Senhores,
Tenho ainda presente a essa em que, por algumas horas últimas, pousou o corpo de
José de Alencar. Creio que jamais o espetáculo da morte me fez tão singular impressão.
Quando entrei na adolescência, fulgiam os primeiros raios daquele grande engenho; vi-os
depois em tanta cópia e com tal esplendor que eram já um sol quando entrei na mocidade.
Gonçalves Dias e os homens do seu tempo estavam feitos; Álvares de Azevedo, cujo livro era
a boa-nova dos poetas, falecera antes de revelado ao mundo. Todos eles influíam
profundamente no ânimo juvenil que apenas balbuciava alguma coisa; mas a ação crescente
de Alencar dominava as outras. A sensação que recebi no primeiro encontro pessoal com ele
foi extraordinária; creio ainda agora que não lhe disse nada, contentando-me de fitá-lo com os
olhos assombrados do menino Heine ao ver passar Napoleão. A fascinação não diminuiu com
o trato do homem e do artista. Daí o espanto da morte. Não podia crer que o autor de tanta
vida estivesse ali, dentro de um féretro, mudo e inábil por todos os tempos dos tempos. Mas o
mistério e a realidade impunham-se; não havia mais que enterrá-lo e ir conversá-lo em seus
livros.
Hoje, senhores, assistimos ao início de outro monumento, este agora de vida, destinado
a dar à cidade, à pátria e ao mundo a imagem daquele que um dia acompanhamos ao
cemitério. Volveram anos; volveram coisas; mas a consciência humana diz-nos que, no meio
das obras e dos tempos fugidios, subsiste a flor da poesia, ao passo que a consciência
nacional nos mostra na pessoa do grande escritor o robusto e vivaz representante da
literatura brasileira.
Não é aqui o lugar adequado à narração da carreira do autor de Iracema. Todos vós
sabeis que foi rápida, brilhante e cheia; podemos dizer que ele saiu da Academia para a
celebridade. Quem o lê agora, em dias e horas de escolha, e nos livros que mais lhe
aprazem, não tem idéia da fecundidade extraordinária que revelou tão depressa entrou na
vida. Desde logo pôs mãos à crônica, ao romance, à crítica e ao teatro, dando a todas essas
formas do pensamento um cunho particular e desconhecido. No romance que foi a sua forma
por excelência, a primeira narrativa, curta e simples, mal se espaçou da segunda e da
terceira. Em três saltos estava o Guarani diante de nós; e daí veio a sucessão crescente de
força, de esplendor, de variedade. O espírito de Alencar percorreu as diversas partes de
nossa terra, o norte e o sul, a cidade e o sertão, a mata e o pampa, fixando-as em suas
páginas, compondo assim com as diferenças da vida, das zonas e dos tempos a unidade
nacional da sua obra.
Nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira. E não é só porque houvesse
tratado assuntos nossos. Há um modo de ver e de sentir, que dá a nota íntima da
nacionalidade, independente da face externa das coisas. O mais francês dos trágicos
franceses é Racine, que só fez falar a antigos. Schiller é sempre alemão, quando recompõe
Filipe II e Joana d'Arc. O nosso Alencar juntava a esse dom a natureza dos assuntos tirados
da vida ambiente e da história local. Outros o fizeram também, mas a expressão do seu gênio
era mais vigorosa e mais íntima. A imaginação que sobrepujava nele o espírito de análise,
dava a tudo o calor dos trópicos e as galas viçosas de nossa terra. O talento descritivo, a
riqueza, o mimo e a originalidade do estilo completavam a sua fisionomia literária.
Não lembro aqui as letras políticas, os dias de governo e de tribuna. Toda essa parte de
Alencar fica para a biografia. A glória contenta-se da outra parte. A política era incompatível
com ele, alma solitária. A disciplina dos partidos e a natural sujeição dos homens às
necessidades e interesses comuns não podiam ser aceitas a um espírito que em outra esfera
dispunha da soberania e da liberdade. Primeiro em Atenas, era-lhe difícil ser segundo ou
terceiro em Roma. Quando um ilustre homem de Estado respondendo a Alencar, já então
apeado do Governo, comparou a carreira política à do soldado, que tem de passar pelos
serviços ínfimos e ganhar os postos gradualmente, dando-se a si mesmo como exemplo
dessa lei, usou de uma imagem feliz e verdadeira, mas ininteligível para o autor das Minas de
Prata. Um ponto há que notar, entretanto, naquele curto estádio político. O autor do Gaúcho