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Roberto Nunes Bittencourt
Inês de Castro
Relicário da Saudade
Dissertação de Mestrado
Dissertação apresentada como requisito
parcial para obtenção do grau de Mestre pelo
Programa de Pós-graduação em Letras do
departamento de Letras da PUC-Rio.
Orientadora: Cleonice Serôa da Motta Berardinelli
Rio de Janeiro
Março de 2007
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0510599/CA
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Roberto Nunes Bittencourt
Inês de Castro
Relicário da Saudade
Dissertação apresentada como requisito
parcial para obtenção do grau de Mestre pelo
Programa de Pós-graduação em Letras do
Departamento de Letras do Centro de
Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.
Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo
assinada.
Profª. Drª Cleonice Serôa da Motta Berardinelli
Orientadora
Departamento do Letras – PUC-Rio
Profª. Drª. Marília Cardoso Rothier
Departamento do Letras – PUC-Rio
Profª. Drª. Luci Ruas Pereira
UFRJ
Profª. Drª Pina Coco
Departamento do Letras – PUC-Rio
Prof. Dr. Paulo Fernando Carneiro de Andrade
Coordenador Setorial do Centro de
Teologia e Ciências Humanas
Rio de Janeiro, 23 de março de 2007
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0510599/CA
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Todos os direitos reservados. É proibida e reprodução total ou
parcial do trabalho sem autorização do autor, da orientadora e
da universidade.
Roberto Nunes Bittencourt
Graduado em Letras na Universidade Gama Filho (2004) com
Bacharelado (habilitação em Análise de Sistemas Semióticos)
e Licenciatura Plena em Língua Portuguesa e Literaturas de
Língua Portuguesa. Desenvolve pesquisas relacionadas ao
imaginário português. Associado, desde 2006 ao CiFEFil
(Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos). É
membro do Corpo Editorial da revista Teia Literária.
Ficha Catalográfica
CDD: 800
Bittencourt, Roberto Nunes
Inês de Castro : relicário da saudade / Roberto Nunes
Bittencourt ; orientadora: Cleonice Serôa da Motta
Berardinelli. – 2007.
90 f. ; 30 cm
Dissertação (Mestrado em Letras)–Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,
2006.
Inclui bibliografia
1. Letras Teses. 2. Inês de Castro. 3. Literatura. 4.
Saudade. 5. Mito. 6. Cultura. 7. Imaginário. I. Berardinelli,
Cleonice Serôa da Motta. II. Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Letras. III.
Título.
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Paulo Roberto Bittencourt
Sandra Maria Nunes Bittencourt
Renato Nunes Bittencourt
Pai, mãe e irmão.
Companheiros nesta jornada para compreender a Vida e tudo
aquilo que somos.
Raquel Cristina dos Santos Pereira
O meu Graal – missa e oração na comunhão com o Amor.
“Vida da origem da minha inspiração!”
Ofereço
Dedico
Consagro
Por tudo o que têm sido para mim.
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Agradecimentos
Agradeço a Cleonice Berardinelli – pelo carinho, pelo olhar atento, pelas doces
correções, pela disposição. Como disseram nossos amigos da UFRJ, tenho plena
certeza de que “quanto mais vos pago, mais vos devo”. Recordarei sempre com
grande carinho o nome de Cleonice Berardinelli, que, “natural como um dia
mostrando tudo”, iluminou meu caminho. Fiquem estas palavras como uma singela
homenagem.
A Jorge Valentim e Luci Ruas Pereira, por todo o carinho e por depositarem em mim
larga confiança. Amigos nesta caminha intelectual, mostraram-me que é ensinando
que se aprende.
Às professoras Marília Cardoso Rothier e Pina Coco, por terem concordado em
participar da banca que avaliará este trabalho.
À PUC-Rio, à CAPES e ao CNPq, pelo fundamental apoio neste curso de pós-
graduação.
A secretária de pós-graduação, Francisca Ferrerira de Oliveira a Chiquinha –, e a
assessora de Direção Digerlaine Tenório – a Di –, por toda a dedicação e pelo carinho
com que sempre me receberam.
A Solange e Vanie, por toda a atenção dedicada.
Aos docentes e amigos do Colégio Gama Filho e da UGF, onde cresci e me
formei intelectualmente. Um especial carinho por Roberto de Luca Guidoreni, Célia
Maria Franco Moura, Saumir Mello Portugal, Rosa Maria Ferrão, Alexandre do
Amaral Ribeiro e Ianne da Hora Alves Lima, por sempre acreditarem em meu
trabalho.
Aos professores, pesquisadores e amigos do Conselho Editorial da Revista Teia
Literária.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0510599/CA
A João Felipe Rito Cardoso e Célia Cohen, amigos, no sentido fraterno da amizade.
A Daniele de Oliveira dos Santos, pelos esclarecedores diálogos neste meu percurso
inesiano.
A Daniel Maretti Dias, Diógenes Ivo Fernandes de Sousa Silva, Flávio Henrique
Barboza da Silva, Felipe Batista Galvão, Leonardo Tôrres de Carvalho, Antônio
Marcos Vieira de Oliveira, Viviane Guedes de Sena, Vanessa de Carvalho Gama,
Felippe Ferreira, Virgínia Duarte Sant'Anna, Ana Suzart, Priscilla Maria da Costa
Lobo, Carla Beatriz da Nobrega Martins, Fernanda Franco, Elton Lima Barreto
amigos de longa data.
A Angélica Rua Pinheiro e Anita dos Santos Ferreira, amigas.
A André Caldas e Tatiana Alves, por me incentivarem e me oferecerem sempre suas
mãos amigas.
A Sheila Moura, pelo carinho.
A Fátima Borges e José Fernandes, amigos, por todo o carinho e apoio.
A Paulo Roberto Bittencourt, Sandra Maria Nunes Bittencourt, Renato Nunes
Bittencourt e Raquel Cristina dos Santos Pereira – baluartes, sempre.
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Resumo
Bittencourt, Roberto Nunes; Berardinelli, Cleonice Serôa da Motta. Inês de
Castro: relicário da Saudade. Rio de Janeiro, 2007. 90 p. Dissertação de
Mestrado – Departamento de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro.
Inês de Castro: relicário da Saudade é uma dissertação que discute aspectos
histórico-culturais da simbologia da saudade advinda do episódio dos amores de
Pedro e Inês de Castro. Pela força da criação literária capaz de transformar a
História fatos e ficções envolveram-se em brumas. Passados 650 anos da morte da
“mísera e mesquinha”, o Ano Inesiano da Cultura reavivou reflexões em torno de
questões como “Alma Nacional”, Identidade Cultural” e “Sentimento Português”.
No presente estudo, privilegiar-se-ão alguns textos históricos, filosóficos e líricos
portugueses, que abordam aspectos de uma cultura que faz da Saudade a sua força
vital.
Palavras-chave
Inês de Castro; Literatura; Saudade; Mito; Cultura; Imaginário
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Abstract
Bittencourt, Roberto Nunes; Berardinelli, Cleonice Serôa da Motta. Ines de
Castro: Myth and Memory (original title Ines de Castro: relicário da
Saudade). Rio de Janeiro, 2007. 90 p. Master’s Dissertetion Literature
Department, Pontifical Catholic University of Rio de Janeiro.
Ines de Castro: Myth and Memory (original title Ines de Castro: relicário da
Saudade) is an essay that intends to discuss description-cultural aspects of “saudade”
symbology from the love affair between Pedro and Ines de Castro. By the force of the
literary creation capable to transform Historyfacts and fictions had been involved
in mists. Passed 650 years of the death of “poor and stingy”, the Inesiano Year of
Culture revived reflections around the “National Soul”, “Cultural Identity” and
“Portuguese Feeling”, contents of a culture that makes “saudade” its reward.
Key-words
Ines de Castro; literature; “saudade”; myth; culture; imaginary
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Sumário
1. Introdução 11
2. Pera tão longo amor, tão curta a vida 14
2.1. Inês de Castro e D. Pedro: mártires do amor 15
2.2. Razões do Estado, razões do afeto: “o grande desvayro” 20
3. A lenda se escorre a entrar na realidade 29
3.1. Literatura, Imaginário e Cultura 30
3.2. Portugal: memória e Saudade 38
4. Estavas, linda Inês... 46
4.1. Inês: o olhar de Orfeu 47
4.2.O manto do amor, o Reino da Saudade 66
4.3. A Literatura Brasileira no rastro de Inês 72
5. Conclusão 81
6. Referências bibliográficas 83
7. Anexo 89
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Calem-se agora todas as tubas destes amores de prata! Vou
falar-vos da obra do abraço de água e de fogo de onde brota o
ouro do amor ofuscante. Porque se digo Pedro digo Inês; e se
a esta nomeio nomearei o coração que por ela ainda sangra no
horizonte do mais magoado dos mitos, tão eternos se fizeram
estes amantes um no outro.
Natália Correia
É a noite eterna de Alcobaça, recamada de estrelas acesas,
com os túmulos de pedra a vogar no espaço galáctico, com
dois invólucros astrais, enquanto fora se sucedem os anos,
os séculos, os milénios, na esperança de que um dia possa
raiar a madrugada do fim do mundo e a trombeta do arcanjo
anuncie o final dos tempos. [...] É um capítulo eternamente
em aberto, dum drama sem fim, que começou com dois
tegumentos vegetais, dois embriõs ovulares, e termina com
dois corpos congelados, em órbita, em cápsulas de pedra, à
espera de acordarem na última galáxia do tempo e do espaço.
Nesse dia, quando não houver humanidade para recordar o
caso de Inês e Pedro, os astros hão-de contar com pasmo, uns
aos outros, a fábula do seu amor. O romance de Inês e Pedro
tem uma porta que se abre para a noite cósmica, original,
profunda, que contém as almas universais antes da
diferenciação, e uma outra que passagem para a noite una,
final, em que tudo se perpetuará pelo vazio da saudade.
António Cândido Franco. A rainha morta e o rei saudade
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1
Introdução
Não importa o que se ama. Importa a matéria desse
amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram
para dentro desse amor. As palavras são só um
princípio – nem sequer o princípio. Porque no
amor os princípios, os meios, os fins são apenas
fragmentos de uma história que continua para lá
dela, antes e depois do sangue breve de uma vida.
Tudo serve a essa obsessão de verdade a que
chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio,
a falha, a persistência.
Inês Pedrosa, Fazes-me falta
No dia 15 de janeiro de 2005 foi realizado, na Cidade de Alcobaça, o
Colóquio Inês de Castro, cuja direção coube a Maria Leonor Machado de
Sousa, catedrática jubilada da Faculdade de Ciências de Lisboa e vice-presidente
da Academia Portuguesa de História, além de grande pesquisadora do tema
inesiano na cultura portuguesa e da sua projeção na Europa. Na cerimônia
inaugural, realizada no Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, Eunice Muñoz leu
poemas de autores portugueses, cuja temática girava em torno dos amores de Inês
e Pedro, do encontro, da saudade, do desvario, da paixão inconsolável.
As Câmaras de Coimbra, Alcobaça e Montemor-o-Velho, o Ministério da
Cultura e a Quinta das Lágrimas reuniram-se nesse projeto de resgate do tema,
tanto em sua historicidade, em sua carga simlica e em seu valor mítico,
projetando-o no futuro, o que fez com que as comemorões do Ano Inesiano
seguissem uma linha que percorria um caminho muito além do simples relato dos
acontecimentos históricos ou de suas personagens. Buscou-se, mais que isso,
mostrar a carga simlica e mítica deste episódio, refletindo as relações entre
paixão e tragédia, desejo e morte, amor e poder. Pensar Inês de Castro é, assim,
uma forma de valorização da História de Portugal.
Para as atas do Colóquio Inês de Castroescreve Joaquim Veríssimo
Serrão que
No conjunto monumental português, merece a Cidade de Alcobaça ser vista como
uma das mais refulgentes jóias do nosso patrimônio cultural. À sombra da
veneranda casa-mãe de Cister, o País engrandeceu-se com a riqueza da livraria
claustral; com as granjas saídas do labor dos monges brancose com as peças de
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arte que valorizam o recheio da Abadia alcobacense. Entre tantas e valiosas
relíquias, como não exaltar os dois moimentosque guardam os restos do rei D.
Pedro e da RainhaInês de Castro, personagens do grande desvayroque ainda
hoje comove a alma dos portugueses? Para recordar a tragédia amorosa que os
envolveu, justifica-se a nossa ida ao mosteiro de Alcobaça, onde para sempre
descansam os dois enamorados, cujas almas há muito repousam nas mãos de Deus.
Elaborou-se, além disso, uma grande mostra que reunia obras de artistas
plásticos portugueses de várias gerações, dos consagrados aos mais jovens. Entre
seus organizadores destaca-se o nome de Alexandre Melo, grande autoridade em
arte contemporânea de Portugal. A mostra teve lugar no Pavilhão
Centro de
Portugal
em Coimbra e na Galeria de Exposições Temporárias da Ala Sul do
Mosteiro de Alcobaça. Como mote, a exposição valeu-se de um verso camoniano,
forte referência para os amores de Pedro e Inês de Castro: O nome que no peito
escrito tinhas.
Nuno Crespo, ao discutir os limites entre a História e o Mito e a relação do
episódio inesiano com a memória cultural portuguesa, destaca que:
Seja qual for a categoria em que se insere o episódio da paixão desvairada de Pedro
e Inês e perdoem-nos os historiadores , este mito é uma construção estética. Não
é por acaso que, excluindo os relatos históricos pouco numerosos, nada fidedignos
e muito contraditórios, são os poetas e alguns artistas plásticos, agora em maior
número, as melhores fontesdo central e elementar desta tragédia.
2
Se “um país forte é feito de artistas fortes e imagens fortes, como disse o
diretor do instituto de Artes, Paulo Cunha e Silva, o amor desvairado de um
Infante por uma Dama e tudo que envolve esse episódio , estruturante da
Identidade Nacional Portuguesa, é um tema que vem do passado para reavivar
reflees em torno de mito, ficção e nacionalidade, assuntos que são, como define
Haquira Osakabe, território em que situamos a maior parte das questões
relevantes para a compreensão dos problemas culturais em Portugal.
3
Inês de Castro figura entre as personagens femininas de maior destaque nos
campos da História e da Literatura Portuguesas. Viveu com o Infante D. Pedro de
1
SERRÃO, Joaquim Veríssimo. In. SOUSA, Maria Leonor Machado de (dir.). Colóquio inês de
Castro. Alcobação, 15 de Janeiro de 2005 Actas. Lisboa: Academia Portuguesa da História,
2005.
2
CRESPO, Nuno. Mito, História ou Verdade?. In. O nome que no peito escrito tinhas. Coimbra:
Ministério da Cultura IPPAR, 2005, 16.
3
OSAKABE, Haquira. A pátria de Inês de Castro. In. IANNONE, Carlos Alberto, GOBI,
Márcia V. Zamboni & JUNQUEIRA, Renata Soares (org.). Sobre as naus da iniciação. São Paulo:
Unesp, 1998, p.107.
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13
Portugal um verdadeiro amor de perdição, culminado com a tragédia de 7 de
janeiro de 1355, quando, por razões de Estado, foi cruelmente executada. Do triste
episódio surge uma frase que soa como um refrão, significando qualquer coisa de
tardio e irreversível: Agora é tarde, Inês é morta.
Morta foi Inês, mas não o seu nome e a sua memória. Tanto a Literatura
quanto as demais expressões arsticas trataram de imortalizá-la, lendo sempre
com grande interesse a história desses protagonistas de uma das mais belas
histórias de amor. Comparada à de Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Abelardo e
Heloísa, a história de Inês e Pedro atravessa as fronteiras ibéricas, transcendendo-
se e sacralizando-se como um dos maiores mitos trágicos marcados pelo amor-
paixão.
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2
Um trecho de História pôsto em Arte
Este inferno de amar
Este inferno de amar como eu amo!
Quem mo pôs aqui nalma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida e que a vida destrói
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... foi um sonho
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...
(Almeida Garrett, Folhas Caídas)
O texto que segue é o que se poderia chamar pequeno ensaio histórico,
ainda que, a bem da verdade, não o seja. Explicamos: seguindo delimitações
espaço-temporais, longa é a data que nos separa destes amores de Pedro e Inês de
Castro – são mais de 650 anos. Poucas são as referências fidedignas a respeito
deste episódio histórico de amor e morte e muitas são as conjecturas para aquilo
que se chamou razões do Estado e razões do afeto.
Ao pensar-se em um “esboçobiográfico de Pedro e Inês, era necessário
refletir em relação a que caminho seguir: aquele cheio de brumas e ao qual se
chama histórico, ou um de terreno extremamente fértil, a que se chama literário,
ficcional. Ousamos seguir o caminho do meio, utilizando as meias-verdades,
criando, talvez, a nossa própria vereda.
Transitando entre fatos e ficções fizemos nossa travessia. E, talvez, por nos
situarmos entre ambos, estivéssemos todo o tempo em ambos. Procuramos,
entretanto, manter em nossa narrativa ou leitura, se for mais conveniente assim
dizer aquilo que de essencialmente passou à História como fato. Deixemos as
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lendas aos artistas, para que as elevem a tal ponto que se confundam com a
realidade.
Surge, então, uma vida: como distinguir a ficção da realidade? Quatro
autores nos foram fundamentais: Fernão Lopes, Carolina Michaëlis de
Vasconcelos, Antero de Figueiredo e Maria Leonor Machado de Sousa.
Fernão Lopes, tido com justiça como o patriarca dos historiadores
portugueses, por todo o rigor com o qual buscava escrever suas crônicas. Disso,
voltaremos a falar no momento oportuno. Carolina Michlis de Vasconcelos
realiza uma atenta pesquisa abrangendo os aspectos filológico, poético e mítico
do mais enigmático dos enigmas portugueses: a Saudade. Antero de Figueiredo
foi um daqueles autores em que os olhos atentos do historiador se deixaram levar
pela alma do poeta. Escreve um romance, em prosa que se pode dizer poética, em
que muitas vezes a Arte predomina sobre a História. Muito devemos também às
investigações de Maria Leonor Machado de Sousa, a maior estudiosa de Inês de
Castro na atualidade.
Certamente, em maior ou menor proporção, servimo-nos de outras fontes
para chegar ao texto que ora apresentamos, como, por exemplo, as investigações
de historiadores e críticos propiciadas pelo colóquio Inês de Castro” e a edição
organizada e dirigida por A. Pedro Gil
Os grandes julgamentos da História: o
processo de D. Inês de Castro
, que trazem novas luzes para esta tragédia de
amor que tem comovido corões através dos tempos.
2.1
Inês de Castro e D. Pedro: mártires do amor
A 8 de abril de 1320, nasce em Coimbra o Infante D. Pedro, filho de D.
Afonso (futuro rei) e D. Brites, neto do rei-trovador D. Denis e de D. Isabel.
Somente aos quatro anos o Infante foi conhecido pelos avós, que o levaram à Sé
de Lisboa e o ofertaram ao mártir São Vicente. A ocasião foi celebrada com
grande festa. Diz-se que dos olhos de D. Denis caíram lágrimas de júbilo, por ali
ter o futuro rei de Portugal, e de perdão, por ter encontrado a paz com o filho D.
Afonso, após dura guerra entre ambos, que se alastrou por Portugal de 1320 a
1324, com alguns raros intervalos de paz. D. Afonso revoltara-se contra o pai por
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lhe atribuir a intenção de preteri-lo na sucessão da coroa portuguesa por D.
Afonso Sanches, seu irmão bastardo. Conforme ressalta José Hermano Saraiva
[...] os poucos episódios que se conhecem mostram que a luta excedeu as
proporções de uma questão de família. O País dividiu-se em dois partidos e o
infante revoltado contava com a força dos concelhos. O mentor da revolta era um
plebeu que o infante fizera seu chanceler, um advogado de Beja, filho de um
carpinteiro. Fontes coevas acusam-no de, por formosas palavras, ter induzido
muitos dos concelhos e também fidalgos. As acusações dos revoltosos não eram só
relativas à predilecção do rei por D. Afonso Sanches, eram também as de que a
justiça deixara de reinar no País; ora a palavra
justiça
tem, nessa época, muitas
vezes a acepção de ordem social, equilíbrio entre grandes e pequenos.
Com o apoio das forças populares (que em alguns casos expulsaram os alcaides dos
castelos), apoderou-se de muitas povoações: Leiria, Coimbra, Montemor-o-Velho,
Feira, Gaia, Porto. Os moradores de Guimarães tinham também prometido
entregar-lhe a vila, mas um nobre fiel ao rei, ajudado por grande número de
cavaleiros, impediu a realização do plano; tal facto fê-lo incorrer em tal ódio dos
povos que o rei autorizou a afortalezar a residência, para poder resistir à vingança
doa moradores da região. Numa Segunda campanha, o infante avançou sobre
Lisboa; o rei saiu-lhe ao encontro, mas as tropas do concelho, que o
acompanhavam, desertaram e passaram-se para o lado de D. Afonso. O último
episódio da luta desenrolou-se em Santarém, que também tomara o partido do
infante. O rei penetrou com os seus cavaleiros na povoação, contra a vontade dos
moradores. Houve um combate sangrento e D. Dinis foi obrigado a ceder,
decretando a expulsão do reino e o confisco de bens de D. Afonso Sanches, a
demissão do nobre que se distinguira na defesa de Guimarães. Deram-se garantias
de guerra lado a lado e perdoaram-se mutuamente as ofensas.
4
Morto D. Denis, pouco depois de 1325, o pai de D. Pedro ascende ao trono
português como D. Afonso IV. Imediatamente, o rei pensa em arranjar o
casamento do filho. Para tanto, consegue do Papa João XXII uma bula permitindo
ao infante casar-se com qualquer mulher, ainda que com certo grau de parentesco.
O rei pretendia que o filho tomasse por esposa a princesa de Aragão ou de
Castela, parentas mais ou menos próximas da coroa portuguesa.
Há que se destacar que o casamento de príncipes era basicamente uma
instituição política, sendo a forma mais comum de selar os acordos de paz entre os
reinos. Se no reinado de D. Denis se arranjou casamento com o reino de Aragão,
visando a que ambas as coroas pudessem ter proteção mútua contra Castela, D.
Afonso IV fê-lo diretamente com a coroa castelhana. Acordou-se que o monarca
português concederia a Afonso XI, que já tinha casamento marcado com D.
Constança Manuel, filha de D. João Manuel senhor de muitas terras, além de
4
SARAIVA, José Hermano. História concisa de Portugal. 23. ed. Sintra: Europa-América, 2005.
p. 88-89.
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cronista e poeta a mão da infanta D. Maria, o que o fez preterir a noiva em favor
da filha de Afonso IV. Nessa nova situação, D. Pedro se casaria com D. Branca,
filha do Infante D. Pedro de Castela e prima do rei Afonso XI.
Ainda criança, D. Branca é levada à corte portuguesa. Estabeleceu-se que,
quando completassem doze anos, o casamento seria sacramentado. Desde cedo, no
entanto, D. Branca mostrou-se de saúde fraca. Quando finalmente completaram a
idade para se casarem, decidiu-se que seria mais conveniente esperar por mais
dois anos, na esperança de que D. Branca pudesse ter sua saúde restabelecida. Não
aconteceu. Decidiu-se em conselho, então, desatar de vez o matrimônio.
D. Afonso IV tratou, desde logo, de arranjar outro casamento para o seu
filho. Mais uma vez o monarca português fez-se valer da política de casamentos.
Consultados os conselheiros, pensou-se para mulher de D. Pedro a filha do rei de
Aragão, a irmã do rei de França ou a filha do duque de Milão. Optou-se, afinal,
por Constança Manuel, a mesma que tivera seu noivado desfeito com Afonso XI.
Tal casamento seria uma tentativa de se estabelecer a paz entre Portugal e Castela.
Conforme destaca Manuela Mendonça, o monarca castelhano casou-se com
D. Maria de Portugal em 1328, o que selou, temporariamente, a paz entre os
reinos.
Porém, este consórcio não foi marcado pela felicidade, sendo certo que o rei
preferiu uma amante, D. Leonor de Gusmão, impondo à real consorte um
permanente retiro em Sevilha. Aí viveu a filha de Afonso IV com seu filho, Pedro,
que nascera em 1334. Entretanto, Afonso XI teria, com a amante, dez outros filhos.
Tal situação desagradava profundamente o rei de Portugal, que abriu um claro
conflito com o genro. Esse conflito iria agudizar-se quando o rei português
escolheu para noiva do sucessor régio, D. Pedro, a D. Constança Manuel. Era a
jovem filha do poderoso D. João Manuel, tio de Afonso XI, com quem antes fora
acordado casamento para a mesma jovem. Ora o rei de Castela preterira a noiva a
favor da infanta D. Maria, o que levara D. João Manuel a perfilar-se no grupo que,
em Castela, se opunha ao seu rei. O descontentamento do rei de Portugal pelo
modo como Afonso XI procedia com D. Maria terá encontrado eco no fidalgo
castelhano ofendido, o que viria a contribuir para a união de forças feita, que foi
selada com o casamento do herdeiro português com D. Constança Manuel. Tal
frente de oposição não agradou, naturalmente a Afonso XI, que decidiu dificultar a
vinda da noiva para Portugal. De facto, feita a negociação do casamento em 1335,
o mesmo só viria a realizar-se em 1340. Entretanto, D. Afonso IV decidira usar a
força das armas, enfrentando o genro, para resolver o conflito.
5
5
MENDONÇA, Manuela. O tempo de Inês de Castro. In. Colóquio Inês de Castro: actas 15 de
janeiro de 2005. Lisboa: Academia Portuguesa da História, 2005. p. 21-22.
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A paz entre Portugal e Castela sobreveio apenas quando ambos os reinos
sentiram a necessidade de unir forças para conter os muçulmanos que, no sul da
Península Ibérica, constituíam uma séria amea para os reinos cristãos. Afonso
IV intervém, por intermédio de D. Maria, junto ao genro. Em 30 de outubro de
1340, as coroas ibéricas saem vitoriosas da batalha que passou à História como do
Salado. D. Constança Manuel pôde, finalmente, entrar em Portugal e receber todas
as honras devidas a uma descendente dos reis de Lo, Castela e Aragão.
Em sua comitiva veio a dama galega Inês Pires de Castro, filha natural de D.
Pedro Fernandes de Castro, dito da Guerra, grande senhor galego, e de D. Aldonza
Soares de Valadares. Da mesma mãe tem como irmão D. Álvaro Pires de Castro,
além de dois meios-irmãos, frutos do casamento do pai: D. Fernando e Joana de
Castro. Vem, por parte do pai, de uma linhagem antiga e nobre, descendente do
famoso D. Rodrigo Dias de Bivar, o Cid Campeador. Além disso, é bisneta do Rei
Sancho IV de Castela. Desde tenra idade passa a ser criada por Tereza de
Albuquerque, viúva de Afonso Sanches o bastardo do rei D. Denis, meio-irmão
do monarca português Afonso IV , a quem Inês chamava mãe.
Com as bênçãos nupciais do arcebispo da Sé de Lisboa, o Infante e
Constança se casam. O rei D. Afonso IV e D. Brites sentiram um especial
contentamento, já que o filho se casava com uma mulher forte, vigorosa, em tudo
diferente da fraca e estéril D. Branca de Castela. A nobreza e o povo assistiram à
cerimônia, em tudo bela. A corte portuguesa estava em festa, mas não o coração
do príncipe. O casamento, arranjado para apaziguar os ânimos de constantes
conflitos entre o monarca português e D. Afonso XI não agradara ao Infante D.
Pedro, que pretendia, por si mesmo, escolher sua mulher. Casou-se sem amor,
pois nunca havia visto aquela que lhe davam em casamento. Tal fato o faz afastar-
se cada vez mais de D. Constança.
Logo, o príncipe retomou a sua vida de monteiro, dedicando-se às caçadas
diárias. Acima de tudo, queria manter-se afastado da corte. Acostumou-se a
crescer livre, cavalgando pelos campos, pelos outeiros e pelas serras. Impetuoso,
tudo que pudesse ser uma prisão não lhe agradava, tal como o seu casamento
político, pelo bem da paz do reino. A princesa acostumou-se a viver assim,
bastante só, encontrando satisfação em ser esposa do Infante de Portugal e, por
isso, futura Rainha. Contentava-se, simplesmente, em ver a alegria do marido após
um dia de montaria.
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19
Rezam as lendas que foi em um dia de inverno, ouvindo os longos serões do
Po, onde se declamavam cantares de amor sem fim, que os olhos de D. Pedro,
pela primeira vez, se encontraram com os de Inês de Castro. Ao lado de D.
Constança, a dama usufruía os lazeres do dia-a-dia na corte. Sua formosura, seus
encantos os loiros cabelos a cair pelos ombros, os olhos verdes e brilhantes, o
porte sereno e suave como o de uma garça a andar pelos jardins do po, a pele
branca como a da mais bela pérola, os lábios graciosos, a beleza com qualquer
coisa de divino – fizeram-lhe valer o cognome “colo de garça.
O Infante não tardou em mostrar grande simpatia e afeição pela bela Inês,
que correspondia, em tudo, a esses sentimentos. O fogo da paixão arde no peito do
casal. As razões do coração falam mais alto que os compromissos de Estado. O
Infante passa a enfrentar todas as convenções da Corte, dispondo-se a desafiar a
tudo e a todos por seus sentimentos.
O amor entre Pedro e Inês não fica despercebido de D. Constança. Talvez
tudo fosse um impulso momentâneo, queria acreditar, e, por isso, passageiro.
Talvez o Infante não fosse capaz de viver um tão grande amor. Ledo engano!
Frustraram-se todas as tentativas de Constança Manuel de trazê-lo para si.
Descobrindo-se grávida, encontra um fio de esperança para que seu desejo se
realize. A criança haveria de acender em D. Pedro o sentimento paterno. Quando
nasce o pequeno Luís, a mulher do Infante, na tentativa de separar o casal,
convida Inês para madrinha do menino, criando entre os três um laço espiritual. D.
Luís, entretanto, não sobreviveu ao primeiro ano de vida.
Os amores de Pedro e Inês ficaram conhecidos. D. Afonso IV, percebendo o
escândalo que se tornara a paixão de seu filho pela dama e ouvindo as vozes que
julgavam a relação do casal como uma afronta à moral e aos dogmas religiosos,
força a moça ao exílio. D. Inês esconde-se no Castelo de Albuquerque, onde
passara a infância. Contudo, a distância não foi capaz de separar o apaixonado
casal. Inês e Pedro, por intermédio de amigos, continuaram comunicando-se por
cartas.
Pouco a pouco D. Constança Manuel sucumbe, mais a uma fraqueza moral
do que física. Lamentosa, saudosa de sua terra natal, descobre-se novamente
grávida. Nasce a criança, uma menina, a quem dão o nome de Maria. Talvez fosse
para a mãe a esperança e a alegria de viver.
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20
O Infante vê-se, afinal, liberto das obrigões do matrimônio quando lhe
morre a mulher, ao parir D. Fernando. Com a morte da esposa, D. Pedro traz a
amada Inês de volta a Portugal, às terras de Lourinhã. Tempos depois se dirigem a
Coimbra, instalando-se em uma Quinta próxima ao Mosteiro de Santa Clara, o
mesmo em que vivera a veneranda rainha D. Isabel de Aragão.
Seguiram-se tempos felizes para o casal, em que puderam entregar-se àquele
amor que pulsava em seus peitos. Longo tempo viveram o suspiro, a sensualidade,
o gozo de um idílio. Saíam juntos a montear pelos campos. Freentemente eram
vistos a assistir às orões clericais. Conquistavam, cada vez mais, a simpatia da
arraia-miúda das terras do norte, capaz de entender os corões do príncipe e de
sua amada Inês. O Infante criava cada vez mais uma corte unida e forte, tratando a
gente do povo com igualdade e zelo.
Quando partia solitário para as caçadas, por vezes D. Pedro ausentava-se
durante algum tempo, às vezes dias. Daí vem uma imagem que a arte tratou de
imortalizar:
Inês, para disfarçar as horas nocturnas da ausência, para iludir saüdades desce
dos Paços com suas aias até à borda do rio e, leve, regaçando com brancas mãos de
anéis, sôbre o bico de um pequenino borzeguim recamado de prata, sua fraldilha de
sêda amarela, entra num barco que, na quietação da noite clara, desliza na corrente
mansa do Mondego.
No céu alto, as estrêlas lucilantes falam de Deus. É a hora dos sticos silêncios...
Os corações pensam. As águas coaxam nos remos lentos; distantes, soluçam os
sapos nos lameiros, e os rouxiis cantam nos choupos das ínsuas nevoadas.
Longe, nos montados da Beira, D. Pedro lembra-se da amada e o seu amor é forte e
fragueiro como os penhascos das serras bravias!
6
2.2
Razões do Estado, razões do afeto: o grande desvayro
Repugnando a mancebia do filho, D. Afonso IV mostrou-se interessado em
que o Infante novamente se casasse. Buscou, para tanto, nomes de moças de
sangue real. Uma vez mais, queria arranjar para o filho um casamento com forças
políticas para Portugal. D. Pedro, porém, rejeita-as todas. D. Afonso IV resolve,
6
FIGUEIREDO, Antero de. D. Pedro e D. Inês: o grande desvayro. Lisboa: Bertrand, 1917. p.
91-92.
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então, casá-lo com Inês de Castro. Envia emissários a D. Pedro, instando-o a
legitimar sua união.
Ao tempo que ha Jfamte Dª Constança, molher do Jfamte D. Pedro, feleçeo, ele
fiquou moço de trimta e tres anos, idade muj comueniente pera ajmda auer de
casar. E posto que delRey e da Rainha, seu padre e madre, e dos princypaes
homens de Portuguall fose pera yso e com justas rezões acomselhado, e asym por
elRey seu padre, requerido e amoestado que casase, ou dysese se Dª Jnes era sua
molher, pera ser por yso homrada e tratada de todos como ela mereçya, em vyda
delRey sempre denegou, que ho casamento amtre eles era feito. Nem tam pouquo
quis com houtra molher casar, pera que daua escusas e pejos que há soo sua
vomtade e afeição sem mays rezões fauorecyão. E ysto tudo era soo por nom
deixar Dª Jnes de Crasto, a que queria gramde bem, e de que tinha os tres filhos e
huma filha que dyse, a qual era sua sobrinha, filha de um seu prymo comjrmão
7
O Infante não seguiu o conselho do pai. Para a recusa de D. Pedro, alguns
fatores têm sido apontados: o fato de Inês ser filha natural, ainda que descendente
de rei; o grau de parentesco que entre ambos havia, sendo primos, já que D.
Beatriz (sua mãe) era tia de D. Pedro Fernandes de Castro; o laço espiritual que os
unia; o fato de o Infante estar seguro de si o suficiente para não temer pela
segurança de Inês de Castro. Ou, ainda mais provável, D. Pedro já estava casado
com Inês, em um enlace realizado em segredo, não cabendo, portanto, casar-se
uma segunda vez com a mesma mulher. D. Pedro haveria, um dia, quando já fosse
rei, de tornar público o casamento, podendo então amar e honrar sua mulher como
Rainha de Portugal.
Diante da recusa do filho, temendo a presença da dama galega em Portugal e
a influência dos Castros, receando que os irmãos de Inês dominassem D. Pedro a
ponto de se colocar a Coroa portuguesa em xeque, D. Afonso, ouvindo seus
conselheiros, aconselha ao filho que Inês saia de Portugal. Para o bem do reino,
acreditava ser necessário que se separasse D. Pedro de Inês de Castro. Mais uma
vez, o Infante não obedece ao pai, percebendo que as ameas não haveriam de
ser executadas.
Corriam os anos e o impasse se mantinha. Consultado por seus conselheiros,
D. Afonso IV pensou em enviar a Roma uma carta, rogando ao Papa que não
permitisse a D. Pedro casar-se com Inês, acreditando que a melhor afastar decisão
era a de afastar o casal, não lhes permitindo a união pelo matrimônio. Justificaria
7
TAROUCA, Carlos da Silva (ed.). Crónica dos sete primeiros reis de Portugal. Lisboa: Casa
Cadaval, 1953. p. 365.
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ao pontífice ser o relacionamento de ambos uma desonra para o reino de Portugal.
Recua, porém. Prefere ir até a Inês de Castro. Queria muito bem à moça, mas as
razões de Estado eram mais importantes que as do coração. Sugeriu uma
separação, afinal D. Pedro não queria se casar com nenhuma moça. E todas as
vezes que o rei procurava por Inês sempre na ausência do Infante a conversa
terminava em impasse.
Havia, ainda, um outro fato desagradável ao monarca português: os irmãos
de Inês incitavam cada vez mais D. Pedro para que ele lutasse pela coroa
castelhana.
Sendo esta uma família de grande relevo em Castela, temia-se que pudesse vir a ter
descendente em Portugal por via da influência de D. Inês sobre o futuro monarca.
Com efeito, logo após a morte de Afonso XI em 1350, os irmãos bastardos do rei,
D. Henrique, conde de Transtâmara e D. Fradique, mestre de Santiago, juntamente
com o fidalgo português D. João Afonso de Albuquerque, conjuram contra a coroa.
Fazendo Inês de Castro parte de uma família poderosa e descendente, apesar de ser
por via bastarda, do rei Sancho IV de Castela, e havendo ligação com a família
Albuquerque por via de Afonso Sanches, o bastardo de D. Dinis que casara com
uma Albuquerque, o mesmo que levara D. Afonso IV a lutar contra o pai. Ora a
revolta que estalara em 1350, em Castela contra o rei Pedro I, tinha como chefe
precisamente João Afonso Albuquerque, filho de Afonso Sanches e, portanto, uma
espécie de irmão adoptivo de Inês de Castro. Estranho seria que João Afonso não
tivesse usado a influência sobre Inês para conseguir conquistar a simpatia de D.
Pedro para a sua causa. O plano era relativamente simples: depois de terem
conseguido destronar o filho de Afonso XI, iriam oferecer a coroa a D. Pedro, neto
legítimo de Sancho de Castela. É nesse sentido que D. Álvaro Pires de Castro faz a
proposta ao Infante D. Pedro. Tratava-se, sem dúvida, de uma proposta tentadora,
mas [o Infante] não a aceitou, como era desejo de seu pai.
8
D. Pedro recuou somente após muitos conflitos contra o pai. Afonso IV
receava somente pela estabilidade do reino, que poderia ser ameaçado pelas
coroas vizinhas. Por muitas vezes D. Afonso IV reuniu-se com seus conselheiros,
buscando uma solução possível que não uma tragédia sangüinária. Talvez
expulsar de vez Inês das terras lusitanas, enviando-lhe de volta à Espanha. Idéia
que agradara a parte do conselho, mas desagradável à corte, que queria Inês
morta. Os conselheiros mais íntimos de D. Afonso IV, Pero Coelho, Álvaro
Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco pressentiam grande perigo para o Reino,
acreditando que os ambiciosos irmãos de Inês, intriguistas como eram, levariam
Pedro a ser um mau rei. Continuamente os conselheiros incitaram D. Afonso IV
8
MONTEIRO, Miguel Corrêa. Razões de Estado e razões do Coração. In. Colóquio Inês de
Castro. p. 42-43
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que muito prezava as razões de estado – a uma atitude que lhes parecia inevitável:
executar Inês de Castro.
Ressalta o professor Ângelo Ribeiro que os conselheiros mais íntimos de D.
Afonso IV, Pero Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco
[...] presentiam grande perigo para Nação no predonio crescente dos Castros no
ânimo do príncipe. Intriguistas e ambiciosos como eram, levá-lo-iam a ser um mau
rei, e, como o único esteio legítimo da dinastia era o pequeno infante Fernando,
fácil lhes seria desfazem-se dele, para que sucedesse a D. Pedro, em caso de morte,
um dos sobrinhos, filhos de Inês de Castro
Com o contínuo resmungar destas razões, desvairaram os conselheiros o espírito
sensato de Afonso IV, para o qual a razão de Estado era tudo; e às repetidas
sugestões dos cortesãos, no sentido de fazer desaparecer a amante do filho, cedeu o
monarca finalmente.
9
Logo que D. Afonso IV concedeu a palavra régia, organizou-se um processo
político contra Inês de Castro. Ressalta A. Pedro Gil que:
Não existe um só documento escrito que constitua o verdadeiro "processo" de Inês
de Castro, como não existe uma só peça do seu julgamento, pois que embora Inês
houvesse sido julgada, as circunstâncias especiais implicaram uma apreciação do
seu caso por D. Afonso IV e pelos do seu conselho, mas sem que das deliberações
havidas se tenha qualquer relato escrito autêntico.
10
Foi no dia 7 de janeiro de 1355. Esperar-se-ia apenas pela ausência do
Infante, o que não tardou. Partindo de Montemor, o rei segue para Coimbra com o
bispo do Porto, sacerdotes, nobres dentre os quais Diogo Lopes Pacheco, Pero
Coelho e Álvaro Gonçalves , além de homens de armas. Chegando aos Pos de
Santa Clara, o monarca ordena que se cerquem as casas. Diz-se que, por muitas
vezes, pensou em recuar. Não queria derramar o sangue de uma inocente. Afonso
IV sabia ser Inês inocente. E isso fazia crescer o rancor do pai para com o filho.
Quantas e quantas vezes o Infante fora aconselhado dos perigos que Inês corria...
Quantas e quantas vezes D. Pedro teimou em desobedecer as ordens do pai...
Tudo agora era um triste desconcerto. Sobem ao Po o rei e o meirinho-
mor, com a sentença na mão. O que se segue é uma das mais tristes cenas de que
se pode haver. Ao dar-se conta de toda aquela atmosfera de gravidade, Inês
9
RIBEIRO, Ângelo. O episódio de Inês de Castro. In. Os grandes julgamentos da história: o
processo de D. Inês de Castro. Lisboa: Amigos do Livro, s/d. p. 107.
10
GIL, A. Pedro (org). Os grandes julgamentos da história: o processo de D. Inês de Castro.
Lisboa: Amigos do Livro, s/d, p. 13-14.
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desespera-se, apela, suplica em favor dos filhos. O rei hesita. Ela é inocente,
afinal. Pressionado, porém, D. Afonso IV deixa vencerem as razões do Estado e
morrer a do afeto. A bela dama é cruelmente assassinada.
Ao tomar ciência da crueldade, o coração de D. Pedro encheu-se de dor e
ódio. Depressa retorna, com seus homens, ao Paço de Santa Clara. Desespera-se
em agonia cada vez mais, e a cada vez em que clama por sua amada resta apenas o
silêncio. Não há sítio que seja maior que o seu pesar. Assombrado pelo remorso, a
culpa cai sobre o Infante. Não lhe faltaram avisos para proteger Inês contra a triste
sina. Não havia, afinal, dignificado sua amada. Inês estava, agora, morta e
enterrada.
Diz-se que D. Pedro, prostrado por uma grande febre, tocou as raias da
loucura. Pelo curto período de tempo em que estava enfermo, não pensava em
nada mais que no seu desejo de vingança. Uma obsessão, uma sede que haveria de
ser saciada. Levantaria um exército contra o seu pai. Uma vez restabelecido, assim
o fez. Apoiado por nobres que lhe eram caros, dentre os quais D. Fernando de
Castro e D. Álvaro de Castro, o Infante, partindo do norte e indo em dirão ao
Porto, aumentava cada vez mais o número de partidários. Em cada vilarejo que D.
Pedro e Inês eram queridos, o povo sofre da dor do príncipe. Aumentava-se o ódio
contra o rei, contra os conselheiros régios e contra todos aqueles que consentiram
na morte da amada de Pedro. O sonho da justiça guiava os paços daquele exército,
composto de todo tipo de gente. Nobres e plebeus uniam-se por uma causa,
uniam-se em um grito de justiça e vingança.
O Jmfante D. Pedro pela morte da dita D. Jnes de Castro, e por saber que por seu
respeito somente, e sem [culpa] alguma dela, há matarão, foi com rezão tão
anojado, e posto em tanta tristeza, que como danado amdaua pera perder ho syso e
a uida, sem algum remedyo nem comforto. E porem, per alguma vimgança e
satisfação sua, ajmda que fose per meos tam comtrarios a ele, buscou e procurou
loguo todalas cousas em que pudese deseruir a elRey, seu padre, e destrohir seu
Reino, e dar mortall castigo aos matadores dela, se pudese.
11
D. Pedro, preparado para a batalha, avança com o seu povo. Atravessando o
reino, chegam ao Porto. Ali estava D. Gonçalo Pereira, arcebispo de Braga, em
nome de D. Afonso IV. Para viver ou para morrer, lutaria em nome do rei se fosse
11
TAROUCA, Carlos da Silva (ed.). Crónica dos sete primeiros reis de Portugal. Lisboa: Casa
Cadaval, 1953. p.368.
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necessário. Da rainha-mãe, D. Brites, tinha uma missão: dissuadir o Infante da
luta. A guerra, afinal, seria um erro, pois sangue inocente poderia ser derramado.
E talvez isso, somente isso, tenha acalmado o coração do Infante. Pai e filho
assinam em Canaveses, no dia 15 de agosto de 1355, o acordo de paz. D. Afonso
IV delegara ao Infante grande parte do poder da Coroa. A D. Pedro restou aceitar
e jurar o completo perdão.
Em 1357, quando estava com 37 anos, D. Pedro ascende ao trono. Logo
ratifica os acordos políticos com os reinos vizinhos, especialmente com Castela.
D. Pedro de Portugal e D. Pedro de Castela selam aliança, além de combinarem
casamentos entre os seus filhos. Acordou-se que D. Fernando, herdeiro da coroa
portuguesa, se casaria com D. Beatriz, Infanta de Castela. D. João e D. Denis,
filhos de D. Pedro e Inês de Castro, com D. Constança e D. Isabel, filhas de D.
Pedro de Castela e de sua amante Maria de Padilla.
Todas as alianças políticas decorriam de uma idéia que lhe desvairava a
mente: o desejo de fazer justiça contra aqueles que consentiram e, sobretudo,
executaram o assassínio de Inês de Castro. Assina com o soberano de Castela um
acordo de extradição: a coroa portuguesa comprometer-se-ia a extraditar os
criminosos políticos castelhanos; Castela entregaria Pero Coelho, Diogo Lopes
Pacheco e Álvaro Gonçalves. Estes três, ainda em vida de D. Afonso IV,
refugiaram-se em Castela, a conselho do monarca português.
Cumpriu-se o acordo. Fernando Guidel de Toledo, Mem Rodrigo Terio e
Fernão Sanches Calderon, expatriados castelhanos, foram entregues na fronteira
entre os dois reinos e sentenciados em Sevilha. D. Pedro de Castela enviou para
Portugal Álvaro Gonçalves e Pero Coelho. Reza a tradição que Diogo Pacheco
teria sido salvo por um mendigo a quem ajudava, dando esmolas, tendo ambos
trocado, entre si, suas vestes. Daí fugira para Aragão e posteriormente para a
França. Os algozes da bela Inês foram executados nos paços reais de Santarém.
Uma espantosa e macabra execução: o povo, atônito, viu Pero Coelho e Álvaro
Gonçalves terem seus corações arrancados o primeiro pelo peito, o segundo
pelas costas enquanto o rei trinchava e comia sua refeição, fartando-se de vinho,
assistindo à tortura dos algozes de Inês de Castro. A seguir, o rei mandou que seus
corões fossem queimados.
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Não foi por crueldade, como geralmente se supõe, que D. pedro mandou arrancar, a
um pelas costas, a outro pelo peito, os corações de Pero Coelho e Álvaro
Gonçalves. Êste movimento de vingança foi guiado pelas idéias do tempo pelas
leis da "justiça simbólica", que prevalecia ainda e que tinha raízes na primitiva lei
de talião, cuja fórmula penal era "ôlho por ôlho", dente por dente". O órgão
delinqüente (a língua para o blasfemo, a mão para o ladrão, etc., etc.) era o
principal responsável pela culpa. Tôda a alma criminosa se concentrava nesse
órgão, ao qual se dirigia a justiça, amputando-o, e a vingança pessoal, cravando
nêle seus rancores. [...] Na Idade-Média, o coração era, entre cavaleiros, o órgão da
lealdade. Pero Coelho e Álvaro Gonçalves, conluiando-se com o rei e com outrros,
para ordenar a execução de Inês de Castro, às escondidas, faltaram à lealdade para
com o infante cometeram traição. Os seus corações passaram a ser traidores, e
por isso deviam ser punidos. D. Pedro estava dentro dos costumes do tempo.
12
A sede de vingança estava saciada. A alma e o coração do rei estavam,
porém, inquietos. Em 12 de junho de 1360, nas terras de Castanhede, D. Pedro
declara, tendo as mãos postas nas Sagradas Escrituras, apresentando como
testemunhas D. Gil, bispo da Guarda, e Estevão Lobato, seu criado, que ainda
Infante, em data que não sabia precisar, casara-se com Inês de Castro. Realizara
um casamento secreto, somente agora declarado por não querer desgostar o pai.
Jurou-o D. Pedro solenemente.
A partir de então, o rei preocupa-se em preservar a memória de Inês de
Castro. Queria trasladar o cadáver de sua mulher do Mosteiro de Santa Clara para
um que fosse mais reservado, mais afastado das cidades. Após muito meditar,
resolveu-se por Santa Maria de Alcobaça, longe de Coimbra que para o rei
representava terras de muitas saudades. D. Pedro passa a arquitetar como haveria
de ser o túmulo da amada. Pretendia algo magnífico, superior a todos aqueles de
que se tinha notícia. Em seus desvarios apaixonados, decidiu que mandaria fazer
um túmulo apenas, em que ele e Inês, sob suas estátuas coroadas, dando-se as
mãos, repousariam no sono da morte, até ao Dia do Juízo. Os monges
alcobacenses, a quem repugnava a idéia, considerada por eles mundana,
dissuadiram o rei de concluir a obra.
Muito se pensou até que D. Pedro decidiu como haveria de ser. Relata o
cronista Fernão Lopes que o Infante
[...] mandou fazer huum muimento dalva pedra, todo mui sotillmente obrado,
poemdo emlevada sobre a campãa de çima a imagem della com coroa na cabeça,
como se fora Rainha; e este muimento mandou poer no moesteiro Dalcobaça, nom
aa emtrada hu jazem os Reis, mas demtro na egreja ha maão dereita, açerca da
12
FIGUEIREDO, Antero de. D. Pedro e D. Inês: o grande desvayro. Lisboa: Bertrand, 1917. p.
268-270.
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capella moor. E fez trazer o seu corpo do mosteiro de Samta Clara de Coimbra, hu
jazia, ho mais homrradamente que se fazer pode, ca ella viinha em huumas andas,
muito bem corregidas pera tal tempo, as quaaes tragiam gramdes cavalleiros,
acompanhadas de gramdes fidalgos, e muita outra gente, e donas, e domzellas, e
muita creelezia. Pelo caminho estavom muitos homeens com çirios nas maãos, de
tal guisa hordenados, que sempre o seu corpo foi per todo o caminho per antre
çirios açesos; e assi chegarom ataa o dito moesteiro, que eram dalli dezassete
legoas, omde com muitas missas e gram solenidade foi posto em aquel muimento:
e foi esta a mais homrrada trelladaçom, que ataa aquel tempo em Portugal fora
vista.
13
Ao lado da arca tumular da amada, D. Pedro mandou construir a sua, de
igual encanto, mas diferente nos pormenores. Se a arca tumular de Inês é toda
adornada com motivos religiosos, nesta haveriam de ser retratadas cenas da vida
desse apaixonado casal. Cenas de eterna saudade. Em seu túmulo grava a crença
na eternidade: A
E
·
AFIN DO MVDO até a fim do mundo. Fora o ato final
do grande desvario amoroso do rei. Levantara-se o galardão do amor. Honrara-se
Inês de Castro, Rainha de Portugal.
Ainda reinou cerca de cinco anos depois da trasladão dos restos mortais de D.
Inês para o formoso túmulo, no mosteiro de Alcobaça. A partir de então, dir-se-ia
que a sua inquietação interior se apaziguara. Fizera à mulher amada a mais
aparatosa reabilitação moral que lhe fora possível. Repousava, finalmente, das suas
esgotantes anstias.
Já o vergava uma velhice precoce. Aos quarenta e seis anos aparentava contar
sessenta. A sua barba, tão sedosa e loura na mocidade, tornara-se de um ruço sujo,
como que de estopa, como o cabelo, que, faltando-lhe nas têmporas, já o ameaçava
de calvície. A epiderme, perdendo o tom rosado, volvia-se marfínea. Apagara-se a
chama que outrora ardia nos seus olhos negros, que eram agora brasas amortecidas,
a extinguir-se sob a cinza dos desgostos. Parecia não temer muito que a morte a
doce amiga dos que já nada esperam deste Mundo – o viesse buscar para o depor
no outro formoso túmulo que o esperava junto da que fora a substância da sua
própria vida.
14
Depois da morte de Inês de Castro, D. Pedro não se casou outra vez. Teve,
apenas, de uma dama chamada Teresa Lourenço, um filho chamado João, mestre
de Avis, futuro D. João I, que inaugurará uma nova dinastia em Portugal. Por dez
anos reinou D. Pedro, sempre a andar pelo reino espalhando a justiça. Era juiz
inexorável castigando as mais diversas faltas. Obcecado pela justiça que não tarda
em aplicar, logo lhe vem o cognome de “Justiceiro, porque para nobres ou
13
LOPES, Fernão.
Crónica de D. Pedro I
. Porto: Livraria Civilização, 1963, p. 106-107.
14
DOMINGUES, Mário.
Inês de Castro na vida de D. Pedro
. 2. ed. Lisboa: Romano Torres.
1961. p. 333.
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plebeus, clérigos ou leigos, a justiça é igual. Suas sentenças inclementes valeram-
lhe o nome de “Pedro, o Cru. Reinava com absoluto poder, sabendo ouvir as
cortes. Deleitava-se nas caçadas, imaginava festas grandiosas. Punha-se
infindáveis vezes a chorar saudades de amor. Viva para o reino, pouco se
importando com políticas externas. Foi um rei amado pelo seu povo, capaz de
entender o coração do rei que viveu e sofreu pelo amor de Inês de Castro.
Amava muito de fazer justiça com direito. E assim como quem faz correição
andava pelo reino; e visitada uma parte não se esquecia de outra, em guisa que
poucas vezes acabava um mês em cada lugar de estada. Foi muito mantenedor de
suas leis e grande executor das sentenças julgadas; e trabalhava-se quanto podia de
as gentes não serem gastadas por azo de demandas e prolongados pleitos. E se a
escritura afirma que por o rei não fazer justiça vêm as tempestades e tribulações
sobre o povo, não se pode assim dizer deste, cá não achamos enquanto reinou que a
nenhum perdoasse morte de alguma pessoa nem que a merecesse por outra guisa,
nem lha mudasse em tal pena por que pudesse escapar a vida.
15
Morre, de forma quase repentina, aos quarenta e sete anos, a 18 de janeiro
de 1367, em Estremoz. e diziam as gentes, que taaes dez annos numca ouve em
Purtugal, como estes que reinara elRei Dom Pedro.
16
15
LOPES, Fernão. Crónica de D. Pedro I. Porto: Livraria Civilização, 1963, p. 46.
16
LOPES, Fernão. Crónica de D. Pedro I. Porto: Livraria Civilização, 1963, p. 202.
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3
A lenda se escorre a entrar na realidade
Noite de Saudade
A noite vem pousando devagar
Sobre a terra que inunda de amargura...
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura...
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu ouço a Noite imensa soluçar!
E eu ouço soluçar a Noite escura!
Porque és assim tão scura, assim tão triste?
É que talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu não sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!
(Florbela Espanca, Livro de mágoas)
Na reflexão que ora iniciamos pretendemos estabelecer a relação entre
Literatura, Imaginário e Cultura, buscando pensar a Saudade como um mito
cultural português. Trazendo à luz alguns aspectos literários, históricos e
filosóficos da Saudade e da sua relação com o imaginário português, nossa leitura
focalizará um dos mitos portugueses que mais freentemente surge como tema
literário: a trágica história de Pedro e Inês.
Gilbert Durand conceitua o imaginário como a faculdade de simbolizão
de onde todos os medos, todas as esperanças e seus frutos culturais jorram
continuamente desde os cerca de um milhão e meio de anos que o homo erectus
ficou em pé na face da Terra”.
17
Neste âmbito, entenderemos o conceito de
imaginário não simplesmente como usualmente é concebido – uma imaginação
criadora, sendo uma representação literária ou ficcional da realidade.
Partindo dessa reflexão, buscaremos uma aproximação entre Memória e
Saudade, principalmente no dito caso de que Inês de Castro e D. Pedro são
símbolos máximos. Muito nos servimos das divagações filológicas e literário-
históricas de Carolina Michaëlis de Vasconcelos nA saudade portuguesa e dos
17
DURAND, Gilbert. O Imaginário. 3. ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2004, p.117.
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30
ensaios de Eduardo Lourenço na
Mitologia da saudade
esta que tem sido
construída e reconstruída através do tempo, erguendo-se como uma espécie de
brasão da sensibilidade nacional".
É Lourenço quem interpreta a
saudade
como o maior dos ícones da cultura
de Portugal, estando, portanto, sempre presente na trama do imaginário português.
Chega, então, à conclusão de que o universo cultural lusitano arrasta há quatro
séculos uma existência crepuscular. Cabe lembrar que há dois crepúsculos: o da
tarde que anuncia a noite, o da manhã, que anuncia o sol. E nesse entre-lugar
nascem os mitos portugueses, repletos das sombras da noite, ansiosos por respirar
o ar da manhã. É o que passaremos a estudar.
3.1
Literatura, imaginário e cultura
Denis de Rougemont, em seu clássico estudo sobre as origens do amor
romântico na cultura ocidental, destaca que
O amor feliz não tem história. Só existem romances do amor mortal, ou seja, o
amor ameaçado e condenado pela própria vida. O que o lirismo ocidental exalta não
é o prazer dos sentidos nem a paz fecunda do par amoroso. É menos o amor
realizado do que a
paixão
de amor. E paixão significa sofrimento. Eis o fato
fundamental.
18
O amor de D. Pedro e Inês de Castro é o capítulo da História de Portugal
que surge com maior freência no âmbito literário, ultrapassando fronteiras
lingüísticas e culturais. Tamanha repercussão temática se deve, em grande parte, a
toda a força simlica que emerge do trágico episódio, concretização de um dos
mitos eternos da humanidade: o amor que resiste ao tempo e recusa a morte.. Daí
compreendermos que, passados 650 anos da morte de Inês de Castro, a trágica
história de que se tornou protagonista tem-se tornado fonte de inspiração para
diversas manifestações artísticas.
Afirma Maria Leonor Machado de Sousa que, através de um estudo
temático, é possível encontrar várias heroínas paralelas” a Inês de Castro, que
viveram episódios semelhantes em tragédia:
18
ROUGEMONT, Denis de.
História do Amor no Ocidente
. 2. ed. reform. São Paulo: Ediouro,
2003, p. 24.
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31
[...] é possível encontrar na história dos vários países europeus episódios que, nas
suas linhas gerais, se assemelham ao da crónica portuguesa, mais completos nos
elementos que o constituem o que justifica uma maior projeção internacional
mas nem por isso único nas suas implicações. Encarando as motivações que
levaram ao drama das mulheres cuja paixão amorosa por príncipes acarretou a sua
própria destruição, com resultados mais ou menos espetaculares, é possível
encontrar na história de muitos países talvez de todos figuras a que se pode
chamar heroínas paralelasda Inês de Castro galega que, pelas circunstâncias da
sua vida e morte, se tornou símbolo do amor português.
19
Nas
Adivinhas de Pedro e Inês
, romance em que muitos críticos situam entre
a História e a ficção, Agustina Bessa-Luís ratifica a difusão do tema inesiano pela
Europa, constatando que houve, também, um casal que viveu amor semelhante ao
de Pedro e Inês de Castro:
Também na Baviera houve um caso igual ao de Inês; o caso de Agnes Bernauer
que casou em segredo com o Duque Alberto III em 1432. Dois anos apenas durou
este idílio [...] O pai de Alberto acusou-a de feitiçaria e mandou que fosse afogada
no Danúbio, aproveitando a ausência do jovem Duque.
20
Unidas por um enredo trágico, estas duas heroínas paralelas Inês de
Castro e Agnes Bernauer em muito se aproximam daquelas heroínas advindas
das lendas. A história de Agnes da Baviera e do Duque Alberto III, porém, não
recebeu tecedura mítica como a tragédia de Inês e Pedro. É a constatação de que
é a História que transforma o real em discurso; é ela e só ela que comanda a vida
e a morte da linguagem mítica. Longínqua ou não, a mitologia só pode ter um
fundamento histórico, visto que o mito é a fala escolhida pela História.
21
A história cria estórias. É justamente essa interpenetração de discursos que
nos possibilita caminhar para um campo outro: o da mitologia. Para Roland
Barthes o mito é um sistema semiológico, não um sistema indutivo sendo,
portanto, um sistema de valores, não um sistema formal. Com isso, destaca que
[...] no mito existem dois sistemas semiológicos, um deles deslocado em relação ao
outro: um sistema linístico, a ngua (ou os modos de representação que lhe são
comparados), que chamarei de
linguagem-objeto
, porque é a linguagem de que o
mito se serve para construir o seu próprio sistema; e o próprio mito, que chamarei
de
metalinguagem
, porque é uma segunda língua,
na qual
se fala da primeira.
22
19
SOUSA, Maria Leonor Machado de.
Inês de Castro: um tema português na Europa
. Lisboa:
Edições 70, 1987, p. 457.
20
BESSA-LUÍS, Agustina.
Adivinhas de Pedro e Inês
. Lisboa: Guimarães, 1986, p.14.
21
BARTHES, Roland.
Mitologias
. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003, p.200.
22
BARTHES, Roland.
Mitologias
. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003, p.206.
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32
Tudo pode ser mito, desde que, para tanto, encerre uma linguagem
simlica. Há que se ter, porém, um uso social que se acrescenta à pura
matéria”
23
. Ou seja, até mesmo os fatos históricos podem constituir mitos, desde
que tenham uma importância moral e afetiva para a cultura em que se inserem. No
contexto português, a História e a Literatura estão intimamente ligadas. As
fronteiras entre ambos os campos discursivos o histórico e o literário – são
muito tênues. O discurso literário tende a penetrar em campos outros, os quais não
lhe pertencem. Investe em outros discursos.
Carolina Michaëlis de Vasconcelos
24
, ao discutir alguns aspectos, segundo
perspectivas histórico-culturais que envolvem a tradição inesiana, estabelece, no
23
BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003, p.206.
24
Cf. VASCONCELOS, Carolina Michaëlis. A saudade portuguesa. Lisboa: Guimarães, 1996, 13-
14.
Nestas páginas, diz a filóloga:
Com respeito aos dramas de Inês, considero como tradição histórica não só o amor de perdição do
herdeiro da coroa e o seu desenlace sangrento; mas também os seus reflexos de além-tumba. Isto é
o iníquo intercâmbio dos executores portugueses da ordem régia contra expatriados castelhanos, e
à tremenda vingança neles realizada. Chamo histórico também, tanto o cortejo fúnebre imponente
de Coimbra a Alcobaça, como o juramento solene, ou sacro perjúrio, enunciado pelo filho de
Afonso IV, depois de entronado, com relação ao seu casamento clandestino; e a configuração de
Inês, na estátua sepulcral jazente, com coroa de rainha. Três actos consecutivos, intimamente
ligados entre si e com o quarto e último: o da vingança tomada nos algozes. Actos cujo conjunto
é único na historia de todas as nões, e bem merece a fórmula de “grande desvairo, cunhada por
Fernão Lopes.
São os fatos, numa palavra, narrados com eloqüência, mas sem exageros por esse patriarca dos
historiadores portugueses que, pela sua vez, se baseia em escritores mais antigos e em documentos
coevos.
A narrão dele tem, portanto, fundamento sobre a verdade, mesmo se a tradição popular houver
começado, quer na vida de Inês, quer na noite do seu enterro, a envolver os factos no seu manto
diáfano.
Fabulosa, fantasiosa é, pelo contrário, dramática fusão e transformação dos três actos fúnebres,
distanciados na realidade, em um só verdadeiramente lúgubre: a coroação do cadáver que fora
exumado. Seis anos após o prematuro fim da mísera e mesquinha
que depois de ser morta, foi rainha!
die nach dem Tod als Köngin trug die Krone.
Transformão de resto quasi inevitável, e de tal intensidade poética que foi sobretudo ela que se
vulgarizou dentro e fora do país, e inspirou poetas e pintores.
Fantasiosa também, mas sem tanto alcance, embora muito mais bela, é a lenda: que Pedro mandara
colocar o túmulo de Inês, não junto ao seu, lado a lado, no cruzeiro de Alcobaça, como realmente
fizera, mas pés contra pés, para que no momento de acordarem ao som da trombeta do Juízo Final,
ambos pudessem, mais uma vez, confundir os seus olhos: os pretos de azeviche do moreno
justiceiro com os verde-claros da loira amada, por cuja tez branca corria o sangue azul, gótico, de
d. Guterre, tronco dos Castros.
Fábula é grande parte do que se conta da Quinta das Lágrimas, da Fonte dos Amores, e dos canos
de água que levavam a correspondência dos dois amantes, tal qual séculos antes, na Bretanha
ltica, as missivas de Tristão e Isolda.
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33
seu texto, uma distinção entre o que chamou tradição histórica com fundamento
sobre a verdade” e a fábulaou fantasia, ressaltando que neste trágico episódio
ambos tendem a se confundir. Os fatos envolvem-se no "manto diáfano" da
fantasia. Esta se transubstancia em fatos. É a arte literária penetrando o discurso
histórico.
Dessa imbricada relação entre os planos do real e do mitológico, certo é o
desenlace sangrento dos amores de Inês e Pedro e todo o eco de além-tumba;
toma-se como fato o grande desvario do Infante, que levantou um exército contra
o próprio pai, e viu-se apenas satisfeito quando, já rei de Portugal, saciou sua sede
de vingança ao ordenar a execução dos cruéis assassinos de sua amada, a um
mandando arrancar o coração pelo peito, ao outro pelas espáduas; evento histórico
e ímpar é a trasladão do corpo de Inês de Castro do mosteiro de Santa Clara, em
Coimbra, até ao de Alcobaça, em um cortejo fúnebre como igual nunca mais
houve em Portugal.
A par dos fatos, surgiram lendas nas quais pormenores infundados foram
incluídos. Diz-se que D. Pedro teria coroado a amada e feito com que todos os
nobres se ajoelhassem e lhe beijassem a mão, seis anos após a sua morte. Lenda
demasiado romântica e, mais ainda, inverossímil para se crer como verdade.
Além do mais, as crônicas não deixariam passar despercebida uma cerimônia tão
espantosa. Uma outra lenda, em tudo bela: a de que D. Pedro mandara pôr o seu
túmulo não ao lado do de Inês, no cruzeiro de Alcobaça, mas pés contra pés, para
que, ao soarem as trombetas do Juízo Final, seus olhos se pudessem, mais uma
vez, encontrar.
Muito esclarecedor é o texto de Antero de Figueiredo que, com extremo
cuidado, pauta seus argumentos em textos considerados coevos. Diz-nos o autor
que:
Os túmulos de D. Pedro e D. Inês de Castro estão numa pequena e sombria capela
gótica feita no século XVII, no lado baixo do braço direito da cruz formada pela
nave principal, capela-mor e arco cruzeiro, da igreja de Alcobaça. Estão próximos,
pés com pés posição que criou a lenda de que fôra D. Pedro que
propositadamente os colocara assim para que, no Dia do Juízo, ao levantarem-se os
corpos nas sepulturas, os dois amantes dessem logo com os olhos um no outro. É
mais uma bela lenda...[...] Aí estariam os túmulos até princípios do século XIX,
quando uma dolorosa circunstância os frades a mudarem-nos para a capela, onde
hoje estão: o vandalismo da soldadesca francesa do exército de Masena, em 1810.
Estando os túmulos a par um do outro, D. Pedro dando a esquerda a D. Inês, os
soldados arrombaram-nos por onde melhor podiam: pelo lado de f ora e pelos
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pés. Depois, tapados pelos frades, a pedra e cal, os grandes rombos, impunha-se
esconder êsses destroços, e isto só se podia conseguir virando os sarcófagos para
uma parede, ou, melhor, colocando-os ao fundo da sombria capela em que estão,
com os consertos voltados para a parede, de maneira que quem entrasse não via
esses formidáveis estragos. Daqui resultou ficarem os túmulos pés com pés.
25
O episódio de Inês de Castro tem sido um desses não raros momentos em
que o mito – no dizer de Fernando Pessoa, o nada que é tudo assume ares de
fato. Destaca-se, quanto a isso, uma importante razão: o da imprecisão – ou
precariedade dos registros históricos. Sob o olhar historiográfico pouco se pode
precisar. Parece, aliás, tratar-se de uma história que escapa às abordagens da
História. Muitos historiadores, inclusive, tentaram desmistificar, sob a luz da
interpretação política, os amores de Pedro e Inês. A fria leitura, porém, é sempre
desafiada por algo que parece mais forte, mais verdadeiro, sobrepondo-se a tudo o
mais: a força poética que a tradição atribui a este triste episódio.
Conforme destaca Maria Leonor Machado de Sousa:
A personalidade de Inês é-nos totalmente desconhecida. De razões que
justificassem a louca paixão que inspirou só conhecemos uma beleza que parece
dever considerar-se incontestável. Para além dela, é tão verosímil a rapariga frágil e
ingénua que se perdeu por amor como a intriguista artificiosa e cheia de ambição
que alguns historiadores nela quiseram ver, a vítima dócil de um decreto inabalável
ou a mulher segura de si e do seu direito de viver, que lutou até ao fim contra o
destino e uma vontade prepotente. Pelos tempos fora, vários autores tentaram dar
carácter e vida à personagem cujo único retrato é a sua estátua jacente, que
transmitiu um sorriso ingénuo e meigo, mas nada ficou na História que legitime
qualquer dessas criações. De facto, Inês de Castro é uma figura que só chegou até
nós em atitudes passivas: foi trazida no séquito de uma princesa, foi exilada por um
rei, mandada regressar por um príncipe e por ele aposentada sucessivamente em
diversas povoações, onde a tradição quase nada fixou, até ser morta por razão de
uma vaga desconfiança política que a argumentação histórica muitas vezes tem
posto em causa. A entrevista com o Rei, que poetas e cronistas relataram e que
teria sido a sua primeira e última iniciativa, parece a alguns comentadores não ser
logicamente admissível: não se enquadraria no processo legal e do protocolo d a
época, nem tão-pouco a justificariam as relações entre Inês e a Corte, de que ela
vivia anos afastada. No entanto, o peso das fontes documentais que apoiam a sua
veracidade não pode ser facilmente contestado.
26
É a partir dos fatos obscuros a personalidade de Inês, a existência ou não
de casamento entre Inês e Pedro, a ocorrência de um julgamento que a levou à
25
FIGUEIREDO, Antero de. D. Pedro e D. Inês: o grande desvayro. Lisboa: Bertrand, 1917. p.
277-279.
26
SOUSA, Maria Leonor Machado de. Inês de Castro: um tema português na Europa. Lisboa:
Edições 70, 1987, p. 11.
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morte (execução ou assassínio?), apenas para citar alguns que as expressões
artísticas, no nosso presente estudo, a Literatura, especificamente, procuram
preencher as lacunas deixadas pela História. Ou melhor, é a partir das brumas
históricas que a Literatura revitalizará, no contexto ficcional, a História.
Caminhando pelos territórios do mito e de suas fiões, destaca Claude
Lévi-Strauss, a respeito da mitificão de fatos históricos, que o caráter aberto da
História está assegurado pelas inumeráveis maneiras de compor e recompor as
células mitológicas ou as células explicativas que eram originariamente
mitológicas
27
. O mito de Inês de Castro, que bem ilustra a retomada das
células
mitológicas
de que fala Lévi-Strauss, tem servido como um mote para recuperar o
passado histórico português.
Deve-se a Fernão Lopes muito do que hoje se sabe sobre certos pormenores
da Idade Média portuguesa. Enquanto reinava D. João I, em 1418, o Infante D.
Duarte encarregado do conselho, justiça e da fazenda nomeia-o guarda das
escriturasda Torre do Tombo, o Arquivo Nacional português. Quando, em 1434,
D. Duarte sucede a seu pai, incumbe Fernão Lopes de poer em caronica” a vida
dos reis de Portugal, do Fundador D. Henrique até a D. João I.
Apenas tem-se nocia de três desses textos:
Crónica de D. Pedro
,
Crónica
de D. Fernando
,
Crónica de D. Jo
. Buscando escrever verdade, sem outra
misturapode-se dizer que o cronista se destaca como o primeiro historiador
português.
28
É na sua
Crónica de D. Pedro
que se encontra uma das primeiras referências
ao drama de Inês de Castro. Concentrando a atenção na figura do rei, dedica parte
27
LÉVI-STRAUSS, Claude.
Mito e Significado
. Lisboa: Edições 70, 1987, p.60.
28
Ainda que muito se diga em contrário, concordamos com António José Saraiva e Óscar Lopes:
Como guarda-mor da Torre do Tombo, Fernão Lopes tinha ao seu alcance os arquivos do Estado,
circunstância de que soube fazer uso, transcrevendo, resumindo e aproveitando a correspondência
diplomática, os diplomas legais, os capítulos da Cortes, e outra documentação, que ainda
enriqueceu examinando, fora da Torre do Tombo, os cartórios das igrejas e lápides de sepulturas.
Com este material foi-lhe possível fazer a crítica e a correção de memórias existentes, segundo um
método que se assemelha ao de dois ou três séculos mais tarde. Sempre que uma tradição ou uma
memória é desmentida pelos documentos, Fernão Lopes rejeita-a; e, avançando nesse caminho,
declara submeter a uma revisão metódica todos os relatos que lhe chagavam às mãos, notando as
suas contradições e inverosimilhanças, e decidindo-se, à falta de documento, pela versão que julga
mais chegada à razão. Até hoje não foi possível desmentir, em nada de importante, a informação
desta obra sob o ponto de vista documental, e as polémicas que se travaram sobre o valor histórico
de Fernão Lopes, quando acusado de denegrir a figura de D. Pedro ou de caluniar os inimigos de
D. João I, nomeadamente D. Leonor Teles, só têm levado a confirmar o escrúpulo do cronista de
se estribar em documentos autênticos, embora sem as transcrições explícitas que apenas
principiarão a impor-se dois séculos mais tarde”. (Cf. SARAIVA, António José; LOPES, Óscar.
História da Literatura Portuguesa
. 17. ed. Porto: Porto Editora, 1996, p.124)
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da crônica a relatar o grande desvayrode D. Pedro. Consciente do poder
discursivo de que é dotado, Fernão Lopes glorifica o amor de Inês e Pedro,
ressaltando as atitudes deste rei quando, na morte da amada, busca preservar a
sua memória.
[...] semelhante amor, qual elRei Dom Pedro ouve a Dona Enes, raramente he
achado em alguuma pessoa, porem disserom os antiigos que nenhuum he tam
verdadeiramente achado, como aquel cuja morte nom tira da memoria o gramde
espaço do tempo. E se alguum disser que muitos forom ja que tanto e mais que el
amarom, assi como Adriana e Dido, e outras que nom nomeamos, segumdo se lee
em suas epistolas, respomdesse que nom fallamos em amores compostos, os quaaes
alguuns autores abastados de eloquemcia, e floreçentes em bem ditar, hordenarom
segumdo lhes prougue, dizemdo em nome de taaes pessoas, razoões que numca
nenhuuma dellas cuidou; mas fallamos daquelles amores que se contam e leem nas
estorias, que seu fumdamento teem sobre verdade.
29
Estão aí as primeiras sementes para a criação de algo que ainda estava por se
definir, mas que emerge com qualquer coisa de grandioso e de incomum. Fernão
Lopes recorre à mitologia para descrever a intensidade do amor que une Pedro a
Inês de Castro. Para tanto, toma como referência a comparação com duas
personagens-símbolo do amor infeliz: Ariadne e Dido. Parece haver uma
afinidade entre Pedro e ambas. Se elas se entregaram a um amor que ameaçava o
equibrio entre o desejo individual e o coletivo, Pedro também o fez, quando
renuncia a tudo o mais pela mulher amada.
Fernão Lopes preocupa-se em criar uma imagem do amor de Pedro e Inês
que contenha marcas precisas da natureza desse sentimento. Evoca, pois, a
memória, esta força da vitória sobre o tempo, como prova da permanência e
veracidade do amor. Atesta o cronista que nenhum [amor] é tão verdadeiramente
achado como aquele cuja morte não tira da memória o grande espo de tempo.
É, afinal, uma crença na eternidade. A morte não é um fim definitivo. Ao
contrário, ela é a força vital desse amor, deste “verdadeiro amor [que] houve el-
Rei D. Pedro a D. Inês.
O tema dos amores de Pedro e Inês, uma vez iniciado nas páginas de Fernão
Lopes, encontrou eco em diversas épocas e nas mais variadas expressões de Arte.
Seja em Portugal, em seu vizinho Ibérico ou, mais amplamente, na Europa, a
lenda nascida dos elementos históricos ganha projeção artística. Do que até
29
LOPES, Fernão. Crónica de D. Pedro I. Porto: Livraria Civilização, 1963, p.199-200.
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então se tem notícia, é Garcia de Resende em suas
Trovas à morte de D. Inês de
Castro
que faz estrear um tema que haveria de encontrar continuidade na
Visão
de
Anrique da Mota. Ambas as obras marcaram uma primeira representação na
Literatura Portuguesa: as
Trovas
de Resende, escritas em décimas de redondilha
maior, são o primeiro monólogo biográfico. Anrique da Mota mescla trechos em
prosa-poética descrevendo a fantástica viagem do autor, cujo cavalo o levou a
um mundo em que lhe foi permitido ver a tragédia de Inês , e trechos em verso –
declarões de Pedro e Inês de Castro. Além disso, a
Visão
“apresenta um quadro
bucólico que, a partir de Camões, ficaria indissoluvelmente ligado à história de
Inês: as flores e a água, que em
Os Lusíadas
seriam as ervinhase as boninas
dos saudosos campos do Mondego, e a Fonte dos Amores.
30
Foi justamente com Camões, n
Os Lusíadas
, que o episódio atingiu a maior
potencialidade rica. A tal ponto que nós, leitores, esquecemos tratar-se da voz de
Vasco da Gama a contar ao rei de Melinde a História de Portugal. Em 1587
publica-se a pa de António Ferreira,
Castro
, obra de força dramática e
psicológica, que dá grande vazão às razões de Estado. Além disso, desponta como
a primeira tragédia clássica de Língua Portuguesa e, transcendendo os marcos
histórico-literários, é a primeira tragédia européia escrita sobre um tema moderno.
Como sucesso internacional, vale destacar, na Espanha, Jerónimo Bermudez
com
Nise lastimosa
(1571) uma releitura da
Castro
de Ferreira e
Nise
laureada
(1577), cujo tema é a vingança que D. Pedro, sendo rei, tomou dos
assassinos da sua amada e a coroação do cadáver de Inês. Destacam-se também
Luis Vélez de Guevara com
Reinar después de morir
(1625) e Lope de Vega e seu
drama
Doña Ynes de Catro
(1618). Contemporaneamente, Alejandro Casona
escreveu
Corona de amor y muerte
. Na Literatura Francesa encontramos Antonine
Houdar de la Motte com
Inés de Castro
(1723) e Henry de Montherlant com
La
Reine morte
(1942). Na Itália, somam-se mais de 120 composições ricas em
torno dos amores de Pedro e Inês de Castro. A Literatura Brasileira também
encontrou motivo poético no drama de Inês de Castro. Deixemos, porém, a leitura
para mais adiante, no momento oportuno.
Importa-nos, por hora, entender a importância do tema inesiano no
imaginário português e os sentidos de seu sucesso internacional. Importa-nos
30
SOUSA, Maria Leonor Machado de.
Inês de Castro na Literatura Portuguesa
. Lisboa:
Biblioteca Breve, 1984, p.10.
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entender de que forma os versos de Fernando Pessoa vêm para constatar uma
verdade: “a lenda se escorre / a entrar na realidade. Como mitos da cultura
portuguesa, têm ampla projeção além-fronteiras
Não nos deixa iludir o fato de que, passados 650 anos da morte de Inês de
Castro, a tragédia de amor da qual foi protagonista tenha despertado interesse de
artistas e historiadores de outrora e de agora. A história de Pedro e Inês os
amores e as lágrimas é a celebração e a reabilitação do amor que, acima de tudo
humano, está para além dos tempos. Até ao fim do mundo.
3.2
Portugal: Memória e Saudade
Cantada, sentida e evocada desde sempre, a saudade, como tema literário,
nasce nos berços dos cantares damigo. Ressalta o crítico Eduardo Lourenço que
antes de se tornar no mito que já não a deixa pensar e a configura num papel
hagiográfico-patriótico, a saudade não foi mais que a expressão do excesso de
amor em relação a tudo o que merece ser amado.
31
A cantiga “Ay eu, coitada, como vivo Edição fac-similada do
Cancioneiro Colocci-Brancuti
, n.º 456 – de D. Sancho o Velho, é um dos mais
belos lamentos de amor na ausência. Um drama íntimo que nos reporta aos
tempos do alvorecer da poesia”. Seu autor desenvolve o tema da saudade nas
suas duas componentes principais: o cuidado e o desejo. Curiosamente, em
nenhum momento a palavra
saudade
é dita. São ditos, porém, os seus
significados. Saudade é desejo de regresso do ser amado. É esperar, é esperança,
portanto. Um lento morrer de amor:
Ay eu, coitada, como vivo
En gran cuydado por meu amigo
Que ey alongado! Muyto me tarda
O meu amigo na Guarda!
Ay eu, coitada, como vivo
En gran desejo, por meu amigo
Que tarda e non vejo! Muyto me tarda
O meu amigo na Guarda!
31
LOURENÇO, Eduardo.
Mitologia da Saudade seguido de Portugal como Destino
. São Paulo:
Companhia das Letras, 1999, p. 13.
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39
Durante o tempo em que vigorou o Humanismo em Portugal, desenvolveu-
se a chamada
Prosa doutrinária
, cujo objetivo era o de possibilitar aos nobres
uma formação íntegra, seguindo discussões morais, religiosas, políticas e
psicológicas. Dessa época, destacamos o
Leal Conselheiro
, de D. Duarte, obra
compilada em 1437 ou 1438. Tratando-se de um escrito moral em que o rei
apresenta suas considerões pautadas em experiências pessoais e em observações
diretas dos fatos, expondo uma teoria psicológica de inspiração tomista, segundo
a qual a vontade inteligente predomina sobre outras faculdades da alma, seguida
de um tratado sobre as virtudes e de outro sobre os pecados.
32
No Cap. XXV do
Leal Conselheiro
, o rei descreve o nojo, o pesar, o
desprazer, o avorrecimento e a suidade. Foi D. Duarte o primeiro que, na
Literatura Portuguesa, tenta definir a saudade como expressão de um sentimento
contraditório e pretende fazer essa palavra intraduzível noutras línguas
33
. É o que
podemos observar na seguinte passagem:
E a suidade não descende de cada uma destas partes, mas é um sentido do coração
que vem da sensualidade, e não da razão, e faz às vezes sentir os sentidos da
tristeza e do nojo.
E outros vêm daquelas cousas que a homem praz que sejam, e alguns com tal
lembrança que traz prazer e não pena. E em casos certos se mistura com tão grande
nojo, que faz ficar em tristeza.
34
Para D. Duarte, a saudade pode ter um caráter negativo, quando feita da
tristeza e do nojo, ou um caráter positivo, quando composta “daquelas cousas
que o homem praz que sejam. Foi também este monarca português o primeiro a
entender o vobulo saudadecomo intraduzível em qualquer outra língua.
Teoria que, embora muito repetida, hoje sabemos ser equivocada, como ressalta a
ilustre Carolina Michlis de Vasconcelos, em sua pesquisa sobre a
saudade
como
tema literário em Portugal:
É inexacta a ideia que outras nações desconheçam esse sentimento. Ilusória é a
afirmação (já quase quatro vezes secular), que mesmo o vocábulo Saúdade
32
SARAIVA, António José; LOPES, Óscar.
História da Literatura Portuguesa
. 17. ed. Porto:
Porto Editora, 1996, p.112.
33
SARAIVA, António José; LOPES, Óscar.
História da Literatura Portuguesa
. 17. ed. Porto:
Porto Editora, 1996, p.113.
34
DUARTE. "Do nojo, pesar, desprazer, avorrecimento e suidade". In. BOTELHO, Afonso;
TEIXEIRA, António Braz. Filosofia da Saudade. Vila da Maia: Imprensa Nacional-Casa da
Moeda, 1986, p.14.
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40
mavioso nome que tão meigo soa nos lusitanos labios não seja sabido dos
Bárbaros estrangeiros (estrangeiro e bárbaro são sinónimos), não tenha equivalente
em língua alguma do globo terráqueo e distinga unicamente a faixa atlântica,
faltando mesmo na Galiza e além-Minho.
35
Adiante, a filóloga continua seu estudo ressaltando um outro aspecto: o
chamado
morrer de amor
. Nestes termos, destaca:
A saudade e o
morrer de amor
(outra face do mesmo prisma de terna afectividade e
da mesma resignação apaixonada) são realmente as sensações que vibram nas
melhores obras da literatura portuguesa, naquelas que lhe dão nome e renome. Elas
perfumam o meio livro de Bernardim Ribeiro e os livros que estilisticamente
derivam dele, como a
Constelação de Israel
de Samuel Usque, e as
Saudades da
Terra
de Gaspar Frutuoso. Perfumam as
Rimas
de Camões e os episódios e as
prosopopéias dos
Lusíadas
. Perfumam as
Cartas da Religiosa Portuguesa
e as
criações mais humanas de Alemeida Garrett, a Joaninha dos olhos verdes e as
figuras todas de
Frei Luís de Sousa
. Não faltam no cancioneiro do povo; nem já
faltavam, na sua face arcaica, nos reflexos cultos da musa popular que possuímos,
isto é nos cantares de amor e de amigo dos trovadores galego-portugueses, no
período que se prolongou até os dias de Pedro e Inês.
36
Foi justamente no episódio de Inês de Castro que a Literatura encontrou a
saudade
como mito cultural. É pela saudade que se evoca a memória de figuras
míticas como imagens identitárias da cultura nacional. Daí convivem no
imaginário português as imagens do país senhor dos mares; do sonho profético e
messiânico de um país predestinadamente colonizador e oniricamente imperial;
de D. Sebastião, desaparecido em Alcácer-Quibir e esperado como aquele que
reerguerá o reino português; de Camões, como grande herói do povo lusitano e
por que não? de Inês de Castro, mitos que fazem da saudade o seu galardão.
Pedro e Inês de Castro constituem, pois, um dos grandes mitos da cultura
portuguesa. Integram o imaginário português como símbolos do amor que se
concretiza na saudade, a partir da morte daquela que poetas e trovadores
cognominaram colo de garça. A figura trágica de Inês de Castro personagem
histórica ou aquela que é “pintadapelos artistas é a assunção e materialização
desse sentimento que caracteriza o povo português. Foi necessária a morte para
que algo maior que a vida pudesse nascer: a saudade como mito.
Dalila Pereira da Costa vê no sentimento gerado do episódio inesiano a
manifestação de uma história pátria, que traz à luz a saudade como condição
35
VASCONCELOS, Carolina Michaëlis.
A saudade portuguesa
. Lisboa: Guimarães, 1996, p.31.
36
VASCONCELOS, Carolina Michaëlis.
A saudade portuguesa
. Lisboa: Guimarães, 1996, p.33.
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dramática da existência e, ao mesmo tempo, redentora. É um conhecimento de
experiência feito, nas palavras da autora:
No amor, dois amantes ultrapassarão a vida limitada de seus anos terrestres e a
levarão até à consumação do tempo, como eternidade: como limite máximo do
mundo e vida. No conhecimento, um povo rebentará nos limites dum século da sua
história (e cada um dos seus homens nos limites da sua vida própria) os limites
postos ao mundo conhecido, como Terra, abraçando-a circularmente, desvendando-
a e possuindo-a num enlace e súbita iluminação, total. Na sua história, mas nela
carnalmente, dramaticamente, por cada vida dum desses homens e todos juntos e
unidamente, então rebentando o que surge como o possível concedido à força
humana.
Será essa exigência última, a um tempo existencial e cognitiva, porque sempre do
saber como vivência, o impossível sendo a dimensão da tensão que se põe no arco
para o desfecho da seta , o que informa a história pátria: como existência terrestre
dum ser coletivo.
Um caminhante em passagem aqui sobre a terra, ser finito e em trânsito, mas que
para ela, sobre ela, trouxe uma medida do céu, como medida sem medida a que
humanamente se chama o impossível.
37
É verdade que muito antes, na Literatura Portuguesa, houve D. Denis e os
cantares damigo, D. Sancho e o gran cuidado, D. Duarte e toda a concepção da
idéia de
saudade
; a lírica camoniana e toda a presença desse sentimento que é co-
irmão do amor; o mito sebastianista e o tão desejado regresso de um rei. E muitos
outros, que aqui não nomeamos. Parece-nos, afinal, que é nos amores de Pedro e
Inês que a Saudade emerge como algo além de um sentimento nacional: um
sentimento vital.
Mostramo-nos tributários da configuração da Saudade tal como é postulada
por Teixeira de Pascoaes, formulação, aliás, que muito interessa para nossa
discussão:
Saudade é o desejo da Cousa ou Criatura amada, tornado dolorido pela ausência.
O Desejo e a Dor fundidos num sentimento dão a saudade.
Mas a Dor espiritualiza o Desejo, e o Desejo por sua vez materializa a Dor. O
Desejo e a Dor penetram-se mutuamente, animados da mesma força vital e
precipitam-se depois num sentimento novo, que é a Saudade.
38
A saudade, para Pascoaes, atinge uma dimensão ontológica e metafísica.
Este amálgama de Dor e Desejo confere ao homem a consciência de finitude, de
imperfeição e de insuficiência. Como experiência individual e coletiva, a saudade
37
COSTA, Dalila L. Pereira da. Saudade: unidade perdida, unidade reencontrada. In.
Introdução
á Saudade
. Porto: Lello & Irmão, 1976, p.97.
38
PASCOAES, Teixeira de.
A saudade e o saudosismo
. Lisboa: Assírio e Alvim, 1988. p. 47.
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42
é uma forma de conhecimento-vivência do povo português, sendo uma maneira de
recuperação, de resgate de um passado histórico glorioso ou suficientemente
trágico que se converterá em objeto estético, cuja importância é, ao mesmo tempo,
moral e afetiva para a nação.
Questões como identidade cultural, alma nacional, sentimento
português, têm sido, por vezes, postas em xeque, por serem consideradas
discussões que se pautam em visões de mundo demasiado marcadas
historicamente. A verdade, parece-nos, é que a Saudade se instaura como
elemento da mitologia nacional lusíada. Para Eduardo Lourenço, habitados a tal
ponto pela saudade, os portugueses renunciaram a defini-la. Da saudade fizeram
uma espécie de enigma, essência do seu sentimento da existência, a ponto de a
transformarem num
mito
.
39
A Saudade é, portanto, uma palavra-mitodo povo
português, uma espécie de brasão da sensibilidade nacional, sendo uma forma
de reescritura da nacionalidade portuguesa.
Ainda, segundo o ensaísta, a saudade tanto quanto a nostalgia e a
melancolia configura-se como um modo de
ser
e de
interpretar
o mundo.
A melancolia visa o passado como definitivamente passado e, a esse título, é a
primeira e mais aguda expressão da temporalidade, aquela que a lírica universal
jamais se cansará de evocar. A nostalgia fixa-se num passado determinado, num
lugar, num momento, objetos de desejo fora do nosso alcance, mas ainda real ou
imaginariamente recuperável. A saudade participa de uma e de outra, mas de uma
maneira tão paradoxal, tão estranha como é estranha e paradoxal a relação dos
portugueses com o seutempo que, com razão, se tornou num labirinto e num
enigma para aqueles que a experimentam como o mais misterioso e o mais
precioso dos sentimentos.
40
Seja a partir de um estudo lingüístico, psicológico, mítico, teológico ou
histórico, a saudade parece querer significar sempre uma recordação de coisas ou
pessoas distantes, que vem acompanhada de uma ânsia de tornar a vê-las ou de
possuí-las. A saudade é, outrossim, uma espécie de presença na solidão de si
mesmo. Iluminação e ilusão, encontro e separação. É epifania, revelação da
essência do homem e do mundo. É a mediadora entre passado e futuro, terra e u,
39
LOURENÇO, Eduardo.
Mitologia da Saudade seguido de Portugal como Destino
. São Paulo:
Companhia das Letras, 1999, p. 31.
40
LOURENÇO, Eduardo.
Mitologia da Saudade seguido de Portugal como Destino
. São Paulo:
Companhia das Letra s, 1999, p. 13.
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43
morte e vida, homem e Deus. Mágoa cheia de luto, é capaz de unir pela dor da
separação. Presença de uma ausência, é o elo inefável entre o eu e o outro.
Almeida Garrett, belissimamente a define nos versos de
Camões
, nestes
termos:
Saudade! gosto amargo de infelizes
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o íntimo peito
Com dor que os seios dalma dilacera.
Mas dor que tem prazeres Saüdade!
Misterioso men que aviventas
Corações que estalaram, e gotejam
Não já sangue de vida, mas delgado
Soro de estanques lágrimas Saudade!
Mavioso nome que tão meigo soas
Nos lusitanos lábios, não sabido
Das orgulhosas bocas dos Sicambros
Destas alheias terras Oh Saudade!
41
A alma portuguesa é feita de Saudade. Espera-se pelo dia do Nevoeiro,
depois do qual haverá de reinar novamente a glória do Portugal dos
Descobrimentos. Espera-se pelo fim do mundo, dia em que D. Pedro e Inês de
Castro haverão de se levantar dos seus túmulos e cumprir a profecia de amor e
saudade. A alma portuguesa é feita de sonhos, exprimindo o passado que foi e o
futuro que nunca será. Paradoxo sem o qual a alma portuguesa não seria
portuguesa. Por isso, olha-se para trás. Porque recordar é trazer ao coração. Este
que é o
locus nascendi
da esperança de uma Não.
Como não poderia deixar de ser, a temática da saudade penetra a música
portuguesa. Conhecida é a canção
Coimbra
, composição de Raul Ferrão e letra de
José Galhardo. Trata-se, aliás, de uma das canções portuguesas mais cantadas e é
a mais traduzida, viajando com o nome de
Avril au Portugal
Abril em Portugal
.
Coimbra do Choupal
ainda és capital
Do amor em Portugal, ainda...
Coimbra onde uma vez
Com lágrimas se fez
A história dessa Inês, tão linda
Coimbra das canções
Tão meigas que nos pões
41
GARRETT, Almeida.
Camões
. Lisboa: Livreria Popular Francisco Franco, 1946, p.1-2.
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44
Os nossos corações à luz
Coimbra dos doutores
Pra nós os seus cantores
A fonte dos amores és tu
Coimbra é uma lição de sonho e tradição
O lente é uma canção e a lua a faculdade
O livro é uma mulher só passa quem souber
E aprende-se a dizer saudade
42
Tão bela quanto
Coimbra
é a
Formosa Inês
, com letra de Rosa Lobato de
Faria, para música de Mário Pacheco. Canção, aliás, profundamente rica, no
sentido mais profundo de lirismo, em que está presente boa parte dos fatos que
envolvem os amores de Pedro e Inês: a razão de Estado, a tragédia, o desvario do
Rei, a trasladação, a coroação de Inês como Rainha:
Antiga como a sina dos amantes
A audácia de morder o infinito
Acesa pelas noites delirantes
Paixão que se fez lenda e se fez mito
Depois foram razões que o Reino tece
Foi o dia mais triste, o mais maldito
A espada ao alto erguida e foi a prece
Amor desfeito em sangue... e foi o grito
D. Pedro desvairado brada e clama
Leva de terra em terra a sua amada
Não tem morada certa pois quem ama
Saudade tem por única morada
Da morta fez rainha porque é louco
Porque é amante e rei e português
E eu que te cantei e sou tão pouco
Também te beijo a mão, formosa Inês
43
42
José Galhardo para música de Raul Ferrão. A canção foi ouvida pela primeira vez no filme
Capas negras
(1947). Cf. SOUSA, Maria leonor Machado de.
Inês de Castro: um tema português
na Europa
. Lisboa: Edições 70, 1987, p. 421.
43
Rosa Lobato de Faria, para música de Mário Pacheco. Paulo Bragança no disco Notas sobre a
alma, 1992.
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45
Inês e Pedro, evocados do coração do tempo como elementos da memória
nacional portuguesa, permanecem mais que mitos enigmas de uma forma de
pensar a existência. Alfa e Ômega, vive este amor para além dos tempos.
Nascidos da Saudade, Inês e Pedro são eternos.
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4
Estavas, linda Inês...
Cantiga, partindo-se
Senhora, partem tam tristes
meus olhos por s, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenh
Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora desperar bem
que nunca tam tristes vistes
outros nenh por ninguem.
(Joam Rodriguez de Castel Branco)
O tema dos amores de Pedro e Inês tornou-se matéria essencialmente
poética, exprimindo-se sobretudo em poesia e marcando liricamente o teatro e a
ficção romanesca. Maria Leonor Machado de Sousa destaca que “excepto no
teatro do século XVIII, a tradição portuguesa manteve-se fiel à crónica do século
XV, rejeitando influências estrangeiras fantasiosas ou francamente erradas do
ponto de vista histórico
44
.
Iniciaremos esta última parte do nosso estudo com a leitura de alguns dos
mais representativos textos da Lírica Portuguesa do século XX, não sem antes nos
determos em dois autores cuja interpretação desta parte da História de Portugal
em muito influenciou e influencia os textos poéticos inesianos. Garcia de
Resende foi o primeiro a encontrar no episódio de Inês de Castro matéria poética,
de que Camões foi a grande voz lírica. A partir d
Os Lusíadas
,
expressões como
mísera e mesquinha, linda Inês, passaram a integrar o vocabulário inesiano.
Passando só pelas cumeeiras, a partir de Garcia de Resende, e detendo-nos
em Camões sobretudo, chegamos à contemporaneidade, verificando que todas as
épocas encontraram interesse no episódio. Buscaremos caminhos de leitura para
alguns destes poemas, recolhidos quase em sua totalidade da
Antologia Poética
Inês de Castro
,
para que sobre eles possamos tecer comentários. Privilegiaremos
44
SOUSA, Maria Leonor Machado de. Inês de Castro na literatura portuguesa. Lisboa: Instituto
de Cultura e Língua Portuguesa, 1984, p.126.
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47
alguns dos contemporâneos privilegiando aqueles textos que passam pelo
ideário da
saudade
, passando pelo poeta árcade e muitas vezes (ultra)romântico,
Manuel Maria Barbosa du Bocage, de quem destacamos duas versões poéticas: a
“cantata à morte de D. Inês de Castro" e o soneto À lamentável catástrofe de Inês
de Castro.
No tópico seguinte, tomando por mote o pensamento de que “Portugal é
uma fonte de saudade, aproximaremos os princípios do
Saudosismo
postulado
por Teixeira de Pascoaes e a peça
Pedro, o Cru
, de António Patrício.
Justificaremos a escolha de uma tragédia neste estudo que se propõe à leitura de
textos líricos em virtude do entrelaçamento entre o campo imaginário e o
histórico, presente na tragédia de Patrício. Obra que, refletindo questões
saudosistas
, vai muito além do
Saudosismo
. Pautaremos nossa leitura nos
aspectos filosóficos e culturais da Saudade como marca da identidade de Portugal.
Fechando este nosso estudo da Literatura Portuguesa abriremos espaço para
a Brasileira, que encontrou no episódio de Inês de Castro motivo de criação
poética. Jorge de Lima, Ivan Junqueira e Tatiana Alves serão os autores com os
quais trabalharemos. Todos eles com muito a dizer sobre esta nossa “Musa Inês.
4.1
Inês: o olhar de Orfeu
Comenta Octavio Paz que “a História é o lugar de encarnação da palavra
poética
45
, em uma alusão à idéia de que o encontro entre ambos os campos
discursivos o histórico e o literário , através do diálogo por eles possibilitado é
sempre renovador e epifânico. Já tecemos alguns comentários em nosso trabalho,
por exemplo, sobre a relação entre História e Literatura, inserindo-as no contexto
português. Em toda expressão cultural, o mito sempre é fortalecido pelo campo
histórico, e não por ele anulado ou vencido. A obra literária é, em suma, capaz de
reunir todos os discursos em um só.
Só com a descoberta da História [...], só através da assimilação radical deste novo
modo de ser representado pela existência humana no mundo foi possível
ultrapassar o mito. Mas não é certo que o pensamento mítico tenha sido abolido
[...] Ele conseguiu sobreviver, embora radicalmente modificado [...] e o mais
curioso é que ele sobrevive, sobretudo na historiografia.
46
45
PAZ, Octavio.
El arco y la lira
. 3. ed. México: FCE, 1972, p. 186. (Ao citar, traduzi)
46
ELIADE, Mircea.
Aspectos do mito
. Lisboa; edições 70, 1989, p. 27.
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48
O que justamente permite a sobrevivência do mito às verdades históricas é a
sua constante movência, resultante da poetização à qual se submete. O amor de
Pedro e Inês como tema intemporal tornou-se universal. História que se tornou
lenda e mito, a Literatura fez deste episódio histórico fonte de constante recriação.
Saindo do sossego – se um dia esteve nele Inês é ela-a-mais-de-cem, a mais
de mil. Mil vezes morre Inês, para mil vezes renascer em esplendor. Se sua glória
é tornar-se texto, está, então, concretizada a previsão de Garcia de Resende nas
suas
Trovas
. A glória de Inês o seu galardão – é, a partir da morte, tornar-se
motivo de (re)criões literárias.
A primeira estrofe é um prólogo em que Garcia de Resende se dirige às
damas, chamando-lhes a atenção para algo que Inês fizera, lhe dera fama:
Senhoras, salgum senhor
vos quiser bem ou sevir,
quem tomar tal servidor
eu lhe quero descobrir
o gualardam do amor
Por sua mercê saber
o que deve fazer,
vejo o que fez esta dama
que de si vos daraa fama,
sestas trovas quereis ler.
47
As duas estrofes seguintes são falas de Inês de Castro. Estando nos
Infernos de Amor o Inferno dos Namorados é por sua voz, por seu
testemunho, que a veracidade do que diz é atestada:
Qual seraa o coraçam
tam cru e sem piadade,
que lhe nam cause paixam
e morte tam sem razam?
Triste de mim, inocente,
que por ter muito fervente
lealdade, fee, amor
ò Princepe, meu senhor,
me mataram cruamente!
A minha desaventura,
nam contente dacabar-me,
47
RESENDE, Garcia.
Cancioneiro Geral
. 4 vols., Lisboa: imprensa Nacional Casa da Moeda,
vol. IV, 1990-1993, p. 301.
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49
por me dar maior tristura
me foi pôr em tantaltura
para dalto derribar-me.
Que, se me matara alguem
Antes de ter tanto bem,
Em tais chamas nam ardera,
pai, filhos nam conhecera
nem me chorara ninguem.
48
A imagem de Inês é a de uma mulher atormentada. O príncipe a elevara pela
lealdade, pela fé e pelo amor devotados, insuficientes, porém, para lhe garantir um
lugar no paraíso. Eis o que lhe resta por se ter entregado ao amor: vê-se
condenada ao Inferno. Foi justamente este amor que lhe definiu toda a vida:
elevou-a a tantalturapara fazê-la cair. Não é, no entanto, a morte que provoca o
maior lamento de Inês, mas a ausência dos filhos e do amado, cuja perda ela não
sabe suportar.
Inês narra a sua própria história, toda ela uma seqüência de desassossegos:
Eu era moça, menina,
per nome Dona Ines
de Crasto e de tal doutrina
e vertudes quera dina
de meu mal ser ò revés.
Vivia sem me lembrar
que paixam podia dar
nem dá-la ninguem a mim.
Foi-mo Principe olhar
por seu nojo e minha fim!
Começou-ma desejar,
trabalhou por me servir,
Fortuna foi ordenar
dous corações conformar
a
Conheceo-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeo-me, tambem perdi-o,
nunca tee morte foi frio
o bem que triste pus nele.
Dei-lhe minha liberdade,
nam senti perda de fama,
pus nele minha verdade,
quis fazer sua vontade
sendo mui fremosa dama.
48
RESENDE, Garcia.
Cancioneiro Geral
. 4 vols., Lisboa: imprensa Nacional Casa da Moeda,
vol. IV, 1990-1993, p. 301-302.
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50
Por mestas obras pagar
nunca jamais quis casar,
polo qual aconselhado
foi El-Rei quera forçado,
polo seu, de me matar.
49
Bastou o primeiro encontro do olhar para que o amor se impusesse
incontrolável. Esboçava-se a tragédia o luto e o fim. O desejo do amor, porém,
não se esgota nem mesmo com a morte. Inês se une a Pedro através desse
sentimento sempiterno, o Príncipe une-se à sua amada pela saudade. Estando
como princesa servida, recatada, honrada e querida de seu senhor, Inês gozava
alegremente as alegrias de amar. Eis que chegam pelos campos do Mondego
muitos cavaleiros e com eles o rei. A tragédia já se prenunciava: presságios,
adivinhações, tristeza e choro:
Como as cousas qu1ham-de ser
logo dam no coraçam,
comecei entresticer
e comigo soo dizer:
Estes homeens donde iram?
E tanto que preguntei,
soube logo que era El-Rei.
Quando o vim tam apressado,
meu coraçam trespassado
foi que nunca mais falei!
E quando vi que decia,
sahi à porta da sala;
devinhando o que queria
com gram choro e cortesia
lhe fiz
Meus filhos pus derredor
de mim, com gram homildade,
mui cortada de temor
lhe disse: Havei, Senhor,
desta triste piadade!
50
Inês traz seus filhos diante do rei. Se razões de Estado havia, talvez a
candura das crianças abrandasse o coração do velho rei. Não eram elas, porém, as
crianças, a principal rao para a sua morte de Inês?
49
RESENDE, Garcia.
Cancioneiro Geral
. 4 vols., Lisboa: imprensa Nacional Casa da Moeda,
vol. IV, 1990-1993, p. 302-303.
50
RESENDE, Garcia.
Cancioneiro Geral
. 4 vols., Lisboa: imprensa Nacional Casa da Moeda,
vol. IV, 1990-1993, p.303.
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51
Nam possa mais a paixam
que o que deveis fazer,
metei nisso bem a mam,
quee de fraco coraçam
seem porquê matar molher.
Quanto mais a mim, que dam
culpa, nam sendo rezam,
por ser mãi dos inocentes
quante vós estam presentes,
os quaes vossos netos sam.
E têm pouca idade,
que, se nam forem criados
de mim, soo com saudade
e sua gram orfindade
morreram desamparados.
Olhe bem quanta crueza
faraa nisto VossAlteza
e tambem, Senhor, olhai,
pois do Principe sois pai,
nam lhe deis tanta tristeza.
Lembre-vos o grand1amor
que me vosso filho tem
e que sentiraa gram dor
morrer-lhe tal servidor
por lhe querer grande bem.
Que salg rro fizera,
fora bem que padecera
e questes filhos ficaram
orfãaos, tristes, e buscaram
quem deles paixam houvera.
51
O discurso de Inês é todo aflição, apelo ao rei em nome da orfandade dos
filhos e do lamentável desgosto de amor do Príncipe. Ela, Inês, a quem dão por
culpada sem razão, não desobedecera às forças que regem o Estado. Apenas e
sempre manteve-se fiel ao seu amado. D. Afonso IV é demovido de querer
mandar matá-la, não havia, afinal, culpa alguma no inocente coração de Inês.
Diante da brandura do rei, um “cavaleiro desalmadobrada em nome das razões
de Estado: a morte de Inês é necessária diante da amea de uma guerra contra
Castela a morte de Inês é necessária para que outras mortes não arrasem
Portugal.
Encontrando-se em difícil dilema, D. Afonso IV, incapaz de agir, entrega
Inês ao seu próprio destino:
51
RESENDE, Garcia. Cancioneiro Geral. 4 vols., Lisboa: imprensa Nacional Casa da Moeda,
vol. IV, 1990-1993, p.304.
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52
Dous caveleiros irosos,
que tais palavras lhouviram,
mui crus e nam piadosos,
perversos, desamorosos,
contra mim rijo se viram.
Com as espadas na mam
matravessaram o o coraçam,
a confissam me tolheram.
Este é o gualardam
que meus amores me deram!
52
Inês morre. E, na morte, encontra a vida. O poeta reassume a palavra e,
voltando-se às damas, demonstra que a morte de Inês foi, na verdade, o seu bem:
Por verdes o gualardam
que do amor recebeo,
porque por ele morreo,
nestas trovas saberam
o que ganhou ou perdeo:
nam perdeo senam a vida,
que podeera ser perdida
sem na ninguem conhecer,
e ganhou por bem querer
ser sua morte tam sentida.
53
Pelo caráter espiritualizado do galardão – o culto da memória, a
permanência como viva recordação legitima-se o amor de Inês por Pedro. Tendo
sido por ele amada, correspondeu-lhe ao amor. E muitos foram os ganhos de
tamanha entrega. Este verdadeiro amor...
Guanhou mais que sendo dantes
nom mais que fermosa dama,
serem seus filhos infantes,
seus amores abastantes
de deixarem tanta fama.
Outra moor honra direi:
como o Principe foi rei,
sem tardar, mas mui asinha,
a fez alçar por rainha,
sendo morta o fez por lei.
Os principais reis dEspanha
de Portugal e Castela
e Emperador dAlemanha
52
RESENDE, Garcia. Cancioneiro Geral. 4 vols., Lisboa: imprensa Nacional Casa da Moeda,
vol. IV, 1990-1993, p.307.
53
RESENDE, Garcia. Cancioneiro Geral. 4 vols., Lisboa: imprensa Nacional Casa da Moeda,
vol. IV, 1990-1993, p.308.
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53
olhai, que honra tamanha,
que todos decendem dela.
Rei de Napoles tambem,
Duque de Bregonha, a quem
todo França medo havia
e em campo El-Rei vencia,
todos estes dela vem.
54
Legitimando Inês como sua mulher, D. Pedro, assim que ascende ao trono,
faz da amada a sua rainha. Rainha de Portugal. Tudo culminado na pedra dos
túmulos, testemunha fidedigna de um amor que tem encantado corações.
Em todos seus testamentos
a decrarou por molher
e por sisto melhor crer
fez dous ricos moimentos
em quambos vereis jazer:
rei, rainha, coroados,
mui juntos, nam apartados,
no cruzeiro dAlcobaça.
Quem poder fazer bem faça,
pois por bem se dam tais grados.
55
A tragédia da morte de Inês encontra na pena de artistas a garantia de uma
fecunda permanência e perpetuação, possibilitando a atualização do tema e sua
permanente revisitação. A força do discurso literário é capaz de construir muitas
Ineses. Exemplo ímpar da leitura do episódio inesiano é a realizada por Luís de
Camões n
Os Lusíadas
, que marca o início de um legado literário do qual muitos
ficcionistas não abririam mão.
Traduzindo um dos temas mais freentes dos versos camonianos os
males causados pelo amor , sendo ao mesmo tempo uma passagem histórica e
lírica, a microsseência
56
narrativa de Inês de Castro ocupa as estâncias 118 a
54
RESENDE, Garcia.
Cancioneiro Geral
. 4 vols., Lisboa: imprensa Nacional Casa da Moeda,
vol. IV, 1990-1993, p.308.
55
RESENDE, Garcia.
Cancioneiro Geral
. 4 vols., Lisboa: imprensa Nacional Casa da Moeda,
vol. IV, 1990-1993, p.309.
56
De acordo com Cleonice Berardinelli, os versos camonianos que se referem a algumas das
grandes passagens d
Os Lusíadas
Inês de Castro e o Gigante Adamastor, por exemplo – não
constituem episódios, mas microsseqüências narrativas. Vejamos o que diz a professora: [...] tal
palavra [episódio] (do grego
epeisodion
, o que vem de fora) designa uma ação incidente, ligada
à ação principal, algo que não se poderia incluir nas funções cardinais, consecutivas e
conseentes, de que fala Barthes, e que abrem sempre uma alternativa, possibilitando a opção por
um de dois caminhos.(Cf. BERARDINELLI, Cleonice.
Estudos Camonianos
. 2. ed.rev.ampl.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 73-74). O texto de Roland Barthes a que se refere
Cleonice Berardinelli está em Introduction à lanalyse structurelle des récits. In.
Communications
98. Paris: Seuil, p.10)
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54
135 do Canto III d
Os Lusíadas
. Camões insere a passagem no contexto da
narrativa da História de Portugal. É Vasco da Gama, pois, que narra o caso triste
e dino da memória / que do sepulcro os homens desenterra”.
Inês é a mísera e mesquinha / que despois de ser morta foi rainha”, epíteto
que a coloca no alto plano mítico que a lenda pretendia elevando esse plano a
parte integrante de uma estruturação épica do mundo
57
. Se a amante de D. Pedro
cometeu algum pecado, foi o de muito amar. E o Amor o deus Amor foi o
responsável por sua morte. Feroz deidade, não se satisfaz com lágrimas e com
tristeza. Em vez disso, exige sacrifício humano, sangue humano em seus altares
é uma força devastadora para os corações humanos:
Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.
58
Uma das mais belas passagens das leituras do episódio inesiano é
justamente aquela que faz Inês e Pedro, na ausência um do outro, encontrarem-se
pela saudade. Ao evocar Inês de Castro, Camões cria uma atmosfera de simpatia e
piedade para com a amada do Infante, traçando com singular sensibilidade a
imagem de uma ilusória felicidade e da sua brevidade.
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saüdosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
57
SENA, Jorge de.
Estudos de História e Cultura
. Lisboa: Revista Ocidente, 1963, p.597.
58
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. In.
Obra completa
. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003 (III,
119).
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55
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.
59
Inês, posta em sossego, esperava saudosa o amado Pedro, cujo nome
guardava no peito apaixonado, repetindo-o aos montes e às ervinhas. A
narrativa é centrada em Inês a quem se dirige o poeta embora este narrador
onisciente saiba que, na alma de Pedro, também moram as lembranças dela, sabe
ainda que, distantes do olhar, aproximava-se pela recordação, o que lhes permitia
conversar nos dias de ausência, em forma de pensamentos e sonhos. Em sonhos
que mentiam” e em pensamentos que voavamos dois amantes sempre estavam
um com o outro. Seja nos involuntários sonhos que mentiam, pois só no
imaginário existem, ou nos muitas vezes voluntários pensamentos, a felicidade
os guardava, já que tudo quanto faziam ou viam os deixava repletos de alegria,
trazendo ao coração de cada um a imagem e o nome um do outro. É interessante
notar que, nessa passagem, amador e amada se confundem, já que os versos que se
reportam a um também se reportam à outra. Inês e Pedro assim viviam o seu
idílio.
O príncipe D. Pedro recusara-se a casar com quaisquer outras belas
senhoras e Princesas, pois seu coração a Inês apenas pertencia. O velho pai
sesudo, que respeita / O murmurar do povo e a fantasia / Do filho, que casar-se
não queria, decide matar a bela Inês, acreditando que apenas o sangue e a morte
apaziguariam a chama de amor que une o casal.
Os horríficos algozestrazem Inês perante o rei, que já estava
compadecido e arrependido. Mas o povo, com falsas e ferozes / Razões, a morte
crua o persuade. Inês de Castro, de mãos atadas, eleva os olhos para o u e em
seguida volta seu olhar para os filhos. Com a voz cheia de mágoa, diante dos
assassinos, e chorando mais pela saudade do Príncipe e dos filhos do que pela
própria vida, Inês suplica ao rei que a deixe viver.
Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens á morte escura dela;
59
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. In.
Obra completa
. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003 (III,
120-121).
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56
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha
E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida, com clemência,
A quem perdê-la não fez erro.
Mas, se to assi merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.
Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre liões e tigres e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co amor intrínseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas requias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste
60
É humano assassinar uma mulher simplesmente porque ela ama o homem
que a conquistou? É pecado deixar-se vencer pela força do amor? Inês, agarrando-
se aos seus filhos, apela à humanidade e à piedade do rei, lembrando que até
mesmo as brutas ferastiveram compaixão das crianças indefesas: assim foi “coa
mãe de Nino, Seramis, a quem as aves de rapina alimentaram e cos irmãos
que Roma edificaram Rômulo e Remo – alimentados por uma loba. Preferindo
o exílio à morte, Inês suplica que a desterrem para a cítia friaou Líbia ardente
dois extremos e a coloquem entre as feras, onde encontraria a piedade que não
há entre os homens. As palavras da bela dama tocam Afonso IV. Queria perdoar-
lhe o Rei benino,[...] / Mas o pertinaz povo e seu destino / (Que desta sorte o quis)
lhe não perdoam. Dominados por um ódio profundo, os algozes de Inês investem
contra a frágil dama.
Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.
61
60
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. In. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003 (III,
127-129).
61
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. In. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003 (III,
132).
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57
Nestes versos opõem-se duas imagens: a da fragilidade da vítima e a dos
férvidos e irososmatadores. Inês é aquela que ama com o mais puro amor, a que
morre só por ter sujeito o coração a quem soube vencê-la. O poeta iguala Inês e
o amor note-se o tratamento tupara ambos como se fosse ela, Inês, o
próprio amor. Além disso, vale-se do adjetivo feropara aqueles que a mataram
e para o deus Amor: não seriam, então, os algozes de Inês instrumentos do próprio
Cupido para que a amante de Pedro fosse morta? É, pois, a força crua do Amor a
causa essencial da tragédia:
Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.
As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores!
62
Tal como uma flor silvestre murcha e morre quando colhida, Inês está sem
perfume e sem cor, morta, com as rosas do rosto secas, sem rubor. As ninfas,
filhas do Mondego, tiveram suas lágrimas transformadas em uma fonte, que
passou a se chamar Fonte dos Amores, em memória da dama galega, feita
Rainha após a morte. Lágrimas de amor que dão vida às flores e que se convertem
na mais alta poesia.
Camões, com seu saber de platonismos feito, num dos inigualáveis momentos
ricos de sua epopéia, ao focalizar a lenda sobre a fonte dos amores", pôde
iluminar o rosto de Eros, no episódio de Inês de Castro. O nome da fonte Amores
, conjuga-se com memória e com poesia. O épico admite que a memória eterna
se constrói na e pela intermediação discursiva, pois é a textualização das lágrimas
62
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. In. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003 (III,
134-135)
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58
choradas, isto é, dos dissabores amorosos, que se transforma na fonte pura" de
novos discursos sobre os amores de Inês.
63
A luz lançada sobre o episódio de Inês de Castro iluminou os versos de
muitos outros poetas. Seguindo os passos camonianos, Manuel Maria du Bocage,
com lirismo árcade na Cantata à morte de D. Inês de Castro, mantém a
tonalidade fundamentalmente narrativa do episódio. A estética descritiva utilizada
em seus versos assemelha-se a de Camões n
Os Lusíadas
. Mesmo as imagens
criadas o sossego de Inês, a ilusória felicidade, os saudosos campos do
Mondego encontram paralelo na leitura de Bocage.
É o que podemos ler nos primeiros versos da “Cantata”:
Longe do caro Esposo Inês formosa,
Na margem do Mondego,
As amorosas faces aljofrava
De mavioso pranto.
Os melindrosos, cândidos penhores
No tálamo furtivo,
Os filhinhos gentis, imagem dela,
No regaço da mãe sereno gozam
O sono da inocência.
Coro subtil de alígeros Favónios,
Que os ares embrandece,
Ora enlevado afaga
Com as plumas azuis o par mimoso,
Ora, solto, inquieto,
Em leda travessura, em doce brinco
Pela amante saudosa,
Pelos tenros meninos se reparte,
E com ténue murmúrio vai prender-se
Das áureas tranças dos anéis brilhantes.
Primavera louçã, quadra macia
De ternura e das flores,
Que à bela natureza o seio esmaltas,
Que no prazer de amor ao mundo apuras
O prazer da existência,
Tu de Inês lacrimosa
As mágoas não distrais com teus encantos!
64
Inês está a colher os doces frutos da juventude, preenchida pelas
recordações que tem de seu amado. A companhia dos filhos, que estão a dormir
63
ALVES, Maria Theresa Abelha Alves. Inês de Portugal: mito, tela, texto a viagem de uma
narrativa”. In.
Revista Semear 7
. Petrópolis: Vozes. Rio de Janeiro, 2002. p.162-163
64
BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. Cantata à morte de D. Inês de Castro. In.
Antologia
Poética
. 3. ed. MOURÃO, Maria Antónia; NUNES, Maria Fernanda (org.). Braga: Biblioteca
Ulisseia, 1998, p.165.
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59
no colo da mãe o sono da inocência, minora o que poderia ser o desespero da
ausência. Os amantes mantêm-se unidos pela saudade, sentimento que os
aproxima, que lhes dá vida. O coro dos ventos sopra, ameno. Nada, porém, é
consolação. Nada é capaz de preencher o coração de Inês, todo saudade pela
ausência do amado – ausência da plena felicidade. E, por isso, tudo é vão.
Debalde o rouxinol, cantor de amores,
Nos versos naturais os sons varia;
O límpido Mondego em vão serpeia
Coum benigno sussurro, entre boninas
De lustroso matiz, almo perfume;
Em vão se doira o sol de luz mais viva
Os céus de mais pureza em vão se adornam
Por divertir-te, ó Castro;
Objectos de alegria amor enjoam
Se amor é desgraçado.
A meiga voz dos zephyros, do rio,
Não te convida o sono;
Só de já fatigada
Na luta de amargos pensamentos,
Cerras, sera, os olhos;
Mas não há para ti, para os amantes,
Sono plácido e mudo;
Não dorme a fantasia, amor não dorme;
Ou gratas ilusões, ou negros sonhos,
Assomando na ideia, espertam, rompem
O silêncio da morte.
65
Uma visão toma conta de Inês. Ela, adornada em beleza, coroada ao lado de
Pedro, reinando com o marido e amante por todo Portugal. Tudo é graça e pompa
e glória. O clamor do povo, as dádivas ao justo. Inês, de perseguida, impera em
corões:
Ah! Que fausta visão de Inês de apossa!
Que cena, que espetáculo assombroso
A paixão lhe afigura aos olhos dalma!
Em marmóreo salão de altas colunas
A sólio majestoso e rutilante
Junto ao régio amador se crê subida;
Graça de neve a púrpura lhe envolve,
Pende augusto docel do tecto de ouro;
Rico diadema de radioso esmalte
Lhe cobre as tranças, mais formosas que ele;
65
BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. Cantata à morte de D. Inês de Castro. In. Antologia
Poética. 3. ed. MOURÃO, Maria Antónia; NUNES, Maria Fernanda (org.). Braga: Biblioteca
Ulisseia, 1998, p.165-166.
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60
Nos luzentes degraus do trono excelso
Pomposos cortesãos o orgulho acurvam;
A lisonja sagaz lhe adoça os lábios,
O monstro da política se aterra,
E se de Inês perseguia, Inês adora.
Ela escuta os extremos,
Os vivas populares, vê o amante
Nos olhos estudar-lhe as leis que dita;
O prazer a transporta, amor a encanta;
Prémios, dádivas mil ao justo, ao sábio
Magnânimo confere,
Rainha esquece o que sofreu vassala
66
A fausta visãoque de Inês se apossara é cruamente interrompida: Que
estrondo / O sonho encantador lhes desvanece!. Despertando do sonho
encantador", Inês é tomada pela visão da morte, na figura de três vis algozes,
que buídos de punhais conta a bela infeliz bramindo avançam.
Ela grita, ela treme, ela descora,
Os frutos da ternura ao seio aperta,
Invocando a piedade, os céus, o amante:
Mas de mármore aos ais, de bronze ao pranto,
À suave atracção da formosura,
Vós, brutos assassinos,
No peito lhe enterrais os ímpios ferros.
Cabe nas sombras da morte
A vítima de amor, lavada em sangue,
As rosas, os jasmins da face amena
Para sempre desbotam,
Nos olhos se lhe some o doce lume,
E no fatal momento
Balbucia, arquejando: “esposo, esposo!
67
Bocage recorre à consagrada visão de Inês como a da frágil dama que,
indefesa, tem o seu sangue derramado pelas razões de Estado e pelas razões do
coração. Os filhos, os tristes inocentes / à triste mãe se abraçam, / E soltam de
agonia itil choro. Inês, a do colo de garça Inês, a do rubro peito de murcha
flor. Não há clemência, não há desterro. Há a feroz morte de uma inocente Inês,
vítima de amor, lavado em sangue.
66
BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. Cantata à morte de D. Inês de Castro. In. Antologia
Poética. 3. ed. MOURÃO, Maria Antónia; NUNES, Maria Fernanda (org.). Braga: Biblioteca
Ulisseia, 1998, p.166.
67
BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. Cantata à morte de D. Inês de Castro. In. Antologia
Poética. 3. ed. MOURÃO, Maria Antónia; NUNES, Maria Fernanda (org.). Braga: Biblioteca
Ulisseia, 1998, p.167.
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61
Nas cem tubas da fama o grão desastre
Irá pelo universo:
Hão-de chorar-te, Inês, na Hircânia os tigres;
No sertão torrado da Líbia fera
As serpes, os leões hão-de chorar-te.
Do Mondego, que atónito recua,
Do sentido Mondego as alvas filhas
Em tropel doloroso
Das urnas de cristal eis vêm surgindo,
Eis, atentas no horror do caso infando,
Terríveis maldições dos lábio vibram
Aos monstros infernais, que vão fugindo.
Já c’roam de cipreste a malfadada,
E, arrepelando as nítidas madeixas,
Lhe urdem saudosas, lúgubres endeixas.
Tu, eco, as decoraste,
E, cortadas dos ais, assim ressoam
Nos côncavos penedos que magoam:
Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores:
Morrei, amores,
Que Inês morreu.
Mísero esposo,
Desata o pranto,
Que o teu encanto
Já não é teu.
Sua alma pura
Nos céus se encerra:
Triste da terra
Porque a perdeu!
Contra a cruel
Raiva ferina,
Face divina
Não lhe valeu.
Tem roto o seio
Tesouro oculto;
Bárbaro insulto
Se lhe atreveu.
De dor e espanto
No carro de ouro
O Númen louro
Desfaleceu.
Aves sinistras
Aqui piaram,
Lobos uivaram,
O chão tremeu.
Toldam-se os ares,
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62
Murcham-se as flores:
Morrei, amores,
Que Inês morreu.
68
A morte de Inês faz murchar flores, morrer amores. Porque aquela que é o
símbolo máximo do Amor está morta. O Poeta pede a Eco que decore as tristes
endeixas cantadas pelas ninfas do Mondego. Canto que, siginificando qualquer
coisa de irreversível, lembra-nos o velho refrão agora é tarde, Inês é morta". A
força poética (re)criando Inês. O grande êxito do poema cabe, sobretudo, na força
dramática mais que lírica de Inês que
despertada pelos ministros do furor, três vis algozes, de um sonho que, embora
lúgubre, termina com a glorificação que de facto ela já não veria, é massacrada
num quadro que o poeta descreve minuciosamente, incluindo a desorientação das
crianças, sempre um elemento de piedade.
69
Inês vive eterna no canto dos poetas. Não lhe bastara o fino amor vivido.
Foi preciso muito mais. Foi preciso a sua morte ser sentida, chorada, cantada.
Perpetuada. Isto deu o Amor á Inês. O prêmio da eternidade. É a permanência de
Inês, sempre ditada. A lira do poeta parece ser a de Orfeu: todos param para
escutá-la. Todos com ela se encantam. Um som doce e elevado. Assim o é no
soneto À lamentável catástrofe de Inês de Castro:
Da triste, bela Inês, inda os clamores
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos Céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;
Ouvem-se inda na Fonte dos Amores
De quando em quando as náiades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:
Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morta formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:
Milagre da beleza, e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abraça e croa
68
BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. "Cantata à morte de D. Inês de Castro". In. Antologia
Poética. 3. ed. MOURÃO, Maria Antónia; NUNES, Maria Fernanda (org.). Braga: Biblioteca
Ulisseia, 1998, p.168-169.
69
SOUSA, Maria Leonor Machado de. Inês de Castro: um tema português na Europa. Lisboa:
Edições 70, 1987, p. 306.
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63
A malfadada Inês na sepultura.
70
Dois tons predominam no soneto: o da desgraça de Inês se na Cantata
coube a Eco repetir seus clamores, agora clama por justiça, e todo o universo
entoa altos hinos de amor e o da grandeza da ação de Pedro em uma gradação,
que termina com a coroação póstuma de Inês, lenda tornada cara pela Literatura:
Abre, desce, olha, geme, abraça e c’roa”. Verso que reforça a permanência da
versão de que Inês foi uma stuma Rainha. Se em Camões temos Inês como
aquela que “despois de morta foi Rainha”, em uma alusão maior ao sepulcro de
Alcoba do que, cremos, às lendas, o texto de Bocage ultrapassa essa idéia: D.
Pedro agarra-se ao corpo da amada e busca reverter a morte dela em vida. Entre o
humano e o divino, Inês é o milagre da beleza e da ternura”. A malfadada, mas
sempre bela, linda Inês.
Atravessando épocas, encontramos no século XX poetas que, como Garcia
de Resende, Luís de Camões e Bocage, encontram nesses amores doce canto de
saudade. Um destes é Afonso Lopes Vieira, aquele que mais cantou Inês
71
.
Destacamos um de seus poemas Formosa Inês" do livro de versos
Ilhas de
Bruma
(1917):
Choram ainda a tua morte escura
Aqueles que chorando a memorararm;
As lágrimas choradas não secaram
Nos saudosos campos da ternura.
Santa entre as santas pela má ventura,
Rainha, mais que todas que reinaram;
Amada, os teus amores não passaram
E és sempre bela e viva e loira e pura.
Ó Linda, sonha aí, posta em sossego
No teu moimento de alva pedra fina,
Como outrora na Fonte do Mondego.
Dorme, sombra de graça e de saudade,
Colo de Garça, amor, moça menina,
Bem-amada por toda a Eternidade!
72
70
BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. Soneto à lamentável catástrofe de de D. Inês de Castro.
In.
Antologia Poética
. 3. ed. MOURÃO, Maria Antónia; NUNES, Maria Fernanda (org.). Braga:
Biblioteca Ulisseia, 1998, p.106-107.
71
Cf. SOUSA, Maria Leonor Machado de.
Antologia Poética Inês de Castro
. Coimbra: ACD
Editores, 2005, p.7.
72
VIEIRA, Afonso Lopes. Formosa Inês. In. SOUSA, Maria Leonor Machado de.
Antologia
Poética Inês de Castro
. Coimbra: ACD Editores, 2005, p.108.
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64
É bem marcante a presença camoniana nos versos de Afonso Lopes Vieira.
O poeta evoca imagens da beleza, dos amores e da morte daquela que é a “Santa
entre as santase Rainha, mais que todas que reinaram. Um outro soneto, este
de Virgínia Vitorino, retoma os túmulos de Pedro e Inês, e o repouso dos amantes.
Apenas depois da morte podem-se amar livremente, sem os griles sociais
longe das razões que governam o Estado. O poema respira certa atmosfera
romântica, havendo, sobretudo, a valorização do amor que persiste, que
permanece após a morte:
Repousaram enfim. Sonham agora
Aquele grande sonho interrompido.
O maior sonho que se tem vivido,
Sonho que julga em cada nova aurora!
Beijam-se os dois amantes hora a hora.
E no grande sossego apetecido,
Murmuram ambos eles num gemido;
Só é perfeito, imenso, o amor que chora!
Inês, oh! linda Inês! garça real,
Que para um bem sofreste tanto mal!
Dorme, dorme o teu sono tão profundo.
O teu Pedro te embala, nesse Amor
Que há-de ter sempre o nome de maior!
Que há-de ser novo Até ao fim do mundo...
73
Nos
Poemas Ibéricos
, publicados em 1982, Miguel Torga publica Inês de
Castro, cujos versos apontam para o aspecto da permanência do canto de
celebração ao amor de Pedro e Inês, uma vez consumado e sempre repetido. A
legenda tumular Até a fim do mundo – faz-se, de certa forma, presente. Há a
anunciação da volta dos amantes. Há a expectativa do dia em que hão-de se
levantar de suas sepulturas e concretizar a profecia:
Acordar...
Erguer a lousa sem D. Pedro ouvir...
E dizer às donzelas que o luar
É o aceno do noivo que há-de vir...
E que, na morte, o amor
73
VITORINO, Virgínia. Soneto. In. SOUSA, Maria Leonor Machado de.
Antologia Poética
Inês de Castro
. Coimbra: ACD Editores, 2005, p.123.
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65
Se levanta e caminha.
Que é um outro sol a ser outro calor,
Outra mulher amada a ser rainha.
E que não sou Constança ou Mariana,
Porque o meu nome verdadeiro é Inês,
Que sou a Julieta castelhana
Do Romeu português.
74
O século XX mostrou-se, enfim, terreno fértil no que diz respeito à lírica
inesiana. Muitos textos, certamente, não contemplam nosso estudo. De três deles,
aliás, falaremos mais adiante, em momento que julgamos mais propício: um
soneto de Virgínia Vitorino, Eterno Amor; Meditação de Pedro o Cru ante o
corpo de Inês de Castro, de João Mattos e Silva; Inês de Manto, de Fiama
Hasse Pais Brandão. Encerramos nossa pequena mostra com um poema de Nuno
Júdice, Pedro, lembrando Inês:
Em quem pensar agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas isto é o amor;
ver-te mesmo quando não te vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.
75
Repleto de palavras singelas e de extrema profundidade,
Pedro, lembrando
Inês
é o galardão de todos aqueles que se encantam, que se deixam apaixonar por
esta triste história de amor. Como Nuno Júdice. O poeta empresta a sua voz ao
74
TORGA, Miguel. Inês de Castro. In.
Alguns poemas Ibéricos
. Coimbra: 1952, p.18-19.
75
JÚDICE, Nuno. Pedro, lembrando Inês. In. SOUSA, Maria Leonor Machado de.
Antologia
Poética Inês de Castro
. Coimbra: ACD Editores, 2005, p.129.
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66
amante., ao mesmo tempo em que dela se apropria para a transformar na palavra
que se faz poética. D. Pedro é cada um daqueles amantes que aguardam, ansiosos,
o encontro com a amada. Um poema cuja poesia é encontro e rendição, regresso
ao coração, diálogo com a ausência. Visão e epifania. Unidade sagrada pelo mais
terno dos sentimentos: o amor realizado na saudade, como o de Pedro e Inês.
4.2
O manto de amor, o reino da Saudade
Aplicando-se em defender o plano espiritual da saudade, afirma Teixeira de
Pascoaes:
O homem só vê nitidamente o que perdeu; só possui em absoluto o que perdeu. E
por isso, as trevas da morte revelam melhor a pessoa amada que todo o sol que a
iluminou durante a vida! A morte roubou-lhe o que é efémero e transitório, a
aparência, mas a Saudade revelou-lhe a eterna aparição, a sua pessoa integral e
essencial. A sombra da Morte que nos esconde, esvai-se ante a Saudade que nos
mostra.
76
O postulado de Pascoaes coincide com o que acontece com D. Pedro quando
morre Inês de Castro. Lima de Freitas, em duas de suas composições plásticas,
ilustra bem tal leitura. Em uma delas
Ate a fim do mundo
o artista retrata uma
Inês que é, ao mesmo tempo, vida e morte. Uma possível interpretação é
justamente a da efemeridade e transitoriedade da aparência pela ação da morte e
do tempo. Pedro e Inês estão a se olhar na linguagem do silêncio, a única que,
comenta Walter Benjamin, corresponde ao herói trágico:
Ao ficar em silêncio, o herói quebra as pontes que o ligam ao deus e ao mundo,
ergue-se e sai do domínio da personalidade que se define e se individualiza no
discurso intersubjectivo, para entrar na gélida solidão de Si-mesmo. Este nada
conhece fora de si, é a pura solidão. Como há-de ele dar expressão a esta solidão, a
esta intransigente obstinação consigo próprio, a não ser calando-se?
77
Em outra obra
A que depois de morta foi Rainha
Lima de Freitas
reproduz a imagem de uma Inês morta, entronada e coroada. Uma estranha luz
está a iluminar-lhe a face e é justamente essa luminosidade que atrai os olhos do
rei. D. Pedro está a contemplar Inês de Castro, na ânsia de encontrar no rosto
iluminado da amada qualquer sinal de vida. O cadáver de Inês, entretanto, o seu
76
PASCOAES, Teixeira de.
Os poetas lusíadas
. Lisboa: Assírio e Alvim, 1987, p.75.
77
BENJAMIN, Walter.
A origem do drama trágico alemão
. Lisboa: Assírio e Alvim, 2004, p.286.
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67
corpo em decomposição, longe da luz de sua face, denuncia uma outra forma de
olhar: ambiguamente, ao mesmo tempo em que busca a reversibilidade, parece
sabê-la irreversível. Nada tem o poder de parar ou mesmo reverter o tempo.
Destacamos duas composições poéticas do século XX que trazem aspectos
do modo como D. Pedro encara ou, melhor, enfrenta a morte de sua amada:
Vamos ao primeiro deles: Eterno Amor", de Virgínia Vitorino
Pedro, o grande amoroso, o eterno amante,
Aos pés dInês, sozinho e triste diz:
Fez-me Cruel o muito que te quis,
e acho ainda que não te quis bastante.
Não me viste morrer. Partiste adiante
nem me viste chorar; foste feliz.
Subiste ao céu formosa flor de liz,
sempre tão perto, embora tão distante!
O leito que te dei não te merece.
Devia tê-lo feito de uma prece,
De saudades, de rendas, ou luar...
Vai-me esperando. A expiação redime.
tenho na vida a expiação dum crime.
O Sanssimo crime de te amar.
78
O encontro dos amantes está para além de um plano físico. Metafísico,
talvez. Certo apenas tratar-se de um plano em que todo o afastamento é
ultrapassado. O encontro dos amantes está para além do repouso tumular. O leito
em que dorme Inês quer ser, para Pedro, mais do que pedra: é sonho de
eternidade. A saudade é uma prece que permite ao Rei comungar com sua Rainha.
Porque de saudade é feito este amor que os une.
Igualmente belo é o poema Meditão de Pedro o Cru ante o corpo de Inês
de Castro, de João Mattos e Silva:
Nunca mais te verei.
nem minhas noites serão
como marés no teu corpo;
nem meus dias como o vento
em teus cabelos.
Nem nos teus olhos
se hão-de perder os meus;
nem no teu colo repousarei
78
VITORINO, Virgínia. Eterno Amor. In. SOUSA, Maria Leonor Machado de. Antologia
Poética Inês de Castro. Coimbra: ACD Editores, 2005, p.97.
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68
meus sonhos e desejos;
nem mais por ti
hei-de buscar meu graal.
Senhor tão só de mim
que não da vida
destes reinos inda que morta
és a rainha: Inês de Portugal.
79
Este meditar de D. Pedro é, também, um lamento e uma despedida
despede-se da amada e despede-se de si mesmo. É um hino e um louvor ao mais
alto amor, em que o amado anseia por novamente estar junto daquela que é
substância de sua própria alma. Cessada a busca do Graal, cessada a busca da
própria vida. Não há mais vida, afinal, a não ser daquela que é póstuma: Inês,
como as lendas consagraram, Rainha de Portugal.
Respirando de uma atmosfera saudosista, o drama simbolista
Pedro, o Cru
(1918) de António Patrício capta as discussões filosóficas sobre a saudade.
Ressalte-se, porém, que Patrício vai além do raciocínio espiritualizado para
descrevê-la. A Saudade surge com força desmedida; o que o Pedro de Patrício
busca não é simplesmente a "imagem espiritual e eterna das cousas", mas a
ressurreição da carne.
Em uma das passagens da peça, ansiando por entrar em contato com a
amada, em vê-la, tocá-la, senti-la, enfim, para desenterrá-la do esquecimento e
coroá-la Rainha de Portugal, D. Pedro penetra no mosteiro de Santa Clara e
dirige-se à abadessa:
Não sou eu que vos venho perturbar. É a saudade que me traz, é ela só [...] A
minha Saudade é uma hiena; vem desenterrar o meu amor... Onde está ele? Onde
me espera a que será vossa Rainha?
80
A leitura de Patrício aproxima-se daquelas de Lima de Freitas. Tal como a
hiena se alimenta de carne em decomposição, a Saudade do rei encontra no
cadáver de sua amada o alimento que lhe dá vida. Gilbert Durand sintetiza os
mitos portugueses em quatro linhas, a que chamou mitologemas
81
. Destaca uma
79
MATTOS E SILVA, João. Meditação de Pedro, o cru ante o corpo de Inês de Castro. In.
SOUSA, Maria Leonor Machado de.
Antologia Poética Inês de Castro
. Coimbra: ACD Editores,
2005, p.116.
80
PATRÍCIO, António. Pedro, o Cru: In:
Teatro Completo
. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982,
p.112.
81
Cf. DURAND, Gilbert.
Imagens e reflexos do imagirio português
. Lisboa: Hugin, 2000.
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69
ligada à
nostalgia do impossível
, da qual Pedro e Inês são representantes
máximos. Quando Pedro se agarra ao corpo da amada corpo sem vida agarra-
se a uma impossibilidade. Para Pedro, entretanto, não é ao cadáver de Inês não é
a um simulacro – que ele se agarra, mas à própria Inês. O corpo morto de Inês é
ainda para D. Pedro a própria Inês. O que ele enxerga ou quer enxergar não é
o corpo em decomposição, mas a luz que ilumina o rosto da amada. Como em
Lima de Freitas, o olhar de Pedro é volta-se diretamente para os olhos de Inês,
desconsiderando tudo que foge a esse foco.
A experiência da morte e a desilusão amorosa têm, para Pedro, o mesmo
valor. A vida de Inês é a sua vida. A morte da amada, a sua própria morte. O amor
passa a ser, então, um exercício de alteridade: é um reconhecer-se no outro, é
ser
no outro.
É a nossa hora, Inês... Estamos sozinhos. Estás bem assim!? Tu ouves-me
dormindo. Eu fico aqui, à tua cabeceira. Não bulas, meu amor, dorme assim queda
como a tua estátua ali, sobre o teu túmulo... Esta á a Casa de Deus. Deus está
connosco. Ouves os sinos repicar!?... Toca a noivado. As nossas bodas agora são
eternas. Sinto na minha alma a tua alma como a água duma fonte noutra fonte,
como a luz na luz e deus em Deus... Sinto-te tanto, que te perco em mim. Aqui me
tens, Inês: sou o teu Pedro. O que ele tem, o que ele tem pr’a te contar!... Eu bem
sei que tu sabes...sabes tudo. Os teus ouvidos, na Morte, ouvem melhor. Ouviram o
desespero do teu Pedro uma noite de pedra sobre esta alma ouviram as suas
lágrimas caladas: ouviram toda, toda a sua dor. Eu sei... eu sei... As palavras, por
si, dizem bem pouco; mas acordam a alma, meu amor. Se não fosse assim, pra
quê!?... falar... Fala-se pra cair no teu silêncio no silêncio em que a alma sorri
toda... O teu Pedro quer falar; deixa-o dizer... Ouve-o como, mesmo adormecida, tu
ouvias a fonte do jardim, do jardim das oliveiras meigas, do teu jardim das
Oliveiras, meu amor. (
Pausa
) É o primeiro serão da eternidade. Lembro a face da
terra em que te amei. Vejo os campos de Coimbra ao luzir dalva... Eu vou partir
pr’a montear... digo-te adeus... As rolas cantam perto – muito triste no pinhal
vizinho, que as entende... O Mondego, ainda a dormir, já corre... O último beijo
que me deste em vida, foi numa hora assim: caíam folhas... os pomares ofereciam-
se doirados... quando fecho os meus olhos, vejo-a sempre: dir-se-ia que forra as
pálpebras. Foi nessa hora que eu nasci prà dor; foi na hora sagrada em que
morreste, que a minha alma nasceu pr’a te adorar.
82
Voltando á leitura da legenda tumular de D. Pedro –
Até a fim do mundo
depura-se a crença na eternidade. O túmulo, que poderia querer significar
qualquer coisa semelhante a um fim, converte-se em salvação. Há a superação da
morte e o início de todo um processo poético e simlico. Os túmulos e o corpo
de Inês são atributos de vida, mantendo viva a memória cultural portuguesa.
82
PATRÍCIO, António. "Pedro, o Cru": In:
Teatro Completo
. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982, p.
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70
É pela Saudade que o amor de Pedro e Inês será pleno. O que o rei pretende
é preservar a memória da amada, em uma expectativa de dar vitalidade ao seu
corpo morto. A trasladão do cadáver de Inês do mosteiro de Santa Clara até ao
de Alcobaça e a sua configuração como rainha na estátua sepulcral jacente são
exemplos ímpares, que parecem ter reavivado na mente do povo todo o trágico
episódio destes amores de Pedro e Inês.. Haquira Osakabe destaca que tais atos do
rei D. Pedro serviram para “dar matéria à saudade.
a configuração de Inês, pelos funerais reais, não foi apenas a superação simbólica
da sua morte por parte de seu amante. Foi muito mais. Consagrá-la rainha
correspondeu à unção (e criação) definitiva de Portugal como reino do Amor e do
sentimento que permite eternizá-lo: a Saudade.
83
É, portanto, a saudade a força que leva Pedro à ação, na busca da
reversibilidade da morte de Inês. Retomando o pensamento de Teixeira de
Pascoaes e as considerações de Haquira Osakabe, somos novamente conduzidos à
leitura de Patrício. A saudade torna-se verbo encarnado: princípio e fim, elo entre
a vida e a morte. É a força-motriz para a unção de um novo reino, diante do qual
Portugal se revela uma província apenas. Um reino de amor que abrange a morte e
os seus mistérios “a sua natureza de mistério". O mergulho de Pedro neste reino
é uma viagem introspectiva. Transubstanciado em Saudade, é nessa viagem que
encontra a sua Inês.
Vivi um ano assim, do teu marrio. O teu sangue, amor, era o meu vinho. A tua
morte, Inês, foi o meu pão. Fugia ao sol: a luz envenenava-me. Queria estar só,
bem só, murado em mim: cavava no silêncio um fojo escuro para me poder cevar
da minha dor. O meu crânio era uma câmara de tortura: viviam lá um carrasco e
os assassinos. E o carrasco era eu, era o teu Pedro. Oirava de pensar... de sentir
sangue... Pra ver se assossegava, ia montear [...] Era um lobo o teu Pedro: era uma
hiena. Mas um dia, Alguémdesceu ao fojo: Alguémque era da morte e era
da vida; e mais de além da morte e além da vida... E eu vi a Saudade ao pé de
mim. Nunca mais me deixou: vivo com ela. Fez-se em mim carne e sangue. Fez-se
Inês. Por isso sabes a minha vida. Por isso eu sei a morte como tu. Sou o homem
que viveu a vida e a morte: sou o homem-Saudade, o rei-Saudade... [...] Sou o rei...
o rei do maior reino... do reino que me deste, minha Inês... Duas vezes Rainha!...
Santa! Santa!... Se estou ao pé de ti tudo foi bom!... A minha dor, Inês, beijo-a
nos olhos!... beijo-a como beijei a tua boca... como cerrando os olhos na saudade
beijei, beijei, beijei a tua alma... Tudo, tudo foi bom. Tudo eu bendigo. Oiço
bater o coração do meu destino. Agora sei, Inês... agora entendo. Morreste moça
pr’a viveres na eternidade sempre moça. Bendito seja sempre o teu martírio!
Bendito o lobo em mim... bendita a hiena (
Mais perto dela ainda, erguendo as
83
OSAKABE, Hakira. A pátria de Inês de Castro. In. IANNONE, Carlos Alberto, GOBI,
Márcia V. Zamboni & JUNQUEIRA, Renata Soares (org.).
Sobre as naus da iniciação
. São Paulo:
Unesp, 1998, p.108.
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71
mãos
) bendita tu, Inês, sempre bendita! (
Pausa. Num tom dintimidade mística
)
estás outra vez no reino pequenino. Ele foi-te fiel como o teu Pedro. Cada árvore
sabe a tua graça. A tarde cai lembrando o teu sorriso. A terra que tu pisaste,
alimentou-me: era pão para mim, mais do que pão.
84
O encontro de Pedro e Inês, dado “além da morte e além da vida", em um
espaço-tempo lacunar, tem qualquer coisa de iniciático: uma iniciação aos
mistérios da saudade. Os sagrados mistérios da Saüdade. Não é Inês que volta à
vida. Mais que isso, é Pedro que a tem na morte. Assim o amor poderá ser pleno,
porque ele é todo Saudade. Porque não há mais Pedro e Inês, mas Pedro-Inês,
indissoluvelmente.
Oiço no teu silêncio cotovias... O som e a luz casaram-se, fundiram-se: são o ar que
eu respiro... o nosso ar... Oh! Asas... asas... dêem-me asas! É um abismo destrelas
este amor... Faz-me medo. É um turbilhão de estrelas... (
Com voz de aura,
chamando
) Inês!... Inês!... eu tenho medo... Sinto o vento de luz da eternidade...
Um momento, estende os braços como asas; e resvala inerte no lajedo.
85
Com a amada coroada a sua póstuma consorte Pedro deita-se ao lado de
Inês, em um transe que lhe permite entrar no mundo da amada. E estão juntos, de
mãos dadas, à porta da igreja: É o olhar de Deus aquela luz... É o coração de
Deus aquela igreja...
86
Respirando dessa mesma atmosfera de fantasmagoria, Inês de Manto
belíssimo poema de Fiama Hasse Pais Brandão apresenta-nos uma Inês que, fora
do sossego, vem tornar-se texto, este "tecido dos significantes"
87
, que reveste a
amada de Pedro com o mais poético lirismo.
Teceram-lhe o manto
para ser de morta
assim como pranto
se tece na roca
Assim como o trono
e com o espaldar
foi igual o modo
de a chorar
84
PATRÍCIO, António. "Pedro, o Cru": In:
Teatro Completo
. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982, p.
167-168.
85
PATRÍCIO, António. "Pedro, o Cru": In:
Teatro Completo
. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982, p.
169.
86
PATRÍCIO, António. "Pedro, o Cru": In:
Teatro Completo
. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982, p.
173.
87
BARTHES, Roland.
Aula
. 11. ed. São Paulo: Cultriz, 2004, p.11.
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Só a morte trouxe
todo o veludo
no corte da roupa
no cinto justo
Também com o choro
lhe deram um estrado
um firmal de ouro
um corpo exumado
O vestido dado
como a choravam
era de brocado
não era escarlata
88
Sobre o poema de Fiama Hasse Pais Brandão pode-se dizer tratar-se de uma
daquelas leituras que embelezam a história e historiam as lendas. O manto que
veste Inês não é o de escarlata aquele designado á realeza. Inês é astuma
rainha, para quem se teceu o manto que é dor e pranto. O choro se tece na roca e
em pranto se converte o trono. E em pranto se fez Portugal. Porque Inês é a
Rainha de Portugal. E em que trono há-de ela sentar senão naquele em que se
converteu toda a ausência, toda a dor em pranto transformada?
4.3
A Literatura Brasileira no rastro de Inês
Em seu ensaio investigativo da projeção dos dois temas portugueses que
mais freentam as literaturas estrangeiras Inês de Castro e D. Sebastião
Maria Leonor Machado de Sousa verifica que, diante do femeno, há perguntas
que surgem naturalmente, como:
Que razões podem levar um autor a escolher um tema estrangeiro:
a importância desse tema na sua própria cultura?
a semelhança com outro existente na sua tradição cultural?
características sensacionais desse tema?
E ainda:
No caso de um tema ou mito importado, que influência exerceu ou de que modo
foi alterado por influência de temas ou mitos afins?
89
88
BRANDÃO, Fiama Hasse Pais Brandão. Inês de Manto. In. Barcas Novas. Lisboa: Ulisseia,
1967, p.47-48.
89
SOUSA, Maria Leonor Machado de. D. Inês e D. Sebastião na Literatura Inglesa. Lisboa:
Vega, s/d., p. 9-10.
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73
Como realizado pela professora em relação a estes temas na Literatura
Inglesa, aplicaremos o esquema investigativo referente à produção lírica da
Literatura Brasileira, que vem encontrando interesse artístico no episódio de Inês
de Castro.
Um salto de quatro séculos separa a Inês de Camões da
Invenção de Orfeu
,
de Jorge de Lima, obra síntese de sua experiência como poeta, romancista e
pintor. Apontam alguns críticos tratar-se de uma biografia épica do artista em
busca de plenitude sensível e espiritual. Ressalta, inclusive, Cláudio Murilo Leal
que o poema de Jorge de Lima
está para a literatura brasileira assim como
Os Lusíadas
para a portuguesa.
Considerados dois verdadeiros monumentos poéticos e lingüísticos, que
enriqueceram para sempre o nosso patrimônio cultural, ambos os poemas celebram
um compromisso entre respeito à tradição e a ousadia da renovação.
90
Permanência de Inês o canto IX de
Invenção de Orfeu
é a própria
exaltação do fazer poético. Paradigmaticamente recriando e revitalizando o
sintagma camoniano, a Inês de Jorge de Lima não é aquela “posta em sossego,
mas a que não ficou nunca em sossego.
Estavas, linda Inês, nunca em sossego
e por isso voltaste neste poema,
louca, virgem Inês, engano cego,
ó multípara Inês, sutil e extrema,
ilha e mareta funda, raso pego,
Inês desconstruída, mas eurema,
chamada Inês de muitos nomes, antes,
depois, como de agora, hoje distantes.
91
É, parece-nos, justamente esse desassossego a certeza ou garantia da
permanência de Inês. É a lenda que se fez mito – e se fez texto. Inês é verbo
encarnado, é o poema, a abertura para o texto literário: a origem da poesia.
Introspecção, prospecção e retrospecção,
Invenção de Orfeu
é mundividência,
expressão do Cosmos. Experiêncioa e conhecimento. Inês surge como poesia,
unida, transubstanciada:
Porém penumbra vaga ou talvez acha
90
LEAL, Cláudio Murilo.
Invenção de Orfeu
: uma nebulosa cosmogonia”. In: LIMA, Jorge de.
Invenção de Orfeu
. Rio de Janeiro: Record, 2005, p.7.
91
LIMA, Jorge de.
Invenção de Orfeu
. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 359.
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74
celeste consumindo-se, também
a própria conceição parindo baixa
a real prole; de súbito ninguém
nessas longínquas órbitas que enfaixa
com seus cabelos, ela-a-mais-de-cem,
a mais de mil, Inês amorfa e aresta,
Inês a só, mas logo a sempre festa.
Inês que fulge quando o dia brilha
ou se acinzenta quando o ocaso avança,
rainha negra, mãe e branca filha,
entre arcanjos do céu etérea dança,
e nos dias dos mundos andarilha,
andar incandescente que não cansa
poema aparentemente muitos poemas,
mas infância perene, tema em temas.
92
Jorge de Lima confirma o que previu Garcia de Resende: a glória de Inês é
tornar-se texto. O galardão do amor é morrer e, na morte, renascer em re-criação.
É Orfeu, o poeta-homem-criador que transforma Inês nas mil faces, amorfas,
atéreas, eternas. A visão que o sujeito-lírico tem de Inês é uma espécie de
iniciação poética. Uma viagem iniciática. Contemplar Inês é contemplar a própria
poesia. Esta poesia que é libertadora dos sentidos, porque ela, Inês, a “musa Inês,
assim o é pela força da criação literária. Como poesia, está além do tempo, porque
não finda; está para além do espaço, porque atravessa fronteiras.
É o vislumbre da Máquina do Mundo. Inês é poesia, Inês é revelação. O
olhar é o elo entre o menino e a musa:
Ela fechada virgem, via-a em rio;
eu era os meus sete anos, vendo-a vejo
a própria poesia que surgiu
intemporal, poesia que antevejo,
poesia que me vê, verá, me viu,
ó mar sempre passando em que que velejo
eu próprio outro marujo e outro oceano
em redor do marujo trasmontano.
Meu pai te lia, ó página de insânia!
E eu escutava, como se findasses.
Findasses? Se tu eras a espontânea,
a musa aparecida de cem faces,
a além de mim e além da Lusitânia
como se além da página acenasses
aos que postos em teus desassossegos
cegam seus olhos por teus olhos cegos.
93
92
LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 359-360
93
LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 360.
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75
Comunhão com a existência, Inês é a epifania de muitos poetas. Inês refaz-
se simultaneamente, / obumbra os horizontes, cobre o poente. Resgate de um
passado, vislumbre para o futuro. É a libertação dos sentidos. Linguagem
primitiva e criação de outras é o mito que se cria.
Amou revelação, purificou-se,
nenhum amor descrito conseguiu
ensombrar-lhe de angústia o olhar doce.
Inês resplandecente, sempre estio,
conheceu-se em seus símbolos. Amou-se,
pois fora restituída. Coexistiu.
Chispa inventiva, Inês florida arena
marasmos espezinha. Altiva cena.
94
Poema sobre poemas,
Invenção de Orfeu
é a recriação constante da palavra,
do discurso. Da palavra em curso. Poesia recriada através de outras. É o que
Cláudio Murilo Leal chamou de um texto palimpsesto, que incorpora elementos
de uma prévia literatura. Isto é, em
Invenção de Orfeu
ressoam vozes pretéritas
95
.
Vozes de muitos poemas, de muitos poetas-deuses-criadores-de-mil-criaturas.
Poetas que, colhendo os doces frutos poéticos, encontraram Inês apenas Inês
fora do sossego. E com ela desassossegaram-se. Fusão entre sujeito e objeto.
Permanência de Inês entre a imaginação e a memória:
Inês da terra. Inês do céu. Inês.
Preferida dos anjos. Árdua rota,
conúbio consumado, antevivuvez.
Mas as amplidão sempre remota,
branca existência, face da sem tez.
Ontem forma palpável. Hoje ignota.
Eterna linda Inês, paz, desapego,
porta recriada para os sem-sossego.
[...]
Queimada viva, logo ressurrecta,
subversiva, refeita das fogueiras,
adelgaçada como início e meta;
as palavras e estrofes sobranceiras
narram seus gestos por um seu poeta
ultrapassado às musas derradeiras
da sempre linda Inês, paz, desapego,
94
LIMA, Jorge de.
Invenção de Orfeu
. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 361-362
95
LEAL, Cláudio Murilo.
Invenção de Orfeu
: uma nebulosa cosmogonia”. In: LIMA, Jorge de.
Invenção de Orfeu
. Rio de Janeiro: Record, 2005, p.13-14.
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76
porta da vida para os sem-sossego.
96
Inês de Castro é o tema de
A rainha arcaica
, de Ivan Junqueira. Como Jorge
de Lima, o poeta é instigado pelo mito inesiano, buscando reescrevê-lo – ou mais
exatamente, relê-lo, revitali-lo – seja na prosa poética de Fernão Lopes, nos
doces versos de Garcia de Resende ou nos de Camões. Os quatroze sonetos que
comem
A rainha arcaica
oferecem uma bela leitura desse mito que, transposto
da História, ganha contornos poéticos.
Para Ivan Junqueira, Toda esfinge exibe um signo / visível de seu enigma, /
embora quem o pressinta / jamais lhe decifre a escrita”. E assim o é com a sua
Inês. Instigando, provocando o leitor, o poeta retoma o lebre verso de Fernando
Pessoa, para quem o mytho é o nada que é tudo, apontando já para um caminho
de leitura desse mito que se renova a cada leitura.
A rainha indivisa, primeiro soneto, demonstra uma possível falência dos
desejos e das ações humanas:
E vendo-se a rainha despojada
de seus haveres ancestrais e a pátria,
sem feudo ou latifúndio as glebas fartas
agora à míngua, do calcâneo à escápula;
e vendo-se a monarca exígua e arcaica,
sem rei na alcova, tumba de alabastro,
distante já dos ais de suas aias
que entre águias e unicórnios fabulavam;
e a soberana assim posta em desgraça,
de eunucos e presságios rodeada,
lívida ao gume esguio das adagas,
de joelhos se pôs na orla das águas,
e as vagas lhe rasgaram a ilharga: tálamo
onde párias foram reis. E reis, vassalos.
97
Inês, desamparada e despojada de si mesma, exígua e arcaica descobre-se
morta em vida. Ela que ora defunta, / já foi infanta e bela como tantas. Em
ruína, de si própria se fez pântano. São os indícios da falência e do luto diante
de tudo o que é efêmero, transitório. Ivan Junqueira vem provar que o fazer
poético tem o poder de reverter o irreversível. A morte de Inês é o seu galardão,
atesta Garcia de Resende. A permanência de motivos poéticos é a vitória sobre a
morte, propõe Junqueira. O poeta, como herdeiro da poética inesiana, faz da
96
LIMA, Jorge de.
Invenção de Orfeu
. Rio de Janeiro: Record, 2005, p.363-364.
97
JUNQUEIRA, Ivan. A Rainha Arcaica. In.
Poesia reunida
. São Paulo: A Girafa, 2005, p.80.
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77
rainha
a sua
poesia
: o tema histórico tratado por Fernão Lopes, Garcia de
Resende, Camões e Jorge de Lima é convincentemente retomado por Ivan
Junqueira, que se insere assim numa das tradições mais caras à lírica luso-
brasileira.
98
O poema Eu era moça, menina..., glosando Garcia de Resende, tem como
enunciador a própria Inês de Castro. Viva embora morta e conhecedora de seu
destino:
Eu era moça, menina, em meus paços
muito honrada, por nome Inês de Castro,
quando o vi no Mondego, inquieto e esgalgo,
a sitiar-me a fímbria das espáduas.
Era o infante meu primo, ajaezado,
o dinasta afonsino com seus gládios,
seus cães de fino faro em meu encalço
no afã de decifrar-me a foz do orgasmo.
Ele se veio a mim como quem sabe
que à fêmea apraz o macho sem alarde.
Nada pediu. Quis-me. Fiz-lhe a vontade.
E a sorte, bem sabeis, lançada estava
quando o vi no Mondego (e já era tarde
para o perdão de Portugal e o Algarve).
99
Junqueira eleva ao mais alto patamar o pensamento de poetizar a História.
A poesia é revelação da condição e consagração de uma experiência histórica
concreta
100
, disse Octavio Paz. O soneto XII d
A rainha arcaica
Vai numas
andas... é a leitura do texto de Fernão Lopes que o poeta utiliza em epígrafe
Sempre o seu corpo foi per todo o caminho per antre círios acesos e
reconstitui a cena espantosa e majestosa da trasladação do cadáver de Inês:
Por entre a luz dos círios, sob a névoa,
navega o féretro de uma donzela.
Vai numas andas que os fidalgos levam
em lento périplo ao redor das glebas.
E voa assim por dezassete léguas
que entre Alcobaça e as serras se enovelam.
Vai leve o séqüito em seu curso aéreo
ao som do réquiem que sussurram os clérigos.
Flameja a infanta sobre um mar de flechas
e nave adentro flui rumo à capela,
98
TELES, Gilberto Mendonça. As duas vozes do poeta”. In. JUNQUEIRA, Ivan.
Poesia reunida
.
São Paulo: A Girafa, 2005, p.245.
99
JUNQUEIRA, Ivan. A Rainha Arcaica. In.
Poesia reunida
. São Paulo: A Girafa, 2005, p.82.
100
PAZ, Octavio.
El arco y la lira
. 3. ed. México: FCE, 1972, p. 231. (Ao citar, traduzi)
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78
cerca de Pedro, que na pedra a espera
e em pedra a entalha da coroa aos pés.
Descansa, Inês, longe dos reis terrestres,
pois que outro reino agora te celebra.
101
O mistério da criação poética é desenvolvido no último soneto: Inês: o
nome. Nele, o poeta apresenta uma Inês que é eterna e o que se configuraria
como um fim, passa a ser o princípio da vida poética. Eis o mistério da poesia, que
Ivan Junqueira nos revela nestes versos d
A rainha arcaica
:
Inês é nome que se pronuncia
para instigar ou seduzir prodígios,
é senha que as sibilas balbuciam
ao decifrar enigmas cabalísticos.
É mais do que isto: códice da língua,
raiz da fala, bulbo do lirismo.
É gênese da raça e do suplício,
arché do amor e substância prima.
É mais ainda: tálamo do espírito,
dessa alquimia de morrer em vida
e retornar na antítese do epílogo.
E quem disser que Inês é apenas mito
mente. E faz dela inútil pergaminho.
E da poesia um animal sem vísceras.
102
Sobre esse soneto Gilberto Mendonça Teles diz:
Aí estão as imagens primordiais da nossa história poética e, também, da história
poética de cada um, com seus traços, seus enxertos, seu horizonte cultural, a
raiz
da fala
e o seu matiz de fálus a ler-se também nessa bela imagem vegetal de um
bulbo do lirismo
, um caule subterrâneo engendrando a
gênese da raça
, na arché do
amor e do supcio, nessa morte que se transforma em poesia.
103
O legado inesiano encontra em Tatiana Alves a sua continuidade. Além de
ensaísta e leitora atenta das Literaturas de Língua Portuguesa é premiada escritora.
Segundo ela própria, “comete delitos poéticos há mais de vinte anos, e há sete
transgride também em prosa. Dos seus muitos delitos poéticos destacamos dois
poemas a que chamamos
Inesianas
: No rastro de Inêse No rastro de Inês II.
O primeiro deles, um constante mover de significantes e significados. Vamos à
leitura.
101
JUNQUEIRA, Ivan. A Rainha Arcaica. In.
Poesia reunida
. São Paulo: A Girafa, 2005, p.85.
102
JUNQUEIRA, Ivan. A Rainha Arcaica. In.
Poesia reunida
. São Paulo: A Girafa, 2005, p.86.
103
TELES, Gilberto Mendonça. As duas vozes do poeta”In. JUNQUEIRA, Ivan. In.
Poesia
reunida.
São Paulo: A Girafa, 2005, p.246
.
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79
Inês de Castro
Inês no claustro
Inês de quatro
Inês no rastro
Inesquecível
Inesgotável
Inexplorável
Inesperada
Inebriante
Inevitável
Inexplicável
Inestimável
Que lastimável!
Inês é Marta?
Inês é morta
E coroada
Rainha Inês,
Coroa a nós,
Funestas musas,
De insensatez
104
Tzvetan Todorov, ao descrever a arte como um sistema semiótico que
contém em si a marca das formas abstratas da linguagem, destaca que a literatura:
[...] tem a linguagem ao mesmo tempo como ponto de partida e de chegada; esta
lhe fornece tanto sua configuração abstrata quanto sua matéria perceptível, é ao
mesmo tempo mediadora e mediada. Por isso a literatura é não só o primeiro
campo a ser estudado a partir da linguagem, mas também o primeiro cujo
conhecimento pode lançar nova luz sobre as propriedades da própria linguagem.
105
Seguindo os passos de Todorov, No rastro de Inês” é uma nova luz
lançada sobre o mito inesiano. A eufonia dos versos é re-crião sígnica: o signo
semiológico é uma constante evocação a Inês. Esta que é signo em rotação,
esvaziado e preenchido, sucessivamente. Abraçando o que diz a História e
recriando o que dizem as lendas, o segundo poema No rastro de Inês II é a
glorificação de Inês em um trono póstumo. É aquilo que permanece após a morte,
frente à perene condição do homem a um tempo que se aborta:
104
ALVES, Tatiana. No rastro de Inês. In. Perfil 2006: poesia. Rio de Janeiro: Oficina Editores,
2005, p.75.
105
TODOROV, Tzvetan. Poética da Prosa. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p.32.
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80
Em seu colo de alabastro
Não há quem não se conforte
Esta foi Inês de Castro
Do amor fez seu suporte
Pelas armas de Cupido
Pedro a ela se transporta
Ao amor já convertido
Nada mais já lhe importa
Quis Fortuna que a cilada
Levasse Pedro em seu rastro
Descuidando da amada
Não há mais Inês de Castro
Pedro volta da jornada
E chora por sua rainha
A bela, de jóias ornada,
Rege o tom da ladainha
Coroada as a morte
Num futuro que se aborta
Uma póstuma consorte
Já é tarde: Inês é morta.
106
No rastro de Inês II” é a força da irreversibilidade da morte, retomando o
velho bordão: Já é tarde: Inês é morta. Mas ela, Inês, é a “póstuma consorte,
rainha depois de morta. Essa a garantia da sua volta nesse texto – em tantos textos.
Tatiana Alves atesta: Inês é mais que mito. É revelação poética a epifania de
muitos poetas.
106
ALVES, Tatiana. No rastro de Inês II. In. Poiesis 2006. Rio de Janeiro: Oficina Editores,
2006, p.88.
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5
Conclusão
D. Inês tomou conta das nossas almas. Liberta-se
do casulo carnal, transforma-se em luz, em
labaredas, em nascente viva. Entra nas vozes, nos
lugares. Nada é tão incorrupvel como a sua
morte.
(Herberto Helder, Teorema)
Denis de Rougemont diz que determinadas realidades humanas que
sentimos ou pressentimos como fundamentais estão fora do alcance da crítica. O
mito exprime essas realidades, na medida em que nosso instinto o exige”
107
. Ao
iniciarmos o nosso estudo, tomamos como ponto de partida a discussão de
aspectos histórico-culturais da “mitologia da saudade, advinda do episódio
inesiano. Lenda ou História, pouco importou qual a mais verdadeira. Importou-
nos entender que o Mito se ime à História, em um processo de transformação e
permanência, marcas de sua intemporalidade. Ao identificar-se com a Lenda,
torna-se indestrutível. Talvez por isso, o caráter trágico da história de Inês de
Castro seja fonte para a construção discursiva literária e artística – dando origem
a múltiplas interpretações, a múltiplas recriações.
A trágica história de Inês de Castro e D. Pedro tem sido, pois, fonte de
inspiração para diversas manifestões artísticas. Daí encontrarmos, em todas as
épocas e em diferentes línguas, libretos de óperas, peças de teatro, guiões
cinematográficos, pinturas, esculturas, composições líricas, romances, canções,
enfim, diversas manifestações de Arte que tomam como referência esta trágica
história de amor e morte, de tal maneira que destaca Maria Leonor Machado de
Sousa:
Tanto para a História quanto para a Literatura numa palavra, para a tradição a
verdade é que o episódio de Inês de Castro é algo que mais de seis séculos não
conseguiram ainda esgotar, e nessa medida se justifica que sobre ele se continue a
pensar e a escrever.
108
107
ROUGEMONT, Denis de. História do Amor no Ocidente. 2. ed. reform. São Paulo: Ediouro,
2003, p. 31.
108
SOUSA, Maria Leonor Machado de. Inês de Castro: um tema português na Europa. Lisboa:
Edições 70, 1987, p. 434.
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82
Inês não está morta, como não está morto o amor. Os amores vividos, as
lágrimas choradas encontraram eco nos tempos idos. Eco, aliás, tão forte que
ainda hoje podemos ouvi-lo. Já não há mais como apagar Inês da memória da
cultura e da História portuguesa. Na metafórica condição de relirio, é a guardiã
da
saudade
, reafirmando-se em cada época, pelas manifestões artísticas que
tanto lhe tiram do sossego.
Em nosso trabalho, detivemo-nos na lírica portuguesa, destacando os seus
nomes mais expressivos dos quais tomamos Garcia de Resende e Camões como
grandes mestres que buscavam focalizar um particular aspecto: a simbologia da
Saudade
. Inserimos nesse contexto António Patrício, cuja peça
Pedro, o Cru
é
símbolo máximo da assunção de Portugal a um reino que ultrapassa os limites do
plano físico, alcançando o plano espiritualizado da Saudade. Abrimos espaço para
algumas considerações sobre a projeção internacional deste episódio português. E
por que não optar pela Literatura Brasileira?
Outras obras pretendemos estudar em um passo posterior de nossa pesquisa,
que desde já anunciamos longa. António Ferreira (
Castro
), Agustina Bessa-Luís
(
Adivinhas de Pedro e Inês
), Rosa Lobato de Faria (
A trança de Inês
), António
Cândido Franco (
Memória de Inês de Castro
e
A rainha morta e o rei saudade
),
Fiama Hasse Pais Brandão (
Noites de Inês-Constança
) são alguns dos nomes que
destacamos. Estamos, portanto, longe de esgotar um tema que se quer inesgotável.
Fica aqui o nosso desejo de que as leituras que propusemos possam instigar
outras. E que as possíveis lacunas não sejam muitas.
Calamo-nos, enfim. Não porque não temos mais nada a dizer, mas por
preferirmos ficar como em uma prece silenciosa, com todos os sentidos
conectados ao que há de mais divino no mundo, no Homem. E no Silêncio de
nossa oração, talvez ouçamos as Filhas do Mondego entoarem hinos de amor em
memória da mísera e mesquinha, que por memória eterna, em fonte pura, / As
lágrimas choradas transformaram. Quem sabe até nos seja permitido beber destas
águas que são a origem de toda a nossa poesia. Portugal é uma fonte de Saudade.
E Inês tomou conta de nossas almas.
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6
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Anexo
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Fotocópia colorida de: SOUSA, Maria Leonor Machado de.
Inês de Castro: um
tema português na Europa
. Lisboa: Edições 70, 1987.
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