Download PDF
ads:
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA
Aline de Oliveira Gonçalves
Operários Negros: relação entre cor e trabalho na nova indústria
automotiva do Rio de Janeiro
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e
Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), como parte dos requisitos necessários à obtenção do tulo de Mestre em
Sociologia (com concentração em Antropologia).
Orientador: Prof. Dr. Jo Ricardo Garcia
Pereira Ramalho
RIO DE JANEIRO
2007
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
II
Aline de Oliveira Gonçalves
OPERÁRIOS NEGROS: Relação entre Cor e Trabalho na Nova Indústria Automotiva do Rio
de Janeiro
Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e
Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do grau de Mestre em Sociologia (com concentração em
Antropologia).
Orientador: Prof. Dr. José Ricardo
Garcia Pereira Ramalho
Banca Examinadora:
Prof. Dr. José Ricardo Garcia Pereira Ramalho – Orientador (IFCS/UFRJ)
Prof. Dr. Marco Aurélio Santana – (IFCS/UFRJ)
Prof. Dr. Marcelo Jorge de Paula Paixão – (IE/UFRJ)
ads:
III
FICHA CATALOGRÁFICA
GONÇALVES, Aline de O.
Operários Negros: Relação entre Cor e Trabalho na Nova Indústria
Automotiva do Rio de Janeiro/ Aline de Oliveira Gonçalves. Rio de Janeiro, 2007.
X, 182f.
Dissertação (Mestrado em Sociologia) Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, 2007.
Orientador: José Ricardo Garcia Pereira Ramalho
1. Relações Raciais. 2. Trabalho. 3. Desigualdades.
I. Ramalho, José Ricardo Garcia Pereira (Orient.). II. Universidade Federal do Rio
de Janeiro. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. III. Título.
IV
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo compreender as trajetórias profissionais de operários
negros da indústria automobilística no Rio de Janeiro. Fo uma análise das desigualdades
raciais no mercado de trabalho observando, por um lado, os impactos econômicos e sociais
ocasionados pela reestruturação da produção e das relações de trabalho e, por outro, as
transformações ocorridas no modelo de relações raciais brasileiro.
Utilizando a perspectiva analítica das desigualdades de oportunidades para negros e
brancos no mercado de trabalho, pretendo demonstrar que apesar das transformações que vêm
ocorrendo no campo do trabalho terem significado ampliação do mercado para todos os
trabalhadores independente da cor/raça, verifica-se no caso estudado a reprodução das
desigualdades de oportunidades entre negros e brancos no acesso e na qualidade das
ocupações do setor industrial automotivo.
Palavras-chaves: relações raciais – trabalho – desigualdades.
V
ABSTRACT
This work has as objective to understand the professional trajectories of black laborers
of the automobile industry in Rio de Janeiro. I make an analysis of the racial inaqualities in the
work market observing, on the other hand, the economic and social impacts caused by the
reorganization of the production and the relations of work and, for another one, the occured
transformations in the model of racial relations Brazilian.
Using the analytical perspective of the inaqualities of chances for blacks and whites in
the work market, I pretend to demonstrate that although the transformations that come
occurring in the field of the work, that they had meant magnifying of the market for black and
white workers in the studied case, it is verified reproduction of the inaqualities of chances
among black and white peoples in the access and the quality to the occupations.
Word-keys: racial relations – working - inequalities.
VI
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos orixás que, mesmo sem conhecê-los, conduziram meus caminhos nesses
vinte oito anos de vida.
Aos meus pais, Paulo e Célia, pela sabedoria, compreensão e apoio incondicional, sem
o qual não teria conseguido chegar até aqui; a meu irmão Alexandre, sempre amoroso e
disposto a me ajudar; a minha cunhada Eliane que foi o veículo para meu sobrinho Lucas
chegar a este mundo e completar meu estado de graça.
A todos os meus ancestrais, em particular as mulheres, negras guerreiras e provedores
da vida desde aquelas que não conheci até as que consegui identificar, em particular minhas
avós Léa Gonçalves e Maria da Glória de Oliveira.
Agradeço a Iyalorixá Meninazinha da Oxum, minha mãe, que com seu axé me
fortaleceu e vem me reedificando a cada dia. Também a Mãe Nilce de Iansã que foi
fundamental nos momentos finais do processo de construção desse trabalho zelando por meu
bem-estar emocional e espiritual. Modupé Axé!!!
À CAPES e FAPERJ (Cientista do Nosso Estado) pelo essencial financiamento das
bolsas durante o tempo da pesquisa. Ao meu orientador, Prof. Dr. José Ricardo Ramalho pela
paciência e atenção dedicados desde a graduação; idem para Prof. Dr. Marco Aurélio Santana.
Também meus agradecimentos aos colegas de pesquisa: Júlia Polessa, Rafael Raphael
Jonathas, Carla Pereira, Elaine Marlova, Sérgio Pereira, Rodrigo Salles, Fabiano Jesus, Marina
Cordeiro, Silvia Monerat e Rian Rezende; e à Ângela que, além de aturar minhas instáveis
variações de estado de espírito, deu sua colaboração desde a graduação nos processos
burocráticos.
Aos amigos adquiridos no curso de graduação, dos quais muitos compartilham
trajetória acadêmica similar: Marisa Santana, Lidiane Rocha, Carla Ramos, Aline Jansen,
Ester Oliveira, Suzana Mattos, Aline Martins, Fátima dos Santos, Jonas Henrique, Maria
Amália, Durval dos Anjos, Jorge Antônio e Sabrina Galeno (e aos outros que não constam
dessa lista).
Em especial a Andréia Costa, Leonardo Bento, Ana Paula Almeida, Karine Rodrigues,
Luciane Rocha e Maristela Santana que são amigos para além da formação acadêmica, meu
muito obrigada: amo vocês!
VII
Meu axé para Rosemary Gonçalves... Não tenho palavras para definir tamanha ajuda e
dedicação, fundamentais para a realização dessa pesquisa; também a Roberta Oliveira que,
sem me conhecer, acolheu-me em sua casa em Resende e dedicou tempo e atenção durante o
trabalho de campo.
Agradeço também aos trabalhadores das fábricas pelo tempo disponibilizado para as
entrevistas, bem como pela receptividade: muito obrigada!
Para Ducilda, Kellen, Regina, Adriana, Márcia e Ana Lúcia, companheiras de todas as
horas: aqui está uma das provas de que juntas conseguimos o que jamais conseguiríamos
sozinhas!
Tenho uma dívida de gratidão para com todos vocês: axé!!!
VIII
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ....................................................................................................................... 01
- Os primeiros passos ......................................................................................................03
- Cor e trabalho ...............................................................................................................05
- A pesquisa de campo ....................................................................................................08
CAPÍTULO 1: Relações raciais no Brasil o processo de construção e a nova
configuração do modelo
1.1Introdução .......................................................................................................................12
1.2 - O problema da “raça” no pensamento social brasileiro
- O conceito de raça e o racismo científico no Brasil .....................................................12
- A celebração do mestiço e o mito da democracia racial ...............................................16
- O mito das três raças .....................................................................................................19
- A realidade racial inusitada: a descoberta do projeto UNESCO ..................................20
- Singularidade do racismo brasileiro .............................................................................24
- Crítica ao modelo assimilacionista de relações raciais
............................................................25
1.3 - Denúncia do racismo: a construção do debate sob a ótica do Movimento Negro
Brasileiro
- Duas formas de atuação ................................................................................................26
- A Frente Negra Brasileira e o Teatro Experimental do Negro .....................................27
- O movimento negro visto de fora .................................................................................32
- A nova configuração da política racial brasileira .........................................................34
CAPÍTULO 2: A presença do negro em Resende - de escravos a operários
2.1- História: a utilização da mão-de-obra negra e os ciclos de desenvolvimento econômico
da cidade
- Introdução .....................................................................................................................39
- Braços negrose a expansão do café ..........................................................................39
IX
- Os Breves ......................................................................................................................42
- Substituições: café pelo açúcar, negros por imigrantes italianos? ................................46
- Mudança de status: do trabalho escravo ao trabalho livre ............................................48
2.2 - O olhar sobre o trabalhador negro em História Social ...................................................52
2.3 – Condições socioeconômicas: a população negra resendense hoje..................................56
População .................................................................................................................................57
- Composição da população resendense por cor/raça .....................................................58
- Composição da população por cor/raça do município e da região ...............................59
- Composição da população segundo sexo e cor/raça......................................................62
Educação ..................................................................................................................................63
- Alfabetização/taxa de analfabetismo ............................................................................63
- Média de anos de estudos .............................................................................................65
Ocupação...................................................................................................................................68
- População economicamente ativa..................................................................................68
- Taxa de atividade...........................................................................................................69
- População ocupada.........................................................................................................71
Posição na ocupação.................................................................................................................72
- População ocupada na posição de empregado ..............................................................72
- População ocupada na posição de empregador .............................................................73
- População ocupada na posição de conta-própria ..........................................................74
- População ocupada na posição de militares e estatutários ............................................75
- População ocupada na posição de trabalhador doméstico ............................................76
Rendimentos da população ocupada ........................................................................................77
- Rendimentos da população ocupada na posição de empregado ................................. .77
- Rendimentos da população ocupada na posição de empregador ..................................78
- Rendimentos da população ocupada na posição de conta-própria ................................79
- Rendimentos da população ocupada na posição de militares e estatutários..................80
- Rendimentos da população ocupada na posição de trabalhador doméstico...................81
CAPÍTULO 3: A força de trabalho motor - perfil racial dos trabalhadores da Volkswagen
ônibus e caminhões
X
3.1 - Introdução.........................................................................................................................84
3.2 - O survey ...........................................................................................................................85
3.3 - Cruzamento de dados por cor/raça .................................................................................87
- Os trabalhadores nas empresas do consórcio modular.................................................88
- Níveis hierárquicos........................................................................................................89
- Sexo.............................................................................................................................. 89
- Naturalidade e residência...............................................................................................91
- Escolaridade...................................................................................................................95
- Forma de Seleção ..........................................................................................................96
- Faixa salarial..................................................................................................................97
- Condições de trabalho..................................................................................................102
- Preocupação com o desemprego .................................................................................106
- Significado de trabalhar na fábrica..............................................................................107
- Participação sindical ...................................................................................................110
CAPÍTULO 4: Percursos e trajetórias - o novo operário negro e suas perspectivas diante
do trabalho.
4.1 Introdução.......................................................................................................................115
4.2 - Trajetórias em perspectiva............................................................................................115
- Contexto familiar.......................................................................................................115
- Participação em atividades sociais.............................................................................120
- Formação Profissional................................................................................................125
- Visão da Discriminação..............................................................................................133
- Desigualdades Raciais na Empresa.............................................................................141
- Participação nas Organizações Sindicais.....................................................................149
- Perspectivas de Trabalho.............................................................................................155
CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................160
ANEXO ..................................................................................................................................162
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................163
1
INTRODUÇÃO
Essa pesquisa é parte do projeto “O Global e o Local: os impactos sociais da
implantação do pólo automotivo do Sul Fluminense”, que acompanha as transformações
sociais, econômicas e políticas que vêm ocorrendo com o desenvolvimento industrial da
região sul fluminense, particularmente, através da implementação de duas fábricas
automotivas: a Volkswagen (1966) e a PSA Peugeot-Citroën (2001) nos municípios de
Resende e Porto Real, respectivamente.
O trabalho tem por objetivo observar a inserção dos trabalhadores negros numa fábrica
do setor automobilístico construída dentro dos novos parâmetros estabelecidos pelo processo
de reestruturação produtiva porque tem passado as relações no mundo do trabalho moderno.
Tomando como referencial, por um lado, o impacto social acarretado pelas transformações no
modelo de produção e nas relações de trabalho, e, por outro pela nova dinâmica das relações
raciais no Brasil busco compreender os modos pelos quais características atributivas como a
cor, em particular, interferem nas trajetórias profissionais de negros de um micro-conexto
social específico.
De fora geral, embora haja uma tradição nas Ciências Sociais brasileiras de estudos
sobre trabalho e processo de trabalho, e sobre desigualdades raciais, esses dois campos de
reflexão foram constituídos separadamente, existindo poucas tentativas de articulação entre
eles (Silva, 1997). Em particular, foi a constatação de que existem poucas abordagens de
pesquisa que façam uma interface entre o campo das relações raciais e a sociologia do trabalho
no contexto industrial automotivo
1
, o que contribuiu para despertar meu interesse na pesquisa.
Assim, a questão central do trabalho diz respeito ao entendimento das formas pelas
quais as transformações na ideologia racial brasileira refletem-se nas relações de trabalho num
micro-contexto social específico caracterizado pela reestruturação industrial.
O estudo foi realizado com trabalhadores da fábrica de ônibus e caminhões da
Volkswagen-Resende/RJ que se localiza numa região
2
tradicionalmente é conhecida por sua
importância política, social e econômica que a destacou em fins do século XIX através da
1
São poucas as pesquisas que buscaram identificar as desigualdades raciais no mercado de trabalho brasileiro;
alguns dos estudos que norteiam essa pesquisa são: Costa Pinto, 1998; Bairros, 1985; Silva, 1997; Castro e
Barreto, 1998; Lima, 2001; Heringer, 1999; Valle Silva, 1980; Hasenbalg, Valle Silva; Lima, 1999; Osório, 2004.
2
A Região do Médio Paraíba compreende os municípios de Barra do Piraí, Barra Mansa, Itatiaia, Pinheiral, Piraí,
Porto Real, Quatis, Rio Claro, Rio das Flores, Valença e Volta Redonda.
2
exploração da mão-de-obra escrava e produção de café. Recentemente a visibilidade
econômica da região foi retomada, entretanto com outro perfil: o desenvolvimento do setor
industrial que se destacou com a inauguração da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em
Volta Redonda e, posteriormente, com o desenvolvimento de um parque industrial
3
e pólo
automotivo nas cidades de Resende e Porto Real - que culminam com a implantação da
Volkswagen e PSA Peugeot-Citroën, respectivamente.
Paralelamente às transformações ocorridas no campo do trabalho ocasionadas pela
reestruturação da produção e das relações de trabalho que caracterizam o novo momento da
indústria automobilística no Brasil - que se caracterizam pelo deslocamento das fábricas para
regiões sem tradição econômica nesse setor - o cenário político nacional acerca das relações
raciais no Brasil coloca a promoção da igualdade racial na agenda pública como tentativa de
resposta às desigualdades raciais entre negros e brancos no país.
Se por um lado o movimento social em defesa dos direitos da população negra
denuncia sua exclusão dos principais setores sociais desde o início da República, por outro, as
interpretações sobre a dinâmica racial brasileira têm sido colocadas em xeque no seio
acadêmico ao inserirem a variável de raça nas pesquisas sobre desigualdades sociais desde
meados da década de 1970. Entretanto, é apenas na atual conjuntura que o país reconhece
oficialmente a incompatibilidade do racismo com o estado democrático e propõe medidas
concretas de redução das desigualdades raciais.
É nesse contexto, em que novas interpretações são colocadas sobre os direitos de
cidadania a partir do pertencimento racial no Brasil, que a inserção de negros e negras nos
setores mais dinâmicos da sociedade tem sido pensada, particularmente com a adoção de
políticas de ações afirmativas no sistema superior de ensino e no mercado de trabalho
4
. À
priori, o caso estudado se colocaria como um contra-exemplo em relação à gestão do novo
3
A maioria das indústrias do parque industrial de Resende são dos setores metal-mecânico e químico
farmacêutico; estão entre elas: Atar do Brasil Ltda - Produção de Defensivos Agrícolas; Clariant S/A - Fabricação
de Produtos Químicos e Corantes; Carboox Resende Química - Siderúrgica e Soldagem; Eco Chamas Ltda -
Tratamento de Resíduos Industriais; Filtroil Indústria e Comércio de Filtros Ltda - Produção de Filtros / Prensa;
Hemmelrath do Brasil - Produção de Primers; Indústrias Nucleares do Brasil - Energia Nuclear; Montec de
Resende Indústria Ltda Caldeiraria; Novartis Biociência S/A – Farmoquímica; Pernod Ricard - Bebidas
Destiladas; Rimet Empreendimentos Ltda - Embalagens Metálicas; Solúcia - Serviços para Indústria de
Agroquímica; Sonoco Phoenix - Fabricação de Tampas Metálicas; Spanset do Brasil - Fabricação de Cintas
Poliéster.
4
Ver por exemplo: Guimarães (1999), Soares (2000), Beltrão & Teixeira (2004), Domingues (2005), Machado
(2005), Ramos (2005).
3
modelo de relações raciais por incluir os trabalhadores negros na nova estrutura de emprego.
No entanto, quando a indústria se transforma o risco do desemprego e a sobrevivência nos
postos de trabalho, por exemplo, atingem de maneira desigual e seletiva verificando-se a
reprodução de desigualdades de distintas espécies (Araújo Guimarães, 2004)
5
.
Os primeiros passos
A primeira vez que estive no município de Resende foi para participar de um seminário
organizado pela Associação Resendense de História (ARDHIS) sobre as comemorações do
centenário da cidade
6
. Na época, iniciava minha atividade de pesquisa com interesse em
compreender a participação do negro no desenvolvimento histórico na região, isto é, o
processo de inserção da população negra no mercado de trabalho local.
O evento tinha poucas pessoas sendo que a maioria era composta pela elite
conservadora da cidade; ou seja, aqueles que descendem dos grandes fazendeiros do café.
Com exceção do Sr. Claudionor Rosa, (atualmente diretor do arquivo histórico do município)
que, eu classifico racialmente como negro embora com tonalidade de pele mais clara, eu era a
única negra do seminário. O estranhamento com relação à minha presença explicitava-se pela
indiferença por parte dos participantes do seminário, algumas vezes chegando mesmo a causar
espanto aos presentes quando meus colegas de pesquisa me apresentavam como membro do
grupo. Daí pude constatar o “racismo velado”, característica de nosso modelo de identidade
nacional
7
, manifestando-se através do não-reconhecimento de minha posição de pesquisadora
da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
As impressões acerca do debate, tanto minhas como as de meus colegas de pesquisa,
são igualmente negativas: exaltava-se o período de “ouro” de Resende quando a produção do
café movia a economia constituindo-se na fonte de riquezas do país com a exploração do
5
Araújo Guimarães (2004) analisou o caso do ABC paulista nos anos 1990 e observou que as mudanças
ocorridas na estrutura do mercado de trabalho como parte do processo de reestruturação produtiva têm efeitos
diferenciados para brancos, negros, homens e mulheres consolidando tendências ou redefinindo padrões de
desigualdade.
6
Refiro-me ao seminário: “O Vale do Paraíba - sua história, seu futuro”, realizado pela Academia Resendense de
História em 2002, como parte das comemorações pelos duzentos anos da cidade; a ARDHIS tem por objetivo a
preservação do patrimônio histórico e artístico com o fim de afirmar uma identidade cultural no município.
7
A expressão racismo velado tem a ver com as estratégias de discriminação utilizadas pela elite branca para
colocar os negros em seu lugar, sem contudo criar leis de segregação tal como ocorreu nos Estados Unidos.
4
trabalho escravo. A palavra exploração em nenhum momento se colocou, porque aquele grupo
de pesquisadores
8
não entendia a utilização da mão-de-obra escrava como algo negativo, ao
contrário, a escravidão era justificada pela necessidade do desenvolvimento econômico do
país; da mesma forma, aqueles pesquisadores referiam-se a condição de inferioridade dos
escravos através de estereótipos racistas, tais como a brutalidade e ignorância natural dos
negros. Eu me sentia como se estivesse ouvindo os pensadores do século XIX debatendo
diante de mim a pessoa errada, no lugar errado. O mais impressionante em minhas
observações foi à ausência de qualquer tipo de constrangimento ao se colocar tais teorias
racistas devido à minha presença. Meus colegas de pesquisa ficaram revoltados...
Para aquelas pessoas não vivíamos no século XXI! Os discursos enfatizavam
veementemente a importância de a população resendense conhecer e orgulhar-se de seu
passado quando o município tinha visibilidade econômica e social, no lugar da idéia da
projeção econômica e do desenvolvimento local com a chegada da Volkswagen na cidade
9
.
Tais impressões levavam-me a questionar se meu tema de pesquisa realmente se
colocava para aquela realidade social. De inicio, eu sabia que havia de certa forma, por
assim dizer, um hiato entre a sociologia das relações raciais e os estudos sobre a sociologia
industrial e do trabalho. Sem conhecer os dados sobre a composição da população, essas
primeiras impressões me desanimaram bastante...
Como eu poderia estudar a questão racial numa cidade em que, visualmente, andando
pelo centro comercial urbano não se encontravam negros? Numa região em que as elites
dominantes são compostas por descendentes decadentes de proprietários de escravos, cuja
mentalidade acerca da organização social, econômica e política da cidade faz referência ao
modelo de organização social escravocrata?
A persistência da idéia estereotipada em relacionar trabalho, cor e escravidão sugeriu-
me como possibilidade de interpretação a existência de mecanismos impeditivos à inserção e
ascensão profissional de negros no mercado de trabalho local. No entanto, a leitura dos
resultados de um survey realizado com trabalhadores da fábrica de ônibus e caminhões da
8
O grupo era composto por pesquisadores da região do Vale do Paraíba fluminense, mineiro e paulista de
diversas áreas de conhecimento tais como História, Jornalismo, Administração e finanças.
9
A crítica sobre as representações sociais acerca do desenvolvimento econômico a partir da implementação da
Volkswagen estava explícita à primeira vista na frase de chamada para o seminário: “A vocês, sonhadores com
menos de quarenta anos... Não esperem nada do século XXI, pois é o século XXI que espera tudo de vocês. É um
século que não chega pronto da fábrica, mas sim pronto para ser forjado por vocês à nossa imagem e semelhança.
Ele só será glorioso e nosso à medida que vocês sejam capazes de imaginá-lo” (de Gabriel Garcia Marques)
5
Volkswagen, aguçou minha inquietação sociológica: a composição racial dos trabalhadores
revelava que mais da metade se auto-declarou como de cor/raça negra.
Daí, iniciei uma série de leituras sobre os estudos realizados na Bahia por conta da
implantação do pólo petroquímico no município de Camaçari. Verifiquei semelhanças nos
trabalhos realizados por aquele grupo de pesquisadores da UFBA (através do Programa “A cor
da Bahia”)
10
com relação às mudanças ocorridas no município de Resende e regiões
adjacentes a partir do desenvolvimento do pólo industrial e vinda das montadoras.
Cor e trabalho
Nesse sentido, esse trabalho tem como referência as contribuições de pesquisa de
Agier, Castro e Guimarães (1995) sobre o modo como as transformações no modelo racial
brasileiro e processo de transição do fordismo para a produção flexível afeta as relações de
trabalho. Tais transformações chamaram a atenção dos pesquisadores para a forma como a
indústria moderna instalada nos anos 60 (no Centro Industrial de Aratu) e, sobretudo nos anos
70 (no Complexo Petroquímico de Camaçari) reorganizou a economia local e o mercado de
trabalho, e, também centralizou as representações profissionais socialmente construídas e
partilhadas por indivíduos e coletivos (p.10).
Utilizando como foco de análise as trajetórias de vida e a mobilidade social de
trabalhadores urbanos num caso particular semelhante, esses pesquisadores procuraram
demonstrar como essas mudanças transformaram também os sistemas de valores e
classificações sociais que levaram à novas representações sobre o trabalho industrial, o saber
profissional e a ascensão social (p.9). Guimarães, Agier e Castro (1995) observaram que a
indústria moderna ampliou as possibilidades de mobilidade social e que os indivíduos
desenvolviam estratégias de ação que são baseadas em componentes da história individual de
cada pessoa, tais como a estrutura familiar, as condições de socialização, e a experiência
profissional (educação formal e social).
10
Refiro-me ao Projeto Classes, Etnias e Mudanças Sociais e ao programa A Cor da Bahia, da Unifersidade
Federal da Bahia, particularmente as produções sociológicas de Antônio Sérgio Guimarães, Michael Agier,
Nadya Araújo Castro e Vanda Sá Barreto.
6
O campo de produção teórica da sociologia e da antropologia do trabalho,
particularmente a literatura produzida a partir da segunda metade dos anos 70, a que os autores
se filiam, enfocava o componente subjetivo da ação – a representação da trajetória e da
posição social do sujeito (p.11). Chamados de “estudos dos processos de trabalho”, aquele foi
o movimento teórico que deslocou o foco analítico dos estudos sócio-econômicos sobre o
mercado de trabalho e das análises sócio-políticas sobre o movimento sindical, para as
reflexões sobre a fábrica enquanto organização, tendo no processo de trabalho o âmbito
privilegiado de observação (p.12).
Assim, essas pesquisas tinham como objetivo apresentar abordagens interpretativas
que iam além de esclarecer o processo de trabalho na nova indústria nordestina e a
reestruturação do mercado de trabalho regional; elas integraram analiticamente as experiências
fabris e extrafabris na determinação das atitudes e dos comportamentos, individuais e
coletivos, isto é, observaram como os indivíduos representam para si as condições sociais em
que atuam e, ao fazê-lo, estruturam as disposições subjetivas que presidem suas ações.
Segundo eles, observar o campo do trabalho como espaço fértil de identificação de
diferentes estratégias de mobilidade social dos agentes constitui estratégia analítica que se
estrutura com base em vários componentes da história e do status de cada pessoa focalizada:
estrutura familiar de integração e posição dos sujeitos nas relações familiares, condições de
socialização e herança sócio-cultural recebida, experiência profissional e saber (profissional e
social) adquiridos, representações do sujeito relativas à sua posição (social e profissional)
atual (p. 13-14).
As reflexões sobre as formas de evolução das desigualdades raciais no mercado de
trabalho e as análises sobre o processo de construção de novos modelos de identidade negra
em Salvador, não foram particularmente tratadas pelos autores no processo de construção de
novas mentalidades e identidades no campo do trabalho. Alguns anos mais tarde, num novo
contexto de produção literária sobre as relações raciais no Brasil que põe em xeque a
hegemonia racial ao investigar os mecanismos discriminatórios que afetam o status e a
mobilidade social no país
11
, Castro e Barreto (1998) relacionaram as novas demandas de
adaptação da organização industrial e dos recursos humanos à nova economia global às
11
Ver por exemplo: Heringer, 1999; Hasenbalg, Valle e Silva & Lima,1999; Henriques, 2001; Beltrão, Sugahara,
Peyneau & Mendonça, 2003; Osório, 2004.
7
mudanças nos padrões de discriminação educacional, de emprego e salários no Brasil
(Reichmann, cf Castro e Barreto 1998).
As autoras organizaram um dos primeiros estudos sobre a identidade dos trabalhadores
incluindo a variável de cor/raça na análise. As discussões colocadas sobre o impacto dos
sucessivos anos de intensa mudança estrutural sobre o acesso e a saída do mercado de trabalho
de indivíduos de diferentes grupos raciais informam a relação que procuro estabelecer entre o
campo do trabalho e as desigualdades raciais na construção analítica das trajetórias sociais do
grupo estudado - trabalhadores negros na indústria automobilística num micro-contexto social
específico em que o processo de desenvolvimento do mercado de trabalho é fortemente
afetado pela reestruturação industrial do processo produtivo local.
Concomitantemente, essa pesquisa é iluminada pelo debate político acadêmico porque
atualmente passa o processo de mudança do modelo de relações raciais no Brasil a
legitimação da luta anti-racista decorrente, por um lado dos esforços do movimento social
negro em denunciar a real situação de desvantagem da população negra na estrutura social
brasileira, e, por outro da explosão de dados estatísticos a partir dos estudos de Hasenbalg e
Vale e Silva na década de 1980 que apresentam indicadores sociais que atestam a existência
das desigualdades entre negros e brancos na sociedade brasileira. De acordo com a ampliação
dessas pesquisas desde então, tomo aqui as desigualdades raciais como ponto de partida e não
como de chegada; ou seja, as reflexões sobre o contexto das relações raciais desenvolvem-se
de forma crítica ao padrão hegemônico das desigualdades raciais no país.
Baseando-me nesse arcabouço teórico tinha como hipótese inicial de pesquisa, tal
como ocorreu no caso baiano com o desenvolvimento do setor petroquímico e, propriamente,
no setor automobilístico no caso do ABC paulista, a idéia de que o acesso de negros ao
mercado de trabalho industrial moderno no caso específico da vinda das fábricas da
Volkswagen e da PSA Peugeot-Citroën para a região sul fluminense significou uma mudança
no perfil da mão-de-obra com ampliação da participação do negro no mercado de trabalho do
setor, entretanto, com a permanência da característica de distribuição desigual de
oportunidades de ascensão social para trabalhadores negros e brancos.
8
A pesquisa de campo
A metodologia compreende abordagens quantitativas e qualitativas de pesquisa. A
abordagem quantitativa está baseada em duas fontes principais: um banco de dados com
informações gerais dos funcionários da Volkswagen que engloba suas concepções sobre as
relações de trabalho, as relações com os órgãos de representação e a vida fora da fábrica; e, o
mapeamento dos modos desiguais de inserção de negros e brancos no mercado de trabalho
local. O modelo de classificação racial é o utilizado pelo IBGE (brancos, pretos, pardos,
amarelos e indígenas); foi utilizada a estratégia de associar os resultados de pretos e pardos à
categoria “negros”, embora em algumas situações a análise remeta às categorias
separadamente pela dinâmica de apresentação desigual nos resultados para brancos, pretos e
pardos.
Houve preferência pela classificação binária branco/negro na análise por considerar
remeter à representação política posta entre dominadores e dominados, um sistema de
hierarquização social que repousa sobre as dicotomias elite/povo, brancos/negros (D’Adesky,
2001 apud Guimarães, 1995:35). A definição do termo “negro” proposta neste trabalho é a
utilizada por D’Adesky (2001): todo indivíduo de origem ou ascendência africana suscetível
de ser discriminado por não corresponder, total ou parcialmente, aos cânones estéticos
ocidentais, e cuja projeção de uma imagem inferior ou depreciada representa uma negação
de reconhecimento igualitário, bem como a denegação de valor de uma identidade de grupo e
de uma herança cultural e uma herança histórica que geram a exclusão e a opressão.
As abordagens qualitativas englobam observações diretas, conversas informais e
entrevistas. Os primeiros passos para a inserção no campo ocorreram por meio de contato com
grupos organizados na luta anti-racista, engajados na promoção da igualdade racial no
município, como também de outras expressões de identificação racial como grupos culturais e
religiões de matriz africana
12
.
Como não conhecia os ativistas negros da cidade - e tive dificuldades para estabelecer
contato com as lideranças sindicais - recorri a laços de amizade para inserir-me nessa rede de
12
Contribuíram com informações sobre relações raciais na cidade: Sonia Maria de Freitas, na época responsável
pela coordenadoria municipal de comunidade negra de Resende; Mestre Claudinho da Associação de Capoeira
Raiz Negra; Roberta Oliveira, organizadora do concurso de beleza negra Afro Fashion; Claudionor Rosa, diretor
do arquivo histórico municipal.
9
relações. Uma amiga, moradora de Volta Redonda, estudava na época a diversidade racial nas
empresas e conhecia muitas pessoas ligadas ao movimento negro da região; ela indicou-me
uma pessoa de referência em Resende para que pudesse me ajudar a entrar em contato com as
lideranças negras da cidade, mas, principalmente, na seleção dos trabalhadores para as
entrevistas
13
.
Inicialmente a comissão de fábrica demonstrou desinteresse na pesquisa
14
- por várias
vezes tentei estabelecer contato direto, sem sucesso. O primeiro contato ocorreu com uma
estratégia quase que forçada: acompanhei uma colega do grupo de pesquisa
15
- que fora
apresentar o resultado de sua pesquisa de doutorado que tinha a comissão de fábrica como
estudo de caso sem ter anunciado previamente o assunto de meu trabalho. E deu certo! A
partir de então houve uma total mudança de comportamento dos membros da comissão de
fábrica para com meu trabalho de pesquisa que passou a colaborar amplamente, em especial,
no que diz respeito a minha livre circulação dentro da fábrica (sempre acompanhada dos dois
membros da comissão de fábrica) o que me permitiu observar de perto o processo da produção
dos veículos, bem como na intermediação de conversas informais com os trabalhadores na
fábrica e, também, além de se disponibilizarem, colaboraram na indicação de parte dos
trabalhadores que compõem as trajetórias sociais que abordo no capítulo 4.
O foco de observação também não se concentrou ao ambiente fabril devido às
dificuldades de estabelecer contato com o setor de recursos humanos da Volkswagen a
entrada na fábrica se deu apenas via intermediação da comissão de fábrica; não tive permissão
da gerência administrativa para observar os aspectos cotidianos dentro da fábrica. Assim,
13
Rosemary Gonçalves é pesquisadora e militante negra em Volta Redonda; ela me apresentou a muitas pessoas
ligadas ao movimento negro local, sindicalistas e trabalhadores da Volkswagen e da PSA Peugeot-Citroën.
Rosemary me apresentou Roberta Oliveira que é organizadora de um grande evento de cultura negra chamado
Afro Fashion cujo objetivo é afirmar a identidade negra como valor positivo na sociedade através de um concurso
de beleza negra; Roberta foi meu principal contato na pesquisa de campo.
14
Minhas impressões sobre as tentativas de estabelecer os primeiros contatos levaram-me a pensar que o tema
das relações raciais não m relevância nas ações sindicais daquele grupo; ou seja, que a pesquisa não se
traduziria em resultados práticos que auxiliassem (ou dessem visibilidade) à luta sindical dentro da fábrica.
entretanto, a maior proximidade com outras lideranças sindicais (do sindicato dos metalúrgicos de Volta
Redondo, ao qual os operários das fábricas são associados), bem como a análise das histórias de vida (capítulo 4)
de alguns operários ligados ao movimento sindical demonstraram formas diversificadas de representação do
grupo sobre o tema das relações raciais.
15
Elaine Marlova teve contato intenso com a comissão de fábrica por ter analisado a forma de ação política dos
trabalhadores e o espaço da política no interior da produção tendo a comissão de fábrica da Volkswagen; com
efeito, utilizar-me de tal estratégia para estabelecer contato com as lideranças sindicais da brica foi
fundamental para conseguir o apoio e colaboração em minha pesquisa, ou seja, “validar” perante os membros da
comissão de fábrica a importância de meu tema de pesquisa.
10
minhas observações baseiam-se em apenas duas visitas ao interior da fábrica, a participação
em eventos organizados pelo movimento negro local como também pelo movimento sindical,
e, minha movimentação pela periferia e pelo centro da cidade onde pude entrar em contato
informal com muitos trabalhadores no calçadão, no shopping e outros locais de lazer. Tinha
como referência um grupo de amigos que se reúne próximo a uma banca de jornal para
conversar após o expediente de trabalho, do qual fazia parte um de meus entrevistados além de
outros dois funcionários das montadoras.
Para a construção das trajetórias dos trabalhadores, foram realizadas 8 (oito)
entrevistas densas que abordam questões como as estratégias utilizadas pelos trabalhadores
negros em seus projetos de ascensão social, como a constituição de redes de familiares e
amigos, os investimentos em educação e a participação política em organizações de cunho
anti-racista ou de representação sindical. Foram utilizados dois critérios para a seleção dos
entrevistados: ser funcionário da linha de produção na fábrica, bem como se perceber
racialmente como negro; assim, a classificação racial se deu através da autodeclaração.
A maior parte dos entrevistados foi contatada fora da fábrica, via indicação das pessoas
que fiz contato na cidade, particularmente Roberta Oliveira que é organizadora de eventos de
cultura negra na região; os demais são lideranças sindicais senão indicados por elas. As
entrevistas externas foram realizadas em lugares diversos e adversos: residência, hall do hotel,
restaurantes e lojas de fast food, praças públicas e vias públicas; dentro da fábrica, foram
realizadas entrevistas gravadas no espaço da comissão de fábrica e conversas informais com
trabalhadores na linha de produção, mas também em espaços como corredores e refeitório.
Além dos próprios membros da comissão de fábrica, que se autodeclararam negros, realizei
uma única entrevista em que foi necessária a retirada de um trabalhador da linha de produção,
o que foi conseguido por intermédio da própria comissão de fábrica.
A não restrição da realização das observações diretas, das conversas informais, bem
como das entrevistas ao ambiente fabril conferiu mais significado social às respostas, que,
com exceção das entrevistas gravadas, possibilitaram um clima de menor tensão com relação
ao conteúdo das respostas; assim, pude observar o cotidiano dos trabalhadores dentro da
fábrica com atenção ao que foi dito, o que não foi dito e o modo como foi dito.
Considero que minha entrada na fábrica se deu de maneira oficiosa, pois além de
eventual (apenas duas vezes) a intermediação com os trabalhadores foi realizada de maneira
11
descontraída (quase que improvisada) pela comissão de fábrica. Apesar de ter sido apresentada
como pesquisadora e os trabalhadores com quem tive contato dentro da fábrica tivessem o
mínimo de informações sobre a utilização prática dos dados que estavam sendo coletados,
acredito que não viam relevância no tema tratado. Percebi que o problema não tinha relação
com as desconfianças que, certamente, os trabalhadores tiveram sobre o conteúdo das
conversas - muitos se recusaram a falar comigo quando eram esclarecidos sobre a questão
racial, como se não tivessem (ou não quisessem ter) nada a ver com isso; tive a mesma
impressão com as entrevistas gravadas cujos trabalhadores foram indicados pela comissão de
fábrica.
Em resumo, no decorrer da exposição busco problematizar como as mudanças no
modelo de relações raciais brasileiro se refletem na inserção de negros e brancos no ambiente
de trabalho fabril, bem como sobre suas concepções sobre a relação entre cor/raça num
ambiente de trabalho reestruturado.
Organizei a apresentação em quatro capítulos, a saber:
No capítulo 1, Relações Raciais no Brasil O Processo de Construção e a Nova
Configuração do Modelo, descrevo brevemente os principais discursos colocados no processo
de desenvolvimento do modelo de relações raciais no Brasil; apresento a maneira pela qual o
tema tem sido discutido no meio acadêmico, a reação dos movimentos de luta anti-racista,
bem como a conjuntura política racial atual.
No capítulo 2, Mão-de-Obra Negra em Resende - de Escravos a Operários busco
resgatar o processo de utilização da mão-de-obra negra no desenvolvimento da economia
cafeeira na região do Vale do Paraíba fluminense para servir de base à análise do mapeamento
dos modos desiguais de inserção de trabalhadores negros e brancos no mercado de trabalho
local, realizado na segunda parte desse capítulo.
No capítulo 3, A Força de Trabalho Motor - Perfil Racial dos Trabalhadores da
Volkswagen Ônibus e Caminhões, traço um perfil dos trabalhadores negros da Volkswagen de
modo a caracterizar sua especificidade no que diz respeito à inserção, qualificação, condições
de trabalho e a atribuição de significado à atividade desempenhada na fábrica.
No capítulo 4, Percursos e Trajetórias - O Novo Operário Negro e suas Perspectivas
diante do Trabalho, coloco em perspectiva 8 (oito) trajetórias sociais de trabalhadores negros
da fábrica a fim de compreender suas estratégias para vencer as barreiras de ascensão social.
12
Capítulo 1: RELAÇÕES RACIAIS NO BRASIL O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO E
A NOVA CONFIGURAÇÃO DO MODELO
1.1 Introdução
Buscar entender como se desenvolveram as diferentes formas de interpretação acerca
do tema constitui reflexão fundamental para a compreensão das condições sociais que vivem
os negros na sociedade brasileira contemporânea. Nesse sentido, o primeiro capítulo descreve
uma breve leitura das principais abordagens interpretativas sobre o padrão de relações raciais
brasileiro caracterizando, por um lado, como o tema se desenvolve no pensamento social
brasileiro e, por outro, os argumentos centrais das reivindicações do movimento social negro
como resposta a hegemonia racial dominante.
A re-leitura pontual dos principais discursos acerca do processo de construção do
padrão de relações raciais brasileiro busca servir de parâmetro para a compreensão do
processo de inserção dos negros no mercado industrial de trabalho, do padrão de
desigualdades raciais na estrutura social e o impacto das representações sociais sobre as
trajetórias individuais dos trabalhadores negros da Volkswagen/Resende, questões-chave que
serão observadas no decorrer dos próximos capítulos.
1.2 - O problema da “raça” no pensamento social brasileiro
O conceito de raça e o “racismo científico” no Brasil
Diferentes formas de abordagem acerca das interações entre negros e brancos tomaram
corpo no pensamento social brasileiro desde fins do século XIX; tais interpretações propiciam
uma reflexão sobre o modo de operacionalização do conceito de raça no comportamento dos
indivíduos. Lilia Schwarcz (1995) ao analisar a construção da idéia de raça no Brasil descreve
como era vista a composição racial da população pelos pensadores do século XIX - um
espetáculo das raças.
13
Espécie de laboratório humano vivo, o Brasil parecia representar, nesse sentido, um
caso único de extremada miscigenação, ou mesmo o local apropriado para as
pesquisas que indagavam sobre as potencialidades específicas de cada uma das raças.
(Lília Schwarcz, 1995:177)
Caracterizando o Brasil como palco de inferno racial, condenado ao malogro e sem
nenhuma esperança de salvação, o Conde de Gobineau defendia a afirmação da diferença e a
positividade da pureza racial. Para DaMatta (1981), o olhar racialista do Conde de Gobineau
16
tinha a idéia de inferioridade do mestiço como produto da junção das características negativas
de cada raça - cada um tinha suas qualidades, mesmo que situadas em escalas de atraso e
progresso.
Diante de uma realidade física de mulatos, cafusos e mamelucos, diante de uma
sociedade altamente variada em termos de cor, Gobineau não teve outra alternativa
senão expressar seu pessimismo diante do futuro do país que, pelas suas teorias,
aqui o branco estava perdendo suas qualidades para o índio e, sobretudo, para a
‘raça negra. (DaMatta, 1981:73)
Sobre Gobineau, também Lèvi-Strauss (1980) afirmou que para ele as origens raciais
são fatores determinantes do destino dos homens - sua visão racialista concebia as
desigualdades entre as raças humanas de modo qualitativo e não quantitativo; isto é, as
qualidades intrínsecas de cada raça se perderiam através da mestiçagem. Assim, a degeneração
estava mais ligada à mestiçagem que à posição de cada raça numa escala de valores comum.
[..] para ele, as grandes raças primitivas que formavam a humanidade nos seus
primórdios - branca, amarela, negra - o eram desiguais em valor absoluto, mas
também diversas nas suas aptidões particulares... (Lèvi-Strauss, 1980:47).
Baseados no positivismo de Comte, no darwinismo social e no evolucionismo de
Spencer os pensadores racialistas da segunda metade do século XIX entendiam a mistura das
16
Autores como Gobineau, Spencer, Agassiz, Le Bom etc., entendiam que os seres humanos se distribuíam
segundo escala hierárquica de desenvolvimento, sendo agrupados de acordo com suas características físicas em
subespécies do Homo sapiens; nesse tipo de crença as características morais são geneticamente construídas e
transmitidas pelo sangue. Os temas da mestiçagem e branqueamento da população ocuparam lugar de muitos
estudos na passagem do século XIX para o século XX; ver a propósito Skidmore, 1976 [1974] e Schwarcz, 1995.
14
raças como uma degeneração da sociedade; ou seja, para eles um povo miscigenado seria