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Quanto mais a cabeça, que é sensível!
Isso é mania!
MARIANA (Levantando-se) – Vê como é difícil
O trabalho da mente, e o quanto custa
Ter um nome no mundo! Enquanto dormes
No teu leito tranqüila, eu velo, eu luto.
A noite para ti traz o repouso,
E se o dia ao trabalho te convida,
Com a paz no coração deixas o leito.
Teu diurno trabalho não te cansa;
Com a paz no coração ao leito voltas.
Mas eu, quando repouso? Ante um espelho,
Estudando paixões, compondo o corpo,
Mil expressões numa hora procurando,
Meus dias passo; – e tu doida me julgas
Quando me vês gritar, lutar, ferir-me,
E às vezes investir-te delirante!
Durante a noite minha fonte escaldo
Junto desta candeia, que me aclara,
Sua negra fumaça respirando,
Ou medindo o salão de um lado a outro
Sempre com o meu papel diante dos olhos
Como um espectro do sepulcro erguido,
Em desalinho, pálida: e cem vezes
Primeiro a luz se apaga, que eu me deite.
Se busco o leito então, oh, que tormento!
Da cabeça inflamada o sono foge;
Nova cena a meus olhos se apresenta.
No teatro me cuido; escuto a orquestra,
Vejo a platéia, e os camarotes cheios,
Ouço os aplausos, bravos que me animam,
E com esta ilusão a vida cobro.
Mas eis que durmo, sonho, e de repente
Ao som da pateada aflita acordo.
É manhã; – e outra vez começa a lida.
Oh vida! Oh ilusão! Oh meu martírio!
LÚCIA – Oh! certamente que me causa pena.
Tanto eu não poderia: antes quisera
Uma esmola pedir de porta em porta,
Do que seguir tal gênero de vida.
E então porque ralar sua existência?!
Para agradar ao povo! e apresentar-se
A rir, ou a chorar, como uma doida!
MARIANA – Que dizes tu? Coitada! o teu discurso
Bem mostra que da glória o amor não sentes.
LÚCIA – Não sinto, e queira o céu que eu nunca o sinta;
Que se da glória o amor é que lhe causa
Tantas inquietações, tantas vigílias,
Desprezo tal amor. Eu de contínuo
Nas minhas orações me recomendo,
Quando me deito, ao grande Santo Antônio,
E ao meu anjo da guarda que me ajudem,
E de vis malefícios me preservem.
Só quero amar a Deus... Diga, senhora,
Porventura Camões amava a glória ?
MARIANA – Oh, se a amava!... E que luso depois dele tanto amou-a?
LÚCIA – Pois bem, sempre foi pobre;
Na miséria viveu, pedindo esmolas,
E morreu no hospital. senhor Antônio