V., eu e todos sabemos como andam aí as livrarias atulhadas de bons livros,
em desar do perene dilúvio dos péssimos.
Não era, porém, de um livro simplesmente a questão; ia mais longe; ligava-
se à idéia do livro a lembrança do trabalho.
Eu queria lisonjear meu filho, dando-lhe uma lição de trabalho, da qual ele
tire proveito no futuro, se lá chegar e tiver juízo.
E eis aí.
Agora quanto à publicidade do manuscrito.
— Isto foi escrito por um pai, dizia-me comigo ontem; se aqui houver coisa
que a meu filho seja útil, porque escondê-la, correndo a publicidade sem
mores
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sacrifícios de mais a mais? Às vezes um grão de trigo não é a origem
de um celeiro?
Nisto considerando, tomei a resolução. Mas esta não se efetuará, se a V., a
cujo esclarecido juízo entrego o manuscrito, parecer insensata.
Não há lisonja que desvie o seu ilustrado espírito do rumo da probidade e da
delicada franqueza, quer em letras, quer em tudo o mais. Deixe-me, pois, falar.
Além de outros, distingue-o no meio dos estudiosos o título do respeito —
quase culto — que à língua portuguesa V. consagra. Na sua idade não é fácil
encontrar quem ande mais em dia com as lições dos clássicos, nem eu conheço
outro mais aproveitado nas do progresso.
Ajunte-se a isso a provisão de bom senso que o caracteriza — e diz-me a
consciência que não errei na escolha do juiz.
Observei em nossos curtos diálogos que V. nunca analisa para dar lições,
mas sim com o intuito de aprender — o que mais e mais realça o muito que V.
a mim e a tantos outros pode ensinar.
Não há de aprender nada em meu manuscrito, lá isso, não; mas há de
seguramente lê-lo com atenção, e portanto mondará os defeitos mais daninhos.
Uma única observação.
Notará em certos pontos o descuido da clareza apropositada à verde
compreensão dos meninos.
Não foi descuido, foi intenção.
Afigurou-se-me ser de mister dar lugar de quando em quando às perguntas
por parte dos meninos. Costumá-los a compreenderem tudo sem esforço
próprio — será, talvez, ocasionar que o espírito lhes adoeça de negligência.
Já na Alemanha, se bem me lembra, houve diretor de colégio que afazia os
educandos em horas de recreio a decifrarem charadas e enigmas, preparando
deste modo suavemente para o cálculo aqueles que seguissem mais tarde o
curso das matemáticas. Não me pareceu desarrazoada essa lembrança.
Finalmente, à sua bondade e pachorra entrego o manuscrito. Se não valer a
pena — rasgue-o.