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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
A Europa em Jogo: as críticas de Johan Huizinga à cultura de
seu tempo
(1926-1945)
Naiara dos Santos Damas Ribeiro
2008
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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
A Europa em Jogo: as críticas de Johan Huizinga à cultura de seu
tempo
(1926-1945)
Naiara dos Santos Damas Ribeiro
Dissertação de mestrado submetida ao
Programa de Pós-Graduação em História
Social (PPGHIS), Instituto de Filosofia e
Ciências Sociais (IFCS), da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de
Mestre em História.
Orientador: Manoel Luiz Lima Salgado
Guimarães.
Rio de Janeiro
Maio de 2008
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Ribeiro, Naiara dos Santos Damas.
A Europa em Jogo: as críticas de Johan Huizinga à cultura de seu tempo (1926-
1945)/ Naiara dos Santos Damas Ribeiro. – Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS, 2008.
xi; 191f.
Orientador: Manoel Luiz Lima Salgado Guimarães
Dissertação (mestrado) UFRJ/ PPGHIS/ Programa de Pós-Graduação em História
Social, 2008.
Referências Bibliográficas: f. 186-191.
1. Johan Huizinga. 2. História da Cultura. 3. Crise da Civilização. I. Guimarães,
Manoel Luis Lima Salgado. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais, Programa de Pós-Graduação em História Social. III. Título.
A Europa em Jogo: as críticas de Johan Huizinga à cultura de seu tempo
(1926-1945)
Naiara dos Santos Damas Ribeiro
Prof.Orientador: Manoel Luiz Lima Salgado Guimarães.
Dissertação de mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História Social
(PPGHIS), Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em História.
Aprovada por:
____________________________________
Presidente, Prof. Dr. Manoel Luiz Lima Salgado Guimarães.
_____________________________________
Prof. Dr. Cássio da Silva Fernandes
_______________________________________
Prof. (a) Dr (a). Norma Cortes.
Maio de 2008
Às minhas irmãs Janaina, Tatiara e Dandara e ao irmão
que a vida generosamente me deu, Marcelo.
AGRADECIMENTOS
Quando nos colocamos, como historiadores, a desvendar os traços do passado a tarefa
nunca parece estar completa. É sempre confusa a sensação de que deixamos coisas por fazer
ou que no meio do caminho tivemos que lidar com as nossas próprias limitações. Nunca
conseguimos afastar o sentimento de que poderíamos ter feito algo melhor, mais bem escrito,
mais arrojado, mais e mais... As exigências que nos cercam por vezes nos fazem perder a
dimensão do todo e até mesmo as razões que nos conduziram a certo tema e não a outros. Fica
para trás sempre uma centena de histórias que o escreveremos, que nunca serão nossas. E,
ademais, aquela que nos pertence por escolha torna-se a cada momento mais nossa, torna-se
parte do que somos, do que queremos ser. É sempre um recurso inesgotável de experiências
epifânicas, em que o que pensamos toma forma na vivência de outros, no desejo de outros.
A História é sempre uma maneira, como dizia Burckhardt, de tomar posse da
alteridade, daqueles que foram antes de nós e que ressoam ainda em nossas expectativas, em
nossos sonhos e na árdua construção de nossa própria humanidade. Optar por fazer História,
ou simplesmente aspirar tal tarefa, foi para mim um exercício amplo de descoberta. Mais que
uma experiência intelectual, foi, sobretudo, um caminho que me conduziu a mim mesma.
Inúmeras pessoas estiveram presentes nessa trajetória, às vezes prazerosa, mas nem
sempre plácida. E é a elas que singelamente gostaria de demonstrar a minha gratidão.
À CAPES, órgão financiador de minha pesquisa e um dos elementos essenciais do
bom andamento de meu trabalho e da minha formação acadêmica.
À minha amiga Larissa, companheira curitibana que na cidade de acrílico me deu seu
coração e sua confiança. Em mim estão para sempre as lembranças de uma Reitoria que ela
tornou um lugar habitável, do meu processo de aprendizado profundo sobre a vida, a amizade
e o amor do qual ela é parte sempre presente.
À minha amiga Priscila que sempre teve a generosidade de dividir os seus maiores
anseios comigo e me permitiu ver nela a mim mesma, as minhas expectativas, os meus
desejos, dando-me a sensação de não estar sozinha.
Aos meus amigos cariocas” que durante a minha estada no Rio ensinaram-se sobre a
doçura de ser acolhida. Eles me deram um Rio pleno de alegrias, de música, de dança, de
conversas, de praia, de um amor mansinho, desprendido e genuíno. rcia, Fábio, Fred,
Aninha, Leo, Clarissa, Júlia, Eliane, Tomás, Cláudio, seu Detimar, Rodrigo, agradeço a todos
pela amizade e a companhia. “Foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou
levar”.
À Ítala, meu maior presente nesses anos de agonia e de encanto, que me salvou de
tantos atropelamentos, de tantos clichês acadêmicos, que me ensinou sobre Capistrano de
Abreu e, sobretudo, foi uma irmã para mim numa terra que nos era igualmente estrangeira.
Ao amigo Rodrigo Turin, que desde os idos anos do PET-História em Curitiba foi um
exemplo para mim de inteligência perspicaz, de um colega generoso e prestativo. Encontrá-lo
no Rio e tê-lo como professor e ouvinte atento de minhas reflexões sobre Huizinga foi uma
surpresa agradável e extremamente profícua.
Ao meu orientador Manoel Luiz Salgado sempre gentil e atencioso ao responder às
minhas dúvidas, um leitor preciso de meus textos, um companheiro de jornada que sempre
dedicou a mim a confiança de que eu poderia alcançar meus objetivos.
Ao Professor Pedro Caldas, companheiro nessa fase final de jornada que
generosamente se dispôs a ler meus textos e a participar do momento mais decisivo da minha
dissertação.
Ao professor Cássio da Silva Fernandes, meu amigo querido, que sempre me tratou, a
mim e aos meus sonhos, com confiança, generosidade e comprometimento. Também à sua
família, Ângela, Helena e o pequeno André, pela qual sinto um amor sincero e a mais
profunda gratidão. Helena foi a minha experiência lúdica por excelência nesses anos de
pesquisa, uma pequena amiga da qual sempre sinto saudade.
Ao Rafael, meu leitor ausente. De quem eu amo cada pedacinho de uma mistura
complexa de rabugice e gentileza, de entrega e discrição. Meu amor, meu lar.
À minha família sempre pronta para enfrentar comigo os custos das minhas escolhas.
A me acolher de meus exílios voluntários e a me mostrar que a vida é mais do que minha
profissão, que é um exercício constante de amor, compaixão e respeito. Ao meu pai,
sobretudo, sempre confiante que os caminhos tortuosos que eu estava traçando em minha vida
me levariam a encontrar a mim mesma, uma forma de me expressar de forma livre,
responsável e generosa.
Também gostaria de agradecer aos meus avós, Doca e Rui, aos meus tios Elisa,
Carneiro e Dailza, assim como aos meus primos Heloisa e Henrique, pela confiança, carinho e
acolhida em tempo difíceis nos quais seguir adiante parecia quase uma odisséia.
La vida es lucha, y la solidaridad para la vida es lucha y
se hace em la lucha. No me cansaré de repetir que lo que
más nos une a los hombres unos con otros son nuestras
discordias. Y lo que más le une a cada uno consigo
mismo, lo que hace la unidad íntima de nuestra vida, son
nuestras discordias íntimas, las contradicciones interiores
de nuestras discordias. Sólo se pone uno en paz consigo
mismo, como Don Quijote, para morir.
(UNAMUNO, Miguel de. La agonia del Cristianismo)
RESUMO
A EUROPA EM JOGO: A CRÍTICA DE JOHAN HUIZINGA À CULTURA DE SEU
PRÓPRIO TEMPO (1926-1945)
Naiara dos Santos Damas Ribeiro
Orientador: Manoel Luiz Lima Salgado Guimarães.
Resumo da Dissertação de mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História
Social, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro
UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em História.
Esta pesquisa objetiva analisar as críticas do historiador holandês Johan Huizinga (1972-
1945) à cultura de seu próprio tempo. Pretendemos mostrar que há, em sua trajetória, um
ponto de inflexão que marca sua tomada de posição crítica diante dos acontecimentos
políticos, sociais e culturais de seu tempo e da Europa, mas que, mesmo como crítico cultural,
pode-se ainda entrever o historiador da cultura, preocupado com o problema da continuidade
histórica e com os valores fundamentais da Cultura.
A maior ênfase dada por Huizinga às questões de seu próprio tempo, marcou uma
mudança em sua trajetória como historiador: não lhe interessava mais apenas tratar das épocas
pretéritas em si mesmas, mas analisar o presente em sua relação direta com o passado.
Através de conferências, livros e textos, Huizinga tomou parte numa ampla reflexão sobre a
idéia de Civilização e de Europa, desenvolvida num contexto em que inúmeras tensões
haviam conduzido a sociedade “contemporânea” a uma crise de seus paradigmas culturais e
mesmo a duas Guerras de âmbito mundial.
Como importante intérprete da “crise da Civilização” – que havia se instaurado com a
ascensão de regimes autoritários, com a emergência da cultura de massa e com o colapso do
Racionalismo no começo do século XX na Europa –, Huizinga acreditava, como historiador
da cultura, ter algo a dizer sobre os valores fundamentais sem os quais não poderia haver
Cultura. Partindo da História para compreender as raízes e os sintomas da crise, era também a
este conhecimento que Huizinga recorria para encontrar os valores éticos basilares que
estavam na origem de toda vida civilizada e por meio dos quais ele esperava resgatar a
Europa, renascida dentro de cada homem num renovado compromisso com o passado e com a
Civilização.
Palavras-chave: Johan Huizinga; historiografia; História da Cultura; crítica cultural; crise da
Civilização.
Rio de Janeiro
Maio de 2008
ABSTRACT
THE EUROPE ON A GAME: THE CRITICS OF JOHAN HUIZINGA TO THE CULTURE
OF HIS OWN TIME. (1926-1945)
Naiara dos Santos Damas Ribeiro
Orientador: Manoel Luiz Lima Salgado Guimarães.
Abstract da Dissertação de mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História
Social, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro
UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em História.
This research aims to analise the critics of the Dutch historian Johan Huizinga (1972-1945) to
the culture of his own time. It intends to show that there is, in his trajectory, a deflection that
indicates his critical position facing the political, social and cultural happenings of his time
and of Europe and that, even when in the position of a cultural critic, one can still see the
historian of culture worried with the matter of cultural continuity and with the fundamental
values of Culture.
The most important emphasis given by Huizinga to the matters of his time marked a
change in his trajectory as a historian: it no longer interested him to deal with bygone times
within themselves, but to analise the present in its straight relation to the past. Throughout
conferences, books and texts, Huizinga took part on a great reflection about the ideas of
Civilization and of Europe, developed inside a context where countless tensions had led the
'contemporary' society to a crisis of its cultural paradigms and even to two great world wars.
As an important interpreter of the 'crisis of civilization' established with the raise of
authoritarian political systems, with the appearance of mass culture and with the collapse of
Rationalism in the early 20
th
century in Europe Huizinga believed, as a historiographer of
culture, that he had something to say about the fundamental values without which there could
be no culture. Having History as a starting point to understand the roots and the symptoms of
the crisis, Huizinga tried to find the ethical values of base that were in the origin of the
civilization and throughout which he hoped to redeem Europe, born inside each man on a
renewed commitment with the past and the Civilization.
Keywords: Johan Huizinga, historiography, History of Culture, cultural critic, crisis of the
Civilization.
Rio de Janeiro
Maio de 2008
SUMÁRIO
Introdução................................................................................................................................12
Capítulo I: A História da Cultura:
Dimensão ética e estética da História.
1.1 Clio ameaçada: História como arte da compreensão versus a “nova História” de
Lamprecht...........................................................................................................................17
1.2 Dimensão estética da História: a Ciência amante da arte...................................................25
1.3 A Dimensão ética da História: Historia Vitae Magistra.....................................................38
1.4 A “História mesma”: a História da Cultura e os ideais históricos de vida..........................48
Capítulo II: A Europa no Espelho:
A civilização norte-americana e o problema da mecanização da cultura.
2.1 Reflexões sobre a “modernidade”: o monstro sem forma...................................................71
2.2 Johan Huizinga e a “modernidade”: de historiador da cultura a crítico
cultural......................................................................................................................................87
2.3 O “espírito norte-americano”: a pobreza das formas..........................................................95
Capítulo III: A Europa em Jogo:
A crítica cultural de Johan Huizinga (1926-1945).
3.1 A Crise da Civilização como conceito histórico...............................................................113
3.2 A Europa enferma: o diagnóstico de Johan Huizinga sobre a cultura de seu
tempo.......................................................................................................................................122
3.3 Regna regnis lupi: a dimensão política da crise e o problema do
Nacionalismo..........................................................................................................................138
3.4 Katharsis: as perspectivas e possibilidades de Regeneração da Cultura..........................148
3.5 O Jogo e a Cultura: o Homo Ludens.................................................................................160
Conclusão...............................................................................................................................178
Bibliografia...................................................................................................................186
INTRODUÇÃO
Trabalhando com o tema Johan Huizinga (1872-1945) e cultura contemporânea, a
presente pesquisa tem como objetivo analisar a natureza dos discursos deste historiador a
respeito de seu próprio tempo. A partir de um olhar crítico e privilegiado, o olhar de um
historiador que domina as relações entre presente e passado, Huizinga tratou das questões
referentes a um mundo que ele acreditava a beira de um colapso. Esse olhar também portava
outras especificidades: era o olhar de um historiador da cultura ligado à tradição de Jacob
Burckhardt (1818-1897), o olhar de um cidadão de “pequeno Estado”, a Holanda, o olhar de
um intelectual que se reconhecia como um “europeu”, e, entre outras coisas, o olhar de um
homem que viveu na iminência de um conflito mundial o contexto em que se dá a produção
das obras selecionadas como fonte deste trabalho de 1926 a 1945 e que quando por fim
essas ameaças se materializam foi perseguido e acabou morto pelas circunstâncias da guerra.
Tendo em vista tratar-se de um estudo historiográfico, porém, não nos interessou
somente compreender essa fase de Huizinga como crítico cultural em si mesma, mas em
relação direta com sua concepção de História e de Cultura. Se a partir 1926 os acentos de sua
análise recaem mais sobre o terreno moral e religioso e seu olhar se volta para o presente, não
podemos negligenciar o fato de que muitas de suas reflexões críticas sobre a cultura
“contemporânea” estavam sugeridas em seus livros como O Declínio da Idade Média, de
1919, e Erasmo, de 1924 assim como em seus textos no campo da Teoria da História. É
sempre o historiador ligado à tradição da História da Cultura e ao ideal humanista da “Velha
Europa” que podemos entrever no crítico cultural incisivo que observou em seu tempo a perda
de algo autêntico, essencial da Civilização ocidental. O que mudou em 1926 foi que o
conteúdo moral e crítico que antes ocupava o segundo plano de suas análises presente nas
entrelinhas de suas análises sobre as culturas pretéritas e sobre o conhecimento histórico
passou, então, a ocupar a centralidade de suas preocupações.
Nesse ano, 1926, em viagem aos Estados Unidos, Huizinga sentiu-se bastante
desconfortável com o processo que ali encontrou de uma progressiva mecanização da Cultura.
Excluindo o indivíduo como força motriz da história e reduzindo-a massa, ao coletivo, a
“América”, segundo ele, havia capitulado diante da técnica e rompido com os mais altos
valores da Cultura. Não era simplesmente a “América”, contudo, que preocupava Huizinga,
mas sim o que ela representava: o futuro não muito distante de sua pátria, a Europa. Quando
na década de 1930 a sua profecia parecia concretizada diante da ascensão de Hitler ao poder e
da crescente massificação da sociedade européia, Huizinga sentiu-se, como historiador da
cultura e como europeu, profundamente responsável por alertar a Europa de que ela trilhava o
caminho da ruína. Foi nesse contexto de profunda instabilidade, que encontramos, então, o
historiador da cultura Huizinga em ação como um arguto crítico da cultura “moderna”.
Para construir uma análise em torno da problemática anunciada acima, compreender
os escritos críticos de Huizinga sobre o seu próprio tempo, elegeu-se como fontes os livros O
Declínio da Idade Média (1919) e Erasmo (1924), como exemplares da produção
historiográfica de Huizinga anteriores a 1926, e dentro de sua produção como crítico da
cultura, os textos Espírito norte-americano (1926)
1
e L’uomo e la cultura (1937) e os livros
Nas sombras do amanhã: um diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo (1935)
2
,
Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura (1938)
3
e Lo Scempio del mondo
4
(1943).
Assim sendo, este trabalho divide-se em três capítulos. No primeiro capítulo
pretendemos analisar o Huizinga historiador: sua forma de compreender a História, seus
debates e embates, sua atuação no campo da História da Cultura e, sobretudo, a noção ética de
conhecimento histórico que arroga para o historiador a tarefa de preservar a Cultura e a
Tradição. Contemplando também a análise dos livros O Declínio da Idade Média e Erasmo,
esperamos ainda demonstrar como a sua noção do trabalho historiográfico como morfologia
se constrói a partir da inclusão da esfera do sentimento e da aspiração como ferramentas
significativas na compreensão do passado e na análise da compreensão das épocas históricas
pretéritas como totalidade.
No segundo capítulo desejamos compreender como Huizinga construiu o seu discurso
sobre a cultura contemporânea em relação a outros intelectuais europeus que, na cada de
1930, sobretudo, colocaram-se a inquietante questão sobre o futuro da Civilização Ocidental e
vê-lo em seus primeiros momentos como crítico cultural. Nesse ponto a sua experiência nos
Estados Unidos mostra-se de uma especial relevância, na medida em que é a partir dela que o
aspecto moral antes diluído nas interpretações históricas de Huizinga passa a ocupar o centro
de suas análises sobre o seu próprio tempo. Vemos também como a transição de Huizinga de
historiador da cultura para crítico cultural dá-se num momento de extrema perturbação na
Europa, sob os auspícios da Primeira Grande Guerra, e que refletir sobre isso significava para
ele atuar efetivamente na transformação da cultura.
1
HUIZINGA, J. Espiritu norteamericano. In: El concepto de la historia y otros ensayos. México: Fondo de
cultura económica, 1992.
2
___. Nas sombras do amanhã: um diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo. Coimbra: Armênico
Amado,1944.
3
___. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2001.
4
___. Lo scempio del mondo. Milão: Bruno Mondadori, 2004.
Por fim, no terceiro capítulo, nos debruçamos efetivamente sobre os textos críticos de
Huizinga, tentando perceber qual era a concepção de Cultura, de Homem e de História que
estava por trás das críticas contundentes que Huizinga lançou a um mundo que ele via como
um corpo enfermo. Suas perspectivas de cura da Civilização e a sua compreensão de um
elemento lúdico inerente ao universo da cultura são também contemplados dentro do esforço
de demonstrar que no centro da crítica de Huizinga estava um chamado à restituição da
responsabilidade humana e uma noção de Cultura como um jogo que deveria ser jogado de
forma justa e criativa.
Capítulo I
A História da Cultura: dimensão ética e estética da História.
Em 1905, ao assumir a cátedra de professor de História na Universidade de
Groningen, Holanda, Johan Huizinga (1872-1945) viu-se diante de uma árdua tarefa. Como
era tradição na academia holandesa, os novos professores deveriam começar a sua atividade
científica por uma reflexão e uma tomada de posição pública em relação aos fundamentos da
própria disciplina, e sobre a tarefa se seu ensinamento. Para Huizinga, essa não era uma
empreitada das mais fáceis: o seu caminho até chegar a esse cargo havia sido de tal forma
singular, que lidar com os problemas da compreensão histórica requeria, naquele momento,
um estudo de grande fôlego.
5
Huizinga não era um historiador de profissão. Entre a sua infância permeada pelas
cores do passado pátrio, por brasões e cavaleiros medievais até o momento de sua posse ao
cargo de professor de História em Groningen, um longo intervalo o havia separado dos
problemas do conhecimento histórico. Durante a sua juventude, o campo ao qual havia se
dedicado era o dos estudos lingüísticos e orientais
6
e era nessas áreas que ele esperava obter
reconhecimento acadêmico. Entretanto, por questões pessoais e por influência de seu
professor P.J.Blok, ao terminar seu doutorado em 1897, Huizinga tornou-se, sem muito
entusiasmo, professor de história da Escola superior de Haarlem. Em relação a esses anos de
magistério, Huizinga dizia: “eu era agora um professor de história, mas de maneira nenhuma
um historiador”
7
. Tornar-se efetivamente um historiador foi algo que se deu somente com a
sua entrada na Universidade de Groningen. Só a partir desse momento ele se sentiu a vontade
para dizer que seu “caminho para a História estava então completo”
8
.
Quando o caminho de Huizinga convergiu para a História este conhecimento
encontrava-se imerso em uma grave crise de seus paradigmas. Desde o final do século XIX, a
História havia sido forçada a debruçar-se sobre si mesma, redefinindo o seu campo específico
5
HUIZINGA, J. My path to History. In: Dutch Civilization in the Seventeenth Century and other essays.
Londres: Collins, 1968. p.269.
6
Sobre a trajetória de Huizinga como lingüista, Ver: NOODEGRAAF, J. On light and sound: Johan Huizinga
and the nineteenth-century linguistic. In: The Dutch Pendulum. Linguistics in the Netherlands 1740-1900.
Münster: Nodus Publikationen, 1996, 130-158.
7
HUIZINGA, J. My path to History. Op.cit.pp.262-263. “I was now a teacher of history, but not at all a
historian”.
8
Ibid.p.269. “My path to History was thus completed”
de atuação como ciência e os seus objetos de interesse
9
. Ao escrever sua aula inaugural,
Huizinga tinha plena consciência de todos esses problemas que fragilizavam o conhecimento
histórico e de quanto era delicado tratar da teoria da História naquele momento. “Na ciência
histórica com seu caráter necessariamente assistemático, acentua-se cada vez mais a
divergência entre as distintas correntes de pensamento. Por trás da imensa maioria destes
estudos apenas se vislumbra um centro de saber comum”
10
. Ele sabia estar entrando em um
“campo no qual o debate de opiniões está em pleno desenvolvimento”
11
e no qual o objeto
em disputa em questão era a própria natureza do conhecimento histórico. Era um ato perigoso,
sem dúvida. No entanto, em sua opinião, era ainda mais perigoso se omitir: “cada passo é
perigoso, e é duplamente perigoso se não se escolhe rapidamente de que parte estar”
12
.
Apesar do reiterado desconforto que Huizinga dizia sentir para com as questões
teóricas do conhecimento histórico era a esse tema que ele se voltava para definir as bases
permanentes que o acompanhariam em toda a sua trajetória como historiador. O seu rito de
passagem para a História, seu “nascimento” como historiador, pode ser comparado, assim, à
sua forma peculiar de compreensão das divisões que ele mesmo arrogava ao trabalho
historiográfico: a Teoria da História seria um “vestíbulo da História”, uma porta de entrada
que garantia o acesso à “História mesma”
13
. Nesse sentido, a apresentação de Huizinga sobre
sua concepção particular de história que ele deveria oferecer em sua aula inaugural
demandava um primeiro esforço incontornável: esclarecer e organizar esse “vestíbulo” tal
era o seu estado de tensão naquele momento –, posicionando-se diante dessas “distintas
correntes de pensamento”, para então alcançar os problemas da “História mesma”.
A sua aula inaugural, apresentada em 4 de novembro de 1905, lhe “ofereceu a
Huizinga uma ocasião para precisar melhor, dadas as premissas de sua formação cultural, a
sua própria posição no campo da teoria da história”
14
. Dessa forma, esta aula comportava
uma dupla tarefa: primeiro, a de “escolher de que parte estar” no tocante aos debates sobre a
teoria da ciência histórica “em pleno desenvolvimento” e, segundo, a de apresentar as idéias
que o orientariam em seus estudos históricos. Dentro dessa perspectiva, Huizinga “partiu de
9
IGGERS, G. Historiography in the Twentieth Century: from scientific objectivity to the Post modern challenge.
New England: Wesleyan University Press, 1997.
10
HUIZINGA, J. Problemas de Historia de la Cultura. In: El concepto de la historia y otros ensayos. México:
Fondo de Cultura Económica, 1992. p.12.
11
___. L’elemento estetico delle rappresentazioni storiche. In: Le immagini della storia. Turin: Giulio Einaudi,
1993. p.06. “Campo in cui lo scontro di opinioni è pieno svolgimento”.
12
Idem. “Ogni passo è pericoloso, ed è doppiamente pericoloso se non si sceglie subito da che parte estare”.
13
___. Problemas de Historia de la Cultura. Op.cit.pp.10-11.
14
BOER, W. Prefazione. In: HUIZINGA, J. In: Le immagini della storia. Op.cit.p.XVI. “L’insediamento sulla
cattedra di storia ha offerto a Huizinga una occasione per precisare meglio, date le premesse della sua
formazione culturale, la propria posizione nel campo della teoria della storiografia”.
uma intuição que havia tido, ainda de forma indefinida, muito tempo antes, isto é, a hipótese
de considerar os fenômenos do passado como ‘imagens’”, refletindo sobre os elementos que
aproximam o historiador e o artista
15
. Diferenciando a História como ciência do individual e
do particular, Huizinga tentava incorporar critérios objetivos capazes de guiar o historiador na
seleção daquilo que é historicamente relevante, sem, no entanto, eliminar da atividade do
historiador o elemento subjetivo que ele acreditava lhe ser intrínseco. Com a escolha desse
tema para sua aula inaugural, Huizinga voltava sua atenção a um problema que estava no
centro do debate histórico, sobretudo alemão, daqueles anos: o estatuto científico da história.
E esta estrada o conduzia, como aponta W.Boer, a um meditado reexame do neo-idealismo
alemão
16
.
1.1 Clio ameaçada: História como arte da compreensão versus a “nova História” de
Lamprecht
O próprio título dado a esse discurso inaugural, O Elemento estético das
representações históricas, já apontava para qual era o posicionamento de Huizinga em relação
a esses debates teóricos: diferentemente das correntes predominantes da historiografia
européia, sobretudo alemã, do final da segunda metade do século XIX, Huizinga acreditava
que o ato de compreensão histórica comportava características distintivas que o aproximavam
mais da Arte do que da Ciência. Tal assertiva o colocava no centro de uma longa querela
sobre o estatuto científico da história que remontava à polêmica em torno do historiador
alemão Karl Lamprecht em 1891 que repercutiu com poucas demonstrações de desgaste até
meados do século XX e à crise dos paradigmas historicistas, de seus métodos e de seus
objetos. Inserir-se nessas discussões era importante para Huizinga porque significava “nada
menos que libertar as artes da cadeia do determinismo científico, uma devolução das
humanidades à sua própria preocupação e valor, e, assim, uma rejeição do realismo histórico
ingênuo”
17
.
“Devolver as humanidades à sua própria preocupação e valor” era, para Huizinga, o
prelúdio essencial para o desenvolvimento de suas idéias sobre o elemento estético da
compreensão histórica. Todas as suas proposições nesse sentido dependiam, teórica e
metodologicamente, de que a História se libertasse das “cadeias do determinismo científico”
15
BOER, W. Prefazione. Op,cit.p.XVI.
16
Idem.
17
HUIZINGA, J. My path to History. Op.cit.p.270. “Meant nothing less than freeing the arts from the shackels
of scientific determinism, a restoration of the humanities to their proper rile and worth, and thus a rejection of
naïve historical realism”.
que haviam, em sua opinião, subvertido as especificidades desse conhecimento ao tentar lhe
impor um padrão de cientificidade e objetos que lhe eram estranhos. Somente quando a
História fosse restituída de seu valor como ciência voltada para a “compreensão” e não para a
“explicação”, para o particular e não para o geral, é que Huizinga poderia desenvolver as suas
teorias sobre o caráter estético das representações históricas. Esse foi o percurso analítico
escolhido por Huizinga: tratar das questões que ocupavam a mente dos historiadores desde o
final do século XIX, sobretudo, a questão do estatuto científico da história, e só então
apresentar as suas proposições sobre a compreensão histórica.
A aula de Huizinga começava com a constatação de que o conhecimento histórico
estava em crise: “a ciência histórica, que por longo tempo pode seguir sem ser incomodada o
seu caminho” foi forçada, no final do século XIX, “a dar satisfações a si mesma e aos outros
da legitimidade dos seus domínios e da independência da qual gozava”
18
. Desde a sua
constituição como ciência moderna na virada do século XVIII para o século XIX, o
conhecimento histórico não havia experimentado uma convulsão de tal ordem. A sua
condição como ciência, alcançada por meio do aprimoramento e refinamento de seu método e,
principalmente, de sua entrada no campo universitário no século XIX, havia lhe garantido um
lugar legítimo e independente em relação aos outros saberes
19
. Durante grande parte desse
século, a História havia podido progredir intensamente em suas pesquisas e problemas,
chegando mesmo a ocupar um lugar central na vida cultural desta sociedade: era a ciência que
tinha o papel de prover discernimento sobre o significado do mundo humano
20
. Por mais que
as tensões no campo historiográfico tenham permanecido latentes em todo o decorrer deste
século, ainda era possível apontar para um consenso entre os historiadores em relação a qual
seria a tarefa desse conhecimento e quais seriam seus métodos e objetos específicos. O que
havia mudado no final do século XIX é que esse consenso que havia provido as bases de uma
agenda comum para os historiadores fragilizou-se, sobretudo com a crise dos paradigmas
historicistas e com a os debates sobre a teoria da história no campo da filosofia e da teoria do
conhecimento, levando a ciência histórica à crise a qual Huizinga via-se impelido a lidar em
sua aula inaugural.
18
HUIZINGA, J. L’elemento estetico delle rappresentazioni storiche. Op.cit.p.06. “La scienza storica, che per
lungo tempo ha potuto seguire indisturbata il suo cammino con un corredo di norme e metodi sperimentati, è
stata costretta nel secolo scorso a redere conto a se stessa e ad altri della legittimità dei suoi domini e
dell’independenza di cui godeva.”
19
___. Desarrollo de la Ciencia Historica desde comienzos del Siglo XIX. In: Sobre el estado actual de la
Ciencia Histórica: cuatro conferencias. Tucuman: Ed. Cervantes, s/d.
20
IGGERS, G. Historiography in the Twentieth Century. Op.cit.p.25.
Mas, o que havia conduzido a ciência histórica a tal situação? Para Huizinga, não era
coincidência o fato de essa crise ter se dado simultaneamente ao expressivo avanço das
ciências naturais no final do século XIX. Pelo contrário, era justamente nesse avanço e na
pretensão dessas ciências de se imporem ao pensamento moderno como o único caminho para
alcançar o conhecimento da verdade, que Huizinga identificava a sua origem. O problema
estava no fato de que a centralidade que estas ciências empíricas alcançaram no pensamento
científico, nesse momento, havia feito emergir um novo paradigma de Ciência: daí em diante
a definição como conhecimento verdadeiramente científico era reservado somente àqueles
saberes que demonstravam ter inclinação para o exato, para a generalização e para a definição
de leis gerais. E a História, como havia sido praticada até esse momento, estava bem longe de
atender essas demandas. “A ciência, como era a suposição corrente, tinha que ser exata. Se a
História, tal como havia sido pratica até aqui, fosse colocada a prova, advertir-se-ia que era
bastante deficiente. A quem importaria, todavia, os heróis e as batalhas?”
21
.
O surpreendente desenvolvimento das ciências naturais que no século XIX
condicionava de maneira tão forte o conceito de ciência em geral de tal
modo que num certo ponto os próprios historiadores, somente parcialmente
conscientes desta influência, tiveram que se perguntar se uma ciência tão
distante das ciências naturais nos quesitos, nos métodos, na natureza dos
conceitos, na certeza dos resultados, deveria merecer ainda o nome de
ciência.
22
O conhecimento histórico encontrava-se, então, em uma encruzilhada: ou mantinha o
seu enfoque no individual e nos acontecimentos especiais, como havia feito até então, ou
atendia as demandas por maior sistematicidade e mudava o seu foco do particular para o
geral, do único para o regular, do indeterminado para o determinado, do individual para o
coletivo. Os que elegeram essa última opção como diretriz de seus estudos históricos tiveram
que levar a cabo uma difícil, e segundo Huizinga, arbitrária, tarefa: a de modificar os métodos
e objetos que eram específicos do conhecimento histórico a ponto de torná-lo capaz de
“demonstrar possuir leis de validade geral equivalentes àquelas das ciências naturais”
23
.
Nessa tarefa de reestruturação do conhecimento histórico, produto dessa investida de
aproximação com o ideal sistemático das ciências naturais, Huizinga destacava o importante
papel desempenhado por duas ciências sociais nascentes: a Psicologia e, principalmente, a
21
HUIZINGA, J. Desarrollo de la Ciencia Historica desde comienzos del Siglo XIX. Op.cit.p.23.
22
___. L’elemento estetico delle rappresentazioni storiche. Op.cit.p.06. “Il sorprendente sviluppo delle scienze
naturali che nel XIX secolo era venuto a condizionare in maniera cosí forte il concetto di scienza in generale da
far che ad un certo momento gli stessi storici, solo parzialmente consapevoli di questa influenza, dovettero
chiedersi se una disciplina tanto lontana dalle scienze naturali nei quesiti, nei metodi, nella natura dei concetti,
nella certezza dei risultati, davvero meriti ancora il nome di scienza.”
23
Ibid.p.07. “Poter dimonstrare di possedere leggi di validità generale equivalenti a quelle delle scienze
naturali”.
Sociologia. Estas foram as ciências que forneceram os expedientes teóricos que serviram de
base para a construção de uma “nova História científica” e também foi delas que essa “nova
História” tomou de empréstimo a sua vocação para o social, com enfoque nas estruturas e nos
processos sociais de mudança
24
. Essa opção pelo social ia de encontro com o paradigma
historiográfico tradicional e com a concepção huizinguiana de História: além de ser tratar de
um recorte que pretensamente negligenciava o homem e suas ações, objeto central desta
historiografia, ela ainda acreditava poder, por meio de recursos generalizantes, reduzir os
elementos de intencionalidade a categorias e conceitos. Huizinga ainda identificava outro
problema com relação a Sociologia: ele a acusava de fazer “enérgicas tentativas de ocupar
inteiramente o campo histórico e reivindicar para os seus métodos, suas perguntas e seus
resultados, a denominação de verdadeira ciência”
25
. Esse reclame pelo reconhecimento de
“verdadeira ciência” feito pela Sociologia devia-se ao fato de que ao se constituir como
ciência do social, mesmo que ainda de forma incipiente no final do século XIX, esta havia
incorporado as exigências por maior sistematicidade e “cientificismo” feitas pelo novo
paradigma de Ciência emerso na segunda metade do Oitocentos.
Porém, para Huizinga, o que inviabilizava as pretensões dessa “nova História
científica” de se apropriar dos recursos metodológicos dessas ciências mais sistemáticas para
“explicar” os fenômenos do passado e até mesmo as pretensões da Sociologia de se apropriar
do campo da História era a existência de uma divergência intrínseca de objetivos e objetos. A
diferença essencial que as separava do conhecimento histórico era que, ao contrário deste, que
buscava compreender os seus objetos na sua singularidade, como acontecimento e
intencionalidade irredutíveis a abstrações e conceitos, era por meio destes expedientes,
segundo Huizinga, como “organismos”, que essas ciências tratavam os assuntos de seu
interesse
26
. Tal tratamento “orgânico” não poderia