www.nead.unama.br
não obstante, um fiel servidor de Helena, seu advogado convicto nos julgamentos da
senzala.
As pessoas da intimidade da casa acolheram Helena com a mesma hesitação
de D. Úrsula. Helena sentiu-lhes a polidez fria e parcimoniosa. Longe de abater-se
ou vituperar os sentimentos sociais, explicava-os e tratava de os torcer em seu favor,
— tarefa em que se esmerou superando os obstáculos na família; o resto viria de si
mesmo.
Uma pessoa, entre os familiares da casa, não os acompanhou no
procedimento reservado e frio; foi o padre-mestre Melchior. Melchior era capelão em
casa do conselheiro, que mandara construir alguns anos antes uma capelinha na
chácara, onde muita gente da vizinhança ouvia missa aos domingos. Tinha sessenta
anos o padre; era homem de estatura mediana, magro, calvo, brancos os poucos
cabelos, e uns olhos não menos sagazes que mansos. De compostura quieta e
grave, austero sem formalismo, sociável sem mundanidade, tolerante sem fraqueza,
era o verdadeiro varão apostólico, homem de sua Igreja e de seu Deus, íntegro na
fé, constante na esperança, ardente na caridade. Conhecera a família do
conselheiro algum tempo depois do consórcio deste. Descobriu a causa da tristeza
que minou os últimos anos da mãe de Estácio; respeitou a tristeza, mas atacou
diretamente a origem. O conselheiro era homem geralmente razoável, salvo nas
coisas do amor; ouviu o padre, prometeu o que este lhe exigia, mas foi promessa
feita na areia; o primeiro vento do coração apagou a escritura. Entretanto, o
conselheiro ouvia-o sinceramente em todas as ocasiões graves, e o voto de Melchior
pesava em seu espírito. Morando na vizinhança daquela família, tinha ali o padre
todo o seu mundo. Se as obrigações eclesiásticas não o chamavam a outro lugar,
não se arredava de Andaraí, sítio de repouso após trabalhosa mocidade.
Das outras pessoas que freqüentavam a casa e residiam no mesmo bairro de
Andaraí, mencionaremos ainda o Dr. Matos, sua mulher, o coronel Macedo e dois
filhos.
O Dr. Matos era um velho advogado que, em compensação da ciência do
direito, que não sabia, possuía noções muito aproveitáveis de meteorologia e
botânica, da arte de comer, do voltarete, do gamão e da política. Era impossível a
ninguém queixar-se do calor ou do frio, sem ouvir dele a causa e a natureza de um e
outro, e logo a divisão das estações, a diferença dos climas, influência destes, as
chuvas, os ventos, a neve, as vazantes dos rios e suas enchentes, as marés e a
pororoca. Ele falava com igual abundância das qualidades terapêuticas de uma erva,
do nome científico de uma flor, da estrutura de certo vegetal e suas peculiaridades.
Alheio às paixões da política, se abria a boca em tal assunto era para criticar
igualmente de liberais e conservadores, — os quais todos lhe pareciam abaixo do
país. O jogo e a comida achavam-no menos céptico; e nada lhe avivava tanto a
fisionomia como um bom gamão depois de um bom jantar. Estas prendas faziam do
Dr. Matos um conviva interessante nas noites que o não eram. Posto soubesse
efetivamente alguma coisa dos assuntos que lhe eram mais prezados, não ganhou o
pecúlio que possuía, professando a botânica ou a meteorologia, mas aplicando as
regras do direito, que ignorou até à morte.
A esposa do Dr. Matos fora uma das belezas do primeiro reinado. Era uma
rosa fanada, mas conservava o aroma da juventude. Algum tempo se disse que o
conselheiro ardera aos pés da mulher do advogado, sem repulsa desta; mas só era
verdade a primeira parte do boato. Nem os princípios morais, nem o temperamento
de D. Leonor lhe consentiam outra coisa que não fosse repelir o conselheiro sem o
molestar. A arte com que o fez, iludiu os malévolos; daí o sussurro, já agora
esquecido e morto. A reputação dos homens amorosos parece-se muito com o juro
do dinheiro: alcançado certo capital, ele próprio se multiplica e avulta. O conselheiro