120
antes da fechadura. Assim foi que me determinei a compor o último
verso do soneto, e, depois de muito suar saiu este:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Sem vaidade, e falando como se fosse outro, era um verso
magnífico. Sonoro, não resta dúvida. E tinha um pensamento, a vitória
ganha à custa da própria vida, pensamento alentado e nobre. Que não
fosse novidade, é possível, mas também não era vulgar; e ainda agora
não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos
anos. Naquela ocasião achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a
chave de ouro; depois repeti os dous versos seguidamente, e dispus-
me a ligá-lo pelos doze centrais. A idéia agora, à vista do último
verso, pareceu-me melhor não ser Capitu; seria a justiça. Era mais
próprio dizer que, na pugna pela justiça, perder-se-ia acaso a vida, mas
a batalha ficava ganha. Também me ocorreu aceitar a batalha, no
sentido natural, e fazer dela a luta pela pátria, por exemplo; nesse caso
a flor do céu seria a liberdade. Essa acepção, porém, sendo o poeta um
seminarista, podia não caber tanto como a primeira, e gastei alguns
minutos em escolher uma ou outra. Achei melhor a justiça, mas afinal
aceitei definitivamente uma idéia nova, a caridade, e recitei os dous
versos, cada um a seu modo, um languidamente:
Oh! flor do céu! Oh! flor cândida e pura!
e o outro com grande brio:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. Começar bem e
acabar bem não era pouco. Para me dar um banho de inspiração,
evoquei alguns sonetos célebres, e notei que os mais deles eram
facílimos; os versos saíam uns dos outros, com a idéia em si, tão
naturalmente, que se não acabava de crer se ela é que os fizera, se eles
é que a suscitavam. Então tornava ao meu soneto, e novamente repetia
o primeiro verso e esperava o segundo; e o segundo não vinha, nem o
terceiro, nem o quarto; não vinha nenhum. Tive alguns ímpetos de
raiva, e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel;
pode ser que, escrevendo, os versos acudissem, mas...
Cansado de esperar, lembrou-me altear o sentido do último verso,
com a simples transposição de duas palavras, assim:
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!
O sentido vinha a ser justamente o contrário; mas talvez isso mesmo
trouxesse a inspiração. Neste caso, era uma ironia: não exercendo a
caridade, pode-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do céu. Criei
forças novas e esperei. Não tinha janela; se tivesse, é possível que
fosse pedir uma idéia à noite. E quem sabe se os vaga-lumes luzindo
cá embaixo, não seriam para mim como rimas das estrelas, e esta viva
metáfora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e
sentidos próprios?
Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo
tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa, e agora estou
compondo esta narração, não achando maior dificuldade que escrever,