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1993). Em Vigiar e punir, Foucault (2000) constrói a genealogia da disciplina, e da sociedade disciplinar,
iniciando sua trajetória a partir da sociedade de soberania, descrevendo as cenas de suplício que
garantiam a vingança do soberano e a manutenção da ordem pelo medo provocado nas pessoas a partir do
excesso da vingança. Lentamente, mas por artérias comunicantes que vão e vem, o que é uma
característica da genealogia de Foucault, as formas de punição se transformam e procuram alcançar
melhores resultados, já que os suplícios, em seu excesso, tornam-se demasiado caros e pouco rentáveis,
pois as pessoas passam a manifestar um sentimento ambíguo em relação à soberania, sentimentos de
medo e de ódio. Começa-se então a substituir a idéia de vingança pela de recuperação do infrator, como
uma estratégia mais forte para estabelecer a ordem. A disciplina passa então a se desenvolver como
tecnologia, no interior das prisões, mas também nas escolas, nas fábricas, nas famílias. O modelo
panóptico pode se enraizar e disseminar para várias outras organizações. O modelo do combate à lepra,
baseado na pura exclusão e no confinamento, pode ceder lugar ao modelo do combate à peste, com a
segregação acompanhada, trabalhada, esquadrinhada no tempo e no espaço, controlada e consumida. Um
consumo que produz corpos, dóceis e úteis. Os corpos, muito embora possam oferecer resistência, depois
de certo tempo sujeitados ao poder disciplinar, também incorporam o poder e se autodominam, se auto-
submetem, uma submissão voluntária, associada aos processos de normalização. É no âmbito da
sociedade disciplinar em formação que o asilo de alienados, como uma configuração primitiva do hospital
psiquiátrico que hoje conhecemos, vai se estabelecer, tendo como personagens centrais os alienistas, a
quem dedicarei uma nota mais adiante.
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Pode-se chamar esta forma massificada de lidar com a experiência da loucura de “simplificação”. A
psiquiatria, com suas grades nosográficas (fortemente influenciadas atualmente pela neurociência e pela
indústria farmacêutica), objetiva uma exatidão muito difícil de ser obtida em situações subjetivas que
envolvem sobretudo padrões de existência e uma multiplicidade de fatores. Diante de um fenômeno
complexo como o da loucura, é preciso agir também de forma complexa, de modo a não mascarar
elementos existentes e essenciais dessa realidade. Edgar Morin é um autor que traz o discurso da
complexidade em contraposição à simplificação da ciência cartesiana. Defende a constituição de um
paradigma da complexidade, que parta da própria incompletude e insuficiência da lógica dedutivo-
identitária, atingindo seu limite para chegar a outras facetas da realidade. Para tanto, diz ele, é necessário
usar as contradições ao invés de negá-las. Deve-se incorporar a lógica, através de uma translógica, mas
operando também de uma forma alógica, supralógica, infralógica. E viabilizar também metapontos de
vista que possam vislumbrar novos movimentos do real, dialogando portanto com outros âmbitos do
pensamento e do discurso, como o mito, a poesia, a arte, e integrando os vários âmbitos e disciplinas
científicas.Nas palavras de Morin, “o metaponto de vista complexo objetiva o conhecimento (neste caso a
teoria), isto é, torna-o sistema objeto, linguagem objeto. Ponto de vista crítico, burila, limpa, purifica a
teoria, devolve-a aos seus componentes fundamentais, evidencia a sua organização interna. Ponto de vista
englobante e construtivo, integra e ultrapassa a teoria pela reflexividade que elabora conceitos de segunda