www.nead.unama.br
3
Velho — Vós sois minha despedida, minha morte antecipada.
Moça — Que galante! Que rosa! Que diamante! Que preciosa perla fina!
Velho — Oh fortuna triunfante! Quem meteu um velho amante com menina! O maior
risco da vida e mais perigoso é amar, que morrer é acabar e amor não tem saída, e
pois penado, ainda que amado, vive qualquer amador; que fará o desamado, e
sendo desesperado de favor?
Moça — Ora, dá-lhe lá favores! Velhice, como te enganas!
Velho — Essas palavras ufanas acendem mais os amores.
Moça — Bom homem, estais às escuras! Não vos vedes como estais?
Velho — Vós me cegais com tristuras, mas vejo as desaventuras que me dais.
Moça — Não vedes que sois já morto e andais contra a natura?
Velho — Oh flor da mor formosura! Quem vos trouxe a este meu horto? Ai de mim!
Porque, logo que vos vi, cegou minha alma, e a vida está tão fora de si que,
partindo-vos daqui, é partida.
Moça —Já perto sois de morrer. Donde nasce esta sandice que, quanto mais na
velhice, amais os velhos viver? E mais querida, quando estais mais de partida, é a
vida que deixais?
Velho — Tanto sois mais homicida, que, quando amo mais a vida, ma tirais. Porque
meu tempo d’agora vai vinte anos dos passados; pois os moços namorados a
mocidade os escora. Mas um velho, em idade de conselho, de menina namorado...
Oh minha alma e meu espelho!
Moça — Oh miolo de coelho mal assado!
Velho — Quanto for mais avisado quem de amor vive penando, terá menos siso
amando, porque é mais namorado. Em conclusão: que amor não quer razão, nem
contrato, nem cautela, nem preito, nem condição, mas penar de coração sem
querela.
Moça — Onde há desses namorados? A terra está livre deles! Olho mau se meteu
neles! Namorados de cruzados, isso si!...
Velho — Senhora, eis-me eu aqui, que não sei senão amar. Oh meu rosto de alfeni!
Que em hora má eu vos vi.
Moça — Que velho tão sem sossego!
Velho — Que garridice me viste?
Moça — Mas dizei, que me sentiste, remelado, meio cego?
Velho — Mas de todo, por mui namorado modo, me tendes, minha senhora, já cego
de todo em todo.
Moça — Bem está, quando tal lodo se namora.
Velho — Quanto mais estais avessa, mais certo vos quero bem.
Moça — O vosso hortelão não vem? Quero-me ir, que estou com pressa.
Velho — Que formosa! Toda a minha horta é vossa.
Moça — Não quero tanta franqueza.
Velho — Não pra me serdes piedosa, porque, quanto mais graciosa, sois crueza.
Cortai tudo, é permitido, senhora, se sois servida. Seja a horta destruída, pois seu
dono é destruído.
Moça — Mana minha! Julgais que sou a daninha? Porque não posso esperar,
colherei alguma coisinha, somente por ir asinha e não tardar.
Velho — Colhei, rosa, dessas rosas! Minhas flores, colhei flores! Quisera que esses
amores foram perlas preciosas e de rubis o caminho por onde is, e a horta de ouro
tal, com lavores mui sutis, pois que Deus fazer-vos quis angelical. Ditoso é o jardim
que está em vosso poder. Podeis, senhora, fazer dele o que fazeis de mim.
Moça — Que folgura! Que pomar e que verdura! Que fonte tão esmerada!