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qualidade de cada pintura. Como exemplo, o caso de Aponê, um dos nossos
jovens guerreiros, que é apaixonado por desenhos: começou a observar os
traços e como eram feitos pelos mais velhos, e também o tecimento do bajau
com tala de xandó e imbira.
E assim começamos a descobrir as pinturas corporais, fazendo rabiscos em
cadernos. Depois, sim, eram feitas em nossos próprios corpos, ou seja, no
corpo inteiro. Para nós, era como se fosse um grande mistério que estava
sendo desvendado. A cada momento que passava, as nossas pinturas iam
ficando mais bonitas. (...)
O trabalho de pesquisa sobre a nossa língua pataxó começou em 1998,
quando começamos as atividades na Reserva da Jaqueira. (...) Com isso,
nos organizamos e fomos em busca dos mais velhos que ainda estavam
vivos e guardavam na sua memória a história, a língua, as danças, os
cânticos e os conhecimentos das ervas medicinais. (...)
Como é costume de nossa cultura, o conhecimento é passado oralmente, e
nós queríamos registrar esse conhecimento devido a gente ter perdido muito
com a morte dos mais velhos. Eles não podiam registrar esse conhecimento,
porque não sabiam ler e nem escrever. Mas também tinham medo, vergonha
e receio de passar esses conhecimentos para os mais jovens, para que não
sofressem como eles sofreram com a discriminação, o preconceito e as
humilhações. Tudo isso por causa da nossa maneira de ser e de viver
diferente. Por esse motivo, tivemos a iniciativa de procurar os mais velhos.
Havia dito anteriormente sobre os sofrimentos que fizeram a cultura
adormecer ao longo desses anos. [referência ao Fogo de 51 e à
discriminação posteriormente sofrida]. Tivemos que encarar essa
dificuldade, mas sabíamos que não ia ser fácil. Nesse tempo, Seu Prejuízo e
Seu Benedito já estavam morando na Jaqueira. Sempre no final da tarde,
nós reuníamos para conversar e chamávamos Seu Prejuízo e Seu Benedito
para contar a história de nosso povo. Foi assim que começamos perguntar
sobre a nossa língua, então eles falavam algumas palavras: jokana
(mulher), jocana baixú (mulher bonita), kitoki (menino), entre outras.
Pegamos o caderno e começamos a escrever. Era sempre assim. Passado
alguns dias, fomos formando algumas frases, praticando uns com os outros
e falando no dia a dia. Reuníamos todas as tardes na Jaqueira ou à noite na
casa de minha mãe (Taquara), fazíamos uma fogueira onde assávamos
peixe, escutávamos as histórias dos mais velhos e aprendíamos a língua. Os
mais velhos conversavam e a gente ia escrevendo o significado das
palavras. Algumas vezes íamos para a Jaqueira, onde também dormíamos.
(...) Depois, fomos informados de que existiam relatos sobre nosso povo em
livros antigos. Começamos a colocar em prática e fomos à procura,
debatendo uns com os outros. E o desejo de continuar desvendando a nossa
própria história foi aumentando cada vez mais. E a luta sempre continuava.
(...)