.
A origem desses dois poemas é cercada por incertezas. Os acirrados debates em torno
das indagações suscitadas pelos textos têm gerado, através dos séculos, a interminável e sempre
acalorada discussão conhecida como a Questão Homérica
28
. Perquirem-se, nesses estudos que
remontam à antigüidade alexandrina, não apenas a autoria das obras, mas também o método
utilizado para sua composição e a data de sua feitura, sem que nenhuma conclusão tenha,
todavia, conseguido afirmar-se. Entretanto, os estudiosos concordam com a possibilidade de
que ambas as epopéias tenham sido compostas oralmente, a partir de um amálgama de lendas
ancestrais, ainda no século VIII a.C., contemplando fatos e costumes de diversas épocas
anteriores
29
, em especial do período da civilização micênica, cujo declínio e fim datam dos
séculos XIII e XII, respectivamente.
Desse mundo épico arcaico construído em hexâmetros advêm os dois primeiros
modelos literários de herói épico. O primeiro desses modelos homéricos, o iliádico, concernia
ao paradigma guerreiro, norteador de uma verdadeira elite aristocrática, composta por homens
corajosos, superiores, belos e fortes; eram os agathoi, cujas atividades dignas de sua condição
seriam somente o mando, a guerra e a caça. Eram, como já dito, filhos de reis ou descendentes
dos deuses e, como tais, deveriam representar os expoentes das máximas virtudes do homem
livre e nobre, de tal sorte que suas ações se impregnassem sempre de profunda dignidade e de
imensa grandeza. O discurso de Sarpédon, em seu encontro com Glauco, demonstra a
dimensão aristocrática desses combatentes, realçando a importância das virtudes heróicas para
a manutenção do poder senhorial de cada um deles em sua terra:
27
ROMILLY, Jaqueline. Homero – Introdução aos Poemas Homéricos. Edições 70. Lisboa, 2001. 27p.
28
ROCHA PEREIRA, Maria Helena. Estudos de História da Cultura Clássica I Volume Cultura Grega. Fundação
Calouste Gulbenkian. Lisboa. 2006. 49p.
29
FERREIRA, José Ribeiro. Civilizações Clássicas I – Grécia. Universidade Aberta, Lisboa, 1996. 57p.
18
Ouve-me, Glauco: por que somos ambos honrados na Lícia
Com os primeiros lugares nas festas, assados e vinho
Sempre abundante, e os do povo nos vêem como a deuses eternos?
Deram-nos junto das margens do Xanto, também, um terreno,
próprio, igualmente, para uso do arado e cultivo de frutas.
Por isso nos cumpre ocupar na vanguarda dos Lícios
O posto de honra e estar sempre onde a luta exigir mais esforço,
Para que possa dizer qualquer Lício de forte armadura:
“Sem grandes títulos de honra não é que na Lícia governam
os nossos reis, e consomem vitelas vistosas, bebendo
vinho doce ao paladar. É bem grande o vigor que demonstram,
quando na frente dos nossos guerreiros o imigo acometem
Ilíada, XII, 310,321 – Tradução Carlos Alberto Nunes
30
.
A bravura, a coragem e a intrepidez caracterizavam essa nobreza arcaica iliádica. A
valentia e a busca incessante pela superioridade nos combates inspiravam sempre seus atos,
para que suas atitudes não envergonhassem jamais a linhagem de que descendiam e que lhes
fornecia a condição de aristocratas. O herói Glauco o disse, no célebre episódio do Canto VI,
quando se encontra com o indômito Diomedes:
Enquanto a mim, tenho orgulho de filho chamar-me de Hipóloco,
que me mandou para Tróia sagrada, insistindo comigo
para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-me,
sem desonrar a linhagem dos nossos, que sempre entre os fortes
de Éfire foram contados, bem como na Lícia vastíssima.
Ilíada, VI, 206-210 – Tradução Carlos Alberto Nunes
31
.
Mas as virtudes precisavam ser testadas e provadas a todo o momento, para garantia e
manutenção do estatuto heróico dos guerreiros. Era a vivência do espírito agônico, tão
característico dos heróis homéricos, como meio de busca do reconhecimento social e da glória
suprema. Apenas pelo enfrentamento adquiria-se a imorredoura honra; nos reptos
alcançava-se a timê
32
, ainda que à custa da própria vida, como na opção de Aquiles, que preferiu
a morte gloriosa à vida longa, posto que apagada. De tal modo era vital para o guerreiro a timê
que qualquer desmerecimento, qualquer jaça em sua honra ou sinal de desconsideração
30
HOMERO. Ilíada. Tradução Carlos Alberto Nunes. 3ª ed. Edições Melhoramentos. São Paulo, 1965.
31
Idem.
32
ROCHA PEREIRA, Maria Helena. Estudos de História da Cultura Clássica I Volume Cultura Grega. Fundação
Calouste Gulbenkian. Lisboa. 2006. 139p
19
bastavam para incitar-lhe as mais ferozes reações e despertar-lhe as mais funestas iras este
foi, no final das contas, o verdadeiro mote da Ilíada: a ira de Aquiles, provocada pela subtração
da cativa Briseida, e a diminuição de sua timê.
À guisa de informação, esses valores guerreiros iliádicos a nobreza, a bravura, a
beleza e o ímpeto tiveram sua importância testemunhada também em outros poemas
arcaicos. No canto elegíaco do espartano Tirteu, aparecem os mesmos aspectos de sua virtude
heróica:
Eu nem lembraria nem poria em verso um varão
nem pela excelência de seus pés nem pela da luta,
nem se ele tivesse a grandeza e a força dos Ciclopes,
e vencesse correndo o trácio Bóreas,
nem se em corpo fosse mais gracioso do que Titono,
e fosse mais rico do que Midas e Ciniras,
nem fosse mais régio do que Pélops filho de Tântalo,
e tivesse a linguagem de-voz-suave de Adrasto,
nem se tivesse toda a fama, exceto a impetuosa coragem;
pois o varão não se torna valente na guerra
se não ousar contemplar a matança sangrenta
e atacar os inimigos, postando-se de perto.
Esta a excelência, este o prêmio entre os homens o melhor
e o mais belo é para um jovem varão levar
Tirteu, 12W – tradução Teodoro Rennó.
Mas os heróis arcaicos deveriam ser, além de valentes e corajosos, seres cavalheirescos,
destros na música, na medicina e na equitação
33
; afinal eram, além de filhos de reis, os
presumíveis herdeiros dos refinamentos das velhas civilizações anteriores ao século X a.C.,
quando a Hélade foi lançada na Época Obscura. Distinguindo-se dos guerreiros bárbaros, os
nobres e aristocráticos combatentes homéricos teriam sido educados segundo paradigmas
rígidos, nos quais a polidez deveria prevalecer mesmo sobre a fúria dos combates note-se a
gentileza protocolar sempre presente nas altercações entre Telêmaco e os pretendentes de
Penélope, plenas de tensão e ódio transbordante; notem-se ainda os discursos que soem
33
MARROU, Henri-Irénée. História da Educação na Antigüidade. Editora Pedagógica e Universitária Ltda. EPU.
São Paulo. 5ª reimpressão. 1990. 21p.
20
anteceder os combates singulares nas aristéias dos guerreiros. Quíron, o sábio centauro
34
, e
Fênix, o venerável preceptor iliádico de Aquiles, são exemplos dos educadores desses heróis.
No entanto, não apenas a cortesia e as habilidades cavalheirescas deveriam parear com
a coragem e com o destemor no herói iliádico. Afinal, a capacidade de persuasão nas
assembléias fazia parte de sua aretê. Nas assembléias o guerreiro deveria impor-se tanto quanto
nos campos de batalha. Como o descreveu Fênix, na embaixada do Canto IX da Ilíada, sua
função como mentor de Aquiles tinha por intuito ensinar ao jovem não apenas as práticas
bélicas, mas também desenvolver suas habilidades intelectuais:
... Por Peleu fui mandado seguir-te, no dia,
Em que da Ftia te enviou para o filho de Atreu, Agamêmnone,
Ainda na infância, igualmente inexperto nas guerras penosas
E nos discursos das ágoras, onde os heróis se enaltecem.
Sua intenção foi que viesse contigo, porque te ensinasse
Como dizer bons discursos e grandes ações pôr em prática;
Ilíada, IX, 438,444 – Tradução Carlos Alberto Nunes
A excelência da palavra, cujo prêmio seria a supremacia nos debates realizados entre os
pares, era, portanto, outra parte da máxima virtude heróica guerreira. Os campos de combate
equiparavam-se às assembléias na concessão de glórias e de reconhecimento. Disse-o, mais
uma vez, Homero, quando do recolhimento inicial do amuado Aquiles, ofendido pela decisão
de Agamêmnon:
Junto da nave ligeira, entretanto, se achava agastado
O divo Aquiles, de céleres pés, de Peleu descendente,
Sem freqüentar a assembléia, onde os homens de glória se cobrem,
Nem tomar parte nas lutas. ...
Ilíada, I, 488, 491 – tradução Carlos Alberto Nunes
No entanto, embora tão superiores aos homens comuns, esses guerreiros eram, ainda
assim, meros mortais – e tinham a constante certeza de sua finitude, por meio da qual,
inclusive, se celebraria sua glória. A escatologia arcaica entendia que pela morte se extinguia o
34
“... que se diz teres tu aprendido de Aquiles,/ a quem ensinou Quíron, o mais justo dos Centauros”. Ilíada, XI,
832,833 – Tradução Carlos Alberto Nunes.
21
phrén
35
, e o que restava da vida dos heróis mortos era tão somente uma pífia sombra – a psyché
que passava a habitar o imaterial mundo subterrâneo do Hades. Essa nova existência era um
aniquilamento inexorável, como no lamento póstumo de Aquiles:
Ínclito Ulisses, retorquiu, da morte
Não me consoles; pago anteporia
Servir escassa última choupana
A defuntos reger. (...)
36
.
Odisséia. XI, 378 – 381 – Tradução Odorico Mendes.
Como único alívio à desesperança pela sobrevivência além-túmulo, restava ao guerreiro
ansiar pela perenidade da memória – que passou a ser a razão última de seus feitos. Acreditava-
se que apenas pela recordação dos atos honrosos, da bravura e da valentia se manteria acesa a
lembrança de um agathos nas mentes dos homens. Fez-se, por isso, imprescindível a busca pela
fama e pela celebridade, nascendo, por inevitável decorrência, o fundamentalmente helênico
espírito agônico.
Entretanto, a aretê arcaica não se restringia aos campos de batalha e às assembléias
deliberativas guerreiras. Dos cantos bélicos ocupou-se a Ilíada; mas outro perfil de herói, mais
alargado para abranger os tempos de paz, pode ser encontrado na Odisséia. Ulisses, que na
Ilíada era o capitão valente, prudente e avisado, denodado e forte, célebre pela sensatez e pela
capacidade de persuasão, adquiriu outras virtudes no canto de regresso a Ítaca: ganhou, pela
experiência, a astúcia e a capacidade de desvencilhar-se dos problemas
37
. Nesse novo modelo
heróico, valorizou-se, então, a capacidade de realização de grandes feitos, tal como Héracles
38
,
35
Ver ROCHA PEREIRA, Maria Helena. Estudos de História da Cultura Clássica I Volume – Cultura Grega. Fundação
Calouste Gulbenkian. Lisboa. 2006. 126p
36
HOMERO. Odisséia. Tradução de Manoel Odorico Mendes. São Paulo. Atena Editora. 1967. 160p.
37
FERREIRA, José Ribeiro. Civilizações Clássicas I – Grécia. Universidade Aberta, Lisboa, 1996. 66p.
38
Para a caracterização do cumprimento dos trabalhos como fonte da imortalidade de Héracles, ver Filoctetes de
Sófocles: “Em primeiro lugar, vou contar-te a minha sorte, os trabalhos que sofri e suportei antes de adquirir a
glória imortal que podeis contemplar. Também a ti, podes crer, te está destinada sorte igual: ter uma vida gloriosa,
depois dos sofrimentos de agora” . FERREIRA, José R. Sófocles Filoctetes. Coimbra, Universidade de Coimbra,
2005. 107p.
22
outro herói divinizado ao cumprir seus trabalhos
39
, com quem, inclusive, Ulisses foi
comparado pelo próprio Homero, quando do encontro dos dois no Hades:
Filho de Laertes, Criado por Zeus, Ulisses de mil ardis,
Ó desgraçado! Também tu arrastas um destino infeliz,
O mesmo que outrora eu agüentei sob os raios do sol?
Odisséia, XII, 617-619.
Tais são, pois, as virtudes do homem na paz, que pelo engenho e pela argúcia
ultrapassa as dificuldades, cumpre façanhas, vence as adversidades e afirma-se como senhor
supremo do âmbito familiar. São, enfim, as virtudes do homem livre, do nobre, do rei que
guarda seu povo e as honras de sua linhagem. Se os heróis iliádicos foram exemplo de como
gloriosamente morrer nos campos de batalha, por oposição, o herói odisséico fez-se, portanto,
um exemplo de como viver
40
.
Esses dois ingentes ideais de excelência nortearam a formação o dos cidadãos
gregos arcaicos, mas ainda do homem do período Clássico, levando mesmo Platão a considerar
Homero como o “educador de toda a Grécia
41
”. O mundo cavalheiresco e heróico descrito
pelo poeta de Quios tornou-se o fundamento vivo da cultura helênica
42
, e a poesia arcaica
possuiu a inegável função formadora do espírito cívico. Ao produzir nos jovens os anseios e os
desejos morais, o canto épico fornecia-lhes os padrões de virtude, os exemplos de glória, de
cavalheirismo e de nobreza, cuja função primordial era a de formação de cidadãos livres, aptos
a viverem na pólis, onde poderiam gozar plenamente de suas capacidades morais, espirituais e
intelectuais
43
.
39
FINKELBERG, Margalit, “Odysseus and the genus ‘Hero’”. Greece & Rome, vol. XLII, nr. 1, 1995.5p.
40
FINKELBERG, Margalit, Op. Cit. 10p.
41
PLATÃO, Hiparco, 228b.
42
JAEGER, Werner. Paidéia – A formação do homem grego. Editora Martins Fontes. São Paulo, 2001. 67p.
43
KITTO, H. D. F. Os Gregos. Editora Armênio Amado. Coimbra. 129p.
23
Nos finais do século V a.C., a estrutura política grega sofreu profundas modificações,
alterando as formas de pensamento, os conceitos e os padrões de virtude herdados da
sociedade arcaica. A Guerra do Peloponeso, travada entre a Simaquia de Delos capitaneada
por Atenas e a Liga do Peloponeso encabeçada por Esparta –, envolvera e assolara
praticamente todos os Estados da Hélade, lançando a região em um conflito atroz, marcado
pela selvageria, pela destruição e pela ruína das póleis. Atos de oportunismo, de ambição e de
vingança fizeram espraiar o sofrimento; as táticas de razia, de saques, pilhagens e devastações
disseminaram a miséria pelos campos; alastrava-se o profundo descontentamento das
populações. Nessa nova realidade, a situação beligerante, até então considerada o estado
normal de relação entre os Estados e a única ocupação digna de homens livres
44
, precisou
alterar-se, em conseqüência do cansaço e do desgaste provocado pelos combates e pelas
misérias. Ao contrário, impunha-se a idéia de uma paz que se estendesse por toda a Hélade – a
Paz Geral, ou Koinê eiréne –, ainda que alicerçada em um autocrático regime monárquico, não
obstante a ancestral indignação desses povos perante o poder real. Findavam-se as póleis e o
modelo arcaico da homérica aretê guerreira.
Na nova estrutura político-social então formada pela aproximação de tantas raças
diferentes e muitas vezes historicamente antagônicas, iniciou-se um processo de fusão cultural.
A intenção de Alexandre, unificador dos povos com suas conquistas, era a de harmonizar
bárbaros e helenos, na edificação de um mundo pacificado e sem fronteiras. Para tanto,
incentivaram-se as emigrações gregas e macedônicas, que tiveram por conseqüência a difusão
da cultura desses povos, em um processo que se tornou conhecido por Helenização. Essa
universalização cultural, oriunda dos fluxos migratórios, dos casamentos entre povos de
diversas etinias e do convívio diário em cidades recém fundadas levou à convivência de cultos
44
FERREIRA, José Ribeiro. Civilizações Clássicas I – Grécia. Universidade Aberta, Lisboa, 1996. 199p.
24
e de costumes, favorecendo a criação de novas divindades comuns, de novos valores e,
obviamente, de uma nova mentalidade cosmopolita
45
.
A prematura morte de Alexandre Magno, em 323 a.C., pôs, contudo, fim ao vasto
império macedônico. A obra guerreira realizada pelo jovem iliádico conquistador esfacelou-se e
seus generais os Diádocos disputaram-lhe o legado. A Lisímaco coube o governo das
províncias européias e de parte da Ásia Menor; a Seleuco, das demais regiões asiáticas, antes
pertencentes ao antigo império assírio-babilônico, acrescido da Síria; coube ainda a Ptolomeu o
controle do Egito, a Líbia, Chipre e de grande parte do mar. Era o início dos reinos
helenísticos.
Desses novos reinos, o de maior influência e poder foi, sem dúvida, o do Egito. A
política de fortalecimento empreendida por Ptolomeu o livrou das disputas que rapidamente
consumiram e fragmentaram o poder dos outros Diádocos. Sua política assentava-se sobre
uma forte afirmação da autoridade governamental e do controle burocrático, já conhecidos dos
egípcios desde os primeiros faraós, aliada a uma vantajosa simbiose entre as elites locais e o
novo governante
46
. Em um processo de hábil coexistência político-cultural, o general
macedônico assumiu as funções e as honrarias dos antigos faraós, angariando, para tanto, a
colaboração das classes sacerdotais que, em compensação, mantiveram prestígio e poder.
Iniciava-se a dinastia dos Lágidas, que, da capital Alexandria, se manteria na regência do Egito
até a conquista final romana, em 30 a.C.
As riquezas naturais egípcias e a consolidação do poder ptolomaico permitiram que
Alexandria rapidamente prosperasse. Os novos faraós decidiram ali construir para si um
verdadeiro centro cultural, sob feições gregas. Imensas fortunas foram gastas na construção de
45
FERREIRA, José Ribeiro. Civilizações Clássicas I – Grécia. Universidade Aberta, Lisboa, 1996. 209-216p.
46
SALES, J. C. Ideologia e Propaganda Real no Egito Ptolomaico (305-30 a.C). Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa,
2005. 29p.
25
edifícios, no estabelecimento de cultos religiosos e de festivais, bem como no apoio a quase
todas as formas de atividades intelectuais e culturais, desde a investigação erudita e científica
até a produção artística
47
. Em conseqüência, dirigiram-se para Alexandria, nas décadas
seguintes, grande número de intelectuais, escritores, cientistas e artistas do mundo antigo.
Procuravam pelo Museu, o mais importante dos pólos culturais de Alexandria, cuja construção
teve início sob o governo do primeiro Ptolomeu, o Sóter
48
. Tratava-se de um grande santuário
dedicado às Musas, dotado de ricas salas de leituras, da esplendorosa Biblioteca, de jardins
botânicos e de laboratórios. Em suas dependências havia dormitórios, refeitórios, claustros
com abrigo para o descanso e a contemplação, assim como espaços para leituras de poetas e de
historiadores. Além disso, o local supria todas as necessidades dos estudiosos e pesquisadores,
liberando-os de impostos e de afazeres desvinculados da produção cultural
49
. O Museu era,
enfim, uma verdadeira academia, situada no recinto real, dedicada à obra criativa e educacional,
em cuja Biblioteca acumulou-se a maior coleção de livros da antigüidade. E sua importância
política era de tal monta que o Bibliotecário tinha por função não cuidar dos escritores e
dos poetas que viviam sob o patronato real da cidade, mas ainda ser o tutor e o educador dos
príncipes ptolomaicos
50
.
Vivia-se em luxo e fausto. A privilegiada localização geográfica de Alexandria, sua
abastança e seu poderio naval permitiram-lhe o acesso ao que havia de mais precioso, de raro
ou exótico à volta da foz do Nilo. Além disso, o ancestral protocolo real impunha-se em
cerimoniais e solenidades, o que fazia aumentar a majestade da corte. Nesse ambiente cortesão
47
EASTERLING, P. E. e KNOX, B. M. W. Historia de la Literatura Clásica (Cambridge University) I Literatura
Griega. Editorial Gredos. Madrid. 1989. 587p.
48
OLIVA NETO, João Angelo. O Livro de Catulo. São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo. 1996.
24p.
49
VRETTOS, Theodore. Alexandria – A Cidade do Pensamento Ocidental. Editora Odysseus. São Paulo. 2005. 59p.
50
EASTERLING, P. E. e KNOX, B. M. W. Historia de la Literatura Clásica (Cambridge University) I Literatura
Griega. Editorial Gredos. Madrid. 1989. 589p
26
de incentivo à cultura e às artes, formou-se, então, rapidamente uma nova estética poética. A
erudição tornou-se um valor social e o preciosismo passou a nortear a produção literária, de tal
maneira que a poesia se fez, em sua maioria, artificial e seletiva, como mera exibição de
curiosidades e de artifícios estilísticos. Afinal, o público a que se destinavam os escritos
produzidos no Museu era a própria corte ptolomaica a seleta e culta grei dos freqüentadores
dos salões de leitura, apreciadora das raridades e ansiosa por elementos sensacionais, pelo
rebuscamento das formas, pelo exotismo das imagens, pelos enredos sentimentais e
psicológicos e, sobretudo, pelas exibições intelectuais.
Desse período, uma única obra épica – as Argonautica, de Apolônio de Rodes
conservou-se inteira. Embora as epopéias tenham sido bastante populares naqueles dias
helenísticos, praticamente tudo o que foi composto nesse gênero perdeu-se. Porém, talvez
pelas destacadas funções exercidas pelo autor, a saga dos Argonautas conseguiu vencer os
séculos; afinal, Apolônio de Rodes foi um dos bibliotecários e tutor de Ptolomeu III, o
Evérgetes
51
.
Esse poema, dividido em quatro cantos, conservou as principais características de seu
tempo. De imediato percebe-se que o caráter coletivo da expedição substituiu o antigo modelo
guerreiro arcaico heróico, embora individualista inadequado ao cosmopolitismo
helenístico. Essa opção pelo herói coletivo, ou melhor, pelo coletivo de heróis que nomeia seu
líder e com ele compartilha suas glórias e virtudes, está presente no exórdio do canto de
Apolônio, em um primeiro e claro distanciamento da obra homérica:
Com teus auspícios, cantarei, ó Phebo,
Os antigos Heroes, que aventurosos
Por Pelias demandando o velo d’ouro,
Do ponto pela foz, e Cyaneas rochas
51
idem, 632p.
27
Argo, náo bem travada, pilotaram
52
.
Argonautas, 1p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
Por sua vez, a imensa preocupação com a erudição encontrou na saga dos
marinheiros desbravadores do Ponto Euxino um veículo apropriado para a exposição dos
elementos geográficos, etnográficos, antropológicos, culturais e históricos, conformes ao gosto
alexandrino. Finalmente, com a valorização cortesã dos elementos eróticos da galanteria, o
envolvimento amoroso entre Jasão e Medéia achou campo fértil entre os leitores. Era, enfim, o
estabelecimento de um novo cânone de virtudes, embora se mantivesse em estreito
cumprimento à função normalmente paidética dos cantos épicos.
Jasão foi o principal herói de Apolônio substancialmente diferente de seus
antepassados literários homéricos. Embora de origem aristocrática, faltam-lhe os atributos de
valentia, de coragem exacerbada, de sagacidade e de anseio por glórias, tão presentes nos
heróis arcaicos. Basta lembrar que a motivação da expedição nada tem de heróico, mas, pelo
contrário, trata-se de uma vergonhosa imposição do rei Pélias feita ao amedrontado e
inexperto jovem:
Tinha Pélias de Oráculos sabido
Impendente ruína; porque a morte
Tinham de os artifícios machinar-lhe
De varão, que entre as turbas deparasse
Com só calçado um pé! em breves tempos
Jason, passando a váo o hyberno Anauro,
Atascado no lodo um chapim deixa,
Trazendo outro na planta; e deste modo
Foi na presença apparecer de Pelias
Onde sacro banquete dedicava
A Netuno, seu Pae, e aos outros Deoses,
Sem recordar-se da Pelasga Juno.
Pelias, que o conheceu, pensa, e lhe incumbe
Navegação funesta, em que pereça
Sepultado nas ondas, ou , voltando,
Entre estranhas nações!(...)
Argonautas, 2p – Tradução José Maria da Costa e Silva .
52
RHODIO, Apollonio. Os Argonautas. Tradução José Maria da Costa e Silva. Lisboa. Imprensa Nacional. 1852.
1p.
28
Do mesmo modo, a proteção divina prestada a Jasão o se vinculava ao
reconhecimento de suas virtudes guerreiras ou animosas. Diferentemente do que ocorrera na
Odisséia, em que Atena protegeu Ulisses em razão de suas qualidades intelectuais, o apoio dado
por Hera ao navegante teria tido por origem um ato de cortesia deste. A própria deusa relatou
a Atena seus motivos:
Mas por outras razões Jason me é caro,
Caro de muito tempo; pretendendo
Ter da humana equidade experiência,
Junto da foz do caudaloso Anauro
Topei com elle que da caça vinha.
Alvejavam co’a neve os montes todos,
E os alcantis altíssimos, e delles
Reboando as torrentes se arrojavam,
De mim que senil fórma revestira.
Compaixão elle teve, ergue-me aos hombros,
E além me poz no impetuoso Rio,
Por isso muito, e sempre eu hei de honra-lo.
Argonautas, 125p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
De fato, nem as habilidades bélicas nem as ingentes façanhas eram da preferência de
Jasão. Tanto que ao lhe serem impostas as provas para a obtenção do Velocino de Ouro (a
doma dos touros flamívomos, a semeadura das messes com os dentes do dragão de Cadmo e a
luta contra os Homens da Terra), ele fraquejou:
Mudo Jason se conservou sentado,
Qual si a língua não tenha, que o perigo
Perplexo o torna. Aqui, e alli conselho
Busca, nem prometer ousa animoso,
Que árdua e fragosa essa façanha julga.
Argonautas, 137p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
Entretanto, uma solução apresentava-se: buscar refúgio nos poderes mágicos da jovem
princesa Medéia. Jasão, de imediato, anuiu com a proposta que aos olhos dos varões
homéricos seria totalmente desonrosa. Um eco dos conceitos arcaicos ouviu-se na voz do
aguerrido Idas, que em altas vozes clamou agastado contra a opção de seu comandante:
29
Que! Vim aqui acompanhar Mulheres,
Que a Vênus pedem que nos preste auxilio!
Já a força de Marte não se invoca?
As pombas, e os Açores observando
Vos negaes a pugnar! Ide em má hora,
Não mais trateis de bellicas emprezas,
E imbelles Virgens enganae com rogos.
Argonautas, 142p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
O contraste entre Jasão e racles estabelecido nas Argonautica helenísticas reforça o
abandono dos modelos arcaicos de aretê. Na obra de Apolônio, Héracles representava os
antigos padrões de virtudes, para a qual o esforço tenaz ou o ímpeto bélico norteariam as ações
e escolhas do herói. No Catálogo dos Navegantes, disse o poeta alexandrino acerca de sua
chegada à tripulação:
... Nem despresara
Altivo, e generoso unir-se Alcides
A Jason, que por Sócio o cobiçára,
Mas por Argos passando, ao vir d’Arcádia,
(Argos onde Linceu reinára outr’ora)
Na jornada, em que vivo conduzia
O Javali medonho, que pastava
Nos paúis do Erimantho, e Lampios bosques,
Ouvido, que Heroes tantos se ajuntaram,
Logo à entrada da praça de Mycenas
Solta dos ombros o amarrado bruto,
De ir lá, inscio Eristheo, cede ao desejo.
Argonautas, 5p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
Rapidamente torna-se claro que o antiquado Tiríntio não mais representava as virtudes
de excelência. Tanto que nem aceitou chefiar a expedição – nem sequer completou sua
jornada. Quando os nautas se reuniram para a escolha do seu capitão, e os heróis o aclamaram
em razão de sua notória força, de seu ânimo ardente e de sua provada bravura, ele próprio
recusou a distinção:
Já com clamor unânime o proclamam.
Mas o Heroe, d’onde jaz, alçando a dextra:
‘Tal honra (diz) ninguém queira outorgar-me,
Pois não a aceito, nem consinto em outro.
O que nos convocou, esse nos rêja.
Argonautas, 12p Tradução José Maria da Costa e Silva.
30
Essa inadequação para os feitos argonáuticos e ptolomaicos fez racles ser
abandonado pelos companheiros na ilha de Mísia, em um inexplicável esquecimento de toda a
tripulação, que apenas se apercebeu da ausência do enorme herói quando a nau singrava o
mar profundo. Tendo partido o remo no áspero mar, Héracles e seu companheiro Hilas
haviam desembarcado em busca de um tronco que substituísse o instrumento quebrado.
Contudo, enquanto Héracles arrancava do solo um gigantesco abeto enraizado, o jovem Hilas
era raptado por uma ninfa, que o levou consigo ao mergulhá-lo em sua fonte. Ao saber de seu
amor defraudado pelo rapto de seu jovem companheiro, despertou-se no herói Tiríntio ira tão
terrível, tão violenta e insana que seus sentidos se turbaram e sua razão se perdeu:
... Largo suor do Heroe, que o ouve,
Goteja a fonte em bagas; todo o sangue
Nas entranhas lhe ferve, e se ennegrece.
Furibundo arremeça ao chão o abeto;
Por onde os pés apressurado o levam
Correndo enfia; de igual modo o Touro
Pungido do Tavão corre impetuoso,
Prados, sítios palustres abandona,
Guardas não cura, não lhe importa armento,
Vae seu caminho, e irrequieto agora,
Parado logo; a cerviz larga entona,
E ao picar do Tavão muge raivoso,
Assim furiando o Heroe, ora sem pausa
Move correndo os rápidos joelhos,
Ora cessando de fadiga, solta
Co’a rija voz clamor longi-rembombo.
Argonautas, 42p Tradução José Maria da Costa e Silva.
Embrenhando-se na selva, Héracles se desgarrava de seus companheiros. Em sua
procura insana pelo pequeno amado, o herói de feição homérica derrubava matas e espantava
as feras. Sua desmedida o arredava do convívio de seus pares. Era, entretanto, a
consubstanciação do abandono do modelo de pederastia e de misoginia arcaicos
53
, como uma
preparação para surgimento do novo padrão de excelência, o de Jasão. Afinal, na Alexandria
53
BEYE, Charles R. Ancient Epic Poetry. 1. ed. United States of America: Cornell University Press, 1993. 200p.
31
do século III a.C. houve uma certa valorização feminina, de tal sorte que mulheres como as
muitas Berenices e Cleópatras puderam participar, com alguma liberdade, da cultura e da vida
pública
54
. A figura de Héracles tornava-se, pois, um anacronismo, cujos propósitos na trama
serviriam de realce para a nova definição de virtude alexandrina.
Nesse sentido, foi Jasão quem exceliu. Se o amor pederástico de Héracles o
desembarcara da nau Argos, seria o amor heterossexual de Jasão que lhe propiciaria suas duas
aristéias uma com Hipsípila e outra com Medéia. Com Hipsípila ocorreu sua iniciação
sexual
55
, de tal sorte que a primeira parte da expedição – a viagem em si – evidenciava-se como
um prelúdio, ou um exercício, para a aristéia principal, que se daria com a princesa da Cólquida
na conquista do Velocino de Ouro. A acérrima reprimenda dirigida por Héracles ao seu
capitão que, com quase todos os seus companheiros, tardava nos leitos da ilha de Lemnos, a
coabitar com as mulheres desprovidas de homens pode ser interpretada como uma irônica
afirmação da virtude erótica do herói:
Sangue civil da pátria vos desterra,
Guapos Heroes, ou procuráveis bodas,
Aqui por desamôr das patrias Damas?
Praz-vos morar aqui, e os pingues campos
Agricultar de Lemnos? certo gloria
Não será para nós aqui vivermos
Com estranhas Mulheres encerrados.
Nem dos Numes algum por proprio impulso
Irá roubar o Velocino de ouro
Para entrega-lo a nós! Aos patrios Lares
Volte cada um de vós, e ele cá fique
Tanto tempo de Hypsipyle no thóro,
Que de prole viril Lemnos povoe,
Do que deve provir-lhe eterna fama.
Argonautas, 29p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
E mais. Se com Hipsípila a prática da sedução e o intercurso sexual foram um exercício
iniciático do herói, com Medéia, por sua vez, as habilidades sensuais de Jasão assumiriam
proporções fundamentais para o sucesso da empresa. Apenas por meio do enamoramento da
54
BEYE, Charles R. Op. Cit. 202p.
55
Idem.
32
jovem princesa o argonauta poderia alcançar seus intentos. Apenas pelo poder de Afrodite a
grande empresa realizar-se-ia. Desse modo o aconselhara Argos, o neto do rei Eetes pai de
Medéia e detentor do Velo – que auxiliava os moços tessálicos:
... Eu julgo, amigos,
Ser o combate o ultimo recurso,
Mas tenho que proficuo póde ser-vos
De minha Mãe o auxilio! A bordo um pouco
Inda vos conservae; porque mais vale
Conter-vos, que buscar com sôlta audácia
Mísera perdição! De Eeta em casa
Virgem há, que com Hecate divina
Tem aprendido a preparar solerte
Quantos produzem mágicos venenos
A fértil terra, os espaçosos mares (...)
... Quando aqui voltamos
Do Palácio, viemos particando
Se dela a irmã, que é minha Mãe, podéra
A ajudar-nos na empreza, persuadi-la.
Si isto vos aprouvesse, marcharia
Ao Alcaçar de Eeta, inda hoje mesmo,
Este meio a tentar, talvez com fruto.
Argonautas, 141p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
No entanto, os heróis não sabiam que o favor dos deuses fora pronunciado. O
enamoramento de Medéia por Jasão havia sido planejado por Hera, Atena e Afrodite, de tal
sorte que Eros flechara a princesa ainda antes da imposição das tarefas por Eetes. Em um
passo do poema, que tanto mais se afasta do canto épico quanto mais se aproxima da
epigramística alexandrina, narrou o poeta sobre o Amor-menino:
Então os ares líquidos cortando
Vem Cupido não visto; tal aos Gados
Vae assanhado o pungidor Moscardo
Que os Pastores de Bois – Tavão – nomeiam.
Do Átrio pára na entrada armando o arco;
Novo, acerbo farpão extrahe da aljava,
Com o ligeiro pé transpõe não visto
O Lumiar derramando em roda os olhos.
Apóz Jason desvulta-se; no meio
Do nervo imbele do farpão o encaixe,
Com as mãos ambas forcejando o pucha,
E Medea varou! Súbito assombro
O animo da Donzella enleia; o Nume
D’alli se ausenta, altas risadas dando.
Entanto a setta similhante ao fogo
No coração arde da Virgem; ella
Está fronteira de Jason, e vibra
33
Sempre sobre ele a fulgurante vista,
No lasso peito arquejam-lhe as entranhas
Co’anhelito freqüente; nem lembrança
De outra cousa conservara, e se dissera
O animo seu n’aquella dor tão doce.
Argonautas, 133p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
A flecha de Eros, latinizado na tradução oitocentista portuguesa, evidenciava, mais uma
vez, o gosto e a virtude do tempo. Introduzida como topos da literatura pelo poeta Asclepíades
56
(320-280 a.C) – cuja fama também fora alcançada nas dependências do Museu como mestre de
Calímaco e de Teócrito
57
a arma erótica evidenciava a afabilidade do homem do século III
em relação ao mundo dos prazeres da bebida e do sexo:
Bebe, Asclepíades. Porque choras? O que tens?
Tu não és o único a quem a dura Cípris enredou
Nem foi apenas contra ti que o cruel Eros afiou
As suas flechas envenenadas. Por que é que, estando vivo, te deitas no pó?
Bebamos o vinho puro de Baco. O dia tem apenas um dedo.
Vamos esperar pela lâmpada acesa ao deitar?
Bebamos, não percamos tempo. A vida é curta,
Infeliz, e temos uma longa noite para dormir”
58
.
ASCLEPÍADES, 50 – Tradução Albano Martins.
Vê-se claramente que o herói das Argonautica rodianas se distanciava do modelo bélico
homérico, assumindo uma feição muito mais adequada ao elegante e refinado mundo
helenístico. No canto de Apolônio ele perdia os estatutos homéricos de guerreiro ou de
esforçado, mas ganhava o de cortesão, com suas técnicas de sedução, sua polidez e seus
encantos sensuais. Afinal, na sofisticada e mundana sociedade ptolomaica, a galanteria
revelava-se uma virtude imprescindível
59
, e as habilidades castrenses reservavam-se não mais
para os nobres, mas para os mercenários. O guerreiro aristocrático, duro e irascível, belicoso
ou esforçado, cedia, assim, lugar ao nobre culto e erudito, sensível e amoroso, apto a louvar e a
56
PAES, José Paulo. Poemas da Antologia Grega ou Palatina. Companhia das Letras. São Paulo. 1995. 121p.
57
MARTINS, Albano. Do Mundo Grego Outro Sol Antologia Palatina e Antologia de Planudes. Edições ASA. Porto.
2001.120p.
58
MARTINS, Albano. Op. Cit. 90p.
59
PICHON, René. Histoire de la Littérature Latine. Livrairie Hachette. Paris. 1967. 283p.
34
viver os prazeres da carne, contaminado pelo luxo e alonjado do dos campos de batalha. A
lisonja era seu gume; o galanteio, seu escudo. Na corte ptolomaica, o guerreiro iliádico e o
forcejador varão odissíaco transmutaram-se no erótico argonauta.
Esse novo herói ainda envergava, contudo, uma última e mais importante característica,
que de fato revelava a excelência política do novo modelo de príncipe alexandrino. Se virtudes
mundanas daquele herói o habilitavam para os protocolos internos da Corte Ptolomaica, era
necessário também que ele demonstrasse valor nas relações internacionais, que o homem
alexandrino era, acima de tudo, um homem cosmopolita por isso, certamente, o critério
utilizado na escolha do capitão da empresa. Di-lo Jasão, ao convocar seus companheiros:
Nada nos falta do que as Náos carecem.
Pois tudo para a viagem prompto existe.
Nem por isso o partir demoraremos,
Basta só que propicio sopre o vento.
Juntos à Grécia voltaremos, juntos
De Eeta o reino demandar nós vamos.
Cumpre, pois, que de nós o mais prestante
Se escolha sem paixão, que seja o Chefe,
Que tudo tenha a cargo, ou com estranhos
De pugnar se haja, ou de fazer alianças.
Argonautas, 12p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
A eleição do comandante designou o Melhor dos Argonautas Jasão. Apenas ele
possuiria essa última e fundamental qualidade: ser diplomático. Afinal, como traço
imprescindível ao homem alexandrino, mesmo superior à destreza bélica e à capacidade de
realização de grandes feitos, afirmava-se a capacidade de fazer alianças e de celebrar tratados,
em óbvia adequação à realidade de convívio dos reinos helenísticos.
No período em que Alexandria conhecia seu apogeu, sob o governo helenista dos reis
Lágidas, o vigoroso processo de expansão político-geográfico de outra grande nação antiga
tinha início erguia-se Roma. Tendo sua origem localizada próxima aos confins do mundo
35
helênico, por volta dos anos 775-750 a.C., Roma jamais esteve imune às influências gregas:
recebeu-as por meio dos seus antepassados etruscos e através da região da Campânia, cujo
esplendor, desde o século VI a.C., sensibilizava os habitantes do país latino. Os contatos
diretos, intensificados nos séculos V e IV a.C., influenciaram marcadamente sua vida religiosa,
sua arte e sua arquitetura
60
. Então, quando da dilatação das fronteiras romanas, a partir da
vitória sobre Pirro e dos sucessos contra Cartago, o encampamento da Campânia fez acentuar-
se a presença helênica no Lácio, de tal sorte que algum tempo depois, com a conquista da
Magna Grécia (Tarento, em 272, e a Sicília, entre 241-212), com as guerras contra os reinos
helenísticos do Oriente e com a anexação da Macedônia (168), da própria Grécia (146), e enfim
– e, sobretudo – do rico reino de Pérgamo, já Roma mereceu os versos de Horácio:
Graecia capta ferum uictorem cepit et artes
intulit agresti Latio.
Epistulae II, 156/157
A Grécia conquistada tomou seu bruto vencedor e trouxe as artes ao Lacio agreste.
Foi sob o influxo dessas influências helenísticas que também a literatura latina surgiu,
mais concretamente na primeira metade do século III a.C., quando Lívio Andronico, um
escravo grego capturado nas guerras tarentinas, traduziu para a língua latina, pela primeira vez,
a Odisséia. Tratava-se como, no mais, será a regular forma de apropriação romana do legado
helenístico antes de uma “tradução-artística” que da mera imitação do modelo homérico,
porquanto re-adaptasse conscientemente o original à realidade latina, em uma recriação
emulada
61
.
60
MARROU, Henri-Irénée. História da Educação na Antigüidade. Editora Pedagógica e Universitária Ltda. EPU.
São Paulo. 5ª reimpressão. 1990. 376p.
61
“Não é por acaso que Lívio Andronico e Névio o oriundos das duas regiões mais intensamente helenizadas
da Itália. A literatura romana nasce da imitação da literatura grega, uma imitaçao que, desde seu início, não está
porém imbuída de passividade. Trata-se antes de uma ‘traduçao artística’, que, em grau mais ou menos profundo,
chega mesmo a readaptar o original e a conceber conscientemente sua re-criaçao”. CITRONI, M.,
CONSOLINO, F. E., LABATE, M., NARDUCCI, E. Literatura de Roma Antiga. Lisboa. Fundação Calouste
Gulbenkian. 2006. 63p.
36
A Odvsia, título que recebeu a obra épica de Andronico, foi utilizada tanto como deleite
do público, com as viagens maravilhosas do aventureiro Ulisses, como para apoio escolar da
juventude romana, desprovida de textos literários em seu idioma. Adaptada aos interesses
latinos, essa obra composta em versos satúrnios representava os esforços do autor em verter a
temática original à feição inteiramente latina. O verso exordial (virum mihi, Camena, insece
versutum) anunciava essa tentativa de adequação, uma vez que fazia, ostensivamente,
substituir a tradicional Musa grega por sua correspondente Camena, divindade latina por
excelência.
A sociedade romana, tão afeita aos modelos culturais gregos, considerou, no entanto,
essas funções de lazer e de mero apoio escolar da Odvsia simples e redutoras. O gênero
permitia, decerto, maiores vôos, como, afinal, ocorrera em seus primórdios helênicos. Por isso,
a obra épica de Névio, o primeiro sucessor cronológico de Andronico, teve uma feição
patriótica clara ao buscar por tema de seu canto a luta de Roma contra Cartago. A recente
vitória de Roma na I Guerra Púnica (264 a 241 a.C.) estava presente no imaginário latino como
um dos momentos de maior esplendor da força daquele povo. Além disso, o Bellum Poenicum,
título da obra de Névio, apresentava uma importante inovação, pois fazia remontar as origens
de Roma ao passado mítico helênico. Foi na obra de Névio que se encontrou, pela primeira
vez, a notícia de que Enéias, fugido de Tróia, chegara ao Lácio para fundar uma nova nação.
Outrossim, Névio conseguiu, em sua reformulação do mito referente à partida de Enéias de
Ílion, fornecer uma justificativa divina para o conflito contra Cartago, anunciando os
desgraçados amores de Dido
62
.
Pelas sendas de Névio seguiu então Ênio, que alguns anos mais tarde, logo após a II
Guerra Púnica, retomou o gênero épico para narrar a história de Roma, desta vez em sua
62
CARLO, A. M. Historia de la Literatura Latina. México. Editora Fundo de Cultura Económica. 4ª ed. 1995. 31p.
37
pretensa inteireza. Composto em dezoito livros, o extenso poema Annales, do qual ainda
restam cerca de seiscentos versos hexâmetros (outra inovação, que até então eram utilizados
apenas os duros e ríspidos versos satúrnios), ampliou a intenção do autor do Bellum Poenicum ao
reportar não só à lenda da chegada de Enéias ao Lácio, mas incluindo a narrativa acerca da
fundação da Urbe, das lutas entre os gêmeos Rômulo e Remo, o período dos reis, as lutas
contra Pirro, as guerras Púnicas e as principais etapas da expansão romana no Mediterrâneo
63
.
A feição patriótica da obra era inegável, tendo em vista que no processo de idealização da
nação perpetrado pelo poeta foram silenciados, ou minimizados, todos os insucessos e
derrotas de Roma. Pelo contrário, os acontecimentos exemplares e os homens virtuosos foram
realçados, em uma reconstituição histórica que tinha por intento afirmar-se como expressão
unânime da coletividade. Havia, portanto, outra grande inovação do poeta – o estatuto de seus
heróis. A sobrepor as gestas heróicas de figuras individuais da aristocracia romana, existia nos
Annales uma inconteste celebração de todo o povo, com seu decorum e sua civilização
64
. Por
isso, com as virtudes guerreiras, foram enaltecidos também os costumes antigos e os valores
pacíficos, como a moderação e a prudência. Veja-se a contraposição por ele feita entre a
violência da guerra e as artes:
Do meio se expulsa a sabedoria, actua-se pela força,
Despreza-se o bom orador, preza-se o hórrido soldado.
Combatendo com palavras indoutas e malévolas,
Entre si se misturam, levantando animosidades:
Não desafiam segundo o direito, mas antes pelo ferro
Exigem os bens, reclamando o reino, vão com forte violência
65
.
Anais, VII. 156-161 – tradução Maria Helena da Rocha Pereira.
63
CITRONI, M., CONSOLINO, F. E., LABATE, M., NARDUCCI, E. Literatura de Roma Antiga. Lisboa.
Fundação Calouste Gulbenkian. 2006. 152p.
64
idem, 157p.
65
ROCHA PEREIRA, Maria Helena. Estudos de História da Cultura Clássica: II Volume Cultura Romana. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian. 2002. 69p.
38
A morte, porém, ao que parece, interrompeu os trabalhos de Ênio, que deixou
inacabados seus Annales. No entanto, o cariz patriótico do canto épico já se encontrava
sedimentado na literatura latina, tanto que, no final da República, quando da vitória de Otávio
sobre as tropas de Marco Antônio, a feitura de uma nova epopéia teve início a Eneida, de
Virgílio. Um dístico de Propércio deu conta da nova empresa em letras romanas:
cedite Romani scriptorcs, cedite Grai!
nescio quid maius nascitur Iliade.
Escritores romanos, cedei, cedei, gregos!
Pois nasce um não-sei-quê maior que a Ilíada.
Elegias, II.34,65-66 – Tradução Guilherme Gontijo.
A conjuntura política, porém, era indissociável da composição do maior poema da
latinidade. A derrota dos exércitos coligados de Marco Antônio e de Cleópatra, na batalha
naval de Ácio, em 2 de setembro de 31 a.C., possibilitara a Otaviano, sobrinho e herdeiro
adotivo de Júlio César, iniciar o processo de absorção e de reunião, na sua pessoa, de todas as
funções decisórias e deliberativas do Estado
66
. Uma série de concessões de honrarias e de
magistraturas, efetuadas pelo próprio Senado ou usurpadas por seu prestígio pessoal,
investiram-no, paulatinamente, dos poderes mais altos acumulados por um único cidadão:
além da imensa ascendência (auctoritas) que lhe advinha do legado simbólico recebido com o
parentesco de César, somavam-se – ou melhor, potencializavam-se – o mando supremo militar
(imperator), a primazia no Senado (princeps), a dignidade religiosa (pontifex), e o poder tribunício;
poderes esses que se combinaram com a sua extraordinária fortuna pessoal e com o favor da
plebe, mantido e reforçado com o oferecimento de jogos e de liberalidades
67
, para elevarem-no
à condição de comandante único e máximo de um novo regime – o Império Romano.
66
LIMA, Oliveira. História da Civilização Traços Geraes. Companhia Melhoramentos de São Paulo. o Paulo.
1922. 183p.
67
CITRONI, M., CONSOLINO, F. E., LABATE, M., NARDUCCI, E. Literatura de Roma Antiga. Lisboa.
Fundação Calouste Gulbenkian. 2006. 435p.
39
No novo regime, por óbvio, uma nova ordem institucional instaurou-se. A elevação de
Augusto à dignidade de Imperador pôs fim a uma série de longos anos de lutas internas e de
disputas civis, que comprometiam a segurança e a paz nos domínios romanos. Ademais, os
últimos decênios da República haviam sido marcados por graves crises políticas, morais e
religiosas, cuja mensagem de Augusto asseverava terem se encerrado com a sua chegada ao
poder. Em contrapartida, ressurgia, com a elevação do Princeps, um profundo sentido de
orgulho da identidade nacional; afinal, o novo regime nascia como um regresso ao passado, às
tradições ancestrais da res publica e da integridade do mos maiorum
68
.
Com o estabelecimento da paz, haveria, outrossim, a volta da abundância e da
prosperidade a Roma eis a suma das promessas de Otaviano. A paz, contudo, apenas seria
concebível e assim poderia ser mantida pela virtus (a “coragem viril”) do governante,
acompanhada pelo seu poderio militar. Por isso, a excelência do chefe militar, protegido pelos
deuses da Guerra e vitorioso nos combates, precisava ser veiculada; sendo-o nos monumentos,
nas moedas, nos cerimoniais e nos espetáculos, para dar ampla publicidade de seus feitos e
realizações. Ao mesmo tempo, para garantir o favor divino ao novo Imperador, favor este
ligado ao escrúpulo religioso, um imponente programa de reformas religiosas foi perpetrado.
Em respeito às ordens sacerdotais, aos paramentos e rituais litúrgicos, edificaram-se e
restauraram-se os templos, em uma profunda alteração das feições da cidade.
Nesse programa de reformulação das instituições, houve também uma tentativa de
reforma dos costumes, considerados degradados desde o fim da República. Leis moralizantes
buscaram regenerar as classes dirigentes; restrições foram impostas ao luxo, à libertação dos
escravos e ao adultério, com a intenção de assim serem defendidas as famílias, de se
68
idem, 437.
40
aumentarem os nascimentos e de impor-se um estilo de vida mais austero às depravadas
licenciosidades em voga.
Outro flanco de investida ideológica de Augusto foi o campo cultural. Para elevar o
poder e a glória de Otaviano, Mecenas, amigo e colaborador direto do príncipe, fez-se o grande
protetor das letras, reunindo ao redor de si uma plêiade de poetas, cuja função última era
registrar, na florescente literatura por ele incentivada, os feitos de Augusto
69
. Graças aos seus
apoios, aglomeraram-se em torno dele alguns dos melhores talentos literários de Roma: entre
outros, Virgílio, Horácio e Propércio. Esses escritores, herdeiros dos neotéricos
70
Catulo,
Licínio Calvo ou Hélvio Cina, e, por isso mesmo, marcados pelos princípios alexandrinos de
perfeição formal e de valorização do mundo sentimental e moral do indivíduo, receberam a
ingente tarefa de celebrar o regime e de testemunhar seu esplendor, tanto que a grande
empresa literária do período de Augusto, festejada nos versos de Propércio ainda durante sua
composição, foi o canto épico de Virgílio – a Eneida.
Iniciado pouco após a batalha de Ácio, esse longo poema em hexâmetros, escrito a
pedido e instância de Mecenas para enaltecer o novo Princeps, cumpria a função que desde
Homero era conferida àquele gênero poético: conferir infalivelmente a imortalidade do canto
ao seu herói
71
, relacionado com a própria figura de Otaviano. O poema, com efeito,
apresentava a origem divina – e sua vocação mítica para o mando de Roma – dos Iulii, a família
a que pertencia César e Augusto. Além disso, aparecia como um canto de festejo ao Imperador
deificado e de glorificação da Urbe, em sua missão civilizadora, de paz e de conciliação
72
. Era a
afirmação das letras latinas perante as gregas, na emulação da glória conferida por Homero a
69
GRIMAL, Pierre. O Século de Augusto. Lisboa. Edições 70. 1997.55p.
70
OLIVA NETO, João Angelo. O Livro de Catulo. São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo. 1996.
15-18p.
71
GRIMA, Pierre. Op. Cit. 61p.
72
ROCHA PEREIRA, Maria Helena. Estudos de História da Cultura Clássica: II Volume Cultura Romana. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian. 2002. 254p.
41
seus heróis, que no canto de Virgílio se concentram em Enéias, o primeiro herói de um novo
mundo – o mundo proto-Romano
73
.
Como todo herói épico, Enéias foi o exemplo das máximas virtudes romanas. Sua saída
de Tróia, quando esta era saqueada e incendiada pelas tropas aquéias (Canto II), fora, a
contragosto seu, ordenada pelos deuses, que lhe haviam atribuído as tarefas majestosas e
árduas de salvar os Penates e de fundar-lhes uma nova cidade, de origem troiana, embora
diferente de Tróia uma cidade projetada para o futuro de vitórias e de poder
74
. Essa missão
perpassa todo o texto épico virgiliano, até o assentamento final dos desterrados de Ílion nas
terras do Lácio. Foi Heitor quem lho advertiu e comanda, na tradução oitocentista brasileira:
Ui! Foge, o incêndio medra,
Foge, filho da deusa; em preia aos Dânaos
Rui do fastígio Tróia. Assaz fizemos
Pelo rei, pela pátria. Esta só destra
A haver defensa, defendera Pérgamo.
Seu culto ílio te fia e seus penates:
Toma-os contigo; o pélago discorram
Té que lhes funde majestoso alcáçar
Eneida, II, 297-304 – Tradução Odorico Mendes
75
Fundar Roma era a grande função de Enéias, para que os Penates tivessem paz e as
gerações futuras dos descendentes dos troianos vivessem e prosperassem tal como seria a
divina missão de Otávio, que deveria refundar a República sob seu principado. E essa
atribuição magnânima de iniciar uma nação apenas poderia ser entregue a um herói máximo,
cujas virtudes sobrepujassem mesmo os mais valentes e nobres heróis antigos. Por isso, Enéias
era maior que o próprio Heitor, como asseverou Diomedes:
Em Tróia pertinaz susteve os Graios,
Durante o assédio, a mão de Heitor e Enéias,
Que a vitória dez anos retardaram:
73
KENNEY, E. J.; CLAUSEN, W.V. Historia de la Literatura Clásica (Cambridge University) II Literatura Latina.
Madrid. Editorial Gredos. 1989. 386 p.
74
CITRONI, M., CONSOLINO, F. E., LABATE, M., NARDUCCI, E. Literatura de Roma Antiga. Lisboa.
Fundação Calouste Gulbenkian. 2006. 484p
75
VIRGÍLIO. Eneida. Tradução Odorico Mendes. São Paulo. Editora UNICAMP. 2005. 65p.
42
Ambos no ânimo iguais, iguais no esforço,
Mais pio esse é”.
Eneida, XI, 280-284 – Tradução Odorico Mendes.
Duas das principais características desse herói virgiliano já, então, se fazem reconhecer.
Afinal, à sua coragem indiscutível, assaz provada no canto II (embora parte da crítica literária
desconheça ou rechace seus méritos
76
), aliou-se sua mais constante e realçada qualidade a
Pietas. Enéias era sempre apelidado de Pius; fê-lo, por exemplo, a Sibila, quando de sua descida
ao reino dos mortos:
Tão guerreiro quão pio, ao Orco Enéias
Desce ante o pai.
Eneida, VI, 412-413 – Tradução Odorico Mendes.
Para clareza da definição desse atributo de Enéias, indague-se o conceito romano de
Pietas. Tratava-se habitualmente do sentimento que se tinha “para com aqueles a quem o
homem está ligado por natureza (pais, filhos, parentes)”
77
. Quer dizer, o compromisso íntimo
de vinculação de membros da comunidade familiar, sujeitos à patria potestas, refletida no culto
aos antepassados, em uma concepção que, alargada, abrangia, em última análise, todo o
respeito pelas divindades.
Mas, pelo exercício da Pietas, chegava-se a outra característica do estatuto heróico
virgiliano. Enéias, ciente de seu dever para com seus ancestrais e para com as divindades,
entendeu-se como instrumento do Fatum, ou seja, como objeto dos desígnios do Destino e da
vontade de Júpiter. Assim, o filho extremoso de Tróia subsumiu, a despeito de seus interesses
individuais, a sua obrigação íntima para com os Penates – conduzi-los, com os fugitivos
troianos sobreviventes da chacina dos aqueus, à sua nova terra, ao prometido Lácio. Outra não
76
ROCHA PEREIRA, Maria Helena. Estudos de História da Cultura Clássica: II Volume Cultura Romana. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian. 2002. 262p
77
ROCHA PEREIRA, Maria Helena. Estudos de História da Cultura Clássica: II Volume Cultura Romana. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian. 2002. 339p
43
é a interpretação da imagem de Enéias a carregar nos ombros seu velho pai, durante a fuga em
direção aos navios:
Sus, meu pai, eu te ajudo, às nossas costas
Sobe-te, ó caro, não me agrava o peso:
Em sucesso qualquer teremos ambos
A mesma salvação, comum perigo.
Eneida, II, 740-743 – Tradução Odorico Mendes.
Do mesmo modo, quando Enéias recebeu o escudo forjado por Vulcano a pedido de
sua mãe Vênus, era o peso do destino dos povos romanos que ele envergava aos ombros, em
uma nova e pia submissão ao Fatum:
O herói admira o dom, primor Vulcânio;
Da imagem do porvir gozando ignaro,
Dos seus glória e destino ao ombro leva.
Eneida, VIII, 728-730 – Tradução Odorico Mendes.
Ainda no rol das virtudes tipicamente romanas, outra característica de Enéias: sua
constância nos compromissos contraídos – sua fides. Não obstante as dores por que passava no
percurso rumo à terra augurada pelos deuses, sua obrigação era mais forte que os empecilhos
do Destino ou impostos por Juno. A observância do dever de comando assumido para com
seus companheiros o impulsionava sempre, não importando seus desejos ou sua própria
intenção. Para perseverar em sua palavra e no munus comprometido com os deuses, Enéias
subjugou, então, mesmo seus sentimentos, e aseu amor. Pela observância ao seu dever, por
sua fides, Enéias abandonou Dido; por sua fides, ele vingou a morte de Palante com o assassínio
brutal de Turno, no final do canto XII.
Contudo, havia em Enéias uma intenção preferencial pela paz. Mais uma vez como
Otaviano, a missão precípua do herói da Eneida seria a de construir a concórdia para seu povo,
acossado pela guerra e pela ira dos deuses opositores (Juno, principalmente). Afinal, como
Anquises predisse-lhe, no primeiro momento na obra em que Enéias foi tratado por Romano,
44
e não mais por troiano, em uma exortação capaz de alcançar não apenas o herói da Eneida, mas
todos os membros da nação:
... tu, Romano,
Cuida o mundo em reger. Terás por artes
A paz e a lei ditar, e os povos todos
Poupar submissos, debelar soberbos.
Eneida, VI, 885/888 – Tradução Odorico Mendes.
Não foi, pois, sem motivo que tanto se rejubilou o herói ao crer que conseguira, por
meio de tratados, evitar a guerra contra Turno:
Não menos fero nas maternas armas,
Enéias embravece e o marte afila,
Folga do ajuste que dirime a guerra.
Lembrando o fado, Iulo e os seus consola
Do susto, ao rei reputa, e lhe assegura
Que aceita a paz e as condições confirma.
Eneida, XII, 103-108 – Tradução Odorico Mendes.
Essa era a missão romana insculpida nos versos de Virgílio
78
: “impor as leis da paz, aos
submetidos perdoar clemente, e debelar soberbos”
79
. Tal era a outra característica do herói
virgiliano, que também seria o grande promotor da justiça, conforme o qualificou Drances, em
seu discurso de invectiva contra Turno:
... Ó tu, responde,
Varão maior que a fama, como te alças?
Não sei que mais te louve ou mais admire,
Se o valor, se a justiça...”
Eneida, XI, 119-122.
Sob todas essas virtudes a coragem, a pietas, a fides, a submissão ao Fatum, a opção
pela paz, o norteamento pela justiça Enéias construiu um novo padrão de herói, dotado de
interesse coletivo e adequado, portanto, à nova realidade histórico-política do nascente
Império Romano. Seus sucessivos sacrifícios pessoais em prol da nação a ser edificada
78
Eneida, VI, 851/853.
79
VIRGÍLIO. Eneida. Tradução José Victorino Barreto Feio. 2004. São Paulo. Martins Fontes. 204p.
45
perfizeram-no o exemplo heróico em uma época não mais heróica
80
. E tal foi a mensagem
veiculada por Virgílio no combate final da épica, quando Enéias e Turno se enfrentaram, e este
foi vencido. Turno era o exemplo das virtudes guerreiras, das ânsias e furores belicosos e
individualistas, tão adequados à épica homérica guerreira, mas tão anacrônicos para os dias de
Augusto. Recordem-se as palavras da Sibila, que tão bem prenunciaram o advento do guerreiro
de feição iliádica:
Oh! Quite enfim do pego, em terra a transes
Mais graves te prepara. Hão de ir os Troas
A Lavíno, sossega; antes contudo
Lá não ter ido: guerra, hórrida guerra,
Do sangue o Tibre inchado espumar vejo.
Nem Dórios arraiais, nem Xanto ou Símois
Te faltarão; também de deusa filho,
Há no Lácio outro Aquiles. ...
Eneida, VI, 87-94.
De fato, Turno, filho da ninfa Venília, era o novo Aquiles, habitante do Lácio. E como
tal, suas características faziam-se exaustivamente reforçadas; definiram-no sua violentia, seu furor
e sua ira; ele é o audax, o turbidus, o superbus, e o amens
81
. Orgulhoso e violento, Turno recebeu
de Virgílio todos os atributos que definiriam o modelo de virtude considerado arcaico. Apenas
por sua glória ele lutava, apenas por sua reputação; guiava-o, sobretudo, a indignação pela
noiva tomada e entregue a Enéias por Latino. Caracterizam-no antes a soberba e a arrogância,
como quando, incitado pela fúria da deusa infernal Alecto, ele despertou pronto para a guerra:
Espantado ele acorda, em suor tendo,
Que dos poros rebenta, ossos e membros;
Louco por armas grita, armas no leito
Busca e em torno. Braveja o amor do ferro,
A ímpia insânia da guerra, e cresce a raiva:
Qual da undante caldeira quando ao bojo
Lígnea flama se aplica estrepitosa,
A água enfurece e ferve, em bolhas salta;
Fúmea espumando a enchente, sem conter-se
80
KENNEY, E. J.; CLAUSEN, W.V. Historia de la Literatura Clásica (Cambridge University) II Literatura Latina.
Madrid. Editorial Gredos. 1989. 387 p.
81
KENNEY, E. J.; CLAUSEN, W.V. Historia de la Literatura Clásica (Cambridge University) II Literatura Latina.
Madrid. Editorial Gredos. 1989. 395 p.
46
Transborda, e vai-se em túrbidos vapores.
Eneida, VII, 460-469.
Enfim, o combate singular entre Enéias e Turno pode ser lido como a disputa entre
dois modelos heróicos o iliádico arcaico versus o romano imperial. Tal como Apolônio de
Rodes fizera nas suas Argonautica, alijando de seu canto o modelo ultrapassado de virtudes para
o homem de seu tempo, do mesmo modo conduziu-se Virgílio, que, por um lado erigiu um
verdadeiro monumento dos valores romanos encarnados em Enéias e, por outro, ressaltou os
deméritos dos padrões exclusivamente guerreiros, tão bem descritos no túrbido e sanguinário
Turno. Era a vitória da ação civilizada preconizada pelo Estado Romano sobre a arcaica
individualidade apetente de glórias e de violência
82
.
Outra vitória dos padrões romanos de virtude sobre os modelos alexandrinos, contudo,
deu-se no plano amoroso. Como bastante discutido, o Jasão de Apolônio tinha por
qualidades os atributos do cortesão helenístico, em especial a galanteria e a capacidade de
sedução que o fizeram merecer o epíteto de herói erótico, para quem as prebendas de Afrodite
serviam de armas
83
. Foi, pois, para comparação com esse paradigma que Virgílio compôs o
canto IV da Eneida, no qual, sob a marcante influência literária do alexandrinismo, o poeta
descreveu o envolvimento entre Enéias e Dido. Enéias, que, assaltado por uma tempestade no
Canto I, aportara em Cartago durante sua errância à fuga de Tróia, envolvera-se e fora amado,
com desmedida paixão, pela viúva rainha daquele país; durante um ano inteiro com ela viveu,
coabitou, vestiu-se como os cartagineses e assumiu seus modos, até ser reprovado por
Mercúrio, que, a mando de Júpiter, o admoestou e incitou-o a continuar sua jornada rumo à
terra prometida a seus Penates eis o ponto exato de comparação entre os heróis. De fato,
Enéias, demandado pelo deus mensageiro, acatou a ordem divina e sufocou seu confessado
82
BEYE, Charles R. – Ancient Epic Poetry. 1. ed. United States of America: Cornell University Press, 1993. 245p.
83
idem. 206p.
47
amor em prol de sua missão sagrada partiu contra sua vontade das terras e do leito de Dido,
como ele mesmo diz, nos versos que contém sua escusa pela partida:
Mas Grineu Febo a Itália, a Itália agora
As sortes Lícias demandar me ordenam:
Este o amor, esta a pátria. As Líbias torres
De Cartago se a ti Fenissa encantam,
Na Ausônia estranha que os Troianos fundem?
Novos reinos é lícito habitarmos.
A mim do padre Anquise, quantas vezes
De úmida sombra a noite enluta o globo,
Quantas surgem igníferos luzeiros,
Insta em sonhos, me aterra a torva imagem;
Turba-me o tenro Ascânio, o vitupério
De cabeça tão cara, a quem defraudo
Do Hespérico domínio e fatais campos.
Inda há pouco, da parte do Tonante
O intérprete divino (ambos atesto)
Frechando as auras trouxe-me recados:
Às claras eu vi mesmo entrando os muros
O deus, bebi-lhe a voz nestes ouvidos.
De inflamar cessa a mágoa tua e minha:
Não espontâneo para Itália sigo.
Eneida, IV, 396-397 – Tradução Odorico Mendes.
A Enéias não foi permitido viver por mais tempo as benesses do enlace amoroso,
considerado prejudicial ao futuro da nação a ser fundada reclamavam-no a memória de
Anquises e o direito sucessório de Ascânio: os antepassados, representados pelos Penates e
pelo morto pai, e os descendentes, sintetizados na prole trazida de Tróia. Por conseguinte, tal
como se dera com o herói guerreiro homérico, rechaçava-se o herói amoroso alexandrino, de
virtude erótica, porquanto de nenhuma serventia seria tal atributo ao Pater Aeneas – pelo
contrário, que o episódio de Dido sempre foi considerado o maior empecilho posto pelo
poeta mantuano no percurso da edificação de seu herói e da nação latina. Afinal, em
contraposição à cortesã galanteria, repleta de charmes e de seduções do ambiente ptolomaico,
erguia-se o amor à pátria, inscrito na curta sentença do verso IV, 347: “hic amor, haec patria est”.
A Eneida cumpriu seus propósitos de conferir celebridade e glória ao herói objeto de
seu canto, ao Princeps Augusto tantas vezes homenageado e festejado, e à nação romana, por
48
sua grandiosidade e seus propósitos civilizadores de paz e de conciliação
84
. Ainda durante a
vida do poeta mantuano, a monumentalidade de sua obra foi percebida e inegavelmente
valorizada, a ponto de ser nomeada a contrapartida latina de canto homérico. No entanto, a
situação político-social de Roma alterou-se de modo profundo após a morte de Augusto, em
14 d.C., e ainda mais nos anos que imediatamente antecederam e seguiram-se ao término da
dinastia Júlio-Claudiana. O declínio do mecenato imperial notado nos governos de Tibério,
Calígula e Cláudio, patronato este que sob o principado de Augusto havia possibilitado a
formação dos celebérrimos círculos literários propiciadores do surgimento da Idade Áurea das
letras latinas, conduziu à míngua a produção poética do período. Ademais, as idiossincrasias
dos três Principes sucessores imediatos de Otaviano fizeram-nos descurar do incentivo e da
mobilização culturais, o que, por conseqüência, levou ao surgimento, nas poucas iniciativas
literárias, da sensação de epigonismo, ou de pertencimento à geração posterior a uma época de
inalcançável grandiosidade
85
. Por outro lado, sob o governo de Nero, a violência feroz dos
últimos anos de seu principado levou ao terror e, por fim, dizimou as maiores expressões
culturais de seu tempo.
Como legado desses anos de pânico e de incertezas que determinaram os suicídios de
Sêneca, de Petrônio e de Lucano, restou, então, na literatura coeva um decorum profundamente
diferente daquele norteador da geração augústea. Influenciada pelo asianismo da oratória, pela
repulsa ao claro filo-helenismo do príncipe, pela moda dos declamadores e pela trágica angústia
social causada pela tirania de Nero, surgia dos escombros das artes um estilo de grandes
efeitos, de vigor patético e de cores inflamadas. Nascia uma tendência estética anticlássica, ou
84
ROCHA PEREIRA, Maria Helena. Estudos de História da Cultura Clássica: II Volume Cultura Romana. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian. 2002. 255p
85
CITRONI, M., CONSOLINO, F. E., LABATE, M., NARDUCCI, E. Literatura de Roma Antiga. Lisboa.
Fundação Calouste Gulbenkian. 2006. 659p
49
barroca (apesar do anacronismo do termo)
86
, totalmente emancipada dos grandes cânones
estabelecidos na época de César e de Augusto. Afinal, o modelo de grandeza encomiástico do
Princeps, inspirado nas promessas e esperanças depositadas em Otaviano, fora levado à falência
pelos desmandos de Nero, acarretando, por inevitável conseqüência, a deterioração do modelo
de virtudes espelhado no fundador do Império.
O canto épico, por seu turno, apesar do afastamento ostensivo do modelo virgiliano,
não se calou naqueles anos de horror e de profunda consternação, como se a necessidade de
celebração das excelências latinas teimasse em perseverar inverteu-se, contudo. O epos de
Lucano a Farsália –, iniciado ainda no começo do governo de Nero, quando a tirania ainda
não se havia instalado na corte latina, e que até então tinha por norte a celebração do princeps,
alterou seu rumo, tornando-se, pelo contrário, um acre libelo contra seu autoritarismo e sua
crueldade. Assim, do mesmo modo que a promessa de Nero sob a inspiração das propostas
exordiais de Augusto – de retorno aos ideais republicanos não se cumprira, também sua
celebração pelo canto do poeta frustrou-se, deixando este de ser um monumento à grandeza
do Estado e à glória dos exércitos para se tornar uma denúncia indignada contra o
esvaziamento da libertas, com o conseqüente fim das glórias da aristocracia representada por
Lucano
87
. Desse modo, o cânone estabelecido por Virgílio também foi alterado, em uma forma
de subversão ao próprio Regime por ele celebrado. A temática, que antes exaltava a alta
dignidade dos heróis e as virtudes dos deuses e dos homens, pôs-se a versar, em crítica, sobre a
violência das guerras civis, sobre a inversão de valores e a generalização da maldade
88
:
A guerra mais que civil ao longo dos campos emácios
86
CITRONI, M., CONSOLINO, F. E., LABATE, M., NARDUCCI, E. Literatura de Roma Antiga. Lisboa.
Fundação Calouste Gulbenkian. 2006. 717p
87
CITRONI, M., CONSOLINO, F. E., LABATE, M., NARDUCCI, E. Op. Cit. 783p.
88
CARVALHO, Aécio F., “A Farsália de Lucano: importância na evolução do epos”. Maringá, Acta Scientiarum, nr.
23, 2001. 98p.
50
E a lei dada ao crime cantamos, e o povo potente
Que verte a mão forte conta as próprias entranhas;
E os exércitos consangüíneos e, rompida a aliança,
Confundidas todas as forças da Terra na luta
Por crime comum e estandartes de encontro
A estandartes hostis, as águias iguais, pilo contra pilo.
Farsália, I, 1-7 - Tradução de Adriano Aprigliano, Bruno Gambarotto e Lucas Dezzoti.
Por outro lado, no canto de Lucano a típica fundamentação mitológica épica foi
substituída pelo embasamento histórico. A opção virgiliana pelo aparato divino passou a ser
vista como uma mera mistificação por meio da qual se encobriram, no novo regime, o fim das
liberdades civis e a transformação da República em tirania. Desse modo, o sobrinho de Sêneca
pretendeu alterar o fulcro divino do poder do Príncipe, que então passaria a lastrear-se não
mais em uma ascendência teocrática, mas na destruição das instituições republicanas. Era, em
suma, a pessimista denúncia da decadência percebida nos anos de terror.
No novo modelo épico adotado pelo poeta neroniano o paradigma do herói
modificou-se inteiramente, tornando-se um exemplo de anti-herói. A Enéias, o glorioso e pio
fundador mítico de Roma, e a Augusto, o iniciador do Império, foi oposto César, o destruidor
da República. Contra o esperado cânone de virtudes foi, então, delineado um rigoroso
paradigma de vícios e de deméritos, representado pelos traços negativos imputados a César: a
vontade tirânica, a destrutividade maníaca, a subversão das leis humanas e divinas, a
encarnação do furor, da crueldade e da arrogância. Em antítese ao modelo clássico de virtudes
erguia-se, enfim, um modelo anticlássico de defeitos, cantado em tons macabros, sob um pathos
sombrio e vibrante, característicos da época, em expressão feroz da profunda crise política que
conduziu Roma à beira de uma nova guerra civil.
51
Com a morte de Nero encerrou-se não apenas a dinastia Júlio-Claudiana. Findava
também a legitimação divina e mitológica do mando estatal, tão bem representada e celebrada
nos versos da Eneida. Todavia, depois da balbúrdia provocada pela turbulenta sucessão de
quatro imperadores no ano 69 d.C., percebeu-se um ressurgimento da literatura latina com o
advento da dinastia flaviana, encabeçada por Vespasiano e seguida por Tito e Domiciano.
Após a ameaça do retorno das Guerras Civis, decorrente do trágico desfecho do regime
neroniano, a mensagem propagandística primordial veiculada pelos novos governantes era a de
anúncio do regresso à estabilidade das instituições e ao esplendor conhecido no início do
Império. Por isso, na literatura pôde ser visto um retorno à valorização das formas consagradas
como clássicas e por isso mesmo abonadoras do novo regime –, em um movimento
conhecido na história da literatura como o Neoclassicismo Flaviano. É bem verdade que a nova
geração de escritores, também denominada Geração de Prata, não demonstrou as qualidades
técnicas e artísticas de seus antecessores áureos, mas, em função dos incentivos imperiais, a
produção poética foi retomada, no último grande florescimento vivenciado pelas letras latinas.
Foi característica desse período Neoclássico o acentuado espírito agonístico de emulação
uma figura típica e fundamental da instrução e do ambiente intelectual da Antigüidade
89
,
embora bastante mais intensa naquela fase histórica. Por esse motivo, o constante diálogo
literário estabelecido entre as obras flavianas e a tradição que as antecedera, em uma evidente
influência do espírito neotérico tão importante nos finais da República
90
. Ao mesmo tempo,
convencidos da inarredável grandeza da obra de Virgílio inalcançável por seu estatuto de
perfeição –, os escritores neoclássicos, ao invés de buscarem o ineditismo, procuraram,
sobretudo, re-elaborar e recompor as formas clássicas do mestre mantuano, sem, contudo,
89
OLIVA NETO, João Angelo. O Livro de Catulo. São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo. 1996. 26p.
90
MALAMUD, Martha A. e MCGUIRE, Donald T. “Flavian Variant: Mith. Valerius’ Argonautica”. Roman Epic.
Edd A.J.Boyle. London. Ed. Routledge. 192p.
52
escaparem às tendências cultuadas pela geração anticlássica anterior o que impregnou,
ademais, a produção da época com o gosto insistente pelos tons sombrios, sinistros e
macabros
91
. Foi nesse cenário literário que uma nova obra épica teve seu nascimento: as
Argonautica
92
, de Valério Flaco
93
.
Como decerto em todo canto épico, também esse poema trazia embutido seu padrão
de virtude heróica, especificamente adequado àquelas duas últimas cadas do século I d.C.
Com o intuito de reescrever o poema homônimo de Apolônio de Rodes segundo a nova
poética helenístico-latina e sob o intransponível apego ao cânone virgiliano, Valério Flaco
expôs o tanto repisado mito argonáutico, alterando-o, contudo, de forma a adicionar ao
paradigma do herói de Apolônio os atributos não de seus pares homéricos e virgiliano, mas
também as qualidades e os caracteres aduzidos pelos demais poetas que abordaram o tema
desde os mais remotos tempos e pela própria época de sua composição, logrando o feito de
edificar um novo modelo heróico, mais aguerrido, mais intrépido, mais belicoso, mais sagaz,
mais diplomático, mais sedutor, mais pio e, sobretudo, mais prudente
94
. Era, enfim, a
construção de um padrão de heroísmo também condizente com o viés hisórico-filosófico
norteador da maior parte do pensamento e da produção literária latina da época, ou seja, o
estoicismo latino.
De fato, os ensinamentos do Pórtico espraiam-se pelo epos flaquiano. Na segunda parte
do Canto I (I, 730-850), quando o poeta descreveu os suicídios de Éson e de Alcimedé,
91
FLACO, Valério. Las Argonauticas. Tradução Santiago López Moreda. Madrid. Editora Akal. 1996. 26p.
92
O estudo detalhado das qualidades do herói flaquiano será desenvolvido no capítulo III.
93
Mister é ressaltar que dois outros autores épicos latinos do período neoclássico imperial – Sílio Itálico e Estácio
também tiveram suas obras preservadas. No entanto, como, em linhas gerais, o modelo heróico utilizado por
ambos poetas segue o mesmo feitio do modelo criado por Valério Flaco, sem substanciais diferenças ou
relevantes características peculiares, optou-se por restringir o estudo apenas a este. Quanto às demais obras (os
Pvnica, de Sílio Itálico, e a Tebaida, a Aquileida, e as Silvae, de Estácio), vale reportar-se aos estudos presentes em
CITRONI, M., CONSOLINO, F. E., LABATE, M., NARDUCCI, E. Literatura de Roma Antiga. Lisboa. Fundação
Calouste Gulbenkian. 2006, 851p e ss.
94
HERSHKOWITZ, Debra. Valerius Flaccus’ Argonautica Abbreviated Voyages in Silver Latin Epic. Great Britain.
Clarendon Press Oxford. 1998. 105p.
53
inspirados e induzidos pela alma invocada de Creteu, foi a opção pela estóica Mors Bona a
Boa Morte que norteou a decisão de ambos, em estreita proximidade com os conselhos
epistolares de Sêneca a Lucílio
95
. Por outro lado, no Canto III (III, 377-380), após a trágica
morte do rei Cízico, quando o adivinho Mopso elucidou para Jasão os motivos do desânimo
que acometia os Argonautas, foi a doutrina estóica da origem da alma que mais uma vez
orientou o poema flaquiano, em sensível correlação com o canto épico de Virgílio
96
e com as
95
“Por isso, o sábio vive tanto quanto deve e não tanto quanto pode. Verá por onde deve conduzir sua existência,
em que companhia, como e o que deve fazer. Sempre pensa na qualidade de sua existência e não na sua duração:
quando se confronta com vários aborrecimentos que podem perturbar sua tranqüilidade, ele se liberta. Não espera
chegar ao extremo para fazê-lo, mas, assim que a fortuna começa a lhe ser suspeita, ele examina com atenção se
deve parar lá. Pouco lhe importa dar-se a morte ou recebê-la, vê-la chegar mais cedo ou mais tarde: para ele, não
danos a temer. Não se pode perder muito de um líquido que cai gota a gota! Morrer mais cedo ou mais tarde,
que importa? Ora morrer bem é escapar do perigo de viver mal”. SENECA. “Carta LXX Do Suicídio”. As
Relações Humanas – Cartas para Lucílio. São Paulo, Landy Editora. 2002. 126p.
96
Não fiques mais suspenso; eu vou por ordem
Cada cousa expender-te: escuta, ó filho.
Desde o princípio intrínseco almo espírito
Céus e terra aviventa e o plaino undoso,
O alvo globo Lunar, Titânios astros
E nas veias infuso e mole agita,
E ao todo se mistura: homens e feras,
Voláteis gera e anima, e o que de monstros
O cristal fluido esconde. Há nas sementes
Ígneo vigor divino, enquanto a nóxia
Matéria o não retarda, nem o embotam
Órgãos terrenos, moribundos membros.
Daqui vem dor, prazer, cobiça e medo;
E à clara alteza os míseros não olham
Em cega negregura encarcerados.
Nem perdem, quando a luz vital se extingue,
De todo as fezes e mundanos vícios:
Muitos, concretos longamente, é força
Que nelas durem por teor pasmoso.
Em tratos pois seus erros pagam todas:
Qual pende aos ventos; qual da culpa as nódoas
Lava em golfo espaçoso, ou dile ao fogo.
A cada qual seus Manes atormentam
Poucos do Elísio as doces veigas temos
Quando, perfeito o giro, a mão do tempo
Gasta o impresso labéu, depura a flama,
O senso etéreo e simples aura afina.
Voltos mil anos, as convoca em turmas
Ao rio um deus; porque elas, do passado
Esquecidas, rever esferas queiram,
E entrar de novo nas prisões corpóreas.
Eneida, VI, 742-772 – da tradução de Odorico Mendes.
54
posteriores Meditações de Marco Aurélio
97
. Então, no que concerne ao cânone das virtudes
heróicas das Argonautica, o poderia ser diferente, sendo este, por conseqüência imediata,
guiado pelo mesmo fio condutor da doutrina da Stoa. O intrépido e audaz Jasão latino, o
virtuoso vencedor dos terríveis obstáculos representados pela sedução das Lemnianas, pelo
funesto combate contra Cízico, pelo enfrentamento de Âmico, pela triste decisão do abandono
de Hércules, pela libertação de Fineu e pela passagem pelas Simplégades, deveria, portanto, ser
também o exemplo máximo da busca e da conquista do heroísmo estóico. Por isso mesmo,
Jasão não era ainda um herói totalmente formado ao receber a árdua tarefa de buscar na Cítia o
velo do carneiro de Nefele. Apesar de, no início do epos, ele se apresentar como um jovem
virtuoso perante o rei Pélias (I, 30), faltavam-lhe ainda aqueles atributos de excelência que
seriam adquiridos no curso de sua viagem marítima ao oriente, em outra adesão à doutrina
estóica, segundo a qual a virtude apenas poderia ser aprimorada por meio do constante
exercício
98
. Desse modo, para que a empresa ordenada pelo rei e pelos deuses escapasse dos
perigos e atingisse seus gloriosos objetivos, era fundamental que o rapaz antes se formasse
como verdadeiro herói, em uma recorrência literária ao período de provações e de
desenvolvimento vivenciado por Enéias nos seis primeiros cantos da Eneida
99
. Era, pois, mister
que o Esônide fortalecesse sua têmpera e adquirisse robustez moral, afastando, por seu turno,
as fraquezas que porventura ainda se aninhassem em seu espírito, para assim, depois de
97
“Se as almas sobrevivem, como pode comportá-las o ar desde a eternidade? E a terra não comporta todos os
corpos sepultados desde séculos tão longos? Como aqui a transformação e a dissolução de uns após alguma
duração abrem lugar para outros cadáveres, assim as almas transferidas para o ar, depois de subsistirem algum
tempo, se transformam, se derramam, ardem absorvidas pela razão seminal do universo e dessa maneira deixam
lugar às que emigram depois”. MARCO AURÉLIO, Meditações, IV, 21.
98
GAZOLLA, Raquel. O Ofício do Filósofo Estóico o duplo registro do discurso da Stoa. São Paulo: Edições Loyola,
1999. 74p.
99
BOWRA, C. M., “Aeneas and the Stoic Ideal”. Greece & Rome, Vol. 3, No. 7, 1933, 11p.
55
forjado e aprimorado, ser digno da façanha demandada e da fama imperecível que dela
acarretariam
100
.
De fato, na travessia do mar, Jasão cumpriu valente e sabiamente cada uma das provas
que os Fados lhe impuseram. O autor, no entanto, apresentou essas virtudes conquistadas pelo
herói não de modo sistemático, mas apenas poético, na seqüência estabelecida pela tradição
literária do mito argonáutico. Todavia, uma sistematização dessas virtudes do herói flaquiano
mostra-se possível a partir do rol dos principais valores
101
estabelecido principalmente a partir
da Carta a Lucílio XIV
102
, de Sêneca, segundo o qual seriam quatro as virtudes cardeais da
excelência estóica
103
: iustitia, fortitudo, temperantia e prudentia. Por iustitia
104
entender-se-ia o fiel e
adequado cumprimento das obrigações do homem para com os deuses, para com a pátria, para
com seus pais, em uma clara vinculação com as noções de pietas
105
e de fides
106
em outras
palavras, seria a aplicação prática desses dois conceitos morais basilares para a sociedade
romana. Já por fortitudo
107
, compreender-se-iam não apenas a fortidão física, mas toda aplicação
da coragem
108
, da bravura, da virtus guerreira
109
e da ânsia pelas honores
110
; ou, materialização da
100
“Ao contrário, o homem fica, se ouso dizer, melhor e mais digno de admiração quando faz uso dos obstáculos,
sejam quais forem, com que se depara”. MARCO AURÉLIO, Meditações, X, 34.
101
Apesar de não apresentar profundas alterações quanto ao tema, outras variantes do rol das virtudes estóicas
podem ser, no entanto, encontradas em Cícero: Sobre os Poderes de Pompeu, XIII, 36-38; A República, I.2.2-3; Dos
deveres, I.33.121 – in ROCHA PEREIRA, Maria H. Romana – Antologia da Cultura Latina. Coimbra: Universidade de
Coimbra, 2000.
102
ROCHA PEREIRA, Maria H. Op. Cit. 241p.
103
Para este rol de virtudes estóicas, ver ainda: LITCHFIELD, Henry W. “National Exempla Virtvtis in Roman
Literature”, Harvard Studies in Classical Philology, Vol. 25, 1914, 8p.; BOWRA, C. M., Aeneas and the Stoic Ideal”.
Greece & Rome, Vol. 3, No. 7, 1933, 11p.
104
“Que terias a admirar na filosofia, se não fosse um benefício concedido? A sua finalidade é uma só, descobrir a
verdade nas coisas divinas e humanas. Dela nunca se afasta a religião (religio), a reverência (pietas), a justiça (iustitia),
e todo o restante do cortejo de virtudes de mão dada e ente si ligadas”. SENECA, Cartas a Lucílio XIV, in
ROCHA PEREIRA, M. H. Romana, 241p.
105
Essa aproximação entre pietas e fides no canto épico foi estabelecida por BOWRA, C. M. Op Cit. 12p.
106
ROCHA PEREIRA, M. H. “Idéias Morais e Políticas dos Romanos”. Estudos de História da Cultura Clássica: II
Volume – Cultura Clássica. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian. 2002. 332p e ss.
107
“fortitudo pericula arcebat” -a sua fortaleza afastava os perigos SENECA, Cartas a Lucílio XIV, in ROCHA
PEREIRA, M. H. Romana, 242p.
108
“Após haver mostrado o começo e os primeiros passos da virtude, segui-la-ei em sua própria marcha, [ela] cuja
pesadíssima força e os músculos eficazes residem na coragem” Valerii Maximii Factorum dictorumque memorabilium,
56
excelência bélica. Por sua vez, a temperantia, a moderação, podia ser percebida como a virtude
do autocontrole das paixões
111
afinal, se para os estóicos as paixões deveriam sempre ser
submetidas ao império da razão
112
, ou ao logos, sua grande virtude correlata seria o
autodomínio, ou a firmeza anímica capaz de domar seus efeitos e subjugar suas forças; um
estóico virtuoso, portanto, seria aquele que conseguiria, pela primado da razão, subordinar os
sentimentos que porventura ameaçassem tisnar-lhe a clareza do tirocínio ou o mando-de-si.
Finalmente, o que os estóicos romanos entendiam por prudentia
113
poderia ser descrito como a
aplicação da Sabedoria
114
(sapientia
115
), ou antes, do bom senso, do conhecimento dos critérios
de valoração do Bem e do Mal, ou ainda da capacidade de claro julgamento, a partir da
memória do passado e da previsão do futuro
116
.
Contudo, não apenas a edificação do modelo de virtude estóico acha-se presente no
epos de Valério Flaco. O espírito emulador que norteou a construção do Jasão flaquiano
também revelou o inegável esforço do poeta em demonstrar, com o seu modelo de herói, a
supremacia do próprio Império Romano, em específico sob o governo dos Flávios, em relação
aos demais modelos civilizatórios que o precederam cronologicamente os impérios da Ásia e
a cultura grega. O canto tardio da geração flaviana celebrava, enfim, seu próprio tempo e o
herói motivador do epos, como se fossem, dentre todos, os mais excelsos.
III, 2. Texto estabelecido em VALÈRE MAXIME, Oeuvres Completes. Traduction M. Nisard. Paris, Garnier Frères,
Libraires, 1850. 619p.
109
ROCHA PEREIRA, M. H. Op. Cit. 405p. e ss.
110
BIEBER, Margareth. “Honos and VirtusAmerican Journal of Archaeology, Vol. 49, No. 1, 1945. 25p e ss.
111
BOWRA, C. M. Op Cit. 12p.
112
GAZOLLA, Raquel. Op. Cit. 136: “Paixão: um movimento a-lógico da alma humana, contrário à natureza; uma
tendência excessiva, desmesurada”.
113
“horum prudentia ne quid deesset suis providebat” – na sua prudência, providenciavam para que nada faltasse
aos seus. SENECA, Cartas a Lucílio XIV, in ROCHA PEREIRA, M. H. Romana, 242p.
114
“Nam si hanc quoque bonum vulgare fecissent et prudentes nasceremur, sapientia quod in se optimum habet
perdidisset, inter fortuita non esse.” Com efeito, se tornassem vulgar este bem e nós nascêssemos prudentes, a
sabedoria perderia a melhor qualidade que tem, de não figurar entre os bens fortuitos. SENECA, Cartas a Lucílio
XIV, in ROCHA PEREIRA, M. H. Romana, 241p.
115
ROCHA PEREIRA, M. H. Op. Cit. 416p. e ss. e GAZOLLA, Raquel. Op. Cit. 108p.
116
BOWRA, C. M. Op Cit. 11p.
57
Em suma, Valério Flaco, herdeiro de oito séculos de produção literária greco-
helenística, construiu, como adiante se verá em detalhes, um modelo de herói épico único,
capaz de rivalizar com todos os seus predecessores e de obstar os que o sucedessem. Ao reunir
o que havia de mais adequado ao espírito romano de seu tempo em um herói, Flaco
conseguiu elaborar um modelo novo para o velho personagem das sagas tessálicas fê-lo,
como muito afirmado, um guerreiro forte e destemido como os varões homéricos, mas
também um homem sedutor e esperto, belo e diplomático, como o Jasão alexandrino, capaz de
angariar o necessário amor de Medéia para auxiliá-lo em sua ingente tarefa de conquistar o
Velocino de Ouro; fê-lo, ainda, um pio e reverente capitão, como o Enéias virgiliano, cujo
objetivo era conduzir a bom termo a jornada que encetara no comando de seus companheiros,
perfazendo-se, pois, um herói coletivo e cônscio de seu dever, cuja missão era levar aos povos
a paz e o comércio; -lo, finalmente, o exemplo da prudência estóica. O amor filial, que tanto
norteou suas decisões, e a ânsia pela glória, impulsionadora de seus feitos, arremataram-no, em
um exemplo de anelo que bem representava a dinastia Flaviana, sob a qual vivia o poeta.
Após a Geração de Prata, o gênero épico não mais voltou a ser cultivado pelos
escritores latinos. Uma nova viragem política iria determinar outros rumos para a literatura.
Com o fim da dinastia flaviana, após o assassinato de Domiciano, em 96 d.C., teve início um
período em que a literatura latina não mais precisou criar nem propalar modelos de virtude e
de excelência. Com efeito, uma vez que a aristocracia romana havia resolvido seus
problemas de segurança e de prosperidade, e a população se acostumara à nova ideologia
imperial, a literatura tornava-se, então, vácua e estetizante, meramente galante e frívola
117
;
sobrevalorizavam-se a erudição, os exercícios lingüísticos e as curiosidades, em uma contínua e
117
CITRONI, M., CONSOLINO, F. E., LABATE, M., NARDUCCI, E. Literatura de Roma Antiga. Lisboa.
Fundação Calouste Gulbenkian. 2006. 895p.
58
inexorável decadência, ultimada pelo advento do Cristianismo, quando os ideários arcaicos e
clássicos foram, então, adormecidos.
3 – Conclusão
A cada tempo correspondeu sempre um modelo de virtudes. Para a sociedade belicosa
dos finais da Idade de Bronze quando a guerra e a caça eram ainda as únicas atribuições
dignas dos nobres varões a bravura e a excelência nos discursos eram as características de
maior relevo em um guerreiro, que por meio delas alcançava o reconhecimento de seus méritos
nos campos privilegiados da honra: no das batalha e nas assembléias e banquetes entre seus
iguais. Por sua vez, para a cosmopolita sociedade elegante e rica do norte do Egito helenístico,
quando os Ptolomeus reinavam no alto de sua corte erudita e refinada, a galanteria e o espírito
diplomático tomaram lugar da coragem arcaica, de tal sorte que o herói se tornou um outro,
mais parecido como um príncipe helenístico que com um guerreiro aguerrido. Em seguida,
quando o modelo ptolomaico de virtude não alcançava os objetivos de formação e de
inspiração de um homem valoroso, quando o próprio reino helenístico do Egito havia
perdido sua força e seu prestígio, ergueu-se, juntamente com o Império Romano, um novo
paradigma de supremacia comportamental, em que os deveres para com a pátria, para com os
deuses e para com a família resumiam a máxima virtude dos homens. O valor desse novo herói
era ser um ótimo cidadão romano. Finalmente, quando a estrutura imperial necessitou mais
uma vez de reafirmar-se, ou seja, quando uma nova dinastia precisou encontrar respaldo para
seu mando, outro modelo de herói foi, então, planejado, de tal modo que arregimentasse em si
todas as pretensões e todas as qualidades esperadas para os novos sustentáculos de um regime
e de uma percepção de mundo – o herói, não apenas cidadão romano, era então cidadão de um
59
império dilatado, de múltiplas culturas e de interesses diversos. Assim, os Cantos Homéricos, as
Argonautica Gregas, a Eneida, a Farsália e as Argonautica Latinas sucederam-se, ao ritmo das
transformações da história, a refletir o valor de cada tempo e as qualidades de cada sociedade.
O canto do poeta, que dava celebridade e imortalidade àqueles que merecessem a honra dos
versos, comportava, enfim, a aspiração dos povos, seus ideais mais sublimes e suas ambições.
Como modelo de emulação, cada herói deveria servir de norte para as ações do homem
comum, de tal modo que o canto épico fosse também sempre um canto de formação.
60
CAPÍTULO II
A Tradição Literária do Mito Argonáutico
1. Período Arcaico da Literatura Grega
A saga dos Argonautas, de origem provavelmente eólica
118
, encontra suas fontes
poéticas no passado mítico da Tessália, datadas presumivelmente do período Micênico Recente
(1400 a 1100 a.C.). Diferentes interpretações tentaram explicar seu surgimento naquele dealbar
das civilizações clássicas. Explicações de matriz histórico
119
insistiram que o mito da viagem
dos Argonautas seria um reflexo legendário das primeiras expedições gregas no mar Negro,
expedições essas motivadas pelo interesse na fundação de colônias e nas explorações das
riquezas minerais das regiões a leste da Hélade; explicações de cariz psicanalítico, por sua vez,
lastrearam-se na possibilidade de uma representação do inconsciente coletivo e universal, por
meio da qual sobreviveriam os mitos de formação de uma realeza mágica primitiva os kouroi
basileis
120
; outras, ainda, buscaram relacionar a narrativa da viagem da nau Argos a antigos ritos
iniciáticos, pelos quais se representariam os rituais de passagem da juventude heládica à
maturidade viril
121
. Entretanto, nenhuma das tentativas de explicação alcançou a robustez
necessária para afirmar-se inconteste, restando, portanto, ao seu estudo, tão somente a busca
das fontes literárias supérstites para dar início à pesquisa da transmissão poética do mito.
conhecida pela tradição homérica, a saga argonáutica encontra-se presente em três
curtos trechos da obra do poeta de Quios. São referências singelas, mas que possuem o condão
118
WEST, M. L. Greek Poetry 2000 – 700 B.C. The Classical Quaterly, New Series, Vol. 23, nº 2, 1973. 189p.
119
DUMÉZIL, George. Le Crime des Lemniennes – Rites et légendes du monde égéen. Éditions Macula. Paris. 1998. 38p.
120
GARCIA, Mar L. Mitologia e Iniciaciones: el problema de los Argonautas. Gerion, 5. Editorial de la Universidad
Complutense de Madrid. 1987. 40p.
121
Idem.
61
de demonstrar a antigüidade das gestas desses navegantes da primeira geração dos heróis. Na
Ilíada, ao final do Canto VII, quando as tropas aquéias recebiam auxílio de seus aliados, aparece
a primeira menção a Jasão e às suas peripécias:
E de Lemnos vieram muitas naus trazendo vinho,
as quais enviara Euneu, filho de Jasão,
que Hipsípile dera à luz para Jasão, pastor do povo
Ilíada, VII, 467/469 – Tradução Frederico Lourenço
122
Embora de mínima extensão, esses três versos homéricos fazem pressupor um
episódio inteiro da expedição da nau Argo – o mito do repovoamento da ilha de Lemnos pelos
Argonautas. De fato, trata-se da primeira menção literária conhecida acerca do episódio da
matança dos homens de Lemnos pelas iracundas mulheres açuladas por Afrodite, e da
conseqüente substituição desses varões chacinados pelos jovens navegantes, que alcançavam a
ilha guiados pelos deuses. Referências a esse episódio, que tem por desfecho à união de Jasão e
Hipsípila constam em todas as versões posteriores do mito, em evidente percepção de sua
antigüidade e de seu alcance poético.
Outras duas menções à saga argonáutica encontram-se na Odisséia. No primeiro dos
trechos, quando Ulisses narrava ao rei Alcínoo sua descida ao Hades e descrevia-lhe os
espectros das mulheres mandadas até ele por Perséfone, os versos de Homero contam a
descendência da rainha Tiro: Pélias, filho do rei de Iolcos por cuja ordem a expedição dos
Argonautas teve seu início – e Éson, pai de Jasão:
Assim dizendo, mergulhou no mar marulhante.
E ela concebeu e deu à luz Pélias e Neleu.
Ambos se tornariam fortes escudeiros do grande Zeus:
Pélias na ampla região de Iolco, foi senhor de muitos
Rebanhos; Neleu teve sua morada em Pilos arenosa.
122
HOMERO. Ilíada. Tradução Frederico Lourenço. Livros Cotovia. Lisboa. 2005.
62
Mas para Creteu gerou outros filhos essa rainha entre as mulheres:
Éson, Feres e Amitaonte, condutor de carros de cavalos.
Odisséia. xi, 253/259 - Tradução Frederico Lourenço
123
Já o segundo entrecho – mais evidente em sua vinculação com as aventuras dos
Argonautas – é a fala de Circe, filha do deus Sol e irmã de Eetes, o rei da Cólquida, ao anunciar
a rota que Ulisses deveria seguir em seu percurso de retorno a Ítaca, que aludirá a um dos
episódios mais importantes da saga marítima – a passagem pelos Rochedos Moventes. Trata-se
da referência ao episódio da abertura do mar da Cólquida pelos primeiros navegantes, quando,
com o auxílio de Hera, a nave conseguiu ultrapassar a terrível barreira dos escolhos flutuantes,
que se entrechocavam no mar:
Depois que os companheiros tiverem remado para longe delas
Já não te passarei a contar de modo contínuo
Como será a direcção do teu caminho, mas tu próprio
Terás de decidir: mas eu te direi as alternativas.
Há de um lado rochas ameaçadoras e contra elas
Bate o estrondo das grandes ondas da azul Anfitrite.
Planctas é como lhe chamam os deuses bem-aventurados.
Por ali nem passam criaturas aladas, nem mesmo as tímidas
Pombas, que a ambrósia levam a Zeus pai:
Uma delas arrebata sempre a pedra lisa.
O Pai envia depois outra para manter o número.
Por ali nunca passou nau alguma de homens que depois voltasse,
Mas juntamente com as tábuas das naus são corpos humanos
Levados pelas ondas do mar e pelas procelas de fogo destruidor.
Por ali só passou uma nau preparada para o alto mar,
A nau Argo, conhecida de todos, vinda da terra de Aetes.
E até essa teria o mar lançado contra as rochas ingentes,
Se por amor a Jasão a deusa Hera não tivesse feito passar a nau.
Os dois rochedos: um deles chega ao céu
Com seu pico pontiagudo e cobre-o uma nuvem azulada.
Nunca a nuvem se agasta nem se vê céu limpo
Em torno do pico, no verão ou no outono.
Nenhum homem mortal o poderia escalar,
Nem que tivesse vinte mãos e vinte pés.
Pois o rochedo é liso, como se tivesse sido polido.
E no meio do rochedo há uma gruta nebulosa,
Virada para oeste, para o Érebo: e é para ali que devereis
Apontar a vossa côncava nau, ó glorioso Ulisses.
Odisséia, xii, 55/82 – Tradução Frederico Lourenço
123
HOMERO. Odisséia. Tradução Frederico Lourenço. Livros Cotovia. 6ª ed. Lisboa. 2005.
63
Assim, mesmo sem descrever os percalços por que teriam passado Jasão e seus
companheiros durante sua jornada pelo mar, a tradição homérica permitiu, nesses três
excertos, a transmissão de quatro temas fundamentais para o desenvolvimento e para aferição
da tradição literária do mito argonáutico. Por intermédio dos versos de Homero, é possível
inferir a antigüidade das narrativas relacionadas à nau Argo, decerto pertencentes ao conjunto
de narrativas pré-literárias que serviram de matriz para a composição dos dois grandes poemas.
Por outro lado, a partir da ligação entre Jasão e Hipsípila, é possível também se inferir todo o
episódio de estada dos heróis na ilha de Lemnos, episódio esse que nunca deixou de ser
relatado por aqueles poetas que depois abordaram o tema. Do mesmo modo, a ascendência de
Jasão filho de Éson, neto de Creteu e sobrinho de Pélias igualmente se mostra de largo
conhecimento, bem como a nau Argo, que, o próprio poeta registra como “conhecida de
todos”. Enfim, como um dos elementos fulcrais da trama que reaparecerá na seqüência
histórica das recorrências poéticas – o episódio da passagem da nau pelos Rochedos Moventes,
executado sob a proteção que Juno proporcionava a Jasão, encerra as referências homéricas às
tradições argonáuticas, a registrar sua importância, sua fama e sua antigüidade.
Se na tradição homérica as referências aos argonautas são esparsas e meramente
acessórias à composição dos poemas do ciclo troiano, no Corpus Hesiodicum, concretamente
na Teogonia e nos fragmentos existentes dos Catálogos, os elementos do ciclo náutico começam a
ganhar relevo e maior importância na história da tradição literária do mito. Na Teogonia se
acham os registros da descendência do Sol e a primeira menção efetivamente conhecida, e não
apenas implícita, como em Homero, das aventuras de Jasão na viagem rumo às terras de Eetes,
bem como as referências da ligação amorosa entre ele e Medéia:
Do Sol incansável a ínclita oceânida
Perseida gerou Circe e o rei Eetes.
64
Eetes, filho do Sol ilumina-mortais
Desposou a virgem do Oceano rio circular,
Sábia de belas faces, por desígnio dos Deuses.
Ela pariu Medéia de belos tornozelos,
Subjugada de amor graças à áurea Afrodite.
Teogonia. 956-962 – Tradução Jaa Torrano
124
.
Nesse primeiro excerto, bastante adequado ao intuito principal da Teogonia de descrever
a sucessão genealógica dos deuses desde o surgimento do Caos aa total concretização do
poder e da supremacia de Zeus Olímpico, Hesíodo elencou a ascendência da imortal Medéia,
filha de Eetes, neta do Sol e sobrinha de Circe a mencionada feiticeira que, segundo
Homero, ensinaria a Ulisses a rota para seu regresso a Ítaca. Na seqüência de nascimentos
divinos pela qual as características da geração anterior o se perdiam, mas eram
acrescentadas a outras novas, decorrentes dos conúbios, em uma herança contínua de poderes
e de atributos os poderes premonitórios do avô Sol, da linhagem do Céu e de Téia, e os
saberes mágicos da tia Circe comunicar-se-iam à filha de Eetes, por cujos sortilégios a aventura
de Jasão se tornaria possível e se concretizaria sem a morte do herói. Hesíodo, pois,
determinou para Medéia, nesse trecho de sua obra, as habilidades de que dispunha a neta do
Sol e sua sina.
Virgem do rei Eetes sustentado por Zeus,
O Esônida por desígnio dos Deuses perenes
Levou-a de Eetes após cumprir gemidosas provas,
As muitas impostas pelo grande rei soberbo
O insolente Pélias estulto e de obras brutais.
Cumpriu-as, e chegou a Iolcos após muito penar
O Esônida, levando em seu navio veloz
A virgem de olhos vivos, e desposou-a florescente.
Ela, submetida a Jasão pastor de homens,
Pariu Medéio, criou-o nas montanhas Quíron
Filirida, e cumpriu-se o intuito do grande Zeus.
Teogonia, 992-1002 – Tradução Jaa Torrano.
124
HESÍODO. Teogonia - A Origem dos Deuses. Tradução Jaa Torrano. Iluminuras. São Paulo. 159p.
65
Esse segundo excerto faz parte do Catálogo dos Heróis, disposto, no corpo do poema, ao
final do rol dos nascimentos Olímpicos. Trata-se da relação dos seres híbridos, frutos da união
entre mortais e imortais, cuja importância na obra seria, fundamentalmente, o extermínio dos
seres relacionados no Catálogo dos Monstros, nos versos 270/336
125
. Nesse sentido, talvez fosse
possível a ilação segundo a qual a tarefa hesiódica de Jasão pudesse ser a de dar cabo da
serpente gerada por Fórcis e Ceto
126
última na lista dos monstros a qual guardaria, na
fronteira oriental da terra (a Cólquida), os carneiros (µήλα) de ouro, e o as maçãs (µήλα) das
Hespérides (na fronteira ocidental), como uma possível tradução do texto grego proposta
tentadora, conquanto refutável por Apolônio de Rodes, que apresentava outra versão para o
nascimento do ser prodigioso custódio do velo o sangue deitado por Tifeu ao ser ferido na
luta contra Zeus.
De fato, Jasão seria um ser híbrido, descente remoto dos imortais, uma vez que seu pai,
Éson era neto de Éolo, deus dos ventos e filho de Zeus. Assim, sua intrínseca e presumível
função de exterminador de monstros anunciaria suas façanhas, sumariamente descritas nesse
primeiro resumo conhecido das aventuras. Trata-se, pois, de uma versão rudimentar, ou
melhor, de uma suma das Argonautica, em cujo breve relato mítico, a virgem do rei Eetes
como Hesíodo chama Medéia, uma das princesas da Cólquida seria subjugada de amor por
Afrodite, conforme se no verso 962. Foi ela quem Jasão levou consigo após cumprir as
gemidosas provas, ou seja, após cumprir as tarefas que lhe foram impostas por seu tio Pélias, a
quem Hesíodo chama de insolente e estulto insolente porque roubara com violência o trono
de Éson, seu irmão; e estulto por ter escolhido mal o trabalho que impusera ao sobrinho que
125
CLAY, J. S.. Hesiod’s Cosmos. Cambridge University Press. Cambridge. 2003. 161p.
126
Unida a Fórcis em amor, Ceto gerou por fim
terrível Serpente que no covil da terra trevosa
nas fronteiras guarda as maçãs de ouro.
Teogonia 332/334 – Tradução Jaa Torrano.
66
reclamava o trono. Enfim, o poeta resumiu as labutas do herói com o termo obras brutais -
obras incumpríveis cuja finalidade não seria outra senão a morte do pretendente ao trono.
Continuando a leitura do excerto hesiódico, contrariando as expectativas do tio, Jasão
executou a obra a ele imposta por Pélias, chegando à Cólquida e conquistando o tosão. Fê-lo
levado em seu navio veloz, não nomeado pelo poeta, mas célebre, como se viu no
tratamento dado à embarcação pelos versos de Homero. E foi nessa mesma lere nau que,
após muito penar, Jasão transportou consigo a virgem filha do rei Eetes, a de olhos vivos e
belos tornozelos. Levou-a e desposou-a, florescente, conforme o adjetivo utilizado por
Hesíodo, dando-lhe Medeio por descendência, o fundador epônimo dos Medos.
Como se , no curto espaço de dezoito versos da Teogonia, Hesíodo traçou as linhas
diretrizes de toda a sucessão de fatos e episódios que construiriam a temática dos Argonautas.
Contudo, pelos fragmentos restantes das demais obras hesiódicas, sabe-se que a manipulação
do tema dos mitos argonáuticos por parte do poeta provavelmente não se restringiu somente
aos dois trechos citados. A existência de um catálogo de Argonautas entre os Catálogos, ou
Grandes Eeas Hesiódicos, é suposta pela leitura do fragmento 37 da obra de Hesíodo, citado
pelo escoliasta de Apolônio de Rodes (I, 45).
Neither Homer nor Hesiod speak of Iphiclus as amonsgt the Argonauts
Frag.37
127
Em se dando, pois, veracidade aos escoliastas de Apolônio de Rodes, outros elementos
da saga poderiam ainda ser encontrados no Corpus Hesiodicum. No fragmento 20, presume-se
que o poeta teria determinado a genealogia de Fineu personagem que em Apolônio de
127
EVELYN-WHITE, Hugh G. (ed). Hesiod, The Homeric Hymns, and Homerica. Cambridge Mass.: Loeb Classics,
1914. 177p.
67
Rodes iria desempenhar função importante na aventura dos marinheiros afinal, foi por meio
de suas instruções que a nau tessália logrou vencer a ameaça das Rochas Moventes:
But according to Hesiod (Phineus) (sic) was the son of Phoenix, Agenor’s son and Cassiopeia.
Frag. 20
128
Por sua vez, no fragmento 39, ainda a versar sobre Fineu, Hesíodo forneceria uma
indicação imprescindível à compreensão da saga, em uma referência expressa à causa da
cegueira do vate:
Hesiod in the Great Eoiae says that Phineus was blinded because he revealed to Phrixus the
road; but in the third Catalogue, because he preferred long life to sight.
Hesiod says he had two sons, Thynus and Mariandynus.
Frag. 39
129
Assim, se graças à indicação de Hesíodo fez-se possível saber quem ensinou a Frixo o
caminho para a Cólquida, bem como a causa do suplício de Fineu e o nome de seus filhos,
também graças ao poeta hesiódico, no fragmento apurado ainda junto aos escólios de
Apolônio de Rodes, tornou-se possível conhecer parte da versão de sua libertação da pena
imposta a ele por Zeus:
Hesiod also says that those with Zetes turned and prayed to Zeus:
‘There they prayed to the lord of Aenos who reigns on high’.
Apollonius indeed says it was Iris who made Zetes and his following turn away, but Hesiod says
Hermes.
Others say (the islands) were called Strophades, because they turned there and prayed Zeus to
seize the Harpies. But according to Hesiod… they were not killed.
Frag. 42
130
Por outro lado, quanto ao retorno da expedição, também Hesíodo, segundo ainda os
escólios de Apolônio de Rodes, apresenta sua versão:
128
EVELYN-WHITE, Hugh G. (ed). Op. Cit. 170p.
129
EVELYN-WHITE, Hugh G. (ed). Op. Cit. 177p.
130
EVELYN-WHITE, Hugh G. (ed). Op. Cit. 179p.
68
But Hesiod says they (the Argonauts) had sailed in through the Phasis.
But Hesiod (says)… they come through the Ocean to Libya, and so, carrying the Argo, reached
our sea.
Frag. 45
131
Uma última indicação pertinente à saga marítima é ainda obtida dos fragmentos
hesiódicos, graças, desta vez, à menção feita por Eratóstenes de Cirene (276 – 194 a.C.) em sua
obra Catasterismos. Trata-se da referência ao próprio Tosão de Ouro o pelame dourado do
carneiro forjado por Hefestos que, a pedido de Nefele, transportara, pelo mar, Heles e Frixo
até à Colquida:
The Ram. This it was that transported Phrixus and Helle. It was immortal and was given them
by their mother Nephele, and had a golden fleece, as Hesiod and Pherecydes say.
Frag. 38
132
Se a temática do ciclo argonáutico foi utilizada pelos poetas épicos arcaicos, também
o foi pelos poetas líricos do período. Mimnermo de Colofon (séc. VII), considerado pelos
exegetas Alexandrinos como o criador da elegia
133
, em seus cantos de louvor à excelência, aos
valores de raça e à beleza física
134
, legou um resumo, embora mais modesto que o de Hesíodo,
das aventuras marinheiras de Jasão herói que pode ser considerado um exemplo das
idealizadas virtudes exaltadas pelo elegíaco:
Nem, um dia, o grande velocino traria o próprio Jasão,
de Ea, perfazendo doloroso caminho,
para o orgulhoso Pélias realizando penosa luta,
nem sobre a do Oceano bela corrente chegariam.
.........................................................................................
131
EVELYN-WHITE, Hugh G. (ed). Op. Cit.181p.
132
EVELYN-WHITE, Hugh G. (ed). Op. Cit.177p.
133
ASSUNÇÃO, Teodoro R., BRANDÃO, Jacynto L. Semônides de Amorgos e Mimnermo – Fragmentos. In Ensaios de
Literatura e Filologia. Belo Horizonte: Publicações do Departamento de Letras Clássicas da Faculdade de Letras
da Universidade Federal de Minas Gerais. 1983/1984. 228p.
134
LOURENÇO, Frederico. Poesia Grega de Álcman a Teócrito. Lisboa: Livros Cotovia. 2006.30p.
69
De Eetes à cidade, onde do veloz Sol
Os raios jazem em dourada câmara,
Do Oceano junto às bordas, onde chegou o divino Jasão
Tradução Teodoro Renó
135
Apesar de consideravelmente mais breve que os trechos homéricos ou hesiódicos, o
fragmento da elegia de Mimnermo, todavia, apresentou uma inovação importante para a
tradição literária do mito jasônico. Efetivamente, pela primeira vez o tema da principal façanha
de Jasão foi delimitado – a conquista do Tosão de Ouro. O elegíaco de Colofon inseriu em seu
poema, então, o imprescindível detalhe da tarefa imposta ao Esônide pelo orgulhoso rei Pélias.
Ainda não expresso por seus antecessores no tema, ao menos nas obras, fragmentos, escólios
ou comentários que alcançaram a posteridade, foi Mimnermo quem descreveu a ordem
imposta ao herói para levar de volta para a Ea, trazido das terras do Sol por sobre a bela
corrente do Oceano, o grande velocino. No entanto, o estado fragmentário do texto, bem
como de praticamente de toda a obra de Mimnermo, não permite maiores indagações acerca
da abordagem do tema, restando ao estudo, portanto e mais uma vez, apenas o registro de sua
transmissão, sem a possibilidade de uma interpretação mais acurada do poema.
Outra abordagem do mito argonáutico durante o período arcaico da literatura grega
provém da obra de Píndaro (518 a.C., Tebas 438 a.C., Argos), que, em celebração às duas
vitórias de Arquesilau de Cirene nas corridas de carros nos jogos Píticos, nos anos de 462 e
460 a.C.
136
, compôs ode conhecida como a IVª Pítica, em cujo texto se reverenciaram os
antepassados do atleta descendente de um dos argonautas, Eufamo, e de Malache, uma
mulher lemniana. Assim, nessa celebração conjunta da casa real de Cirene e de seu atleta
vitorioso, Píndaro narrou as viagens de Jasão, emprestando-lhe detalhes, ainda que breves, de
135
ASSUNÇÃO, Teodoro R., BRANDÃO, Jacynto L. Op. Cit. 232p.
136
PINDARE. Pythiques – tome II. Paris: Société D’Édition “Les Belles Lettres”. 1955, 63p.
70
seu motivo, de ao menos uma de suas aventuras os embates amorosos na ilha de Lemnos –,
e de seu desenlace.
Composta por treze tríades (cada qual contendo uma estrofe, uma antístrofe e um
epodo), a ode pindárica guardou oito delas para narrar as façanhas dos argonautas. As três
primeiras tríades, ainda anteriores à narrativa da saga propriamente dita, anunciavam as
predições de Medéia acerca da casa regente de Cirene, iniciada por Eufamos, décimo sétimo
antepassado de Arquesilau. A partir de então, na quarta tríade, inicia-se efetivamente o canto
heróico dos navegantes:
Qual foi o princípio dessa expedição marítima?
Que perigo os pregou com cavilhas fortes feitas de aço? Foi
Decretado que Pélias morreria ou às mãos de ilustres eólios ou por decisões inflexíveis.
Um oráculo arrepiante assaltou-lhe o espírito perspicaz e foi
Pronunciado junto ao umbigo da mãe terra, cheia de árvores:
‘Montar por todo o lado uma guarda cuidada a quem
Aparecer com uma só sandália, quem vier dos estábulos
Íngremes até à terra soalheira da famosa Iolco,
Seja ele estrangeiro ou cidadão’ Em verdade, ele acabou por
Chegar, homem terrível com duas lanças. Vestia dois tipos de
Roupa, uma ajustada a seu corpo digno de ser admirado, tal
Como é costume usar-se na terra dos magnésios, e uma pele
De leopardo à volta do corpo, que o protegia das chuvas que arrepiam.
Não tinha os cintilantes caracóis do cabelo cortados, trazia-os a flutuar ao longo das costas.
Caminhava depressa e a direito; mas para pôr à prova a sua
Vontade inflexível parou de repente na praça à hora em que está cheia de gente.
Pítica IV, 69-85 – Tradução António Caeiro.
137
Nesse ponto do poema, os elementos de composição da trama começam a se
desvelar mais rapidamente. A narrativa de Píndaro logo conduz à chegada de Pélias, que
encontrou na praça o rapaz desconhecido calçado com uma só sandália. Advertido pelas
predições do Ônfalo (v. 72), o rei, tomando-o por estrangeiro, indagou-lhe o nome, a tria e
os propósitos; ao que Jasão, sem também saber quem era seu interlocutor, respondeu-lhe ter
sido criado por Quirão, o sábio centauro croníade, e que retornava a Iolcos para reclamar o
trono usurpado de seu pai. Sabe-se, então, pela fala do herói, sua idade vinte anos e seu
137
PÍNDARO. Odes Píticas para os Vencedores. Tradução António de Castro Caeiro. Lisboa: PrimeBooks. 2006. 65p.
e ss.
71
nome, dado a ele pelo imortal preceptor. Ainda sem saber que seu interlocutor era seu tio e rei,
Jasão lhe perguntou por seu pai; e Pélias indicou-lhe a casa onde Éson, seu irmão, morava (v.
119). Jasão, então, após vinte anos de ausência, retornou à morada paterna e se apresentou,
sendo reconhecido imediatamente pelos parentes. Amitáon e Feres, seus irmãos, juntaram-se a
ele, como também Admeto e Melampo, seus primos. Por cinco dias e noites, então, eles
celebraram o reencontro, até que ao sexto dia partiram todos para o palácio de Pélias a fim de
que Jasão reivindicasse sua herança (v. 135 e ss). Após ouvir a áspera reivindicação do
sobrinho, em tom conciliatório, o rei fingiu concordar em devolver-lhe o trono e os bens,
contanto que o jovem herói fizesse cessar a ira dos Manes:
(...) E Pélias respondeu-lhe gentilmente: “Serei
O homem que pedes que seja. Mas já estou enrolado no lado
Velho da vida, enquanto em ti desabrocha a flor da juventude.
És capaz de pôr fim ao ressentimento dos que já estão
Enterrados. Frixo convoca-nos aos salões de Eetes para irmos
Buscar a sua alma e recuperarmos a pele de lã comprida do
Carneiro com o qual ele foi salvo do mar e dos golpes
Impiedosos da madrasta. Um sonho espantoso chegou até
Mim e disse-me isso. Consultei o oráculo na fonte de Castália
Para saber se havia alguma coisa que devesse ser procurada;
Fui incitado a reunir rapidamente uma comitiva para navegar.
Realiza esta tarefa de bom grado e juro que te concedo o
Poder real e o reino. Que Zeus, poderoso juiz e pai de nós
Dois, seja testemunha deste meu juramento”.
Aprovaram este acordo e partiram. E foi o próprio Jasão
Que incitou os arautos a dar a conhecer a expedição naval,
Onde quer que fosse. (...)
Pítica IV, 158-171 – Tradução António Caeiro
138
Sem demora, chegados de todos os cantos da Hélade, acorreram os heróis ávidos por
glória, compondo a listagem que constituiria o primeiro catálogo dos Argonautas:
(...) Chegaram logo os que nunca se cansam
Nos combates, os filhos do filho de Cronos, Zeus, os que
Eram filhos de Alcmena de olhar cintilante e os de Leda; e
Dois guerreiros de cabelos apanhados ao alto, descendentes
Do Tremor de Terra, ambos venerados por sua força, que
138
PÍNDARO. Odes Píticas para os Vencedores. Tradução António de Castro Caeiro. Lisboa: PrimeBooks. 2006.
71/72p..
72
Chegavam de Pilos e do promontório de Ténaro. A sua nobre
Fama foi cumprida, a de Eufemo e a tua, Periclímeno, de intenso poder.
De Apolo chegou o tocador de harpa, pai dos cânticos, o louvadíssimo Orfeu.
Hermes de caduceu dourado enviou os seus dois filhos que
O cansaço não vence, exultando triunfantes com o fulgor da
Juventude, Equíon e Érito. Os que habitavam junto ao sopé
Do monte Pangeu vieram céleres, pois o senhor dos ventos,
Pai deles, Bóreas, de boa vontade e com alegria no coração
Vestiu com asas púrpuras as costas de Zetes e Calais. E Hera
Irresistivelmente incendiou os semideuses com uma saudade
Da nau Argo, irrefutavelmente a fim de que nenhum deles
Ficasse para trás, junto das mães, a fermentar uma vida inteira
Sem correr riscos, mas antes descobrissem, ainda que lhes
Custasse a vida, um elixir para que realizassem a sua excelência
Com outros da mesma idade.
Assim que a fina flor dos navegadores desceu até Iolco, Jasão
Passou todos em revista, louvando-os. E o profeta Mopso,
Fazendo divinações por meio de pássaros e tirando as sacras
Sortes, fez o exército súber a bordo, confiante no futuro.
Pítica IV, 171-192 – Tradução António Caeiro.
Assim, embarcaram na nave Argo os filhos de Zeus: Hércules, stor, Polideuces; os
filhos de Posídon: Eufamos e Periclímeno; Orfeu, filho de Apolo; Équion e Érito, filhos de
Hermes; Zetes e Cálais, filhos de Bóreas; e o adivinho Mopsos. Não se trata ainda da relação
completa dos tripulantes que, mais tarde, ocuparão os cinqüenta remos da nau, mas Píndaro
iniciava a formação da equipagem.
Após o Catálogo dos Argonautas, na 9ª tríade, então, Píndaro narrou a partida do navio
e as cerimônias propiciatórias à navegação as libações a Zeus e a Posídon. Iniciou-se a
viagem. Um episódio apenas é descrito pelo poeta antes da chegada à foz do rio Fase, na 10ª
tríade: a passagem pelos Rochedos Moventes.
Precipitaram-se para um perigo profundo, e suplicaram
Ao senhor das naus que os deixasse escapar ao movimento inexorável
Das pedras que correm ao mesmo tempo uma contra a outra.
As duas pedras estavam vivas, e rolavam mais rápidas do que
As rajadas de vento que bramem no alto. Mas esta jornada de
Semideuses acabou com elas (...).
Pítica IV, 207-212 – Tradução António Caeiro.
73
Em sucinta descrição, portanto, o baixel venceu o desafio de romper a passagem entre
o Mar Mediterrâneo e o Mar Cáspio pela força dos braços dos remeiros heróicos. A seguir, os
heróis chegaram ao rio Fase, onde lutaram contra os colcos diante do rei Eetes enquanto
Afrodite descia do céu para auxiliar Jasão a conquistar o amor de Medéia, para que esta não
respeitasse o amor aos pais e tivesse acesso em seu peito o desejo de conhecer a Grécia. Assim
inflamada pelos encantamentos de Afrodite, Medéia ajudou Jasão a se proteger contra os
perigos de seu pai, em troca de juras de casamento:
E logo ela lhe revelou os meios para executar com êxito
As provas pedidas pelo seu pai. Preparou a seiva de raízes
Cortadas, remédio para dores agudas, com óleo de azeitona, e
Deu-lhe para que se ungisse. Concordaram em juntar-se um ao outro numa doce união.
Pítica IV, 220-223 – Tradução António Caeiro.
No epodo da 1tríade e na estrofe da seguinte, Píndaro narrou, então, como Jasão,
com a ajuda das indicações de Medéia, conseguiu vencer os touros que sopravam fogo e fumo
pelas ventas; narrou também como o herói jungiu os animais ignívomos e como, com o arado
de bronze, lavrou a terra em searas profundas, diante da ovação dos companheiros. Eetes se
enfureceu, mas precisou aceitar a vitória da primeira prova imposta ao forasteiro, indicando-lhe
o velocino, confiante, entretanto, na serpente um monstro maior que um navio de cinqüenta
remos que o protegia sem descanso. Contudo o poeta não descreveu o modo como Jasão
conquistou finalmente o tosão de Frixo, mas o mostrou retornando pelo mar, no epodo da
11ª tríade. Nesse momento da narrativa, a nau Argo aportou à ilha de Lemnos e, em uma
sucessão de rápidas menções, recurso típico do autor, Píndaro descreveu a união dos sexos, a
partida da ilha e a chegada à Líbia, onde a nave seria consagrada aos deuses, ressaltando a
gloriosa formação da prole de Eufemo, objeto de seu canto.
74
Como se vê, Píndaro, para celebrar as vitórias atléticas de Arquesilau nos jogos Píticos,
estendeu as narrativas anteriores, incorporando-lhe elementos que aos poucos construiriam o
mito argonáutico. Pouco ainda se dizia sobre o teor da relação entre Jasão e Medéia, apenas a
intervenção de Afrodite (cuja notícia se encontra também em Hesíodo) e sua ajuda no
cumprimento das provas impostas por Eetes ao herói. Por outro lado, as aventuras dos
argonautas pelo mar ainda não haviam sido exploradas em suas máximas potencialidades
havia apenas as referências ligeiras acerca da passagem pelos rochedos moventes e pela ilha de
Lemnos. Além disso, o catálogo dos navegantes ainda era curto e sem boa parte de seus mais
ilustres participantes, ajuntados à expedição pela tradição. Praticamente nada se sabia sobre o
destino dos heróis após o retorno da expedição, nem das conseqüências do envolvimento
entre Jasão e Medéia, com exceção da descendência de Eufemo e da participação de Medéia na
morte de Pélias.
Mas o mito dos Argonautas e da conquista do Velocino Dourado elaborava-se aos
poucos na herança literária transmitida do período arcaico da cultura heládica. Era, contudo,
ainda apenas o esboço de um tema que não atingira nem sua maturidade nem sua maior
amplitude.
À guisa de arremate, faz-se necessária, ainda, a enumeração dos textos hoje perdidos
dos poetas arcaicos que abordaram a saga tessálica. Sem acesso atual aos textos, sabe-se,
contudo, por referência dos escólios a Apolônio
139
que, no século VII, Eumelo de Corinto, nas
Corinthica, ao narrar a história mítica da fundação da cidade, fez Jasão e Medéia regressarem
para Corinto. Da mesma época, segundo a mesma fonte, seriam também as Naupatica, de
Cárcino de Naupacto, em cuja obra abundariam os pormenores da expedição dos argonautas.
Entretanto, perdidas as obras, resta apenas a curiosidade literária alimentadora de suposições.
139
FLACO, Valério. – Las Argonauticas. Tradução por Santiago López Moreda. Madrid: Akal/Clásica, 1996. 15p.
75
2. Período Clássico da Literatura Grega
O período clássico da história helênica marcou o florescimento da Tragédia como
gênero de literário de mais alta expressão. A partir das mudanças que alteraram o sistema
político grego nos séculos V e IV a.C., notadamente a constante ameaça causada pela expansão
do império persa, as preocupações dos poetas direcionaram-se para os grandes problemas das
relações dos homens com os deuses e dos homens com os homens ou seja, a piedade, a
insolência para com as divindades, e a justiça. A vetusta tradição lírica, que no século de
Péricles ainda se encontrava em seu apogeu, cedeu, então, lugar à poesia dramática, mais apta a
equacionar, perante os espectadores das Grandes Dionísias, os dilemas suscitados pelo
tempo
140
.
Essa nova etapa da literatura grega utilizou, então, a herança dos mitos antigos para
tecer as tramas capazes de enfrentar os questionamentos do homem clássico. No caso das
narrativas relacionadas com a saga argonáutica, as abordagens mais conhecidas provêm da obra
de Eurípides (480-406 a.C.) Hipsípila, As Filhas de Pélias, Egeu e Medéia – cujo uso da temática
jasônica possibilitou a discussão de valores tipicamente helênicos, como as obrigações
decorrentes dos juramentos e da hospitalidade, mas também, e sobretudo, da antinomia entre
gregos e rbaros
141
. Das três primeiras tragédias euripidianas, quase nada restou, senão
fragmentos; apenas Medéia alcançou a posteridade.
Na versão da tragédia restante, o momento específico da narrativa é posterior ao final
do ciclo argonáutico, quando o regresso de Jasão e de seus companheiros se havia efetivado.
A história tem sua ambientação na cidade de Corinto, para onde o herói tessálio e a princesa
140
ROCHA PEREIRA, Maria H. Estudos de História da Cultura Clássica – Volume I, Cultura Grega. 10ª ed. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian. 2006. 393p.
141
EURÍPIDES. Medeia. Tradução Maria Helena da Rocha Pereira. 3ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
2005.35p.
76
colca haviam se mudado com os filhos após a partida de Iolcos. No entanto, os fatos ocorridos
desde que o navio Argo deixara a Cólquida não passam desapercebidos e são narrados pela
ama logo na abertura da tragédia:
Quem dera que a nau de Argos, quando seguia para a terra da Cólquida, nunca tivesse batido as
asas através das negras Simplégades, e que nas florestas do Pélion não houvesse tombado o
pinheiro abatido, nem ele tivesse dado os remos aos braços dos homens valentes, que buscaram
o velo de ouro para Pélias. Assim não teria Medeia, a minha senhora, navegado para as
fortalezas da terra de Iolcos, ferida no seu peito pelo amor de Jasão. Nem depois de convencer
as filhas de Pélias a matar o pai, habitaria esta terra de Corinto com o marido e com os filhos,
alegrando com a sua fuga os cidadãos a cujo país chegara, em tudo concorde com Jasão. Porque
é essa certamente a maior segurança, que a mulher não discorde do marido.
Medeia, 1-15 – Tradução Maria Helena da Rocha Pereira
142
Diversos elementos do mito argonáutico se apresentam nesse entrecho exordial da
tragédia. Sem acesso aos textos hoje considerados perdidos, não resta outra opção senha a de
imaginar que essas seriam, então, as primeiras referências, na tradição literária, de elementos
que mais tarde se incorporariam definitivamente à saga de Jasão. Os Rochedos Moventes são
nomeados e qualificados: as azuladas Simplégadas; a matéria de que se construiu o navio
também foi determinada, como a madeira extraída do monte Pélion; por sua vez, posto que
existam referências a uma tragédia do mesmo autor versando sobre o tema, no trecho acima
transcrito (embora de temática posterior à saga argonáutica) dão-se pela primeira vez a
conhecer alguns dos eventos que completariam a saga náutica e preparariam o enredo trágico:
o assassinato de Pélias perpetrado pelas próprias filhas, persuadidas por Medéia, e, por
conseguinte, o exílio da princesa colca e do Esônide em Corinto.
No entanto, as referências ao mito dos primeiros navegantes na obra de Eurípides
não se restringem às poucas indicações fornecidas pela fala da ama. Mais adiante, quando
Medéia se dirige a Jasão para recriminá-lo pelo abandono, Eurípides prossegue no
fornecimento de notícias acerca da narrativa:
142
EURÍPIDES. Op. Cit. 45p.
77
Pelo princípio principiarei a dizer. Fui eu quem te salvou, como sabem dos helenos quanto
embarcaram na mesma nau de Argos, quando te mandaram pôr o jugo aos touros ignispirantes e semear
o campo mortífero. E o dragão, que, envolvendo o velo de ouro, enrolado em espiral, o guardava
insone, matei-o, levando à tua frente a luz da salvação.
E fui eu que, traindo meu pai e minha mãe, contigo vim para Iolcos do Pélion, com mais paixão
que sensatez. E matei Pélias, da maneira mais dolorosa, às mãos das suas filhas, e toda a casa destruí.
Medeia, 475-487 – Tradução Maria Helena da Rocha Pereira
143
Nessa exprobação ao esposo traidor, Medéia refez os passos de sua jornada desde a
terra natal até Corinto, onde se passava o drama. Eurípides somou, então, à tradição literária,
no que concerne à tarefa cumprida por Jasão na Cólquida, a semeadura dos campos da morte,
antes apenas lavrados pelo herói trata-se, presumivelmente, da alusão ao plantio dos dentes
da serpente de Cadmo, que germinavam e se transformavam em guerreiros de pedra. O poeta
trágico faz, ainda, Medéia matar a serpente que vigiava o tosão, e reafirmou o assassinato de
Pélias, dando por motivo a segurança de Jasão.
Um outro elemento da saga argonáutica ainda se acha presente no texto de
Eurípides, desta vez narrado pelo próprio Jasão, ao final da peça, quando Creonte e a filha
haviam sido envenenados pelos presentes enviados por Medéia, e seus filhos, mortos pela mãe:
Quem dera que morresses! Vejo agora o que então não via, quando de uma casa e de um país
bárbaro te trouxe para um lar helênico, a ti, grande flagelo, que atraiçoaste o pai e a terra, que te criara. O
teu gênio da vingança, os teus deuses o assestaram contra mim. Depois de teres matado teu irmão junto
do próprio lar, embarcaste na nau de Argos, de bela proa.
Medeia, 1327/1335 – Tradução Maria Helena da Rocha Pereira
144
No lamento de Jasão, é o assassinato do irmão de Medéia que se faz conhecer. É à
morte de Absirto, levada a cabo pela irmã ao do altar, que Eurípides se refere, ainda que de
modo superficial nesse trecho de encerramento da tragédia.
Ainda no período clássico da história grega, outras notícias de autores que
exploraram o tema da viagem dos argonautas e do envolvimento amoroso entre Jasão e
143
EURÍPIDES. Op. Cit. 64p.
144
EURÍPIDES. Op. Cit. 101p.
78
Medéia. Também à guisa de curiosidade, como no caso do período arcaico, ao todo, restam
notícias de sete tragédias chamadas Medéia, escritas por Neofron, Biotos, Carkinos,
Dicaiógenes, Diógenes de Sinope, Eurípedes o jovem e Melantio
145
. Outros tragediógrafos do
período ainda escreveram sobre os demais aspectos do mito: Antifon, Aqueo e Queremon
escreveram, respectivamente, Jasão, Frixo e Mínias. No campo da comédia, Antífanes, Dífilo e
Nicocares escreveram suas Medéias, enquanto Epicarmo e Dífilo deram vida a Âmico e
Peliadas, respectivamente.
3. Período Alexandrino
Na nova realidade sócio-político alexandrina e, por conseguinte sob suas tendências
literárias, o mito argonáutico mostrou-se absolutamente adequado ao gosto dos poetas e de seu
público erudito. A viagem dos primeiros navegantes possibilitava a descrição de lugares
distantes e de costumes estrangeiros. Por sua vez, o périplo dos nautas pelos mares
desconhecidos permitia a inserção de novos elementos na saga, de tal sorte que breves
composições, a tratar de episódios específicos, passaram a ser compostas. Dois dos poemas de
Teócrito (séc. III a.C.) – o Idílio XIII e Idílio XXII – são bons exemplos dessa opção
literária
146
.
O assunto do poder de Eros, tão caro aos alexandrinos, é o objeto do Idílio XIII
147
,
em cujos versos Teócrito demonstrava que nem mesmo o herói tiríntio escaparia do império
daquele deus. O argumento utilizado pelo poeta foi simples e relatou o desespero de Héracles
145
FLACO, Valério. – Las Argonauticas. Tradução por Santiago López Moreda. Madrid: Akal/Clásica, 1996. 19p.
146
A opção de situar cronologicamente Teócrito como iniciador da tradição alexandrina provém da opinião do
tradutor francês, que o apresenta como fonte de inspiração para Apolônio de Rodes. In THÉOCRITE,
MOSCHOS, BION. Op. Cit.217p.
147
THÉOCRITE, MOSCHOS, BION. Op. Cit. 69p.
79
pelo desaparecimento de Hilas, seu jovem e belo amado. Por sua vez, o tema do Idílio XXII
148
é a celebração dos Dióscuros deuses favoráveis aos mortais, em particular aos marinheiros
achacados pelas tempestades
149
. Para tanto, Teócrito (na primeira metade do poema, que trata
propriamente da saga argonáutica) narrou a vitória de Pólux contra Âmico, o rei pugilista. Tal é
a suma dos acontecimentos: durante a travessia da nau Argo, após a travessia dos Rochedos
Moventes, os heróis alcançaram o país dos Bebrícios. Lá, Cástor e Pólux saíram pelos campos,
em reconhecimento do terreno. No curso das andanças, os dois heróis encontram Âmico, um
homem insolente e cruel, que provocava os estrangeiros a lutar. Pólux aceitou o desafio e,
apesar do porte gigantesco e da extraordinária força do adversário, abateu-o com seus golpes.
No entanto, graças à sua generosidade, o Dióscuro não o matou, sob a condição de que Âmico
nunca mais molestasse os estrangeiros.
Ambos os episódios descritos por Teócrito foram rapidamente incorporados à
tradição literária da saga argonáutica. Tanto que poucos anos depois, na geração seguinte de
poetas alexandrinos, os dois episódios já entraram na composição da primeira versão completa
da gesta dos marinheiros jasônicos que alcançou a modernidade as Argonautica, de Apolônio
de Rodes (séc. III a. C.). Nesse longo poema épico alexandrino, o caráter coletivo e não
belicoso da expedição marítima substituiu os antigos modelos heróicos e aristocráticos
herdados de Homero (iliádicos e odissíaco)
150
, inadequados aos tempos cosmopolitas e
relativamente pacíficos do helenismo. Mais uma vez, a preocupação com a erudição encontrou
na saga dos marinheiros desbravadores do Ponto Euxino um veículo apropriado para a
exposição dos elementos geográficos, culturais, antropológicos, religiosos e históricos. Além
148
THÉOCRITE, MOSCHOS, BION. Op. Cit. 101p.
149
THÉOCRITE, MOSCHOS, BION. Op. Cit. 223p.
150
ROCHA PEREIRA, Maria H. Estudos de História da Cultura Clássica – Volume I, Cultura Grega. 10ª ed. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian. 2006. 76/78pp.
80
disso, com a valorização cortesã dos elementos eróticos da galanteria, o envolvimento amoroso
entre Jasão e Medéia achou campo fértil entre os leitores
151
.
Vê-se, assim, que na versão rodiana do canto náutico jasônico a narrativa mítica
tratada por tantos poetas expandiu-se e aprofundou-se ganhou detalhes, nuanças e
apresentou tradições pouco conhecidas e raras. Por sua vez, a tradição literária foi
meticulosamente compilada, de tal sorte que os incontáveis elementos variantes do mito,
advindos do legado literário tão valorizado pelos círculos de poetas e pensadores sustentados
pelo Museu, foram incorporados à narrativa, de tal maneira que a raridade e a preciosidade das
citações engrandeciam o poema
152
.
Eis o resumo de seu argumento
153
. O Canto I inicia-se com a chegada do jovem
príncipe Jasão às terras de seus antepassados, para reclamar o trono que fora usurpado de seu
pai Éson por seu tio Pélias. Avisado, por antigas profecias, da ameaça que o sobrinho
representava, o astuciosos e dissimulado tirano prometeu, então, restituir-lhe os direitos caso o
rapaz conseguisse viajar à misteriosa e longínqua terra da Cólquida e de trouxesse para os
altares de Iolcos o Velocino de Ouro. Assim, na companhia de cinqüenta e cinco
companheiros
154
ávidos por glória e por renome, Jasão embarcou na nave encomendada a
Argos por Atena, e, com eles, viajou pelo Egeu em direção ao Bósforo. No caminho,
entretanto, a expedição arribou na ilha de Lemnos e seus tripulantes conheceram e coabitaram
com as facínoras que pouco tempo antes haviam exterminado da ilha todos os homens. Se, no
151
TRYPANIS, C. A. The Character of Alexandrian Poetry. Greece and Rome, vol. XVI, nº 46, Jan. 1947. 2p. e ss.
152
EASTERLING, P. E; KNOX, B. M. W. Historia de la Literatura Clásica (Cambridge University) – I Literatura Griega.
Madrid: Editorial Gredos. 1989.634p.
153
RHODIO, Apollonio. Os Argonautas. Tradução José Maria da Costa e Silva. Lisboa: Imprensa Nacional. 1852.
154
Rol dos Argonautas, na ordem disposta por Apolônio de Rodes, nas Argonáuticas (vv. 23-226): Jasão, Orfeu,
Astérion (filho de Cometes), Polifemo (filho de Élato), Íficlo, Admeto, Eurito, Équion, Etálide, Corono, Mopso,
Euridamas, Menécio, Eurícion, Euríbotes, Oileu, Canto, Ífito, Clício, Peleu, Telamon, Butes, Falero, Teseu, Tífis,
Flias, Talau, Aréio, Leódoco, Héracles, Náuplio, Idmon, stor, Pólux, Ida, Linceu, Periclímeno, Anfidamas,
Cefeu, Anceu (filho de Licurgo), Áugias, Astérion (filho de Heperásio), Anfião, Polifemo e Anceu (filhos de
Posseidon), Ergino, Meleagro, Lacoonte, Eneu, Íficlo (filho de Téstio), Ífito, Zetes, Calais, Acasto, e, Hilas ( que
não era remeiro, mas valete de Héracles).
81
poema de Píndaro, a nau Argo aportara na ilha de Lemnos no retorno da viagem, foi no início
da expedição que Apolônio de Rodes dispôs a chegada dos Mínios, em uma primeira e
marcante variação do mito, que se justifica pelo caráter preparatório das aventuras eróticas
posteriores de Jasão. Ademais, no canto de Apolônio, o crime das mulheres foi descrito apenas
de modo sucinto, enquanto a estada dos argonautas entre as lemnianas foi alongada a ponto de
despertar a furiosa reação de Héracles, que recriminou os sócios pela demora inglória. Não é
sem razão que esse episódio costuma ser relacionado com a estada de Ulisses na ilha de
Circe
155
. Seguindo novamente a rota em direção ao levante, os navegantes alcançaram a ilha de
Samotrácia, onde foram iniciados em seus Mistérios. Daí, atingiram a terra dos Doliões, cujo
rei Cízico os recebeu como anfitrião generoso, e ao lado de quem os argonautas combateram
os gigantes que acossavam a região. Abastecidos de provisões e água, os marinheiros, a seguir,
retornaram ao mar. E o fizeram após amigáveis despedidas e votos de mútua felicidade.
Entretanto, por obra dos Fados, a noite mudou a rota do baixel e fez os heróis retornarem à
ilha de Cízico, sem que soubessem o rumo que tomavam. E como a noite lhes toldasse a visão,
os argonautas entraram em luta contra os ilhéus e chacinaram o rei e seu exército. Quando,
todavia, a manhã lhes mostrou a tragédia, eles, compungidos, sofreram e, por doze dias,
expiaram o crime. depois de purificados os nautas, os deuses permitiram a continuação da
jornada. Um novo episódio foi então narrado. Apolônio incorporou ao mito dos argonautas o
tema do rapto de Hilas, abordado por Teócrito. racles, que trucidara os pais do rapaz,
tomara-o como valete para carregar seu arco e, tendo partido o remo no esforço da navegação,
precisou desembarcar para conseguir um olmo com o qual faria novo remo. Hilas o
acompanhava, até ser atraído pelas ninfas, que o imergiram na correnteza, matando-o.
Polifemo, um dos argonautas, ouviu-lhe os gritos e contou ao Tiríntio o que ocorrera.
155
BEYE, Charles R. Ancient Epic Poetry Homer, Apollonius, Virgil. 1. ed. London: Cornell University Press,
1993. 199p.
82
Héracles, portanto, tomado de dor, partiu em busca do amigo, perdendo-se nas matas. Antes
de seu retorno, porém, chegou a manhã e os Argonautas, sem darem pela falta dos três
tripulantes, partiram novamente. O antigo herói
156
, representante da tradição homérica e dos
valores de uma sociedade arcaica foi, assim, abandonado, possibilitando o aperfeiçoamento de
um novo modelo heróico cosmopolita, cortesão e não misógino
157
de um mundo alexandrino,
representado por Jasão.
O episódio seguinte abre o Canto II. Trata-se de outro tema já abordado por
Teócrito: o combate de Âmico e Pólux. Nesse trecho da épica alexandrina, o rei dos Bebrícios
desafiou os nautas que desembarcaram em sua ilha a um combate singular de pugilato. Pólux,
intrépido, aceitou o desafio e venceu o gigante, matando-o, ddiferentemente da versão de
Teócrito. Era a reafirmação do episódio de abandono de Héracles, porquanto Âmico, assim
como o Tiríntio, representava as virtudes decadentes de um mundo arcaico não suportável
para os padrões alexandrinos. Âmico, portador da βίη
158
, foi, como Héracles, o herói solitário,
tosco e rude, que deveria ser vencido pela τέχνη do jovem herói ágil, charmoso e cooperador.
Como racles, Âmico era uma caricatura
159
do herói primário e não civilizado, segundo os
conceitos de Alexandria. Apolônio, assim, reafirmava sua aversão pelos padrões pretéritos de
valor. De volta ao mar, contudo, a próxima parada do navio deu-se na ilha onde Fineu era
achacado constantemente pelas terríveis harpias, que lhe tomavam da boca os alimentos e
emporcalhavam suas refeições, castigando-o com a fome. Fineu, um rei dotado de
clarividência, cunhado dos Boréades, recebera tal punição de Zeus por ter revelado seus
desígnios secretos, como narrado por Hesíodo. Sua esperança era ser libertado pelos filhos
156
GARSON, R. W. “The Hylas Episode in Valerius Flaccus’ Argonavtica”. In The Classical Quarterly, New Series,
Vol. 13, No.2, Nov, 1963. 260p.
157
BEYE, Charles R. Ancient Epic Poetry Homer, Apollonius, Virgil. 1. ed. London: Cornell University Press,
1993. 202p.
158
CUYPERS, M. P. Apollonius Rhodius. Argonautica 2.1-310 A Commentary. Proefschrift ter verkrijging van de
graad van Doctor aan de Rijksuniversiteit te Leiden. Leiden. 1997. 5p.
159
CUYPERS, M. P. Op. Cit, 8p.
83
de Bóreas, que espantariam as harpias, como de fato ocorreu. Zetes e Calais perseguiram as
“cadelas de Zeus” até as Ilhas Flutuantes, quando Íris intercedeu, enviada pelo Pai dos Deuses,
salvando da morte as híbridas monstruosidades. Em recompensa à sua libertação, Fineu
predisse aos navegantes o sucesso da empresa e ensinou-lhes a passar pelos Rochedos
Moventes: que mandassem uma pomba para atravessar os escolhos e que a seguissem, caso
esta sobrevivesse. Tal seria o último percalço que os argonautas enfrentariam antes de chegar à
Cólquida. Então, como predito pelo cego adivinho, os marinheiros zarparam e alcançaram as
terríveis ilhas Ciânidas. Seguindo a orientação recebida, enviaram a pomba e remaram após ela,
com toda a força dos braços heróicos. Em socorro a eles, Atena desceu do céu e ajudou-os a
vencerem mais aquele desafio. Em seqüência, os intrépidos heróis viram a passagem de Apolo,
que cruzava os céus em sina de bonança; viram, a seguir, o túmulo de Esteneu; viram o
Aqueronte, o Termodonte, o país dos Cálibes, a terra dos Mariandinos, a região das Amazonas
e, nas imediações da Ilha de Ares, encontraram os filhos de Frixo, que os conduziram à foz do
rio Fase, onde o mar Negro terminava.
Inicia-se, então, o Canto III, em uma interessante inversão da modalidade do canto
do poeta. Até então, a narrativa era regida pela invocação inicial, feita a Apolo no princípio da
obra
160
. nesse terceiro Canto, foi a Érato que Apolônio de Rodes invocou, colocando-se à
disposição da Musa do Canto Amoroso; e foi Afrodite a deusa a quem ele nomeou logo a
seguir:
Sus! Agora me assiste, Erato, e conta
Como a Iolchos Jason o véllo de ouro
Co’favor de Medea conduzíra;
A ti de Vênus o mister foi dado,
160
“Com teus auspícios, cantarei, ó Phebo,
Os antigos Heroes, que aventurosos
Por Pélias demandando o velo d’ouro,
Do Ponto pela foz, e Cyaneas rochas
Argo, náo bem travada, pilotaram”
Os Argonautas, I, 1p –Tradução José Maria da Costa e Silva.
84
E com disvelos teus inuptas Virgens
Amansas, e d’ahi vem teu nome amavel
Os Argonautas, II, 123p – Tradução José Maria da Costa e Silva
161
Sob a invocação da Musa amorosa, o Canto III das Argonautica rodianas, então,
descreve o envolvimento de Jasão e Medéia, bem como as provas que o jovem herói venceu
para conquistar o velocino. Nesses versos, a todo instante, os poderes de Afrodite se
afirmaram, em uma visão, mais uma vez tipicamente alexandrina, de que excelência do herói
seria representada por seu poder de sedução. Novos elementos, a seguir, foram adicionados ao
mito. com os argonautas desembarcados na Cólquida, Hera e Atena aliaram forças a fim de
conquistar para Jasão o indispensável apoio de Afrodite. Esta, atendendo ao pedido das duas
outras deusas, concedeu que Eros, seu filho, intercedesse na trama e flechasse Medéia, para
que esta, inflamada de amor, ajudasse o Esônide. Eros concordou em atender o pedido da
mãe; tanto que, quando Jasão se dirigia ao palácio do rei dos Colcos a fim de pedir-lhe o velo
do carneiro que transportara seu antepassado pelo mar, Hera fê-lo encontrar-se com a jovem
Medéia – e o filho de Afrodite a atingiu certeiro, levando-a a apaixonar-se imediatamente pelo
garboso herói. Por seu turno, Jasão, diante do trono, reivindicava o tosão a Eetes, que se
enfureceu. No entanto, por dever de hospitalidade, o rei não pôde mandar matar o
comandante da nau Argo, mas propôs-lhe, em contrapartida, dura provação: para merecer o
pelame dourado, o jovem tessálio deveria jungir os touros bronzípedes e ignívomos que lhe
haviam sido dados de presente por Hefesto; além disso, deveria semear, com os dentes da
serpente de Cadmo, as messes traçadas pela charrua, das quais nasceriam guerreiros de pedra,
que teriam de ser derrotados. Sem qualquer outra opção, Jasão aceitou o repto, enquanto
Medéia, que a tudo observava, sofria pela certeza da morte de seu amado. Combalido, Jasão
161
RHODIO, Apollonio. Os Argonautas. Tradução José Maria da Costa e Silva. Lisboa: Imprensa Nacional. 1852.
123p
85
retornou para junto dos seus, pronto para encarar seu fim. Mas Argos, filho de Frixo, dispôs-se
a ajudá-lo. Para tanto, pediu à sua mãe Calcíope que intercedesse junto a Medéia para que esta,
conhecedora de magias e de poções, salvasse o capitão dos Minios. Fê-lo Calcíope e Medéia, já
predisposta em razão de seu amor, acedeu aos rogos da irmã, preparando o feitiço, que
entregou a Jasão no dia seguinte, no templo de Hécate. Em retribuição, este lhe prometeu o
casamento. Graças ao feitiço, Jasão, então, conseguiu jungir os touros, semear os dentes da
serpente e matar os guerreiros de pedra, com o artifício de lançar no meio deles uma grande
pedra, incitando-lhes a discórdia. Enquanto isso, Eetes, amargurado, a tudo assistia.
Abre-se o Canto IV. Medéia, resolvida a continuar prestando socorro a Jasão,
despediu-se do leito, do quarto e do palácio de seus antepassados. Acompanhou, então, o
louro herói até a floresta, onde, sobre um carvalho, o Velocino resplandecia. A serpente
guardiã, chamada pela jovem feiticeira, aproximou-se, mas Medéia, com um encantamento, fez
o monstro adormecer. Então, de posse do tão almejado pelame dourado, Jasão e a princesa
partiram para a Nau, que os esperava pronta para zarpar. Daí, os tripulantes fugiram da
Cólquida, navegando ao largo do Danúbio, em direção ao mar Adriático. Nesse ínterim, Eetes,
que descobrira o roubo e o rapto de sua filha, mandou que seu filho Absirto os seguisse; e este
o fez, alcançando-os na ilha de Ártemis, onde, numa emboscada, Medéia convenceu Jasão a
matá-lo. O capitão hemônio assim procedeu. Contudo, o crime de sangue abateu o ânimo da
tripulação. Maculados pelo assassínio, os argonautas foram, então, informados pela Nau falante
– cujo mastro de carvalho do monte dodônio, fornecida por Atenas, tinha dons proféticos – de
que, para recuperarem o vigor, deveriam ser purificados por Circe. Por isso, a embarcação
dirigiu-se para a ilha da feiticeira tia de Medéia, que os purificou embora o soubesse qual
fora o crime cometido. Depois, a navegação pôde prosseguir. Com a ajuda de Tétis, Argos
conseguiu vencer os perigos de Cilas e Caríbdis, chegando, finalmente, ao reino de Feácios,
86
onde Alcino os recebeu e os hospedou. Nesse meio tempo, arribou na ilha um navio de Eetes,
que pedia a devolução de Medéia. Alcino, zeloso pelos deveres de hospitalidade, informou-lhes
que entregaria a princesa ao pai se ela ainda se mantivesse virgem. Sabedores da condição,
Jasão e Medéia casaram-se imediatamente, garantindo, assim, a salvaguarda da princesa. Daí,
em retorno à Acaia, um mau tempo levou a nau até as costas da Líbia. Perdidos no deserto, os
marinheiros foram, contudo, salvos pelo sonho de Jasão, que lhes instruiu sobre a saída. Eles
carregaram nos braços o navio até um lago, encontrando Tritão que os ajudou a partir.
Alcançaram, então, Creta, onde Medéia mata, por telepatia, Talos, o último gigante de Bronze,
e chegaram, finalmente, à Tessália, pondo fim à expedição.
Terminava, assim, a saga argonáutica rodiana, com final feliz, bastante adequado ao
gosto cortesão alexandrino. Os desdobramentos nefastos da história de Jasão e Medéia não
couberam na narrativa aventureira, abordados pelos trágicos clássicos atenienses. Por outro
lado, a riqueza de detalhes e de informações étnico-geográfico-culturais ao gosto ptolomaico
garantiu a perenidade da obra, em sua inteireza para a posteridade. O herói cosmopolita
helenístico estava descrito, o romance entre Medéia e Jasão bem representava a influência do
asianismo que se espraiava pela cultura literária da época.
4. Do Período Republicano Latino até os Neotéricos
Tributária imediata do helenismo, a literatura latina teve seus primórdios ligados à
tradução de textos gregos
162
, por meio dos quais, romanizados desde as produções de Lívio
Andronico, construiu-se também um corpus literário do mito Argonáutico e dos amores de
Jasão e Medéia.
162
ROCHA PEREIRA, Maria H. Estudos de História da Cultura Clássica. Ed. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2002. 95p.
87
Sabe-se, por citação de Cícero, que o vetusto Ênio traduziu a Medéia de Eurípides:
Desse gênero é isso, de Ênio:
Oxalá no bosque do monte Pélio, pelos machados
Cortadas, não houvessem caído à terra as traves de abeto!
E:
Pois nunca minha errante senhora levaria para fora de casa o pé,
Ó Medéia, de espírito triste, ferida por cruel amor.
Tradução – José Rodrigues Seabra Filho
163
É bem verdade que da tradução feita por Ênio da tragédia euripidiana não restam
elementos suficientes para que possam ser traçadas quaisquer variantes do tema argonáutico,
nem mesmo para que se compreenda o motivo da escolha do tema. No entanto, a sua mera
existência já demonstra o interesse dos escritores latinos pelo assunto.
As primeiras variantes da saga marítima legadas pela tradição literária latina aparecem,
de fato, na obra de Catulo, mais precisamente no célebre Poema 64, Epitalâmio de Tétis e Peleu.
Trata-se de um dos carmina docta da coleção catuliana, ou seja, um dos poemas de maior
vinculação com a poética alexandrina, cujas características neotéricas sicas podem ser
definidas por sua rebuscada elegância formal e pela notável inspiração erudita
164
. Nesse epílio
gênero considerado como o exemplo de excelência poética no período Catulo narrou as
núpcias de Peleu e de Tétis, em dois momentos o enamoramento e a festa nupcial.
Entremeando os dois episódios, o mito do abandono de Ariadna parece oferecer um
contraponto ao exemplo de fidelidade e constância conjugal, objeto principal da escolha do
enredo mítico:
Diz-se que outrora pinheiros nascidos no cimo do Pélio navegaram pelas límpidas
águas de Netuno até as ondas do Fásis e ao país de Eetes, quando jovens escolhidos, flor da
163
CÍCERO. Sobre o Destino. São Paulo. Nova Alexandria. 1993.27p.
164
CITRONI, M; CONSOLINO, F. E.; LABATE, M.; NARDUCCI, E. Literatura de Roma Antiga. Lisboa.
Fundação Calouste Gulbenkian. 2006. 372p.
88
raça Argiva, desejosos de tirar aos Colcos o velo de oiro, ousaram percorrer numa popa ligeira
as salsas ondas, batendo o mar cerúleo com remos de abeto. Foi a própria deusa que, no alto
das cidades, guarda as fortalezas, quem lhes construiu, juntando o madeiramento de pinho do
casco recurvado, o carro que voa ao menor sopro. Foi ela a primeira que ensinou a percorrer a
ignorante Anfitrite. Logo que com o esporão cortou o mar ventoso e a onda ferida do remo
ficou branca de espuma, as nereides puseram os rostos selvagens fora do branquejante abismo,
admirando aquela maravilha. E só naquele dia viram olhos mortais as Ninfas marinhas de corpo
nu elevar-se, até os seios, do branco abismo. Diz-se que, então, Peleu se apaixonou por Tétis,
que foi então que tis não desprezou as núpcias com um homem, que então o próprio pai
julgou dever ligar Peleu e Tétis. Salve, heróis que nascestes em época tão desejada, salve filhos
dos deuses, salve ainda, ó boa progênie das es. Muitas vezes vos hei de invocar nos meus
versos, a ti sobretudo, Peleu, sustentáculo da Tessália, tu que foste honrado com um casamento
feliz, a quem o próprio Júpiter, pai dos deuses, cedeu seus amores”
165
.
Três elementos merecem, pois, ser destacados nessa versão neotérica da jornada
marinheira. Imediatamente, salta aos olhos o momento do primeiro encontro de Peleu e Tétis,
cuja tradição fazia remontar a um tempo pretérito ao da expedição. Em Apolônio de Rodes,
por exemplo, foi graças à preexistente ligação entre a deusa e o mortal que o navio conseguiu
vencer os perigos de Cilas e Caríbdis. em Catulo, por seu turno, os pais de Aquiles viram-se
e enamoraram-se apenas quando o barco alcançou as salsas águas do mar.
Outro elemento variante do mito encontrado no poema de Catulo refere-se à primazia
na abertura do mar por Jasão e seus companheiros. Até então, a expedição dos Argonautas era
tida como inaugural não apenas da travessia do Ponto Euxino, mas de toda a navegação
166
,
como o próprio Catulo faz saber em seu verso 11:
Foi ela a primeira que ensinou a percorrer a ignorante Anfitrite
167
Explicando quem seja Anfitrite, diz o tradutor português:
Anfitrite, deusa do mar, ainda não conhecia a navegação
168
.
165
CATULO. Poesias. Coimbra. Imprensa da Universidade. 1933. 69p.
166
TORRES-MURCIANO, Antonio R. El Proemio de Valerio Flaco. Una lectura retórica. Cuadernos de Filologia
Classica. Estúdios Latinos. Madrid. Universidad Complutense de Madrid. 2005. 81p.
167
CATULO, Op. Cit. 69p.
168
CATULO, Op. Cit. 69p. nota 7.
89
Entretanto, o mesmo Catulo, e no mesmo poema, retirou da nau Argo a qualidade de
primeiro navio, uma vez que a travessia de Teseu, descrita na ékphrasis do bordado do puluinar
contemplava essa mesma façanha. Argo, contudo, mantém sua importância, embora não
mais persista na qualidade inaugural:
Esta coberta, matisada de figuras de homens antigos, representa com arte maravilhosa
as valorosas acções dos heróis. Olhando para longe, no litoral de Dia que retumba com o ruído
das ondas, Ariadna, com a alma cheia dum furor indomável, Teseu afastar-se com a frota
célere
169
.
O terceiro e talvez o mais importante elemento do mito argonáutico adicionado
por Catulo foi o caráter sacrílego da viagem
170
. Essa percepção da abertura do mar como
nefasta acarretaria, segundo a versão do poeta de Verona, o próprio fim da Idade de Ouro
(note-se que não se trata da versão hesiódica do mito das raças)
171
:
Mas, depois que a terra se imbui do crime nefando e todos expulsaram a justiça das
mentes cubiçosas, os irmãos mergulharam as mãos no sangue fraterno, o filho deixou de chorar
a morte dos pais, o pai desejou o funeral do filho na flor da indade, para se apoderar da
virgindade de uma donzela e a tornar madrasta, e a mãe ímpia, dentando-se sob o filho
ignorante, não temeu, a ímpia, profanar os deuses Penates; a confusão que, por delírio, se fez
do bem e do mal afastou de nós o espírito justo dos deuses, e por isso se não dignam visitar as
nossas reuniões nem se deixam tocar à clara luz do dia
172
.
Ainda em referência ao período neotérico da literatura clássica, tem-se conhecimento
da existência de uma primeira versão latina das Argonauticas, escrita por Varrão Atacino, hoje
perdida. Ao que parece, tratava-se de um poema em quatro cantos, de feição rodiana, citado
169
CATULO, Op. Cit. 71p.
170
TORRES-MURCIANO, Antonio R. Op. Cit. 83p.
171
Seguem-no: Val. Fl. 1. 3-4: ausa sequi .../rumpere; Hor. Carm. 1.3.25-6: Nequicquam deus abscidit/
prudens Oceano dissociabile/ terras, si tamen impiae/ non tangenda rates transiliunt vada./ Audax omnia
perpeti/ gens humana ruit per uetitum nefas; Sen. Med. 301-2: audax nimium qui freta primus/ rate tam fragili
perfida rupit.
172
CATULO, Op. Cit. 89p.
90
por neca o Retor –, e por Probo
173
. Entretanto, apesar de provavelmente bem traduzida e
de ter alcançado certa notoriedade em seu tempo, sobre essa obra o julgamento mais corrente
foi aquele deixado por Quintiliano, ainda nos finais do Século I: Varrão teria sido apenas o
interpres operis alieni – ou, um intérprete da obra alheia
174
5. Período de Augusto, ou Geração de Ouro da Literatura Latina
É consensual que o apogeu da literatura latina tenha coincidido com o principado de
Augusto. Nesse período, em que a tônica nacionalista era incentivada pela política de
propaganda capitaneada por Mecenas, a produção literária foi favorecida pela formação dos
círculos literários em voga na Roma do início do Império. O empenho do Princeps em
robustecer as instituições pátrias suscitou o retorno aos elogios das antigas virtudes e da
história romana, em auxílio à proposta otaviana da solidificação da Pax augustea. Entretanto,
embora não apresentasse vinculação direta com o passado glorioso da Urbe, a temática do
ciclo argonáutico não foi jamais esquecida pelos poetas da Geração Áurea. Muitas foram as
referências, diretas e indiretas, aos feitos dos navegantes de Argo nessa época, haja vista, entre
muitos exemplos possíveis, o Canto IV da Eneida, em que os sofrimentos da Medéia rodiana
foram fonte de inspiração para o desespero de Dido
175
, ou o ainda a tragédia de Ovídio, Medéia,
infelizmente hoje perdida.
Quanto a Ovídio, sua predileção pelo tema argonáutico é evidente. Em suas cartas
imaginárias dos amantes, as Heroides, o autor sulmonense guardou duas missivas para Jasão, em
cujo teor algumas variantes do tema podem ser encontradas: uma de Hipsípila e outra de
173
FLACO, Valério. – Las Argonauticas. Tradução por Santiago López Moreda. Madrid: Akal -Clásica, 1996. 19 p.
174
Quintiliano, Inst. Orat. X, 1, 87.
175
HENRY, R. M. “Medea and Dido”. The Classical Review. Vol. 44. nº 3. Jul. 1930. 99p.
91
Medéia. Certamente, a abordagem do mito pelo poeta o mais guardava nenhuma relação
direta com sua etiologia; no entanto, permitia-lhe, apesar de sua artificialidade, representar
emoções tipicamente humanas – desesperança, ciúmes e ira.
Na Epistula Sexta Hypsipyle Jasoni
176
Hipsípila, filha do rei Toas, ao saber do regresso
da expedição dos argonautas à Tessália, e das aventuras por que Jasão, seu amado, teria
passado – inclusive seu casamento com Medéia –, lamentou-se pela traição. Grosso modo, não
há divergências acentuadas entre a versão de Ovídio e aquela herdada de Apolônio de Rodes e,
presumivelmente, a de Varrão Atacino. Entretanto, alguns poucos elementos, ou novas
variantes do mito, podem ser extraídos dos versos elegíacos. Nos versos 44 e 45, a notícia
do casamento da rainha de Lemnos com o comandante da nau:
Juno, deusa do casamento,
Compareceu, e Himeneu, com as têmporas cingidas por guirlandas
177
Logo adiante, no verso 48, Hipsípila se dirigiu a Tífis como se este, o primeiro piloto
da nave, a quem Minerva ensinara a arte da navegação e que morrera (segundo a versão
rodiana) à entrada do Ponto Euxino, permanecesse vivo, quando do retorno da expedição:
E tu, piloto Tífis, que te importa minha pátria?
178
Outra variante do mito, fornecida por Ovídio nos versos 56 e 57, foi a duração de mais
de dois anos da jornada. Ressalte-se apenas que, para Apolônio de Rodes, a viagem estendera-
se apenas por poucos meses:
E, para ti duas vezes o verão e duas vezes o inverno passaram,
176
OVIDE. Les Héroïdes. Paris: Librarie Garnier Frères. 1932. 77p. e ss.
177
(...)Pronuba Juno
Adfuit, et sertis tempora vinctus Hymen.
Heroides, VI, 44/45.
178
Quid tibi cum patria, navita Tiphy, mea?
Heroides, VI, 48.
92
E a terceira colheita chegava, quando tu...
179
Interessam ainda os elementos dispersos por todo o poema, cujas citações se tornam
inviáveis em excertos. Por exemplo, é curiosa a seqüência iniciada pelo verso 79, em que
Hipsípila asseverou que sua união com Jasão teria sido motivada pelo desejo despertado no
varão em razão da beleza e da virtude da lemniana, enquanto o amor por Medéia teria tido sua
matriz nos encantamentos da feiticeira colca em uma inversão do modelo de Apolônio que
atribuía aos poderes de Eros o nascimento da paixão. Do mesmo modo, a valorização de
Hipsípila nos versos 135 e ss., pelo elogio à sua piedade filial virtude tipicamente romana –,
encerra a seqüência de variantes nessa sexta composição das Heróides.
A outra carta ovidiana endereçada ao herói mínio é a Epistula Duodecima – Medea
Jasoni
180
. Trata-se do pedido de Medéia para que Jasão conservasse consigo os filhos, embora
ela partisse. É o momento em que se prepara o desfecho tradicional dado pelos tragediógrafos
ao mito, quando a princesa ultrajada pedia ao marido que recebesse os filhos, em um plano
macabro anunciado pelo verso final do poema:
Que tenha em conta tudo isso o deus que me revolve, agora, o coração;
É um não sei quê mais grandioso que a minha alma vai tramando.
181
Heróides, XII, 211/212 – Tradução de. Carlos Ascenso André
Antes, porém, Ovídio acompanhara mais uma vez a tradição estabelecida pelo autor
alexandrino, utilizando, entretanto, a versão euripidiana do mito, porquanto fizesse constar o
assassinato perpetrado pelas filhas de Pélias, objeto dos ciclos trágicos. Um detalhe, todavia,
179
hic tibi bisque aestas bisque cucurrit hiems.
tertia messis erat, cum tu...
Heroides, VI, 56/57.
180
OVIDE. Op. Cit. 137p e ss.
181
Vederit ista deus, qui nunc mea pectora versat:
Nescio quid certe mens mea majus agit.
Heroides, XII, 211/212
93
apresenta-se variante com relação ao mito até então celebrado na literatura. Medéia anunciou a
possibilidade do irmão Absirto não ter sido simplesmente morto por Jasão e por ela enterrado,
como na versão rodiana. Na realidade, ela assumiu a culpa como inteiramente sua, em um ato
tão nefando que o autor se recusou a registrá-lo no dístico dos versos 115 e 116:
O que minha mão ousou fazer, não ousa ela escrevê-lo,
Assim devia eu, mas contigo, ter sido esquartejada.
182
Heroides, XII, 115/116 – Tradução Carlos Ascenso André
De grande importância também para o ciclo argonáutico latino foram os Fastos
183
, a
inacabada obra de Ovídio cujo tema versava sobre as efemérides romanas o registro, dia a
dia, dos acontecimentos históricos, religiosos e mitológicos comemorados na Urbe. Foi nessa
obra que o poeta narrou, em versos hexâmetros, a fábula de Heles e Frixo:
Agora, olhando o sol, dizer já podes:
- “Brilhou ontem no aurígeno carneiro.” -
Memoremos-lhe a história: Os grãos de Ceres,
Tostados por traição da ímpia madrasta,
Sem proveito nos sulcos se espargiam;
Nem felpa de verdura à luz brotava,
Dos negrejantes chãos; tremenda a fome
A Tebas ameaçava. Núncio mandam
A consultar a Trípode em Delfos;
Desse infalível deus conselho aguardam,
Que fecunde o solo. Mas o núncio
Vai já da mesma pérfida peitado.
Volve e diz ser do oráculo resposta,
Que, se querem colheita, o sangue vertam
Da princesa e do príncipe; o teu, Heles;
Viçoso Frixo o teu. Resiste à ordem
No régio peito o coração paterno.
Mas o povo, a penúria, Ino madrasta,
Constrangem-no a ceder à lei nefanda.
Ei-los perante as aras retoucados
De frôndeos ramos, vítimas consocias,
Irmão no afeto, irmão na desventura,
E ambos carpindo o seu comum desastre.
A mãe, que neste lance anda pairando
182
quod facere ausa mea est, non audet scribere dextra.
sic ego, sed tecum, dilaceranda fui!
Heroides, XII, 115/116
183
OVÍDIO. Fastos. Tradução António Feliciano Castilho. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. Editores. 1964.
105p e ss.
94
Lá nos altos do ar os vê; delira;
Fere o peito; de chofre, envolta em nuvens,
Descende à draconígena cidade,
Rouba-lhe os filhos seus; para que fujam
Lhes entrega aurifúlgido carneiro;
Leva-os ele através das vastas ondas.
De Heles a esquerda mão mal firme às pontas
Desfalece, despega-se; precipite
Cai a mísera, afunda-se no pego,
Desde então Helesponto apelidado.
O irmão, que inda lidou para acudir-lhe,
Ia tendo igual sorte. As mãos estende,
Chora, crendo afogada a companheira
Dos infortúnios seus; inda não sabe
Que o deus do campo azul a quis por sua.
Já na praia aportou. Sobe às estrelas
O carneiro, astro novo; mas o velo
Grenha de ouro, é mandado à régia Colchos.
Fastos, III, 849/876 – Tradução de António Feliciano Castilho.
Da obra de Ovídio ainda resta um largo exemplo, talvez o de maior envergadura e
extensão, do uso do mito argonáutico na literatura latina do período de Augusto os 394
primeiros versos do Livro VII das Metamorfoses
184
. Nesses versos, dispostos na seção do carmen
perpetuum reservada às histórias de amores patológicos e de paixões contrárias à natureza
(juntamente com a história de Tereu, cuja violência para com a cunhada Filomela é punida por
Procne, que lhe prepara uma refeição com a carne de Ítis, seu próprio filho; de Cila, que traíra
a pátria e os parentes; de Bíblis e de sua paixão incestuosa pelo irmão Cauno; de Mirra, que se
apaixona pelo pai; de Céfalo e Prócris, com seus trágicos equívocos; de Céix e Alcione,
separados pela morte e reunidos pelas metamorfoses, etc)
185
, encontra-se o exemplo de Medéia,
que atraiçoara a pátria e os pais e que sacrificara os laços de sangue em prol de um amor
desvairado, justificando-se, assim, o uso do mito. No entanto, como nenhuma variante
importante da narrativa dos argonautas foi inserida no corpo do poema ovidiano, apenas seu
registro faz-se importante, sem necessidade de detalhamento de seu enredo.
184
OVÍDIO. Metamorfoses – Volume I. Lisboa: Editora Nova Vega. 2006. 304p. e ss.
185
CITRONI, M; CONSOLINO, F. E.; LABATE, M.; NARDUCCI, E. Literatura de Roma Antiga. Lisboa.
Fundação Calouste Gulbenkian. 2006. 599p.
95
Outro autor do período augústeo que tratou do mito dos argonautas foi Higino. Não
comportando aqui a discussão quanto à datação precisa de sua vida, basta que seja aceito o
consenso de que, se o autor não é aquele liberto de Augusto – nomeado pelo imperador para o
cargo de organizador da Biblioteca Palatina conforme notícia de Suetônio –, teria, pelo menos,
vivido no primeiro século da era cristã, o que não rompe totalmente a seqüência cronológica
até aqui estabelecida
186
.
Sob esse argumento, é do autor das Fabulae a primeira versão latina em prosa integral
da história de Jasão e Medéia. Sem se deter nas aventuras e peripécias marítimas dos
argonautas, Higino teve por foco de sua sucinta narrativa os seguintes tópicos: Frixo, Eetes,
Absirto, Jasão e as Filhas de Pélias, Medéia e Medéia Desterrada. Trata-se, provavelmente, de
resumos de peças teatrais perdidas, com exceção da Medéia, de Eurípides.
Em Phrixus, o pretenso bibliotecário de Augusto contou a história da fuga de Frixo e
de Heles, filhos da Nuvem. Por intervenção da mãe, os dois foram salvos sobre um carneiro
dourado, filho de Netuno e Teófanes, o qual Nuvem ordenou ser imolado em honra a Marte
tão logo alcançasse a Cólquida. No percurso, porém, Heles caiu no mar, nomeado, desde
então, Helesponto. Frixo, entretanto, chegou à Colquida e, seguindo os conselhos da mãe,
imolou o carneiro e depositou o pelame dourado no templo de Marte. Frixo, de bom grado,
recebeu a filha do rei, Calcíope, como esposa. Dessa união nasceram quatro filhos: Argos,
Frontis, Melas e Cilindro. O rei Eetes, contudo, recebeu o vaticínio de que se deveria precaver
contra a morte causada por um descendente de Éolo e, por um erro de interpretação, julgou-se
então ameaçado por Frixo, matando-o a seguir. Os filhos de Frixo, em fuga da Cólquida e em
busca do reino do avô Atamas, sofreram um naufrágio, próximos à ilha de Dia, quando
186
CITRONI, M; CONSOLINO, F. E.; LABATE, M.; NARDUCCI, E. Op. Cit. 646p.
96
encontram Jasão e os Argonautas. Pela salvação dos filhos, Calcíope ajudou os mínios a
conseguirem o auxílio de Medéia.
em Aeeta e Absyrtus, nenhuma informação nova se aduz à tradição. Seguindo a
seqüência narrativa de Apolônio de Rodes, Jasão se apresentou ao rei, solicitou a entrega do
velo, recebeu as tarefas e as cumpre, sob a proteção de Vênus, que fez Medéia se apaixonar
pelo louro capitão dos hemônios e ajudá-lo em seus perigos. Com a fuga da filha e dos
argonautas, Eetes enviou o filho em perseguição a eles. À sorrelfa, Jasão o encontrou durante
um sacrifício a Minerva e o matou, sendo o corpo inumado por Medéia, como bem se nas
Argonautica alexandrinas.
Informações novas relativas ao mito chegam, sim, em Peliades. Como Apolônio de
Rodes preferira terminar sua história com final feliz, conforme o gosto da corte alexandrina, a
sucessão de fatos ocorridos após o retorno da expedição ficou a cargo dos autores trágicos a
narração dos eventos posteriores. Entretanto, perderam-se as obras originais. Do resumo de
Higino, conservaram-se, assim, as seguintes informações: sabendo-se em perigo pelo ódio de
Pélias, Jasão imaginou um modo de livrar-se do tio. Para tanto, precisou mais uma vez do
auxílio de Medéia. Esta, encontrando-se com as filhas de Pélias no templo de Diana, garantiu
que poderia rejuvenescer Pélias, como fez com um carneiro que fora desmembrado e cozido.
Do mesmo modo fizeram as filhas com o pai, em trágico engano. O reino passou para as mãos
de Acasto, que expulsou o casal para Corinto.
O resumo de Medea, por seu turno, não traz variantes em relação à peça de Eurípides.
Apenas os nomes dos filhos de Medéia e Jasão são, afora a tradição, informados: Mermero e
Fereto.
Medea Exul, contudo, traz informações que finalizam a narrativa de Higino e a saga
Tessálica. Medéia parte de Corinto para Atenas. Lá, casa-se com Egeu, filho de Pandião, com
97
quem tem um filho, Medos. Depois, os sacerdotes de Diana decidiram expulsá-la de Atenas, e
ela partiu novamente para a Cólquida, levada pelas serpentes que a conduziram de Corinto.
6. Apolodoro de Atenas, ou Pseudo-Apolodoro
Atribui-se a Apolodoro de Atenas o epítome de mitologia em prosa, conhecido como a
Biblioteca de Apolodoro
187
. Conservada apenas em parte, o texto tornou-se fonte primordial para o
estudo da mitologia grega. Ao que se crê, trata-se de uma compilação anônima feita entre os
séculos I e II d.C.
Na obra, que segue um critério genealógico das divindades e suas descendências, as
referências ao ciclo tessálico começam no Livro I, 9, 1, com a narração acerca da prole de Éolo.
Mantendo-se conforme à tradição, Apolodoro informou sobre o casamento entre Atamas e
Nefele, reis da Beócia, e o nascimento de Frixo e Heles. Mas acrescentou a notícia do posterior
casamento ente Atamas e Ino, de cuja união nasceram Learcos e Melicerte. Sabe-se, então, o
motivo da fuga dos filhos de Nefele: Ino, desejando livrar-se dos enteados. Primeiro, ela
sabotou a lavoura, convencendo as mulheres do país a estragarem as sementes que seriam
plantadas. Diante da safra perdida, Atamas resolve mandar perguntar ao oráculo de Delfos o
que deveria ser feito para impedir que a plantação continuasse a gorar; mas Ino convencera os
mensageiros a mentirem ao rei, dizendo que ele deveria sacrificar Frixo a Zeus para restaurar a
fertilidade da terra. Atamas acatou a ordem do oráculo e levou o filho para o altar de
sacrifícios. Mas Nefele o salvou e, com a irmã Heles, o enviou a voar sobre o mar em um
carneiro de ouro, presente de Hermes. No caminho, Heles caiu e morreu. Entretanto, Frixo
chegou à terra de Eetes, filho do Sol e de Perses, irmão de Circe e de Passífae. Eetes o acolheu
e lhe deu em casamento uma das filhas, Calciopéia, com quem ele teve os quatro filhos
187
APOLODORO. Biblioteca. Madrid. Editorial Gredos.
98
nomeados por Higino. Frixo sacrificou o carneiro a Zeus e ofereceu o tosão a Eetes, que o
consagrou a Ares.
Perseguido pela cólera de Hera, Atamas, em loucura, mata Learcos, e então Ino se
lançou ao mar com Melicerte. Atamas foi banido para a Beócia.
As informações quanto ao ciclo argonáutico reaparecem no Livro I, 9, 16. Nota-se,
porém, imediatamente uma importante divergência entre os mitos. Em Apolodoro, Jasão não
reclamou o trono do pai. Tratava-se, sim, de uma vingança de Hera contra o rei, por sua falta
de veneração a ela. Em outra variante, Jasão, então, pediu ajuda a Argos, o filho de Frixo, e
este, sob a inspiração de Atena, construiu uma nau de cinqüenta remos, que recebeu o nome
do arquiteto. Atena, ela própria, adaptou na proa uma figura de madeira falante, feita de um
tronco retirado da Dodona.
Entre os remeiros, algumas divergências aparecem em relação ao catálogo de Apolônio.
Aparecem: Actor, filho de Hipaso; Ceneu, filho de Corono; Anfirao, filho de Oiclés; Laertes,
filho de Arcisio; Autólioco, filho de Hermes; Atalanta, filha de Escoineo; Peante, filho de
Táumaco; Fano e Estáfilo, filhos de Dionísio; Argos, filho de Frixo; Eurialo, filho de Mecisteo;
Peneleu, filho de Hipalmo; Leito, filho de Aléctor; Ascálafo e Iálmeno, filhos de Ares; Teseu,
filho de Egeo. E desaparecem: Mopso e Euricião. Assim, aumenta o número de heróis
conhecidos
188
.
Segue, então, a história sem outras variantes: o episódio das mulheres de Lemnos, de
Cízico, de Hilas, de Âmico, de Fineu e do passo dos Rochedos Moventes. Igualmente sem
divergências quanto à tradição, principalmente quanto à narrativa de Apolônio, segue a história
até a fuga de Medéia e dos Argonautas da Cólquida, levando o tosão de Frixo. Entretanto, um
detalhe macabro registra-se em Apolodoro, anunciado em Eurípedes, conquanto não
188
Livro I, 9, 16.
99
expresso. Absirto, irmão de Medéia, seguiu a tripulação de Argos logo quando da saída do
reino de Eetes. Medéia, vendo-se perseguida pelo pai, matou o irmão, o picou em pedaços que
lançou ao mar, pela certeza de que o pai interromperia a perseguição para apanhar os restos do
filho.
Apolodoro retomou, então, a linha narrativa de Apolônio de Rodes. No entanto, uma
variante final aparece quando Medéia vivia em Atenas e tinha um filho de Egeu Medos.
Ela, entretanto, tramou contra a vida de Teseu, filho de um primeiro casamento de Egeu, razão
pela qual foi novamente banida. Retornando em segredo para a Cólquida, Medéia descobriu
que seu pai fora destronado por Perses, seu irmão. Ela, então, restabeleceu seu pai ao trono
189
.
8. Período da
Geração de Prata
da Literatura Latina
Com a morte de Ovídio, tradicionalmente se marca o fim de uma privilegiada geração
de escritores latinos a Geração de Ouro. Mortos Virgílio, Horácio, Tibulo, Propércio e
Ovídio, iniciava-se, então, um período mais afeito à oratória que à produção poética. Sob a
influência das declamações e das leituras públicas
190
, que chegaram a constituir uma verdadeira
instituição nacional, os novos escritores empolaram seu estilo, sobrecarregaram no uso das
imagens e das figuras de linguagem e, sobretudo, fizeram do preciosismo o princípio supremo
da arte pela arte
191
. Era o tempo dos exageros, da grandiloqüência, do apelo ao pathos, do uso
das colores dicendi e das amplificações. Era o tempo, como o fora entre os alexandrinos, de
privilegiar-se a exibição da cultura, de temas mitológicos, geográficos e históricos.
189
Livro I, 9,28.
190
CARLO, A. Milares. Historia de la Literatura Latina. Mexico: Fondo de Cultura Económica. 1995. 135p.
191
FLACO, Valério. – Las Argonauticas. Tradução por Santiago López Moreda. Madrid: Akal/Clásica, 1996. 11p.
100
Notadamente a partir da sucessão da dinastia Júlio-Claudiana, se despertou a preocupação com
os dramas psíquicos das personagens.
Desse período, a tradição do mito dos argonautas e dos amores de Jasão e Medéia foi
incrementada pela percepção romana do mundo. Argo a nau tessálica, a nau tritônia, a nave
de Palas, a nau hemônia, a nave mínia ganhava cada vez mais importância como símbolo do
processo civilizador, sob cujo argumento Roma expandia suas fronteiras. Tornava-se a Primeira
Nau, em uma recorrência ao uso da imagem do navio como metáfora do próprio Estado – que
remontava a Alceu – solidificara-se na literatura latina desde Horácio
192
:
O nauis, referent in mare te noui
fluctus. O quid agis? Fortiter occupa
portum.
Nesse sentido, o caráter exordial da expedição foi a maior contribuição de Sêneca, o
primeiro dessa geração de prata, para a reconstrução da história de Medéia
193
. É bem verdade
que a tragédia do preceptor de Nero guardava imensa semelhança com a trama de Eurípides,
sem variantes importantes quanto à abordagem mitológica. Entretanto, ainda assim um
elemento pode ser destacado como inovador, além do estilo exagerado e cheio de sentenças
moralizantes, bastante adequadas ao intuito propedêutico filosófico de suas obras teatrais
194
.
Trata-se, fundamentalmente, da explicação detalhada do caráter nefasto da navegação, caráter
este já anunciado por Catulo. O coro do segundo intermédio inicia a explicação:
Nossos antepassados viveram séculos de inocência, quando longe estava a fraude. Cada um,
sossegadamente, contentava-se de sua praia e envelhecia na terra dos pais, rico de pouco e
ignorando outros tesouros, exceto os produtos do solo natal. Mas o navio construído com
pinho tessálico aproximou as terras tão bem separadas pelas leis da natureza; e obrigou as águas
a suportar os golpes do remo e o mar misterioso a tornar-se um dos nossos temores. (...) Qual
192
Odes, I, 14
193
SÊNECA. Medéia. Edição. Rio de Janeiro. Editora Abril SA. 1973.
194
CARDOSO, Zélia de Almeida. A Literatura Latina. São Paulo: Martins Fontes. 2003. 47p.
101
foi o preço dessa empresa? O velo de ouro; e esse flagelo pior que o mar: Medéia, digno prêmio
aos primeiros navegadores.
Medéia, vv. 330 e ss.
195
Sêneca continua a afirmar a impiedade dos primeiros navegantes, informando ao leitor
as penas pagas pela audácia de juntar aquilo que os deuses separaram. Novamente é o coro
quem narra os sofrimentos por que passaram os argonautas em razão de seu crime. Vale a
pena transcrever toda a passagem:
Todos os que manejaram os remos do intrépido navio, despojando o Pélio das
espessas sobras de suas árvores sagradas; todos os que passaram através dos rochedos vagantes
e, depois de ter experimentado todos os perigos do mar, por fim amarraram seu cabo na praia
bárbara antes de voltar com o ouro roubado – todos expiaram com terrível fim a profanação do
império marítimo. O mar provocado vingou-se das ofensas recebidas; em primeiro ligar Tífis,
vencedor das ondas, teve de deixar o leme a um piloto inexperiente, quando na praia
estrangeira, longe do reino paterno, caiu e, depois de ter tido um humilde mulo, desceu entre
as obscuras sombras. Foi depois disso que Áulis, fiel à memória do príncipe perdido, reteve
longamente em seu porto os navios cansados de deitar âncora. O filho da musa dos cantos,
aquele que com a lira, modulada pelo melodioso plectro, fazia parar as torrentes, calar os
ventos, quando as aves, renunciando a seu canto, acorriam perto dele, seguidas pela inteira
floresta foi esquartejado e seus membros espalhados pelas campinas trácias, enquanto a
cabeça flutuou sobre as águas tristes do Ebro: ele chegou novamente às margens do Estige e ao
Tártaro conhecido, mas desta vez para não mais voltar. Alcides abateu os filhos de Aquilão,
matou o filho de Netuno que se transmudava em inúmeras formas: depois de ter pacificado a
terra e o mar, depois de ter violado o reino do terrível Plutão, estendeu-se ainda vivo sobre o
ardente Oeta e ofereceu seu próprio corpo à cruel chama, pois o veneno de um sangue híbrido
o consumia, vítima de um presente da esposa. Anceu foi abatido pelos golpes furiosos de um
javali. As tuas ímpias mãos, ó Meleagro, assassinaram os irmãos de tua mãe: e tu morres pela
mão desta mãe enraivecida. Todos tinham merecido o castigo. Mas qual foi a culpa que com a
morte expiou o jovem não mais encontrado pelo grande Hércules, o adolescente raptado pelas
correntes de uma água inofensiva? Ide agora, ó heróis, percorrei o oceano quando uma simples
fonte é tão perigosa. Idmon, quando conheceu sua sorte, deixou-se devorar por uma serpente
nas areias da Líbia. Adivinho verídico para os outros e somente falso para si, Mopso caiu bem
longe de Tebas. Se profetizou exatamente o futuro, o marido de Tétis deverá errar, fugitivo;
Náuplio, no momento em que estiver para arruinar os Argivos com seus pérfidos jogos, será
lançado ao profundo mar e o filho perecerá, expiando, assim, os erros paternos. O filho de
Oileu morreu fulminado e ao mesmo tempo afogado; a esposa do rei Feres, resgatando a sorte
do marido, sacrifica por ele a vida. Quanto a Pélias, que mandou entregar-lhe, como presa, o
velo de ouro, sobre o primeiro navio, foi queimado na água de uma pequena caldeira posta no
fogo. Ó deuses, já vingaste o mar: poupai quem somente obedeceu.
Medéia, vv.606 a 669 – Tradução Giulio Leoni
196
195
SÊNECA. Op. Cit. 239p.
196
SÊNECA. Op. Cit. 247p
102
Sêneca apresentava, assim, o fim dos remeiros da nau Argos, concluindo, portanto, a
saga tessálica. Castigados todos, cumpriu-se a vingança do deus do mar pelo nefas dos
marinheiros que ousaram violar os desígnios divinos.
Assim, chega-se, cronologicamente, às Argonautica Latinas, de Valério Flaco. É dele a
derradeira versão latina do mito. Diferentemente da obra de Varrão Atacino, não se trata de
uma mera tradução do modelo alexandrino, afinal, a obra de Flaco consegue ser original,
apesar de abordar um tema tão repisado quanto as aventuras náuticas de Jasão. As Argonautica
flaquianas celebram a gens Flavia e as realizações marítimas de Vespasiano, cujos navios
conseguiram a proeza do périplo da Escócia. Nenhum tema seria, pois, mais conveniente para
uma obra épica do período que a saga dos primeiros navegantes.
Nessa laus Flaviorum, também são encontradas variantes do mito argonáutico,
decorrentes da criteriosa adequação do modelo jasônico às virtudes heróicas incentivadas no
período flaviano. Primeiramente, a intervenção divina na obra de Flaco se de modo muito
mais direto e recorrente que nas versões anteriores, provavelmente pela própria formação
religiosa do autor um dos quindevenvir. Jasão é protegido e acompanhado de perto pelas três
principais deusas olímpicas: Juno por ter sido ajudada por Jasão a cruzar o torrencial rio
Anauro; Minerva – porque odiava Pélias, que não lhe oferecia os sacrifícios e honras; e
Afrodite inimiga da raça do Sol desde que fora por ele descoberta em adultério com Marte.
Foi Juno quem convocou a tripulação que equiparia a nau; foi Minerva quem ensinou a Argos
a construir o baixel, e Tífis, o caminho; foram as duas deusas juntas que seguraram os
Rochedos Moventes enquanto o navio os atravessava.
Além disso, algumas aventuras foram incorporadas à saga argonáutica. Sabe-se, por
exemplo, da passagem de Hércules pelas terras de Laomedonte, quando do resgate de Hesíone
e da questão dos cavalos de Troas, em uma evidente revalorização do caráter heróico de
103
Hércules, desprezado pela tradição alexandrina. Do mesmo modo, Flaco apresentou Jasão
como um herói muito mais vigoroso que seu modelo de Apolônio, salvo não apenas pela
intervenção divina, mas por sua própria bravura e destreza bélica – afinal, à chegada na
Cólquida, o herói comandou os argonautas na luta ao lado de Éetes, e não apenas gozou das
prebendas do anfitrião, como na versão alexandrina. Outros detalhes apresentam-se ainda
como variantes, embora de menor importância no estudo das versões do mito: os pais de Jasão
cometem suicídio logo após a partida da Nau, em uma evidente oportunidade de discussão
estóica acerca da morte; por outro lado, na Cólquida, quando do cumprimento das provas
propostas a Jasão por Eetes, Medéia não se restringiu a untar o herói com ungüentos para que
este pudesse enfrentar os touros que sopravam fogo pelas ventas: na versão flaquiana, a
feiticeira concedeu ao amado artefatos mágicos o Elmo e o Escudo da Discórdia. Com o
escudo, Jasão proteger-se-ia do fogo; com o elmo, ele incitaria a luta entre os homens nascidos
dos dentes da serpente de Cadmo.
8. Conclusão
Seja como um mito de colonização, seja como comemoração das aventuras pelo mar, a
história dos argonautas acompanhou a literatura ocidental desde seus primórdios, renovando-
se a cada nova geração de autores e de povos. Homero, Hesíodo, Mimnermo, Píndaro,
Eurípedes, Teócrito, Apolônio de Rodes, Ênio, Catulo, Pseudo-Apolodoro, Higino, Sêneca e
Flaco, cada um a seu modo, transformaram o mito e edificaram um monumento da literatura, a
par dos ciclos míticos da Guerra de Tróia, dos Trabalhos de Hércules e de Édipo e sua
descendência. Servindo como um roteiro geográfico capaz de nomear povos e descrever
costumes, a saga dos primeiros navegantes merece por fecho o catasterismo da intrépida nau
que, depois de tantas aventuras, foi elevada ao Olimpo estrelado em forma de constelação.
104
CAPÍTULO III
Os Episódios das
Argonautica
Latinas
1. Introdução
A expedição dos Argonautas pode ser apontada como uma espécie de viagem
iniciática, por meio da qual um grupo de jovens heládicos, sob o comando de Jasão,
completaria seu amadurecimento durante o percurso rumo à desconhecida Cólquida,
adquirindo, assim, o estatuto heróico
197
. Os episódios experimentados na jornada marítima
serviriam, portanto, como provas de excelência, pelas quais a têmpera de cada um desses
rapazes formar-se-ia, e seu valor poderia ser comprovado
198
.
Foi sob essa interpretação iniciática da viagem mítica dos Argonautas que Valério
Flaco pôde construir seu modelo de edificação de virtudes do herói épico, adequado ao seu
tempo e a seu viés filosófico estóico. Utilizando as possibilidades e alegorias oferecidas pelo
mito, então meramente uma fonte artificial de imaginação poética, o vate lançou o de
toda a tradição literária em especial da obra homônima de Apolônio de Rodes e do canto
virgiliano da Eneida estabelecendo distanciamentos críticos capazes de fornecer, exatamente
nas diferenças construídas em relação à herança poética, um novo none de virtudes, êmulo
vitorioso de cada um e de todos os heróis pretéritos.
Cada episódio da viagem dos Argonautas revelou, por conseguinte, ao menos uma
virtude exaltada pelo epos flaquiano. Se a sede por gloria foi a primeira das qualidades varonis
alteadas pelo poeta, seguiu-a, constante e conjuntamente, a pietas tão fundamental para a
sociedade romana. Por outro lado, a fortidão hercúlea (fortidudo), imprescindível para o
197
GARCIA, Mar L. “Mitología e iniciaciones: el problema de los Argonautas”. Gerion 5. Madrid: Editorial de la
Universidad Complutense de Madrid. 1987. 41p.
198
HUNTER, R. L. “Short on Heroics’: Jason in the Argonautica”. Classical Quarterly nr.38. Cambridge. 1988. 449p.
105
guerreiro e para a casa dinástica reinante quando da composição do poema que justificava e
legitimava seu poder pela vinculação com Augusto, recorrentemente comparado ao herói
Tiríntio, como, de resto, também o foi Domiciano, o último dos imperadores Flávios –
mereceu igualmente sua celebração, pois que aos guerreiros romanos a força nunca seria
desnecessária. Além disso, a virtus bélica, ou a própria valentia, ou melhor, o denodo nos
campos de batalha, representava de modo inexorável outra faceta da excelência de cada jovem
virtuoso. No entanto, para o melhor dos heróis, para o campeão forjado em uma sociedade de
espírito castrense e expansionista como a romana, era preciso ainda que se garantisse a
capacidade de comando, ou sua auctoritas, sem a qual a gloria almejada jamais poderia ser
alcançada. Todavia, mesmo a auctoritas necessitava de um pendor natural para ser conseguida,
como também todas as demais virtudes ou a indoles. Finalmente, para a excelência cabal do
herói argonáutico flaquiano e, por conseguinte, do virtuoso vir romano flaviano –a prudentia,
deveria nortear todas suas demais qualidades, pois que só sob a sua regência o favor dos deuses
se manteria ao lado daquele que pretendesse a fama imorredoura do canto épico.
2. Preparativos, Embarque e Partida – ou a
Gloria
: vv. I, 22-850
Pélias, o velho e temível rei da Hemônia, fora avisado pelos oráculos que sua ruína
haveria de ser causada pelo filho de seu irmão; além disso, a fama heróica de seu sobrinho já se
espalhava pelas terras, para maior descontentamento e inquietação do tirano (I, 22-30). Por
isso, dolosamente, o amedrontado monarca decidiu eliminar o jovem, embora o mais
houvesse pela Hélade os perigos da guerra ou dos monstros – afinal, Hércules já havia
derrotado o Leão de Neméia, a Hidra de Lerna e o Touro de Maratona; e Teseu, o Minotauro:
restavam tão-só os perigos do mar. Então, com palavras enganosas e sob dissimulada
106
mansuetude, Pélias procurou por Jasão e propôs-lhe, ou antes, ordenou-lhe (I, 58), a façanha
de atravessar o pélago e buscar na distante Cólquida o Tosão de Ouro o pelame dourado do
carneiro sobre o qual Frixo e Heles haviam escapado por sobre o mar; no entanto, omitia os
grandes perigos, calando-se quanto às Rochedos Moventes e quanto à Serpente guardiã do
velocino (I, 59-63).
Insciente do dolo, entretanto, o valente jovem aceitou a missão. Pôs-se rapidamente
em busca dos meios pelos quais concretizaria sua façanha, escolhendo para tanto, ao invés do
débil apoio do povo oprimido, o arrimo dos deuses (I, 64-80). Invocou, assim, o favor de Juno,
a quem acudira tempos atrás, e de Palas, a quem prometeu sacrifícios e devoção (I. 81-90).
Suas súplicas foram atendidas e imediatamente as duas grandes deusas partiram em seu
socorro. Enquanto Palas providenciava a feitura da nau, Juno conclamava os jovens sedentos
por glórias a unirem-se à expedição. Ao chamado da deusa, os heróis acorreram, e toda a praia
buliu-se. No entanto, embora tão grandes prodígios, Jasão ainda se inquietava, a pensar nas
tramóias e armadilhas que Pélias pudesse preparar-lhes (I, 90-155). Por isso, decidiu procurar
pelo primo Acasto, o filho de Pélias, e convidá-lo para juntar-se à tropa. O jovem príncipe não
titubeou – aceitou de pronto o convite, pondo-se ao comando de Jasão, para buscar com ele as
suas primeiras vitórias e fama (I, 156-184).
De volta à praia, era tempo dos sacrifícios rituais. Imolaram-se reses, foram feitas
libações propiciatórias e os adivinhos leram os presságios. Primeiro, Mopso previu todos os
percalços, os perigos e as perdas que a expedição sofreria (I, 185-226); depois, Ídmon anunciou
o sucesso da empresa, conforme os desígnios divinos (I, 227-240). O restante da noite, então,
transcorreu entre folguedos, até que o sono a todos dominou (I, 241-300); e na madrugada, a
deusa tutelar da nau Argo apareceu a Jasão para anunciar-lhe seu caráter divino (I, 301-308).
107
Na manhã seguinte, após os abraços de despedida, a nau zarpou (I, 309-349). Levava
em seu bojo os cinqüenta heróis os quarenta remeiros e os demais tripulantes (I, 350-497).
Ao vê-los adentrando ao mar, Júpiter regozijou-se (I, 497-502), embora o Sol, pai dos Cítios,
reclamasse contra o início da empresa que iria espoliar seu filho o rei da Cólquida (I, 503-
527). Mas o soberano dos deuses interrompeu o queixume do deus opositor à expedição e
renovou o decreto de seus desígnios, anunciando que chegava o tempo da transmissão do
poder, antes da Ásia, então para a Grécia com a certeza de que um dia um novo povo, o
Romano, receberia tal honra (I, 528-573).
No entanto, apesar do beneplácito de Júpiter, os ventos, irados pela abertura do mar,
desencadearam uma terrível tempestade, levando pânico aos primeiros marinheiros. Mas antes
que a nave soçobrasse, salvaram-na Netuno, aplacado por Palas, e Tétis, condoída pela sorte
do esposo (I, 574-659), abrindo-se, então, o claro dia (I, 660-692). Porém, nesse momento,
maus presságios assaltaram Jasão: decerto Pélias castigaria os pais do herói em represália à
partida de Acasto (I, 693-699) – como de fato se deu no longo trecho que narrou o suicídio de
Éson e de Alcimedé, perseguidos por Pélias e sob o conselho do espírito invocado de Creteu
(I, 700-850).
Esses foram os eventos narrados no Canto I das Argonautica, em cujo corpo teve
início a formação do modelo heróico flaquiano. Diferente do herói do epos de Apolônio de
Rodes
199
, a partir do qual (e juntamente com o canto virgiliano) se fariam constantes as
comparações definidoras do cânone das virtudes do período flaviano, construía-se um Jasão
sedento por fama e ávido pela virtude latina do desejo por gloria. Afinal, se o Jasão alexandrino
fora ao mar simplesmente em manso cumprimento das ordens de seu tio
200
, outra foi a
199
HUNTER, R. L. Op. Cit., 440p.
200
Pélias, que o conheceu, pensa, e lhe incumbe
Navegação funesta, em que pereça
108
motivação que animou o jovem latino, reconhecido como virtuoso antes mesmo da decisão
de Pélias super ipsius ingens instat fama viri: além disso, a grande fama do próprio herói ameaça
(I, 29-30). Tanto que o argumento utilizado pelo rei para convencer o rapaz a singrar os mares
lastreava-se fundamentalmente em sua ânsia de reconhecimento e de fama (I, 40-41):
'hanc mihi militiam, veterum quae pulchrior actis,
adnue daque animum
201
.
Anui, por mim, com esta empresa, que é mais bela que a dos antigos; ânimo!
202
Assim se iniciou a dolosa fala do rei, em um tom aparentemente atencioso e
magnânimo, como se a empresa que solicitava ao sobrinho fosse apenas de fato o meio
propiciatório para a aquisição de honra e de glória, e não o meio de exterminá-lo. O vocativo
utilizado no verso I,56 ainda mais reforça tal interpretação I, decus, et pecoris Nephelaei vellera
Graio redde tholo: Vá, Orgulho [dos seus], e traz de volta ao altar grego o pelame do carneiro de
Nefele (I,56/57).
No entanto, apesar dos perigos, ou em razão deles, o valor glorioso da expedição era
real para os jovens audazes, valor este asseverado pelo próprio canto do poeta. A Gloria,
personificada, parecia chamá-los para junto do rio Fase onde a expedição deveria alcançar
seu objetivo (I, 76-78):
Tu, sola animos mentemque peruris,
Gloria, te viridem videt immunemque senectae
Phasidis in ripa stantem iuvenesque vocantem.
Só tu, ó Glória, inflamas os ânimos e a mente que te vê sempre verdejante, imune à velhice,
firme nas margens do Fase, chamando os jovens.
Sepultado nas ondas, ou, voltando,
Entre estranhas nações! (...)
Os Argonautas, 1-2p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
201
Para todas as citações do texto latino: EHLERS, W. W., Gai Valeri Flacci Setini Balbi Argonauticon libros octo,
Bibliotheca Teubneriana Stuttgart, 1980.
202
Embora conste no Apêndice a tradução em versos dos quatro primeiros cantos das Argonáutica Latinas, os
trechos presentes nos comentários foram traduzidos em prosa, para mais precisa literalidade.
109
Foi esse sentimento de anseio por Gloria que fez os cinqüenta reis e príncipes
heládicos aderirem à empresa capitaneada por Jasão. Afinal, Juno espalhara pelas cidades
argólicas e macedônicas a notícia de que aqueles que se engajassem ao grupo dos Argonautas
teriam seus feitos exaltados pelos séculos (I, 96-99). E foi sob essa esperança que todos aqueles
sedentos por fama apresentaram-se (I, 100-103):
Omnis avet quae iam bellis spectataque fama
Turba ducum primae seu quos in flore iuventae
Temptamenta tenet necdum data copia rerum.
Anseiam todos os capitães com a fama em guerras já provada e aqueles que, na flor da
juventude, ainda não têm obras muitas que os recordem.
Aliás, o anseio por glórias é o fio condutor poético de toda a primeira parte do Canto
I. O argumento utilizado por Jasão para convencer o primo Acasto a participar da tripulação
sustentava-se na vergonha que este sentiria por não ter desafiado os perigos da empresa (I,
164-173):
'non degeneres, ut reris, Acaste,
venimus ad questus: socium te iungere coeptis
est animus neque enim Telamon aut Canthus et Idas
Tyndareusque puer mihi vellere dignior Helles.
o quantum terrae, quantum cognoscere caeli
permissum est, pelagus quantos aperimus in usus!
nunc forsan grave reris opus, sed laeta recurret
cum ratis et caram cum iam mihi reddet Iolcon,
quis pudor heu nostros tibi tunc audire labores,
quae referam visas tua per suspiria gentes!'
Não venho, Acasto, qual crês, com indignas súplicas: juntar-te à expedição é meu intento,
afinal, nem Telamon, nem Canto, Idas ou o jovem Tindárida são, para mim, mais dignos do Tosão de
Heles. Ó quantas terras, quanto u nós poderemos conhecer; a quantos usos abriremos o mar! Talvez,
agora, creias que a empresa seja pesada, mas quando a alegre nau voltar e conduzir-me à querida
Iolcos, que pudor será o teu quando, então, ouvires sobre nossos feitos! Aos teus suspiros contarei das
gentes que vi.
A resposta de Acasto foi igualmente imbuída do anelo pela gloria:
Nec nos, optime, segnes
credideris patriisve magis confidere regnis
quam tibi, si primos duce te virtutis honores
carpere, fraternae si des adcrescere famae.
110
Ó melhor [dos varões], não creias que eu seja preguiçoso ou que confie mais no reino de meu
pai do que em ti, se sob teu comando deres que eu busque as primeiras honras da virtude, se deres que
eu cresça junto à [tua] fraterna fama.
O mesmo desejo de Gloria, então imiscuído à Pietas, norteou a exortação de Jasão
aos companheiros, ao dar início à saga (I, 241-249):
'superum quando consulta videtis,
o socii, quantisque datur spes maxima coeptis,
vos quoque nunc vires animosque adferte paternos.
non mihi Thessalici pietas culpanda tyranni
suspective doli: deus haec, deus omine dextro
imperat; ipse suo voluit commercia mundo
Iuppiter et tantos hominum miscere labores.
ite, viri, mecum dubiisque evincite rebus
quae meminisse iuvet nostrisque nepotibus instent.
Companheiros, que vedes os desígnios dos deuses e quanta esperança é dada a esta suprema
empresa, trazei agora vós também o vigor e as forças paternas. Não por mim será reprovada a impiedade
do tirano tessálico, nem o suspeito dolo: um deus, um deus é quem o ordena com bom presságio. O
próprio Júpiter quis o comércio em seu mundo, e misturar tantos trabalhos dos homens. Vinde comigo,
heróis, e vencei nas incertezas que ajudem a lembrar de nós e que animem nossos netos.
Era, enfim, o anseio pela imortalidade, adquirida pela celebridade entre os homens e
anunciada na predição dos Catasterismos
203
da nau (I, 4) e de Vespasiano
204
(I, 15-16), e na
promessa de divinização dos heróis contida na fala de Júpiter (I, 563-567):
'tendite in astra, viri: me primum regia mundo
Iapeti post bella trucis Phlegraeque labores
imposuit; durum vobis iter et grave caeli
institui. sic ecce meus, sic orbe peracto
Liber et expertus remeavit Apollo.'
Esforçai para alcançar os astros, heróis. Após a batalha com o cruel Jápeto e os trabalhos
flegreus, a mim, primeiro, foi dado o império do mundo. Duro e grave caminho para o u tracei para
vós. Assim, tendo percorrido o orbe, eis que a mim vieram meu Líber e o experto Apolo.
203
TORRES-MURCIANO, Antonio R. “El Proemio de Valerio Flaco Una lectura retórica”. Cuadernos de
Filología Clásica. Estudios Latinos, 2005, vol 25, núm. 1. 88p.
204
GETTY, Robert. “The Introduction to Argonautica of Valerius Flaccus”. Classical Philology, nr. XXXV. 1940.
270p.
111
3. As Mulheres de Lemnos – ou a
Pietas
: vv. II, 72/431
Sem deixar que Jasão soubesse do suicídio dos pais, narrado na segunda parte do Canto
I, Juno propiciou aos Argonautas o início da navegação (II, 1-72). Após uma curta travessia
pelo mar, a embarcação alcançou a ilha de Lemnos, dando, então, início ao primeiro episódio
propriamente dito da saga flaquiana. Trata-se do primeiro obstáculo enfrentado pelos heróis
em sua jornada, além de ser sua primeira prova de excelência.
A chegada dos marinheiros a Lemnos foi precedida por uma larga digressão acerca do
terrível crime das ilhoas (II, 72-310), crime este incitado pela acerba ira de Vênus. A ilha era
particularmente devotada ao culto a Vulcano, desde que este fora atirado por Júpiter, por
tentar livrar sua mãe Juno das cadeias com que o soberano dos deuses subjugara a esposa, em
reprimenda à tentativa desta de destroná-lo. Por isso, sob o pretexto do adultério cometido
com Marte e denunciado pelo Sol, os moradores da ilha deixaram de prestar culto à deusa,
despertando-lhe ódio funesto:
quocirca struit illa nefas Lemnoque merenti
exitium furiale movet. neque enim alma videri
tantum: eadem tereti crinem subnectitur auro
sidereos diffusa sinus, eadem effera et ingens
et maculis suffecta genas pinumque sonantem
virginibus Stygiis nigramque simillima pallam.
Por isso, ela engendra desgraça e planeja terrível destruição contra a culpada Lemnos; pois nem
sempre é vista tão bondosa: tanto cinge os cabelos com dourada fita e mostra os seios resplandecentes
quanto é selvagem e feroz, com as faces cobertas de manchas, com tocha crepitante e negro manto,
semelhante às virgens do Estige.
Iniciava-se, então, a narrativa do crime propriamente dito (II, 106/241). O comandante
dos lemnianos, que partira em expedição contra a inimiga e vizinha Trácia, retornava vitorioso
112
com as barcaças
205
repletas de reses, tesouros e escravas. Aproveitando o ensejo fornecido pela
viagem dos homens, Vênus ordenou à Fama que espalhasse entre as mulheres da ilha a falsa
notícia de que aqueles, tomados de amor pelas cativas, pretenderiam rechaçar as esposas
legítimas e substituí-las pelas bárbaras trácias. A mentira logo se espalhou e as lemnianas
enfureceram-se dolor iraque surgit : dor e ira se levantam (II, 165). Vênus, por seu turno,
disfarçada de uma das ilhoas, convocou-as à ação, com o gesto trágico de lançar os filhos,
trazidos ao colo, de cabeça ao chão (II, 185). Os gritos da deusa arrebataram os corações e
todas as mulheres prepararam-se para a chacina. Receberam os homens que chegavam à praia,
como se saudosas estivessem, e prepararam-lhes banquetes e leitos. Os homens, desavisados,
entregaram-se ao repouso, mas Vênus, novamente sob a forma de uma das esposas, iniciou a
carnificina. Armou as mulheres com espadas e tochas, e estas, acompanhando o exemplo da
deusa, lançaram-se contra os maridos e filhos, matando-os todos. Em uma narrativa cheia de
pavor e de descrições lúgubres, bastante ao gosto da Geração de Prata da literatura latina, todo
o gênero masculino foi dizimado, juntamente com as escravas trácias, cujos gritos lancinantes
enchiam os céus (II, 241).
No entanto, nem todas as mulheres foram tomadas pelo furor insano e desmedido,
patrocinado pela iracunda Vênus. A princesa Hipsípila escapou das artimanhas da deusa,
buscando a salvação do pai. Sua excelência foi, por isso, celebrada por Valério Flaco (II,
241/246):
205
Para manter a importância da nau Argo como o primeiro navio construído pelos homens, Valério Flaco
realçou a diferença no material de sua feitura. As barcas dos lemnianos eram de vime e couro, enquanto a nau
Argo teria sido feita de madeira do monte lion. Acerca da diferença entre as embarcações, o notada pelos
demais tradutores, que encontraram uma incongruência no texto, ver: AVIENO. Orla Marítima. Tradução José
Ribeiro Ferreira.Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica. 1992, 19p.: “Habita nessa região um povo
de grande força, de espírito altivo e eficaz habilidade. Dominados todos pela paixão do comércio, com barcos
feitos de peles sulcam ao largo o mar túrbido e o abismo do Oceano povoado de monstros. Eles não sabem, de
facto, fabricar os barcos com madeira de pinho e de bordo; não encurvavam as embarcações, como é de costume,
com o abeto, mas sempre maravilhosamente constroem os barcos com peles unidas e a miúdo percorrem sobre
esse couro o vasto mar”.
113
Sed tibi nunc quae digna tuis ingentibus ausis
Orsa feram, decus et patriae laus una ruentis,
Hypsipyle? Non ulla meo te carmine dictam
Abstulerint, durent Latiis modo saecula fastis
Iliacique lares tantique palantia regni.
Mas agora, o que direi digno de tua coragem, Hipsípila, honra e glória de uma pátria que rui?
Não te privarei da celebridade do canto, enquanto durem os culos nos Fastos Latinos, os Lares de Ílio
e os palácios de tão grande reino.
Enquanto a ilha ardia e mais crimes eram perpetrados, Hipsípila, armada apenas com as
pias mãos, procurou por Toante, seu pai, e escondeu-o no templo de Baco até o amanhecer do
outro dia, quando as mulheres, fatigadas, silenciaram, enfim, seu furor. Animada pela coragem
proporcionada pela virtude piedosa, a princesa disfarçou o pai com as vestes e a cabeleira do
deus do vinho e conduziu-o, no carro sacro, entre os aparatos religiosos, por entre as
concidadãs, sob a desculpa de que iria banhar a imagem divina no mar, a fim de ilibá-la da
matança. Levou-o, então, para um bosque próximo, onde o ocultou apoder mandá-lo para
longe da ilha, em um barco abandonado que por lá aparecera. A salvo, Toante partiu, e o barco
foi guiado pelos deuses para a ilha de Tauro, onde o antigo rei de Lemnos se tornou sacerdote
de Diana (II, 305). Hipsípila, por sua vez, retornou à cidade, onde recebeu, por mérito de suas
virtudes, o trono e o cetro do pai (II, 306/310):
Arcem nata petit, quo iam manus horrida matrum
congruerat. rauco fremitu sedere parentum
natorumque locis vacuaeque in moenibus urbis
iura novant. donant solio sceptrisque paternis
ut meritam redeunt<que> piae sua praemia menti.
A filha volta à cidade, onde uma horrível súcia de mães havia se reunido. Com rouca gritaria,
assentaram-se nos lugares dos pais e dos filhos, e instauraram novas leis nas muralhas da cidade vazia.
Dão-(lhe), como merecia, o assento e o cetro do pai, e concedem o prêmio por sua piedosa mente.
Nesse ínterim, chegaram às praias da ilha os jovens Argonautas, guiados por Vulcano
(II, 323). O furor que antes subjugara as mulheres dissipara-se, graças à intervenção do deus
protetor da ilha, que amansara a divina esposa. Assim, as mulheres, privadas de descendência,
poderiam novamente procriar dum vires utero maternaque sufficit aetas enquanto idade fértil e
114
forças restavam aos úteros (II, 325). Por isso, os sinais da chacina foram todos apagados da
ilha, e abriram-se os portos aos nautas. Em festa, os navegantes foram, então, conduzidos até a
vila, onde, pela primeira vez, o altar de Vênus recebeu suas homenagens.
Logo a seguir, teve início um faustoso banquete em honra aos hóspedes. Durante a
longa conversa entre os marinheiros e as anfitriãs, Hipsípila apaixonou-se pelo guapo capitão.
Júpiter, por seu turno, favorável ao encontro dos sexos, moveu chuvas e ventos, que
impediram por quatro dias a partida da nau, enquanto os jovens se refestelavam nos leitos
vazios das viúvas. Contudo, Hércules, que permanecera embarcado, não permitiu que as
delongas perdurassem. Procurou por Jasão e imprecou, conquanto profundamente respeitoso,
contra a demora inglória (II, 378/384):
O miseri quicumque tuis accessimus actis!
Phasin et Aeeten Scythicique pericula ponti
redde,' ait, 'Aesonide! me tecum solus in aequor
rerum traxit amor, dum spes mihi sistere montes
Cyaneos vigilemque alium spoliare draconem.
si sedet Aegaei scopulos habitare profundi,
hoc mecum Telamon peraget meus.'
Desgraçados todos que nos unimos a tua empresa! Dá-nos de novo, ó Esônide, o Fase, Eetes e
os perigos do mar da Cítia. Contigo ao mar tão-só o amor aos feitos trouxe-mepela minha esperança
de deter as Ciâneas e de espoliar a serpente vigilante. Se ficar estabelecido habitar os escolhos do
profundo Egeu, Telamón, comigo, levará a cabo esta empresa.
A reação de Jasão à reprimenda do Tiríntio foi, então, heróica. Em um símile preciso,
o poeta descreveu a retomada de seu ânimo, e o ressurgimento de seu valor e de seus
companheiros (II, 384/392):
haud secus Aesonides monitis accensus amaris
quam bellator equus, longa quem frigida pace
terra iuvat--vix in laevos piger angitur orbes--,
frena tamen dominumque velit si Martius aures
clamor et obliti rursus fragor impleat aeris.
tunc Argum Tiphynque vocat pelagoque parari
praecipitat. petit ingenti clamore magister
arma viros pariter sparsosque in litore remos.
Inflamado pela amarga admoestação, foi o Esônide, qual um corcel de guerra, a quem a
fresca terra em longa paz assiste e lerdo se atormenta em curtas voltas –; porém que ainda anseie pelo
freio do dono, se as trombetas de Marte de novo os ouvidos lhe tomem. Então, chama Tífis e Argos e
115
para o mar apresta-os. Com ingente brado, o piloto chama, ao mesmo tempo, armas e varões, e os remos
espalhados na praia.
Ao perceberem os preparativos para súbita partida dos nautas, as mulheres de
Lemnos retomaram seus lamentos. Correram todas à praia e Hipsípila repreendeu Jasão,
embora sem fúria ou desmedida paixão. A princesa, então, deu ao comandante da expedição
dois presentes, repletos de significado: a espada de Toante e uma clâmide por ela bordada, na
qual, em uma breve ékphrasis, ela ressaltava suas próprias virtudes (II, 408/417):
dixit lacrimans haesuraque caro
dona duci promit chlamydem textosque labores.
illic servati genitoris conscia sacra
pressit acu currusque pios: stant saeva paventum
agmina dantque locum; viridi circum horrida tela
silva tremit; mediis refugit pater anxius umbris.
pars et frondosae raptus expresserat Idae
inlustremque fugam pueri, mox aethere laetus
adstabat mensis, quin et Iovis armiger ipse
accipit a Phrygio iam pocula blanda ministro
Disse chorando e ofereceu ao querido capitão um presente tocante: uma clâmide de tecido
laborioso. Ali ela bordou com agulha a sacerdotiza salvadora do pai e os carros piedosos: (ali) estão a
cruel multidão, que passagem ao apavorado; ao seu redor, no verde pano, a terrível selva treme; em
meio às sombras, esconde o pai aflito. Em outra parte, representara também o rapto do frondoso Ida e a
famosa partida do menino que, logo no céu, alegre estava à mesa e mesmo a própria armígera de Jove
aceita as delicadas taças do escanção frígio.
Ao entregar-lhe a espada do pai, Hipsípila ainda lhe disse (II, 419/424):
'accipe,' ait 'bellis mediaeque ut pulvere pugnae
sim comes, Aetnaei genitor quae flammea gessit
dona dei, nunc digna tuis adiungier armis.
i, memor i terrae, quae vos amplexa quieto
prima sinu, refer et domitis a Colchidos oris
vela per hunc utero quem linquis Iasona nostro.'
Para que eu seja tua companheira em meio às guerras e no pó da luta, aceita o dom do deus do
Etna que, ardente, meu pai portou agora digna de se juntar às tuas armas. Vá, vá e não te esqueças da
terra que primeira, em calmo regaço, vos abraçou, e retorna as velas, quando conquistadas as praias
colcas, por este Jasão que deixas em meu ventre.
Entre tristes abraços, então, os Argonautas deixaram a ilha de Lemnos e as esposas
com quem coabitaram e construíram descendência. Deixavam-nas, vencida a primeira das
provas de excelência prova semelhante àquela que também Enéias vencera ao subjugar seus
116
próprios sentimentos, abrindo mão do amor de Dido, no canto IV da Eneida, em cumprimento
aos desígnios de Júpiter. Aliás, Dido
206
foi, certamente, um dos modelos de inspiração de
Valério Flaco para a composição de sua Hipsípila, como o foi também a Hipsípila rodiana. No
entanto, diferentemente de Dido, que se matou movida por pudor e por despeito pelo
abandono, a Hipsípila flaquina mostrou-se como exemplo de autocontrole e de apropriado
comportamento feminino segundo os padrões romanos da época
207
, ao compreender o motivo
da partida de Jasão a soberana vontade dos deuses. Tal é a interpretação da ékphrasis relativa
ao bordado da clâmide com que Hipsípila presenteara Jasão. Ao dispor a própria ação de
salvamento do pai no bordado, a rainha lemniana autovalorizava-se; mas ao retratar o rapto de
Ganimedes, mais não fez que mostrar a razão pela qual o capitão dos Argonautas partia a
vontade de Júpiter
208
.
Se a Hipsípila flaquiana se diferencia de Dido pela contenção da desmedida e pela
serena aceitação dos desígnios do Fado, distancia-se, do mesmo modo, de seu modelo
alexandrino pela sobrevalorização da virtude eminentemente romana da pietas
209
qual Enéias,
que carregou Anquises nas costas em fuga de Tróia
210
. Afinal, o salvamento paterno levado a
cabo pela Hipsípila rodiana, referido em apenas quatro versos do poema grego
211
, assemelha-se
mais a uma exposição (o abandono que os pais infligiam aos filhos ilegítimos, ou aos frutos de
uniões sexuais impróprias) que a um resgate propriamente dito, não se revestindo, portanto, de
virtude, mas apenas demonstrando a intenção da princesa de livrar-se da polução do
206
GARSON, R. W. “Some Critical Observations on Valerius Flaccus’ Argonavtica. I”. The Classical Quarterly, New
Series, Vol. 14, No. 2 (Nov., 1964),273p.
207
HERSHKOWITIZ, Debra. Valerius Flaccus’s Argonáutica – abbreviated Voyages in Silver Latin Epic. Oxford:
Clarendon Press Oxford, 1998. 145p.
208
HERSHKOWITIZ, Debra. Op. Cit. 143p.
209
HERSHKOWITIZ, Debra. Op. Cit. 138p.
210
HERSHKOWITIZ, Debra. Op. Cit. 137p.
211
De todas só Hypsipyle salvára
Thoante, o velho Pae, que alli reinava,
Em cavo cofre ella o metteu, e entrega
Ao mar, que o leva onde salvar-se possa.
Os Argonautas, 21p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
117
parricídio
212
. Por outro lado, o mesmo episódio latino campeia por sessenta e quatro versos,
entremeado do recorrente elogio à excelência filial da lemninana. A Hipsípila latina, portanto,
torna-se o maior exemplo de virtude feminina contido na obra de Flaco.
Por outro lado, no episódio flaquiano, também Jasão sobreleva-se aos seus modelos.
Êmulo constante de Enéias, Jasão igualmente é pio e reverente para com os deuses,
mostrando-se ainda mais presto no cumprimento dos desígnios divinos. Ao passo que Enéias
precisou de dois chamados para romper as amarras que o prendiam às terras da Elisa
213
, para o
Jasão latino bastou apenas a reprimenda de Hércules mais parecida com uma tímida súplica
que com uma verdadeira imprecação, em razão do profundo respeito demonstrado por
Hércules para com seu comandante. Ademais, foi também em relação à admoestação de
Hércules que o Jasão latino ultrapassou, em virtude, seu similar grego. A reação do herói
romanizado foi enérgica e viril, cheia de ímpeto não à toa que o poeta o comparou, como
dito, a um irritadiço cavalo de guerra, ávido pelas batalhas, que apenas esperava o chamado das
trombetas de Marte para recuperar seu vigor. Em contrapartida, o Jasão alexandrino, tão mais
afeito a aristéias eróticas que às lutas gloriosas
214
, foi humilhado pela reprimenda do Tiríntio, e
obedeceu-lhe cabisbaixo a ordem, sem qualquer valentia ou brio
215
.
No entanto, do Jasão helenístico, o Jasão latino recebeu também as virtudes galantes.
A capacidade de sedução, tão importante ao comandante da jornada rodiana
216
e nas cortes
ptolomaicas –, transmitiu-se ao herói flaquiano, que a potencializou na sociedade flaviana. Se o
212
CLAUSS, James J. Op. Cit. 113.
213
Na Eneida, Mercúrio ordena a Enéias duas vezes a partida uma, nos versos 294/303; outra, nos versos
604/623.
214
CLAUSS, James J. The Best of The Argonauts – the redefinition of the epic hero in book one of Apollonius’ Argonautica. Los
Angeles: University of California Press, 1993. 135p.
215
Ninguém replicar ousa a tal discurso
Nem os olhos erguer, antes sahindo
Do conselho, a partir se apressam todos.
Os Argonautas, 29p.
216
CLAUSS, James J. Op. Cit. 138.
118
episódio da ilha de Lemnos serviu, na composição de ambos os heróis argonáuticos, como um
exercício preparatório do guerreiro amoroso para o desafio final da sedução de Medéia
graças a quem a expedição seria vitoriosa em seus objetivos –, o resultado alcançado pelo Jasão
latino é muito mais eficaz que o do outro Jasão: ao passo em que a Hipsípila alexandrina
apenas demonstrou seu amor nas despedidas
217
, a Hipsípila latina, como Dido, apaixonou-se
pelo herói durante o banquete de boas vindas, tão logo o viu (II, 349/356):
dapibus coeptis mox tempora fallunt
noctis et in seras durant sermonibus umbras
praecipueque ducis casus mirata requirit
Hypsipyle, quae fata trahant, quae regis agat vis
aut unde Haemoniae molem ratis. unius haeret
adloquio et blandos paulatim colligit ignes,
iam non dura toris Veneri nec iniqua reversae
et deus ipse moras spatiumque indulget amori.
Iniciado o banquete, logo as horas fogem e, em conversas, perduram nas tardas sombras.
Principalmente Hipsípila, admirada com os feitos do capitão, indaga qual Fado os traz, que poder régio o
conduz e a razão do enorme tamanho da nau hemônia. Um a prende pela fala, e, pouco a pouco,
sente as brandas chamas. não mais é avessa ao leito ou contrária a que Vênus retorne e o próprio
deus concede tempo e espaço para o amor.
Jasão também era superior a Enéias na capacidade de sedução. Afinal, para que Dido
se enamorasse pelo herói troiano, Vênus enviou Cupido disfarçado de Iulo, que acendeu no
coração da viúva de Siqueu as chamas há muito apagadas
218
. Por sua vez, apenas pelos
atributos galantes do Jasão flaquiano, Hipsípila apaixonou-se.
Finalmente, o próprio Hércules latino igualmente alçava-se sobre seu modelo de
Apolônio. Irônico e desrespeitoso para com o comandante da viagem grega, Héracles, ao fim
217
Carpindo as Lemnias dos Heroes em roda,
Com mãos, e com palavras os saúdam.
Também depressa Hyp´sipyle apertando
Do Amante as mãos. de saudades chora.
Os Argonautas, 29p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
218
Com olhos e alma se lhe apega Dido,
No colo o assenta, sem saber (coitada!)
Que deus afaga. O aluno da Acidália
Siqueu, aos poucos, remover começa,
E intenso ardor insinuar procura
Num coração já frio e há muito esquivo.
Eneida, I, 749/755 – Tradução de Odorico Mendes.
119
da reprimenda pela demora na ilha, convocou os companheiros a abandonar seu capitão, a
realçar a precariedade do mando daquele na versão helenística. Note-se que, no texto de
Apolônio, o primeiro escolhido para o comando da nau fora o próprio Héracles, que cedeu seu
direito a Jasão; enquanto na versão latina em nenhum momento a primazia do Esônide foi
questionada, em outra aproximação com Enéias, comandante inderrogável da turma que o
acompanhou em sua viagem em direção ao ocidente. Por sua vez, o Hércules flaquiano pediu a
Jasão apenas que este retomasse o comando, sendo sua ameaça tão-só a da própria partida.
Sem a arrogância tão característica do Héracles de Apolônio, o Hércules de Flaco não seria,
portanto, em momento algum do epos latino, exemplo de um herói ultrapassado, bruto ou
irracional, que urgia ser abandonado
219
como Héracles mas sim, um exemplo de virtude
guerreira, de bravura e ainda de piedade, como se depreenderá da análise dos demais episódios.
Em suma, na versão latina, essa primeira escala da viagem dos intrépidos marinheiros
foi o momento em que o poeta tanto ressaltou a virtude tipicamente romana da pietas nos
dois sentidos: a pietas filial, simbolizada por Hipsípila; e a pietas divina, simbolizada por Jasão
quanto fez saber do ímpeto bélico e do poder de comando do capitão da nau, bem como de
sua capacidade de sedução. Por sua vez, Valério Flaco pôde também dar início à reabilitação de
Hércules, tão achincalhado na tradição alexandrina, mas valorizado em Roma a ponto de servir
de parâmetro de comparação, no canto virgiliano, quando da catábase de Enéias guiado por
Anquises, para o próprio imperador Augusto
220
. O processo de construção dos heróis, no
entanto, estava longe de se completar – como a própria jornada da nau Argo, estava apenas no
início.
219
CLAUSS, James J. Op. Cit. 13 e 196-210.
220
Nem o que a cerva erípede varara,
Que apaziguara as matas do Erimanto,
E a Lerna com seu arco estremecera,
Tanto peregrinou. ...
Eneida, VI, 827/831 – Tradução de Odorico Mendes.
120
4. O Resgate de Hesíone – ou a
Fortidudo
hercúlea: vv. 451/578
Sem antecedentes ou sucessores literários, o episódio do resgate de Hesíone foi uma
das adições exclusivamente flaquianas à saga argonáutica. Sob a inspiração do mito de Perseu e
Andrômeda
221
, anteriormente exposto por Ovídio
222
, Valério Flaco narrou a libertação da
jovem princesa troiana pelo herói Tiríntio, valorizando-o e conferindo-lhe a celebridade e o
reconhecimento por seus atributos.
Tendo os nautas desembarcado nas terras de Dárdano, após deixarem a ilha de
Lemnos e passarem pela mística ilha de Samotrácia (onde foram iniciados em ritos tão secretos
que nem sequer o poeta poderia contá-los, além de se purificarem da demora excessiva na ilha,
contrária aos desígnios divinos
223
), Hércules e Telamón, enquanto passeavam pela praia,
ouviram, ao longe, um bil choro (II, 451/453). Sem demora, os dois seguiram a direção do
pranto e encontraram uma jovem agrilhoada a um penhasco à beira-mar. Vendo a chegada dos
heróis, os campônios do derredor, até então escondidos e aterrorizados, aproximaram-se.
Hércules indagou à jovem seu nome e o motivo de sua desdita; esta lhe respondeu ser
Hesíone, filha de Laomedonte, e que fora presa pelos parentes, por ordem do deus Amon, à
penha como oferenda a um terrível monstro marinho enviado por Netuno, que exigia
sacrifícios humanos (II, 471/484) presumivelmente em retaliação ao logro de Laomedonte,
que se recusara a pagar-lhe pela construção das muralhas de Tróia. Mas disse também que
antigas profecias garantiam que ela, apesar daqueles grilhões, seria salva; tanto que seu pai, o rei
de Ílio, prometera ao seu protetor os sagrados cavalos recebidos de Júpiter em recompensa ao
rapto de Ganimedes (II, 485/492). Hércules, sem titubeios, ofereceu-se para defendê-la. No
221
HERSHKOWITIZ, Debra. Op. Cit. 72p.
222
OVÍDIO, Metamorfoses, IV, 663/752.
223
SHELTON, James. J. “Valerius Flaccus 2.428-50”. In Classical Philology, Vol. 69, No. 4 (Oct., 1974), 293p.
121
mesmo instante, Netuno retumbou no golfo e enviou o monstro. Seu tamanho era
desmesurado, em exagero típico do período flaviano (II, 497/520):
Dat procul interea signum Neptunus et una
monstriferi mugire sinus Sigeaque pestis
adglomerare fretum, cuius stellantia glauca
lumina nube tremunt atque ordine curva trisulco
fulmineus quatit ora fragor pelagoque remenso
cauda redit passosque sinus rapit ardua cervix.
illam incumbentem per mille volumina pontus
prosequitur lateri adsultans trepidisque ruentem
litoribus sua cogit hiems. non fluctibus aequis
nubiferi venit unda Noti, non Africus alto
tantus ovat patriisque manus cum plenus habenis
Orion bipedum flatu mare tollit equorum.
ecce ducem placitae furiis crudescere pugnae
surgentemque toris stupet immanemque paratu
Aeacides pulsentque graves ut terga pharetrae.
ille patrem pelagique deos suaque arma precatus
insiluit scopulo motumque e sedibus aequor
horruit et celsi spatiosa volumina monstri,
qualis ubi a gelidi Boreas convallibus Hebri
tollitur et volucres Rhipaea per ardua nubes
praecipitat. piceo nox tum tenet omnia caelo.
illa simul molem horrificam scopulosaque terga
promovet ingentique umbra subit, intremere Ide
inlidique ~ates~ pronaeque resurgere turres.
Logo, ao longe, Netuno sinaliza e, a um tempo, faz o golfo monstrífero retumbar e o mar
encapelar-se, com a peste sigéia, cujos verdes olhos faiscantes tremem na bruma. Um fragor, como de
um raio, sacode as curvas mandíbulas de fileiras trissulcadas. Erguido sobre as águas, ele eleva a cauda e
guinda a nuca além das voltas. O mar, do flanco se deitando, o segue, a cair pelas mil curvas – sua chuva
arrasta o que na praia tomba. o com ondas tais chega a tempestade do proceloso Noto, nem tão
exultante se lança sobre o oceano o Áfrico, quando Órion, tomando nas mãos as rédeas do pai, agita o
mar com o sopro dos cavalos marinhos. Eis que o Eácida espanta-se com o recrudescer das iras do herói
pela ansiada luta, [herói] que se erguia com as armas e os músculos, enquanto se entrechocavam as
flechas no carcás que ele levava ao ombro. Aquele [Hércules], tendo invocado o pai, o deus do Mar e
suas armas, saltou na rocha, e tremeu diante da água erguida das profundezas e das grandes voltas do
animal que, como Bóreas, quando sai dos vales do frio Hebro e precipita as céleres nuvens pelos picos
do Rifeu, logo ocupa todo o céu com a escuridão. O monstro, ao mesmo tempo, estende a horrível
massa e o dorso encarquilhado. Com sombra enorme sobe e faz tremer o monte Ida, derruba matas e
soergue torres decaídas.
Perante o monstro, mesmo rcules trepidou, posto que o enfrentasse com
galhardia; lançou suas flechas todas, porém estas resvalaram no couro do bicho; desarreigou,
então, do solo uma montanha, e com ela esmagou o lombo do animal medonho, que caiu no
mar, tingindo-o de rubro sangue (II, 533/534). Os pastores ovacionaram-no e levaram o
libertador da costa de Pérgamo a ter com o rei. Este, por sua vez, em uma recorrência de sua
122
tíbia personalidade mítica, maquinou furtar-se ao pagamento da promessa, imaginando um
modo de matar o herói, enquanto este dormia. No entanto, antes de poder ultimar seu dolo, o
próprio Hércules frustrou-lhe a iniciativa ao anunciar sua partida, e pedir ao rei para que
custodiasse as montarias, até que ele voltasse da jornada ao levante (II, 567/569). O rei,
satisfeito com a possibilidade de protelar a entrega dos preciosos cavalos, falsamente anuiu
com o pedido do herói, mas o poeta, aproveitando o ensejo, fez questão de proclamar que por
suas perfídias tanto Tróia choraria um dia em uma referência às duas destruições da cidade
patrocinadas pelo arco de Hércules: uma sob o reinado de Laomedonte e outra, mais tarde,
quando as flechas de Hércules, nas mãos de Filoctetes, dariam morte a Páris.
O episódio, em si, não excele nem em qualidades poéticas, nem em virtudes
narrativas; todavia, tem o condão de oferecer a Hércules a possibilidade de uma façanha só sua
na expedição, façanha esta que nenhum outro Argonauta teria conseguido realizar. Sua
incomensurável força, capaz de arrancar árvores frondosas e montes gigantescos do chão, foi o
talento realçado nesse entrecho do epos flaquiano, de tal maneira que, no plano de construção
de um herói superior a todos os modelos de antanho, o Tiríntio obteve sua parcela de
reconhecimento e a restauração de seu estatuto virtuoso
224
. Além disso, o episódio do resgate
de Hesíone foi o ensejo que Valério Flaco teve para descrever e valorizar o padrão do herói
solitário, porquanto o paradigma principal das Argonautica fosse o do herói coletivo tão bem
representado por Jasão
225
. Por outro lado, essa valorização individual de Hércules que, ao
mesmo tempo, oferecia ao poema uma certa dose de originalidade, capaz de afastar do poeta a
pecha de mero tradutor de obra alheia
226
emprestava-lhe, por sua vez, a grandeza necessária
para não ser objeto de opróbrio quando de seu abandono pelos companheiros, no subseqüente
224
HERSHKOWITIZ, Debra. Op. Cit. 147p.
225
idem.
226
GARSON, R. W. Op. Cit. 278p.
123
episódio do rapto de Hilas. Afinal, no período flaviano, a imagem de Augusto, que
recorrentemente era comparado a Hércules, serviu de sustentáculo para a afirmação da nova
casa dinástica, que buscava, com a emulação de Otaviano, firmeza e solidez para suas próprias
instituições. Conservar a grandiosidade de Hércules era importante para asseverar e confirmar
os ritos de Jasão do mesmo modo que restaurar a imagem de Augusto, comprometida
pelas ações de seu último descendente dinástico, foi vantajoso para Vespasiano e seus
sucessores como forma de sua vinculação à grandeza do primeiro Princeps.
No campo das virtudes, portanto, embora o diretamente vinculado com a
formação heróica de Jasão, o episódio do Resgate de Hesíone foi a ocasião que teve o poeta de
realçar a qualidade da fortitude (tomada no sentido simples de força física) como outro valor e
honra dos romanos, inspirados no exemplo do Tiríntio. Ademais, a presumível relação
alegórica entre Hércules e Otaviano robustece tal interpretação, de modo a preludiar o
episódio seguinte, em que os Argonautas todos provaram seu pendor bélico vencedores
incólumes da sangrenta e funesta batalha contra o rei Cízico.
5. A Morte de Cízico – ou a
Virtus
guerreira: vv. II, 635 / III, 464
Partindo de Tróia, onde permaneceram os cavalos ganhos por Hércules em
recompensa ao resgate de Hesíone, a expedição prosseguiu viagem. No percurso rumo a oeste,
os Argonautas puderam divisar, ao longe, a tumba de Ílio, o monte Ida e o Gárgara
horrissonante. Adentraram, então, no alto mar, onde Heles, a irmã de Frixo, apareceu aos
marinheiros, entre golfinhos e divindades, também ela deificada. A ninfa, que tombara no
Oceano ao ser transportada pelo Carneiro de Ouro, contou sua sina a Jasão e pediu-lhe que,
quando atingisse as margens do rio Fase, tranqüilizasse a alma de Frixo, que repousava
124
temerosa quanto ao destino da irmã. A seguir, após libações e preces em honra à deusa, a nau
continuou singrando as águas profundas do Ponto em direção à Ásia; deixou o Percote, o
Pário, a Pítia e Lâmpsaco, até alcançar, no Proponte, as terras dos doliões, domínio do jovem
Cízico (II, 579/634).
Ao ver chegarem os marinheiros, Cízico os recebeu como respeitáveis e bem-vindos
hóspedes (II, 636/637). Abriu-lhes o palácio e cumulou-os de honrarias e de atenções.
Ofereceu-lhes presentes e obteve, em retribuição, a promessa de auxílio nas batalhas que
porventura ocorressem durante a estada dos jovens em seu reino constantemente acossado
pelos Pelasgos. Então, por três dias, os Argonautas beneficiaram-se da hospitalidade do
soberano, que, na partida, ofereceu-lhes, além da promessa de sua perene amizade, trigo,
vinho, armas e vestes bordadas; em retribuição, Jasão deu-lhe taças lavradas e os preciosos
bridões tessálios (III, 1/13).
Uma nova invocação do poeta alterou, então, o rumo do Canto. Clio, a Musa da
poesia heróica, passou a reger a intenção do vate (III, 14/18):
Tu mihi nunc causas infandaque proelia, Clio,
pande virum! tibi enim superum data, virgo, facultas
nosse animos rerumque vias. cur talia passus
arma, quid hospitiis iunctas concurrere dextras
Iuppiter? unde tubae nocturnaque movit Erinys?
Agora tu, Clio, mostra-me as causas e os nefandos combates dos heróis, pois foi dada a ti pelos
deuses, Virgem, a faculdade de conhecer as intenções e o curso das coisas. Por que Júpiter consentiu tais
guerras? [Por que consentiu] contenderem mãos unidas pela hospitalidade? Para onde a Erínia e as
trompas levam a noite?
Sob a invocação da nova musa, Valério Flaco, primeiro, narrou a motivação das
desgraças que se abateram sobre Cízico (III, 19/31):
Dindyma sanguineis famulum bacchata lacertis
dum volucri quatit asper equo silvasque fatigat
Cyzicus, ingenti praedae deceptus amore
adsuetum Phrygias dominam vectare per urbes
oppressit iaculo redeuntem ad frena leonem.
et tunc ille iubas captivaque postibus ora
imposuit, spolium infelix divaeque pudendum.
125
quae postquam Haemoniam tantae non immemor irae
aerisono de monte ratem praefixaque regum
scuta videt, nova monstra viro, nova funera volvit,
ut socias in nocte manus utque impia bella
conserat et saevis erroribus implicet urbem.
Enquanto, na Orgia Dindima, encrespado pelo célere corcel, Cízico faz estremecer o servo de
braços ensangüentados, tomado pelo imenso amor à caça, ele atingiu com a lança o leão acostumado a
conduzir pelas vilas Frígias sua Senhora. Ele, então, afixou nos postigos a cabeça e a juba da presa
infeliz despojo e opróbrio para a deusa que, recordando-se de tanta ira, viu do monte aeríssono a nau
hemônia munida com os escudos de reis. Planeja, então, ao homem novas desgraças e novas mortes,
para que, na noite, enfrentem-se mãos amigas, em ímpia guerra, e encha a cidade com cruéis equívocos.
Tal foi o motivo dos lamentáveis acontecimentos que se seguiram à partida dos
marinheiros a ira da deusa Cibele, cujos ritos haviam sido perturbados e cujo animal de
estimação fora morto pelo jovem e imprudente rei. Por isso, enviado pela iracunda deusa, um
torpor divino cerrou os olhos do piloto Tífis, e a nau Argo, que se pôs a viajar ao sabor dos
ventos, guinou seu curso, retornando, no breu da noite, às praias antes hospitaleiras (III,
41/42). Os ilhéus, desavisados, julgaram que chegassem ao porto os Pelasgos, seus inimigos
antigos. Tomaram, pois, armas e lançaram-se, belicosos, em pretensa defesa da terra. De todos
os lares, os homens partiram e arrojaram-se à luta mesmo Cízico que, despertado do sono
por Belona, convocou a tropa para a luta à mão-cega. Os Argonautas, não esperando pela
aguerrida e inóspita recepção, ainda hesitaram não queriam o combate, sem distinguirem o
inimigo. Contudo, lanças pontiagudas atingiram a embarcação e compeliram os tripulantes à
refrega. Sem outra opção senão a batalha, os nautas não se furtaram à valentia (III, 80/82):
princeps galeam constringit Iason
vociferans: 'primam hanc nati, pater, accipe pugnam
vosque, viri, optatos huc adfore credite Colchos.'
Jasão, o primeiro, ajusta o elmo, vociferando: Aceita, Pai, esta primeira luta de teu filho; e vós,
varões, crede que aí estão os tão ansiados colcos.
A luta fez-se terrível (III, 90/94). Em uma descrição de tica inteiramente romana, a
estratégia de guerra dos Argonautas -los organizarem-se sob a formação da tartaruga (III,
147), e dizimar as tropas adversárias. Escudo a escudo, eles suportaram a investida dos ilhéus e
126
derrubaram-nos fragorosamente. Cada Argonauta teve sua própria aristéia, banhando o chão da
ilha com o sangue, os ossos e os miolos daqueles que até havia pouco eram seus amigos.
Durante toda a noite os heróis de ambos lados enfrentaram-se, infligindo absoluta derrota aos
súditos de Cízico. A este, por seu turno, a lança de Jasão também alcançou, cravando-se-lhe no
peito e subtraindo-lhe a vida. Sua última visão foi a das torres da deusa Cibele, acompanhada
pelo rugido do leão (III, 234/235).
Morto o rei, Júpiter decidiu que era hora de interromper a seva batalha (III, 249/251).
Ao redor das muralhas, corpos juncavam a praia, quando a Aurora conduziu sua biga rósea e
mostrou aos Argonautas a verdadeira face de seus adversários. Um lamento compungido
espalhou-se pelas areias e os nautas, cientes da desgraça cometida, choraram pelos mortos
amigos (III, 274/276). Jasão, mais que depressa, ordenou que os companheiros preparassem as
exéquias. Derrubaram-se matas, elevaram-se piras, sacrificaram-se animais e depuseram-se
riquezas junto ao cadáver de zico. Respeitosos, os heróis cumpriram os ritos fúnebres (III,
332/361).
No entanto, mesmo tendo sido prestadas todas as homenagens aos guerreiros
trucidados, o ânimo e o vigor desapareceram aos jovens, que, prostrados, caíram na inação,
tombados pelo desânimo. Por duas vezes o vento os chamou para zarparem, mas, como não
lhes restasse confiança alguma, não retornaram ao mar. Em razão do quebranto que atingira os
companheiros, Jasão pediu a Mopso, o adivinho que acompanhava a expedição, que lhe
revelasse o motivo de tamanha angústia e tão grande consumição. A resposta de Mopso clara:
as almas dos mortos necessitavam dos ritos fúnebres para livrarem-se da ira que as retinha.
Cumpridos, então, todos os ditames preceituados pelo filho de Apolo, as forças retornaram
aos nautas, que puderam, enfim, partir.
127
Eis a suma do episódio flaquiano. No entanto, para a compreensão de sua função no
corpus argonáutico latino, mais uma vez faz-se indispensável o seu confronto com o canto de
Apolônio de Rodes, disposto nos versos 961/1116, do Canto I de suas Argonautica. Em um
resumo ainda mais breve que o anterior, os eventos narrados pelo poeta alexandrino podem
ser expostos da seguinte forma
227
: Ao alcançarem a terra dos doliões, os Argonautas foram
recebidos por zico, o jovem rei da ilha, com fartos dons de hospitalidade. Logo na manhã
seguinte à chegada, conduzidos pelo rei, os marinheiros heládicos foram conhecer seus
domínios quando, do alto do monte Díndimo, Héracles divisou gigantes, que tentavam cercar
o barco fundeado na baía logo abaixo. Mais que depressa o Tiríntio tomou seu arco e disparou
flechas ligeiras contra os brutamontes. Estes revidaram, arrojando contra ele grandes rochedos.
Os demais heróis correram ao seu auxílio e, em pouco tempo de batalha, todos os gigantes
restavam tombados e mortos na praia. Finda a luta, era tempo de despedidas. Os moços
tornaram ao mar e zarparam; mas, na noite escura, um vento alterou a rota da embarcação, que
voltou ao porto amigo, sem reconhecê-lo. Iniciava-se, assim, a funesta refrega, que, sem
maiores descrições do poeta, matou o rei e doze ilhéus. O massacre prosseguiu até a chegada
da Aurora, quando os nautas perceberam seu trágico e irreparável erro. Por três dias, então,
eles choraram o luto sinistro. Depois, uma tempestade os prendeu junto ao porto por mais
doze dias, até que uma andorinha voou em torno do capitão e Mopso leu seu vôo como um
augúrio – que prestassem culto à deusa Rea, senhora do monte Dindimo. Cumpridos os
preceitos, a procela amainou-se; um vento favorável soprou e a Nau fez-se, de novo, ao mar.
Três interpretações tentaram dar conta da função do episódio de Apolônio na saga
argonáutica nenhuma delas excludente ou inconciliável com as demais. Uma das possíveis
227
RHODIO, Apollonio. Os Argonautas. Tradução José Maria da Costa e Silva. Lisboa: Imprensa Nacional. 1852.
31p e ss.
128
leituras do entrecho apontaria para a intenção etiológica, tipicamente alexandrina, do autor
228
,
haja vista a seqüência de indicações da origem dos nomes de fontes, rios e acidentes
geográficos, bem como de ritos e cultos religiosos, todos eles relacionados com a passagem
dos Argonautas pela região
229
. Por outro lado, o episódio de Cízico tentou explicar a hipótese
de condenação à guerra apresentada sem causa e fruto de enganos no texto de Apolônio
230
.
O contraponto estabelecido com o trecho da batalha de Héracles (símbolo do herói
anacrônico) contra os gigantes reforça o caráter ultrapassado das contendas, apresentadas pelo
poeta alexandrino como um mero equívoco era, enfim, o canto de paz ptolomaico.
Finalmente, uma terceira via pretendeu alargar a hipótese pacifista do canto de Apolônio
231
,
inserindo aí o elemento erótico da virtude cortesã alexandrina. Essa concepção pode ser
aferida pelo cotejo entre o episódio
232
das Mulheres de Lemnos e o da Morte de Cízico. Afinal,
o sucesso alcançado pela virtude galante dos Argonautas, quando de sua estada com as viúvas
assassinas, foi contrabalançado pelo insucesso fragoroso do erro bélico, causador, sem
motivos, de tanto nojo e dor.
Pois bem, mais uma vez, a partir da interpretação do trecho de Apolônio, basilar para
o entendimento do canto de Valério Flaco, faz-se possível a compreensão teleológica do
228
FITCH, Edward. “Apollonius Rhodius and Cyzucus”. In The American Journal of Philology, Vol. 33, No. 1 (1912),
pp. 55p.
229
O trecho abaixo serve de exemplo paradigmático para a explicação pretendida. Ressalte-se apenas que outros
exemplos podem ser facilmente extraídos do texto de Apolônio:
De Thyfis por conselho ali deixaram
Um penedo, que de âncora lhes serve,
Junto da Arcacia fonte, e outro tomaram
De maior pezo; mas correndo o tempo
Obrigados do Oráculo de Apollo
Os Neleios Iônios depozeram
Da Jasonia Palas o seixo antigo
No Templo, e como sacro lh’o votaram.
Argonautas, 32p – Tradução de José Maria da Costa e Silva.
230
CLAUSS, James J. The Best of The Argonauts the redefinition of the epic hero in book one of Apollonius’
Argonautica. Los Angeles: University of California Press, 1993. 175p.
231
BEYE, Charles R. Ancient Epic Poetry Homer, Apollonius, Virgil. New York: Cornell University Press. 1993.
200p.
232
HERSHKOWITIZ, Debra. Valerius Flaccus’s Argonáutica abbreviated Voyages in Silver Latin Epic.
Oxford: Clarendon Press Oxford, 1998. 174p.
129
episódio em questão. Preliminarmente, o canto flaquiano mostrou-se indiferente às indagações
etiológicaspresentes nos versos de Apolônio. Por outro lado, pela própria disposição do texto,
vê-se a opção guerreira emprestada ao canto latino, bastante adequada à atitude castrense e
expansionista da Roma do período Imperial Flaviano. As guerras, portanto, seriam motivadas
pela vontade dos deuses, e não pelo mero acaso ou pelo sabor dos ventos, como no canto
ptolomaico
233
; não foi à-toa que o poeta narrou a razão da punição a Cízico no início de seu
Canto III (III, 19/31), logo após a invocação da musa Clio punição esta cominada ao ato de
impiedade, a hybris, do jovem rei, que matara o leão da deusa Cibele e perturbara seu culto.
Jasão, então, juntamente com (III, 46/50) e Belona (III, 60/64) deuses associados às
guerras e às virtudes belicosas fez-se instrumento da vingança divina, e não apenas um mero
joguete da sorte, como seu similar de Apolônio: tanto que além de ter oferecido em
consagração seu primeiro combate a Júpiter (III, 81/82), o capitão dos Argonautas ainda
recebeu do poeta o epíteto de dux campi Martisque – senhor do campo e da guerra (III, 150).
Graças a esse expediente de divinização da causa dos combates, Valério Flaco
conseguiu reverter o fiasco do episódio de Apolônio, a mostrar como virtuosa e sagrada a ação
combativa dos heróis latinos. Ademais, em outra reconfiguração do episódio alexandrino
234
, o
poeta flaviano narrou uma vasta seqüência de pequenas aristéias (III, 74/211), nas quais
tomaram parte diversos dos nautas, em celebração às virtudes individuais daqueles enquanto
Apolônio de Rodes apenas vinculou os mortos aos seus algozes, em um pido rol, Valério
233
Passado da batalha o terror todo,
Desamarrando a Náo, dam vela os Mynias,
E avante cortam a planicie equorea.
Durante a noute as procellas contrangeram
A arrepiar caminho á Náo, que torna
Dos hospedeiros Doliões ao porto.
Argonautas. 33p – Tradução de José Maria da Costa e Silva.
234
GARSON, R. W. “Some Critical Observations on Valerius Flaccus’ Argonavtica. I”. The Classical Quarterly, New
Series, Vol. 14, No. 2 (Nov., 1964). 267p.
130
Flaco descreveu, ainda que sumariamente, cada assassínio, como nas gestas homéricas ou nos
Cantos II, VIII e IX da Eneida.
Clara, portanto, a identificação da virtude guerreira com os eventos descritos no
episódio da Morte Cízico, ainda resta perceber a ênfase moral dada ao luto dos Argonautas no
canto latino
235
. Se apenas a ausência dos ventos impedia a partida da nau Argo alexandrina, o
luto e a dor dos marinheiros consumidos pelo remorso retinham a nau flaviana. Por isso, dois
expedientes completamente diferentes foram utilizados pelos dois diferentes capitães: o Jasão
de Apolônio apenas sacrificou à deusa Rea para que esta lhes concedesse bons ventos; o Jasão
flaquiano, por outro lado, perpetrou, sob a orientação do fêbeo Mopso, um intrincado ritual de
despedida para os espíritos dos mortos, que se prendiam ainda ao mundo dos vivos (III,
430/459).
Enfim, sem descaracterizar a vitória galante obtida pelo garboso Jasão quando de
seu encontro com Hipsípila, o herói cumpriu também sua primeira aristéia, provando sua virtus
guerreira. O Jasão amoroso tornou-se, portanto, o Senhor do Campo e da Guerra, guardando, a
todo passo, sua pietas. Hércules, por seu turno, permaneceu como o bravo e forte herói,
inspirador de feitos e de gestas – como Augusto, para Vespasiano e seus filhos.
6. O Rapto de Hilas – ou a
Auctoritas
: vv. III, 481/ IV, 81
Os ritos expiatórios conduzidos por Mopso sob a inspiração de Apolo conseguiram
livrar os Argonautas do desânimo e do medo, causados pelo grande remorso e pela ira dos
Manes. As oferendas depostas pelo adivinho no altar votado a divindades desconhecidas
foram, então, acolhidas por duas serpentes de línguas dardejantes, em sinal de aceitação. Os
nautas, convocados pelo canto do vate a retomar os bancos e os remos, ajustaram suas armas e
235
GARSON, R. W. Op. Cit. 268p.
131
lançaram-se mais uma vez ao mar. Em porfia, incitaram-se uns aos outros a forcejar; quando
Hércules, no afã da disputa, quebrou seu remo (III, 459/480). Assim, tão logo a nau aportou
na Mísia, o Tiríntio, acompanhado de Hilas, partiu em busca de um grande olmo, com que
pudesse repor o instrumento partido (III, 481/486). No entanto, do empíreo, Juno, que via o
detestado enteado afastar-se do restante da tripulação, tramou fazer-lhe mal. Afastou dele a
proteção de Palas e procurou por Dríade, uma das ninfas do bosque, prometendo-lhe
casamento com o formoso e ilustre Hilas (III, 535/544). Imediatamente, a deusa ainda fez
surgir diante do rapaz um grande cervo de frondosos cornos e instigou o jovem a caçá-lo (III,
549/564):
credit Hylas praedaeque ferox ardore propinquae
insequitur, simul Alcides hortatibus urget
prospiciens. iamque ex oculis aufertur uterque,
cum puerum instantem quadripes fessaque minantem
tela manu procul ad nitidi spiracula fontis
ducit et intactas levis ipse superfugit undas.
hoc pueri spes lusa modo est nec tendere certat
amplius; utque artus et concita pectora sudor
diluerat, gratos avidus procumbit ad amnes.
stagna vaga sic luce micant ubi Cynthia caelo
prospicit aut medii transit rota candida Phoebi,
tale iubar diffundit aquis: nil umbra comaeque
turbavitque sonus surgentis ad oscula nymphae.
illa avidas iniecta manus heu sera cientem
auxilia et magni referentem nomen amici
detrahit, adiutae prono nam pondere vires.
Hilas acredita e, com ardor, feroz segue a presa próxima, enquanto o Alcides, vendo-o, o
incita com exortações. Já um e outro são levados de sua vista, quando o quadrúpede conduz para longe o
jovem que o persegue lançando dardos com a mão cansada, até aos jorros de uma fonte cristalina. O
animal, ligeiro, foge por sobre as intactas ondas. Assim perdeu-se a esperança do jovem que não mais
longe tenta prosseguir. Como o suor porejava-lhe do peito arfante e dos braços, ele, ávido, debruçou-se
sobre a água reconfortante. Como o lago parado brilha com a luz quando a Cíntia vigia do céu ou a
resplandecente roda de Febo atravessa o zênite, assim era o brilho espalhado nas águas: nem sombras,
nem cabelos ou o som da ninfa erguendo-se para um beijo turbaram-nas. Ela, segurando as mãos
sedentas, ah, puxa-o, que tarde pede ajuda e chama o nome do grande amigo. O pender para frente [do
rapaz] ajuda-lhe as forças.
Sem saber do destino do jovem amigo, Hércules, com o olmo ao ombro, retornou
para junto dos companheiros. Esperava encontrar o rapaz, mas não o divisou entre os
heróis. Buscou-o, então, até a noite, mas sem qualquer sucesso. Entretanto, dor, melancolia e
132
delírio assaltaram-no quando compreendeu que sua madrasta subtraíra-lho (III, 580), e o
fortíssimo herói, desatinado, correu para as montanhas, destruindo árvores, feras e homens
inocentes que encontrava pelo caminho. Pelos desvios do bosque gritava, secundado pelo eco:
Rursus Hilam volta Hilas! Por seu turno, os companheiros também o chamaram e
rechamaram, por sete dias (III, 652).
Mas, incitados por Juno, os bons ventos sopraram. Tífis, então, impaciente com a
delonga, conclamou os sócios a partirem (III, 611/627). Por isso, Jasão convocou os
Argonautas para deliberarem, aduzindo o argumento de que os desígnios de Júpiter haviam
predito que Hércules ou, mais precisamente, o maximus armis (III, 619) não completaria a
jornada. Os nautas, então, ardorosos e animados, anuíram com a iniciativa do piloto, embora
Telamón, companheiro mais próximo de Hércules, se insurgisse contra a decisão do abandono
do amigo. Em adverso discurso (III, 649/689), Meleagro, agastado, respondeu-lhe que a
expedição não precisava do Tiríntio, e que, ademais, este deixara a equipagem por vontade
própria ou por soberba se o fosse por deletéria fúria insana. Acordes com Meleagro, os
nautas prepararam a partida; Telamón ainda obtemperou, mas em vão. Apenas guardando
tristeza, os marinheiros assumiram suas posições e a nau zarpou, deixando, ainda na mata, o
herói entregue ao luto (III, 740).
No ínterim, comovido pelos pios amores do filho (IV, 2), Júpiter intercedeu. Increpou
Juno pelos favores concedidos a Jasão em detrimento de Hércules, cominando, pelo
sofrimento do Tiríntio, a vingança que Medéia perpetraria contra o Esônide e contra todo o
povo grego (IV, 13/14). Enviou ainda para junto do herói abandonado o Sono, como lenitivo
ao seu desespero. Então, no sonho, Hilas apareceu para Hércules, pedindo-lhe que cessasse o
pranto (IV, 25/37). Hércules tentou retê-lo, mas a sombra do rapaz desfez-se à medida em que
o herói despertava. Este ainda chorou, lamentando-se por deixá-lo sozinho na montanha; mas
133
voltou a buscar os companheiros de viagem, não os encontrando, posto que apenas os
divisasse, cheio de vergonha, ao longe, já no mar (IV, 51/57).
Hércules, então, voltou seus passos para Tróia, indo em busca dos cavalos que
recebera em recompensa à libertação de Hesíone. Mas antes de chegar, Latona, Diana e
Apolo foram suplicar a Júpiter que concedesse ao herói uma nova e maior glória: que este
fosse ao Cáucaso libertar Prometeu dos grilhões e do abutre imortal. E assim Júpiter concedeu,
ordenando que Íris transmitisse sua vontade ao forte, que novamente se rejubilou (IV, 58/81).
Tal é o argumento do canto de Flaco que, mais outra vez, apenas revela sua vinculação
com a tradição literária precedente. Afinal, o tema do rapto de Hilas fora tão abordado na
antigüidade que mereceu a ironia do verso virgiliano: Cui non dictus Hilas puer?Por quem não
foi cantado o jovem Hilas
236
?
As duas primeiras fontes poéticas do mito, e, por conseguinte, as duas primeiras bases
de comparação entre as personagens, são exatamente alexandrinas: uma de Teócrito, outra de
Apolônio de Rodes. De Teócrito, Valério Flaco distingue-se quanto ao estatuto de Hilas, uma
vez que na obra do bucólico no Idílio XIII
237
o jovem amigo de Héracles aparecia como
mero criado do herói, enquanto no texto do poeta latino figurou como um verdadeiro
aprendiz de guerreiro. Afinal, no canto alexandrino, o jovem fora raptado por um coro de
ninfas (e não por uma só, como no epos flaquiano) no momento em que buscava água para a
refeição do Tiríntio, ocupado no desarreigar de árvores; por outro lado, o belo Hilas latino foi
abduzido quando, sedento pela corrida, caçava um altivo cervo. Além disso, o estatuto heróico
do Hilas flaquiano havia sido cantado em duas outras oportunidades – na chegada de
Hércules à expedição (I, 107/111) e durante a funesta batalha contra Cízico (III, 181/185):
236
VIRGILIO. Georgicon III, 6.
237
THÉOCRITE, MOSCHOS, BION. Les Bucoliques Grecs. Paris: Librarie Garnier Frères, 1931. 67p.
134
Protinus Inachiis ultro Tirynthius Argis
advolat, Arcadio cuius flammata veneno
tela puer facilesque umeris gaudentibus arcus
gestat Hylas; velit ille quidem, sed dextera nondum
par oneri clavaeque capax.
De pronto, livremente, acorre da ináquia Argos o Tiríntio, cujo arco e as flechas inflamadas por
veneno Arcádio o jovem Hilas leva nos ombros ledos na verdade, ele queria a clava, mas a mão ainda
não era capaz do peso.
E:
desere nunc nemus et nympharum durus amores!
at diversa Sagen turbantem fallere nervo
tum primum puer ausus Hylas (spes maxima bellis
pulcher Hylas, si fata sinant, si prospera Iuno)
prostravitque virum celeri per pectora telo.
Feroz, agora, deixa o bosque e os amores das ninfas! E então Hilas, ousando pela primeira vez
retesar o arco contra Sagen, que estava confuso entre os inimigos, prostrou o varão com um célere dardo
no peito (máxima esperança nas guerras é o belo Hilas, se o permitem os Fados e se o propicia Juno).
As qualidades bélicas do Hilas latino também se afirmaram em contrapartida do texto
de Apolônio
238
. Como em Teócrito, o Hilas épico alexandrino não passava de um fâmulo,
raptado por Héracles da casa dos pais, aos quais o Tiríntio dera morte em uma discussão
dolosa acerca de um boi. No entanto, o maior contraponto estabelecido com o texto de
Apolônio de Rodes reside na caracterização do próprio Héracles – menosprezado, como
constantemente referido, no canto alexandrino.
Nesse sentido, duas interpretações mostram-se possíveis acerca da função do
episódio de Hilas na tessitura da trama helenística ambas consistentes e fulcrais para a
238
Longe dos Mynias divagando em tanto,
Hylas com eneo vaso procurava
Sacra corrente de uma fonte, aonde
Agoa, que á cêa a Hercules presente,
Recolha, por que tinha prompto tudo
Para quando ele volte: em taes costumes
O creou de menino, e desde quando
Da casa de seu Pae Theodamante
O roubou, Theodamante, a quem deu morte
Por se oppôr a tirar-lhe um Boi do Arado
Dos Dryopes na terra.
Argonautas, 40p – Tradução de José Maria da Costa e Silva.
135
compreensão do herói flaquiano. Pela primeira interpretação
239
, Héracles simbolizaria
(conforme a visão cortesã alexandrina, note-se bem) não só um modelo ultrapassado de
virtude guerreira, baseada no valor individual e na exaltação da força; mas seria também o
exemplo de uma sexualidade de conotação pederástica, desusada na sociedade ptolomaica – de
cariz nada misógino
240
. Por isso, o desembarque do herói representaria o afastamento da
valorização do amor homoerótico, pouco adequado à sociedade galante da época. Ademais, o
desespero insano que tomou o forte herói quando do desaparecimento do amado moço
denotaria sua desmedida no uso dos prazeres sexuais, desmedida essa que precisaria ser
extirpada, como marca de excelência do homem virtuoso. A demência que consumiu o
Alcides, despertada pelo amor defraudado, era, pois, a conseqüência de sua intemperança, cujo
resultado único levaria, inexoravelmente, à necessidade de seu abandono.
a segunda interpretação não questionou a sexualidade do herói de Apolônio, mas
apenas o seu modelo de força
241
. Se a virtude do herói helenístico primava pela habilidade
social e pela diplomacia
242
, aquele cujo atributo primordial fosse o vigor bélico e a fortidão
imensa não teria valor, devendo, portanto, ser objeto de abandono.
Pois bem, em oposição a essas duas possíveis interpretações do episódio alexandrino,
o modelo flaviano deu mais um passo em direção à edificação de um padrão de excelência da
Roma no final do século. Começando pela primeira hipótese, o abandono de Hércules o
teria ocorrido em razão de seu desatino amoroso, mas pela intercessão direta da vontade dos
239
BEYE, Charles R. Ancient Epic Poetry Homer, Apollonius, Virgil. New York: Cornell University Press. 1993.
200p.
240
BEYE, Charles R. Op. Cit. 202p. E o Idílio XV, de Teócrito, que celebra as virtudes e a grandeza de Berenice,
esposa de Ptolomeu.
241
CLAUSS, James J. The Best of The Argonauts the redefinition of the epic hero in book one of Apollonius’
Argonautica. Los Angeles: University of California Press, 1993. 198p.
242
Cumpre pois que de nós o mais prestante
Se escolha sem paixão, que seja o Chefe,
Que tudo tenha a cargo, ou com estranhos
De pugnar se haja, ou de fazer alianças.
Argonautas, 12p – Tradução de José Maria da Costa e Silva.
136
deuses. Todo o plano fora idealizado por Juno, que não só excitou os desejos da Ninfa raptora
de Hilas, mas ainda enviou bons ventos aos nautas, incitando, assim, a partida de Argo e o
abandono de Hércules. Além disso, o próprio Tiríntio percebeu que a motivadora do
desaparecimento do rapaz fora a vingativa madrasta (III, 579/580), quando então seu furor teve
início. Por outro lado, mais uma vez afastando a conotação sexual do envolvimento entre
Hércules e Hilas, a caracterização construída por Valério Flaco reportou diretamente à ligação
parental de Enéias e Iulo, em possível emulação do modelo virgiliano, ligação anunciada
logo no início do episódio (III, 485/486)
243
:
petit excelsas Tirynthius ornos,
haeret Hylas lateri passusque moratur iníquos.
O Tiríntio busca grandes olmos, e Hilas, ao lado, o segue, atrasado pelos passos desiguais.
Na Eneida (II, 723/724):
O tenro Iulo
Trava-me a destra, amiída os curtos passos
Por alcançar os meus.
Eneida, II, 756/757 – Tradução de Odorico Mendes.
Além disso, o sonho de Hércules, em que este divisou o belo Hilas, guardou grande e
inequívoca semelhança com o sonho de Enéias
244
, no qual Creúsa, sua esposa desaparecida,
despediu-se e animou-o para os futuros eventos gloriosos (IV, 25/31):
'quid, pater, in vanos absumis tempora questus?
hoc nemus, hoc fatis mihi iam domus, improba quo me
nympha rapit saevae monitu Iunonis, in amne.
nunc Iovis accessus et iam mihi limina caeli
conciliat iungitque <toros> et fontis honores.
o dolor, o dulces quas gessimus ante pharetrae!
iam socii laetis rapuerunt vincula ventis,
hortator postquam furiis et voce nefanda
impulit Oenides. verum cum gente domoque
ista luet saevaeque aderunt tua numina matri.
243
GARSON, R. W. “The Hilas Episode in Valerius Flaccus’ Argonavtica”. The Classical Quarterly, New Series,
Vol. 13, No. 2 (Nov., 1963), 264p.; e HERSHKOWITIZ, Debra. Op. Cit. 150p e ss.
244
MALAMUD, Martha A.; McGUIRE, Donald T. “Flavian Variant: Myth. Valerius’ Argonautica”. Roman Epic
Edited by A. J. Boyle. London: Routledge. 197p.
137
surge age et in duris haud umquam defice, caelo
mox aderis teque astra ferent: tu semper amoris
sis memor et cari comitis ne abscedat imago.'
Por que, ó pai, consomes o tempo em os lamentos? Pelo Fado, é minha casa o bosque em
que a Ninfa lasciva raptou-me, a conselho de Juno. Agora, a permissão de Júpiter já me abre as portas do
céu e concede-me a honra das fontes e as orações. Ó dor, ó doce carcás que antes levamos! os
companheiros soltaram as amarras com os alegres ventos, depois que o Enide [Meleagro] os exortou
com cóleras e voz nefanda com sua casa e sua gente ele o pagará, e teus poderes ajudarão a seva mãe.
Erga-te, pois, e não te esmoreças nas agruras; mais tarde estarás no céu e os astros te levarão. sempre
lembrado do amor e não afastes a imagem do querido amigo.
Na Eneida (II, 771/795):
Que vale a dor sobeja, ó doce esposo?
Sem nume isto não é: levar Creúsa
Te veda o fado, o regedor sublime
Do Olimpo o não consente. Em longo exílio
Tens de arar vasto pego até à Hespéria,
Onde entre pingues populosos campos
O lídio manso Tibre inclina a veia.
Com saudades não chores da consorte:
Um reino te espera e uma princesa.
Nem eu, Dardânia e de Vênus nora,
Irei servir as Téssalas altivas,
Nem dolopéias damas: cá me impede
A grande mãe Cibele. Adeus, Enéias;
Todo na prenda nossa o amor emprega.
Eneida, II, 812/825 – Tradução de Odorico Mendes.
A referência à legítima ligação marital de Enéias e Creúsa auxilia a interpretação do
Pius Amor (IV, 2) de Hércules e Hilas, em continuidade do raciocínio que permitiu a
valorização heróica do par de amigos. Todavia, os dois símiles utilizados pelo poeta para
acentuar o desespero do Tiríntio reforçam ainda mais essa tese (III, 737/740 e IV, 44/49), cuja
conseqüência primeira é elevar Hércules à condição de objeto de inequívoca reverência, como
de fato o era no período flaviano:
non aliter gemitu quondam lea prolis ademptae
terga dedit: sedet inde viis inclusaque longo
pervigilant castella metu, dolor attrahit orbes
interea et misero manat iuba sordida luctu.
Não de outro modo, com um gemido, a leoa, quando tomada sua prole, voltou-se: deitou-se no
caminho enquanto as tropas, presas por grande medo, vigiam: a dor, no entanto, fecha seus olhos e a
imunda juba, em triste luto, se derrama.
138
O outro símile:
fluctus ab undisoni ceu forte crepidine saxi
cum rapit halcyonis miserae fetumque laremque,
it super aegra parens queritur<que> tumentibus undis
certa sequi quocumque ferant audetque pavetque,
icta fatiscit aquis donec domus haustaque fluctu est;
illa dolens vocem dedit et se sustulit alis:
Qual quando, por azar, do cais de pedra undíssona, a onda arranca o ninho e a cria do
desgraçado maçarico; e a mãe, aflita, procura-o sobre as ondas intumescidas e lastima-se; e
certa, segue por onde o levam, e ousa e teme, aque cansa e o ninho, golpeado pelas águas, é
imerso pelo fluxo; e ela, a sofrer, grita e se alteia com as asas.
Portanto, pelo uso dos dois símiles e pela recorrência alusiva aos versos virgilianos, o
canto de Flaco afastou de rcules, enfim, toda e qualquer cula de desmedida,
transformando-o em um respeitoso exemplo de dignidade paterna, em outra demonstração da
pietas norteadora de todo o epos flaquiano. Além disso, em referência à segunda linha de
interpretação do poema de Apolônio de Rodes, o Hércules latino não foi arredado da
expedição por ser um modelo de virtude ultrapassado; pelo contrário, afinal o próprio Júpiter
consentira em dar-lhe uma tarefa tão heróica quanto a busca pelo Tosão de Ouro. Por
instância de Latona e de seus filhos divinos, o Pai dos deuses conferiu ao Tiríntio a digníssima
missão de libertar Prometeu do abutre que lhe devorava o fígado (IV, 62/81), em evidente
celebração de sua excelência
245
.
Se, pois, tanto Hilas quanto Hércules obtiveram seu quinhão de heroísmo no
episódio do epos latino, com Jasão não poderia ser diferente. O episódio do rapto de Hilas deu
245
A hipótese de Liciano Landolfi (LANDOLFI, Luciano. “Intertestualità e dottrina nell’episodio del ratto di Ila”.
Pan. Studi del Dipartimento di Civiltà Euro-Mediterranee e di Studi Classici, Cristiani, Bizantini, Medievali,
Umanistici 20 (2002). 133-154 pp.), pela qual o papel do episódio de Hilas seria o de formação de um par heroicum,
aos moldes de Niso e Euríalo, da Eneida, não parece prosperar, haja vista a seqüência dos símiles acima referidos,
que indicam a relação parental clara entre Hércules e Hilas. Além disso, o par heroicum de Hércules, referido por
Teócrito (Idílio XIII), é Telamón, como o próprio Flaco faz saber no verso II, 384. Seu argumento de que o
sonho de Hércules reporta ao sonho de Aquiles, no canto 23, também falece perante o sonho de Enéias, fonte
imediata e recorrente da obra de Flaco.
139
a Flaco azo para valorizar uma outra virtude de seu herói
246
a auctoritas –, apenas esboçada no
início do Canto I, quando da formação da tripulação. Trata-se da inquestionável primazia de
Jasão no comando da nau, ou de sua perfeita adequação para o posto. Mais uma vez, a
recorrência à obra rodiana faz-se imprescindível para a percepção dessa ocorrência. No poema
alexandrino, a primeira escolha para ocupar o posto de capitão aquele que seria o melhor
dentre os nautas recaíra sobre Héracles, que declinou, porém, da dignidade, oferecendo-a a
Jasão
247
Tratava-se da clara demonstração da precariedade da liderança do Esônide, ou de sua
imaturidade para a função de condutor da expedição. No canto latino, por outro lado, a
ascendência de Jasão sobre os companheiros de saga desde o início não foi questionada.
quando do anúncio da expedição, feito por Juno na Macedônia e na Argólia, a notícia era de
que Jasão desafiava inexplorados ventos e que com ele deveriam embarcar todos aqueles
desejosos por glória (I,95/99) - como no pedido de adesão à expedição feito por Acasto, sob o
comando do protegido das deusas, ele lograria realizar seus primeiros feitos (I, 175). Do
mesmo modo, no episódio alexandrino das mulheres de Lemnos, a reação de Héracles, como
referida, foi a de menoscabar o comando de Jasão, incitando o motim da deserção geral, ao
passo que no canto latino o pedido de Hércules restringiu-se a que Jasão retomasse o comando
da expedição. Então, nessa mesma linha de afirmação da auctoritas do Esônide, a réplica de
Meleagro a Telamón no final do episódio do rapto de Hilas, logo após a convocação de Jasão
para a deliberação dos sócios a respeito do abandono de Hércules, ainda mais realçou o mando
246
GARSON, R. W. “The Hilas Episode in Valerius Flaccus’ Argonavtica”. The Classical Quarterly, New Series,
Vol. 13, No. 2 (Nov., 1963), 264p.
247
Callou aqui, e os olhos dos Mancebos
Já designavam o robusto Alcides,
Que alli sentado está; e a uma todos
Já com clamor unânime o proclamam.
Mas o Heroe, d’onde jaz, alçando a dextra:
“Tal honra (diz) ninguém queira outhorgar-me,
Pois não acceito, nem consinto em outro.
O que nos convocou, este nos reja”.
Argonautas 12p – Tradução de José Maria da Costa e Silva.
140
do capitão. Apesar das invectivas do amigo dileto de Hércules, a resposta do Caledônio ao seu
líder foi imediata e inequívoca, reafirmando mais uma vez sua autoridades (III,670/672):
en egomet quocumque vocas sequar, agmina ferro
plura metam, tibi dicta manus, tibi quicquid in ipso
sanguine erit iamque hinc operum quae maxima posco.
De fato, eu mesmo te seguirei para onde quer que chames e reunirei muitas tropas armadas: às
tuas ordens estarão minhas forças e o próprio sangue quanto tenho; ademais reclamo o máximo dos
feitos.
Jasão foi, portanto, reafirmado também como o líder inconteste da empresa. Sua
auctoritas, asseverada no momento da formação da tripulação, ganhava novo testemunho, em
celebração inarredável de seu ingente valor. Novamente, assim como o Hércules latino foi feito
superior ao seu antepassado alexandrino, do mesmo modo o foi mais uma vez Jasão, ratificado
nesse episódio como líder e dux.
7. O Combate de Pólux e Âmico – ou a
Indoles
248
: vv. IV, 99/343
Enquanto Hércules rumava para o ucaso, onde deveria, em cumprimento aos
desígnios de Júpiter, libertar o titã Prometeu de seus grilhões, os Argonautas prosseguiram
viagem. Aproximaram-se do reino do feroz Âmico terra sem muros e sem lei, confiada
apenas na força de seu brutal soberano (IV, 100-105) –, onde os estrangeiros não encontravam
hospitalidade, sendo sacrificados ao deus do mar, a menos que lutassem, em pugilato, contra o
monstruoso e gigantesco rei. Entretanto, ao ver a nau acercar-se da ilha de seu filho, Netuno
ergueu-se no mar e lamentou-se pelos eventos que se sucederiam (IV,118/130):
'infelix imas quondam mihi rapta sub undas
nec potius magno Melie tum mixta Tonanti!
usque adeone meam quacumque ab origine prolem
tristia fata manent? sic te olim pergere sensi,
248
“Adtingam quasi cunabula quaedam et elementa uirtutis, animique procedente tempore ad summum gloriae
cumulum peruenturi certo cum indolis experimento datos gustus referam”. VALERIUS MAXIMUS, Valeri
Maximi Factorum et dictorum memorabilium, III, 1.
141
Iuppiter, iniustae quando mihi virginis armis
concidit infelix et nunc chaos implet Orion.
nec tibi nunc virtus aut det fiducia nostri,
nate, animos opibusque ultra ne crede paternis.
iamiam aliae vires maioraque sanguine nostro
vincunt fata Iovis, potior cui cura suorum est.
atque ideo nec ego hanc tumidis avertere ventis
temptavi tenuive ratem nec iam mora morti
hinc erit ulla tuae. reges preme, dure, secundos!'
Infeliz Mélia, tirada por mim um dia de sob as ondas, antes então fosses enleada pelo grande
Tonante! Até quando os Fados permanecerão tristes para minha prole, qualquer que seja sua origem?
Assim muito compreendi fazeres, Júpiter, desde quando o infeliz Órion pereceu pela injusta arma
da virgem [Palas] e agora enche o Caos. Nem valor nem confiança em mim dêem-te, ó filho, ânimo,
nem mais esperes o pátrio auxílio. Já há outras forças e, maiores que meu sangue, vencem os desígnios
de Jove, que mais cuida dos seus. Por isso eu não tentei desviar o curso da nau com ventos inchados,
nem detê-la – afinal, já não haverá tardança para sua morte. Mata, ó cruel, reis menos importantes.
Sem, contudo, saber dos perigos que a ilha e seu rei ofereciam, os nautas nela
aportaram. O capitão, então, enviou seus homens para explorarem a terra. Sem demora,
Equião, filho de Mercúrio, encontrou escondido no escuro vale um homem que chorava e
gemia sem parar, a suplicar-lhe que dali partisse imediatamente. Equião conduziu o
desconhecido até junto aos companheiros, e este disse a Jasão (IV, 145-156):
ille manum tendens 'non haec' ait 'hospita vobis
terra, viri, non hic ullos reverentia ritus
pectora: mors habitat saevaeque hoc litore pugnae.
iam veniet diros Amycus qui tollere caestus
imperet et vasto qui vertice nubila pulset.
talis in advectos Neptuni credita proles
aeternum furit atque aequae virtutis egentes
ceu superum segnes ad iniqua altaria tauros
constituit, tandem ut misero lavet arma cerebro.
consulite atque fugae medium ne temnite tempus.
namque isti frustra quisquam concurrere monstro
audeat et quaenam talem vidisse voluptas?'
Aquele, a mão tomando-lhe, diz: “Esta terra, varões, não vos é hospitaleira; aqui, não
qualquer reverência nos corações. Habitam esta praia sevas lutas e morte. chegará Âmico, que
ordenará que busquem os duros cestos e socará as nuvens no vasto céu. O que é tido como filho de
Netuno sempre se irrita com os que chegam e sacrifica os desvalidos [ou os privados de semelhantes
virtudes], como touros mansos, aos iníquos altares dos deuses para que, desta maneira, banhe suas
armas no mísero cérebro. Deliberai, mas não gasteis o tempo e a oportunidade da fuga. Afinal, quem
há que em vão ouse lutar contra tal monstro? Quem se regozijaria em vê-lo?”
A seguir, o desconhecido ainda narrou sua desdita (IV, 161/173). Disse que chegara
acompanhando o mariandino Otreu, que ali arribara quando seguia para Frígia, em busca de
142
Hesíone, com quem iria casar-se. No entanto, Âmico os encontrara e desafiara Otreu para um
combate, matando-o com a crueldade dos cestos.
Ouvindo-o, os Argonautas encresparam-se. Os ânimos exaltaram-se e todos os heróis
rumaram para a praia, em cujos confins ficava a caverna do gigante. No caminho, horrores
muitos se alinhavavam troncos humanos destroçados, braços e ossos podres espalhados
pelas pedras, e, em fileiras, cabeças degoladas fincadas em lanças. Perante o terrível espetáculo,
Pólux ofereceu-se para lutar, acompanhado imediatamente pelo ardor dos companheiros, que
chamaram, aos brados, o gigante (IV, 190/199). Este, saindo da mata, atendeu aos chamados
dos heróis e, grande como uma montanha, aproximou-se. Não indagou nome ou raça dos
jovens, mas antes os desafiou à luta. Em tom de escárnio, de ironia e de impiedade, prosseguiu
dizendo que não lhe comoveriam súplicas ou rogos: aliis rex Iuppiter oris Júpiter é rei em
outras terras (IV, 219). Ao repto, os Argonautas, uníssonos, ofereceram-se ao combate; mas
Pólux, intrépido, adiantou-se aos companheiros e logo arrostou o oponente. A diferença entre
os dois fez-se marcante no canto flaquiano:
illum Amycus nec fronte trucem nec mole tremendum,
vixdum etiam primae spargentem signa iuventae,
ore renidenti lustrans obit et fremit ausum
sanguineosque rotat furiis ardentibus orbes.
Âmico, perlustrando-lhe a face risonha, não o nem truculento por seu aspecto nem terrível
pelo tamanho, mas apenas despontando os sinais da primeira juventude; [ele] freme contra a audácia e
gira os olhos sanguíneos com fúrias ardentes.
Iniciou-se o combate. Em luta acirrada os golpes sucederam-se, a culminar, enfim, com
a vitória do Dióscuro que, pisando no corpo do gigante, blasonou-se (IV, 312/314):
'Pollux ego missus Amyclis
et Iove natus.' ait 'nomen mirantibus umbris
hoc referes. sic et memori noscere sepulchro.'
“Pólux sou, enviado por Amiclas, filho de Júpiter”, diz, “Dirás este nome às admiradas
sombras. Assim, serás conhecido no sepulcro inesquecível”.
143
Assim resume-se o episódio flaquiano da luta de Pólux o que mais se manteve
adstrito à tradição literária. No entanto, alguns detalhes do texto latino, mais elaborado que as
versões de Teócrito e de Apolônio de Rodes, possibilitaram ao autor uma nova abordagem do
tema. Quanto a Teócrito
249
, a principal diferença reside no momento da saga em que se
localizou a chegada da nau Argo à terra dos Bebrícios fê-lo o poeta bucólico no retorno da
expedição, ao passo que Valério Flaco, como também Apolônio de Rodes, o dispôs durante a
jornada de ida para a Cólquida, mantendo-se, assim, o caráter iniciático da expedição. Por sua
vez, quanto a Apolônio de Rodes, as divergências mais acentuadas resumem-se em três: a
importância dos desígnios divinos para a condução da narrativa, o aspecto de Âmico e a reação
dos Bebrícios diante da morte do rei.
Quanto à importância dos desígnios divinos para os eventos da trama poética, a fala do
deus Netuno no início do episódio mostra-se fundamental (IV,118/130). Trata-se da
declaração inequívoca da supremacia de Júpiter e de seus impérios, soberanos e inarredáveis:
maioraque sanguine nostro/vincunt fata Iovis maior que nosso poder [nosso sangue], vencem os
desígnios de Jove (IV, 126/127). Então, franquear o mar aos Argonautas era o desejo de
Júpiter, que assim os favoreceu (IV, 318). Ademais, tal favorecimento, que coincidiu com a
transmissão histórica do poder desde a Ásia, passando pela Grécia, até alcançar Roma
250
, foi
também expresso em um outro momento da saga, ao início da expedição, quando Júpiter
respondeu às queixas do Sol (I, 531/560):
Tum genitor: 'vetera haec nobis et condita pergunt
ordine cuncta suo rerumque a principe cursu
fixa manent; neque enim terris tum sanguis in ullis
noster erat cum fata darem, iustique facultas
hinc mihi cum varios struerem per saecula reges.
atque ego curarum repetam decreta mearum.
249
THÉOCRITE, MOSCHOS, BION. Les Bucoliques Grecs. Paris: Librarie Garnier Frères, 1931. 101p.
250
GARSON, R. W. “Some Critical Observations on Valerius Flaccus’ Argonavtica. II”. The Classical Quarterly, New
Series, Vol. 15, No. 1 (May., 1965).
144
iam pridem regio quae virginis aequor ad Helles
et Tanai tenus immenso descendit ab Euro
undat equis floretque viris nec tollere contra
ulla pares animos nomenque capessere bellis
ausa manus. sic fata locos, sic ipse fovebam.
accelerat sed summa dies Asiamque labantem
linquimus et poscunt iam me sua tempora Grai.
inde meae quercus tripodesque animaeque parentum
hanc pelago misere manum. via facta per undas
perque hiemes, Bellona, tibi. nec vellera tantum
indignanda manent propiorque ex virgine rapta
ille dolor, sed--nulla magis sententia menti
fixa meae--veniet Phrygia iam pastor ab Ida,
qui gemitus irasque pares et mutua Grais
dona ferat. quae classe dehinc effusa procorum
bella, quot ad Troiae flentes hiberna Mycenas,
quot proceres natosque deum, quae robora cernes
oppetere et magnis Asiam concedere fatis!
hinc Danaum de fine sedet gentesque fovebo
mox alias. pateant montes silvaeque lacusque
cunctaque claustra maris, spes et metus omnibus esto.
arbiter ipse locos terrenaque summa movendo
experiar, quaenam populis longissima cunctis
regna velim linquamque datas ubi certus habenas.'
Então, o pai: “Todas as coisas antigas, criadas por mim, seguem sua ordem e, fixas, mantêm seu
curso desde o início. Não havia ainda na terra meu sangue, quando instituí os Fados; com justiça, então,
dispus vários reinos pelos séculos. Porém agora repetirei os decretos de minha vontade. Já há muito que
a região que desce do imenso Euro [o Oriente] até às virginais águas de Heles e ao Tanai abunda em
potros e floresce em heróis, contra a qual nenhuma tropa ousa desafiar ou buscar renome por meio da
guerra. Assim os Fados e eu mesmo favorecíamos tais plagas. Mas chega o sumo dia e deixamos a Ásia,
que rui já os gregos reclamam seu tempo. Por isso, meu carvalho, as trípodes e as almas dos parentes
lançaram ao mar esta tropa. Pelas ondas e pelas tempestades é aberto a ti o caminho, Belona! Nem tanto
nos indignas tosão, ou mais aquela dor pela raptada virgem, mas nenhuma sentença me é mais firme
virá um pastor do Ida frígio que levará aos gregos gemidos e iras iguais, em dom recíproco. Quantas
guerras ao sair da expedição dos pretendentes; quantos nobres e filhos de deuses choram por Micenas
no inverno junto a Tróia; quantas tropas movendo vês, e a Ásia a ceder aos grandes Fados! Daqui se
assenta o fim dos Dânaos; depois, a outros povos favorecerei. Abram-se montes, selvas, lagos e todos os
claustros do mar esperança e medo haja para todos. Como árbitro, eu mesmo, movendo postos e
fronteiras, escolherei um reino mais dilatado para os povos e, quando feito, dar-lhes-ei as rédeas do
poder”.
Eis a proclamação sobranceira da vontade de Jove. Era a contrapartida inserida no
texto épico para uma das virtudes norteadoras de todo o canto flaquiano, virtude essa que,
como tem sido visto, atravessa toda a narrativa a pietas dos heróis. Além disso, o epos latino
ainda pôde conferir sacralidade à própria condição histórica do Império Romano, uma vez que
o Fado Divino, pelo desejo do soberano dos deuses, decretava a sua supremacia e a vastidão
145
de seus domínios
251
. Assim, o poema de Valério Flaco cumpria sua grande missão enaltecedora
da nação e do seu regime.
Por outro lado, a descrição de Âmico pode ser apontada como outra divergência
existente entre o texto latino e seu congênere alexandrino. Na obra de Apolônio de Rodes, o
rei dos Bebrícios foi descrito como extremamente forte e cruel; foi mesmo comparado com
um filho de Tifeu ou da Terra
252
, embora não fosse realmente um monstro. no canto
flaquiano, outra dimensão foi-lhe emprestada mais condizente com a descrição fornecida no
Idílio de Teócrito e mais próxima do modelo do Polifemo odissíaco (inclusive em sua infração
quanto aos deveres de hospitalidade, uma das causas de sua hýbris
253
), com quem Âmico
compartilhava a filiação
254
. O rei pugilista, guardião da entrada do mar oriental e das
Simplegades (IV, 220/221), foi nomeado então expressamente de gigas (IV, 200), e seu
tamanho revelou-se desmesurado, haja vista que seus membros foram descritos como
horrorosos e disformes (IV, 245) e ele mesmo foi comparado ao monte Atos, caído no chão
(IV, 322). Assim, o Âmico do canto latino tornava-se ainda mais terrível, medonho, realçando,
portanto, as características, posto que esboçadas em Apolônio de Rodes, de sua impietas (IV,
218-219) e de sua arrogância (IV, 203-204, e IV, 240-243). Desse modo, diferentemente do
251
TAYLOR, P. Ruth, “Valerius’ Flavian Argonautica”. The Classical Quarterly, New Series, Vol. 44, No. 1 (1994),
221p.
252
Differem muito os dois em ar, e em membros;
Filho do atroz Typheu o rei parece,
Ou ser da Terra monstruosa prole,
Que irada contra Jove ella paríra.
Mas semelha o Tydaride essa Estrella,
Cujos raios se mostram tão formosos
Quanto no Céo reluz ao vir da noite.
Tal de Jove era o filho a quem começa
Já o buço a apontar; já a alegria
Lhe scintilla nos olhos; porém tinha
Robustez, e vigor qual brava Fera.
Argonautas, 62/63pp – Tradução José Maria da Costa e Silva.
253
CUYPERS, Martijn P. Apollonius Rhodius: Argonautica 2.1-310 - A Commentary. Leiden: diss. 1997. [no prelo].
2p.
254
HERSHKOWITIZ, Debra. Valerius Flaccus’s Argonáutica – abbreviated Voyages in Silver Latin Epic. Oxford:
Clarendon Press Oxford, 1998.
146
canto de Apolônio, em cujo episódio à semelhança do abandono de Héracles o poeta
pretendeu rechaçar o modelo de herói considerado arcaico pelos alexadrinos
255
, foi a impiedade
do boxeador que, em última análise, o conduziu à morte.
Contudo, a reação dos Bebrícios diante da vitória de Pólux e da conseqüente morte de
Âmico fornece outro elemento para a interpretação do episódio. Na versão grega, os ilhéus
revoltaram-se contra os Argonautas, dando-lhes sangrento combate; na versão latina, por outro
lado, os moradores da ilha, nullus adempti regis amor presos por nenhum amor ao rei (IV,
315/316) escaparam para o bosque, como se libertados de um algoz. Trata-se, pois, do
contraponto ao herói flaquiano, uma vez que o tirânico rei se revelava o repositório dos
deméritos possíveis era ímpio, soberbo e furioso. Outrossim, tal percepção pode ser
robustecida pela recorrência aos dois primeiros tiranos do canto argonáutico o rei Pélias e
Laomedonte, que primavam pela infidelitas (Pélias, pela promessa dolosa da transmissão do
reino a Jasão, e Laomedonte, pela falsa promessa dos cavalos a Hércules)
256
outra
característica opositora às virtudes do herói flaquiano.
Finalmente, como era de se esperar, a virtude de Jasão foi também exaltada nesse
episódio – não diretamente, mas na seqüência da intrepidez de Pólux. O Tindárida foi, de fato,
nos três cantos que celebraram sua vitória sobre Âmico o de Teócrito, o de Apolônio e o de
Flaco enaltecido por sua valentia natural, ou sua Indoles. No Idílio XXII, em que Teócrito fê-
lo lutar apartado dos companheiros, apenas na presença do irmão
257
, Pólux revelou-se não
apenas intimorato, mas também cavalheiresco e reverente, recusando-se a dar morte ao
adversário em razão da ascendência divina daquele. no epos alexandrino, Pólux exemplo
255
CLAUSS, James J. The Best of The Argonauts – the redefinition of the epic hero in book one of Apollonius’ Argonautica. Los
Angeles: University of California Press, 1993. 34p.
256
Outra interpretação para o episódio pode ser encontrada em TAYLOR, P. Ruth, Op. Cit. 228 e ss., segundo a
qual os vilões da obra guardariam semelhança com o tirânico Nero. Por outro lado, rcules representaria
alegoricamente Augusto; e Jasão, Vespasiano, símbolos de virtude.
257
THÉOCRITE, MOSCHOS, BION. Les Bucoliques Grecs. Paris: Librarie Garnier Frères, 1931. 103p.
147
também de moderação das emoções, em confronto com a bie característica do adversário
258
–,
além de destemido, revelou sua valentia inata na rapidez com que se adiantou aos
companheiros e se prontificou a combater o insolente adversário, apresentando-se como o
absoluto campeão dos Argonautas
259
. Por seu turno, o Pólux latino também se fez excelente,
bravo e indômito, mas não sozinho e este é o ponto nodal da interpretação. Enquanto em
nenhum dos dois outros poemas anteriores foi dada aos nautas a oportunidade de
compartilhamento da virtude e do combate, no canto flaquiano foi Jasão o primeiro a oferecer-
se para a luta, Pólux foi apenas o sétimo a apresentar-se para o repto:
Talia dicta dabat, cum protinus asper Iason
et simul Aeacidae simul et Calydonis alumni
Nelidesque Idasque prior quae maxima surgunt
nomina, sed nudo steterat iam pectore Pollux.
Dizia tais coisas quando, presto, o encrespado Jasão, e logo os Eácidas (Tideu e Peleu), e o
filho [o alimentado] da Calidônia (Meleagro), o Nelida (Periclímeno) e, antes que todos, Idas
elevam seus grandes nomes, mas, com o já peito nu erguera-se Pólux.
Então, sem retirar de Pólux a glória do feito, Valério Flaco subtraiu-lhe a primazia,
dada, então, conforme a ordem dos versos, a Jasão, secundado pelos outros Argonautas.
Dividindo, pois, os méritos da façanha, o poeta latino pôde conferir a seu herói protagonista
parte da virtude antes concedida apenas a Pólux, ou seja, sua indoles.
8. Fineu, as Harpias e os Boréades – ou a
Prudentia
: vv. IV, 422-63
258
CUYPERS, Martijn P. Op. Cit. 6p.
259
“ (...) Desta arte
O insolente fallou, e quantos o ouvem
Bramiram de furor, e mais que todos
Pólux co’desafio se estimula
Campião dos seus se apresentou e disse:”
Argonautas, 62p – Tradução de José Maria da Costa e Silva.
148
Vencido o gigante pelo ágil e jovial Tindárida, os Argonautas celebraram sua façanha
com um lauto festim. Pela noite, brindaram alegres e ouviram canções, até que na manhã
seguinte, ao soprar da brisa favorável, os heróis tornaram ao mar, alcançando o Bósforo, onde
Orfeu, responsável com sua música pelo ritmo dos remos, cantou a história de Io a ninfa
amada por Júpiter e perseguida por Juno, que, transformada em novilha, deu nome àquele
estreito quando de sua travessia para o Egito (IV, 351-421).
A seguir, navegando com os bons ventos, a expedição arribou nas praias da Tínea,
onde o cego adivinho Fineu expiava suas penas por haver incorrido na terrível ira de Júpiter
(IV, 422-436) – perseguiam-no as harpias, que sempre lhe roubavam a comida da boca,
mantendo-o permanentemente faminto. No entanto, como os Fados haviam concedido que o
ancião fosse libertado pelos filhos do Aquilão, esse, sabedor do destino, dirigiu-se apoiado no
cajado até a orla, à espera da chegada da embarcação. De fato, logo que os jovens aportaram,
saudou-os o decrépito (IV, 436-64), que lhes narrou suas desventuras e apresentou-se como
cunhado dos Boréades. Estes, espantados com a decadência do contra-parente, dispuseram-se
a auxiliá-lo, contanto que não incorressem em impiedade (IV, 466-472). Garantiu-lhes o
adivinho que o próprio Fado consentia que seus tormentos tivessem fim tormentos esses
motivados por ter Fineu, agraciado com o dom da profecia por Apolo, desvelado aos mortais
(por amor a esses) os secretos desígnios de Júpiter (IV, 474-484). Comovidos, os Argonautas
apressaram-se a lhe prestar ajuda – prepararam um banquete e ordenaram ao velho que
comesse, permanecendo todos os demais à espera dos acontecimentos (IV, 487/500):
instituere toros mediisque tapetibus ipsum
accipiunt circumque iacent; simul aequora servant,
astra simul, vescique iubent ac mittere curas,
cum subitus misero tremor et pallentia primae
ora senis fugere manus. nec prodita pestis
ante, sed in mediis dapibus videre volucres.
fragrat acerbus odor patriique exspirat Averni
halitus, unum omnes incessere planctibus, unum
infestare manus. inhiat Cocytia nubes
149
luxurians ipsoque ferens fastidia visu.
tum sola conluvie atque inlusis stramina mensis
foeda rigant, stridunt alae praedaque retenta
saevit utrimque fames. nec solum horrenda Celaeno
Phinea, sed miseras etiam prohibere sorores.
Preparam os leitos, acolhem-no em meio aos tapetes e recostam-se ao redor. Observam ora o
céu, ora o mar e ordenam-lhe que se alimente e que afaste as preocupações. De repente, o mísero treme
e as pontas das mãos fugiram da pálida face do velho. A peste, antes não vinda, viram-na alada em meio
à refeição. Um acerbo odor se espalha e expira o hálito do pai do Averno. Aos golpes, todas a um
atacaram o bando molestou apenas um. A luxuriante nuvem Cocítia abria as goelas, causando nojo
pelo próprio aspecto. Então, regam com sujeira o solo e os leitos ultrajados pelo embuste; batem as asas
sem comida, a fome castiga a todos: a horrenda Celeno a proíbe não só a Fineu, mas também às
míseras irmãs.
Todavia, em meio ao ataque das harpias, arrojaram-se os alados Boréades, que se
puseram a persegui-las. Voaram então, sem descanso, até os confins da Jônia (IV, 501-518),
onde a perseguição foi interrompida pela voz de Tifeu (IV, 519-526):
'iam satis huc pepulisse deas. cur tenditis ultra
in famulas saevire Iovis, quas fulmina quamquam
aegidaque ille gerens magnas sibi legit in iras?
nunc quoque Agenoreis idem decedere tectis
imperat: agnoscunt monitus iussaeque recedunt.
mox tamen et vobis similis fuga, cum premet arcus
letifer. Harpyiae numquam nova pabula quaerent
donec erunt divum meritae mortalibus irae.'
Já basta até aí terdes espantando as deusas. Por que seguis além a acossar as servas de Jove que,
embora portando a égide e os raios, nas grandes iras as convoca? [Ele] agora também ordena que elas
abandonem a casa de Fineu: obedientes, ouvem o aviso e regressam. Logo, tereis uma fuga semelhante,
quando o arco mortífero for retesado. As harpias não procurarão novos repastos até que os mortais
mereçam novas iras divinas.
Batidas as harpias, os Boréades retornaram para junto dos companheiros, que
banqueteavam, enfim, com o liberto adivinho. Jasão, então, pediu ao velho, em retribuição à
ajuda prestada pelos dois alados nautas, que lhes desvelasse a sorte da expedição (IV, 535-546).
Este, retomando todo o seu vigor e sua majestade antiga, imbuído das prebendas de seu dom,
deu início aos vaticínios (IV, 553-624) ensinou-lhes a ultrapassar a barreira dos Rochedos
Moventes, prenunciou o encontro com os mariandinos, aconselhou-lhes que evitassem a terra
das amazonas, indicou-lhes como chegar à foz do rio Fase, previu os combates da guerra civil
que enfrentariam na Cólquida e, finalmente, o êxito da empresa; e nada mais disse, para não se
150
expor outra vez à ira divina, encerrando a fala, contudo, com uma sentença fundamental para o
êxito da empresa e do próprio herói (IV, 621-63):
sed te non animis nec solis viribus aequum
credere: saepe acri potior prudentia dextra.
quam tulerit deus, arripe opem. iamque ultima nobis
promere fata nefas. sileo prior.' atque ita facto
fine dedit tacitis iterum responsa tenebris.
Mas não é benéfico que creias apenas no ânimo e nas forças: amiúde, a Prudência pode mais
que a forte mão. Aferra-te à ajuda que um deus trouxer. E me é nefasto expor-se os últimos Fados.
Antes me calo. E assim dito, deixou de novo a resposta nas mudas trevas.
De posse das predições, os nautas mais uma vez embarcaram, sob os bons votos do
adivinho, prontos para a última de suas provas – a passagem entre as Ilhas Moventes.
Essa é a versão flaquiana do episódio da libertação de Fineu – substancialmente,
contudo, pouco divergente do restante da tradição poética. Trata-se, em suma, de um exemplo
de punição da hýbris causada pela infração aos desígnios dos deuses, que, tanto em Apolônio
de Rodes
260
261
quanto em Valério Flaco, Fineu fora punido por haver revelado aos homens a
intenção de Júpiter
262
(IV, 477-482):
nec credite culpam
saevitiae scelerumve mihi nunc crimina pendi:
fata loquax mentemque Iovis quaeque abdita solus
consilia et terris subito ventura parabat
prodideram miserans hominum genus. hinc mihi tanta
pestis et offusae media inter dicta tenebrae.
260
Lá tinha á beira-mar a casa sua
Phineu, prole Agenorea. Nenhum Homem
Tantos como ele supportou desgostos.
Causa foi disso o dom dos vaticínios,
Que lhe outorgara de Latona o Filho.
Sem acatar, pouco siquer, a Jove,
Sua mente divina expoz aos Homens.
Jove o puniu com a caduquez perpetua,
E o doce lume lhe apagou dos olhos.
Os Argonautas, 67p – Tradução de José Maria da Costa e Silva.
261
CUYPERS, Martijn P. Apollonius Rhodius: Argonautica 2.1-310 - A Commentary. Leiden: diss. 1997. [no prelo].
205p.
262
Versão diferente pode ser encontrada em Hesíodo. Nos Catálogos das Mulheres e dos Eoiae, frag. 39, duas versões
são apresentadas: ou Fineu fora cegado em punição por haver revelado a Frixo o caminho para a Cólquida, ou por
haver escolhido uma vida longa à visão.
151
Não creiais que ainda prende sobre mim culpa por crimes de maldade ou de má ação;
boquirroto, desvelei os Fados, a intenção de Jove, seus ocultos planos e o que, súbito, se preparava
para as terras por apiedar-me da raça humana. Então, em meio às falas, sobreveio-me tanta desgraça e a
escuridão.
No entanto, para a compreensão da formação do herói argonáutico flaquiano, o
aspecto mais marcante do episódio não reside na punição a Fineu por haver infringido os
desígnios divinos – embora seja inegável o caráter exemplar e corolário da pena a ele cominada
por Júpiter. Trata-se, sim, do conselho com que o adivinho encerrou suas predições, ou seja, a
exortação para que o capitão da nau o melhor dos Argonautas observasse sempre em seus
atos a Prudentia. Voltando ao canto de Apolônio, é possível perceber o quanto a imprudência,
consubstanciada na irrefletida afronta à vontade dos deuses, foi a causa de todas as desditas do
velho profeta
263
em uma opção evidentemente seguida pelo autor flaviano, ainda que a
palavra prudentia apenas uma vez seja encontrada no texto latino (IV, 622). Assim, a
admoestação de Fineu, graças à qual a expedição alcançaria êxito, propugnava que Jasão e seus
companheiros arrimassem-se no bom senso, ou melhor, na capacidade de discernir entre o
bem e o mal
264
. Outrossim, o próprio poeta conferiu-lhes, como complemento elucidatório do
conselho, o critério desse discernimento ao dizer que saepe acri potior prudentia dextra. Ademais,
como no verso seguinte o adivinho lhes ordenava que se aferrassem na ajuda que um deus
263
As lágrimas enxugam; chegam; Zeto
Do triste velho a dextra aperta, e disse:
“Ah, mísero! Entre os Homens não conheço
Algum, que se te eguale em desventura!
Certo os deoses tornou comtigo irados
Grave imprudência tua no exercício
Do vaticino. (...)”
Os Argonautas, 70p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
E
Predizendo-lhe vae: “Ouvi-me agora,
Que saibaes tudo não apraz aos Numes,
Mas nada occultarei que elles permitam.
Bem mal me resultou já de imprudente
Todo, e por ordem revelar aos Homens
O conselho de Jove. (...)”
Os Argonautas, 72p – Tradução José Maria da Costa e Silva
264
Cícero, De Finibus, 5,67 XXX: prudentia in dilectu bonorum et malorum
152
lhes trouxesse (IV, 623), a compreensão da maior virtude flaquiana desfralda-se finalmente:
Prudentia seria dar primazia à pietas; seria fiar antes nos deuses que no ardor ou na força
humana. E outra não foi a opção constantemente seguida por Jasão, desde antes do início da
expedição, haja vista sua primeira reação, logo após o rei Pélias lhe ter lançado o desafio de
conquistar o Velocino de Ouro (I, 71-76):
heu quid agat? populumne levem veterique tyranno
infensum atque olim miserantes Aesona patres
advocet an socia Iunone et Pallade fretus
armisona speret magis et freta iussa capessat,
siqua operis tanti domito consurgere ponto
fama queat.
Ah, que faz? Ou chame o débil povo, hostil ao velho tirano, e os anciãos antes apiedados de
Éson? Ou, confiado na amiga Juno e na armissonante Palas, mais espere e enfrente o mar, se, domado o
ponto, alguma fama pode surgir de tão grandes feitos.
Assim, confiando nos deuses e acatando os preceitos religiosos, as incertezas e os
medos dissipar-se-iam na alma dos heróis, de tal sorte que o ânimo e o vigor poderiam, enfim,
cumprir seu papel não apenas heróico, mas também, e sobretudo, glorioso (I, 79-80):
tandem animi incertum confusaque pectora firmat
religio (...)
Afinal, o culto firma na alma a incerteza e o confuso coração.
9. Conclusão – A passagem das Simplégades, ou o
vir heroicus
: vv IV, 635-761
Com abraços agradecidos, Fineu despediu-se dos Argonautas, que se lançaram
novamente ao mar (IV, 635). Logo, então, conforme vaticinado pelo cego adivinho, a nau
alcançou as Simplégades os dois grandes escolhos flutuantes, também chamados de Ciâneas
ou de Rochedos Moventes, que se entrechocavam na entrada do Mar Negro
265
(IV, 639-666):
265
PICKARD, William F., “The Symplegades” Greece & Rome, vol. XXXIV, nr. 1, 1987. 2p.
153
stant ora metu nec fessa recedunt
lumina diversas circum servantibus undas,
cum procul auditi sonitus insanaque saxa,
saxa neque illa viris, sed praecipitata profundo
siderei pars visa poli. dumque ocius instant,
ferre fugam maria ante ratem, maria ipsa repente
deficere adversosque vident discedere montes,
omnibus et gelida rapti formidine remi.
ipse per arma volans et per iuga summa carinae
hortatur supplexque manus intendit Iason
nomine quemque premens: 'ubi nunc promissa superba
ingentesque minae, mecum quibus ista secuti?
idem Amyci certe visus timor omnibus antro
perculerat; stetimus tamen et deus adfuit ausis.
quin iterum idem aderit, credo, deus.' haec ubi fatus
corripit abiecti remumque locumque Phaleri
et trahit, insequitur flammata pudore iuventus.
unda laborantes praeceps rotat ac fuga ponti
obvia. miscentur rupes iamque aequore toto
Cyaneae iuga praecipites inlisa remittunt.
bis fragor infestas cautes adversaque saxis
saxa dedit, flamma expresso bis fulsit in imbri.
sicut multifidus ruptis e nubibus horror
effugit et tenebras nimbosque intermicat ignis
terrificique ruunt tonitrus elisaque noctem
lux dirimit (pavor ora virum, pavor occupat aures),
haud secus implevit pontum fragor; effluit imber
spumeus et magno puppem procul aequore vestit.
Arrostam o medo e não desviam os olhos cansados de vigiar as ondas ao redor, quando ao
longe se ouve o estrondo e as funestas rochas – rochas que aos homens não parecem, mas uma parte do
firmamento estrelado caída no oceano. Enquanto se apressam em levar o barco em fuga para o mar,
vêem, de súbito, o próprio mar abrir-se e afastarem-se os montes entrechocantes. Todos os remos foram
tomados por gélido medo. Jasão, correndo por sobre as armas e por sobre os bancos da nau, súplice,
estende as mãos e exorta os companheiros, chamando cada um pelo nome: “Onde estão agora as
soberbas promessas e as grandes ameaças dos que comigo buscaram estas [rochas]? Temor igual causara
a todos a visão da caverna de Âmico mas persistimos e, audazes, um deus nos ajudou. Por isso, creio
que o mesmo deus de novo ajudará”. Tendo assim dito, toma do amedrontado Falero o remo e o banco,
e rema; os jovens, inflamados por pudor, seguem-no. Uma onda, quebrando, aderna os esforçados, e o
mar foge. As pedras chocam-se e com toda a água, as Ciâneas, precipitando-se, devolvem vagas
encrespadas. Por duas vezes, penhas e rochas, contra rochas, retumbaram; por duas vezes, relampejou
no aguaceiro. Tal como o repartido horror [ou o raio] escapa das nuvens e espalha fogos pelas trevas e
pelos nimbos, e trovões terríficos ruem e a luz desprendida corta a noite (e o pavor toma faces e ouvidos
dos homens) assim o fragor do oceano a tudo tomou; espúmea tempestade despenca e logo cobre o
barco com grande água.
Aos nautas, porém, o auxílio divino não faltou. Vendo do empíreo o perigo a que a
expedição estava sujeita, Palas lançou uma tocha acesa por entre os rochedos, marcando o
caminho a ser seguido pela embarcação. Os marinheiros, com os ânimos recobrados,
arrojaram-se contra o espaço aberto entre os escolhos mas nem a força dos remos, nem o
sopro dos ventos contra as velas lhes serviam, que o empuxo das ondas os conduzia (IV,
154
675-679). Nesse instante, Juno e Palas saltaram do céu, pousando cada qual em um dos
rochedos, a segurá-los e impedir-lhes o movimento. Os remeiros, então, esforçaram-se e a nau
passou pelo estreito, embora pedras caíssem na popa e prendessem-lhe a extremidade. Mas a
nau prosseguiu e os forçosos heróis continuaram a remar até que alcançaram a foz do rio
Rebas, quando, então, os braços fatigados e os peitos arfantes puderam descansar. Estava,
enfim, aberto o caminho por entre as Ciâneas, que permaneceram fixas a partir de então (IV,
680-710). Patentearam-se terras, reinos e gentes (IV, 711-733) e a primeira escala da
embarcação no novo mar fez-se na terra dos mariandinos, onde Licos os recebeu e
congratulou-os pela morte de Âmico (IV, 734-762).
Desse modo findou não o Canto IV das Argonautica latinas, mas toda a primeira
parte do epos flaquiano. Afinal, com a passagem das Simplégades, a grande prova de excelência
a que estaria submetido o grupo dos argonautas (e não apenas Jasão, que será protagonista
exclusivo da segunda parte do canto), prova esta anunciada no proêmio (I, 3), restava
cumprida: o curso entre os Rochedos Moventes fora aberto, unindo dois mundos – a Europa e
a Ásia. E tal façanha foi realizada de modo ainda mais grandioso que no canto helenístico,
revelando, então, as máximas qualidades do comandante da expedição, formado como líder
de heróis e como supremo exemplo das virtudes
266
. Uma nova comparação com o modelo de
Apolônio de Jasão mais elucidará esse entendimento.
Mais uma vez, o Jasão alexandrino não se destacara pelo vigor nem pela bravura. Como
seus pares, ele fora tomado pelo pavor e pelo susto diante do ingente perigo, extremado pela
desesperança
267
. O Jasão latino, por seu turno, mostrou-se impávido, revelando temor apenas
266
HERSHKOWITIZ, Debra, Valerius Flaccus’s Argonáutica abbreviated Voyages in Silver Latin Epic.
Oxford: Clarendon Press Oxford, 1998. 44-50p.
267
(...) alta celeuma
Os remeiros levantam, brada Typhis
Que remem com vigor, por que de novo
As Cyaneas se abriam; mas o susto
155
antes de alcançar, de fato, os rochedos flutuantes (IV, 637). Como experto e prudente
comandante, ele soube exortar seus companheiros a afastarem de si o medo e a confiarem no
auxílio que algum deus haveria de lhes prestar (IV, 649-653). Além disso, em grande
arrebatamento, ele próprio assumiu o remo e o banco do sócio que fraquejava e, pelo exemplo,
inflamou os ânimos de seus homens (IV, 654-655). Por seu turno, os deuses ajudaram-no; e a
tocha que, incógnita, Palas lançou no vão das rochas para guiar-lhe o rumo (IV, 667-674) deu
azo ao poeta para revelar, mais uma vez, a prudência de Jasão, que decidiu segui-la, embora
não soubesse qual deus a enviava (IV, 674-675). Então, em outra inovação de Valério Flaco,
não apenas Palas desceu do céu para socorrer seus protegidos, mas também Juno e foram
ambas que seguraram e fixaram os célebres rochedos. Já então não mais valia aos Argonautas a
força bruta dos remeiros, uma vez que o refluxo provocado pelo movimento das pedras
sugava a nau para a abertura salvou-os, sim, a sabedoria prática do comandante, que fê-los
confiarem nos deuses. Os remadores ainda prosseguiram com seu movimento vigoroso, mas
para se afastarem da turbulência do mar.
Vencida essa suprema prova, prova esta que por si garantiu a transformação da
embarcação em uma divinal constelação, Jasão revelou-se, enfim, como o grande herói
argonáutico. Comandante inconteste da expedição, sedento de gloria, portador, por indoles, da
auctoritas, da fortitude, e da virtus bélica, ele soube guardar sua pietas e utilizá-la como guia de suas
escolhas, em evidente e única celebração épica da virtude da prudentia.
Não os abandonou, e eis que a ressaca
De refluente mar para entre as rochas
Arrebata o Baixel; então ao auge
Sobe em todos o medo, pois lhe adeja
Sobre a cabeça inevitanda ruina.
Argonautas, 81p – Tradução José Maria da Costa e Silva.
156
CONCLUSÃO
Dux Argonautarum
O caráter tardio das Argonautica Latinas, no panorama da Antigüidade, fê-las herdeiras
inevitáveis e tributárias diretas de toda uma longa tradição literária iniciada com o canto épico
de Homero. Além disso, a prática agonística da emulação, tão fundamental a toda a cultura
greco-latina, fez com que esses modelos pretéritos fossem, por meio das alusões e citações,
incorporados ao epos de Valério Flaco, de maneira a construir um novo modelo épico, em
constante e necessário diálogo poético com seus pares emulados. Assim, a continuidade da
larga tradição do mito argonáutico não apenas celebrou a feição exordial da viagem dos
valentes jovens que expandiram os limites da Hélade, mas sobretudo, permitiu ao poeta do
último quartel do século I d.C. comemorar a dilatação das fronteiras e o poderio do Império
Romano, bem como a dinastia Flaviana. Ademais, como inerente ao próprio canto épico, foi
estabelecido um padrão de excelência heróica, construído no curso da viagem iniciática dos
marinheiros, de modo a evidenciar o paradigma de virtudes do período.
É bem verdade que tradição literária se acha firmemente assentada no canto flaquiano.
Encontram-se, no texto, abundantes alusões, diretas ou indiretas, a Homero, a Píndaro, a Ênio,
a Catulo, a Horácio, a Ovídio, a Lucano, a Sêneca, como bastante evidenciado no estudo
realizado por Summer
268
. No entanto, duas fontes diretas de emulação parecem percorrer,
como um viés destacado, todo o epos flaquiano: as Argonautica, de Apolônio de Rodes, e a
Eneida, de Virgílio. E foi exatamente a partir desse dois modelos épicos que Valério Flaco
268
SUMMERS, Walter C., A Study of The Argonautica of Valerius Flaccus. London, Cambridge, 1894.
157
estabeleceu os distanciamentos capazes de construir, para os leitores cultos de seu tempo, seu
próprio padrão de virtude.
Para tanto, esses distanciamentos efetuados a partir da tradição literária não se deram
de modo aleatório, mas no sentindo inequívoco de propiciar a formação de um novo padrão
de excelência, adequando às aspirações políticas e filosóficas daquela sociedade. O quádruplo
crivo de virtudes estóicas (Iustitia, Fortitudo, Temperantia, Prudentia) norteou, assim, a formação
do herói das Argonautica, transformando-o em um padrão de excelência omnicompetente,
capaz de emular vitoriosamente os heróis que o antecederam na tradição épica – em específico,
o Jasão de Apolônio e o Enéias de Virgílio, seus modelos diretos. Para afastar todas as jaças
que pudessem contaminar o protagonista de sua saga, o poeta latino comparou-o
recorrentemente, nas variantes estabelecidas a partir das tradições mítico-literárias, a seus pares,
afastando, em cada comparação, os defeitos que aqueles pudessem envergar, e amplificando,
no mesmo processo, as qualidades desejáveis a serem compartilhadas por seu herói com os
modelos pretéritos. Por isso, como o Enéias virgiliano que carregou nos ombros o pai na
fuga de Ílio, que deixou o leito de Dido em prol da fundação de Roma e que suportou todo o
árduo percurso desde Tróia ao Lácio apenas em cumprimento da vontade dos deuses o
Jasão latino mostrou-se inteiramente pius e reverente para com as divindades: afinal, o principal
motivo de sua adesão à viagem foi a vontade de Júpiter, anunciada pelos presságios; e não a
ordem de Pélias (I, 245), como no canto de Apolônio. Além disso, Jasão demonstrou ser
cônscio de suas responsabilidades para com o grupo, não abandonando seus companheiros
sem antes a certeza de que essa era a vontade dos deuses e dos sócios note-se o dilema
causado pelo desaparecimento de Hércules (III, 617-627), tão diferente do mero esquecimento
do Jasão alexandrino –, em exemplar manifestação do culto à iustitia.
158
Por outro lado, também como o herói da Eneida, que comprovou toda a sua valentia
nas lutas em Tróia e no Lácio, o Jasão flaquiano não se furtou aos azares da guerra,
mostrando-se igualmente valoroso nos combates e intrépido nas incertezas das refregas sua
valentia, comprovada no desastroso combate que deu morte a Cízico, exaltou sua força física,
sua virtus e sua indoles. O herói argonáutico, então, tornou-se, no canto flaviano, um guerreiro
audaz e aguerrido, em tudo diferente do Argonauta helenísitico, cujos valores se lastreavam,
antes e apenas, nos dons de sedução. Era a transformação de um Jasão meramente cortesão e
galante, como o herói ptolomaico, em um Jasão intrépido, corajoso, destro nas batalhas,
exemplo de vigor e bravura, ou antes, do conceito da fortitudo.
No entanto, se o Jasão de Valério Flaco se ombreou com Enéias nessas duas primeiras
virtudes, ultrapassou-o nas demais. Diferentemente do herói augústeo, que se deixou tomar
pelo furor desmedido durante o cerco de Tróia
269
, que desejou ardentemente a vingança contra
Helena nos instantes que antecederam a destruição da cidade
270
, que deu morte a Turno sem
misericórdia, em momento algum o tardio herói Argonauta foi maculado por nenhuma eiva de
desmedida mais próximo, nesse ponto, do modelo de Apolônio, que também pôde
caracterizar-se pela serenidade quase resignada, ou melhor, não apaixonada, com que enfrentou
todos os seus percalços. Afinal, mesmo a aparente frieza imputada ao Jasão latino, quando
este deixou tão prestamente as terras e os leitos das mulheres de Lemnos, ou quando venceu o
quebranto provocado pela mortandade dos súditos de Cízico ou sufocou a tristeza pela perda
269
Das armas ferro, desatino, e em armas
Doudo onde vá não sei; mas na ânsia fervo
De socorrer com gente a fortaleza:
A ira me precipita; e quanto é belo
O morrer pelejando à mente ocorre.
Eneida, II, 325-329 – na tradução de Odorico Mendes.
270
A alma abrasou-se-me; iracundo anseio
Vingar na infame a pátria agonizante. (...)
De fúrias transportado isto profiro (...)
Eneida, II, 606-607 e 619 – na tradução de Odorico Mendes.
159
do companheiro Hércules, mais não revelava que seu inexcedível autocontrole, ou sua
capacidade de subjugar as paixões contrárias aos deuses ou ao interesse da empresa a que se
propusera. O Jasão flaquiano revelava-se, assim, um exemplo cabal da temperantia.
Se, todavia, o dux argonautarum se comparava a seus dois principais modelos heróicos
nas virtudes da iustitia, da fortitudo e da temperantia, suplantava-os todos na última e peculiar
excelência da prudentia, cantada tão-só por Valério Flaco. Os troianos, incluindo Enéias, foram
totalmente imprudentes ao acreditar em Sínon e ao levar para dentro da cidade de Tróia o
Cavalo de Madeira; Enéias, por sua vez, fora também imprevidente ao deixar para trás Creuza,
que se perdeu no caminho quando da fuga de Tróia; e fora-o, ainda, ao permanecer nas terras
de Dido por mais tempo que o permitido pelos deuses, em prejuízo da fundação de Roma e
dos direitos de Iulo. Do mesmo modo, em relação ao Jasão de Apolônio, seu sucessor latino
sobrepujou-o no que concernia à prudentia, bastando para revelá-lo a falta de tino do
comandante helenístico, que por absoluto descuido não apenas se esqueceu de Hércules
quando da partida das terras da Mísia, mas ainda de Hilas e de Polifemo.
Assim, o Jasão do epos de Valério Flaco, o incontestável comandante latino da
expedição dos Argonautas, o capitão da profética e sagrada nau que primeiro ousou riscar a
superfície do divino Oceano, transformou-se, sob o contexto da Roma Imperial da época dos
principes Flávios, no maior e mais completo dos heróis, capaz de ostentar todas as virtudes que
lhe confeririam, ao final da jornada, e em razão exclusiva de seus méritos, a imortalidade
divina. Como a nau Argo, que após sua viagem seria guindada aos céus e mudada em uma
Constelação (I, 4), ou como o próprio Imperador Vespasiano, que à semelhança de César, seria
transmutado, em razão de suas realizações, em uma brilhante estrela, guia dos navegantes (I,
21), do mesmo modo o Jasão de Valério Flaco, esse exemplo do virtuoso homem do período
flaviano, adquiriria o estatuto divino, depois de haver percorrido os caminhos do mundo e
160
cumprido as provas que lhe confeririam, no exercício tipicamente estóico, a máxima excelência
e a imorredoura Gloria.
161
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168
APÊNDICE
AS ARGONÁUTICAS
De Valerius Flaccus
Cantos I a IV
Tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior
169
CANTO I
Prima deum magnis canimus freta pervia natis
fatidicamque ratem, Scythici quae Phasidis oras
ausa sequi mediosque inter iuga concita cursus
rumpere flammifero tandem consedit Olympo.
Phoebe, mone, si Cumaeae mihi conscia vatis 5
stat casta cortina domo, si laurea digna
fronte viret, tuque o pelagi cui maior aperti
fama, Caledonius postquam tua carbasa vexit
Oceanus Phrygios prius indignatus Iulos,
eripe me populis et habenti nubila terrae, 10
sancte pater, veterumque fave veneranda canenti
facta virum: versam proles tua pandit Idumen,
namque potest, Solymo nigrantem pulvere fratrem
spargentemque faces et in omni turre furentem.
ille tibi cultusque deum delubraque genti 15
instituet, cum iam, genitor, lucebis ab omni
parte poli neque erit Tyriae Cynosura carinae
certior aut Grais Helice servanda magistris.
seu tu signa dabis seu te duce Graecia mittet
et Sidon Nilusque rates: nunc nostra serenus 20
orsa iuves, haec ut Latias vox impleat urbes.
Haemoniam primis Pelias frenabat ab annis,
Primo mar canto aberto por divinos filhos
E a nau profética que ousou buscar na Cítia
O Fase e, em meio às penhas móveis, romper curso,
E que assentou-se, enfim, no Olimpo constelado.
Febo, me inspira, se a Cumaia casta cuba,
Que tudo sabe, eu tenho em casa e honram-me a fronte
Os verdes louros. E ó tu de quem maior é a fama
dês que oceano caledônio, antes hostil
Aos frígios Júlios, tuas velas transportou,
Do povo eleva-me, ó Pai Santo, e da brumosa
Terra, e auxilia-me a cantar as venerandas
Façanhas dos heróis. A queda da Iduméia
Teu filho mostra, pois que o pode, e o irmão feroz,
Negro de pó, tochas lançando às torres Sólimas.
Culto divino a ti, e um templo à tua gente,
Prestará ele quando, ó pai, no céu brilhares
E à tíria nau não for a Ursa melhor norte,
Nem pelo mestre grego a Barca mais marcada.
Se assinalares, Sídon, Nilo ou Grécia naus
Por tua guia enviarão. Ó Sereno, a iniciar
Me ordena, e que encha urbes latinas esta voz.
Pélias regia a Hemônia desde os primos anos –
170
iam gravis et longus populis metus. illius amnes
Ionium quicumque petunt, ille Othryn et Haemum
atque imum felix versabat vomere Olympum. 25
sed non ulla quies animo fratrisque paventi
progeniem divumque minas. hunc nam fore regi
exitio vatesque canunt pecudumque per aras
terrifici monitus iterant; super ipsius ingens
instat fama viri virtusque haud laeta tyranno. 30
ergo anteire metus iuvenemque exstinguere pergit
Aesonium letique vias ac tempora versat,
sed neque bella videt Graias neque monstra per urbes
ulla: Cleonaeo iam tempora clausus hiatu
Alcides, olim Lernae defensus ab angue 35
Arcas et ambobus iam cornua fracta iuvencis.
ira maris vastique placent discrimina ponti.
tum iuvenem tranquilla tuens nec fronte timendus
occupat et fictis dat vultum et pondera dictis.
'hanc mihi militiam, veterum quae pulchrior actis, 40
adnue daque animum. nostri de sanguine Phrixus
Cretheos ut patrias audis effugerit aras.
hunc ferus Aeetes, Scythiam Phasinque rigentem
qui colit--heu magni Solis pudor!--, hospita vina
inter et attonitae mactat sollemnia mensae 45
nil nostri divumque memor. non nuntia tantum
Temor dos povos, grave e longo. Todos rios
Que o Jônio buscam eram seus. O Ótris e o Hemón
Fértil arava, e o pé do Olimpo, mas sem paz
Na alma assustada por divinas ameaças
E pelo filho do irmão: que ele seria
O fim do rei os vates cantam. Maus presságios
No altar repetem-se; e do herói a fama aumenta –
Ao rei, porém, essas virtudes não agradam.
Logo, extinguir o medo e o Esônide decide;
Tempo e maneiras de matar ao jovem pensa.
Porém, não vê nas vilas gregas guerra ou monstros:
Já com a clenaia boca o Alcides cobre as têmporas,
Da lérnea hidra, há muito, a Arcádia é protegida
E de ambos touros já quebrados são os chifres.
Tem por melhor a ira e os riscos do oceano.
Então, fitando-o com tranqüila face, manso,
O alcança; e dá aos fictos ditos peso e vulto:
“Anui por mim com esta empresa, que é mais bela
que as dos antigos. Sabes como o creteu Frixo –
Sangue nosso – fugiu dos altares do pai.
O fero Eetes, que cultiva a Cítia e o Fase
Enregelado – ao sol pudor! –, matou o hóspede
Entre os ritos da ceia, ante a atônita mesa,
Não lembrado de nós ou do deus. Não só a núncia
171
fama refert: ipsum iuvenem tam saeva gementem,
ipsum ego, cum serus fessos sopor alligat artus,
aspicio, lacera adsiduis namque illius umbra
questibus et magni numen maris excitat Helle. 50
si mihi quae quondam vires, et pendere poenas
Colchida iam et regis caput hic atque arma videres.
olim annis ille ardor hebet necdum mea proles
imperio et belli rebus matura marique.
tu, cui iam curaeque vigent animique viriles, 55
i, decus, et pecoris Nephelaei vellera Graio
redde tholo ac tantis temet dignare periclis!'
talibus hortatur iuvenem propiorque iubenti
conticuit certus Scythico concurrere ponto
Cyaneas tantoque silet possessa dracone 60
vellera, multifidas regis quem filia linguas
vibrantem ex adytis cantu dapibusque vocabat
et dabat externo liventia mella veneno.
Mox taciti patuere doli nec vellera curae
esse viro, sed sese odiis immania cogi 65
in freta. qua iussos sectatur quaerere Colchos
arte queat: nunc aerii plantaria vellet
Perseos aut currus et quos frenasse dracones
creditus, ignaras Cereris qui vomere terras
imbuit et flava quercum damnavit arista. 70
Fama o diz: lamentando a seva sorte, ao jovem
Eu mesmo vejo quando o tardo sono prende-me
O corpo exausto. A sombra dele, com ais constantes,
Ao deus do Mar e a Heles chama. Se me houvesse
A antiga força, então verias já a Cólquida
Penar e, aqui, do rei as armas e a cabeça.
O meu ardor perdeu-se há anos e o meu filho
Não inda é pronto para o mando, a guerra ou o mar.
Tu, em quem vigoram já inquietudes varonis,
Vai, Honra, e o velo do carneiro de Nefele
Ao altar grego traz – sê digno dos perigos!”
Assim o exorta, ou mais, lhe ordena; este, valente,
Calou-se. As Ciâneas no mar cítio se chocarem
Não sabe, e ser guardado o velo pela serpe
Que as línguas vibra, a quem com cantos e oferendas
Chamava templo afora a filha régia e dava-lhe,
Com os venenos estrangeiros, verde mel.
Logo mostrou-se o dolo mudo e não cuidar
Do velo o rei, mas de o lançar por ódio ao mar.
Segue buscando por qual arte aos colcos chegue:
Queria de Perseu as sandálias aladas
Ou o carro e as cobras que guiava, qual se crê,
Quem co’o arado encheu as terras não sabidas
De Ceres e, co’o trigo, o carvalho danou.
172
heu quid agat? populumne levem veterique tyranno
infensum atque olim miserantes Aesona patres
advocet an socia Iunone et Pallade fretus
armisona speret magis et freta iussa capessat,
siqua operis tanti domito consurgere ponto 75
fama queat. tu sola animos mentemque peruris,
Gloria, te viridem videt immunemque senectae
Phasidis in ripa stantem iuvenesque vocantem.
tandem animi incertum confusaque pectora firmat
religio tendensque pias ad sidera palmas 80
'omnipotens regina,' inquit, 'quam, turbidus atro
aethere caeruleum quateret cum Iuppiter imbrem,
ipse ego praecipiti tumidum per Enipea nimbo
in campos et tuta tuli nec credere quivi
ante deam quam te tonitru nutuque reposci 85
coniugis et subita raptam formidine vidi,
da Scythiam Phasinque mihi tuque, innuba Pallas,
eripe me! vestris egomet tunc vellera templis
illa dabo, dabit auratis et cornibus igni
colla pater niveique greges altaria cingent?' 90
Accepere deae celerique per aethera lapsu
diversas petiere vias: in moenia pernix
Thespiaca ad carum Tritonia devolat Argum.
moliri hunc puppem iubet et demittere ferro
Que faz? Ou chame o débil povo hostil ao velho
Tirano e os nobres que apiedaram-se de Esón,
Ou, fiado em Juno e na armissonante Palas,
Não mais espere e enfrente o mar, se alguma fama
Pode surgir, domado o ponto, de tais feitos.
Só tu inflamas, Glória, os ânimos e a mente;
Verdes te vêem e imune ao tempo, firme às margens
Do Fase, aos jovens a chamar. Enfim, o culto
O incerto n’alma e o coração confuso firma.
Erguendo aos céus as pias mãos: “Ó onipotente
Rainha”, diz, “que, quando, túrbido, no escuro
Céu, Jove sacudira a negra tempestade,
Eu carreguei pelo Enipeu, da chuva inchado,
Segura aos campos, e não pude crer-te deusa
Até que, co’o trovão e o raio, reclamou-te
O esposo, e vi-te presa por súbito medo,
A Cítia e o Fase dá-me! E tu, inuba Palas,
Salva-me! O velo ao vosso templo ofertarei;
Dará meu pai ao fogo vítimas com áureos
Chifres, e cingirão o altar as níveas reses".
Pelo ar as deusas o escutaram e, num arrojo
Tomaram rumos diferentes: a Tritônia
Ao muro téspio, ao caro Argo, desce rápida.
Construir a nau lhe ordena e, a ferros, deitar árvores;
173
robora Peliacas et iam comes exit in umbras. 95
at Iuno Argolicas pariter Macetumque per urbes
spargit inexpertos temptare parentibus Austros
Aesoniden, iam stare ratem remisque superbam
poscere quos revehat rebusque in saecula tollat.
Omnis avet quae iam bellis spectataque fama 100
turba ducum primae seu quos in flore iuventae
temptamenta tenent necdum data copia rerum.
at quibus arvorum studiumque insontis aratri,
hos stimulant magnaque ratem per lustra viasque
iussi laude canunt manifesto in lumine Fauni 105
silvarumque deae atque elatis cornibus Amnes.
Protinus Inachiis ultro Tirynthius Argis
advolat, Arcadio cuius flammata veneno
tela puer facilesque umeris gaudentibus arcus
gestat Hylas; velit ille quidem, sed dextera nondum 110
par oneri clavaeque capax. quos talibus amens
insequitur solitosque novat Saturnia questus:
'o utinam Graiae rueret non omne iuventae
in nova fata decus nostrique Eurystheos haec nunc 114
iussa forent. imbrem et tenebras saevumque tridentem
iamiam ego et inviti torsissem coniugis ignem.
nunc quoque nec socium nostrae columenve carinae
esse velim Herculeis nec me umquam fidere fas sit
Às pélias sombras o acompanha. Espalha Juno
Por macedônicas e argólicas cidades
Que Jasão desafia inexplorados ventos,
Que a nau é pronta e que, soberba pelos remos,
Busca a quem leve e exalte os feitos pelos séculos.
Anseiam todos: capitães, co’a fama em guerras
Já comprovrada, e os que na flor da juventude
Não têm ainda obras muitas que os recordem.
Os que nos campos e no inócuo arado esforçam-se
Os estimulam. Pelos bosques e caminhos,
À luz do dia é a nau levada; cantam faunos,
Deusas da selva e os ribeirões de altivos cornos.
Da ináquia Argos o Tiríntio logo acorre
Cujo arco e as flechas inflamadas por veneno
Arcádio o jovem Hilas leva aos ombros ledos –
Quisera a clava, mas a mão ainda não era
Capaz do peso. Irada Juno os segue e as queixas
Costumeiras repete: “Oxalá a juventude
Grega não se lançasse à honra pelos feitos,
Ou que estes por nosso Euristeu fossem mandados.
Tormentas, trevas, cruel tridente e, há muito, o fogo –
Embora o esposo – eu já teria arremessado.
Quisera agora que não fosse sócio e esteio
Do nosso barco e eu não tivesse de confiar
174
auxiliis comiti et tantum debere superbo.'
dixit et Haemonias oculos detorquet ad undas. 120
Fervere cuncta virum coetu, simul undique cernit
delatum nemus et docta resonare bipenni
litora. iam pinus gracili dissolvere lamna
Thespiaden iungique latus lentoque sequaces
molliri videt igne trabes remisque paratis 125
Pallada velifero quaerentem bracchia malo.
constitit ut longo moles non pervia ponto,
puppis et ut tenues subiere latentia cerae
lumina, picturae varios super addit honores.
hic sperata deo Tyrrheni tergore piscis 130
Peleos in thalamos vehitur Thetis; aequora delphin
corripit, <ipsa> sedet deiecta in lumina palla
nec Iove maiorem nasci suspirat Achillen.
hanc Panope Dotoque soror laetataque fluctu
prosequitur nudis pariter Galatea lacertis 135
antra petens; Siculo revocat de litore Cyclops.
contra ignis viridique torus de fronde dapesque
vinaque et aequoreos inter cum coniuge divos
Aeacides pulsatque chelyn post pocula Chiron.
parte alia Pholoe multoque insanus Iaccho 140
Rhoecus et Atracia subitae de virgine pugnae.
crateres mensaeque volant araeque deorum
No hercúleo auxílio, ou dever tanto a tal soberbo!”
Disse e os olhos volveu para as ondas da Hemônia.
Bulir-se tudo pelos homens logo viu,
Tombada a mata e soar a praia co’a bipene;
Já vê o Tespíade cortar co’a serra os pinhos,
Bordos se unirem, se amoldarem dúcteis travas
Em fogo lento; e Palas vergas procurando,
Co’os remos prontos, para o mastro porta-velas.
Quando tornou-se estanque ao mar a grande nave
E fina cera completou ocultas frestas,
Dispôs a deusa, na pintura, honores vários:
Aqui, esperando um deus, num peixe, Tétis vai
Ao leito de Peleu; o delfim corta as águas
E ela o monta; co’o véu caído sobre os olhos
Lamenta Aquiles não nascer maior que Jove.
A seguem Doto, a irmã Panope, e alegre n’água,
Co’os braços nus, buscando os antros, Galatéia –
Da praia sícula o ciclope a chama em vão.
Defronte, é o fogo, o verde leito, o pasto e os vinhos
E o Eácida, co’a esposa, entre os deuses do mar;
Quíron, depois, a lira tange; noutra parte,
No Fóloe, Reco, pelo muito vinho insano,
E, pela virgem Hipodâmia, a luta enceta.
Voam altares e crateras, mesa e taças,
175
poculaque, insignis veterum labor. optimus hasta
hic Peleus, hic ense furens agnoscitur Aeson.
fert gravis invito victorem Nestora tergo 145
Monychus, ardenti peragit Clanis Actora quercu.
nigro Nessus equo fugit adclinisque tapetis
in mediis vacuo condit caput Hippasus auro.
Haec quamquam miranda viris stupet Aesone natus,
at secum: 'heu miseros nostrum natosque patresque!150
hacine nos animae faciles rate nubila contra
mittimur? in solum nunc saeviet Aesona pontus?
non iuvenem in casus eademque pericula Acastum
abripiam? invisae Pelias freta tuta carinae
optet et exoret nostris cum matribus undas.' 155
Talia conanti laevum Iovis armiger aethra
advenit et validis fixam gerit unguibus agnam.
at procul e stabulis trepidi clamore sequuntur
pastores fremitusque canum; citus occupat auras
raptor et Aegaei super effugit alta profundi. 160
accipit augurium Aesonides laetusque superbi
tecta petit Peliae. prior huic tum regia proles
advolat amplexus fraternaque pectora iungens.
ductor ait: 'non degeneres, ut reris, Acaste,
venimus ad questus: socium te iungere coeptis 165
est animus neque enim Telamón aut Canthus et Idas
Lavor insigne dos antigos. Bom co’a lança,
Peleu lá está, e o fero Esón co’a espada é visto;
Mônico traz Nestor no dorso, a contragosto;
Com brasas Clânis a Átor segue; Nesso foge
Num corcel negro. Reclinado entre tapetes,
No ouro vazio, Hipasso esconde sua cabeça.
Embora o Esônide se espante co’os prodígios,
Consigo diz: “Pobres de pais e filhos nossos!
Enviados somos – almas mansas – neste barco
Contra as sombras? O mar acossa só o Esônide?
Não levarei o moço Acasto aos mesmos riscos
E perigos? Que um mar seguro à odiosa nau
Escolha Pélias e, co’as mães, às ondas rogue”.
Assim pensando, pela esquerda, a jóvea armígera
Vem no ar e traz um anho preso às fortes garras.
Dos redis seguem-na os pastores com clamor;
Ladrar de cães! A agitação ocupa os ares,
Foge a raptora sobre o mar do Egeu profundo.
O Esônio o augúrio colhe e busca, alegre, a casa
Do altivo Pélias. Para ele acorre então,
Do rei o filho, unindo os peitos fraternais.
“Qual crês, não venho, Acasto”, diz o capitão,
“Co’indignas súplicas. Juntar-te à expedição
Intento, pois nem Telamón, Idas ou Canto,
176
Tyndareusque puer mihi vellere dignior Helles.
o quantum terrae, quantum cognoscere caeli
permissum est, pelagus quantos aperimus in usus!
nunc forsan grave reris opus, sed laeta recurret 170
cum ratis et caram cum iam mihi reddet Iolcon,
quis pudor heu nostros tibi tunc audire labores,
quae referam visas tua per suspiria gentes!'
Nec passus rex plura virum 'sat multa parato
in quaecumque vocas. nec nos,' ait 'optime, segnes 175
credideris patriisve magis confidere regnis
quam tibi, si primos duce te virtutis honores
carpere, fraternae si des adcrescere famae.
quin ego, nequa metu nimio me cura parentis
impediat, fallam ignarum subitusque paratis 180
tunc adero, primas linquet cum puppis harenas.'
dixerat. ille animos promissaque talia laetus
accipit et gressus avidos ad litora vertit.
At ducis imperiis Minyae monituque frequentes
puppem umeris subeunt et tento poplite proni 185
decurrunt intrantque fretum; non clamor anhelis
nauticus aut blandus testudine defuit Orpheus.
tum laeti statuunt aras. tibi, rector aquarum,
summus honor, tibi caeruleis in litore vittis
et Zephyris Glaucoque bovem Thetidique iuvencam
Ou Cástor julgo ser mais digno do tosão!
Ah, quanta terra, quanto céu ver poderemos!
A quantos usos abriremos o oceano!
Talvez pesada a empresa creias, porém leve
Ao meu retorno, quando a nau me traga a Iolco.
Mas que vergonha a tua ouvindo nossos feitos!
E a teus suspiros contarei de tantas gentes!”
Acasto mais não deixa: “Basta, que estou pronto
P’ra ir aonde chames. Fraco não me julgues,
Ou que confio, mais que em ti, no pátrio império:
Ao teu comando, as primas honras buscarei –
Se deres-me crescer co’a fama tua. Assim,
Para que o zelo de meu pai, por medo imenso,
Não me impeça, eu o enganarei e chegarei
Súbito quando pronta nau deixar a praia”.
Disse, e aquele, alegre, tais promessas na alma
Acolhe e volve ao litoral os passos ávidos.
Do chefe às ordens e ao aviso, os Mínias juntos
O barco aos ombros sobem; joelho tenso adiante,
Andam e entram no mar. Não faltaram os brados
Aos ofegantes nautas, nem Orfeu co’a lira.
Então, alegres, aras erguem. Rei das águas,
Grande honra a ti! Na praia, Anceu a Glauco, aos Zéfiros
E a ti um boi, de azul fitado, e uma novilha
177
deicit Ancaeus: non illo certior alter
pinguia letifera perfringere colla bipenni.
ipse ter aequoreo libans carchesia patri
sic ait Aesonides: 'o qui spumantia nutu
regna quatis terrasque salo complecteris omnes, 195
da veniam! scio me cunctis e gentibus unum
inlicitas temptare vias hiememque mereri:
sed non sponte feror nec nunc mihi iungere montes
mens ~tamen~ aut summo deposcere fulmen Olympo.
ne Peliae te vota trahant! ille aspera iussa 200
repperit et Colchos in me luctumque meorum.
illum ego--tu tantum non indignantibus undis
hoc caput accipias et pressam regibus alnum.'
sic fatus pingui cumulat libamine flammam.
Protulit ut crinem densis luctatus in extis 205
ignis et escendit salientia viscera tauri,
ecce sacer totusque dei per litora Mopsus
immanis visu vittamque comamque per auras
surgentem laurusque rotat. vox reddita tandem,
vox horrenda viris. tum facta silentia vati. 210
'heu quaenam aspicio? nostris modo concitus ausis
aequoreos vocat ecce deos Neptunus et ingens
concilium. fremere et legem defendere cuncti
hortantur. sic amplexus, sic pectora fratris,
A Tétis imolou. Ninguém melhor que ele
Para cortar, co’a acha letal, as gordas nucas.
Libando três vezes a gávea ao pai das águas,
O Esônio: “Tu, que co’um aceno o espúmeo reino
Abalas; que co’o mar envolves todas terras,
Perdoa! Sei que único sou de toda a gente
A tentar rotas e a borrascas merecer:
Não por vontade vou, nem busco juntar montes
Ou provocar do Olimpo o raio. Que não te movam
Votos de Pélias – que com más ordens espera
Mandar-me aos colcos e dos meus causar a dor.
Então, que aceites em tuas ondas não iradas
Tal capitão e a tripulada nau por reis”.
Falando assim, co’a libação engrossa a chama.
Quando, a lutar na densa entranha, alteou o fogo
As línguas e saltou nas palpitantes vísceras,
Na praia, o sacro Mopso, pelo deus tomado,
Brande, terrível, no ar as fitas, a arrepiada
Coma e o laurel. A voz horrenda, finalmente,
Aos homens dá-se. Faz-se, ao vate, então, silêncio:
“Que vejo? Pela nossa audácia atraído, há pouco,
Netuno chama os áqueos deuses a um concílio.
Todos exortam-no a fremir e a defender
A Lei. Assim, num abraço, ó Juno, enlaça o irmão,
178
Iuno, tene tuque o puppem ne desere, Pallas: 215
nunc patrui, nunc flecte minas! cessere ratemque
accepere mari. per quot discrimina rerum
expedior! subita cur pulcher harundine crines
velat Hylas? unde urna umeris niveosque per artus
caeruleae vestes? unde haec tibi vulnera, Pollux? 220
quantus io tumidis taurorum e naribus ignis!
tollunt se galeae sulcisque ex omnibus hastae
et iam iamque umeri. quem circum vellera Martem
aspicio? quaenam aligeris secat anguibus auras
caede madens? quos ense ferit? miser, eripe parvos,
Aesonide! cerno et thalamos ardere iugales!'
Iamdudum vates Minyas ambage ducemque
terrificat; sed enim contra Phoebeius Idmon
non pallore viris, non ullo horrore comarum
terribilis, plenus fatis Phoeboque quieto, 230
cui genitor tribuit monitu praenoscere divum
omina, seu flammas seu lubrica comminus exta
seu plenum certis interroget aera pinnis,
sic sociis Mopsoque canit: 'quantum augur Apollo
flammaque prima docet, praeduri plena laboris 235
cerno equidem, patiens sed quae ratis omnia vincet.
ingentes durate animae dulcesque parentum
tendite ad amplexus!' lacrimae cecidere canenti
E tu, Palas, a nau não abandones: ora
Do tio afasta as ameaças. Quieta o mar
E ao barco aceita! A quantos ricos sou levado!
Por que com um véu súbito cobrem-se os cabelos
Do belo Hilas? De onde vem a urna aos ombros
E a escura veste aos níveos membros? E estas chagas,
Pólux? Ah, quanto fogo sai das táureas ventas.
Dos sulcos todos brotam lanças e escudos
E braços mais. Que guerra vejo em torno ao velo?
Plena de morte, quem co’as serpes corta os ares?
Co’a espada os fere? Pobre Esônide, aos pequenos
Salva! Diviso arder o leito conjugal!”
E muito o vate aterra os Mínias co’os enigmas,
Ídmon, porém, o fêbeo, enfim sem medo aos homens,
Nada espantoso, sem a coma desgrenhada,
Possuído pelo Fado e a quietude de Febo –
A quem o pai deu antever todos oráculos
Caso, de perto, visse a chama, as pingues vísceras
Ou o céu, de vôos certos cheio. Assim cantou
A Mopso e aos sócios: “Quanto Apolo e a prima flama
Ensinam, vejo u’a rota plena de labores,
Porém a nau que, suportando, tudo vence.
Perseverai, heróis, volvei ao doce abraço
De vossos pais!” Caíram lágrimas do vate
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quod sibi iam clausos invenit in ignibus Argos.
Vix ea fatus erat, iungit cum talia ductor 240
Aesonius: 'superum quando consulta videtis,
o socii, quantisque datur spes maxima coeptis,
vos quoque nunc vires animosque adferte paternos.
non mihi Thessalici pietas culpanda tyranni
suspective doli: deus haec, deus omine dextro 245
imperat; ipse suo voluit commercia mundo
Iuppiter et tantos hominum miscere labores.
ite, viri, mecum dubiisque evincite rebus
quae meminisse iuvet nostrisque nepotibus instent.
hanc vero, socii, venientem litore laeti 250
dulcibus adloquiis ludoque educite noctem!'
paretur. molli iuvenes funduntur in alga
conspicuusque toris Tirynthius. exta ministri
rapta simul veribus Cereremque dedere canistris.
Iamque aderat summo decurrens vertice Chiron
clamantemque patri procul ostendebat Achillen.
ut puer ad notas erectum Pelea voces
vidit et ingenti tendentem bracchia passu,
adsiluit caraque diu cervice pependit.
illum nec valido spumantia pocula Baccho 260
sollicitant veteri nec conspicienda metallo
signa tenent: stupet in ducibus magnumque sonantes
Que viu p’ra si, nas chamas, Argos proibida.
Tão logo o dito, o capitão assim ajunta:
“Já que dos deuses os desígnios vedes, sócios,
E que esperança grande é dada a esta empresa,
Trazei convosco a força e os ânimos paternos.
Não culparei as impiedades do tirano
Ou seus ardis: ordena-o o deus com bons presságios.
O próprio Jove quis o comércio no mundo
E misturar tantos trabalhos dos humanos.
Parti comigo, heróis! Vencei nas incertezas
O que lembrar nos faça, e anime nossos netos.
Passai na praia, alegres sócios, em folguedos
E doces falas esta noite, que já chega!”
É feito. Os jovens na macia alga se deitam
E o Tiríntio, no leito. As vísceras tiradas
Do espeto e Ceres os escravos distribuíram.
Chegava Quíron, a correr desde o alto cume;
Mostrava Aquiles, que chamava o pai ao longe.
Quando o menino viu Peleu com um grande passo
À conhecida voz os braços estendendo,
Saltou e, longamente, abraçou-lhe a cerviz.
Não lhe atrai nem a taça espumante de forte
Baco, nem marcas admiráveis no metal
Antigo: encanta-se entre os homens, ouve-os muito
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haurit et Herculeo fert comminus ora leoni.
laetus at impliciti Peleus rapit oscula nati
suspiciensque polum 'placido si currere fluctu 265
Pelea vultis' ait 'ventosque optare ferentes,
hoc, superi, servate caput! tu cetera, Chiron,
da mihi! te parvus lituos et bella loquentem
miretur; sub te puerilia tela magistro
venator ferat et nostram festinet ad hastam.' 270
omnibus inde viae calor additus; ire per altum
magna mente volunt. Phrixi promittitur absens
vellus et auratis Argo reditura corymbis.
Sol ruit et totum Minyis laetantibus undae
deduxere diem. sparguntur litore curvo 275
lumina nondum ullis terras monstrantia nautis.
Thracius hic noctem dulci testitudine vates
extrahit, ut steterit redimitus tempora vittis
Phrixus et iniustas contectus nubibus aras
fugerit Inoo linquens Athamanta Learcho; 280
aureus ut iuvenem miserantibus intulit undis
vector et adstrictis ut sedit cornibus Helle.
septem Aurora vias totidemque peregerat umbras
luna polo dirimique procul non aequore visa
coeperat a gemina discedere Sestos Abydo. 285
hic soror Aeoliden aevum mansura per omne
Jactantes; do leão hercúleo a pele arrasta.
Então, feliz, o filho ao colo Peleu beija
E diz, olhando o céu: “Se em brando mar quiserdes
Que Peleu singre e escolha os ventos favoráveis,
Deuses, cuidai deste menino! E Quíron, tu,
Dá-me mais. Pasma-o, guerra e trompas lhe contando;
Que ao teu ensino, leve armas pueris
Qual caçador e, às nossas lanças, se apressure!”
O ardor da rota a todos se une; e em grande anseio
Querem zarpar. Se lhes promete o velo frixio
E que Argo voltará, por ouro recoberta.
O sol se põe e junto ao ledos Mínias, ondas
O dia levam. Pela praia curva, espalham-se
Chamas que ainda não apontam terra aos nautas.
O Trácio, então, co’a doce lira, alonga a noite
Cantando como ergueu-se Frixo, ornada a fronte
Por fitas, e fugiu do altar injusto, oculto
Em nuvens, a deixar, com Learco, Atamante;
Como o áureo condutor levou-o às tristes vagas
E como se assentou nos presos chifres Heles.
Sete vezes a Aurora e a lua o céu correram;
Não vista ao longe a separar-se pelo mar
De Abido, Sesto começara a se apartar.
Ali a irmã, p’ra sempre célebre, do Eólide
181
deserit, heu saevae nequiquam erepta novercae!
illa quidem fessis longe petit umida palmis
vellera, sed bibulas urgenti pondere vestes
unda trahit levique manus labuntur ab auro. 290
quis tibi, Phrixe, dolor, rapido cum concitus aestu
respiceres miserae clamantia virginis ora
extremasque manus sparsosque per aequora crines!
Iamque mero ludoque modus positique quietis
conticuere toris, solus quibus ordine fusis 295
impatiens somni ductor manet. hunc gravis Aeson
et pariter vigil Alcimede spectantque tenentque
pleni oculos. illis placidi sermonis Iason
suggerit adfatus turbataque pectora mulcet.
mox ubi victa gravi ceciderunt lumina somno 300
visa coronatae fulgens tutela carinae
vocibus his instare duci: 'Dodonida quercum
Chaoniique vides famulam Iovis. aequora tecum 308
ingredior nec fatidicis avellere silvis 303
me nisi promisso potuit Saturnia caelo.
tempus adest: age rumpe moras, dumque aequore toto
currimus incertus si nubila duxerit aether,
iam nunc mitte metus fidens superisque mihique.'
dixerat. ille pavens laeto quamquam omine divum 309
prosiluit stratis. Minyas simul obtulit omnes
Caiu, e em vão foi libertada da madrasta!
Co’as mãos cansadas ela ainda busca o úmido
Tosão, mas onda arrasta as vestes encharcadas
Com o peso urgente, e as mãos resvalam no ouro liso.
Frixo, que dor!, pelo esto rápido abalado,
Vendo da virgem triste as faces suplicantes,
O fim das mãos e, sobre as águas, os cabelos!
Já findos vinho e brinco, em quietos leitos postos,
Silenciaram-se. Só, entre os adormecidos,
Insone fica o capitão. Alcimedé
E o velho Esón, juntos, o vêem – têm os olhos
Rasos d’água. Jasão lhes fala com palavras
Mansas, e o dito acalma os corações aflitos.
Quando, vencidos pelo sono, os olhos fecham-se,
Fulgente é vista a tutelar deusa da nau
Instando o capitão: “O carvalho dodono
Servo de Jove vês. Ao mar contigo adentro.
Da profética mata arrancar-me a Satúrnia
Não conseguiu sem a promessa antes do céu.
O tempo chega: eia te apressa e enquanto as águas
Singras, incerto se trará nuvens o céu,
Já o medo afasta, em mim confiando, e nos divinos”.
Falou. E ele, a tremer, embora o bom presságio,
Saltou do leito. Logo aos Mínias se mostrou
182
alma novo crispans pelagus Tithonia Phoebo.
discurrunt transtris: hi celso cornua malo
expediunt, alii tonsas in marmore summo
praetemptant, prora funem legit Argus ab alta.
increscunt matrum gemitus et fortia languent 315
corda patrum, longis flentes amplexibus haerent.
vox tamen Alcimedes planctus supereminet omnis,
femineis tantum illa furens ululatibus obstat,
obruat Idaeam quantum tuba Martia buxum,
fatur et haec: 'nate indignos aditure labores, 320
dividimur nec ad hos animum componere casus
ante datum, sed bella tibi terrasque timebam.
vota aliis facienda deis. si fata reducunt
te mihi, si trepidis placabile matribus aequor,
possum equidem lucemque pati longumque timorem.
sin aliud fortuna parat, miserere parentum,
Mors bona, dum metus est nec adhuc dolor. ei mihi,
Colchos
unde ego et avecti timuissem vellera Phrixi?
quos iam mente dies, quam saeva insomnia curis
prospicio! quotiens raucos ad litoris ictus 330
deficiam Scythicum metuens pontumque polumque
nec de te credam nostris ingrata serenis!
da, precor, amplexus haesuraque verba relinque
Crispando o mar num novo dia a alma Tritônia.
Aos remos correm. Uns, do mastro, vergas soltam;
Outros, os remos na marmórea água ensaiam.
Argos, na proa, colhe a amarra. Os ais das mães
Crescem e os fortes corações dos pais fraquejam;
Chorando estreitam-se em abraços demorados.
Porém, de Alcimedé a voz suplanta os choros:
Transtornada, ela tolhe os fêmeos gritos tanto
Quanto a trompa de guerra encobre a flauta idáia.
E diz: “Ó filho, que hás de expor-te a cruéis labores,
Nos separamos, sem à sorte antes o espírito
Se armar. Porém, por ti temia guerra e terras.
Que se cultuem outros deuses! Se o destino
Traz-te a mim, se por mães o mar se aplaca, sim,
Suportar posso a luz do dia e o longo medo.
Mas se a Fortuna mais prepara, ó Boa Morte,
Dos pais te apieda, enquanto há o medo e não a dor.
Como haveria eu de temer o velo e os Colcos?
Que dias vejo, que vigílias de aflição!
Ah, quantas vezes, ao bater rouco das ondas
Desmaiarei, temendo o mar e o céu da Cítia,
E não crerei em nosso estio ingrato a ti.
Dá-me um abraço, peço, e deixa-me aos ouvidos
183
auribus et dulci iam nunc preme lumina dextra!'
talibus Alcimede maeret, sed fortior Aeson 335
attollens dictis animos: 'o si mihi sanguis
quantus erat cum signiferum cratera minantem
non leviore Pholum manus haec compescuit auro,
primus in aeratis posuissem puppibus arma
concussoque ratem gauderem tollere remo. 340
sed patriae valuere preces auditaque magnis
vota deis: video nostro tot in aequore reges
teque ducem. tales, tales ego ducere suetus
atque sequi. nunc ille dies--det Iuppiter oro--,
ille super quo te Scythici regisque marisque 345
victorem atque umeros ardentem vellere rapto
accipiam cedantque tuae mea facta iuventae.'
sic ait. ille suo conlapsam pectore matrem
sustinuit magnaque senem cervice recepit.
Et iam finis erat. Zephyrumque ratemque morantes
solverat amplexus tristi tuba tertia signo. 351
dant remo sua quisque viri, dant nomina transtris.
hinc laevum Telamón pelagus tenet, altior inde
occupat Alcides aliud mare, cetera pubes
dividitur. celer Asterion, quem matre cadentem 355
Peresius gemino fovit pater amne Cometes,
segnior Apidani vires ubi sentit Enipeus,
Perene fala; co’a mão doce os olhos fecha-me!”
Assim lamenta Alcimedé; mas diz Esón
Mais forte os animando: “ Ah se meu sangue fosse
Como era quando, co’áureo vaso, parei Fóloe
Que me atacava com cratera não mais leve,
Primeiro as armas eu poria na ênea popa
E de levar a remo a nau me alegraria.
Porém, valeram minhas preces, pelos deuses
Ouvidas: vejo reis por todo nosso mar
E que és o capitão – guiá-los e os seguir
Eu costumava. Chegue o dia, peço a Jove,
Em que eu te acolha, vitorioso sobre o rei
E o mar da cítia, com o tosão roubado às costas;
Em que os meus feitos aos da tua juventude
Dêem lugar!” Assim diz. Jasão manteve a mãe
Junto a seu peito e recebeu no abraço o pai.
Chegava a hora. Em triste toque, a terça tuba
Rompera os laços que prendiam nau e Zéfiros.
Ao banco e ao remo, cada herói seu nome empresta.
Daqui, tem Telamón o mar à esquerda; acima
Ocupa o Alcides o outro bordo; os demais jovens
Partem-se. Esforça o lesto Astérion que, ao nascer,
Comete, o pai perésio, o banhou na confluência
Onde o Enipeu as forças sente do Apidano.
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nititur, hinc Talaus fratrisque Leodocus urget
remo terga sui, quos nobile contulit Argos.
hinc quoque missus adest quamvis arcentibus Idmon 360
alitibus; sed turpe viro timuisse futura.
hic et Naubolides tortas consurgit in undas
Iphitus, hic patrium frangit Neptunius aequor,
qui tenet undisonam Psamathen semperque patentem
Taenaron, Euphemus, mollique a litore Pellae 365
Deucalion certus iaculis et comminus ense
nobilis Amphion, pariter quos edidit Hypso
nec potuit similes voluitve ediscere vultus.
tum valida Clymenus percusso pectore tonsa
frater et Iphiclus puppem trahit et face saeva 370
in tua mox Danaos acturus saxa, Caphereu,
Nauplius, et tortum non a Iove fulmen Oileus
qui gemet Euboicas nato stridente per undas
quique Erymanthei sudantem pondere monstri
Amphitryoniaden Tegeaeo limine Cepheus 375
iuvit et Amphidamas (at frater plenior actis
maluit Ancaeo vellus contingere Phrixi)
tectus et Eurytion servato colla capillo,
quem pater Aonias reducem tondebit ad aras.
te quoque Thessalicae, Nestor, rapit in freta puppis 380
fama, Mycenaeis olim qui candida velis
Aqui Talau forceja e Leódoco empurra
Do irmão as costas com seu remo: os mandou Argos.
Depois, Ídmon se mostra, embora os maus agouros –
Mas ao varão temer futuro é vergonhoso.
Nas curvas ondas se ergue Ífito, o Naubólide.
Paternas águas fende aqui o netúnio Eufemo
Que a ondissonante Psamatunte e o sempre aberto
Tênaro rege. Vêm da suave costa pélea,
Hábil co’os dardos, Deucalião e, co’a espada, perto,
O nobre Anfião – ao mesmo tempo os pariu Hipso
Que distinguir não pôde ou quis os iguais rostos.
Tangido o peito pelo forte remo, Clímeno
E o irmão Íficlo a nau movem. Cara brava
É o que a tuas rochas, Cefaréu, guiará os Dânaos:
Náuplio! E Oileu que a Jove o raio não lançado
Lamentará, batido o filho pelo Eubeu;
Cefeu, que a Hércules, suado sob o peso
Do monstro de Erimanto, ajudou na tegéa
Porta, e Anfidamas (posto o irmão mais velho antes
Quis com Anceu buscar o velo). Segue Eurítion,
Coberto à nuca pela coma conservada
Que à volta o pai no altar aônio cortará.
Também te lança de Argo a fama ao mar, Nestor
Que um dia, por velas micênicas, branqueadas
185
aequora nec stantes mirabere mille magistros.
hic vates Phoebique fides non vana parentis 383
Mopsus, puniceo cui circumfusa cothurno
palla imos ferit alba pedes vittataque frontem
cassis et in summo laurus Peneia cono.
quin etiam Herculeo consurgit ab ordine Tydeus
Nelidesque Periclymenus, quem parva Methone
et levis Elis equis et fluctibus obvius Aulon
caestibus adversos viderunt frangere vultus. 390
tu quoque Phrixeos remo, Poeantie, Colchos
bis Lemnon visure petis, nunc cuspide patris
inclitus, Herculeas olim moture sagittas.
proximus hinc Butes Actaeis dives ab oris;
innumeras nam claudit apes longaque superbus 395
fuscat nube diem dum plenas nectare cellas
pandit et in dulcem reges dimittit Hymetton.
insequeris casusque tuos expressa, Phalere,
arma geris laeva; nam lapsus ab arbore parvum
ter quater ardenti tergo circumvenit anguis, 400
stat procul intendens dubium pater anxius arcum.
tum caelata metus alios gerit arma Eribotes
nec Peleus fretus soceris et coniuge diva 403
defuit ac prora splendet tua cuspis ab alta,
Aeacide; tantum haec aliis excelsior hastis
Águas contemplará e os bravos mil pilotos.
Aqui é o vate Mopso – a fiança do pai Febo –
De quem, caído em torno aos púnicos coturnos,
O branco manto toca as solas, com fitado
Gorro à testa e o laurel peneio no alto elmo.
Tideu também na hercúlea fila se levanta,
E Periclímeno, o Nelida – a quem Metona,
A Élis do corcel e o Aulão exposto às ondas
Viram quebrar adversas faces com seus cestos.
Também, Poiante, tu, com o remo, os colcos buscas:
Duas vezes Lemnos hás de ver, ora afamado
Pelo dardo do pai, um dia hercúleas flechas
Portarás. Próximo, da Ática, vem Butes
Que cria inúmeras abelhas e, soberbo,
Co’o enxame ofusca o dia quando abre as colméias
Plenas de mel e os reis conduz ao doce Himeto.
Falero, o segues; com tua sina ornadas armas
Levas: da árvore descida u’a cobra enrosca,
Co’o dorso ardente, quatro vezes um menino
E, ao longe, o pai aflito o tíbio arco entesa.
Tem Eribote armas gravadas co’outros medos.
Peleu, nos sogros e na esposa é confiado:
Esplende, ó Eácida, na proa a tua lança
Que é tanto mais alta entre as outras hastes quanto
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quantum Peliacas in vertice vicerat ornos.
linquit et Actorides natum Chironis in antro,
ut socius caro pariter meditetur Achilli
fila lyrae pariterque leves puer incitet hastas.
[discat eques placidi conscendere terga magistri] 410
et quem fama genus non est decepta Lyaei 411
Phlias immissus patrios de vertice crines.
nec timet Ancaeum genetrix committere ponto,
plena tulit quem rege maris. securus in aequor
haud minus Erginus proles Neptunia fertur, 415
qui maris insidias, clarae qui sidera noctis
norit et e clausis quem destinet Aeolus antris,
non metuat cui regna ratis, cui tradere caelum
adsidua Tiphys vultum lassatus ab Arcto.
taurea vulnifico portat celer a<spera> plumbo 420
terga Lacon, saltem in vacuos ut bracchia ventos
spargat et Oebalium Pagaseia puppis alumnum
spectet securo celebrantem litora ludo,
oraque Thessalico melior contundere freno
vectorem pavidae Castor dum quaereret Helles 425
passus Amyclaea pinguescere Cyllaron herba.
illis Taenario pariter tremit ignea fuco
purpura, quod gemina mater spectabile tela
duxit opus: bis Taygeton silvasque comantes
Sobrepujara na montanha os olmos pélios.
No antro de Quíron, deixa seu filho o Actóride
P’ra que, de Aquiles companheiro, junto estude
A lira e, moço ainda, lance leves dardos
E aprenda a cavalgar do manso mestre o dorso.
Flias, de quem é vera a fama de ser filho
De Lieu, deixou crescer do crânio as pátrias comas.
Não teme a mãe enviar ao ponto Anceu que, grávida
Gerou do rei do mar. Seguro n’água é Ergino –
Também netúnia prole é dito – que as insídias
Do mar conheceria, as estrelas da noite
E o vento que Éolo libertasse dos covis –
Não tema Tífis lhe passar da nau o mando
E a vigia dos céus, de olhar p’ra Arcto exausto.
Veloz Lacônio calça o duro táureo couro
Com chumbo feridor para que ao vento lance
O punho e a nau pagásia veja o oibálio aluno
A celebrar no litoral seguro jogo;
E com bridão tessálio o grande quebra-bocas,
Cástor, que, enquanto ao condutor de Heles buscasse,
Da amíclea erva consentiu nutrir-se Cílaron:
Neles igual reluz a púrpura tenária,
Obra espetacular que a mãe, em gêmeos panos,
Teceu: duas vezes o Taígeto e as selvas
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struxerat, Eurotan molli bis fuderat auro. 430
quemque suus sonipes niveo de stamine portat
et volat amborum patrius de pectore cycnus.
at tibi collectas solvit iam fibula vestes
ostenditque umeros fortes spatiumque superbi
pectoris Herculeis aequum, Meleagre, lacertis. 435
hic numerosa phalanx, proles Cyllenia: certus
Aethalides subitas nervo redeunte sagittas
cogere; tu medios gladio bonus ire per hostes,
Euryte; nec patrio Minyis ignobilis usu
nuntia verba ducis populis qui reddit Echion. 440
sed non, Iphi, tuis Argo reditura lacertis
heu cinerem Scythica te maesta relinquet harena
cessantemque tuo lugebit in ordine remum.
te quoque dant campi tanto pastore Pheraei
felices, Admete, tuis nam pendet in arvis 445
Delius ingrato Steropen quod fuderat arcu.
a quotiens famulo notis soror obvia silvis
flevit ubi Ossaeae captaret frigora quercus
perderet et pingui miseros Boebeide crines!
insurgit transtris et remo Nerea versat 450
Canthus, in Aeaeo volvet quem barbara cuspis
pulvere; at interea clari decus adiacet orbis
quem genitor gestarat Abas--secat aurea fluctu
Bordara, e o Eurota duas vezes, co’ouro fino.
Cada um leva seu cavalo de alvo fio
E no peito dos dois revoa o pátrio cisne.
Soltou-se a fíbula de tuas vestes presas
E revelou os fortes ombros e o tamanho
Do peitoral, ó Meleagro, igual ao de Hércules!
Cilênia prole é numerosa tropa: Etálide,
Certo ao lançar co’arco vibrátil, flechas rápidas;
Eurito, bom ao ir co’o gládio em meio às hostes;
E, por paterno ofício, Equião, famoso ao Mínias,
Do capitão aos povos leva os núncios ditos.
Argo, que não há de voltar pelos teus braços,
Ífis tuas cinzas deixará na cítia areia
E chorará o quieto remo em teu assento.
Por tal pastor felizes, dão-te os campos féreos,
Admeto, pois em tua seara esteve preso
O Délio, que matara Estérope co’o o arco –
Ah, quanto a irmã chorou no bosque achando o fâmulo
Que do carvalho do Ossa a sombra aproveitava
E mergulhava as tristes comas no Bebeio!
No banco se ergue e, a remo, o mar revolve Canto
A quem, no Eêio pó, tombará lança bárbara;
No entanto o acompanha o honor do nobre escudo
Que o pai levara: o Euripo corta o áureo couro
188
tegmina Chalcidicas fugiens Euripus harenas
celsaque semiferum contorquens frena luporum 455
surgis ab ostrifero medius, Neptune, Geraesto.
et tibi Palladia pinu, Polypheme, revecto
ante urbem ardentis restat deprendere patris
reliquias, multum famulis pia iusta moratis
si venias. breviore petit iam caerula remo 460
occupat et longe sua transtra novissimus Idas.
at frater magnos Lynceus servatur in usus,
quem tulit Arene, possit qui rumpere terras
et Styga transmisso tacitam deprendere visu.
fluctibus e mediis terras dabit ille magistro 465
et dabit astra rati cumque aethera Iuppiter umbra
perdiderit solus transibit nubila Lynceus.
quin et Cecropiae proles vacat Orithyiae
temperet ut tremulos Zetes fraterque ceruchos.
nec vero Odrysius transtris impenditur Orpheus 470
aut pontum remo subigit, sed carmine tonsas
ire docet summo passim ne gurgite pugnent.
donat et Iphiclo pelagus iuvenumque labores
Aesonides, fessum Phylace quem miserat aevo
non iam operum in partem, monitus sed tradat ut acres
magnorumque viros qui laudibus urat avorum.
Arge, tuae tibi cura ratis, te moenia doctum
Com a onda, a fugir das areias da Cólquida;
E, agitando os bridões dos lobos monstruosos,
Surges, Netuno, no ostrífero Geresto.
Na volta de Argo, Polifemo, a ti reserva-se
Achar do pai os restos que ante a vila ardam
E os servos que, em justa piedade, muito esperem
Até que chegues. Co’o mais curto remo, o último,
Idas golpeia a água e ocupa, ao longe, o banco.
O irmão Linceu p’ra grandes feitos é guardado:
Do Arene vindo, p’ra que possa romper terras
E desvendar segredo estígio co’a visão;
Mostrará terras entre as ondas ao piloto
E astros à nave: ainda que Jove o céu toldasse
Com nuvens, só Linceu as atravessaria.
Os filhos da cecrópia Orítia ficam livres –
Zetes e o irmão – para ajustarem cordas trêmulas.
E o odrísio Orfeu não é aos bancos dedicado
Ou vence a remo o mar, porém co’o canto ensina
Irem as pás no ritmo e n’água não lutarem.
Do obrar dos moços e do mar Jasão libera
Íficlo: a Fílaca apieda-se da idade
E não o envia à faina, mas que dê conselhos,
E inflame os homens co’as ações dos ancestrais.
Argo, cuida da nau! As muralhas da Téspia
189
Thespia Palladio dant munere; sors tibi nequa
parte trahat tacitum puppis mare fissaque fluctu
vel pice vel molli conducere vulnera cera. 480
pervigil Arcadio Tiphys pendebat ab astro
Hagniades, felix stellis qui segnibus usum
et dedit aequoreos caelo duce tendere cursus.
Ecce per obliqui rapidum compendia montis
ductor ovans laetusque dolis agnoscit Acastum 485
horrentem iaculis et parmae luce coruscum.
ille ubi se mediae per scuta virosque carinae
intulit, ardenti Aesonides retinacula ferro
abscidit. haud aliter saltus vastataque pernix
venator cum lustra fugit dominoque timentem 490
urget equum teneras compressus pectore tigres
quas astu rapuit pavido, dum saeva relictis
mater in adverso catulis venatur Amano.
it pariter propulsa ratis. stant litore matres
claraque vela oculis percussaque sole sequuntur 495
scuta virum, donec iam celsior arbore pontus
immens<usque> ratem spectantibus abstulit aer.
Siderea tunc arce pater pulcherrima Graium
coepta tuens tantamque operis consurgere molem
laetatur; patrii neque enim probat otia regni. 500
una omnes gaudent superi venturaque mundo
Mandam-te, experto – dom de Palas. Cabe a ti
Que, em parte alguma, o barco traga oculta água
E unir com cera ou pez a greta aberta às ondas.
Ao astro Arcádio olhava o vigilante Tífis,
Filho de Hágnio, que o uso de astros lhe ensinou,
E a seguir cursos pelo mar co’o céu por guia.
E eis que, ligeiro, por atalhos da montanha
O capitão, feliz co’a astúcia, vê Acasto
Temível com sua lança, e brilhante co’o escudo.
Quando ele ao barco, entre os broquéis e heróis chegou,
partiu o Esônide co’a espada ardente as cordas.
Qual quando o ágil caçador foge da mata
Saqueada e apressa seu cavalo temeroso
Pelo amo, que no peito aperta os tenros tigres
Que, em dolo pávido, roubara enquanto a mãe,
Deixada a cria, no Amano oposto caça –
Assim avança o barco. As mães na praia ficam –
Seguem co’os olhos brancas velas e os escudos
Batidos pelo sol, até que o mar, mais alto
Que o mastro, e o céu imenso a nau à vista ocultam.
Então, o pai, vendo do empíreo a grega empresa
E começarem feitos tantos, regozija-se
Pois não aprova do paterno reino o ócio.
Se alegram deuses: para si as Parcas vêem,
190
tempora quaeque vias cernunt sibi crescere Parcae.
sed non et Scythici genitor discrimine nati
intrepidus tales fundit Sol pectore voces:
'summe sator, cui nostra dies volventibus annis 505
tot peragit reficitque vices, tuane ista voluntas
Graiaque nunc undis duce te nutuque secundo
it ratis? an meritos fas est mihi rumpere questus?
hoc metuens et nequa foret manus invida nato
non mediae telluris opes, non improba legi 510
divitis arva plagae (teneant uberrima Teucer
et Libys et vestri Pelopis domus): horrida saevo
quae premis arva gelu strictosque insedimus amnes.
cederet his etiam et sese sine honore referret
ulterius, sed nube rigens ac nescia rerum 515
stat super et nostros iam zona reverberat ignes.
quid regio immanis, quid barbarus amnibus ullis
Phasis et aversis proles mea gentibus obstat?
quid Minyae meruere queri? num vellere Graio
vi potitur? profugo quin agmina iungere Phrixo 520
abnuit, Inoas ultor nec venit ad aras,
imperii sed parte virum nataeque moratus
coniugio videt e Graia nunc stirpe nepotes
et generos vocat et iunctas sibi sanguine terras.
flecte ratem motusque, pater, nec vulnere nostro 525
Vindouro ao mundo, o tempo e as rotas dilatarem-se.
No entanto, o Sol, o pai dos Cítios, pela afronta
Ao filho irado, falas tais deitou do peito:
“Sumo Criador, p’ra quem meu dia, anos a fio,
Tantas vezes refaz-se e finda, é tua a vontade?
A grega nau vai por teu nuto e condução?
Posso irromper em justas queixas? Tal temendo,
Ou que a meu filho alguma tropa odiosa houvesse,
Não elegi as terras médias nem os campos
De rica plaga (os tenham Tróia fertilíssima,
Vossos Pelópidas e os Líbios): ocupamos
Campos e rios que com sevo gelo oprimes.
E ele os daria, e além iria sem honor!
Porém, acima, há a enevoada e opaca zona
Que reverbera minhas luzes! Por que a cruel
Plaga? Por que o bárbaro Fase, aos outros rios,
Ou minha prole às outras gentes incomodam?
Por que queixar-se os Mínias podem? Ganhou Eetes
À força o velo? Antes, deixou unir-se às tropas
O fugitivo; e o não levou às aras de Ino.
Porém, retendo-o co’o império e a mão da filha,
Agora os netos vê, da linhagem dos gregos
Aos quais de genros chama, e às terras de sua gente.
Muda o rumo da nau, Pai. Com nossas feridas
191
aequora pande viris; veteris sat conscia luctus
silva Padi et viso flentes genitore sorores!'
adfremit his quassatque caput qui vellera dono
Bellipotens sibi fixa videt temptataque, contra
Pallas et amborum gemuit Saturnia questus. 530
Tum genitor: 'vetera haec nobis et condita pergunt
ordine cuncta suo rerumque a principe cursu
fixa manent; neque enim terris tum sanguis in ullis
noster erat cum fata darem, iustique facultas
hinc mihi cum varios struerem per saecula reges. 535
atque ego curarum repetam decreta mearum.
iam pridem regio quae virginis aequor ad Helles
et Tanai tenus immenso descendit ab Euro
undat equis floretque viris nec tollere contra
ulla pares animos nomenque capessere bellis 540
ausa manus. sic fata locos, sic ipse fovebam.
accelerat sed summa dies Asiamque labantem
linquimus et poscunt iam me sua tempora Grai.
inde meae quercus tripodesque animaeque parentum
hanc pelago misere manum. via facta per undas 545
perque hiemes, Bellona, tibi. nec vellera tantum
indignanda manent propiorque ex virgine rapta
ille dolor, sed--nulla magis sententia menti
fixa meae--veniet Phrygia iam pastor ab Ida,
O mar não abras. Sabem bem da dor os bosques
Do Pó e, ao pai vendo, as irmãs que lamentavam”.
Brame e sacode a testa o deus belipotente
Que vê o tosão, seu dom, ameaçado. Contra
As queixas deles gemem Palas e a Satúrnia.
E o Pai: “Desígnios meus antigos, todos seguem
Em ordem; desde o início do curso das coisas,
Fixos mantêm-se; não havia inda na terra
Meu sangue, quando eu dei o Fado. Com justiça,
Assim, reis vários eu dispus por tantos séculos.
Porém, repetirei as leis de meus decretos.
Faz tempo que a região que do Euro imenso desce
Ao mar de Heles e ao Tanai é rica em potros
E varões, contra a qual nenhuma tropa ousa
Desafiar ou buscar nome pela guerra.
Os Fados e eu favorecíamos tais plagas,
Mas chega o sumo dia e deixamos a Ásia
Que cai – os gregos já reclama-me seu tempo.
A trípode, o carvalho e as almas de ancestrais
Ao mar lançaram esta tropa. É aberta a ti,
Belona, a via pelas ondas e tormentas.
Nem tanto o velo indigna, ou mais aquela dor
Pela raptada virgem, mas (sentença alguma
Me é mais firme) virá um pastor do Ida frígio
192
qui gemitus irasque pares et mutua Grais 550
dona ferat. quae classe dehinc effusa procorum
bella, quot ad Troiae flentes hiberna Mycenas,
quot proceres natosque deum, quae robora cernes
oppetere et magnis Asiam concedere fatis!
hinc Danaum de fine sedet gentesque fovebo 555
mox alias. pateant montes silvaeque lacusque
cunctaque claustra maris, spes et metus omnibus esto.
arbiter ipse locos terrenaque summa movendo
experiar, quaenam populis longissima cunctis
regna velim linquamque datas ubi certus habenas.'
tunc oculos Aegaea refert ad caerula robur
Herculeum Ledaeque tuens genus atque ita fatur:
'tendite in astra, viri: me primum regia mundo
Iapeti post bella trucis Phlegraeque labores
imposuit; durum vobis iter et grave caeli 565
institui. sic ecce meus, sic orbe peracto
Liber et expertus remeavit Apollo.'
dixit et ingenti flammantem nubila sulco
direxit per inane facem, quae puppe propinqua
in bifidum discessit iter fratresque petivit 570
Tyndareos, placida et mediis in frontibus haesit
protinus amborum lumenque innoxia fundit
purpureum, miseris olim implorabile nautis.
Que levará aos gregos ódio e iguais lamentos,
Em mútuo dom. Que guerras entre os pretendentes!
Quantos aqueus chorando vês no inverno teucro,
Dos deuses quantos filhos nobres! Quantas tropas
Movendo, e a Ásia a ceder aos grandes Fados...
Daqui se assenta o fim dos dânaos; a outros povos
Depois protegerei. Abram-se montes, selvas,
Lagos e atóis. Medo e esperança haja p’ra todos.
Movendo postos e fronteiras, como árbitro,
Escolherei mais largos reinos para os povos
E, quando certo, deixarei as dadas rédeas”.
Os olhos volta ao mar Egeu e, vendo a hercúlea
Maça e os filhos de Leda, assim diz: “Aspirai,
Heróis, aos astros. Coube a mim o primo reino
Após as lutas contra Jápeto e os trabalhos
Flegreus. Tracei p’ra vós um rude e árduo caminho
Ao céu. Assim, corrido o mundo, foi que o Líber
E o experto Apolo regressaram”. Disse e um raio
Lançou, a iluminar as nuvens com um grande
Sulco pelo ar, que se fendeu próximo à nave
E aos dois tindáridas chegou; em meio às frontes
De ambos irmãos pousou tranqüilo e, ao mesmo tempo
Espalhou-se uma luz purpúrea inofensiva
Que os pobres nautas suplicar um dia iriam.
193
Interea medio saevus permissa profundo
carbasa Pangaea Boreas speculatus ab arce 575
continuo Aeoliam Tyrrhenaque tendit ad antra
concitus. omne dei rapidis nemus ingemit alis,
strata Ceres motuque niger sub praepete pontus.
aequore Trinacrio refugique a parte Pelori
stat rupes horrenda fretis, quot in aethera surgit 580
molibus, infernas totidem demissa sub undas.
nec scopulos aut antra minor iuxta altera tellus
cernitur. illam Acamans habitat nudusque Pyracmon,
has nimbi ventique domos et naufraga servat
tempestas, hinc in terras latumque profundum 585
est iter, hinc olim soliti miscere polumque
infelixque fretum (neque enim tunc Aeolus illis
rector erat, Libya cum rumperet advena Calpen
Oceanus, cum flens Siculos Oenotria fines
perderet et mediis intrarent montibus undae), 590
intonuit donec pavidis ex aethere ventis
Omnipotens regemque dedit, quem iussa vereri
saeva cohors; vix monte chalybs iterataque muris
saxa domant Euros. cum iam cohibere frementum
ora nequit, rex tunc aditus et claustra refringit 595
ipse volens placatque data fera murmura porta.
nuntius hunc solio Boreas proturbat ab alto.
No entanto, vendo aceita a vela em meio ao mar,
Bóreas, feroz, do alto Pangeu, incontinenti,
Se lança à Eólia e às cavernas da Tirrênia.
Sob as asas do deus a mata toda geme,
Os grãos se espalham; sob o vôo, o céu negreja.
Na água trinácria, onde o Peloro foge ao longe,
Se ergue um rochedo, horrendo ao ponto: quanto eleva-se
No céu, o mesmo tanto, afunda-se nas ondas.
Junto há outra terra – rochas e antros não menores;
Habita aquela o nu Pirácmon e Acamante;
Ventos e nuvens esta, e tromba quebra-barcos;
Dali, ao mar profundo e às terras é a passagem;
Ali, outrora, o céu e o pélago encrespado
Se misturavam (Éolo ainda os não regia
Quando arrancava o Calpe à Líbia o estrangeiro
Oceano; quando a Enótria, a chorar, à Sicília
Perdera e as ondas adentraram nos rochedos),
’Té que, do céu, o Onipotente trovejou
E aos ventos pávidos deu um rei, a quem temesse
A seva coorte. Logo o ferro e um duplo muro,
No monte, o Euro prendem. Quando já não pode
Tolher os sopros, chega o rei; os claustros parte
E, por querer, cessa o murmúrio abrindo a porta.
O núncio Bóreas do alto trono o faz descer:
194
'Pangaea quod ab arce nefas,' ait, 'Aeole, vidi!
Graia novam ferro molem commenta iuventus
pergit et ingenti gaudens domat aequora velo. 600
nec mihi libertas imis freta tollere harenis
qualis eram nondum vinclis et carcere clausus.
hinc animi structaeque viris fiducia puppis,
quod Borean sub rege vident. da mergere Graios
insanamque ratem! nil me mea pignora tangunt. 605
tantum hominum compesce minas dum litora iuxta
Thessala necdum aliae viderunt carbasa terrae.'
Dixerat, at cuncti fremere intus et aequora venti
poscere. tum validam contorto turbine portam
impulit Hippotades, fundunt se carcere laeti 610
Thraces equi Zephyrusque et nocti concolor alas
nimborum cum prole Notus crinemque procellis
hispidus et multa flavus caput Eurus harena.
induxere hiemem raucoque ad litora tractu
unanimi freta curva ferunt. nec sola Tridentis 615
regna movent, vasto pariter ruit igneus aether
cum tonitru piceoque premit nox omnia caelo.
excussi manibus remi conversaque frontem
puppis in obliquum resonos latus accipit ictus,
vela super tremulum subitus volitantia malum 620
turbo rapit. qui tum Minyis trepidantibus horror
“Éolo, que horror vi do Pangeu” diz. “Jovens gregos,
Que nova máquina fizeram co’o machado,
E alegres domam, co’um veleiro imenso, as águas.
A liberdade de agitar o mar no abismo
Não tive, preso, como estava, por correntes.
Daí, a fiança dos varões no barco feito
E sua audácia, pois vêem Bóreas sob um jugo.
Dá-me afundar gregos e nau – filhos não movem-me.
Detém a ameaça enquanto é junto à orla tessália
E as outras terras ainda não viram tais velas”.
Rugiram todos ventos dentro; o mar pediam.
Com retorcido furacão, a forte porta
O Hipodate empurrou. Saem do cárcere Zéfiros
E os corcéis trácios; Noto de asas cor da noite
Co’as filhas nuvens; por tormentas desgrenhado,
O Euro de testa amarelada pela areia.
Trouxeram tempestade! À praia, com ribombos,
Juntos as vagas levam; não somente agitam
O reino do Tridente – o ígneo céu desaba
Co’um trovão. Noite, em negro céu, a tudo oprime.
Arrancam-se das mãos os remos, guina a proa;
Ressoantes baques, de través, sente o costado;
A volitante vela sobre o mastro trêmulo
O vento arranca. Horror aos Mínias, que fremiam
195
cum picei fulsere poli pavidamque coruscae
ante ratem cecidere faces antemnaque laevo
prona dehiscentem cornu cum sustulit undam.
non hiemem missosque putant consurgere ventos 625
ignari, sed tale fretum. tum murmure maesto:
'hoc erat inlicitas temerare rudentibus undas
quod nostri timuere patres. vix litore puppem
solvimus et quanto fremitu se sustulit Aegon!
hocine Cyaneae concurrunt aequore cautes 630
tristius an miseris superest mare? linquite, terrae,
spem pelagi sacrosque iterum seponite fluctus!'
haec iterant segni flentes occumbere leto.
magnanimus spectat pharetras et inutile robur
Amphitryoniades. miscent suprema paventes 635
verba alii iunguntque manus atque ora fatigant
aspectu in misero ~tota~ cum protinus alnus
solvitur et vasto puppis mare sorbet hiatu.
illam huc atque illuc nunc torquens verberat Eurus,
nunc stridens Zephyris aufert Notus. undique fervent
aequora, cum subitus trifida Neptunus in hasta
caeruleum fundo caput extulit. 'hanc mihi Pallas
et soror hanc,' inquit, 'mulcens mea pectora fletu
abstulerint; veniant Phariae Tyriaeque carinae
permissumque putent. quotiens mox rapta videbo 645
Quando na escuridão coriscos refulgiram
E caíram diante à nau. Adernando a bombordo,
Co’a verga o mastro agüenta a onda que se racha.
Ignaros pensam que a tormenta e os ventos sejam
Só erguidos pelo mar; então murmuram tristes:
“Era o que nossos pais temiam: profanarmos
Proibidas ondas co’os calabres. Ao soltarmos
Da praia a nau, com que estridor alteou-se o Egeu!
Nesta água as Ciâneas não se chocam? Vem-
nos, pobres,
Mar mais triste? Deixai no pélago a esperança,
Ó da terra, e de novo afastai-vos das ondas.”
Repetem-no, chorando em morte vil tombarem.
O Anfitrioníade vê inúteis maça e flechas.
Apavorados, uns adeus se dizem, outros
Juntam as mãos e as bocas todas se fatigam
Em mísera visão quando, a seguir, u’a prancha
Solta-se e a nave, pela brecha, sorve o mar.
Aqui e ali já o Euro açoita; se atirando,
Já ao Noto e aos Zéfiros arrasta co’estridor.
Toda água ferve quando, súbito, Netuno
Tirou do fundo a azul cabeça: “Minha irmã
E Palas”, diz, “com choro o peito me acalmando,
Vos salvam. Mas que as fárias naus e as tírias venham!
Lícito o creiam; verei logo pelos ventos
196
vela notis plenasque aliis clamoribus undas!
non meus Orion aut saevus Pliade Taurus
mortis causa novae; miseris tu gentibus, Argo,
fata paras nec iam merito tibi, Tiphy, quietum
ulla parens volet Elysium manesque piorum.' 650
haec ait et pontum pater ac turbata reponit
litora depellitque Notos, quos caerulus horror
et madido gravis unda sinu longeque secutus
imber ad Aeoliae tendunt simul aequora portae.
emicuit reserata dies caelumque resolvit 655
arcus et in summos redierunt nubila montes.
iam placidis ratis exstat aquis, quam gurgite ab imo
et Thetis et magnis Nereus socer erigit ulnis.
ergo umeros ductor sacro velatur amictu
Aesoniamque capit pateram, quam munere gaudens
liquerat hospitio pharetrasque rependerat auro
Salmoneus, nondum ille furens, cum fingeret alti
quadrifida trabe tela Iovis contraque ruenti
aut Athon aut Rhodopen maestae nemora ardua Pisae
aemulus et miseros ipse ureret Elidis agros. 665
hac pelago libat latices et talibus infit:
'di, quibus undarum tempestatisque sonorae
imperium et magno penitus par regia caelo,
tuque, fretum divosque pater sortite biformes,
Velas roubadas e ondas cheias de clamores.
Nem Órion ou o feroz Touro serão, co’as Plêiades,
Causa de nova morte. Argo, da pobre gente
A sorte aprestas; por teu mérito já, Tífis,
Não quererão as mães o Elísio e as almas pias.”
O deus sossega o ponto e a praia perturbada;
Expulsa o Noto que, a seguir, co’o horror escuro,
Co’a onda de úmidas entranhas e a borrasca,
Juntos ao mar da porta Eólia se encaminham.
Brilhou o aberto dia; o arco limpou os céus;
Nuvens voltaram para os picos das montanhas...
Já em águas calmas se alça a nave que, do abismo,
Nereu – o sogro – e Tétis erguem com seus braços.
Logo Jasão co’o sacro manto os ombros cobre;
Segura a pátera esônia que, por dom
De abrigo, alegre, Salmoneu dera, e ganhara
O áureo carcás – inda não louco (quando a arma
Fendida em quatro do alto Jove ideara ter –
Rival de quem atroa o Ródope, o Ato e o bosque
Da triste Pisa – ele queimara os campos Élidas).
Liba com vinho o mar e assim começa: “Ó deuses,
De quem é o mando das sonoras tempestades
E das ondas, que têm por casa todo o céu;
E tu, do Mar por sorte o Pai, e dos biformes,
197
seu casus nox ista fuit seu, volvitur axis 670
ut superum, sic stare~t opus~ tollique vicissim
pontus habet seu te subitae nova puppis imago
armorumque hominumque truces consurgere in iras
impulit, haec luerim satis et tua numina, rector,
iam fuerint meliora mihi. da reddere terris 675
has animas patriaeque amplecti limina portae!
tum quocumque loco meritas tibi plurimus aras
pascet honos, quantusque rotis horrendus equisque
stas, pater, atque ingens utrimque fluentia Triton
frena tenet, tantus nostras condere per urbes.' 680
dixerat haec. oritur clamor dextraeque sequentum
verba ducis. sic cum stabulis et messibus ingens
ira deum et Calabri populator Sirius arvi
incubuit, coit agrestum manus anxia priscum
in nemus et miseris dictat pia vota sacerdos. 685
ecce autem molli Zephyros descendere lapsu
aspiciunt, volat immissis cava pinus habenis
infinditque salum et spumas vomit aere tridenti;
Tiphys agit tacitique sedent ad iussa ministri,
qualiter ad summi solium Iovis omnia circum 690
prona parata deo, ventique imbresque nivesque
fulguraque et tonitrus et adhuc in fontibus amnes.
At subitus curaque ducem metus acrior omni
Se foi um acaso a noite, ou se, volvido o céu
Como ordenasse a obra divina e, em alternância,
Ergueu-se o mar; ou se a visão nova do barco
E de armas e varões surgir as iras fez,
Que expiado a culpa eu tenha, e teu nume, senhor,
Que já melhor me seja. Dá voltar às terras
Aos homens e abraçar o umbral da pátria porta.
Por toda parte, honores muitos nutrirão
Tuas justas aras; quanto em carros e cavalos
Estás terrível – e Tritão segura os freios –
Tanto é o fundar do culto teu por nossas urbes”.
Clamor se ouviu e as mãos seguiram as palavras
Do capitão: qual quando às messes e aos estábulos
Sírio, devastador dos campos da Calábria,
E a Ira dos deuses se arremessam, e os pastores
Na mata unem-se e lhes dita os votos pios
O sacerdote. Então, vêem Zéfiro descer
Em suave queda; voa a nau a rédeas soltas,
As ondas fende e espalha espuma na ênea proa.
Tífis conduz e os homens, quietos, à ordem sentam-se,
Qual, junto ao jóveo trono, as coisas são dispostas,
Prontas p’r’o deus: as tempestades, ventos, neves,
Os raios, o trovão e os rios nas nascentes.
Mas, súbito, a apreensão, o medo a tudo aspérrimo
198
mensque mali praesaga quatit, quod regis adortus
progeniem raptoque dolis crudelis Acasto 695
cetera nuda neci medioque in crimine patrem
liquerit ac nullis inopem vallaverit armis,
ipse procul nunc tuta tenens; ruat omnis in illos
quippe furor. nec vana pavet trepidatque futuris.
Saevit atrox Pelias inimicaque vertice ab alto 700
vela videt nec qua se ardens effundere possit.
nil animi, nil regna iuvant; fremit obice ponti
clausa cohors telisque salum facibusque coruscat.
haud secus, aerisona volucer cum Daedalus Ida
prosiluit iuxtaque comes brevioribus alis, 705
nube nova linquente domos Minoia frustra
infremuit manus et visu lassatur inani
omnis eques plenisque redit Gortyna pharetris.
quin etiam in thalamis primoque in limine Acasti
fusus humo iuvenis gressus et inania signa 710
ore premit sparsisque legens vestigia canis
'te quoque iam maesti forsan genitoris imago,
nate,' ait 'et luctus subeunt suspiria nostri
iamque dolos circumque trucis discrimina leti
mille vides. qua te, infelix, quibus insequar oris? 715
non Scythicas ferus ille domos nec ad ostia Ponti
tendit iter, falsae sed captum laudis amore
E agouros maus Jasão abalam: atacando
A régia prole, pelo embuste cruel do rapto
De Acasto,
os seus deixara à morte: em meio a um crime,
O fraco pai abandonara desarmado;
Enquanto, ao longe, ele ia seguro, o furor todo
Cairia neles – e ao futuro em vão não teme!
Pélias irou-se. Viu, do monte, a imiga vela,
Furioso, contra a qual não pôde se atirar.
Não lhe serviram força ou reino. A coorte freme
Pelo mar presa; a água reluz co’armas e tochas;
Qual quando, do Ida aerissonante, o alado Dédalo
Saltou com Ícaro de asas mais pequenas,
Deixando as terras com u’a nuvem nova, em vão,
A tropa grita e os cavaleiros, pelo olhar
Exaustos, com os carcases cheios à Gortina
Voltam. No umbral, o rei, e no leito de Acasto,
No chão tombado, beija os passos do rapaz –
Inanes marcas. Co’as cãs soltas, a segui-los:
“Talvez do triste pai a imagem e os suspiros
De minha dor também te alcancem, filho”, diz,
“Já vês o dolo e, em volta, as mil faces da morte.
Seguir-te-ei, infeliz, por onde? Por quais praias?
Esse feroz não ruma à Cítia, nem às portas
Do mar; porém, cativo por falsos louvores,
199
te, puer, in nostrae durus tormenta senectae
nunc lacerat. celsis an si freta puppibus essent
pervia, non ultro iuvenes classemque dedissem? 720
o domus, o freti nequiquam prole penates!'
dixit et extemplo furiis iraque minaci
terribilis: 'sunt hic etiam tua vulnera, praedo,
sunt lacrimae carusque parens!' simul aedibus altis
itque reditque fremens rerumque asperrima versat. 725
Bistonas ad meritos cum cornua saeva Thyone<us>
torsit et infelix iam mille furoribus Haemus,
iam Rhodopes nemora alta gemunt, talem incita longis
porticibus coniunxque fugit natique Lycurgum.
Tartareo tum sacra Iovi Stygiisque ferebat 730
manibus Alcimede tanto super anxia nato,
siquid ab excitis melius praenosceret umbris.
ipsum etiam curisque parem talesque prementem
corde metus ducit, facilem tamen, Aesona coniunx.
in scrobibus cruor et largus Phlegethontis operti 735
stagnat honos saevoque vocat grandaeva tumultu
Thessalis exanimes atavos magnaeque nepotem
Pleiones. et iam tenues ad carmina vultus
extulerat maestosque tuens natumque nurumque
talia libato pandebat sanguine Cretheus: 740
'mitte metus, volat ille mari, quantumque propinquat
Duro ele fere-te, em tormento à minha idade.
Se acaso fosse o mar por altas naus singrável
Eu não teria, antes, mandado frota e jovens?
Ai dos Penates sem a prole por arrimo”!
Logo, ao minaz, terrível diz, com ira e fúrias:
“Aqui, ladrão, as tuas fraquezas inda estão:
Pranto e os queridos pais!” Assim, no alto palácio,
Vai e vem bramindo, e a mais cruel das coisas pensa –
Como o Tioneu, contra os culpados trácios, chifres
Sevos lançou; e o triste Hemón com raivas mil,
E o alto Ródope lamentam; tal qual fogem
Mulher e filhos de Licurgo pelos pórticos.
Prestava, então, culto ao tartáreo Jove e aos manes
Do Estige Alcimedé, ansiosa pelo filho,
Para, nas sombras invocadas, mais prever.
A esposa leva facilmente o próprio Esón –
Par na aflição, co’o coração preso por medos.
Na cova, o sangue e a oferenda ao Fleguetonte
Oculto empoçam; com feroz tumulto, a velha
Tessália chama os avós mortos e da grande
Pleione o neto. Os tênues vultos aos encantos
Já invocara, e Creteu, olhando o filho e a nora
Tristes, libando o sangue, coisas tais mostrou:
“Não temais! Voa ele no mar. Quanto se adianta,
200
iam magis atque magis variis stupet Aea deorum
prodigiis quatiuntque truces oracula Colchos.
heu quibus ingreditur fatis, qui gentibus horror
pergit! mox Scythiae spoliis nuribusque superbus 745
adveniet--cuperem ipse graves tum rumpere terras--,
sed tibi triste nefas fraternaque turbidus arma
rex parat et saevas irarum concipit ignes.
quin rapis hinc animam et famulos citus effugis artus?
i, meus es, iam te in lucos pia turba silentum 750
secretisque ciet volitans pater Aeolus arvis.'
Horruit interea famulum clamore supremo
maesta domus, regemque fragor per moenia differt
mille ciere manus et iam dare iussa vocatis.
flagrantes aras vestemque nemusque sacerdos 755
praecipitat subitisque pavens circumspicit, Aeson
quid moveat. quam multa leo cunctatur in arta
mole virum rictuque genas et lumina pressit,
sic curae subiere ducem, ferrumne capessat
imbelle atque aevi senior gestamina primi 760
an patres regnique acuat mutabile vulgus.
contra effusa manus haerensque in pectore coniunx
'me quoque' ait 'casus comitem quicumque propinquat
accipies nec fata traham natumque videbo
te sine, sat caeli patiens, cum prima per altum 765
A Éa mais se espanta ante os prodígios vários
Dos deuses: movem, aos cruéis colcos, oráculos.
Avança com que sorte! Horror alcança os povos.
Voltará logo, com espólio cítio e noiva,
Soberbo – então, eu quererei romper as terras.
Mas, contra ti, fraterna luta e triste crime
Furioso o rei prepara e o fogo da ira acende.
Por que não roubas a alma e foges lesto ao corpo?
Vai, que és meu. Já no bosque esperam-te os silentes
E Éolo, meu pai, que nos secretos campos voa.
Tremeu, no ínterim, a infeliz casa, ao supremo
Gritar dos servos. Pelos muros rumor corre
Que o rei prepara tropas mil e já as comanda.
O ardente altar, a veste e o bosque, Alcimedé
Presto abandona e Esón, temendo, em volta espreita
O que a se turba. Qual leão que hesita em meio
À multidão e, em ricto, franze olhos e fauces,
Assi’inquietou-se Esón: tomava a imbele arma,
Velho demais, e os apetrechos juvenis
Ou agitava o lábil vulgo e os pais do reino?
Mas, estendendo as mãos, a esposa o estreita ao peito
E diz: “Ter-me-ás por companheira no infortúnio,
Qualquer que o seja; não verei destino ou o filho
Sem ti; já muito padecendo, quando a vela
201
vela dedit, potui quae tantum ferre dolorem.'
talia per lacrimas. et iam circumspicit Aeson,
praeveniat quo fine minas, quae fata capessat
digna satis; magnos obitus natumque domumque
et genus Aeolium pugnataque poscere bella. 770
est etiam ante oculos aevum rudis altera proles,
ingentes animos et fortia discere facta
quem velit atque olim leti meminisse paterni.
ergo sacra novat. veteris sub nocte cupressi
sordidus et multa pallens ferrugine taurus 775
stabat adhuc, cui caeruleae per cornua vittae
et taxi frons hirta comis; ipse aeger anhelans
impatiensque loci visaque exterritus umbra.
hunc sibi praecipuum gentis de more nefandae
Thessalis in seros Ditis servaverat usus, 780
tergeminam cum placat eram Stygiasque supremo
obsecrat igne domos, iamiam exorabile retro
carmen agens; neque enim ante leves niger avehit umbras
portitor et cunctae primis stant faucibus Orci.
illum ubi terrifici superesse in tempore sacri 785
conspexit, statuit leto supremaque fatur
ipse manu tangens damnati cornua tauri:
'vos quibus imperium Iovis et non segne peractum
lucis iter, mihi conciliis, mihi cognita bellis
Ao mar lançou-se, quanta dor já suportei”!
Falou, em lágrimas. Esón procura em torno
Que fim previna as ameaças, qual destino
Digno receba; o filho, a terra, a raça eólia
E as lutas ganhas exigiram grandes mortes.
Tem diante os olhos outro filho, em tenra idade,
Que o forte ânimo ingente e os feitos ele queira
Saber um dia e celebrar do pai a morte.
Ao sacrifício torna. À sombra de um cipreste
Antigo estava um touro, sujo de ferrugem;
Cerúleas fitas pelos chifres e, de teixos,
Cingida a fronte; inquieto, arfante e impaciente,
Mesmo a ele aterra a vista escura do lugar.
P’ra si a Tessália, por costume da nefanda
Raça, o guardara para o tardo uso de Dite.
Então, aplaca à tripla deusa e, com o supremo
Fogo, suplica à plaga estígia, já sem volta
Erguendo um canto: o atro barqueiro antes não leva
As tênues sombras, nem franqueia as portas do Orco.
Quando Esón viu chegar o touro no momento
Do sacrifício, o deu à morte e, assim, por último
Falou, co’a mão tocando os chifres do animal:
“Vós, que o poder de Jove tendes, e um operoso
Curso de vida, nos conselhos e nas guerras
202
nomina magnorum fama sacrata nepotum 790
tuque, excite parens umbris, ut nostra videres
funera et oblitos superum paterere dolores,
da placidae mihi sedis iter meque hostia vestris
conciliet praemissa locis! tu, nuntia sontum
virgo Iovi, terras oculis quae prospicis aequis, 795
ultricesque deae Fasque et grandaeva Furorum
Poena parens, meritis regis succedite tectis
et saevas inferte faces! sacer effera raptet
corda pavor nec sola mei gravia adfore nati
arma ratemque putet. classes et Pontica signa 800
atque indignatos temerato litore reges
mente agitet semperque metu decurrat ad undas
arma ciens: mors sera viam temptataque claudat
effugia et nostras nequeat praecurrere diras,
sed reduces iam iamque viros auroque coruscum 805
cernat iter. stabo insultans et ovantia contra
ora manusque feram. tum vobis siquod inausum
arcanumque nefas et adhuc incognita leti
sors superest, date fallaci pudibunda senectae
exitia indecoresque obitus! non Marte nec armis 810
aut nati precor ille mei dignatus ut umquam
ense cadat; quae fida manus, quae cara suorum
diripiat laceretque senem nec membra sepulchro
Sabidos nomes pela fama dos grãos netos;
E tu, meu pai, vindo das sombras p’ra que visses
Meu fim e as dores esquecidas padecesses,
Da paz dai-me o caminho e que a enviada vítima
Leve-me ao vosso reino. Tu, virgem, que a Jove
Os crimes contas, que vigias, c’olhos justos
A terra, e ó deusas vingadoras, Mães das Fúrias,
Pena e Lei, adentrai a merecida casa
Régia e levai as sevas tochas. Temor pio
Agarre o peito mau: não creia que serão
Só as armas de meu filho e a nau; bandeiras pônticas,
Frotas e reis irados pelo mar violado
O inquietem – sempre, pelo medo, às ondas corra,
Tropas levando: a tarda morte impeça a fuga
E que escapar não possa às minhas maldições.
Mas que os heróis veja chegando, de ouro, a trilha
A refulgir. Exultarei e, diante, as mãos
E os gritos hei de erguer. E se à trama não tentada,
Ao crime e à forma de morrer desconhecida
Sobreviveis, dai ao falaz o vergonhoso
Fim da velhice e a morte indigna. Marte ou armas
Ou de meu filho a espada nunca o matem, peço,
Posto o mereça: que as confiáveis mãos das filhas
O velho cortem, dilacerem e, a seus membros
203
contegat. haec noster de rege piacula sanguis
sumat et heu cunctae quas misit in aequora gentes!' 822
adstitit et nigro fumantia pocula tabo 815
contigit ipsa gravi Furiarum maxima dextra,
illi avide exceptum pateris hausere cruorem.
Fit fragor: inrumpunt sonitu, qui saeva ferebant
imperia et strictos iussis regalibus enses.
in media iam morte senes suffectaque leto 820
lumina et undanti revomentes veste cruorem
conspiciunt primoque rudem sub limine rerum 823
te, puer, et visa pallentem morte parentum
diripiunt adduntque tuis. procul horruit Aeson
excedens memoremque tulit sub nubibus umbram.
Cardine sub nostro rebusque abscisa supernis
Tartarei sedet aula patris. non illa ruenti
accessura polo, victam si volvere molem
* * *
ingenti placet ore Chaos, quod pondere fessam 830
materiem lapsumque queat consumere mundum.
hic geminae aeternum portae, quarum altera dura
semper lege patens populos regesque receptat,
ast aliam temptare nefas et tendere contra:
rara et sponte patet, siquando pectore ductor 835
vulnera nota gerens, galeis praefixa rotisque
Não sepultem. Do rei se vingue nosso filho
E toda gente que lançou ao oceano”!
Levantou-se a maior das Fúrias e tomou
Co’a mão a taça fumegante de atro sangue
Que, derramado, eles na pátera sorveram.
Fragor: irrompem com estrondo os que levavam,
Por mando régio, a espada em punho e a ordem feroz.
Já em meio à morte vêem os velhos co’olhos fixos,
Sangue abundante sobre as vestes vomitando;
E a ti, menino, no primeiro umbral da vida,
Co’a face pálida ante a morte dos parentes,
Matam e mandam-te co’os teus. Esón tremeu;
Levou, partindo, a rancorosa sombra às nuvens.
Sob o eixo nosso e separada dos supernos
Fica a mansão do pai tartáreo. É inacessível
Ao que cair do céu. Se volve a victa massa...
[lacuna] * * *
Co’a boca imensa, jaz o Caos, que consumir
O mundo em queda pode, e a matéria cansada
De pesar. Aqui estão do inferno as portas duas –
Por dura lei, aberta sempre, uma recebe
Povos e reis; a outra, tentar forçar é crime:
Rara e espontânea se abre apenas quando chega
Um capitão, com chaga ao peito, cuja casa
204
cui domus aut studium mortales pellere curas,
culta fides, longe metus atque ignota cupido,
seu venit in vittis castaque in veste sacerdos.
quos omnes levibus plantis et lampada quassans 840
progenies Atlantis agit. lucet via late
igne dei, donec silvas et amoena piorum
deveniant camposque, ubi sol totumque per annum
durat aprica dies thiasique chorique virorum
carminaque et quorum populis iam nulla cupido. 845
has pater in sedes aeternaque moenia natum
inducitque nurum. tum porta quanta sinistra
poena docet maneat Pelian, quot limine monstra.
mirantur tantos strepitus turbamque ruentem
et loca et infernos almae virtutis honores.
Por roda e elmo seja ornada, que aflições
Mortais afaste, a fé cultue, destemido
E indesejoso; ou um sacerdote, em castas vestes.
A todos guia o neto de Atlas, pés alados.
Brandindo u’a tocha, o rumo aclara-se ante o fogo
Do deus, até que chega à selva e aos amenos
Campos dos pios, onde o sol dura o ano todo,
O dia é claro, há danças, coros, cantos de homens
Que já não querem mais os povos. A esses sítios
No eterno muro, o pai conduz o filho e a nora.
Então, a esquerda porta mostra, que por Pélias
Com quanta pena espera, com monstros no umbral.
Tanto barulho e a multidão que cai espantam-nos,
E da virtuosa alma o lugar e as honras ínferas.
205
CANTO II
Interea scelerum luctusque ignarus Iason
alta secat. neque enim patrios cognoscere casus
Iuno sinit, mediis ardens ne flectat ab undis
ac temere in Pelian et adhuc obstantia regis
fata ruat placitosque deis ne deserat actus. 5
iamque fretis summas aequatum Pelion ornos
templaque Tisaeae mergunt obliqua Dianae,
iam Sciathos subsedit aquis, iam longa recessit
Sepias. attollit tondentes pabula Magnes
campus equos: vidisse putant Dolopeia busta 10
intrantemque Amyron curvas quaesita per oras
aequora, flumineo cuius redeuntia vento
vela legunt. remis insurgitur, inde salutant
Eurymenas. recipit velumque fretumque reversus
Auster et in nubem Minyis repe<te>ntibus altum 15
Ossa redit. metus ecce deum damnataque bello
Pallene circumque vident immania monstra
terrigenum caelo quondam adversata Gigantum,
quos scopulis trabibusque parens miserata iugisque
induit et versos exstruxit in aethera montes. 20
quisque suas in rupe minas pugnamque metusque
Jasão, no entanto, sem saber de crime ou luto,
Corta o oceano: conhecer o azar dos pais
Juno não deixa, p’ra que, ardente, em meio às ondas,
Não guine, e o Fado temerário, ao rei contrário,
Não precipite e frustre aos deuses seus desígnios.
No mar, o Pélio, co’altos olmos, já se aplaina
E, ao lado, o templo da Tisaia Diana imerge;
Já n’água o Cíato baixou-se e as Sépias foram-se.
O campo da Magnésia ergueu corcéis e pastos:
Pensam ter visto as sepulturas dolopéias
E, ao mar entrando com sinuoso curso, o Amiro
Com cujo vento as arribantes velas seguem.
Alçam-se aos remos e a Eurímena saúdam;
O Austro, voltando, recupera a vela e o ponto
E, numa nuvem, o Ossa chega, quando os Mínias
Alcançam mar. Terror dos deuses! Pela guerra
Condenado, eis Palene – em torno ao montro horrendo
Veêm os terrígenos gigantes, adversários
Antes do céu, que a aflita mãe, com pedras e árvores
Vestiu; e montes, em fileira, ergueu aos céus.
Cada um, na rocha, a luta, o medo e as ameaças
206
servat adhuc, quatit ipse hiemes et torquet ab alto
fulmina crebra pater, scopulis sed maximus illis
horror abest, Sicula pressus tellure Typhoeus.
hunc profugum et sacras revomentem pectore flammas,
ut memorant, prensum ipse comis Neptunus in altum
abstulit implicuitque vadis totiensque cruenta
mole resurgentem torquentemque anguibus undas
Sicanium dedit usque fretum cumque urbibus Aetnam
intulit ora premens. trux ille eiectat adesi 30
fundamenta iugi, pariter tunc omnis anhelat
Trinacria, iniectam fesso dum pectore molem
commovet experiens gemituque reponit inani.
Iamque Hyperionius metas maris urget Hiberi
currus et evectae prono laxantur habenae 35
aethere, cum palmas Tethys grandaeva sinusque
sustulit et rupto sonuit sacer aequore Titan.
auxerat hora metus, iam se vertentis Olympi
ut faciem raptosque simul montesque locosque
ex oculis circumque graves videre tenebras. 40
ipsa quies rerum mundique silentia terrent
astraque et effusis stellatus crinibus aether;
ac velut ignota captus regione viarum
noctivagum qui carpit iter non aure quiescit,
non oculis, noctisque metus niger auget utrimque 45
Aguarda até agora; o Pai sacode as nuvens
E do alto lança bastos raios; mas, nas penhas,
O horror maior não ‘stá: na Sícula é Tifeu!
Este, a fugir deitando do imo as lavas sacras –
Qual se conta – Netuno o ergueu pelos cabelos
E o mergulhou nas profundezas: ao surgir
A cruenta massa, revolvendo ondas co’as serpes,
Levou-o ao mar sicânio e, sob urbes pesadas,
Pô-lo no Etna. Atroz aquele, os fundamentos
Da roída rocha expele; então, toda a Trinácria
Arqueja quando tirar tenta a caída massa
Do exausto peito; mas, com inanes ais, desiste.
Já o Hiperônio carro alcança o mar da Hibéria
E, ao fim do dia, as altas rédeas se lasseiam,
Quando Tetis, a velha, alçou o seio e as mãos
E, n’água aberta, retumbou o sacro titã.
A hora aumenta o medo: quando já voltado
Viram o Olimpo e, logo, os montes e os lugares
Longe dos olhos – ao redor, só graves trevas.
O silêncio do mundo, a quietude das coisas,
O Éter e os astros cintilantes amedrontam-nos.
Qual quem se enleia em não sabidas regiões,
Um rumo incerto toma, e os olhos e os ouvidos
Não descansa – e o campo, a noite negra e as árvores
207
campus et occurrens umbris maioribus arbor,
haud aliter trepidare viri. sed pectora firmans
Hagniades 'non hanc' inquit 'sine numine pinum
derigimus nec me tantum Tritonia cursus
erudiit. saepe ipsa manu dignata carinam est. 50
an non experti, subitus cum luce fugata
horruit imbre dies? quantis, pro Iuppiter, Austris
restitimus, quanta quotiens et Pallados arte
in cassum decimae cecidit tumor arduus undae!
quin agite, o socii; micat immutabile caelum 55
puraque nec gravido surrexit Cynthia cornu
(nullus in ore rubor) certusque ad talia Titan
integer in fluctus et in uno decidit auro.
adde quod in noctem venti veloque marique
incumbunt magis et tacitis ratis ocior horis. 60
atque adeo non illa sequi mihi sidera mens stat
quae delapsa polo reficit mare. tantus Orion
iam cadit, irato iam stridet in aequore Perseus:
sed mihi dux, vetitis qui numquam conditus undis
axe nitet, Serpens, septenosque implicat ignes.' 65
sic ait et certi memorat qui vultus Olympi
Pleiones Hyadumque locos, quo sidere vibret
Ensis et Actaeus niteat qua luce Bootes.
haec ubi dicta dedit, Cereris tum munere fessas
Co’a sombra os medos lhe agigantam – os heróis
Também tremeram. Mas, firmando o peito, o Hagnida:
“Não sem um nume este navio conduzimos:
A Tritônia não só marcou-me o curso; amiúde,
Por sua mão é a nau honrada. Acaso o não
Provamos quando, à luz fugindo, o dia súbito
Tremeu co’a chuva? A quantos ventos resisitimos!
Por Jove! Quantas vezes, por artes de Palas,
Desfez-se em vão da onda décima o inchaço!
Eia, pois, sócios! Imutável, o céu reluz!
Ergueu-se pura a Cíntia, co’o arco inda não cheio –
Nenhum rubor na face. Disso o Titã certo,
Se pôs incólume nas ondas, todo em ouro.
E, pois que à noite os ventos dão-se ao mar e às velas,
Nas mudas horas mais veloz segue o navio.
Não é, contudo, intento meu seguir a estrela
Que, descida do céu, no mar refaz-se. Órion
Já desce; já Perseu ressoa na água irada.
Porém meu guia, nunca oculto em onda ilícita,
Brilha no pólo – a Serpe! – e liga os sete-estrelos.”
Lembra que o céu é fixo, a posição das Híades
E da Plêione, em qual constelação cintila
A Espada e com que luz o Boieiro rebrilha.
Tendo assim dito, então os corpos recuperam
208
restituunt vires et parco corpora Baccho. 70
mox somno cessere, regunt sua sidera puppem.
Iamque sub Eoae dubios Atlantidis ignes
albet ager motisque truces ab ovilibus ursi
tuta domosque petunt, raras et litus in altum
mittit aves, cum primus equis erexit anhelis 75
Phoebus Athon mediasque diem dispersit in undas.
certatim remis agitur mare rostraque cursu
prima tremunt et iam summis Vulcania surgit
Lemnos aquis, tibi per varios defleta labores,
Ignipotens, nec te furiis et crimine matrum 80
terra fugat meritique piget meminisse prioris.
Tempore quo primum fremitus insurgere opertos
caelicolum et regni sensit novitate tumentes
Iuppiter aetheriae nec stare silentia pacis,
Iunonem volucri primam suspendit Olympo 85
horrendum chaos ostendens poenasque barathri.
mox etiam pavidae temptantem vincula matris
solvere praerupti Vulcanum vertice caeli
devolvit. ruit ille polo noctemque diemque
turbinis in morem, Lemni dum litore tandem 90
insonuit. vox inde repens ut perculit urbem,
adclinem scopulo inveniunt miserentque foventque
alternos aegro cunctantem poplite gressus.
Suas forças com os dons de Ceres e os de Baco.
Cederam logo ao sono e os astros conduziram-nos.
Já sob a tíbia luz da aurora, o campo aclara-se;
Ursos ferozes, os redis deixando, buscam
Tocas e abrigo; a praia envia ao mar as aves
Quando, primeiro, co’os corcéis arfantes, Febo
Despertou o Atos e espargiu nas ondas luz.
Remos no mar porfiam; treme a proa ao curso;
À flor das águas a Vulcânia Lemnos surge
Por ti chorada, ó Ignipotente, pelos vários
Afãs. A terra não te afasta com seu crime –
O ódio das mães – e se envergonha de suas culpas.
Ao pressentir surgirem frêmitos ocultos
Dos deuses contra o novo reino enfurecidos
E os silêncios da paz etérea não durarem,
No Olimpo alado Jove ergueu, primeiro, Juno
Mostrando o caos horrendo e os castigos do Báratro.
Por intentar à apavorada mãe livrar
Das correntes, do céu inda atirou Vulcano.
Por noite e dia este rolou do firmamento
Em turbilhão e, enfim, reboou na lêmnia praia.
Quando o súbito grito atingiu a cidade,
Numa rocha apoiado o acharam e o ajudaram
A caminhar, ferido o joelho, os passos trôpegos.
209
hinc, reduci superas postquam pater adnuit arces,
Lemnos cara deo nec fama notior Aetne 95
aut Lipares domus. has epulas, haec templa peracta
aegide et horrifici formatis fulminis alis
laetus adit. contra Veneris stat frigida semper
ara loco, meritas postquam dea coniugis iras
horruit et tacitae Martem tenuere catenae. 100
quocirca struit illa nefas Lemnoque merenti
exitium furiale movet. neque enim alma videri
tantum: eadem tereti crinem subnectitur auro
sidereos diffusa sinus, eadem effera et ingens
et maculis suffecta genas pinumque sonantem 105
virginibus Stygiis nigramque simillima pallam.
Iamque dies aderat. Thracas qui fuderat armis
dux Lemni puppes tenui contexere canna
ausus et inducto cratem defendere tergo
laeta mari tum signa refert plenasque movebant 110
armentis nuribusque rates (et barbara vestis
et torques insigne loci). sonat aequore clamor
'o patria, o variis coniunx nunc anxia curis,
has agimus longi famulas tibi praemia belli.',
cum dea se piceo per sudum turbida nimbo 115
praecipitat Famamque vaga vestigat in umbra,
quam pater omnipotens digna atque indigna canentem
Então, ao que deixou-lhe o pai ao céu tornar,
Lemnos ao deus foi cara, e menor do Etna é a fama,
E as liparéias casas. Ledo, aos templos e aras
Desce, forjado o escudo e pronto o raio horrível.
Pelo contrário, o altar de Vênus sempre é frio,
Dês que a deusa tremeu por justa ira do esposo
E subjugaram Marte as ocultas correntes.
Ela, por isso, engendra um crime e, contra Lemnos,
Fim cruel prepara – alma nem sempre ela parece:
Por áurea fita a cabeleira tem atada,
Sidéreo seio à mostra; e ao mesmo tempo, é imensa,
Traz a face manchada, archote crepitante
E o negro manto, como as virgens do Estige.
Chegava o dia. O capitão lêmnio que à Trácia
Levara as armas e que ousara em tênue junco
Urdir navios e de couro os recobrir,
Traz pelo mar sinais alegres; naus seguiam,
Cheias de reses e mulheres – vestes bárbaras,
Jóias vernáculas. Nas águas soam brados:
“Ó Pátria, ó esposa ora ansiosa de atenções,
Trazemos servas para ti – prêmios de guerra!”
Quando, pelo ar, em nuvem negra, a turva deusa
Arroja-se e procura, em incerta sombra, a Fama –
Que o digno e o indigno canta, os medos espalhando,
210
spargentemque metus placidis regionibus arcet
aetheris. illa fremens habitat sub nubibus imis,
non Erebi, non diva poli, terrasque fatigat 120
quas datur. audentem primi spernuntque foventque
mox omnes agit et motis quatit oppida linguis.
talem diva sibi scelerisque dolique ministram
quaerit avens. videt illa prior iamque advolat ultro
impatiens iamque ora parat, iam suscitat aures. 125
hanc super incendit Venus atque his vocibus implet:
'vade age et aequoream, virgo, delabere Lemnon
et cunctas mihi verte domos, praecurrere qualis
bella soles, cum mille tubas armataque campis
agmina et innumerum flatus cum fingis equorum. 130
adfore iam luxu turpique cupidine captos
fare viros carasque toris inducere Thressas.
haec tibi principia, hinc rabidas dolor undique matres
instimulet. mox ipsa adero ducamque paratas.'
Illa abit et mediam gaudens defertur in urbem 135
et primam Eurynomen ad proxima limina Codri
occupat exesam curis castumque cubile
servantem. manet illa viro famulasque fatigat
litoribus, tardi reputant quae tempora belli
ante torum et longo mulcent insomnia penso. 140
huic dea cum lacrimis et nota veste Neaerae
E a quem do calmo empíreo o Pai potente afasta.
Ela, fremente, habita as nuvens; não é deusa
Do céu ou do Érebo, e assola as terras ganhas;
Presto, os que a escutam a rechaçam, posto o crendo:
E a todos toma e treme a vila em línguas rápidas.
Tal mensageira dos enganos busca a deusa.
Tão logo a vê, para seu lado, ávida, voa,
Prepara as falas e os ouvidos lhe desperta.
Com tais palavras, a incita e a persuade:
“Eia, vai, Virgem, debelar a equórea Lemnos,
Verte-me as casas e antecede, como sóis,
As guerras quando crias nos campos mil trombetas,
Tropas armadas e o resfolgo dos cavalos.
Dize que os homens chegarão, presos por luxo
E cupidez, para levar ao leito as trácias.
Principia, e que a dor instigue as mães raivosas.
Logo estarei presente e, as guiarei, já prontas”.
Ela parte e, contente, em meio à vila chega
E encontra Eurínome, ao portal vizinho a Codro,
Roída de aflições. Guardando casto o leito,
Pelo marido espera, e nas lãs cansa as servas
Que, ao pé da cama, contam o tempo dos combates,
E, no longo trabalho, as insônias suavizam.
Co’as vestes de Nereida, em choro diz-lhe a deusa:
211
icta genas 'utinam non hic tibi nuntius essem,
o soror, aut nostros' inquit 'prius unda dolores
obruat, in tali quoniam tibi tempore coniunx
sic meritae, votis quem tu fletuque requiris, 145
heu furit et captae indigno famulatur amore.
iamque aderunt thalamisque tuis Threissa propinquat,
non forma, non arte colus, non laude pudoris
par tibi. nec magni proles praeclara Dorycli,
picta manus usto<que> placet sed barbara mento. 150
ac tamen hos aliis forsan solabere casus
tu thalamis fatoque leges meliore penates.
me tua matris egens damnataque paelice proles
exanimat, quam iam miseros transversa tuentem
letalesque dapes infectaque pocula cerno. 155
scis simile ut flammis simus genus, adde cruentis
quod patrium saevire Dahis. iam lacte ferino,
iam veniet durata gelu. sed me quoque pulsam
fama viro nostrosque toros virgata tenebit
et plaustro derepta nurus.' sic fata querellas 160
abscidit et curis pavidam lacrimisque relinquit.
transit ad Iphinoen isdemque Amythaonis implet
Oleniique domum furiis, totam inde per urbem
personat ut cunctas agitent expellere Lemno,
ipsi urbem Thressaeque regant. dolor iraque surgit, 165
“Quem dera, irmã, não fosse eu tal mensageira
Ou que antes uma onda as dores nos ruísse,
Porquanto neste instante o homem por quem clamas
Com promessas e pranto, assim tão meritória,
Se enlouquece e ao amor vulgar de escrava serve.
Já chegarão; e de teu leito se aproxima
U’a trácia que em beleza, em virtude ou pudor
Não se compara a ti; não é prole doricla,
Mas, bárbara, seduz co’o queixo e mão marcados.
Serás, porém, talvez, noutro leito aliviada
E, com mais sorte, escolherás novos Penates.
Sem mãe, teus filhos me consternam, perseguidos
Pela mulher que de solsaio os contemplando
Já imagino; e as refeições envenenadas.
Sabes que somos como fogo; aduz que é pátrio
Os Daas detestar. Virá curtida em gelo
E no leite ferino, e alijada serei
Por meu marido, é Fama, e a noiva adornada,
Carregada do barco, ocupará meu leito”.
As queixas cessa e a deixa em pranto, apavorada.
Vai ter co’ Ifinoé, e de iras enche a casa
De Olênio e Amitaón. Grita por toda a vila
Que serão todas desterradas e que os homens
Co’as trácias reinarão. Dor e ódio se levantam;
212
obvia quaeque eadem traditque auditque neque ulli
vana fides. tum voce deos, tum questibus implent,
oscula iamque toris atque oscula postibus ipsis
ingeminant lacrimisque iterum visuque morantur.
prosiliunt nec tecta virum thalamosque revisunt 170
amplius, adglomerant sese nudisque sub astris
condensae fletus acuunt ac dira precantur
coniugia et Stygias infanda ad foedera taedas.
Has inter medias Dryopes in imagine maestae
flet Venus et saevis ardens dea planctibus instat 175
primaque: 'Sarmaticas utinam fortuna dedisset
insedisse domos tristesque habitasse pruinas,
plaustra sequi vel iam patriae vidisse per ignes
culmen agi stragemque deum. nam cetera belli
perpetimur. mene ille novis, me destinat amens 180
servitiis? urbem aut fugiens natosque relinquam?
non prius ense manus raptoque armabimus igne
dumque silent ducuntque nova cum coniuge somnos,
magnum aliquid spirabit amor?' tunc ignea torquens
lumina praecipites excussit ab ubere natos. 185
ilicet arrectae mentes evictaque matrum
corda sacer Veneris gemitus rapit. aequora cunctae
prospiciunt simulantque choros delubraque festa
fronde tegunt laetaeque viris venientibus adsunt.
A cada uma que outra encontra, o mesmo conta,
Em boa fé. Com grito e queixa aos deuses bramam!
Beijos nas camas, nos portais elas repetem.
Por entre lágrimas detêm-se e olham de novo.
Com pressa saem e não voltam mais às casas.
Sob astros nus se conglomeram, e assim juntas
O pranto incitam e praguejam contra as bodas
E contra as tochas infernais da união maldita.
Em meio àquelas chora Vênus, sob a forma
Da triste Dríope e as excita em cruéis lamentos:
“Quem dera a Sorte me deixara ter morado
Em lar sarmácio e ter vivido os tristes frios,
Ou levada num carro, o templo pátrio visto
Tomado em fogo e o fim dos deuses. Já sofremos
Outros combates! Como um louco, a que tarefas
Ele me envia? Deixarei, fugindo, os filhos?
Não armaremos com espada e tocha as mãos?
E enquanto dormem com as noivas, algo horrível
O Amor não instará?” Girando olhos ardentes,
Lançou do seio, de cabeça, ao chão os filhos!
Os ais de Vênus, exaltada, os corações
Das mães, e mentes, arrebatam. Todas juntas
Olham p’ro mar, simulam coros; com guirlandas
Os templos ornam e se alegram co’os que chegam.
213
iamque domos mensasque petunt, discumbitur altis 190
porticibus, sua cui<que> furens infestaque coniunx
adiacet, inferni qualis sub nocte barathri
accubat attonitum Phlegyan et Thesea iuxta
Tisiphone saevasque dapes et pocula libat,
tormenti genus, et nigris amplectitur hydris. 195
Ipsa Venus quassans undantem turbine pinum
adglomerat tenebras pugnaeque accincta trementem
desilit in Lemnon. nimbis et luce fragosa
prosequitur polus et tonitru pater auget honoro.
inde novam pavidas vocem furibunda per auras 200
congeminat, qua primus Athos et pontus et ingens
Thraca palus pariterque toris exhorruit omnis
mater et adstricto riguerunt ubere nati.
accelerat Pavor et Geticis Discordia demens
e stabulis atraeque genis pallentibus Irae 205
et Dolus et Rabies et Leti maior imago
visa truces exserta manus, ut prima vocatu
intonuit signumque dedit Mavortia coniunx.
Hic aliud Venus et multo magis ipsa tremendum
orsa nefas gemitus fingit vocesque cadentum 210
inrupitque domos et singultantia gestans
ora manu taboque sinus perfusa recenti
arrectasque comas: 'meritos en prima revertor
Eles procuram casa e mesa. Sob os pórticos
Se deitam. Cada um ao lado tem sua esposa
Irada e hostil, qual sob a noite do inferno,
Com o atônito Flégia e Teseu, Tisífone
Prova dos copos e das sevas iguarias;
Num tipo de tormento, abraçam-nos serpentes.
A própria Vênus, sacudindo a undosa tocha,
Pronta p’ra luta, ajunta as trevas e se arroja
Sobre Lemnos, que treme. Em nuvens e relâmpagos
O Céu a segue e co’o trovão o Pai a alteia.
Então, furiosa, novos gritos pelos ventos
Redobra e o Atos e o Oceano e da Trácia
O mar imenso, e mesmo as mães, nos leitos, tremem;
E no regaço estreito os filhos se enregelam.
A Discórdia e o Pavor dos estábulos guéticos
E a Raiva negra, em faces pálidas, se apressam,
E o Dolo, as Iras e, da Morte a grã figura
Mostrando as mãos cruéis ao primeiro chamado,
Quando a mavórcia amante ouviu-se e deu sinal.
A preparar infâmia ainda mais tremenda
Vênus imita os ais e os gritos dos que morrem;
Invade as casas: u’a cabeça estertorante
Leva na mão, de cruor recente os seios sujos
E a coma desgrenhada: “Eis-me a voltar vingada
214
ulta toros, premit ecce dies.' tum verbere victas
in thalamos agit et cunctantibus ingerit enses. 215
Unde ego tot scelerum facies, tot fata iacentum
exsequar? heu vatem monstris quibus intulit ordo,
quae se aperit series! o qui me vera canentem
sistat et hac nostras exsolvat imagine noctes!
Invadunt aditus et quondam cara suorum 220
corpora, pars ut erant dapibus vinoque soporos,
pars conferre manus etiam magnisque paratae
cum facibus quosdam insomnes et cuncta tuentes,
sed temptare fugam prohibetque capessere contra
arma metus, adeo ingentes inimica videri 225
diva dabat, notaque sonat vox coniuge maior;
tantum oculos pressere metu velut agmina cernant
Eumenidum ferrumve super Bellona coruscet.
hoc soror, hoc coniunx propiorque hoc nata parensque
saeva valet prensosque toris mactatque trahitque 230
femineum genus, immanes quos sternere Bessi
nec Geticae potuere manus aut aequoris irae.
his cruor in thalamis et anhela in pectore fumant
vulnera seque toris misero luctamine trunci
devolvunt. diras aliae ad fastigia taedas 235
iniciunt adduntque domos. pars ignibus atris
effugiunt propere, sed dura in limine coniunx
Do leito. A hora chega”! E, vencidas co’o golpe,
À cama as lança e põe a espada em mãos que tremem.
Como direi do crime as faces ou o destino
Dos moribundos? A que horror conduz-se o vate?
Que fieira se desponta! Ah, quem me ajudará
Cantando o vero e livrar-me-á da vista as noites?
Atacam os portais e os corpos antes caros:
Umas, àqueles pelo vinho adormecidos;
Outras, co’as mãos para o combate preparadas
Com grandes tochas, aos insones, que vêem tudo –
Porém o medo lhes coíbe intentar fuga
Ou pegar armas, pois que a deusa fê-las grandes
Para os maridos, e maior a voz soar-lhes.
Com medo, só os olhos tampam, qual se vissem
As Fúrias, ou Belona a espada coruscasse.
P’ra tanto, a irmã, a mãe cruel, a filha próxima,
A esposa e o gênero das fêmeas os massacram
Aos leitos presos – nem os Bessas derrotá-los,
Nem pôde a força gueta, ou as iras do mar.
Na cama, o sangue; e as feridas no arquejante
Peito fumejam; rolam corpos pelos tálamos
Em agonia. Diras tochas nos telhados
Algumas lançam; cercam casas. Uns das chamas,
Às pressas, fogem, mas à porta a dura esposa
215
obsidet et viso repetunt incendia ferro.
ast aliae Thressas labem causamque furorum
diripiunt: mixti gemitus clamorque precantum 240
barbarus ignotaeque implebant aethera voces.
Sed tibi nunc quae digna tuis ingentibus ausis
orsa feram, decus et patriae laus una ruentis,
Hypsipyle? non ulla meo te carmine dictam
abstulerint, durent Latiis modo saecula fastis 245
Iliacique lares tantique palatia regni.
inruerant actae pariter nataeque nurusque
totaque iam sparsis exarserat insula monstris;
illa pias armata manus 'fuge protinus urbem
meque, pater! non hostis,' ait 'non moenia laesi 250
Thraces habent; nostrum hoc facinus. ne quaere, quis
[auctor!
iam fuge, iam dubiae donum rape mentis et ensem
tu potius, miser, oro, tene!' tunc excipit artus
obnubitque caput tacitumque ad conscia Bacchi
templa rapit primoque manus a limine tendens 255
'exime nos sceleri, pater, et miserere piorum
rursus!' ait. tacita pavidum tunc sede locavit
sub pedibus dextraque dei. latet ille receptus
veste sacra. voces chorus et trieterica reddunt
aera sonum fixaeque fremunt in limine tigres. 260
Os impede, e à visão da espada retrocedem.
Outras às trácias despedaçam – causa e culpa
Dos furores. Clamor bárbaro e os gemidos
De suplicantes; enchem Céu as vozes soltas.
Mas que cantos trar-te-ei, de tua audácia dignos,
De uma pátria que rui, ó Hipsípila, honra e glória?
Nada te furtará a fama de meus versos
Enquanto os Fastos, pelos séculos, durarem,
E os palácios do reino e de Ílio os deuses Lares.
Filhas e noras, açuladas atacaram,
E toda a ilha ardeu, com espalhado horror.
Co’as pias mãos armadas diz: “De mim te afasta
E da cidade, ó pai! Nem trácio ou inimigo
Os muros toma; é nosso o crime, o autor não saibas!
Já foge, aceita o dom dest’alma que vacila,
E, antes, toma a espada, eu peço”. Então o abraça,
Vela-lhe a fronte e, assim, condu-lo silencioso
De Baco ao templo e, na soleira, as mãos erguendo:
“Os crimes purga, ó Pai, e tem mercê dos justos
Outra vez”. Leva, então, p’ra oculta sede o pávido,
À destra, aos pés do deus. Sob a veste sagrada,
O esconde a salvo. Os coros cantam, trietéricas
Trombetas soam, nos portais os tigres rugem.
216
regina ut roseis Auroram surgere bigis
vidit et insomni lassatas turbine tandem
conticuisse domos, stabilem quando optima facta
dant animum maiorque piis audacia coeptis,
serta patri iuvenisque comam vestesque Lyaei 265
induit et medium curru locat aeraque circum
tympanaque et plenas tacita formidine cistas.
ipsa sinus hederisque ligat famularibus artus
pampineamque quatit ventosis ictibus hastam,
respiciens teneat virides velatus habenas 270
ut pater, e nivea tumeant ut cornua mitra
et sacer ut Bacchum referat scyphus. impulit acri
tum validas stridore fores rapiturque per urbem
talia voce canens: 'linque o mihi caede madentem,
Bacche, domum! sine foedatum te funere pontus 275
expiet et referam lotos in templa dracones!'
sic medios egressa metus, facit ipse verendam
nam deus et flatu non inscia gliscit anhelo.
iamque senem tacitis saeva procul urbe remotum
occulerat silvis, ipsam sed conscius ausi 280
nocte dieque pavor fraudataque turbat Erinys.
non similes iam ferre choros (semel orgia fallunt)
audet, non paribus furiis accendere saltus,
et fuga diversas misero quaerenda per artes.
Quando a rainha viu, em rósea biga, a Aurora
Surgir, e as casas pelo esforço fatigadas
Silenciarem-se, enfim, porquanto os grandes feitos
Dão vigor e é maior a audácia na piedade,
Co’as roupas de Lieu e a cabeleira jovem
Veste o pai, e no carro o põe, entre pandeiros,
Trompas e cestos com mistérios reverentes.
Seios e braços ela cinge co’hera humilde
E brande tirsos de videira pelos ventos
Cuidando o pai tenha, escondido, as verdes fitas,
Que chifres sobressaiam pela nívea mitra,
Que a sacra taça ostente Baco. Co’estridor,
Então, empurra as grandes portas. Vai p’ra vila
Cantando assim: “Banhada em morte, minha casa,
Baco, deixa! Que o mar te lave da matança
E, ao templo, as serpes ilibadas voltarei”!
Liberta ao medo, veneranda a faz o deus
E, em o sabendo, arfante o peito, ela se ufana.
Longe da vila, em bosque oculto, o velho a salvo
Escondera; porém, noite e dia, o Pavor,
Ciente do crime, e a defraudada a Erínia acossam-na.
Não ousa os coros (só uma vez se ilude a orgia)
Conduzir, nem chegar à mata com tais fúrias,
Buscando p’r’o infeliz, por qualquer sorte a fuga.
217
visa ratis saevae defecta laboribus undae 285
quam Thetidi longinqua dies Glaucoque repostam
solibus et canis urebat luna pruinis.
huc genitorem altae per opaca silentia noctis
praecipitem silvis rapit et sic maesta profatur:
'quam, genitor, patriam, quantas modo linquis inanes 290
pube domos! pro dira lues, pro noctis acerbae
exitium! talin possum te credere puppi,
care parens? possum tantis retinere periclis?
solvimus heu serum Furiis scelus. adnue votis,
diva, soporiferas quae nunc trahis aequore bigas! 295
non populos, non dite solum, non ulla parenti
regna peto: patria liceat decedere terra.
quando ego servato mediam genitore per urbem
laeta ferar? quando hic lacrimas planctusque videbo?'
dixerat. ille procul trunca fugit anxius alno 300
Taurorumque locos delubraque saeva Dianae
advenit. hic illum tristi, dea, praeficis arae
ense dato: mora nec terris tibi longa cruentis;
iam nemus Egeriae, iam te ciet altus ab Alba
Iuppiter et soli non mitis Aricia regi. 305
Arcem nata petit, quo iam manus horrida matrum
congruerat. rauco fremitu sedere parentum
natorumque locis vacuaeque in moenibus urbis
Pelas bravias ondas roído, um barco é visto,
Que a Tétis dera um dia Glauco, exposto aos sóis
E que a lua crestava em cândidas geadas.
Ali o pai, pelo silêncio da alta noite,
Tirado ao bosque leva, e triste assim lhe diz:
“Que pátria deixas! Quantas casas sem seus moços,
Pai! Ó peste maldita, ó fim de noite acerba!
Devo eu te confiar a tal embarcação,
Querido pai, ou te reter entre os perigos?
Remimos tarde com as Fúrias nossos crimes!
Atende, deusa que conduz do sono as bigas:
Nem povo, rico solo ou qualquer reino eu peço
Para meu pai: deixa-o a pátria abandonar!
Quando por ele, pela vila, satisfeita,
Serei guiada? Quando aqui verei as lágrimas”?
Ele, p’ra longe, sobre o tronco, aflito foge
E chega à taurea terra, e ao templo de Diana,
Ali, ó deusa, lhe confias triste altar
E espada – para ti, nas terras não há tempo:
Já os bosques da Egéria e Jove do alto Alba
Te reclamam, e a Arícia imiga de um só rei!
A filha volta à praça onde a súcia de mães
Se reunira. Em rouco frêmito assumiram
Dos pais e filhos as funções; e nas muralhas
218
iura novant. donant solio sceptrisque paternis
ut meritam redeunt que piae sua praemia menti. 310
Ecce procul validis Lemnon tendentia remis
arma notant, rapitur subito regina tumultu
conciliumque vocat. non illis obvia tela
ferre nec infestos derat furor improbus ignes,
ni Veneris saevas fregisset Mulciber iras. 315
tunc etiam vates Phoebo dilecta Polyxo
(non patriam, non certa genus, sed maxima cete
Proteaque ambiguum Pharii se patris ab antris
huc rexisse vias iunctis super aequora phocis;
saepe imis se condit aquis cunctataque paulum 320
surgit ut auditas referens in gurgite voces)
'portum demus' ait ' hospita haec, credite, puppis
advenit et levior Lemno deus aequore flexit
huc Minyas. Venus ipsa volens dat tempore iungi,
dum vires utero maternaque sufficit aetas.' 325
dicta placent portatque preces ad litora Grais
Iphinoe. nec turba nocens scelerisque recentis
signa movent tollitque loco Cytherea timorem.
protinus ingentem procerum dux nomine taurum
deicit, insuetis et iam pia munera templis 330
reddit et hac prima Veneris calet ara iuvenca.
Ventum erat ad rupem, cuius pendentia nigris
Instauram novas leis. Trono e cetro do pai
Restituem à justa, em prêmio à pia mente.
Eis que chegando, ao longe, a Lemnos, a remadas,
As armas vêem. A rainha, alvoroçada,
Chama o conselho. Adversas flechas, fogo hostil,
Não lhes faltara atroz furor para lançarem-lhes,
Se à ira de Vênus o Mulcíber não partisse.
Então, Polixo, por Apolo a amada vate,
Sem pátria ou raça certa, anunciava, Tétis,
Com o ambíguo Proteu, desde as grutas de Faros,
Terdes voltado pelo mar, em peixes-boi.
Mergulha n’água algumas vezes e depois
Surge contando a voz ouvida no oceano:
“O porto abramos! Crede a nau virá qual hóspede.
O deus a Lemnos benfazejo aqui os Mínias
Pela água trouxe. A própria Vênus à união
Dá tempo enquanto resta idade e força ao ventre”.
O dito agrada, e Ifinoé o leva aos gregos.
Nem a turba funesta ou vestígios do crime
Mostram-se, e Vênus o temor dali recolhe.
De pronto, o capitão, em nome dos heróis,
Imola um touro; a oferenda ao templo envia
E o altar de Vênus a primeira rês aquece.
Chegado à rocha em cujos cimos negras pedras
219
fumant saxa iugis coquiturque vaporibus aer.
substitit Aesonides atque hic regina precari
hortatur causasque docens 'haec antra videtis 335
Vulcanique' ait 'ecce domos: date vina precesque.
forsitan hoc factum taceat iam fulmen in antro;
nox dabit ipsa fidem, clausae cum murmura flammae,
hospes, et incussae sonitum mirabere massae.'
moenia tum viresque loci veteresque parentum 340
iactat opes. mediis famulae convivia tectis
expediunt, Tyrio vibrat torus igneus ostro.
stat maerens atavos reges regesque maritos
Thressa manus, quaecumque faces timuisse iugales
credita nec dominae sanctum tetigisse cubile. 345
iam medio Aesonides, iam se regina locavit,
post alii proceres. sacris dum vincitur extis
prima fames circum pateris it Bacchus et omnis
aula silet. dapibus coeptis mox tempora fallunt
noctis et in seras durant sermonibus umbras 350
praecipueque ducis casus mirata requirit
Hypsipyle, quae fata trahant, quae regis agat vis
aut unde Haemoniae molem ratis. unius haeret
adloquio et blandos paulatim colligit ignes,
iam non dura toris Veneri nec iniqua reversae 355
et deus ipse moras spatiumque indulget amori.
Suspensas fumam, o ar se queima entre vapores,
Detém-se o esônide, e a rainha ali o exorta
A orar, as causas lhe explicando: “Vês as grutas?
Eis a casa vulcânea – o vinho e prece oferta.
Quiçá na cova, já forjado, o raio esconda-se.
Confirmá-lo-á a noite ao te espantares, hóspede,
Co’o soar da chama presa e do malhar dos ferros”!
Então, se jacta das muralhas, da pujança
E das riquezas do país. Banquete as fâmulas
Servem no paço e brilham leitos de ígnea púrpura.
Chorando os reis antepassados e os maridos
Estão as trácias, que se crê terem temido
As tochas nupciais e a alcova das senhoras.
No meio, o Esônide e a rainha se puseram,
Depois, os outros. Logo, a fome saciada
Co’as sacras carnes, segue Baco em todas taças;
Se cala a corte. Aberta a mesa, as horas fogem
E, nas conversas, se consomem pelas sombras.
Hipsípila, primeira, admirada co’os feitos,
Indaga ao capitão que sorte, ou poder régio,
Os leva, e a razão de tão grande navio.
Só a um se apega e, aos poucos, sente as doces chamas,
Não mais é avessa ao leito, ou que Vênus retorne –
E o deus concede tempo e espaço para o amor.
220
Pliada lege poli nimboso moverat astro
Iuppiter aeternum volvens opus et simul undis
cuncta ruunt unoque dei Pangaea sub ictu
Gargaraque et maesti steterant formidine luci. 360
saevior haud alio mortales tempore gentes
terror agit. tunc urget enim, tunc flagitat iras
in populos Astraea Iovem terrisque relictis
invocat adsiduo Saturnia sidera questu.
insequitur niger et magnis cum fratribus Eurus 365
intonat Aegaeo tenditque ad litora pontus.
et lunam quarto densam videt imbribus ortu
Thespiades, longus coeptis et fluctibus arcet
qui metus. usque novos divae melioris ad ignes
urbe sedent laeti Minyae viduisque vacantes 370
indulgent thalamis nimbosque educere luxu
nec iam velle vias Zephyrosque audire vocantes
dissimulant, donet resides Tirynthius heros
non tulit ipse rati invigilans atque integer urbis:
invidisse deos tantum maris aequor adortis 375
desertasque domos fraudataque tempore segni
vota patrum; quid et ipse viris cunctantibus adsit?
'o miseri quicumque tuis accessimus actis!
Phasin et Aeeten Scythicique pericula ponti
redde,' ait, 'Aesonide! me tecum solus in aequor 380
Na lei do céu movera Júpiter as Plêiades,
Astros chuvosos, a obra eterna revolvendo,
E, logo, em ondas, tudo rui, e sob um golpe
Do deus o Gárgara, o Pangeu e, em medo, os bosques
Se quedaram. Mais cruel terror não toma as gentes
Noutra estação; é então que Astréia urge e implora
A Jove as iras contra os povos e, com rogos,
Satúrnia estrela invoca às terras relegadas.
Co’os colossais irmãos, o negro Euro ataca;
Reboa o Egeu e o mar se lança contra as praias.
Pluviosa lua quatro vezes vê o Tespíade
Que de ondas e da empresa o medo enorme afasta
Até que surjam novos sóis da melhor deusa.
Na vila, alegres Mínias ficam; das viúvas
Ocupam leitos e, no luxo, querer fingem
O ir das nuvens e que Zéfiro os não chama
Até que, ileso à vila, o próprio herói Tiríntio,
Que à nau vigiava, não mais deixa os indolentes:
A abertura do mar ter tanto irado aos deuses,
Vazio lar, paternos votos violados
Em tempo de ócio: e por quê os tíbios segue?
“Míseros todos que acedemos a teus atos!
Dá-nos o Fase, os perigos do mar cítio
E Eetes, Jasão! Contigo, ao mar, tão só o amor
221
rerum traxit amor, dum spes mihi sistere montes
Cyaneos vigilemque alium spoliare draconem.
si sedet Aegaei scopulos habitare profundi,
hoc mecum Telamón peraget meus.' haec ubi dicta
haud secus Aesonides monitis accensus amaris 385
quam bellator equus, longa quem frigida pace
terra iuvat--vix in laevos piger angitur orbes--,
frena tamen dominumque velit si Martius aures
clamor et obliti rursus fragor impleat aeris.
tunc Argum Tiphynque vocat pelagoque parari 390
praecipitat. petit ingenti clamore magister
arma viros pariter sparsosque in litore remos.
Exoritur novus urbe dolor planctusque per omnes
et facies antiqua domos: sibi moenia linqui
en iterum et quando natorum tempora, gentem 395
qui recolant, qui sceptra gerant? nunc triste nefandae
noctis opus, vidui nunc illa silentia tecti
saeva magis, thalamos excussaque vincla quod ausae
induere atque iterum tales admittere curas.
ipsa quoque Hypsipyle, subitos per litora cursus 400
ut vidit totaque viros decedere Lemno,
ingemit et tali compellat Iasona questu:
'iamne placet primo deducere vela sereno,
carius o mihi patre caput? modo saeva quierunt
Aos feitos trouxe-me: a esperança de as Ciâneas
Deter e espoliar a serpe vigilante!
Mas se escolheres habitar egeus escolhos,
Comigo Telamón meus feitos cumprirá”!
Pelo acre aviso aceso, o Esônide, tal qual
Belicoso corcel que a fresca terra assiste
E, na paz, lerdo, em curtas voltas se atormenta,
Porém, que ainda anseie o freio, se o clamor
E as trombetas de Marte os ouvidos retomem-lhe.
A Tífis e Argo chama e para o mar apresta-os.
Co’ ingente brado, o timoneiro ao mesmo tempo
Varões e armas chama, e os remos espraiados.
Na vila se ergue nova dor por todas casas –
Prantos e a antiga sorte: eis outra vez os muros
Abandonados. Quando é o tempo das nascenças?
Quem cultuará a raça e empunhará o cetro?
Da noite infame, é a triste obra: o cruel silêncio
De um lar viúvo, pois que ousaram adentrar
Em leito e laços já deixados, e em angústias.
Hipsípila também, ao ver na praia o súbito
Concurso e os homens renunciando a toda Lemnos,
A Jasão repreende e geme com tais queixas:
“Já no primeiro estio, apraz-te abrir as velas,
Varão mais caro que meu pai, tão logo o mar
222
aequora. sic portus fugeret ratis, aspera si te 405
Plias in adversae tenuisset litore Thraces.
ergo moras caelo cursumque tenentibus undis
debuimus?' dixit lacrimans haesuraque caro
dona duci promit chlamydem textosque labores.
illic servati genitoris conscia sacra 410
pressit acu currusque pios: stant saeva paventum
agmina dantque locum; viridi circum horrida tela
silva tremit; mediis refugit pater anxius umbris.
pars et frondosae raptus expresserat Idae
inlustremque fugam pueri, mox aethere laetus 415
adstabat mensis, quin et Iovis armiger ipse
accipit a Phrygio iam pocula blanda ministro.
tunc ensem notumque ferens insigne Thoantis
'accipe,' ait 'bellis mediaeque ut pulvere pugnae
sim comes, Aetnaei genitor quae flammea gessit 420
dona dei, nunc digna tuis adiungier armis.
i, memor i terrae, quae vos amplexa quieto
prima sinu, refer et domitis a Colchidos oris
vela per hunc utero quem linquis Iasona nostro.'
sic ait Haemonii labens in colla mariti 425
nec minus Orphea tristis cervice tuaque,
Aeacide, et gemino coniunx a Castore pendet.
Has inter lacrimas legitur piger uncus harenis,
Furioso aquieta? A nau do porto fugiria
Assim, se em praia trácia as Plêiades prendessem-te.
Devemos, pois, ao céu a às ondas teu tardar”?
Chorando disse, e ao capitão oferta dons
Tocantes: clâmide e tecidos trabalhados.
Ali bordara a sacra cúmplice do pai
E o pio carro: a seva súcia abre passagem
Ao temeroso; ao seu redor, no verde pano,
A selva treme; e o pai se esconde em meio às sombras.
Numa parte, teceu do Idas frondoso o rapto
E a ilustre fuga do menino, que no céu
Servia, alegre, à mesa; e ainda a própria armígera
Já do frígio escanção as copas aceitava.
Diz, estendendo a espada insigne de Toante:
“Aceita, p’ra que eu seja amiga em meio às guerras:
Do deus do Etna o dom que o pai cingiu, ardente,
Agora digno de juntar-se às tuas armas.
Parte, e da terra que primeiro te abraçou
Recorda, e volta, conquistada a praia colca,
Pelo nosso Jasão, que deixas neste ventre”.
Disse, a lançar-se ao colo marido do hemônio,
E a de Orfeu, não menos triste, e a tua, eácida,
E a mulher do irmão de Cástor vos abraçam.
É içada a âncora da areia, entre as lágrimas,
223
iam remi rapuere ratem, iam flamina portant;
spumea subsequitur fugientis semita clavi. 430
tunc tenuis Lemnos transitque Electria tellus
Threiciis arcana sacris. hic numinis ingens
horror et incautis decreta piacula linguis.
hanc demissa Iovi non umquam laedere fluctu
audet hiems, sponte ipse deus tunc asperat undas 435
cum vetat infidos sua litora tangere nautas.
obvius at Minyas terris adytisque sacerdos
excipit hospitibus reserans secreta Thyotes.
hactenus in populos vati, Samothraca, diem<que>
missa mane sacrisque metum servemus opertis. 440
illi sole novo laeti plenique deorum
considunt transtris. iam quas praeviderat urbes
navita condebat proraeque accesserat Imbros
et sol aetherias medius conscenderat arces.
Thessala Dardaniis tunc primum puppis harenis 445
adpulit et fatis Sigeo litore sedit.
desiliunt, pars hinc levibus candentia velis
castra levat, tracto pars frangit adorea saxo
farra, citum strictis alius de cautibus ignem
obtendit foliis et sulphure pascit amico. 450
Alcides Telamónque comes dum litora blando
anfractu sinuosa legunt, vox accidit aures
Empuxam remos; já o barco impelem ventos
E a esteira espúmea do timão segue os que partem.
Lemnos, então, se esvai e chega a Electra terra –
Dos trácios ritos guardiã. Há ali imenso
Temor divino e incautas línguas se castigam.
Nunca a tormenta, enviada por Jove, co’a vaga
Ousa atacá-la – o deus, per si, encrespa as ondas
Quando tocar suas praias veda aos ímpios nautas.
Mas, atalhando os Mínias, nas ocultas terras
Tiotes hospeda-os, segredos ensinando-lhes.
Só pelo vate dada à luz e ao povo, adeus
Samotrácia, temor guardemos dos mistérios!
Ao novo sol, plenos dos deuses, satisfeitos
Nos tostes sentam-se. Ocultavam-se já as urbes
Que antes o nauta vira; à proa, Imbros surgira
E o sol mediano se elevara à etérea arcada.
A nau tessália, prima, então, chegou às terras
Dardânias e aportou, por Fado, no Sigeu.
Apeiam. Uns erguem co’as velas brancas tendas;
Outros, a pedra manejando, o trigo partem;
Presto, os demais cobrem de folhas a fagulha
Tirada à rocha, e co’o enxofre amigo a nutrem.
Indo, na praia, Telamón e o amigo Alcides,
Uma voz chega, numa curva, aos seus ouvidos,
224
flebile succedens cum fracta remurmurat unda.
attoniti pressere gradum vacuumque sequuntur
vocis iter. iam certa sonat desertaque durae 455
virgo neci quem non hominum superumque vocabat?
acrius hoc instare viri succurrere certi,
qualiter, implevit gemitu cum taurus acerbo
avia frangentem morsu super alta leonem
terga ferens, coit e sparso concita mapali 460
agrestum manus et caeco clamore coloni.
constitit Alcides visuque enisus in alta
rupe truces manicas defectaque virginis ora
cernit et ad primos surgentia lumina fluctus,
exanimum veluti multa tamen arte coactum 465
maeret ebur, Pariusve notas et nomina sumit
cum lapis aut liquidi referunt miranda colores.
ductor ait: 'quod, virgo, tibi nomenque genusque,
quae sors ista, doce, tendunt cur vincula palmas?'
illa tremens tristique oculos deiecta pudore 470
'non ego digna malis.' inquit. 'suprema parentum
dona vides ostro scopulos auroque frequentes.
nos Ili felix quondam genus, invida donec
Laomedonteos fugeret fortuna penates.
principio morbi caeloque exacta sereno 475
temperies, arsere rogis certantibus agri,
Flébil, qual onda que murmura no refluxo.
Detêm o andar e, pasmos, seguem do chamado
A direção. Já bem se escuta: à morte u’a virgem
Largada, a qual varão ou deus não invocava?
De pronto, os homens correm, certos de salvá-la;
Qual quando um touro, com gemido os ermos enche
A suportar no dorso o leão que o dilacera
A mordeduras, os campônios, em tumulto,
Das casas ao redor saídos, se aproximam.
O Alcides pára e, tendo a rocha já escalado,
As cruéis algemas vê, a palidez da virgem
E, nos olhos surgindo, as lágrimas primeiras,
Tal qual u’exânime marfim, posto com arte
Talhado, sofre, ou o pário mármore inscrições
Recebe, ou contam grande feito as cores límpidas.
Indaga o herói: “Que nome e raça, jovem, tens?
Que sina é essa? Por que às mãos prendem-te os elos?”
Ela, a tremer, co’os olhos baixos por pudor,
Diz: “Não mereço esta desdita; últimos dons
Vês de meus pais: rochas cobertas de ouro e púrpura.
Sou de ília raça, antes feliz até que a Sorte
Afugentou os laomedônteos Penates.
No início, foi a peste, e do sereno céu
Alijou-se a bonança, e os campos se queimaram;
225
tum subitus fragor et fluctus Idaea moventes
cum stabulis nemora. ecce repens consurgere ponto
belua, monstrum ingens. hanc tu nec montibus ullis
nec nostro metire mari. primaeva furenti 480
huic manus amplexus inter planctusque parentum
deditur. hoc sortes, hoc corniger imperat Hammon
virgineam damnare animam sortitaque Lethen
corpora. crudelis scopulis me destinat urna.
verum o iam redeunt Phrygibus si numina tuque 485
ille ades, auguriis promisse et sorte deorum,
iam cui candentes votivo in gramine pascit
cornipedes genitor, nostrae stata dona salutis,
adnue meque, precor, defectaque Pergama monstris
eripe, namque potes. neque enim tam lata videbam 490
pectora, Neptunus muros cum iungeret astris,
nec tales umeros pharetramque gerebat Apollo.'
auxerat haec locus et facies maestissima capti
litoris et tumuli caelumque quod incubat urbi,
quale laborantis Nemees iter aut Erymanthi 495
vidit et infectae miseratus flumina Lernae.
Dat procul interea signum Neptunus et una
monstriferi mugire sinus Sigeaque pestis
adglomerare fretum, cuius stellantia glauca
lumina nube tremunt atque ordine curva trisulco 500
Então, fragor, e se erguem ondas carregando
Idaias matas com seus antros. De repente,
Do ponto emerge um monstro imenso. A mar ou montes
Não o podes comparar. A seu furor donzelas
São entregues, ao choro e abraços dos parentes.
A tanto o mandam a Fortuna e Amón cornígero:
Ao Letes condenar os corpos sorteados
E virgem alma. A mim destina a urna à penha!
Porém, se aos frígios os divinos já retornam,
E és o que vem pelas promessas dos augúrios,
P’ra quem meu pai alvos cavalos apascenta
Em campo santo – dom proposto a meu resgate –
Me ajuda, eu peço, e livra Pérgamo do monstro,
Pois que o podes. Não via assim tão largo peito
Dês que Netuno ergueu os muros às estrelas,
Nem tal aljava ou ombro igual trazia Apolo.”
Corroboraram-na o rochedo, o triste aspecto
Do litoral cativo, e o céu que se deitava
Sobre a cidade, igual ao visto em Erimanto
Ou na Neméia, ou junto à lérnea água podre.
Netuno, ao longe, dá um sinal nesse entretempo;
Faz retumbar o golfo e o mar se encapelar
Co’o monstro do Sigeu, cujos faiscantes verdes
Olhos tremem na bruma. O fulmíneo estridor
226
fulmineus quatit ora fragor pelagoque remenso
cauda redit passosque sinus rapit ardua cervix.
illam incumbentem per mille volumina pontus
prosequitur lateri adsultans trepidisque ruentem
litoribus sua cogit hiems. non fluctibus aequis 505
nubiferi venit unda Noti, non Africus alto
tantus ovat patriisque manus cum plenus habenis
Orion bipedum flatu mare tollit equorum.
ecce ducem placitae furiis crudescere pugnae
surgentemque toris stupet immanemque paratu 510
Aeacides pulsentque graves ut terga pharetrae.
ille patrem pelagique deos suaque arma precatus
insiluit scopulo motumque e sedibus aequor
horruit et celsi spatiosa volumina monstri,
qualis ubi a gelidi Boreas convallibus Hebri 515
tollitur et volucres Rhipaea per ardua nubes
praecipitat. piceo nox tum tenet omnia caelo.
illa simul molem horrificam scopulosaque terga
promovet ingentique umbra subit, intremere Ide
inlidique ratis pronaeque resurgere turres. 520
occupat Alcides arcu totaque pharetrae
nube premit. non illa magis quam sede movetur
magnus Eryx, deferre velint quem vallibus imbres.
iam brevis et telo volucri non utilis aer,
Sacode a língua trissulcada. Sobre as águas
Ele ergue a cauda e guinda a nuca além das voltas;
Pelas mil curvas, a cair, o mar o segue,
Do flanco se deitando; e sua chuva arrasta
O que na praia encontra. Em ondas tais não vem
O Noto proceloso, ou no oceano o Áfrico
Tanto se agita, ou, tendo às mãos do pai as rédeas,
Órion encrespa o mar co’o sopro de hipocampos.
Espanta o Eácida o herói recrudescer
Na luta, em fúria, co’arma e músculos se erguendo,
Enquanto aos ombros lhe entrechocam flecha e aljava.
Aquele, tendo o pai, o Mar e armas chamado,
Saltou na rocha e se assustou co’a água erguida
Das profundezas. Do animal as grandes voltas,
Qual quando Bóreas sai dos vales do Hebro frio
E, pelos picos do Rifeu, as nuvens céleres
Precipita, no céu escuro a tudo tomam.
Logo ele estende o horrível dorso encarquilhado;
Com sombra enorme se alça e faz tremer o Ida,
Derruba as matas e ergue as torres decaídas.
Hércules o arco empunha e, em nuvem, lança setas,
Porém ao monstro não arreda mais que ao Érice,
Caso as borrascas desejassem arrastá-lo.
Já curto e inútil é para a alada flecha o espaço;
227
tum vero fremitus vanique insania coepti 525
et tacitus pudor et rursus pallescere virgo.
proicit arma manu, scopulos vicinaque saxa
respicit et quantum ventis adiuta vetustas
impulerat po[te]ntive fragor, tantum abscidit imi
concutiens a sede maris. iamque agmine toto 530
pistris adest miseraeque inhiat iam proxima praedae.
stat mediis elatus aquis recipitque ruentem
Alcides saxoque prior surgentia colla
obruit. hinc vastos nodosi roboris ictus
congeminat. fluctus defertur bellua in imos 535
iam totis resoluta vadis. Idaeaque mater
et chorus et summis ulularunt collibus Amnes.
protinus e scopulis et opaca valle resurgunt
pastores magnisque petunt clamoribus urbem.
nuntius hinc socios Telamón vocat ac simul ipsi 540
horrescunt subitoque vident in sanguine puppem.
nec minus in scopulos crudique cacumina saxi
emicat Alcides vinclisque tenentibus aufert
virgineas de rupe manus aptatque superbis
arma umeris. regem inde petens superabat ovanti 545
litora tuta gradu, qualis per pascua victor
ingreditur, tum colla tumens, tum celsior armis
taurus, ubi adsueti pecoris stabula alta revisit
Há, então, tremor e o desatino da aventura,
Pudor silente e a virgem pálida outra vez.
Solta as armas da mão e examina os rochedos:
O quanto o tempo, pelos ventos ajudado,
Cortou, e a força d’água, o mesmo, sacudindo,
Desarreiga do mar. Com toda força, o monstro
Chega e escancara a boca junto à triste presa.
Em meio às águas, fica o Alcides; vê, altivo,
A fera vir e com a rocha esmaga o dorso
Que se eleva. Co’a maça, os vigorosos golpes
Então redobra, e vai-se o bicho em meio às ondas,
Estirado no vau. No Ida, as coribantes,
A mãe e os rios, nas cimeiras, ulularam.
Presto, ressurgem, das montanhas, das planícies,
E a vila buscam, com clamor grande, os pastores.
Telamón chama os companheiros, que horrorizam-se
Ao verem, súbito, o navio imerso em sangue.
Sobre o rochedo, sobre a penha ensangüentada,
O Alcides salta e rompe os elos que sujeitam
As mãos da virgem. Sobre os ombros prodigiosos
Armas ajusta. Ao rei buscando, triunfante,
Deixava a praia em segurança, qual no pasto,
Brioso, o touro anda, erguendo ora a cerviz
Ora a garupa, ao ver de novo o amplo redil,
228
et patrium nemus et bello quos ultus amores.
Obvia cui contra longis emissa tenebris 550
turba Phrygum parvumque trahens cum coniuge natum
Laomedon. iam maestus equos, iam debita posci
dona gemit. pars aerii fastigia muri
cingit et ignotis iuvenem miratur in armis.
illum torva tuens atque acri lubricus astu 555
rex subit et patrio fatur male laetus amore.
'maxime Graiugenum, quem non Sigea petentem
litora nec nostrae miserantem funera Troiae
adpulit his Fors ipsa locis, si vera parentem
fama Iovem summique tibi genus esse Tonantis, 560
noster ades iunctisque venis. sator unus et idem
stirpis honos, quamquam longis disiungimur oris.
quot mihi post lacrimas, post quanta piacula patrum
serus ades, quam parva tuis iam gloria factis!
verum age nunc socios fraternis moenibus infer, 565
ut tibi, servata statui quae munera prole, 565a
crastina lux biiuges stabulis ostendat apertis.'
dixerat haec tacitusque dolos dirumque volutat
corde nefas, clausum ut thalamis somnoque gravatum
immolet ereptaque luat responsa pharetra.
namque bis Herculeis deberi Pergama telis 570
audierat. Priami sed quis iam vertere regnis
Os bosques pátrios e os amores já vingados.
Da longa treva emissa, a turba frígia o atalha,
E Laomedonte, co’a mulher, trazendo o filho;
Este lamenta que reclamem seus cavalos,
E os dons devidos. Uns dos frígios a cumeeira
Dos muros cingem e maravilham-se co’o herói.
Lúbrico, o rei, co’acre malícia, olhando torto,
No amor de pai contente apenas, chega e diz:
“Maior dos gregos, não buscando a orla sigéia,
Ou por piedade da desgraça dos troianos,
Trouxe-te o Acaso; se é verdade seres prole
De Jove, raça do altíssimo Tonante,
Te ajunta a nós. O mesmo pai e igual orgulho
Da estirpe temos, posto praias nos separem.
Pós quanto choro meu e expiação dos pais,
Tardo vens – quão menor é a glória de teus feitos!
Mas, eia, traz teus companheiros para os muros,
P’ra que os corcéis - que ofereci por salva a filha -
Tos mostre a luz vindoura, aberta a estrebaria.
Disse, e maquina oculta fraude e infame crime
No coração: que ao leito preso, entregue ao sono,
Roubada a aljava, o mate e afaste a predição –
Por flecha hercúlea, ouvira, Pérgamo cairia
Duas vezes. Mas verter do priâmeo reino o fado,
229
fata queat? manet immotis nox duria lustris
et genus Aeneadum et Troiae melioris honores.
'nos' ait 'ad Scythici' Tirynthius 'ostia ponti
raptat iter. mox huc vestras revehemur ad oras 575
donaque dicta feram.' tum vero plura vocatis
adnuit ille deis. promissa infida tyranni
iam Phryges et miserae flebant discrimina Troiae.
Panditur hinc totis in noctem carbasus alis
litoraque et veteris tumulos praelabitur Ili 580
Dardaniumque patrem: vigili simul omnia ludo
festa vident. hinc unda, sacris hic ignibus Ide
vibrat et horrisonae respondent Gargara buxo.
inde ubi iam medii tenuere silentia ponti
stridentesque iuvant aurae, Phrixea subibant 585
aequora et angustas quondam sine nomine fauces.
ecce autem prima volucrem sub luce dehiscens
terruit unda ratem vittataque constitit Helle,
iam Panopes Thetidisque soror iamque aurea laeva
sceptra tenens, dum sternit aquas proceresque ducemque
aspicit et placidis compellat Iasona dictis:
'te quoque ab Haemoniae ignota per aequora terris
regna infesta domus fatisque simillima nostris
fata ferunt. iterum Aeolios fortuna nepotes
spargit et infelix Scythicum gens quaeritis amnem. 595
Quem poderia? A noite dória, a gente Eneida,
E as glórias de uma Tróia inda melhor persistem.
Diz o Tiríntio: “A expedição nos leva ao mar
Da Cítia; logo, a vossas terras voltarei
E os prometidos dons terei”. Anuiu o rei
Com jura aos deuses - a perfídia do tirano
E as desgraças de Tróia os frígios lamentaram.
Na noite, então, a todo vento, as velas abrem-se;
Deixam a praia, a tumba de Ílio e o pai dardânio
Enquanto vêem tudo em festa, em brinco insone.
A onda e o Ida, com os sagrados fogos brilham
E ecoa o Gárgara horríssono com a flauta.
Quando alcançaram já os silêncios do alto mar
E os soantes ventos ajudaram, adentraram
O mar de Frixo e a fauce estreita antes sem nome.
Mas eis que, à prima luz, quebrando, u’a onda fez
Tremer a nau e mostrou Heles com suas ínfulas,
Já irmã de Tétis e Panope, já a empunhar
O cetro de ouro. Enquanto amaina as águas, ela
Vê o capitão e, com palavras doces, diz-lhe:
“Também te levam, desde a Hemônia, em mar estranho,
A reino hostil, a casa e o Fado iguais aos meus.
A Fortuna, de novo, espalha os filhos de Éolo;
E tu, raça infeliz, o cítio rio buscas.
230
vasta super tellus, longum (ne defice coeptis!)
aequor et ipse procul, verum dabit ostia, Phasis.
hic nemus arcanum geminaeque virentibus arae
stant tumulis, hic prima pia sollemnia Phrixo
ferte manu cinerique, precor, mea reddite dicta: 600
"non ego per Stygiae, quod rere, silentia ripae,
frater, agor. frustra vacui scrutaris Averni,
care, vias neque enim scopulis me et fluctibus actam
frangit hiems. celeri extemplo subiere ruentem
Cymothoe Glaucusque manu. pater ipse profundi 605
has etiam sedes, haec numine tradidit aequo
regna nec Inois noster sinus invidet undis."'
dixerat et maestos tranquilla sub aequora vultus
cum gemitu tulit, ut patrii rediere dolores.
tum pelago vina invergens dux talibus infit: 610
'undarum decus et gentis, Cretheia virgo,
pande viam cursuque tuos age, diva, secundo!'
immittitque ratem mediasque intervolat urbes
qua brevibus furit aestus aquis Asiamque prementem
effugit abruptis Europa immanior oris. 615
has etiam terras consertaque gentibus arva
sic pelago pulsante, reor, Neptunia quondam
cuspis et adversi longus labor abscidit aevi
ut Siculum Libycumque latus, stupuitque fragore
Há a vasta terra, um longo mar (não largue a empresa!)
E, longe, o Fase – mas que a ti dará entrada.
Há ali um bosque oculto e altares gêmeos sobre
Os verdes montes: cumpre lá os primos ritos
A Frixo e às cinzas, peço, os meus ditos transmite:
‘Pelo silêncio, irmão, do Estige, qual tu crês,
Não erro. Em vão, querido, buscas os caminhos
Do inane Averno. Nem, lançada a rocha ou vagas,
Me acossa o temporal. Ao cair, presto, Glauco
E Cimotoé me ergueram. Deu-me o próprio Pai
Das profundezas, por bondade, casa e reino;
E nosso golfo em nada inveja o mar ináquio’ ”.
Disse e imergiu na água tranqüila o triste rosto
Com um gemido, ao recordar a dor dos pais.
O capitão, libando o mar com vinho, disse:
“Virgem cretéia, honra das ondas e da raça,
Abre o caminho e leva os teus em bom percurso!”
Comanda a nau, que entre as cidades vai ligeira
Por onde o raso mar se encrespa. Foge a Europa –
Com escarpas mais feroz – da Ásia, que a persegue.
Essas terras também e os campos povoados,
Com o mar bravio, outrora, eu creio, o separaram
A lança de Netuno e o trabalho do tempo,
Como a Sicília e a Líbia; e ao fragor espantaram-se
231
Ianus et occiduis regnator montibus Atlans. 620
iam iuga Percotes Pariumque infame fragosis
exsuperant Pityamque vadis transmissaque puppi
Lampsacus, Ogygii quam nec trieterica Bacchi
sacra neque arcanis Phrygius furor invehit antris,
sed suus in Venerem raptat deus. illius aras 625
urbe super celsique vident velamina templi.
Rarior hinc tellus atque ingens undique caelum
rursus et inci terra sinu medio Pontum iacet inter et
[Helles
ceu fundo prolata maris. namque improba caecis 630
intulit arva vadis longoque sub aequora dorso
litus agit, tenet hinc veterem confinibus oris
pars Phrygiam, pars discreti iuga pinea montis.
nec procul ad tenuis surgit confinia ponti
urbs placidis demissa iugis. rex divitis agri 635
Cyzicus. Haemoniae qui tum nova signa carinae
ut videt, ipse ultro primas procurrit ad undas
miraturque viros dextramque amplexus et haerens
incipit: 'o terris nunc primum cognita nostris
Emathiae manus et fama mihi maior imago, 640
non tamen haec adeo semota neque ardua tellus
~longaque~ iam populis impervia lucis eoae,
cum tales intrasse duces, tot robora cerno.
Jano e Atlas, senhor dos montes do ocidentes.
Deixam o Percote, o Pário infame pelo estrondo
E os baixios da Pítia; a nau passa por Lâmpsaco
Que não celebra as trietéricas deBaco
Nem o frígio furor nas cavernas recônditas;
Porém seu deus condu-la a Vênus. Sobre a vila
Vêem-se os altares e as insígnias de seu templo.
Daí, mais rara é a terra e o céu de novo é imenso
A desfraldar nova visão no horizonte.
Entre o Ponto e Heles jaz, em meio ao golfo, u’a terra
Qual se do mar içada. Imenso campo emerge
Do cego abismo: por sob a água, em longa areia
A praia chega – tem, de um lado, nos confins,
A velha Frígia; de outro, os pinhos da montanha.
Surge, não longe, à beira mar, singela vila,
Em montes plácidos talhada. O rei dos campos
É Cízico, que ao ver da nau hemônia as flâmulas
Desconhecidas, adentrou as primas ondas.
Com os homens se admira. O peito e a destra unindo,
Diz: “Tropa emácia, só agora conhecida
Em nossas terras, tua aparência é mor que a fama!
Não mais difícies ou distantes são tais plagas,
Já desbravadas pelas gentes do ocidente,
232
nam licet hinc saevas tellus alat horrida gentes
meque fremens tumido circumfluat ore Propontis, 645
vestra fides ritus<que> pares et mitia cultu
his etiam mihi corda locis. procul effera virtus
Bebrycis et Scythici procul inclementia sacri.'
sic memorat laetosque rapit, simul hospita pandi
tecta iubet templisque sacros largitur honores. 650
stant gemmis auroque tori mensaeque paratu
regifico centumque pares primaeva ministri
corpora; pars epulas manibus, pars aurea gestant
pocula bellorum casus expressa recentum.
atque ea prima duci porgens carchesia Graio 655
Cyzicus 'hic portus' inquit 'mihi territat hostis,
has acies sub nocte refert, haec versa Pelasgum
terga vides, meus hic ratibus qui pascitur ignis.'
subicit Aesonides: 'utinam nunc ira Pelasgos
adferat et solitis temptet concurrere furtis 660
cunctaque se ratibus fundat manus. arma videbis
hospita nec post hanc ultra tibi proelia noctem.'
sic ait hasque inter variis nox plurima dictis
rapta vices nec non simili lux postera tractu.
piens alium prospectus in orbem.
Desde que vejo capitães terem chegado!
Posto, ao-de-lá, o solo nutra sevos povos
E a boca irada do Proponte me circunde,
O vosso rito, a fé e os corações domados
Por culto à terra se assemelham inda aos meus.
Longe é a força bebrícia e a inclemência dos Citas!”
Assim relembra e os leva, alegres, ao que ordena
Abrir-se o paço e aos templos honras se ofertarem –
Leitos e mesas de ouro e gemas, real serviço,
Cem pares de escanções de corpos juvenis:
Nas mãos uns levam iguarias, outros áureas
Taças lavradas co’os recentes feitos bélicos.
Oferecendo a prima copa ao grego chefe:
“Meu inimigo”, diz, “aqui o porto acossa;
Traz, sob a noite, estes combates. Estes dorsos,
Vês dos pelasgos – meu é o fogo que arde as barcas”.
Responde o Esônide: “Oxalá as Iras movam
Ora os pelasgos, que atacar de furto tentem,
E toda gente em naus se embarque – hóspedes armas
Verás – e luta mais nenhuma após a noite”.
A madrugada vai levada entre as conversas
De vários ditos; e o outro dia, ao mesmo modo.
233
CANTO III
Tertia iam gelidas Tithonia solverat umbras
exueratque polum. Tiphyn placida alta vocabant.
it tectis Argoa manus, simul urbe profusi
Aenidae caris socium digressibus haerent.
dant Cererem lectumque pecus nec palmite Bacchum 5
Bithyno Phrygiove satum, sed quem sua noto
colle per angustae Lesbos freta suggerit Helles.
ipse agit Aesonidae iunctos ad litora gressus
Cyzicus abscessu lacrimans onerat superbis
muneribus, primas coniunx Percosia vestes 25
quas dabat et picto Clite variaverat auro, 10
tum galeam et patriae telum insuperabile dextrae
addidit. ipse ducis pateras et Thessala contra
frena capit manibusque datis iunxere penates.
Tu mihi nunc causas infandaque proelia, Clio,
pande virum! tibi enim superum data, virgo, facultas
nosse animos rerumque vias. cur talia passus
arma, quid hospitiis iunctas concurrere dextras
Iuppiter? unde tubae nocturnaque movit Erinys?
Dindyma sanguineis famulum bacchata lacertis
dum volucri quatit asper equo silvasque fatigat 20
Cyzicus, ingenti praedae deceptus amore
Terça Titônia já solvera as sombras frias
E abrira o céu. O calmo mar convoca Tífis.
Do paço vão-se os Argonautas; os Enidas
Fora da vila logo assistem à partida.
Dão trigo, gado escol e Baco – não o bitínio
Ou o frígio nato, mas aquele que dá Lesbos
Em sua colina junto ao mar do estreito de Heles.
À praia Cízico conduz o andar do Esônide
Chorando a ida, e com soberbos dons cumula-o:
As primas vestes que a percósia esposa Clito
Pintara a ouro e lhe ofertara, mais um elmo
E da paterna mão a arma insuperável.
Taças e os freios da Tessália ganha em troca
E, co’o aperto das mãos, uniram-se os Penates.
Mostra-me, Clio, agora as causas e os combates!
Foi dada a ti a faculdade pelos deuses
De conhecer as intenções e o vir das coisas.
Por que consente Jove à luta, ou contenderem
Amigas mãos? P’ra onde a Erínia leva a noite?
Quando inquietou, na orgia, o servo ensangüentado,
Cruzando as selvas encrespado pela monta,
Logrado pelo imenso amor à caça, Cízico
234
adsuetum Phrygias dominam vectare per urbes
oppressit iaculo redeuntem ad frena leonem.
et tunc ille iubas captivaque postibus ora
imposuit, spolium infelix divaeque pudendum.
quae postquam Haemoniam tantae non immemor irae
aerisono de monte ratem praefixaque regum
scuta videt, nova monstra viro, nova funera volvit,
ut socias in nocte manus utque impia bella 30
conserat et saevis erroribus implicet urbem.
Nox erat et leni canebant aequora sulco
et iam prona leves spargebant sidera somnos.
aura vehit, religant tonsas veloque Procneson
et te iam medio flaventem, Rhyndace, ponto 35
spumosumque legunt fracta Scylaceon ab unda.
ipse diem longe solisque cubilia Tiphys
consulit, ipse ratem vento stellisque ministrat.
atque illum non ante sopor luctamine tanto
lenit agens divum imperiis. cadit inscia clavo 40
dextera demittitque oculos solataque puppis
turbine flectit iter portuque refertur amico.
Ut notis adlapsa vadis, dant aethere longo
signa tubae vox et mediis emissa tenebris:
'hostis habet portus, soliti rediere Pelasgi!' 45
rupta quies, deus ancipitem lymphaverat urbem
Matou co’a lança o leão que, sempre guiado a freios,
Às vilas frigias conduzia sua senhora.
Apôs, então, a juba e o crânio nos postigos –
Espólio desgraçado e vergonha da deusa
Que, se lembrando de tanta ira, vê do monte
A nau hemônia co’os broquéis de reis munidas.
Ao homem volve morte inédita e outros males,
P’ra que, de noite, lance em luta amigas tropas
E enrede a vila com nefastos desatinos.
O mar, no breu, em fina esteira esbranquiçava-se
E já as estrelas espalhavam leves sonos.
A brisa leva. Atam-se os remos e ultrapassam
O Proconeso e, já no mar, o flavo Ríndaco,
E o espumoso Silaceu, que as ondas quebra.
Tífis o dia, longamente, e o arrebol
Consulta e a nau confia ao vento e às estrelas.
Porém, trazido pelos deuses, seda-o Sono
Nunca antes tão pesado. Inconsciente, a mão tomba
Do leme e os olhos cerra. Amainados os ventos,
A nau flete seu rumo e volta ao porto amigo.
Quando no vau, levada, chega, um longo toque
As trompas sopram; voz se lança em meio às trevas:
“O imigo chega ao porto! Os pelasgos voltaram!”
Rompida a paz, um deus à vila enlouquecera:
235
Mygdoniae Pan iussa ferens saevissima Matris,
Pan nemorum belli<que> potens, quem lucis ab horis
antra tenent, patet ad medias per devia noctes
saetigerum latus et torvae coma sibila frontis. 50
vox omnes super una tubas, qua conus et enses,
qua trepidis auriga rotis nocturnaque muris
claustra cadunt. talesque metus non Martia cassis
Eumenidumque comae, non tristis ab aethere Gorgo
sparserit aut tantis aciem raptaverit umbris. 55
ludus et ille deo, pavidum praesepibus aufert
cum pecus et profugi sternunt dumeta iuvenci.
Ilicet ad regem clamor ruit. exsilit [ab] altis
somnia dira toris simulacraque pallida linquens
Cyzicus. ecce super foribus Bellona reclusis 60
nuda latus passuque movens orichalca sonoro
adstitit et triplici pulsans fastigia crista
inde ciere virum. sequitur per moenia demens
ille deam et fatis extrema in proelia tendit,
qualis in Alciden et Thesea Rhoecus iniqui 65
nube meri geminam Pholoen maioraque cernens
astra ruit qualisve redit venatibus actis
lustra pater Triviamque canens umeroque Learchum
advehit, at miserae declinant lumina Thebae.
iamque adeo nec porta ducem nec pone moratur 70
Da mãe migdônia as cruéis ordens leva Pã –
Senhor dos bosques e da guerra, a quem da luz
Os antros guardam, e que de noite exibe o torso
Peludo, e a coma sibilante à fronte horrível.
Um brado seu, além das tubas, e os elmos caem,
As espadas, o auriga e os ferrolhos noturnos
Dos muros. Medo assim, nem o elmo mavórcio,
A cabeleira das Eumênides ou Górgona
Espalhariam, ou exércitos de sombras.
Do deus é o jogo: quando tira dos currais
Medroso gado e, em fuga, as reses sarça esmagam.
O clamor logo alcança o rei. Inquieto sono
Cízico deixa, abandonando espectros pálidos.
Eis que sobre os portais, com o flanco nu, Belona,
Movendo os bronzes no ruidoso caminhar,
Se posta, a balouçar, co’a a crista em tripla ponta,
Para acordá-lo. Insano, a segue pelos muros
E se encaminha, por destino, à luta extrema.
Como o ébrio Reco, o Fóloe vendo geminado
E largos astros, contra o Alcides e Teseu
Se atira, ou como o pai que, finda a caça, volta
Cantando à Trívia pela mata e traz no ombro
Learco, enquanto a pobre Tebas baixa os olhos.
Nem os portões ao rei seguram, nem a guarda
236
excubias sortita manus, quae prima furenti
advolat. hinc alii subeunt, ut proxima quaeque
intremuit domus et motus accepit inanes.
At Minyas anceps fixit pavor. aegra virorum
corda labant nec quae regio aut discrimina cernunt, 75
cur galeae clipeique micent, num pervigil armis,
[hostis, et exciti dent, praelia colchi]
donec et hasta volans immani turbine transtris 78
insonuit monuitque ratem rapere obvia caeca
arma manu. princeps galeam constringit Iason
vociferans: 'primam hanc nati, pater, accipe pugnam
vosque, viri, optatos huc adfore credite Colchos.'
Bistonas in medios ceu Martius exsilit astris
currus, ubi ingentes animae clamorque tubaeque
sanguineae iuvere deum, non segnius ille 85
occupat arva furens; sequitur vis omnis Achivum.
adglomerant latera et densis thoracibus horrens
stat manus, aegisono quam nec fera pectore virgo
dispulerit nec dextra Iovis Terrorque Pavorque,
Martis equi. sic contextis umbonibus urgent 90
caeruleo veluti cum Iuppiter agmine nubem
constituit. certant Zephyri frustraque rigentem
pulsat utrimque Notus. pendent mortalia longo
corda metu, quibus illa fretis, quibus incidat arvis.
Que, ao primo ataque, segue atrás do enfurecido.
Outros surgem, então, pois toda casa próxima
Estremeceu-se, e a confusão tomou os ermos.
Pavor incerto aos Mínias trava. O coração
Aflito hesita, e não distingue reino ou crime;
Ou por que fulge escudo ou elmo, ou se é inimiga
A tropa armada, se dão luta os bravos colcos.
Até que u’a lança, voando em giro, soou no toste
E a tomar armas compeliu os tripulantes
À mão-cega. Jasão ajusta a gálea; e aos brados:
“Aceita, pai, a prima luta de teu filho;
E vós, varões, crede que aqui os colcos cheguem”.
Qual márcio carro entre os bistões dos astros lança-se,
Quando o clamor, ingentes ânimos, e as tubas
Sanguinárias ao deus convocam; não mais lento,
Furioso ocupa o campo: o segue a força aquéia.
Cerram fileiras e se posta a tropa horrenda
Encouraçada, a quem nem mesmo a fera Virgem,
A mão de Jove, o Medo ou os corcéis de Marte
Romperiam. Assim, escudo a escudo enfrenta
Qual quando Jove, em monte azul, empilha as nuvens,
Peleja o Zéfiro e, debalde, o Noto empurra-as
De um lado e de outro e, em grande medo, os corações
Incertos ficam de em qual mar ou campo caiam.
237
Hinc manus infelix clamore impellere magno 95
saxa facesque atras et tortae pondera fundae.
fert sonitus immota phalanx irasque retentant,
congeries dum prima fluat. stellantia Mopsus
tegmina et ingentem Corythi notat Eurytus umbram.
restitit ille gradu seseque a lumine ferri 100
sustinuit praeceps, subitum ceu pastor ad amnem
spumantem nimbis fluctuque arbusta ruentem.
at Tydeus 'en intentis quem viribus' inquit
'opperiar manibusque dari quem comminus optem.
quo steteris moriere loco!' subit ilia cuspis 105
Olenii, dedit ille sonum compressaque mandens
aequora purpuream singultibus expulit hastam.
ac velut in medio rupes latet horrida ponto,
quam super ignari numquam rexere magistri
praecipites impune rates, sic agmine caeco 110
incurrit strictis manus ensibus. occubat Iron
et Cotys et Pyrno melior genitore Bienor.
At magis interea diverso turbida motu
urbs agitur. Genyso coniunx amoverat arma;
ast illi subitus ventis vivoque reluxit 115
torre focus: telis gaudes, miserande, repertis.
linquit et undantes mensas infectaque pernox
sacra Medon; chlamys imbelli circumvenit ostro
A infeliz coorte, com fragor, jogava pedras,
Negras trochas, calhaus das retorcidas fundas.
Quieta, a falange o som suporta e iras retém
Enquanto passa o primo ataque. Mopso vê
Brilhantes cotas. De Corítio a sombra Eurito
Notou – deteve o passo e, à luz do ferro, rápido,
Retrocedeu, como um pastor em frente ao rio
Que, caudaloso pelas chuvas, rui arbustos.
E diz Tideu: “A quem espero com ardor,
E que escolhi para de perto as mãos justar,
Onde estiveres, serás morto!” À ilharga atinge
A lança olênia; aquele urrou, mordendo a areia
E, em convulsões, a ensanguentada haste arrancou.
Como ao recife, que se oculta em meio ao mar,
Por sobre o qual nunca o piloto impunemente
Desavisado atira o barco, assim a tropa,
Em cega chusma armada com espada arroja-se.
Cai Bienor – melhor que Pirno – , Iro e Cótis.
Nesse entretempo, mais se agita a vila túrbida.
A mulher de Geniso as armas lhe escondera,
Mas, de súbito, o Lar, com viva brasa e ventos,
Reluz: te alegras com as armas reveladas.
A farta mesa larga Médon e, incompletos
Os sacrifícios. De ostro, u’a clâmide enrolada
238
torta manum strictoque vias praefulgurat ense.
talis in arma ruit nec vina dapesque remota 120
statque loco torus inque omen mansere ministri.
inde vagi nec tela modis nec casibus isdem
conseruere manu et longe iacuere perempti.
Ecce gravem nodis pinguique bitumine quassans
lampada turbata Phlegyas decurrit ab urbe. 125
ille leves de more manus aciemque Pelasgum
per noctem remeasse ratus pulsumque requirens
saepe sibi vano Thamyrum clamore petebat
arduus et late fumanti nube coruscus.
quantus ubi immenso prospexit ab aethere Typhon 130
igne simul ventisque rubens, quem Iuppiter alte
crine tenet. trepidant diro sub lumine puppes.
tollitur hinc totusque ruit Tirynthius acri
pectore, certa regens adversa spicula flamma.
per piceos accensa globos et pectus harundo 135
per medium contenta fugit, ruit ille comanti
ore facem supra maiorque apparuit ignis.
Ambrosium Peleus, ingentem Ancaeus Echeclum
sternit et elatae propius succedere dextrae
Telecoonta sinit librataque ora securi 140
disiecit cervice tenus. simul aspera victor
cingula sublustri vibrantia detrahit umbra.
Circunda a mão, e espada em punho, aclara as vias.
Se lança às armas. Ceia e leitos não tirados,
Em que escanções agouros leram, permanecem.
Sem sorte ou modo iguais, em tropa incerta, as forças
Encontraram-se, e ao longe, os mortos se espalhavam.
Pesado archote, com betume untuoso e nós,
Brandindo, eis Flégias que, da vila precipita-se.
Crendo, ao costume, tropa e lanças dos pelasgos
Terem voltado pela noite, em gritos vãos,
Árduo e luzente, sob u’a nuvem de fumaça,
Sempre acossado procurava por Tamiro.
Qual Tifeu, rubro ao fogo e ventos, quando olhou
Do céu p’ra baixo, a quem no alto Jove prende,
Assim tremula, sob a luz sinistra, o barco.
O herói tiríntio, co’arco ao peito, então se eleva:
Salta, a atirar certeira flecha contra as flamas.
Acesa a seta, por escuras nuvens voa,
Cravando ao peito; aquele cai, com face e pêlos
Por sobre a tocha, e mais o fogo se levanta.
Peleu derruba Ambrósio; Anqueu, ao grande Equeclo;
Ele consente a Telecoonte se achegar
À destra erguida e, co’o machado, a testa rompe-lhe
Até a cerviz. O vencedor logo o despoja
Da tosca cinta, que brilhava ao lusco-fusco.
239
'has, precor, exuvias <et> opima cadavera' Nestor
'linquite!' ait. 'ferro potius mihi dextera, ferro
navet opus!' prensumque manu detruncat Amastrum
diversasque simul socios invadere turmas
admonuit. pergunt rupta testudine fusi
qua tenebrae campique ferunt. gravis invenit Ochum
Phlias et trepido Pollux impingitur Hebro.
ipse super vultus taboque natantia terga 150
dux campi Martisque potens, ut caeca profundo
currit hiems, Zelyn et Bronten Abarinque relinquit
semineces. Glaucum sequitur Glaucumque ruentem
occupat et iugulo vulnus molitur aperto.
ille manu contra telum tenet ultima frustra 155
verba ciens fixamque videt decrescere cornum.
hinc Halyn, hinc rigido transcurrens demetit ense
Protin et insignem cithara cantuque fluenti
Dorcea, qui dulci festis adsistere mensis
pectine Bistoniae magnum post ausus alumnum. 160
nec pharetram aut acres ultra Tirynthius arcus
exercet, socia sed disicit agmina clava.
ac veluti magna iuvenum cum densa securi
silva labat cuneisque gemit grave robur adactis
iamque abies piceaeque ruunt, sic dura sub ictu 165
ossa virum malaeque sonant sparsusque cerebro
“Deixai, vos peço, os ricos corpos e este espólio”,
Grita Nestor, “mais vale a mim co’o ferro a mão:
Co’o ferro faz-se a obra”! A Amastro descabeça
Enquanto exorta os companheiros a atacarem.
Rompida a tartaruga, os fugitivos seguem
Aonde levam campo e trevas. A Oco encontra
Pesado Flias; a Hebro, Pólux se arremessa.
O capitão, senhor da guerra, sobre os troncos
E ensangüentadas testas corre, qual tormenta
Sobre o mar. Deixa moribundos Zele, Bronto
E Ábare; segue Glauco e o alcança, derribando-o;
Rompida a jugular, u’a chaga se lhe corta;
Este, ao contrário, em vão, co’a mão segura a arma
A murmurar enquanto vê descer a ponta.
Com dura espada, trespassando, então desanca
Prote, Hale e Dorcla, pelo canto e e a lira insigne –
Que outrora ousara as doces cordas abraçar
Na lauta ceia em honra ao filho da Bistônia.
Com arco ou flecha o herói tiríntio não excele.
Porém, co’a clava amiga exércitos abate.
Qual quando jovens co’achas tombam densas matas,
Geme o carvalho pelas cunhas afincadas,
Já cai o abeto e o pinho; assim, sob as pancadas,
Os duros ossos de homens soam; co’os miolos,
240
albet ager. levis ante pedes subsederat Ichmon.
occupat os barbamque viri clavamque superne
intonat 'occumbes' et 'nunc' ait 'Herculis armis,
donum ingens semperque tuis mirabile fatum.' 170
horruit ille cadens nomenque agnovit amicum
primus et ignaris dirum scelus attulit umbris.
nec tibi Thessalicos tunc profuit, Ornyte, reges
hospitiis aut mente moras fovisse benigna
et laribus sacrasse diem. procul advenit Idmon 175
oblatumque ferit, galeam cristasque rubentes
(heu tua dona) gerens. quem te qualemque videbit
attonitus, Crenaee, parens! en frigidus orbes
purpureos iam somnus obit, iam candor et anni
deficiunt vitaque fugit decus omne soluta. 180
desere nunc nemus et nympharum durus amores!
at diversa Sagen turbantem fallere nervo
tum primum puer ausus Hylas (spes maxima bellis
pulcher Hylas, si fata sinant, si prospera Iuno)
prostravitque virum celeri per pectora telo. 185
Accessere (nefas) tenebris fallacibus acti
Tyndaridae in sese. Castor prius ibat in ictus
nescius, ast illos nova lux subitusque diremit
frontis apex. tum Castor Ityn, qua caerulus ambit
balteus et gemini committunt ora dracones, 190
Se alveja o solo. Íchmon, ligeiro, aos pés caíra-lhe:
A boca e a barba do homem prende e a clava atroa:
“Agora cais, por arma hercúlea, dom ingente!”
diz, “Admirável é teu Fado para sempre!”
Tremeu tombando; ao nome amigo ouviu primeiro
E às sombras disse o crime atroz, que o não sabiam.
Não te serviu, então, Ornite, aos reis tessálicos
Ter acolhido, ou de bom grado, os entretido,
Ou consagrado o dia aos Lares. Chega Ídmon
E, exposto, fere-te, elmo e crista (ah, teus dons)
Rubros portando. O pai atônito, Creneu,
Qual te verá? Pois frio sono aos olhos fúlgidos
Já te acerca; candor e os anos te abandonam,
A vida escapa, e toda a honra é subtraída.
Cruel, deixa agora o amor das ninfas e as florestas:
O jovem Hilas, co’arco ousando, então, primeiro
Bater o irado Sage (esperança nas guerras
É o belo Hilas, se o permitem Juno e os Fados!);
Prostrou o homem, co’a haste cérele no peito.
Levados pelo breu enganoso, os tindáridas
Se atracam – nefas! Cástor ia ao golpe, incauto,
Mas luz estranha e do elmo a crista os separaram.
Cástor, então, trespassa a Ite, onde o talim
Azul rodeia, e as gêmeas serpes se abocanham.
241
frater Hagen Thapsumque securigerumque Nealcen
transigit et Canthi pallentem vulnere Cydrum.
torserat hic totis conisus viribus hastam
venatori Erymo, brevis hanc sed fata ferentem
prodidit et piceo comitem miserata refulsit 195
Luna polo. cessere iubae raptumque per auras
vulnus et extrema sonuit cita cuspide cassis.
Nisaeum Telamón et Ophelten vana sonantem
per clipei cedentis opus artemque trilicem,
qua stomachi secreta, ferit laetusque profatur: 200
'di, precor, hunc regem aut aeque delegerit alta
fors mihi gente satum magnusque et flebilis urbi
conciderit.' super addit Aren fratremque Melanthum
Phoceaque Oleniden, <Le>legum qui pulsus ab oris
regis amicitiam et famuli propioris honores 205
(qua patiens non arte?) tulit. nox alta cadentum
ingentes resonat sonitus augetque ruinas.
ut magis Inarime, magis ut mugitor anhelat
Vesbius, attonitas acer cum suscitat urbes,
sic pugnae crebrescit opus neque enim ignea cedunt
astra loco, lentis haeret nox conscia bigis.
Perge age Tartareae mecum simul omnia noctis,
Musa, sequi. trepidam Phaethon adflavit ab alto
Tisiphonen graviorque locos iam luce propinqua
O irmão acerta Tapso, Nealco – o brande-alfange –
Hages e Cidro – exangue por feri-lo Canto.
Este, estribado em toda a força, a arma terçara
Co’o caçador Erimo. O Luar, porém, mostrou-a
Trazendo a morte e iluminou, do céu, por pena,
O companheiro: a crina abriu-se: o golpe aos ventos;
Tocado ao alto pela lança, o elmo soou!
A Neseu, Telamón, e a Ofelte, o falastrão,
Pelo escudo, que cede, e pela tripla trama
Que oculta o ventre, fere, e satisfeito, diz:
“Tomara os deuses, ou Fortuna, a mim confiassem
ser este um rei, ou caísse um grande, pelas vilas
pranteado”. Despachou Ares, o irmão Melanto
E Fócea o Olénide que, expulso dos Lelegos,
A amizade do rei e honrarias obteve
(Por arte qual não padecendo?). A madrugada
Os gemidos ecoa e aumenta a carnagem.
Mais do que o Inárime, ou o Vesúvio roncador,
Arqueja atroz quando desperta a vila atônita,
Assim se acerba a luta. E como não se põem
Do céu os astros, cônscia, a noite afasta as bigas.
Sus, Musa, vem seguir comigo a noite tártara!
Faetonte soprou a trêmula Tisífone
E, mais próxima a luz, mais grave a sombra aperta.
242
umbra premit. non signa virum, non funera cernunt215
et rabie magis ora calent. vos prodite, divae,
Eumenidum noctisque globos vatique patescat
armorum fragor et tepidi singultibus agri
labentem atque acti Minyis per litora manes.
Cyzicus hic aciem vanis discursibus implet 220
fata trahens. iam pulsa sibi cessisse Pelasgum
agmina, iam passim vacuos disiecta per agros
credit ovans. tales habitus, ea gaudia fingit
ira deum. fundo veluti cum Coeus in imo
vincla Iovis fractoque trahens adamante catenas 225
Saturnum Tityumque vocat spemque aetheris amens
concipit, ast illum fluviis et nocte remensa
Eumenidum canis et sparsae iuba reppulit Hydrae.
saevit acerba fremens tardumque a moenibus agmen
increpitat: 'numquamne dolor virtusve subibit 230
nil ausas sine rege manus? at barbara buxus
si vocet et motis ululantia Dindyma sacris,
tunc ensis placeatque furor, modo tela sacerdos
porrigat, et iussa sanguis exuberet ulna.'
talibus insultans iamdudum numine divae 235
deficit, infracti languescunt frigore cursus,
corda pavent, audit fremitus irasque leonum
cornuaque et motas videt inter nubila turres.
Nem as insígnias, nem cadáveres distinguem
E, em raiva, aquentam mais as faces. Mostrai, deusas,
Ao vate a malta das Eumênides noturnas,
E que o fragor das armas se abra, pelo expiro
O campo morno e os manes feitos pelos Mínias.
Cízico, então, com vãs carreiras enche a tropa
Tardando o Fado. Ovante, crê ter aos pelasgos
Já rechaçado, já dispersos pelos campos.
Tais novas e a euforia aos deuses enfurecem,
Qual quando Céo grilhões de Jove, em fundo abismo,
Arrastando – partido o adamante dos elos –
Chama Saturno e Tício, e para o ar espera
voltar – insano; mas passada a noite e os rios,
Da Hidra a juba e o cão Eumênide o espantaram.
Fremente, se enfurece e increpa o tardo bando:
“Nunca entrarão ardor e forças nesta tropa,
Covarde sem seu rei? Porém, se a flauta bárbara,
O dindimo ulular e as sacras danças chamam,
Então, furor e espada agradam; mal estenda
O sacerdote a adaga, o punho abunda em sangue”!
Xingando assim, pelo poder da deusa, logo
Se esmorece; por frio, o sangue esmaia o curso;
Coração treme e escuta as iras dos leões;
Às presas vê as torres móveis entre as nuvens!
243
tunc gravis et certo tendens stridore per umbram
Aesonii venit hasta ducis latumque sub imo 240
pectore rumpit iter. quam nunc incognita vellet
lustra sibi nullosque datos venatibus annos!
talia magnanimi diverso turbine fundunt
tela viri sonitusque pedum suspectaque motu
explorant, prensant socios vocemque reposcunt. 245
quod si tanta lues seros durasset in ortus,
exstinctum genus et solas per moenia matres
vidisset stratamque dies in litore gentem.
Tum pater omnipotens, tempus iam rege perempto
flectere fata ratus miserasque abrumpere pugnas, 250
supremam celeravit opem nutuque sereno
intonuit, quem Nocte satae, quem turbidus horret
Armipotens. tunc porta trucis coit infera belli.
continuo dant terga metu versique per agros
diffugiunt, quae sola salus. nec terga ruentum 255
mens Minyis conversa sequi, stetit anxia virtus.
ecce levi primos iam spargere lumine portus
orta dies notaeque (nefas) albescere turres.
'di maris,' attonito conclamat ab agmine Tiphys
'ut mea fatali damnastis pectora somno. 260
heu socii quantis complerunt litora monstris!'
illi autem neque adhuc gemitus neque conscia facti
Assim, pesada, pela sombra, co’estridor,
Vem do Esônide a lança e rompe largo curso
No régio peito. Quanto, então, p’ra si deseja
A terra estranha e os anos gastos nas caçadas.
Em rival ímpeto, os heróis atiram dardos;
Suspeito ruído ouvem de pés em movimentos:
Aos companheiros prendem – pedem contra-senha.
Se a matança durasse até o amanhecer,
Seria extinta a raça e, ao muro, às mães apenas
Veria dia, e à gente morta pela praia.
Já morto o rei, então o Pai, crendo ser tempo
De alterar o destino e interromper as lutas,
Aviou suprema ajuda e, com sereno aceno,
Troou. Da Noite a filha e o Armipotente assustam-se.
Enfim se fecha à feroz guerra a porta ínfera.
Contínuo medo, os fugitivos pelos campos –
Recurso único – dispersam-se. Segui-los
Não é o intento mínio – o ardor se arrefecera!
Eis, a juncar com leve luz, primeiro, o porto
Aberto o dia, e a branquejar amigas torres.
“Ah, deus dos mares”, dentre o bando exclama Tífis,
“Com que sonho fatal danaste tu meu peito!
Ai, companheiros, com que horror a praia se enche”.
Eles, porém, nem pranto ainda, ou faces erguem,
244
ora levant. tenet exsangues rigor horridus artus
ceu pavet ad crines et tristia Pentheos ora
Thyias, ubi impulsae iam se deus agmine matris 265
abstulit et caesi vanescunt cornua tauri.
nec minus effusi grandaevum ad litora vulgus
ut socias videre manus dare versa retrorsus
terga metu. dextram tendens proclamat Iason:
'quos fugitis? vellem hac equidem me strage meosque
procubuisse magis. deus haec, deus asper utrisque
implicuit. sumus en Minyae, sumus hospita turba!
cur etiam flammas miserosque moramur honores?’
Tum super exsangues confertae caedis acervos
praecipiti plangore ruunt, agnoscit in alta 275
strage virum sua texta parens, sua munera coniunx.
it gemitus toto sinuosa per aequora caelo.
pars tenues flatus et adhuc stridentia prensat
vulnera, pars sera componunt lumina dextra.
at vero in mediis exsangui rege reperto 280
aggeribus, tristi sileant ceu cetera planctu,
sic famulum matrumque dolor, sic omnis ad unum
versa manus. circa lacrimis ac mentibus aegri
stant Minyae deflentque nefas et cuspidis ictus
Aesoniae sortemque ducis solantur acerbam. 285
ille ubi concretos pingui iam sanguine crines
Cônscias dos erros. Rigidez toma seus membros.
Tal como a Tias assustaram face e coma
De Penteu, quando o deus deixara já as bacantes
Da mãe, e os chifres do imolado touro somem;
E, não menos, na praia os velhos dispersados
Amigas tropas vendo, as costas, por horror,
Voltaram. Estendendo a destra diz Jasão:
“De quem fugis? Quisera eu e os meus morrêssemos
Nessa chacina. Um deus cruel nos envolveu.
Os Mínias somos, somos tropas hospedadas.
Por que tardamos honra e piras reverentes?”
Então, se arrojam, com lamentos, sobre os lívidos
Montões de mortos. Na alta ruma, a mãe conhece
Os seus tecidos, e a mulher, os seus regalos.
O pranto segue pelo mar a todo o céu.
Uns seguram o choro, e as chagas borbulhantes;
Os olhos, outros, com a mão já tarde cerram.
Contudo, achado o rei exangue em meio às pilhas
Como se tudo, em triste pranto, se calasse,
Assim, é a dor das mães, dos servos e de todos,
A um só voltada. Em torno os Mínias permanecem.
Com mentes tristes, choram nefas e a hasta Esônide;
E, ao capitão, a acerba sorte eles consolam.
Ao ver daquele, pelo sangue a dura coma,
245
pallentesque genas infractaque pectore caro
tela neque hesternos agnovit in hospite vultus,
ingemit atque artus fatur complexus amicos:
'te tamen ignarum tanti, miserande, furoris 290
nox habet et nullo testantem foedera questu,
at mihi luctificum venit iubar. heu quibus adsum
conloquiis, cui me hospitio fortuna revexit!
exstinguine mea (fatis id defuit unum)
speravi te posse manu talisve reliqui 295
has ego, amice, domos? quod si iam bella manebant
et placitum hoc superis, nonne haec mea iustius essent
funera meque tuus <potius> nunc plangeret error
nec Clarii nunc antra dei quercusque Tonantis
arguerem? talesne acies, talesne triumphos 300
sorte dabant? tantumque nefas mens conscia vatum
conticuit patriae exitium crudele senectae
et tot acerba canens? heu divis visa sinistris
regna mihi! quinam reditus, quae me hospita tellus
accipiet, quae non primis prohibebit harenis? 305
invidere dei ne Phasidis arva remoti
et Scythicas populatus opes haec rursus adirem
litora neve tuos irem tunc ultor in hostes.
fas tamen est conferre genas, fas iungere tecum
pectora et exsangues miscere amplexibus artus. 310
As faces pálidas e, ao caro peito, o dardo –
Mas não do anfitrião o anterior semblante –
Lamentou-se e falou, abraçado ao amigo:
“A noite, ó mísero, te toma sem que saibas
De tanto horror, sem reclamares nossos pactos.
Porém, funesta, vem-me a Aurora! Ah, mas que digo!
A que refúgio conduzira-me a Fortuna!
(Faltou só isso ao Fado!) Esperei que pudesses
Por minha mão morrer? Assim deixei tua terra?
Se a guerra só durou por agradar aos deuses,
Mais justa não seria, amigo, a morte minha
E que teu erro antes agora me chorasse?
Do deus de Claro a cova e o carvalho de Jove
Eu não censurarei? Tal luta e tal triunfo
Por sorte davam-me? Tamanho horror os vates
Me esconderam, cantando o fim de velha pátria
E agrura tanta? Por sinistros deuses visto
Foi meu comando? Que retorno? A mim, qual terra
Irá acolher e não vedar-me a prima areia?
Cuidaram deuses que a esta praia eu não tornasse
Saqueada a cítica riqueza e as margens fásicas,
E então, não viesse, vingador, aos teus imigos.
Porem é lícito estreitar contigo as faces,
Juntar os peitos e abraçar-te os membros pálidos.
246
vos age funereas ad litora volvite silvas
et socios lustrate rogos, date debita caesis
munera, quae nostro misisset Cyzicus igni.'
Parte alia Clite laceras super ora mariti
fusa comas misera in planctus vocat agmina matrum
fatur et haec: 'primis coniunx ereptus in annis
cuncta trahis. necdum suboles nec gaudia de te
ulla mihi, quis maesta tuos nunc, optime, casus
perpeterer tenui luctum solamine fallens.
Mygdonis arma patrem funestaque proelia nuper 320
natales rapuere domos Triviaeque potentis
occidit arcana genetrix absumpta sagitta:
tu, mihi qui coniunx pariter fraterque parensque
solus et a prima fueras spes una iuventa,
deseris heu totamque deus simul impulit urbem. 325
ast ego non media te saltem, Cyzice, vidi
tendentem mihi morte manus aut ulla monentis
verba tuli; quin te thalamis modo questa morari
heu talem tantique metus secura recepi.'
illam vix gemino maerens cum Castore Pollux 330
erigit haerentem compressaque colla trahentem.
Interea innumeras nudatis montibus urgent
certatim decorantque pyras et corpora maesti
summa locant. vadit sonipes cervice remissa
Eia, volvei os troncos fúnebres à praia.
A fogueira comum acendei. Oferendas
Prestai – as que daria à nossa pira Cízico!”
Alhures, Clite, sobre a face do marido
Deitando a coma, em pranto chama as tristes mães
E diz: “Esposo, à flor da idade arrebatado,
A tudo levas! Gáudio ou filho algum de ti
Não hei que, triste, a mim console agora, ó bom,
A mitigar tua sorte e dando alívio ao luto.
Migdônias tropas me furtaram o pai e, há pouco,
Ao lar natal, as triste lutas; por ocultas
Flechas da Trívia, a mãe, tocada, pereceu.
Tu, meu marido, qual irmão e pai, sozinho,
Foras-me a única esperança à juventude.
Ai, me abandonas e à cidade um deus solapa.
Mas não te vi em meio à morte ao menos, Cízico,
Estendendo-me as mãos, nem conselhos colhi.
No leito, há pouco, me queixando de tardares,
Livre do medo, por que não te recebi?”
Co’o gêmeo Cástor, triste, Pólux a levanta,
Que, em se afastando, abraçado traz-lhe o colo.
Desnudos montes, no entretempo, elevam piras;
As ornam à porfia e, magoados, depõem
No topo os corpos. Cabisbaixo, o corcel marcha
247
venatrix nec turba canum pecudumque morantur 335
funereae, quae cuique manus, quae cura suorum,
quae fortuna fuit. medio rex aggere longe
eminet, hunc crebris quatiens singultibus ora
adlevat Aesonides celsoque reponit in ostro.
dat pictas auro atque ardentes murice vestes 340
quas rapuit telis festina vocantibus Austris
Hypsipyle. galeam dilectaque cingula regi
inicit. ille suam vultus conversus ad urbem
sceptra manu veterum retinet gestamen avorum.
nam quia nec proles alius nec denique sanguis, 345
ipse decus regnique refert insigne parenti.
inde ter armatos Minyis referentibus orbes
concussi tremuere rogi, ter inhorruit aether
luctificum clangente tuba. iecere supremo
tum clamore faces, rerum labor omnis in auras 350
solvitur et celsis conlucent aequora flammis.
scilicet haec illo iuvenem populosque manebant
tempore, Peliacis caderet cum montibus arbor:
hoc volucrumque minae praesagaque fulmina longo
acta mari tulerant. sed quis non prima refellat 355
monstra deum longosque sibi non auguret annos?
iamque solutus honos cineri, iam passibus aegris
dilapsae cum prole nurus tandemque quiescunt
E não demoram nem matilhas nem rebanhos
Ao sacrifício: a cada qual força, Fortuna
E os cuidados dos seus. No monte, o rei se eleva.
Ergue-o o Esônide, a cabeça sacudindo
Entre soluços; e o repõe em celsa púrpura;
Oferta ardente veste, em ouro e búzio ornada
Que, ao chamar do Austro, dos tesouros subtraiu
Hipsípila. Elmo e talabarte ao rei lançou.
Este, co’o rosto p’ra cidade sua voltado,
Empunha o cetro que os antigos reis traziam:
Porque sem filhos, e por isso, sem parentes,
Leva consigo a honra insigne dos avós.
Armados Mínias vezes três rodas formando,
Batida, a pira estremeram. Soante, a tuba
O céu lutuoso atroa. Em supremo clangor,
Lançaram tochas. A obra toda, então, nos ventos
Se desfez, e reluz o mar co’as altas chamas.
Por certo, tudo ao povo e ao jovem se guardava
Dês que no Pélio monte a árvore tombara:
No mar os raios, vôos minazes e os presságios
Disseram-no, mas quem não refuta os primeiros
Sinais dos deuses e anos muitos não se augura?
Já todo honor é feito em cinza. Em passos tristes,
Ruídas mulheres vão co’a prole. O vau se aquieta
248
dissona pervigili planctu vada, qualiter Arctos
ad patrias avibus medio iam vere revectis 360
Memphis et aprici statio silet annua Nili.
At non inde dies nec quae magis aspera curis
nox Minyas tanta caesorum ab imagine solvit.
bis Zephyri iam vela vocant. fiducia maestis
nulla viris, aegro adsidue mens carpitur aestu 365
necdum omnes lacrimas atque omnia reddita caesis
iusta putant. patria ex oculis acerque laborum
pulsus amor segnique iuvat frigescere luctu.
ipse etiam Aesonides, quamquam tristissima rerum
castiganda duci vultuque premenda sereno, 370
dulcibus indulget lacrimis aperitque dolorem.
tum secreta trahens Phoebeum ad litora Mopsum
'quaenam' ait 'ista lues aut quae sententia divum?
decretusne venit fato pavor an sibi nectunt
corda moras? cur immemores famaeque larisque 375
angimur aut pariet quemnam haec ignavia finem?'
'Dicam' ait 'ac penitus causas labemque docebo.'
Mopsus et astra tuens: 'non si mortalia membra
sortitusque breves et parvi tempora fati
perpetimur, socius superi quondam ignis Olympi, 380
fas ideo miscere neces ferroque morantes
exigere hinc animas redituraque semina caelo.
Ao pranto da vigília: igual se cala Mênfis
Na primavera, já migradas p’r’o Arcto as aves,
E a antiga foz do soalheiro rio Nilo.
Mas nem o dia, nem a noite que é mais dura
Nas aflições livrou-os da imagem da matança.
Duas vezes chama o vento, mas não há confiança
Nos tristes homens; de incerteza a mente toma-se
E nem o choro todo ou tudo dado aos mortos
Julgam bastantes. Longe é a pátria, e o amor aos feitos
Se esvai e ajuda a enlanguescer em luto apático.
Também Jasão, posto a tristeza deva ser
Num capitão contida e presa em face calma,
Às ternas lágrimas se entrega e dor demonstra.
Levando, então, à oculta praia o fêbeo Mopso,
“Que peste é essa”, diz, “Que intentos têm os deuses?
Dado por sina vem o medo, ou os corações
Tardam por si? Por que da fama e lar imêmores
Nos angustiamos, ou qual fim trará a inação?”
E Mopso, a olhar o céu: “Direi e ensinarei
O mal e as causas. Se agüentamos mortais membros,
O breve acaso e a duração do curto Fado –
Nós antes fogo companheiro do Olimpo –
Juntar os mortos ou expulsar com ferro as almas –
Germe que ao céu há de tornar – não é direito.
249
quippe nec in ventos nec in ultima solvimur ossa;
ira manet duratque dolor. cum deinde tremendi
ad solium venere Iovis questuque nefandam 385
edocuere necem, patet ollis ianua leti
atque iterum remeare licet. comes una sororum
additur et pariter terras atque aequora lustrant.
quisque suos sontes inimicaque pectora poenis
implicat et varia meritos formidine pulsant. 390
at quibus invito maduerunt sanguine dextrae,
si fors saeva tulit miseros, sed proxima culpa,
hos variis mens ipsa modis agit et sua carpunt
facta viros: resides et iam nil amplius ausi
in lacrimas humilesque metus aegramque fatiscunt 395
segnitiem, quos ecce vides. sed nostra requiret
cura viam. memori iam pridem cognita vati
est procul ad Stygiae devexa silentia noctis
Cimmerium domus et superis incognita tellus
caeruleo tenebrosa situ, quo flammea numquam 400
Sol iuga sidereos nec mittit Iuppiter annos.
stant <ta>citae frondes immotaque silva comanti
horret Averna iugo. specus umbrarumque meatus
subter et Oceani praeceps fragor arvaque nigro
vasta metu et subitae post longa silentia voces. 405
ensifer hic atraque sedens in veste Celaeneus
Porquanto em vento e ossos finais não desfamo-nos,
Dor e ira se mantêm. Quando chegam, depois,
Ao Jove trono e o triste fim em queixas mostram,
Da morte a porta se lhes abre e regressar
De novo é permitido. U’a das irmãs por sócia
Une-se, e juntas correm terras e o oceano.
Cada uma envolve o imigo peito e seu algoz
Em dor e afligem-nos com vários justos medos.
Mas os que em sangue involuntário as mãos molharam –
Se a cruel sorte, ou quase u’a culpa, fê-los míseros –
A consciência os persegue, e suas obras devoram-nos:
Não mais audazes, indolentes se desfazem
Em prantos, medo vil e molesta preguiça:
Eis o que vês. Mas nossa ajuda achará o rumo.
Da memória do vate há muito conhecida,
Junto à funda mudez da noite estígia, longe,
Se acha a pátria ciméria, ignorada dos deuses,
Trevosa em sítio escuro, aonde o sol jamais
Envia a flâmea biga, ou Jove, o curso de astros.
Calam-se as copas; a vernal imóvel mata
Treme no monte. Abaixo, há a gruta, o andar de sombras,
O fragor último do mar, os vastos campos
Em negro medo e, após silêncio, as vozes súbitas!
Co’espada e em negras vestes ali Celeno estando,
250
insontes errore luit culpamque remittens
carmina turbatos volvit placantia manes.
ille mihi quae danda forent lustramina caesis
prodidit, ille volens Erebum tenebrasque retexit. 410
ergo ubi puniceas oriens accenderit undas,
te socios adhibere sacris armentaque magnis
bina deis, me iam coetus accedere vestros
haud fas interea, donec lustralia pernox
vota fero. movet en gelidos Latonia currus: 415
flecte gradum, placitis sileant age litora coeptis!'
Iamque sopor mediis tellurem presserat horis
et circum tacito volitabant somnia mundo,
cum vigil arcani speculatus tempora sacri
Ampycides petit adversis Aesepia silvis 420
flumina et aequoreas pariter decurrit ad undas.
hic sale purpureo vivaque nitentia lympha
membra novat seque horrificis accommodat actis.
tempora tum vittis et supplice castus oliva
implicat et stricto designat litora ferro, 425
circum humiles aras ignotaque nomina divum
instituit silvaque super contristat opaca:
utque metum numenque loco sacramque quietem
addidit, ardenti nitidum iubar evocat alto.
Atque Argoa manus variis insignis in armis 430
Ao erro expia o inocente e, redimido,
Recita o canto que serena irados manes.
Ele mostrou-me as oferendas que p’r’os mortos
Se deviam e abriu, propício, a noite e o Érebo.
Quando acender, assim, o sol as ondas púrpuras,
Une-te aos sócios e duas reses sacrifica
Aos grandes deuses. Já me é ilícito seguir-vos
Enquanto cumpro, pela noite, os lustrais votos.
Eis que Latona move o frio carro: sus!
Te afasta e que se cale a praia à tua empresa”.
O sono da alta noite à terra já ocultara
E pelo mundo silencioso voavam sonhos
Enquanto o Ampícida, observando vigilante
Do culto o tempo, busca o Esepo em bosques próximos
E segue o rio até às ondas do oceano.
Ali, co’o mar purúreo e a linfa viva e bela
Anima os membros e se aplica a horríveis atos.
Com vide e súplice oliveira cinge as têmporas
E, espada em punho, risca a praia; ergue ao redor
Humildes aras a ignoradas divindades
E com folhagens as sombreia. Quando fez
No sítio o pio medo e a sagrada quietude,
Invoca o sol brilhante sobre o ardente mar.
Os argonautas, com insignes armas várias,
251
ibat agens lectas aurata fronte bidentes.
Delius hic longe candenti veste sacerdos
occurrit ramoque vocat iamque ipse recenti
stat tumulo placida transmittens agmina lauro.
ducit et ad fluvios ac vincula solvere monstrat 435
prima pedum glaucasque comis praetexere frondes
imperat, hinc alte Phoebi surgentis ad orbem
ferre manus totisque simul procumbere campis.
tunc piceae mactantur oves prosectaque partim
pectora per medios, partim gerit obvius Idmon. 440
ter tacitos egere gradus, ter tristia tangens
arma simul vestesque virum lustramina ponto
pone iacit, rapidis adolentur cetera flammis.
quin etiam truncas nemorum[que] effigiesque virorum
rite locat quercus simulataque subligat arma. 445
huc Stygias transire minas iramque severi
sanguinis, his orat vigiles incumbere curas
atque ita lustrifico cantu vocat: 'ite, perempti,
ac memores abolete animos. sint otia vobis,
sit Stygiae iam sedis amor, procul agmine nostro 450
et procul este mari cunctisque absistite bellis.
vos ego nec Graias umquam contendere ad urbes
nec triviis ululare velim pecorique satisque
nullae ideo pestes nec luctifer ingruat annus
Iam levando as reses de douradas testas.
O délio sacerdote, ao longe, em vestes alvas
Acorre e chama, e se detém no novo túmulo
Guiando, co’o laurel, a mansa tropa. Ao rito
Os leva e instrui a desatar primeiro as tiras
Dos pés; com folhas verdes manda ornar as comas,
Ordena erguer as mãos ao fêbeo sol nascente
E, ao mesmo tempo, se prostrar por todo o campo.
Negras ovelhas são imoladas: parte é pêlo,
Mas a outra parte Ídmon, ao lado, distribui.
Três vezes guiou os mudos passos; três, tocando
As vestes e armas dos heróis, lançou p’ra trás,
No mar, as lustrações; o resto as chamas ardem.
Os troncos de carvalho e as efígies dos homens
Dispõe, em culto, e liga os falsos armamentos.
P’ra ali invoca as ameaças do Estige
E a ira do sangue: que os remosos acometam-nos.
Co’expiatório canto roga: “Parti, mortos
Cessai a raiva inesquecida. Haja-vos paz
E amor à plaga estígia; longe de nós sede,
Longe do mar, e retirai-vos das batalhas.
Que eu não vos queira aproximar das gregas urbes
Nem a ulular nas encruzadas, p’ra que a peste
Ou o tempo mau não venha às messes e aos rebanhos,
252
nec populi nostrive luant ea facta minores.' 455
dixerat et summas frondentibus intulit aris
libavitque dapes, placidi quas protinus angues,
umbrarum famuli, linguis rapuere coruscis.
Continuo puppem petere et considere transtris
imperat Ampycides nec visum vertere terrae: 460
exciderint quae gesta manu, quae debita fatis.
illi alacres pars arma locant, pars ardua <summis>
insternunt tabulata toris oriturque trementum
remorum sonus et laetae concordia vocis.
Iuppiter urgentem ceu summa Ceraunia nubem 465
cum pepulit movitque iugis, fulsere repente
et nemora et scopuli nitidusque reducitur aether,
sic animi rediere viris iamque ipse magister
nutat ab arce ratis remisque insistere tendit.
instaurant primi certamina liber amictu 470
Eurytus et dictis Talai non territus Idas,
inde alii increpitant atque aequora pectore tollunt.
par gemitu pulsuque labor versumque vicissim
mittitur in puppem remo mare. laetus et ipse
Alcides 'quisnam hos vocat in certamina fluctus?' 475
dixit et intortis adsurgens arduus undis
percussit subito deceptum fragmine pectus
atque in terga ruens Talaum fortemque Eriboten
Que o povo ou filhos estes atos não expiem”.
Depôs no altar ramado as sumas oferendas,
Libou e, presto, mansas cobras as colheram –
Servas das sombras, com as línguas dardejantes.
Ordena o Ampícida embarcar, sentar nos tostes
E não volver a vista à terra: que olvidassem
Da mão os feitos e o que ao Fado se devera.
Alegres, uns ajustam armas, outros cobrem
Com toldo o alto convés. Ouve-se o som dos remos
Estrepitosos e a união das ledas vozes.
Qual quando Jove, do Cerâneo a urgente nuvem
Arreda e afasta da montanha e, de repente,
O mar e as rochas fulgem, volta o claro céu,
Assim os ânimos retornam. Já na popa
O piloto balança e por firmar se esforça.
Eurito, sem o manto, e Idas, não temendo
Dos ditos de Talao, a disputa iniciam;
Animam-se os demais e erguem, co’o peito as águas.
Há igual labor no urro e no empuxo, e revolvido
A remo, ao mar invade a nau. Gritou, contente
O Alcides: “Quem chama ao embate estas correntes?”
E, enorme, a alçar-se sobre as ondas encrespadas,
Golpeou o peito com o remo que partira-se.
Derrubou, ao cair, Eribotes, Talao
253
et longe tantae securum Amphiona molis
obruit inque tuo posuit caput, Iphite, transtro. 480
Iam summas caeli Phoebus candentior arces
vicerat et longas medius revocaverat umbras.
tardior hinc cessante viro quae proxima Tiphys
litora quosque dabat densa trabe Mysia montes
advehitur. petit excelsas Tirynthius ornos, 485
haeret Hylas lateri passusque moratur iniquos.
Illum ubi Iuno poli summo de vertice puppem
deseruisse videt, tempus rata diva nocendi
Pallada consortem curis cursusque regentem,
nequa inde inceptis fieret mora, fallere prima 490
molitur caroque dolis avertere fratri,
tum sic adloquitur: 'procerum vi pulsus iniqua
germanique manu (repetis quo crimine) Perses
barbaricas iam movit opes Hyrcanaque signa.
Aeetes contra thalamis et virgine pacta 495
conciliat reges Scythicos primusque coacta
advehit Albana Styrus gener agmina porta,
bellum ingens, atque ipse citis Gradivus habenis
fundit equos. viden Arctoo de carcere quanta
tollat se nubes atque aequore pendeat atro? 500
corripe prima vias. finem cum Phasidis alti
transierit Perses aciemque admoverit urbi,
E Anfião, que longe a salvo cria-se do imenso;
Teu banco, Ífito, a cabeça suportou.
Nas arcadas do céu, já Febo vicejara
Ardente, e o meio dia as sombras afastara.
Lento, sem força humana, Tífis guiava o barco
À praia, que conduz da mata mísia aos montes.
Por grandes olmos busca o Alcides, segue-o Hilas,
Que se atrasava pelos passos desiguais.
Quando, no sumo empíreo, Juno o vê da nau
Baixado, ao crer que é tempo de fazer-lhe mal,
Trama enganar a Palas – guia de seu curso
E amiga de aflições – e do irmão afastá-la
Para que não ocorra atraso em seus projetos.
Então, assim lhe diz: “Por força iníqua expulso
Pelo bando do irmão, bem sabes com quais crimes,
Já Perses armas move, e as insígnias hircânias.
Por seu turno, se alia Eetes aos reis da Cítia
Por pacto nupcial. Ligeiro, o genro Estiro
Conduz à porta albana as tropas reunidas.
Grande guerra! O Gradivo atiça as montarias.
Tamanha nuvem vês se erguer por sobre Arcto?
E quanta água escura encontra-se suspensa?
Toma caminho. Quando houver Perses cruzado
Os limites do Fase e marchado à cidade,
254
coepta refer paulumque moras et foedera necte
consiliis atque arte tua. sponde adfore reges
dis genitos, quis arma volens, quis agmina iungat.' 505
at virgo, quamquam insidias aestusque novercae
sentiat et blandos quaerentem fingere vultus,
obsequitur tamen et iussas petit ocius oras.
Ingemuit Iuno tandemque silentia rumpit:
'en labor, en odiis caput insuperabile nostris! 510
quam Nemeen tot fessa minis quae bellave Lernae
experiar? Phrygiis ultro concurrere monstris
nempe virum et pulso reserantem Pergama ponto
vidimus: en ego nunc regum soror++et mihi gentis
ullus honos? iam tum indecores iussaeque dolorum 515
primitiae et tenero superati protinus angues.
debueram nullos iuveni iam quaerere casus
victa nec <ad> tales forsan descendere pugnas.
verum animis insiste tuis ~actumque movebo~
tende, pudor; mox et Furias Ditemque movebo.' 520
haec ait et pariter laevi iuga pinea montis
respicit ac pulchro venantes agmine nymphas,
undarum nemorumque decus. levis omnibus arcus
et manicae virides et stricta myrtus habena,
summo palla genu, tenui vagus innatat unda 525
crinis ad obscurae decurrens cingula mammae.
Os projetos ultima; urde, um pouco, demoras
Por arte e planos teus. Garante virem reis,
Filhos de deuses, a quem unam povo e armas”.
Embora a virgem aflições e ardis perceba
Na madrasta, que em rosto afável escondia-os,
Rapidamente acede e parte para a praia.
Juno geme e, afinal, interrompe o silêncio:
“Ó trabalheira, ó ser invicto aos ódios meus.
De ameaças cansada, em qual fera neméia
Ou lérnea confiarei? Eu vi o herói lutar
Co’o monstro frígio, abrindo ao mar vencido Pérgamo.
Agora, irmã de reis, que honor dos povos tenho?
As afrontas, há muito, e iniciais dissabores,
Pelo infante sofri co’as serpes esmagadas.
Buscar eu não devera ao jovem mais desgraças
Ou, talvez nem, vencida, a tais lutas lançar-me.
Pudor, porém, insiste em teus fitos, resiste
Co’astúcia; incitarei logo as Fúrias e Dite”.
À esquerda o olhar volveu, à serra de pinheiros,
Às ninfas que, em formoso grupo aproximavam-se,
Das ondas e da mata o orgulho: co’arco todas,
Verdes pulseiras, mirto preso em finos fios,
Saias acimas do joelho, ondeadas comas
Espalhadas, caindo à cinta que ata os seios.
255
ipsa citatarum tellus pede plausa sororum
personat et teneris summittit gramina plantis.
e quibus Herculeo Dryope percussa fragore,
cum fugerent iam tela ferae, processerat ultra 530
turbatum visura nemus fontemque petebat
rursus et attonitos referebat ab Hercule vultus.
hanc delapsa polo piceaeque adclinis opacae
Iuno vocat prensaque manu sic blanda profatur:
'quem tibi coniugio tot dedignata dicavi, 535
nympha, procos, en Haemonia puer adpulit alno,
clarus Hylas, saltusque tuos fontesque pererrat.
vidisti roseis haec per loca Bacchus habenis
cum domitas acies et eoi fercula regni
duceret ac rursus thiasos et sacra moventem. 540
hunc tibi vel posito venan pectine Phoebum
crede dari. quae spes nymphis aufertur Achaeis,
praereptum quanto proles Boebeia questu
audiet et flavi quam tristis nata Lycormae!'
sic ait et celerem frondosa per avia cervum 545
suscitat ac iuveni sublimem cornibus offert.
ille animos tardusque fugae longumque resistens
sollicitat suadetque pari contendere cursu.
credit Hylas praedaeque ferox ardore propinquae
insequitur, simul Alcides hortatibus urget 550
Ressoa a terra aos pés das irmãs agitadas
E faz crescer a relva em delicados brotos.
Dríope, alcançada pelo hercúleo estridor quando
Escapavam-lhe à seta as feras, se afastara
Para ver o alvoroço, e p’ras fontes voltava,
Trazendo seu semblante assustado por Hércules.
Do céu descida, reclinada em negra nuvem,
Segurando-lhe a mão, a chama Juno e diz:
“Ninfa, que desdenhaste os pretendentes todos
Que para ti escolhi, eis que aportou da nau
O ilustre Hilas, que em teu bosque e fontes erra.
Por estas plagas viste-o a Baco conduzir
Vencidas coortes e os despojos dos eôos,
Os tirsos retornando, e os sacros aparatos.
Qual Febo caçador, quando a lira depõe,
Crê te ser ele dado. Esperança qual resta
À ninfa aquéia? Quanto a filha do Bebeu,
Raptado, o chorará? E a filha do Licormes?”
Diz, e um cervo veloz, galheiro, ela suscita
E ao jovem o oferece, em desvio frondoso.
O animal, vagaroso, à fuga resistindo,
Os ânimos lhe instiga e a correr persuade-lhe.
Hilas aceita o desafio e, com ardor,
De perto segue a presa, enquanto, ao vê-lo, o Alcides
256
prospiciens. iamque ex oculis aufertur uterque,
cum puerum instantem quadripes fessaque minantem
tela manu procul ad nitidi spiracula fontis
ducit et intactas levis ipse superfugit undas.
hoc pueri spes lusa modo est nec tendere certat 555
amplius; utque artus et concita pectora sudor
diluerat, gratos avidus procumbit ad amnes.
stagna vaga sic luce micant ubi Cynthia caelo
prospicit aut medii transit rota candida Phoebi,
tale iubar diffundit aquis: nil umbra comaeque 560
turbavitque sonus surgentis ad oscula nymphae.
illa avidas iniecta manus heu sera cientem
auxilia et magni referentem nomen amici
detrahit, adiutae prono nam pondere vires.
Iam pater umbrosis Tirynthius arcibus ornum 565
depulerat magnoque iugi stridore revulsam
terga super fulvi porrexerat horrida monstri
litora curva petens; alio nam calle reversum
credit Hylan captaque dapes auxisse ferina.
sed neque apud socios structasque in litore mensas 570
unanimum videt aeger Hylan nec longius acrem
intendens aciem. varios hinc excitat aestus
nube mali percussus amor, quibus haeserit oris,
quis tales impune moras casusve laborve
O incita. Estão os dois já fora de sua vista
Quando o cervo conduz o jovem, que o persegue
Co’ a exausta mão brandindo o dardo, até u’a fonte
E, sobre as águas intocadas, ele escapa.
Frustrado o moço, já não tenta prosseguir
E, como o suor lhe porejava ao peito e aos braços,
Com sede debruçou sobre um grato riacho.
Como um lago reluz quando a Cíntia vigia
No céu, ou fêbeo disco ardente cruza o zênite,
Assim a água brilha, e não turbam-na sombras
Crina ou rumor da ninfa a erguer-se para um beijo.
Co’ávidas mãos o puxa; e a ele, ah, já é tarde
Para chamar ajuda, ou invocar o amigo.
Seu pender para diante as forças auxilia.
Já na mata sombria, o herói tiríntio um olmo
Derrubara, co’estrondo arrancado da terra,
E sobre a fulva pele horrível o deitara,
Buscando o litoral. Crê Hilas ter voltado
Trazendo provisões e a fera capturada.
Mas, triste, não o vê nem junto aos companheiros
Ou pela praia, nem olhando mesmo ao longe.
Excita, então, o Amor, por más nuvens ferido,
Várias inquietações: prender-se-ia em qual praia?
Qual desgraça ou labor causaria o atraso?
257
attulerit. densam interea descendere noctem 575
iam maiore metu, tum vero et pallor et amens
cum piceo sudore rigor. ceu pectora nautis
congelat hiberni vultus Iovis agricolisve,
cum coit umbra minax, comitis sic adficit error
Alciden saevaeque monet meminisse novercae. 580
continuo, volucri ceu pectora tactus asilo
emicuit Calabris taurus per confraga saeptis
obvia quaeque ruens, tali se concitat ardens
in iuga senta fuga. pavet omnis conscia late
silva, pavent montes, luctu succensus acerbo 585
quid struat Alcides tantaque quid apparet ira.
ille, velut refugi quem contigit improba Mauri
lancea sanguineus vasto leo murmure fertur
frangit et absentem vacuis sub dentibus hostem,
sic furiis accensa gerens Tirynthius ora 590
fertur et intento decurrit montibus arcu.
heu miserae quibus ille feris, quibus incidit usquam
immeritis per lustra viris! volat ordine nullo
cuncta petens, nunc ad ripas deiectaque saxis
flumina, nunc notas nemorum procurrit ad umbras. 595
rursus Hylan et rursus Hylan per longa reclamat
avia: responsant silvae et vaga certat imago.
At sociis immota fides Austrisque secundis
Nesse entretempo, a noite escura já se deita
Com medo imenso; vêm Palor e o melancólico
Delírio. Como ao nauta o olhar de Jove o peito,
No inverno, gela, e ao lavrador, quando se ajunta
A sombra assustadora, assim do amigo a falta
O Alcides fere e o faz lembrar da cruel madrasta.
De pronto, como um touro atingido no peito
Por mosca alada salta e tomba tudo aquilo
Que encontra no cercado, assim ele se arroja
Para os montes em fuga. As montanhas e a mata
Se atemorizam pelo que, por dor tomado,
O Alcides faça, ou realize ira tamanha.
Qual leão ensangüentado, atingido por lança
Do covarde africano, é espantado a rugir
E sob os dentes rasga o ausente inimigo,
Assim, mostrando o rosto em fúrias, o Tiríntio,
Co’o arco teso, é levado e corre p’ra’s montanhas.
Ai do homem inocente, ai das míseras feras
Que no caminho encontra. Em desordem dispara,
A tudo perseguindo, e já se lança aos rios,
Às corredeiras no rochedo e pelos bosques.
Pelos desvios ele clama: “Volta, Hilas”;
“Volta, Hilas”, responde a mata, e o eco porfia.
Mas firme aos sócios é o intento, e nos bons ventos
258
certa: morae nec parvus Hylas, quamquam omnibus
aeque
grata rudimenta, Herculeo sub nomine pendent. 600
illum omnes lacrimis maestisque reposcere votis
incertique metu nunc longas litore voces
spargere, nunc seris ostendere noctibus ignes.
ipse vel excelsi cum densa silentia montis
strata vel oblatis ductor videt aequora ventis 605
stat lacrimans magnoque viri cunctatur amore.
illius incessus habilemque ad terga pharetram,
illum inter proceres maestaeque silentia mensae
quaerit inops quondam ingenti comprensa trahentem
vina manu et durae referentem monstra novercae. 610
Nec minus interea crudelis Iapyga Iuno
adsidue movet et primis cum solibus offert.
iamque morae impatiens cunctantes increpat ausus
Tiphys et oblato monet otia rumpere cursu.
ergo animum flexus dictis instantis Iason 615
concedit sociosque simul sic fatur ad omnes:
'o utinam, Scythicis struerem cum funera terris,
vox mihi mentitas tulerit Parnasia sortes,
agmine de tanto socium qui maximus armis
adforet, hunc Iovis imperiis fatoque teneri 620
ante procellosum scopulis errantibus aequor.
A confiança. Não por Hilas se detêm,
Posto sua grata juventude, mas por Hércules.
O chamam todos, entre lágrimas e rogos,
Atordoados de medo à praia as vozes lançam
E, em noite adiantada, as fogueiras levantam.
O capitão vê o mar por ventos alisado
E, no alto da montanha, o completo silêncio;
Transido de afeição imensa, chora o herói.
Saudoso, busca seu andar, a aljava às costas,
No silêncio da mesa o melhor dentre os nobres,
O que, outrora, portando o vinho em mão ingente,
Da impiedosa madrasta as maldades contava.
Porém no entanto, a cruel Juno chama os Iápigios
E, com o crepúsculo, os despacha. O ousado Tífis,
Co’o atraso impaciente, increpa os vacilantes
E exorta-os a romper no curso aberto o ócio.
Por fala instante alterado o ânimo, Jasão
Acede e logo aos sócios todos diz assim:
“ Quem dera, quando eu urdia às cítias terras mortes,
Parnásia voz mentidas sortes me trouxera:
De toda a tropa, o que maior em armas fosse,
Por ordem jóvea e Sina, este se reteria
Ante o mar proceloso e os rochedos moventes –
259
necdum fama viri nec certior exstitit auctor.
verum agite et, dubiis variant quae pectora curis,
consulite et, motis seu vos via flatibus urget,
pergite et inceptos mecum revocate labores, 625
seu pluris tolerare moras rursusque propinquis
quaesivisse iugis, pretium haud leve temporis acti.'
Dixerat. at studiis iamdudum freta iuventus
orat inire vias: unum tanto afore coetu
nec minus in sese generis dextrasque potentes 630
esse ferunt. tali mentem pars maxima flatu
erigit et vana gliscunt praecordia lingua:
saltibus ut mediis tum demum laeta reducit
cerva gregem, tum gestit aper reboatque superbis
comminus ~ursa~ lupis, cum sese Martia tigris 635
abstulit aut curvo tacitus leo condidit antro.
At pius ingenti Telamón iam fluctuat ira
cum fremitu saevisque serens fera iurgia dictis
insequitur magnoque implorat numina questu.
idem orans prensatque viros demissaque supplex 640
haeret ad ora ducis, nil se super Hercule fari,
sed socio quocumque, gemens; quamquam aspera fama
iam loca iamque feras per barbara litora gentes,
non alium contra Alciden, non pectora tanta
posse dari. rursum instimulat ducitque faventes 645
Nem mais se ergueu de herói a fama ou certo vate.
Mas, eia, embora os corações variem dúbios,
Deliberai e, se co’o vento o rumo chama-vos,
Apressai e tornai comigo à obra em curso;
Mas tolerar o atraso, e de novo buscá-lo
Nos montes próximos é preço leve ao tempo”.
Há muito presos à ilusão, os jovens pedem
Seguir caminho: dizem um só estar ausente
À larga empresa; e neles raça e mãos potentes
Não faltarem. Mor parte alça o ânimo co’orgulho
E os corações, co’a língua vã, se ensoberbecem –
Qual leda corsa que conduz ao bosque a cria
Ou se alvoroça o javali e a ursa responde
De perto aos lobos, quando o tigre belicoso
Partiu ou o leão, mudo, ocultou-se na caverna.
Mas, pio, Telamón por ira imensa agita-se
E, contestando com fragor em sevos ditos,
Prossegue e implora, com lamento magno aos deuses.
Repetindo, segura os homens e se achega
Ao cabisbaixo capitão: não fala de Hércules
Mas de um sócio qualquer, embora seja fama
Que à região e às feras gentes pela praia,
Contrário, um novo Alcides não poder ser dado,
Nem tanta força. Por seu turno, anima e incita
260
magnanimus Calydone satus, potioribus ille
deteriora fovens semperque inversa tueri
durus et haud ullis umquam superabilis aequis
rectorumve memor. 'non Herculis' inquit 'adempti,
sed tuus in seros haec nostra silentia questus 650
traxit honor, dum iura dares, dum tempora fandi.
septimus hic celsis descendit montibus Auster
iamque ratem Scythicis forsan statuisset in oris.
nos patriae immemores, maneant ceu nulla revectos
gaudia, sed duro saevae sub rege Mycenae, 655
ad medium cunctamur iter. si finibus ullis
has tolerare moras et inania tempora possem,
regna hodie et dulcem sceptris Calydona tenerem
laetus opum pacisque meae tutusque manerem
quis genitor materque locis. quid deside terra 660
haeremus, vacuos cur lassant aequora visus?
tu comitem Alciden ad Phasidis amplius arva
adfore, tu socias ultra tibi rere pharetras?
non ea fax odiis oblitave numine fesso
Iuno sui. nova Tartareo fors semine monstra 665
at<que> iterum Inachiis iam nuntius urget ab Argis.
non datur haec magni proles Iovis, at tibi Pollux
stirpe pares Castorque manent, at cetera divum
progenies nec parva mihi fiducia gentis.
O Caledônio aos favoráveis, defendendo
Com o melhor o pior, sempre mantendo o inverso,
Duro e esquecido da sentença insuperável
Dos retores. Diz: “Não o sumiço de Hércules,
Porém tua honra, esta mudez, co’as queixas últimas,
Nos trouxe, até dares o tempo e a vez da fala.
Dos altos montes, aqui desce o Austro sétimo
E já, talvez, chegasse a nau às praias cítias.
Qual se alegria alguma houvesse aos que retornam,
Porém micênio duro rei, da pátria imêmores
A meio rumo nos detemos. Se eu pudesse
Tolerar a demora e este tempo vazio,
Teria hoje o dulçor do cetro e a Caledônia;
Feliz por minha paz, seguro, ficaria
Onde estão pai e mãe. Por que em ociosa terra
Nos quedamos ou o mar vazio a vista cansa?
Crês, além disso, que o Alcides, junto ao Fase,
Há de estar, e o carcás te seja companheiro?
Não esquece Juno a chama de ódios e de seu
Poder cansado. Quiçá, novos monstros tártaros
Ou o mensageiro da ináquia Argos o aflijam.
Tal jóvea prole não te é dada, mas te ficam,
Em raça iguais, Cástor e Pólux, e dos deuses
Outros filhos – não pouca é minha fé na estirpe.
261
en egomet quocumque vocas sequar, agmina ferro 670
plura metam, tibi dicta manus, tibi quicquid in ipso
sanguine erit iamque hinc operum quae maxima posco.
scilicet in solis profugi stetit Herculis armis
nostra salus. nempe ora aeque mortalia cuncti
ecce gerunt, ibant aequo nempe ordine remi. 675
ille vel insano iamdudum turbidus aestu
vel parta iam laude tumens consortia famae
despicit ac nostris ferri comes abnuit actis.
vos, quibus et virtus et spes in limine primo,
tendite, dum rerum patiens calor et rude membris 680
robur inest; nec enim solis dare funera Colchis
sit satis et tota pelagus lustrasse iuventa.
spes mihi quae tali potuit longissima casu
esse fuit: quiscumque virum perquirere silvis
egit amor, loca vociferans non ulla reliqui. 685
nunc quoque, dum vario nutat sententia motu,
cernere devexis redeuntem montibus opto.
sat lacrimis comitique datum, quem sortibus aevi
crede vel in mediae raptum tibi sanguine pugnae!'
Talibus Oenides urget, simul incita dictis 690
heroum manus. ante omnes Argoa iubebat
vincla rapi Calais. furias miratur ovantum
Aeacides multusque viri cunctantia corda
Para onde chames, seguirei e mandarei
Armadas tropas: minha força e o próprio sangue
Teus serão – já reclamo o máximo dos feitos!
Que esteve nossa salvação nas armas de Hércules,
Que foge, é fato. Eis, todos levam iguais faces
Mortificadas, mas, no ritmo, ir-se-ão os remos.
Há muito, ou pela fúria insano, ou muito altivo
Por já alcançada a glória, o consórcio despreza
E se recusa a ser amigo em nossos feitos.
Vós, que a virtude e a esperança iniciais,
Enquanto há ardor de suportar e força aos membros,
Pelejai! Que não baste dar aos colcos mortes
E ter singrado o mar por toda a juventude.
Mais longa foi-me a espera que em tais circunstâncias
Pode ser: o amor fez-me buscá-lo nas matas
Vociferando – não deixei lugar algum.
Também agora, ao que me hesita a opinião,
Anseio vê-lo regressando do alto monte.
Bastam as lágrimas a quem, crê, foi levado
Pelos azares, ou por chaga em meio a lutas!”
Urge o Enida e logo à tropa a fala incita.
Antes de todos, ordenava Cálais a âncora
Içar-se. O Eácida as fúrias dos ovantes
Contempla e grande dor alcança o coração
262
fert dolor, an sese comitem tam tristibus actis
abneget et celsi maerens petat ardua montis. 695
non tamen et gemitus et inanes desinit iras
fundere. 'quis terris pro Iuppiter' inquit 'Achaeis
iste dies! saevi capient quae gaudia Colchi!
non hi tum flatus, non ista superbia dictis,
litore cum patrio iam vela petentibus Austris 700
cunctus ad Alciden versus favor: ipse iuvaret,
ipse ducis curas meritosque subiret honores.
iamne animis, iam[ne] gente pares? aeque inclita vulgi
dextera? nulla fides, nulli super Hercule fletus?
nunc Porthaonides, nunc dux mihi Thracia proles? 705
aspera nunc pavidos contra ruit agna leones?
hanc ego magnanimi spolium Didymaonis hastam,
quae neque iam frondes virides nec proferet umbras,
ut semel est evulsa iugis ac matre perempta
fida ministeria et duras obit horrida pugnas, 710
testor et hoc omni, ductor, tibi numine firmo:
saepe metu, saepe in tenui discrimine rerum
Herculeas iam serus opes spretique vocabis
arma viri nec nos tumida haec tum dicta iuvabunt.'
Talibus Aeacides socios terroribus urgens 715
inlacrimat multaque comas deformat harena.
fata trahunt raptusque virum certamine ductor
Do herói: ou deixe, com tão triste ação o amigo,
Ou, lamentando, pelos picos altos busque-o.
Não cessa ainda de verter ais e iras vãs:
“Por Jove”, diz, “Que dia é este à terra aquéia!
Quanta alegria os selvagens colcos ganham!
Esta arrogância e esta soberba co’as palavras
Não tinha quando, na orla pátria, o Austro chamando,
Todo o favor era p’r’o Alcides: ele mesmo
Comandaria e manteria o honor e o posto
De capitão. Já sois iguais em força ou raça?
É igual ao vulgo a nobre mão? Nem pranto a Hércules
Há, ou lealdade? O comandante ora é um Partônide
Ou um trácio? O anho ao leão medroso ataca?
Por esta lança, de Didimo grande espólio,
Que não trará nem verdes brotos nem mais sombras,
Dês que arrancada das montanhas, mas, da mãe
Tirada, fiéis ofícios cumpre e duras lutas,
Juro e te afirmo, ó capitão, por estas forças:
No medo, amiúde, em grave risco chamarás
Já tarde a hercúlea ajuda e as armas desprezadas;
E essa arrogante fala em nada ajudará”.
Com tais terrores a inquietar os sócios, chora
E suja o Eácida co’areia a cabeleira.
Os Fados levam e Jasão, do ardor dos homens
263
ibat et obtenta mulcebat lumina palla.
hic vero ingenti repetuntur pectora luctu,
ut socii sedere locis nullaeque leonis 720
exuviae tantique vacant vestigia transtri.
flet pius Aeacides, maerent Poeantia corda,
ingemit et dulci frater cum Castore Pollux.
omnis adhuc vocat Alciden fugiente carina,
omnis Hylan, medio pereunt iam nomina ponto. 725
Dat procul interea toto pater aequore signum
Phorcys et immanes intorto murice phocas
contrahit antra petens. simul et Massylus et una
Lyctius et Calabris redit armentarius arvis.
ilicet extremi nox litore Solis Hiberas 730
condidit alta domos et sidera sustulit axis.
flumina conticuere, iacet cum flatibus aequor.
Amphitryoniades nec quae nova lustra requirat
nec quo temptet iter comitis nec fata parenti
quae referat videt aut socios qua mente revisat. 735
urit amor solisque negat decedere silvis.
non aliter gemitu quondam lea prolis ademptae
terga dedit: sedet inde viis inclusaque longo
pervigilant castella metu, dolor attrahit orbes
interea et misero manat iuba sordida luctu.
Subtraído, os olhos afagava com seu manto.
Os corações, de vero luto, então se tomam,
Ao se sentarem, sem do leão o pêlo, e vago
Tamanho espaço do remeiro. O pio Eácida
Chora; entristece o peâncio peito; se lamenta,
Co’o doce Cástor o irmão Pólux. Indo a nau,
O Alcides todos inda chamam, chamam Hilas
E, em meio ao mar, já os nomes perdem-se. Ao longe,
No entanto, Fórcis dá um sinal por toda a água
E, indo p’ras grutas, com o torcido búzio chama
Imensas focas. Logo o líctio, o massilo
E o pastor calabrês retornam das searas.
De pronto, nos confins do sol, a noite às terras
Hiberas escondeu e o ergueu no céu os astros.
Calou-se o vento e jaz o mar com mansas brisas.
Não vê o Alcides novo espaço em que procure,
Rumo em que busque, nem quê diga ao pai do amigo,
Ou com qual ânimo procure os companheiros.
Arde o amor e lhe impede afastar-se das selvas.
Não de outro modo, outrora a leoa, sem sua prole,
Voltou-se com um gemido e a tropa, em grande medo
Presa, a vigia; a dor, no entanto, fecha os olhos
E a imunda juba, em triste luto, se derrama.
264
CANTO IV
Atque ea non oculis divum pater amplius aequis
sustinuit natique pios miseratus amores
Iunonem ardenti trepidam gravis increpat ira:
'ut nova nunc tacito <se> pectore gaudia tollunt!
haeret inops solisque furit Tirynthius oris, 5
at comite immemores Minyae facilesque relicto
alta tenent. sic Iuno ducem fovet anxia curis
Aesonium, sic arma viro sociosque ministrat.
iam quibus incertam bellis Scythicaeque paventem
gentis opes, quanta trepidam formidine cernam! 10
tum precibus, tum me lacrimis et supplice dextra
attemptare veto. rerum mihi firma potestas.
i, Furias Veneremque move, dabit impia poenas
virgo nec Aeetae gemitus patiemur inultos.'
dixit et arcano redolentem nectare rorem, 15
quem penes alta quies liquidique potentia somni,
detulit inque vagi libavit tempora nati.
ille graves oculos et Hylan resonantia semper
ora ferens, ut nulla deum superare potestas,
procumbit. tandem fessis pax reddita silvis 20
fluminaque et vacuis auditae montibus aurae.
ecce puer summa se tollere visus ab unda
Não o suportou o Pai dos deuses com bons olhos
E, pelo pio amor do filho comovido,
Com ira ardente increpa Juno temerosa:
“Como alegrias ora se erguem em teu peito?
Desatina o Tiríntio e, só, fica na praia;
Esquecidos do amigo abandonado, os Mínias
Ganham o mar. Ansiosa, Juno favoreces
O capitão e lhe concedes arma e homens.
Pela guerra atordoada e pela força cítia
Apavorada, já te vejo, em medo, trêmula!
Com preces, choro ou suplicante gesto vedo-te
A mim rogar. Os meus desígnios são perenes.
Fúrias e Vênus vá e chama. A ímpia virgem
Trará castigos e os ais de Eetes vingarei.”
Disse e mandou um orvalho, olente pelo néctar,
Que traz descansos e o poder dos sonhos bons.
As têmporas do filho errante, então, libou.
Co’olhos pesados e chamando sempre Hilas –
Pois deus algum tem o poder de o superar –
Ele dormiu. A paz, enfim, tornou às selvas,
Nos vazios montes, rio e ventos se ouviram.
Eis o menino, visto a erguer-se na alta onda
265
frondibus in croceis et iniquae munera nymphae
stansque super carum talis caput edere voces:
'quid, pater, in vanos absumis tempora questus? 25
hoc nemus, hoc fatis mihi iam domus, improba quo me
nympha rapit saevae monitu Iunonis, in amne.
nunc Iovis accessus et iam mihi limina caeli
conciliat iungitque <toros> et fontis honores.
o dolor, o dulces quas gessimus ante pharetrae! 30
iam socii laetis rapuerunt vincula ventis,
hortator postquam furiis et voce nefanda
impulit Oenides. verum cum gente domoque
ista luet saevaeque aderunt tua numina matri.
surge age et in duris haud umquam defice, caelo 35
mox aderis teque astra ferent: tu semper amoris
sis memor et cari comitis ne abscedat imago.'
talibus orantem dictis visuque fruentem
ille ultro petit et vacuis amplexibus instat
languentisque movet frustra conamina dextrae: 40
corpus hebet somno refugaque eluditur umbra.
tum lacrimis, tum voce sequi, tum rumpere questus,
cum sopor et vano spes maesta resolvitur actu.
fluctus ab undisoni ceu forte crepidine saxi
cum rapit halcyonis miserae fetumque laremque, 45
it super aegra parens queriturque tumentibus undis
Entre guirlandas de açafrão – dons da cruel ninfa.
E, a se postar junto à cabeça, diz tais falas:
“Por que consomes, pai, o tempo em vãos lamentos?
Por Fado, é minha casa o bosque em que a ninfa,
Lasciva me raptou, a conselho de Juno.
Agora, a permissão de Jove me abre o céu
E me granjeia a honra das fontes e orações.
Ó dor! Ó doces armas que antes carregamos!
Seus companheiros já agarram ledos ventos
Depois que o Enide os impeliu, os exortando
Com grito e fúria – o pagará co’a casa e raça,
E teus poderes à cruel mãe ajudarão.
Ergue-te e nunca te esmoreças nas agruras:
Ao céu os astros levar-te-ão. Lembra-te sempre
Do Amor, e a imagem do amigo nunca afaste”.
Busca tocar a quem falava e à sua vista
Se oferecia e, num vazio abraço, o estreita.
Estende, em vão esforço, a fraca mão: de sono
O corpo é bambo e a fugidia sombra o ilude.
Com grito e pranto o segue, e os lamentos irrompe
Quando a esperança e o sono findam co’ato vão.
Qual quando, por azar, no cais de pedra undíssona
Uma onda arranca o ninho e a cria ao maçarico,
Aflita, a mãe, as vagas segue e se lastima
266
certa sequi quocumque ferant audetque pavetque,
icta fatiscit aquis donec domus haustaque fluctu est;
illa dolens vocem dedit et se sustulit alis:
haud aliter somni maestus labor. exsilit amens 50
effusisque genas lacrimis rigat. 'ibimus' inquit
'solus et hos montes desertaque lustra tenebis,
care puer, nec res ultra mirabere nostras?'
haec fatus relegitque vias et vallibus exit
incertus quid Iuno ferat, quas apparet iras. 55
nec minus et socios cernit procul aequore ferri
praecipites tacitumque pudet potuisse relinqui.
Iamque iter ad Teucros atque hospita moenia Troiae
flexerat Iliaci repetens promissa tyranni,
cum maesto Latona simul Dianaque vultu 60
ante Iovem stetit et supplex sic fatur Apollo:
'in quem alium Alciden, in quae iam tempora differs
Caucaseum, rex magne, senem? nullumne malorum
finem adeo poenaeque dabis? te cuncta precatur
gens hominum atque ipsi iam te, pater <optime>, montes
fessaque cum silvis orant iuga. sat tibi furtum
ignis et aetheriae defensa silentia mensae!'
dixit ubi, e scopulis media inter pabula diri
vulturis ipse etiam gemitu maestaque fatigat
voce Iovem saevis relevans ambusta pruinis 70
E, certa, vai p’ra onde a levem, e ousa e teme,
Até que cansa e o ninho é imerso pelo fluxo –
Ela, a sofrer, grita e se alteia com suas asas;
Não de outro modo foi o sonho: insano, se ergue
E banha as faces com suas lágrimas: “Vou”, diz,
“E ficarás, menino, só nestas montanhas
E ermas paragens? Nossos feitos não verás”?
Retoma o rumo, o tendo dito, e deixa os vales
Incerto do que Juno apreste ou que iras traga.
Mas vê, ao longe, os companheiros apressados
No mar e, mudo, se envergonha do abandono.
Já à hospitaleira Tróia e aos teucros retornava
Buscando os dons pelo tirano prometidos
Quando, tristes, Latona e Diana se postaram
Perante Jove, e Apolo, súplice, assim disse:
“A que outro Alcides, a qual tempo, grande rei,
Guardas do Cáucaso o ancião? Não darás fim
À pena e aos males? Pede-o toda a raça humana
E mesmo os montes, pai, a mata e a serra exausta
Insistem. Já do fogo o furto assaz puniste
E os segredos da mesa etérea preservaste”.
Do rochedo, em meio ao pasto do terrível
Abutre, o velho, com gemido e triste voz,
Erguendo os olhos pelo frio cruel queimados,
267
lumina, congeminant amnes rupesque fragorem
Caucaseae, stupet ipse dei clamoribus ales.
tunc etiam super<as> Acheronte auditus ad arces
Iapetus, gravis orantem procul arcet Erinys
respiciens celsi legem Iovis. ille dearum 75
fletibus et magno Phoebi commotus honore
velocem roseis demittit nubibus Irin.
'i, Phrygas Alcides et Troiae differat arma.
nunc' ait 'eripiat dirae Titana volucri.'
diva volat defertque viro celeranda parentis 80
imperia atque alacrem laetis hortatibus implet.
Iam Minyae mediis clarae per sidera noctis
fluctibus intulerant placido cava lintea cursu
multaque deserto memores super Hercule volvunt.
Thracius at summa sociis e puppe sacerdos 85
fata deum et miserae solans incommoda vitae
securum numeris agit et medicabile carmen.
quod simul adsumpta pulsum fide, luctus et irae
et labor et dulces cedunt e pectore nati.
Interea magni iamiam subeuntibus astris 90
Oceani genitale caput Titania frenis
antra sonant, Sol auricomis urgentibus horis
multifidum iubar et bisseno sidere textam
loricam induitur; ligat hanc qui nubila contra
Implora a Jove. O fragor dobram os caucásios
Rios e picos; co’o clamor, a ave espanta-se.
Do Aqueronte também, na suma arcada, Jápeto
É ouvido, e então, se aparta a Erínia do implorante
Cumprindo a lei de Jove que, em honor a Febo
E comovido pelos rogos dos divinos,
A veloz Íris enviou com róseas nuvens:
“Vai, e que as lutas contra Tróia adie o Alcides
E que do abutre”, diz, “agora o titã livre”.
Voa a deusa e ao herói a urgente ordem do pai
Transmite e o alegra com feliz exortação.
Já em meio o mar os Mínias guiam pelos astros
Da noite clara, em manso curso, as cavas velas
E os feitos de Hércules, que deixam, tanto lembram.
Porém, o vate trácio, aos sócios, da alta popa
Fados divinos aliviando, e o dó da vida,
Medicinal, eleva um canto, na cadência.
Tão logo a lira é em punho, dor, ira e fadiga
No peito cedem, e dos filhos as saudades.
Aquando os astros já poentes no limite
Gerador do Oceano, a gruta do titã
Co’os freios soa. O Sol, trazido pelas louras
Horas, se cinge de fulgor e co’a couraça
Por doze astros ornada, a que o talim se prende
268
balteus undantem variat mortalibus arcum. 95
inde super terras et eoi cornua montis
emicuit traxitque diem candentibus undis
et Minyas viso liquerunt flamina Phoebo.
Proxima Bebrycii panduntur litora regni,
pingue solum et duris regio non invida tauris. 100
rex Amycus. regis fatis et numine freti
non muris cinxere domos, non foedera legum
ulla colunt placidas aut iura tenentia mentes.
quales Aetnaeis rabidi Cyclopes in antris
nocte sub hiberna servant freta, sicubi saevis 105
advectet ratis acta notis tibi pabula dira
et miseras, Polypheme, dapes, sic undique in omnes
prospiciunt cursantque vias, qui corpora regi
capta trahant. ea Neptuno trux ipse parenti
sacrifici pro rupe iugi media aequora supra 110
torquet agens. sin forma viris praestantior adsit,
tum legere arma iubet sumptisque occurrere contra
caestibus: haec miseri sors est aequissima leti.
huc ubi devectam Neptunus gurgite puppem
sensit et extremum nati prospexit in oras 115
et quondam laetos domini certamine campos,
ingemit ac tales evolvit pectore questus:
'infelix imas quondam mihi rapta sub undas
E, contra os nimbos, pinta o arco p’r’os mortais.
Sobre as terras, então, e nos picos do oriente
Brilhou e o dia co’alvas nuvens impeliu;
Mas visto Febo, os ventos deixam os Argonautas.
Próximo se desvela o litoral bebrício,
Gordo solo, região propícia a fortes touros.
Âmico é o rei; no seu nume e sorte os confiados
Nunca muraram casa ou pacto algum respeitam,
Nem cultivam as leis que governam as mentes.
Qual, nas covas do Etna, os ciclopes irados
Procuram mar adentro, em noite tormentosa,
A nau guiada a vento, e os sinistros repastos –
Tua seva refeição, Polifemo! – assim, juntos,
Buscam por toda parte os corpos apresados
Que conduzam ao rei. Sobre u’a rocha no mar,
O próprio fero os lança, em honra ao pai Netuno.
Apareça, porém, herói mais corajoso,
Lhe ordena pegar arma e enfrentá-lo co’os cestos:
Tal é a sorte mais digna à morte de um coitado.
Netuno, ao perceber a nau no mar levada,
Por derradeira vez, fitou do filho as praias
E o campo, antes feliz co’as lutas de seu rei.
Gemeu e expediu do peito tais queixumes:
“Mélia, infeliz, por mim raptada de entre as ondas,
269
nec potius magno Melie tum mixta Tonanti!
usque adeone meam quacumque ab origine prolem
tristia fata manent? sic te olim pergere sensi,
Iuppiter, iniustae quando mihi virginis armis
concidit infelix et nunc chaos implet Orion.
nec tibi nunc virtus aut det fiducia nostri,
nate, animos opibusque ultra ne crede paternis. 125
iamiam aliae vires maioraque sanguine nostro
vincunt fata Iovis, potior cui cura suorum est.
atque ideo nec ego hanc tumidis avertere ventis
temptavi tenuive ratem nec iam mora morti
hinc erit ulla tuae. reges preme, dure, secundos!' 130
abstulit inde oculos natumque et tristia linquens
proelia sanguineo terras pater adluit aestu.
Principio fluvios gentemque et litora ductor
explorare iubet paulumque egressus Echion
invenit obscura gemitus in valle trahentem 135
clam iuvenem et caesi maerentem nomen amici.
ille virum ut contra venientem umbrataque vidit
tempora Parrhasio patris de more galero
paciferaeque manu nequiquam insignia virgae,
'heu fuge' ait 'certo quicumque es, perdite, passu 140
dum datur!' obstipuit visu Nonacria proles
quid ferat admirans. postquam remeare monentem
Que pelo mor Tonante enleada antes fosses!
Até quando a Fortuna à minha prole inteira
Infausta permanece? Assim compreendi, Jove,
Fazeres dês que por injusta arma da Virgem,
Triste, Órion pereceu, e ora no Caos habita.
Virtude ou confiança em mim não dêem-te agora,
Filho, ânimo, nem mais esperes pátrio auxílio.
Já outras forças há, maiores que meu sangue:
Vence o Fado de Jove, aos seus mais cuidadoso.
Por isso, com tufões, não quis desviar a nave
Nem detê-la; afinal, não haverá tardança
P’ra tua morte. Ó Cruel, os reis mais fracos mata!”
Retira o pai o olhar; o filho à luta deixa
E com sanguíneo esto inunda a terra inteira.
De pronto, o capitão ordena se explorarem
Rios, praias e gente. Equião, saindo apenas,
Achou no escuro vale, às ocultas gemendo,
Um jovem a chamar do amigo morto o nome.
Ao ver chegar o herói, co’as têmporas cobertas
Por barrete parrásio à maneira do pai,
Levando o signo, em vão, da pacífera Virgem:
“Quem quer que sejas”, diz, “foge agora, ó perdido,
Enquanto é dada via”. O nonácrio se espanta
Com aquilo que ouve e vê. Compreendendo o aviso
270
ocius et dictis perstantem cernit in isdem,
abripit et sociis quae sint ea promere cogit.
ille manum tendens 'non haec' ait 'hospita vobis 145
terra, viri, non hic ullos reverentia ritus
pectora: mors habitat saevaeque hoc litore pugnae.
iam veniet diros Amycus qui tollere caestus
imperet et vasto qui vertice nubila pulset.
talis in advectos Neptuni credita proles 150
aeternum furit atque aequae virtutis egentes
ceu superum segnes ad iniqua altaria tauros
constituit, tandem ut misero lavet arma cerebro.
consulite atque fugae medium ne temnite tempus.
namque isti frustra quisquam concurrere monstro
audeat et quaenam talem vidisse voluptas?'
ductor ad haec: 'Bebryxne venis diversaque regi
corda gerens--melior vulgi nam saepe voluntas--
hostis an externis fato delatus ab oris?
et tua cur Amycus caestu nondum obruit ora?' 160
'nomen' ait 'praedulce mihi ~nomen~que secutus
Otreos unanimi. decus ille et laeta suorum
gloria nec vestros comes aspernandus in actus
Hesionam et Phrygiae peteret cum gaudia nuptae,
hic Amycum contra iussus stetit atque ego palmas165
implicui. sed prima procul vixdum ora levantis
De regresso veloz na fala repetida,
O arrasta e o faz contar tal coisa aos companheiros.
Aquele, a mão tomando: “Esta terra” lhes diz,
“Não vos é amiga. Aqui, reverência alguma há
Nos corações. A praia habitam morte e lutas.
Âmico já virá, exigirá os cestos
E as nuvens socará no vasto firmamento.
O filho de Netuno enfurece-se contra
Os que chegam à terra e oferta os desvalidos,
Qual indolente touro, em cruel altar dos deuses,
De forma que mergulhe os cestos dentro ao cérebro.
Deliberai, mas não gasteis tempo de fuga.
Enfim, quem há que, em vão, se atreva a combater
Tal monstro? Qual prazer existe em tê-lo visto?”
A este, o capitão: “És bebrício, mas de ânimo
Contrário ao rei? Melhor sempre é o favor do vulgo!
Ou estrangeiro és, trazido pelo Fado?
E por que Âmico ainda a ti não destruiu?”
“Segui o nome”, diz, “o nome a mim mais doce,
O do unânime Otreu, honra e festiva glória
Dos seus, valioso amigo em vossas aventuras.
Ledo nubente, indo em busca de Hesíone,
Âmico o fez lutar; aqui esteve e os cestos
Calcei-lhe. Mas de longe, à face levantada,
271
fulminea frontem dextra disiectaque fudit
lumina. me numquam leto dignatus et armis,
sed lacrimis potius luctuque absumor inerti.
spes tamen, his fando si nuntius extitit oris 170
et Mariandynum patrias penetravit ad urbes,
unde genus fraterque viro--sed et ille quierit
oro nec vanis cladem Lycus augeat armis.'
Haec ubi non ulla iuvenes formidine moti
accipiunt dolor et dura sic pergere mente, 175
terga sequi properosque iubet coniungere gressus.
litore in extremo spelunca apparuit ingens
arboribus super et dorso contecta minanti,
non quae dona deum, non quae trahat aetheris ignem,
infelix domus et sonitu tremebunda profundi. 180
at varii pro rupe metus: hinc trunca rotatis
bracchia rapta viris strictoque immortua caestu
ossaque taetra situ <et> capitum maestissimus ordo
per piceas, quibus adverso sub vulnere nulla
iam facies nec nomen erat; media ipsius arma 185
sacra metu[que] magnique aris imposta parentis.
hospitis hic primum monitus rediere Dymmantis
et pavor et monstri subiit absentis imago
atque oculos cuncti inter se tenuere silentes,
donec sidereo Pollux interritus ore 190
A destra fulminante acertou rosto e olhos.
Nunca da morte digno, e nem das lutas, fui,
Antes sou consumido em luto inerte e lágrimas.
Chance apenas, se o núncio estas terras deixou
Alcançando a cidade, a pátria mariandina,
E Lico, o irmão de Otreu. Mas torço que não possa
E nem ouse a derrota em combates inúteis!”
Quando, por valentia açulados, os jovens
O ouvem, ele já vê o ânimo endurecer-lhes.
Que o sigam lhes suplica, e apressa-lhes o passo.
No fim da praia, imensa, vê-se uma caverna
Por árvores coberta, a crista tendo à mostra;
Nem atrai fogo etéreo e nem os dons dos deuses;
Desgraçado lugar, fremente com estrondos.
Pavores há na rocha: arrancados do tronco,
Aqui, braços viris e, mortos pelos cestos,
Ossos podres; u’a fila horrível de cabeças
Nas estacas e nome algum àquelas faces,
Sob as chagas, restava. Ao meio, suas armas
Temidas, ao altar do grande pai votadas.
Recordaram primeiro o aviso de Dimante.
Medo e imaginação do monstro sobrevêm,
E todos, entre si, o mudos olhos correm
Até que Pólux, bravo, esplendente seu rosto,
272
'te tamen hac, quicumque es,' ait 'formidine faxo
iam tua silva ferat, modo sint tibi sanguis et artus!'
omnibus idem animus forti decernere pugna
exoptantque virum contraque occurrere poscunt.
qualiter ignotis spumantem funditus amnem 195
Taurus aquis qui primus init, spernitque tumentem,
pandit iter, mox omne pecus formidine pulsa
pone subit iamque et mediis procedit ab undis.
At procul e silvis sese gregibusque ferebat
saevus in antra gigas, quem nec sua turba tuendo 200
it taciti secura metus. mortalia nusquam
signa manent; instar scopuli, qui montibus altis
summus abit longeque iugo stat solus ab omni.
devolat inde furens nec quo via curve profecti
nec genus ante rogat, sed tali protonat ira: 205
'incipite, o iuvenes! etenim fiducia, credo,
huc tulit auditas et sponte lacessitis oras.
sin errore viae necdum mens gnara locorum,
Neptuni domus atque egomet Neptunia proles. 213
hic mihi lex caestus adversaque tollere contra 209
bracchia, sic ingens Asiae plaga quique per Arcton
dexter et in laevum pontus iacet haec mea visit
hospitia, hoc cuncti remeant certamine reges.
iam pridem caestus resides et frigida raris 214
Diz: “Embora o terror, farei, quem quer que sejas,
Que tua mata te traga, acaso tenhas força
De ver luta feroz é a vontade de todos.
Chamam pelo gigante e pedem o confronto -
Tal qual touro que, ao fundo, em rio caudaloso
De desconhecida água a corrente despreza
E mostra o curso, logo a grei toda, sem medo,
Já atrás o acompanha e se adianta nas ondas.
E das matas, ao longe, o gigante trazia
O rebanho à caverna. O seu bando, ao olhá-lo,
Se emudece em pavor. Nenhum sinal de vida
Resta. Tal qual é uma rocha que se alteia
No alto da serra e, só, permanece isolada.
Em fúria, então, se abaixa e antes não inquire
Raça, curso ou razão, mas brada com tal ira:
“Começai, jovens, pois, eu creio que a ousadia
Trouxe-vos, livremente, às praias desafiardes.
Mas, se em falha de rota, onde estais não sabeis,
Esta é a casa netúnia e eu mesmo sou seu filho.
Aqui a lei é minha – o pugilato e os cestos.
Por isso, a imensa Ásia e o que, à destra e à sinistra,
Ao norte banha o mar, contemplam meus domínios.
Daqui só voltam reis, depois deste combate.
Ocioso, há muito, é o cesto, e fria, a seca terra –
273
dentibus aret humus. quis mecum foedera iunget?
prima manu cui dona fero? mox omnibus idem
ibit honos. fuga sub terras, fuga nulla per auras.
nec lacrimae--ne ferte preces--superive vocati
pectora nostra movent: aliis rex Iuppiter oris.
faxo Bebrycium nequeat transcendere puppis 220
ulla fretum et ponto volitet Symplegas inani.'
Talia dicta dabat, cum protinus asper Iason
et simul Aeacidae simul et Calydonis alumni
Nelidesque Idasque prior quae maxima surgunt
nomina, sed nudo steterat iam pectore Pollux. 225
tum pavor et gelidus defixit Castora sanguis,
nam nec ad Elei pugnam videt ora parentis
nec sonat Oebalius caveae favor aut iuga nota
Taygeti, lavitur patrios ubi victor ad amnes,
nec pretium sonipes aut sacrae taurus harenae, 230
praemia sed manes reclusaque ianua leti.
illum Amycus nec fronte trucem nec mole tremendum,
vixdum etiam primae spargentem signa iuventae,
ore renidenti lustrans obit et fremit ausum
sanguineosque rotat furiis ardentibus orbes. 235
non aliter iam regna poli, iam capta Typhoeus
astra ferens Bacchum ante acies primamque deorum
Pallada et oppositos doluit sibi virginis angues.
Sem arrancados dentes. Quem apostará?
A quem, primeiro, eu trago o dom? Terá em breve
O mesmo honor dos outros. Não adiantam preces
Sem fuga em terra ou ar, nem súplicas nem prantos
Movem-me o coração: só alhures Jove é rei!
Farei que nau alguma o mar bebrício vença
E que, no inane ponto, choquem-se as Simplégades”.
Dizia coisas tais quando Jasão, ligeiro,
Os Eácidas logo, a prole caledônia
Mais Idas e o Nelida, os altos nomes gritam,
Porém, co’o peito nu, já Pólux se levanta.
Pavor; e o gelo, então, em Cástor parou o sangue
Pois, na luta, não vê do pai a face eleide,
Não soa o ebálio aplauso ou o cume do Taigeto,
Qual quando, vencedor, se lava em rios pátrios.
Não são prêmios da arena o touro ou o corcel,
Mas os Manes e a porta aberta para a morte.
Âmico, então, o encara, as faces perlustrando:
Nem fronte carrancuda ou porte truculento,
Apenas os sinais da tenra juventude.
Tremendo, os olhos torce, em fúrias implacáveis.
Qual Tifeu ostentando as estrelas cativas,
Do céu o mando, Baco e Palas sob o gume,
Da Virgem padeceu as serpes oponentes,
274
sic adeo insequitur rabidoque ita murmure terret:
'quisquis es, infelix celeras puer, haud tibi pulchrae 240
manserit hoc ultra frontis decus orave matri
nota feres. tune a sociis electus iniquis?
tune Amyci moriere manu?' nec plura moratus
ingentes umeros spatiosaque pectoris ossa
protulit horrendosque toris informibus artus. 245
deficiunt visu Minyae, miratur et ipse
Tyndarides. redit Alcidae iam sera cupido
et vacuo maestos lustrarunt lumine montes.
at satus aequoreo fatur tunc talia rege:
'aspice et haec crudis durata volumina tauris 250
nec peto sortis opem, sed quos potes indue caestus.'
Dixit et urgentis post saeva piacula fati
nescius extremum hoc armis innectere palmas
dat famulis, dat et inde Lacon. odia aspera surgunt
ignotis prius atque incensa mente feruntur 255
in medium sanguis Iovis et Neptunia proles.
hinc illinc dubiis intenta silentia votis
et pater orantis caesorum Tartarus umbras
nube cava tandem ad meritae spectacula pugnae
emittit. summi nigrescunt culmina montis. 260
Continuo Bebryx, Maleae velut arce fragosa
turbo rapax, vix ora virum, vix tollere passus
Assim ele acomete e aterra com grunhido:
“Apressa-te, infeliz, que não te restará
De um belo rosto a honra; e o íntimo semblante
A mãe não mais verá. És o eleito entre os sócios?
És tu quem vais morrer pelos punhos de Âmico?”
Sem mais, exibe o largo peito, ingentes ombros
E os horrorosos braços, com disformes músculos.
Até Pólux se assusta, e os Mínias se quebrantam.
Do Alcides lembram tarde e, c’olhos de esperança,
O procuram em vão pelos montes tristonhos.
Do rei equóreo o filho assim falou, então:
“Vê do touro cruel estas duras correias.
Não implores a sorte e calça agora os cestos.”
Disse, insciente do Fado a urgir o sacrifício
E, pela última vez, dá as mãos p’ra se armarem.
Igual faz o lacônio. Entre os antes estranhos,
Áspero ódio se ergue e, p’r’o meio da arena,
Vão o sangue de Jove e a prole de Netuno.
Aqui e ali, silêncio entesado por preces.
Tártaro, finalmente, em cava nuvem manda
À espetacular luta as sombras suplicantes
Dos mortos. A cimeira enegrece nos montes.
De contínuo, o bebrício, igual málio tufão,
Faz o rapaz erguer os punhos e a cabeça,
275
bracchia torrenti praeceps agit undique nimbo
cursibus involvens totaque immanis harena
insequitur. vigil ille metu cum pectore et armis 265
huc alternus et huc, semper cervice reducta
semper et in digitis et summi pulvere campi,
proiectusque redit. spumanti qualis in alto
Pliade capta ratis, trepidi quam sola magistri
cura tenet, rapidum ventis certantibus aequor 270
intemerata secat, Pollux sic providus ictus
servat et Oebalia dubium caput eripit arte.
ut deinde urgentes effudit nubibus iras
ardoremque viri, paulatim insurgere fesso
integer et summos manibus deducere caestus. 275
ille dies aegros Amyci sudoribus artus
primus et arenti cunctantem vidit hiatu
nec sua defessum noscunt loca nec sua regem
agmina. respirant ambo paulumque reponunt
bracchia, ceu Lapithas aut Paeonas aequore in ipso 280
cum refovet fixaque silet Gradivus in hasta.
vix steterant et iam ecce ruunt inflictaque late
terga sonant. nova vis iterum, nova corpora surgunt.
hunc pudor, hunc noto iam spes audentior hoste
instimulat. fumant crebro praecordia pulsu, 285
avia responsant gemitu iuga. pervigil ut cum
Temerário, a altear nuvem da correria
Que, inumana, percorre e envolve a arena inteira.
Pólux, com medo e alerta, alternos peito e cestos,
Aqui e ali, cerviz mantida sempre em guarda,
Sobre a ponta dos pés, na poeira do chão,
Atrevido, revida. Igual nave apanhada
Por borrasca no mar, que a atenção do piloto
É tão só o que tem, ilesa singra as águas
Revoltas pelo vento, assim Pólux, esperto,
Segue os golpes e ginga a testa, em arte ebália.
Quando, então, dissipou as iras do gigante
E seu ardor lançou nas nuvens, pouco a pouco,
Ainda forte, fez cair do punho os cestos.
Foi o primeiro dia a ver os membros de Âmico
Exaustos em suor, boca seca e ele lento.
Nem sua pátria ou povo já conhece o rei.
Arfam os dois e, um tanto, os braços revigoram,
Como quando o Gradivo anima, em seu campo
O lápita e o peônio, apoiado na lança.
Eis que atacam tão logo aprumados; os flancos
Ressoam. Força nova e mais vigor ressurgem.
A um o pudor impele, a outro, a esperança
Cada vez mais audaz. Fumeia o peito aos golpes
E a serra ecoa em ais, igual quando Vulcano
276
artificum notat ipse manus et fulmina Cyclops
prosubigit, pulsis strepitant incudibus urbes.
emicat hic dextramque parat dextramque minatur
Tyndarides, redit huc oculis et pondere Bebryx 290
sic ratus, ille autem celeri rapit ora sinistra:
conclamant socii et subitas dant gaudia voces.
illum insperata turbatum fraude furentemque
Oebalides prima refugit dum detonet ira,
territus ipse etiam atque ingentis conscius ausi. 295
saevit inops Amycus nullo discrimine sese
praecipitans avidusque viri (respectat ovantes
quippe procul Minyas), tunc caestu elatus utroque
inruit. hos inter Pollux subit et trucis ultro
advolat ora viri nec spes effecta, sed ambae 300
in pectus cecidere manus. hoc saevior ille
ecce iterum vacuas agit inconsulta per auras
bracchia. sentit enin Pollux rationis egentem,
dat genibus iunctis latus effusumque secutus
haud revocare gradum patitur turbatque premitque 305
ancipitem crebros et liber congerit ictus
desuper averso. sonat omni vulnere vertex
inclinis ceditque malis. iam tempora manant
sanguineaeque latent aures, vitalia donec
vincula, qua primo cervix committitur artu, 310
O grupo de artesãos vigia, e o ciclope
Forja o raio, estrondeando a vila co’as pancadas.
Pólux levanta a destra e com ela ameaça;
Preparado o bebrício, os olhos nela prende.
O outro, porém, lhe acerta a face com a esquerda.
Prorrompem co’alegria, aos brados os comparsas.
Do furioso, aturdido em murro sorrateiro,
O ebálide se afasta, enquanto a ira aplaca-se,
Assustado ele mesmo, e ciente da audácia.
Âmico se transtorna e, enlouquecido e ávido,
Confrontando o herói porquanto vê ao longe
Os Mínias triunfando, os cestos ergue e ataca.
Pólux entre estes passa e se atira contrário
À carranca feroz, mas balda-se a esperança:
Ambas mãos caem no peito. O outro, furibundo,
Eis que agita de novo os braços no ar vazio.
Pólux o vendo perder siso, os joelhos junta,
O flanco põe à mostra e acompanha-lhe a queda;
Não lhe permite andar, o empurra e o segura
E, livre, espanca o tonto, a golpes repetidos
De cima a baixo. Zune a testa despencada
E, pelas dores, tomba. Escorre suor nas têmporas
Da orelha mana sangue, e a mão direita rompe
O elo vital que une a vértebra à cerviz.
277
solvit dextra gravis. labentem propulit heros
ac super insistens 'Pollux ego missus Amyclis
et Iove natus.' ait 'nomen mirantibus umbris
hoc referes. sic et memori noscere sepulchro.'
Bebrycas extemplo spargit fuga, nullus adempti 315
regis amor: montem celeres silvamque capessunt.
haec sors, haec Amycum tandem manus arcuit ausis
effera servantem Ponti loca vimque iuventae
continuam et magni sperantem tempora patris.
tenditur ille ingens hominum pavor arvaque late 320
occupat, annosi veluti si decidat olim
pars Erycis vel totus Athos. qua mole iacentis
ipse etiam expleri victor nequit oraque longo
comminus obtutu mirans tenet. at manus omnis
heroum densis certatim amplexibus urgent 325
armaque ferre iuvat fessasque attollere palmas.
'salve, vera Iovis, vera o Iovis' undique 'proles'
ingeminant 'o magnanimis memoranda palaestris
Taygeta et primi felix labor ille magistri!'
dumque ea dicta ferunt, tenues tamen ire cruores 330
siderea de fronte vident nec sanguine Pollux
territus averso siccabat vulnera caestu.
illius excelsum ramis caput armaque Castor
implicat et viridi conectit tempora lauro
Derrubando o oscilante, o herói sobre ele pisa:
“Eu vim de Amiclas, Pólux sou, filho de Jove”,
Fala, “Dirás meu nome às sombras admiradas
E assim serás famoso em tumba memorável!”
Sem amor pelo morto, os bebrícios se espalham
Rumo aos bosques e ao monte, apressados escapam.
Tal é o destino – o povo enfim se afasta de Âmico
Que resguardava o mar bravio ansiando ter
Contínua jovem força e os séculos do pai.
Dos homens grão pavor, estendido ele ocupa
Larga veiga, tal qual se uma parte do Érice
Ou o Atos todo caísse um dia. O vencedor
De o ver não cansa; ao morto, perto, contemplando,
Tem fixo o longo olhar. Co’ abraços apertados
Todo o grupo de heróis o saúda à porfia
E das cansadas mãos tirar o cesto ajudam.
“Salve, prole de Jove” em toda parte aclamam,
“Ó celebérrimo Taígeto dos ringues,
Feliz proeza é esta, a do primeiro mestre!”
Bem dizem coisas tais, fios de sangue percebem
Escorrerem na fronte excelente, mas Pólux,
Intrépido, secava a ferida co’o cesto.
Cástor, com ramos lhe cingiu armas e testa,
E co’um verde laurel coroou suas as têmporas.
278
respiciensque ratem 'patriis' ait 'has precor oris, 335
diva, refer frondes cumque hac freta curre corona.'
dixerat. hinc valida caedunt armenta bipenni
perfusique sacro placati gurgitis amne
graminea sternuntur humo, tunc liba dapesque
frondibus accumulant; exsortia terga Laconi 340
praecipiunt pecudum. toto mox tempore mensae
laetus ovat nunc laude virum, nunc vatis honoro
carmine, victori geminans cratera parenti.
Iamque dies auraeque vocant rursusque capessunt
aequora, qua rigidos eructat Bosporos amnes. 345
illos, Nile, tuis nondum dea gentibus Io
transierat fluctus, unde haec data nomina ponto.
tum pius Oeagri claro de sanguine vates
admonita genetrice refert casusque locorum
Inachidosque vias pelagusque emensa iuvencae 350
exilia intentisque canit. 'videre priores
saepe Iovem <in> terras Argivaque regna Pelasgum
virginis Iasiae blandos descendere ad ignes.
sentit Iuno dolos curaque accensa iugali
aethere desiluit (dominam Lyrceia tellus 355
antraque deprensae tremuerunt conscia culpae),
cum trepida Inachiae paelex subit ora iuvencae
sponte dei; plausu fovet hanc et pectora mulcet
Mirando as naves, diz: “Rogo-te, deusa, à pátria
Estas ramas conduz e singra co’elas os mares”.
Então, com duplo gume, imolam grandes reses
E, banhados na água aplacada do mar,
Estendem-se na relva e dispõem na folhagem
O banquete e a oferenda, e ao lacônio concedem
O melhor do festim. Ao tempo do repasto
Ele se rejubila ao louvor dos heróis,
Brindando ao sumo pai, à canção dos poetas.
Já a brisa e o dia chamam, e outra vez adentram
No mar em que gelados rios lança o Bósforo.
Tais águas, Nilo, não passara ainda Io –
Dos teus a deusa, por quem deu-se nome ao ponto.
O pio vate, então, do nobre Eagro o filho,
Co’a inspiração materna, a história dos lugares
Canta, e da ináquia vaca o exílio, que caminhos
E mares percorreu: “Os velhos viam Jove
No reino argivo, amiúde, às terras dos pelasgos,
Descer em busca à suave chama da iásea.
Sentindo Juno o dolo, acesos os ciúmes,
Do céu lançou-se; a terra e as grutas do Lirceu,
Conscientes de sua culpa, assustadas tremeram,
Ao que a pávida amante em ináquia rês tornou-se,
Por desígnio divino. A chama Juno e afaga-lhe
279
Iuno renidenti cohibens suspiria vultu.
mox ita adorta Iovem: "da quam modo ditibus Argis
campus alit primae referentem cornua Phoebes
indomitamque bovem, da carae munera nuptae.
ipsa ego dilectae pecudi iam pascua digna
praecipuosque legam fontes." qua fraude negaret
aut quos inventos tenuisset Iuppiter astus? 365
muneris illa potens custodem protinus Argum
adiungit. custos Argus placet, inscia somni
lumina non aliter toto cui vertice quam si
Lyda nurus sparso telas maculaverit ostro.
Argus et in scopulos et monstris horrida lustra 370
ignotas iubet ire vias heu multa morantem
conantemque preces inclusaque pectore verba.
ultima tum patriae cedens dedit oscula ripae;
flevit Amymone, flerunt Messeides undae,
flevit et effusis revocans Hyperia lacertis. 375
illa, ubi vel fessi tremerent erroribus artus
vel rueret summo iam frigidus aethere vesper,
heu quotiens saxo posuit latus aut, ubi longa
aegra siti, quos ore lacus, quae pabula carpsit,
verbere candentes quotiens exhorruit armos! 380
quin et ab excelso meditantem vertice saltus
audentemque mori valles citus egit in imas
O peito enquanto oculta a ira em rosto alegre.
A Jove pede assim: “Dá-me a vaca que, há pouco,
Com a argiva abastança, o campo alimentava.
Dá-me aquela que tem os chifres qual da Fêbea.
Eu mesma buscarei para a arisca novilha
Um digno pasto e a melhor fonte”. Com que fraudes
Ou com que ardis lhe poderia negar Jove?
Feliz com o com, logo, a confia ao vigilante
Argos, que aceita o múnus, tendo os muitosolhos
Que não conhecem sono espraiados na testa
Qual pingos púrpuras que a Lídia salpicara.
Argos a obriga a ir nas rochas, pelas trilhas
Horríveis de animais, enquanto ela, a tardar-se,
No peito a fala inclusa, as preces conduzia.
Por último, ao partir, beijou as pátrias margens;
O Amímone chorou, e as ondas do Messeide;
De volta aos braços seus, chamou por ela a Hipéria.
Co’as patas a tremer, exaustas pela andança,
Quando, no sumo do céu, já Vésper declinara,
Ah, quantas vezes quis nu’a rocha recostar-se,
Ou, co’a boca sedenta, água e pastos buscou,
Tantas outras tremeu o lombo sob o açoite.
Mas como ela ensaiasse, ousando mesmo a morte,
Das pedras atirar-se, Argos, presto, a levou
280
Argus et arbitrio durus servavit erili,
cum subito Arcadio sonuit cava fistula ritu
imperiumque patris celerans Cyllenius ales 385
advenit et leni modulatur carmen avena
"quo" que ait "hinc diversus abis? heus respice cantus!"
haud procul insectans Argum languentia <cantu>
lumina cuncta notat dulcesque sequentia somnos
et celerem mediis in cantibus exigit harpen. 390
iamque refecta Iovi paulatim in imagine prisca
ibat agris Io victrix Iunonis et ecce
cum facibus spirisque et Tartareo ululatu
Tisiphonen videt: ac primo vestigia visu
figit et in miserae rursus bovis ora recurrit. 395
nec qua valle memor <nec> quo se vertice sistat
Inachias errore etiam defertur ad undas,
qualis et a prima quantum mutata iuvenca!
nec pater aut trepidae temptant accedere nymphae.
ergo iterum silvas, iterum petit invia retro 400
ceu Styga dilectum fugiens caput. inde per urbes
raptatur Graias atque ardua flumina ripis,
oblato donec paulum cunctata profundo
incidit. absistunt fluctus et gnara futuri
dant pavida alta viam, celsis procul ipsa refulget 405
cornibus ac summa palearia sustinet unda.
A um vale e, com rigor de amo cruel, a vigiava
Quando uma flauta soou arcádia melodia
E, obedecendo ao pai, chegou o celênio alado
A modular na avena um canto delicado:
“Aonde vais”? indaga, “esta música escuta”.
Seguindo Argos de perto, ao langor da canção
Fechados olhos nota, em doces sonhos presos;
E, em meio à melodia, o curvo gume saca.
Por Jove à forma, pouco a pouco, retornada,
Vencedora de Juno, ia Io pelos campos,
Mas eis que com ululo, archotes e chicote,
Tisífone divisa: os passos pronto queda
E, de novo, às feições da pobre vaca torna.
Não lembrada de em qual montanha ou vale esteja,
Em errância é levada às ináquias correntes:
Mudada quanto e quão da primeira novilha!
Não tentam pai e irmãs dela se aproximarem,
Que logo volta à mata, a fugir nos desvios,
Da amada face qual do Estige. É conduzida
Por gregas vilas e por rios de altas margens
Até que, um tempo após, no mar profundo arroja-se.
Abrem-se as águas e o oceano espantadiço,
Previdente, franqueia a via, e ela, ao largo,
Co’altos chifres refulge, e soergue a onda o colo.
281
ast Erebi virgo ditem volat aethere Memphin
praecipere et Pharia venientem pellere terra.
contra Nilus adest et toto gurgite torrens
Tisiphonen agit atque imis inlidit harenis 410
Ditis opem ac saevi clamantem numina regni.
apparent sparsaeque faces disiectaque longe
verbera et abruptis excussi crinibus hydri.
nec Iovis interea cessat manus: intonat alto
insurgens caelo genitor curamque fatetur 415
atque ipsa imperium Iuno pavet. haec procul Io
spect[ab]at ab arce <Phari>, iam divis addita iamque
aspide cincta comas et ovanti persona sistro.
Bosporon hinc veteres errantis nomine divae
vulgavere. iuvet nostros nunc ipsa labores 420
immissisque ratem sua per freta provehat Euris.'
Dixerat et placidi tendebant carbasa venti.
postera non cassae Minyis Aurora retexit
noctis iter: nova cuncta vident Thyneaque iuxta
litora fatidici poenis horrentia Phinei, 425
dira deum summo quem vis urgebat in aevo.
quippe neque extorrem tantum nec lucis egentem
insuper Harpyiae Typhonides, ira Tonantis,
depopulant ipsoque dapes praedantur ab ore.
talia prodigia et tales pro crimine poenas 430
A virgem do Érebo à rica Mênfis voa,
Esperando alcançar a que arribava em Faros.
Contrário o Nilo – que com toda a força lança-se –
Tisífone carrega e a arrasta contra a areia
Enquanto implora ao dítio reino por socorro.
Ao longe espalham-se os archotes apagados,
U’estirado azorrague e os cabelos de cobra.
Não cessa a mão de Jove: alçando-se no céu
O pai troveja e o amor professa; a própria Juno
Se espanta co’o poder. No templo fário Io,
a tudo vê, já entre os deuses, tendo a tranças
Por serpe atadas, co’um pandeiro a retumbar.
Em honra à deusa, então, ali chamou-se Bósforo!
Que a própria deusa ajude agora nossa empresa
E por seu mar conduza a nau, enviando o Euro”.
Falou e os ventos bons as velas distenderam.
Não foi em vão que a Aurora aos Mínias revelou
Da noite o curso. Tudo é novo e à praia tínia
Vêem, desgraçada pelas penas de Fineu,
A quem vexava a todo instante a ira dos deuses.
Desterrado não só, e privado da luz,
Mas as harpias tifoníades por cólera
De Jove acossam-no e, da boca, o pasto roubam-lhe.
Com tais prodígios, por um crime expia as penas.
282
perpetitur. spes una seni, quod pellere saevam
quondam fata luem dederant Aquilone creatis.
ergo ubi iam Minyas certamque accedere Phineus
sentit opem, primas baculo defertur ad undas
vestigatque ratem atque oculos attollit inanes. 435
tunc tenuem spirans animam 'salve o mihi longum
exspectata manus nostrisque' ait 'agnita votis.
novimus et divis geniti quibus et via iussos
quae ferat ac vestri rebar sic tempora cursus
proxima quaeque legens, quantum Vulcania Lemnos
traxerit, infelix tulerit quae Cyzicus arma.
sensi et Bebrycio supremam in litore pugnam
iam propior iamque hoc animam solamine mulcens.
non ego nunc magno quod cretus Agenore Phineus
aut memorem mea quod vates insedit Apollo 445
pectora: praesentis potius miserescite fati!
nec mihi diversis erratum casibus orbem
amissas aut flere domos aut dulcia tempus
lumina; consuetis serum est ex ordine fatis
ingemere. Harpyiae semper mea pabula servant, 450
fallere quas nusquam misero locus: ilicet omnes
deveniunt niger intorto ceu turbine nimbus
iamque alis procul et sonitu mihi nota Celaeno.
diripiunt verruntque dapes foedataque turbant
Una esperança: outrora os fados concederam
Por prole do Aquilão ser rechaçada a peste.
E bem Fineu sente chegar o mínio auxílio,
Às primas ondas, pelo báculo, é guiado;
Procura a nau e os olhos ocos alevanta.
Diz, suspirando: “Salve, ajuda ansiada há muito,
Que às súplicas me ouviu. De quais deuses sois filhos
E o rumo que vos leva obrigados conheço.
Assim, contava do percurso o vosso tempo
Colhendo os feitos: quanto Lemnos vos retinha
E as tropas que o infeliz Cízico conduzia;
Senti na orla bebrícia o supremo combate –
Mais perto a ajuda, mais minh’alma se acalmando.
Que sou Fineu, de Agenor filho, eu não vos lembre,
Ou que em meu peito o vate Apolo fez morada.
Antes, vos apiedai da presente desdita.
Por minha errância pelo mundo, em desventuras,
Perdida a casa ou doces luzes não é tempo
De chorar – tardo é o lamentar da useira sina.
Sempre as harpias acompanham meus repastos –
Não há lugar onde esconder-me. Todas, logo,
Em turbilhão, qual negra nuvem, se aproximam.
Reconheço Celeno, ao longe, pelos guinchos!
A mesa assaltam e rapinam, sujam copos.
283
pocula, saevit odor surgitque miserrima pugna 455
parque mihi monstrisque fames. sprevere quod omnes
pollueruntque manu quodque unguibus excidit atris
has mihi fert in luce moras. nec rumpere fata
morte licet, trahitur victu crudelis egestas.
sed vos o servate precor, praedicta deorum 460
si non falsa mihi, vos finem imponite poenis.
nempe adsunt qui monstra fugent, Aquilonia proles
non externa mihi: nam rex ego divitis Hebri
iunctaque vestra meo quondam Cleopatra cubili.'
Nomen ad Actaeae Calais Zetesque sororis 465
prosiliunt Zetesque prior 'quem cernimus?' inquit
'tune ille Odrysiae Phineus rex inclitus orae?
tu Phoebi comes et nostro dilecte parenti?
o ubi nunc regni generisque ubi gloria? quam te
exedit labor et miseris festina senectus! 470
quin age mitte preces: namque est tibi nostra voluntas,
si non ira deum--vel si placabilis--urget.'
sustulit hic geminas Phineus ad sidera palmas
'te'que ait 'infesti, quae nunc premis, ira Tonantis,
ante precor, nostrae tandem iam parce senectae, 475
sit modus. et fore credo equidem, nam vestra voluntas
quid, iuvenes, sine pace deum? nec credite culpam
saevitiae scelerumve mihi nunc crimina pendi:
Fedor se espalha e a triste luta se inicia.
A mim e aos monstros, mesma fome. O que enjeitaram
E conspurcaram, que caiu das unhas negras,
Mantém-me à luz, faz tempo. O destino romper
Co’a morte não se pode: ao vencido, a penúria.
Salvai-me, imploro. Se os oráculos dos deuses
Não me são falsos, ponde fim às minhas penas.
A prole de Aquilão, que espanta monstros, chega.
Não me é estranha. Já fui rei do rico Hebro;
Vossa Cleópatra em meu leito outrora esteve”.
Calais e Zetes sobressaltam-se ante o nome
Da actéia irmã. Indaga Zetes: “A quem vemos?
És tu Fineu, o ínclito rei da odrísia costa?
És o amigo de Febo, a nossos pais dileto?
Da pátria a glória, onde ora está? Quanto o cansaço
E o envelhecer pelas misérias carcomeram-te!
Sus, não mais peças: teus anelos são os nossos,
Se a ira dos deuses não persiste, ou se é aplacável”.
Fineu aos astros soergue ambas as mãos
E disse: “Imploro-te, primeiro, ó jóvea Ira
Que ora me oprime: poupa, enfim, minha velhice.
Haja termo! E que assim será eu creio, jovens –
Que é do desejo vosso sem favor divino?
Crede: não pende sobre mim culpa de crimes!
284
fata loquax mentemque Iovis quaeque abdita solus
consilia et terris subito ventura parabat 480
prodideram miserans hominum genus. hinc mihi tanta
pestis et offusae media inter dicta tenebrae.
iam tandem cessere irae nec casus ab alto,
ipse volens nostris sed vos deus adpulit oris.'
sic ait et fatis ita iam cedentibus omnes 485
impulit et durae commovit imagine poenae.
instituere toros mediisque tapetibus ipsum
accipiunt circumque iacent; simul aequora servant,
astra simul, vescique iubent ac mittere curas,
cum subitus misero tremor et pallentia primae 490
ora senis fugere manus. nec prodita pestis
ante, sed in mediis dapibus videre volucres.
fragrat acerbus odor patriique exspirat Averni
halitus, unum omnes incessere planctibus, unum
infestare manus. inhiat Cocytia nubes 495
luxurians ipsoque ferens fastidia visu.
tum sola conluvie atque inlusis stramina mensis
foeda rigant, stridunt alae praedaque retenta
saevit utrimque fames. nec solum horrenda Celaeno
Phinea, sed miseras etiam prohibere sorores. 500
emicat hic subito seseque Aquilonia proles
cum clamore levat, genitor simul impulit alas.
Loquaz, o Fado, a jóvea mente, ocultos planos
E o que de súbito, p’ras terras, preparava-se
Só desvelei por me apiedar da gente humana.
Então, desgraça tanta e o breu em meio às falas.
Porém, as iras já cessaram. Não acaso,
Do céu propício o próprio deus aqui mandou-vos”.
Mudada a sorte, assim, a todos comoveu
E enterneceu pela aparência dos tormentos.
Puseram mesas e o acolhem nos tapetes;
Assentam-se ao redor. Obsevam mar e céu;
Ordenam-lhe comer e os medos afastar;
Súbito, o pobre treme, e as mãos senis afastam-se
Dos lábios pálidos. A peste, antes não vinda,
Alada viram-na durante a refeição.
Fedor se espalha; expira o hálito do Averno.
Um só, aos golpes, atacaram; molestaram
Apenas um. Nuvem cocítia abre as goelas,
Luxuriante, estimulando nojo à vista.
O chão e os leitos ultrajados pelo embuste
Com sujo regam; batem asas; sem comida,
A fome a todos rói. Não só Celeno, horrenda,
Priva a Fineu, também às míseras irmãs.
Os filhos de Aquilão, de repente, se lançam;
Com ruído sobem e asas dá-lhes logo o pai.
285
hoste novo turbata lues lapsaeque rapinae
faucibus et primum pavidae Phineia tecta
pervolitant, mox alta petunt. stant litore fixi 505
Haemonidae atque oculis palantia monstra sequuntur.
sicut, prorupti tonuit cum forte Vesevi
Hesperiae letalis apex, vixdum ignea montem
torsit hiems, iamque eoas cinis induit urbes:
turbine sic rapido populos atque aequora longe 510
transabeunt nullaque datur considere terra.
iamque et ad Ionii metas atque intima tendunt
saxa, vocat magni Strophadas nunc incola ponti.
hic fessae leti<que> metu propioris anhelae
dum trepidant humilique graves timidoque volatu 515
implorant clamore patrem Typhona nefando,
extulit adsurgens noctem pater imaque summis
miscuit et mediis vox exaudita tenebris:
'iam satis huc pepulisse deas. cur tenditis ultra
in famulas saevire Iovis, quas fulmina quamquam 520
aegidaque ille gerens magnas sibi legit in iras?
nunc quoque Agenoreis idem decedere tectis
imperat: agnoscunt monitus iussaeque recedunt.
mox tamen et vobis similis fuga, cum premet arcus
letifer. Harpyiae numquam nova pabula quaerent 525
donec erunt divum meritae mortalibus irae.'
Por hoste nova a praga turba-se; a rapina
Dos bicos cai. Apavoradas, sobrevoam
Teto fineio; ao alto buscam. Os hemônios
Ficam na praia e acompanham ir-se a peste.
Qual quando, por azar, a ruir troou Vesúvio,
Letal à Hespéria, e mal caiu, a chuva ígnea
Cobriu as vilas do oriente com suas cinzas:
Assim, em giros, atravessam mar e povos,
E terra alguma lhes é dada em que pousarem.
Aos fins da Jônia se dirigem, às recônditas
Rochas, que desde então o nauta chama de Estrófadas.
Ali, cansadas e arquejantes pelo medo
Da morte, em vôo humilde e tímido, a tremer,
Imploram por Tifeu, com nefando clamor;
E o pai, se erguendo, alteou a noite, misturou
Vales e montes, e no breu ouviu-se a voz:
“Já basta as terdes espantado. Por que além
Mandais as servas que, p’ra si, nas grandes iras,
Jove convoca, posto ostente o raio e a égide?
Ele ora ordena abandonarem de Fineu
Também os tetos. Ouvem mando e mansas voltam.
Mas tereis logo símil fuga, ao ser tendido
O arco letal. Não buscarão pasto as harpias
‘Té merecerem os mortais divinas iras”.
286
haesit uterque polo dubiisque elanguit alis,
mox abit et sociae victor petit agmina puppis.
Interea Minyae pulsa lue prima Tonanti
sacra novant, tum vina toris epulasque reponunt. 530
ipse inter medios ceu dulcis imagine somni
laetus ad oblitae Cereris suspirat honores;
agnoscit Bacchi latices, agnoscit et undam
et nova non pavidae miratur gaudia mensae.
hunc ubi reclinem stratis et pace fruentem 535
aspicit ac longae ducentem oblivia poenae
talibus appellat supplexque ita fatur Iason:
'vota, senex, perfecta tibi. nunc me quoque curis
eripe et ad nostros animum converte labores.
omnis adhuc sors laeta quidem nec numine vano, 540
siqua fides curae superum, tantum aequor adorti
tendimus: ipsa mihi puppem Iovis optima proles
instituit, dedit et socios Saturnia reges.
fidere mens sed nostra nequit quantumque propinquat
Phasis et ille operum summus labor, hoc magis angunt
proxima nec vates sat iam mihi Mopsus et Idmon.'
ille ducem nec ferre preces nec dicere passus
amplius hic demum vittas laurumque capessit
numina nota ciens. stupet Aesonis inclita proles
Phinea ceu numquam poenis nullaque gravatum 550
Hesitaram os dois, refrearam asas tíbias
E logo tornam, vitoriosos, ao navio.
No entanto, expulsa a peste, à prima oferta a Jove
Os Mínias voltam. Põem na mesa o vinho e o pasto.
Feliz, em meio, qual se fora um doce sonho,
Fineu suspira pelas dádivas de Ceres;
Prova do líquido de Baco, prova d’água;
Mira a alegria de u’a mesa não temida.
Quando Jasão no leito o viu fruir da paz,
A conduzir ao esquecimento a longa pena,
Com tais palavras chama e pede, suplicante:
“Teus rogos, velho, se consumam. De aflições
Ora me tira e a meu labor a atenção volta.
Propícia, a Sorte ainda, e com não vã ajuda
(Se nos deuses há fé), afrontamos o mar:
De Jove a filha para mim construiu um barco
E a Satúrnia granjeou-me reis por companheiros.
Porém minh’alma fiar não pode, e quanto o Fase
E o sumo esforço mais se achegam, mais me aflige
O porvir. Ídmon e Mopso, os vates, já não bastam-me”.
Ao capitão ele rogar não mais consente;
Tomou, enfim, laurel e fitas, invocando
Sabidos deuses. Se estarrece a prole Esônide
Com Fineu – qual se nunca atingido por penas
287
peste Iovis: tam largus honos, tam mira senectae
maiestas infusa; vigor novus auxerat artus.
tum canit: 'o terras fama venture per omnes,
quem sociis ducibusque deis atque arte benigna
Pallados ipse ultro Pelias ad sidera tollit, 555
demens, dum profugi non sperat vellera Phrixi,
fata locosque tibi, possum quas reddere grates,
expediam rerumque vias finemque docebo.
ipse etiam, qui me prohibet sua pandere terris
saecula, te propter fandi mihi Iuppiter auctor. 560
hinc iter ad Ponti caput errantesque per altum
Cyaneas. furor his medio concurrere ponto;
necdum ullas videre rates: sua comminus actae
saxa premunt cautesque suas. ceu vincula mundi
ima labant, tremere ecce solum, tremere ipsa repente 565
tecta vides: illae redeunt, illae aequore certant.
di tibi progresso propius, di forsitan ipsi
auxilium mentemque dabunt. ast ipse iuvare
ausa quibus monitis possim tua? quippe per altum
tenditis unde procul venti, procul unde volucres, 570
et pater ipse maris pavidas detorquet habenas.
siqua brevis scopulis fieret mora, si semel orsis
ulla quies, fuga tunc medio speranda recursu:
vix repetunt primae celeres confinia terrae
Ou pela peste, tal o honor, tal majestosa
Vetustez; vigor novo aos membros animara:
“Ó quem por fama a todas terras chegará,
A quem, co’o auxílio e guia dos deuses, e por arte
De Palas, Pélias, sem querer, envia aos astros
Enquanto pelo fríxio velo não espera,
Desvelarei (o agradecer que posso dar-te)
Lugares, sinas, o caminho e o fim das coisas.
O mesmo Jove que me vedou-me dar às terras
O Fado, agora é favorável que eu to diga.
Daqui, a rota segue ao Ponto e às Ciâneas –
É furor seu em meio ao mar se entrechocarem –:
Inda não viram naus: de perto, se lançando,
Batem-se as rochas. Qual se movem as correntes
Do mundo, e treme o solo – e vês tremerem tetos –,
Assim, no mar, elas balançam e pelejam.
Decerto, adiante, os próprios deuses te darão
Auxílio e engenho. Com conselhos quais tua empresa
Poderei ajudar? Porquanto no oceano
Seguis por inda além dos ventos e dos pássaros,
E o Pai dos mares torce as rédeas temerosas.
Se as pedras tardem, se tão logo erguidas quedem,
Em meio à volta há que esperar-se, então, a fuga:
Mal tocam, céleres, confins da prima terra,
288
iamque alio clamore ruunt omnisque tenetur 575
pontus et infestis anceps cum montibus errat.
verum animo redit illa meo sors cognita divum
(fabor enim nec spe dubios solabor inani):
cum mihi Tartareas saevo clangore volucres
protulit ira Iovis, vox haec simul excidit auris: 580
"ne vanas impende preces finemque malorum
expete, Agenoride! Pontum penetraverit ulla
cum ratis et rabidi steterint in gurgite montes,
tum sperare modum poenae veniamque licebit."
sic deus. aut vobis ergo fera [per] saxa patescunt 585
aut mea iam saevae redeunt ad pabula Dirae.
verum inter medias dabitur si currere cautes
(certe digna manus) vacuumque exibis in aequor,
proxima regna Lyci, remeat qui victor ab oris
Bebryciis. toto non ullus litore Ponti 590
mitior. hic lecto comitum de robore siquem
perculerit vicina lues, ne defice casus
praedicti memor atque animos accinge futuris.
illic pestiferas subter iuga concava torquet
alter aquas Acheron vastoque exundat hiatu 595
fumeus et saeva sequitur caligine campos.
linque gravem fluvium et miseris sua fata colonis:
sic quoque non uno dabitur transcurrere luctu.
E já se arrojam. Por clamor se toma o Ponto
Enquanto, incerto entre os rochedos, erra hostil.
Vem-me à alma a Sorte, pelos deuses conhecida
(Direi, pois não consolarei co’inane espera):
Quando lançou-me a jóvea Ira as aves tártaras,
Em sevo grito, logo u’a voz cortou os ares:
‘Não gastes preces vãs, ou busques fim dos males,
Ó filho de Agenor. Ao penetrar no mar
U’a nave, e os montes no oceano se aquietarem,
Espere, então termo das penas e o perdão!’
Disse o deus. Logo, ou para vós, abrem-se as rochas,
Ou já retornam-me à comida as diras Fúrias.
Se, entre os escolhos, dado for passares certo,
(E a tropa é digna) e no aberto mar saíres,
De Lico o reino é perto, que da orla bebrícia
Retorna vencedor. Não há por todo o ponto
Lugar mais calmo. Se a algum nobre companheiro
A local peste aqui tombar, não te esmoreças:
Lembra o predito e p’r’o futuro guarda os ânimos.
Ali, sob cava rocha, outro Aqueronte mina
Água pestífera; da enorme fenda exala
Fumo, e a caligem insalubre os campos toma:
Deixa aos colonos o mau rio e seu destino –
Co’uma só morte não se pode atravessá-lo.
289
quid tibi nubifera surgentem rupe Carambin,
quid memorem quas Iris aquas aut torqueat Ancon? 600
proxima Thermodon hinc iam secat arva--memento--
inclita Amazonidum magnoque exorta Gradivo
gens ibi: femineas nec tu nunc crede catervas,
sed qualis, sed quanta viris insultat Enyo
divaque Gorgonei gestatrix innuba monstri. 605
ne tibi tunc horrenda rapax ad litora puppem
ventus agat, ludo volitans cum turma superbo
pulvereis exsultat equis ululataque tellus
intremit et pugnas mota pater incitet hasta.
non ita sit metuenda tibi saevissima quamquam 610
gens Chalybum, duris patiens cui cultus in arvis
et tonat adflicta semper domus ignea massa.
inde omnem innumeri reges per litoris oram,
hospitii quis nulla fides, sed limite recto
puppis et aequali transcurrat carbasus aura: 615
sic demum rapidi venies ad Phasidis amnem.
castra ibi iam Scythiae fraternaque surgit Erinys.
ipse truces illic Colchos hostemque iuvabis
auxiliis. nec plura equidem discrimina cerno.
fors etiam optatam dabitur contingere pellem. 620
sed te non animis nec solis viribus aequum
credere: saepe acri potior prudentia dextra.
Que de Carâmbis te direi, nubesurgente,
Ou o que das águas que Íris e Ácon brotar fazem?
Já o Termodonte os campos corta. É ali, lembrai-vos
A ínclita raça de amazonas, do Gradivo
a prole: então não creias nas fêmeas catervas,
Pois são qual Ênia, que aos varões insulta tanto,
E a inupta deusa, que carrega a horrenda Górgona.
Assim, que o forte vento à praia a nau não leve
Onde, exultante, um grupo salta, em jogo altivo,
Co’os cavalos de pó cobertos. Treme a terra
Co’a grita e o Pai, brandindo a lança, incita a luta.
Porém não seja, embora cruel, por ti temida
Calíbea raça que padece arando em pedras
E cuja casa ígnea ao malho sempre soa.
Dali, há muito reis por toda a orla das praias –
Que fé no abrigo não despertam. Mas que a nau
Em linha reta siga – e as velas, de igual modo;
Alcançarás, enfim, as correntes do Fase.
Fraterna Erínia e quartel cítio ali já surgem:
Ajudarás ferozes colcos e o inimigo.
Então, não vejo mais perigo e ainda a sorte
De conquistar o ansiado velo ser-te-á dada.
Porém, não creias só nas forças e nos ânimos:
Prudência, amiúde, pode mais que a forte destra.
290
quam tulerit deus, arripe opem. iamque ultima nobis
promere fata nefas. sileo precor.' atque ita facto
fine dedit tacitis iterum responsa tenebris. 625
Tum subita resides socios formidine Iason
praecipitat rumpitque moras tempusque timendi.
ipse viros gradiens ad primi litoris undam
prosequitur Phineus. 'quaenam tibi praemia,' dixit
'quas, decus o Boreae, possim persolvere grates? 630
me Pangaea super rursus iuga meque paterna
stare Tyro dulcesque iterum mihi surgere soles
nunc reor. exactae (verumne?) abiere volucres
nec metuam tutaeque dapes? date tangere vultus,
dem sinite amplexus propiusque accedite dextrae.' 635
dixerat. abscedunt terris et litora condunt.
Omnibus extemplo saeva sub imagine rupes
Cyaneae propior<que> labor. quando adfore quaque
parte putent? stant ora metu nec fessa recedunt
lumina diversas circum servantibus undas, 640
cum procul auditi sonitus insanaque saxa,
saxa neque illa viris, sed praecipitata profundo
siderei pars visa poli. dumque ocius instant,
ferre fugam maria ante ratem, maria ipsa repente
deficere adversosque vident discedere montes, 645
omnibus et gelida rapti formidine remi.
Te aferra à ajuda que um deus traga. Últimos Fados
Nefasto é expor – calar eu peço”. Assim findando,
Deixou de novo às mudas trevas a resposta.
Jasão apressa os consternados companheiros;
A demora abrevia e o tempo de ter medo.
Fineu aos homens acompanha, às primas ondas
Se encaminhando. “Honra de Bóreas” – indagou –
“Como pagar-vos posso a ajuda, que agradeço?
Ora me sinto estar de novo no Pangeu
Na pátria Tiro, e doces sóis a mim surgirem.
Deveras hão partido os pássaros expulsos?
Não os temerei? É a salvo o pasto? Consenti
As faces vos tocar, e unir as mãos e peitos”.
Falou. Partem da terra e o litoral se esconde.
A todos logo sobrevêm, em seva imagem,
As Ciâneas e o labor. De onde e quando virão? –
Pensam; arrostam medo e não desviam olhos
Cansados de espiar as ondas ao redor,
Quando u’estrondo se ouve e, ao longe é a insana rocha,
Que aos homens rocha já não era, mas, no mar,
Caída parte do estrelado. Enquanto apressam
Levar em fuga o barco ao mar, o mar de súbito
Abrir-se vêem e se afastarem os rochedos.
Por frio medo todos remos são tomados.
291
ipse per arma volans et per iuga summa carinae
hortatur supplexque manus intendit Iason
nomine quemque premens: 'ubi nunc promissa superba
ingentesque minae, mecum quibus ista secuti? 650
idem Amyci certe visus timor omnibus antro
perculerat; stetimus tamen et deus adfuit ausis.
quin iterum idem aderit, credo, deus.' haec ubi fatus
corripit abiecti remumque locumque Phaleri
et trahit, insequitur flammata pudore iuventus. 655
unda laborantes praeceps rotat ac fuga ponti
obvia. miscentur rupes iamque aequore toto
Cyaneae iuga praecipites inlisa remittunt.
bis fragor infestas cautes adversaque saxis
saxa dedit, flamma expresso bis fulsit in imbri. 660
sicut multifidus ruptis e nubibus horror
effugit et tenebras nimbosque intermicat ignis
terrificique ruunt tonitrus elisaque noctem
lux dirimit (pavor ora virum, pavor occupat aures),
haud secus implevit pontum fragor; effluit imber 665
spumeus et magno puppem procul aequore vestit.
Advertere dei defixaque numina ponto,
quid scopulis praeclusa ratis, quid dura iuventus
expediat. pendet magnis favor ortus ab ausis.
prima coruscanti signum dedit aegide virgo 670
Jasão, correndo sobre as armas, sobre os bancos,
Exorta os homens; suplicante, estende as mãos
Chamando cada um: “Onde estão as promessas
E ameaças dos que vêm comigo às águas?
Causara medo igual a caverna de Âmico:
Persistimos e um deus nos ajudou. Por isso
Creio que o mesmo deus de novo ajudará”.
Dito isso, toma o banco ao pávido Falero;
E rema. Por pudor instada a tropa o segue.
A onda aderna os esforçados e o mar foge.
Chocam-se as pedras e, com toda água, as Ciâneas
Devolvem vagas encrespadas. Por duas vezes
Penhas e rochas, contra rochas, retumbaram;
Por duas vezes relampeou no alto aguaceiro.
Tal como o raio repartido escapa às nuvens
E espalha fogos pelas trevas, pelos nimbos,
Trovões terríveis ruem; corta à noite a luz,
(Pavor ocupa dos heróis faces e ouvidos)
Assim ribomba o mar. Espúmea tempestade
Despenca e logo cobre a nau com grande água.
Tirado o olhar ao ponto, os deuses se atentaram
Que entre os escolhos ia o barco, que apressava-se
A juventude. Pende o êxito da empresa.
Sinalizou co’o coruscante escudo a Virgem
292
fulmineam iaculata facem. vixdum ardua cautes
cesserat, illa volans tenui per concita saxa
luce fugit. rediere viris animique manusque
ut videre viam. 'sequor, o quicumque deorum,'
Aesonides 'vel fallis' ait praecepsque fragores 675
per medios ruit et fumo se condidit atro.
coeperat hinc cedens abductis montibus unda
ferre ratem pelagoque dies occurrere aperto.
sed neque permissis iam fundere rector habenis
vela neque eniti remis pote, cum super adsunt 680
Cyaneae. premit umbra ratem scopulique feruntur
comminus. hic <Iuno> praecepsque ex aethere Pallas
insiliunt pariter scopulos: hunc nata coercet,
hunc coniunx Iovis, ut valido qui robore tauros
sub iuga et invito detorquet in ilia cornu. 685
inde, velut mixtis Vulcanius ardor harenis
verset aquas, sic ima fremunt fluctuque coacto
angitur et clausum scopulos super effluit aequor.
contra omnes validis tenui discrimine remis
pergere iter mediosque ratem transferre per ictus. 690
saxa sed extremis tamen increpuere corymbis
parsque (nefas) deprensa iugis, nam cetera caelo
debita. conclamant Minyae, latera utraque quippe
dissiluisse putant. fugit ipse novissimus ictus
Lançando um lume aceso. Apenas se afastara
A aguda penha, voando, a tocha entre os rochedos
Passou com tênue luz. Voltou o ardor aos homens
Vendo a saída. “Seguir-te-ei, qual deus que sejas,
Ainda que enganes ” – diz o Esônide, que aos tombos
Lançou-se e se ocultou na bruma negra. A onda,
Refluindo às rochas, que se abriam, começara
A puxar o navio; e o dia, a entrar no vão.
Já não vale ao piloto abrir co’adriça as velas
Nem aos remos forçar quando no alto aproximam-se
As Ciâneas. Sombra oprime o barco; avança a pedra.
Do céu descidas, Juno e Palas juntas saltam
Nas rochas: esta, a filha; aquela, a jóvea esposa
Seguram, como o que com força os touros junge
E torce o chifre, que resiste, até ao flanco.
Então, como o calor vulcâneo, com areias,
Revolve as águas, assim ruge o fundo, e o plaino
É preso em fluxo e, sobre as rochas, se derrama.
Com fortes remos, contra o estreito, todos vão
Seguir caminho e a nau passar em meio aos baques.
Pedras, porém, na extrema popa, inda estalaram
E parte (nefas) se prendeu; deveu-se o resto
Ao céu. Os Mínias gritam: pensam que os costados
Tenham se aberto. Foge aos golpes Tífis, último,
293
Tiphys et <e> mediis sequitur freta rapta ruinis 695
nec prius obsessum scopulis respexit ad aequor
aut sociis temptata quies, nigrantia quam iam
litora longinquique exirent flumina Rhebae.
tunc fessas posuere manus, tunc arida anheli
pectora, discussa quales formidine Averni 700
Alcides Theseusque comes pallentia iungunt
oscula vix primis amplexi luminis oris.
nec vero ipse metus curasque resolvere ductor,
sed maria aspectans 'heu qui datus iste deorum
sorte labor nobis! serum ut veniamus ad amnem 705
Phasidis et mites' inquit 'dent vellera Colchi,
unde per hos iterum montes fuga?' talia fundit
imperio fixos Iovis aeternumque revinctos
nescius. id fati certa nam lege manebat,
siqua per hos undis umquam ratis isset apertis. 710
Tum freta, quae longis fuerant impervia saeclis,
ad subitam stup<uer>e ratem Pontique iacentis
omne solum regesque patent gentesque repostae.
non alibi effusis cesserunt longius undis
litora, non, tantas quamvis Tyrrhenus et Aegon 715
volvat aquas, geminis tot desint Syrtibus undae.
nam super huc vastos tellus quoque congerit amnes;
non septemgemini memorem quas exitus Histri,
E entre os escombros leva a nau arrebatada;
Ao mar por pedras atingido não olhou,
Nem se aquietaram remos ‘té que ultrapassaram
A costa escura e do Rebas longe a foz.
Cansadas mãos e peito arfante então pousaram.
Se abraçam, qual Teseu e o Alcides quando já
Desfeito o horror do Averno, logo aos beijos pálidos
Da luz da prima aurora. O capitão, porém,
Não se livrou de medo e curas, mas falou
Fitando o mar: “Ah, que labuta pelos deuses
Nos é dada! Se acaso ao leito nós chegarmos
Do Fase e os Colcos, mansos, derem-nos o velo,
Por esta rocha haverá fuga?” Tal indaga,
Néscio dos freios por império jóveo fixos,
Pois o ordenava a lei do Fado inarredável
Se barco algum no ponto aberto se adentrasse.
O mar que esteve intransponível pelos séculos
Ante a imprevista nau pasmou-se; e toda a terra
Do calmo ponto mostrou reis e estranhas gentes.
Mais longe, alhures, não cedeu a costa às ondas
Posto o Tirreno e o Egeu revolvam tantas águas
E as gêmeas Sirtes de ondas quantas não careçam.
Pois lá, ademais, a terra ajunta vastos rios:
Não lembrarei das águas que a setênflua foz
294
quas Tanais flavusque Tyres Hypanisque Novasque
addat opes quantosque sinus Maeotia laxent 720
aequora. flumineo sic agmine fregit amari
vim salis hinc Boreae cedens glaciantibus auris
Pontus et exorta facilis concrescere bruma.
utque vel immotos Ursae rigor invehit amnes
vel freta versa vadis, hiemem sic unda per omnem 725
aut campo iacet aut tumido riget ardua fluctu,
atque hac Europam curvis anfractibus urget,
hac Asiam, Scythicum specie sinuatus in arcum.
illic umbrosae semper stant aequore nubes
et non certa dies, primo nec sole profundum 730
solvitur aut vernis cum lux aequata tenebris,
sed redit extremo tandem in sua litora Tauro.
Iam Mariandynis advertit puppis harenis
atque celer terras regemque exquirit Echion
dicta ferens lectos (fama est si nominis umquam) 735
Haemoniae subiisse viros, det litora fessis.
adproperat Lycus auditis laetatus Achivis
ac simul Aesoniden omnemque in regia turbam
tecta trahit modo Bebryciis praefixa tropaeis,
mitis et in mediis effatur talia Grais: 740
'haud temere est, fato divum reor ad mea vectos
litora vos, odium quibus atque eadem ira furentis
Do Histro, o Tanais, o Tiras flavo, o Nova e o Hípane
Deitam, e quanta força lança o meócio lago?
O mar, assim, com tantos rios, o poder
Do sal partiu, cedendo ao gélido ar de Bóreas
A enregelar-se, facilmente, ao vir das brumas.
Como o rigor da Ursa imóveis faz os rios
E agita o mar no fundo, assim, por todo inverno,
No plaino a onda ou jaz ou se ergue em vaga túmida
Que, por um lado, ataca a Europa com suas cristas,
Por outro, a Ásia, curva tal qual arco cítio.
Há sempre nimbos sobre o mar e incerto é o dia;
Não se desfaz, ao primo sol, a escuridão
Ou quando a luz da primavera é igual às trevas;
Apenas quando Touro torna às suas praias.
Já p’ras areais mariandinas a nau guina
E o presto Equião em busca foi de rei e terras
Levando a nova (se do nome fama havia)
Que hemônios vinham, que aos cansados dessem porto.
Feliz de ouvir falar de aqueus, Licos se apressa
E traz Jasão e toda a turma à casa régia –
Por bebrícios troféus pouco antes adornada –
E em meio aos gregos, manso, diz: “Não por acaso,
Mas por divino Fado, eu creio, às minhas praias
Trazidos sois – vós que ira mesma e ódio à Bebrícia
295
Bebryciae saevaque pares de gente triumphi:
certa fides animis, idem quibus incidit hostis.
nos quoque, nos Amycum tanto procul orbe remoti 745
sensimus et saevis frater mihi fusus harenis.
ultor ego atque illuc cunctis accensus in armis
tunc aderam, cum vos mediis contenta ferebant
vela fretis. illum in sanie taboque recenti
vidimus aequoreo similem per litora monstro. 750
nec vero praerepta mihi suprema tyranni
fata queror bellove magis laetarer et armis
procubuisse meis, quam lege quod occidit ultus
ipse sua meritoque madent quod sanguine caestus.'
excipit Aesonides: 'tuus ergo in montibus ignis 755
ille? tuas acies medio de gurgite vidi?'
fatur et ostentans prolem Iovis 'hic tibi Pollux
en,' ait 'inviso solvit cui pectore poenas.'
ille virum circa mirantia lumina volvit.
festa dehinc mediis ineunt convivia tectis 760
communesque vocant superos, quorum eruta nutu
Bebrycia, et votis pariter praeda<que> fruuntur.
Tendes, e iguais triunfos sobre a seva gente:
É certa a fé entre os que têm o mesmo imigo.
Posto distantes, nós também sabemos de Âmico,
E meu irmão caído jaz na cruel areia.
Irado, eu vingador p’ra lá, co’as armas todas
Já ia quando as velas pandas vos traziam
Em meio ao mar; e o vimos podre e ensangüentado
Na praia, qual monstro marinho. Não lamento
Que do tirano a morte a mim seja tomada;
Não mais contente eu ficaria se o tombasse
Co’as armas minhas, que vencido por sua lei,
E que, por mérito, de sangue os cestos banhem-se”.
Responde o Esônide: “São teus no monte os fogos?
São tuas armas que do mar, então, eu vi?”
E diz, mostando a jóvea prole: “Eis aqui Pólux
Que ao coração odioso fez pagar as penas” .
Ele contempla o herói; depois, ao paço em festa
Vão-se os convivas e aos comuns deuses invocam,
Por cujo nuto até a Bebrícia foi tombada,
E juntos fruem de orações e do botim.
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