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Clemeson
Clemeson Clemeson
Clemeson
Campos
Campos Campos
Campos
da
dada
da
Cunha
Cunha Cunha
Cunha.
..
.
UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais.
PosLin – Programa de Pós-Graduação em Estudos Lingüísticos.
A QUESTÃO DA NORMA CULTA E O ENSINO
DE LÍNGUA PADRÃO NO CURSO DE LETRAS –
UM ESTUDO DE CASO.
Belo Horizonte (MG)
Faculdade de Letras da UFMG
2008
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Clemeson
Clemeson Clemeson
Clemeson
Campos
Campos Campos
Campos
da
dada
da
Cunha
Cunha Cunha
Cunha.
..
.
A QUESTÃO DA NORMA CULTA E O ENSINO
DE LÍNGUA PADRÃO NO CURSO DE LETRAS
UM ESTUDO DE CASO.
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Estudos Lingüísticos da
Faculdade de Letras da Universidade Federal
de Minas Gerais, como requisito parcial para a
obtenção do título de Mestre em Lingüística.
Área de concentração: Lingüística.
Linha de pesquisa: A Lingüística dos Gêneros
e Tipos Textuais.
Orientador:
Prof. Dr. Luiz Carlos de Assis Rocha.
Belo Horizonte (MG)
Faculdade de Letras da UFMG
2008
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Componentes da Banca Examinadora:
____________________________________________________
Professor Dr. Luiz Carlos de Assis Rocha – UFMG.
Orientador
____________________________________________________
Professora Dra. Maria Beatriz Nascimento Decat – UFMG.
____________________________________________________
Professora Dra. Juliana Alves Assis – PUC-MG.
____________________________________________________
Professor Dr. Rosalvo Pinto – UFMG.
Suplente.
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“A educação é do tamanho da vida!!! Não há começo. Não há fim –
Só há travessia. E se queremos descobrir a verdade da educação, ela
terá de ser descoberta no meio da travessia.”
(Neidson Rodrigues - pedagogo)
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AGRADECIMENTOS:
Primeiramente, agradeço à Deus que me deu o dom da vida, bem como minha preciosa
inteligência tão importante para superar os desafios que se apresentaram nesta jornada;
Agradeço aos meus pais ( Murilo e Lourdes ), que o os protagonistas da minha história, a
eles minhas conquistas;
Agradeço, em especial, ao meu grande amigo, o professor Mauro Lúcio que esteve presente
desde o início desta empreitada, emprestando-me seu tempo, sua paciência e seu
conhecimento... A você dedico esta conquista;
Aos professores do PosLin, construtores de pontes do saber acadêmico, encorajando-me a
construir minhas próprias pontes, à vocês meu carinho e admiração;
Aos meus amigos, obrigado pela força e pelas palavras de incentivo sempre na hora certa;
Um agradecimento, em especial, aos Professores e Graduandos que participaram efetivamente
desta pesquisa e que foram as figuras centrais de nossa investigação;
E, finalmente, agradeço ao Professor Luiz Carlos de Assis Rocha, que, pela confiança em
mim depositada e por sua valiosa orientação, tornou possível a realização deste sonho. Muito
obrigado professor “Rochinha”!!!
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RESUMO:
Neste trabalho, objetivamos descrever e analisar o processo de formação de professores de
Língua Portuguesa na atualidade, tomando como base informações fornecidas por
professores de instituições com licenciatura em Letras e graduandos em processo de
conclusão do curso. Nessa perspectiva, procuramos investigar os aspectos que envolvem o
ensino-aprendizagem de língua materna no curso de Letras, sobretudo a norma culta e a
língua padrão, bem como suas implicações no processo de ensino pós-universitário.
Apresentamos um panorama geral sobre a formação docente, os objetivos pretendidos
neste trabalho e a fundamentação teórica, tendo como base os pressupostos do
interacionismo sócio-discursivo de Bronckart (1999) e as concepções sociocognitivo-
interacionais de Bakhtin (1995). Ao traçar o perfil e o papel do professor de Língua
Portuguesa enquanto mediador nos processos de ensino-aprendizagem, apresentamos a
metodologia utilizada e a análise dos dados. Os resultados da análise empreendida
retomam o escopo do processo de formação docente e comprovam a hipótese de que não
tem sido dada uma efetiva atenção aos aspectos que dizem respeito ao ensino-
aprendizagem da Língua Portuguesa no curso de Letras, sobretudo a língua padrão, fator
que vem interferindo no fazer docente do profissional recém-formado.
Palavras-chave: Lingüística,ngua, Formação docente, Ensino-aprendizagem.
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6
ABSTRACT:
In this paper, we aim to describe and to analyze the Portuguese Language teachers’
formation process, nowadays, taking as base information supplied by teachers of
institutions with degree in Letters course and graduates in process of conclusion of this
course. In this perspective, we investigate the aspects that involve the teaching-learning of
mother language in the Letters course, specially the standard language and standard
grammar, as well as their implications in the teaching process after university. Initially,
we present a general view about the educational formation, and the objectives intended in
this paper. Afterwards, we present the theoretical bases that have as base the
presuppositions of the socio-discursive interaction of Bronckart (1999) and the
sociocognitive-interactional conceptions of Bakhtin (1995). After we trace the teacher’s
profile and the Portuguese Language teacher’s function while mediator in the teaching-
learning processes, we present the used methodology and the analysis of the data. The
results retake the scope of the process of educational formation, proving the hypothesis
that an effective attention has not been given in the aspects that concern the teaching-
learning of the Portuguese Language in the Letter course, specially the standard grammar,
factor that is interfering in the educational construction of the recently-formed
professional.
Key-words: Linguistics, Language, Educational formation, Teaching-learning.
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7
LISTA DE QUADROS E TABELAS:
QUADRO 01............................................................................................................................81
QUADRO 02............................................................................................................................84
QUADRO 03..........................................................................................................................101
QUADRO 04..........................................................................................................................103
TABELA 01............................................................................................................................113
TABELA 02............................................................................................................................115
TABELA 03............................................................................................................................117
TABELA 04............................................................................................................................120
TABELA 05............................................................................................................................123
TABELA 06............................................................................................................................126
TABELA 07............................................................................................................................129
TABELA 08............................................................................................................................133
TABELA 09............................................................................................................................136
TABELA 10............................................................................................................................138
TABELA 11............................................................................................................................143
TABELA 12............................................................................................................................146
TABELA 13............................................................................................................................149
TABELA 14............................................................................................................................151
TABELA 15............................................................................................................................154
TABELA 16............................................................................................................................156
TABELA 17............................................................................................................................159
TABELA 18............................................................................................................................163
TABELA 19............................................................................................................................165
TABELA 20............................................................................................................................173
TABELA 21............................................................................................................................174
TABELA 22............................................................................................................................212
TABELA 23............................................................................................................................212
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8
SUMÁRIO:
INTRODUÇÃO.......................................................................................................................11
CAPÍTULO I: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA.............................................................20
1.1 - Língua, linguagem e interação – O que seria ensinar Língua Portuguesa?......................20
1.2 - A Norma Culta e a Língua Padrão: uma questão terminológica ou ideológica?..............52
1.3 - O curso de Letras no Brasil: uma breve visão histórica e as implicações nos
processos de consolidação do ensino-aprendizagem de língua materna...................................71
CAPÍTULO I I: METODOLOGIA DA PESQUISA........................................................75
2.1 - A natureza da pesquisa.....................................................................................................75
2.2 - A elaboração da pesquisa................................................................................................77
2.3 - Sobre os participantes da pesquisa.................................................................................80
2.3.1 - O professor do curso de Letras.....................................................................................80
2.3.2 - O graduando do curso de Letras....................................................................................83
2.4 - O processo de coleta de dados..........................................................................................85
2.5 - A constituição dos dados...............................................................................................88
2.6 - Procedimentos teórico-metodológicos de análise dos dados............................................89
2.6.1 - Os professores do curso de Letras.................................................................................89
2.6.2 - Os graduandos do curso de Letras.................................................................................92
CAPÍTULO I I I: ANÁLISE DOS DADOS......................................................................111
3.1 - O professor do curso de Letras: quem é esse sujeito?...................................................112
3.1.1 - Algumas considerações após as análises das respostas dos professores.....................141
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3.2 - O graduando do curso de Letras: quem é esse sujeito?.................................................142
3.2.1 - Algumas considerações após as análises das respostas dos graduandos.....................169
3.2.2 - Professor e Graduando: o que converge e o que diverge em seus discursos?.............170
3.3 - O graduando do curso de Letras - “saber ou não saber gramática, eis a questão”.........172
3.4 - O graduando do curso de Letras - “O sujeito que se constrói no texto”.........................178
3.4.1 - Análise quanto aos aspectos conceituais dos textos....................................................179
3.4.1.1 - Adequação ao tema proposto....................................................................................180
3.4.1.2 - Coerência (unidade temática)...................................................................................181
3.4.1.3 - Relação título - texto.................................................................................................186
3.4.1.4 - Continuidade e progressão......................................................................................186
3.4.1.5 - Redundância e articulação......................................................................................187
3.4.1.6 - Apresentação e adequação gráfica........................................................................189
3.4.2 - Análise quanto aos aspectos formais dos textos..........................................................190
3.4.2.1 - Adequação à tipologia textual..................................................................................190
3.4.2.2 - Coesão.......................................................................................................................191
3.4.2.3 - Morfossintaxe...........................................................................................................195
3.4.2.4 - Emprego das classes gramaticais (adequação vocabular).........................................197
3.4.2.5 - Concordância............................................................................................................198
3.4.2.6 - Regência...................................................................................................................201
3.4.2.7 - Emprego da crase......................................................................................................203
3.4.2.8 - Colocação pronominal..............................................................................................204
3.4.2.9 - Paragrafação.............................................................................................................205
3.4.2.10 - Pontuação................................................................................................................206
3.4.2.11 - Ortografia................................................................................................................208
3.4.2.12 - Acentuação.............................................................................................................210
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3.4.3 - Análise conclusiva das produções textuais..............................................................211
CONCLUSÃO.......................................................................................................................214
REFERÊNCIAS....................................................................................................................222
APÊNDICE............................................................................................................................231
ANEXOS................................................................................................................................233
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11
INTRODUÇÃO:
Constata-se de forma geral, na prática dos educadores e dos alunos, a dificuldade que
eles têm de efetivar o processo ensino-aprendizagem por não saberem articular a relação
conteúdo/metodologia. Esse quadro se agrava mais quando se detecta, no conjunto de
educadores, aqueles que ainda não conseguem incorporar que a sua ação pedagógica tem
um papel político e que, portanto, o seu modo de ensinar responde a uma proposta
política de educação e de sociedade.
(VASCONCELOS, 1991, p. 97)
1
Pretendemos analisar neste trabalho a relação, muitas vezes, controversa
existente entre o processo de formação do professor de Língua Portuguesa, a metodologia de
ensino utilizada no período de sua formação universitária e o conjunto de competências que
deveriam fazer parte das matrizes didático-pedagógicas das instituições que formam
profissionais - professores de Língua Portuguesa - que atuarão em uma comunidade
lingüística usuária da língua em diferentes contextos. Nessa perspectiva, pretendemos avaliar
e repensar o processo de ensino de Língua Portuguesa no curso de Letras. Partimos do
pressuposto de que tal processo se reflete na prática docente, uma vez que grande parte dos
graduandos irá exercer o ofício de professor de língua materna.
Não é novidade que o ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa tem sido
visto como objeto de preocupação e estudo de muitos pesquisadores e teóricos das ciências
educacionais e da lingüística na atualidade. No entanto, constatamos que pouca atenção,
preocupação e pesquisa voltadas para a formação do graduando em Letras, sobretudo no que
1
Iolani Vasconcelos discute as relações existentes entre os projetos político-pedagógicos em relação às práticas
reais que se constituem no ambiente escolar. A pesquisadora, ao mesmo tempo, apresenta encaminhamentos
metodológicos, partindo de estudos teóricos e tendo como referência experiências didáticas significativas
observadas no cotidiano escolar.
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12
diz respeito ao conjunto de saberes que o pertinentes para uma atuação docente que
contemple os variados usos da língua de forma competente e, contextualmente, aceitáveis.
Voltando nossa atenção para o ensino de Língua Portuguesa na educação
básica
2
, concluímos que, atualmente, nas escolas, o trabalho com a Língua Portuguesa nada
mais é que o reflexo atualizado de toda polêmica histórico-metodológica que envolve sua
sistematização nos processos de ensino-aprendizagem. Assim, são comuns as dúvidas sobre o
que ensinar, como ensinar, quando ensinar e para quem ensinar. Esse paradigma existente no
processo de ensino de Língua Portuguesa ganha força, quando transpomos a língua para o
universo educacional, dando a ela a roupagem de disciplina escolar. É nesse ponto que o
processo de formação do graduando em Letras torna-se indispensável, porque acreditamos ser
a universidade o lugar onde o graduando terá condições de articular diferentes áreas do
conhecimento lingüístico que apontarão os caminhos para favorecer uma melhor aquisição da
leitura e da escrita, bem como da articulação dessas competências frente às atuais demandas
da sociedade.
Em um contexto educacional envolvendo teoria e prática, o é difícil
imaginar que tem havido uma distância considerável entre o que norteia as propostas
curriculares de muitos cursos de Letras frente às práticas no processo de formação do
graduando. Se por um lado, os avanços das ciências lingüísticas das últimas décadas têm
contribuído para o avanço dos processos de análise e compreensão dos mecanismos de
funcionamento e aquisição da língua, por outro, tais avanços geram disparidades em relação
ao que seria o objeto de trabalho e ensino do professor de Língua Portuguesa que se depara
com alunos que, ingressando no universo escolar, são usuários de uma língua que, a partir
2
Entendida como ensino Fundamental e ensino Médio - Organização escolar baseada nos documentos oficiais
do MEC - Ministério da Educação gerenciada pelo SEB – Secretaria de Educação Básica.
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13
daquele momento torna-se objeto de ensino-aprendizagem. Nesse âmbito, o professor se vê
obrigado a escolher um ou mais caminhos metodológicos que atendam às necessidades
coletivas e individuais dos alunos, bem como às necessidades institucionais e sociais de uma
comunidade em relação aos usos da língua.
A multiplicidade de usos da língua gera, conseqüentemente, um rol de
definições do que seria o conjunto de saberes pertinentes ao professor de Língua Portuguesa
no seu fazer docente. Nesse sentido, encontramos linhas de pensamento que defendem o
ensino de português voltado, ora para a gramática normativa, ora para a construção,
identificação e compreensão de gêneros textuais diversos, ora voltado para a oralidade e para
a escrita, ora voltado para a textualidade e textualização. É nesse cenário multifacetado,
composto por teorias e práticas convergentes e divergentes que se encontra o aluno do curso
de Letras, ou seja, um futuro profissional, muitas vezes, incapaz de consolidar de maneira
satisfatória a estrutura funcional da língua frente às operações básicas que contemplam essa
língua, quando transportada para a esfera do ensino-aprendizagem. Assim, na tentativa de
discutir e aprender Língua Portuguesa no curso de Letras, os graduandos não têm conseguido
reunir um conjunto mínimo de competências capazes de torná-los mediadores de um
aprendizado que realmente favoreça a inserção deles próprios e de outros indivíduos ao
mundo das letras de forma mais eficaz, principalmente no que diz respeito às interações em
diferentes contextos de uso da língua.
Nesse sentido, nossa proposta de trabalho é refletir sobre o conjunto de
doutrinas que envolvem a formação do graduando em Letras a partir dos dados coletados e
reunidos em nossa pesquisa de campo. Partimos do pressuposto de que é na universidade que
o aluno, futuro professor, tecondições de pensar, pesquisar, analisar e avaliar de forma
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14
sistemática, os componentes básicos e essenciais para a aquisição da Língua Portuguesa
enquanto instrumento de ensino, rompendo o mero estudo da gramática normativa, indo além,
ou seja, percebendo que uma língua é constituída por uma gramática e também por elementos
pragmático-discursivos compartilhados socialmente por seus usuários. Em outras palavras,
qualquer idioma tomado como objeto de estudo deve ser visto como um todo complexo, ou
seja, um conjunto arquitetônico organizado, moldado e decodificado não apenas pela
gramática, mas, sobretudo, pelo discurso tanto oral, como escrito, sendo esse todo complexo o
responsável por estabelecer relações de sentido entre os interlocutores envolvidos nas
interações.
Baseados na complexidade que envolve o ensino-aprendizagem de uma
língua, entendemos que conciliar teoria gramatical e prática de uso é sem dúvida o grande
desafio com o qual se depara o futuro professor de Língua Portuguesa, que se apercebe
desse dilema no decorrer de sua formação universitária. Dessa forma, lidar com tal
complexidade se constitui como o primeiro obstáculo a ser superado pelo graduando antes de
assumir efetivamente uma sala de aula. Nessa perspectiva, uma pergunta nos motivou a
realizar a presente pesquisa e foi o eixo norteador para o levantamento de algumas hipóteses
que tentamos comprovar nas discussões, reflexões e posteriores análises de dados. Foi ela:
“As faculdades têm se preocupado em desenvolver competências comunicativas
3
que irão
refletir inevitavelmente na atuação docente dos seus graduandos, futuros professores?”.
Considerando essa pergunta e entendendo que é na faculdade que o
graduando em Letras deve estudar, apreender e consolidar de forma sistematizada e
consciente os aspectos relativos à norma culta e à língua padrão, bem como os aspectos
3
Travaglia (2002, p. 17) conceitua competências comunicativas como a capacidade do usuário da ngua de
empregar adequadamente a língua nas diversas situações de comunicação. A competência comunicativa implica
em competência gramatical, competência lingüística e competência textual.
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15
relativos ao ensino de ngua materna, levantamos as seguintes hipóteses que serão retomadas
na conclusão deste trabalho:
1ª) A instituição formadora, a partir de seu perfil didático-metodológico, influencia de forma
direta a concepção sobre o que é ensinar Português, afetando assim o arcabouço de
conhecimentos construídos e consolidados pelos graduandos sobre os objetos e objetivos de
ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa;
2ª) A formação do professor universitário, ou seja, seu conjunto de “crenças
4
interfere de
forma direta na formação do graduando em Letras e na sua concepção sobre o ensino-
aprendizagem de Língua Portuguesa;
3ª) As controvérsias didático-metodológicas e didático-conceituais sobre as noções de gênero
e tipo textual, bem como sobre quais gêneros deveriam servir de pressuposto para o ensino-
aprendizagem de Língua Portuguesa interferem diretamente na formação do graduando e no
seu trabalho como professor de Língua Portuguesa;
4ª) Os cursos de Letras não enfatizam o ensino e o domínio da língua padrão, bem como a
reflexão sobre as metodologias de ensino-aprendizagem dessa modalidade da língua e, com
isso, afetam diretamente o desempenho acadêmico e profissional do graduando, quando este
assume uma sala de aula para lecionar Língua Portuguesa;
4
Entendido aqui como conjunto de verdades”, ou seja, tudo que diz respeito à formação acadêmica, pesquisas
realizadas e publicações científicas que evidenciam o ponto de vista do professor universitário com relação ao
ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa.
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16
5ª) O graduando do curso de Letras, durante o processo de formação, não adquire nem domina
conceitos mais elaborados sobre as teorias gramaticais, sobretudo as teorias da gramática
normativa;
6ª) O graduando do curso de Letras que é preparado para ministrar aula de Língua Portuguesa,
muitas vezes, não adquire nem domina os conceitos teóricos sobre a língua padrão e sobre as
diversas modalidades lingüísticas e, por conseguinte, o sabe como, quando e para quem
essa língua deve ser ensinada;
7ª) As competências lingüísticas dos graduandos, sobretudo a produção escrita, sofrem
influência direta no processo de formação. Assim, mesmo havendo um enfoque maior no
estudo prescritivo, sobretudo o estudo da gramática normativa, os textos desses graduandos
apresentariam problemas quanto ao emprego efetivo do padrão formal da língua.
Tomando essas hipóteses pautadas em um eixo norteador, cumprimos os
seguintes objetivos na realização da presente pesquisa:
Fazer um estudo sobre o processo de formação do graduando em Letras de três faculdades
do Estado de Minas Gerais – duas particulares e uma pública;
Analisar o perfil de formação proposto nos currículos das faculdades dos graduandos que
servirão de sujeitos na pesquisa a partir dos dados fornecidos pelos professores e graduandos;
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17
Analisar via testes o processo de associação, assimilação e aprendizagem dos graduandos
do curso de Letras, no que diz respeito às teorias gramaticais e às teorias lingüísticas,
principalmente no que concerne à concepção sobre ensino-aprendizagem de Língua
Portuguesa;
Identificar as noções dos professores universitários e dos graduandos sobre gêneros e tipos
textuais e a aplicabilidade das mesmas na universidade, no ensino fundamental e no ensino
médio;
Constatar, a partir desse estudo, se o aluno do curso de Letras conclui a graduação tendo
clareza sobre as noções relativas à variação lingüística, bem como as noções relativas ao
ensino-aprendizagem da norma culta, da língua padrão e das outras modalidades da língua;
Verificar se o graduando do curso de Letras domina as modalidades cultas da ngua,
sobretudo a escrita em língua padrão;
Estabelecer um perfil atualizado do graduando do curso de Letras a partir de sua
concepção sobre o ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa para nativos desse idioma.
Finalmente, estabelecidos os objetivos, organizamos a pesquisa em 06 (seis)
etapas. Na primeira, analisamos os currículos - matrizes curriculares - das instituições que
serviram de locus para a pesquisa. Partimos da premissa de que, a partir dessa análise,
poderíamos estabelecer o perfil de formação profissional e, ao mesmo tempo, reconstruir os
processos de ensino-aprendizagem aos quais os graduandos foram expostos, tendo como meta
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18
a avaliação dos aspectos teóricos e práticos referentes aos fenômenos lingüísticos e didático-
pedagógicos apreendidos pelos graduandos.
Na segunda etapa, os professores universitários responderam a um
questionário com questões referentes à concepção de norma culta, língua padrão, variação
lingüística e ensino de língua materna. Nessa etapa, pretendíamos analisar as respostas e
refletir sobre as noções que tais indivíduos acreditavam ser indispensáveis ao escopo que
compreende a Língua Portuguesa enquanto disciplina escolar.
Na terceira etapa, os graduandos produziram uma redação contemplando uma
temática que envolvia a formação do graduando, o ensino-aprendizagem de Língua
Portuguesa e o papel do professor de língua materna no cenário educacional atual.
Pretendíamos aqui refletir sobre o que os graduandos entendiam por produção de texto,
gêneros textuais, ensino-aprendizagem, bem como aspectos pertinentes a escrita formal.
Na quarta etapa, os graduandos responderam a uma atividade sobre
conhecimentos gramaticais. Pretendíamos, com essa atividade, refletir sobre o nível de
conhecimento gramatical e pragmático-discursivo dos graduandos no período de finalização
do curso de Letras.
Na quinta etapa, os graduandos, assim como os professores universitários,
responderam a um questionário com questões referentes à concepção de norma culta, língua
padrão, variação lingüística e ensino de ngua materna. Pretendíamos analisar as respostas e
refletir sobre as noções que tais indivíduos acreditavam ser indispensáveis ao escopo que
compreende a Língua Portuguesa enquanto disciplina escolar.
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Na sexta e última etapa, analisamos os dados e estabelecemos um perfil
qualitativo do graduando em Letras a partir do paralelo feito entre os dados obtidos nos
questionários destinados aos professores e graduandos e os dados obtidos na produção textual
e nos testes gramaticais respondidos pelos graduandos.
Dessa forma, no decorrer da pesquisa, desenvolveremos algumas idéias e
reflexões sobre o perfil do professor de Língua Portuguesa que vem sendo formado,
respondendo, à luz do referencial teórico adotado e da metodologia escolhida, como tem se
constituído a tarefa de formar professores de língua materna e qual seria a tarefa desse futuro
professor ao chegar à sala de aula para “ensinar” Língua Portuguesa para falantes nativos
dessa língua.
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20
Capítulo I:
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Neste capítulo, pretendemos discutir de forma reflexiva algumas
pressuposições teóricas que fundamentam nossa pesquisa. Entendemos que ao tratar da
concepção de língua, sobretudo no que diz respeito aos processos de ensino-aprendizagem,
encontramos vários caminhos que ora convergem, ora divergem, resultando na ampla e
complexa rede de interpretações sobre o que vem a ser o ensino de Língua Portuguesa como
disciplina escolar. Nessa perspectiva, dissertaremos, nos tópicos a seguir, sobre a concepção
de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa; a concepção de norma lingüística, padrão
lingüístico e a interface entre esses dois conceitos; a concepção de oralidade e de escrita
enquanto saberes escolarizados por gêneros textuais e a concepção dos processos históricos
que culminaram na consolidação do curso de Letras no Brasil.
1.1 – Língua, linguagem e interação –
O que seria ensinar Língua Portuguesa?
Pensar sobre o ensino de Língua Portuguesa atualmente requer reflexões
relativas aos aspectos que envolvem mudanças sociais, culturais, políticas e científicas
ocorridas nas últimas décadas. A presente afirmação nos remete ao fato de que o processo de
formação dos professores de Língua Portuguesa tem sido pensado e considerado a partir
desses aspectos, dando margem a critérios sobre concepção e ensino de língua que divergem,
tanto na prática docente quanto na visão que se tem das necessidades atuais da comunidade
usuária dessa língua. Em outras palavras, no meio acadêmico e nas escolas, as permanentes
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discussões envolvendo questões ligadas à renovação das teorias e metodologias sobre o
ensino de língua materna vêm gerando debates que basicamente se ancoram na tradição do
ensino da gramática normativa frente à valorização de outras modalidades lingüísticas. Nesse
contexto, aqueles que defendem a eliminação do ensino da gramática das aulas de
português por ser totalmente inútil e outros que defendem a gramática, acreditando que sem
ela é impossível aprender a ler e a escrever bem. Em face disso, parece ser fundamental que o
professor considere as diferentes concepções que a gramática assume, porque o tipo de
concepção adotado determinará os objetivos de ensino. Nesse sentido, Travaglia (2005)
afirma que:
Ao desenvolver o ensino de língua materna e trabalhar especificamente com o ensino
de gramática, é conveniente ter sempre em mente que rios tipos de gramática e
que o trabalho com cada um desses tipos pode resultar em trabalhos (atividades)
completamente distintos em sala de aula para o atendimento de objetivos bem diversos.
(TRAVAGLIA, 2005, p.30)
Dessa forma, o autor aponta a gramática normativa como aquela que aborda
os fatos ligados à língua padrão como uma espécie de eixo regulador do uso da língua em
sociedade. Assim, tudo o que está em desacordo com esse padrão é o-gramatical e o que
está de acordo é gramatical. Em seguida, aponta a gramática descritiva como aquela que trata
do registro de uma determinada variedade da língua em uma abordagem sincrônica das
categorias lingüísticas, dos tipos de construção e das condições de uso de qualquer variedade
dessa língua. Segundo Travaglia (2005, p. 32), as gramáticas descritivas recebem nomes
ligados às correntes lingüísticas com as quais são concebidas, ou seja, gramática estrutural,
gerativo-transformacional, estratificacional, funcional, etc. Por último, aponta a gramática
internalizada como aquela que emerge naturalmente do convívio e do amadurecimento da
própria atividade lingüística do indivíduo, que cria hipóteses sobre o que seja a linguagem
com seus princípios e regras a partir do convívio com a língua e da interação por meio dela.
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Travaglia (2005) postula que o usuário da língua precisa saber muito mais do que apenas as
regras de construção frasal ou os processos lingüísticos que constituem os elementos da
fonética, da fonologia, da morfologia e da sintaxe na aquisição da competência comunicativa
5
.
É necessário ter uma concepção de gramática da língua que considere a mesma como um
conjunto de variedades utilizadas por uma sociedade de acordo com a situação de interação
comunicativa na qual o usuário esteja engajado. É nesse contexto que se criam as condições
propícias para o surgimento de uma gramática voltada para o discurso, ou seja, uma gramática
que se ocupe das manifestações lingüísticas produzidas pelos falantes de uma língua em
situações concretas a partir de determinadas condições de produção. Por essa razão, podemos
inferir que o ensino de uma língua deve contemplar, entre outras coisas, aspectos de caráter
gramatical, porém isso não significa que deva se ater ao domínio de nomenclaturas, de regras
descontextualizadas e de exceções. Em contrapartida, tal ensino deve enfatizar as estratégias
que capacitem efetivamente o indivíduo a relacionar, combinar, falar, ler e escrever com
clareza e eficiência, considerando a gramática interna que emerge das experiências de uso da
língua em contextos reais e diversos. Dessa forma, talvez não seja cabível questionar o porquê
de se ensinar uma gramática ou para que, mas, sobretudo, como ensiná-la na escola, entendida
como o local propício para o exercício e a prática da leitura e da escrita em várias
modalidades e, sobretudo em língua padrão. Nessa perspectiva, Prestes (2002) declara que a
discussão sobre o ensino de gramática na escola tem avançado, na medida em que se
questiona o mais se a gramática deve ser ensinada, mas como se deve ensiná-la. Entretanto,
alguns educadores e lingüistas ainda alegam que a gramática normativa na sala de aula é de
pouca utilidade para promover competências comunicativas e, com esse artifício, decidem
excluí-la de seus planejamentos e propostas de ensino. Nesse contexto, há uma forte tendência
5
No arcabouço da competência comunicativa, além dos três tipos de gramáticas derivadas da concepção do
termo exposto pelo autor, o mesmo concebe outros três tipos de gramática cujo critério de proposição está
vinculado à explicitação da estrutura e do mecanismo de funcionamento da língua: a gramática implícita, a
gramática explícita ou teórica e a gramática reflexiva. (cf. TRAVAGLIA, 2005, p. 33)
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ao modelo de ensino centrado na valorização do dialeto do aluno e na leitura e produção de
textos desvinculados do estudo metódico da gramática e da reflexão crítica sobre a
importância do domínio da língua padrão em determinados contextos de uso como se o
domínio do padrão lingüístico fosse sinônimo de domínio de definições, classificações e
terminologias da gramática normativa. Por outro lado, na tentativa de se fazer uma distinção
mais clara entre aquisição de competências discursivas frente ao domínio de regras
gramaticais, como pressuposto para o ensino escolar, encontramos nos PCN Parâmetros
Curriculares Nacionais, a seguinte afirmação:
Tomando-se a linguagem como atividade discursiva, o texto como unidade de ensino e
a noção de gramática como relativa ao conhecimento que o falante tem de sua
linguagem, as atividades curriculares em Língua Portuguesa correspondem,
principalmente, a atividades discursivas: uma prática constante de escuta de textos orais
e leitura de textos escritos e de produção de textos orais e escritos, que devem permitir,
por meio da análise e reflexão sobre os múltiplos aspectos envolvidos, a expansão e
construção de instrumentos que permitam ao aluno, progressivamente, ampliar sua
competência discursiva. Deve-se ter em mente que tal ampliação o pode ficar
reduzida apenas ao trabalho sistemático com a matéria gramatical.
(MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA, 1998, p. 27)
Em face disso, as reflexões sobre os problemas que envolvem a aquisição e o
domínio da língua, em suas várias dimensões, nascem de análises teóricas mais abrangentes
sobre os instrumentos metodológicos que deveriam servir para o ensino-aprendizagem. E é
nesse quadro composto por teorias, orientações e práticas de ensino que o professor se
obrigado a encontrar respostas para perguntas como: É preciso aprender uma ngua que
sabemos?” ou o estudo da gramática é de alguma utilidade ou trata-se apenas de um
componente histórico-cultural imposto pelos planos de ensino tradicionalistas?”
Considerando o exposto até aqui e as indagações feitas, parece interessante
retomar o processo histórico de consolidação da Língua Portuguesa como disciplina escolar,
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mesmo porque, acreditamos que ao refletir sobre esse processo teremos subsídios para
entender o objeto de ensino que se apresenta ao professor de português e, ao mesmo tempo,
poderemos encontrar algumas respostas sobre o dilema chamado “ensino de Língua
Portuguesa”. Assim, voltando a atenção para estudos realizados por Soares (2002),
constatamos que o ensino de Língua Portuguesa no Brasil, final do século XIX, abrangia a
retórica, a poética e a gramática que seguia a tradição do ensino de latim. A escola era restrita
à elite que, por tradição, pressupunha o domínio das modalidades cultas da língua e das
práticas de leitura dos clássicos da literatura. Dessa forma, o objeto de ensino de língua se
constituía a partir do conhecimento da gramática do latim e da análise literária. Porém, em
meados do século XX, mais precisamente no início da década de 50, um novo público, os
filhos da classe operária, começava a ter acesso à educação escolar, obrigando as instituições
destinadas ao ensino repensar os currículos, métodos e diretrizes que atendessem a essa nova
demanda. Nesse momento, a escola se reorganiza e o objeto de ensino de língua se estabelece
na articulação entre gramática tradicional e leitura de textos, como destaca Soares (2002):
É a partir dos anos 1950 que começa a ocorrer uma real modificação no conteúdo da
disciplina português. E isso se dá porque uma progressiva transformação das condições
sociais e culturais e, sobretudo, das possibilidades de acesso à escola vai exigindo a
reformulação das funções e dos objetivos dessa instituição, o que acarreta, entre outras
alterações, mudanças nas disciplinas curriculares. (...) É então que gramática e texto,
estudo sobre a língua e estudo da língua começam a constituir realmente uma disciplina
com um conteúdo articulado: ora é na gramática que se o buscar elementos para a
compreensão e a interpretação do texto, ora é no texto que se vão buscar as estruturas
lingüísticas para a aprendizagem da gramática.
(SOARES, 2001, p.166 - 167, grifos da autora)
Com isso, o ensino de português foi se pautando no estudo da gramática a
partir do texto e, ao mesmo tempo, no estudo do texto com os recursos lingüísticos que a
gramática oferecia. Continuando o processo de consolidação da Língua Portuguesa como
disciplina escolar, em 1971 é sancionada a nova LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação
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(Lei 5692/71), uma reelaboração da primeira versão de 1961. Nesse período, ocorrem
mudanças radicais no ensino de português influenciadas pelo contexto político-ideológico da
época e pela nova clientela que chegava à escola. (cf. SOARES, 2002, p. 169)
6
.
Na mesma trajetória de resgate histórico do ensino de Língua Portuguesa no
Brasil, Britto (1997, p. 127) destaca que, no final da década de 70 e início da década de 80,
começam a surgir críticas ao ensino tradicional de língua. Alguns pesquisadores e educadores
propunham “novas gramáticas”
7
na escola regular. Fazendo uma reflexão sobre a inserção
das novas gramáticas destinadas ao ensino de português, Britto (1997, p. 151) conclui que a
gramática tradicional era inadequada e não fazia uma descrição coerente do português e que
essas “novas gramáticas”, apesar de fazerem uma exposição mais crítica e articulada em
relação à já consagrada gramática tradicional, de um modo geral, defendiam a legitimidade do
português culto falado e escrito como modalidade lingüística a ser ensinada e aprendida na
escola. Por outro lado, Britto (1997, p. 153) afirma que a forte tradição gramatical encontrada
tanto nos materiais destinados ao ensino, quanto na prática docente motivou o fortalecimento
de movimentos que apregoavam o ensino de língua baseado no desenvolvimento de
competências operacionais e reflexivas em contrapartida ao estudo prescritivo da língua.
Nessa perspectiva, destaca os trabalhos de Franchi (1977, 1987) e Geraldi (1984, 1991, 1996)
que partem da reflexão sobre o modo como o sujeito constrói o conhecimento sobre a língua a
partir da interação na construção de sentidos. Assim, afirma que:
6
Soares (2002) postula que, influenciada pela ideologia do governo militar, a língua passa a ser vista como
sinônimo de identidade e desenvolvimento. A denominação da disciplina é alterada de português para
Comunicação e Expressão nas séries iniciais do grau; Comunicação em Língua Portuguesa no final do 1º
grau; e Língua Portuguesa e Literatura Brasileira no grau. Apenas no final da década de 80 a disciplina
recupera a denominação Português.
7
Britto (1997) destaca em seu trabalho como “novas gramáticas” as obras: Estrutura da língua portuguesa de
Joaquim Mattoso Câmara Jr., que propõe uma descrição do português culto falado do Rio de Janeiro; Estruturas
morfossintática do português de José R. Macambira, que propõe uma exposição mais crítica e mais articulada
em relação à gramática tradicional; Análise sintática (teoria geral e descrição do português) de Miriam Lemle,
que propõe uma aproximação entre a lingüística teórica e o ensino escolar da gramática “através da aplicação da
teoria da gramática gerativa de Chomsky à descrição lingüística do português em nível pedagógico” e Para uma
nova gramática do português de Mário Perini, que “se propõe ao mapeamento das funções sintáticas do período
(...) e uma classificação das palavras em função de seu possível comportamento sintático...”
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A força do pensamento de Franchi e Geraldi está no fato de eles não se limitarem a
propor um novo método ou novos procedimentos. Ao contrário, elaboraram suas
propostas para o ensino de português a partir do estabelecimento de uma concepção de
linguagem e de construção de conhecimento bastante diferente da tradicional, centradas
na historicidade do sujeito e da linguagem.
(BRITTO, 1997, p. 154)
Entendendo a linguagem como forma de interação, estudos feitos por Geraldi
(1999) evidenciaram que, no final da década de 80 e início da década de 90, pesquisas ligadas
à sociolingüística, à lingüística textual, à psicolingüística e à lingüística da enunciação
apontavam para uma nova visão sobre a língua e propunham que o ensino contemplasse o
exercício da leitura, da produção textual e da análise lingüística.
Na segunda metade da década de 90, Geraldi (1999) destaca a ocorrência de
uma nova e importante reforma no ensino brasileiro influenciada principalmente pelo
desenvolvimento contínuo das pesquisas lingüísticas que culminou na elaboração dos
Parâmetros Curriculares Nacionais, os PCN. Nesse documento fica explícita a concepção de
linguagem como o resultado de ações discursivas que se realizam em contextos enunciativos
concretos, ao estabelecer que:
Interagir pela linguagem significa realizar uma atividade discursiva: dizer alguma coisa
a alguém, de uma determinada forma, num determinado contexto histórico e em
determinadas circunstâncias de interlocução. Isso significa que as escolhas feitas ao
produzir um discurso não são aleatórias ainda que possam ser inconscientes –, mas
decorrentes das condições em que o discurso é realizado.
(MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA, 1998, p. 20 – 21)
Dessa forma, os procedimentos teóricos, metodológicos e práticos de ensino,
a partir daquele momento, focalizariam a valorização dos usos da língua a partir da oralidade,
da leitura e da escrita, vinculadas ao trabalho com gêneros textuais, na promoção do
aprendizado e conquista da cidadania. Nesse contexto, o ensino-aprendizagem de Língua
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Portuguesa passa a contemplar “o conhecimento lingüístico e discursivo com o qual o sujeito
opera ao participar das práticas sociais mediadas pela linguagem” (PCN, 1998, p. 22). Em
outras palavras, os professores do ensino fundamental e médio incorporariam em seu
cotidiano profissional novas orientações e parâmetros que apontariam para um estudo mais
funcional da língua, centrado na reelaboração dos conteúdos e na exposição do aluno a
determinadas situações orais e escritas de interação comunicativa como base para o ensino de
português frente aos novos anseios sociopolítico-culturais no final do século XX.
Essa breve exposição histórica dos processos de consolidação da Língua
Portuguesa como disciplina escolar revela que, no trabalho docente, a concepção de ensino de
gramática emergiu da cultura e tradição greco-romana e se consolidou a partir do estudo das
línguas modernas, considerando fatores de mudança histórica, política, filosófica, lingüística,
social e econômica. Nesse sentido, os estudos lingüísticos das últimas décadas fortaleceram as
reflexões sobre a complexidade que envolve o funcionamento de uma língua e, ao mesmo
tempo, contribuíram para que fossem repensados seus métodos de ensino-aprendizagem. A
partir dessas reflexões ocorre o abandono da concepção de língua como algo estático e
imutável para uma concepção de linguagem estruturada como fenômeno que se materializa
em contextos de uso, interação e produção de sentido. Assim, na escola e fora dela, a língua
passa a ser entendida como uma atividade social que se origina e se organiza na necessidade
de comunicação entre interlocutores nos diferentes contextos.
É inegável que a consolidação do português como disciplina escolar mudou a
visão sobre a língua e sobre os sujeitos que fazem uso dela, possibilitando reflexões acerca
dos princípios que envolvem o ensino e o aprendizado de uma língua materna. Contudo, é
inegável também que muitos professores se encontram, atualmente, perdidos em suas práticas
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escolares. Esse fato é curioso e merece nossa atenção, porque, se por um lado, os estudos
lingüísticos contribuíram para a reelaboração do português como disciplina escolar, para as
inovações didático-pedagógicas que resultaram nos PCN e para a consolidação de novos
processos de ensino-aprendizagem de língua materna, por outro lado, velhas perguntas
continuam sem resposta e voltam ao plano de discussão como podemos constatar em
Travaglia (2005, p.17), ao indagar que: “ao dar aula de uma língua para falantes nativos dessa
língua é sempre preciso perguntar: ‘Para que se aulas de uma língua para seus falantes?
ou, transferindo para o nosso caso específico, ‘Para que se aulas de Português a falantes
nativos de Português?’ ” (grifos do autor)
Pressupondo os vários objetivos que levam ao ensino de Língua Portuguesa,
os professores, de um modo geral, o conseguem definir em meio às novas propostas de
ensino e à gama de teorias lingüísticas estudadas durante a graduação e mesmo depois dela,
quais seriam as propostas e teorias que contribuiriam efetivamente para um novo ensino de
Língua Portuguesa e mesmo, em que consistiria esse novo ensino de língua. Nesse contexto,
surgem vidas sobre os saberes que deveriam ser ensinados e aqueles que deveriam ser
abandonados ou modificados e também, se a gramática deveria ser estudada ou não na escola.
Atentando para esse fato, Rocha (2002), ao discutir sobre a polêmica envolvendo os saberes a
serem ensinados, sobretudo no que diz respeito ao ensino de língua padrão no ambiente
escolar, afirma que:
Hoje em dia, nos meios universitários, há muitas publicações, palestras, cursos e
congressos a respeito da leitura e da escrita, mas a Universidade tem se omitido ou tem
feito poucas referências ao ensino da gramática e da língua padrão nas escolas. Pode-se
mesmo notar um certo preconceito com relação a esse assunto em alguns meios
universitários. Em conseqüência disso, o que se nota é que, nas escolas, a gramática
“está sendo empurrada com a barriga”. Nem, de um lado, estudos consistentes,
viáveis e convincentes a respeito de sua aplicação efetiva nas aulas de Português, nem,
de outro, encontram-se alternativas funcionais ao ensino da língua materna sem o
auxílio da gramática.
(ROCHA, 2002, p. 21 – 22, grifos do autor)
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Percebemos que, uma vez consolidada a investigação lingüística nos
processos que envolvem o ensino de Língua Portuguesa e definidos os novos parâmetros e
abordagens de ensino dessa língua, o professor tem encontrado em seu fazer docente um
desafio cada vez maior com relação ao seu trabalho na escola, na medida em que, sob a
influência de novas tendências de formação universitária e de ensino-aprendizagem de língua
materna, busca desenvolver com o aluno não a habilidade de compreensão dos discursos e
reflexão sobre os mesmos, mas também a construção consciente de novos conhecimentos.
Nessa perspectiva, Britto (2003), ao refletir sobre os objetivos de ensino do professor de
português, afirma que:
O ensino de língua, inclusive no que diz respeito à reflexão metalingüística e aos
conhecimentos da língua enquanto fenômeno, não se confunde com a apresentação
formal de uma teoria gramatical nem se limita ao nível da frase; e, considerando
equivocada e ideológica a associação entre norma culta e escrita e a existência de uma
modalidade unificadora das variedades faladas do português, não faz sentido insistir
que o objetivo da escola é ensinar o chamado português padrão. O papel da escola deve
ser o de garantir ao aluno o acesso à escrita e aos discursos que se organizam a partir
dela.
(BRITTO, 2003, p.18)
Podemos constatar que, segundo Britto (2003), o papel da escola é garantir
ao aluno a aquisição de competências discursivas necessárias para que ele interaja com o
outro e com o mundo de forma eficiente. Entretanto, partindo do pressuposto de que uma
competência está vinculada aos fatores culturais, intelectuais e de formação de habilidades,
faz-se necessário perguntar: Seria coerente afirmar que a escola não deve ensinar o
“português padrão”? A leitura e a escrita em “português padrão” não fazem parte do
conjunto de discursos que compõe as competências lingüísticas dos usuários de uma língua?
O ensino-aprendizagem do “português padrão” está ancorado exclusivamente ao estudo
sistemático da gramática normativa? E ainda, Expor o aluno ao português padrão é reforçar o
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que Bagno (1999) denomina como “preconceito lingüístico”, ou seja, a ênfase pelo ensino do
“português padrão” frente às outras modalidades e variantes da língua reforça a exclusão
social?
Acreditamos que propor uma renovação do ensino de Língua Portuguesa que
realmente atenda às necessidades individuais e coletivas da sociedade do século XXI não é
uma tarefa fácil, porém refletir sobre as perguntas feitas anteriormente e tentar chegar a uma
resposta baseada em pesquisas, fatos e fenômenos reais que se manifestam no ser e no fazer
social via linguagem e em diferentes contextos de interação discursiva, é de fundamental
importância para que possamos entender qual é o objeto de ensino do novo professor de
língua materna e quais são as melhores estratégias de aprendizagem no fazer docente desse
novo professor, em relação ao contexto atual. Nessa perspectiva, ou seja, refletindo sobre o
objeto de ensino do professor na atualidade, Possenti (1999) discorre sobre o ensino de
português, num âmbito que vai além da simples transmissão de conteúdos prontos, sugerindo
que a escola priorize o ensino da gramática vista de forma mais ampla e contextualizada,
partindo da internalizada, passando pela descritiva e, se necessário, concluindo com a
normativa. Assim, afirma que “o mais importante é que o aluno possa vir a dominar
efetivamente o maior número possível de regras, isto é, que se torne capaz de expressar-se nas
mais diversas circunstâncias, segundo as exigências e convenções dessas circunstâncias.”
(POSSENTI, 1999, p. 83). Dessa forma, segundo o autor, o aluno terá condições de dominar
efetivamente o maior número possível de competências referentes aos usos da língua, sendo
capaz de interagir em diferentes circunstâncias e contextos de produção.
Fazendo um paralelo entre as afirmações de Britto (2003) apontadas
anteriormente e as orientações de Possenti (1999) descritas acima, observamos que, em um
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ponto, ambos são unânimes, ou seja, a escola deve criar condições para que os alunos sejam
competentes nas variedades de uso da língua. Por outro lado, divergem quanto ao ensino do
português padrão na escola.
Diante disso, podemos concluir que o estudo da língua só podeajudar na
formação das competências discursivas do aluno na educação básica, sobretudo na articulação
entre fala, leitura e escrita, se o professor romper com o mero ensino da nomenclatura
gramatical e passar a entender o trabalho com a Língua Portuguesa como uma situação de
constante reflexão, pesquisa e exercício da docência, na promoção das habilidades lingüísticas
do aluno em diferentes situações de interação e contextos de produção. Nesse sentido,
podemos destacar Faraco (2006), que, ao se posicionar com relação ao ensino de língua,
afirma que:
A crítica à gramatiquice e ao normativismo não significa, como pensam alguns
desavisados, o abandono da reflexão gramatical e do ensino da norma padrão. Refletir
sobre a estrutura da língua e sobre seu funcionamento social é atividade auxiliar
indispensável para o domínio da fala e da escrita. E conhecer a norma padrão é parte
integrante do amadurecimento das nossas competências lingüístico-culturais. O lema
aqui deve ser: reflexão gramatical sem gramatiquice e estudo da norma padrão sem
normativismo.
(FARACO, 2006, p.22)
Vale ressaltar que estamos entendendo o termo “normativismo”, empregando
anteriormente, como um sinônimo para o termo “nomenclatura gramatical” e não como um
sinônimo para norma gramatical” ou “regra gramatical”, haja vista, ser o domínio dessa
“norma gramatical” ou “padrão gramatical” uma competência indissociável da reflexão sobre
a gramática de funcionamento da língua, que se materializa no ambiente escolar com a
aprendizagem das regras gramaticais. Dessa forma, a não-funcionalidade do método
tradicional de ensino, em que, normalmente, o professor coloca-se como o único detentor do
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conhecimento, sobretudo do conhecimento acerca da nomenclatura gramatical frente às regras
gramaticais, revela a necessidade da busca por novas perspectivas pedagógicas e
metodológicas para o trabalho em sala de aula. Assim, pensando na língua como um
instrumento de interação humana com efeitos de sentido, compartilhados entre interlocutores
sócio-historicamente posicionados, ressaltamos que o estudo da metalinguagem gramatical
não é o fator que garante a aquisição plena da leitura e da escrita. No entanto, o domínio
progressivo dos aspectos referentes à língua padrão passa a ser um componente fundamental
no desenvolvimento discursivo e intelectual dos indivíduos. Nesse sentido, acreditamos que o
professor de Língua Portuguesa deve estabelecer três diálogos no processo de formação e
desenvolvimento de habilidades discursivas dos alunos em processo de escolarização. As
posturas dialógicas às quais nos referimos, nascem de nossas reflexões ancoradas,
principalmente, nas discussões expostas por Bagno (2002 e 2005), Bechara (1997), Britto
(1997 e 2003), Cunha (1995), Dillinger (1995), Luft (1995), Mattos e Silva (2002), Nunes
(2001), Perini (1997), Possenti (1999), Rocha (2002) e Travaglia (2002). Assim, definimos
como posturas dialógicas, primeiro, um diálogo entre o professor e os processos de pesquisa
lingüística, em seguida, um diálogo entre o professor, a teoria e a prática iniciada no processo
de formação universitária e, por último, um diálogo entre o professor e a comunidade de
ensino em que estiver atuando.
1º) Um diálogo permanente com os estudos ligados à pesquisa lingüística.
Muitos professores confundem domínio da língua padrão com ensino da
nomenclatura gramatical ou domínio da escrita com ensino de aspectos da oralidade, gerando
conflitos de ordem teórica, interpretativa e prática. Essa confusão parece decorrer da
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emergência em dar uma solução imediata aos problemas de ensino da língua, partindo de um
ponto de vista, ou de um modismo, ou de uma teoria lingüística que tenta explicar a
complexidade inerente à compreensão do funcionamento da linguagem humana. Desse
exposto, podemos citar, por exemplo, Bechara (1985 e 1997), Cunha (1995) e Travaglia
(2002) que discutem a importância do ensino-aprendizagem da língua padrão, na educação
básica, considerando os conceitos prescritivo-gramaticais como componentes importantes ao
domínio das modalidades cultas da ngua. Por outro lado, Dillinger (1995), Possenti (1999) e
Rocha (2002) que discutem a importância em se desenvolver as habilidades discursivas do
aluno, na educação básica, sobretudo no que diz respeito ao ensino-aprendizagem da língua
padrão, de forma desvinculada às práticas prescritivo-gramaticais, ou seja, dando ênfase ao
estudo da nomenclatura em detrimento ao estudo normativo. E por último, Bagno (1999, 2000
e 2001), Britto (1997, 2003), Luft (2005), Perini (1989, 1997) e Scherre (2005) que discutem
as questões de ensino-aprendizagem em um eixo norteador que vê o português no Brasil como
um fenômeno diglóssico em que se confrontam as variantes do português falado e escrito em
contrapartida ao que prescrevem as gramáticas normativas e a primazia escolar pelo ensino
das modalidades cultas. Nesse sentido, acreditamos que o professor, ao estabelecer um
diálogo consciente, pressupondo posicionamentos distintos e válidos dentro do contexto
argumentativo onde são construídos, poderá refletir sobre a materialidade e os objetivos da
disciplina Língua Portuguesa, considerando as diferentes situações de uso da ngua, bem
como as diferentes formas de se abordar esses usos em sala de aula.
As necessidades atuais da sociedade exigem do professor uma reformulação
do conceito do que seria ensinar Língua Portuguesa. Parece uma afirmação óbvia e por grande
parte consensual, porém associar diferentes situações de uso da língua em abordagens
escolares pressupõe entender a Língua Portuguesa em sua plenitude e múltiplas manifestações
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lingüísticas, idéias que, muitas vezes, entram em conflito na prática docente. Não basta que o
professor saiba que toda variedade de uso da língua é válida e eficiente dentro do seu contexto
de produção. É preciso que a variedade faça parte das discussões sobre o ensino de ngua na
sala de aula. Isso não significa transformar a aula de Língua Portuguesa em aula de
lingüística, em um sentido mais específico do termo, mas sim, desenvolver com o aluno
habilidades comunicativas a partir de exemplos reais tanto em língua padrão quanto em língua
“não-padrão”. Bechara (1997), por exemplo, discute a educação lingüística frente à educação
tradicional. Assim, afirma que a primeira requer uma reforma do currículo clássico,
justamente por trabalhar não mais a ngua, mas a linguagem. Para o autor é um procedimento
que requer uma atividade consciente de análise e classificação a partir de procedimentos
teórico-metodológicos e não uma mera descrição dos atos de comunicação entre as pessoas
fora de contextos discursivos. Dessa forma, afirma que:
Na escola antiga, o professor cometia o erro de entender como língua aquela
modalidade culta - literária ou não - refletida no código escrito ou na prática oral que
lhe seguia o modelo, de todo repudiando aquele saber lingüístico aprendido em casa,
intuitivamente (...) Hoje, por um exagero de interpretação de “liberdade” e por um
equívoco em supor que uma língua ou uma modalidade é “imposta” ao homem, chega-
se ao abuso inverso de repudiar qualquer outra língua funcional, que não seja aquela
coloquial, de uso espontâneo na comunicação cotidiana. Em ambas as atitudes há
realmente opressão, na medida em que não se ao falante a liberdade de escolher,
para cada ocasião do intercâmbio social, a modalidade que melhor sirva à mensagem,
ao seu discurso.
(BECHARA, 1997, p. 14)
Nesse sentido, para que uma reforma dos currículos aconteça de verdade o
dependerá apenas dos alunos, dos professores ou de equipes pedagógicas, mas também de
uma política educacional mais abrangente que realmente resgate nas escolas os hábitos de
leitura e escrita reflexivas desde as séries iniciais. Acreditamos que uma política educacional
eficaz deve pautar-se pelo desenvolvimento de estratégias que levem o professor a
desenvolver de forma clara e consciente as capacidades dos alunos de articular, inferir, opinar
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35
e persuadir acerca de seu próprio conhecimento sobre a língua frente aos novos
conhecimentos e competências lingüísticas a serem desenvolvidas no ambiente escolar. Para
tanto, as metodologias de ensino devem ser revistas à luz das discussões e reflexões trazidas
pelos estudos lingüísticos, isso porque, uma emergência em se abandonar o ensino vazio
no que se refere à aquisição de habilidades, por um ensino que priorize o aluno como usuário
permanente da língua, capaz de fazer abstrações e escolhas a partir de experiências de
oralidade, leitura e escrita dentro e fora da escola. O que afirmamos aqui não é novidade e
pode ser encontrado no texto dos PCN Parâmetros Curriculares Nacionais, que assim
postula:
O estudo gramatical aparece nos planos curriculares de Português, desde as séries
iniciais, sem que os alunos até as séries finais do Ensino Médio, dominem a
nomenclatura. Estaria a falha nos alunos? Se que a gramática que se ensina faz
sentido para aqueles que sabem gramática porque são falantes nativos? A confusão
entre norma e gramaticalidade é o grande problema da gramática ensinada pela escola.
O que deveria ser um exercício para o falar/escrever/ler melhor se transforma em uma
camisa de força incompreensível.
(MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA, 1999, p. 137)
A presente afirmação nos remete a uma concepção de ensino-aprendizagem
de língua que contempla o desenvolvimento de competências lingüísticas nos usos em
sociedade. Porém, distanciando-se do que propõe o trecho dos PCN supracitado, observamos,
nas escolas, a presença maciça da gramática normativa como única fonte formadora de
competências. Nesse contexto, a ditadura imposta pela gramática normativa vai limitando a
capacidade do aluno e mesmo do professor de refletir com criticidade sobre os aspectos
contextuais e variacionais inerentes à língua. Impera aí, uma atitude prescritivista dependente
da gramática de perfil tradicional. Essa atitude acaba incorrendo no que Bagno (2001),
denomina como “preconceito” contra as variações e as mudanças que vão ocorrendo na
língua. Assim, o autor afirma:
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36
O ensino da língua ainda é feito com base em dogmas, preceitos e regras que nada têm
de científicos e esse é o seu maior defeito. Fomos habituados a aprender e a ensinar
português como se a língua fosse uma coisa imóvel, pronta, acabada, estática, sem
nenhuma possibilidade de mudança, variação, transformação. Essa é a atitude dos
gramáticos tradicionalistas, exatamente oposta à dos lingüistas, que são os cientistas da
linguagem.
(BAGNO, 2001, p. 65)
A presente afirmação de Bagno (2001) vem confirmar que a acirrada batalha
que se estabelece entre teóricos e lingüistas frente à gramática e aos gramáticos reforça a idéia
de que o ensino de português na escola ainda é um “dogma” e que, como indagamos
anteriormente, o ensino da língua padrão torna-se sinônimo de ensino de gramática normativa
e mais, que o domínio da língua padrão reforça a exclusão e o preconceito social. Em meio ao
processo conflituoso que se encontra o ensino de Língua Portuguesa, parece-nos interessante
citar Travaglia (2002, p. 19) ao postular que há três tipos básicos de ensino de língua, ou seja,
o ensino prescritivo, que consiste na substituição de formas “incorretas” por padrões
considerados “corretos”; o descritivo, que é a exposição de como a linguagem funciona em
uma dada situação de uso; e o produtivo, que consiste na introdução gradativa de novas
habilidades lingüísticas de modo a entender de forma mais eficiente os usos que fazemos da
língua. Segundo o autor, esses três tipos de ensino se inter-relacionam nos processos de
aquisição das habilidades lingüísticas. No entanto, o que percebemos é que tem acontecendo
nas escolas a supervalorização do tipo prescritivo enquanto seria mais coerente privilegiar o
tipo produtivo, compreendendo também o estudo da língua padrão, isto, se considerarmos que
a função da escola é formar indivíduos competentes e críticos, bem como produtores e
multiplicadores de seus próprios saberes. Nesse caminho, Perini (1997) expõe que um
desacordo no ensino gramatical e que, além disso, existe uma “incoerência” e um
“autoritarismo” no processo de ensino-aprendizagem de ngua materna. Essas idéias também
são expostas por Bagno (1999, p. 09) e defendidas por ele ao afirmar que “temos de fazer um
grande esforço para não incorrer no erro milenar dos gramáticos tradicionalistas de estudar a
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37
língua como uma coisa morta, sem levar em consideração as pessoas vivas que a falam.”
(grifos do autor).
É no universo que compreende a reflexão sobre os fenômenos da língua, a
análise de sua estrutura de funcionamento e o estudo e domínio de regras que prescrevem
determinados usos em determinados contextos, que encontramos em Rocha (2002) uma
proposta próxima daquilo que Travaglia (2002, p. 19) sustenta como “ensino produtivo”.
Assim, Rocha (2002, p.18) afirma que “... o objetivo primordial da escola é ensinar língua
padrão, sem se esquecer, contudo, de outras manifestações da linguagem”. A proposta de
Rocha (2002) baseia-se no ensino da ngua em contextos de uso sem desprezar a importância
fundamental da escola que é expor os alunos à língua padrão. A coerência dessa proposta es
na pressuposição de que a escola é o lugar propício para o exercício de reflexão sobre as
variações da língua em diferentes contextos e situações de uso e também, é o lugar onde
condições ideais para o exercício de aprendizado e uso da língua padrão e da norma culta
8
.
Acreditamos que para a efetivação do ensino de Língua Portuguesa, em primeiro lugar, o
professor deve ter claro o que irá ensinar e como irá ensinar. Definidas as estratégias de
ensino, o trabalho em sala de aula deve contemplar o habilidades de compreensão de
discursos ou reflexão sobre os processos, mas a exposição dos alunos a situações sócio-
comunicativas (orais e escritas) que realmente se manifestam no mundo real em diferentes
instâncias de interação verbal, inclusive na modalidade padrão. Tais pressuposições ganham
reforço nos dizeres de Prestes (1996, p.52), ao afirmar que: É preciso atentar para que esse
ensino mais sistematizado da gramática seja visto em uso e para o uso, constatando-se sua
funcionalidade e procurando-se inseri-lo em situações reais ou que se aproximem o máximo
8
Língua padrão, português padrão e norma culta são termos usados por Bagno, (2002); Cunha, (1985);
Possenti, (1999) e Rocha, (2002) para designar basicamente a modalidade escrita e/ou, em alguns casos, a
modalidade oral da língua em consonância com as regras normativo-gramaticais. Vale ressaltar que
retomaremos os termos norma culta” e “língua padrão” em um outro tópico deste trabalho com o objetivo de
melhor conceituar tais modalidades da língua.
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38
possível dessa realidade.” Dessa forma, após confrontar as idéias e posicionamentos de
alguns estudiosos da língua que focalizam seus trabalhos no ensino, concluímos que o fazer
docente, na educação básica, deve contemplar aspectos ligados às várias modalidades de uso
da língua, porém, atentando para o ensino da língua padrão de forma permanentemente
vinculada à reflexão lingüística dos fatos ligados ao ensino-aprendizagem. Em outras
palavras, o professor reflexivo é aquele que desenvolve estratégias de ensino, pautadas no
diálogo crítico frente às discussões no campo da investigação lingüística de forma que permita
ao aluno assimilar, dominar e usar, além das modalidades informais, também as modalidades
ditas formais e cultas da ngua, considerando os atos de interação, os interlocutores
envolvidos e o contexto de produção discursiva, entendendo que qualquer variação da língua
presta seu valor e sua função enquanto veículo de comunicação. Vale ressaltar que o
defendemos o ensino-aprendizagem inútil de nomenclaturas ligadas aos modelos gramaticais
normativistas. Pelo contrário, faz-se necessário um ensino crítico e reflexivo que ênfase ao
aprendizado e ao domínio das regras pertinentes à língua padrão, baseando o trabalho na
leitura e na escrita constante de textos nessa modalidade. Nessa perspectiva, apontamos
Possenti (1999, p. 86), que defende a idéia de que “ensinar gramática é ensinar a língua em
todas as suas variedades de usos, e ensinar regras é ensinar o domínio do uso.” Assim, a
escola deve abrir espaço para as manifestações lingüísticas, confrontando tais manifestações
com os contextos de uso, compreendendo a língua como um todo complexo e o como um
recorte linear de uma parte da realidade. Dessa forma, considerando que o ensino de Língua
Portuguesa deve extrapolar o estudo metódico da gramática normativa e que deve contemplar
de forma metodologicamente produtiva e contextualizada o ensino-aprendizagem da língua
padrão no processo de desenvolvimento das diversas habilidades e competências lingüísticas
do aluno, retomamos Rocha (2002) na conclusão deste tópico ao expor que:
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Quando afirmamos que é necessário GARANTIR ao aluno o donio da língua padrão,
estamos querendo dizer que isso significa “letrar” o aluno, ou seja, “orientar a criança
para que aprenda a ler e escrever levando-a a conviver com práticas reais de leitura e
escrita: substituindo as tradicionais cartilhas por livros, por revistas, por jornais, enfim,
pelo material de leitura que circula na escola e na sociedade.”
(ROCHA, 2002, p.271, grifos do autor)
2º) Um diálogo entre teoria e prática no processo de formação universitária e depois dele
Na proposta de apontar pressupostos que devem nortear o ensino de Língua
Portuguesa de forma eficiente, adotamos como segundo passo a necessidade do professor em
estabelecer um diálogo crítico sobre as teorias estudadas na universidade frente ao seu fazer
docente. Tal necessidade encontra embasamento na medida em que o conhecimento se
renova, sistematizando velhas teorias em novas propostas de trabalho. Nessa perspectiva,
tomando o discurso como o espelho que reflete as mudanças sociodiscursivo-interacionais,
Bakhtin (1995), afirma que:
As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama
a todas as relações sociais em todos os domínios. É, portanto claro que a palavra será
sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais, mesmo daquelas
que apenas despontam, que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram caminho
para sistemas ideológicos estruturados e bem formados. A palavra constitui o meio no
qual se produzem lentas acumulações quantitativas de mudanças que ainda não tiveram
tempo de adquirir uma nova qualidade ideológica, que ainda não tiveram tempo de
engendrar uma forma ideológica nova e acabada. A palavra é capaz de registrar as fases
transitórias mais íntimas, mais efêmeras das mudanças sociais.
(BAKHTIN, 1995, p. 41)
Assim, no contexto educacional, sobretudo no ensino de Língua Portuguesa,
são constantes as novas formas de “palavras” (BAKHTIN, 1995, p. 41), ou seja, novas
maneiras de pensar e fazer uso da língua em seu processo evolutivo de interação e de
funcionamento. Cada nova geração, bem como, cada grupo social vai construindo repertórios
de discursos que, alicerçados na gramática estrutural da língua, vão se explicitando, se
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confrontando e se adequando no processo contínuo do fazer e refazer a identidade discursiva
individual e coletiva. Dessa forma, o graduando se depara com verdades diversas,
historicamente apresentadas no curso de Letras, visando associá-las à realidade e à práxis
pedagógica no seu campo de atuação. Em outras palavras, no processo de renovação constante
das ideologias e dos procedimentos sobre o ensino da língua, o novo professor deve se
posicionar de forma coerente tanto no campo teórico, como no campo didático-pedagógico ao
se propor a ensinar uma língua para usuários nativos dessa língua.
Se no passado a formação dos professores se dava no nível básico, o
chamado “magistério”, atualmente, novas regras e mudanças sociais exigem dos graduandos,
futuros professores, a necessidade de se qualificar acadêmico-profissionalmente para com
isso, refletir sobre sua prática, estabelecendo novos objetivos e articulando novas estratégias
que contemplem o ensino da língua, pautado em teorias sólidas, sem desconsiderar as
especificidades inerentes à sala de aula e ao mundo a sua volta. Em face disso e partindo da
premissa de que o ensino de português não deve estar dissociado de situações reais de uso da
língua, idéias discutidas anteriormente, sustentamos a hipótese de que, no processo de
formação do graduando e depois dele, quando este estiver atuando como professor, haja a
necessidade de desenvolver uma permanente conduta reflexiva sobre o caráter histórico-
evolutivo da língua, pois dessa forma, o novo professor poderá estabelecer, conscientemente,
que português ensinar, quando ensinar, como ensinar e para quem ensinar. Nesse sentindo,
Faraco (2003) amplia nossa hipótese ao afirmar que:
O desafio maior está, portanto, na reconstrução do nosso imaginário sobre a língua,
promovendo, nessa área, um reencontro do país consigo mesmo. Nesse sentido, deverá
estar na pauta, por exemplo, a superação crítica do fosso lingüístico que o século XIX
criou artificial e arbitrariamente entre nós como parte de um anacrônico projeto de
sociedade apenas branca e europeizada. Em outras palavras, a questão da língua terá de
ser percebida também em sua dimensão histórica.
(FARACO, 2003, p.11)
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Desse modo, acreditamos que a reconstrução da concepção sobre a língua e
sobre a linguagem em suas dimensões histórico-discursivas aponta para uma nova e complexa
forma de ensino e de aprendizagem. Emergirá daí o novo professor que irá basear o
conhecimento e a reelaboração desse conhecimento na prática da atividade educativa. Nessa
perspectiva, Schön (1992), destaca, em seu trabalho, que a característica fundamental do ato
de ensinar é a capacidade que o profissional tem de reelaborar teorias e conhecimentos a partir
da própria prática. Assim, é a partir da prática que o professor conduz à criação de um
conhecimento específico que, ligado à ação, conduzirá, conseqüentemente, ao processo de
aquisição e domínio de habilidades discursivas do aluno. Porém, ressaltamos que o
graduando, ao se deparar com as teorias lingüísticas clássicas e modernas que contemplam os
currículos universitários, deve, primeiramente, se posicionar criticamente frente aos processos
de escolhas epistemológicas, pedagógicas e instrumentais. Em seguida, deve perguntar para si
mesmo que professor deseja ser, quem será seu interlocutor no processo de ensino-
aprendizagem e quais habilidades deverá desenvolver ao ensinar. Nesse sentido, atentando
para o caráter reflexivo do professor, Shön (apud. NÓVOA, 1992, p.13) afirma que:
Os bons profissionais utilizam um conjunto de processos que não dependem da lógica,
mas, sim, das manifestações de talento, sagacidade, intuição, sensibilidade artística
(grifos nossos). Contribui com o conceito de Professor Reflexivo, caracterizando-o
como aquele que ainda se surpreende com o aluno e o acolhe em suas dificuldades.
(SHÖN, 1992, p. 13)
Certamente as respostas às indagações feitas anteriormente e outras que vão
se estabelecendo com o avanço das ciências lingüísticas, virão à tona no processo de
materialização do trabalho em sala de aula, ou seja, o graduando encontrará novas respostas
para velhas perguntas e novas perguntas para velhas respostas, na medida em que refletir
sobre a formação acadêmica que teve frente às necessidades reais da demanda que procura a
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42
escola. Isto porque, muitas vezes, o recém-formado, ao se deparar com o mercado de trabalho,
não sabe qual caminho seguir, ou seja, falta a ele ora um embasamento teórico sólido, ora um
suporte material e pedagógico, ora um conhecimento prático de procedimentos metodológicos
para propor desafios e operar mudanças. Nesse contexto, recém-formados e mesmo
professores mais experientes que reconhecem as fragilidades do ensino de português e, a
partir desse reconhecimento, sustentam seu fazer docente em práticas estritamente prescritivo-
gramaticais. Em contrapartida, muitas vezes, na tentativa de mudança, no que diz respeito aos
processos didático-pedagógicos de ensino, esbarram ou nas imposições dos programas
escolares e metodológicos adotados pelas instituições de ensino, ou nas justificativas dadas
pelos pais e pela sociedade a favor do ensino tradicional, ou na insegurança em definir o que
ensinar e como ensinar no lugar da gramática normativa, ou, por último, esbarram na junção
desses e de outros fatores internos e externos ao ambiente escolar. Dessa forma, acreditamos
que o bom professor será aquele que, definindo a sua metodologia de ensino, conceberá a
linguagem como eixo norteador composto por teoria e prática, passando a entender essa
linguagem como “expressão do pensamento”, “instrumento de comunicação” e “forma ou
processo de interação”. (cf. MATÊNCIO, 1994; GERALDI, 1997; TRAVAGLIA, 2002).
Para finalizar este tópico, podemos afirmar que os avanços das ciências da
linguagem
9
apontam novos paradigmas para o graduando do curso de Letras no que concerne
ao exercício da docência e da pesquisa. A visão sobre a linguagem avança a fronteira da frase
para o texto, do discurso para a enunciação e da relação locutor / interlocutor para a interação
via contexto de produção. Nessa perspectiva, o estudo da língua rompe a fronteira das
9
Dentro do campo da Lingüística das últimas décadas, podemos destacar teóricos e pesquisadores que m
contribuindo para os avanços das ciências da linguagem no que se refere aos processos de análise e
compreensão dos fenômenos ligados aos mecanismos de funcionamento e aquisição das línguas: Chomsky, N.
(1968); Beaugrande, R. A. (1980); Brown, G. & Yule, G. (1983); Brown, P. & Levinson, S. C. (1987); Bakhtin, M.
(1990); Givón, T. (1993); Vygotsky, L. S. (1993); Bronckart, J. P. (1999); e Marcuschi, L. A. (2000).
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relações entre os signos lingüísticos e seus respectivos significados, ampliando-se a visão
gramatical e semântica, na busca pela compreensão das inter-relações pragmáticas inerentes
ao discurso oral e escrito. Simultaneamente, esses paradigmas também sinalizam para uma
formação acadêmica e uma atuação docente pautadas na ação reflexiva, no diálogo entre
teoria e prática, na manutenção do ensino e da aprendizagem, na autonomia, na visão micro e
macro da realidade e na construção de competências para articular os saberes que vão sendo
adquiridos aos novos saberes que vão sendo ensinados na escola. Entretanto, essa ampliação
de perspectiva, que busca materializar a compreensão da natureza e do funcionamento da
linguagem, ainda não teve suas aplicações e efeitos na reestruturação dos cursos de Letras e,
conseqüentemente, no ensino de Língua Portuguesa que é praticado na educação básica.
Assim, ainda é inegável que tem havido um distanciamento entre o universo da formação
universitária e o universo que compreende as necessidades reais das comunidades de ensino,
na medida em que não são sólidos os pilares que sustentam a teoria e a prática ligadas ao
conhecimento lingüístico e ao conhecimento gramatical, semântico e pragmático, no processo
de formação de competências dos graduandos. Nessa perspectiva, Perrenoud (1999, p. 31)
sintetiza o disposto anteriormente, ao afirmar que:
Na escola os alunos aprendem formas de conjugação, fatos históricos ou geográficos,
regras gramaticais, leis físicas, processos, algoritmos para, por exemplo, efetuar uma
divisão por escrito ou resolver uma equação de 2º grau. Mesmo de posse desses
conhecimentos, eles saberão em que circunstâncias e em que momento aplicá-los? É na
possibilidade de relacionar, pertinentemente, os conhecimentos prévios e os problemas
que se reconhece uma competência.
(PERRENOUD, 1999, p.31)
Assim, o professor que conseguir estabelecer uma relação de diálogo efetivo
entre teoria, prática e aplicabilidade em sala de aula, possibilitará ao aluno adquirir
competências para produzir seu próprio conhecimento lingüístico de forma consciente,
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44
estruturada e crítica, tornando esse aluno capaz de, dentro de unidades enunciativas,
estabelecer relações de sentido ao interagir com o outro e com o mundo a sua volta.
3º) Um diálogo entre o professor, o conhecimento e a comunidade de ensino.
Por último, e a nosso ver a postura que culmina o conjunto de pressupostos
dialógicos ligados a um ensino de português sistematizado e, progressivamente, eficiente nos
aspectos da fala, da escrita e da articulação entre essas competências, diz respeito ao diálogo
entre o professor, o conhecimento e a comunidade de ensino. Nessa perspectiva, o professor
de Língua Portuguesa deve ser aquele profissional que exerce a função de mediador no
processo de ensino-aprendizagem, contemplando os discursos que são construídos, aprendidos
e usados na escola, em contrapartida aos discursos que são construídos, apreendidos e usados
pelos falantes da língua em outras situações e contextos de interação decorrentes de
experiências fora do ambiente escolar. Em um contexto mais amplo, Nunes (2001), ao discutir
sobre os saberes docentes e a formação dos professores, reconhece que pensar em um modelo
de professor que concilie o ser docente com o fazer docente na promoção do conhecimento,
demanda uma observação crítica das condições históricas, sociais, institucionais e
instrumentais inerentes ao exercício profissional. Assim, afirma que:
A capacidade para atuar como mediador e conhecedor da realidade de seus alunos em
todas as dimensões (pessoal, social, familiar e escolar) é de fundamental importância
para que, de algum modo ele (o professor) ofereça possibilidades permanentes de
diálogo, sabendo ouvir, sendo empático e mantendo uma atitude de cooperação que
possa oferecer experiências de melhoria de qualidade de vida, de participação, de
tomada de consciência e de elaboração dos próprios projetos de vida. (...) Dessa forma,
resgata-se a importância de se considerar o professor em sua própria formação, num
processo de autoformação, de reelaboração dos saberes iniciais em confronto com a
prática vivenciada. Assim seus saberes vão se constituindo a partir de uma reflexão na e
sobre a prática. Essa tendência reflexiva vem-se apresentando como um novo
paradigma na formação de professores, sedimentando uma política de desenvolvimento
pessoal e profissional dos professores e das instituições escolares.
(NUNES, 2001, p. 30, grifos nossos)
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45
A partir desse disposto, podemos afirmar que os processos que compreendem
o ensino de língua materna, considerados aqui em contextos mais amplos, estão intimamente
ligados ao conjunto de experiências sócio-cognitivas, socioculturais e sócio-interacionais
adquiridas pelos usuários da língua, incluindo-se o professor e o aluno, em várias situações
do cotidiano escolar e também não-escolar. Assim, o professor de português deve fomentar
uma concepção de língua e de ensino que considere as representações do mundo pela
linguagem como um todo complexo, tomado em esferas individuais e coletivas de uso, bem
como em situações de oralidade e de escrita que podem ser formais ou informais, dependendo
dos propósitos motivadores. Desse modo, o professor de língua materna estabelecerá, na inter-
relação entre conhecimento a ser ensinado e conhecimento a ser aprendido, as necessidades e
os espaços existentes na individualidade discursiva, ou seja, o modo lingüístico com o qual
cada aluno ou cada indivíduo faz uso na interação e na construção de sentidos, frente às
necessidades e os espaços que constituem a coletividade lingüístico-discursiva.
O diálogo de caráter reflexivo que propomos entre o professor, seus
conhecimentos lingüísticos e a comunidade de ensino onde irá atuar, toma como princípio
motivador os equívocos que vêm ocorrendo nas últimas cadas no que diz respeito à função
da escola e à função da aula de Língua Portuguesa. Nesse caminho, não é difícil constatar que,
permanentemente, no meio acadêmico e mesmo fora dele, um conjunto de crenças sobre
aquisição, domínio, ensino e aprendizado de língua materna entra em conflito ora com os
conhecimentos empiricamente consagrados em instâncias pragmático-discursivas, ora com os
conhecimentos advindos das pesquisas lingüísticas em instâncias científico-investigativas, ora
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46
com os conhecimentos que nascem das convenções discursivas em instâncias sócio-
interacionais, como discutido neste trabalho. O resultado imediato do impasse que se
estabelece entre o conjunto de crenças frente ao conjunto de conhecimentos que deveria
compor o objeto de ensino de língua materna resulta na dificuldade de se efetivar na escola
uma articulação entre conteúdos, metodologias e habilidades que deveriam ser desenvolvidas
na sala de aula. Considerando a presente afirmação, podemos destacar, no trabalho de Rocha
(2002), a reflexão sobre qual português ensinar, após expor o “Princípio nº. 1”
10
que concerne
na distinção entre “educadores” e “professores”, afirmando que:
Um dos principais problemas do ensino de Português está relacionado com a
indefinição de objetivos dessa disciplina no curso fundamental. Como conseqüência
disso, as aulas de Português apresentam uma multiplicidade de tarefas, nas quais,
muitas vezes, é difícil encontrar uma organicidade que justifique a sua aplicação. Não
que o ensino de Português deva se reduzir a umas poucas tarefas ou se basear
exclusivamente em uma modalidade específica de língua (como a língua padrão, por
exemplo!) Não, longe disso! O que propomos é que as inúmeras atividades obedeçam
aos princípios teleológicos e demonstrem organicidade, sistematização e eficiência em
sua aplicação. (ROCHA, 2002, p. 29, grifos do autor)
A preocupação com o papel do professor de Língua Portuguesa e a forma
como o ensino vem sendo feito nas escolas se mostra cada vez mais presente no campo da
pesquisa lingüística. Assim, o discurso sobre o ensino das normas gramaticais vem ganhando
um caráter não científico-investigativo, mas também político, social e cultural. Ao mesmo
tempo, surgem discussões sobre diferentes tipos e concepções de ensino de gramática, como
discutimos em outro tópico. Entretanto, em um ponto parece haver um consenso, ou seja,
aprender uma língua em todas as suas dimensões o significa estritamente aprender
10
Rocha (2002) postula como base de seu trabalho denominado “projeto GNM Gramática: Nunca Mais”, o
ensino da língua materna no curso fundamental, prevendo também a ampliação para o curso médio baseado nos
seguintes princípios fundamentais: a) garantir ao aluno a liberdade de expressão lingüística; b) garantir ao aluno
o domínio da língua padrão. (cf. ROCHA, 2002, p. 23). O autor aponta 24 princípios que justificam a proposta de
seu método de ensino-aprendizagem de língua padrão. (cf. ROCHA, 2002)
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47
terminologias técnicas, análises sistêmicas e grupos de exceções, assunto também
discutido. Então, por que retomar tais discussões e reflexões neste tópico? A resposta pode ser
resumida na charge abaixo que ilustra o papel, muitas vezes contraditório, existente entre o
professor e suas crenças sobre ensino e aprendizagem de língua materna perante à
comunidade de ensino, ou seja, o aluno com suas crenças e conjunto de valores sobre essa
mesma língua.
(“Gregório” - Revista do Professor, ano XXI, 2005)
11
“Professor, porque que a gente tem que estudar português se a gente fala
português? Pra não dizer bobagens que nem essa! ...se é pra ficar quieto eu fico quieto
em qualquer língua!”. Observamos que o diálogo que se estabelece entre o professor de
português e o aluno “Gregório”, na presente charge, está pautado na indagação feita pelo
aluno sobre a língua que ele conhece e usa nos processos de interação, frente ao conhecimento
escolarizado dessa língua, representado pelas instituições de ensino e pelo professor de perfil
tradicionalista. Refletindo sobre o quadro situacional apresentado na charge, concluímos que
11
Charge retirada do artigo: “Auto-estima lingüística Ensino da Língua Portuguesa requer do professor uma
nova postura.” [ In ]: Revista do Professor, nº 84, outubro a dezembro de 2005 – Ano XXI. Editora CPOEC.
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o estudo da Língua Portuguesa não pode e não deve ficar limitado ao silêncio do aluno em
relação às verdades absolutas impostas ora pelas crenças que emergem de um ponto de vista
teórico isolado do contexto real, ora por uma metodologia gramatical descontextualizada dos
objetivos de seu uso como meio de ensino-aprendizagem, ora pelo professor que, ao contrário
de ser o mediador do conhecimento, coloca-se como mero transmissor passivo desse
conhecimento.
A partir do exposto, acreditamos que uma comunidade de ensino deve ser
vista, em primeira instância, como um conjunto de indivíduos, usuários ativos da língua,
capazes de construir e estabelecer relações de sentido entre a estrutura gramatical básica que é
inerente a qualquer idioma e o discurso que vai sendo construído a partir do domínio das
regras funcionais que contemplam esse idioma. Em segunda instância, que os indivíduos vão
ampliando as competências lingüísticas ligadas à língua em contextos interacionais nos quais
se tecem os discursos produzidos, sem a consciência ativa das terminologias e convenções
ligadas às regras gramaticais, encontradas de forma didaticamente explicada em livros
denominados como gramática normativa, descritiva, funcional, implícita, teórica, reflexiva,
contrastiva, histórica, etc. Por outro lado, os conhecimentos do professor sobre as várias
gramáticas da língua devem contribuir para a ampliação das competências lingüísticas da
comunidade de ensino, quando esta chega à escola. Possenti (1999), por exemplo, discute o
papel da escola em relação ao ensino de português, postulando a importância de se considerar
a gramática natural do aluno, ou seja, o conhecimento gramatical internalizado que todo
indivíduo adquire ao ser exposto a um idioma desde seu nascimento. Assim como Travaglia
(2002) citado anteriormente, Possenti (1999) define também, em um caráter conceitual, além
da gramática normativa e da gramática descritiva, a gramática internalizada, ressaltando que o
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professor não deve valorizar um modelo de gramática em detrimento a outro, e que o aluno
deve ser preparado, no período de escolarização, a reconhecer e utilizar a língua de forma
consciente, atentando para os diferentes contextos de uso e de interação oral e escrita. Assim,
afirma, dentro do conjunto de variedades conhecidas pelos indivíduos, que “o papel da escola
não é o de ensinar uma variedade no lugar da outra, mas de criar condições para que os alunos
aprendam também as variedades que não conhecem, ou com as quais não têm familiaridade...”
(POSSENTI, 1999, p.83, grifos do autor).
Refletindo sobre a visão de ensino proposta por Possenti (1999), concluímos
que o professor que estabelece um diálogo com o aluno, partindo do conhecimento que nasce
do convívio com a língua, avançando para atividades funcionais de leitura, escrita e interação
verbal de forma permanentemente dialógica, terá condições de desenvolver a capacidade
crítica daquele aluno em construir hipóteses e critérios sobre os usos que são feitos da língua
em contextos sociais de interação. Nesse caminho, porém, ampliando as concepções
apresentadas por Possenti (1999), Mattos e Silva (2002) propõe uma visão sobre gramática
normativa, gramática descritiva ou funcional e gramática internalizada não como um conceito
dispare de gramática, mas como recortes diferentes ligados aos fenômenos de uma mesma
manifestação lingüística. Segundo a autora:
A língua portuguesa está a merecer que se produzam sobre ela gramáticas em que
estejam bem definidos não os campos explorados (...) mas também que se recortem
nessas gramáticas, com clareza, o objeto sob análise, isto é, que tipo de manifestação
lingüística se tem em mira. As diferentes gramáticas são produtos científicos de
natureza distintas.
(MATTOS e SILVA, 2002, p. 64 - 65)
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50
Assim, quando pensamos na escola como o local de sistematização dos
saberes, ou ainda, como o local de escolarização de um conhecimento nato, nesse caso a
Língua Portuguesa, faz-se necessário considerar essa sistematização e essa escolarização
como constituintes que, em um menor ou maior grau, afetarão a análise, a interpretação, a
compreensão e a assimilação dos significados dos discursos produzidos dentro e fora do
ambiente escolar. Dessa forma, uma resposta coerente sobre o que seria ensinar Língua
Portuguesa passa também pelo viés da formação da identidade do professor em contrapartida
às demandas estudantis da “pós-modernidade”. É certo então, que a formação docente
associada ao diálogo crítico e coerente, em relação aos avanços das ciências lingüísticas e a
visão que o docente tem dos sujeitos que compõem o processo de inter-relação entre
conhecimento, ensino e aprendizagem, forma o eixo que articula a concepção sobre teoria e
prática, no que diz respeito à consolidação do ser e do fazer docente, ou seja, é no contexto da
experiência cotidiana que o professor terá condições de reunir subsídios necessários e
essenciais ao desenvolvimento de habilidades sobre uma língua ou sobre qualquer outro
campo do conhecimento, porque partirá do pressuposto de que essa geração pós-moderna”
emerge do domínio consciente e amplo da letra, da palavra e do discurso. Nessa perspectiva,
apontamos Dias-da-Silva (1998), que retoma a concepção e, ao mesmo tempo, a necessidade
do ser e do fazer docente pautados na capacidade de reflexão sobre a prática, ao afirmar que:
A construção de professores críticos e reflexivos, de intelectuais engajados e
capacitados para a construção da cidadania na sala de aula é um desafio emergente e
imprescindível em qualquer tentativa conseqüente de transformação da escola.
Favorecer, incentivar, estudar e/ou provocar as condições para que este
desenvolvimento ocorra, capacitando os professores para enfrentar estes desafios, é
tarefa que a universidade não pode (mais) se furtar.
(DIAS-DA-SILVA, 1998, p. 42, grifos do autor)
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51
Na conclusão deste tópico, podemos reiterar que, muitas vezes, partindo de
modismos ideológicos ou mesmo didático-pedagógicos, muitos professores propõem
concepções de língua e de linguagem como expressões do pensamento ou instrumentos de
comunicação, livres de quaisquer amarras lingüísticas ditas como reguladoras ou
normativistas e mesmo por regras concretas de organização e de funcionamento, esquecendo-
se que qualquer discussão sobre ensino-aprendizagem de uma língua materna vai além da
crítica à gramática tradicional no que se refere às “incoerências internas”
12
. Assim, uma boa
aula de Língua Portuguesa será aquela em que o sujeito não se torna um agente passivo frente
ao conhecimento, mas aquele sujeito que, com toda a riqueza expressiva de seu idioma
materno, amplia o conhecimento sobre a funcionalidade da língua em diferentes contextos de
uso e de produção de sentido. Dessa forma, voltando nossa atenção para Dillinger
(1995, p. 38), encontramos a seguinte afirmação: “supor que descrever palavras e frases ajuda
o aluno a se comunicar é como pensar que descrever as partes da bicicleta ajuda a criança a
andar de bicicleta. É uma posição insustentável. O ensino da gramática é irrelevante.”
A partir da analogia feita por Dillinger (1995) sobre o saber andar de
bicicleta e o saber os nomes das partes e peças dessa bicicleta, frente ao saber uma língua
materna e saber os nomes das partes e peças que formam o todo dessa língua, podemos dizer
que em uma aula de português que contemple realmente a língua, a linguagem e a interação,
o aluno não será mais aquele indivíduo paralisado frente a seu próprio “veículo” de
comunicação, mas sim um indivíduo capaz de pilotar esse veículo”, ou seja, as bicicletas, as
motos, os carros, os caminhões, os trens, os navios e mesmo os aviões e ônibus espaciais
lingüísticos de forma consciente, segura e contextualizada, porque encontrará no novo ser
12
“Incoerências internas” é um termo usado por Perini (1996) ao se referir a inconsistência teórica do modelo
normativo gramatical. O autor postula que a GT – Gramática Tradicional se preocupa apenas com a classificação
das palavras de modo que nenhuma fique isolada. Nesse sentido, aponta para a necessidade de se observar a
função dos termos frasais considerando o contexto semântico e pragmático que é inerente ao aspecto funcional
da língua. (cf. PERINI, 1996, p. 40)
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52
professor, no novo fazer escola e no novo promover o ensino e a aprendizagem, os
instrumentos necessários para realizar com segurança suas viagens comunicativas por
diferentes caminhos, lugares e paisagens que compõem o mundo e o outro.
1.2 – A Norma Culta e a Língua Padrão:
uma questão terminológica ou ideológica?
Quando tratamos de ensino-aprendizagem, sobretudo no que se refere ao
ensino-aprendizagem de ngua padrão para nativos de uma língua, faz-se necessário ter clara
a concepção do termo tanto do ponto de vista terminológico quanto do ponto de vista
ideológico. Dessa forma, salientamos, neste tópico, que a compreensão sobre a concepção
epistemológica dos termos “norma culta” e “língua padrão”
13
, que são amplamente usados nas
esferas lingüístico-científicas e prático-educacionais para designar um status de valor ou
prestígio no uso da língua, ora se acordam, ora se conflitam, dependendo das intenções ou dos
contextos em que são usados. Um bom exemplo envolvendo a variação conceitual e
ideológica dos termos supracitados, também designados como norma lingüística ou padrão
lingüístico, pode ser constatado a partir das diferentes reflexões que vão se instaurando no
meio acadêmico e, conseqüentemente, no processo de ensino-aprendizagem da Língua
Portuguesa na escola. Assim, encontramos, por um lado, pesquisadores como Faraco (2002),
que ao discutir sobre a realidade heterogênea que se ancora nos usos da língua em seu caráter
sócio-interacional, apresenta a seguinte afirmação:
13
Por questões organizacionais adotaremos em nossa exposição neste tópico os termos “norma culta” e “língua
padrão” apenas. Caso seja necessário, explicitaremos e categorizaremos de forma “léxico-interpretativa” as
variáveis metalingüísticas que forem sendo apresentadas pelos autores citados. Assim, “norma culta” e a
variação terminológica “língua culta”, por exemplo, abarcarão um mesmo conceito, bem como “língua padrão” e a
variação terminológica “norma padrão”, por exemplo, também abarcarão um mesmo conceito
.
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53
A cultura escrita, associada ao poder social, desencadeou também, ao longo da história,
um processo fortemente unificador (que vai alcançar basicamente as atividades verbais
escritas), que visou e visa uma relativa estabilização lingüística, buscando neutralizar a
variação e controlar a mudança. Ao resultado desse processo, a esta norma estabilizada,
costumamos dar o nome de norma-padrão ou língua-padrão. A questão da chamada
norma-padrão é certamente das mais complexas no campo das investigações
lingüísticas. Quando nos embrenhamos em seu estudo, fica logo evidente que não se
trata apenas de recortar um conjunto determinado de expressões da língua, como se o
fenômeno sociocultural do padrão se resumisse a um problema exclusivamente de
vocabulário e estruturas gramaticais.
(FARACO, 2002, p. 40 - 41, grifos do autor)
A afirmação do autor evidencia, em primeiro plano, que a questão da norma
está vinculada não somente a um conceito estilístico de ordem gramático-estrutural, mas
também a uma ideologia, envolvendo um conceito de imposição cultural e social que adota
uma língua-modelo baseada em regras de cunho conservador, unificando e uniformizando a
linguagem em determinadas instâncias de uso, sobretudo na variação escrita frente à variação
falada. Nessa perspectiva, dominar esse padrão não é apenas um aspecto de simples convívio
com a língua na aquisição de uma competência mais elaborada, ou seja, não é algo que
emerge naturalmente do contato diário com essa ngua em contextos de uso espontâneos e
informais. Trata-se, pois, de uma unificação lingüística de caráter ideológico, adquirida pelo
estudo e pelo treino que traz em si certo prestígio social, na medida que um interesse
consciente pela aquisição dessa competência. No Brasil, onde historicamente as desigualdades
sociais se mostram marcantes, o domínio de um padrão lingüístico é legitimado como um
instrumento de ascensão, caracterização, identificação e imposição de uma determinada esfera
social que tem acesso ao estudo, ao treino e ao domínio, frente aos interlocutores não
detentores desse estudo, treino, domínio e saber lingüístico. Por outro lado, encontramos
pesquisadores como Bagno (2005), que ao discutir acerca do mesmo assunto exposto
anteriormente, coloca a questão em pauta sem uma distinção prévia sobre o que está
designando como norma”. Desse modo, direciona as reflexões sobre o domínio da norma
culta como um mito que reforça o “preconceito lingüístico” e que tal domínio não serviria
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como um instrumento de ascensão social, pelo contrário, reforçaria a exclusão social. Nessa
perspectiva, afirma que:
O domínio da norma culta de nada vai servir a uma pessoa que o tenha acesso às
tecnologias modernas, aos avanços da medicina, aos empregos bem remunerados, à
participação ativa e consciente nas decisões políticas que afetam sua vida e a de seus
concidadãos. O domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não
tenha seus direitos de cidadão reconhecidos plenamente, a uma pessoa que viva numa
zona rural onde um punhado de senhores feudais controlam extensões gigantescas de
terra fértil, enquanto milhões de famílias de lavradores sem-terra não têm o que comer.
(BAGNO, 2005, p. 70)
A presente afirmação explicita o caráter sócio-político que é dado ao tema
em contrapartida ao caráter científico e educacional. A visão ideológica apresentada por
Bagno (2005) conduz ao surgimento de uma crença, em nossa opinião, questionável, porque
toma por base a não distinção entre norma, variação, contexto, oralidade e escrita. Prova desse
equívoco conceitual é confirmado quando o autor, em seguida, postula que: “como é fácil
perceber, o que está em jogo não e a simples ‘transformação’ de um indivíduo, que vai deixar
de ser um ‘sem-língua padrão’ para tornar-se um falante da variedade culta.”
(BAGNO, 2005, p. 71, grifos nossos).
Os termos “sem-língua padrão” e “falante da variedade
culta”, usados pelo autor, evidenciam a confusão existente entre o domínio da língua padrão e
a aquisição das variedades cultas dessa ngua. A afirmação de Bagno (2005) direciona o
leitor para que chegue a uma conclusão superficial de que as competências ligadas aos usos da
língua estão vinculadas ao domínio de regras explícitas e que dominar tais regras é o único
caminho para tornar o indivíduo um falante da modalidade culta. Diante disso, de se
atentar para o fato de que os mecanismos que regulam a fala o são necessariamente os
mesmos que regulam a escrita, sobretudo na modalidade padrão. Porém, parece não interessar
a Bagno (2005) fazer uma distinção entre as terminologias “padrão” e “culto”, ou seja, o que é
regular e o que é variável em um determinado aspecto de uso da língua, bem como fazer uma
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55
distinção na relação existente entre o padrão e o culto frente à oralidade e à escrita em
diferentes contextos de interação discursiva.
Dentro do marcante processo de ambigüidade terminológica e ideológica que
emerge das discussões sobre a norma culta, a língua padrão, a fala e a escrita frente à
padronização e variação lingüística nas interfaces que compreendem o ensino-aprendizagem,
podemos apontar ainda as idéias defendidas por Rodrigues (2002) que, ao tratar dos
problemas relativos ao português padrão contemporâneo no Brasil afirma que:
As maneiras de comportamento que compõem a cultura de uma sociedade, e que são
generalizações do comportamento de todos os (ou de alguns) membros dessa
sociedade, são descritas como padrões culturais. Uma distinção que aí se impõe é a que
se faz entre padrões ideais e padrões reais. Os padrões ideais definem o que se espera
que as pessoas façam ou digam em determinadas situações no caso de elas se
conformarem inteiramente com as normas estabelecidas por sua cultura; ao passo que
os padrões reais derivam de observações sobre a maneira como as pessoas realmente
se comportam em dadas situações. Freqüentemente o padrão ideal é uma regra de
comportamento para a qual tendem os membros da sociedade, mas que nem todos
cumprem, ou não cumprem integralmente.
(RODRIGUES, 2002, p. 13, grifos nossos)
Observamos que a noção de competência lingüística defendida pelo autor
passa pelo viés do ideal e do real, ou seja, uma outra crença sustentada por pilares de caráter
diglóssico, aplicada para a noção de língua e que é imposta aos membros da sociedade usuária
dessa língua. A falta de clareza conceitual sobre qual padrão é discutido por Rodrigues
(2002), perpassa todo o dilema que envolve os limites de aceitação e de negação inerentes aos
usos lingüísticos que fazemos na oralidade e na escrita em determinados contextos de
interação. Assim, segundo o autor há, por um lado, um padrão “ideal” que deveria ser
obedecido e seguido independentemente da modalidade de uso da língua, mesmo porque
qualquer desvio desse padrão seria condenado pelos usuários e, por outro, a idéia da
existência de um padrão “real” de uso da língua que emerge da espontaneidade e da interação
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56
natural e livre de convenções. Do exposto por Rodrigues (2002), percebemos que uma
confusão no plano ideológico e lingüístico, ou seja, é mostrado um padrão regulador
entendido como “ideal” que deveria ser completamente ignorado nas interações verbais por
não ser real” e por contrariar a liberdade usual da língua. O autor defende que ao distanciar-
se dessa realidade lingüística usual, devido às regras e convenções padronizadoras e
conflitantes ao “comportamento para o qual tendem os membros da sociedade” (ibid, 13), o
aspecto regulador do padrão ideal é naturalmente desobedecido, ou seja, nem todos cumprem
integralmente suas convenções. Entretanto, mesmo definindo terminologicamente a que
padrão faz referência, neste caso ao “padrão ideal” e ao “padrão real”, o faz menção a
outros aspectos fundamentais que devem ser considerados ao se tratar dos usos de uma língua,
tais como as limitações impostas pelo contexto de produção, os interlocutores envolvidos, as
intenções desses interlocutores, o gênero e o tipo textual escolhido, ou mesmo o grau de
formalidade ou informalidade que se quer depositar na materialização da interação. Ainda
nesse caminho, ao tratar do padrão ideal e do padrão real no âmbito escolar, Rodrigues (2002)
faz referência ao padrão gramatical e no consenso existente entre os professores com relação
ao ensino-aprendizagem desse padrão em todo o território nacional e em qualquer tipo de
escola, pública ou privada, urbana ou rural. Porém, professa que nem mesmo o professor de
Língua Portuguesa faz uso no seu dia-a-dia desse padrão ideal, afirmando que “comumente,
entretanto, o mesmo professor que ensina essa gramática não consegue observá-la em sua
própria fala nem mesmo na comunicação dentro de seu grupo profissional, mas se conforma
naturalmente com o padrão regional.” (RODRIGUES, 2002, p. 18).
Poderíamos aprofundar nas discussões envolvendo os estudos sobre a norma
culta e a língua padrão que se apresentam atualmente no meio acadêmico, apontando
diferentes posições e argumentos que sustentam tais posições, considerando, por exemplo, as
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reflexões de Bagno (2001, 2002 e 2005), Bechara (1997), Britto (1997 e 2003), Castro (2003),
Cunha (1968 e 1985), Houaiss (1983), Lucchesi (2002), Mattos e Silva (2000 e 2002), Neves
(2002 e 2005), Perini (1989, 1996 e 1997), Possenti (1999), Santos (1996), Scherre (2005),
Silva (2000) e tantos outros pesquisadores na área da educação e na área da lingüística, porém
nosso objetivo neste tópico é definir de forma clara, concisa e epistemológica os limites e
fronteiras existentes na percepção conceitual, social e variacional que contemplam o uso da
língua nas suas manifestações formais e informais, sem as afetações político-ideológicas que,
normalmente, são apresentadas em reflexões sobre as variações de um padrão mais formal e
de um padrão menos formal frente aos usos orais e escritos de uma língua materna, colocada
como objeto de ensino-aprendizagem no contexto escolar. Dessa forma, começaremos
afirmando que o conceito subjacente ao termo “norma culta” entra na esfera social, em um
caráter de senso comum, para designar, basicamente, uma variação regular e prescritiva da
língua, encontrada em compêndios gramaticais, em materiais pedagógicos, em manuais de
orientação e revisão acadêmica e editorial, bem como em comandos e verbetes de provas e
testes em que a necessidade da produção de um texto dissertativo em língua materna.
Nessa perspectiva, constatamos que o termo “norma culta” se generaliza para designar de
forma analógica os termos “língua padrão” ou “norma padrão”, sobretudo na escrita. Essa
indistinção fortalece a crença de que, em contrapartida às variações da língua, um sistema
lingüístico padronizado e homogêneo, sustentado por um conjunto de regras e prescrições
próprias de uma comunicação formal que sinaliza o modo “certo” de falar e escrever,
consagrado por uma parcela de indivíduos socioeconomicamente privilegiada.
A necessidade de se estabelecer um padrão regular em meio aos padrões
variacionais nasce das reflexões sincrônicas e diacrônicas sobre a língua observada a partir
dos estudos estruturalistas que analisam essa língua como um sistema formado por unidades
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estáveis e a partir dos estudos sociolingüísticos que analisam a língua como um sistema
funcional inerente aos fatores temporais, espaciais, sociais, contextuais e interacionais. Assim,
entendendo a comunidade de usuários como um todo complexo, inferimos que a variação
lingüística possui relação direta com fatores ligados à identidade individual e coletiva desses
usuários e que a ngua em si, é um código unificador maior, em que se organizam sócio-
discursivamente as variantes lingüísticas menores de ordem funcional diversa. Em outras
palavras, o indivíduo se vale das competências lingüísticas que vai adquirindo ao conviver
com a língua e ao usá-la para se comunicar em uma determinada situação de interação. Dessa
forma, as escolhas vocabulares, morfológicas, sintáticas, semânticas e pragmático-discursivas,
enfim, as escolhas sistêmico-funcionais mudam em uma outra situação de interação em que
este indivíduo estiver engajado pelo próprio caráter de adaptação, domínio e controle daquelas
competências lingüísticas que vão sendo adquiridas no contato permanente com a ngua.
Assim, mesmo que em uma situação haja a predominância de uma dada variação lingüística, o
código lingüístico usado é o mesmo, ou seja, o idioma tomado como instrumento de
comunicação e interação.
A partir do exposto, podemos afirmar que o padrão lingüístico” e
a “variação lingüística” são de certa maneira indissociáveis, porque fazem parte de um
mesmo código, ou seja, a língua usada como meio de comunicação. Nesse sentido, a definição
de “norma culta”, “língua padrão” e “variação lingüística” passa a ter outras implicações no
ensino de língua materna, porque a visão heterogênea dada à ngua possibilita entender a
bipolaridade existente na manifestação dos usos, por considerar relevantes os grupos sociais
de usuários em seus contextos socioeconômico, sociocultural e sócio-discursivo.
Compreendemos então, que a idéia de “certo” e de “errado” não está estritamente ligada ao
confronto ideológico existente no emprego de uma língua em uma estrutura oral ou escrita
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frente ao que recomenda e prescreve a gramática normativa, mas sim ao emprego aceitável ou
não de uma estrutura oral ou escrita mediada pelos usuários dessa língua a partir da
funcionalidade gramatical e pragmática que vai sendo consolidada dentro de esferas
discursivas distintas, dependendo das necessidades, dos interesses e dos contextos em que
fluem os atos de interação discursiva. Desse modo, podemos concluir a priori, que, dentro de
uma visão sociolingüística, a distinção entre norma culta”, “língua padrão” e “variação
lingüística” passa pela concepção variacional que demarca a diferença tênue entre uma
modalidade em relação à outra, porque considera não apenas as escolhas estruturais,
morfológicas e sintáticas, mas os contextos, as intenções e os interlocutores envolvidos na
interação. Nessa perspectiva, Faraco (2002) reitera a necessidade de compreender a natureza
léxico-gramatical e ideológica na definição das normas lingüísticas, sobretudo no que
concerne à língua padrão, caracterizada em um ato interacional, ao destacar que:
É preciso lembrar, por exemplo, que a norma-padrão está vinculada estreitamente ao
espectro de práticas socioculturais que constituem o que se pode chamar de cultura
letrada em sentido amplo, isto é, as práticas culturais que envolvem não apenas
atividades de leitura e escrita como tais, mas toda e qualquer atividade (mesmo que, em
si, se apenas oralmente) que tem o processo histórico do escrever como pano de
fundo. Em outras palavras, a cultura letrada é, como têm procurado demonstrar os
estudos sobre letramento, maior do que apenas ler e escrever.
(FARACO, 2002, p. 41)
Em qualquer comunidade lingüística, ou seja, qualquer comunidade usuária
de uma mesma língua tanto na oralidade quanto na escrita, é inegável a coexistência de um
conjunto de variedades discursivo-interacionais, como discutimos. Essa coexistência,
entretanto, não se aleatoriamente, mas no liame das relações sociais estabelecidas por
estruturas aceitáveis e válidas dentro dos contextos de produção em que são usadas.
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Parece ser legítimo e inegável que, lingüisticamente, qualquer cultura letrada
elege normas lingüísticas funcionais, consideradas como modelo padronizado a ser adotado
em determinadas situações de uso em relação a outras normas também funcionais e
imprescindíveis aos atos de interação discursiva, porém de caráter mais informal, mais
heterogêneo e mais flexível, incluindo-se aí, por exemplo, textos orais e escritos de diferentes
gêneros e tipos, inclusive aqueles de cunho artístico-literário
14
. Assim, entendida como um
código funcional, heterogêneo e variacional, a língua se ancora em fenômenos históricos,
ideológicos e pragmáticos que mudam ao longo do tempo a partir das atividades de natureza
sócio-discursivo-interacional. Esse é o fato elementar que nos motiva a pensar os usos que são
feitos da língua na oralidade e na escrita e os parâmetros que definiriam os modelos
lingüísticos que serviriam de base para a escrita em língua padrão do português brasileiro na
atualidade. Rocha (2002), por exemplo, discute o conceito de língua padrão, ratificando a
importância de se compreender os paradigmas que envolvem os modelos significativos que
serviriam de base para espelhar a forma escrita do português atual. Dessa forma afirma:
Resumindo, podemos dizer que o importante a se considerar é que tanto os textos em
língua “oficial” quanto os textos em língua jornalística, apesar da diferença de estilo
que os separa, caracterizam o que se pode chamar de língua padrão do português
contemporâneo e é desses tipos de texto que devem ser extraídas as abonações que
servirão de base para fixação das regras gramaticais que descreverão a língua culta
escrita do português do Brasil.
(ROCHA, 2002, p. 67, grifos do autor)
15
14
Entende-se aqui como “artístico-literário” não os textos do nero literário, mas também quaisquer textos
em que o autor possa usar de certa liberdade criativa, emotiva, estética, estilística, retórica e/ou gramatical, como
por exemplo: letras de música, crônicas, propagandas, anúncios, cartas, bilhetes, e-mails, etc.
15
Vale ressaltar que Rocha (2002) postula que uma diferença entre a “língua oficial” e “língua jornalística”
escrita. Assim, segundo o autor, a língua oficial é aquela neutra e objetiva, encontrada em correspondências e
comunicações oficiais, textos técnicos e científicos. A língua jornalística é aquela que procura envolver,
impressionar e cativar o leitor, encontrada em jornais e revistas. Entretanto, afirma que apesar da diferença de
estilo, objetivo e blico alvo, ambas abrigam uma linguagem formal, ou seja, um caráter léxico-gramatical
estável. Dessa forma, o autor exclui deste escopo as crônicas, colunas de assinantes, entrevistas, propagandas
e cartas do leitor. (cf. ROCHA, 2002, p. 63 - 66)
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61
Considerando as afirmações de Rocha (2002), podemos definir de forma
abrangente a compreensão do paradigma que envolve os termos “norma culta” e “língua
padrão” no contexto de ensino-aprendizagem de língua materna. É importante destacar que
além do corpus de ensino apontado por Rocha (2002), consideramos também, na efetivação
desse ensino, as reflexões apresentadas por Rego (2000) que se pautam nas teorias de
Vygostky sobre a construção do conhecimento, enfatizando que o aluno constrói o
conhecimento na interação constante com o objeto a ser conhecido. Assim, pressupondo que o
aluno de língua materna é potencialmente alguém que busca na escola condições de se
apropriar de forma consciente do funcionamento da estrutura explícita da língua na
construção das habilidades de discernir, discriminar e estabelecer relações lógicas de sentido
tanto nos usos da fala quanto nos usos da escrita, em diferentes contextos de produção e
interação discursiva, tomaremos o conceito dos termos “norma culta” e “língua padrão” de
forma dialógica e reflexiva, atentando para os contextos de ensino-aprendizagem do
arcabouço lingüístico, denominado como língua materna, que se materializa socialmente em
duas vertentes básicas de uso, ou seja, o padrão lingüístico”, entendido como norma
prescritiva e a “variação lingüística”, entendida como norma subjetiva.
Dentro do processo de conceituação e definição dos termos em discussão
neste tópico, Castilho (2002) apresenta em sua argumentação sobre o ensino
institucionalizado da Língua Portuguesa a seguinte definição para a norma culta:
Norma objetiva, explícita ou padrão real é a linguagem efetivamente praticada pela
classe social de prestígio, que se podia identificar no Brasil de hoje com a chamada
classe culta, escolarizada. Trata-se de um dialeto social que em si nada tem de
“melhor” em relação aos demais, decorrendo seu prestígio unicamente da importância
da classe social a que corresponde.
(CASTILHO, 2002, p. 30, grifos do autor)
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62
Podemos inferir da citação de Castilho (2002) que a terminologia “norma
culta” esintimamente ligada a fatores de ordem social, ou seja, a um grupo de indivíduos
que pressupõe dominar essa modalidade como uma norma lingüística efetivamente melhor e
superior a outras, por estar sustentada em regras do bom uso da língua nas interações
discursivas. Dentro dessa discussão, Castilho (2002) faz duas subdivisões para explicar o que
seria a norma culta. Assim, explicita que além de se configurar como uma norma objetiva, a
norma culta também se apresenta como uma norma subjetiva, que é a atitude que o falante
assume perante a norma objetiva. Em seguida, explicita que a norma culta ainda se configura
como uma norma prescritiva, que é a combinação da norma objetiva e da norma subjetiva na
constituição de um ideal de perfeição lingüística. Dessa forma, o termo “norma culta” torna-se
um conceito de língua mais amplo daquilo que entendemos por língua padrão”, uma vez que
abrange não a um padrão lingüístico formal, mas porque esligado a um contexto de
sociabilidade nos usos variacionais da ngua, em que regras ligadas ao como deveria ser
usada essa língua em determinadas situações, como realmente é usada essa língua nessas
situações e como a mesma é regulada no espaço existente entre os atos de interação
discursiva. Em outras palavras, a norma culta está ligada aos dizeres que sofrem variações
discursivo-interacionais em graus de maior ou menor formalidade, dependendo dos
interlocutores, do contexto de produção e das intenções pretendidas.
Em conformidade ao que foi dito anteriormente, podemos afirmar então que
a norma culta é um “dialeto social”, adotado por indivíduos que possuem um elevado grau de
instrução escolar e que dominam um uso consagrado como a forma correta de se falar uma
língua em determinadas situações de interação. Diante dessa premissa, o termo “norma culta”
adquire mais objetividade no que concerne à sua interpretação e nos desvencilha do estigma
sobre o preconceito acerca da dicotomia encontrada na literatura lingüística a respeito do
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63
termo “culto” como sendo diretamente o oposto de “inculto” ou de “sem cultura”,
principalmente porque entendemos que os grupos que não dominam tal dialeto social
possuem uma vasta cultura e uma capacidade nata de interagir pelo mesmo viés lingüístico
dos indivíduos das classes sociais entendidas como escolarizadas e economicamente
privilegiadas.
No âmbito do ensino-aprendizagem escolar, não se deve perder de vista que
as concepções sobre “norma culta” e “língua padrão” adquirem uma nova dimensão e por isso
merecem maior entendimento tanto do ponto de vista teórico quanto do ponto de vista prático.
Isso porque, se por um lado, a norma culta varia na escrita e, principalmente, na fala de
acordo com o contexto cultural, social, geográfico, histórico e ideológico de formação dos
indivíduos de uma determinada parcela da sociedade, como vem comprovando os estudos
realizados com base nos dados coletados pelo projeto NURC
16
no Brasil, por outro lado, a
língua padrão busca uma estabilidade e certo grau de homogeneidade no processo de
produção da escrita, sobretudo a escrita formal, independente do grupo, do grau de instrução
ou do contexto de formação dos indivíduos. Dessa forma, podemos estabelecer o seguinte
esquema terminológico para melhor entender as especificidades conceituais que abrangem a
“norma culta” e a “língua padrão”:
16
O projeto NURC – “Estudo da Norma Urbana Culta”, dentro de uma abordagem sociolingüística, visou
documentar e descrever o uso urbano do português falado no Brasil em seus aspectos fonético-fonológicos,
morfológicos, sintáticos e vocabulares. O projeto foi desenvolvido em cinco capitais brasileiras: Recife, Salvador,
Rio de janeiro, São Paulo e Porto Alegre. O corpus foi coletado nas décadas de 70 a 90 e reúne mais de 1500
horas de gravações em fita cassete (gravações em fitas magnetofônicas). Esse material representa o
desempenho lingüístico de falantes do sexo masculino e do sexo feminino, nascidos nas cidades onde foram
feitas as coletas dos dados e com grau de escolaridade universitária. O corpus foi distribuído em três faixas
etárias: de 25 a 35 anos de idade 30%; de 36 a 55 anos de idade 45%; mais de 55 anos de idade 25%.
(cf. CUNHA, 1985)
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64
ESQUEMA TERMINOLÓGICO: Norma Culta – Língua Padrão:
> Língua Padrão: refere-se à escrita / obedece às regras gramaticais.
Normas
Escolarizadas: escrita: formal ou informal.
> Norma Culta:
falada: formal ou informal.
Nessa perspectiva, os elementos que sustentam a norma culta se distanciam
daqueles que sustentam a língua padrão, na medida em que o uso da norma culta se torna mais
flexível, ou seja, sofre influência de maior e menor formalidade, dependendo das intenções,
do contexto de produção e do gênero discursivo escolhido pelos interlocutores na interação.
A língua padrão, no entanto, é a variedade escolarizada do arcabouço
lingüístico, caracterizada principalmente pelo caráter formal escrito. Ao contrário da norma
culta que pode ser formal ou informal, oral ou escrita, como discutido e mostrado no esquema
anterior, a língua padrão se limita à vertente formal escrita que obedece a regras claras
encontradas em manuais reguladores que podem ser as gramáticas normativas, alguns livros
didáticos ou os manuais de padronização acadêmica e editorial. Porém, de se destacar que
muitas gramáticas e mesmo outras fontes de orientação para o uso de um padrão lingüístico
adotam clássicos da literatura antiga e moderna ou textos artístico-literários
17
contemporâneos
como modelo para a escrita em língua padrão. Este fato merece atenção e é destacado por
Rocha (2002) no tópico em que discute o conceito sobre o escopo da língua padrão atual,
afirmando que:
17
Entende-se aqui como “artístico-literário” não os textos do nero literário, mas também quaisquer textos
em que o autor possa usar de certa liberdade criativa, emotiva, estética, estilística, retórica e/ou gramatical, como
por exemplo: letras de música, crônicas, propagandas, anúncios, cartas, bilhetes, e-mails, chats, blogs, etc.
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65
Parece não haver dúvida, portanto, de que as gramáticas tradicionais estabelecem como
corpus de onde são extraídas as abonações para a fixação das regras gramaticais os
textos de autores de literatura. Essa é uma posição com a qual o concordamos e que
tem que ser revista com urgência. (...) Repetimos aqui a pergunta feita no início deste
item: devem as leis, os livros técnicos e científicos, os contratos, a correspondência
oficial, os manuais de instrução, as receitas e os avisos públicos ser redigidos na mesma
modalidade de língua em que se expressam os autores contemporâneos? É evidente que
não.
(ROCHA, 2002, p. 55 – 56)
Diante da reflexão apresentada por Rocha (2002), parece ser imprescindível
distinguir o corpus que contempla a língua padrão atual dos modelos gramaticais baseados em
textos literários clássicos ou contemporâneos no ensino-aprendizagem dessa variedade
lingüística. Esse novo olhar sobre o ensino de português na escola ganha respaldo, quando
voltamos nossa atenção para o trabalho de Lima (2003), que ao pesquisar cerca de 11.000
textos escritos de caráter jornalístico e técnico-científico, chega à seguinte conclusão:
Aceita a premissa por nós defendida de que os textos técnico-científicos e jornalísticos
produzidos na atualidade são modelos para o texto formal escrito brasileiro, o peso dos
dados levantados nos leva a reconhecer que a norma canônica, com as devidas
ressalvas vistas neste trabalho, é a norma gramatical em uso atualmente e como tal
deve ser a adotada no ensino de Língua Portuguesa, a que deve estar presente em
trabalhos formais escritos textos escolares, acadêmicos, científicos, técnicos,
jornalísticos – e que deve subsidiar a criação de modernas gramáticas da língua
portuguesa usada no Brasil;
(LIMA, 2003, p. 314, grifos da autora)
Tal afirmação reforça a idéia de que a função básica do professor de Língua
Portuguesa é criar oportunidades para que o aluno amplie suas habilidades lingüísticas, sendo
capaz de produzir um texto com coerência e coesão, de interpretar e argumentar sobre um
texto lido e de dominar o maior número possível de estratégias orais e escritas de forma
contextualizada e eficiente aos seus interesses e necessidades, nos atos de interação em que
estiver engajado discursivamente. Por isso, considerando o exposto por Lima (2003) em sua
pesquisa, podemos retomar Rocha (2002), ao destacar que:
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66
O que estamos propondo é que a gramática da língua padrão esteja apoiada em bases
autênticas, ou seja, nos textos redigidos em norma culta e não, na língua literária dos
séculos 16 a 19, e muito menos na língua literária contemporânea. Nada impede que
haja um equilíbrio de forças e uma reciprocidade entre o uso de uma língua e o
conjunto de regras ou parâmetros que sustenta essa língua. Em outras palavras: os
falantes servem-se de regras internalizadas para usar uma língua, ao mesmo tempo em
que é do uso efetivo dessa língua que se delineiam as regras para o seu funcionamento.
(ROCHA, 2002, p. 62)
Vale ressaltar que, baseados nas reflexões e nas propostas apontadas por
Rocha (2002), não estamos propondo o abandono do estudo de textos literários e artístico-
literários, nem o não-incentivo à produção destes textos dentro e fora da escola. No entanto,
acreditamos que o trabalho com determinados gêneros textuais, bem como a produção
literária não deve ser o centro do ensino de Língua Portuguesa na sala de aula, simplesmente
porque os interesses pela escrita literária e artístico-literária não nascem do simples contato ou
estudo teórico dos textos desse gênero, mas da aptidão e do potencial artístico e criativo de
cada indivíduo. Desse forma, por mais que um aluno seja exposto aos clássicos da literatura é
inegável que os grandes escritores e mestres das letras não são moldados nos bancos
escolares, pelo contrário, estes emergem do contato com a ngua em diferentes situações de
produção e interação discursiva, sem desconsiderar também uma excepcional percepção
emotiva, criativa e intelectual que se materializa e se fortalece na construção do “ser” de cada
indivíduo a partir da natureza artística e do contato com o mundo, com o outro e com a língua.
Nessa perspectiva, Rocha (2002), ao discutir sobre a escrita de caráter estético, criativo e
emotivo, bem como sobre a tarefa da escola quanto ao objetivo do ensino da Língua
Portuguesa, afirma que:
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67
Defendemos a idéia de que o ensino de Português deve garantir ao aluno a liberdade da
criação literária, mas não o seu “aprendizado”, o que não faz sentido. Como dissemos
anteriormente, “poesia não se aprende na escola”. É claro que o PP (Professor de
Português) deverá incentivar o aluno que demonstrar pendores para a literatura, mas
jamais deverá obrigá-lo a escrever, digamos, “literariamente”. O importante é dotar o
aluno de uma escrita correta. O “escrever bem”, como diz o Manual de estilo da
Editora Abril, depende do talento de cada um.
(ROCHA, 2002, p. 74 – 75, grifos do autor)
Confirmando o exposto por Rocha (2002), podemos salientar que dentro do
conjunto de atividades que se apresentam como modelo para o treino, a aquisição e domínio
da língua padrão, cabe ao professor distinguir de forma clara e lógica o corpus e os objetivos
que pretende alcançar na descrição dos fenômenos lingüísticos e no trabalho de ensino-
aprendizagem de língua materna. O fato de a produção literária e artístico-literária não
estarem, necessariamente, atreladas a uma variedade escrita mais elaborada, pelo próprio
caráter de ruptura com o convencional e com o padrão, leva-nos a considerar queo se pode
eleger determinados gêneros textuais como modelos para o trabalho com a ngua escrita
formal na aula de português, porque aquilo que é válido e aceitável em um determinado
gênero textual pode ser inadequado na constituição de um outro “contrato de comunicação”
18
em que as regras de fala e escrita do gênero textual mudam completamente para adaptarem-se
a um novo contexto de produção e interação discursiva.
Dessa forma, ratificando as diferenças epistemológicas e as especificidades
dos termos norma culta” e língua padrão” dentro do contexto de ensino-aprendizagem de
Língua Portuguesa, temos, por um lado, a “norma culta” em suas manifestações orais e
escritas, asseguradas por uma parcela escolarizada da sociedade. Essa norma enquanto
18
Contrato de comunicação é um dos conceitos discutidos por Charaudeau e Maingueneau (2002) para definir
um conjunto de regras discursivas” que determina o que é e o que não é permitido na produção e interpretação
de textos orais e escritos.
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68
manifestação lingüística se caracteriza pela heterogeneidade ligada ao seu caráter variacional
que contempla:
A variação geográfica: a norma culta aceita diferenças de pronúncia, de vocabulário e de
sintaxe de uma região para outra. Porém, não são todas as variações que são aceitas. O grau
de aceitação depende da importância social e econômica da região de origem.
A variação formal e informal: o mesmo usuário da ngua empregará formas lingüísticas
diferentes de acordo com as situações vivenciadas nas interações.
A variação estilística: cada indivíduo usuário da língua, dentro de limitações inerentes aos
usos dessa língua, deposita um estilo próprio ao fazer uso dela.
A variação oral e escrita: por considerar em primeiro plano o perfil dos usuários
(indivíduos escolarizados), a aceitabilidade de um determinado uso oral ou escrito passa pela
avaliação de quem está fazendo uso da língua e não de como está sendo feito esse uso.
A variação temporal: quando uma tendência forte de mudança na linguagem no
decorrer do tempo. A variação temporal está intimamente ligada à convivência entre formas
arcaicas e formas contemporâneas, ou seja, novos usos vão se popularizando até o momento
em que uma forma ou uso deixa de configurar um erro ou transgressão e passa a compor uma
nova regra, um novo uso.
Ainda no contexto de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa, temos,
por outro lado, a “língua padrão” que é o resultado de uma atitude social perante as
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69
manifestações heterogêneas da língua em que uma seleção de modelos para um
determinado tipo de manifestação escrita dessa língua, ou seja, a escrita formal. Essa escrita
se materializa a partir de um conjunto de normas e regras ligadas aos modelos padronizadores
na produção e interação via gêneros textuais específicos. Esses modelos não estão vinculados
aos hábitos lingüísticos de um grupo socioeconomicamente privilegiado, mas coincidem com
a variedade escrita adotada em determinadas situações de interação. Assim, a língua padrão
contempla:
O domínio da escrita formal: uma apropriação do pensamento lógico a partir de um
agenciamento lingüístico, cuja escolha sintagmática e ou paradigmática envolve uma maior
intimidade com a estrutura da língua, mas não necessariamente com a terminologia
gramatical.
A homogeneidade lingüístico-discursiva: indivíduos de diferentes regiões do país usam
uma mesma variação na comunicação formal escrita, embora possuam dialetos geográficos
distintos na comunicação oral em níveis de maior ou menor formalidade.
A estabilidade temporal-discursiva: por se tratar de uma variação escrita formal as
mudanças ocorrem no âmbito sincrônico. Essas mudanças ocorrem em determinados espaços
de tempo suficientes o bastante para que elas sejam consagradas como uma nova forma de uso
na modalidade escrita.
Das reflexões sobre as especificidades que contemplam os termos norma
culta” e “língua padrão”, concluímos, neste tópico, que o ensino de Língua Portuguesa deve
destinar-se a preparar o indivíduo para lidar com a linguagem de forma crítica e consciente
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70
em suas diversas situações de uso e de manifestação, incluindo-se também o desenvolvimento
de saberes lingüísticos mais elaborados como a interpretação, compreensão e produção de
textos escritos em língua padrão. Se no passado a referência para a escrita em língua padrão
emergia dos modelos clássicos da literatura, atualmente, o professor deve considerar, no seu
fazer docente, os meios de comunicação social que realmente compõem o universo discursivo
dos indivíduos, que procuram a escola para ampliar e consolidar seus conhecimentos sobre o
funcionamento e os usos da língua. Diante disso, é importante que o indivíduo que pretenda
dominar a escrita em língua padrão, bem como outras variantes lingüísticas, não se limite ao
estudo descontextualizado de gêneros literários e artístico-literários, nem ao estudo de
nomenclaturas gramaticais, mas que tome posse de forma ativa e consciente do
funcionamento da língua que fala e escreve em diferentes contextos de produção. Nessa
perspectiva os PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais orientam que:
O ensino de ngua Portuguesa deve se dar num espo em que as práticas de uso da
linguagem sejam compreendidas em sua dimensão histórica e em que a necessidade de
análise e sistematização teórica dos conhecimentos lingüísticos decorra dessas mesmas
práticas. Entretanto, as práticas de linguagem que ocorrem no espaço escolar diferem
das demais porque devem, necessariamente, tomar as dimensões discursiva e
pragmática da linguagem como objeto de reflexão, de maneira explícita e organizada,
de modo a construir, progressivamente, categorias explicativas de seu funcionamento.
Ainda que a reflexão seja constitutiva da atividade discursiva, no espaço escolar
reveste-se de maior importância, pois é na prática de reflexão sobre a língua e a
linguagem que pode se dar a construção de instrumentos que permitirão ao sujeito o
desenvolvimento da competência discursiva para falar, escutar, ler e escrever nas
diversas situações de interação.
(MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 1998, p. 34)
A partir da citação acima, fica evidenciado que o novo fazer docente deve ser
mediado por uma ação pedagógica objetiva e renovadora. Se antes o professor de Língua
Portuguesa centrava seu trabalho no código, na atualidade, as necessidades sociais e
educacionais da demanda que ingressa na escola apontam para um trabalho com a língua
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71
voltado para os usos desse código em contextos reais. Isso não significa eliminar a prescrição,
pelo contrário, em uma abordagem contextualizada, é possível interagir com o aluno no
desenvolvimento do senso crítico sobre a língua usada por ele nos atos de interação discursiva
tanto no aspecto oral quanto no aspecto escrito, promovendo assim, a ampliação das
habilidades discursivas, essenciais para a verdadeira conquista da cidadania.
1.3 O curso de Letras no Brasil: uma breve visão histórica e as implicações nos
processos de consolidação do ensino-aprendizagem de língua materna.
Nesse tópico, discorreremos sobre o processo histórico de consolidação do
curso de Letras no Brasil e, ao mesmo tempo, pontuaremos sobre a consolidação e
configuração da ciência lingüística no processo de formação de professores de Língua
Portuguesa, ciência esta, materializada nas propostas curriculares dos cursos de licenciatura
em Letras.
Retomando o processo histórico-educacional de formatação dos cursos
superiores no Brasil, constatamos que os primeiros cursos de licenciatura tiveram suas raízes
ligadas à formação em filosofia. Assim, consecutivamente, a Faculdade de Filosofia de São
Paulo, criada em 1934; a Universidade do Distrito Federal (ainda no Rio de Janeiro), criada
em 1935 e a Universidade de Minas Gerais, criada em 1939, iniciaram um processo de
formação docente, consolidando experiências de resgate de um curso que fosse voltado à
profissionalização em línguas e suas literaturas. Nesse período, devido questões de interesse
político e da sociedade, houve a necessidade de contratar professores estrangeiros, sobretudo
europeus, para elaborarem e assumirem as disciplinas que seriam ofertadas, fator que veio a
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72
marcar fortemente o perfil de formação dos graduandos e o caráter das produções acadêmicas
posteriores. Desse modo, durante três décadas, compreendendo os anos de 1934 a 1962, as
universidades passaram por processos de estruturação e reestruturação de suas cadeiras
(cf. VERO, 2007, p. 96 e 97). Finalmente em 1962, a lingüística torna-se um
conhecimento científico obrigatório nos cursos de formação em Letras através de um decreto
do então Presidente João Goulart que também profissionalizou o ensino de línguas. No
entanto, aspectos da lingüística já vinham sendo ensinados, ainda que de forma tímida,
sobretudo na Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro, marcando assim, já naquele
período, o caráter científico que começava a ser dado ao estudo da linguagem. Por outro lado,
apenas na década de setenta a universidade começa, efetivamente, a se dedicar às
preocupações com as questões relativas à sintonia entre seu processo de formação e o espaço
de formação escolar, compreendendo que o deveria ser a detentora do conhecimento e do
saber científico, mas deveria voltar-se para as necessidades institucionais, educacionais e
tecnológicas da sociedade. Dessa forma, a interseção entre a formação humanista e a
formação técnico-profissional passava a ser uma questão controversa presente na formação de
professores. A visão científica sobre a linguagem, que começou a imperar nesse momento, foi
o ponto inicial para implementar as mudanças nos currículos e no processo de ensino-
aprendizagem de língua materna, estabelecendo novas metas, novos rumos e uma nova
concepção sobre o papel do professor e da formação docente como um todo.
Atualmente, os reflexos do processo de consolidação do curso de Letras no
Brasil e o caráter científico que vem sendo agregado ao ensino de língua podem ser
verificados nas propostas curriculares de rias instituições, como podemos constatar a
seguir
19
:
19
Propostas retiradas na integra dos textos dos Planos Curriculares de algumas universidades que possuem o
Curso de Letras com habilitação em Língua Portuguesa. Agosto/2005 revisado em Janeiro/2008. Grifos nossos.
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73
PERFIL DO EGRESSO:
A graduação em Letras da PUC-Minas corresponde a uma formação que habilita nas
seguintes composições curriculares: Português e Português/Inglês
O Curso de Letras pretende formar profissionais capazes de adquirir e desenvolver
as competências e habilidades necessárias para operar competentemente com e sobre
o seu objeto de estudo/trabalho: "A interação lingüística no e pelo processo de
produção e recepção de textos verbais, orais e/ou escritos".
Em vista disso, o projeto pedagógico do Curso de Letras da PUC-Minas visará a que
o aluno adquira no curso habilidades básicas:
a) utilizar-se de estratégias adequadas às diversificadas práticas de leitura e
produção de texto, exigidas pela sua inserção e atuação na sociedade.
b) apreender, avaliar e operar o processo de ensino/aprendizagem de
produção/recepção de texto/conhecimento como profissional do magistério;
c) construir uma autonomia intelectual que lhe possibilite a capacidade de operar,
como professor, como pesquisador, ou em outras dimensões da produção/recepção
de textos, não com a norma padrão, mas também com outras modalidades de
expressão verbal;
d) reconstruir continuamente o conhecimento disponível, com base principalmente
em pesquisa e elaboração pessoal, "num processo contínuo de educação permanente
que é inerente ao trabalho".
PUC- MINAS – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
_____________________
PERFIL DO EGRESSO:
O curso de Letras do Uni-BH pretende formar profissionais com sólida base teórico-
científica, para serem capazes de problematizar a realidade educacional e contribuir
de forma crítica, reflexiva e criadora na construção de uma nova sociedade.
O endereço natural dos formados em Letras é o magistério dos ensinos Fundamental
e Médio, com habilitações em português/inglês e português/espanhol e suas
respectivas literaturas.
Importantes modificações curriculares foram processadas para dar ao curso
interação mais completa entre teoria e prática. Isto caracteriza, por um lado, uma
sintonia com as diretrizes mais atuais do Ministério da Educação e, por outro lado,
um fazer dinâmico e maior abertura no mercado de trabalho.
O curso de Letras do Uni-BH objetiva formar profissionais com sólida base teórico-
científica, capazes de refletir criticamente sobre a realidade educacional brasileira.
UNI-BH – Centro Universitário de Belo Horizonte.
_____________________
PERFIL DO EGRESSO:
O profissional:
considerando-se a flexibilização curricular implementada na
Faculdade de Letras a partir do Semestre de 2001, o profissional formado em
Letras tem à sua disposição recursos que lhe permitem atuar no mercado de trabalho
de maneiras diversas, dependendo da forma como irá compor sua trajetória
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74
acadêmica. Assim, o profissional poderá encontrar no curso de Letras instrumentos
que subsidiem sua atuação como redator, revisor, editor, tradutor, crítico literário,
profissional de áreas diversas no âmbito da cultura, pesquisador de aspectos diversos
de língua e literatura e interfaces destas, entre outros. Em sentido estrito, as
orientações para o profissional formado em Letras são as seguintes:
O Licenciado em Letras es habilitado ao exercício do magistério no Ensino
Fundamental e Médio em uma das línguas e sua(s) literatura(s) ofertadas pelo curso.
A sua formação permite-lhe, ainda, ser professor de Ensino Superior, assim como
prosseguir estudos em programa de Pós-Graduação.
UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais.
Os perfis do egresso expostos acima ilustram claramente as diversas
tendências de formação docente que vêm sendo concebidas e praticadas e, ao mesmo tempo,
abrem precedentes para a reflexão sobre quais seriam as verdadeiras bases que, atualmente,
fundamentam a formação do graduando em Letras. Se, por um lado, é notória a necessidade
da universidade em formar profissionais capazes de desenvolver habilidades de interação
lingüística através de textos orais e escritos, bem como promover o espírito investigativo, por
outro, de repensar as diretrizes e mesmo o atual caráter das disciplinas e das abordagens
dos conteúdos que compõem suas grades curriculares. Assim, as novas propostas curriculares
que se apresentam, além de marcarem a historicidade dos processos de formação docente na
atualidade, vêm confirmando que as diretrizes dos cursos de Letras interferem diretamente na
abordagem dos vários aspectos da língua pela relação direta existente entre a instituição
formadora, o conhecimento transmitido e público formado. Isso nos leva a questionar se os
graduandos estão sendo direcionados a se apropriarem do objetivo da formação em Letras,
que pressupomos ser o ensino de língua materna, ou se tal formação vem distanciando os
graduandos da experiência de se tornarem agentes nos processos de ensino-aprendizagem.
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75
Capítulo I I:
METODOLOGIA DA PESQUISA
Neste capítulo, expomos a metodologia adotada na realização da pesquisa.
Iniciamos esclarecendo sobre a natureza da investigação e o quadro teórico no qual a mesma
se insere. Em seguida, apontamos os participantes da pesquisa, caracterizando-os, sendo que
foram os produtores do corpus, que serviu de análise. Também, discorremos sobre o contexto
em que ocorreu a coleta dos dados e, por último, expomos os procedimentos dessa coleta e
como o corpus foi constituído.
2.1 – A natureza da pesquisa:
A presente pesquisa se insere no quadro das investigações de base qualitativa
ou interpretativa. O trabalho foi realizado com uma amostra significativa de dados coletados
em três grandes centros de formação docente na cidade de Belo Horizonte MG, permitindo
compreender a dimensão formativa e os processos de concepção de ensino-aprendizagem de
Língua Portuguesa que vêm se consolidando nos cursos de Letras na atualidade. Assim, o
caráter qualitativo da investigação nos possibilita entender que:
as interpretações feitas o vinculadas a um dado tempo e a um dado contexto e, portanto,
não se poderia falar em generalização nos termos tradicionais. Neste caso, a possibilidade
de aplicação dos resultados a um outro contexto dependerá das semelhanças entre eles e a
decisão sobre essa possibilidade cabe ao “consumidor potencial”, isto é, a quem pretende
aplicá-los em um contexto diverso daquele no qual os dados foram gerados.
(ALVES-MAZZOTTI, 1998, p. 174)
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76
Dessa forma, acreditamos que a natureza qualitativa aplicada a esta pesquisa
nos permite aprofundar nas reflexões de forma interpretativa e ao mesmo tempo informativa,
partindo das singularidades que abarcam toda a complexidade subjacente aos fenômenos
observados. As análises desenvolvidas a partir do corpus reunido referem-se ao contexto em
que os dados foram produzidos, não permitindo generalizações dos resultados. Por outro lado,
estes dados possibilitam “uma generalização construída intersubjetivamente, que privilegia a
especificidade, o contingente e o particular” (MOITA-LOPES, 1994, p. 332). Nesse sentido,
certamente, os resultados que emergem das análises contribuem para as reflexões sobre o
processo de formação do professor de Língua Portuguesa e ainda possibilitam tirar algumas
conclusões sobre a concepção de ensino-aprendizagem de língua materna que vem se
materializando no contexto educacional de formação docente na atualidade. Vale ressaltar que
no decorrer das análises serão apresentados números e porcentagens que nos permitem
afirmar que certo grau quantitativo presente na exposição dos dados ainda que em caráter
mais restrito. Embora o conjunto de dados não ofereça uma amostragem suficientemente
representativa para o trabalho apenas de análise quantitativa, acreditamos que a dimensão
mensurável da realidade exposta a partir do corpus apresenta uma visão concreta da
horizontalidade dos extratos mais densos de uma realidade maior que possa representar.
Assim, os meros apresentados auxiliam no planejamento e na interpretação dos fenômenos
que emergem das análises qualitativas compostas aqui, principalmente porque dizem respeito
aos sujeitos que espelham com fidelidade o coletivo social no seu contexto natural. Dessa
forma, entendemos que:
Os métodos qualitativos e quantitativos não se excluem. Embora difiram quanto à forma e à
ênfase, os métodos qualitativos trazem como contribuição ao trabalho de pesquisa uma
mistura de procedimentos de cunho racional e intuitivo capazes de contribuir para a melhor
compreensão dos fenômenos. Pode-se distinguir o enfoque qualitativo do quantitativo, mas
não seria correto afirmar que guardam relação de oposição.
(POPE & MAYS, 1995, p. 42)
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77
2.2 – A elaboração da pesquisa:
A pesquisa foi elaborada visando investigar o processo de formação do
graduando do curso de Letras, seus conhecimentos prático-teóricos sobre a ngua e o
conjunto de crenças sobre o ensino-aprendizagem que normalmente é instituído no ambiente
universitário. Foram escolhidas três instituições de ensino superior localizadas na cidade de
Belo Horizonte MG que possuem uma considerável tradição na formação de professores de
Língua Portuguesa. Tendo como objetivo principal fazer uma análise e dar um diagnóstico
qualitativo sobre as competências formativas e informativas do graduando a partir do trabalho
que é realizado no curso de Letras, consideramos como sujeito informante na investigação
não apenas esse graduando, mas também o professor universitário diretamente envolvido na
formação do futuro docente. Assim, a pesquisa seguiu duas vertentes básicas de análise
investigativa. De um lado, o graduando que estivesse em fase de conclusão do curso, ou seja,
que estivesse no último período ou que tivesse concluído os créditos referentes à metade desse
curso. Do outro lado, a instituição de ensino representada pelas propostas curriculares e pelo
professor que tivesse ofertado alguma disciplina vinculada ao ensino de Língua Portuguesa.
Dessa forma, a partir da análise prévia dos currículos, elaboramos e repassamos aos
envolvidos na pesquisa materiais que pudessem fornecer dados satisfatórios para traçar o
conjunto de crenças e de conhecimentos sobre a língua e sobre seu ensino-aprendizagem,
tanto no que diz respeito ao domínio de competências pragmático-discursivas quanto no que
diz respeito aos aspectos de conhecimento da gramática normativa. Finalmente, após definir
os pontos que seriam explorados, delineamos quatro etapas para o levantamento dos dados e
posteriormente a análise dos mesmos.
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78
Na primeira etapa, elaboramos uma carta de apresentação
(cf. APÊNDICE - A)
endereçada aos coordenadores dos cursos de Letras das instituições selecionadas, contendo
informações sobre o pesquisador, seu orientador, a instituição de ensino, a linha de pesquisa à
qual estavam vinculados, a natureza da pesquisa e os aspectos referentes aos dados que seriam
levantados junto aos graduandos e aos professores que atendessem aos quesitos relatados
anteriormente.
Na segunda etapa, analisamos os currículos e as ementas das disciplinas do
curso de Letras das instituições que serviram de locus para a pesquisa. A partir dessa análise,
selecionamos de forma mais clara as disciplinas e conseqüentemente os professores
vinculados ao trabalho de discussão, reflexão e proposta de ensino-aprendizagem de Língua
Portuguesa. Partimos do pressuposto de que a análise geral dos currículos e ementas facilitaria
a escolha dos professores que participariam da pesquisa e, ao mesmo tempo, nos daria uma
visão ampla sobre o perfil de formação proposto pela instituição no que concerne ao trabalho
com a língua materna, aspecto relevante para esta pesquisa.
Na terceira etapa, após definidas as disciplinas e os professores do curso de
Letras vinculados ao trabalho de discussão e reflexão envolvendo o ensino-aprendizagem de
língua materna, elaboramos e repassamos um questionário para esses professores
(cf. ANEXOS - A)
20
. A partir das respostas contidas no questionário, esperávamos reunir um
conjunto de dados relativos à concepção do professor universitário sobre o ensino-
aprendizagem de Língua Portuguesa, suas estratégias de ensino, suas escolhas didático-
pedagógicas, bem como sua opinião sobre aspectos ligados às teorias lingüísticas no contexto
20
Ressaltamos que o número de páginas que formam os anexos desta dissertação é relativamente grande
totalizando 208 páginas divididas em: 10 questionários respondidos pelos professores universitários e 158
atividades feitas pelos graduandos e divididas em: 30 questionários, 64 propostas de produção de texto e 64
atividades de conhecimentos gramaticais. Assim, a tulo de ilustração e exemplificação, selecionamos cerca de
20 do total de atividades para compor os anexos deste trabalho.
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79
educacional universitário em que um professor de Língua Portuguesa formador de outros
profissionais para a atuação como professores dessa língua.
Na quarta e última etapa, selecionamos em cada instituição de ensino uma
turma de graduandos em Letras que estavam cursando o último período - período - para a
realização das tarefas destinadas a eles. Elaboramos três tarefas que deveriam ser realizadas
individualmente. A primeira tarefa consistiu na produção de um texto escrito,
(cf. ANEXOS - B) em que o graduando, a partir da leitura de um trecho retirado de um artigo
sobre questões pertinentes ao ensino de língua, deveria expor suas idéias sobre a formação do
aluno do curso de Letras, considerando as discussões atuais que envolvem o ensino de Língua
Portuguesa na educação básica. Optamos por um tema diretamente ligado ao processo de
formação desse graduando por acreditar que, dessa forma, não haveria maiores dificuldades
no desenvolvimento das idéias e na exposição das argumentações. Trabalhamos com a
hipótese de que, por se tratar de uma situação formal de produção textual, os graduandos
iriam produzir um texto seguindo as normas da língua padrão escrita. A segunda tarefa
consistiu em responder a um exercício sobre questões de gramática normativa, envolvendo
classificação, descrição e análise gramatical (cf. ANEXOS - C). Essa tarefa foi elaborada a
partir de um texto que tratava das mudanças ocorridas na sociedade nos últimos anos, o
reflexo dessas mudanças no contexto escolar e a formação dos alunos nesse novo contexto e
demanda dos novos tempos (cf. item 2.6.2 TAREFA 02 deste capítulo). Tais exercícios
foram elaborados seguindo modelos tipicamente encontrados em gramáticas e livros didáticos
destinados ao ensino de Língua Portuguesa na educação básica. O objetivo dessa tarefa foi
verificar os conhecimentos gramaticais dos graduandos que, após passarem pelo processo de
escolarização na educação sica, estavam reconstruindo tais conhecimentos agora em um
curso superior que prepara indivíduos para atuar como professores de Língua Portuguesa. A
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80
terceira e última tarefa consistiu em responder a um questionário envolvendo indagações
sobre o ensino de Língua Portuguesa na educação básica e no ensino superior, considerando o
professor e seu papel como mediador no processo de ensino-aprendizagem de língua materna
(cf. ANEXOS - D). O objetivo desse questionário foi reunir um conjunto de dados sobre a
concepção do graduando relativo a seu processo de formação universitária, o papel do
professor na educação básica e os aspectos pertinentes ao ensino-aprendizagem de Língua
Portuguesa no contexto educacional atual.
2.3 – Sobre os participantes da pesquisa:
2.3.1 – O professor do curso de Letras:
Foram selecionados 12 (doze) professores universitários entre as instituições
de ensino superior que serviram de locus para a pesquisa. Esses profissionais foram
escolhidos seguindo critérios de vínculo com as instituições de ensino, o trabalho docente
executado nessas instituições, sobretudo aquele trabalho envolvendo o ensino-aprendizagem
de Língua Portuguesa e a disponibilidade para responder ao questionário destinado a eles.
Assim, todos os professores informantes que responderam ao questionário atuam como
docentes no curso de Letras, lecionam disciplinas ligadas ao ensino de língua materna e foram
professores dos graduandos que também serviram de informantes nesta investigação. Para
preservar a autenticidade dos dados coletados na pesquisa, nenhum professor foi informado
sobre qual tipo de análise seria feita das informações prestadas, a fim de que tais informações
não fossem tendenciosas ou camufladas pelos informantes. Como não foi solicitado o nome
do professor, nem o nome da instituição de ensino, atribuímos um número para cada envelope
que continha o questionário destinado aos docentes da instituição. Informamos o grau de
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81
escolaridade e o ano de conclusão do curso de pós-graduação por questões organizacionais de
disposição dos sujeitos no quadro representativo, não sendo tais informações um critério
específico aplicado aos propósitos de análise desta pesquisa. Por outro lado, a área de atuação
docente é explicitada porque foi um dos critérios usados na escolha dos informantes que,
como dito anteriormente, deveriam ser professores universitários envolvidos em questões
ligadas ao ensino de ngua materna. Esclarecemos que a forma como foi realizada a coleta
dos dados abriu precedentes para que 02 (dois) professores não concluíssem tal tarefa,
reduzindo o número de informantes que era inicialmente de 12 (doze) para 10 (dez)
professores. Dessa forma, apresentamos o quadro a seguir:
QUADRO 01
Identificação dos professores universitários:
Professor:
Grau de escolaridade /
Ano de conclusão:
Área de atuação docente:
01Jo
Doutorado / 1998
Estudos Lingüísticos: Gramática histórica
e seus fundamentos latinos e filologia
românica.
02Ju
Doutorado / 2002
Estudos Lingüísticos: Introdução aos
estudos da linguagem;
Estudos Lingüísticos: Morfossintaxe e
processamento do texto.
03Vir
Mestrado / 1994
Estudos Lingüísticos: Morfologia, léxico
e semântica;
Estudos Lingüísticos: Pragmática e
análise do discurso.
04Her
Doutorado / 2002
Estudos Lingüísticos: Práticas orais e
escritas em língua materna.
05Ger
Mestrado / 2002
Estudos Lingüísticos: Leitura e produção
de textos – teoria, prática e ensino.
06Van
Mestrado / 2000
Estudos Lingüísticos: Morfologia da
língua portuguesa.
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82
07Carl
Doutorado / 1999
Estudos Lingüísticos: Introdução aos
estudos lingüísticos;
Estudos Lingüísticos: Oficina de Língua
Portuguesa – leitura e produção de textos.
08Del
Doutorado / 2002
Estudos Lingüísticos: Lingüística aplicada
ao ensino – Fundamentos metodológicos
do ensino de português.
09Lui
Doutorado / 1995
Estudos Lingüísticos: Tópicos em
Semântica – Noções básicas de
Semântica, interação e discurso.
10Re
Doutorado / 1999
Estudos Lingüísticos: Introdução aos
estudos da linguagem.
Total:
10
Amostragem:
100%
Vale destacar que os objetivos das análises não contemplaram fazer
distinções dos informantes envolvidos por instituição de ensino, ou seja, separar o grupo de
informantes em grupo da instituição A, ou B, ou C. Essa postura nos desvencilhou da
necessidade de separar os professores universitários em grupos distintos. Assim, a
identificação dos professores diz respeito a uma amostragem de docentes que trabalham com
o ensino de Língua Portuguesa no curso de Letras de instituições de ensino na atualidade. A
escolaridade e o ano de conclusão da pós-graduação ilustram de forma clara o nível de
instrução escolar de cada informante, permitindo delinear o perfil acadêmico dos sujeitos
envolvidos. A área de atuação docente explicita de forma ampla a direção que é dada ao
trabalho que cada professor informante realiza na instituição de ensino onde trabalha.
Continuação Quadro 01
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83
2.3.2 – O graduando do curso de Letras:
Os graduandos que fizeram parte da pesquisa formaram um total de 64
(sessenta e quatro) alunos do curso de Letras com habilitação em Língua Portuguesa. Esses
graduandos estavam basicamente concluindo a graduação, ou seja, estavam matriculados no
último período do curso. O caráter heterogêneo das turmas, tanto no aspecto de número de
graduandos em sala de aula como no aspecto de regularidade no cumprimento de créditos em
disciplinas do curso da instituição, configurou a não-especificação de um grupo de
graduandos em detrimento de outro, nem à delimitação de um número específico de
graduandos informantes para cada tarefa, ficando limitado ao critério de participação na
pesquisa aquele graduando que tivesse disponibilidade para resolver as questões propostas nas
tarefas e aquele graduando que, mesmo não estando integralmente matriculado no último
período, tivesse cumprido pelo menos os créditos referentes à metade do curso. Ao contrário
da proposta inicial que consistia em trabalhar com graduandos matriculados integralmente no
último período, decidimos não excluir aquele graduando que, mesmo estando no último
período, precisaria eventualmente cumprir créditos em disciplinas de um período anterior.
Partimos do pressuposto de que, assim como o graduando em processo de conclusão integral
do curso, também aquele graduando que tivesse cursado pelo menos a metade da graduação
teria condições de fornecer dados satisfatórios acerca dos propósitos apresentados nesta
investigação. Assim, os informantes desta vertente da pesquisa são graduandos com formação
em ensino-aprendizagem de língua materna e estão em processo de conclusão do curso de
graduação. Dessa forma, apresentamos o quadro a seguir:
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QUADRO 02
Identificação dos graduandos do curso de Letras:
Graduandos
Total de participantes:
Amostragem:
Informantes – locus 01
15
23,4%
Informantes – locus 02
29
45,3%
Informantes – locus 03
20
31,3%
Total:
64
Amostragem:
100%
Ressaltamos que, em relação aos graduandos, os objetivos do levantamento
de dados e posteriormente a análise dos mesmos também o contemplaram fazer distinções
dos informantes por instituição de ensino. Desse modo, a disposição mostrada no quadro
anterior, apesar de apresentar os informantes por quantidade exata encontrada no locus da
pesquisa, na verdade, representa a soma total dos graduandos das três instituições visitadas
sem a categorização destes por critérios de agrupamento que representasse a instituição A, ou
B, ou C. Optamos pela análise conjunta dos dados fornecidos pelos graduandos informantes,
porque partimos da premissa de que o objetivo deste trabalho o é apresentar um perfil de
formação ou nível de conhecimento do grupo de graduandos de uma instituição em relação ao
grupo de outra, mas apresentar um panorama atualizado dos processos de formação do
graduando em Letras no que concerne à sua concepção sobre o ensino-aprendizagem de
Língua Portuguesa na educação básica.
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2.4 – O processo de coleta de dados:
O processo de coleta de dados ocorreu no período de outubro a dezembro de
2007. O primeiro procedimento foi contatar os coordenadores dos cursos de Letras de cada
uma das três instituições selecionadas para repassar a carta de apresentação destinada a eles
(cf. APÊNDICE - A) e para expor a natureza da pesquisa e os procedimentos que seriam
adotados na coleta dos dados. Como a investigação contemplava a análise dos currículos dos
cursos em questão, solicitamos aos coordenadores uma cópia dos mesmos. Após a análise
geral dos currículos e das ementas das disciplinas, selecionamos junto aos coordenadores os
professores da instituição que poderiam participar da pesquisa. Selecionamos inicialmente 04
(quatro) docentes de cada instituição, totalizando 12 (doze) possíveis professores informantes.
Tais professores tiveram o prazo de duas semanas para responder às questões, devendo assim,
devolver o questionário em envelope lacrado. A realização dessa tarefa e a devolução dos
envelopes ocorreram no prazo determinado sem maiores problemas. No entanto, como
elucidado anteriormente, 02 (dois) professores não entregaram o envelope contendo as
respostas do questionário no tempo hábil, reduzindo o número de sujeitos que inicialmente
eram 12 (doze) para 10 (dez) professores informantes.
Em um outro momento, definimos com os coordenadores o encontro com os
graduandos que ocorreu em um horário regular de aula na instituição. O objetivo do encontro
foi viabilizar a aplicação das tarefas destinadas aos graduandos. Desse modo, no dia agendado
pela coordenação de cada instituição, apresentamo-nos às turmas e prestamos esclarecimentos
sobre a pesquisa, explanando sobre seu caráter científico e que sua realização envolvia o
levantamento de dados junto aos graduandos e aos professores daquela instituição. Em
seguida, explicamos que tais graduandos fariam duas atividades individualmente, sem troca
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86
de opiniões com outras pessoas ou consulta a qualquer tipo de fonte como gramáticas,
dicionários, artigos, manuais de redação, etc. Pontuamos que os graduandos teriam duas
horas, ou seja, dois horários seguidos de aula naquele dia para realizarem as tarefas propostas
e que, ao final do tempo estipulado, as atividades deveriam ser devolvidas. Esclarecemos
ainda que em nenhum momento fosse identificado o nome do graduando informante ou da
instituição de ensino e que, se o graduando optasse por fazer algum rascunho, deveria anexá-
lo juntamente às atividades. Primeiramente, aplicamos uma atividade de produção de texto
(cf. ANEXOS - B) com o objetivo de avaliar a escrita em língua padrão dos informantes a
partir de um tema preestabelecido. Como explicado anteriormente, a proposta de redação
consistia na produção de um texto dissertativo-argumentativo escrito em língua padrão, tendo
como elemento motivador a leitura de um pequeno trecho retirado de um livro que
discute assuntos ligados à pesquisa lingüística e ao ensino de língua materna
(cf. item 2.6.2 TAREFA 01 deste capítulo). Após a leitura do trecho selecionado e
reproduzido na folha, o graduando deveria expor suas idéias sobre a formação do professor no
curso de Letras, considerando as discussões sobre o ensino-aprendizagem de Língua
Portuguesa que discorrem no meio acadêmico na atualidade. Trabalhamos com a hipótese de
que com essa atividade o graduando produziria um texto formal, seguindo as normas da
língua padrão e que, ao mesmo tempo, estaria expondo sua opinião sobre aspectos ligados ao
ensino-aprendizagem da língua no que concerne às várias visões e discussões que emergem
dos estudos na área da investigação lingüística. Em seguida, após recolhidas todas as redações
produzidas pelos graduandos, aplicamos uma atividade de conhecimentos lingüístico-
gramaticais (cf. ANEXOS - C), com o objetivo de avaliar as competências dos graduandos em
relação ao domínio das regras de classificação, descrição e análise gramatical. Essa atividade
foi elaborada a partir de um texto retirado de uma revista de circulação nacional, cujo tema
abordava o papel da escola na atualidade, pontuando as habilidades que os alunos deveriam
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87
desenvolver para enfrentar as demandas dos novos tempos (cf. item 2.6.2 – TAREFA 02 deste
capítulo). Os exercícios foram elaborados seguindo modelos que são facilmente encontrados
em gramáticas normativas e em grande parte dos livros didáticos do ensino fundamental e
médio. Partimos do pressuposto de que as questões contidas nesta atividade eram pertinentes
aos conhecimentos dos graduandos por se tratar de indivíduos que se preparavam para atuar
como professores de Língua Portuguesa. Assim, esperávamos com esta atividade verificar os
conhecimentos gramaticais explícitos dos graduandos informantes que, após anos de
escolarização, se colocavam nos bancos universitários para uma “reimersão” aos estudos da
norma culta e da língua padrão no seu processo de formação docente. Por último, repassamos
aos graduandos um questionário (cf. ANEXOS - D) que não seria respondido em sala de aula.
Cada graduando recebeu um questionário e teve o prazo de uma semana para respondê-lo.
Explicamos que, na semana seguinte à nossa visita destinada à aplicação das tarefas,
voltaríamos na turma para recolher os questionários respondidos. O objetivo do questionário
foi reunir um conjunto de dados relativos à concepção do graduando sobre o ensino-
aprendizagem de Língua Portuguesa no que se refere aos aspectos ligados às teorias
lingüísticas estudadas no curso de Letras, sua aplicabilidade no contexto escolar, o papel da
norma culta e da língua padrão na escola, bem como a visão sobre o papel do professor de
Língua Portuguesa frente ao seu objeto de ensino e às demandas e necessidades sociais na
atualidade. Trabalhamos com a hipótese de que, depois de realizadas as atividades de
produção de texto e de conhecimentos gramaticais, o graduando teria condições de responder
às questões propostas no questionário, refletindo sobre seu processo de formação, suas
competências e habilidades frente à língua e ao papel do professor em processo de formação.
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2.5 – A constituição dos dados:
Como explanado anteriormente, a presente pesquisa seguiu duas vertentes
básicas de investigação, tendo como informantes professores universitários do curso de Letras
e graduandos desses cursos. Assim, o conjunto de dados analisados foi constituído por
questionários, textos escritos e testes gramaticais reunidos da seguinte forma: 10 (dez)
questionários respondidos pelos professores universitários; 30 (trinta) questionários
respondidos pelos graduandos; 64 (sessenta e quatro) textos produzidos pelos graduandos; e
64 (sessenta e quatro) testes gramaticais respondidos pelos graduandos. Vale ressaltar que o
número de questionários respondidos pelos graduandos é menor que o número das outras
atividades feitas por eles em sala, ou seja, 64 (sessenta e quatro) redações e 64 (sessenta e
quatro) exercícios gramaticais. Tal fato se justifica devido ao contexto em que ocorreu a
realização da atividade com o questionário. Como explicamos no tópico anterior, o graduando
informante teve o prazo de uma semana para responder ao questionário. Assim, no dia
agendado por nós para o recebimento desse questionário, alguns não tinham respondido ou
não tinham levado o questionário respondido, o que ocasionou a diferença entre o número de
questionários em relação às outras atividades feitas na semana anterior. Após analisar a
situação, concluímos que, por se tratar de uma pesquisa de caráter qualitativa, esta variável
não interferiria no processo de análise, reflexão e apuração dos resultados que estavam sendo
investigados.
Os eventuais rascunhos que foram entregues juntamente às atividades de
produção de texto, conforme solicitado por nós, o fizeram parte do conjunto de dados da
pesquisa. Nossa intenção ao solicitar a entrega dos rascunhos era verificar se os graduandos
informantes tiveram uma preocupação com a escrita monitorada, assim, evitando rasuras ou
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uso de corretivos na versão definitiva, principalmente por se tratar de uma produção escrita
em uma situação de formalidade. Entretanto, apenas 03 (três) graduandos informantes
entregaram as produções com os rascunhos em anexo, o que configurou o ter sido esse
aspecto relevante para os sujeitos. Assim, tais rascunhos não fizeram parte dos dados
analisados na pesquisa, sendo, portanto, descartados.
2.6 – Procedimentos teórico-metodológicos de análise dos dados:
2.6.1 – Os professores do curso de Letras:
Solicitamos aos professores universitários que respondessem a um
questionário contendo 10 (dez) perguntas abertas a seguir:
1ª) Em sua opinião, o que é ensinar Língua Portuguesa para nativos dessa língua?
Com essa pergunta, pretendíamos saber como o professor universitário
concebia a noção de Língua Portuguesa tomada como objeto de ensino-aprendizagem em um
contexto envolvendo falantes dessa língua que, após terem passado pelo processo de
escolarização na educação sica, se encontravam em uma instituição de ensino superior no
processo de formação para atuarem também como professores dessa língua.
2ª) Quais estratégias de ensino são usadas por você no cotidiano do curso de Letras no que
se refere à “reimersão” do graduando à norma culta e à língua padrão?
Nessa questão, pretendíamos saber como o professor universitário
materializava sua ação enquanto professor de língua materna ao considerar os graduandos do
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curso de Letras como indivíduos que passaram pelo processo de treinamento e
aprendizagem das modalidades cultas da língua na educação básica e que estavam novamente
inseridos no estudo sistematizado de tais modalidades, porém em um curso superior destinado
à formação de professores de Língua Portuguesa.
3ª) Em sua opinião, quais textos (gêneros textuais) deveriam ser priorizados ou deveriam
servir de mecanismo para fomentar situações de efetiva reflexão e aprendizagem de aspectos
da língua no curso de Letras? Explique.
Queríamos saber aqui quais concepções sobre gênero textual eram
desenvolvidas pelo professor universitário ao trabalhar com textos em sala de aula,
considerando seu aluno como um graduando do curso de Letras em processo de formação e
como um sujeito que interage com o mundo e com o outro, baseando seus discursos em
diferentes formas de composição textual, tendo tipologias textuais e gêneros textuais diversos
como “moldes” em suas interações.
4ª) Oralidade e escrita são manifestações da língua com aspectos peculiares em seus
processos e usos. No processo de formação do graduando, que aspecto da ngua deve ser
priorizado: oralidade ou escrita? Explique.
Nessa questão, pretendíamos saber quais noções sobre oralidade e escrita
emergiam do discurso do professor universitário e, ao mesmo tempo, em que aspecto de
ensino da língua este professor se filiava no seu fazer docente ao trabalhar com a língua no
curso de Letras.
5ª) Partindo do pressuposto de que o graduando do curso de Letras passou pelo processo de
escolarização no ensino fundamental e médio, você encontra dificuldades ligadas ao
desempenho lingüístico dos graduandos no seu trabalho com a língua? Qual a explicação
para tais dificuldades? Como fazer para solucioná-las?
Com essa pergunta, pretendíamos saber se o professor universitário
encontrava problemas ligados ao desempenho dos graduandos com relação aos usos da língua,
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sobretudo na modalidade da escrita padrão e como ele administrava tais problemas na sala de
aula e nos processos de avaliação.
6ª) Em sua opinião, como o graduando deve conciliar os aspectos teórico-gramaticais e os
aspectos sociodiscursivo-interacionais no futuro exercício docente, ou seja, na sala de aula
quando estiver ensinando Língua Portuguesa?
Nessa questão, interessávamos saber como o professor concebia os aspectos
teóricos e práticos ligados ao trabalho com a língua em sua aula e, ao mesmo tempo, como
concebia os aspectos ligados ao estudo da gramática normativa tendo como interlocutores
graduandos que também seriam professores de língua materna.
7ª) Como você sua prática docente (ensino de Língua Portuguesa e/ou aspectos dessa
língua) frente às demandas da sociedade atual e o perfil do graduando em Letras que chega
hoje à universidade?
Aqui, pretendíamos saber como o professor universitário entendia seu
trabalho com a Língua Portuguesa ao considerar o contexto sociolingüístico de sua
comunidade de fala e, sobretudo seu aluno, ou seja, um usuário dessa língua em processo de
formação superior para o exercício da docência como professor de Língua Portuguesa.
8ª) Você acha importante o estudo da norma culta / língua padrão no curso de Letras? Por
quê?
Nessa questão, pretendíamos saber se o professor universitário achava
importante abordar no curso de Letras aspectos envolvendo o estudo das modalidades cultas
da língua, bem como o estudo da gramática normativa e o treino em língua padrão.
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92
9ª) Você faz uso de gramáticas normativas no seu trabalho com os graduandos? Por quê?
Com essa pergunta, pretendíamos saber se o professor universitário achava
importante e mesmo se usava algum tipo de gramática normativa nas aulas ministradas para
os graduandos em processo de formação.
10ª) Você acha que o graduando em Letras da instituição em que você trabalha conclui o
curso apto a dar aulas de português, inclusive com relação ao ensino da norma culta / língua
padrão? Por quê?
Aqui, queríamos saber se o professor universitário pressupunha que o
graduando formado por ele teria condições de assumir uma sala de aula como professor de
Língua Portuguesa e se acreditava que esse graduando era formado no curso de Letras tendo
habilidade, conhecimento e domínio sobre os aspectos envolvendo os usos da língua,
sobretudo a norma culta e a língua padrão.
Dessa forma, as análises foram feitas considerando as respostas e
justificativas emitidas pelos professores universitários. Tais análises foram realizadas a partir
dos aspectos abordados pelos próprios professores em suas respostas, considerando as
justificativas dadas por eles e os objetivos explanados anteriormente.
2.6.2 – Os graduandos do curso de Letras:
Como já explicitado, os graduandos realizaram três tarefas distintas a seguir:
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93
1ª) TAREFA – Produção Textual:
A proposta de produção de texto teve como elemento motivador um trecho
de um artigo de Marcos Bagno contendo a seguinte orientação:
Como os graduandos informantes eram indivíduos em processo de formação
profissional na área de ensino de língua materna, optamos por um tema ligado a essa área por
entender que tais graduandos teriam maior facilidade em expor suas idéias sobre aspectos
ligados ao ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa a partir das visões e reflexões que
compreendem os estudos lingüísticos e que fazem parte do contexto de formação do estudante
do curso de Letras. Assim, consideramos a proposta de redação pertinente à realidade do
graduando que teria condições de desenvolver um texto escrito, tendo como pressuposto sua
própria experiência acadêmica, o que eliminaria a necessidade de alguma orientação além
daquela fornecida, ou mesmo, a possibilidade de haver algum graduando que entregasse a
atividade em branco.
PRODUÇÃO TEXTUAL
Lentamente se vai reconhecendo, por exemplo, que a função primordial do ensino de ngua na escola o
é inculcar uma norma-padrão por meio da doutrina gramatical tradicional, mas sim favorecer a criação de
condições para o letramento contínuo e ininterrupto dos alunos, isto é, para a aquisição e pleno
desenvolvimento de habilidades de leitura e de escrita, associadas a práticas relevantes de oralidade e à
reflexão sobre a língua.
(Bagno, Marcos [org] – Lingüística da norma, p. 197, 2002).
ATIVIDADE: A partir da leitura do trecho acima, redija um texto dissertativo-argumentativo, expondo
suas idéias sobre a formação do graduando em Letras, considerando as discussões que discorrem sobre o
ensino de Língua Portuguesa atualmente. (Orientações: caso faça um rascunho, favor anexá-lo; se o
número de linhas for insuficiente, use o verso desta folha)
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94
Optamos pela produção de um texto “dissertativo-argumentativo”, por se
tratar de um tipo textual mais amplo e comumente utilizado no contexto acadêmico, tanto em
atividades avaliativas regulares como em atividades envolvendo a produção de um texto mais
elaborado e escrito em língua padrão. Acreditamos que se a proposta sugerisse a produção de
um gênero específico como, por exemplo, uma carta, um artigo de opinião, uma resenha, ou
uma reportagem jornalística, alguns graduandos poderiam encontrar dificuldades com relação
às especificidades de um determinado gênero, mesmo tratando-se de indivíduos envolvidos
permanentemente com o trabalho e o estudo sobre as teorias dos gêneros textuais. E, por outro
lado, nosso objetivo não era observar ou medir as competências do graduando informante
sobre gêneros textuais diversos, mas sim observar as competências que envolviam a produção
de um texto formal, seguindo os padrões cultos da escrita em Língua Portuguesa.
Para realizar a análise das redações, pautamos principalmente no modelo
teórico-metodológico proposto por Evangelista et al. (1998). Esse modelo foi elaborado
visando contemplar um projeto de avaliação de redações escolares dentro de uma abordagem
de interação verbal. Os procedimentos teórico-metodológicos propostos por Evangelista et al.
(1998) foram desenvolvidos para a avaliação do desempenho na produção de textos escritos
formais de alunos da série do ensino fundamental e série do ensino médio das escolas
públicas estaduais de Minas Gerais. As provas foram formuladas e aplicadas no final do ano
letivo de 1993, pela SEE-MG (Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais). Foram
avaliadas cerca de 95 mil redações, sendo que, aproximadamente, 24 mil fizeram parte de
uma amostragem para análise qualitativa e quantitativa mais específica. Como havia um
grande número de redações em processo de avaliação e uma numerosa equipe de avaliadores
envolvidos nesse processo, chegou-se à conclusão de que haveria a necessidade de adotar um
parâmetro claro e bem definido, a fim de buscar uma uniformidade no trabalho, uma vez que
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95
as redações poderiam sofrer diferentes métodos de análise de um avaliador para outro,
comprometendo os objetivos propostos naquela situação de avaliação. Dessa forma, foi
proposto um modelo geral de avaliação do texto escrito em questão. Essa generalização pode
ser justificada pelo fato de ter sido avaliada uma única situação de interlocução, ou seja, a
redação escolar. Isso reforça nossa escolha por este esquema teórico-metodológico de análise,
visto que os textos que compõem os dados desta pesquisa também fazem parte de uma única
situação de interlocução, neste caso, o texto dissertativo-argumentativo de caráter formal.
Na elaboração dos critérios do modelo proposto, Evangelista et al. (1998)
contemplaram três dimensões consideradas necessárias ao funcionamento textual: a
comunicativa ou pragmática, a semântica e a formal ou gramatical. Nessa perspectiva,
afirmam que:
A concepção que nos serviu de base, explicitada anteriormente, foi a de que todo texto
escrito funciona como diálogo, como interlocução a distância: quem escreve leva em conta
para quem, para que, onde e quando está escrevendo e também em que situação seu texto
será lido. É particularmente importante, para o autor de um texto escrito, prever quem será o
seu leitor – o que ele sabe e o que deixa de saber, o que espera encontrar naquele texto, com
que disposição entra nesse jogo comunicativo.
(EVANGELISTA et al., 1998, p. 71)
Os pressupostos do modelo elaborado estão relacionados aos sete princípios
da textualidade apontados por Costa Val (1991) que se relacionam com o material conceitual,
lingüístico, pragmático e sócio-discursivo do texto, ou seja, a coerência, a coesão, a
intencionalidade, a aceitabilidade, a situacionalidade, a informatividade e a intertextualidade.
Desse modo, os critérios que nortearam o modelo proposto por Evangelista et al. (1998) não
foram resumidos ao binômio conceitual de “certo” ou “errado”, pois foi considerada a
situação em que os textos foram produzidos e quem os produziu. Em outras palavras, os
critérios de avaliação foram formulados, buscando considerar não apenas o produto, ou seja, a
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96
redação, mas toda a complexidade que envolve o processo de produção e circulação dessa
forma de escrita.
Retomando as dimensões de funcionamento textual, no aspecto comunicativo
ou pragmático, Evangelista et al. (1998) procuraram avaliar as redações, considerando o texto
escrito como um diálogo, uma comunicação à distância
(cf. EVANGELISTA et al., 1998, p. 71)
,
pois para se produzir esse gênero textual, os alunos teriam de observar o contexto em que
estavam inseridos, ou seja, a produção de um texto escrito que seria avaliado por uma equipe
de profissionais da SEE-MG que não faziam parte do cotidiano escolar desses alunos. A
situação de produção era formal e os textos seriam avaliados nos moldes da avaliação escolar.
Assim, “a proposta foi o elemento concreto que lhes possibilitou levantar hipóteses sobre que
tipo de texto era esperado deles naquela situação, do que deveriam falar, em que tom,
contando com que conhecimentos partilhados pelo leitor”
(EVANGELISTA et al., 1998, p. 76)
.
Fica claro então que, nessa perspectiva, analisar o funcionamento comunicativo ou
pragmático de um texto requer a avaliação de todo o processo de elaboração textual,
considerando os aspectos da estruturação semântica (organização do conteúdo) e da
configuração formal (organização dos recursos lingüísticos).
Na avaliação comunicativa, as autoras consideraram dois aspectos:
adequação ao tema e consistência argumentativa. Desse modo, na adequação ao tema, o
produtor do texto deve utilizar estratégias tanto de ordem conceitual quanto de ordem formal
ao interpretar a proposta apresentada no jogo comunicativo. O produtor do texto deve ainda
gerenciar os mecanismos lingüísticos a fim de alcançar seus objetivos, produzindo no leitor
desse texto os efeitos de sentido pretendidos. na formulação da consistência argumentativa,
o produtor do texto deve legitimar sua escrita lançando mão da pertinência e da relevância dos
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97
argumentos apresentados para convencer seu leitor. Nesse caminho, Koch (1986) considera
que os argumentos usados pelo produtor de um texto são um dos fatores mais relevantes para
que o leitor se convença da legitimidade do texto que está lendo. Assim, afirma que
“a interação social por intermédio da língua caracteriza-se, fundamentalmente, pela
argumentatividade” (KOCH, 1986, p. 19).
No aspecto que envolve a dimensão semântica, Evangelista et al. (1998)
procuraram examinar a coerência do texto. Porém, destacam que a coerência e mesmo a
significação não são uma propriedade exclusiva do texto, visto que dependem do contexto
comunicativo, dos conhecimentos partilhados entre os interlocutores e do trabalho
cooperativo na produção de sentido. Nessa perspectiva, Costa Val (2001) afirma que:
A coerência não é um mero traço dos textos, mas sim o resultado de processos
cognitivos entre os usuários do texto, ou seja, ela é construída por operações de
inferência; um texto não tem sentido em si mesmo, mas faz sentido pela interação entre
os conhecimentos que apresenta e o conhecimento de mundo de seus usuários.
(COSTA VAL, 2001, p. 38)
Por outro lado, os usos sociais da língua estabelecem algumas regularidades
para a estruturação semântica e, conseqüentemente, a construção de sentido. De um modo
geral, o leitor de um texto espera que este texto tenha uma unidade temática e que o haja
contradições de idéias para que as argumentações se sustentem e sejam concluídas. Assim,
dentre os critérios adotados, Evangelista et al. (1998) consideraram a continuidade, a
progressão, a articulação e a relação título-texto, sendo este último um critério complementar
específico da escrita. As autoras entendem esses aspectos como tendências mais gerais da
composição do texto falado ou escrito (cf. EVANGELISTA et al., 1998).
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98
Segundo as autoras, a continuidade refere-se ao fio condutor, ou seja, à idéia
central que vai manter e organizar todo o discurso do texto. A progressão é o aspecto
responsável por apresentar informações novas no desenvolvimento do texto. Assim, ao tema
central, vão sendo acrescentadas novas informações. Nesse aspecto, as autoras consideraram
os efeitos da presença ou da ausência da progressão no funcionamento textual das redações
analisadas. a articulação consiste na “inter-relação dos elementos lingüísticos entre si e
com o todo, do nexo que estabelece o encadeamento entre as partes, através das relações
lógico-semânticas” (ibid., p. 81). Dessa forma, podemos pontuar que a articulação é a
conexão estabelecida entre as idéias, podendo ser sinalizada através de elementos lingüísticos
ou através de elementos extralingüísticos relacionados à construção de sentido. Por último, a
relação título-texto refere-se à redação escolar, pois funciona como definidor do tema, além
de mostrar a posição do produtor do texto em relação ao assunto abordado. Vale ressaltar que
algumas dificuldades em delimitar fronteiras entre alguns critérios que compõem a
funcionalidade do texto, pois o processamento textual ocorre de forma global, em que “o
pragmático e o semântico se interpenetram, um tendo implicações sobre o outro”
(EVANGELISTA et al., 1998, p. 82). Contudo, as autoras especificaram os elementos
constitutivos dessa funcionalidade devido à necessidade metodológica de uniformizar os
critérios adotados nas análises das redações que compunham o trabalho de avaliação.
No aspecto que envolve a dimensão formal, Evangelista et al. (1998)
consideraram os recursos lingüísticos do texto no vel da frase (a sintaxe) e no nível textual
(as relações entre as frases de uma seqüência ou parágrafo – a coesão). No entanto, as autoras
postulam que “coesão e sintaxe não são relações fixas, que, uma vez construídas pelo
produtor, serão sempre compreendidas da mesma maneira por todo recebedor, em toda e
qualquer situação” (EVANGELISTA et al., 1998, p. 83). Assim, o conhecimento cultural,
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99
pragmático e discursivo do leitor se faz presente na construção de sentido do texto. Por outro
lado, assim como ocorre na dimensão comunicativa e semântica, existem tendências
dominantes e aceitas socialmente que fazem parte das expectativas dos leitores de um texto
escrito. A ruptura de um contrato de uso da língua interfere na interação e na construção de
sentido, principalmente em uma situação discursiva em que não a presença de outros
recursos como gestos, olhares, expressões faciais ou entonação de voz para auxiliar na
legitimação do ato discursivo em questão. Dessa forma, diante da necessidade de se
estabelecer parâmetros de avaliação bem definidos no que concerne à dimensão formal,
Evangelista et al. (1998) consideraram os seguintes aspectos: a coesão, a morfossintaxe, a
paragrafação e pontuação, a ortografia e a acentuação.
A coesão diz respeito à inter-relação entre os elementos lingüísticos no plano
textual e abrange as relações entre as frases e entre as partes do texto. Segundo as autoras, as
categorias que exercem tipicamente a função de marcadores de coesão textual são: os recursos
anafóricos (pronomes e advérbios, por exemplo, que apontam para elementos de outra parte
do texto); os articuladores (conjunções e algumas expressões que estabelecem relações
semânticas entre as frases e partes do texto); os operadores argumentativos (palavras e
expressões que explicitam relações semânticas e de avaliação do produtor); os tempos e
aspectos verbais (situam as informações textuais); os modos verbais e os verbos modais
(indicam a avaliação do produtor em relação ao estado de coisas expresso, como por exemplo:
o subjuntivo indicando possibilidade ou hipótese, o verbo poder demonstrando necessidade
ou possibilidade); e os processos de coesão lexical, como associação semântica, sinonímia,
antonímia, hiperonímia, hiponímia que retomam informações, evitam repetições, imprimem
novos sentidos. Vale ressaltar que Evangelista et al. (1998) avaliaram a presença ou não dos
recursos coesivos, considerando os efeitos positivos e negativos na ausência e na presença dos
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100
mesmos, medindo sua contribuição para a fluência, a articulação e bom funcionamento do
texto.
Segundo as autoras, a morfossintaxe refere-se à inter-relação entre os
elementos lingüísticos no nível frasal, compreendendo basicamente os aspectos de:
estruturação sintática dos períodos (presença de orações principal e subordinada, de termos
essenciais e termos integrantes), concordância, regência e colocação pronominal. Embora as
autoras pontuem que esses aspectos são mais utilizados na prática tradicional de avaliação de
redações, adotariam no trabalho uma perspectiva interacionista, ou seja, considerariam os
mecanismos de funcionamento discursivo dos textos que estavam sendo avaliados.
Na avaliação da paragrafação e da pontuação, Evangelista et al. (1998)
analisaram como os produtores sinalizaram as unidades sintáticas (a pontuação) e as unidades
semânticas (a paragrafação). Assim, consideraram a organização textual em parágrafos,
indicadores de diálogo e marcadores de pontuação. As autoras fundamentaram este item da
avaliação nos parâmetros de uso social da escrita e, ao mesmo tempo, os efeitos provocados
pelo uso ou não dessas marcas lingüísticas. Assim, demonstraram que “a pontuação é um
sinalizador importante da redação forma-conteúdo” (EVANGELISTA et al., 1998, p. 36).
Na avaliação da ortografia e da acentuação, as autoras seguiram critérios
mais rígidos. Assim, partiram do pressuposto de que em uma situação formal de escrita, como
o caso da produção de uma redação, espera-se que o produtor obedeça às convenções do
código lingüístico. Porém, no trabalho em questão, as autoras consideraram a possibilidade de
representação da língua falada nos diálogos entre possíveis personagens. No entanto,
descartamos essa possibilidade nos textos analisados nesta pesquisa, pois o foi proposta e
nem produzida nenhuma narrativa dialogada nas atividades dos graduandos.
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101
Após apresentarem os parâmetros que conduziram a elaboração do modelo
de avaliação das redações escolares, Evangelista et al. (1998) apresentaram o quadro com os
critérios de correção e de análise das redações como reproduzido a seguir.
QUADRO 03
Critérios usados para correção das redações
FATORES A SEREM CONSIDERADOS CÓDIGO PONTOS
1 - Adequação conceitual
1.1 - Adequação ao tema proposto
T
24
1.2 - Coerência (unidade temática)
1.2.1 - Relação título-texto
Ti
1.2.2 - Continuidade / /
1.2.3 - Progressão (não-circularidade) Ǿ
1.2.4 - Articulação ?[
1.3 - Consistência argumentativa (pertinência, suficiência e
relevância de argumentos)
X
SUBTOTAL 16
2 - Adequação formal
2.1 - Coesão (recursos anafóricos, articuladores, operadores
argumentativos, modalizadores, correlação de tempos e modos
verbais, processos de coesão lexical sinonímia, antonímia,
hiperonímia, hiponímia, associação semântica)
/_______/
2.2 - Morfossintaxe (estruturação de períodos – presença de oração
principal e subordinadas necessárias e de termos essenciais e
integrantes; concordância; regência; emprego de crase; colocação)
[x..y..z]
2.3 - Paragrafação e pontuação
§ e
2.4 - Ortografia e acentuação
Ο
SUBTOTAL
SOMA
NOTA FINAL
(Fonte: EVANGELISTA et al., 1998, p. 88)
Dessa forma, os itens foram agrupados sob a denominação Adequação
Conceitual que correspondem aos aspectos das dimensões comunicativa e semântica e os que
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102
são chamados de Adequação Formal que se referem à dimensão gramatical. Evangelista et al.
(1998) trabalharam com uma escala de nota de 00 a 04 para cada item abordado, sendo que 00
corresponderia ao conceito NULO; 01 FRACO; 02 REGULAR; 03 BOM; e 04
MUITO BOM. As autoras somaram as notas dos 10 itens avaliados, dividindo a soma por 04
para obter a nota final. A distribuição dos pontos foi realizada da seguinte maneira: 60% dos
pontos referiam-se à adequação conceitual (dimensão semântica e comunicativa) e 40%
referiam-se à adequação formal (dimensão gramatical). Conclui-se então que as autoras
buscaram uma avaliação global do texto, enfatizando o aspecto conceitual, postura diferente
daquela normalmente usada em avaliações de textos que se baseiam apenas na análise
gramatical.
Ressaltamos que, conforme mencionando anteriormente, a análise dos textos
produzidos pelos graduandos fundamentou-se no modelo teórico-metodológico proposto por
Evangelista et al. (1998) e apresentado aqui. Contudo, fizemos algumas adaptações a esse
quadro a fim de atender aos objetivos desta pesquisa. Assim, não atribuímos notas aos textos
produzidos pelos graduandos, privilegiando a análise qualitativa. Adotamos a divisão
avaliativa proposta pelas autoras no que concerne à adequação conceitual, envolvendo as
dimensões comunicativa e semântica e, também, à adequação formal, abrangendo a instância
gramatical. Acrescentamos ainda à adequação conceitual um item específico proposto por
Hoffmann (2002), que diz respeito à apresentação gráfica e que contempla: a disposição do
título, a disposição do texto no papel, os recuos de parágrafos alinhados, a escrita sem rasuras
e a legibilidade da letra. Segundo a autora, embora a apresentação gráfica se apresente como
um elemento de pouca relevância para a competência lingüística, ela é muito importante para
a competência comunicativa por apresentar forte influência na impressão geral do avaliador.
Dessa forma, embora a apresentação gráfica não confira efetiva qualidade ou coerência ao
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103
texto, ela é uma estratégia comunicativa da qual o produtor deve se valer a fim de
proporcionar boa impressão ao leitor, uma vez que se torna condição de êxito a que
estão submetidos todos os atos de linguagem enquanto atividades sociais”
(HOFFMANN, 2002, p. 100)
Vale ressaltar que para proceder à análise dos textos que compõem este
trabalho, recorremos ao quadro exposto anteriormente, fazendo as devidas e necessárias
adaptações em sua configuração original. Assim, o quadro a seguir diz respeito ao resultado
das adaptações que foram feitas para a análise dos textos.
QUADRO 04
Critérios para as análises das redações
FATORES A SEREM CONSIDERADOS
CÓDIGO
1 - Adequação conceitual
1.1 - Adequação ao tema proposto AT
1.2 - Coerência (unidade temática)
CO
1.2.1 - Relação título-texto
T/T
1.2.2 - Continuidade e Progressão
CT/PR
1.2.3 - Redundância e Articulação
RD/AR
1.2.4 - Apresentação e adequação gráfica
AP/AGR
2 - Adequação formal
2.1 - Adequação à tipologia textual
2.2 - Coesão (recursos anafóricos, articuladores, operadores
argumentativos, modalizadores, correlação de tempos e modos
verbais, processos de coesão lexical sinonímia, antonímia,
hiperonímia, hiponímia, associação semântica)
TP
CS
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104
2.3 - Morfossintaxe
* Estruturação de períodos presença de oração principal e
subordinadas necessárias e de termos essenciais e integrantes;
* Emprego das classes gramaticais (adequação vocabular)
* Concordância;
*Regência;
*Emprego de crase;
*Colocação pronominal;
MF
2.4 - Paragrafação e pontuação § / P
2.5 - Ortografia e acentuação
O / A
2ª) TAREFA – Teste Gramatical:
A proposta de atividade gramatical contém o seguinte enunciado e fragmento
de texto retirado da revista Época:
Leia abaixo o fragmento de texto retirado da revista Época e responda às questões
que se seguem:
O que as escolas precisam aprender
O mundo mudou. Os currículos ficaram obsoletos. Quais habilidades os alunos devem
desenvolver para enfrentar os novos tempos?
Imagine que um cidadão tivesse dormido um século e acordasse agora. O mundo seria uma grande
surpresa para ele. Aviões. Celulares. Arranha-céus. Ao entrar numa casa, ele não conseguiria entender o que
é uma televisão. Ou um computador. Poderia se maravilhar com uma barra de chocolate. Escandalizar-se
com os biquínis das moças. Perder-se num shopping center. Mas, quando ele deparasse com uma escola,
finalmente teria uma sensação de tranqüilidade. “Ah, isso eu conheço!”, pensaria, ao ver um professor com
um giz na mão à frente de vários alunos de cadernos abertos. “É igualzinho à escola que eu freqüentei.”
Essa parábola é quase tão velha quanto o personagem que dormiu cem anos. É contada em
inúmeras palestras e cursos de reciclagem de professores. Ilustra como a escola se mantém fossilizada, num
mundo que não pára de mudar. A escola como a conhecemos hoje é fruto de uma sociedade forjada no
século XVIII, quando a Revolução Industrial e o fortalecimento dos Estados modernos criaram a
necessidade de formar cidadãos qualificados para um novo mercado de trabalho. A Revolução Francesa e a
independência americana também inspiraram um ideal igualitário, que disseminou a idéia da educação como
um direito de todos. Era uma ruptura em relação à escola antiga, voltada para a formação de uma elite -
fosse a casta religiosa da Idade Média, os burocratas a serviço dos reis ou os aristocratas da Grécia clássica.
Com a inclusão das massas na escola, foi preciso criar mecanismos de homogeneização. Vieram daí a
divisão dos alunos em séries, a especialização dos professores em disciplinas e a sistematização de um
ensino básico a ser transmitido para todos.
(ÉPOCA, Ed. Globo, edição 466 – 23/04/2007)
Continuação Quadro 04
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105
Escolhemos um texto cujo tema envolvesse um assunto ligado ao contexto
escolar e à atuação docente sem abordar questões pontuais que envolvessem o ensino-
aprendizagem de língua materna. Vale ressaltar que o texto serviu apenas de pretexto para a
elaboração das atividades de gramática normativa. Partimos do pressuposto de que os
exercícios de gramática propostos eram modelos parecidos com aqueles que integraram o
conjunto de atividades desenvolvidas pelos graduandos no período de escolarização na
educação sica e que tais atividades, de algum modo, faziam parte do processo de formação
do graduando do curso de Letras. Assim, a partir do texto, elaboramos as seguintes questões
envolvendo conhecimentos gramaticais:
1- Classifique a oração introduzida por “queem: Imagine que um cidadão tivesse dormido um século e
acordasse agora. ________________________________________________________________________
2- A classificação morfológica de “arranha-céus” é: ____________________________________________
3- Como se denomina o processo de formação da palavra “televisão”?: _____________________________
4- “ele” em: O mundo seria uma grande surpresa para ele, é uma anáfora do termo: __________________
5- O 4º substantivo do 2º parágrafo é:________________________________________________________
6- Em: A escola como a conhecemos hoje (...), o termo “a” destacado é:
sintaticamente:__________________________________________________________________________
morfologicamente:_______________________________________________________________________
7- Identifique (escrevendo abaixo) e classifique a oração introduzida por “mas” no 1º parágrafo:
______________________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________________
8- No 2º parágrafo, identifique (escrevendo abaixo) a 3ª oração e classifique-a:
______________________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________________
9- O 1º dígrafo do último período do texto é: __________________________________________________
10- Quantos fonemas há na palavra “também”? ________________________________________________
11- A função sintática de “se” em: Escandalizar-se com os biquínis das moças, é:_____________________
12- Quantos adjetivos / locuções adjetivas há ao todo no 1º parágrafo? _____________________________
13- A função sintática do termo destacado em:(...)finalmente teria uma sensação de tranqüilidade. é:
______________________________________________________________________________________
14- No período: Ao entrar numa casa, ele não conseguiria entender o que é uma televisão. A oração
destacada se classifica como: _______________________________________________________________
15- A função morfológica de “igualitário” no texto é: ___________________________________________
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Como exposto anteriormente, procuramos desenvolver questões tipicamente
encontradas em gramáticas normativas, como classificação, descrição e análise gramatical.
Partimos da premissa de que, ainda hoje, essas questões são normalmente abordadas na
educação básica em maior ou menor proporção e que dessa forma, os graduandos passaram
pelo estudo da gramática normativa no ensino fundamental e médio. Por outro lado,
acreditamos também que no curso de Letras o estudo da gramática normativa compõe o
conjunto de atividades pertinentes à formação do graduando. Considerando esse contexto,
abordamos questões de natureza sintática (questões 06a, 11, 13 e 14), morfológica (questões
02, 04, 05, 06b, 12 e 15), morfossintática (questões 01, 07, 08 e 11), fonológica (questão 09 e
10) e sobre o processo de formação de palavras (questão 03). Para a correção das questões,
baseamos nos preceitos gramaticais expostos por Cunha (2001), Terra (2006) e Sacconi
(2005), visto que o gramáticos consagrados, cujas obras configuram-se entre as que
norteiam as propostas curriculares do ensino de Língua Portuguesa no Brasil.
3ª) TAREFA – Questionário:
Solicitamos aos graduandos que, assim como os professores universitários,
respondessem a um questionário. Dessa forma, foram elaboradas 09 (nove) perguntas abertas
a seguir:
1ª) Em sua opinião, o que é ensinar Língua Portuguesa para nativos dessa língua?
Com essa pergunta, pretendíamos saber a concepção que o graduando
apresentava sobre o ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa. Nossa intenção era que o
graduando explicitasse sua opinião, refletindo sobre si enquanto usuário da língua e enquanto
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professor e mediador das aprendizagens, ao assumir uma sala para dar aula de língua materna
para usuários dessa língua.
2ª) No seu processo de formação universitária, a gramática normativa foi estudada em
alguma disciplina cursada? Como se deu esse estudo? Explique.
Queríamos saber aqui, se o graduando tinha passado pelo processo de estudo
da gramática normativa no curso de Letras e, ao mesmo tempo, como esse graduando
concebia tal estudo em sua relevância ou irrelevância no processo de formação universitária.
3- Em sua opinião, o trabalho com gêneros textuais contribui para o ensino-aprendizagem de
Língua Portuguesa? Explique.
Nessa questão, pretendíamos saber quais as noções sobre gêneros textuais e
tipologias textuais emergiam do processo de formação do graduando e, ao mesmo tempo, se
esse graduando achava importante considerar as teorias envolvendo os gêneros textuais no seu
futuro fazer docente.
4- Em sua opinião, o estudo da gramática normativa é importante e deve ser abordado no
curso de Letras? Por quê?
Com essa pergunta, pretendíamos saber a visão do graduando sobre a
relevância do trabalho de ensino-aprendizagem envolvendo questões da gramática normativa
no processo de formação universitária e se o domínio de competências ligadas às questões da
gramática normativa contribuiria para seu futuro fazer docente.
5- Oralidade e escrita são manifestações da língua com aspectos peculiares em seus
processos e usos. Você acha que deve ser priorizada a oralidade ou a escrita no ensino-
aprendizagem de Língua Portuguesa (educação básica: ensino fundamental e médio)?
Explique.
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108
Aqui, pretendíamos saber se o graduando tinha sido exposto, no processo de
formação universitária, às discussões envolvendo questões sobre variação lingüística,
sobretudo no que se referia à interface dos aspectos da oralidade e da escrita no contexto
escolar e fora dele. Ao mesmo tempo, pretendíamos saber como este graduando se
posicionava com relação ao trabalho de ensino-aprendizagem de uma língua que,
essencialmente, se materializa nos usos orais e escritos em diferentes contextos de interação
discursiva.
6-Você se sente confiante para redigir um texto em (norma culta / língua padrão), ou seja,
você tem pleno domínio da (norma culta / língua padrão)? Explique.
Nosso objetivo nessa questão era saber se o graduando acredita que o
processo de formação no curso de Letras garantia a ele um amplo e consistente domínio das
regras da norma culta e da ngua padrão, ou seja, se o processo de formação universitária
contemplava o exercício de uso e domínio da Língua Portuguesa em diferentes contextos
formais, informais, orais e escritos.
7- Você é a favor do ensino da gramática normativa na educação básica (ensino fundamental
e médio)? Se sim, por quê? Se não, por quê?
Com essa pergunta, pretendíamos saber a opinião do graduando sobre a
relevância ou irrelevância do conhecimento da gramática normativa para o professor de
Língua Portuguesa. Por outro lado, gostaríamos de saber ainda, a visão do graduando sobre a
aplicabilidade do conhecimento gramatical na educação básica, ou seja, como esse
conhecimento seria concebido e trabalhado com alunos do ensino fundamental e médio.
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109
8- Após passar pelo processo de formação universitária, você se sente preparado para
assumir uma sala de aula como professor de Língua Portuguesa? Por quê?
Aqui, queríamos saber se, a partir dos relatos apresentados, o graduando se
sentia preparado para ser professor de Língua Portuguesa. Com essa questão, acreditávamos
que este graduando consideraria não apenas seu conhecimento teórico-acadêmico, mas as
peculiaridades que envolvem o ensino-aprendizagem de uma língua para nativos dessa língua,
ou seja, usuários que chegam à escola dominando competências lingüístico-discursivas
elaboradas e, em certo grau, complexas.
9- Caso o estudo da gramática normativa fosse abolido do ensino de Língua Portuguesa, o
que deveria ser ensinado, como deveria ser ensinado, quando deveria ser ensinado e para
quem deveria ser ensinado? Explique.
Com essa pergunta, pretendíamos saber a forma como o graduando
processava o ensino de língua materna no contexto lingüístico atual. Nossa intenção era obter
informações sobre a visão do graduando concernente ao ensino de Língua Portuguesa na
educação básica, bem como o papel e a importância do ensino normativo na escola. Em outras
palavras, queríamos saber como o graduando perceberia o ensino baseado no domínio da
nomenclatura gramatical frente ao domínio das regras da língua padrão e a interface
claramente existente entre saber as regras, saber os nomes e ter o domínio dos usos da língua,
considerando o contexto de produção, as intenções dos usuários e os interlocutores envolvidos
em uma interação lingüística.
Ressaltamos que, apesar do questionário destinado aos graduandos
contemplar questões coincidentes com aquelas contidas no questionário destinado aos
professores universitários, as perspectivas de ambos são diferentes. Assim, com o
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110
questionário dos professores universitários, pretendíamos reunir um conjunto de informações
que pudesse traçar o perfil de trabalho docente no curso de Letras, bem como as crenças sobre
o ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa nesse curso. com o questionário dos
graduandos, pretendíamos reunir um conjunto de informações que explicitasse as concepções
sobre o ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa, construídas a partir da formação
universitária e, ao mesmo tempo, saber como tais concepções se materializariam no fazer
docente desse graduando, quando estivesse em sala de aula, trabalhando os aspectos da língua
materna no ensino fundamental e médio.
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Capítulo I I I:
ANÁLISE DOS DADOS
Neste capítulo, apresentamos a análise dos dados que constituem a presente
pesquisa. Inicialmente, analisamos as respostas do questionário destinado aos professores
universitários. Com essas respostas, pudemos identificar o conjunto de crenças que emerge do
fazer docente do professor de Língua Portuguesa do curso de Letras e, ao mesmo tempo,
refletimos sobre o escopo que compreende o ensino-aprendizagem dessa língua enquanto
disciplina fundamental que compõe o processo de formação do graduando deste curso. Em
seguida, analisamos as respostas do questionário destinado aos graduandos. Com tais
respostas, poderemos identificar as direções do discurso do graduando com relação ao
conjunto de crenças que vão sendo formadas sobre o ensino-aprendizagem de Língua
Portuguesa, a partir do seu processo de formação acadêmica. Depois, analisamos os testes
gramaticais a fim de avaliar o conhecimento dos graduandos sobre quesitos da gramática
normativa tradicional. Por último, apresentamos as análises dos textos escritos, produzidos
pelos graduandos. Com essas análises, poderemos identificar as competências lingüísticas
ligadas à escrita em língua padrão do graduando em processo de conclusão do curso de
Letras.
Conforme elucidado anteriormente, a presente pesquisa é de base qualitativa,
porém apresentamos alguns resultados quantitativos, representados por números e
porcentagens, com a finalidade de complementar as análises que foram feitas. A partir da
investigação dos dados, estabelecemos relações entre as crenças que são construídas no curso
de Letras sobre o ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa na atualidade, bem como as
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112
competências lingüísticas que são desenvolvidas e assimiladas pelos graduandos no que
concerne ao conhecimento gramatical e ao domínio da escrita em língua padrão. Com base
nesses resultados, formulamos algumas conclusões e apresentamos considerações discutidas
no decorrer dos capítulos deste trabalho de pesquisa.
3.1 – O professor do curso de Letras: quem é esse sujeito?
O fator mais importante para a permanência e o aproveitamento do aluno na escola é o
professor: o seu envolvimento, seu grau de preparação, sua disponibilidade para atender
os interesses dos alunos e para mudar seu planejamento em virtude das necessidades
específicas que surgem no decorrer do curso.
(KLEIMAN & SIGNORINI, 2001)
Neste tópico, apresentamos as análises das respostas dadas pelos docentes no
questionário destinado ao professor do curso de Letras (cf. ANEXOS - A). Por se tratar de
questões discursivas, surgiram as mais diversas respostas e justificativas para as mesmas. Para
alcançar um quadro que permitisse dar uma visão ampla e geral sobre as idéias expressas
pelos professores informantes, compilamos as respostas por “aproximação de idéias Idéia
Central”. Dessa forma, as tabelas a seguir apresentam o agrupamento das idéias centrais
contidas nas respostas e justificativas dadas pelos participantes da pesquisa.
3.1.1.1 Questão 01 - Em sua opinião, o que é ensinar Língua Portuguesa para nativos dessa
língua?
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TABELA – 01
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Desenvolver habilidades de leitura, interpretação e produção de
textos orais e escritos.
07
70%
> Estudar as formas que compõem o padrão escrito culto.
02 20%
> Interessar-se pelos usos reais que são feitos da língua.
01 10%
TOTAL 10 100%
Como explicado no capítulo anterior, nessa questão, interessávamos saber a
opinião do professor do curso de Letras sobre o escopo que envolvia o ensino-aprendizagem
da Língua Portuguesa em um contexto contemplando falantes dessa ngua. Dessa forma,
constatamos que a maior parte dos docentes elegeu o desenvolvimento das habilidades de
leitura, interpretação e produção de textos orais e escritos como o propósito central do
professor de língua materna no curso de Letras, conforme os relatos
21
apresentados a seguir:
Professor 02: Para mim, ensinar L.P é fundamentalmente levar os alunos ao
desenvolvimento de saberes/habilidades para as práticas de fala, leitura e escrita. Obviamente,
esse objetivo deve ser redimensionado em função das especificidades da formação: educação
básica, curso de Letras, curso de medicina, etc.”
Professor 03: O português, como ngua materna é conhecido e praticado em suas variantes
pelos que têm acesso a escola. Até mesmo os que não tiveram acesso ao ensino formal,
geralmente, comunicam-se bem, falando português em diferentes situações. Ensinar português
para nativos exige clareza quanto à importância do conhecimento da língua em diferentes
processos/procedimentos, tais como: letramento, leitura, produção de textos (sobretudo
21
Os relatos transcritos nesta dissertação mantêm com fidelidade a escrita dos sujeitos envolvidos, inclusive as
formas estruturais.
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114
acadêmicos), interseção língua literatura. Exige também que seja propiciado maior domínio
da norma culta.”
Professor 10: “Ensinar português é ajudar o aluno a refletir sobre os recursos lingüísticos que
a língua disponibiliza – muitas vezes junto a outros sistemas semióticos e fazer com que ele
seja capaz de compreender bem os textos com os quais precisa lidar (ou vai precisar um dia).
Além disso, é fazer com que ele seja capaz de produzir textos adequados a várias situações da
sua vida pessoal e profissional. Em suma, acredito que ensinar português a nativos é
desenvolver neles habilidades de leitura, produção de textos e de reflexão lingüística.”
Por outro lado, alguns professores apontaram como o centro do processo de
ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa aspectos estruturais de funcionamento (formas
que compõem o padrão), bem como aspectos sócio-discursivos (usos que são feitos da
língua). Eis os relatos:
Professor 01: É no sistema vigente, a apresentação sistemática das formas que compõem o
padrão (escrito culto). Deveria ser, entretanto, principalmente um espaço para a reflexão sobre
as relações entre a sociedade e as modalidades da língua.”
Professor 05: Interessar-se por tudo o que os ‘nativos’ / estudantes expressam e auxiliá-los
em suas necessidades comunicativas específicas é um bom começo. Nessa direção, é
importante destacar os conhecimentos necessários ao uso proficiente da linguagem,
considerando a integração dos sistemas formal e semântico com o sistema discursivo e
pragmático.”
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Professor 09: “Ensinar Língua Portuguesa para os nativos dessa língua é antes de tudo apontar
os aspectos do funcionamento da língua, seja do ponto de vista fonológico, morfossintático,
seja do ponto de vista dos aspectos lingüísticos que proporcionam a textualidade. Ensinar o
funcionamento da língua é ensinar não os aspectos estruturais, mas também os efeitos de
sentido de construções lingüísticas em situações reais de uso.”
3.1.1.2 Questão 02 - Quais estratégias de ensino são usadas por você no cotidiano do curso
de Letras no que se refere à “reimersão” do graduando à norma culta e à língua padrão?
TABELA – 02
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Leitura, interpretação e produção de textos em ngua padrão /
norma culta.
07
70%
> Oferta de curso de nivelamento.
01 10%
> Associação entre teoria e estratégias de ensino da língua.
01 10%
> Trabalho contrastivo entre o uso formal e o uso informal da língua.
01 10%
TOTAL 10 100%
Retomando o objetivo discutido no capítulo anterior, nosso intuito era
verificar como o professor constituía sua prática docente, ao considerar o graduando como um
indivíduo que passou pelo processo sistematizado de ensino-aprendizagem da língua
materna na educação básica e que, por estar em um curso superior de formação de professores
de língua, necessitaria retomar tal processo. Assim, observamos que a maior parte dos
professores apontou o trabalho de leitura, interpretação e produção de textos como a principal
estratégia usada em sala de aula para o ensino, a aprendizagem, o treino e o domínio da língua
padrão. Eis alguns relatos que possibilitaram o agrupamento exposto na tabela acima:
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Professor 03: “As estratégias de ensino que uso estão diretamente relacionadas à orientação
das atividades de leitura, produção de textos e reflexão sobre aspectos lingüísticos e
gramaticais. Na leitura de textos (teóricos ou não) considero desde a seleção, uma
possibilidade de o graduando tomar conhecimento do funcionamento da norma culta. Na
avaliação dos trabalhos escritos, produzidos pelos alunos, são apontados e discutidos aspectos
da norma na qual tenham sido elaborados. Faz parte também das atividades voltadas para a
língua padrão, a proposta de reescrita em que o aluno é orientado para consultar dicionários e
gramáticas.
Professor 04: “Incentivo os meus alunos a lerem textos de diferentes domínios discursivos e
diferentes graus de complexidade. Digo a eles que é importante atentarem tanto para o
conteúdo quanto para a forma dos textos. Ler um texto observando a sua estrutura, a sua
conformação, a linguagem utilizada pelo autor é uma forma de aprender a usar esse gênero
textual, tanto no que diz respeito à leitura quanto à produção escrita. Também procuro fazer
com que meus alunos reescrevam os textos que produzem, usando a norma culta do português
contemporâneo.
Professor 05: Exigência do uso da língua padrão em avaliações, trabalhos e exercícios
orais e escritos. – Correção e discussão das atividades escritas.”
As justificativas que abriram precedentes para as outras formulações tinham
basicamente como foco dois fatores: um julgamento pré-estabelecido sobre as competências
lingüísticas dos graduandos ao ingressarem no curso de Letras e, também, um julgamento
sobre a condição de usuários natos e permanentes da língua. Eis os relatos nessa perspectiva:
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Professor 06: “Na verdade, este tem sido o principal problema do curso. Os alunos têm
ingressado na faculdade sem o domínio da norma culta o que comprova que o ensino
mecanizado e descontextualizado da gramática não o leva a dominar a língua padrão e
temos de fazer sua ‘imersão’ nessa variante tão importante para o profissional de Letras. Uma
das tentativas de sanar esse problema é a oferta de cursos de nivelamento em que prioriza-se o
enfoque dessas normas.”
Professor 08: “Se os ensino fundamental e médio cumprissem seu papel no desenvolvimento
de capacidades dos diferentes usos da língua não seria necessário o curso de Letras promover
‘reimersão’ do graduando na norma culta e a língua padrão. Isto é se o aluno fosse falante,
ouvinte, leitor e escritor em sua língua o curso de Letras poderia dedicar-se a análise de
teorias que têm hoje disponíveis de língua no caso das licenciaturas.”
Professor 09: “O caminho é sempre o de mostrar que as escolhas quanto às formas variáveis
na língua estão ligadas à situação de uso. Na medida em que o professor simula situações de
contraste entre usos formais e o formais de um texto, ele pode inserir as variáveis
lingüísticas como participantes da diversidade de usos textuais”
3.1.1.3 Questão 03 - Em sua opinião, quais textos (gêneros textuais) deveriam ser
priorizados ou deveriam servir de mecanismo para fomentar situações de efetiva reflexão e
aprendizagem de aspectos da língua no curso de Letras? Explique.
TABELA – 03
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Variados gêneros textuais: acadêmicos, literários, jornalísticos,
orais, escritos, etc.
05
50%
> Gêneros acadêmicos: resumo, resenha, projeto de pesquisa, artigo
científico, memorial, relatório, ensaio, monografia, etc.
05
50%
TOTAL 10 100%
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Nessa questão, como já explanado anteriormente, o objetivo era saber a
concepção do professor sobre os gêneros e tipos textuais que deveriam ou poderiam servir
como base para o ensino de língua materna. Partimos da premissa de que o trabalho com
textos em sala de aula envolveria uma reflexão prévia sobre o processo de escolarização dos
diversos gêneros textuais ao serem colocados como objeto de estudo. Nessa perspectiva,
pressupomos que o professor deveria repensar os objetivos da disciplina “Língua Portuguesa”
o enumerar as tipologias textuais que serviriam de base para o ensino dessa língua. Assim,
obtivemos relatos, conforme os destacados abaixo, que propiciaram o agrupamento exposto
na tabela acima:
Professor 01: Penso que o aluno deve ser capaz de reconhecer e utilizar a maior variedade
possível de textos escritos, uma vez que estará exposto a eles em sociedade.”
Professor 08: “Tantos os textos do domínio da literatura quanto dos que se destinam a analisar
os recursos lingüísticos. Além desses os diversos gêneros devem entrar nos cursos de Letras:
Ensaios, resenhas, artigos acadêmicos. Assim como romances, contos, novelas, crônicas,
reportagens, noticias entre outros. Depende dos objetivos.”
Professor 10: Os mais diversos neros textuais e textos como as mais diferentes variantes
lingüísticas. Acredito que análises contrastivas ajudam os alunos a perceber mais clara e
facilmente os vários efeitos provocados pelo uso de diferentes recursos lingüísticos.
Precisamos, além disso, priorizar textos literários e gêneros acadêmicos, pois esses textos vão
contribuir para a formação do profissional de Letras. Espera-se desse profissional um bom
conhecimento de literatura e de textos de vários gêneros, inclusive gêneros acadêmicos.”
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Como elucidado anteriormente, para esta resposta, o professor deveria
considerar os objetivos do ensino de Língua Portuguesa no ambiente escolar e pressupor que
o trabalho com textos necessitaria contemplar as várias formas como esses se materializam
socialmente, bem como seus reflexos ao tornarem-se objeto de ensino de língua. No entanto,
contrariando a idéia de multiplicidade, de usos e de efeitos lingüísticos que emergem dos
textos que circulam socialmente, metade dos professores considerou apenas um gênero (tipo)
textual, ou seja, o gênero acadêmico, como pertinente ao estabelecimento de situações de
reflexão e aprendizagem dos aspectos pertinentes à língua, conforme exemplificado nos
relatos a seguir:
Professor 02: Os gêneros acadêmicos, pelas razões expressas na questão 2. Desse grupo
destaco os seguintes: resumo, resenhas temáticas, projeto de pesquisa, artigo cientifico,
memorial, relatório, ensaio, monografia.”
Professor 03: “Textos argumentativos, sobretudo dissertativos. Como a pergunta é
direcionada para a prioridade dada a textos que poderiam levar a reflexão e aprendizagem de
língua no curso de Letras, considero gêneros textuais como artigo, ensaio, resenha os mais
indicados o para reconhecimento da língua, mas também para atividades que levem a
reflexão sobre a língua.”
Professor 06: “Os gêneros textuais que têm sido priorizados para esse fim em nosso curso são
os resumos, resenhas, artigos, projetos de pesquisa, projetos de intervenção escolar, exigidos
em diversas disciplinas. Concordo com a importância desses gêneros para fomentar situações
de efetiva reflexão e aprendizagem de aspectos da língua regência, concordância,
estruturação de períodos (conexão), processo de referenciação, progressão e articulação de
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120
idéias, uso de tempos verbais, de modalizadores, de operadores argumentativos, entre outros.
Entretanto, o fato de a maior parte das disciplinas ter apenas 36h aula, inviabiliza em muito
essa reflexão. O fato também de os alunos não dominarem a língua padrão representa um
que estamos tentando bravamente desatar conforme relatado nas questões anteriores”
3.1.1.4 Questão 04 - Oralidade e escrita são manifestações da língua com aspectos
peculiares em seus processos e usos. No processo de formação do graduando, que aspecto da
língua deve ser priorizado: oralidade ou escrita? Explique.
TABELA – 04
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> A oralidade.
00
0%
> A escrita.
04
40%
> Ambas (oralidade e escrita).
06
60%
TOTAL
10
100%
O objetivo nessa questão foi constatar, a partir do discurso do professor, se
era dado destaque ao aspecto da oralidade ou da escrita no seu fazer docente. Nesse caso,
obtivemos uma porcentagem pequena de diferença entre a escolha por um processo em
detrimento de outro, ou seja, escrita exclusivamente frente à oralidade e escrita juntas. Assim,
destacamos alguns relatos que possibilitaram o agrupamento feito na tabela 04:
Professor 01: “Numa sociedade como a nossa, que não é ágrafa, ambos aspectos.”
Professor 06: “Acredito que ambos deveriam ser priorizados, pois a realidade que nosso aluno
de Letras encontra no ensino público hoje, é a oralidade. O nosso país é eminentemente oral.
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121
No entanto, a escrita é que tem sido priorizada na escola, em sua variante padrão, o que
constitui um abismo entre a oralidade trazida pelo aluno e a escrita que ele deveria
gradualmente dominar (afinal ele tem nove longos anos para isso). O fracasso do ensino
público no que concerne principalmente à alfabetização demonstra o grande despreparo de
nossos docentes em relação às peculiaridades da oralidade e da escrita em seus processos e
usos. Portanto, é urgente a revisão dos currículos dos cursos de Pedagogia e de Letras, pois a
ponte entre o oral e o escrito precisa ser efetivamente construída nas salas de aula, para
evitarmos o fracasso escolar e principalmente para garantirmos para nossos alunos um nível
de letramento que lhes permita exercer seu direito de cidadão.”
Professor 07: “Ambos. Os alunos de Letras devem saber se expressar oralmente com clareza e
desenvoltura e também devem produzir textos escritos que demonstrem a competência do
aluno.”
Professor 08: “Não há prioridade. Tanto a oralidade (os usos públicos) quanto à escrita devem
ser trabalhados na graduação.”
No que concerne à oralidade como aspecto de maior importância no ensino,
nenhum professor se posicionou favorável. Por outro lado, observamos que o discurso dos
professores com relação à escrita no “status” de prioridade foi, em certa medida, de caráter
mais modalizado, porém não menos importante. Assim, obtivemos os seguintes exemplos de
relatos:
Professor 02: As práticas orais e as práticas escritas são muito importantes na formação em
Letras, aqui tomadas como objeto de estudo. Nesse processo, são priorizadas as práticas que
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122
envolvem a escrita, sobretudo no que se refere ao processo de apropriação dos gêneros
discursivos secundários. Isso não significa, é claro, que os gêneros secundários se restrinjam a
escrita.”
Professor 03: “Considero como prioridade a escrita. E explico dizendo que a oralidade é
praticada em situações menos ou mais formais, enquanto a escrita é praticada com menos
freqüência, mesmo durante a vida escolar. Na formação do graduando é indispensável que a
leitura e escrita desencadeiem propostas para trabalhos escritos. Tenho clareza de que a partir
de produções escritas o aluno vai se construindo autor consciente dos aspectos lingüísticos e
gramaticais.”
Professor 04: “Ambas as modalidades, oral e escrita, são importantes, mas vale ressaltar que,
hoje em dia, temos um perfil do aluno do curso de Letras que apresenta muitas dificuldades de
produção escrita, principalmente no que diz respeito ao padrão lingüístico do português.
Assim sendo, é tarefa do professor de Português, nos cursos de Letras, estimular a produção
escrita e a adequação desses textos a norma culta contemporânea, sem negar as variações
sociais, geográficas, culturais do português como ocorre em qualquer outra língua natural.”
Professor 05: Embora os dois sejam importantes, creio que a escrita formal, por ser menos
exercitada no dia-a-dia dos graduandos, deva ser priorizada.”
3.1.1.5 – Questão 05 - Partindo do pressuposto de que o graduando do curso de Letras passou
pelo processo de escolarização no ensino fundamental e médio, você encontra dificuldades
ligadas ao desempenho lingüístico dos graduandos no seu trabalho com a ngua? Qual a
explicação para tais dificuldades? Como fazer para solucioná-las?
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123
TABELA – 05
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Encontram dificuldades.
08
80%
> Encontram dificuldades (eventuais / menos graves).
02 20%
> Não encontram dificuldades.
00 0%
TOTAL
10
100%
Nessa questão, objetivamos saber se o professor encontrava dificuldades no
desempenho lingüístico dos graduandos, ao tratar das questões pertinentes à língua, em todos
os seus níveis e aspectos. Observamos nas respostas, que os professores foram unânimes ao
destacar que encontravam dificuldades. Apesar de alguns professores ponderarem ser tais
dificuldades de menor gravidade, afirmaram que elas existem. Como a pergunta foi dividida
em três tópicos distintos, ou seja, se havia dificuldades; como poderiam ser explicadas as
origens; e como era feito o trabalho para amenizá-las ou mesmo solucioná-las; constatamos
que a maior parte dos professores destacou o trabalho com textos como maior dificuldade do
graduando, ou seja, o trabalho com atividades de leitura, interpretação e produção, sobretudo
aqueles textos em língua padrão. Nessa perspectiva, apontaram como fatores responsáveis
questões de ordem social, cultural e de formação na educação básica. Por último, pontuaram
que as soluções estariam ligadas, na educação básica, à melhoria das políticas voltadas para a
educação e, na graduação, a um amplo acesso à leitura, à interpretação e à produção de textos
de diversos gêneros, tanto orais como escritos. Eis alguns relatos que propiciaram tais
considerações expostas acima:
Professor 02: “As dificuldades se devem a inúmeros fatores, mas aqui poderia destacar
aquelas decorrentes do processo de letramento do aluno. Nesse caso, cabe considerar o pouco
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124
acesso a bons textos, as práticas de escrita descontextualizadas e orientadas apenas por um
ideal de forma bem como o contato com um ensino autoritário. Tais problemas são
enfrentados com medidas orientadas pelo princípio descrito na questão 2.
Professor 03: “Geralmente os alunos não apenas da graduação em Letras chegam à
universidade com defasagem em leitura e escrita. A explicação para as dificuldades ligadas ao
desempenho lingüístico vem sendo atribuída a fatores de ordem social, cultural e também
escolar. Essas dificuldades comprovadas em avaliações de desempenho de alunos do ensino
básico, certamente merecem ampla consideração. Não acredito em solução a curto prazo. As
questões relativas ao ensino e a educação dependem da participação de muitas instâncias. Um
encaminhamento de soluções depende inicialmente de políticas públicas voltadas para a
educação básica. Mesmo assim arrisco dizer que, se todos tivessem acesso a leitura e a escrita,
na escola e nas comunidades em que vivem, haveria ganho no desempenho lingüístico.
Professor 05: No caso da língua escrita, sim. Segundo reconhecem os próprios alunos, as
dificuldades são provenientes da falta de hábito, de tempo e, conseqüentemente, da
insegurança em relação ao seu não-conhecimento das regras gramaticais tradicionais.
Discussões sobre preconceito lingüístico, análise crítica de textos, compreensão dos
mecanismos de argumentação, reflexão sobre a natureza e a tipologia dos atos de fala,
‘desatrelamento’ das noções de língua e gramática normativa, exame das dimensões do
discurso entre outras, podem ser propostas de ‘soluções’ eficazes.”
Professor 10: O critério de seleção do vestibular da UFMG para o curso de Letras envolve,
principalmente, a leitura e a escrita, portanto, entram para essa universidade alunos que têm
um bom domínio da leitura e da escrita. Isso não significa que eles sejam ótimos leitores e
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125
escritores. Leitura e escrita são competências que precisamos desenvolver sempre, sempre
o que aprender e melhorar. Nossos alunos chegam na universidade sem conhecer os gêneros
acadêmicos como resenha, artigo, projetos, relatórios, entre outros. Ainda não dominam bem
a norma culta e têm dificuldades de desenvolver um texto argumentativo bem articulado.
Apresentam também algumas dificuldades de leitura como perceber a tese defendida e os
argumentos usados para sustentá-la ou posicionar-se criticamente em relação aos textos. Esses
não são conteúdos muito trabalhados no ensino fundamental e médio, que ajudam a
desenvolver nos estudantes várias outras habilidades. Acredito que seja tarefa do ensino
superior dar continuidade ao trabalho feito no EF e no EM no que diz respeito ao
desenvolvimento de habilidades de leitura e produção de texto dos estudantes.”
É interessante destacar que os dois professores que afirmaram ter
dificuldades, contudo de ordem eventual ou menos grave, também apontaram a leitura e a
produção de textos como fatores centrais dessas dificuldades. Nesse caminho, assim como os
outros professores entrevistados, pontuaram a ampliação do acesso aos diferentes textos orais
e escritos, formais e informais como uma forma de solucionar as eventuais dificuldades
encontradas por eles. Assim, relatam:
Professor 08: “Aqui na FALE não casos freqüentes de dificuldades do aluno no uso da
língua. Mas quando essas o identificadas, é preciso investigar sua origem. Normalmente
problemas de compreensão ou de uso inadequado da escrita a situação de comunicação
proposta. Ler mais e escrever mais, com reflexão sobre essas ões, pode ser um caminho
para a solução de problemas de alunos com dificuldades.”
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126
Professor 09: As deficiências na formação sica refletem na universidade. Mas isso o
configura uma situação de dificuldades graves. Na medida em que cada disciplina do curso de
Letras solicita aos alunos que produzam textos nas atividades avaliativas, parte desses
problemas vão sendo sanados.”
3.1.1.6 Questão 06 - Em sua opinião, como o graduando deve conciliar os aspectos teórico-
gramaticais e os aspectos sociodiscursivo-interacionais no futuro exercício docente, ou seja,
na sala de aula quando estiver ensinando Língua Portuguesa?
TABELA – 06
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Refletindo sobre as diferentes modalidades e variações da língua
em seus usos.
06
60%
> Tratando os aspectos gramaticais como um dos elementos da
situação discursiva.
04
40%
TOTAL 10 100%
Nessa questão, como discutido anteriormente, o professor deveria
explicitar em que medida os aspectos teórico-gramaticais e sociodiscursivo-interacionais
deveriam ser desenvolvidos e trabalhados no curso de Letras e como deveriam ser aplicados
em uma sala de aula pelo graduando formado por ele. Para essa questão, partimos do
pressuposto de que uma língua é, ao mesmo tempo, estruturada gramaticalmente e
discursivamente, sendo que qualquer usuário que faça uso dela precisa dominar
razoavelmente o funcionamento da gramática, bem como o funcionamento do discurso para
que haja uma efetiva interação e produção de sentido. Tendo isto em vista, observamos que os
professores informantes elegeram de forma bem equilibrada dois princípios que devem
sustentar os aspectos gramaticais e os aspectos discursivo-interacionais no ensino da língua
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127
materna, conforme ilustrado na tabela acima. Eis alguns relatos que propiciaram o
agrupamento:
Professor 04: “Esta é uma questão bastante complexa. Sabemos que as teorias (gramaticais,
discursivas, interacionais) têm correlações com as práticas. Teoria e prática o duas faces de
uma mesma moeda, como costumo dizer aos meus alunos. Não teoria que não possa ser
aplicada, nem prática que não se embase em alguma teoria, ainda que inconsciente e/ou
simples. Correndo o risco de ser simplista, recorro mais uma vez à missão que acredito ser da
escola: ‘ensinar a ler, escrever e fazer conta de cabeça’. Cabe aos professores de Ensino
Fundamental e Médio (os professores de língua materna, claro) tornar seus alunos aptos a
utilizarem a Língua Portuguesa, em suas diferentes modalidades e variações. Para isso, o
professor deverá proporcionar aos alunos oportunidades de uso dessas diferentes modalidades
e variações da língua, com exercícios diversificados, com reflexões sobre esses usos, com
envolvimento com a linguagem.”
Professor 05: Com trabalho interdisciplinar e muito apoio da instituição educacional para
atividades de leitura e produção de textos variados.”
Professor 08: Não divisão desses aspectos no uso da língua. Refletir sobre os usos a
medida.”
Professor 10: “Um professor de língua, seja materna ou estrangeira, deve ter em mente que
nenhum texto é produzido fora de um contexto e sem um objetivo ou intenção comunicativa.
Qualquer produção textual exige que o produtor tenha clareza das condições de produção
para quem estou escrevendo? o que quero dizer? qual é o meu objetivo? assim ele saberá
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128
como produzir o texto seja ele oral ou escrito. O mesmo acontece na leitura é preciso saber
quem escreveu, em que situação e atentar para as escolhas lingüísticas feitas por esse autor a
fim de recuperar suas intenções comunicativas. Assim, trabalhar com frases soltas e
descontextualizadas não me parece tão produtivo quanto lidar com textos dentro de situações
comunicativas bem definidas, pois a adequação do uso lingüístico só é verificável nesse
caso.”
Torna-se necessário destacar mais uma vez que, em todos os relatos, numa
maior ou menor proporção, os professores pontuaram a importância de se refletir sobre a
língua que usamos, bem como sobre os usos que o feitos nas interações discursivas ao
considerar o funcionamento gramatical e o funcionamento discursivo. Porém, quatro
professores mencionaram, além das práticas sociais de uso da língua, os aspectos gramaticais
como um pressuposto discursivo a ser considerado, possibilitando o agrupamento feito na
tabela 06. Eis alguns dos relatos:
Professor 02: “É simples, uma vez que eles não podem ser separados, ou melhor, eles existem
absolutamente imbricados, amalgamados. Retomando aqui as idéias de Bakhtin diria que
aprendemos a língua através do contato com o outro, em práticas sociais de uso da língua.
Assim, a dimensão gramatical é sempre iluminada, significada pela dimensão sociodiscursiva-
interacional.”
Professor 03: “Quando estiver em sala de aula o graduando em Letras deverá considerar o
domínio que os alunos apresentam e propiciar o desenvolvimento do desempenho lingüístico.
É interessante que as atividades de linguagem tenham prioridade em todos os níveis e a partir
delas, sejam encaminhadas reflexões em que os alunos percebam o funcionamento de
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129
aspectos gramaticais e lingüísticos. À medida que houver demanda será, então, possível tratar
explicitamente das gramáticas, levando em consideração as variantes lingüísticas.”
Professor 06: “Na verdade tanto nas aulas de leitura quanto nas de produção de texto deve-se
evidenciar para o aluno as condições de produção de texto e sua relação com as escolhas
lingüísticas realizadas pelo produtor. Isso possibilitará ao aluno perceber a produção de texto
que ou sua própria produção como um processo de interlocução. Avaliar um texto não
significa, portanto, apenas observar até que ponto ele obedece às normas da gramática
tradicional. É preciso abordá-lo sob três perspectivas: a perspectiva da qualidade de interação
discursiva, do nível de textualidade e da utilização dos padrões da escrita. Sabemos que este
tipo de trabalho, voltado para a significação, está em fase de construção, pois a abordagem
puramente estrutural dos textos é uma prática que ainda permanece entre nós. No entanto,
redimensionar o papel da gramática no ensino de língua, tratá-la como um dos elementos da
situação discursiva, é uma tarefa de educadores e lingüistas que começa a dar frutos. Algumas
coleções de livros didáticos – Português: uma Proposta para o Letramento, Magda Soares – já
dão aos elementos lingüísticos essa dimensão discursiva.”
3.1.1.7 Questão 07 - Como você sua prática docente (ensino de Língua Portuguesa e/ou
aspectos dessa ngua) frente às demandas da sociedade atual e o perfil do graduando em
Letras que chega hoje à universidade?
TABELA – 07
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> A prática docente contribui para a formação do graduando.
06
60%
> A prática docente é um desafio constante.
03 30%
> Não respondeu a essa questão. 01 10%
TOTAL
10
100%
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130
Como mencionado anteriormente, esse questionamento foi feito para
verificar como o professor universitário encarava seu trabalho de ensino de Língua
Portuguesa em um curso de formação de professores para o trabalho com a mesma disciplina.
Partimos do pressuposto de que, apesar de serem usuários ativos das diversas variantes da
língua, muitos graduandos têm chegado ao ensino superior sem um bom conhecimento e
domínio das modalidades cultas dessa língua, sobretudo a escrita em língua padrão, assim, o
professor toma a responsabilidade de promover as condições necessárias para o efetivo
domínio dessas modalidades. Desse modo, o agrupamento exposto na tabela 07 é o resultado
de relatos como os expostos a seguir:
Professor 01: “A apresentação e a discussão de aspectos históricos atenta para os objetivos
propostos pelas disciplinas que ministro, contribuindo para a formação da consciência sócio-
histórica da língua, a qual é imprescindível para o professor.”
Professor 05: Como algo necessário para auxiliar o aluno a combater o enorme preconceito
contra si mesmo e contra seus interlocutores. Eles costumam calar e se calar diante de seus
direitos por se considerarem ignorantes em relação a sua própria língua, uma vez que a
associam diretamente com as regras da gramática tradicional. Além disso, é importante que os
graduandos compreendam que atuar linguisticamente de modo eficiente é um exercício de
cidadania fundamental para o desenvolvimento do nosso país.”
Professor 08: “Procuro capacitar esse aluno por meio de reflexão sobre suas próprias
experiências como aluno e como profissional (no caso daqueles que exercem a profissão).
A partir de reflexão e análise de teorias existentes, incentivo o graduando a construir seu
próprio caminho.”
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131
Professor 10: “É difícil avaliar o nosso próprio trabalho. Eu me empenho em fazer com que os
alunos sejam capazes de refletir sobre a ngua, sobre as potencialidades que nosso sistema
lingüístico nos oferece e sobre os efeitos que cada escolha (seja ela morfológica, lexical,
sintática, ou textual) provoca. Procuro ajudar na formação de profissionais que tenham
familiaridade com vários gêneros textuais sobretudo os acadêmicos e que percebam a
língua como um sistema infinito de possibilidades, cabendo a nós saber escolher aquela que
melhor atende nos nossos propósitos comunicativos em cada situação, sem purismos e sem
preconceitos.”
Alguns professores pontuaram que a prática docente é um desafio por
considerarem fazer parte do trabalho docente o apenas as questões ligadas diretamente ao
ensino de língua, mas questões externas que compreendem fatores de ordem social, política e
mesmo institucional. Eis alguns relatos:
Professor 03: “A prática docente é sempre um desafio, sobretudo diante de demandas que vão
muito além do ensino de português. Os alunos ingressantes em Letras são movidos por
interesses diversos. Alguns vêm em busca de complementação para a formação que já deveria
ter sido feita no Ensino Básico; outros esperam qualificação de nível superior, visando a
emprego em melhores condições; há certo número de alunos que têm clareza quanto à
formação (licenciatura ou bacharelado e Letras); ainda aqueles que optaram por um curso
considerado de mais fácil ingresso.”
Professor 04: “Estou, sempre, em situações complexas e difíceis, em minha atividade docente.
No momento, por exemplo, dou aulas de Gramática: Sintaxe, trabalho também com
disciplinas ligadas à elaboração de projetos de pesquisa na área dos estudos lingüísticos e
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132
oriento trabalhos de conclusão de curso. Como professor de Gramática: Sintaxe, procuro
articular a perspectiva tradicional-normativa com a lingüístico-descritiva da língua
portuguesa. Exemplo de como procuro fazer isso: quando trabalho com a noção de sujeito,
apresento as definições tradicionais das gramáticas e procuro fazer uma reflexão sobre essa
definição, observando a fragilidade das conceituações, as contradições internas das
gramáticas, as contradições entre as diferentes gramáticas tradicionais disponíveis, as
exemplificações (boas e más) que aparecem nas gramáticas tradicionais etc. Procuro articular
isso com definições mais formais do conceito de sujeito, como, por exemplo, a apresentada
por Mário Perini na sua Gramática descritiva do português. Ainda com relação ao conceito de
sujeito, procuro polemizar a categorização apresentada pela Nomenclatura Gramatical
Brasileira e a forma como ela é utilizada/apropriada pelas gramáticas tradicionais
contemporâneas. Procuro fazer isso nas 72 horas/aula de que disponho, analisando os
períodos simples e compostos. É muito para tão pouco tempo. Muitas vezes, preciso priorizar
determinados pontos e aspectos. Tudo isso ainda se complica quando se observa que, apesar
de tê-la estudado praticamente durante todo a sua formação escolar. Nas disciplinas ligadas à
produção de projetos de pesquisa em estudos lingüísticos, procuro mostrar quais as áreas que
estão, hoje, em evidência, nessa área, como, por exemplo, estudos relacionados aos processos
de leitura e produção escrita, análise do discurso, pragmática, semântica, etc. Obviamente,
preciso ter consciência de que tenho minhas limitações de formação e de que os alunos
também têm essas deficiências.”
Professor 06: Esta pergunta está parcialmente respondida nas demais. Gostaria de
acrescentar, no entanto, que estamos vivendo um momento de transição entre o ‘velho’ e o
‘novo’ no ensino de Língua Portuguesa. É muito importante que o graduando em Letras
compreenda e aceite isso, para atuar de maneira produtiva tanto no curso quanto em sala de
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133
aula, como professor. Conforme colocado antes, o tempo ainda é nosso pior inimigo, pois não
possibilita o aprofundamento das reflexões. Talvez isso explique a grande demanda por cursos
de Pós-graduação, que acabam por ser um complemento da graduação. De qualquer forma, o
perfil apresentado pelos alunos de Letras ‘baixo’ desempenho lingüístico e sua função
como futuro educador, responsável pelo desenvolvimento de um conjunto de habilidades de
leitura e escrita que formarão a competência discursiva dos alunos, constitui um verdadeiro
paradoxo.”
3.1.1.8 Questão 08 - Você acha importante o estudo da norma culta / língua padrão no
curso de Letras? Por quê?
TABELA – 08
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Sim.
10
100%
> Não.
00 0%
TOTAL 10 100%
O objetivo principal aqui foi saber se o professor do curso de Letras achava
importante abordar aspectos envolvendo o estudo das modalidades cultas da língua, bem
como o estudo da gramática normativa e o treino em língua padrão. Para essa questão,
partimos da premissa de que boa parte dos graduandos chega ao curso de Letras sem um
conhecimento amplo e elaborado das modalidades formais da língua, mesmo passando pelo
estudo sistematizado dessas variantes lingüísticas no ensino básico. Desse modo, observamos
que os professores foram unânimes ao afirmarem a importância do estudo da norma culta e da
língua padrão no curso de Letras, conforme mostra o agrupamento feito na tabela anterior. No
entanto, as razões que sustentam tais afirmativas estão ancoradas não apenas na importância
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134
do domínio das variantes formais da língua, mas, sobretudo, no como ensinar tais variantes
em sala de aula. Eis alguns relatos que permitiram tais constatações:
Professor 03: Não vejo como o encaminhar o estudo da norma culta no curso de Letras.
Aliás, na minha opinião, o conhecimento de tal modalidade é direito de todo aluno, ao longo
do Ensino Básico e dever da escola. O aluno da graduação em Letras deve não aprender a
norma culta do português, mas também deve aprender a ensinar a língua padrão. Justifico a
minha posição por considerar que o acesso à leitura de textos formais (na oralidade ou na
escrita) é direito de todo cidadão, para que ele seja capaz de usar a língua adequadamente
também quando tiver que empregar a norma culta / língua padrão.”
Professor 06: “O profissional de Letras precisa saber ler, manusear, entender a gramática
tradicional, até mesmo para criticá-la à luz da lingüística. Precisa compreender também que a
norma considerada culta é apenas uma das variantes da língua, nem melhor nem pior que as
outras. Mais que isso, deve saber empregar (e ensinar seus alunos a empregarem) essas
variantes nas diversas situações de comunicação. Voltamos aqui à questão da produção de
sentido e das escolhas lingüísticas que contemplam nossas intenções (Questão 6).”
Professor 10: “Sim. A norma culta tem seus caprichos e precisa ser dominada pelo
profissional de Letras, pois é, em muitos casos, o seu objeto de trabalho. O estudante de
Letras precisa conhecer bem as variantes lingüísticas do seu idioma tanto na modalidade oral
quanto na modalidade escrita e em seus inúmeros registros, indo do mais informal ao mais
formal. A norma culta é uma variante e goza de prestígio, sendo portanto usada pelas editoras,
pela imprensa, pela academia e por isso deve ser bem conhecida pelos estudantes de Letras.”
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135
Professor 07: “Sim, é importantíssimo que o aluno do curso de Letras conheça a norma
padrão da língua porque ele será o profissional que servirá de referência a todos os que são
leigos.”
É interessante observar que alguns professores, mesmo destacando a
importância do uso, estudo e domínio da norma culta e da ngua padrão, o consideram
necessariamente essas variantes como importantes objetos de ensino-aprendizagem na
educação básica. Eis alguns relatos que confirmam esse posicionamento:
Professor 01: Sim. Por mais sensível que se faça a distância entre a (s) oralidade (s) e a
escrita, em seus diversos veis, o padrão escrito culto é referência para a sociedade, e o
professor da Língua Portuguesa deve ser capaz de tratar as formas-padrão com segurança
(mesmo que adote uma postura didático-metodológica mais livre da norma).”
Professor 02: “Sim, mas não como fim e sim como meio. Penso que as razões que justificam
essa posição se encontram claramente explicitadas neste questionário.”
Professor 08: “A norma considerada padrão é apenas mais uma e não a única. Como o
graduando de Letras, o aluno precisa conhecer bem todas as normas com o maior possível
delas.”
3.1.1.9 – Questão 09 - Você faz uso de gramáticas normativas no seu trabalho com os
graduandos? Por quê?
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136
TABELA – 09
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Sim - Como fonte de consulta e pesquisa.
07
80%
> Não ou Raramente - A disciplina não tem relação direta com a
Gramática Normativa.
03
20%
TOTAL 10 100%
Nosso objetivo era saber se o professor fazia uso das orientações e conceitos
trazidos pelas gramáticas normativas. Nessa questão, partimos do pressuposto de que, por se
tratar de disciplinas ligadas ao ensino-aprendizagem de língua materna, as reflexões sobre
aspectos pertinentes às variantes formais da língua teriam como base a gramática normativa,
mesmo que a disciplina ministrada o tratasse de questões exclusivamente gramático-
normativas. Nessa perspectiva, observamos que a maior parte dos professores elegeu o estudo
reflexivo da gramática normativa como um fator importante em sala de aula e na prática
docente como um todo. Assim, o agrupamento exposto na tabela 09 se pautou em relatos
como estes:
Professor 02: “Sim. Em algumas disciplinas as gramáticas trazem fonte de dados para estudos
teóricos. Noutras a gramática é instrumento de consulta para a escrita (assim como são os
dicionários).”
Professor 03: Sim, pois as considero fonte de consulta que permite ao graduando conhecer a
gramática explícita em que se pauta a escrita formal. Certamente o uso de gramáticas deve ser
encaminhado em processo reflexivo, de tal modo que o graduando estabeleça relação com os
textos produzidos, em condições de formalidade, como, por exemplo, nos trabalhos
acadêmicos.”
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137
Professor 05: “Sim. Proponho trabalhos comparativo-contrastivos nas aulas de Introdução aos
Estudos Lingüísticos, como também incentivo os alunos a conhecerem diferentes fontes de
pesquisa.”
Professor 07: “Ao corrigir textos, ensino formas gramaticais de acordo com as regras da GT.
Recomendando sempre a leitura de gramáticas normativas, mas o as levo para a sala de
aula. quando trabalho especificamente em disciplina que envolve o ensino de gramática é
que levo mais de uma para a aula.”
Por outro lado, três professores destacaram que a natureza de suas disciplinas
não envolve a presença ativa da gramática normativa, mesmo destacando sua importância
como fonte de pesquisa em situações de uso de variantes mais formais como, por exemplo, na
produção e apresentação de trabalhos acadêmicos. Eis os relatos:
Professor 01: “a) Apenas para discutir a evolução das gramáticas diante da mudança da
perspectiva na relação entre a sociedade e a língua da que ela se utiliza. b) Porque a natureza
das minhas disciplinas não demanda o uso da gramática normativa: são disciplinas de cunho
histórico, e não metalingüístico.”
Professor 06: “As disciplinas que ministro não prescindem do uso da gramática normativa,
mas de dicionários de linguagem e lingüística. No entanto, deixo claro para meus alunos que
devem consultar a gramática normativa sempre que ocorrerem dúvidas relacionadas à
concordância, regência, etc., ou o dicionário quando a dúvida for relacionada à ortografia, no
momento de produzirem trabalhos acadêmicos. Ou seja, deixo claro que a gramática não deve
ser decorada, mas consultada, pois é um livro de cabeceira.”
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Professor 10: “Raramente. As disciplinas que leciono não estão diretamente relacionadas com
gramática tradicional. Apesar de gostar de muitas classificações e soluções lingüísticas
propostas pela GT, não gosto de muitas definições que ela apresenta. É uma teoria que deve
ser apresentada aos alunos com ressalvas, com olhar crítico.”
3.1.1.10 Questão 10 - Você acha que o graduando em Letras da instituição em que você
trabalha conclui o curso apto a dar aulas de português, inclusive com relação ao ensino da
norma culta / língua padrão? Por quê?
TABELA – 10
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Sim.
01
10%
> Não.
08 80%
> Não sabe. / Outras respostas.
01 10%
TOTAL 10 100%
Nosso objetivo aqui, como elucidado no capítulo anterior, era constatar se o
professor universitário acreditava que os graduandos formados por ele têm condições de
assumir uma sala de aula como professores de Língua Portuguesa e se, ao mesmo tempo, esse
professor acreditava que tais graduandos possuem habilidade, conhecimento e domínio dos
aspectos que envolvem os usos da língua, sobretudo a norma culta e a língua padrão. Como
consta no agrupamento exposto na tabela acima, apenas dois professores acreditam que os
graduandos não teriam dificuldades e que teriam condições de assumir uma sala de aula como
professores de Língua Portuguesa. Nessa perspectiva, um professor pontuou que, se por um
lado, os graduandos teriam condições plenas de assumir uma sala de aula, por outro, a
formação continuada seria um fator essencial para o bom desempenho desses graduandos. O
outro professor afirmou que, apesar de o ter certeza, para ele a maior parte dos graduandos
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139
teria condições de assumir uma sala de aula, sobretudo para tratar de aspectos ligados ao
ensino-aprendizagem de língua padrão. Eis os relatos que deram margem a tais constatações:
Professor 01: “Sim, porque o curso oferece os instrumentos necessários ao ensino em nível
fundamental e médio. Naturalmente se sairão melhor as que compreendam a necessidade da
constante atualização continuada dos estudos.
Professor 07: “Realmente não sei. Acho que alguns estão aptos a dar aulas de português
ensinando, inclusive, a ngua padrão porque procuram aprender e desenvolveram
competência nessa área. De uma maneira geral, parece-me que teríamos aí uns 70% do
conjunto de alunos. Sei que, aproximadamente 30% não deveria dar aula para o
comprometer o ensino de LP.”
Por outro lado, constatamos que a maior parte dos professores afirma que os
graduandos não teriam condições de assumir uma sala de aula como professores de Língua
Portuguesa ao se formarem. É interessante notar que as justificativas que sustentam as
afirmações passam por três condições básicas, ou seja, 1ª) O curso de licenciatura deve formar
agentes de letramento e não professores de língua padrão -- Um professor; 2ª) A formação
continuada torna-se fator essencial para o bom desempenho do professor -- Quatro
professores; 3ª) A experiência e a prática em sala de aula contribuem para o bom desempenho
do professor -- Três professores. Nesse contexto, eis alguns relatos apresentados:
Professor 02: “Não. Não considero que se deva formar o aluno de Letras para ensinar norma
culta. O objetivo de ensino é outro, como ressaltado ao longo das demais respostas. Feita
essa ponderação, destaco que o corpo docente da instituição em que trabalho, atua,
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140
tenazmente, de forma a construir condições para que os alunos sejam formados para atuarem
como agentes de letramento.”
Professor 03: “Embora o graduando seja orientado para ter um bom desempenho no uso do
português na modalidade de norma culta, quando estiver lecionando português, nem todos os
alunos que concluem o curso de Letras estarão completamente aptos. A justificativa para tal
opinião envolve considerações já apresentadas e sobretudo o posicionamento de ver, na
graduação, uma etapa da formação continuada do professor.”
Professor 09: “O graduando em Letras não conclui o curso apto a dar aulas de português, no
sentido de aptidão que imaginamos ideal. E sempre foi assim. A entrada na prática do ensino,
em sua dimensão real, é um grande aprendizado. Acredito que o mais importante é o
graduando sair da Instituição com um ‘Know-how’ que envolve capacidade de reflexão e de
buscar dados adequados para o trabalho em sala de aula.”
Professor 10: “Não. Acho que aprendemos a ensinar, ensinando. Os objetos e as teorias da
lingüística e da literatura são complexos e os quatro anos na graduação não são suficientes
para dar conta dele e ainda lidar com os aspectos relacionados à educação (tão complexa
quanto). Infelizmente, temos na FALE poucas disciplinas que lidam com a questão do ensino
e, com a formação do professor, por uma questão histórica, pois essa parte foi, por muitos
anos, tida como responsabilidade da FAE. Temos, no entanto, lutado para modificar esse
quadro. Acredito, no entanto, que o aluno saia da FALE com uma base teórica rica e
multifacetada que permite a ele lidar com o ensino de língua materna de forma madura, aberta
e funcional, sem preconceitos e considerando a adequação lingüística, a oralidade, a
multifuncionalidade, etc. Em suma, acredito que os alunos que se empenham nos estudos
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141
durante a graduação chegam às salas de aula como professores inexperientes, mas com uma
fundamentação teórica suficiente para iniciar sua vida profissional, mas que deve continuar
buscando mais teorias lingüísticas e literárias bem como teorias e práticas pedagógicas que
lhe permitam melhorar a cada dia como profissional.”
3.1.2 – Algumas considerações após as análises das respostas dos professores:
Retomando a pergunta que introduziu este tópico, ou seja, “O professor do
curso de Letras: quem é esse sujeito?” e considerando as análises feitas a partir dos dados
contidos no questionário destinado ao professor universitário, podemos concluir que o
profissional que atua como professor de Língua Portuguesa no curso de Letras se constitui
como um sujeito que:
Baseia o ensino de língua materna em atividades de leitura, interpretação e produção de
textos orais e escritos;
Aborda as questões pertinentes à norma culta e à língua padrão de forma contextualizada,
fazendo uso de textos diversos tanto orais quanto escritos;
Pauta o trabalho em sala de aula, considerando as noções sobre gêneros e tipos textuais,
sobretudo aqueles produzidos nas variedades cultas da língua;
Prioriza tanto a oralidade quanto a escrita por acreditar não haver uma modalidade melhor
que a outra ao tratar dos fenômenos lingüísticos em sala de aula, contudo acredita que a
escrita deva ser enfatizada no contexto escolar e no contexto universitário;
Na prática docente, afirma encontrar dificuldades ligadas ao desempenho lingüístico dos
graduandos, sobretudo na produção de textos em língua padrão;
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142
Concilia aspectos gramaticais e aspectos sociodiscursivos a partir de situações da ngua
em seus contextos de uso;
Considera importante o estudo dos aspectos ligados à norma culta e à língua padrão no
curso de Letras;
Faz uso da gramática normativa não como objeto de ensino, mas como fonte de consulta,
análise e pesquisa;
Acredita que sua prática docente contribui para uma formação efetiva e completa do
graduando;
Considera o processo de formação no curso de Letras insuficiente para promover e
garantir as competências e habilidades necessárias para que o graduando seja um bom
professor de Língua Portuguesa. Dessa forma, acredita que a prática em sala de aula e a
formação continuada são elementos que proporcionam condições para que se materialize
um fazer docente mais eficiente.
3.2 – O graduando do curso de Letras: quem é esse sujeito?
A formação docente precisa preparar os professores para a complexidade e diversidades
das situações do cenário educacional. Por isso, as competências, como um conjunto
organizado e móvel de saberes gestados na prática, fundamentados teoricamente, revela-
se essencial para que o professor possa agir para educar-se e educar.
(PERRENOUD, 2001)
Neste tópico, apresentamos as análises das respostas do questionário
encaminhado aos graduandos do curso de Letras (cf. ANEXOS D). Tais análises foram
feitas seguindo os mesmos procedimentos adotados no questionário respondido pelos
professores universitários. Assim, para alcançar um quadro que também permitisse dar uma
visão ampla sobre as idéias expressas pelos graduandos informantes, adotamos o critério de
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143
agrupamento de idéias, ou seja, “aproximação de idéias Idéia Central” na compilação dos
dados apresentados e analisados aqui.
3.2.1.1 Questão 01 - Em sua opinião, o que é ensinar Língua Portuguesa para nativos dessa
língua?
TABELA – 11
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Desenvolver habilidades de leitura, interpretação e produção de
textos orais e escritos.
17
56,7%
> Interessar-se pelos usos reais que são feitos da língua.
10
33,3%
> Estudar as formas que compõem o padrão escrito culto / a norma
culta.
03
10%
TOTAL 30 100%
Como exposto no capítulo anterior, nessa questão, pretendíamos saber a
concepção que o graduando tem sobre o ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa. Nossa
intenção era que o graduando explicitasse sua opinião, refletindo sobre si mesmo enquanto
usuário da Língua Portuguesa e enquanto futuro professor e mediador das aprendizagens
dessa língua. Dessa forma, constatamos que a maior parte dos graduandos destacou serem
essenciais as atividades de leitura, interpretação e produção de textos orais e escritos como
ferramentas para a promoção das habilidades em língua materna. Eis alguns relatos que
sustentam tal justificativa e, por conseguinte, o agrupamento mostrado na tabela acima:
-- “Ensinar língua portuguesa para nativos dessa língua, na minha opinião é preparar falantes,
escritores e usuários da língua dentro de sua amplitude e variedade. É letrar, levando o aluno à
leitura crítica e conhecimento de mundo através das palavras, que são inacabadas e fazem
parte de um processo contínuo.”
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144
-- “Ensinar língua portuguesa é habilitar as pessoas a entender, produzir e ler neste idioma
com proficiência e segurança de ser bem articulado.”
-- “É tornar tal nativo mais eficiente na leitura e na escrita, desenvolvendo nele a habilidade
de perceber que existem várias estruturas e dialetos e que cada um tem seu momento e seu
lugar adequado.”
-- “É ensiná-los a falar e escrever corretamente de modo que possam ser sempre bem
compreendidos; orientá-los quanto a uma boa interpretação de textos (o que será essencial no
ensino de qualquer matéria) e incentivá-los a ter um contato saudável com a literatura, como
entretenimento e forma de aquisição de conhecimento.”
-- “Ensinar Língua Portuguesa para nativos é reconhecer que a língua é passível de
complementos, está em processo de modelagem; não estotalmente pronta. Os nativos tem
plena vivência de sua “língua materna”, portanto facilita o ensino da disciplina
(L. Portuguesa), reconhecendo assim que ensiná-los é aumentar o pleno domínio da
linguagem oral e escrita.”
Por outro lado, alguns graduandos destacaram como fator primordial para o
ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa aspectos sócio-discursivos, ou seja, os usos que
são feitos da língua em situações de interação. outros, destacaram aspectos do
funcionamento normativo, ou seja, as normas que compõem o padrão formal da língua. Eis
alguns relatos que permitiram chegar a tais constatações e agrupamento de idéias:
-- “É aperfeiçoar e conhecer a diversidade de usos dela.”
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145
-- “Para mim, ensinar a Língua Portuguesa para nativos é ensinar a usar a língua nas mais
diversas situações, como por exemplo: escrever um bilhete para a mãe, formalizar um
documento para uma autoridade sobre um assunto específico, ter habilidade para redigir
ofícios, produzir cartas, documentos específicos do trabalho. Isto é: compreender a língua nas
mais diferentes situações de uso. E, principalmente, mostrar ao nativo que a língua o é
estática e pode ser falada e escrita de várias formas, tendo em vista o grupo que a usa.”
-- “Ensinar Língua Portuguesa é mostrar a funcionalidade da mesma sem ficar fixo a regras. É
mostrar aos nativos que quanto maior o domínio mais podemos jogar com as palavras.”
-- “É ensinar sobre o funcionamento e empregabilidade da língua portuguesa no meio e que
nós estamos inseridos.”
-- “É proporcionar aos alunos um momento de reflexão sobre o uso da língua.”
-- “Apresentá-los à uma variedade lingüística, a qual será necessária para sua formação
social.”
-- “É ensinar normas cultas de sua língua materna.”
-- Ensinar Língua Portuguesa para nativos é na verdade ensinar as regras de uma norma
culta. O português coloquial aprendemos em casa, na sociedade, enfim no dia-a-dia.”
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146
-- “É levar os alunos a refletirem sobre o fato de existirem outras modalidades lingüísticas,
mas que a norma culta, por o aprenderem em casa ou através do convívio social, deve ser
priorizada na escola.”
3.2.1.2 Questão 02 - No seu processo de formação universitária, a gramática normativa foi
estudada em alguma disciplina cursada? Como se deu esse estudo? Explique.
TABELA – 12
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Sim. De forma reflexiva.
(Associando-a com reflexões Lingüísticas)
20
66,7%
> Sim. De forma sistemática. (Análises morfológicas, sintáticas, etc.)
09 30%
> Não.
01 3,3%
> Outras respostas
0 0%
TOTAL 30 100%
Nessa questão, como explicitado, queríamos saber se o graduando tinha
passado pelo processo de estudo da gramática normativa no curso de Letras e, ao mesmo
tempo, saber como esse graduando concebia tal estudo em sua relevância ou irrelevância no
processo de formação universitária. Nessa perspectiva, observamos que a maior parte dos
graduandos afirmou que o trabalho com a gramática normativa se deu de forma reflexiva,
servindo de suporte para as questões envolvendo o funcionamento e os usos da língua. Eis
alguns relatos que permitiram o agrupamento exposto acima:
-- “Durante minha formação universitária, a gramática normativa foi estudada em duas
disciplinas de Língua Portuguesa. Tal estudo foi realizado em consonância com as propostas
pedagógicas mais atuais, isto é, não houve estudo da gramática ‘seca’ e tradicional, mas sim,
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147
um estudo gramatical integrado com os processos de textualização e variação lingüística;
sobretudo, com muita ênfase nas relações de coesão e coerência textuais.”
-- Sim. Em aulas expositivas, seminários e trabalhos escritos, tendo em vista uma reflexão
crítica de sua aplicabilidade.”
-- “Sim, mas percebo que na universidade em que estudo a gramática não é muito valorizada.
Dá-se mais importância à lingüística, isto é: a língua como sistema discursivo, deixando um
pouco de lado as formas, regras, que somente através da gramática podemos compreender.”
-- “Sim. De forma textual, nada pautado exclusivamente na gramática normativa.”
-- “Sim. Esse estudo aconteceu através de textos e frases utilizando a reflexão pela
gramática.”
Alguns graduandos, porém, em um número mais reduzido, afirmaram que
houve um estudo sistematizado e pautado nos pressupostos da gramática normativa. Apenas
um graduando afirmou não ter estudado a gramática normativa em nenhum período do curso
de Letras. Eis alguns relatos nessa perspectiva:
-- “No meu processo de formação universitária a Gramática Normativa foi estudada em
Língua Portuguesa, foi abordada de maneira metódica, com reforço de regras, em aulas
expositivas estilo ‘feedback’, seguindo a mesma metodologia do ensino fundamental e
médio. Faltaram aulas dinâmicas, inovadoras e atrativas.”
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148
-- “Sim, em ngua portuguesa, cujo estudo se deu através de análises e reflexões sobre a
língua (em se tratando, digo, com base em morfologia e sintaxe)”
-- “Sim. O estudo da gramática normativa se deu da forma tradicional: apresentação de regras
que eram colocadas em provas, sem reflexões ou explicação do porquê de usarmos tal e o
tal regra.”
-- “Sim. O estudo se deu da maneira que é familiar: exposição da teoria/regras, seguida de
reflexão e, para concluir, exercícios de fixação.”
-- “Sim. Estudando as regras e fazendo exercícios.”
-- “Sim. Analisamos gramáticas normativas de rios autores à luz do que é determinado no
PCN (Parâmetro Nacional Curricular) e pelo MEC (Ministério de Educação e Cultura).”
-- Sim. Porém somente em 2 períodos, o que definitivamente não é suficiente. O professor é
ótimo, mas posso dizer que não tenho conhecimento suficiente do conteúdo para reger uma
sala de aula.”
-- “Não.”
3.2.1.3 Questão 03 - Em sua opinião, o trabalho com gêneros textuais contribui para o
ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa? Explique.
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149
TABELA – 13
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Sim.
30
100%
> Não.
00 0%
> Outras respostas
00 0%
TOTAL 30 100%
Nessa questão, pretendíamos saber quais as noções sobre gênero textual e
tipologias textuais emergiam do discurso do graduando ao considerar seu processo de
formação e, ao mesmo tempo, saber se esse graduando via relevância em considerar as teorias
envolvendo os gêneros textuais no seu futuro fazer docente. Observamos que os graduandos
foram unânimes ao afirmarem que as teorias sobre gêneros textuais contribuem para um
efetivo processo de ensino-aprendizagem de língua Portuguesa. Eis alguns relatos que
justificam o agrupamento apresentado na tabela 03:
-- “Totalmente. Porque para produção de cada gênero existe todo um processo que exige
conhecimento de estratégias textuais, gramática, interpretação, intertextualidade, por
exemplo.”
-- “Sim. O trabalho com gêneros textuais contribui para o ensino-aprendizagem de Língua
Portuguesa porque amplia o vocabulário, desenvolve a habilidade de leitura, escrita e
oralidade, ampliando o conhecimento dos diferentes usos da língua.”
-- “Sim. Acredito que contribui e muito. que bem mais complicado, talvez, pelo fato de
sermos acostumados com um ensino mais tradicional. E para trabalhar com gêneros textuais é
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150
preciso que o professor tenha uma base de conhecimento bastante rica, pois ao contrário ele
vai prejudicar os alunos.”
-- “Sim, a melhor maneira de dominar a gramática é usando-a, e nada mais cabível que o
trabalho com gêneros textuais que diversifica e apresenta a gramática em seus vários usos.”
-- “O trabalho com gêneros textuais contribuem muito para o ensino-aprendizagem de língua
Portuguesa pelo motivo dessa disciplina existir através dos textos orais e escritos a partir que
o educando interage linguisticamente com o mundo que vivencia.”
-- “Muito. Porque o estudo e o ensino dos gêneros na escola é capacitar o aluno em sua
produção e leitura de textos escritos e orais.”
É interessante ressaltar que um graduando, apesar de pontuar a importância
do uso das teorias que evolvem os gêneros e tipos textuais como base para o ensino de língua
materna, acrescenta que tal ensino deve evitar as didáticas que promovam excessos e
equívocos. Eis o relato:
-- “Sim, mas é preciso ter o cuidado de evitar excessos. Parece que o gênero textual virou
moda e um livro didático, por exemplo, para ser bom, precisa ter rios gêneros textuais. a
questão não é usar o gênero textual, mas como e o que trabalhar nele.”
3.2.1.4 Questão 04 - Em sua opinião, o estudo da gramática normativa é importante e deve
ser abordado no curso de Letras? Por quê?
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TABELA – 14
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Sim. De forma sistemática. (Análises fonológicas, morfológicas,
sintáticas, semânticas, etc.)
25
83,3%
> Sim. De forma reflexiva.
(Associando tal estudo à análise reflexiva
dos fenômenos da língua em seus contextos de uso.)
05
16,7%
> Não.
0 00%
TOTAL 30 100%
Nessa pergunta, como já explicitado anteriormente, pretendíamos saber se o
graduando achava importante, no processo de formação universitária, o trabalho de ensino-
aprendizagem envolvendo questões da gramática normativa e se o estudo dessa gramática
contribuiria de alguma forma para o fazer docente do futuro professor de Língua Portuguesa.
Nessa perspectiva, constatamos que todos os graduandos afirmaram ser importante abordar as
questões da gramática normativa no curso de Letras, pontuando que esse conhecimento é um
pré-requisito para a práxis do professor de língua materna. Contudo, a maior parte afirmou
que o conhecimento sistemático da gramática normativa, além de ser essencial na formação
do graduando, é um conhecimento que o futuro professor deve aplicar no ensino-
aprendizagem de língua materna. Eis alguns relatos que permitiram fazer o agrupamento da
tabela acima:
-- “Sim. O professor tem que sabe uso de regras e todas as nomenclaturas para ensinar e
avaliar o aluno.”
-- “Sim, para a formação do acadêmico e amesmo como ferramenta para seu trabalho (no
caso do universitário já estiver atuando em sua área).”
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152
-- “Sim. Porque um profissional das Letras deve conhecer a língua em sua plenitude. Isto é:
seus aspectos sintáticos, morfológicos, fonológicos, semânticos, cognitivos.”
-- “Sim. Porque em qualquer serviço e inclusive na profissão de ser professor de língua
Portuguesa é essencial você dominar bem as normas gramaticais.”
-- “Muito. Porque textos formais, institucionais, desde o norte até o sul do Brasil, são usadas
regras, necessariamente, normativas.”
-- “Sim, porque futuros profissionais da L.P. devem conhecer a gramática o suficiente para
estarem aptos a responder as questões dos alunos.”
-- “Sim. toda língua precisa de registro culto para sua perpetuação, independente se será usado
corretamente ou não. Daí a necessidade dos futuros profissionais de Língua Portuguesa terem
o conhecimento desse padrão.”
-- “Sim. Porque precisamos conhecer as regras da norma culta para escrevermos corretamente
cartas, ofícios, etc. Interessei-me pelo curso, justamente para aprender escrever e falar de
acordo com a norma culta. Não porque quero esquecer minhas raízes e sim porque pretendo
aprimorá-las cada vez mais.”
Por outro lado, observamos que cinco graduandos, ou seja, 16,7% deles,
apesar de considerarem essencialmente importante abordar questões da gramática normativa
no curso de Letras, pontuaram que tais questões devem servir apenas de suporte para a
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153
análise, a reflexão e o estudo dos usos que os indivíduos fazem da ngua nos contextos de
interação discursiva. Eis os relatos nessa perspectiva:
-- “Certamente. A gramática normativa é uma das possíveis formas de análise da língua,
apesar de falha, ela contribui para a aprimoração dos estudos lingüísticos.”
-- “Sim. Porque acho fundamental adquirirmos o domínio sobre as regras do Idioma porém,
de modo que possamos utilizá-las de maneira prática. Devemos adquirir este conhecimento
através da realização de exercícios e não somente ficando memorizando regras, o que pode
tornar-se monótono e desinteressante.”
-- Muito importante, pois, se a faculdade forma estudiosos da ngua, que se incluir a
gramática nesse universo de usos.”
-- Não como veículo de aprendizagem, mas como conseqüência de que equívocos em
relação ao ensino da mesma. Não é apenas um conjunto de regras que vai me levar a
compreender o meio onde vivo.”
-- O estudo de gramática normativa apresenta uma importância pilar no curso de Letras. É
preciso que o futuro profissional dessa área saiba como funciona o aspecto gramatical da
língua para posteriormente criticá-la e dela, digo da gramática, fazer um uso positivo. Certa
vez, vi Marcos Bagno dizer em uma palestra que o paciente não precisa saber como funciona
todos os sistemas do corpo humano (respiratório, digestivo, vascular, etc), mas é
imprescindível que o médico os saiba. Tal dizer foi uma perfeita analogia com a língua, pois
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154
os aprendizes não têm obrigação de saber normas gramaticais, mas o professor deve ter
conhecimento delas para desempenhar um trabalho fiel à língua e seus mecanismos de uso.
3.2.1.5 Questão 05 - Oralidade e escrita são manifestações da língua com aspectos
peculiares em seus processos e usos. Você acha que deve ser priorizada a oralidade ou a
escrita no ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa (educação básica: ensino fundamental e
médio)? Explique.
TABELA – 15
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> A oralidade.
02
6,7%
> A escrita.
03 10%
> Ambas (oralidade e escrita).
25 83,3%
TOTAL 30 100%
Aqui, como explicado no capítulo anterior, pretendíamos saber se o
graduando tinha sido exposto, no processo de formação universitária, às discussões
envolvendo questões sobre variação lingüística, sobretudo no que se refere à interface entre
aspectos da oralidade e da escrita no ambiente escolar e fora dele. Ao mesmo tempo,
pretendíamos saber como este graduando se posicionava com relação ao trabalho de ensino-
aprendizagem de uma língua que, essencialmente, se materializa nos usos orais e escritos,
enquanto veículo de comunicação e interação. Dessa forma, observamos que a maior parte
dos graduandos elegeu tanto a oralidade como a escrita, manifestações da língua que devem
ser trabalhadas na educação básica pelo professor de Língua Portuguesa. Eis alguns relatos
nesse sentido:
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155
-- “Tanto a oralidade quanto a escrita tem a sua importância na língua portuguesa. Acredito
que as duas devem caminhar juntas na educação básica.”
-- Creio que tanto a escrita como a oralidade devem ser priorizadas no ensino-aprendizagem
de Língua Portuguesa, haja vista que constituem duas manifestações distintas da linguagem. É
preciso que o aluno saiba adequar o uso da ngua conforme a ocasião e se expressar com
segurança nas diversas situações de sua vida social/comunitária e até nos momentos
particulares.”
-- “Não. A oralidade e a escrita devem ter a mesma importância. sabe-se que ainda hoje a
escola mais importância à modalidade escrita, que é considerada a correta, mas a forma
oral é tão importante quanto aquela e é, inclusive, a que mais usamos.”
-- “Tanto a oralidade quanto a escrita devem ser priorizadas. É importante se expressar bem
de todas as formas.”
-- “Ambos. Porque o ensino de Língua Portuguesa não se restringe ao ensino de texto escrito e
norma padrão.”
-- “Nem uma nem outra. Principalmente nas séries iniciais onde as crianças tem maior acesso
à oralidade que a escrita deve ser reforçada. O que não exclui, a partir da escrita, a produção
da oralidade. A língua depende dos dois processos e usos para existir.”
-- “Ambas, uma vez que a oralidade e a escrita caminham juntas.”
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156
Excetuando-se da maior parte dos graduandos informantes, observamos que
apenas dois elegeram a oralidade e apenas três a escrita como os focos para o ensino de língua
materna na educação básica. Eis os relatos nessas perspectivas:
-- “A oralidade, pois esta vem antes da escrita e através dela que se introduz a escrita.”
-- Acho que no âmbito da educação básica uma super-valorização da norma culta e um
total desprezo pela oralidade. No contexto atual em que se procura formar alunos críticos e
conscientes não necessidade de ultrajar a oralidade como atualmente ocorre, mas falar da
sua importância.”
-- “Escrita. A escrita é a base para a oralidade.”
-- “Ambas o importantes, porém, de forma geral todo falante é eficiente na oralidade, bem
mais que na escrita, por isso acredito que a escrita mereça maior destaque.”
-- “Escrita, pois a oralidade o aluno tem oportunidade de praticar em outros ambientes e
pode ter mas contato com a norma padrão falada que com a escrita.”
3.2.1.6 Questão 06 - Você se sente confiante para redigir um texto em (norma culta / língua
padrão), ou seja, você tem pleno domínio da (norma culta / língua padrão)? Explique.
TABELA – 16
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Sim.
03
10%
> Não.
27 90%
TOTAL 30 100%
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157
Nosso objetivo nessa questão, como exposto no capítulo anterior, foi saber se
o graduando acredita que o processo de formação no curso de Letras garantia a ele um amplo
e consistente domínio das regras da norma culta e da língua padrão, ou seja, se o processo de
formação universitária contemplava o exercício de uso e domínio da Língua Portuguesa em
diferentes contextos formais e informais, orais e escritos. Dessa forma, observamos que
apenas três graduandos relataram se sentirem confiantes quanto aos usos da língua, sobretudo
no aspecto da escrita em língua padrão. Eis os relatos nesse sentido:
-- Sim. Eu me sinto confiante para redigir um texto na norma padrão. Não tenho medo da
língua e chego aa desafiá-la. O texto é, para mim, o meu diálogo com o mundo através das
palavras.”
-- Eu me sinto muito confiante para escrever um texto em norma culta e me sinto muito à
vontade nessas ocasiões. Isso não quer dizer que eu tenha pleno domínio da língua
culta/padrão, mas procuro honrar o título do meu diploma acadêmico. Sou uma incipiente
estudante da língua, é claro que eu devo saber mais um pouco que o básico da língua padrão.
Quando sobrevém uma situação lingüística embaraçosa, procuro pesquisar sobre o assunto, o
que me faz aprender sempre mais.”
-- “Sim. Sempre fui apaixonada pela Língua Portuguesa e estive até hoje observando cada
detalhe. Sinto maior facilidade na produção do que na análise sintática e classificações de
orações. Tenho preferência por usar a língua.”
Por outro lado, observamos que a maior parte dos graduandos informantes,
ou seja, 90% dos entrevistados destacaram não se sentirem confiantes para produzir textos em
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158
língua padrão, mesmo após passarem pelo processo de escolarização na educação básica e
pelo processo de formação universitária no curso de Letras. Eis alguns relatos que permitiram
o agrupamento apresentado na tabela 06 e as considerações feitas aqui:
-- “Não. Ainda tenho dúvidas devido à falta de base no ensino fundamental.”
-- “Não, vejo isso através dos trabalhos acadêmicos que redijo e que sempre retornam com
alguma correção. Preciso mais carga de leitura e prática.”
-- “Não. Acredito que a universidade não tem essa formação, o que cabe a cada aluno buscar e
aperfeiçoar por si só.”
-- “Não plenamente. Eu ainda cometo ‘erros’ gramaticais.”
-- “Não tenho pleno domínio da língua culta. E por não ser confiante na minha forma de
escrever, às vezes fico anciosa e preocupada quando se trata da escrita. Na maioria das vezes
prefiro falar, sinto-me mais à vontade com a oralidade.”
-- “Não. Tenho muita dificuldade em expressar na escrita o meu conhecimento.”
-- “Não. Não tenho domínio da norma culta, a cada dia tenho aprendido um pouquinho.
Entretanto, nem por isso estou impossibilitada de escrever texto conforme a norma culta.”
-- “Ainda não adquirir o pleno domínio da língua-padrão, acho que isso se aprende com o
tempo.”
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-- “Não. A falta de domínio pleno da norma culta não me condições seguras de redigir um
texto.”
-- “ Infelizmente ainda tenho algumas dúvidas, principalmente com relação à regência.”
-- “Não. Não me sinto totalmente confiante para redigir um texto em língua culta, pois estou
em processo de aprendizagem permanente, buscando diversas formas de dominar a língua
culta.”
3.2.1.7 Questão 07 - Você é a favor do ensino da gramática normativa na educação básica
(ensino fundamental e médio)? Se sim, por quê? Se não, por quê?
TABELA – 17
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Sim, de forma contextualizada.
07
23,3%
> Sim.
17 56,7%
> Não.
06 20%
TOTAL 30 100%
Nessa questão, como explanado, interessávamos saber a opinião do
graduando sobre a relevância ou irrelevância do conhecimento da gramática normativa para o
professor de Língua Portuguesa e, ao mesmo tempo, saber sua opinião acerca da
aplicabilidade desse conhecimento na educação básica, ou seja, como esse conhecimento
deveria ser concebido e trabalhado junto aos alunos do ensino fundamental e médio. Em face
disso, observamos que a maior parte dos graduandos, ou seja, 80% deles, é favorável pelo
ensino de aspectos da gramática normativa na educação básica. Porém, como mostra a tabela
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160
acima, dos 24 (vinte e quatro) informantes favoráveis ao ensino normativo, 07 (sete)
pontuaram que esse ensino deve se dar de forma contextualizada, ou seja, considerando o
nível de letramento e os contextos de uso da língua, ao passo que, 17 (dezessete) destacaram
que os aspectos da gramática normativa devem ser ensinados, sem expor objetivamente a
forma que deveria ser concebido tal ensino. Eis alguns relatos nessas perspectivas:
-- “Sim, desde que seja contextualizada porque é algo necessário para o ensino, uma vez que a
gramática será exigida dos alunos, mesmo que irrelevante diante a importância do
letramento.”
-- “Sim. Pois é na educação básica que se deve dar condições ao aluno de conhecimento da
língua. Mas vejo também a necessidade em se ensinar através de outras teorias: teoria dos
gêneros.”
-- “Sou a favor de um ensino gramatical moderado e contextualizado.”
-- “Sou favorável ao ensino da gramática normativa na educação básica, mas como disse
anteriormente, deve ser um ensino comprometido com as características lingüísticas, sociais e
regionais do falante. É preciso integrar o estudo gramatical com os aspectos textuais e estes
com a vida e a identidade dos alunos.”
-- “falei sobre isso. Sou a favor do ensino da gramática normativa em qualquer modalidade
de ensino-aprendizagem, desde que não seja tomada como a única forma de ensinar a língua.”
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161
-- “A Gramática Normativa deve ser ensinada, pois o estudante desses níveis, estão em
processo de aprendizagem e através dele precisa conhecer e praticar as regras da língua culta
em seus textos, interpretações e vivências cotidianas.”
-- “Sim. Precisamos desde cedo, a conhecer a norma culta da língua, e a escrever de tal forma
que mais tarde não tenhamos esse ‘medo’ da escrita.”
-- “Sim, pois o mundo atual exigi-nos o uso da norma padrão, e como apreender a gramática
normativa (vejo que) é algo um pouco difícil, é preciso que desde o ensino fundamental
comecemos adquirir tal aprendizado.”
-- “Sim, pois na vida acadêmica que ele poderá seguir, se for fazer prova de um concurso ou
uma simples prova para emprego, a redação (cobrando norma culta) estará lá. É uma forma de
prepará-lo para futuros desafios.”
-- “Sim, por que quando o aluno for cursar o ensino superior não apresentará tantas dúvidas.”
-- “Sim. Porque os alunos têm que conhecer todos os tipos de gramática.”
Por outro lado, apenas seis graduandos, ou seja, 20% do total, afirmaram que
os aspectos da gramática normativa não deveriam ser o foco de ensino do professor de Língua
Portuguesa na educação básica. Tais graduandos justificaram essa posição, basicamente,
pontuando que, ora o estudo gramatical provoca o desinteresse do aluno pela disciplina, ora
porque a gramática normativa não serve para nada e deve ser abolida do ensino, ora porque os
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162
alunos o precisam saber regras para serem competentes nos usos da língua materna. Eis os
relatos nesse sentido:
-- Não porque esse tipo de ensino fica exclusivamente na gramática leva o aluno ao
desinteresse pela língua.”
-- “Não. Porque podemos cair na armadilha de tornar o ensino/aprendizado um processo
desinteressante, incapaz de estimular o desejo do aluno em aprender. O aluno deve aprender a
dominar o seu idioma através da prática diária de exercícios. Talvez, no ensino médio seja
possível e até desejável que o aluno tenha algum conhecimento ou noções básicas sobre
gramática normativa mas, vai depender do interesse e vocação de cada um.”
-- “Não. A gramática tradicional não serve para nada e deveria ser banida.”
-- “Não, pelos equívocos que a gramática normativa tem.”
-- “Não. Porque o aluno não precisa saber de regras. O aluno tem que saber o uso correto da
língua e usá-la de acordo com o ambiente.”
-- “Não. Pois o aluno decora todas as regras e não adquire conhecimentos indispensáveis a sua
formação enquanto aluno, enquanto filho, enquanto adolescente e sujeito de um mundo
moderno, cheio de malícias.”
3.2.1.8 Questão 08 - Após passar pelo processo de formação universitária, você se sente
preparado para assumir uma sala de aula como professor de Língua Portuguesa? Por quê?
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163
TABELA – 18
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Sim.
15
50%
> Não.
15 50%
TOTAL 30 100%
Nessa questão, queríamos saber se, a partir dos relatos apresentados, o
graduando afirmaria sentir preparado para ser professor de Língua Portuguesa. Em tal
questão, acreditávamos que o graduando consideraria não apenas seu conhecimento teórico-
acadêmico, mas as peculiaridades que envolvem o ensino-aprendizagem de uma língua para
nativos dessa língua, ou seja, usuários que chegam à escola já dominando competências
lingüístico-discursivas elaboradas, adquiridas nas interações sociais. Assim, constatamos que
metade dos graduandos, ou seja, 50% deles, afirmou ter condições de assumir uma sala de
aula, tendo como base os conhecimentos adquiridos no período de formação universitária. Eis
alguns relatos nessa perspectiva:
-- “Sim. Porque me dediquei muito para assumir minha postura de professor, com estudo e
noites sem dormir.”
-- Após terminar o curso, com certeza, ainda me faltará muita teoria a aprender, mas em
primeiro momento estarei sim preparada para assumir uma sala de aula, pois acredito que a
aprendizagem acontece também na vivência com os alunos, tendo a chance de aumentar e
valorizar os conhecimentos teóricos adquiridos na faculdade.”
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164
-- “Sim, porque a formação que obtive na instituição me tornou capacitado para exercer tal
função. Ma sempre continuarei estudando para obter mais conhecimentos.”
-- “Sim, porque o conhecimento é adquirido continuamente. Não porque sou detentora de todo
saber, mas sim porque o pouco que sei eu posso passar para o outro e pelo outro aprenderei
mais.”
-- “Sim, temos acesso ao ‘básico’ necessário para tal propósito e, por mais que estudemos,
sempre haverá situações que nos farão pensar que não estávamos preparados. É importante
desenvolvermos também a habilidade de superar eventuais dificuldades para executar bem
nosso papel de mediador no processo ensino-aprendizagem.”
Em contrapartida, os graduandos que afirmaram não se sentirem preparados
para assumir uma sala de aula como professores de língua materna, sustentaram essa posição,
basicamente, ancorados na necessidade de se estar em permanente processo de aprendizagem
e aperfeiçoamento profissional, como evidenciam alguns relatos a seguir:
-- “Ainda o, acho que além da instituição, a vontade e empenho do aluno é fundamental e
isso me falta um pouco. Creio que estou mudando esta situação e se não mudasse, pior para
mim, o mercado seleciona o profissional mais preparado.”
-- “Não, nunca estamos preparados, a língua sempre passa por mudanças. O que implicará
também em mudanças no campo da gramática.
-- “Como já disse anteriormente, não. Não tenho conhecimento do conteúdo como deveria.”
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165
-- “Não. Porque é uma disciplina que exige pleno domínio das gramáticas (normativas,
textuais). E eu não me sinto ainda capacitada para lecionar esta disciplina.”
-- Totalmente preparada não. Ainda preciso aprimorar mais os meus conhecimentos. Mas
acredito que unindo a teoria com a prática teremos um bom resultado, então não podemos
destacar a idéia de assumir uma sala de aula.”
-- “Não porque acho que nunca estamos prontos pra nada. Mas esse é o maior desafio. Vou
enfrentar a sala de aula, mesmo não estando pronta e vou dar conta. Conforme falei acima,
não tenho medo de lidar com a língua, que será sempre meu instrumento de trabalho, até
porque antes de lingüística, sou jornalista.”
3.2.1.9 Questão 09 - Caso o estudo da gramática normativa fosse abolido do ensino de
Língua Portuguesa, o que deveria ser ensinado, como deveria ser ensinado, quando deveria
ser ensinado e para quem deveria ser ensinado? Explique.
TABELA – 19
Respostas por aproximação de idéias ( Idéia Central )
Número
de
Sujeitos
Porcentagem
> Não sabe.
04
13,3%
> Não respondeu a essa questão.
02 6,7%
>
Aspectos envolvendo a oralidade.
02 6,7%
> Aspectos envolvendo a análise lingüística.
(Práticas de usos da língua)
04
13,3%
> Aspectos envolvendo os gêneros textuais.
(Práticas de leitura interpretação e produção de textos)
18
60%
TOTAL 30 100%
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166
Nessa pergunta, como explanado no capítulo anterior, interessávamos saber a
forma como o graduando processa o ensino de língua materna no contexto sociolingüístico
atual. Nosso intuito era obter informações sobre a perspectiva com a qual o graduando
fundamenta o ensino de Língua Portuguesa na educação básica, bem como o papel e a
importância do ensino normativo na escola. Assim, o graduando deveria explicitar como se
constituiria o ensino de língua materna sem a presença da gramática normativa. Nosso
interesse foi verificar quais relações de ensino o graduando poderia estabelecer ao considerar
a interface existente entre o conhecimento das nomenclaturas, o conhecimento das regras e o
domínio da língua padrão, agregado ao domínio das outras modalidades da língua. Nessa
perspectiva, observamos que a maior parte os graduandos informantes, ou seja, 60% deles,
elegeu o trabalho com gêneros textuais em práticas de leitura e interpretação de textos como
pressupostos para o ensino de língua materna. Assim, obtivemos relatos como estes:
-- “Deveria ser ensinado de outra forma, como por exemplo através do uso de textos. Deveria
ser ensinado após o aluno saber ler e escrever. Porque se ensinarmos desde o início da vida
escolar do aluno, ele terá mais tempo para desenvolver esse conhecimento.”
-- “Deveria ensinar com gêneros textuais, é um material rico em informações que qualquer ser
humano precisa. O trabalho com gêneros textuais pode acontecer desde as séries iniciais até as
finais de qualquer curso.”
-- “Bom, como já falei eu não acho que a gramática devesse de ser abolida, mas se isso chegar
há acontecer acredito que deveria trabalhar mais com textos, ‘gramática textual’ ”.
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167
-- “Deveriam ser ministradas atividades que estimulassem os alunos a ler, escrever e se
expressar oralmente. Para todo mundo e quanto mais cedo melhor.”
-- “O ensino de gramática normativa não deve ser abolido, o que precisa mudar é a forma
como é ensinada. Deveria ser associada aos textos de geografia, história, literatura e porquê
não até as disciplinas exatas, desde as séries iniciais. Mas para isso seria necessária uma
grande e considerável mudança em toda estrutura de ensino no Brasil. Que o PCN funcione!”
-- “Deveria ser ensinado de outra forma, como por exemplo através do uso de textos. Deveria
ser ensinado após o aluno saber ler e escrever. Porque se ensinarmos desde o início da vida
escolar do aluno, ele terá mais tempo para desenvolver esse conhecimento.”
-- “Deveria ser ensino produção de texto e estudos literários. Deveria ser ensinado para os
alunos desde o ensino fundamental.”
Por outro lado, quatro graduandos, ou seja, 13,3% deles, destacaram o
trabalho envolvendo reflexões lingüísticas e situações da língua em uso como focos para o
ensino. Eis os relatos nesse sentido:
-- “Os ‘n’ usos da língua, que deveria ser ensinado conforme as necessidades de uso da língua
no dia-a-dia, que deveria ser ensinado a todos os níveis de ensino, e para todas as pessoas.”
-- “Deveria ser ensinado os vários usos da língua, de maneira dinâmica e ilustrativa, em todo
o processo escolar, para todos os falantes da língua.”
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168
-- O que deveria ser ensinado, como e quando, não é pergunta para se fazer a um graduando
do curso de Letras, mas sim, a um especialista de muita experiência e competência. o
obstante, penso que se acaso o estudo de gramática normativa fosse abolido, seria preciso
adotar um estudo lingüístico que satisfizesse as necessidades dos sujeitos usuários da língua.
Um estudo que fosse, talvez, mais dinâmico e interessante.”
-- “Deveria ser ensino os tipos de variação regional, social, econômico, grupos, idade, etc. Por
meio de pesquisas, para todo tipo de aluno.”
Faz-se necessário destacar ainda que os quatro graduandos que afirmaram
não saber o que ensinar, caso a gramática normativa fosse abolida da escola, sinalizaram que
aspectos envolvendo a leitura, a interpretação e a produção de textos deveriam ter destaque no
processo de ensino-aprendizagem de língua materna, como pudemos constatar nos seguintes
relatos:
--“Não sei. Imagino que deveríamos nos focar em leitura e interpretação. Muita leitura para
que o estudante assimile as peculiaridades da língua escrita.”
-- “Não sei responder. É complicado pois teríamos que trabalhar com bom senso e inferência.
Que tivesse maior carga de leitura se sobressairia, quem não tivesse estaria perdido.”
-- “Não sei. Não conheço textos governamentais, comerciais, jurídicos e alguns sociais que
não utilizam a norma. De menos, é claro, aqueles com objetivos humorísticos.”
-- “Não sei. Se fosse abolida, com certeza surgiria outra modalidade de ensino padronizada.”
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169
Por último, como demonstra na tabela 09, dois graduandos não responderam
a essa questão e dois graduandos pontuaram que a oralidade deveria ter destaque no ensino.
Eis os relatos:
-- “Se caso a gramática fosse abolida, deveria usar a oralidade como forma de estudo na
Língua Portuguesa.
-- “O estudo da gramática não deve ser abolido da língua portuguesa, mas caso tal fato
acontecesse, deveria ser ensinado o uso da língua oral, ou melhor, deveria acabar com a
discriminação lingüística, mas isso não agora, daqui a muito tempo e por pessoas que
valorizem a fala no seu meio e origem.”
3.2.1 – Algumas considerações após as análises das respostas dos graduandos:
Considerando o caminho percorrido para traçar o perfil do professor do curso
de Letras, retomaremos a pergunta que introduziu este tópico, ou seja, “O graduando do
curso de Letras: quem é esse sujeito?”, bem como as análises das respostas dadas, para
considerar que o graduando em Letras que vem sendo formado atualmente, se constitui como
um sujeito que:
Pressupõe que o ensino de Língua Portuguesa deve ser baseado no desenvolvimento de
habilidades de leitura, interpretação e produção de textos orais e escritos;
Afirma ter passado pelo estudo da gramática normativa no período de formação
universitária, porém de forma reflexiva e associada às teorias lingüísticas modernas;
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170
Acredita que o ensino-aprendizagem de língua materna deve contemplar o trabalho
envolvendo as teorias sobre gêneros textuais, porém sem a supervalorização de um gênero
textual em detrimento de outro;
Considera importante que, no curso de Letras, seja dada ênfase ao estudo dos aspectos que
envolvem a gramática normativa, sobretudo o domínio das nomenclaturas e das regras que
compõem a mesma;
Considera como pré-requisito o estudo dos aspectos ligados à norma culta e à língua
padrão na formação do graduando do curso de Letras;
Afirma que ambas, oralidade e escrita, devam ser abordadas em sala de aula, por não
haver uma modalidade melhor que a outra ao tratar dos fenômenos lingüísticos;
Admite que, mesmo após ter passado pelo processo de formação no curso de Letras, não
se sente confiante para redigir um texto obedecendo à norma culta e as convenções ligadas
à escrita em língua padrão;
Afirma que os aspectos da gramática normativa devem ser ensinados na educação básica,
ou seja, no ensino fundamental e médio, porém se divide entre o ensino gramatical
contextualizado e o ensino meramente normativo;
Considera que, na mesma proporção, tanto a formação universitária quanto a experiência
em sala de aula e o permanente aperfeiçoamento profissional, são elementos fundamentais
para um fazer docente mais eficiente.
3.2.2 – Professor e Graduando: o que converge e o que diverge em seus discursos?
Analisando o discurso que emerge das questões respondidas pelos
professores do curso de Letras e pelos seus respectivos alunos, ou seja, graduandos em
processo de formação, concluiremos que o fazer docente, nas duas dimensões, pressupõe
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171
eleger a língua como um fenômeno social e estruturado de forma dinâmica e coletiva. Tanto o
professor quanto o graduando afirmam que é na reflexão permanente sobre os usos da língua,
em seus diferentes contextos sociais de interação, que haverá condições de se efetivar um
consistente processo de ensino-aprendizagem. Assim, professor e graduando revelam a
preocupação em tornar seus aprendizes indivíduos que, dentro de um amplo conjunto de
conhecimentos lingüísticos, sejam usuários competentes da língua no sentido de identificar os
fins comunicativos que estão gerando aquele ato discursivo, sem desconsiderar o contexto de
produção, os interlocutores envolvidos e as intenções pretendidas. Se por um lado, o professor
universitário afirma que deficiências lingüísticas no processamento da leitura, da escrita,
da interpretação e da compreensão gramatical por parte do graduando, quando este chega à
universidade, por outro, tal graduando pondera que os conhecimentos transmitidos durante o
período acadêmico precisam ser revistos pelo fato de não garantirem um grau de letramento
que permita desenvolver competências sobre o funcionamento estrutural e pragmático da
língua, sobretudo em seus contextos de uso, incluindo-se aqueles em que a
predominância das modalidades cultas. No entanto, professor e graduando concordam que é
de fundamental importância que haja uma preocupação com a formação continuada e com a
manutenção dos saberes. O professor universitário acredita que o graduando deve se manter
atualizado com relação às mudanças sociais, econômicas, culturais, educacionais e científicas
para ser capaz de estabelecer suas próprias diretrizes de trabalho, isto em parceria com outros
profissionais e pesquisadores da lingüística e da educação. Em face disso, o graduando
considera importante assimilar os saberes em consonância com os avanços científicos
provenientes das investigações lingüísticas. Porém admite que na graduação as relações de
interação que se estabelecem entre teoria e prática promovem equívocos de ordem
pedagógica, ou seja, os discursos voltados não apenas para o ensino, mas também para a
reflexão sobre a elaboração e a reelaboração do conhecimento, desfavorecem o
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172
aprimoramento e o consenso quanto à melhor metodologia de ensino que promova
efetivamente a aprendizagem de língua materna. Assim, tais graduandos acreditam que um
fazer docente mais eficiente acontecenão apenas nos bancos universitários, mas através do
permanente aperfeiçoamento profissional e na vivência diária em sala de aula.
3.3 O graduando do curso de Letras - “saber ou não saber gramática, eis a
questão”:
Conforme exposto no capítulo anterior, solicitamos aos graduandos que
respondessem a uma atividade contendo questões de conhecimentos gramaticais. Baseamos
na premissa de que, a partir de tais questões, seria possível verificar as competências
lingüísticas dos informantes no que concerne ao conhecimento de aspectos gerais da
gramática normativa, além de servir como um elemento a mais para a composição do perfil
dos graduandos. Vale ressaltar que partimos da hipótese de que muitos graduandos, mesmo
envolvidos no estudo e na reflexão de aspectos da gramática tradicional em seu processo de
formação docente, encontrariam alguma dificuldade ou não teriam um bom desempenho ao
responderem às questões gramaticais propostas. Em face disso, solicitamos que os graduandos
produzissem primeiramente a dissertação e, somente depois, respondessem o exercício
gramatical. Optamos por tal critério, a fim de que a tarefa que envolvia as questões
gramaticais o inibisse ou prejudicasse de alguma forma a produção textual daqueles
graduandos. Acreditávamos que, se primeiramente lhes fosse solicitado que resolvessem as
questões gramaticais antes da produção textual, causaria um desestímulo quanto à produção
do texto, pois ao verificarem inicialmente que o conhecimento sobre aspectos da gramática
normativa era limitado, tais graduandos condicionariam ou mesmo associariam as
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173
competências lingüísticas pertinentes à produção de textos ao conhecimento técnico e
estritamente gramatical.
A princípio, apresentamos a tabela contendo o número de acertos de cada
graduando informante nos exercícios sobre conhecimentos de aspectos da gramática
tradicional/normativa (cf. capítulo 2, item 2.6.2 Tarefa). Foram elaboradas 15 (quinze)
questões, perfazendo um total de 15 (quinze) acertos ou erros
22
. Dessa forma, obtivemos os
seguintes resultados:
TABELA – 20
Número de acertos dos graduandos informantes nos exercícios gramaticais
22
Respostas dos exercícios gramaticais: 1) Oração subordinada substantiva objetiva direta; 2) Substantivo
composto; 3) Hibridismo Tele (grego) visão (latim); 4) Um cidadão; 5) Palestras; 6) Sintaticamente: Objeto
direto / morfologicamente: Pronome oblíquo; 7) “...finalmente teria uma sensação de tranqüilidade.” Oração
coordenada sindética adversativa; 8) ...que dormiu cem anos.” Oração subordinada adjetiva restritiva; 9) AM
de Vieram Dígrafo vocálico; 10) 05 cinco; 11) Pronome reflexivo Função de objeto direto; 12) 05 cinco;
13) Complemento nominal; 14) Oração subordinada reduzida de infinitivo (adverbial temporal); 15) Adjetivo.
Suj. Acertos: Suj. Acertos: Suj. Acertos: Suj. Acertos:
1-
4,5
17-
8
33-
4,5
49-
3,5
2-
3
18-
8
34-
5,5
50-
Z
3-
2
19-
6,5
35-
3
51-
1
4- Z
23
20-
2
36-
Z
52-
1,5
5-
4,5
21-
5
37-
3,5
53-
0,5
6-
2
22-
Z
38-
3,5
54-
Z
7-
3
23-
Z
39-
4,5
55-
3,5
8-
2
24-
3,5
40-
7,5
56-
Z
9-
3,5
25-
2,5
41-
2
57-
4
10-
1,5
26-
5,5
42-
6
58-
1,5
11-
5
27-
4,5
43-
4,5
59-
1,5
12-
4,5
28-
2
44-
2
60-
2,5
13-
Z
29-
8
45-
2,5
61-
2
14-
Z
30-
4
46-
3
62-
4
15-
5
31-
4
47-
3
63-
1
16-
3
32-
5,5
48-
Z
64-
Z
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174
Conforme consta na tabela acima, consideramos como “meio” acerto aquele
item em que o graduando acertou parcialmente a questão, ou seja, a resposta dada estava
correta, porém incompleta. Nesse sentido, a título de exemplificação, temos na questão 07 a
seguinte resposta considerada correta: Oração coordenada sindética adversativa”. Assim,
obteve meio acerto o graduando que respondeu, por exemplo, “Oração coordenada” ou
Sindética adversativa”. As questões 09, 11 e 14, por abrirem precedentes para mais de uma
resposta dentro de um mesmo conceito gramatical, foram consideradas corretas na situação
em que o graduando deu uma ou outra resposta aceitável para aquele item. Assim, se, por
exemplo, na questão 11 (onze), que tem como resposta correta a afirmativa pronome
reflexivo – função de objeto direto”, o graduando deu como resposta apenaspronome
reflexivo” ou apenas “objeto direto”, consideramos como certa tal questão.
Objetivando ter uma visão mais perceptível dos dados reunidos na tabela 20,
elaboramos uma outra tabela de caráter quantitativo dos acertos, em função do número de
graduandos informantes e sua representação percentual. Dessa forma, apresentamos os
seguintes dados:
TABELA – 21
Relação entre número de acertos e número de graduandos informantes:
23
Segundo as normas da ABNT, em um quadro ou tabela, quando o dado for rigorosamente “0” (zero), emprega-
se o símbolo Z (cf. FRANÇA et al., 2004).
NÚMERO DE ACERTOS: Número de Sujeitos Porcentagem
Nenhum acerto:
11
17,2%
De 0,5 a 04 acertos:
34 53,1%
De 4,5 a 10 acertos:
19 29,7%
De 10,5 a 15 acertos:
00 0%
TOTAL
64 100%
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A partir da tabela 21, é possível observar que 11 (onze) graduandos (17,2%)
não obtiveram nenhum acerto ou deixaram as questões sem respostas, ao passo que 34 (trinta
e quatro) graduandos (53,1%) acertaram de 0,5 a 04 questões, e apenas 19 (dezenove)
graduandos (29,7%) alcançaram o número máximo de acertos, ficando na margem de 4,5 a
08 questões corretas, conforme demonstrado na tabela 20.
Analisando os dados, pudemos constatar que a porcentagem do número de
graduandos informantes que conseguiu acertar alguma questão equivale a 82,8% do total, um
índice razoável se comparado ao percentual de 17,2% de graduandos que não obtiveram
nenhum acerto. Por outro lado, apenas 03 (três) graduandos dentre os 64 (sessenta e quatro)
que participaram do teste, alcançaram o número máximo de respostas corretas, somando o
teto de 08 questões certas (cf. TAB. 20), isto é, pouco mais da metade das questões propostas.
É importante frisar então, que o número de graduandos que obteve um maior número de
acertos é extremante baixo, ou seja, (4,7%) do total se for considerado que os informantes são
graduandos do curso de Letras em processo de conclusão da formação universitária. Assim,
ao ponderarmos que os graduandos passaram pelo estudo sistemático da gramática normativa
na educação básica e que, conforme os relatos apresentados por eles, tal estudo foi retomado
de forma, ora sistemática e ora reflexiva, associado às teorias lingüísticas modernas no
período da graduação em Letras (cf. item 3.2.1.2, TAB. 12, p. 146), concluiremos que o
conhecimento gramatical desses graduandos deveria ser maior. Nessa perspectiva, o baixo
conhecimento e domínio específico apresentados no teste gramatical confirmam nossa
hipótese de que os graduandos em Letras que são formados atualmente, de modo geral, não
dominam conceitos mais elaborados sobre a norma culta, bem como aspectos relevantes
acerca da gramática normativa.
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176
Se, por um lado, acreditamos que o conhecimento explícito das
nomenclaturas, das definições e das classificações gramaticais o garante que o indivíduo
seja um bom leitor e mesmo um bom produtor de textos orais e escritos, haja vista que
ninguém ou produz um texto pensando se está usando uma oração subordinada adverbial
consecutiva, ou se aquele substantivo é composto por um dígrafo consonantal ou vocálico, ou
mesmo se aquela palavra possui seis letras e cinco fonemas, por outro lado, um graduando em
Letras, por ser um profissional especialista em Língua Portuguesa e um permanente estudioso
dos fenômenos lingüísticos que envolvem a aquisição, o domínio e os contextos de uso dessa
língua, deve possuir um bom conhecimento sobre os aspectos discursivos e pragmáticos
inerentes à língua, bem como possuir um profundo conhecimento sobre a estrutura e as
normas que regem essa língua. Acreditamos que, ao associar conhecimentos lingüístico-
discursivos e teórico-normativos, o profissional com formação em Letras secapaz de atuar
como um verdadeiro mediador das aprendizagens e não apenas como um discípulo passivo
que reproduz os modismos didático-pedagógicos que costumam imperar no ambiente escolar
e nas instituições destinadas à pesquisa e à formação de professores de língua materna. Isso
não quer dizer que seja função desse profissional, no ensino fundamental e dio, ensinar
nomenclatura gramatical, assunto já discutido no primeiro capítulo desta dissertação, mas é
função dele, a partir de um conhecimento mais teórico e elaborado sobre os aspectos da
norma culta e da língua padrão, ser capaz de dominar plenamente os mais variados recursos
sócio-discursivos e lingüístico-textuais, tanto em situações formais quanto em situações
informais, principalmente, ao se colocar perante uma turma para ensinar Língua Portuguesa.
Em outras palavras, após considerar os resultados obtidos no teste gramatical e os sujeitos que
o responderam, acreditamos que o ensino-aprendizagem de língua materna não deve se limitar
ao estudo sistemático da gramática normativa, mesmo porque, como observamos aqui, tal
estudo, da forma como é tradicionalmente feito nas escolas, não promove uma melhora no
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177
desempenho lingüístico dos indivíduos em processo de escolarização. Contudo, considerando
o graduando como um “aspirante” ao posto de professor de Língua Portuguesa, podemos
afirmar que é na faculdade de Letras o local propício para que haja uma discussão e uma
reflexão ampla sobre as várias manifestações da língua, sobretudo aquelas ligadas aos usos da
norma culta e da língua padrão, quer se trate de suas definições, quer se trate de seus
contextos de uso, quer se trate do ensino em nível fundamental ou dio. Nessa perspectiva,
Rocha (2002), ao discorrer sobre o ensino de Língua Portuguesa no curso superior, afirma
que:
“A graduação em Letras deve se preocupar, dentre outros, com os seguintes aspectos, no
que se refere à formação lingüística de um professor de Português: a) Estudo da estrutura
interna da língua portuguesa; b) Reflexões a respeito de posturas, crenças e atividades a
respeito das línguas de um modo geral e, de um modo especial, da língua portuguesa; c)
Discussões a respeito dos conteúdos a serem ministrados no ensino de Português no curso
fundamental e médio.”
(ROCHA, 2002, p. 286)
Remetendo-nos ao exposto anteriormente, podemos concluir que, ao se
redimensionar o olhar sobre a formação que é dada no curso de Letras, os aspectos ligados ao
funcionamento, aos usos e ao ensino da língua ganharão uma nova dimensão dentro e fora da
universidade. Assim, cabe aos sujeitos envolvidos no ensino-aprendizagem desvencilharem o
trabalho com a língua do estudo estritamente prescritivo e descontextualizado. Para isso, o
professor de Língua Portuguesa deve conhecer, entre outras especificidades da língua, os
processos de funcionamento gramatical, refletindo sobre eles e considerando fala e escrita
como manifestações lingüísticas que se processam sociodiscursivamente em contextos
variáveis de uso e de interação historicamente marcados e agregados a um dado tempo, um
dado espaço e um dado grupo de usuários.
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178
3.4 – O graduando do curso de Letras - “O sujeito que se constrói no texto”:
Como mencionado no capítulo anterior, a análise dos textos foi baseada no
pressuposto de que os informantes eram graduandos do curso de Letras e que, por esta razão,
apresentariam produções escritas de caráter formal, ou seja, textos regulados pelos preceitos
da norma culta e da escrita em língua padrão, devido à própria situação de interlocução
apresentada. Considerando Bronckart (1999), ao destacar que dentre as várias decisões que o
produtor deve tomar no processo de elaboração de textos, a mais geral consiste na escolha do
gênero, pontuamos que o gênero textual esperado dizia respeito a uma redação. Durante a
formação superior, espera-se que o graduando, de um modo geral e, em especial, o graduando
em Letras, adquira a capacidade de aplicar os conhecimentos e expor as idéias de forma clara,
concisa e convincente, tanto na produção oral quanto na produção escrita. Para tal situação, o
graduando deve lançar mão do discurso acadêmico e dos gêneros que fazem parte desse
discurso para legitimar sua escrita. Nesse sentido, Simões (2002, p. 31), ao discutir algumas
questões que envolvem a escrita do aluno universitário, destaca que “a produção do texto
técnico-científico, além do indispensável domínio específico do tema, requer conhecimento,
no mínimo, satisfatório da língua instrumental em que será produzido. Isto porque a clareza
ou legibilidade do texto é condição de seu aceite e credibilidade”. Assim, temos reforçada a
idéia de que a linguagem científico-acadêmica se apresenta, muitas vezes, como um código
instrumental que deve ser dominado pelos graduandos, pois esse domínio torna-se um fator de
aceitabilidade dos textos que são produzidos em determinadas situações de interação
discursiva.
Com relação à atividade de análise textual, ressaltamos que, nesta pesquisa,
consideramos a visão instrumental da linguagem como mero código e a noção de texto como
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179
forma de interação que pode ser aceita ou rejeitada pelos interlocutores em uma determinada
situação de produção. Dessa forma, é no aprofundamento dos conceitos sobre discurso, sobre
prática discursiva, sobre comunidade discursiva e sobre contexto de produção apresentados
por Evangelista et al. (1998) que basearemos as análises que se seguem. Seguindo o modelo
adotado (cf. QUADRO 03), apresentamos primeiramente os resultados da investigação
referentes aos aspectos de adequação conceitual dos textos e, posteriormente, os resultados
relativos à adequação formal. Porém, é importante enfatizar que a separação entre conceitual e
formal é apenas uma questão metodológica, visto que, no processo de leitura, esses dois
aspectos atuam simultaneamente na construção dos sentidos do texto.
3.4.1 – Análise quanto aos aspectos conceituais dos textos:
Como explicitado, aqui, abordaremos as dimensões comunicativa
(pragmática ou discursiva) e semântica. As análises tomam como base o funcionamento
textual, verificando se os textos produzidos cumprem a função discursiva, tendo em vista a
situação de produção, ou seja, a escrita de um texto dissertativo-argumentativo de caráter
formal. As avaliações ilustram o funcionamento comunicativo, considerando como os
produtores responderam a essa situação, bem como a influência que tal situação teve na
estruturação do texto. Nessa perspectiva, durante as análises, iremos nos remeter aos aspectos
de natureza formal, mesmo porque “uma boa relação entre conteúdo e forma faz parte das
expectativas dos leitores, já que isso facilita a compreensão”
(EVANGELISTA et al., 1998, p. 77).
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180
3.4.1.1 – Adequação ao tema proposto:
Analisando as 64 (sessenta e quatro) redações que compõem o corpus deste
trabalho, verificamos que todas foram elaboradas dentro do tema proposto, haja vista os
graduandos informantes discursarem, de um modo geral, sobre a formação docente no curso
de Letras, considerando as questões que envolvem o ensino de Língua Portuguesa na
atualidade. Como na proposta de atividade havia um elemento motivador, ou seja, um trecho
retirado de um texto que discutia o letramento escolar, pautado no desenvolvimento de
habilidades de leitura e de escrita, associadas às práticas de oralidade e reflexão sobre a língua
(cf. item 2.6.2, TAREFA, p. 93), 05 (cinco) graduandos, 7,8% do total, propenderam-se na
discussão sobre a relação entre oralidade e ensino, ao passo que os outros 59 (cinqüenta e
nove) graduandos, 92,2% do total, direcionaram seus textos para discussões mais amplas,
envolvendo a formação universitária e pós-universitária, bem como os desafios encontrados
no processo de ensino-aprendizagem de língua materna, sobretudo na educação básica.
Apenas um graduando informante não entrou completamente no “jogo” comunicativo,
fugindo parcialmente ao tema proposto e atendo-se apenas na exposição de suas idéias com
relação a esse tema, criticando tal proposta, conforme transcrito abaixo
24
:
> “Acho que a proposta desta atividade é conflitante. Isso porque o tema tratado no artigo é
demasiadamente rio, o que é o ensino hoje? Temos um sistema arcaico de ensino, nos
deparamos com questões alarmantes sobre o fato de que a escola não evoluiu. Para que serve
decorar regras se não debatemos sobre as questões importantes sobre o futuro do ensino?”
24
Os trechos transcritos nesta dissertação mantêm com fidelidade a escrita dos sujeitos envolvidos, inclusive as
formas estruturais.
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181
3.4.1.2 – Coerência (unidade temática):
A coerência textual foi analisada a partir de aspectos como a continuidade, a
progressão, a articulação, a relação título-texto, bem como a consistência argumentativa e sua
relação com os aspectos formais. Dessa forma, como exposto no capítulo anterior, na análise
da coerência textual, estão envolvidos aspectos formais, conceituais e a relação existente entre
esses mecanismos no jogo de significados que se estabelece entre os interlocutores envolvidos
na interação. Partimos do pressuposto de que os graduandos informantes compartilham dos
mesmos valores e conhecimentos construídos pelos leitores de seus textos, o que nos
possibilitou avaliar se os argumentos e posições apresentadas eram coerentes ou não, pois “a
rigor, a coerência não é propriedade exclusiva do texto, mas se constrói na interação com o
leitor. A significação não é inerente ao texto, depende do contexto comunicativo, dos
conhecimentos prévios partilhados entre locutor e interlocutor e do trabalho cooperativo dos
dois na produção do sentido” (EVANGELISTA et al., 1998, p. 79).
Pela análise dos textos, observamos que 18 (dezoito) graduandos, ou seja,
28,1% do total, apresentaram incoerências textuais em suas produções. Partimos da premissa
de que em um texto dissertativo-argumentativo as idéias precisam se completar, ou seja, um
argumento geral se apóia em um mais particular e vice-versa. Assim, a título de
exemplificação, destacamos 06 (seis) casos em que o pistas textuais, ou motivos, ou
razões evidentes que justifiquem o desvio verificado.
Um dos graduandos informantes, ao introduzir seu texto, destacando que a
formação em Letras ao qual foi exposto contrariou suas expectativas quanto ao que esperava
do curso, apresenta a seguinte justificativa:
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> “Percebemos que o curso o trata o assunto Língua Portuguesa como deveria tratar. O que
observo aqui em nossa faculdade são indivíduos que o sabem se expressar oralmente e tão
pouco através de textos. Acredito que a Língua Portuguesa não pode ser objeto de reflexão
tendo a gramática-tradicional como foco de conhecimento, mas a liberdade que temos para
não estudar gramática ou estudar muito pouco e sair daqui com um diploma nos faz fracos e
ineficazes. Contudo acredito que a Língua Portuguesa deve ser pesquisada e entendida além
dos limites gramaticais.”
A incoerência está no conflito de idéias apresentadas, ou seja, o graduando
informante primeiramente afirma que a gramática tradicional o deve ser o objeto de
reflexão ao se estudar Língua Portuguesa e, em seguida, confirma que o não estudo ou o
estudo limitado da gramática tradicional no curso de Letras tem promovido o fracasso e a
ineficiência profissional do graduando em Letras.
Um outro graduando, no parágrafo de conclusão de seu texto, ao afirmar que
as escolas exigem o conhecimento sobre a gramática tradicional, fazendo uso de “regrinhas”
incompatíveis com a realidade oral, confessa que é a favor do ensino voltado para a leitura e a
produção de textos, porém afirma em seguida que a formação do professor feita em oito
períodos, tendo apenas dois dedicados ao estudo gramatical, não seria suficiente para que o
futuro profissional se sentisse confortável e preparado para enfrentar uma sala de aula. Eis o
trecho:
> “(...) ainda vemos por aí escolas que exigem o uso da gramática tradicional e ainda fazem os
alunos ‘decorarem’ regrinhas muitas vezes incompatíveis com a nossa realidade oral. Eu,
como aluna do 8º período, sou a favor de um ensino mais voltado para a leitura e produção de
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texto, mas não posso deixar de mencionar que para nós, futuros professores, somente dois
períodos de gramática da língua portuguesa na faculdade, não é suficiente para nos sentirmos
totalmente preparados a enfrentar uma sala de aula.”
Nesse trecho, a incoerência reside na visão que se tem sobre ensino,
gramática e prática docente. A impressão que se tem é que, segundo o autor, oralidade, leitura
e escrita não possuem relação latente com a gramática da língua e que essa gramática é regida
apenas pelas regras e nomenclaturas da gramática tradicional. Isso se confirma na conclusão
dada, em que o graduando confessa, contrariando a visão sobre o ensino de língua exposta
anteriormente, que o estudo limitado dos aspectos gramaticais da língua no processo de
formação universitária, promove insegurança e despreparo quanto ao fazer docente.
Outro graduando, logo no parágrafo de introdução do seu texto, afirma que
antes de ter entrado na universidade, entendia a língua como um código e que, por
conseguinte, queria decifrar esse código. Eis o trecho:
> “Quando entrei para a universidade a língua era, para mim, um código. Eu queria decifrar
esse código. Com o tempo estudando textos trazidos pelos professores, discutindo Vigotsky,
Bakhtin, Benveniste, entre outros, percebi que a língua é um instrumento de e para interações
sociais e que o texto é muito mais que um amontoado de signos em um pedaço de papel ou
mesmo pronunciado por uma boca que fala.”
Reelaborando os dizeres do graduando, podemos inferir que há, por um
lado, a língua vista como um sistema centrado no código (que é explícito), ou seja, um
sistema lingüístico organizado por signos específicos, compreendidos pelos membros de uma
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mesma comunidade. Por outro lado, apoiados nas orientações de Bakhtin (1995), a visão
centrada no código deixa de ter um caráter amplo e abstrato, passando a ser compreendido
como um fenômeno social de interação verbal que se realiza através da enunciação e através
dos enunciadores. Observamos então, que a incoerência no trecho passa pelo viés conceitual
sobre língua e sobre código lingüístico apresentado pelo graduando. Parece claro que um
idioma é constituído por um código lingüístico, formado por sistema de sinais, signos ou
símbolos que permitem a comunicação entre os indivíduos. Assim, o próprio ato de
comunicação se constitui no “decifrar o código”, mesmo porque a interação verbal precede a
entrada na universidade e o estudo sistemático da língua e da gramática.
Em um outro texto, o graduando obriga” seu leitor a construir sentido a
partir da recuperação de informações que não foram colocadas de forma clara e explícita no
texto. Eis o trecho:
> “Através de experiência de estágio em escola particular, municipal e estadual é perceptível a
divisão existente entre as disciplinas. Cada uma dentro do seu limite formatado por leis
ultrapassadas. Uma considerável solução é a instauração dessa interdisciplinaridade
comentada, mas timidamente aplicada.”
Nessa passagem, a incoerência diz respeito ao termo destacado no trecho e
entendido como elemento anafórico: “dessa interdisciplinaridade comentada”. Como pode ser
observado, fazendo algumas inferências no trecho acima, concluímos que a partir da
experiência do graduando no período de estágio, foi constatado haver a ausência dialógica
entre as disciplinas escolares, situação que para ele não deveria acontecer. No entanto, ao
sugerir uma possível solução, faz uso de um recurso anafórico que não possui um referente
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anterior explícito, deixando para o leitor a tarefa de “interpretar” o que foi dito, ou seja,
entender que o diálogo existente entre as disciplinas escolares pode ser denominado como
algo de caráter interdisciplinar e que a ausência desse diálogo pode se tornar um problema,
haja vista o aspecto dialógico das disciplinas poder ser, segundo o autor, entendido como uma
possível solução para as questões que envolvem o ensino.
Outro graduando parece ter cometido um desvio de ordem lexical. Tal
desvio não compromete o sentido geral do texto, mas merece nossa atenção. Eis o trecho:
> “Pessoalmente ser professor é uma questão que envolve aspectos étnicos, culturais e sociais.
Uma vez que ensinar é uma arte a qual temos que levar em conta valores que cada indivíduo
carrega consigo.”
Como podemos perceber, a palavra destacada no trecho: étnicos foi
empregada erroneamente se considerarmos o sentido global que emerge do trecho em questão.
Etimologicamente, o termo “étnico” ou “etnia” diz respeito à raça ou a um conjunto de raças
ou mistura de raças. Retomando o trecho, parece pouco provável que o graduando queira
afirmar que o professor deva considerar, no seu fazer docente, aspectos ligados à etnia, ou
seja, que faça distinção de raças no processo de ensino-aprendizagem. Uma possível
explicação para essa ocorrência pode estar no fato de o graduando ter trocado a palavra ético
por étnico, situação que em uma produção textual de caráter dissertativo-argumentativo
merece maior atenção para que o haja dualidade ou erro de interpretação por parte dos
interlocutores.
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3.4.1.3 – Relação título -texto:
Apesar de Evangelista et al. (1998) considerarem a relação título-texto um
elemento recomendável nas redações escolares por funcionarem como um definidor do tema
e, ao mesmo tempo, mostrarem a posição do aluno em relação ao assunto abordado no texto,
não pontuamos tal elemento como um critério relevante na análise e avaliação das produções
que compõem este trabalho. Justificamos essa posição pelo fato de que o próprio contexto em
que ocorreu a realização da atividade, ou seja, uma produção textual de caráter dissertativo-
argumentativo, composta por um trecho que serviu de instrumento motivador, propiciou a
abertura de precedentes para a ausência de um título, sem que isso comprometesse a
compreensão daquele texto. Constatamos que, das 64 (sessenta e quatro) redações, apenas 05
(cinco) possuíam título, confirmando que a ausência do mesmo foi legítima e que, para os
graduandos, sua presença ou ausência não comprometeria a construção de sentido do texto
produzido. Porém, vale ressaltar que dos 05 (cinco) títulos apresentados nas redações, apenas
um não estava de acordo com o tema abordado e com a posição defendida pelo graduando
informante.
3.4.1.4 – Continuidade e progressão:
A continuidade permite reconhecer o eixo condutor do texto, ou seja, a idéia
nuclear que se mantém e se organiza no desenrolar desse texto, garantindo a unidade textual.
Assim, a continuidade está relacionada à repetição, a fim de garantir a manutenção do eixo
temático. Porém Evangelista el al. (1998) não descartam a possibilidade de ocorrer
rompimentos intencionais nessa unidade textual, visando a um efeito discursivo proposital.
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Nesse caminho, complementando a continuidade, a progressão diz respeito também ao tema
central e, ao mesmo tempo, ao acréscimo de novas informações ligadas a esse tema no
desenvolvimento textual. Então, na produção de um texto, espera-se que ele avance na medida
em que é tecido. No que concerne à progressão, Evangelista el al. (1998) pontuam que a
ausência dessa progressão pode ser também um recurso usado propositalmente como
elemento que favorece a construção de sentido. Avaliando as redações produzidas pelos
graduandos, observamos que o houve nenhuma ocorrência em que a continuidade e a
progressão foram contrariadas propositalmente ou o. No entanto, um texto nos chamou a
atenção pelo fato de não haver um grande desenvolvimento da idéia central, dando a
impressão de que ocorreu uma falha no aspecto da progressão discursiva. Eis o trecho com os
grifos que destacam a retomada da mesma idéia sem uma evolução considerável do discurso:
> “O processo de criação e assimilação do conhecimento, em qualquer campo, se por
vontade do aluno. O papel do professor é tão somente orientar e fomentar o desejo para que
dentro da própria perspectiva de interesse do aluno esse obtenha sucesso.”
3.4.1.5 – Redundância e articulação:
Compondo a tessitura textual, juntamente à continuidade e à progressão, a
redundância e a articulação dizem respeito à inter-relação dos elementos lingüísticos entre si e
com o todo através das relações lógico-semânticas. Assim, a redundância tem a ver com a
não-progressão e a articulação com a não-continuidade e com o nexo das idéias implícitas e
explícitas no texto. Nesse âmbito, poucas foram as ocorrências que apresentaram aspectos
ligados à redundância e à articulação de idéias. Das 64 (sessenta e quatro) redações, apenas 13
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(treze), 20,3% do total, apresentaram problemas dessa natureza. Apresentaremos apenas dois
exemplos, um ilustrando aspectos voltados à redundância e outro ilustrando aspectos voltados
à articulação. Eis os trechos:
> “A faculdade de letras tem uma grande preocupação com a formação de seus alunos e o
desempenho desses alunos no mercado de trabalho. Em função disso, ela busca um
desenvolvimento das capacidades críticas desses alunos. Referindo-se mais especificamente
ao desenvolvimento dos alunos da área de licenciatura da faculdade de letras, o curso busca
fazer reflexões sobre o que é ensinado, como é ensinado e se de fato é importante ser
trabalhado certas matérias na escola regular onde esse aluno irá ensinar.”
Observamos que há uma elevada repetição de termos como mostram as
partes destacadas no trecho. O graduando informante vai repetindo não apenas idéias, mas
também palavras e/ou expressões. Em todo o texto, vão sendo alternados os termos “dos
alunos” e “desses alunos” somando 06 (seis) ocorrências em subseqüência.
> “Estudar a ngua hoje significa as variações lingüísticas, ou seja, os fatores que levam a
essa variação, que poderíamos considerar alguns como responsáveis por essa variação.
Poderíamos chamá-los de fatores sociais econômicos e geográfico.”
Nota-se que o trecho acima apresenta problemas de articulação, ou seja,
ausência de conectores que elucidem os segmentos de idéias. Esse trecho se refere ao segundo
parágrafo de uma produção em que partes fragmentadas e obscuras. Em tal parágrafo,
parecem faltar palavras ou expressões que permitam ao leitor construir sentido sem ter de
recorrer, tantas vezes, à memória discursiva para preencher as lacunas deixadas no desenrolar
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das idéias. Inicialmente, parece faltar um termo que faça conexão entre a palavra “significa” e
o termo “as variações lingüísticas”. Em seguida, o conectivo que” parece não articular as
idéias da sentença que ele introduz frente àquelas que emergem da sentença anterior. Talvez,
uma possível rearticulação dessas idéias resultaria na seguinte construção considerada mais
aceitável: Estudar a língua hoje significa estudar as variações lingüísticas, ou seja, os
fatores sociais, econômicos e geográficos que levam a tais variações.”
3.4.1.6 – Apresentação e adequação gráfica:
A apresentação e a adequação gráfica, mesmo sendo, a princípio,
consideradas como parte da estrutura formal do texto (cf. EVANGELISTA el al. 1998), foram
incluídas no aspecto conceitual, seguindo os preceitos de Hoffmann (2002). O uso desse
mecanismo se deve ao fato de que a apresentação e a adequação gráfica influenciam a
competência comunicativa, mesmo porque, tanto a apresentação quanto à adequação gráfica
trazem em si a primeira impressão que se tem de um texto.
Pela análise textual, observamos que a função comunicativa não foi
prejudicada pela estruturação gráfica das produções que fizeram parte desta pesquisa. No
entanto, alguns textos, 17 (dezessete) produções, 26,6% do total, apresentaram rasuras e uso
de corretivos. Tal constatação nos chamou a atenção, uma vez que os graduandos poderiam
fazer um rascunho antes de entregar a produção textual definitiva. Assim, mesmo
considerando que houve um período de tempo pré-estabelecido, ou seja, duas horas para que
fosse realizada tal tarefa e por se tratar de graduandos em processo de formação, concluímos
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que, nos casos em que apareceram rasuras e marcas de corretivo e/ou correção da escrita,
houve falta de adequação à situação de produção textual.
3.4.2 – Análise quanto aos aspectos formais dos textos:
A análise dos aspectos formais está relacionada à forma como os textos
foram estruturados, no que se refere aos recursos lingüísticos utilizados pelos graduandos
informantes. Em relação à estruturação formal, a freqüência das incorreções observadas nos
textos foi reduzida em contrapartida ao número de acertos. Considerando os aspectos do
padrão culto da escrita, a maior parte dos erros verificados refere-se à pontuação e à
acentuação.
3.4.2.1 – Adequação à tipologia textual:
Com relação à tipologia textual, não houve nenhuma ocorrência em
desacordo com o perfil de texto proposto na atividade. Dessa forma, ao ter sido solicitado uma
produção “dissertativo-argumentativo”, ou seja, um texto em que seu produtor discute sobre
algo, expondo suas idéias e conhecimentos, era de se esperar que todos os graduandos
informantes discorressem sobre seus pontos de vista nessa forma discursiva, como de fato
ocorreu.
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3.4.2.2 – Coesão:
Como afirmam Evangelista et al. (1998, p. 85-86), a coesão textual é uma
propriedade do texto que “diz respeito à inter-relação entre os elementos lingüísticos no plano
textual, abrangendo as relações entre as frases e entre as partes ou seqüências do texto”.
Assim, os elementos da cadeia coesiva apontados pelas autoras (cf. QUADRO 03, p. 98)
contribuem para a fluência, a articulação e o bom funcionamento textual. Analisando os textos
que compõem este trabalho, concluímos que, em geral, foram bem estruturados coesivamente.
A maioria apresenta adequação dos tempos e modos verbais, dos elementos anafóricos e
catafóricos, de vocábulos sinônimos e antônimos (associações semânticas) para evitar
redundância ao retomar uma palavra ou termo já mencionado anteriormente. Porém, 18
(dezoito) textos, 28,1% do total, apresentaram um ou mais problemas de coesão textual. A
seguir, apresentamos cinco exemplos
25
nesse sentido:
> “A língua portuguesa atualmente tem contribuído positivamente para que os alunos
adquirem aquisição e pleno desenvolvimento de habilidades de leitura e da escrita.”
> É comum encontrarmos algum brasileiro que afirme que não sabe português. Talvez, isso
se deva ao fato de que, a instrução referente a língua portuguesa que esse indivíduo recebeu,
tinha sido calcada em regras gramaticais, mais do que ultrapassadas.”
Nos trechos acima, observamos que problemas quanto à correlação de
termos e modos verbais. No primeiro trecho, o verbo “adquirir”, conjugado na terceira pessoa
25
A fim de facilitar a leitura, grifamos os aspectos lingüísticos abordados nas análises feitas. Os trechos
transcritos aqui também mantêm com fidelidade a escrita dos sujeitos envolvidos, inclusive as formas estruturais.
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192
do plural do presente do modo indicativo, devido ao próprio contexto discursivo em que está
inserido, deveria ter sido conjugado na terceira pessoa do plural do presente do modo
subjuntivo, ficando “adquiram”. no segundo trecho, a locução verbal “tinha sido”, que está
no pretérito mais-que-perfeito composto
26
do modo indicativo, devido ao contexto discursivo,
deveria estar no pretérito perfeito do modo subjuntivo, ficando “tenha sido”. Vale ressaltar
que, embora as incorreções referentes ao uso dos tempos e modos verbais tenham sido
reduzidas, o emprego discursivo dos verbos é de extrema importância para situar as
informações textuais e as intenções do autor, pois o emprego errôneo de um tempo ou modo
verbal pode comprometer, sensivelmente, a interação discursiva e, por conseguinte, a
produção de sentido.
> “O ensino da língua portuguesa deve ser voltado para a preparação dos alunos no sentido de
torná-los aptos a ler, escrever e falar com segurança e seguindo os padrões da norma culta.
Além de desenvolver esta habilidade, o professor deve também, expor para esses alunos, as
outras formas, orais e escritas em eu a língua se apresenta.”
Observamos nesse trecho que dois problemas de coesão entre termos de
um mesmo seguimento. Primeiramente, esta habilidade faz referência aos termos ler,
escrever e falar, assim deveria se apresentar no plural, ou seja, estas habilidades. Por outro
lado, como as habilidades de ler, escrever e falar foram mencionadas pelo autor num primeiro
momento e, imediatamente, retomadas pelo termo “esta habilidade”, segundo as regras
gramaticais referentes à escrita em língua padrão, o pronome demonstrativo deveria ser
grafado com S e o com T , neste caso, essas habilidades, mesmo porque o pronome esse
(e variações) faz referência a algo que foi falado anteriormente e de forma imediata. Como a
26
Segundo Terra (2002), atualmente, para indicar um fato passado que foi concluído, muitas vezes, em
contrapartida a um outro fato também passado, tem-se usado formas como: tinha cantado, tínhamos partido,
tinham posto, que são denominadas como “pretérito mais-que-perfeito composto” do modo indicativo.
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193
situação de produção textual era de caráter formal, esperávamos que o emprego dos pronomes
demonstrativos seguisse os preceitos normativos da língua. Porém, de se considerar que,
apesar de existirem regras de uso para tais pronomes, nos textos que compõem esta pesquisa
não se constata muita rigidez no seu emprego, o que denota uma tendência de “flexibilização”
no uso do pronome demonstrativo na escrita dos graduandos.
> “Alguns aspectos problemáticos do ensino são críticos tanto para o desenvolvimento do
aluno, quanto para o do professor. Dentre eles eu descrevo: i) o despreparo do professor,
como dito no primeiro parágrafo ; ii) a relação dos alunos com seu objeto de ensino e
aprendizagem, ou seja do desinteresse do aprendiz em, ‘gastar seu tempo’ para aprender sobre
a norma; iii) o repertório do professor em incentivar este aluno a se interessar pela língua; iv)
(...) Enfim, todas estas questões, para mim, são o que deverão ser levadas em conta para
iniciarmos um bom diálogo sobre aquilo que Bagno chama de ‘pleno desenvolvimento de
habilidade e aquisição de leitura e escrita.’ Considero que estas questões não serão resolvidas
nestas poucas linhas, mais o o início do que imagino ser, por meio de respostas claras e
objetivas, uma boa formação Acadêmica.”
Nesse trecho, há três problemas de ordem coesiva. Além do uso incorreto do
pronome demonstrativo no termo estas questões, como ocorrido e comentado no trecho
anterior, observamos que não houve uma retomada anafórica explícita para o último termo
estas questões ao se fazer menção aos aspectos problemáticos do ensino, enumerados pelo
graduando informante em seu texto. Segundo Marcuschi (2001, p. 219), um termo anafórico é
usado para designar palavras e expressões que, no texto, se reportam a outras expressões,
enunciados, conteúdos ou contextos textuais, retomando-os ou não, contribuindo assim para a
continuidade tópica e referencial. Desse modo, ao retomarmos o discurso do graduando,
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194
encontramos duas incorreções. A primeira, diz respeito à própria redundância do termo estas
questões, citado duas vezes consecutivas, e a segunda em se fazer uma clara referenciação
anafórica, o que provoca a necessidade de se pensar se o termo estas questões retoma aspectos
problemáticos ou se o graduando considera tudo aquilo que foi dito (“nestas poucas linhas”)
como o referente para estas questões. Por último, um uso indevido do advérbio mais que
não faz referência a nada que foi dito anteriormente, nem posteriormente. Parece que a
intenção discursiva seria introduzir o último seguimento com a conjunção adversativa mas e
não com um advérbio, como ocorrido.
> “Entramos na faculdade desconhecendo as inúmeras classificações da GT, que foram
decoradas no ensino fundamental; não precisamos delas para nada, nem mesmo para o
vestibular da UFMG e então nos esquecemos delas. Então, na faculdade vem o desafio,
reaprendermos as inúmeras regras para depois repassá-las a uma turma de alunos
desinteressados a quem elas não servirão para nada (...)”
Neste trecho, há uma incorreção no uso de conectores, sobretudo ao se
considerar o seguimento: “não precisamos delas para nada” e sua relação com o seguimento
antecedente e subseqüente. Também um problema no uso do advérbio de tempo “então”
como operador discursivo. Ao repetir esse termo no último seguimento, o graduando parece
comprometer a consistência argumentativa, dando a impressão que dificuldades em manter
a unidade textual. Em outras palavras, o caráter cronológico que se imprime ao termo “então”
provoca certa ruptura na construção da coerência em nível discursivo, que somente se desfaz
dentro de um contexto mais amplo em que tal termo foi usado.
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195
3.4.2.3 – Morfossintaxe:
Segundo afirmam Evangelista et al. (1998, p. 83, grifos da autora), são
considerados na análise da dimensão gramatical “os recursos lingüísticos do texto, sua função
e relevância, sua inter-relação e possibilidades de sentidos. Essa dimensão está presente no
nível da frase (na sintaxe) e também no nível textual (na coesão)”. Assim, a morfossintaxe é
entendida como a inter-relação entre os elementos lingüísticos nos limites frasais, que estão
mais voltados para a tradição gramatical. Dessa forma, as incorreções verificadas estão mais
relacionadas à estruturação das frases e a regência. 08 (oito) produções textuais, 12,5% do
total, apresentaram um ou outro problema quanto à estruturação dos períodos, como
demonstrado nos trechos abaixo:
> Mas acho também muito importante o ensino da gramática. Por é ela também que muitas
vezes pode despertar essa reflexão da língua. Se ela não ensina a escrever e a argumentar,
pelo menos temos um parâmetro a seguir para o bem falar.”
> Podem ser criadas atividades que levem o aluno a apreender o que se faz necessário sem
esta cobrança, para ele um sofrimento.”
> “Quando cheguei aqui no período, encontrei muita dificuldade no inglês, e em
consideração ao meus futuros alunos, decidi optar somente no Português.
> “Este pensar a língua é também essencial até combater o preconceito lingüístico que toca
em preocupações sociais mais profundas, o que aumenta a responsabilidade do educador.”
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196
Analisando o primeiro trecho, observamos que o autor inicia seu texto
expondo sobre a importância da leitura, destacando que o estudo da gramática é, muitas vezes,
enfadonho e desinteressante para o aluno em processo de escolarização. No segundo
parágrafo, destaca a importância do professor como “motivador” no processo de
aprendizagem. Posteriormente, inicia o último parágrafo com uma frase de valor adversativo,
introduzida pela conjunção mas. Entretanto, não conseguimos localizar a qual frase tal
conjunção faz referência ou mesmo oposição dentro do período e do todo discursivo. Vale
ressaltar que ainda nesse primeiro trecho, a preposição por introduz uma frase que não faz
referência nem a uma palavra ou termo antecedente, nem a uma palavra ou termo
conseqüente, ou seja, parece ser uma frase também deslocada do todo discursivo. No segundo
trecho, o termo destacado parece estar mal estruturado ou incompleto. Por ter uma função
adjetiva, ou seja, por imprimir uma característica à palavra cobrança, faltou um pronome
relativo que e um verbo de ligação que facilitassem a compreensão e o sentido da oração.
Assim, uma possível solução para o problema seria: “Podem ser criadas atividades que levem
o aluno a apreender o que se faz necessário sem esta cobrança que é para ele um sofrimento.”.
no terceiro trecho, um problema explícito de uso e de regência envolvendo a preposição
em. Segundo as orientações gramaticais, a relação de restrição ou limitação que a preposição
em estabelece entre os termos dificuldade e inglês desobriga o produtor do texto a fazer a
junção da preposição em a um artigo definido. Na segunda incorreção, o verbo optar, por ser
transitivo indireto, deve ser ligado ao seu complemento pela preposição por, ou seja, quem
opta, opta por alguma coisa, neste caso, “decidi optar somente pelo português”. No último
trecho, a oração destacada não faz ligação nem com a oração anterior, nem com a posterior.
Parece faltar uma conjunção ou um termo que amarre” as idéias expressas pelo autor no
período. Uma possível correção seria o deslocamento da frase destacada e a introdução de
uma preposição e de um artigo junto ao verbo combater, ficando a frase da seguinte forma:
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197
“Este pensar a língua é também essencial, o que aumenta a responsabilidade do educador ao
combater o preconceito lingüístico, que toca em preocupações sociais mais profundas.”.
Ressaltamos que as incorreções na estruturação de períodos verificadas nas
produções textuais, apesar de terem sido relativamente pequenas, poderiam ter sido evitadas
por meio do monitoramento textual, realizado pelos próprios graduandos informantes através
do processo de rascunho, revisão e reescrita, fato que não ocorreu, haja vista que das 64
(sessenta e quatro) redações entregues, apenas 03 (três) continham, em anexo, os respectivos
rascunhos que deram origem ao texto final. Concluímos então, que os problemas verificados,
em sua maior parte, ocorreram devido à falta de revisão do texto escrito e não por falta de
conhecimento lingüístico pertinente à escrita, sobretudo a escrita em língua padrão.
3.4.2.4 – Emprego das classes gramaticais (adequação vocabular):
Neste tópico, verificamos a adequação vocabular, ou seja, se uma classe de
palavra foi empregada adequadamente ou se houve algum equívoco na utilização de um
vocábulo ou expressão, como verbos, advérbios, conjunções, adjetivos, substantivos, etc.
Nesse sentido, observamos que 12 (doze) textos, 18,7% do total, apresentaram um ou outro
problema quanto à adequação vocabular. Dentre os casos, apresentamos três (três) trechos a
seguir:
> “Mas acho muito importante o ensino da gramática. Por é ela também que muitas vezes
pode despertar essa reflexão da língua.”
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> “Como graduando em letras, a priori, acho importante dizer que não me veio à mente a idéia
de ser um lecionador da língua portuguesa, mas o simples fato de ser estudador dessa língua.”
> “No ingresso à faculdade, logo no início do curso, tem um choque de expectativas.”
No primeiro trecho, o autor faz um uso inadequado tanto da conjunção
mas, quanto da preposição por. Assim, uma possível correção que estabelecesse sentido para
o período seria a retirada da conjunção adversativa mas e a troca da preposição por pela
conjunção explicativa porque. Dessa forma, a partir da correção teríamos: “Acho muito
importante o ensino da gramática, porque é ela também que, muitas vezes, pode despertar essa
reflexão da língua.” No segundo trecho, o autor faz uso de dois possíveis neologismos, ou
seja, duas palavras que o existem oficialmente no idioma, sendo preciso atribuir sentido a
partir da articulação entre tais palavras com os referentes léxico-semânticos que compõem a
língua, neste caso, lecionador a professor ou docente e estudador a estudante ou
aprendiz. No terceiro trecho, há uma incorreção no uso do verbo ter com o sentido de haver.
Parece ser essa escolha uma ocorrência muito comum na oralidade. Porém, segundo as regras
pertinentes à escrita em língua padrão, adota-se preferencialmente o verbo haver pelo seu
caráter de neutralidade e impessoalidade. Assim, considerando o todo discursivo, a correção
da frase seria: “No ingresso à faculdade, logo no início do curso, há um choque de
expectativas.”
3.4.2.5 – Concordância:
A clareza e a coerência de um texto estão intimamente ligadas à adequação e
à inter-relação dos elementos textuais entre si e com o todo discursivo. Assim, a concordância
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199
diz respeito à harmonia que se estabelece entre tais elementos nas frases. Os verbos alteram a
sua desinência para combinar com o a pessoa e o número de seu sujeito, enquanto os nomes
(artigos, adjetivos, numerais e pronomes) se adequam em número e gênero ao substantivo ou
pronome substantivo a que se referem. Analisando as produções textuais, constatamos que 24
(vinte e quatro) delas, 37,5% do total, apresentaram um ou outro problema de concordância
entre os termos frasais. A título de exemplificação, destacamos 03 (três) trechos que
apresentam problemas de concordância nominal e 03 (três) que apresentam problemas de
concordância verbal. Eis os trechos e, posteriormente, os comentários:
> “Diante disso, o Ensino de Língua Portuguesa vai ao encontro dos discentes de forma
prazerosa, levando-os ao raciocínio, fazendo-os com que a partir de seus
conhecimento prévio, desenvolva habilidade de leitura e interpretação.”
> “O ensino da Língua Portuguesa é algo muito importante, mas ao mesmo tempo, é bastante
polêmico. Isso porque é bastante discutido a questão de se impor uma forma dita culta da
língua.”
> “Entendo que os aluno deve aprender as condições e usos da língua, levando em
consideração as situações de uso.”
> “(...) em relação às disciplinas de alguma forma relacionadas à língua portuguesa, um bom
exemplo disso é o fato de boa parte dos alunos do ensino dio ainda terem dificuldades
com a interpretação de textos.”
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200
> As habilidades de escrita e leitura, por mais que ainda o seja o suficiente figura entre
maiores preocupações no ensino da língua atualmente.”
> “Os professores têm a capacidade de instigar e despertar nos alunos a reflexão sobre a
língua, sobretudo a brasileira que oferecem tantas possibilidades de criação.”
No primeiro trecho, o primeiro termo destacado deveria estar no plural,
concordando com o pronome possessivo, devendo ficar: seus conhecimentos prévios. Ainda
nesse trecho, o verbo desenvolva, por ter como sujeito o termo dos discentes deveria estar
conjugado no plural. Percebemos que a incorreção se manifesta devido à distância entre o
verbo desenvolver e seu sujeito/referente. No segundo trecho, o substantivo da expressão
destacada vem acompanhado por um artigo definido feminino singular, o que condiciona essa
expressão a se subordinar a tal artigo, devendo ficar: “é bastante discutida a questão de se
impor uma forma dita culta da língua.”. No terceiro trecho, o núcleo do sujeito deveria
concordar com o adjunto adnominal que o acompanha, haja vista, ser esse adjunto um artigo
definido no plural. Ainda nesse trecho, constatamos que o verbo deveria estar no plural
concordando com o sujeito que está no plural, ficando: Entendo que os alunos devem
aprender”. No quarto trecho, parece haver uma incorreção considerada “clássica” por muitos
professores e revisores de textos, em que um sujeito, formado por uma expressão partitiva.
Assim, como o núcleo desse sujeito é composto por um termo no singular, ou seja, boa parte,
o verbo deveria concordar com ele também no singular, devendo ficar: “o fato de boa parte
dos alunos do ensino médio ainda ter dificuldades”. no quarto e quinto trechos transcritos,
constatamos que um claro problema de concordância entre o verbo e o seu sujeito. Assim,
os verbos seja e figura deveriam concordar com as habilidades de leitura e escrita, ficando
no plural, por outro lado, o verbo oferecem deveria concordar com o sujeito de caráter
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201
discursivo a língua brasileira, ficando no singular. A partir do exposto, mesmo havendo um
número relativamente baixo de incorreções frente ao número de acertos, ao considerar o
contexto de produção das redações, bem como os sujeitos envolvidos, concluímos que se
tivesse ocorrido um maior monitoramente da escrita, os desvios poderiam ter sido menores ou
mesmo nulos, haja vista, ser a concordância um aspecto que emerge da correlação direta dos
termos nominais e verbais explícitos no texto.
3.4.2.6 – Regência:
A sintaxe de regência diz respeito às relações existentes entre os termos
regentes (nomes e verbos) e seus termos regidos (termos que os complementam). A partir
desses atributos, temos a regência nominal, que se estabelece com substantivos, adjetivos e
advérbios e a regência verbal que se estabelece com os verbos. Nessa perspectiva, os erros de
regência em um texto escrito formal emergem da falta de domínio dos preceitos referentes à
língua padrão. Analisando as produções dos graduandos, constatamos que 08 (oito) textos,
12,5% do total, apresentaram um ou mais problemas de regência. A seguir, transcrevemos 04
(quatro) exemplos de incorreções referentes à regência nominal e verbal. Posteriormente,
apresentamos alguns comentários:
> “O ideal seria a utilização de materiais autênticos como reportagens, quadrinhos, etc para
expor aos alunos tal norma culta padrão e fazer com que eles próprios tenham a curiosidade
em ‘investigar’ o idioma e deduzir regras gramaticais.”
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202
> “Nós, graduando em Letras temos o direito à incoerências e falhas, mas estamos nos
formando para ensinar a Língua Portuguesa e tudo o que implica na aprendizagem da mesma,
ou ao menos o que nos cabe, dependendo do grau e séries com os quais iremos trabalhar.”
> “...em consideração ao meus futuros alunos, decidi optar somente no Português.
> Finalmente, observamos hoje que muitos alunos chegam no ensino dio sem dominar
as regras e a dinâmica do funcionamento da sua própria língua...”
No primeiro trecho transcrito, observamos que o substantivo abstrato
curiosidade deveria estar regido pela preposição de, em face desse termo ser derivado de
curioso que, segundo as normas da língua padrão, é regido pelas preposições de e por. No
segundo trecho transcrito, o verbo implicar, por ter o sentido de envolver exige complemento
sem preposição. no terceiro trecho transcrito, o verbo optar que foi destacado, é transitivo
indireto, logo requer a preposição por. Por último, o verbo chegar destacado, segundo os
preceitos da gramática normativa, deveria estar regido pela preposição
a
e não pela
preposição
em
, como ocorrido. É interessante destacar que, mesmo tendo sido reduzido o
número de incorreções e por se tratar de graduandos em processo de formação com
habilitação em Letras, era esperado um número menor de erros, haja vista, ser a regência um
aspecto formal presente na vida acadêmica dos informantes e de todos que freqüentam a
escola desde as séries iniciais. Tal fato confirma a hipótese de que o ensino voltado para a
análise gramatical em detrimento ao da normatização não contribui para que ocorra um
eficiente aprendizado e domínio da língua padrão. E mesmo sendo a regência um aspecto
formal que nem sempre compromete a função comunicativa, esta deve ser dominada,
principalmente, nos casos em que há uma exigência pelo uso da escrita formal.
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203
3.4.2.7 – Emprego da crase:
Ocorre a crase sempre que um termo que exija a preposição
a
e outro
termo que aceite o artigo
a
. A presença ou não da crase tem relação direta com a regência
verbal e nominal. Uma regência indevida, segundo os padrões gramaticais, gera incorreções
quanto à presença ou à ausência do sinal indicativo da crase, representado pelo acento grave
na escrita. Analisando os textos dos graduandos, constatamos que 18 (dezoito) produções,
28,1% do total, apresentaram um ou mais problemas de emprego do sinal indicativo da crase.
A título de exemplificação, destacamos 03 (três) trechos contendo tais ocorrências:
> Mesmo percebendo esse real esforço em alterar as aulas de gramática por aulas de língua
vejo ainda que coisas que necessitam de mudança e um preparo real dos professores
quanto a realidade das escolas seja ela públicas ou não,...”
> “Desta forma, ‘falar certo’, ‘falar direito’ e até o incoerente ‘falar bonito’, tornam-se a
senha para garantir, um bom emprego, uma boa posição social e, em última análise, ter mais
acesso as estruturas de poder.”
> O fato de ter que entender e decorar tanto leva o aluno à não gostar de Português desde
às primeiras séries.”
No primeiro e segundo trechos, observamos que há a ausência do sinal
gráfico indicador da crase. no terceiro trecho, o autor marca os termos destacados
erroneamente com o acento grave. Notamos que, na maior parte dos casos observados, se
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204
tivesse ocorrido um maior monitoramento da escrita e uma revisão textual, a presença de
incorreções seria reduzida ou mesmo nula.
3.4.2.8 – Colocação pronominal:
Segundo os preceitos da gramática normativa, a colocação pronominal diz
respeito ao uso dos pronomes oblíquos átonos (me, nos, te, vos, o, a, os, as, lhe, lhes, se) e sua
posição nas frases ao se relacionarem com os verbos. Dessa forma, dependendo dos termos
que compõem uma oração (advérbios, pronomes, etc) ou tempos verbais (verbo auxiliar +
infinitivo ou gerúndio, futuro, etc), o pronome oblíquo átono pode se apresentar antes do
verbo próclise; no meio do verbo mesóclise; ou após o verbo ênclise. Vale ressaltar que
alguns gramáticos (CUNHA, 2001; SACCONI, 2005 e TERRA, 2006) destacam
especificidades quanto ao uso dos pronomes oblíquos átonos principalmente no que se refere
à oralidade frente à escrita. Por outro lado, esses mesmos gramáticos defendem que regras
imutáveis quanto à colocação pronominal que devem ser observadas e seguidas, sobretudo no
que concerne à escrita em língua padrão. Nessa perspectiva, constatamos que 09 (nove)
produções, 14% do total, apresentaram problemas quanto à sintaxe de colocação pronominal.
A seguir, transcrevemos 03 (três) trechos com ocorrências nesse sentido e posteriormente os
comentários:
> “Apesar disso, é importante perceber que faz-se necessário o ensino das regras que regem
nosso idioma.”
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> “No entanto, tal concepção não caracteriza-se como a mais interessante para a
aprendizagem, deve-se estimular o desenvolvimento do letramento do indivíduo.”
> “Muitas vezes perde-se o tempo com o estudo da Gramática Normativa pois ele é muito
teórico. O fato de ter que entender e decorar tanto leva o aluno à o gostar de Português
desde às primeiras séries.”
Atentando para as regras de colocação pronominal exigidas na escrita em
língua padrão, observamos que, no primeiro trecho transcrito, o autor deveria ter feito uso da
próclise devido ao fato de que o pronome relativo
que
atrai o pronome oblíquo átono para
antes do verbo. Assim, o uso correto seria: “é importante perceber que se faz necessário...”.
No segundo trecho, também é recomendado o uso da próclise, pois o advérbio de negação
não atrai o pronome oblíquo átono para si. Dessa forma, o uso correto seria: tal concepção
não se caracteriza como a mais interessante...”. Por último, assim como no segundo trecho
transcrito, a locução adverbial muitas vezes atrai o pronome para si, devendo configurar uma
situação de próclise na colocação do pronome oblíquo átono na frase. Com isso, o uso correto
seria: “Muitas vezes se perde tempo com o estudo da Gramática Normativa...”. Porém, neste
caso controvérsias entre vários gramáticos. (cf. SACCONI, 2005). É interessante destacar
que, na maior parte das produções, houve a preferência pela próclise nas orações absolutas,
nas principais e nas coordenadas, quando não iniciadas por palavras ou termos atrativos.
3.4.2.9 – Paragrafação:
A correta reunião ou divisão das idéias apresentadas em um texto escrito se
pela paragrafação. Esse recurso possibilita melhor organização discursiva dos blocos
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206
semânticos entre si e com o todo textual. Uma boa paragrafação confere clareza e
objetividade, além de garantir a continuidade e a progressão de um texto. Assim, quando uma
idéia aparece em um bloco de significação separado por dois parágrafos ou, ao contrário,
quando idéias diferentes aparecem em um mesmo parágrafo, tem-se a impressão que o texto
está embaralhado, confuso e desarmônico, exigindo do leitor um esforço maior para aglutinar
as idéias de forma organizada e coerente. A partir das proposições acima, observamos que 16
(dezesseis) produções, 25% do total, apresentaram problemas de paragrafação. Contudo, não
apresentaremos a transcrição de nenhum trecho contendo tais incorreções devido a questões
estruturais do presente trabalho. Contudo, encontram-se disponíveis nos anexos alguns textos
que apresentam desvios referentes à organização dos parágrafos.
3.4.2.10 – Pontuação:
Assim como a paragrafação, a pontuação contribui para que o texto
apresente os seguimentos de idéia (unidades semânticas) de forma harmoniosa e coerente.
Segundo Evangelista et al. (1998, p. 87) “esses dois recursos correspondem à maneira como
convencionalmente se representam na escrita os significados expressos pela prosódia na
língua falada e têm grande importância como auxílio à leitura”. Dessa forma, no texto escrito,
os sinais de pontuação têm a função de sinalizar pausas (vírgula, ponto-e-vírgula, ponto final,
etc), a melodia da frase (ponto de exclamação, ponto de interrogação, etc) e a organização
sintática dos termos da oração (locuções adverbiais, orações coordenadas e subordinadas, etc).
Analisando os textos dos graduandos, constatamos que 40 (quarenta) produções, 62,5% do
total, apresentaram problemas dessa natureza. Verificamos que a maior parte das incorreções
se refere à ausência ou má utilização da vírgula principalmente nas locuções adverbiais, na
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207
separação de orações e no emprego de expressões de caráter apositivo ou explicativo. A
seguir, transcrevemos 03 (três) trechos com algumas ocorrências referentes à utilização
dos recursos de pontuação:
> “Contudo acredito que a Língua Portuguesa deve ser pesquisada e entendida além dos
limites gramáticais.”
> No processo de aprendizagem uma troca de valores e conhecimentos que devem
ser respeitados tanto pelo professor quanto pelo aluno.”
> “Entramos na faculdade desconhecendo as inúmeras classificações da GT, que foram
decoradas no ensino fundamental ; não precisamos delas para nada, nem mesmo para o
vestibular da UFMG (...)”
No primeiro trecho, observamos que o período é introduzido por uma
conjunção coordenativa que está em posição de intercalação frente ao que foi expresso
anteriormente e ao que foi expresso posteriormente. A ausência da vírgula quebra a seqüência
natural da frase, sendo necessário então, a presença de tal sinal de pontuação, devendo ficar:
Contudo, acredito que a Língua Portuguesa...”. No segundo trecho, o termo destacado é
um adjunto adverbial deslocado que deveria estar também separado por uma vírgula, ficando:
No processo de aprendizagem, uma troca de valores...”. No terceiro trecho, o uso do
ponto-e-vírgula foi indevido, pois, considerando o todo discursivo, seria mais conveniente o
uso de um ponto final. Cabe pontuar que, embora a pontuação tenha sido um aspecto formal
que apresentou um maior nível percentual de incorreções, a compreensão global dos textos
não foi comprometida.
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208
3.4.2.11 – Ortografia:
Como o próprio nome diz, ortho e graphos provêem do grego e significam,
respectivamente, “correto” e “escrita”. Assim, observamos aqui a escrita correta das palavras.
Devido à situação de produção dos textos que compõem este trabalho, esperávamos um maior
monitoramento da escrita, que deveria estar isenta de incorreções ou aspectos que
contrariassem os preceitos da gramática normativa e das convenções da língua. Porém,
constatamos que 20 (vinte) produções, 31,2% do total, apresentaram um ou mais problemas
de ordem ortográfica. Eis algumas palavras transcritas contendo incorreções: analizar,
analizados, troxe, podería-mos, ascenção, infelismente, proceso, excurções. Vale ressaltar
que a quantidade de erros ortográficos foi relativamente reduzida ao considerar os elementos
textuais do todo discursivo, ou seja, os acertos dos graduandos informantes. Dessa forma,
ratificamos a premissa de que os problemas de troca ou ausência de letras, cedilhas e acentos
nas palavras poderiam ter sido evitados através de uma revisão da escrita. Ainda dentro do
aspecto referente à ortografia, acrescentamos as siglas que, segundo os preceitos gramaticais,
devem obedecer às mesmas regras estabelecidas para os nomes comuns, ou seja, devem estar
em concordância com os princípios ortográficos que constituem o idioma. Por outro lado,
partimos do pressuposto de que, por se tratar de um aspecto ligado ao processo de formação
de palavras, as siglas, quando o consagradas nos usos sociais, devem apresentar um
indicativo sobre seu significado para que não ocorram desvios ou falhas na compreensão do
discurso. Nessa perspectiva, apontamos 04 (quatro) casos do total de 12 (doze) ocorrências
que, apesar de não terem sido computadas como incorreções referentes à ortografia,
mereceram nossa atenção:
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209
> “Preparar o professor de Língua Portuguesa não é fazê-lo decorar a GT, com o fim de
ensiná-la posteriormente. A Gramática Normativa pode ser consultada por qualquer pessoa
devidamente alfabetizada e letrada.”
> “Tradicionalmente, a função do professor de Português se resumia a aplicar em seus a teoria
da gramática tradicional e as definições da NGB.”
> “(...) o aluno de letras o terá condições de promover aulas de português como querem os
lingüistas e os PCNS e PCNEMS.”
> “Cabe a nós, professores, levar para as salas de aula esta metodologia e despertar nas
escolas este novo conceito e tentar mudar os resultados negativos apresentados em exames
como o SAEB e ENEM.”
É interessante destacar que os graduandos, ao fazerem uso de certas siglas
sem determinar seus significados, deixam para os interlocutores a tarefa de, na maior parte
dos casos, “deduzir”, a partir do contexto e do conhecimento sobre o assunto, o que está sendo
exposto naquele momento. Apenas como exercício de reflexão, comentaremos o primeiro
trecho em que o autor introduz a sigla GT sem um referente explícito no texto. Assim, ao
introduzir tal sigla, em seguida, o autor faz uma referência explícita ao termo gramática
normativa. Dessa forma, somente conseguimos concluir que o significado de GT é gramática
tradicional, considerando o todo discursivo e não as pistas deixadas pelo autor. O mesmo
acontece nos outros trechos transcritos e na maior parte das redações em que aparece siglas de
uso mais restrito à lingüística ou ao universo escolar. Concluímos então que, quando é feito o
uso de uma sigla menos comum em um texto de caráter formal, o autor deve atentar para os
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210
aspectos ligados às regras referentes à escrita ortográfica da sigla e, sobretudo, ao caráter de
legitimidade do texto, que se estabelece também, quando é feito um uso coerente das siglas e
abreviações.
3.4.2.12 – Acentuação:
Assim como a pontuação, os marcadores de acento sinalizam para o leitor a
prosódia do texto escrito. É, portanto, um aspecto referente às propriedades acústicas da fala
que não podem ser preditas apenas pela transcrição ortográfica das palavras. Dessa forma, o
uso indevido de um acento nas palavras pode resultar num texto ambíguo ou obscuro.
Analisando as produções dos graduandos, constatamos que 38 (trinta e oito) delas, 59,3% do
total, apresentaram um ou mais problemas quanto à acentuação. A seguir, transcrevemos 03
(três) trechos com ocorrências referentes à má utilização ou ausência de acentos nas palavras:
> “Lembrando sempre que a verdade o deve ser construida durante o processo de
aprendizagem. Ou seja, nínguem é dono absoluto da verdade.”
> Tradicionalmente observamos que as aulas de português são na realidade aulas de
gramática que não orienta o aluno em entender o porquê desse aprendizado nas sim de te-lo
como banal desmotivante e chato”
> “Neste final de curso compreendo que mais do que estudar gramatica ou linguistica, pude
encontra, ou cobiçar uma IDENTIDADE, e é isto que pretendo dispertar nos meus alunos.”
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211
No primeiro trecho, a palavra construida, por ser formada por um hiato
tônico com a letra
i
, necessita ter um acento agudo nessa letra, ficando construída. Nesse
mesmo trecho, a palavra nínguem, por ser uma oxítona terminada em em deve ter um acento
agudo na letra
e
na última sílaba, ficando ninguém. No segundo trecho, a formação verbal
terminada em
e
tônico seguido de lo exige a presença de um acento circunflexo nessa letra,
ficando tê-lo. no terceiro trecho, a palavra gramatica, por ser proparoxítona, necessita ter
um acento agudo na letra
a
da segunda sílaba, ficando gramática. Da mesma forma, a
palavra linguistica, por ser também proparoxítona, exige um acento agudo na letra
i
da
segunda sílaba, bem como um trema na letra
u
, ficando lingüística. Ratificamos mais uma
vez que os problemas quanto à acentuação gráfica verificados aqui, poderiam ter sido evitados
com uma revisão da escrita ou mesmo com o uso de um dicionário. Apesar de não ter sido
permitido o uso de dicionário nesta situação de produção, em situações mais comuns da
escrita, é importante que o produtor recorra ao mesmo, quando tiver dúvidas. Nessa
perspectiva, a consulta ao dicionário deve ser incentivada na escola desde as primeiras séries
do ensino fundamental.
3.4.3 – Análise conclusiva das produções textuais:
Retomando a indagação que introduziu este tópico, ou seja, O graduando
do curso de Letras O sujeito que se constrói no texto’” e considerando as análises feitas
das produções textuais desses graduandos, apresentamos duas tabelas que darão uma visão
sumária e, ao mesmo tempo ampla da análise dos testes de produção textual. Dessa forma, a
primeira apresenta a síntese da análise quanto à Adequação Conceitual e, a segunda, a
síntese da análise quanto à Adequação Formal. Eis os resultados:
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212
TABELA – 22
Critérios para análise de redações – ocorrências dos fatos considerados:
TABELA – 23
Critérios para análise de redações – ocorrências dos fatos considerados:
PRODUÇÃO TEXTUAL – Adequação conceitual
Itens Fatores considerados Nº. de ocorrências Porcentagem
1 -
Adequação Conceitual
1.1 - Adequação ao tema proposto 01 1,6%
1.2 - Coerência (unidade temática) 18 28,1%
1.3 - Relação título-texto 01 1,6%
1.4 - Continuidade e Progressão 00 0%
1.5 - Redundância e Articulação 13 20,3%
1.6 - Apresentação e adequação gráfica 17 26,6%
PRODUÇÃO TEXTUAL – Adequação formal
Itens Fatores considerados Nº. de ocorrências Porcentagem
2 -
Adequação Formal
2.1 - Adequação à tipologia textual
00 0%
2.2 - Coesão (recursos anafóricos, articuladores,
operadores argumentativos, modalizadores,
correlação de tempos e modos verbais,
processos de coesão lexical – sinonímia,
antonímia, hiperonímia, hiponímia,
associação semântica)
18 28,1%
2.3 -
Morfossintaxe
2.3.1 - * Estruturação de períodos – presença de
oração principal e subordinadas necessárias
e de termos essenciais e integrantes
08 12,5%
2.3.2 -
* Emprego das classes gramaticais
(adequação vocabular)
12
18,7%
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213
2.3.3 - * Concordância
24 37,5%
2.3.4 - * Regência
08 12,5%
2.3.5 - * Emprego da crase
18 28,1%
2.3.6 - * Colocação pronominal 09 14%
2.3.7 - * Paragrafação 16 25%
2.3.8 - * Pontuação 40 62,5%
2.3.9 - * Ortografia 20 31,2%
2.3.10 -
* Acentuação 38 59,3%
Continuação Quadro 22
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214
CONCLUSÃO
É reconhecido em todo o mundo que a função das universidades não é somente a
formação de profissionais de nível superior, mas também a criação de conhecimento,
principalmente porque essa criação mantém os professores atualizados e capazes tanto
de efetuar a transmissão de conhecimento quanto dar uma verdadeira formação aos
seus alunos.
Gerhard Malnic, 2007.
Considerando os objetivos propostos e as hipóteses levantadas no capítulo
de introdução desta pesquisa, apresentamos a seguir as conclusões pautadas nas análises dos
dados.
A primeira hipótese se baseou no que acreditávamos ser um ponto relevante
na formação de um professor de língua materna, ou seja, a influência que a instituição
formadora exerce na constituição do arcabouço de conhecimentos adquiridos pelos
graduandos e a implicação dessa influência na construção da prática pedagógica dos mesmos.
Essa hipótese foi comprovada a partir da análise das respostas dos questionários destinados
aos professores em contrapartida aos resultados dos testes gramatical e de produção textual
respondidos pelos graduandos. Assim, ao traçar os pressupostos que definem o perfil de
formação dos professores universitários, caracterizando a concepção que os mesmos têm
sobre os objetos e objetivos de ensino que compreendem o trabalho com a Língua Portuguesa
e, ao resgatar esses pressupostos materializados no nível de conhecimento sobre aspectos da
gramática normativa e da escrita em ngua padrão apresentados pelos graduandos,
concluímos que a instituição formadora define sensivelmente seu caráter didático-
metodológico não pelas matrizes curriculares dos cursos, mas pelo fazer docente de seus
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215
professores, pois esse fazer docente possui relação direta com o grau de conhecimento teórico
e prático adquirido pelos graduandos em formação.
A segunda hipótese, ratificando os pressupostos da primeira, dizia respeito à
influência direta que o professor universitário exerce na formação do graduando,
principalmente ao colocar em evidência sua concepção sobre língua e linguagem, bem como
seu ponto de vista sobre a interface existente entre a teoria lingüística e a práxis educativa. Ao
fazer uma relação contrastiva para definir os perfis do professor e do graduando (cf. capítulo
03, seção 3.2.2), tendo como base as informações contidas nos questionários, percebemos que
nas questões que envolveram aspectos sobre o conhecimento teórico e sobre a prática
pedagógica pertinente ao ensino de Língua Portuguesa, as respostas dos graduandos
coincidiram com aquelas dadas pelos professores. Assim, confirmando essa hipótese,
concluímos que a primeira concepção que o graduando sustenta sobre o que seria ensinar uma
língua para nativos falantes dessa língua se baseia no discurso que o professor universitário
legitima durante o processo de formação universitária desse graduando.
A terceira hipótese dizia respeito às controvérsias conceituais e didático-
metodológicas que envolvem o trabalho com gêneros textuais no processo de formação em
Letras e, conseqüentemente, no trabalho em sala de aula. Para essa hipótese, partimos do
pressuposto de que o tem havido, na universidade e na escola de ensino básico, um critério
bem definido sobre os processos de escolarização dos diversos gêneros textuais, cabendo ao
professor a árdua tarefa de eleger um dado gênero em detrimento de outro, seguindo critérios
não muito claros, que vão desde uma necessidade latente dos alunos de serem expostos a
determinadas formas textuais a ao inevitável interesse pelos modismos pedagógicos.
Confirmando essa hipótese, encontramos contradições nas respostas dadas tanto pelos
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216
professores universitários quanto pelos graduandos. Assim, ao tentarem definir quais gêneros
textuais deveriam ser privilegiados para fomentar situações de reflexão sobre a ngua e a
aprendizagem da mesma, a maior parte destacou apenas os gêneros acadêmicos (resumo,
resenha, projeto de pesquisa, artigo científico, memorial, relatório, monografia, etc),
desconsiderando outras formas textuais presentes na vida de qualquer indivíduo e que são de
fundamental importância nas práticas de interação discursiva.
a quarta hipótese dizia respeito ao pouco interesse que acreditávamos ter
sido dado à língua padrão no período de formação do graduando e, conseqüentemente, o
pouco enfoque no ensino-aprendizagem dessa modalidade da língua. Retomando as análises
dos questionários respondidos pelos graduandos, tal hipótese se confirma inicialmente, pois, a
maior parte respondeu não ter domínio da língua padrão e não se sentir confiante em redigir
um texto nessa modalidade, mesmo estando em processo de conclusão do curso. Por outro
lado, os professores universitários, em sua maioria, afirmam que é importante o estudo da
norma culta e da língua padrão no curso de Letras e ponderam adotar como estratégia de
ensino o constante exercício de interpretação e produção de textos em ngua padrão.
Considerando o posicionamento dos professores e a visão dos graduandos sobre a importância
da língua padrão no processo de formação universitária e pós-universitária, concluímos que
essa hipótese o se confirmou plenamente. Apesar dos graduandos dizerem não ter domínio
da língua padrão, o resultado do teste de produção textual realizado pelos mesmos foi, de um
modo geral, satisfatório se considerarmos a função e o caráter comunicativo que se
estabeleceram e não apenas os problemas de ordem conceitual e formal. Isso confirma que o
trabalho permanente de leitura, produção e interpretação de textos escritos em ngua padrão
promove habilidades relevantes de escrita inerentes a essa modalidade da língua. Vale
destacar que a aparente disparidade encontrada nas respostas dos graduandos em relação ao
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217
posicionamento dos professores ocorre pelo fato de não apenas profissionais da educação,
mas também muitos indivíduos confundirem o domínio da norma culta e da língua padrão
com o domínio da nomenclatura gramatical, postura que, como discutida no início deste
trabalho, deve ser fortemente combatida e abolida das práticas escolares.
A quinta hipótese levantada dizia respeito à falta de conhecimento dos
graduandos sobre conceitos teórico-prescritivos pertinentes à gramática normativa. Para testar
tal hipótese aplicamos um teste contendo exercícios gramaticais. Partimos do pressuposto de
que, mesmo tendo sido o estudo metalingüístico e prescritivo o principal objeto de ensino dos
graduandos desde as séries iniciais, esse estudo, como vem ocorrendo nas escolas, não
promove habilidades discursivas, competências de domínio teórico ou mesmo de domínio da
língua padrão. Confirmando essa hipótese, constatamos que 17,2% dos graduandos o
obtiveram qualquer acerto no teste. Dentre os 82,8% que acertaram alguma pergunta, o
índice máximo de acertos, num total de 15 (quinze) questões, foi de 08 (oito), alcançado por
apenas 03 (três) dos 64 (sessenta e quatro) graduandos. Esse resultado demonstra que, mesmo
depois de um longo período de estudo da teoria gramatical na educação básica, os graduandos
que vem sendo formados atualmente, não dominam sistematicamente aspectos ligados às
análises gramaticais como: classificação de palavras, análises morfológicas e sintáticas,
aspectos da fonologia, da formação de palavras, dentre outros. Um outro aspecto que
confirma nossa hipótese e reforça a premissa de que os graduandos não estudam efetivamente
gramática no curso de Letras e, por conseguinte, não aprofundam os conhecimentos sobre ela,
foi constatado a partir da análise do questionário respondido pelos professores universitários,
pois a maioria deles afirmou fazer uso da gramática apenas como fonte de consulta e
pesquisa. Conseqüentemente, os graduandos, em suas respostas, destacaram a necessidade de
se dar ênfase ao estudo da gramática normativa, da nomenclatura e das regras que compõem a
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218
mesma. Concluímos então que, mesmo não devendo ser o foco de ensino na educação básica,
o aspecto metalingüístico e prescritivo da gramática da língua deve ser abordado no curso de
Letras, porque, além de fazer parte do conjunto de competências lingüísticas inerentes à
formação de um professor de língua materna, o conhecimento teórico-gramatical contribui
para sustentar o construto metodológico da ação docente, norteando estratégias de ensino e
assimilação de conhecimentos sobre a língua, principalmente no que se refere aos aspectos da
língua padrão.
A sexta hipótese dizia respeito às dificuldades que acreditávamos ser
encontradas pelos graduandos em definir o conjunto de competências que deveriam fazer
parte de sua prática docente, ao considerar o domínio dos preceitos da gramática normativa e
as noções sobre gênero textual e variação lingüística. Os dados analisados nos questionários
dos graduandos confirmam nossa hipótese e sustentam a idéia de que, no processo de
formação universitária, o graduando em Letras o é efetivamente preparado para ensinar
Língua Portuguesa, sobretudo língua padrão. Se por um lado, tais graduandos confessam que
além da experiência docente e do aperfeiçoamento profissional, a formação universitária é de
fundamental importância para o futuro professor de língua materna, por outro, os professores
universitários afirmam encontrar dificuldades em promover um melhor desempenho
lingüístico dos graduandos, sobretudo no que tange ao ensino-aprendizagem da língua padrão.
Assim, consideram o processo de formação no curso de Letras insuficiente para garantir ao
graduando o domínio das habilidades necessárias para que ele atue plenamente como
professor de língua materna, pontuando que apenas a prática docente e a formação continuada
darão condições a esse graduando de adquirir e dominar as várias competências pertinentes ao
trabalho com a Língua Portuguesa.
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219
A sétima e última hipótese dizia respeito à influência direta que
acreditávamos ter a formação universitária na consolidação das competências lingüísticas dos
graduandos, principalmente no que se referia à produção escrita em língua padrão,
independentemente de haver um estudo mais sistematizado da gramática normativa no curso
de Letras. Sustentando essa hipótese, operamos com a idéia de que o estudo sistematizado da
gramática durante o curso, apesar de ser extremamente importante para fomentar situações de
reflexão sobre a ngua, não promoveria uma produção textual isenta de desvios e incorreções
tanto de ordem semântico-discursiva quanto de ordem lingüístico-pragmática. Para nossa
surpresa, mesmo constatando que, nos cursos de Letras, não há um estudo direcionado para os
aspectos ligados à prescrição gramatical, mas, ao contrário, um estudo de caráter mais
reflexivo, voltado para uma abordagem das questões lingüísticas de forma menos teórica e
mais contextualizada, como comprovam os relatos dos professores informantes, a maior parte
das produções textuais apresentou problemas tanto de natureza formal quanto conceitual,
ainda que isso o tenha comprometido a função comunicativa dos textos e nem a construção
de sentido. Assim, essa hipótese foi comprovada, ratificando que não uma relação direta
entre o estudo e o domínio sistematizado da gramática normativa com a efetivação de
competências pragmático-discursivas relativas à escrita formal. Por outro lado, a
comprovação dessa hipótese também abre precedentes para novos questionamentos sobre a
“eficiência” ou “ineficiência” do estudo da língua apenas pelo viés reflexivo, haja vista, ter
sido comprovado aqui que esse estudo também não promove uma maior proficiência na
escrita em língua padrão. Talvez seja necessário repensar estratégias de ensino que promovam
a competência em língua padrão em detrimento ao simples caráter reflexivo sobre os
fenômenos lingüísticos que se apresentam. Dessa forma, concluímos que, certamente, a
adequação de um texto escrito a uma situação comunicativa tem relação direta com as
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experiências de seu produtor com as práticas de leitura e de escrita e não com o macificante
imperativo da metalinguagem, da prescrição e da reflexão lingüística descontextualizada.
Depois de realizada as análises das hipóteses levantadas nesta pesquisa, e
considerando a pergunta que motivou a realização da mesma, ou seja, “As faculdades têm se
preocupado em desenvolver competências comunicativas que irão refletir inevitavelmente na
atuação docente dos seus graduandos, futuros professores?”, podemos concluir que a
ergonomia do trabalho docente, sobretudo o trabalho com a Língua Portuguesa, pressupõe um
novo enfoque contextualizado às necessidades dos graduandos e da comunidade de ensino
onde estes irão atuar. Dessa forma, atentando para os pressupostos que compreendem o
ensino-aprendizagem de uma língua, principalmente no que concerne ao trabalho com a
norma culta e a língua padrão, é de fundamental importância considerar como eixo norteador
os agentes sócio-discursivos que ocupam a posição de interlocutores e não apenas as diretrizes
curriculares dos cursos de formação ou os modismos educacionais. Podemos reiterar ainda
que, no ambiente de formação docente, os processos de aquisição do conhecimento são pré-
determinados por objetivos que demarcam os papéis do professor e do graduando. Nessa
perspectiva, o fazer docente passa a ser visto como uma forma de ação, composta pelo
“objeto” dessa ação que é o ser humano e pelo produto” que é o conhecimento. Assim,
ancorado nessa concepção, o professor universitário deve redimensionar os preceitos sobre as
normas, as reflexões lingüísticas, as gramáticas de uso e as diretrizes didático-metodológicas
para que sua ão seja produtiva, permitindo ao graduando, a partir de um efetivo estudo
sobre os diferentes aspectos da língua, fazer as melhores escolhas no que tange ao ensino-
aprendizagem de língua materna.
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221
Considerando as reflexões anteriores e os resultados desta pesquisa,
percebemos que tem havido uma divergência ideológica entre professores e graduandos tanto
no que diz respeito ao escopo que compreende a formação universitária quanto aos
fundamentos que deveriam sustentar os processos de ensino-aprendizagem dengua materna.
Isso vem gerando equívocos no processo de formação desses graduandos, e,
conseqüentemente, aumentando as dúvidas sobre qual português ensinar, quando ensinar,
como ensinar e para quem ensinar. Nessa perspectiva, concluímos então que, na atualidade, os
cursos de Letras não têm conseguido fazer uma real interseção entre a teoria e a prática,
distanciando o graduando de seu objetivo de formação, ou seja, ser professor de Língua
Portuguesa. Dessa forma, os discursos voltados fortemente para a observação passiva de
aspectos da língua em detrimento ao ensino dessa língua, vêm reduzindo a capacidade do
graduando, futuro professor, de intervir efetivamente nos processos de ensino-aprendizagem,
principalmente nos aspectos que envolvem a aquisição e o domínio da língua padrão. Essa
constatação leva-nos a questionar a atual finalidade da formação em Letras e a considerar a
afirmação de Oliveira (2006) ao destacar que:
É fundamental que o profissional de Letras possa compreender as conseqüências das
concepções sobre língua e linguagem nos processos de subjetivação, os quais dizem
respeito à formação de uma identidade lingüística e social. A formação desse
profissional deve, assim, primar por alçá-lo a um estágio superior de interpretação a
interpretação crítica de textos teóricos, que pode lhe dar o direito (democrático) de
escolha de um caminho a seguir entre as diferentes posições nos estudos da linguagem.
(OLIVEIRA, 2006, p. 85)
&&&&&&&&&&&&&&&&
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APÊNDICE:
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232
CARTA DE APRESENTAÇÃO - 1
Belo Horizonte - MG, agosto de 2007.
Ao senhor (a),
Coordenador (a) do Curso de Letras dessa instituição.
Eu, Clemeson Campos da Cunha, mestrando do PosLin Programa de Pós-Graduação em
Letras / Estudos Lingüísticos da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, matrícula nº:
2006205352, residente e domiciliado na Rua Frei Zacarias : 487, bairro Santa Terezinha, Belo
Horizonte - MG, venho por meio desta apresentar-me a vossa senhoria com o objetivo de esclarecer e
formalizar junto a essa instituição de ensino os motivos de minha visita.
Como dito anteriormente, sou aluno do mestrado em Estudos Lingüísticos da UFMG e para a
elaboração de minha dissertação, estou desenvolvendo uma pesquisa junto a professores do curso de
Letras e alunos do último período do referido curso. Nessa perspectiva, para o levantamento e coleta
de dados pertinentes à pesquisa, selecionei (03) três instituições de ensino superior que ofertam
Licenciatura em Letras com habilitação em Língua Portuguesa. Dentro da proposta de trabalho, o
cronograma referente à minha estada nas instituições será de (01) um mês com datas e horários
previamente estabelecidos e divididos considerando as seguintes etapas:
1ª) Acesso ao currículo do curso e às ementas das disciplinas para análise;
2ª) Entrevista com professores do referido curso;
3ª) Observação de aulas ofertadas aos graduandos;
4ª) Entrevista e realização de atividades com um grupo de graduandos do último período do curso;
Vale ressaltar que pelo caráter científico, seguirei rigidamente a postura ética que compete a
um pesquisador não divulgando os nomes dos participantes diretos e/ou indiretos, tendo estes suas
identidades preservadas. Certos em contar com sua colaboração e apoio, agradecemos
antecipadamente.
________________________________________________________________________
Clemeson Campos da Cunha.
Mestrando – UFMG. E-mail: clemes[email protected]
________________________________________________________________________
Prof. Doutor Luiz Carlos de Assis Rocha.
Orientador – UFMG. E-mail: [email protected]om.br
________________________________________________________________________
Responsável – Secretaria.
PosLin – UFMG. Site: www.letras.ufmg.br/poslin
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ANEXOS:
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234
-
Universidade Federal de Minas Gerais.
Aluno: Clemeson Campos da Cunha.
Professor orientador: Doutor Luiz Carlos de Assis Rocha.
QUESTIONÁRIO 01 – Professor Universitário
OBS.: Caso seja necessário, use o verso das folhas. Vonão precisa assinar este questionário e sua
identidade será preservada. Antecipadamente, agradecemos sua participação e colaboração.
1- Em sua opinião, o que é ensinar Língua Portuguesa para nativos dessa língua?
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2- Quais estratégias de ensino são usadas por você no cotidiano do curso de Letras no que se refere à
“reimersão” do graduando à norma culta e à língua padrão?
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ANEXO - A
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3- Em sua opinião, quais textos (gêneros textuais) deveriam ser priorizados ou deveriam servir de
mecanismo para fomentar situações de efetiva reflexão e aprendizagem de aspectos da língua no curso
de Letras? Explique.
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4- Oralidade e escrita são manifestações da língua com aspectos peculiares em seus processos e usos.
No processo de formação do graduando, que aspecto da língua deve ser priorizado: oralidade ou
escrita? Explique.
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5- Partindo do pressuposto de que o graduando do curso de Letras passou pelo processo de
escolarização no ensino fundamental e médio, você encontra dificuldades ligadas ao desempenho
lingüístico dos graduandos no seu trabalho com a língua? Qual a explicação para tais dificuldades?
Como fazer para solucioná-las?
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6- Em sua opinião, como o graduando deve conciliar os aspectos teórico-gramaticais e os aspectos
sociodiscursivo-interacionais no futuro exercício docente, ou seja, na sala de aula quando estiver
ensinando Língua Portuguesa?
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7- Como você sua prática docente (ensino de Língua Portuguesa e/ou aspectos dessa língua) frente
às demandas da sociedade atual e o perfil do graduando em Letras que chega hoje à universidade?
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8- Você acha importante o estudo da norma culta / língua padrão no curso de Letras? Por quê?
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9- Você faz uso de gramáticas normativas no seu trabalho com os graduandos? Por quê?
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10- Você acha que o graduando em Letras da instituição em que você trabalha conclui o curso apto a
dar aulas de português, inclusive com relação ao ensino da norma culta / língua padrão? Por quê?
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OBRIGADO PELA COLABORAÇÃO.
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240
PRODUÇÃO TEXTUAL
Lentamente se vai reconhecendo, por exemplo, que a função primordial do ensino de língua na escola não
é inculcar uma norma-padrão por meio da doutrina gramatical tradicional, mas sim favorecer a criação de
condições para o letramento contínuo e ininterrupto dos alunos, isto é, para a aquisição e pleno
desenvolvimento de habilidades de leitura e de escrita, associadas a práticas relevantes de oralidade e à
reflexão sobre a língua.
(Bagno, Marcos [org] – Lingüística da norma, p. 197, 2002).
ATIVIDADE: A partir da leitura do trecho acima, redija um texto dissertativo-argumentativo expondo suas
idéias sobre a formação do graduando em Letras, considerando as discussões que discorrem sobre o ensino de
Língua Portuguesa atualmente. (Orientações: caso faça um rascunho, favor anexá-lo; se o número de linhas for
insuficiente, use o verso desta folha)
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__________________________________________________________________________________________
ANEXO - B
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241
O que as escolas precisam aprender
O mundo mudou. Os currículos ficaram obsoletos. Quais habilidades os alunos devem
desenvolver para enfrentar os novos tempos?
Imagine que um cidadão tivesse dormido um século e acordasse agora. O mundo seria uma
grande surpresa para ele. Aviões. Celulares. Arranha-céus. Ao entrar numa casa, ele não conseguiria
entender o que é uma televisão. Ou um computador. Poderia se maravilhar com uma barra de
chocolate. Escandalizar-se com os biquínis das moças. Perder-se num shopping center. Mas, quando
ele deparasse com uma escola, finalmente teria uma sensação de tranqüilidade. “Ah, isso eu
conheço!”, pensaria, ao ver um professor com um giz na mão à frente de vários alunos de cadernos
abertos. “É igualzinho à escola que eu freqüentei.”
Essa parábola é quase tão velha quanto o personagem que dormiu cem anos. É contada em
inúmeras palestras e cursos de reciclagem de professores. Ilustra como a escola se mantém fossilizada,
num mundo que não pára de mudar. A escola como a conhecemos hoje é fruto de uma sociedade
forjada no século XVIII, quando a Revolução Industrial e o fortalecimento dos Estados modernos
criaram a necessidade de formar cidadãos qualificados para um novo mercado de trabalho. A
Revolução Francesa e a independência americana também inspiraram um ideal igualitário, que
disseminou a idéia da educação como um direito de todos. Era uma ruptura em relação à escola antiga,
voltada para a formação de uma elite - fosse a casta religiosa da Idade dia, os burocratas a serviço
dos reis ou os aristocratas da Grécia clássica. Com a inclusão das massas na escola, foi preciso criar
mecanismos de homogeneização. Vieram da divisão dos alunos em séries, a especialização dos
professores em disciplinas e a sistematização de um ensino básico a ser transmitido para todos.
ÉPOCA, Ed. Globo, edição 466 – 23/04/2007.
1- Classifique a oração introduzida por “que” em: Imagine que um cidadão tivesse dormido um século
e acordasse agora. __________________________________________________________________
2- A classificação morfológica de “arranha-céus” é: ________________________________________
3- Como se denomina o processo de formação da palavra “televisão”?: _________________________
4- “ele” em: O mundo seria uma grande surpresa para ele, é uma anáfora do termo: ______________
5- O 4º substantivo do 2º parágrafo é:____________________________________________________
6- Em: A escola como a conhecemos hoje (...), o termo “a” destacado é:
sintaticamente:___________________________ morfologicamente:___________________________
7- Identifique (escrevendo abaixo) e classifique a oração introduzida por “mas” no 1º parágrafo:
__________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________
8- No 2º parágrafo, identifique (escrevendo abaixo) a 3ª oração e classifique-a:
__________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________
9- O 1º dígrafo do último período do texto é: ______________________________________________
10- Quantos fonemas há na palavra “também”? ____________________________________________
11- A função sintática de “se” em: Escandalizar-se com os biquínis das moças, é:_________________
12- Quantos adjetivos / locuções adjetivas há ao todo no 1º parágrafo? _________________________
13- A função sintática do termo destacado em:(...)finalmente teria uma sensação de tranqüilidade. é:
__________________________________________________________________________________
14- No período: Ao entrar numa casa, ele não conseguiria entender o que é uma televisão. A oração
destacada se classifica como: __________________________________________________________
15- A função morfológica de “igualitário” no texto é: _______________________________________
ANEXO
-
C
Leia abaixo o fragmento de texto retirado da revista Época e responda as questões que se seguem:
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242
-
Universidade Federal de Minas Gerais.
Aluno: Clemeson Campos da Cunha.
Professor: Doutor Luiz Carlos de Assis Rocha.
QUESTIONÁRIO 02 – Graduando do Curso de Letras.
OBS.: Por favor, responda estas questões em uma folha separada, numere cada questão respondida e
junte a esta folha grampeando ou colando. Responda de preferência à mão e não se identifique ou
identifique o nome da instituição de ensino. Pelo caráter científico deste trabalho, sua identidade será
preservada. Antecipadamente, agradecemos sua participação e colaboração.
Para controle do pesquisador preencha estes dados:
A) Ano de entrada no curso de Letras: __________________ ( ) 1º semestre. ( ) 2º semestre.
B) Período que está cursando: ___________________.
C) Habilitação: ( ) licenciatura / ( ) bacharelado em:
( ) Língua Portuguesa.
( ) Língua Portuguesa e língua estrangeira. Qual?____________________________.
1- Em sua opinião, o que é ensinar Língua Portuguesa para nativos dessa língua?
2- No seu processo de formação universitária, a gramática normativa foi estudada em
alguma disciplina cursada? Como se deu esse estudo? Explique.
3- Em sua opinião, o trabalho com gêneros textuais contribui para o ensino-aprendizagem
de Língua Portuguesa? Explique.
4- Em sua opinião, o estudo da gramática normativa é importante e deve ser abordado no
curso de Letras? Por quê?
5- Oralidade e escrita são manifestações da língua com aspectos peculiares em seus
processos e usos. Você acha que deve ser priorizada a oralidade ou a escrita no ensino-
aprendizagem de Língua Portuguesa (educação básica: ensino fundamental e médio)?
Explique.
6-Você se sente confiante para redigir um texto em (norma culta / língua padrão), ou seja,
você tem pleno domínio da (norma culta / língua padrão)? Explique.
7- Você é a favor do ensino da gramática normativa na educação básica (ensino
fundamental e médio)? Se sim, por quê? Se não, por quê?
8- Após passar pelo processo de formação universitária, você se sente preparado para
assumir uma sala de aula como professor de Língua Portuguesa? Por quê?
9- Caso o estudo da gramática normativa fosse abolido do ensino de Língua Portuguesa, o
que deveria ser ensinado, como deveria ser ensinado, quando deveria ser ensinado e para
quem deveria ser ensinado? Explique.
ANEXO - D
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243
ANEXO - E
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