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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA/MESTRADO
CLAUDIA BRANDÃO VIEIRA LIMA
PARALELA EM MOVIMENTO: um estudo sobre a
apropriação do espaço público do canteiro central da
Avenida Luís Viana
Salvador-BA
2007
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CLAUDIA BRANDÃO VIEIRA LIMA
PARALELA EM MOVIMENTO: um estudo sobre a
apropriação do espaço público do canteiro central da
Avenida Luís Viana
Salvador-BA
2007
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Geografia, Departamento de
Geografia, Instituto de Geociências, Universidade
Federal da Bahia, como requisito para obtenção
do grau de Mestre em Geografia.
Orientador: Profa. Dra. CREUZA SANTOS LAGE
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L732 Lima, Claudia Brandão Vieira,
Paralela em movimento: um estudo sobre a apropriação do espaço público
do canteiro central da Avenida Luís Viana / Claudia Brandão Vieira Lima. - 2007.
121 f. : il.
Orientadora: Profa. Dra. Creuza Santos Lage.
Dissertação (mestrado) – Universidade Federal da Bahia, Instituto de
Geociências, 2007.
1. Geografia urbana – Salvador(BA) 2. Planejamento urbano – Salvador(BA)
3. Espaços públicos – Salvador (BA) I. Lage, Creuza Santos, II. Universidade
Federal da Bahia. Instituto de Geociências. III. Título.
CDU 911.9:711.4(813.8)
TERMO DE APROVAÇÃO
PARALELA EM MOVIMENTO: um estudo sobre a
apropriação do espaço público do canteiro central da
Avenida Luís Viana
CLAUDIA BRANDÃO VIEIRA LIMA
BANCA EXAMINADORA
Profa. Dra. Creuza Santos Lage - Orientadora
Pós-Doutorado em Geografia
Universidade Federal da Bahia (UFBA)
___________________________________________
Prof. Dr. Rubens Toledo Junior.
Doutor em Geografia
Universidade de São Paulo (USP)
____________________________________________
Profa. Dra. Maria Aruane Santos Garzedin
Doutora em Artes Plásticas
Universidade de Barcelona (UB)
Dissertação defendida e aprovada: _____/______/_____
Liberdade.
Palavra que o sonho humano alimenta
Não há ninguém que explique
Não há ninguém que não entenda
(Cecília Meireles)
Dedico este trabalho aos meus pais, Almir e Adelaide
e meus irmãos, Almir Filho e Carol, sempre presentes...
AGRADECIMENTOS
Na realização desta jornada de trabalho muitas pessoas foram direta e
indiretamente mobilizadas. Algumas delas foram particularmente importantes como
a orientadora Profª Drª Creuza Santos Lage;
O Prof. Dr. Ângelo Serpa, coordenador do Mestrado em Geografia da Ufba,
foi para mim um importante apoio, pois tive como referência seu trabalho junto ao
Mestrado em Arquitetura e Urbanismo ministrando a disciplina Espaço Público na
Cidade Contemporânea;
Os companheiros e amigos, incluídos os mestres, colegas e funcionários
deste Mestrado;
Os usuários do canteiro central da Avenida Paralela, que partilharam
experiências, foram observantes e observados, passivos e ativos, presentes e
solidários, ao se tornarem visíveis.
Lima, Claudia Brandão Vieira. Paralela em Movimento: um estudo sobre a
apropriação do espaço público do canteiro central da Avenida Luís Viana.
Dissertação (Mestrado em Geografia) – UFBA: Salvador, 2007.
RESUMO
O presente trabalho aborda o estudo de caso de um espaço público de
resistência dentro da atual política urbana estabelecida na cidade de Salvador, que
colhe os frutos de um processo de planejamento urbano incompleto alicerçado nos
preceitos modernos. Assim, esta multicidade tem na apropriação social de áreas
urbanas, muitas vezes impensadas para fins recreacionais, uma busca de seus
habitantes pelo atendimento de suas necessidades enquanto seres sociais: o
canteiro central da Avenida Luís Viana se configura, desta forma, como um espaço
público de resistência. Hoje, a avenida, chamada pela população de Paralela, a mais
monumental das avenidas de Salvador, pelas suas dimensões e pelo seu valor
estratégico dentro do sistema viário da cidade, pois se constitui em um eixo de
articulação entre elementos estruturantes do espaço urbano, apresenta uma
dinâmica complexa a qual foi analisada à luz do multifacetado intelectual Edgar
Morin. Fenômenos sociais como apropriação, criação e liberdade são refletidos a
partir do estudo do espaço vivido: o canteiro central da Avenida Paralela. A pesquisa
se desenvolveu através de investigação documental e bibliográfica e do trabalho de
campo dividido em duas etapas: observação, sondagem e registro fotográfico e
aplicação de questionários. Como resultado foi constada a deficiência do
Planejamento Urbano estabelecido desde as primeiras décadas do século XX, que
se deu através da incapacidade dos poderes públicos de acompanhar as mudanças
decorrentes de uma época de grande crescimento, além da compreensão de que a
necessidade das pessoas e modo como os espaços públicos podem satisfazer
essas necessidades muitas vezes antecedem a noção de direito e de espaço,
acarretando numa refuncionalização do canteiro central da Avenida Luís Viana.
Palavras-chave: Espaço Público, Planejamento Urbano - Salvador, Espaço vivido.
Lima, Claudia Brandão Vieira. “Paralela in Motion: A study of the appropriation of
public space on the median strip of Luís Viana Avenue.” Thesis (MA in Geography) –
UFBA: Salvador, 2007.
ABSTRACT
This thesis is a case study of a public space for resistance within the context
of the current urban planning policy for the city of Salvador da Bahia, which is
reaping the results of an incompletely implemented urban planning policy based on
modern concepts. As a result, this multi-city’s residents find ways of meeting their
own needs as social beings through the social appropriation of urban areas, many of
which were not intended for recreational use. In this case, the median strip of Luis
Viana Avenue has become a public space for resistance. In this study, the complex
dynamics of this divided highway popularly known as Paralela, Salvadors main
monumental artery due to its size and strategic value in the urban road system, have
been analyzed in light of the work of the multifaceted intellectual Edgar Morin. This
thesis reflects on social phenomena such as appropriation, creation and freedom on
the basis of a study of lived space: the median strip of Paralela Avenue. The
research was conducted by studying documents and the related literature, as well as
by doing fieldwork divided into two stages: observation, soundings and photographic
records, and the application of questionnaires. The main conclusions are: 1) urban
planning was deficient in the early decades of the 20th century due to the
government’s inability to keep pace with the changes resulting from a period of major
growth, and 2) the public’s needs and the ways that public spaces can meet those
needs can often supersede the concept of property rights and space, which has led
to the refunctionalization of the median strip of Paralela Avenue.
Keywords: Public space, Urban planning - Salvador, Lived space.
LISTA DE FIGURAS
FIG 01 Espaço da Disjunção / Espaço da Conexão .................................... 19
FIG 02 Espaço de Conexão......................................................................... 20
FIG 03 Calçadão da praia de Pajuçara, Maceió........................................... 33
FIG 04 Condomínio Portal do Morumbi, São Paulo...................................... 36
FIG 05 Conjunto do município de Carapicuíba, São Paulo.......................... 38
FIG 06 Localização da Área de Estudo........................................................ 42
FIG 07 Centros de comércio e serviços em Salvador.................................. 44
FIG 08 Evolução da ocupação urbana, Salvador......................................... 45
FIG 09 Visão de MLF, Avenidas de vale...................................................... 46
FIG 10 Construção da Avenida Paralela...................................................... 48
FIG 11 Foto aérea da Avenida Paralela....................................................... 49
FIG 12 Foto aérea da Avenida Paralela....................................................... 50
FIG 13 Conjunto Flamboyants...................................................................... 51
FIG 14 Ocupação urbana entre a Av. São Rafael e o CAB.......................... 52
FIG 15 Alça do viaduto Dona Cano.............................................................. 54
FIG 16 Concessionária de veículos Citroen................................................. 55
FIG 17 Shopping Alpha Mall......................................................................... 55
FIG 18 Foto Aérea da Avenida Paralela....................................................... 56
FIG 19 Delimitação geográfica do entorno da Av. Paralela.......................... 58
FIG 20 Área arborizadas de Salvador.......................................................... 59
FIG 21 Terreno à margem da Av. Paralela................................................... 60
FIG 22 Mapa temático: densidade habitacional............................................ 61
FIG 23 Mapa temático: Renda ..................................................................... 62
FIG 24 Alto da Ventosa................................................................................. 63
FIG 25 Ocupação em torno do CAB............................................................. 64
FIG 26 CAB: baixa densidade...................................................................... 64
FIG 27 Prédios do bairro do Imbuí................................................................ 65
FIG 28 Mapa temático: escolaridade............................................................ 66
FIG 29 Mapa temático: faixa etária............................................................... 68
FIG 30 Mapa temático: infra-estrutura.......................................................... 69
FIG 31 Foto aérea da Av. Paralela…………………………………………….. 70
FIG 32 Campo de futebol, Alto da Ventosa…………………………………… 71
FIG 33 Parque infantil: Alto da Ventosa…..…………………………………… 72
FIG 34 Via marginal à Av. Jorge Amado, Imbuí........................................... 73
FIG 35 Imbuí, barracas e barzinhos…………………………………………… 73
FIG 36 Área de lazer em Saboeiro…………………………………………….. 74
FIG 37 Ocupação residencial entre o CAB e Av. São Rafael....................... 75
FIG 38 Praça no Bairro da Paz………………………………………………… 76
FIG 39 Praça infantil, Bairro da Paz…..……………………………………….. 77
FIG 40 Praça em Mussurunga…………………………………………………. 77
FIG 41 Imbuí Plaza....................................................................................... 79
FIG 42 Conjunto Amazonas.......................................................................... 79
FIG 43 Canteiro central................................................................................. 80
FIG 44 Mapa de localização das áreas do canteiro central.......................... 83
FIG 45 Gráfico: % de usuários por área de estudo...................................... 85
FIG 46 Área 1, canteiro central..................................................................... 85
FIG 47 Lago em frente ao bairro do imbuí.................................................... 86
FIG 48 Monumento ao Dep. Luís Eduardo Magalhães……………………… 87
FIG 49 Infra-estrutura no canteiro central…………………………………….. 87
FIG 50 Área 2, canteiro central………………………………………………… 88
FIG 51 Canteiro central, area 2………………………………………………… 88
FIG 52 Área 3, canteiro central………………………………………………… 89
FIG 53 Foto aérea do canteiro central……………........................................ 89
FIG 54 Árvores frutíferas, area 3………………………………………………. 90
FIG 55 Area 4, canteiro central………………………………………………… 90
FIG 56 Espaço arboriazado, area 4……………………………………………. 91
FIG 57 Pesca no afluente do rio Jaguaribe…………………………………… 91
FIG 58 Gráfico: % de usuários por faixa etária............................................. 93
FIG 59 Praticantes de nautimodelismo......................................................... 94
FIG 60 Gráfico: % de usuários por sexo....................................................... 94
FIG 61 Gráfico: % de usuários por escolaridade.......................................... 95
FIG 62 Gráfico: % de usuários por freqüência de uso................................. 96
FIG 63 Gráfico: satisfação com as condições do canteiro central............... 98
FIG 64 Gráfico: existência de espaço público no bairro de origem.............. 99
FIG 65 Gráfico: utilização de espaço público do bairro de origem............... 99
FIG 66 Gráfico: satisfação com o espaço público do bairro de origem........ 100
FIG 67 Gráfico: % de usuários por local de origem...................................... 100
FIG 68 Gráfico: % de usuários por origem no entorno da Paralela.............. 101
FIG 69 Área 1, treino de futebol.................................................................... 102
FIG 70 Área 1, atividades no lago................................................................ 103
FIG 71 Condomínio Paralela Park................................................................ 104
FIG 72 Domingo no gramado, pic-nic........................................................... 105
FIG 73 Namoro à sombra............................................................................. 105
FIG 74 Sob os pés de jamelão..................................................................... 106
FIG 75 Fumando maconha e colhendo jamelão.......................................... 106
FIG 76 Futebol no gramado.......................................................................... 107
FIG 77 Área 1, prática de nautimodelismo................................................... 109
LISTA DE QUADROS
QUADRO 01 ATIVIDADES REALIZADAS NO CANTEIRO CENTRAL DA
AV. PARALELA........................................................................ 92
QUADRO 02 NUMERO DE USUSÁRIOS POR BAIRRO DE ORIGEM
FORA DO ENTORNO DA AV. PARALELA............................. 107
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
BNH – Banco Nacional de Habitação
CABCentro Administrativo da Bahia
CHESF – Companhia Hidroelétrica do São Francisco
CIA – Centro Industrial de Aratu
COHABCompanhia de Habitação
CONDER – Companhia de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Salvador
COPEC – Complexo Petroquímico de Camaçari
DINURB – Distrito Industrial Urbano de Salvador
EMBASA – Empresa Baiana de Saneamento
EPUCS – Escritório do plano de Urbanismo da Cidade de Salvador
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
INOCOOP – Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais
LOUOS – Lei de Ordenamento do Uso e Ocupação do Solo
ONU – Organização das Nações Unidas
PDDU – Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano
PLANDURB – Plano de Desenvolvimento Urbano de Salvador
RIMA - Relatório de Impacto Ambiental
RMS – Região Metropolitana de Salvador
SET – Superintendência de Engenharia de Tráfego
SUCAB Superintendência Urbana do Centro Administrativo da Bahia
UFBA – Universidade Federal da Bahia
SUMÁRIO
1- INTRODUÇÃO........................................................................................................ 15
1.1- REFERENCIAL TEÓRICO-CONCEITUAL ...................................................... 18
1.2- PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ........................................................ 23
1.3- ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO .................................................................. 25
2- PLANEJAMENTO URBANO E ESPAÇO PÚBLICO NO BRASIL ....................... 27
2.1- CONSIDERAÇÕES GERAIS ........................................................................... 27
2.2- ESPAÇO PÚBLICO NA CIDADE PLANEJADA: mudanças de uso e de
configuração.................................................................................................... 30
2.2.1- Sistemas de espaços livres públicos no processo de planejamento
urbano ......................................................................................................... 32
2.3– AS ATIVIDADES DE LAZER E CONVÍVIO NOS ÁREAS COMUNS DOS
ESPAÇOS PRIVADOS ................................................................................... 35
3- PARALELA EM MOVIMENTO: a Avenida Luís Viana e seu entorno ............... 41
3.1- EVOLUÇÃO DA CIDADE DE SALVADOR: meio século de processo de
modernização.................................................................................................. 41
3.1.1- A Avenida Luís Viana: vetor de crescimento de Salvador ..................... 45
3.1.2- A Paralela hoje ............................................................................................ 53
3.2- ANÁLISE SOBRE A OCUPAÇÃO DO ENTORNO DA AVENIDA
PARALELA: um enfoque no espaço público .................................................. 57
4- O CANTEIRO CENTRAL DA AVENIDA PARALELA........................................... 80
4.1 – RESULTADOS DA PESQUISA DE CAMPO.................................................. 81
4.1.1- Metodologia da coleta de dados................................................................ 81
4.1.2- Análise dos resultados............................................................................... 84
5- CONCLUSÃO......................................................................................................... 112
6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................... 117
15
1- INTRODUÇÃO
O presente trabalho, PARALELA EM MOVIMENTO: um estudo sobre a
apropriação do espaço público do canteiro central da Avenida Luís Viana, é fruto de
uma pesquisa realizada durante o curso de mestrado em Geografia da UFBA. O
referencial motivador foi o trabalho Paralela em perspectiva: uma proposta para o
canteiro central da Avenida Luís Viana Filho, desenvolvido entre 2000-2001, por
ocasião da conclusão do curso de Arquitetura e Urbanismo desta mesma
Universidade.
A partir da experiência vivida na primeira pesquisa, surgiram algumas
inquietações que despertaram o desejo de aprofundar o olhar sobre esta área da
cidade de Salvador, cuja dinâmica tem características tão peculiares e ao mesmo
tempo tão parecidas com as de tantas metrópoles, focando a questão do espaço
público. Assim, utilizando como objeto de análise as áreas habitacionais do entorno
da Avenida e o próprio canteiro central desta, foi possível aprofundar o estudo
iniciado em 2000 sob uma perspectiva geográfica, e não menos urbanística.
Em Salvador, até meados do século passado, praças, ruas, terrenos baldios
serviam de palco para as brincadeiras e eram disputados pelas crianças, conferindo-
lhes intensa vitalidade. A partir do crescimento abrupto da cidade, em busca da
modernidade, pode-se perceber uma mudança na relação sócio-espacial: com a
verticalização da cidade e do preenchimento de seus “vazios”, as atividades
anteriormente desenvolvidas em praças e ruas passaram a ser desenvolvidas em
espaços privados dos condomínios, casas e edifícios, quando se popularizam os
playgrounds.
Nos anos 70, o primeiro shopping center foi construído e a partir da década
seguinte muitos outros surgiram. A idéia de lazer passa a ser cada vez mais privada
e não pública: desloca-se o espaço de congraçamento e de contato para o espaço
do consumo. fora os espaços degradados aumentam e poucos são os focos de
resistência.
16
Por conta da relação crescente do lazer com o investimento financeiro, os
espaços de resistência passam a acontecer com maior freqüência nas áreas com
grandes densidades habitacionais, ocupadas pelos extratos sociais de renda baixa,
cujas áreas de lazer e áreas verdes são praticamente inexistentes.
Dessa faceta do processo de exclusão social de uma cidade tão desigual
quanto Salvador surge a apropriação de áreas urbanas muitas vezes impensadas
para fins recreacionais, como é o caso dos canteiros centrais das “avenidas de vale”.
A partir desse breve comentário sobre a transformação da relação das
atividades recreacionais e de convívio social com o espaço público e a criação de
espaços de resistência pode-se dizer que as necessidades das pessoas e o modo
como os espaços públicos podem satisfazer estas necessidades, muitas vezes
antecedem a noção de direito e espaço, levando a conclusão de que estes
elementos urbanos constituem valores culturais a partir do momento que são fruto
de um processo de humanização que transforma o espaço em lugar.
Desta forma, é possível dizer que este trabalho tem como objeto de estudo a
utilização do canteiro central das avenidas de vale” pela população, atualmente na
cidade de Salvador, tendo como estudo de caso, a Avenida Luís Viana, chamada
pela população de Paralela.
Esta via, reconhecidamente, a mais monumental das avenidas de Salvador,
pelas suas dimensões e pelo seu valor estratégico dentro do sistema viário da
cidade, pois se constitui em um eixo de articulação entre elementos estruturantes do
espaço urbano, como o centro administrativo estadual, o centro de negócios e
serviços, o aeroporto, a rodoviária e áreas habitacionais de grande densidade
demográfica, além de ser uma importante ligação com a Região Metropolitana.
A escolha desse tema se deve, em princípio, a quatro motivos. Primeiramente
a necessidade de aprofundar o estudo sobre a utilização dos canteiros centrais das
“avenidas de vale” de Salvador, como espaços públicos e espaços do cidadão;
17
Como segundo ponto, vem esta indagação: considerando-se o contexto
social, histórico e geográfico, e o entendimento que o lugar não é porção de um
espaço qualquer e sim “um sítio determinado por alguma coisa que precede o
espaço e o instaura” (SOUZA, 2000:17), será que o “vazio” da paisagem desta
Avenida não representa as tensões latentes da multicidade que é Salvador?;
O terceiro motivo é conseqüência das seguintes questões: historicamente a
Paralela representa um marco, pois juntamente com outras obras que ocorreram
entre as décadas de 60 e 70, a sua construção consolidou a descentralização da
cidade, assim, será que a função de articulação não está dialeticamente conectada
ao processo de exclusão social? Será que a utilização “espontânea” do seu canteiro
central não advêm da necessidade de um espaço coletivo urbano ser estruturante
no sentido social?
Finalmente, a relevância do estudo dos mecanismos socioambientais de
transformação deste espaço, como forma de analisar o processo de apropriação de
um “espaço público” que, como diz o nome, é próprio da população, ou seja, um
processo de conquista ou reivindicação de algo que já é de direito da cidade.
Face a estas indagações e considerações, denotou-se uma preocupação em
se estabelecer um tema de pesquisa que abarque uma análise da evolução espaço-
temporal e da forma-conteúdo do espaço público em questão, numa perspectiva de
se tratar as mudanças no uso, analisando as condições atuais para que se possa
propor (ou não) novas formas de aproveitamento e destinação adequadas à Avenida
Paralela.
Sendo assim, esta pesquisa tem como objetivo analisar os fatores específicos
extrínsecos e intrínsecos que determinam a utilização do canteiro central da Avenida
Luís Viana pelas populações do seu entorno.
A hipótese básica sobre a situação problema é de que a utilização crescente
desta área ocorre em razão da insuficiência de espaços públicos; da ineficácia do
planejamento urbano como instrumento de resposta às necessidades básicas da
18
população; da necessidade do indivíduo-sociedade de traduzir seus desejos e
carências através da construção simbólica da sua relação com o lugar.
1.1 REFERENCIAL TEÓRICO-CONCEITUAL
A Geografia é uma ciência que ao longo do tempo passou por uma série de
transformações como forma de acompanhar as mudanças do mundo. A partir de
uma base metodológica e filosófica que até meados do século XX defendia um
saber objetivo, lógico e formal foram sendo incorporadas gradativamente novas
perspectivas de análise que defendiam um saber subjetivo e crítico.
Em 1960 começaram a ser realizados estudos voltados para a subjetividade
humana, que foram impulsionados a partir de 1970, como diz Souza (2002: 3),
propondo “um esforço combinado para conciliar à explicação e o entendimento, o
conhecimento e a ação, o objetivo e o subjetivo, no sentido de ampliar a
compreensão geográfica do espaço”.
Nesta perspectiva, surgem a Geografia Humanística, a Geografia Cultural e a
Fenomenologia, com a tomada de consciência e valorização da interação entre os
indivíduos.
A categoria de análise passa a ser o lugar enquanto espaço experienciado.
Tal categoria propõe um novo foco para o objeto geográfico, uma perspectiva que
acentua a interpretação e compreensão social dos sujeitos no espaço. A constituição
dos lugares passa a ser analisada não pelas redes de significações materiais
como pelas efetivas.
Assim, olhar o espaço sob um ângulo objetivo e generalizador é arriscar
deixar de lado toda uma série de aspectos que dão sentido e espessura a
ele, tais como o sentimento de pertencimento, as imagens, a dinâmica
identitária, a experiência estética, etc. (GOMES, 2000: 317)
Edgar Morin, intelectual contemporâneo, expoente na construção desse
processo de mudança, que não foi exclusivo da Geografia, mas sim um processo de
transformação das ciências sociais como um todo, coloca:
19
Aqui a dificuldade não está apenas na renovação da concepção do objeto,
está na viragem das perspectivas epistemológicas dos sujeitos, quer dizer,
do observador científico: o que era próprio da ciência era, até agora,
eliminar a imprecisão, a ambiguidade, a contradição. Ora, é preciso aceitar
com certa imprecisão e uma imprecisão certa, não apenas os fenômenos,
mas também os conceitos (MORIN, 1990: 53).
Para este autor, a questão apontada se refere ao paradigma do
conhecimento, no qual separou-se o sujeito e o objeto, determinando os conceitos
subalternos e prescrevendo uma relação lógica: a disjunção (MORIN, 1990: 25).
A única maneira de romper com este paradigma seria então partir para um
paradigma disjunção/conjunção que permita distinguir sem separar, associar sem
identificar ou reduzir, que permita explicitar e explicar fenômenos como a liberdade e
a criatividade. E isso é possível através do quadro complexo, uma vez que a
complexidade é o "tecido dos acontecimentos", é através dela que se dão as ações,
interações, retroações, determinações, acasos, que constituem o mundo fenomenal
(idem:53).
Assim, a partir da análise das idéias de Morin relacionadas ao pensamento
complexo, foram concebidos os esquemas da Figura 01, correspondentes à
conjuntura em que as áreas adjacentes à Avenida Paralela se encontram e a
dinâmica na qual foram planejadas e estabelecidas.
FIGURA 01
A Figura 02 a seguir emergiu da conclusão de que o uso de uma lógica
conectiva, e não disjuntiva, implica em uma visão não determinista e de uma
causalidade não-linear. Ou seja, apenas através de uma relação cíclica, sem uma
20
hierarquia linear é possível compreender as ações cotidianas cercadas com os
traços inquietantes da confusão, da ambigüidade, da incerteza e da contradição.
FIGURA 02
Além do pensamento complexo de Morin, o qual é imprescindível para uma
realidade que se mostra também complexa, pode-se apresentar o pensamento de
Henri Lefebvre no campo das diferenças, da relação público-privado e do espaço do
cidadão.
Para tanto, considerando a base teórica deste estudo, pode-se reunir aos
conceitos trabalhados por Lefebvre o pensamento de Ana Fani Carlos, o qual
enriquece e complementa o arcabouço teórico, principalmente no que se refere ao
espaço vivido, espaço do cotidiano.
O processo de reprodução da metrópole aponta para a constituição de um
espaço que se desenvolve priorizando o valor de troca em detrimento do
uso e de suas possibilidades, gerando conflitos que eclodem no plano da
vida cotidiana, em que as contradições são percebidas em toda a sua
magnitude, pois esse nível é aquele da reprodução da vida, que revela o
fato de que o homem habita ativamente (...) São os momentos das
apropriações possíveis que privilegiam o uso em detrimento da troca,
nascimento comum de desejos de mudar de vida ou intensificá-la e que se
colocam como possibilidades de existência dos espaços de encontro, da
troca, dos jogos, do divertimento e do lazer (CARLOS, 2001:279).
No que se refere a espaço público, conceito central deste trabalho, foi
considerada a contribuição de Ângelo Serpa e Silvio Macedo, os quais abordam a
questão sob uma perspectiva nacional.
21
Serpa, em seu recente livro "O espaço público na cidade contemporânea",
compreende que este seja o espaço da ação política (ou da possibilidade desta)
(2007:9). O