perfeito possível e que não pode inventar dispositivo melhor para sua
conservação que o de lhe fornecer o sentido da dor. TESSER (2006) afirma
que no fim do século XIX a dor estava emancipada de todo referencial
metafísico. O progresso da nossa civilização tornou-se sinônimo de redução
de sofrimento, mediante a tentativa de eliminação ou sedação de dores e
sintomas e controle dos riscos e doenças crônicas. O desenvolvimento da
faculdade de objetivação da dor é um dos resultados da formação científica
do médico.
Em ILLICH (1975), vemos que as culturas tradicionais tornavam o
homem responsável por seu comportamento sob o impacto da dor. Mas,
agora o tecido de respostas orgânicas, pessoais, emocionais e sociais à dor,
propiciado por estas culturas, está em vias de se desfazer (ou já está se
desfazendo), “de se transformar em uma demanda geral de gestão técnica
das sensações, das experiências e do porvir individuais”.
TESSER (2006) analisando ILLICH (1975), conclui:
Em meio medicalizado, a dor perturba e desnorteia a vítima sem que
ela tenha outros recursos senão entregar-se ao tratamento médico. A cultura
medicalizada deixa o homem desamparado e incompetente, pondo-o nas
mãos do trato médico profissional, estranho à compreensão tradicional ou
pessoal do doente - às vezes já resquicial – e desagregador das relações
entrelaçadoras do homem com sua doença, seu meio, a natureza, seus
próximos e com ele mesmo. Assim, a compaixão (fonte de consolo, conforto,
distração e esperança) e o conhecimento cultural sobre a saúde (tradicional,
popular ou de outras medicinas), de gerações anteriores e do entorno social
do doente (fonte de tratamento integrado à cultura e à vida do paciente e
dos seus), transformam-se em virtudes obsoletas e muitas vezes,
indesejadas.
Sem matriz cultural ou conhecimento que propiciem outra saída, os
pacientes aprendem a conceber sua própria dor ou adoecimento como fato
clínico objetivo, que pode ser submetido a tratamento “estandardizado”.
Cresce, assim, um processo cíclico em que o indivíduo aprende a se ver
como consumidor de anestesias, sintomáticos, quimioterápicos e cirurgias.
(...) No caso da atenção à saúde, a ação especializada, em vez de
promover a autonomia do doente, para que este possa necessitar menos de
novas ações heterônomas e melhor usufruir de ações eventuais ou
necessárias, destrói a autonomia, reivindicando submissão, alimentando a
dependência e a compulsão ao consumo, gerando mais demanda por
atenção heterônoma, comprometendo, por fim, a sua própria efetividade e
eficácia geral.