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Para não dizer, que não falei de flores...
Marco Ramos
Agradeço aos amigos e leitores, bem como pessoas que me serviram de
inspiração, pois a poesia está nelas, em cada rosto. São sorrisos,
lágrimas, olhares, e tudo aquilo que um poeta pode captar.
Dedico esse livro aos meus filhos.
Fone: 71-87667787
Copyright © 2008 Marco Ramos
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Pagina – Titulo
04 - A Divina Flor
05 - Descortina-se
06 - Paredes
07 - Rien de Rien
08 - Uma Rosa Que Fora Deixado à Minha Porta
08 - A Janela do Décimo Andar
09 - A Menina da Guerra
10 - A Senda de Um Lavrador
11 - AIDS
12 - Gabriela
13 - A Flor Azul
14 - Alem Mar, Mares de Além
15 - Bolero N° 1
16 - Bolero N° 2
17 - Bolero N° 3
18 - Bolero N° 4
19 - Bolero N° 5
20 - Rosas Negras
21 - Profanas
22 - Ecos do Teu Nome
23 - Fotografia em Preto e Branco
24 - Surpreenda a Quem Você Ama
25 - Três por quatro
26 - Remodelando um pai
27 - Hipérboles
28 - Plenário
29 - 7:00 Horas
30 - Amazônia
31 - Frutos da Seca
32 - Impropérios
33 - Versos, sub-verso e subversão
34 - As Janelas de Salvador
35 - É Gol
36 - Porto Alegre
36 - O Golpe
38 - Salvador
39 - A menina da janela
39 - Indivisível paixão
40 - Luzes de Natal
40 - Toma de mim, A tua melhor parte
41 - Ao mestre com carinho
42 - Saudade em tons vermelhos
42 - Secret d´amants
43 - Poesia inacabada II
44 - Um soneto de ti
44 - Tatuagem
45 - Um rio que virou pedra
46 - Zài Jiàn (Adeus)
47 - Eu não sei chorar
47 - Outras de Amor
48 - Baseada em fatos reais
49 - Addition d’amour, resultat d’passion
50 - Uma receita de amor
3
A Divina Flor
Deste-me as tuas palavras, por fim,
Dizendo-me do teu desejo em encanto,
E eu sei que és a flor platônica de meu jardim,
A flor orvalhada das lágrimas de meu pranto...
Flor, que nasce de meus ramos mesmo que secos,
Trazendo-me a alegria entre outras sensações,
Flor de nostalgia, de idas e vindas, ruas e becos,
De variadas noites, entre astros e outras lunações...
És a minha flor do cabelo vermelho,
Pintado ou não? Mas que assim seja,
A estátua perfeita na frente do espelho,
Anjo ou diabo que qualquer homem deseja...
Mas o teu céu não me assusta, és flor,
Eu tenho é medo de cair no teu inferno,
E sentir na ponta de teu espinho a dor,
Ao ver minha primavera se tornando inverno...
Flor, para quem tu selaste a tua castidade?
Para quem no mundo tu desprendes tua cor?
Se nas palavras de um poeta, tornasses celebridade,
Foste em teus ramos que encontrasses o amor...
E fora nele que murchaste para tornasse semente,
Esparramando-te como pegadas no chão,
Em um desejo de florescer, ávido, presente,
No amor que se sente, a cada ramo de tua floração...
Eu sei flor, que o tempo te fez mulher, fêmea!
A origem de meu tudo, e principio de meu nada,
Mesmo que diferentes, perfeitas almas gêmeas,
Em ramos e flor, de uma poesia inacabada...
Pois me deste as tuas palavras, por fim,
Dizendo-me que teu desejo fora apenas encanto,
Embora tu sejas a flor platônica de meu jardim,
É a flor orvalhada, da lágrima que cai de meu pranto...
4
Descortina-se
Descortina-se, desvenda teu corpo nu...
Um elemento taciturno da madrugada.
Revela...E vem quebrar o meu tabu,
E ser meu liceu, num livro de letras apagadas...
Descortina-se...Revela, e faça-me calar,
E no intimo de meu silêncio, seja-me uma poesia...
Pois quando o teu corpo puder me revelar,
Eu enxergarei um mar, onde jamais navegaria...
Por que por seus olhos castanhos, vejo procelas,
E entre elas...A minha deriva...Então sigo perdido...
Mas são olhos que me guiam, são olhos sentinelas,
Que faz me lembrar o caminho já esquecido...
Descortina-se, desvenda os teus seios maduros,
Como frutas licorosas...E de tez delicada...
Delicia, como a milícia de brincar no escuro,
Delicia, como uma mão procurando o nada...
Revela o teu horizonte, faça-me percorre-lo,
Correndo pela natureza de sua nudez...
Para senti-lo...E na continuidade, absorve-lo...
E ter um feliz devaneio, nessa insensatez...
Logo descansarei minhas mãos em suas costas,
Procurando o império de seu sentido profano...
Onde minhas químicas serão expostas,
Revelando os segredos de meus arcanos...
Assim meu suor escorrerá...Como água pura,
Mas é o sal que o meu corpo despoja...
E que mistura ao seu...E assim me tortura,
Mas com ternura...Depois envolve...Aloja...
Descortina-se...Revele-me todo seu segredo,
Que eu os apanharei por suas intimidades...
Descobrindo-os, pelas pontas de meus dedos,
E por eles, tu me dirás todas suas verdades...
5
Paredes
As paredes pareciam até confabular,
Como soubessem o que estava para acontecer!
Ao presenciar duas bocas, uma na outra se tocar,
Já sabiam, que um dos dois ia enlouquecer...
Ai então, elas vão servir de proteção,
E no calor do quarto, parecem também suar,
Com dois corpos transpirando a paixão!
Encaixados com perfeição, na difícil arte de amar!
E nesta hora, o tempo não deveria ser medido,
Na verdade, não deveria nem haver tempo!
Não deveria haver idades, nem elos perdidos!
Somente sussurros, que pudessem ir com o vento!
Relatando para as paredes, a face oculta!
De duas sombras excitadas à meia-luz,
Entrelaçadas, numa liberdade absoluta,
Como um quadro nu, em que a vaidade seduz...
E assim presenciaram um momento mágico,
Quando num turbilhão, o orgasmo atingir a vida!
Anunciando este momento tão fantástico,
Alcançando o cume de duas almas enaltecidas!
Que depois de cansadas, encontraram o sono!
E entre o sono o sonho, pelas paredes amparadas,
Estiradas na cama, como que num abandono!
Mas respirando amor, no silêncio da madrugada...
Paredes, elas não podem confessar, então calam!
Pois entre elas, há milhões de mundos diferentes,
Pois por ali, muitos outros perfumes exalam,
Loucuras se revelam, e outras se fazem presentes...
Porque paredes! São testemunhas fascinadas,
Do amor, e da fragilidade das emoções...
E mesmo, quando das luzes apagadas,
Elas enxergam o que arde além dos corações...
6
Rien de rien
Nem palavras, nem flores sobre a cama,
Nada de nada em lençóis esparramados,
Nem as cinzas de uma alma em chamas,
Nem provas de um suposto pecado...
Nada de nada, nem remorsos, nem dramas,
Só um silêncio retrata este quadro,
E em sua imagem, a lembrança de quem ama,
E mais nada de nada, nem peças de ladro...
Mas ali, o relógio ainda bate lento,
E como um coração do tempo que não silencia,
Levando seus sussurros de amor ao vento,
E mais nada de nada, como uma tela vazia...
Mas é uma sinopse que se espargiria,
E percorre pelo inatingível imaginário,
Como a sedução do tempo, que a pele feria,
Mas são marcas de paixão deixadas pelo cenário...
E mais nada de nada, apenas um momento introspectivo,
É um momento resignado a se tornar forte lembrança,
De uma noite onde arderam dois corpos vivos,
Um sobre o outro, numa imaginária dança...
E não sobraram palavras, nem flores sobre a cama,
Nada além destes lençóis esparramados,
Mais nada de nada para revelar esta trama,
Onde o pecado em forma de amor, fora purificado...
Então em forma purificada, se tornou um desejo,
Efêmero dês de que se faça, eterno dês de que dure,
Fazendo de teu corpo um altar santo para meus beijos,
E nada de nada, fará que o meu pensamento mude...
Nem palavras, nem flores sobre a cama,
Nem o silêncio de nosso tempo mudo,
A não ser o amor que pela alma esparrama,
E mais nada de nada, percorrerá o nosso mundo...
7
Uma rosa que fora deixado à minha porta
É uma pequena lembrança que deixaste
Uma rosa cor de rosa, e de pétalas macias
Marcando a entrada da porta que passaste
De onde partiste, deixando a cadeira vazia...
Mas não é nas rosas que perpetuará o nome teu
Mas sei que teu nome perpetuar-se-á nas rosas
Como um véu que fora jogado de Julieta ao seu Romeu
O vento levará tuas lembranças em versos e prosas...
E da sua crônica vital, relembrarei teu vulto real
Na releitura que faço, das letras deixadas por sua pena-de-prata
Pois de sua cadeira vazia, não jaz o seu memorial
Pois não há tempo, em que sua lembrança não se retrata...
Sei que verás de onde está, que nem toda Maria é moura
Com este amarelo escuro, esparramando-se pelo couro
Mas se são três as Marias, tua memória será duradoura
No arranhar da esporas, deste teu galo de ouro...
Mas antes que vá, e que de teu corpo se faça poeira
O menino mágico te fará mais uma estrela, nesta constelação
E no céu sei que brilharás, sempre como a primeira
Pois a vida é efêmera, mas a eternidade não...
E desta rosa que me deixaste á minha porta
Farei que se perpetue, como num eterno jardim
Pois neste quadro, não haverá uma natureza morta
Pois tua história teve um começo, mas jamais terá um fim...
Em memória de Rachel de Queiroz
A janela do décimo andar
Já não acredito em tudo que posso ver, isso me basta,
Não creio nem nas luzes que cruzam o vidro transparente,
Pois não há sol que retire a tristeza que me abate,
Nem uma policromia retirará o luto que minha alma sente...
Não creio que possa existir alguém misturado a minha pauta,
Nada pode mudar o mundo escuro, meu mundo de cinzas negras,
Mas ontem eu pude viajar ao obscuro, sou um louco astronauta,
Em dez milhões de estrelas, nestes meus caminhos sem regras...
8
Mas a viajem tem volta, acordei-me num total desespero,
O meu fascínio quebrado, mal podia sentir os pés no chão,
Que revolta, eu quero quebrar tudo, e quem ouvirá meu apelo?
A janela está aberta, e grito por ela, mas tudo parece em vão...
Vou até a geladeira, não há água gelada que me refresque agora,
A sede que eu tenho é insana, não consigo tirar a secura da boca,
Tenho que me livrar disto, não sei do tempo, qual será a hora?
Sinto-me sem ar, pois algo me sufoca nesta imaginária forca...
Corro para a janela, ali o vento sopra-me a aragem bendita,
E vejo lá em baixo o mundo pequeno, em um quadro doente,
É um quadro cinza, mas quem será que pintou os detalhes desta dita?
Com ônibus, carros, pessoas, vidas sobre vidas, tudo tão diferente...
Mas algo me chama lá para baixo, subo na guarda com coragem,
Explano meus braços em cruz, agora tenho certeza que posso voar,
Salto neste momento, essa será a mais longa de minhas viagens,
Não sei qual será o meu destino, não sei onde vou chegar...
E tudo voltou a ter cores! Cores que antes não podia reconhecer,
Voltei a sorrir, pois estou voando para minha liberdade,
Olho lá para baixo, agora tem muitas pessoas que podem me ver,
E parecem gritar, talvez não acreditem que eu voe de verdade...
O que era pequeno, parece crescer agora diante de minha visão,
Tudo vai tornando-se maior, embora que se aproxime lentamente,
Mas eu não sei o que houve, tudo se tornou escuro ao tocar no chão,
Devo ter caído novamente, no lado negro de minha mente...
A menina da guerra
Os aviões cruzavam no céu, como se o rasgassem
E as sirenes tocavam, confirmando um bombardeio
Baterias antiaéreas apostas, como que confabulassem
Tentando combater, as bombas de alvo certeiro...
Blindados esmagam o resto que se mantêm em pé
O fogo entre as ruínas consome o início do que termina
Mas ainda há um anjo que ora nas escadarias da Sé
É um anjo triste, com os olhos de menina...
9
É a menina da guerra, sem pátria e sem bandeira
Que do deus da guerra, fora mais uma vitima inocente
Senhor da guerra, que age em sua maneira costumeira
Profanando aos anjos, as suas melodias doentes...
Menina, onde estarão seus pais? Talvez mortos?
Sei que não sabes, ou talvez não queira saber
Mas procura um rosto conhecido entre os corpos
Enfrentando a morte, mas com medo de morrer...
A morte sombria, tal qual o castanho de seu olhar
Mas é um olhar que brilha, com a intensidade da dor
A dor de quem já cansou de pelo medo chorar
A dor de quem já não encontra entre os escombros o amor...
Agora nada preenche seu coração solitário e vazio
Há um eco triste e latente na vastidão de sua alma
Os pés doem ao andarem descalços ao frio
E a fome já roubou o que restou de sua calma...
Então de cansada, deita-se sobre as cinzas ainda quentes
Adormecendo entre os estampidos do fogo de armas cruzadas
É um sono pesado, que rouba então o seu consciente
E inconsciente sonha, e deseja não mais ser acordada...
E ali, o seu corpo estirado numa triste visão
Uma vida cansada esperando pelo seu julgamento
E por sua passagem, espera que um anjo possa lhe estender a mão
E leva-la para a eternidade, como uma folha levada ao vento...
Ela sabe que não há caminho, que o amor não abra a porta
Não há caminho solitário, para quem o amor gera
Em no seu adeus solitário, flores pisadas, flores mortas
Entre a vida e a morte, da pequena menina da guerra...
A senda de um lavrador
Quem te fez assim foi o destino
Que é o tempo disfarçado de Deus
Fazendo-te seguir ao lavoro matutino
Semear a terra, entre os sonhos seus...
10
Na terra tu plantas o teu trigo
E o teu trigo gera o teu pão
O teu pão gera o teu abrigo
E teu abrigo te gera a proteção...
E a senda de um lavrador
Que da terra faz a sua vida
E a vida lhe faz da terra trabalhador...
Que semeia a terra empalidecida
Até que nela se gere a cor,
Do fruto de uma alma enaltecida...
AIDS
Agora vou lhe dar meu beijo morto,
Instigante é este meu beijo da morte,
Depositados nos confins de teu corpo,
Servidos à mercê de sua sorte...
Assistirá-me então sair das profundezas,
Ignorando aos teus credos, e a tua vida,
Dizimando com tuas verdades e tuas certezas,
Semeando a discórdia tão desconvida...
As tuas dúvidas agora é que vão aparecer,
Insistindo em destruir o resto de tua fé,
Deveras, sentirá o teu amor abrutecer,
Sabotando com o resto que ficara em pé...
Assim poderás ver as minhas facetas,
Insaciáveis, tomando tudo o que lhe resta,
Deixando-lhe há estas continuidades obsoletas,
Sumarizando a minha identidade funesta...
Ao ver a minha face que lentamente te consome,
Indagarás confuso sobre a quem realmente sou,
Duvidando, não entenderás nem ao meu nome,
Sarcástico, que dessa maneira se revelou...
A minha seara estará completa totalmente,
Imortalizando a praga que ao vento fora semeado,
Deixando-lhe, a incerteza que agoras sente,
Sucumbindo-lhe sem horário marcado...
11
Agora, não espere de mim a piedade,
Intervenho qualquer pedido feito a Deus,
Depois de sugar sua vida, te digo a verdade,
Sou a praga da fé ante os ateus...
Antes que viva, e antes que morra,
Inicio a sentença, de tudo em que lida,
Do meu circo colorido, lhe farei uma masmorra,
Sugando com o resto que sobrou da tua vida...
Dia 1 de dezembro, Dia Mundial de combate à AIDS
Gabriela
Onde tu estás meu Anjo, onde tu estás?
Porque fugiste pela janela, criaturinha do céu
Voaste ao longe, bem longe deste mundo voraz
E da violência estúpida, e criminalidade sem réu...
Porque deixaste que as minhas lágrimas rolassem?
Se meu pranto foi perdido junto a sua inocência
Assim sem querer, deixei que as rosas murchassem
Como um tiro do nada, da marginalidade sem conseqüência...
Cadê seu sorriso, minha criaturinha encantada?
Os seus beijos poéticos, frases em cartões coloridos
Queria poder trazer-te de volta, como num conto de fada
Mas não há fadas, ao defrontar com estes estampidos...
Quem senda do nada, de nada sei que proverá
Pois maldito seja, a quem o mal lhe tenha feito
Este será como erva daninha, e ninguém o colherá
Ninguém pode tirar a vida, viver é um sagrado direito...
Mas Anjo, creio que estás aqui, como a semente viva
E vais trazer a aquarela colorida, como a divina flor
A eterna flor de agosto, tão augusta, tão sensitiva
Para nos levar as lagrimas, e nos livrando desta dor...
Hoje teus amigos aqui se encontram de mãos dadas
E não estamos da mão atadas, somos mais de um milhão
Meu anjo cristalino, tu és o símbolo de nossa jornada
Pois queremos a paz na terra, e violência não...
12
Assim meu Anjo, o teu nome aqui vai se perpetuar
Pois seu perfume ainda adentra por nossa janela
Tua imagem no espelho, ainda podemos enxergar
E sempre vamos te amar, minha pequena Gabriela...
Sei que não voltarás, mas sei que ainda vives
Em cada rosto de criança, e cada novo sonhar
Pois tu és o ouro mais precioso entre os ourives
Um ouro que ninguém poderá garimpar...
A flor azul
Eu já na caibo nas noites, estou só,
E entre mim há funerais de estrelas...
Elas estão agora regredindo ao pó,
E já não brilham as suas centelhas...
Eu já não caibo nestas noites...Enfim,
Estou só, sentindo os ventos do sul.
Relembrando de seu sorriso de marfim,
Tendo em suas mãos, uma pequena flor azul...
Azul, como estas noites que se perduram,
Como o frio das palavras nesta poesia...
Mas o céu também é azul, e lá os anjos juram,
Movimentando-se pelas noites vazias...
E eu já na caibo nestas noites, sem perdão!
Tal qual é a minha insônia...Estou ausente...
E entre os travesseiros caídos no chão,
O meu corpo intocado ainda te sente...
Sente, pressente...Ressente o que foi ressente,
Wish you were here...O tempo vai morrer…
Até que o passado venha se tornar presente,
E nas minhas palavras vagas, ver o sono bater...
E tentar dormir, nestas noites, noites vagas,
Com seu abraço em forma de abrigo pleno.
Mas a mão que surra, e a mesma que afaga,
E no teu beijo, posso encontrar um veneno...
O veneno da flor azul, dada em picardia,
Que se esparrama no ventre como um drama,
Na novela destas minhas noites vazias,
Onde meu coração está em chamas...
13
Pois teu espinho morto já não me faz sangrar,
Mas queria que sua ausência não fosse presente.
Fazendo-se por estas noites se perdurar,
Mas a única verdade é que ela mente...
E estas parabólicas não poderão captar,
O frenesi destas palavras em julgamento.
Eu te amo, mas preferia não te amar,
Com uma flor azul, em nosso ultimo momento...
Um adeus, e nada mais...
Além mar, mares além
Além mar! Mares de além...Além de mim,
Além de teu corpo na forma de cais...
Onde dou de ancora na esperança sem fim,
Para ficar de sentinela, a espera da paz...
E na forma de meu corpo, minha nau jaz,
Além mar, além mares...Meu porto seguro...
E ancorado estou ao teu cais...E mais,
Descansando dos mares que me aventuro...
Para que eu posso voltar novamente,
Livre, porém ancorado na saudade...
Além mar...O teu cais fotografado na mente,
Faz-se presente na minha mediunidade...
Onde sopra uma brisa de além mares,
Pois só os mares aqui me trazem.
Para afogar-me de vinho nos teus bares,
Junto ao teu cais, as mágoas se desfazem...
Até que eu venha partir novamente, e vou!
Navegar é preciso, é preciso navegar...
Além mar...Ao vento a minha galera levou,
E eu vou, eu vou, mas um dia vou voltar...
Para me encontrar novamente com seu porto,
Aportando-me no seu cais silencioso...
Por onde minha nau na forma de meu corpo,
Repousará no teu remanso, antes lamurioso...
14
Do teu choro na forma de tempestade,
De tua fúria louca, como um furacão...
Tentando me por a pique por vaidade,
Sem saber se eu voltaria, ou não...
Pois eu estava além mares, mares além,
Mares por outros já navegados...
Navegar é preciso, mas voltar também,
Ao teu cais, onde morrerei ancorado...
Bolero N° 1
Eu já lhe falei do mar,
Falei das ondas e das maresias,
E de naus por ele a navegar,
Nas quimeras de minhas poesias...
Também já lhe falei do amanhecer,
Com o sol nascendo sobre meus temas,
E minha na natureza, você pode reconhecer,
Que há sensibilidade em meus poemas...
Eu sempre lhe falei das flores,
Vibrando numa variada coloração,
Parecendo me emprestar suas mil cores,
E perfumando as linhas deste meu refrão...
Eu já lhe falei da vida e da morte,
De viver e morrer nestas nossas sinas,
Falei dos altos e baixos, de sul a norte,
Nos detalhes destas minhas rimas...
Já lhe falei do seu corpo no meu,
E do desejo que a pele invade,
Das evidências de um EU dentro do EU,
Nesta minha essência de vate...
Eu já lhe falei de rainhas e reis,
Mas sem me esquecer dos jagodes,
Falei do mundo, e de suas leis,
No sincretismo destas minhas odes...
Eu já lhe falei de dores incontidas,
E do sangue rolando das escalavras,
Mas elas notaram-se remidas,
Quando estiveram em minhas palavras...
15
Mas eu ainda não lhe falei de tudo,
E digo que há no mundo, algo que me completa,
E é o teu amor, que por vezes me põe mudo,
Mas faz brilhar a minha essência de poeta...
Bolero N° 2
Vai, parte se achas melhor assim,
Mas não olhe para trás, por favor,
Pois no meu amor, tu poste um fim,
Deixando-me o amargo do teu sabor...
Mas espero que tu possas se lembrar,
Antes mesmo de cruzar pela porta,
Que um dia, tu podes querer voltar,
Há quem hoje tu não mais sê importa...
E o tempo poderá por mim se vingar,
Revelando aos teus sonhos perdidos,
E mesmo assim, não poderás voltar,
Mostrando-me aos teus olhos arrependidos...
E por mim, não vai adiantar lamentar,
Assim, como antes por ti eu lamentei,
E por fim, talvez tu até queiras chorar,
Assim como por ti eu também chorei...
Eu sei que vou perceber em minhas mãos,
Todo o perfume deixado por seu cabelo,
Fazendo-me lembrar do vazio no coração,
Que me condenou a viver neste flagelo...
Eu te amo, mas queria te esquecer,
E meu inferno eu sei que vai se perdurar,
Pois o amor, não é fácil de desaprender,
Para quem na vida, só soube te amar...
E assim virão as frias tardes de outono,
Prenunciando outro inverno em minha vida,
E com o frio, sei que perderei o sono,
Tendo sempre a sua imagem abatida...
16
E os meus lírios, não sobreviveram,
Ao deserto que por aqui tu deixaste,
E anos passarão, sem haver um único verão,
Relembrando o dia em que me abandonaste...
Bolero N° 3
É verdade, tenho sentido a sua falta,
Queria que ao menos isso você soubesse,
Mas digo que já não espero por sua volta,
E é esta condição que me entristece...
Pois chove lá fora há muito tempo,
E ela é regida por um vento frio,
Fazendo-me lembrar, mais de um momento,
Das nossas manhãs nos meses de abril...
Então fico contra o tempo e sem respostas,
Porém sei que ainda seguimos vivos,
Mas sem querer, nossas vidas foram expostas,
Como se fossem apenas meros arquivos...
Umas das melhores sensações do homem,
Talvez é a de nunca se sentir sozinho,
Eu já não consigo, pois tristezas me consomem,
E cadê você? Que fugiu por estes caminhos...
Um dia entenderás, o sexo está em todo lugar,
Difícil mesmo, é encontrar o verdadeiro amor,
E por ele encontrar a sua perfeição ao amar,
E não uma mera satisfação ao seu favor...
Ai eu sei que será difícil, o sexo sem amor,
E como se estivesse o seu corpo a aleijar,
Estampando na sua boca, um beijo sem sabor,
Da boca que você não ama, mas está há beijar...
E assim vais tentar fugir, sem querer voltar,
Mas não encontrará o caminho para sua fuga,
E sentirás nojo, deste que tu não queres amar,
Em meio a fumaça, de seus charutos de Cuba...
Assim lembrará de mim, e vai querer me chamar,
Mas já estarei longe, e sem poder lhe ouvir,
Vais se sentir suja, com mil olhos a lhe condenar,
A ter que viver sem amar, e com a dor sem elixir...
17
E não terás meus olhos azuis para te consolar,
E nem o calor de meus braços a te envolver,
Não terás meu corpo, nem minha boca para beijar,
E isso só lhe fará lentamente enlouquecer...
E não adianta agora fechar teus olhos por fim,
Tentando fingir, que eu caminho ao lado de você,
Perfumando a tua pele, como se eu fora um jasmim,
Como eu fazia, antes de você tentar me esquecer...
Mas você tentou, e percebeu que não consegue,
E o que adianta? Se agora trilha pelos espinhos,
E mesmo sabendo que minha lembrança te persegue,
Tu segues rumando os meus diferentes caminhos...
E nenhum deles te levará até a mim, nenhum!
Sou flor morta pelos teus pés nestas jornadas,
Sei que teus erros, não te levaram a lugar algum,
Mas levaste o meu amor, e não me trouxeste nada...
Agora fadas, se deixaram de existir momentos,
Ou minhas palavras, para aliviar a tua dor,
Eu só peno o dia em que tu fora com o vento,
Levando contigo, o que eu considerava amor...
Bolero N° 4
Eu não precisei falar nada,
Se ao teu olhar deixei perdido meu tempo.
E raparei que fiquei no meio da jornada,
Reparei que fiquei até sem argumento...
Na tua ausência, me perdi nas palavras,
Palavras que por vezes não tinham tradução,
Uma palavra que rompe a pele e escalavra,
E que argumenta desprazeres do coração...
Você foi meu júbilo, mas atenuou!
Fez-se revés, como um grito na garganta.
Como uma fonte, que o desespero secou,
Da saudade que nenhuma presença acalanta...
18
Amar-te foi assim, como joio no trigo,
Como uma praga...Dor...Sem amor...
Transformou um coração mendigo, sem abrigo,
A penar vazio, na sua fruta sem sabor...
Um dia sem palavras, eu voltarei com o vento,
Na presença de meu olhar cego e mudo, irá chorar.
Mas não te lembrará de nenhum doce momento,
Somente das lágrimas, de quem não pode mais chorar...
E ai de ti, ai de mim...Ai de nós,
Querermos nos comparar a um conto de fadas.
Mas que final feliz?...Se nós terminamos sós...
Sós como as palavras, e mais nada de nada...
Pois lá se vão nossas quimeras, nossas utopias,
Devaneios rechaçados pela realidade.
Que nos deu um banho de água fria,
Ao relatar que era falsa a nossa verdade...
Eu não pisei em ti minha flor, foi o jardim que secou,
Pois há muito tempo você já não floria...
E meu coração preso, que por muito tempo lhe amou,
Hoje é um escravo pedindo alforria...
Bolero n° 5
Para você não bastava a minha vergonha,
Nem o meu arrependimento marcado...
Achando minha lágrima uma peçonha,
Condenando ainda mais o meu pecado...
Para sempre me condenará a não voltar,
E desfilar em frente à porta do inferno...
Fazendo-me como um verme...Rastejar,
Para me sentir cada vez mais prosterno...
Errar é humano? Talvez para os perfeitos não!
Então deixe que eu morra, mas não que vá!
Pois os seus demônios me perseguirão...
Em qualquer caminho que eu resolver andar...
E eles vão rir da minha cara de solidão,
Vão caçoar de meus joelhos machucados...
Pois vou rastejar pela escuridão,
Para poder pagar os meus pecados...
19
Esgueirando-me entre os becos da necrópole,
Onde todos silenciam...Onde todos calam...
Propagando a dor que me despole...
Ao sentir que minhas chagas não falam...
Pois se falassem, tu saberias de mim,
O que eu não era, mas que hoje sou...
E dançarás sob meu tumulo, por fim!
Com uma ira incontida, a quem você já amou!
Pois me amaste como um cometa riscando os astros,
Deixando apenas seu rastro de fogo na imensidão...
Mas em rota de colisão, explodiste em pedaços,
Com mil fúrias...Mas numa única razão...
A razão dos olhos de quem não perdoa,
E que mesmo amando, prefere dar um não!
Não se comovendo com erros à-toa...
E esquecendo que entre o amor, existe o perdão...
Rosas Negras
Hoje a lua esta oculta, nenhuma brisa no litoral
Os astros parecem estar longe da terra
Somos rosas negras, prontos para amar transcendental
Em um mundo mudo, onde o amor não encerra...
Era o manto negro da noite silenciosa que agia
Atraindo nossos signos para um amor astral
Homem da terra, aquário na astrologia
Mulher do universo, um beijo surreal...
Somos apenas amantes mortais
Mas no escuro somos mais que sobras e vultos
Somos o fogo da terra, somos tão letais
O meu amor veste negro, mas não esta de luto...
É um encanto transparente o meu ceticismo
Tua feitiçaria também ao meu desejo aflora
O amor atravessando a barreira do ocultismo
Para os amores, muito mais amantes agora...
20
Somos as rosas negras do jardim do Éden prometido
Nosso espinho muito fere, e sangra tão carnal
Temos o amor, por outro mundo escondido
Possuídos de vida, nós nos multiplicamos no real...
Somos as rosas negras de alma assumida
Humanos de toque que chama o desejo
Nos amamos no mistério da lua perdida
Em um corpo a corpo, um beijo a beijo...
Essa noite a lua não beijará o mar
Ficará escondida por nosso amor explosivo
Tendo o toque do fogo a conflagrar
O amor interage entre nós tão vivo...
Rosas negras são raras, próprias da bruxaria
Estamos além do que se julgue realidade
Somos dados ao desejo, que um ao outro alicia
Um amor prisioneiro, que goza liberdade...
Profanas
Profana mim’alma, mais uma vez
Siga pelo meu corpo num sentido único
Esparramando pelas vias de minha tez
Este seu sentido que se faz infunico...
Profana-me dizendo a verdade
Calando-se apenas neste sorver,
A tua boca que me suga numa total intensidade
Está como um gelo no meu calor a derreter...
Profana, destrua, queime tudo o que puder
E se sobrarem cinzas, deixe-as ir com o vento
Pois ele me formará, novamente mulher
Marcada por ti, em um único advento...
Então me faça mais uma vez profana
Rasga a minha seda, borre meu batom
No teu corpo, num todo estarei ufana
Pelo jactante momento, num suave semitom...
Diante disso faça de meu reverso o teu verso
Cante-me, inebria-me, faça-me teu poema
Composto pelo teu instinto mais perverso
E só depois nos teus braços, me condena...
21
E assim, perpetua-me nesta tua sina desencadeada
Profana-me deste modo, sem palavras, e sem razões
Pois sou como a flor, sublime, leve, delicada
Uma rosa desabrochada entre os teus botões...
Que é regada pelo mesmo suor que nos banha
Este que verte da pele, tão salgado humor
Que deveras, num todo me assanha
Prazeres embriagados, desse licor de amor...
Profana-me, dizendo-me que sou a nução de seu pecado
E me condene, se achares que não se envolveu
Castra-me, se eu não fora eu seu desejo mais desejado
E me cale, se no meu corpo a tua estória não escreveu...
Ecos de teu nome
Eu queria lamentar, mas hoje já não posso
Parei e olhei para traz, na injusta e mera ilusão
E percebi que você quebrou o que era nosso
E nos cacos restantes, só sobrou minha desolação...
Mas ainda faço de conta que não foi comigo
Faço-me de surda também, se isso valer a pena
Queria qualquer coisa, dês de que fosse contigo
Mas foste como um filme, a qual não assisti a ultima cena...
Eu sei que me castigo assim, mas já tentei ser diferente
O meu amor torna-me submissa, mesmo que eu não queira
E quando tento ser forte, tu chegas tão envolvente
E com um simples beijo, quebra com minhas barreiras...
Então me entrego novamente aos teus critérios
A sua maneira incorrigível me envolva totalmente
Talvez este seja o maior de meus mistérios
Pois mesmo depois do amor, a minha pele ainda te sente...
Então me vejo sozinha, e cercada por mim
E no grito do medo, e os ecos são de teu nome
A esta dependência, preciso por um fim
Mas quando percebo, já estou lhe chamando pelo fone...
22
Mas quando tu queres, és tão carinhoso
Então o que lhe faz do vinho para água mudar?
Será que meu excesso de atenção lhe faz manhoso
Ou esse seu jeito só expressa o seu medo de amar!
Mas mesmo assim não consigo ter raiva ou arrependimento
Uma amiga minha disse-me que isso é submissão
Submissa ou não, eu te espero todo momento
Talvez já esteja cega e surda por esta paixão...
~
Mas eu amo tanto a tua voz, o teu amor
E meu corpo se entrega a ti com fome
Pois aprendi ter prazer no espinho da tua flor
Mesmo depois que vá, deixando-me apenas ecos do teu nome...
Fotografia em preto e branco
O seu sorriso ficou aqui estampado
É apenas uma fotografia em preto e branco
Em um quadro que foi mal emoldurado
E acabou esquecido aqui neste canto...
O tempo pareceu-me não passar
E seu sorriso o tempo não apagou
O passado nesta foto ficou a recordar
E são memórias que o tempo deixou...
Percebo agora que tudo está sem cor
É apenas uma nostalgia dolorida
É como fruta que perdeu o sabor
Uma paisagem que já não tem vida...
Tu sempre foste Sui generis em minha vida
Mas os fatos, a vida bruscamente nos levou
A essência que mantinha nossa alma colorida
O tempo e as horas, lembranças do que passou...
Nos fotos nós guardamos uma nostalgia
E nelas ficam sorrisos que a felicidade gerou
Mas sem as cores, tudo perde a magia
E o que era multicores com o choro desbotou...
Ser feliz e uma mera lembrança fotografada
Um sorriso na foto, lágrimas levadas ao vento
Frases em uma carta que foi rasgada
Um momento que passou rápido no tempo...
23
O nosso amor nem sempre foi franco
Mas tínhamos as cores do amor perfeito
Mas tudo passou a ser preto e branco
E deste amor perdemos o direito...
Queria relembrar-te novamente em versos
Recitá-lo como o princípio do nosso amor
Mas o nosso caminho ficou inverso
E seu sorriso com o tempo perdeu a cor...
Surpreenda a quem você ama
Você não precisa trazer-me flores
Nem perfumes, com aromas delirantes
Muito menos bombons com preciosos licores
E nem jóias em ouro com diamantes...
Você não precisa cantar-me uma canção
Mesmo que sua voz suave me soe bem
Também não precisas mostrar-me sua devoção
Acredito na sua fé, pois ela me faz forte também...
Você não precisa dizer que a lua é nossa
Pois sei que nesta utopia, de outros ela será
Mas se vieres com seu sorriso cheio de bossa
Confesso que novamente me surpreenderá...
Pois não há nada mais belo que seu sorriso
Ele é meigo, carinhoso e cheio de bondade
E sempre me surpreende, pois é tão conciso
Pois é nele eu deposito toda minha felicidade...
Então não precisa trazer-me presentes
Pois nada pode substituir, o brilho do teu olhar
E que belo conjunto, boca e olhar sorridentes
Como as palavras que Deus quis conjugar...
E sei que Deus te fez deste jeito
Um perfeito cheio de defeitos, mas quem não os tem?
Então te amar assim, ponho-me no direito
Pois sou pequena flor, que só ao seu vaso se detêm...
24
Eu te amo, e isso é tão fácil de perceber
E como escrever um livro com uma história sem drama
Mas tenho certeza de nele não saber o que escrever
Pois você sempre surpreende a que você ama...
Amar-te, é como sentar ao lado de Deus
Ser amada por ti é poder tê-lo...
Três por quatro
Faz tempo que eu não te ouço,
Pois tuas palavras não chegam mais a mim...
E nem o perfume do teu pescoço,
Sinto-o se esparramando pelo jardim...
Faz tempo que eu não molho minha boca,
No teu beijo, no hálito teu de hortelã...
E as horas não passam mais loucas,
Como quando, eu deitava ao teu divã...
Faz tempo que eu não lhe escrevo,
E você não se faz presente na minha poesia...
Onde eu descrevia tolo, ao teu relevo,
Falando do seu corpo, e de sua pele macia...
Assim maledicente, perdi-me ao redor de mim,
Pois faz tempo que lhe procuro ao meu lado...
Desentendido da razão, sem um não, sem um sim!
Vivendo no presente, a procura do passado...
Por que faz tempo que você não está em mim,
E que ando na rua à procura de teu rosto!
É uma tortura que parece não ter fim,
Como uma fruta que já perdeu seu gosto...
Pois não existe mais o eco de sua voz,
Nem nas ruas, nem nos corredores...
Não há lembranças nem do que sobrou de nós,
Pois é um amor repartido em dois amores...
Por que faz tempo, mas não procurei um culpado!
Não procurei remoer erros, mas chorei!
Chorei com um anjo que cometera um pecado,
Pois se existiu um erro, eu não sei onde errei!
25
Por que faz tempo, e é um tempo difícil de crer,
Mas por favor, não pense que faço um teatro...
Ao acreditar que ainda posso te ver,
Mesmo que sorrindo numa foto 3x4...
Remodelando um pai
Eu queria vê-lo voltar no tempo,
E suspendendo uma pipa no ar,
Correndo de encontro ao vento,
Como uma criança a brincar...
E se tu fosse um menino novamente,
Eu brincaria contigo de jogo de botão,
E correríamos pra ver quem chegaria na frete,
Para comer pipocas, em frente à televisão...
Depois faríamos uma guerra de travesseiros,
E riríamos muito se acaso um rasgasse,
Esparramando penas no quarto inteiro,
Até que o sono entre nós chegasse...
No dia seguinte, acordaríamos cedo,
Loucos para tomar café com bolo de fubá,
Depois comeríamos goiaba no meio do arvoredo,
Até onde pudéssemos agüentar...
Faríamos um quartel general de sonhos,
Seriamos índios, soldados, o que quiséssemos ser,
Super-heróis combatendo monstros medonhos,
Ou astronautas querendo o cosmos conhecer...
Assim poderiamos juntos colorir o mundo,
Mesmo que fosse numa folha de papel,
E pintaríamos a cara, ficaríamos imundos,
Como dois diabinhos na porta do céu...
Mas Pai, o tempo na realidade nos arremessa,
E se eu pudesse, te remodelaria na minha mão,
E de massa eu te faria, peça por peça,
Dando-te as formas perfeitas de um irmão...
26
Assim sendo, seriamos mais que amigos,
E envelheceríamos juntos, ou quem sabe não,
Mas eu só queria que você sempre estivesse comigo,
E que nunca partisse, deixando-me na solidão...
Hipérboles
Como falas que o amor não dói na alma?
Talvez a dor do amor tu ainda não conheces,
Não sabe que a dor do amor não se ensalma,
A dor do amor é algo que não entorpece...
Ela te acompanha nas madrugadas,
Deitando-se ao lado de teu travesseiro,
Trazendo-te uma saudade calada,
Parecendo esperar por teu momento derradeiro...
Como a nostalgia move a poesia, há saudades,
E ela também serve para calar o poeta,
Pois a dor do amor a qualquer alma invade,
A qualquer homem corroí, ilude, desconcerta...
É uma resposta à espera de uma pergunta,
Mas, uma pergunta que não encontra respostas,
Pois, são peças que não podem estar juntas,
De naturezas não reveladas, mesmo que expostas...
Porque na grandeza de suas verdades,
Há sempre uma que a saudade conclama,
Com hipérboles hostis, e verbos em continuidade,
Vão apagar o teu fogo, até tua ultima chama...
Assim tu medrarás, entendendo a dor do amor,
E tentará te esconder no teu subconsciente,
Não sabendo que ela te encontra seja onde for,
Pois a dor do amor, em todo lugar se faz presente...
Levando-te para abismos onde fantasmas residem,
E no escuro predominante, acabam te julgando,
Mas são seus fantasmas, e eles existem,
Em hipérboles, ao qual continuarei falando...
Pois ainda hei de ver-te assim decapitado,
Por suas próprias palavras, mesmo inconsciente,
Ao reconhecer a dor do amor, mesmo atrasado,
Desfigurando tua vida, tua alma, tua mente...
27
Plenário
Os autos lhe condenam em uma ação dúplice
Concomitantemente hoje és o autor e o réu
As suas ações encontram-se sob judice
Prepara-te para defesa, para amargar um fel...
A sua autuação tem motivos agravantes
E faço uma Avocatória para seu julgamento
Não comutarei os seus erros deliberantes
Nesta jurisdição não haverá impedimento...
Vamos entrar no mérito da questão
A falta do direito que constitui tua lide
Meu parecer vai de contra a sua citação
Não cometa perjúrio por algo que duvide...
Nomeio a autoria este que se intitula Amor
Que hoje se encontra calado por Preclusão
Como ônus da prova lhes mostra as marcas da dor
E deste Amor, o choro como confissão...
Apresento-lhe um reclamante Coração
Que pede ao júri nomeação à autoria
De jure pede ao Amor à condenação
Um quesito que a defesa contraria...
Este que hoje se encontra em Status-quo
E por ser primário aguarda seu sursis
Um habeas-corpus que recorre a Quo
O Amor que entre outro, só fez mal a si...
Nomeio então a Vida para do amor ser o curador
E leio a decisão que parte de sua ementa
In verbis, o que esteve a depor
E a absolvição referida que suplanta...
O Amor vence até em última instância
Um salvo conduto que a ele todos firmem
Suum cuique tribuere, a nós por elegância
Nova vitória do Amor, Usque ad finem...
28
7:00 Horas
São 7:00 horas da manhã, e o sol já está alto,
O calor sobre o capô do carro me faz derreter
A minha janela está fechada, por medo de assalto
Viciando meu ar, e fazendo-me de calor enlouquecer...
Logo que o sinal fica vermelho,
Pedintes correm para a janela do carro
É uma imagem refletida em qualquer espelho,
Como sujeiras se esparramando pelo bairro...
Minhas moedas são poucas para muita gente,
E elas se empurram a procura de seu sesmo
Isso faz variar uma mensagem em minha mente,
A de que nunca somos diferentes de nós mesmos...
Um caminhão arranca ao meu lado,
Sua fumaça é tanta, que me sufoca,
O barulho me deixa muito estressado,
E minha raiva ao demônio evoca...
Pois tudo parece querer me confundir,
Estou no trânsito, e tenho que prestar atenção
Mas percebo ao lado as chaminés há poluir,
Carregando meu ar com fragmentos de poluição...
Ruas parecem corredores se afunilando, carros se apertando,
E a agonia logo se transforma em buzinas
Uma ambulância passa ao meu lado gritando,
Deve haver outros acidentes nas esquinas...
Mas é só 07:00 horas da manhã, e o dia é longo,
Os minutos não passam, presos nesta confusão
Estou suando, e com as pessoas me assombro,
Pois elas passam muito rápido, confundindo minha visão...
Tenho vontade às vezes de gritar em xingamentos,
Há tudo e a todos, a minha loucura é a minha razão
Queria me acalmar, mas espero o momento,
De poder voar, além de minha imaginação...
29
Amazônia
No verde florescente da mata,
Ouve-se um barulho ecoando
É uma força divina que se retrata,
No som da terra respirando...
Amazônia é pulmão do mundo,
A virgem resplandecente e intocada
Repleta de mistérios tão profundos,
E por vidas diferentes cercada...
A lua nos seus segredos se apruma,
Prateando ao obscuro verdejante
Revelando entre o véu em bruma,
Os olhos verdes de seu semblante...
Amazônia é um elemento vivo,
De vidas que daqui não somem
E é o verdadeiro elo perdido,
Da realidade entre Deus e o homem...
Amazônia é o paraíso decano,
Por onde o sol para o mundo aparece
Onde circula o sagrado e o profano,
E os animais cantam em prece...
Onde araras dão cor ao azul do céu,
E como os tucanos fazem seus ninhos,
Há abelhas e flores, um cheiro de mel,
Na revoada de diferentes passarinhos...
Onde a sucuri adentra o Solimões,
Nadando em companhia dos botos
E peixes desovam nos grotões,
As novas vidas, novos brotos...
Amazônia, para a vida é essencial,
E a bela indomada e silvestre,
É a água pura do manancial,
E o maior invento do mestre...
30
Frutos da seca
No olhar seco de um homem que vejo,
Há o pó e há a poeira do sertão
Entre os mandacarus, segue este sertanejo,
Desviando-se das ossadas que restarão no chão...
É uma natureza morta, numa imagem fria,
Onde há um calor que ao homem consome
Das rachaduras do chão, verte a agonia,
Ao ver o gado morrendo de fome...
Pois no leito do rio, corre apenas o vento,
Imitando a água, formando uma ilusão
Mas este homem, ainda aguarda o momento,
De ver a chuva, brotando sua semente do chão...
A seca é uma imagem que assombra,
Não há vida, nenhum verde na plantação,
Não há uma árvore, com uma frondosa sombra,
Para esfriar a cabeça, e conformar o coração...
Mas há no sertanejo o lamento, há a oração,
Ao seguir em romaria, entre preces e pedidos,
Suplicando por um milagre, ao santo de devoção,
Para recuperar um pouco do que já fora perdido...
E roga pela chuva, tão bendita e abençoada
Devolvendo a vida, sublinhando a vereda,
Flores nas variantes, a água do rio tão sagrada,
Matando a sede de uma alma aeda...
Fazendo o que estava morto, reviver,
Como um beijo de vida, numa feliz ressurreição.
Ofertando um pouco, há quem não pode ter,
O fruto da terra, na milagrosa salvação...
Pois no suor que corre de sua fronte,
Escorre a esperança salgada e taxativa
Ao ver nuvens se fechando no horizonte,
Uma esperança nos olhos, de uma imagem viva...
31
Impropérios
Há náufragos em mares dantes navegados,
Nas marinhas, as velas ao vento içadas
Piratas lançam impropérios mútuos e bárbaros,
Por galeras novas conquistadas...
A nau balança no vai e vem salgado,
Seguindo ao seu caminho lento
As estrelas têm lhe guiado,
Mas se encontra parado, a espera do vento...
E seus tesouros levam pelo mar,
Sem ter o medo de naufragar
E por ele mantém um segredo...
Ditadas no colóquio de um aedo,
Revelando naus no fundo de um cemitério,
Em indeterminados impropérios...
O nome que está em todos os lugares,
Pilhando todas as riquezas e maravilhas
Agadanhando navios em todos os mares,
E ateando fogo em suas bandarilhas...
Navegando por interlúnios intermináveis,
Essa galera é uma nave que abate
Tocando como interlúdios agradáveis,
No remanso das palavras de um vate...
Mas é uma imagem lúgubre na galeria,
Um quadro negro pedindo alforria
Que foi ancorado pelo tempo...
É como um fantasma no vento,
Amaldiçoando com seus impropérios,
Na pinacoteca dos vitupérios...
32
Versos, sub-verso e subversão
Não encontrarás tua teoria em meus versos
Pois ela está escondida na sua subversão
No meu reverso, meu quantitativo universo
Eu escrevo a verdade, para a sua frustração...
Sou ao contrário de todos se puder
Não encontro lógica nesta sua narração
Pois sua boca relata as mentiras quando quer
É um homem de três letras, que vive da transgressão...
E se minha política lhe ferir, meu caro sujeito
Então comece a andar pelo outro lado da rua
Eu reconheço que não gostar também é seu direito
Como é o meu de gostar que você fique na sua...
Não me calo nem se fora por teu decreto
Minha consciência é limpa e não vivo na alienação
E vou seguir escrevendo de alma e peito aberto
Para pessoas que se encontram com ou sem noção...
Apenas me armando de minha voz plena
E escrevendo o que estou a par da situação
Coisas que pela lógica, o medo teu condena
Fazendo-lhe calar nesta sua escuridão...
Sou repórter de rua, e retrato as esquinas
Tenho o olho vivo, e mantenho meus pés no chão
Com tuas relações utópicas não me contaminas
E se gastares teu veneno comigo, gastaras em vão...
Nem diretas direções em variáveis diretrizes
De teus amigos que se escondem na confabulação
Eles pensam ser lobos, mas são meros aprendizes
Pois somente no inferno, e que vão terminar a lição...
E eu conheço ao meu chão, e nele piso com firmeza
Este mesmo que tu achas que é teu sem razão
Mas eu digo que não, e te dou esta certeza
Nestes meus versos, sub-versos e subversão...
Em homenagem a João Carlos Teixeira Gomes
33
As Janelas de Salvador
Caminhando te encontro fácil pela rua
E lhe vejo nos prédios e fachadas
Tu aberta mostras o sol, mostras a lua
Tu fechada, não me mostras nada...
Por ti vejo as pessoas sorrindo
A ilha ao longe no mar aberto
Um navio do recôncavo partindo
E embarcações no porto deserto...
Em ti a poesia que poeta declama
E em todas a ruas, um pouco de sua vida
Na noite a luz da lua te chama
E és por namorados dividida...
Em ti posto meus cotovelos admirado
Olhando o sol que está de partida
Ele parte sorrindo, porém exilado
Segue colorindo uma outra vida...
Às vezes és como primavera de flores
E vejo o meu amor em ti debruçada
Por ti passam mais de mil amores
Em vós muitos outros contos de fadas...
Janelas coloridas, são várias as tuas cores
Uma a uma neste tão belo Pelourinho
E tu estás nas ruas e nos corredores
Está em nossa casa, e na casa dos vizinhos...
São as janelas do carnaval em fevereiro
Onde ficas num cara a cara com o trio
Também és de São João, e do ano inteiro
Venezianas que me protegem do sol e do frio...
Por ti vejo a ondas quebrando no mar
Sou um aqui, um menino admirador
Em ti fico com meu amor a namorar
São as velhas janelas de Salvador...
34
É gol
Vou adentrar agora as suas quatro linhas
Invadir o seu campo e fazer a minha parte
Escolher o seu lado, agora vai começar nossa rinha
Vai ser muito lindo, feito obra de arte...
Começarei atacando-lhe pelas laterais
Vou alcançar sua linha de fundo
Mas organizarei minha zaga logo atrás
Pois quero ser um campeão do mundo...
Não farei um jogo muito forçado
Pois receberei um amarelo para atenção
Sei se persistir no meu erro mencionado
Terei um vermelho, e de teu campo a minha expulsão...
Cuidarei a sua linha de impedimento
Para não entrar antes do tempo no limite
Ficarei atento então ao certo momento
Que distraída, sua zaga me habilite...
Vou dominar a tua área totalmente
Fazer uma jogada aérea e entrar de cabeça
Driblarei sua zaga, serei muito envolvente
A torcida levanta, espera que o gol aconteça...
Espero que a bola na trave não venha a bater
E que nenhum gol seja anulado
Se não queres ser goleada, meu ataque venha deter
Não faça falta, pois o pênalti será bem cobrado...
Levarei esta torcida ao delírio
Ao conseguir escapar antes que me marque
Farei uma jogada que será um colírio
Mostrarei num jogo de corpo que sou um craque...
Quando te envolver com minha jogada fora do comum
Vou acabar contigo, e o placar assegurar
Ouvirá da torcida o grito de “mais um”
E gozarei extasiado, com meu gol a comemorar...
35
Porto Alegre
Porto Alegre, minha cidade
Capital do sul-brasileiro
Vou te dizer a verdade
Eu sem ti, não sou inteiro...
Chimarreando na Redenção
Porto, meu Porto, velha mocidade
Trago seu passado no meu coração
Eu jovem, mas cheio de saudade...
Nos muros da Mauá os desenhos
Deste que separa a cidade do rio
Das lembranças que tenho
A praia de Ipanema, o vento frio...
No dia de GRE-NAL decisivo
O colorido da cidade tem cores mistas
Azul intenso, vermelho vivo
A mistura de colorados, e gremistas...
O morro de Santa Teresa
Espírito Santo, Assunção
Vila Nova empresta sua beleza
Menino Deus a inspiração...
Neste paralelo, 30 graus sul
Pelas águas do Guaíba, o Minuano corre frio
O céu que refleti nele, tão azul
Guaíba, quase um mar, mas é um rio...
No cume da chaminé
O Gasômetro ainda imponente
O pôr do sol aos seus pés
Porto Alegre, futuro, passado, presente...
O golpe (Aos que lutaram)
No silêncio, maquinavam algo novo,
Tramando obscuramente um poder sem mérito
Para calar a boca de um povo,
Usaram a força de seu próprio exército...
36
1º de abril de 1964, um golpe de fato,
Agora os militares tomam o poder
E jogam contra esquerda seus artefatos,
Tentando cegar, aos que podiam ver...
Que a ditadura calou a suposta democracia,
Não conteste, não sorria, permaneça calado
A melhor pessoa é aquela que silencia,
Quem se pronunciar agora, poderá ser torturado...
É brasileiro contra brasileiro, o ouro de tolo,
Que vendem seu país a troco de miséria
Do petróleo à Amazônia, querem sua parte do bolo,
Militares debochados, que mantém a cara séria...
Então novos revolucionários foram à rua,
Marchando contra o poder da opressão
Enfrentando metralhadoras com a carne crua,
Para devolver a dignidade de nossa nação...
Até que muitos foram covardemente cassados,
E sumiram nos vários corredores da correção
Todos direitos humanos foram-lhes negados,
Porém sua luta não fora em vão...
Pois o povo continuou lutando, são valentes,
Mesmo sob os olhos atentos dos gigantes
Que são generais protegidos por suas patentes,
Que mandavam fogo contra os retirantes...
Que fugiam da seca, seca que é a justiça,
Direitos indiretos, diretos e incorretos
Tentam manter a vossa vontade submissa,
Com a opressão, a coação e desafetos...
E seus resquícios ainda ficarão presentes,
Na lista de mortos, do dossiê contrário à vida
Mas o fato, não nos deixou impotentes,
E pelo Brasil, mantemos nossa fé erguida...
E nossa história foi escrita dessa maneira,
Em rostos de amigos, que foram sumindo
Exilados, mortos, da ultima até a primeira,
Hoje são exemplos que vamos seguindo...
37
Salvador
Anoiteceu em Salvador,
Pessoas apressadas voltam para suas casas
Na esquina, há a pregação de um pastor,
E noutra, um anjo bate asas...
~
Itapoã ao cair da tarde acende sua luz
Na Barra, as pedras são cobertas pela maré
Na igreja o crente faz o sinal da cruz,
Soteropolitanos são pessoas de fé...
No Rio Vermelho o trânsito se faz confundir,
Enfrento aqui meu sufoco até a Boca do Rio
Ônibus, carros e buzinas a confluir,
Numa poesia que Jorge Amado não viu...
Pois há muita mulher cravo e canela,
E todas são como Gabriela, como Dona Flor
Descendo o pelourinho, ou no colorido das Janelas,
A beleza rara, da terra de Salvador...
Eu encontro-me nas tuas esquinas,
Mas sigo perdido por tuas calçadas
Mas vejo nos rostos de meninos e meninas,
A lembrança de tuas vidas passadas
Na Lapa há muito mais que andejos errantes,
Há filas de pessoas há espera de condução
Tem sorrisos, tem lágrimas, são vários os semblantes,
Muitas raças, no teu único pulsar de coração...
E quando cai cálida a madrugada,
Os casais em ti encontram o amor
Mas ainda há pessoas nas calçadas,
E a lua nua, te beija Salvador...
Há pessoas que com seu encanto se fascinam,
Nesta magia noturna, no silencio da cidade
Mas as luzes da manhã já te iluminam
Acendem-te para o mundo, escondendo sua idade...
E o sol funde-se no teu horizonte,
Fazendo-se aparecer na praia deserta
É o começo de mais um dia contente,
E assim novamente Salvador desperta...
38
A menina da janela
Eu passava todo o dia por sua rua,
Alongando meu caminho pelas vielas...
Só para ver a imagem sua,
Sorrindo, e debruçada na janela...
Isso era um presente para meu dia,
E eu podia até sentir o seu hálito mentolado...
Assim, meu coração se enchia de alegria,
Só em imaginar em tê-la ao meu lado...
Mas o tempo foi passando,
E as folhas do tempo virando,
E eu sem querer, envelhecendo...
E assim, também fui esquecendo,
Pois o destino por picardia,
Um dia deixou tua janela vazia...
Indivisível paixão
Eu hei de me queimar com teu beijo,
Que descobrirá meu corpo e atalhos...
Profanando o perfume do meu desejo
E capturando-me por meus atos falhos...
Pois por essa louca sensação,
Eu serei de indivisível paixão,
Ao lhe sentir em mim plena,
Em uma condição quase que obscena...
Pois te quero assim louca,
Rasgando-me completamente a roupa,
Para sugar com o resto da minha vida...
Então, beija-me os lábios querida,
Que encaixados vamos nos movimentar
Esperando orgasmo chegar...
39
Luzes de Natal
Espera o menino,
O sonho, e uma vontade...
De ter realizado um desejo pequenino,
E nele a sua grande felicidade...
Pois não espera ele algo lúdico,
Tão pouco, bolas e carrinhos...
Mas algo que para ele é único,
Como um abraço rodeado de carinho...
E com isso, uma certeza,
Que o amor, é uma fortaleza,
Por isso ele espera contente...
Que papai se faça presente,
Num momento especial,
Como as luzes de Natal...
Toma de mim, a tua melhor parte
Toma de veste a minha alma,
Cobrindo com a certeza o teu ser...
Unindo as dores que a mente ensalma,
Sendo-nos um, em nosso modo de viver...
Toma de veste o meu corpo,
E aquece teu bem aventurado seio desnudo...
E mesmo que alçado de meu escopo,
Re-projetarei entre eles o meu mundo...
Toma de veste os meus sonhos,
Onde tu figuras como as poesias...
Calando o medo tétrico e medonho,
Com a juventude de sua magia...
Toma de veste o meu olhar,
E sob ele, a minha visão do amor...
E por ele compreendeis meu amar,
Mesmo que pelo significado da flor...
Toma de veste a minha vida,
Protegendo-a dos nomes e idades...
Sendo eu sua identidade perdida,
E você o portal para minha felicidade...
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Toma de veste o que eu fui, e o que eu sou,
Mesmo que um trapo na sua ausência...
Pois meu amor, na sua essência se formulou,
E hoje faz parte de sua existência...
Ao Mestre com carinho
E já se foram tantas histórias,
Tantas palavras por ti escritas,
Tantos caminhos em sua trajetória,
Tantas vitórias, tantas conquistas...
Formando no papel a tua escrita,
Como se fosse da uva ao vinho...
Com o dom do bom artista,
Traçando assim o teu caminho...
Vislumbro tua mão e a pena,
Que desliza macia pelo vazio...
Imortalizando a cena,
De um poeta que virou rio...
E que na sua fluidez, matou-me a sede,
E a ignorância de meu saber...
Pois como um pescador e sua rede,
Levou-me ao mar, para aprender sobreviver...
Então, está faltando algo em mim,
Mas não sei se é a sua companhia,
Sentado à sua mesa de marfim,
Com a história de todos os dias...
Junto ao cigarro e a fumaça,
Dicionários e bolas de papel,
Assim que se fez, assim que se faça,
Pois todo anjo, tem seu lugar no céu...
E eu, apesar de lamentar,
Não vou morrer destas penas...
Pois na minha maneira de te amar,
Vou te renascer na forma de um poema...
Homenagem póstuma ao ilustríssimo amigo Dr. Lauro Barreto Fontes
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Saudade em tons vermelhos
Saudade, do seu olhar perdido,
De sua boca por vezes calada...
De seu corpo na cama estendido,
E da pele, intimamente suada...
De um momento único de amor,
De circunstâncias jamais apagadas...
Refletidas em uma única cor,
Como o vermelho de uma fruta sazonada...
Pois vermelho é o tom da paixão,
De uma cor quente em questão,
Onde o caleidoscópio reflete...
Vermelho é a lingerie que te veste,
E ela a minha mente invade,
Fazendo verter lágrimas de saudade...
Secret d'amants
Entre nós há um pequeno segredo,
Que entre os lençóis é esmiuçado...
Com um sabor entre doce e azedo,
E definição entre redenção e pecado...
É como um beijo de um anjo ao diabo,
E a fúria de amar, mesmo que delicadamente...
Entre beijos e abraços, o amor anunciado,
Num orgasmo, que até a alma sente...
Amar desta maneira põe-me perdido,
Pois amo-te, onde meu desejo te silencia...
E nas sete casas do segredo, há um pedido,
E apenas um cadeado, sobre uma cadeira vazia...
E lá a espera de alguém que também espera,
Transpor as portas, com um olhar de paixão...
Com palavras sem tradução, mas uma quimera,
De amar em segredo, subtraindo uma traição...
Há entre nós um pequeno segredo,
Há entre nós, a nudez que é castigada...
Há entre nós, talvez o medo,
De ter nossa descrição revelada...
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Pois entre seios, mãos e bocas,
Há o vai e vem de corpos cúmplices...
E o grito insistente de vozes roucas,
Atravessando a parede que os reprime...
Tal qual o gozo da vida, e essa tão louca,
De amantes por Deus escolhido a dedos...
Incendiando a cada beijo na boca,
De um fogo que queima em segredo...
Poesia Inacabada II
De que vale um beijo reprimido,
De uma boca que sequer desdém...
Essa dor, que não existe comprimido,
E orações que não terminam em amém...
De que valem esses meus olhos azuis,
Se não enxergo um mínimo de razão...
Pois no tropeço falso, a perna me conduz,
Ao tombo certo, e a maldita escoriação...
O café me condena ao vicio,
E não fumo, mas sinto o gosto do cigarro...
E o fado cansaço do exercício,
E o amargo da boca que escarro...
Não roubo, se me faltar dinheiro,
Tão pouco mendigo, se passar fome...
Pois a miséria é o tiro certeiro,
Mata... Até quem não tem nome...
Não esperava isso do poeta?
A poesia ficou turva, mas qual foi à condição?
Talvez o amor não tenha a dose certa,
E chegou de contra-gotas ao meu coração...
Mas já revirei o lixo na busca deste sentido,
E palavras aos surdos não valem nada...
Sigo como um socialista sem partido,
E descrito como uma poesia inacabada...
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Um soneto de ti
Tenho para ti, um soneto guardado,
Com palavras e entrelinhas de amor...
E nelas sabores por ti jamais provados,
E inigualados em face ou cor...
Tenho para ti, um soneto guardado,
Cuspido e escarrado da boca do poeta...
Que andou triste e magoado,
Mas que na sua natureza, se completa...
Tenho para ti, um soneto guardado,
Um fato consumado,
Ou um soneto apenas...
Mas valham de mim as cenas,
Puras ou obscenas,
Deste soneto que eu tenho lhe guardado...
Tatuagem
Se tens medo do dragão,
Então não brinque com o fogo!
E não busque uma razão,
Para quebrar as regras do jogo...
Se estudas o revés de minha alma,
No livro tatuado no meu corpo!
Empreste ao meu demônio sua calma,
E aos meus olhos, a mira de seu escopo...
Pois assim vou escrever no imaginário!
Coisas que não vai ouvir, mas entenderás...
Pois será o nosso código na troca do cenário,
Onde o amor com a excitação se misturará...
E assim se fará o escultural modelo,
Com a perfeição que se retrata na imagem...
Fazendo no corpo, e do arrepio em pelo,
A mais perfeita tatuagem...
E com esse emblema de dor,
O sacrifício da pele não some...
Gravado no peito o amor,
Numa flor que representa seu cognome...
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E ante a lágrima caída, o colorido,
Que é revelado pela minha nudez...
Num peito aberto, e um coração partido,
E a tatuagem implícita de minha insensatez...
Pois quando tudo se acabar,
Ficara na pele, o exemplo de um amor...
Que foi eterno em quanto pode durar,
Mas se perpetuou em imagem e dor...
Um rio que virou pedra
Águas serenas te banhavam,
Percorrendo caudaloso ao teu ventre...
Onde frondosas flores enfeitavam,
A sua alma onipresente...
Águas serenas te banhavam,
Como lágrimas de Deus cedidas...
Um relicário onde anjos acenavam,
Matando a cede de almas perdidas...
Estas mesmas almas, recuperadas do açoite,
De barcos jogados ao sal, e sem velas...
Navegando até onde não se finda a noite,
Enfrentando a ira das procelas...
Tendo na memória, a alma do rio,
Correndo sereno por entre curvas delicadas...
Matando a fome com a pesca, o homem até sorriu,
Enquanto pássaros partiam em revoadas...
Pois eles já percebiam que o rio morria,
Agonizando do leito a vertente...
E aquele home que sorria,
Não sentia a dor que a natureza sente...
E como uma ultima lágrima que seca,
O rio também secou...
E tudo que está em seu leito também resseca,
Porque Deus aqui, nunca mais uma lágrima deixou...
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Agora seco e morto, é um caminho de pó,
Uma imagem que aos olhos medra...
Com uma sede de dar dó,
Num rio que virou pedra...
Zài Jiàn (Adeus)
Não quis chorar, mas confesso,
Que as lágrimas não findaram...
E continuaram, no prover de meus versos,
E com eles, um poema confabularam...
Não quis chorar, mas chorei,
Como uma criança e seu brinquedo quebrado...
E como um belo quadro que borrei,
Peço desculpa, por ter te magoado...
Os olhos avermelhados, não deixam fingir,
E mesmo que eu minta, eles deflagram...
A tristeza que está a evoluir,
Como uma doença que há meus órgãos estragam...
Pois o elixir acabou, resta a dor,
A dor de ser ou não ser, figurado...
Pois no adeus, eu lhe aceno com a flor,
A flor que com amor, eu havia regado...
Mas ela deu o seu suspiro de vida,
Na mão de quem teve lhe apanhado...
E também se posse de partida,
E murchou, sem que eu tivesse notado...
Eu não quis chorar, mas então chorei,
Ao ver o jardim vazio, e você não ao meu lado...
Chorei pelo que não compartilhei,
Flor e mulher... benção e pecado...
Eu não era assim, e não percebi a mudança,
Não percebi que sonhava os sonhos teus...
Mas tudo morre, quando morre a esperança,
Tudo morre, quando nasce o adeus...
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Eu não sei chorar
Se falar em sentimentos,
Eu me calo, pois eu sei escutar,
Eu sei entender a dor do memento,
Mas contigo, eu não posso chorar...
Peço até perdão, se lhe pareço frio,
Mas eu não sou, mas desacreditei...
Que lágrimas podem formar um rio,
Mas nesse rio eu não navegarei...
Pois eu não sei chorar,
E não derramo lágrimas por alguém,
Desaprendi no caminho o que é amar,
Talvez por isso, eu não choro por ninguém...
Ah! Mas um dia vi no reflexo,
O meu olhar vil a marejar...
E neste dia calei perplexo,
E nunca mais, pude-me ver chorar...
Tenho em mim a piedade dos bons homens,
E o beijo da flor, ainda sopra em meus cabelos...
Mas os olhos são secos, as lágrimas somem,
Não as derramando, por nenhum apelo...
A ilusão e como uma alma ferida,
Que deixa a cadeira vazia na entrada...
Então eu escuto a palavra amiga,
Sem que haja sequer uma lágrima derramada...
Outras de amor
Quando escuto você falar,
Por vezes não lhe entendo...
E na minha razão simples de amar,
Perco-me até do tempo...
São tantas coisas que não sei questionar,
Em minhas palavras jogadas em vão...
Mal entendidas por não saber amar,
Ou ao menos procurar no amor uma razão...
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Não faz sentido, então tendo entender,
O porquê buscar água no poço da tristeza,
Para matar a cede que não pode deter,
A minha inconstante natureza...
E tão fácil se mostrar em sua clareza,
Mas o amor morre, quando Deus morre também...
E com isso, eu já não possuo a certeza,
Pois são coisas que eu não entendo bem...
E mesmo que me seja explicado,
Calo o sentimento, perdendo a calma,
Sinto até o silêncio do coração apaixonado,
Sem ritmo, e no silêncio da minha alma...
E lá dentro, nenhum suspiro de amor ecoa,
Nenhuma prece de amor se desprende,
E nas lágrimas perdidas à-toa,
Os sentimentos do poeta se rendem...
Para se transformar em outro poema,
Este amor com alma de vento,
Desgarrado e efêmero no dilema,
Como a paixão sentida no momento...
Baseada em fatos reais
No primeiro toque, o amor!
Que desabrochou sagrado...
Em um manto de divina flor,
Corpo delicado e censurando...
Delineado, e tão perfeito,
No sexo de feitio delicado...
A cabeça recostada ao peito,
Um corpo no outro penetrado...
E tão sutilmente movimentado,
Alcança as raias da loucura...
E levemente suado,
Por outro se aventura...
Assim o silêncio não perdura,
Quebrado por sussurros perdidos...
Esparramados em um ambiente de ternura,
Os beijos, os reflexos... Os gemidos...
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A alma parece do corpo se desprender,
Pois transcende até a inspiração...
Em um momento fácil de envolver,
Sexualidade, amor e excitação...
O orgasmo é a anunciação,
Da magia que a alma desnuda...
A nudez em nossas mãos,
E uma continuação muda...
Pois os olhares falam no silenciar,
E percebem a mudança anormal...
Do toque rígido a penetrar,
A maçã do pecado original...
Visto na posição horizontal,
E como uma paisagem doidivanas...
Um quadro baseado em um fato real,
De corpos encaixados sobre a cama...
Até que a noite os separe,
Dominados, e pelo cansaço vencidos...
E o amor ao dia lhes declare,
A paixão que lhes tenha concebido...
Addition d’amour, résultat d’passion
Não há ceda que eu não tenha provado,
E nem suor que eu não tenha bebido!
Nem fronteiras que eu não tenha cruzado,
E nem sonho que não tenha vivido...
Sou um estranho na porta, o seu Michê,
Há quem você beija, procurando o desconhecido...
E que há de recorrer ao seu fetiche,
Em banhos de mel, e muita libido...
Vou brincar com a sua paixão,
E fazer amor muito além dos pecados...
Pois não tem cem anos de perdão!
Quem faz sexo no sentido figurado...
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Pois quando o corpo eu despir,
Até a sua razão há de ficar nua...
E é dessa maneira que eu hei de lhe possuir,
Como um beijo do sol na face da lua...
Pois são diferentes as cópulas,
E imagens difíceis de imaginar,
Do coito e a sua fórmula,
Transcendendo a arte de amar...
Então serei servido como um bom vinho,
E falarei frases não comuns de escutar...
Aprofundando-me em toques e carinhos,
Para você se perder, e nunca mais se achar...
Pois serei eu em você, da maneira que imaginou,
Ativo, e transpirando meu suor de amor...
Instigando seu instinto que aflorou,
E me esparramando por seu corpo em flor...
Uma receita de amor
Esta é a sua hora! Redobre o seu desejo.
Marque com ele um encontro furtivo,
E procure usar a lingerie que ele mais gosta,
E assim venda-o, mande ele te redescobrir...
Domine-o, Deixe-o beijar sem que lhe toque,
Então use perfume no pescoço a nas palmas da mão somente,
E em mais nenhum lugar...
Diga para que ele sussurre suas vontades,
Toque-o, mas não em sua sexualidade,
Somente em seus pontos fracos,
E assim beije seus joelhos e nuca...
Mas se tiver que morder, morda apenas coxas e o dedo mínimo da mão.
Mas após, use uma flor para acariciar seu abdômen,
Levando-o para o ponto mais alto de seu desejo.
E ao vê-lo chegar a seu ápice... Se entregue, mas bem devagar.
E ame, mas ame com a desventura das amantes,
Beije, sussurre... Grite e goze.
E depois do fato consumado,
Tire a venda dos olhos dele,
Para que ele veja que quem usou e ousou o amor,
Fora simplesmente você...
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