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Reporte-se à dedicatória do livro de Óscar Ribas
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:
A Vós,
Irmãos de Angola
dedico estas singelas páginas –
insignificante fruto tropical colhido
nas selvas da Vossa e Minha Terra.
O R.
A dedicatória é a porta de entrada de Uanga (Feitiço). Vê-se por ela que o
autor dedica o livro a seus irmãos angolanos. Todavia, o leitor, ao virar a página,
encontra a introdução intitulada “Porquê”, já presente numa primeira edição de 1951:
Para que não vos decepcioneis, ó Leitor, desde já declaramos que o
presente volume não constitui um romance de sala, mas um documentário
da sociedade negra inculta. Em resultado respirareis outra atmosfera
psicológica, vivereis num mundo de costumes estranhos, à volta dos quais
predomina o fetichismo.
Feitiço! Que palavra arrepiante na vida dos indígenas de África! Desde a
benquerença à hostilidade, desde a saúde à morte, o feitiço negreja com um
cortejo de superstições e terrores. Desta arte, como refúgio da esperança,
as gentes ignaras, e até civilizadas, apelam para o feitiço: feitiço para o
amor, feitiço para o ódio, feitiço para viver, feitiço para matar, feitiço para
tudo. E quando pela adivinhação se infere o maleficiador, quantos inocentes
não sofrem agravos!
Embora palidamente, apresentamo-vos o ambiente dos indígenas de
Luanda. A fim de podermos descrever práticas que a civilização conseguiu
banir, particularmente nos centros mais desenvolvidos, fizemos decorrer a
ação numa época distante. O entrecho, moldado na verossimilhança,
compõe-se dalguns episódios vividos, tais como: a leitura da carta, as
anedotas, os desarranjos dos relógios, a situação embaraçosa do europeu,
e mais incidentes. Com o intuito de revelar a muitos o grau imaginoso da
Raça, desenrolamos uma enfiada de adivinhas, algumas histórias e diversos
provérbios, pois, segundo Cândido de Figueiredo, “os anexins, ditados,
aforismos e brocardos constituem o tesoiro da sabedoria das nações, e as
suas origens escapam, na sua maioria, à investigação dos curiosos”
(RIBAS, 1985, p. 19-20).
Depois da leitura da dedicatória em que o autor oferece o livro a seus irmãos
angolanos, depara-se com um texto, a introdução, em que se explicitam várias
contradições entre os sentidos produzidos pela dedicatória e os construídos na
explicação introdutória na qual há várias referências depreciativas à cultura africana.
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Segundo Carlos Ervedosa (s.d.), Óscar Ribas (1909-1983) é o autor da mais valiosa recolha da
literatura oral africana da região de Luanda, dividida em três volumes, denominados Missosso. No
primeiro, estão vinte e seis contos e quinhentos provérbios; no segundo, a psicologia dos nomes,
culinária e bebidas, desdéns, passatempos infantis, vozes de animais e epistolária; no terceiro e
último, as adivinhas, canções, súplicas prantos por morte e instantâneos da vida negra. Além
dessa obra, Ribas possui outras, inclusive, ficcionais como Nuvens que passam (1927); O resgate
de uma falta (1929); Flores e espinhos (1948); Ecos de minha terra (1952); Quilanduquilo, (1973).