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Universidade da Amazônia
HelenaHelena
de de Machado de AssisMachado de Assis
NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Av. Alcindo Cacela, 287 – Umarizal
CEP: 66060-902
Belém – Pará
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Helena
de Machado de Assis
CAPÍTULO I
O conselheiro Vale morreu às 7 horas da noite de 25 de abril de 1859. Morreu
de apoplexia fulminante, pouco depois de cochilar a sesta, — segundo costumava
dizer, — e quando se preparava a ir jogar a usual partida de voltarete em casa de
um desembargador, seu amigo. O Dr. Camargo, chamado à pressa, nem chegou a
tempo de empregar os recursos da ciência; o padre Melchior não pôde dar-lhe as
consolações da religião: a morte fora instantânea.
No dia seguinte fez-se o enterro, que foi um dos mais concorridos que ainda
viram os moradores do Andaraí. Cerca de duzentas pessoas acompanharam o
finado até à morada última, achando-se representadas entre elas as primeiras
classes da sociedade. O conselheiro, posto não figurasse em nenhum grande cargo
do Estado, ocupava elevado lugar na sociedade, pelas relações adquiridas,
cabedais, educação e tradições de família. Seu pai fora magistrado no tempo
colonial, e figura de certa influência na corte do último vice-rei. Pelo lado materno
descendia de uma das mais distintas famílias paulistas. Ele próprio exercera dois
empregos, havendo-se com habilidade e decoro, do que lhe adveio a carta de
conselho e a estima dos homens públicos. Sem embargo do ardor político do tempo,
não estava ligado a nenhum dos dois partidos, conservando em ambos preciosas
amizades, que ali se acharam na ocasião de o dar à sepultura. Tinha, entretanto,
tais ou quais idéias políticas, colhidas nas fronteiras conservadoras e liberais,
justamente no ponto em que os dois domínios podem confundir-se. Se nenhuma
saudade partidária lhe deitou a última pá de terra, matrona houve, e não só uma,
que viu ir a enterrar com ele a melhor página da sua mocidade.
A família do conselheiro compunha-se de duas pessoas: um filho, o Dr.
Estácio, e uma irmã, D. Úrsula. Contava esta cinqüenta e poucos anos; era solteira;
vivera sempre com o irmão, cuja casa dirigia desde o falecimento da cunhada.
Estácio tinha vinte e sete anos, e era formado em matemáticas. O conselheiro
tentara encarreirá-lo na política, depois na diplomacia; mas nenhum desses projetos
teve começo de execução.
O Dr. Camargo, médico e velho amigo da casa, logo que regressou do
enterro, foi ter com Estácio, a quem encontrou no gabinete particular do finado, em
companhia de D. Úrsula. Também a dor tem suas volúpias; tia e sobrinho queriam
nutri-la com a presença dos objetos pessoais do morto, no lugar de suas predileções
quotidianas. Duas tristes luzes alumiavam aquela pequena sala. Alguns momentos
correram de profundo silêncio entre os três. O primeiro que o rompeu, foi o médico.
— Seu pai deixou testamento?
— Não sei, respondeu Estácio.
Camargo mordeu a ponta do bigode, duas ou três vezes, gesto que lhe era
habitual quando fazia alguma reflexão.
— É preciso procurá-lo, continuou ele. Quer que o ajude?
Estácio apertou-lhe afetuosamente a mão.
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— A morte de meu pai, disse o moço, não alterou nada as nossas relações.
Subsiste a confiança anterior, do mesmo modo que a amizade, já provada e antiga.
A secretária estava fechada; Estácio deu a chave ao médico; este abriu o
móvel sem nenhuma comoção exterior. Interiormente estava abalado. O que se lhe
podia notar nos olhos era uma viva curiosidade, expressão em que, aliás, nenhum
dos outros reparou. Logo que começou a revolver os papéis, a mão do médico
tornou-se mais febril. Quando achou o testamento, houve em seus olhos um breve
lampejo, a que sucedeu a serenidade habitual.
— É isso? perguntou Estácio.
Camargo não respondeu logo; olhou para o papel, como a querer adivinhar o
conteúdo. O silêncio foi muito demorado para não fazer impressão no moço, que
aliás nada disse, porque o atribuíra à comoção natural do amigo em tão dolorosas
circunstâncias.
— Sabem o que estará aqui dentro? disse enfim Camargo. Talvez uma lacuna
ou um grande excesso.
Nem Estácio, nem D. Úrsula, pediram ao médico a explicação de semelhantes
palavras. A curiosidade, porém, era natural, e o médico pode lê-la nos olhos de
ambos. Não lhes disse nada; entregou o testamento a Estácio, ergueu-se e deu
alguns passos na sala, absorvido em suas próprias reflexões, ora arranjando
maquinalmente um livro da estante, ora metendo a ponta do bigode entre os dentes,
com a vista queda, alheio de todo ao lugar e às pessoas.
Estácio rompeu o silêncio:
— Mas que lacuna ou que excesso é esse? perguntou ao médico.
Camargo parou diante do moço.
— Não posso dizer nada, respondeu ele. Seria inconveniente, antes de saber
as últimas disposições de seu pai.
D. Úrsula foi menos discreta que o sobrinho; após longa pausa, pediu ao
médico a razão de suas palavras.
— Seu irmão, disse este, era boa alma; tive tempo de o conhecer de perto e
apreciar-lhe as qualidades, que as tinha excelentes. Era seu amigo; sei que o era
meu. Nada alterou a longa amizade que nos unia, nem a confiança que ambos
depositávamos um no outro. Não quisera, pois, que o último ato de sua vida fosse
um erro.
— Um erro! exclamou D. Úrsula.
— Talvez um erro! suspirou Camargo.
— Mas, doutor, insistiu D. Úrsula, por que motivo nos não tranqüiliza o
espírito? Estou certa de que não se trata de um ato que desdoure meu irmão; alude
naturalmente a algum erro no modo de entender... alguma coisa, que eu ignoro o
que seja. Por que não fala claramente?
O médico viu que D. Úrsula tinha razão; e que, a não dizer mais nada, melhor
fora ter-se calado de todo. Tentou dissipar a impressão de estranheza que deixara
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no ânimo dos dois; mas da hesitação com que falava, concluiu Estácio que ele não
podia ir além do que havia dito.
— Não precisamos de explicação nenhuma, interveio o filho do conselheiro;
amanhã saberemos tudo.
Nessa ocasião entrou o padre Melchior. O médico saiu às 10 horas, ficando
de voltar no dia seguinte, logo cedo. Estácio, recolhendo-se ao quarto, murmurava
consigo:
— Que erro será esse? E que necessidade tinha ele de vir lançar-me este
enigma no coração?
A resposta, se pudesse ouvi-la, era dada nessa mesma ocasião pelo próprio
Dr. Camargo, ao entrar no carro que o esperava à porta:
— Fiz bem em preparar-lhes o espírito, pensou ele; o golpe, se o houver, há
de ser mais fácil de sofrer.
O médico ia só; além disso, era noite, como sabemos. Ninguém pôde ver-lhe
a expressão do rosto, que era fechada e meditativa. Exumou o passado e devassou
o futuro; mas de tudo o que reviu e anteviu, nada foi comunicado a ouvidos
estranhos.
As relações do Dr. Camargo com a família do conselheiro eram estreitas e
antigas, como dissera Estácio. O médico e o conselheiro tinham a mesma idade:
cinqüenta e quatro anos. Conheceram-se logo depois de tomado o grau, e nunca
mais afrouxara o laço que os prendera desde esse tempo.
Camargo era pouco simpático à primeira vista. Tinha as feições duras e frias,
os olhos perscrutadores e sagazes, de uma sagacidade incômoda para quem
encarava com eles, o que o não fazia atraente. Falava pouco e seco. Seus
sentimentos não vinham à flor do rosto. Tinha todos os visíveis sinais de um grande
egoísta; contudo, posto que a morte do conselheiro não lhe arrancasse uma lágrima
ou uma palavra de tristeza, é certo que a sentiu deveras. Além disso, amava sobre
todas as coisas e pessoas uma criatura linda, — a linda Eugênia, como lhe
chamava, — sua filha única e a flor de seus olhos; mas amava-a de um amor calado
e recôndito. Era difícil saber se Camargo professava algumas opiniões políticas ou
nutria sentimentos religiosos. Das primeiras, se as tinha, nunca deu manifestação
prática; e no meio das lutas de que fora cheio o decênio anterior, conservara-se
indiferente e neutral. Quanto aos sentimentos religiosos, a aferi-los pelas ações,
ninguém os possuía mais puros. Era pontual no cumprimento dos deveres de bom
católico. Mas só pontual; interiormente, era incrédulo.
Quando Camargo chegou a casa, no Rio Comprido, achou sua mulher, — D.
Tomásia, — meio adormecida numa cadeira de balanço e Eugênia ao piano,
executando um trecho de Bellini. Eugênia tocava com habilidade; e Camargo
gostava de a ouvir. Naquela ocasião, porém, disse ele, parecia pouco conveniente
que a moça se entregasse a um gênero de recreio qualquer. Eugênia obedeceu,
algum tanto de má vontade. O pai, que se achava ao pé do piano, pegou-lhe nas
mãos, logo que ela se levantou, e fitou-lhe uns olhos amorosos e profundos, como
ela nunca lhe vira.
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— Não fiquei triste pelo que me disse, papai, observou a moça. Tocava por
distrair-me. D. Úrsula como está? Ficou tão aflita! Mamãe queria demorar-se mais
tempo; mas eu confesso que não podia ver a tristeza daquela casa.
— Mas a tristeza é necessária à vida, acudiu D. Tomásia, que abrira os olhos
logo à entrada do marido. As dores alheias fazem lembrar as próprias, e são um
corretivo da alegria, cujo excesso pode engendrar o orgulho.
Camargo temperou esta filosofia, que lhe pareceu demasiado austera, com
algumas idéias mais acomodadas e risonhas.
— Deixemos a cada idade a sua atmosfera própria, concluiu ele, e não
antecipemos a da reflexão, que é tornar infelizes os que ainda não passaram do
puro sentimento.
Eugênia não compreendeu o que os dois haviam dito. Voltou os olhos para o
piano, com uma expressão de saudade. Com a mão esquerda, assim mesmo de pé,
extraiu vagamente três ou quatro notas das teclas suas amigas. Camargo tornou a
fitá-la com desusada ternura; a fronte sombria pareceu alumiar-se de uma irradiação
interior. A moça sentiu-se enlaçada nos braços dele; deixou-se ir. Mas a expansão
era tão nova, que ela ficou assustada e perguntou com voz trêmula:
— Aconteceu lá alguma coisa?
— Absolutamente nada, respondeu Camargo, dando-lhe um beijo na testa.
Era o primeiro beijo, ao menos o primeiro de que a moça tinha memória. A
carícia encheu-a de orgulho filial; mas a própria novidade dela impressionou-a mais.
Eugênia não creu no que lhe dissera o pai. Viu-o ir sentar-se ao pé de D. Tomásia e
conversarem em voz baixa. Aproximando-se, não interrompeu a conversa, que eles
continuaram no mesmo tom, e versava sobre assuntos puramente domésticos.
Percebeu-o; contudo, não ficou tranqüila. Na manhã seguinte escreveu um bilhete,
que foi logo caminho de Andaraí. A resposta, que lhe chegou às mãos no momento
em que provava um vestido novo, teve a cortesia de esperar que ela terminasse a
operação. Lida finalmente, dissipou todos os receios da véspera.
CAPÍTULO II
No dia seguinte, foi aberto o testamento com todas as formalidades legais. O
conselheiro nomeava testamenteiros Estácio, o Dr. Camargo e o padre Melchior. As
disposições gerais nada tinham que fosse notável: eram legados pios ou
beneficentes, lembranças a amigos, dotes a afilhados, missas por sua alma e pela
de seus parentes.
Uma disposição havia, porém, verdadeiramente importante. O conselheiro
declarava reconhecer uma filha natural, de nome Helena, havida com D. Ângela da
Soledade. Esta menina estava sendo educada em um colégio de Botafogo. Era
declarada herdeira da parte que lhe tocasse de seus bens, e devia ir viver com a
família, a quem o conselheiro instantemente pedia que a tratasse com desvelo e
carinho, como se de seu matrimônio fosse.
A leitura desta disposição causou natural espanto à irmã e ao filho do finado.
D. Úrsula nunca soubera de tal filha. Quanto a Estácio, ignorava menos que a tia.
Ouvira uma vez falar em uma filha de seu pai; mas tão vagamente que não podia
esperar aquela disposição testamentária.
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Ao espanto sucedeu em ambos outra e diferente impressão. D. Úrsula
reprovou de todo o ato do conselheiro. Parecia-lhe que, a despeito dos impulsos
naturais e licenças jurídicas, o reconhecimento de Helena era um ato de usurpação
e um péssimo exemplo. A nova filha era, no seu entender, uma intrusa, sem nenhum
direito ao amor dos parentes; quando muito, concordaria em que se lhe devia dar o
quinhão da herança e deixá-la à porta. Recebê-la, porém, no seio da família e de
seus castos afetos, legitimá-la aos olhos da sociedade, como ela estava aos da lei,
não o entendia D. Úrsula, nem lhe parecia que alguém pudesse entendê-lo. A
aspereza destes sentimentos tornou-se ainda maior quando lhe ocorreu a origem
possível de Helena. Nada constava da mãe, além do nome; mas essa mulher quem
era? em que atalho sombrio da vida a encontrara o conselheiro? Helena seria filha
de um encontro fortuito, ou nasceria de algum afeto irregular embora, mas
verdadeiro e único? A estas interrogações não podia responder D. Úrsula; bastava,
porém, que lhe surgissem no espírito, para lançar nele o tédio e a irritação.
D. Úrsula era eminentemente severa a respeito de costumes. A vida do
conselheiro, marchetada de aventuras galantes, estava longe de ser uma página de
catecismo; mas o ato final bem podia ser a reparação de leviandades amargas. Essa
atenuante não a viu D. Úrsula. Para ela, o principal era a entrada de uma pessoa
estranha na família.
A impressão de Estácio foi muito outra. Ele percebera a má vontade com que
a tia recebera a notícia do reconhecimento de Helena, e não podia negar a si
mesmo que semelhante fato criava para a família uma nova situação. Contudo,
qualquer que ela fosse, uma vez que seu pai assim o ordenava, levado por
sentimentos de eqüidade ou impulsos da natureza, ele a aceitava tal qual, sem
pesar nem reserva. A questão pecuniária pesou menos que tudo no espírito do
moço; não pesou nada. A ocasião era dolorosa demais para dar entrada a
considerações de ordem inferior, e a elevação dos sentimentos de Estácio não lhe
permitia inspirar-se delas. Quanto à camada social a que pertencia a mãe de
Helena, não se preocupou muito com isso, certo de que eles saberiam levantar a
filha até à classe a que ela ia subir.
No meio das reflexões produzidas pela disposição testamentária do
conselheiro, ocorreu a Estácio a conversa que tivera com o Dr. Camargo.
Provavelmente era aquele o ponto a que aludira o médico. Interrogado acerca de
suas palavras, Camargo hesitou um pouco; mas insistindo o filho do conselheiro:
— Aconteceu o que eu previa, um erro, disse ele. Não houve lacuna, mas
excesso. O reconhecimento dessa filha é um excesso de ternura, muito bonito, mas
pouco prático. Um legado era suficiente; nada mais. A estrita justiça...
— A estrita justiça é a vontade de meu pai, redargüiu Estácio.
— Seu pai foi generoso, disse Camargo; resta saber se podia sê-lo à custa de
direitos alheios.
— Os meus? Não os alego.
— Se os alegasse seria pouco digno da memória dele. O que está feito, está
feito. Uma vez reconhecida, essa menina deve achar nesta casa família e afetos de
família. Persuado-me de que ela saberá corresponder-lhes com verdadeira
dedicação...
— Conhece-a? inquiriu Estácio, cravando no médico uns olhos impacientes
de curiosidade.
— Vi-a três ou quatro vezes, disse este no fim de alguns segundos; mas era
então muito criança. Seu pai falava-me dela como de pessoa extremamente
afetuosa e digna de ser amada e admirada. Talvez fossem olhos de pai.
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Estácio desejara ainda saber alguma coisa acerca da mãe de Helena, mas
repugnou-lhe entrar em novas indagações, e tentou encarreirar a conversa para
outro assunto. Camargo, entretanto, insistiu:
— O conselheiro falou-me algumas vezes no projeto de reconhecer Helena;
procurei dissuadi-lo, mas sabe como era teimoso, acrescendo neste caso o natural
impulso de amor paterno. O nosso ponto de vista era diferente. Não me tenho por
homem mau; contudo, entendo que a sensibilidade não pode usurpar o que pertence
à razão.
Camargo proferiu estas palavras no tom seco e sentencioso que tão natural e
sem esforço lhe saía. A velha amizade dele e do finado era sabida de todos; a
intenção com que falava podia ser hostil à família? Estácio refletiu algum tempo no
conceito que acabava de ouvir ao médico, curta reflexão que por nenhum modo lhe
abalou a opinião já assentada e expressa. Seus olhos, grandes e serenos, como o
espírito que os animava, pousaram benevolamente no interlocutor.
— Não quero saber, disse ele, se há excesso na disposição testamentária de
meu pai. Se o há, é legítimo, justificável pelo menos; ele sabia ser pai; seu amor
dividia-se inteiro. Receberei essa irmã, como se fora criada comigo. Minha mãe faria
com certeza a mesma coisa.
Camargo não insistiu. Sobre ser esforço baldado dissuadir o moço daqueles
sentimentos, que aproveitava já agora discutir e condenar teoricamente a resolução
do conselheiro? Melhor era executá-la lealmente, sem hesitação nem pesar. Isso
mesmo declarou ele a Estácio, que o abraçou cordialmente. O médico recebeu o
abraço sem constrangimento, mas sem fervor.
Estácio ficara satisfeito consigo mesmo. Seu caráter vinha mais diretamente
da mãe que do pai. O conselheiro, se lhe descontarmos a única paixão forte que
realmente teve, a das mulheres, não lhe acharemos nenhuma outra saliente feição.
A fidelidade aos amigos era antes resultado do costume que da consistência dos
afetos. A vida correu-lhe sem crises nem contrastes; nunca achou ocasião de
experimentar a própria têmpera. Se a achasse, mostraria que a tinha mediana.
A mãe de Estácio era diferente; possuíra em alto grau a paixão, a ternura, a
vontade, uma grande elevação de sentimentos, com seus toques de orgulho,
daquele orgulho que é apenas irradiação da consciência. Vinculada a um homem
que, sem embargo do afeto que lhe tinha, despendia o coração em amores
adventícios e passageiros, teve a força de vontade necessária para dominar a
paixão e encerrar em si mesma todo o ressentimento. As mulheres que são apenas
mulheres, choram, arrufam-se ou resignam-se; as que têm alguma coisa mais do
que a debilidade feminina, lutam ou recolhem-se à dignidade do silêncio. Aquela
padecia, é certo, mas a elevação de sua alma não lhe permitia outra coisa mais do
que um procedimento altivo e calado. Ao mesmo tempo, como a ternura era
elemento essencial de sua organização, concentrou-a toda naquele único filho, em
quem parecia adivinhar o herdeiro de suas robustas qualidades.
Estácio recebera efetivamente de sua mãe uma boa parte destas. Não sendo
grande talento, deveu à vontade e à paixão do saber a figura notável que fez entre
seus companheiros de estudos. Entregara-se à ciência com ardor e afinco. Aborrecia
a política; era indiferente ao ruído exterior. Educado à maneira antiga e com
severidade e recato, passou da adolescência à juventude sem conhecer as
corrupções de espírito nem as influências deletérias da ociosidade; viveu a vida de
família, na idade em que outros, seus companheiros, viviam a das ruas e perdiam
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em coisas ínfimas a virgindade das primeiras sensações. Daí veio que, aos dezoito
anos, conservava ele tal ou qual timidez infantil, que só tarde perdeu de todo. Mas,
se perdeu a timidez, ficara-lhe certa gravidade não incompatível com os verdes anos
e muito própria de organizações como a dele. Na política seria talvez meio caminho
andado para subir aos cargos públicos; na sociedade, fazia que lhe tivessem
respeito, o que o levantava a seus próprios olhos. Convém dizer que não era essa
gravidade aquela coisa enfadonha, pesada e chata, que os moralistas asseveram
ser quase sempre um sintoma de espírito chocho; era uma gravidade jovial e
familiar, igualmente distante da frivolidade e do tédio, uma compostura do corpo e do
espírito, temperada pelo viço dos sentimentos e pela graça das maneiras, como um
tronco rijo e reto adornado de folhagens e flores. Juntava às outras qualidades
morais uma sensibilidade, não feminil e doentia, mas sóbria e forte; áspero consigo,
sabia ser terno e mavioso com os outros.
Tal era o filho do conselheiro; e se alguma coisa há ainda que acrescentar, é
que ele não cedia nem esquecia nenhum dos direitos e deveres que lhe davam a
idade e a classe em que nascera. Elegante e polido, obedecia à lei do decoro
pessoal, ainda nas menores partes dela. Ninguém entrava mais corretamente numa
sala; ninguém saía mais oportunamente. Ignorava a ciência das nugas, mas
conhecia o segredo de tecer um cumprimento.
Na situação criada pela cláusula testamentária do conselheiro, Estácio
aceitou a causa da irmã, a quem já via, sem a conhecer, com olhos diferentes dos
de Camargo e D. Úrsula. Esta comunicou ao sobrinho todas as impressões que lhe
deixara o ato do irmão. Estácio procurou dissipar-lhas; repetiu as reflexões opostas
ao médico; mostrou que, ao cabo de tudo, tratava-se de cumprir a derradeira
vontade de um morto.
— Bem sei que não há já agora outro remédio mais que aceitar essa menina
e obedecer às determinações solenes de meu irmão, disse D. Úrsula, quando
Estácio acabou de falar. Mas só isso; dividir com ela os meus afetos não sei que
possa nem deva fazer.
— Contudo, ela é do nosso mesmo sangue.
D. Úrsula ergueu os ombros como repelindo semelhante consangüinidade.
Estácio insistiu em trazê-la a mais benévolos sentimentos. Invocou, além da
vontade, a retidão do espírito de seu pai, que não havia dispor uma coisa contrária à
boa fama da família.
— Além disso, essa menina nenhuma culpa tem de sua origem, e visto que
meu pai a legitimou, convém que não se ache aqui como enjeitada. Que
aproveitaríamos com isso? Nada mais do que perturbar a placidez da nossa vida
interior. Vivamos na mesma comunhão de afetos; e vejamos em Helena uma parte
da alma de meu pai, que nos fica para não desfalcar de todo o patrimônio comum.
Nada respondeu a irmã do conselheiro. Estácio percebeu que não vencera os
sentimentos da tia, nem era possível consegui-lo por meio de palavras. Confiou ao
tempo essa tarefa. D. Úrsula ficou triste e só. Aparecendo Camargo daí a pouco, ela
confiou-lhe todo o seu modo de sentir, que o médico interiormente aprovava.
— Conheceu a mãe dela? perguntou a irmã do conselheiro.
— Conheci.
— Que espécie de mulher era?
— Fascinante.
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— Não é isso; pergunto-lhe se era mulher de ordem inferior, ou...
— Não sei; no tempo em que a vi, não tinha classe e podia pertencer a todas;
demais, não a tratei de perto.
— Doutor, disse D. Úrsula, depois de hesitar algum tempo; que me aconselha
que faça?
— Que a ame, se ela o merecer, e se puder.
— Oh! confesso-lhe que me há de custar muito! E merecê-lo-á? Alguma coisa
me diz ao coração que essa menina vem complicar a nossa vida; além disso, não
posso esquecer que meu sobrinho, herdeiro...
— Seu sobrinho aceita as coisas filosoficamente e até com satisfação. Não
compreendo a satisfação, mas concordo que nada mais há do que cumprir
textualmente a vontade do conselheiro. Não se deliberam sentimentos; ama-se ou
aborrece-se, conforme o coração quer. O que lhe digo é que a trate com
benevolência; e caso sinta em si algum afeto, não o sufoque; deixe-se ir com ele. Já
agora não se pode voltar atrás. Infelizmente!
Helena estava a concluir os estudos; semanas depois determinou a família
que ela viesse para a casa. D. Úrsula recusou a princípio ir buscá-la; convenceu-a
disso o sobrinho, e a boa senhora aceitou a incumbência depois de alguma
hesitação. Em casa foram-lhe preparados os aposentos; e marcou-se uma tarde de
segunda-feira para ser a moça trasladada a Andaraí. D. Úrsula meteu-se na
carruagem, logo depois de jantar. Estácio foi nesse dia jantar com o Dr. Camargo, no
Rio Comprido. Voltou tarde. Ao penetrar na chácara, deu com os olhos nas janelas
do quarto destinado a Helena; estavam abertas; havia alguém dentro. Pela primeira
vez sentiu Estácio a estranheza da situação criada pela presença daquela meia-irmã
e perguntou a si próprio se não era a tia quem tinha razão. Repeliu pouco depois
esse sentimento; a memória do pai restituiu-lhe a benevolência anterior. Ao mesmo
tempo, a idéia de ter uma irmã sorria-lhe ao coração como promessa de venturas
novas e desconhecidas. Entre sua mãe e as demais mulheres, faltava-lhe essa
criatura intermediária, que ele já amava sem conhecer, e que seria a natural
confidente de seus desalentos e esperanças. Estácio contemplou longo tempo as
janelas; nem o vulto de Helena apareceu ali, nem ele viu passar a sombra da
habitante nova.
CAPÍTULO III
Na seguinte manhã, Estácio levantou-se tarde e foi direito à sala de jantar,
onde encontrou D. Úrsula, pachorrentamente sentada na poltrona de seu uso, ao pé
de uma janela, a ler um tomo do Saint-Clair das ilhas, enternecida pela centésima
vez com as tristezas dos desterrados da ilha da Barra; boa gente e moralíssimo livro,
ainda que enfadonho e maçudo, como outros de seu tempo. Com ele matavam as
matronas daquela quadra muitas horas compridas do inverno, com ele se encheu
muito serão pacífico, com ele se desafogou o coração de muita lágrima
sobressalente.
— Veio? perguntou Estácio.
— Veio, respondeu a boa senhora, fechando o livro. O almoço esfria,
continuou ela, dirigindo-se à mucama que ali estava de pé, junto da mesa; já foram
chamar... nhanhã Helena?
— Nhanhã Helena disse que já vem.
— Há dez minutos, observou D. Úrsula ao sobrinho.
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— Naturalmente não tarda, respondeu este. Que tal?
D. Úrsula estava pouco habilitada a responder ao sobrinho. Quase não vira o
rosto de Helena; e esta, logo que ali chegou, recolheu-se ao aposento que lhe
deram, dizendo ter necessidade de repouso. O que D. Úrsula pôde afiançar foi
somente que a sobrinha era moça feita.
Ouviu-se descer a escada um passo rápido, e não tardou que Helena
aparecesse à porta da sala de jantar. Estácio estava então encostado à janela que
ficava em frente da porta e dava para a extensa varanda, donde se viam os fundos
da chácara. Olhou para a tia como esperando que ela os apresentasse um ao outro.
Helena detivera-se ao vê-lo.
— Menina, disse D. Úrsula com o tom mais doce que tinha na voz, este é meu
sobrinho Estácio, seu irmão.
— Ah! disse Helena, sorrindo e caminhando para ele. Estácio dera igualmente
alguns passos.
— Espero merecer sua afeição, disse ela depois de curta pausa. Peço
desculpa da demora; estavam à minha espera, creio eu...
— Íamos para a mesa agora mesmo, interrompeu D. Úrsula, como
protestando contra a idéia de que ela os fizesse esperar.
Estácio procurou corrigir a rudez da tia.
— Tínhamos ouvido o seu passo na escada, disse ele. Sentemo-nos, que o
almoço esfria.
D. Úrsula já estava sentada à cabeceira da mesa; Helena ficou à direita, na
cadeira que Estácio lhe indicou; este tomou lugar do lado oposto. O almoço correu
silencioso e desconsolado; raros monossílabos, alguns gestos de assentimento ou
recusa, tal foi o dispêndio da conversa entre os três parentes. A situação não era
cômoda nem vulgar. Helena, posto forcejasse por estar senhora de si, não
conseguia vencer de todo o natural acanhamento da ocasião. Mas, se o não vencia
de todo, podiam ver-se através dele certos sinais de educação fina. Estácio
examinou aos poucos a figura da irmã.
Era uma moça de dezesseis a dezessete anos, delgada sem magreza,
estatura um pouco acima de mediana, talhe elegante e atitudes modestas. A face,
de um moreno-pêssego, tinha a mesma imperceptível penugem da fruta de que
tirava a cor; naquela ocasião tingiam-na uns longes cor-de-rosa, a princípio mais
rubros, natural efeito do abalo. As linhas puras e severas do rosto parecia que as
traçara a arte religiosa. Se os cabelos, castanhos como os olhos, em vez de
dispostos em duas grossas tranças lhe caíssem espalhadamente sobre os ombros, e
se os próprios olhos alçassem as pupilas ao céu, disséreis um daqueles anjos
adolescentes que traziam a Israel as mensagens do Senhor. Não exigiria a arte
maior correção e harmonia de feições, e a sociedade bem podia contentar-se com a
polidez de maneiras e a gravidade do aspecto. Uma só coisa pareceu menos
aprazível ao irmão: eram os olhos, ou antes o olhar, cuja expressão de curiosidade
sonsa e suspeitosa reserva foi o único senão que lhe achou, e não era pequeno.
Acabado o almoço, trocadas algumas palavras, poucas e soltas, Helena
retirou-se ao seu quarto, onde durante três dias passou quase todas as horas, a ler
meia dúzia de livros que trouxera consigo, a escrever cartas, a olhar pasmada para o
ar, ou encostada ao peitoril de uma das janelas. Alguma vez desceu a jantar, com os
olhos vermelhos e a fronte pesarosa, apenas com um sorriso pálido e fugitivo nos
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lábios. Uma criança, subitamente transferida ao colégio, não desfolha mais
tristemente as primeiras saudades da casa de seus pais. Mas a asa do tempo leva
tudo; e ao cabo de três dias, já a fisionomia de Helena trazia menos sombrio
aspecto. O olhar perdeu a expressão que primeiro lhe achou o irmão, para tornar-se
o que era naturalmente, mavioso e repousado. A palavra saía-lhe mais fácil, seguida
e numerosa; a familiaridade tomou o lugar do acanhamento.
No quarto dia, acabado o almoço, Estácio encetou uma conversa geral, que
não passou de um simples duo, porque D. Úrsula contava os fios da toalha ou
brincava com as pontas do lenço que trazia ao pescoço. Como falassem da casa,
Estácio disse à irmã:
— Esta casa é tão sua como nossa; faça de conta que nascemos debaixo do
mesmo teto. Minha tia lhe dirá o sentimento que nos anima a seu respeito.
Helena agradeceu com um olhar longo e profundo. E dizendo que a casa e a
chácara lhe pareciam bonitas e bem dispostas, pediu a D. Úrsula que lhas fosse
mostrar mais detidamente. A tia fechou o rosto e secamente respondeu:
— Agora não, menina; tenho por hábito descansar e ler.
— Pois eu lerei para a senhora ouvir, replicou a moça com graça; não é bom
cansar os seus olhos; e, além disso, é justo que me acostume a servi-la. Não acha?
continuou ela, voltando-se para Estácio.
— É nossa tia, respondeu o moço.
— Oh! ainda não é minha tia! interrompeu Helena. Há de sê-lo quando me
conhecer de todo. Por enquanto somos estranhas uma à outra; mas nenhuma de
nós é má.
Estas palavras foram ditas em tom de graciosa submissão. A voz com que ela
as proferiu, era clara, doce, melodiosa; melhor do que isso, tinha um misterioso
encanto, a que a própria D. Úrsula não pôde resistir.
— Pois deixe que a convivência faça falar o coração, respondeu a irmã do
conselheiro em tom brando. Não aceito o oferecimento da leitura, porque não
entendo bem o que os outros me lêem; tenho os olhos mais inteligentes que os
ouvidos. Entretanto, se quer ver a casa e a chácara, seu irmão pode conduzi-la.
Estácio declarou-se pronto para acompanhar a irmã. Helena, entretanto,
recusou. Irmão embora, era a primeira vez que o via, e, ao que parece, a primeira
que podia achar-se a sós com um homem que não seu pai. D. Úrsula, talvez porque
preferisse ficar só algum tempo, disse-lhe secamente que fosse. Helena
acompanhou o irmão. Percorreram parte da casa, ouvindo a moça as explicações
que lhe dava Estácio e inquirindo de tudo com zelo e curiosidade de dona da casa.
Quando chegaram à porta do gabinete do conselheiro, Estácio parou.
— Vamos entrar num lugar triste para mim, disse ele.
— Que é?
— O gabinete de meu pai.
— Oh! deixe ver!
Entraram os dois. Tudo estava do mesmo modo que no dia em que o
conselheiro falecera. Estácio deu algumas indicações relativas ao teor da vida
doméstica de seu pai; mostrou-lhe a cadeira em que ele costumava ler, de tarde e
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de manhã; os retratos de família, a secretária, as estantes; falou de quanto podia
interessá-la. Sobre a mesa, perto da janela, estava ainda o último livro que o
conselheiro lera: eram as Máximas do marquês de Maricá. Helena pegou nele e
beijou a página aberta. Uma lágrima brotou-lhe dos olhos, quente de todo o calor de
uma alma apaixonada e sensível; brotou, deslizou-se e foi cair no papel.
— Coitado! murmurou ela.
Depois sentou-se na mesma cadeira em que o conselheiro costumava dormir
alguns minutos depois de jantar, e olhou para fora. O dia começava a aquecer. O
arvoredo dos morros fronteiros estava coberto de flores-da-quaresma, com suas
pétalas roxas e tristemente belas. O espetáculo ia com a situação de ambos. Estácio
deixou-se levar ao sabor de suas recordações da meninice. De envolta com elas
veio pousar-lhe ao lado a figura de sua mãe; tornou a vê-la, tal qual se lhe fora dos
braços, uma crua noite de outubro, quando ele contava dezoito anos de idade. A boa
senhora morrera quase moça, — ainda bela, pelo menos, — daquela beleza sem
outono, cuja primavera tem duas estações.
Helena ergueu-se.
— Gostava dele? perguntou ela.
— Quem não gostaria dele?
— Tem razão. Era uma alma grande e nobre; eu adorava-o. Reconheceu-me;
deu-me família e futuro; levantou-me aos olhos de todos e aos meus próprios. O
resto depende de mim, do juízo que eu tiver, ou talvez da fortuna.
Esta última palavra saiu-lhe do coração como um suspiro. Depois de alguns
segundos de silêncio, Helena enfiou o braço no do irmão e desceram à chácara.
Fosse influência do lugar ou simples mobilidade de espírito, Helena tornou-se logo
outra do que se revelara no gabinete do pai. Jovial, graciosa e travessa, perdera
aquela gravidade quieta e senhora de si com que aparecera na sala de jantar; fez-se
lépida e viva, como as andorinhas que antes, e ainda agora, esvoaçavam por meio
das árvores e por cima da grama. A mudança causou certo espanto ao moço; mas
ele a explicou de si para si, e em todo o caso não o impressionou mal. Helena
pareceu-lhe naquela ocasião, mais do que antes, o complemento da família. O que
ali faltava era justamente o gorjeio, a graça, a travessura, um elemento que
temperasse a austeridade da casa e lhe desse todas as feições necessárias ao lar
doméstico. Helena era esse elemento complementar.
A excursão durou cerca de meia hora. D. Úrsula viu-os chegar, ao cabo desse
tempo, familiares e amigos, como se houvessem sido criados juntos. As
sobrancelhas grisalhas da boa senhora contraíram-se, e o lábio inferior recebeu uma
dentada de despeito.
— Titia... disse Estácio jovialmente; minha irmã conhece já a casa toda e suas
dependências. Resta somente que lhe mostremos o coração.
D. Úrsula sorriu, um sorriso amarelo e acanhado, que apagou nos olhos da
moça a alegria que os tornava mais lindos. Mas foi breve a má impressão; Helena
caminhou para a tia, e pegando-lhe nas mãos, perguntou com toda a doçura da voz:
— Não quererá mostrar-me o seu?
— Não vale a pena! respondeu D. Úrsula com afetada bonomia; coração de
velha é casa arruinada.
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— Pois as casas velhas consertam-se, replicou Helena sorrindo.
D. Úrsula sorriu também; desta vez porém, com expressão melhor. Ao mesmo
tempo, fitou-a; e era a primeira vez que o fazia. O olhar, a princípio indiferente,
manifestou logo depois a impressão que lhe causava a beleza da moça. D. Úrsula
retirou os olhos; porventura receou que o influxo das graças de Helena lhe
torcessem o coração, e ela queria ficar independente e inconciliável.
CAPÍTULO IV
As primeiras semanas correram sem nenhum sucesso notável, mas ainda
assim interessantes. Era, por assim dizer, um tempo de espera, de hesitação, de
observação recíproca, um tatear de caracteres, em que de uma e de outra parte
procuravam conhecer o terreno e tomar posição. O próprio Estácio, não obstante a
primeira impressão, recolhera-se a prudente reserva, de que o arrancou aos poucos
o procedimento de Helena.
Helena tinha os predicados próprios a captar a confiança e a afeição da
família. Era dócil, afável, inteligente. Não eram estes, contudo, nem ainda a beleza,
os seus dotes por excelência eficazes. O que a tornava superior e lhe dava
probabilidade de triunfo, era a arte de acomodar-se às circunstâncias do momento e
a toda a casta de espíritos, arte preciosa, que faz hábeis os homens e estimáveis as
mulheres. Helena praticava de livros ou de alfinetes, de bailes ou de arranjos de
casa, com igual interesse e gosto, frívola com os frívolos, grave com os que o eram,
atenciosa e ouvida, sem entono nem vulgaridade. Havia nela a jovialidade da
menina e a compostura da mulher feita, um acordo de virtudes domésticas e
maneiras elegantes.
Além das qualidades naturais, possuía Helena algumas prendas de
sociedade, que a tornavam aceita a todos, e mudaram em parte o teor da vida da
família. Não falo da magnífica voz de contralto, nem da correção com que sabia usar
dela, porque ainda então, estando fresca a memória do conselheiro, não tivera
ocasião de fazer-se ouvir. Era pianista distinta, sabia desenho, falava correntemente
a língua francesa, um pouco a inglesa e a italiana. Entendia de costura e bordados e
toda a sorte de trabalhos feminis. Conversava com graça e lia admiravelmente.
Mediante os seus recursos, e muita paciência, arte e resignação, — não humilde,
mas digna, — conseguia polir os ásperos, atrair os indiferentes e domar os hostis.
Pouco havia ganho no espírito de D. Úrsula; mas a repulsa desta já não era
tão viva como nos primeiros dias. Estácio cedeu de todo, e era fácil; seu coração
tendia para ela, mais que nenhum outro. Não cedeu, porém, sem alguma hesitação
e dúvida. A flexibilidade do espírito da irmã afigurou-se-lhe a princípio mais calculada
que espontânea. Mas foi impressão que passou. Dos próprios escravos não obteve
Helena desde logo a simpatia e boa vontade; esses pautavam os sentimentos pelos
de D. Úrsula. Servos de uma família, viam com desafeto e ciúme a parenta nova, ali
trazida por um ato de generosidade. Mas também a esses venceu o tempo. Um só
de tantos pareceu vê-la desde princípio com olhos amigos; era um rapaz de
dezesseis anos, chamado Vicente, cria da casa e particularmente estimado do
conselheiro. Talvez esta última circunstância o ligou desde logo à família do seu
senhor. Despida de interesse, porque a esperança da liberdade, se a podia haver,
era precária e remota, a afeição de Vicente não era menos viva e sincera; faltando-
lhe os gozos próprios do afeto, — a familiaridade e o contato, — condenado a viver
da contemplação e da memória, a não beijar sequer a mão que o abençoava,
limitado e distanciado pelos costumes, pelo respeito e pelos instintos, Vicente foi,
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não obstante, um fiel servidor de Helena, seu advogado convicto nos julgamentos da
senzala.
As pessoas da intimidade da casa acolheram Helena com a mesma hesitação
de D. Úrsula. Helena sentiu-lhes a polidez fria e parcimoniosa. Longe de abater-se
ou vituperar os sentimentos sociais, explicava-os e tratava de os torcer em seu favor,
— tarefa em que se esmerou superando os obstáculos na família; o resto viria de si
mesmo.
Uma pessoa, entre os familiares da casa, não os acompanhou no
procedimento reservado e frio; foi o padre-mestre Melchior. Melchior era capelão em
casa do conselheiro, que mandara construir alguns anos antes uma capelinha na
chácara, onde muita gente da vizinhança ouvia missa aos domingos. Tinha sessenta
anos o padre; era homem de estatura mediana, magro, calvo, brancos os poucos
cabelos, e uns olhos não menos sagazes que mansos. De compostura quieta e
grave, austero sem formalismo, sociável sem mundanidade, tolerante sem fraqueza,
era o verdadeiro varão apostólico, homem de sua Igreja e de seu Deus, íntegro na
fé, constante na esperança, ardente na caridade. Conhecera a família do
conselheiro algum tempo depois do consórcio deste. Descobriu a causa da tristeza
que minou os últimos anos da mãe de Estácio; respeitou a tristeza, mas atacou
diretamente a origem. O conselheiro era homem geralmente razoável, salvo nas
coisas do amor; ouviu o padre, prometeu o que este lhe exigia, mas foi promessa
feita na areia; o primeiro vento do coração apagou a escritura. Entretanto, o
conselheiro ouvia-o sinceramente em todas as ocasiões graves, e o voto de Melchior
pesava em seu espírito. Morando na vizinhança daquela família, tinha ali o padre
todo o seu mundo. Se as obrigações eclesiásticas não o chamavam a outro lugar,
não se arredava de Andaraí, sítio de repouso após trabalhosa mocidade.
Das outras pessoas que freqüentavam a casa e residiam no mesmo bairro de
Andaraí, mencionaremos ainda o Dr. Matos, sua mulher, o coronel Macedo e dois
filhos.
O Dr. Matos era um velho advogado que, em compensação da ciência do
direito, que não sabia, possuía noções muito aproveitáveis de meteorologia e
botânica, da arte de comer, do voltarete, do gamão e da política. Era impossível a
ninguém queixar-se do calor ou do frio, sem ouvir dele a causa e a natureza de um e
outro, e logo a divisão das estações, a diferença dos climas, influência destes, as
chuvas, os ventos, a neve, as vazantes dos rios e suas enchentes, as marés e a
pororoca. Ele falava com igual abundância das qualidades terapêuticas de uma erva,
do nome científico de uma flor, da estrutura de certo vegetal e suas peculiaridades.
Alheio às paixões da política, se abria a boca em tal assunto era para criticar
igualmente de liberais e conservadores, — os quais todos lhe pareciam abaixo do
país. O jogo e a comida achavam-no menos céptico; e nada lhe avivava tanto a
fisionomia como um bom gamão depois de um bom jantar. Estas prendas faziam do
Dr. Matos um conviva interessante nas noites que o não eram. Posto soubesse
efetivamente alguma coisa dos assuntos que lhe eram mais prezados, não ganhou o
pecúlio que possuía, professando a botânica ou a meteorologia, mas aplicando as
regras do direito, que ignorou até à morte.
A esposa do Dr. Matos fora uma das belezas do primeiro reinado. Era uma
rosa fanada, mas conservava o aroma da juventude. Algum tempo se disse que o
conselheiro ardera aos pés da mulher do advogado, sem repulsa desta; mas só era
verdade a primeira parte do boato. Nem os princípios morais, nem o temperamento
de D. Leonor lhe consentiam outra coisa que não fosse repelir o conselheiro sem o
molestar. A arte com que o fez, iludiu os malévolos; daí o sussurro, já agora
esquecido e morto. A reputação dos homens amorosos parece-se muito com o juro
do dinheiro: alcançado certo capital, ele próprio se multiplica e avulta. O conselheiro
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desfrutou essa vantagem, de maneira que, se no outro mundo lhe levassem à
coluna dos pecados todos os que lhe atribuíam na terra, receberia dobrado castigo
do que mereceu.
O coronel Macedo tinha a particularidade de não ser coronel. Era major.
Alguns amigos, levados de um espírito de retificação, começaram a dar-lhe o título
de coronel, que a princípio recusou, mas que afinal foi compelido a aceitar, não
podendo gastar a vida inteira a protestar contra ele. Macedo tinha visto e vivido
muito; e, sobre o pecúlio da experiência, possuía imaginação viva, fértil e agradável.
Era bom companheiro, folgazão e comunicativo, pensando sério quando era preciso.
Tinha dois filhos, um rapaz de vinte anos, que estudava em São Paulo, e uma moça
de vinte e três, mais prendada que formosa.
Nos primeiros dias de agosto a situação de Helena podia dizer-se
consolidada. D. Úrsula não cedera de todo, mas a convivência ia produzindo seus
frutos. Camargo era o único irreconciliável; sentia-se, através de suas maneiras
cerimoniosas, uma aversão profunda, prestes a converter-se em hostilidade, se
fosse preciso. As demais pessoas, não só domadas, mas até enfeitiçadas, estavam
às boas com a filha do conselheiro. Helena tornara-se o acontecimento do bairro;
seus ditos e gestos eram o assunto da vizinhança e o prazer dos familiares da casa.
Por uma natural curiosidade, cada um procurava em suas reminiscências um fio
biográfico da moça; mas do inventário retrospectivo ninguém tirava elementos que
pudessem construir a verdade ou uma só parcela que fosse. A origem da moça
continuava misteriosa; vantagem grande, porque o obscuro favorecia a lenda, e
cada qual podia atribuir o nascimento de Helena a um amor ilustre ou romanesco, —
hipóteses admissíveis, e em todo o caso agradáveis a ambas as partes.
CAPÍTULO V
Por esse tempo resolveu Estácio dar um passo decisivo. Ligado por amor à
filha de Camargo, desde antes da morte do conselheiro, hesitara sempre em pedi-la
ao pai, diferindo a resolução para quando fosse propício o ensejo. A condição não
era fácil, porque o sentimento que ele nutria em relação a Eugênia tinha alternativas
de tibieza e fervor. A causa disso pode crer-se estava também em seu coração; mas
principalmente residia nela. Num dos primeiros dias de agosto, assentara Estácio de
ir solicitar de Eugênia autorização para fazer oficialmente o pedido. Assim disposto,
dirigiu-se à casa de Camargo.
Mal o avistou de longe, desceu Eugênia à porta do jardim. O chapelinho de
palha, de abas largas, que lhe protegia o rosto dos raios do sol, — eram três horas
da tarde, — tornava mais bela a figura da moça. Eugênia era uma das mais
brilhantes estrelas entre as menores do céu fluminense. Agora mesmo, se o leitor
lhe descobrir o perfil em camarote de teatro, ou se a vir entrar em alguma sala de
baile, compreenderá, — através de um quarto de século, — que os contemporâneos
de sua mocidade lhe tivessem louvado, sem contraste, as graças que então
alvoreciam com o frescor e a pureza das primeiras horas.
Era de pequena estatura; tinha os cabelos de um castanho escuro, e os olhos
grandes e azuis, dois pedacinhos do céu, abertos em rosto alvo e corado; o corpo,
levemente refeito, era naturalmente elegante; mas se a dona sabia vestir-se com
luxo, e até com arte, não possuía o dom de alcançar os máximos efeitos com os
meios mais simples.
Estácio contemplou-a namorado sem ousar dizer palavra; a primeira que lhe
ia sair dos lábios, era justamente o pedido que o levava ali. Mas Eugênia deteve-lha,
mostrando o anel que a madrinha, fazendeira de Cantagalo, lhe mandara na
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véspera. Era uma opala magnífica, a tal ponto que Eugênia dividia os olhos entre o
namorado e ela. Esta simultaneidade esfriou o mancebo. Entraram ambos em casa,
onde D. Tomásia os esperava. A mãe de Eugênia sabia combinar o decoro com os
desejos de seu coração; não seria obstáculo aos dois namorados; infelizmente, a
presença de duas visitas veio destruir o cálculo dos três. Estácio espreitava uma
ocasião de pedir a Eugênia a autorização que desejava; até ao jantar não se lhe
deparou nenhuma.
Desceram todos ao jardim. D. Tomásia entreteve uma das visitas; Camargo
foi mostrar à outra a sua coleção de flores. Estácio e Eugênia afastaram-se
cautelosamente dos dois grupos, a pretexto de não sei que flor aberta na manhã
daquele dia. A flor existia; Eugênia colheu-a e deu a Estácio.
— Não vá perdê-la; há de entregá-la a Helena da minha parte. Diga-lhe que
estou com muitas saudades.
Estácio colocou a flor na botoeira.
— Vai cair! disse Eugênia. Quer que pregue um alfinete?
Estácio não teve tempo de responder, porque a filha de Camargo, tirando um
alfinete do cinto, prendeu o pé da flor, gastando muito mais tempo do que o exigia a
operação. A moça não era míope; todavia aproximou de tal modo a cabeça ao peito
do mancebo, que este teve ímpetos de lhe beijar os cabelos, e seria a primeira vez
que seus lábios lhe tocassem.
— Pronto! disse ela. Diga a Helena que é a flor mais bonita do nosso jardim.
— Sabe que eu gosto muito de sua irmã?
— Acredito.
— Suponho que é minha amiga; há de sê-lo com certeza. Oh! eu preciso
muito de uma amiga verdadeira!
— Sim?
— Muito! Tenho tantas que não prestam para nada, e só me dão desgostos,
como Cecília... Se soubesse o que ela me fez!
— Que foi?
Eugênia desfiou uma historiazinha de toucador, que omito em suas
particularidades por não interessar ao nosso caso, bastando saber que a razão
capital da divergência entre as duas amigas fora uma opinião de Cecília acerca da
escolha de um chapéu.
Estácio não escutou a história com a atenção que a moça desejara; limitou-se
a ouvir a voz de Eugênia, que era na verdade angélica. Alguma coisa porém lhe
ficou; e quando ela pôs termo às suas queixas:
— O que me parece, observou o sobrinho de D. Úrsula, é que não valia a
pena brigar por tão pouca coisa...
— Pouca coisa! exclamou Eugênia. Parece-lhe pouco chamar-me caprichosa
e de mau gosto?
— Fez mal, se o disse, em todo o caso...
Estácio fez uma pausa e continuou a andar. Eugênia esperou que ele
continuasse o que ia dizer; mas o silêncio prolongou-se mais do que era natural.
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— Em todo o caso? repetiu a moça erguendo para ele os olhos límpidos e
curiosos.
— Eugênia, disse Estácio, quer saber a verdadeira razão do mau sucesso de
suas afeições? É deixar-se levar mais pelas aparências que pela realidade; é porque
dá menos apreço às qualidades sólidas do coração do que às frívolas exterioridades
da vida. Suas amizades são das que duram a roda de uma valsa, ou, quando muito,
a moda de um chapéu; podem satisfazer o capricho de um dia, mas são estéreis
para as necessidades do coração.
— Jesus! exclamou Eugênia, estacando o passo; um sermão por tão pouca
coisa! Se tivesse algum pedaço de latim, era o mesmo que estar ouvindo o padre
Melchior.
Estácio não respondeu; contentou-se com erguer os ombros, e os dois
continuaram a andar silenciosamente, acanhados e descontentes um do outro. A
diferença é que o enfado de Eugênia se manifestava por um movimento nervoso de
impaciência e despeito.
— Se o ofendi, perdoe-me, disse ela, com um leve tom de ironia.
— Oh! exclamou ele apertando-lhe a mão, como quem só esperava um
pretexto para reatar a conversa interrompida.
— Talvez ofendesse, continuou a moça; eu sei dizer as coisas como elas me
vêm à boca, e parece que não são as mais acertadas...
— Não digo que o sejam sempre, replicou Estácio sorrindo. Agora, pelo
menos, foi um pouco precipitada em zombar do que eu lhe dizia, que era justo e de
boa intenção. Francamente, é para lastimar uma amizade, ganha entre duas
quadrilhas e perdida por causa de um chapéu? Não vale a pena esperdiçar afetos,
Eugênia; sentirá mais tarde que essa moeda do coração não se deve nunca reduzir
a trocos miúdos nem despender em quinquilharias.
Eugênia ouviu calada as palavras do moço; não as entendeu muito. Sabia-
lhes a significação; não lhes viu porém nexo nem sentido; sobretudo, não lhes sentiu
a aplicação. O que a irritou mais foi o tom pedagogo de Estácio; estouvada e
voluntariosa, não admitia que ninguém lhe falasse sem submissão ou a
repreendesse por atos seus, que ela julgava legítimos e naturais. A insistência do
moço foi o ponto de partida a um desses arrufos, não raros entre amantes, e comuns
entre aqueles dois. Os de Eugênia não eram simples silêncios; seu espírito rebelde e
livre não adormecia nesses momentos de enfado; pelo contrário, irritava-se e
traduzia a irritação por meio de pirraças e acessos de mau humor. Estácio viu
murmurar, crescer e desabar a tempestade. A moça articulava algumas frases
soltas, batia no chão com o pezinho mimoso, que por acaso esmagou uma pobre
erva, alheia às divergências morais daquelas duas criaturas. Ora parava e
desandava o caminho; mas logo se dirigia para o moço, com as pálpebras trêmulas
de cólera e um remoque nos lábios; comprazia-se em torcer a ponta da manga ou
morder a ponta do dedo. Estácio, afeito a essas explosões, não lhes sabia remédio
próprio: tanto o silêncio como a réplica eram ali matérias inflamáveis. Contudo, o
silêncio era o menor dos dois perigos. Estácio limitava-se a ouvir calado, olhando à
sorrelfa para a filha de Camargo, cujo rosto parecia mais belo quando a raiva o
coloria. Uma terceira pessoa era a única esperança de pacificação; Estácio alongou
o olhar pelo jardim em busca desse deus ex-machina. Apareceu ele enfim sob a
forma de um Carlos Barreto, — estudante de medicina, que cultivava
simultaneamente a patologia e a comédia, mas prometia ser melhor Esculápio que
Aristófanes. Mal os viu de longe, apertou o passo para o grupo.
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— Vem gente, Eugênia, disse Estácio; não demos espetáculos e...perdoe-me.
Eugênia ergueu os ombros, procurou com os olhos o intruso que daí a pouco
lhes estendia a mão.
O céu não ficou logo claro; mas o vento amainou, e era de esperar que o sol
se desfizesse enfim do seu capote de nuvens. Carlos Barreto deu a Eugênia a
agradável notícia de que trouxera a seu pai um convite para o baile que daria no
sábado próximo uma de suas parentas. A perspectiva do baile foi uma brisa salutar
que dispersou o resto das nuvens; Eugênia sorriu. J’ai ri; me voilà désarmée, como
na comédia de Piron. Vinte minutos depois, não havia em Eugênia vestígio da cena
do jardim. Mas a idéia do casamento estava adiada.
O efeito foi agro e doce para Estácio. Estimando ver dissipada a cólera, doía-
lhe que a causa fosse, não a própria virtude do amor, mas um motivo
comparativamente fútil. A resolução de a consultar sobre o pedido de casamento
esvaiu-se-lhe como de outras vezes. Saiu dali à noite, antes do chá, aborrecido e
azedo. Esse estado não durou muito; dez minutos depois de deixar a casa de
Camargo, sentiu alguma coisa semelhante à dentada de um remorso. O amor de
Estácio tinha a particularidade de crescer e afirmar-se na ausência e diminuir logo
que estava ao pé da moça. De longe, via-a através da névoa luminosa da
imaginação; ao pé era difícil que Eugênia conservasse os dotes que ele lhe
emprestava. Daí, um dissentimento provável e um remorso certo. Agora que a
deixava, ia ele irritado contra si mesmo; achava-se ridículo e cruel; chegava a adorar
toda a graciosa futilidade de Eugênia; concedia alguma coisa à idade, à educação,
aos costumes, à ignorância da vida.
Nesse estado de espírito entrou em casa, onde o esperava um incidente
novo.
CAPÍTULO VI
Chegando a casa, achou Estácio remédio ao mau humor. Era uma carta de
Luís Mendonça, que dois anos antes partira para a Europa, donde agora regressava.
Escrevia-lhe de Pernambuco, anunciando-lhe que dentro de poucas semanas
estaria no Rio de Janeiro. Mendonça fora o seu melhor companheiro de aula. Havia
entre eles certos contrastes de gênio. O de Mendonça era mais folgazão e ativo.
Quando este partiu para a Europa, quis que o antigo colega o acompanhasse, e o
próprio conselheiro opinara nesse sentido. Estácio recusou pelo receio de que,
sendo diferente o espírito de um e outro, a viagem tivesse de obrigar ao sacrifício de
hábitos e preferências de um deles.
A notícia da volta de Mendonça encheu de contentamento o sobrinho de D.
Úrsula. D. Úrsula estava então na sala de costura, relendo algumas páginas do seu
Saint-Clair, encostada a uma mesa. Do outro lado, ficava Helena, a concluir uma
obra de crochet.
— Titia, disse ele, dou-lhe uma novidade agradável para mim.
— Que é?
— O Mendonça chegou a Pernambuco; está aqui dentro de pouco tempo.
— O Mendonça?
— Luís Mendonça.
— O que foi para a Europa, sei. Há quanto tempo?
— Dois anos.
— Dois anos! Parece que foi ontem.
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— Não lhe leio a carta que me escreveu por ser muito longa. Diz-me que devo
ir também à Europa, quanto antes. Querem ir?
— Eu? disse D. Úrsula, marcando a página do livro com os óculos de prata
que até então conservara sobre o nariz. Não são folias para gente velha. Daqui para
a cova.
— A cova! exclamou Helena. Está ainda tão forte! Quem sabe se não me há
de enterrar primeiro?
— Menina! exclamou D. Úrsula em tom de repreensão.
Helena sorriu de alegria e agradecimento; era a primeira palavra de
verdadeira simpatia que ouvia a D. Úrsula. Bem o compreendeu esta; e talvez a
mortificou aquela espontaneidade do coração. Mas era tarde. Não podia recolher a
palavra, não podia sequer explicá-la.
— Que tal virá o teu amigo? perguntou ela ao sobrinho. Era bom rapaz antes
de ir; um pouco tonto, apenas.
— Há de vir o mesmo, respondeu Estácio; ou ainda melhor. Melhor decerto,
porque dois anos mais modificam o homem.
Estácio fez aqui um panegírico do amigo, intercalado com observações da tia,
e ouvido silenciosamente pela irmã. Vieram chamar para o chá. D. Úrsula largou
definitivamente o seu romance, e Helena guardou o crochet na cestinha de costura.
— Pensa que gastei toda a tarde em fazer crochet? perguntou ela ao irmão,
caminhando para a sala de jantar.
— Não?
— Não, senhor; fiz um furto.
— Um furto!
— Fui procurar um livro na sua estante.
— E que livro foi?
— Um romance.
— Paulo e Virgínia?
— Manon Lescaut.
— Oh! exclamou Estácio. Esse livro...
— Esquisito, não é? Quando percebi que o era, fechei-o e lá o pus outra vez.
— Não é livro para moças solteiras...
— Não creio mesmo que seja para moças casadas, replicou Helena rindo e
sentando-se à mesa. Em todo o caso, li apenas algumas páginas. Depois abri um
livro de geometria... e confesso que tive um desejo...
— Imagino! interrompeu D. Úrsula.
— O desejo de aprender a montar a cavalo, concluiu Helena.
Estácio olhou espantado para a irmã. Aquela mistura de geometria e
equitação não lhe pareceu suficientemente clara e explicável. Helena soltou uma
risadinha alegre de menina que aplaude a sua própria travessura.
— Eu lhe explico, disse ela; abri o livro, todo alastrado de riscos que não
entendi. Ouvi porém um tropel de cavalos e cheguei à janela. Eram três cavaleiros,
dois homens e uma senhora. Oh! com que garbo montava a senhora! Imaginem uma
moça de vinte e cinco anos, alta, esbelta, um busto de fada, apertado no corpinho de
amazona, e a longa cauda do vestido caída a um lado. O cavalo era fogoso; mas a
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mão e o chicotinho da cavaleira quebravam-lhe os ímpetos. Tive pena, confesso, de
não saber montar a cavalo...
— Quer aprender comigo?
— Titia consente?
D. Úrsula levantou os ombros com o ar mais indiferente que pôde achar no
seu repertório. Helena não esperou mais.
— Escolha você o dia.
— Amanhã?
— Amanhã.
Estácio costumava dar um passeio a cavalo quase todas as manhãs. O do dia
seguinte foi dispensado; começariam as lições de Helena. Antes disso, porém,
escreveu Estácio à filha de Camargo uma carta rescendente a ternura e afeto.
Pedia-lhe desculpa do que se passara na véspera; jurava-lhe amor eterno; coisas
todas que lhe dissera mais de uma vez, com o mesmo estilo, se não com as
mesmas palavras. A carta dissipou-lhe a última sombra de remorso. Antes que ela
chegasse ao seu destino, reconciliara-se ele consigo mesmo. O portador saiu para o
Rio Comprido, e ele desceu ao terreiro que ficava nos fundos da casa, ao pé do qual
estava situada a cavalariça. Naquele lado da casa corria a varanda antiga, onde a
família costumava às vezes tomar café ou conversar nas noites de luar, que ali
penetrava pelas largas janelas. Do meio da varanda descia uma escada de pedra
que ia ter ao terreiro.
Já ali estava Helena. D. Úrsula emprestara-lhe um vestido de amazona, com
que algumas vezes montara, antes da morte do irmão. O vestido ficava-lhe mal; era
folgado demais para o talhe delgado da moça. Mas a elegância natural fazia
esquecer o acessório das roupas.
— Pronta! exclamou Helena apenas viu o irmão assomar no alto da escada.
— Oh! isso não vai assim! respondeu Estácio. Não suponha que há de montar
já hoje como a moça que ontem viu passar na estrada. Vença primeiramente o
medo...
— Não sei o que é medo, interrompeu ela com ingenuidade.
— Sim? Não a supunha valente. Pois eu sei o que ele é.
— O medo? O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito desfaz-
se; basta a simples reflexão. Em pequena educaram-me com almas do outro mundo.
Até a idade de dez anos era incapaz de penetrar numa sala escura. Um dia
perguntei a mim mesma se era possível que uma pessoa morta voltasse à terra.
Fazer a pergunta e dar-lhe resposta era a mesma coisa. Lavei o meu espírito de
semelhante tolice, e hoje era capaz de entrar, de noite, num cemitério... E daí talvez
não: os corpos que ali dormem têm direito de não ouvir mais um só rumor de vida.
Estácio chegara ao último degrau da escada. As derradeiras palavras ouviu-
as ele com os olhos fitos na irmã e encostado ao poial de pedra.
— Quem lhe ensinou essas idéias? perguntou ele.
— Não são idéias, são sentimentos. Não se aprendem; trazem-se no coração.
Senhor geômetra, continuou brandindo caprichosamente o chicote, — veja se
transcreve em algum compêndio estas figuras de minha invenção, e ande cavalgar
comigo.
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Com um movimento rápido travou da cauda do vestido, e caminhou para
diante. Estácio acompanhou-a, a passo lento, como solicitado por dois sentimentos
diferentes: a afeição que o prendia à irmã, e a estranha impressão que ela lhe fazia
sentir. Quando chegou à porta da cavalariça, viu aparelhados dois animais, o cavalo
de seus passeios, e a égua que a tia cavalgava uma ou outra vez.
— Que é isso? disse ele. Por ora vamos a algumas indicações somente, aqui
no terreiro.
— Justamente! respondeu a moça.
Um escravo, que ali estava, trouxe um tamborete. Estácio aproximou-se de
Helena, que afagava com a mão alva e fina as crinas da égua.
— Como se chama? perguntou ela.
— Moema.
— Moema! Ora espere... é um nome indígena, não é?
Estácio fez um sinal afirmativo. Helena tinha um pé sobre o tamborete; repetiu
ainda o nome da égua, como quem refletia sobre ele, sem que o irmão percebesse
que não era aquilo mais do que um disfarce. De repente, quando ele menos
esperava, Helena deu um salto, e sentou-se no selim. A égua alteou o colo, como
vaidosa do peso. Estácio olhou para a irmã, admirado da agilidade e correção do
movimento, e sem saber ainda o que pensasse daquilo. Helena inclinou-se para ele.
— Fui bem? perguntou sorrindo.
— Não podia ir melhor; mas o que me admira...
As patas de Moema interromperam a reflexão do moço. A cavaleira brandira o
chicotinho, e o animal saíra a trote largo pelo terreiro fora. Estácio, no primeiro
momento, deu um passo e estendeu a mão como para tomar a rédea ao animal;
mas a segurança da moça logo lhe deixou ver que ela não fazia ali os primeiros
ensaios. Ficou parado, de longe, a admirar-lhe o garbo e a destreza. No fim de vinte
passos, Helena torceu a rédea e regressou ao ponto donde saíra.
— Que tal? disse ela logo que estacou. Terei jeito para a equitação?
— Criança!
— Que é isso? Já aprendeu? interveio D. Úrsula, do alto da varanda, onde
acabava de chegar.
— Estava caçoando conosco, disse Estácio. Vê como sabe montar?
— Ela sabe tudo, murmurou D. Úrsula entre dentes.
Estácio montou no cavalo. Consultou o relógio; eram sete horas e meia.
— Permite que o acompanhe? perguntou Helena.
— Com uma condição, disse ele; é que há de ter juízo. Não quero
temeridades; a égua é aparentemente mansa, convém não brincar com ela. Já vejo
que você é capaz de muitas coisas mais...
— Prometo ir pacificamente.
Helena cumprimentou a tia com um gesto gracioso, deu de rédea ao animal e
seguiu ao lado do irmão. Transposto o portão, seguiram os dois para o lado de cima,
a passo lento. O sol estava encoberto e a manhã fresca. Helena cavalgava
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perfeitamente; de quando em quando a égua, instigada por ela, adiantava-se alguns
passos ao cavalo; Estácio repreendia a irmã, a seu pesar, porque ao mesmo tempo
que temia alguma imprudência, gostava de lhe ver o airoso do busto e a firme
serenidade com que ela conduzia o animal.
— Não me dirá você, perguntou ele, por que motivo, sabendo montar, pedia-
me ontem lições?
— A razão é clara, disse ela; foi uma simples travessura, um capricho... ou
antes um cálculo.
— Um cálculo?
— Profundo, hediondo, diabólico, continuou a moça sorrindo. Eu queria
passear algumas vezes a cavalo; não era possível sair só, e nesse caso...
— Bastava pedir-me que a acompanhasse.
— Não bastava. Havia um meio de lhe dar mais gosto em sair comigo; era
fingir que não sabia montar. A idéia momentânea de sua superioridade neste
assunto era bastante para lhe inspirar uma dedicação decidida...
Estácio sorriu do cálculo; logo depois ficou sério, e perguntou em tom seco:
— Já lhe negamos algum prazer que desejasse?
Helena estremeceu e ficou igualmente séria.
— Não! murmurou; minha dívida não tem limites.
Esta palavra saiu-lhe do coração. As pálpebras caíram-lhe e um véu de
tristeza lhe apagou o rosto. Estácio arrependeu-se do que dissera. Compreendeu a
irmã; viu que, por mais inocentes que suas palavras fossem, podiam ser tomadas à
má parte, e, em tal caso, o menos que se lhe podia argüir era a descortesia. Estácio
timbrava em ser o mais polido dos homens. Inclinou-se para ela e rompeu o silêncio.
— Você ficou triste, disse Estácio; mas eu desculpo-a.
— Desculpa-me? perguntou a moça erguendo para o irmão os belos olhos
úmidos.
— Desculpo a injúria que me fez, supondo-me grosseiro.
Apertaram-se as mãos, e o passeio continuou nas melhores disposições do
mundo. Helena deu livre curso à imaginação e ao pensamento; suas falas
exprimiam, ora a sensibilidade romanesca, ora a reflexão da experiência prematura,
e iam direitas à alma do irmão, que se comprazia em ver nela a mulher como ele
queria que fosse, uma graça pensadora, uma sisudez amável. De quando em
quando faziam parar os animais para contemplar o caminho percorrido, ou discretear
acerca de um acidente do terreno. Uma vez, aconteceu que iam falando das
vantagens da riqueza.
— Valem muito os bens da fortuna, dizia Estácio; eles dão a maior felicidade
da terra, que é a independência absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas
imagino que o pior que há nela não é a privação de alguns apetites ou desejos, de
sua natureza transitórios, mas sim essa escravidão moral que submete o homem
aos outros homens. A riqueza compra até o tempo, que é o mais precioso e fugitivo
bem que nos coube. Vê aquele preto que ali está? Para fazer o mesmo trajeto que
nós, terá de gastar, a pé, mais uma hora ou quase.
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O preto de quem Estácio falara, estava sentado no capim, descascando uma
laranja, enquanto a primeira das duas mulas que conduzia, olhava filosoficamente
para ele. O preto não atendia aos dois cavaleiros que se aproximavam. Ia
esburgando a fruta e deitando os pedaços de casca ao focinho do animal, que fazia
apenas um movimento de cabeça, com o que parecia alegrá-lo infinitamente. Era
homem de cerca de quarenta anos; ao parecer, escravo. As roupas eram rafadas; o
chapéu que lhe cobria a cabeça, tinha já uma cor inverossímil. No entanto, o rosto
exprimia a plenitude da satisfação; em todo o caso, a serenidade do espírito.
Helena relanceou os olhos ao quadro que o irmão lhe mostrara. Ao passarem
por ele, o preto tirou respeitosamente o chapéu e continuou na mesma posição e
ocupação que dantes.
— Tem razão, disse Helena: aquele homem gastará muito mais tempo do que
nós em caminhar. Mas não é isto uma simples questão de ponto de vista? A rigor, o
tempo corre do mesmo modo, quer o esperdicemos, quer o economizemos. O
essencial não é fazer muita coisa no menor prazo; é fazer muita coisa aprazível ou
útil. Para aquele preto o mais aprazível é, talvez, esse mesmo caminhar a pé, que
lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro, se é cativo. É uma hora de
pura liberdade.
Estácio soltou uma risada.
— Você devia ter nascido...
— Homem?
— Homem e advogado. Sabe defender com habilidade as causas mais
melindrosas. Nem estou longe de crer que o próprio cativeiro lhe parecerá uma bem-
aventurança, se eu disser que é o pior estado do homem.
— Sim? retorquiu Helena sorrindo; estou quase a fazer-lhe a vontade. Não
faço; prefiro admirar a cabeça de Moema. Veja, veja como se vai faceirando. Esta
não maldiz o cativeiro; pelo contrário, parece que lhe dá glória. Pudera! Se não a
tivéssemos cativa, receberia ela o gosto de me sustentar e conduzir? Mas não é só
faceirice, é também impaciência.
— De quê?
— Impaciência de correr por essa estrada da Tijuca fora, e beber o vento da
manhã, espreguiçando os músculos, e sentindo-se alguma coisa senhora e livre.
Mas que queres tu, minha pobre égua? continuou a moça inclinando a cabeça até às
orelhas do animal; vai aqui ao pé de nós um homem muito mau e medroso, que é ao
mesmo tempo meu irmão e meu inimigo...
— Helena! interrompeu Estácio; você é muito capaz de disparar a correr.
— E se fosse?
— Eu deixava-a ir, e nunca a traria em meus passeios. Você monta bem; mas
não desejo que faça temeridades. Nós somos responsáveis, não só por sua
felicidade, mas também por sua vida.
Helena refletiu um instante.
— Quer dizer, perguntou ela, que se eu fosse vítima de um desastre, não
faltaria quem o imputasse à minha família?
— Justo.
— Singular gente! Não há de ser tanto assim... Pois se eu me lembrasse — é
uma suposição — se eu me lembrasse de deixar a vida por aborrecimento ou
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capricho, seria você acusado de me haver propinado o veneno? Não há melhor
modo de me fazer evitar a morte.
— Deixemos conversas lúgubres, e voltemos para casa, interrompeu Estácio.
— Já!
— Raras vezes passo daqui; e não pense você que é perto.
— Parece-me que ainda agora saímos de casa. Vamos uns cinco minutos
adiante? Sim?
Estácio consultou o relógio.
— Cinco minutos justos, disse ele.
— Até àquela casa que ali está com uma bandeira azul.
Havia, efetivamente, cerca de quatro minutos adiante, à esquerda da estrada,
uma casa de insignificante aparência, sobro cujo telhado flutuava uma bandeira azul
presa a uma vara. Estácio conhecia a casa, mas era a primeira vez que via a
bandeira. Helena pediu-lhe a explicação daquele apêndice.
— Vá lá saber, disse o irmão rindo.
Helena deu de rédea à égua e adiantou-se alguns passos. Estácio apertou o
animal e alcançou-a.
— Não vá fazer tolices! disse ele em tom de branda repreensão. Aquilo é
fantasia do morador, ou algum sinal de pássaros, ou qualquer outra coisa que não
vale a pena de uma travessura. Contemplemos antes a manhã, que está deliciosa.
Helena não atendeu à proposta do irmão e foi andando, a passo lento, na
direção da casa. A casa era velha, abrindo por uma porta para o alpendre antigo que
lhe corria na frente. As colunas deste estavam já lascadas em muitas partes,
aparecendo, aqui e ali, a ossada de tijolo. A porta estava meio aberta. Havia
absoluta solidão, aparente ao menos. Quando eles lhe passaram pela frente, a porta
abriu-se, mas se alguém espreitava por ela, ficou sumido na sombra, porque
ninguém de fora o viu.
Cerca de cinco braças adiante, Estácio resolveu definitivamente regressar, e
Helena não pôs objeção nenhuma. Torceram a rédea aos animais e desceram.
— Não poderei falar à bandeira? perguntou a moça. Deixe-me ao menos
dizer-lhe adeus.
Tinha já tirado da algibeira o seu fino lenço de cambraia; agitou-o na direção
da casa. Quis o acaso que a bandeira, até então quieta, se movesse ao sopro de
uma aragem que passou.
— Vê como ela me respondeu? Não se pode ser mais cortês! exclamou
Helena, rindo.
Estácio riu também da lembrança da irmã, e, ambos desceram, a passo lento,
como haviam subido. Helena vinha taciturna e pensativa. Os olhos, cravados nas
orelhas de Moema, não pareciam ver sequer o caminho que o animal seguia.
Estácio, para arrancá-la ao silêncio, fez-lhe uma observação acerca de um incidente
do caminho. Helena respondeu distraidamente.
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— Que tem você? perguntou ele.
— Nada, disse ela; ia... ia embebida naquela toada. Não ouve?
Ouvia-se, efetivamente, a algumas braças adiante, uma cantiga da roça, meio
alegre, meio plangente. O cantor apareceu, logo que os cavaleiros dobraram a curva
que a estrada fazia naquele lugar. Era o preto, que pouco antes tinham visto sentado
no chão.
— Que lhe dizia eu? observou a irmã de Estácio. Ali vai o infeliz de há pouco.
Uma laranja chupada no capim e três ou quatro quadras, é o bastante para lhe
encurtar o caminho. Creia que vai feliz, sem precisar comprar o tempo. Nós
poderíamos dizer o mesmo?
— Por que não?
A moça recolheu-se ao silêncio.
— Helena, isso que você acaba de dizer... Vamos, estamos sós; confesse
alguma tristeza que tenha.
— Nenhuma, respondeu a moça. Peço-lhe, entretanto, uma coisa.
— Diga.
— Peço-lhe que me comunique todas as más impressões que tiver a meu
respeito. Explicarei umas, procurarei desvanecer-lhe outras, emendando-me.
Sobretudo, peço-lhe que escreva em seu espírito esta verdade: é que sou uma
pobre alma lançada num turbilhão.
Estácio ia pedir explicação mais desenvolvida daquelas últimas palavras; mas
Helena, como se esperasse a pergunta, brandira o chicote, e deitou a égua a correr.
Estácio fez o mesmo ao cavalo; daí a alguns minutos entravam na chácara, ele
aturdido e curioso, ela com a face vermelha e a bater-lhe violentamente o coração.
CAPÍTULO VII
Apearam-se os dois no terreiro e dirigiram-se para a escada que ia ter à
varanda. Pisando o primeiro degrau, disse Estácio:
— Helena, explique-me suas palavras de há pouco.
— Quais?
E como Estácio levantasse os ombros, com ar de despeito, continuou Helena:
— Perdoe-me; a pergunta não tem nem podia ter outra resposta mais do que
a simples recusa. Não lhe direi mais nada. Nunca se devem fazer meias confissões;
mas, neste caso, a confissão inteira seria imprudência maior. Se tratasse de fatos,
creia que a ninguém melhor podia confiá-los do que a você; mas por que motivo irei
perturbar-lhe o espírito com a narração de meus sentimentos, se eu própria não
chego a entender-me?
Estácio não insistiu. Subiram a escada, atravessaram a varanda e entraram
na sala de jantar, onde acharam D. Úrsula dando as ordens daquele dia a dois
escravos. Estácio entrou pensativo; Helena mudou totalmente de ar e maneiras.
Alguns segundos antes era sincera a melancolia que lhe ensombrava o rosto. Agora
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regressara à jovialidade de costume. Dissera-se que a alma da moça era uma
espécie de comediante que recebera da natureza ou da fortuna, ou talvez de ambas,
um papel que a obrigava a mudar continuamente de vestuário. D. Úrsula viu-a entrar
risonha e ir a ela dar-lhe os costumados — bons dias — que eram sempre um beijo,
— ou antes dois, — um na mão, outro na face.
— Demorei-me muito? perguntou ela voltando rapidamente o corpo, de
maneira a ver o relógio que ficava do outro lado da sala. Nove horas! Que passeio,
Sr. meu irmão!
Estácio olhava para ela silencioso e não lhe respondeu. Foram logo mudar de
roupa, e o almoço reuniu a família. D. Úrsula propôs, durante ele, algumas
mudanças na disposição da chácara, mudanças que foram longamente discutidas
com o sobrinho, e aceitas afinal por este. O dia estava sombrio e fresco; D. Úrsula
desceu à chácara com Estácio. As alterações foram ainda estudadas e combinadas
no próprio terreno, com assistência do feitor. Logo que acabou a deliberação e que o
projeto de D. Úrsula foi definitivamente assentado, Estácio reteve-a e lhe disse:
— Preciso falar-lhe um instante.
— Também eu.
— Quais são os seus sentimentos atuais em relação a Helena? Oh! não
precisa franzir a testa nem fazer esse gesto de aborrecimento. Tudo são meras
aparências. Não creio que seja absolutamente amiga dela; mas não pode negar que
a antipatia desapareceu ou diminuiu muito.
— Diminuiu, talvez.
— E com razão. Pensa que também eu não tive repugnâncias, depois que ela
aqui entrou? Tive-as; mas se não houvessem desaparecido, — desapareceriam hoje
de manhã.
— Como?
Estácio referiu à tia a cena do capítulo anterior e as palavras que lhe dissera
Helena. D. Úrsula sorriu ironicamente.
— Não a impressiona isto? perguntou Estácio.
— Não, respondeu D. Úrsula com decisão; a frase de Helena é achada em
algum dos muitos livros que ela lê. Helena não é tola; quer prender-nos por todos os
lados, até pela compaixão. Não te nego que começo a gostar dela; é dedicada,
afetuosa, diligente; tem maneiras finas e algumas prendas de sociedade. Além
disso, é naturalmente simpática. Já vou gostando dela; mas é um gostar sem fogo
nem paixão, em que entra boa dose de costume e necessidade. A presença de outra
mulher nesta casa é conveniente, porque eu estou cansada. Helena preenche essa
lacuna. Se alguma coisa, entretanto, a podia prejudicar nas nossas relações é esse
dito.
Estácio tomou calorosamente a defesa da irmã.
— O que eu lhe contei, disse ele, foram apenas as palavras. Não pude nem
poderia reproduzir a expressão sincera com que ela as proferiu, e a profunda tristeza
que havia em seus olhos. Não lhe nego que, ao vê-la mudar tão depressa e entrar
alegre na sala, senti tal ou qual abalo de dúvida, mas passou logo. Ela tem o poder
de concentrar a amargura no coração; também a dor tem suas hipocrisias...
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— Mas que dor? que amargura? interrompeu D. Úrsula. A dor de ser
legitimada? a amargura de uma herança?
Estácio protestou calorosamente contra aquele caminho que a tia dava às
suas idéias; enfim pediu-lhe que interrogasse com cautela a irmã.
— Um homem, concluiu ele, é menos apto para obter tais confissões; uma
senhora, respeitável e parenta, está mais no caso de lhe captar a confiança e obter
tudo. Quer incumbir-se desse delicado papel?
— Pedes muito, respondeu D. Úrsula. Verei se te posso dar metade disso.
Era só o que tinhas para dizer?
— Só.
— Uma criancice! Eu tenho coisa mais séria. O Dr. Camargo escreveu-me;
trata-se...
— Não precisa dizer mais nada, interrompeu Estácio; lá vem ele.
Camargo aparecera efetivamente a vinte passos de distância.
— Doutor, disse D. Úrsula, logo que este se aproximou deles, chega um
pouco fora de propósito. Eu mal tive tempo de assustar meu sobrinho, que ainda não
sabe o que o senhor lhe quer.
— Saberá agora; é só bastante que a senhora lhe diga que me aprova.
— Completamente.
— Trata-se... disse Estácio.
— De uma conspiração; todos conspiramos em seu benefício.
D. Úrsula retirou-se para casa; os dois ficaram sós. Uma vez sós, Camargo
pousou a mão no ombro de Estácio, fitou-o paternalmente, enfim perguntou-lhe se
queria ser deputado. Estácio não pôde reprimir um gesto de surpresa.
— Era isso? disse ele.
— Creio que não se trata de um suplício. Uma cadeira na câmara! Não é a
mesma coisa que um quarto no aljube...
— Mas a que propósito...
— Esta idéia apoquentava-me há algumas semanas. Doía-me vê-lo vegetar
os seus mais belos anos numa obscuridade relativa. A política é a melhor carreira
para um homem em suas condições; tem instrução, caráter, riqueza; pode subir a
posições invejáveis. Vendo isso, determinei metê-lo na Cadeia... Velha. Fala-se em
dissolução. Para facilitar-lhe o sucesso, entendi-me com duas influências
dominantes. O negócio afigura-se-me em bom caminho.
Estácio ouviu com desagrado as notícias que lhe dava o médico.
— Mas, doutor, disse ele depois de curto silêncio, houve de sua parte alguma
precipitação. Pelo menos, devia consultar-me. Do modo por que arranjou as coisas,
quase me acho desobrigado de lhe agradecer a intenção. Quanto a aceitar, não
aceito.
Camargo não perdeu a tramontana; deixou passar por cima da cabeça a
primeira onda de desagrado, surgiu fora e insistiu tranqüilamente:
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— Vejamos as coisas com os óculos do senso comum. Em primeiro lugar, não
creio que tenha outros projetos na cabeça...
— Talvez.
— Duvido que sejam mais vantajosos do que este. A ciência é árdua e seus
resultados fazem menos ruído. Não tem vocação comercial nem industrial. Medita
alguma ponte pênsil entre a Corte e Niterói, uma estrada até Mato Grosso ou uma
linha de navegação para a China? É duvidoso. Seu futuro tem por ora dois limites
únicos, alguns estudos de ciência e os aluguéis das casas que possui. Ora, a
eleição nem lhe tira os aluguéis nem obsta a que continue os estudos; a eleição
completa-o, dando-lhe a vida pública, que lhe falta. A única objeção seria a falta de
opinião política; mas esta objeção não o pode ser. Há de ter, sem dúvida, meditado
alguma vez nas necessidades públicas, e...
— Suponha, — é mera hipótese, — que tenho alguns compromissos com a
oposição.
— Nesse caso, dir-lhe-ei que ainda assim deve entrar na câmara — embora
pela porta dos fundos. Se tem idéias especiais e partidárias, a primeira necessidade
é obter o meio de as expor e defender. O partido que lhe der a mão, — se não for o
seu, — ficará consolado com a idéia de ter ajudado um adversário talentoso e
honesto. Mas a verdade é que não escolheu ainda entre os dois partidos; não tem
opiniões feitas. Que importa? Grande número de jovens políticos seguem, não uma
opinião examinada, ponderada e escolhida, mas a do círculo de suas afeições, a
que os pais ou amigos imediatos honraram e defenderam, a que as circunstâncias
lhe impõem. Daí vêm algumas legítimas conversões posteriores. Tarde ou cedo o
temperamento domina as circunstâncias da origem, e do botão luzia ou saquarema
nasce um magnífico lírio saquarema ou luzia. Demais, a política é ciência prática; e
eu desconfio de teorias que só são teorias. Entre primeiro na câmara; a experiência
e o estudo dos homens e das coisas lhe designarão a que lado se deve inclinar.
Estácio ouviu atento estas vozes com que a serpente lhe apontava para a
árvore da ciência do bem e do mal. Menos curioso que Eva, entrou a discutir
filosoficamente com o réptil.
— Entra-se na política, disse ele, por vocação legítima, ambição nobre,
interesse, vaidade, e até por simples distração. Nenhum desses motivos me impele
a dobrar o cabo Tormentório...
— Da Boa Esperança, emendou Camargo rindo; não suprima três séculos de
navegação.
Estácio riu também. Depois falou ao médico da sua índole e ambições. Não
negava que tivesse ambições; mas nem só as havia políticas, nem todas eram da
mesma estatura. Os espíritos, disse ele, nascem condores ou andorinhas, ou ainda
outras espécies intermédias. A uns é necessário o horizonte vasto, a elevada
montanha, de cujo cimo batem as asas e sobem a encarar o sol; outros contentam-
se com algumas longas braças de espaço e um telhado em que vão esconder o
ninho. Estes eram os obscuros, e, na opinião dele, os mais felizes. Não seduzem as
vistas, não subjugam os homens, não os menciona a história em suas páginas
luminosas ou sombrias; o vão do telhado em que abrigaram a prole, a árvore em que
pousaram, são as testemunhas únicas e passageiras da felicidade de alguns dias.
Quando a morte os colhe, vão eles pousar no regaço comum da eternidade, onde
dormem o mesmo perpétuo sono, tanto o capitão que subiu ao sumo estado por
uma escada de mortos, como o cabreiro que o viu passar uma vez e o esqueceu
duas horas depois. Suas ambições não eram tão ínfimas como seriam as do
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cabreiro; eram as do proprietário do campo que o capitão atravessasse. Um bom
pecúlio, a família, alguns livros e amigos, — não iam além seus mais arrojados
sonhos.
Um sorriso de lástima foi a primeira resposta do médico.
— Meu caro Estácio, disse ele depois, esse trocadilho de andorinhas e
cabreiros é a coisa mais extraordinária que eu esperava ouvir a um matemático.
Saiba que detesto igualmente a filosofia da obscuridade e a retórica dos poetas.
Sobretudo, gosto que respondam em prosa quando falo em prosa.
— Parece-lhe que poetei? perguntou Estácio rindo.
— Despropositadamente. Ora, eu falo de coisas sérias; e convém não
confundir alhos, que são a metade prática da vida, com bugalhos, que são a parte
ideológica e vã.
— Eu serei ideólogo.
— Não tem direito de o ser.
— Pois bem, deixe-me com as minhas matemáticas, as minhas flores, as
minhas espingardas.
— Não! Há de intercalar tudo isso com um pouco de política.
Puxando-o familiarmente pela gola do paletó, Camargo fê-lo sentar ao pé de
si, no banco que ali estava mais próximo. Depois falou. O novo discurso foi o mais
longo que proferiu em todos os seus dias. Nenhuma das vantagens da vida pública
deixou de ser apontada com uma complacência de tentador; todas as glórias,
pompas e satisfações da política, e não só as reais, mas as fictícias ou duvidosas,
foram inventariadas, pintadas, douradas e iluminadas pelo médico. A palavra revelou
um poder de evocação, uma veemência, uma energia, que ninguém era capaz de
supor-lhe. O taciturno desabrochou tagarela. Para falar tanto e com tal força era
preciso que o animasse um grande sentimento ou um grande interesse.
Estácio, lisonjeado com a afeição que ele lhe mostrava, não teve ensejo de
fazer essa reflexão. Nem se animou a repetir a recusa; adotou o alvitre de diferir a
resposta para outra ocasião.
— Já lhe disse o que sinto a tal respeito. Contudo, estou pronto a refletir, e a
consultar o padre Melchior e Helena.
O nome de Helena produziu em Camargo uma careta interior. Exteriormente,
não passou o efeito de um sorriso sardônico e dissimulado. Interveio uma pitada de
rapé, que o médico inseriu lentamente, depois de a extrair de uma boceta de
tartaruga, presente do conselheiro Vale.
— Helena! disse ele com alguma hesitação. Que vem fazer sua irmã neste
negócio?
— É um voto, redargüiu Estácio; e menos leve do que lhe parece. Há nela
muita reflexão escondida, uma razão clara e forte, em boa harmonia com as suas
outras qualidades feminis.
Entre as sobrancelhas de Camargo projetou-se uma longa ruga, e foi toda a
expressão de seu espanto e desgosto. A resposta de Estácio revelara-lhe uma
situação nova na família: o voto de Helena, consultivo agora, podia vir a ser
preponderante. Esta solução, que porventura faria estremecer de alegria os ossos
do conselheiro, não a previra o médico. Limitou-se a notá-la de si para si; e,
terminando subitamente a conversa, disse:
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— Consulte as pessoas de seu agrado. Quem não estiver com a minha
opinião, não é seu amigo. Em todo o caso, ninguém lhe poderá afirmar que não é a
amizade, a longa amizade...
Estácio cortou-lhe a palavra, apertando-lhe afetuosamente a mão. Tinham-se
levantado. Era quase meio-dia; Camargo despediu-se ali mesmo; ia ver dois doentes
no caminho da Tijuca. O filho do conselheiro atravessou sozinho a chácara; ia
pensativo, e aborrecido. A política, na sua opinião, era uma noiva importuna; mas, se
todos conspirassem a favor dela, não seria ele obrigado a desposá-la? A esta
reflexão respondeu a voz do padre Melchior, do alto de uma janela:
— Venha cá, senhor deputado; quando teremos o seu primeiro discurso?
CAPÍTULO VIII
D. Úrsula tinha já confiado ao velho capelão a proposta de Camargo.
Consultado por Estácio, respondeu o padre:
— Consulte as suas forças e a responsabilidade do cargo, e escolha.
— Já escolhi, disse Estácio; pedia-lhe conselho para apoiar melhor a minha
própria decisão. Não é esse o destino de todos os conselhos? Decidi que não aceito
a candidatura. A vida política é turbulenta demais para o meu espírito. Estou pronto
para a ação, mas não há de ser exterior. Dado o meu temperamento, que iria eu
buscar à câmara, além de algumas prerrogativas e um papel acessório? Eu só me
meteria na política se pudesse oficiar; mas ser apenas sacristão...
— Entre o oficiante e o sacristão, observou Melchior, está o pregador, que é
cargo nobre e influente.
— Mas o tema do sermão, padre-mestre? retorquiu Estácio rindo; falta-me o
tema.
D. Úrsula, a quem seduziam exclusivamente a posição e o rumor público em
favor do sobrinho, viu naquelas razões um pretexto ou uma puerilidade. Defendeu,
como pôde, a causa de Camargo; instou com o sobrinho para que refletisse
maduramente, antes de qualquer resposta definitiva. Estácio prometeu como
prometera ao médico, por simples condescendência; mas sobretudo para por termo
ao assunto e ir saber a causa do sorriso quase imperceptível que viu roçar os lábios
de Helena. A moça erguera-se e dirigira-se para uma das janelas; Estácio foi até ali.
— Adivinhei, pelo seu sorriso, disse ele, que tudo isto lhe parece pueril, e que
eu faço bem em não aceitar o que se me oferece.
Helena olhou um pouco espantada para ele, mas respondeu com
tranqüilidade:
— Pelo contrário, penso que deve aceitar. Além de haver consentimento de
minha tia, parece ser um grande desejo do pai de Eugênia.
Era a primeira vez que Helena aludia ao amor de Estácio, e fazia-o por modo
encoberto e oblíquo. Estácio escapou dessa vez à regra de todos os corações
amantes: resvalou pela alusão e discutiu gravemente o assunto da candidatura. Era
pesado demais para cabeça feminina; Helena intercalou uma observação sobre dois
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passarinhos que bailavam no ar, e Estácio aceitou a diversão, deixando em paz os
eleitores.
Durante dois dias não saiu ele de casa. Tendo recebido alguns livros novos,
gastou parte do tempo em os folhear, ler alguma página, colocá-los nas estantes,
alterando a ordem e a disposição dos anteriores, com a prolixidade e o amor do
bibliófilo. Helena ajudava-o nesse trabalho, — um pouco parecido com o de
Penélope, — porque a ordem estabelecida ao meio-dia era às vezes alterada às
duas horas, e restaurada na seguinte manhã. Estácio, entretanto, não ficava todo
entregue aos livros; admirava a solicitude da irmã, a ordem e o cuidado com que ela
o auxiliava. Helena parecia não andar; o vulto resvalava silenciosamente, de um
lado para outro, obedecendo às indicações do irmão, ou pondo em experiência uma
idéia sua. Estácio parava às vezes, fatigado; ela continuava imperturbavelmente o
serviço. Se ele lhe fazia algum reparo, a moça respondia erguendo os ombros ou
sorrindo, e prosseguia. Então Estácio segurava-lhe nos pulsos e exclamava rindo:
— Sossega, borboleta!
Helena parava, mas eram só poucos minutos; volvia logo ao trabalho com a
mesma serena agitação. Era assim que as horas se passavam na intimidade mais
doce, e que a recíproca afeição ia excluindo toda a preocupação alheia; era assim
que a influência de Helena assumia as proporções de voto preponderante.
No terceiro dia, D. Tomásia e Eugênia foram jantar a Andaraí. Eugênia
estava nesse dia mais sisuda e dócil que nunca; dissera-se que trazia a alma tão
nova como o vestido, e menos enfeitada que ele. Estácio sentiu-se satisfeito; o ideal
reconciliava-se com o real. Puderam falar sozinhos, mais de uma vez; todas as
pessoas da casa pareciam conspiradas para lhes deixar a solidão. Foi ela quem
recordou a proposta política do pai, da qual soubera casualmente, ouvindo a
narração que este fizera a D. Tomásia. O desejo de Eugênia era pela afirmativa; e
Estácio, receoso de despertar os caprichos adormecidos da moça, frouxamente
resistiu, e consentiu ainda mais frouxamente em reconsiderar o assunto.
— Deputado! exclamava Eugênia com os olhos no céu.
Estácio acompanhou Eugênia e D. Tomásia na carruagem que as levou ao
Rio Comprido. O dia fora mais ou menos alegre; a viagem foi divertida e palreira
como um regresso de romaria. Os cavalos mostravam-se tão lépidos como as
pessoas que iam no carro, e encurtaram alguns minutos o caminho, com desgosto
de Eugênia.
Voltando a Andaraí, Estácio trazia a alma pura de todas as más impressões
que lhe deixavam usualmente as visitas à casa de Camargo. Nenhum dissentimento
houvera naquele dia. Eugênia parecia modificada. Em casa esperava-o, porém, uma
desagradável notícia: a tia sentira-se incomodada pouco depois que ele saíra e
recolhera-se ao quarto. O caso afligiu-o, mas não tardou a aparecer Helena, que o
tranqüilizou, dizendo-lhe que D. Úrsula tinha apenas uma forte dor de cabeça, já
diminuída com o emprego de um remédio caseiro.
No dia seguinte de manhã, informado de que a tia dormia sossegadamente,
Estácio abriu uma das janelas do quarto e relanceou os olhos pela chácara. A
alguns passos de distância, entre duas laranjeiras, viu Helena a ler atentamente um
papel. Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escritas. Seria alguma
mensagem amorosa?
Esta idéia molestou-o muito. Afastou-se da janela, conchegou as cortinas, e
pela fresta procurou observar a irmã. Helena estava de pé, no mesmo lugar, e
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percorria rapidamente as linhas, até ao final da última página. Ali chegando, deu dois
passos, tornou a parar, volveu ao princípio da carta, para a ler de novo, não já
depressa, mas repousadamente. Estácio sentiu-se movido de imperiosa curiosidade,
à qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e ciúme. A idéia de que Helena
podia repartir o coração com outra pessoa desconsolava-o, ao mesmo tempo que o
irritava. A razão de semelhante exclusivismo não a explicou ele, nem tentou
investigá-la; sentiu-lhe somente os efeitos, e ficou ali sem saber que faria. Duas
vezes saiu da janela para ir ter com a irmã, mas recuou de ambas, refletindo que a
curiosidade pareceria impolidez, se não era talvez tirania. Ao cabo de alguns
minutos de hesitação, saiu do quarto e dirigiu-se à chácara.
Quando ali chegou, Helena passeava lentamente, com os olhos no chão.
Estácio parou diante dela.
— Já fora de casa! exclamou em tom de gracejo.
Helena tinha a carta na mão esquerda; instintivamente a amarrotou como
para escondê-la melhor. Estácio, a quem não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo
se era alguma nota falsa.
— Nota verdadeira, disse ela, alisando tranqüilamente o papel, e dobrando-o
conforme recebera; é uma carta.
— Segredos de moça?
— Quer lê-la? perguntou Helena, apresentando-lha.
Estácio fez-se vermelho e recusou com um gesto. Helena dobrou lentamente
o papel e guardou-o na algibeira do vestido. A inocência não teria mais puro rosto; a
hipocrisia não encontraria mais impassível máscara. Estácio contemplava-a, a um
tempo envergonhado e suspeitoso; a carta fazia-lhe cócegas; o olhar ambicionava
ser como o da Providência que penetra nos mais íntimos refolhos do coração.
Vieram, entretanto, dizer a Helena que D. Úrsula lhe pedia fosse ter com ela. Estácio
ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquérito mental sobre a procedência da
misteriosa missiva. Um indício havia de que podia conter alguma coisa secreta: era o
gesto com que ela a escondeu. Mas não podia ser de alguma antiga companheira
do colégio, que lhe confiava segredos seus? Estácio abraçou com alvoroço esta
hipótese. Depois, ocorreu-lhe que, ainda provindo de uma amiga, a carta podia tratar
de algum idílio de colégio, em que Helena fosse protagonista, idílio vivo ou morto,
página de esperança ou de saudade. Ainda nesse caso, que tinha ele com isso?
Fazendo esta última reflexão, Estácio sacudiu do espírito o assunto e seguiu
a examinar as novas obras da chácara, entre as quais figurava um vasto tanque. Já
ali estavam os operários; ia começar o trabalho do dia. Estácio viu a obra feita e deu
várias indicações novas. Algumas eram contrárias ao plano assentado; como lhe
fizessem tal observação, Estácio retificou-as. Depois admirou-se de não ver um
vaso, que aliás dois dias antes mandara remover; enfim, recomendou a rega de uma
planta, ainda úmida da água que o feitor lhe deitara nessa manhã.
D. Úrsula não estava de todo boa, mas pôde almoçar à mesa comum. O
sobrinho apareceu aborrecido, a sobrinha triste; o diálogo foi mastigado como o
almoço. No fim deste, recebeu Estácio uma carta de Eugênia. Era uma tagarelice
meio frívola, meio sentimental, mistura de risos e suspiros, sem objeto definido a não
ser pedir-lhe que escrevesse se não pudesse ir vê-la.
Acabava ele de ler a carta, quando Helena lhe apareceu à porta do gabinete.
Não a escondeu; lembrou-lhe mostrá-la à irmã, na esperança de que esta, pagando-
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lhe com igual confiança, lhe mostrasse a sua. Helena percorreu com os olhos a carta
de Eugênia e esteve algum tempo silenciosa.
— Permite-me um conselho? perguntou ela.
E como Estácio respondesse com um gesto de assentimento:
— Vá ter com Eugênia, solicite licença para ir pedi-la a seu pai, e conclua isso
quanto antes. Não é verdade que se amam? Dela creio poder afirmar que sim; de
você...
— De mim?
— Penso que é mais duvidoso; ou você é mais hábil. Há de ser isso.
Naturalmente parece-lhe fraqueza amar, — isto é, a coisa mais natural do mundo, —
a mais bela, — não direi a mais sublime. Os homens sérios têm preconceitos
extravagantes. Confesse que ama, que não é indiferente a esse sentimento
inexprimível que liga, ou para sempre, ou por algum tempo, duas criaturas humanas.
— Ou por algum tempo! repetiu mentalmente Estácio.
E estas quatro palavras, tão naturais e tão comuns, tinham ares de uma
revelação nova no estado de espírito em que ele se achava. Se Helena tivesse
propósito de lhe lançar a perplexidade na alma, não empregaria mais eficaz
conceito. Seria na verdade aquele amor, tão travado de desânimos, dissentimentos
e alternativas, tão discutido em seu próprio coração, uma afeição destinada a
perecer no ocaso da primeira lua matrimonial?
— Pois sim, concordou ele, ao cabo de alguns instantes, é verdade. Eugênia
não me é indiferente; mas poderei estar certo dos sentimentos dela? Ela mesma
poderá afirmar alguma coisa a tal respeito? Há ali muita frivolidade que me assusta;
ilude-a, talvez, uma impressão passageira.
— Pode ser; mas ao marido cabe a tarefa de fixar essa impressão
passageira... O casamento não é uma solução, penso eu; é um ponto de partida. O
marido fará a mulher. Convenho que Eugênia não tem todas as qualidades que você
desejaria; mas, não se pode exigir tudo: alguma coisa é preciso sacrificar, e do
sacrifício recíproco é que nasce a felicidade doméstica.
As reflexões eram exatas; por isso mesmo Estácio as interrompeu. O filho do
conselheiro achava-se numa posição difícil. Caminhara para o casamento com os
olhos fechados; ao abri-los, viu-se à beira de uma coisa que lhe pareceu abismo, e
era simplesmente um fosso estreito. De um pulo poderia transpô-lo; mas, se não era
irresoluto nem débil, tinha ele acaso vontade de dar esse salto?
Insistindo Helena, prometeu ele que nessa tarde iria visitar Camargo. De tarde
desabou um temporal violento. A força do vento e da trovoada abrandou; mas a
chuva continuou a cair com a mesma violência; era impossível ir ao Rio Comprido.
Estácio estimou aquele obstáculo; era melhor adorar de longe a imagem da moça do
que ir colher algum desgosto junto a ela.
De pé, encostado a uma das vidraças da sala de visitas, via cair as grossas
toalhas de água. Ao lado estava sentada Helena, não alegre, mas taciturna e
melancólica.
— É tão bom ver chover quando estamos abrigados! exclamou ele. Tenho lá
na estante um poeta latino que diz alguma coisa neste sentido... Que tem você?
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— Estou pensando nos que não têm abrigo ou o têm mau; nos que não têm,
neste momento, nem tetos sólidos nem corações amigos ao pé de si.
A voz da moça era trêmula; uma lágrima lhe brotou dos olhos, tão rápida que
ela não teve tempo de a dissimular. Surpreendida nessa manifestação de
sensibilidade, inexplicável talvez para o irmão, ergueu-se e procurou gracejar e rir. O
riso parecia uma cristalização da lágrima, e o gracejo tinha ares de responso.
Estácio não se iludiu; nada daquilo era claro, ou era tão claro como a carta. O olhar,
severo e frio, interrogou mudamente a moça. Helena, que tivera tempo de se
tranqüilizar, voltou o rosto para a rua, e começou a rufar com os dedos na vidraça.
CAPÍTULO IX
Naquela mesma noite, D. Úrsula, que não havia de todo melhorado, adoeceu
deveras. A família, mal convalescida da perda do velho chefe, via-se agora
ameaçada de uma nova dor, em todo o caso, exposta a novos receios. Dr. Camargo
declarou que o caso era grave, e deu princípio a rigoroso tratamento.
Helena era naquela ocasião a natural enfermeira. Pela primeira vez
patenteou-se em todo o esplendor a dedicação filial da moça. Horas do dia, e não
poucas noites inteiras, passava-as na alcova de D. Úrsula, atenta a todos os
cuidados que a gravidade da enferma exigia. Os remédios e o pouco alimento que
esta podia receber, não lhe eram dados por outras mãos. Helena velava à
cabeceira, durante o sono leve e interrompido da doente, achando em suas próprias
forças a resistência que a natureza confiou especialmente às mães. Quando dava
algum repouso ao corpo, não era ele ininterrupto nem longo; e mais de uma vez, alta
noite, erguia-se do leito, colocado provisoriamente no quarto contíguo, para ir
espreitar a mucama que, em seu lugar, acompanhava a enferma. As prescrições do
médico era ela que as recebia e cumpria. A voz seca e dura com que Camargo lhe
falava, não era própria a torná-lo amável e aceito; mas Helena cerrava os ouvidos à
antipatia do homem para só obedecer ao médico. Este não tinha outra pessoa a
quem interrogasse acerca dos fenômenos da doença, nem podia achar quem melhor
os observasse e referisse; força lhe era aceitá-la. Assim, essas duas pessoas que se
repeliam e detestavam, iam de acordo, desde que se tratava da vida de um terceiro.
O que completava a pessoa de Helena, e ainda mais lhe mereceu o respeito
de todos, é que, no meio das ocupações e preocupações daqueles dias, não fez
padecer um só instante a disciplina da casa. Ela regeu a família e serviu a doente,
com igual desvelo e benefício. A ordem das coisas não foi alterada nem esquecida
fora da alcova de D. Úrsula; tudo caminhou do mesmo modo que antes, como se
nada extraordinário se houvesse dado, Helena sabia dividir a atenção sem a
dispersar.
De si é que ela não curou muito. O vestido era singelo. Os cabelos, colhidos à
pressa e presos por um pente no alto da cabeça, não receberam, em todo aquele
tempo, a forma elegante e graciosa com que ela os sabia realçar. Acrescia o
abatimento, que era impossível evitar no meio de tanta fadiga, certo cansaço dos
olhos, que os fazia moles e talvez mais adoráveis, um rosto sem riso nem viveza, um
silêncio atento e laborioso.
A doença durou cerca de vinte dias. Afinal, venceu a própria natureza de D.
Úrsula, robusta apesar dos anos. A convalescença começou; com ela volveu a
satisfação da família. O papel de Helena não estava acabado; diminuía, contudo, e
Estácio interveio para que a irmã tivesse, enfim, alguns dias de absoluto repouso.
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Ela recusou, dizendo que o repouso perdido aos poucos seria aos poucos
recuperado.
Havia no coração de D. Úrsula uma fonte de ternura, que Helena devia tocar,
para jorrar livre e impetuosamente. A dedicação, em tal crise, foi a vara misteriosa
daquela Horeb. A afeição da tia era até então frouxa, voluntária e deliberada. Depois
da moléstia, avultou espontânea. A experiência do caráter da moça dera esse
resultado inevitável. Toda a prevenção cessou; a gratidão da vida ligou fortemente o
que tantas circunstâncias anteriores pareciam separar. Não o ocultou a irmã do
conselheiro; já não tinha acanhamento nem reserva, as palavras subiam do coração
à boca sem atenuação nem cálculo; fez-se carinhosa e mãe.
No dia em que ela pôde sair do quarto pela primeira vez, Helena deu-lhe o
braço e levou-a até à sala de costura e das reuniões íntimas. Estácio amparou-a do
outro lado. Ali chegando, foi ela sentada numa poltrona. Estácio abriu um pouco a
janela, para penetrar, além da luz, um pouco de ar. D. Úrsula respirou à larga, como
lavando o pulmão com aquela primeira onda de vida. Depois, segurando as mãos de
Helena, que ficara de pé a seu lado, fê-la inclinar a fronte, e imprimiu-lhe um beijo
longo e verdadeiramente maternal. Estácio aproximara-se; aquela manifestação
encheu-o de júbilo.
— Bem merecido beijo! exclamou ele. Helena foi um anjo em todo este
tempo.
— Bem sei, retorquiu D. Úrsula; foi um verdadeiro anjo, foi mulher, mãe e
filha. Obrigada, Helena! Pode ser que a medicina tenha ajudado a cura, mas o
principal mérito é só teu.
Helena abraçou a convalescente.
— Estácio, disse esta, agradece à tua irmã, como eu fiz.
Estácio inclinou-se para Helena, a fim de lhe pousar na fronte o casto ósculo
de irmão. Não o conseguiu, porque Helena, desviando o busto, estendeu-lhe
sorrindo a mão esquerda e disse:
— Não foi serviço que merecesse tanta paga; basta um aperto de mão e o
afeto de todos.
Estácio apertou-lhe a mão, e sentiu-lha trêmula. Aquele movimento de
castidade não lhe pareceu exagerado nem descabido; achou-a assim mais bela.
Uma criatura tão ciosa de si mesma, que nem admitia a carícia do irmão, não era
digna de honrar o nome da família?
A convalescença de D. Úrsula foi lenta, e não a houve mais rodeada de
cuidados e atenções. Os dois sobrinhos não a deixaram um instante sozinha, e
inventavam toda a sorte de recreio com que pudessem distraí-la: jogos de família ou
leitura, música ou simples palestra íntima. Uma vez, lembraram-se de representar,
só para ela, uma comédia de duas pessoas. Outra vez, Helena organizou um sarau
musical, em que tomaram parte Eugênia Camargo e mais três moças da vizinhança.
Foi a primeira vez que a ouviram cantar. O sucesso não podia ser mais completo.
Como o aplauso que lhe deram pareceu desconsolar um pouco a filha do médico,
Helena preparou-lhe habilmente um triunfo, fazendo-a executar ao piano uma
composição brilhante, sua favorita. Estácio, que quase não tirava os olhos da irmã,
percebeu-lhe a intenção, e disse-lho. Helena esquivou-se à alusão; mas, insistindo
ele:
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— Não há nada que admirar, disse ela; Eugênia toca perfeitamente; era justo
que também fosse aplaudida. Se há arte no que fiz, parece-me que é a mais singela
do mundo. O melhor modo de viver em paz é nutrir o amor-próprio dos outros com
pedaços do nosso. Mas, olhe; Eugênia nem precisa disso; tem a primazia da beleza.
Veja se há criatura mais deliciosa.
Estácio dirigiu os olhos para onde Helena lhe indicava. Era um grupo de duas
moças e dois rapazes. Eugênia, pelo braço de um deles, estava de pé, ouvindo sem
atender as palavras que ali diziam, porque os olhos inquietos derramavam-se-lhe por
toda ela e pela sala. Admirava-se e espreitava a admiração dos outros. A figura era
realmente graciosa; mas Estácio quisera-a mais inconsciente, menos preocupada do
efeito que produzia.
— Há cem belezas como aquela, disse ele.
— Estácio! exclamou Helena com ar de repreensão.
— A beleza é como a bravura; vale mais se não a metem à cara dos outros.
— Você é um ingrato.
Naquela noite ficou mais patente que nunca a preponderância ganha por
Helena, que se tornara a verdadeira dona da casa, a diretora ouvida e obedecida. D.
Úrsula cedera, em poucas semanas, o que lhe negara durante meses.
Por que razão, pensando em todas as coisas, não conseguira ela apressar o
casamento de Estácio? Estácio continuava a hesitar, a recuar, a adiar; pedia tempo
para refletir. Ia agora menos ao Rio Comprido; os dias, quase todos, eram desfiados
no remanso da família. Mas Helena insistiu tanto que ele prometeu fazer o solene
pedido no primeiro dia do ano.
Estácio não havia esquecido a carta lida pela irmã; entretanto, por mais que a
espreitasse e estudasse, nada descobria que lhe fizesse supor afeição encoberta.
Nenhum dos homens que iam ali, — e eram poucos, — parecia receber de Helena
mais do que a cortesia comum. D. Úrsula, a quem ele incumbira de interrogar a irmã
acerca das palavras que esta lhe dissera na manhã do primeiro passeio, não obteve
resposta mais decisiva.
A promessa de ir pedir Eugênia, fê-la Estácio na segunda semana de
dezembro, em uma noite sem visitas, que eram as melhores noites para ele. No dia
seguinte de manhã, erguendo-se tarde, soube que Helena saíra a cavalo.
— Sozinha?
— Com o Vicente.
Vicente era o escravo que, como sabemos, se afeiçoara, primeiro que todos,
a Helena; Estácio designara-o para servi-la. A notícia do passeio não lhe agradou. O
tempo andava com o passo do costume, mas à ansiedade do mancebo afigurava-se
mais longo. Estácio chegava à janela, ia até ao portão da chácara, com ar de
aparente indiferença, que a todos iludia, a começar por ele próprio. Numa das vezes
em que voltou a casa, achou levantada D. Úrsula; falou-lhe; D. Úrsula sorriu com
tranqüilidade.
— Que tem isso? disse ela. Já uma vez saiu a passeio com o Vicente e não
aconteceu nada.
— Mas não é bonito, insistiu Estácio. Não está livre de um ato de desatenção.
— Qual! Toda a vizinhança a conhece. Demais, Vicente já não é tão criança.
— Tranqüiliza-te, que ela não tarda. Que horas são?
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— Oito.
— Dez ou quinze minutos mais. Parece-me que já ouço um tropel!...
Os dois estavam na sala de jantar; passaram à varanda, e viram efetivamente
entrar no terreiro Helena e o pajem. Helena deu um salto e entregou a rédea de
Moema ao pajem que acabava de apear-se. Depois subiu a escada da varanda. Ao
colocar o pé no primeiro degrau, deu com os olhos no irmão e na tia. Fez-lhes um
cumprimento com a mão, e subiu a ter com eles.
— Já de pé! exclamou abraçando D. Úrsula.
— Já, para lhe ralhar, disse esta sorrindo. Que idéia foi essa de bater a linda
plumagem? É a segunda vez que você se lembra de sair sem o urso do seu irmão.
— Não quis incomodar o urso, replicou ela voltando-se para Estácio. Tinha
imensa vontade de dar um passeio, e Moema também. Apenas hora e meia.
Aquele dia foi o de maior tristeza para a moça. Estácio passou quase todo o
tempo no gabinete; nas poucas ocasiões em que se encontraram, ele só falou por
monossílabos, às vezes por gestos. De tarde, acabado o jantar, Estácio desceu à
chácara. Já não era só o passeio de Helena que o mortificava; ao passeio juntava-se
a carta. Teria razão a tia em suas primeiras repugnâncias? Como ele fizesse essa
pergunta a si mesmo, ouviu atrás de si um passo apressado e o farfalhar de um
vestido.
— Está mal comigo? perguntou Helena com doçura.
Ao ouvir-lhe a voz, fundiu-se a cólera do mancebo. Voltou-se; Helena estava
diante dele, com os olhos submissos e puros. Estácio refletiu um instante.
— Mal? disse ele.
— Parece que sim. Não me fala, não se importa comigo, anda carrancudo...
Seria por eu sair de manhã?
— Confesso que não gostei muito.
— Pois não sairei mais.
— Não; pode sair. Mas está certa de que não corre nenhum perigo indo só
com o pajem?
— Estou.
— E se eu lhe pedir que não saia nunca sem mim?
— Não sei se poderei obedecer. Nem sempre você poderá acompanhar-me;
além disso, indo com o pajem, é como se fosse só; e meu espírito gosta, às vezes,
de trotar livremente na solidão.
— Naturalmente a pensar de coisas amorosas... acrescentou Estácio
cravando os olhos interrogadores na irmã.
Helena não respondeu; tomou-lhe o braço e os dois seguiram
silenciosamente uns dez minutos. Chegando a um banco de madeira, Estácio
sentou-se; Helena ficou de pé diante dele. Olharam um para o outro sem proferir
palavra; mas o lábio de Estácio tremera duas ou três vezes como hesitando no que
ia dizer. Por fim, o moço venceu-se.
— Helena, disse ele, você ama.
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A moça estremeceu e corou vivamente; olhou em volta de si, como
assustada, e pousou as mãos nos ombros de Estácio. Refletiu ela no que disse
depois? É duvidoso; mas a voz, que nessa ocasião parecia concentrar todas as
melodias da palavra humana, suspirou lentamente:
— Muito! muito! muito!
Estácio empalideceu. A moça recuou um passo, e, trêmula, pôs o dedo na
boca, como a impor-lhe silêncio. A vergonha flamejava no rosto; Helena voltou as
costas ao irmão e afastou-se rapidamente. Ao mesmo tempo, a sineta do portão era
agitada com força, e uma voz atroava a chácara:
— Licença para o amigo que vem do outro mundo!
CAPÍTULO X
Estácio dirigiu-se ao portão. Abriu-o; um moço que ali estava entrou
precipitadamente. Era Mendonça. Os dois mancebos lançaram-se nos braços um do
outro. Helena, a alguma distância, presenciou aquela efusão, e não lhe foi difícil
adivinhar quem era o recém-chegado.
A efusão cessou, ou antes interrompeu-se, para repetir-se. Quando os dois
rapazes se julgaram assaz abraçados, tomaram o caminho da casa. Helena, que
estava um pouco adiante deles, foi apresentada a Mendonça. Ao ouvir que era irmã
de Estácio, Mendonça ficou espantado. Cortejou cerimoniosamente a moça, e os
dois seguiram até a casa, onde pouco depois entrou Helena.
Mendonça era da mesma estatura que Estácio, um pouco mais cheio, ombros
largos, fisionomia risonha e franca, natureza móbil e expansiva. Vestia com o maior
apuro, como verdadeiro parisiense que era, arrancado de fresco ao grand boulevard,
ao café Tortoni e às récitas do Vaudeville. A mão larga e forte calçava fina luva cor
de palha, e sobre o cabelo, penteado a capricho, pousava um chapéu de fábrica
recente.
Estácio, antes de entrar, explicou ao amigo a situação de Helena, cujas
qualidades e educação louvou, com o fim de lhe fazer compreender o respeito e a
afeição que ela de todos merecia. Helena adivinhou esse trabalho preparatório do
irmão, logo que entrou na sala.
Mendonça divertiu a família uma parte da noite, contando os melhores
episódios da viagem. Era narrador agradável, fluente e pinturesco, dotado de grande
memória e certa força de observação. Espírito galhofeiro, achava facilmente o lado
cômico das coisas e mais se comprazia em dizer os incidentes de um jantar de hotel
ou de uma noite de teatro que em descrever as belezas da Suíça ou os destroços de
Roma.
A visita durou pouco mais de hora. Estácio quis acompanhá-lo até à cidade;
ele não consentiu que fosse além do portão. Atravessando a chácara, falaram do
passado, e um pouco do futuro, a trechos soltos, como o lugar e a ocasião lhes
permitiam. Mendonça, vendo que Estácio não tocava em um ponto essencial, foi o
primeiro que o aventou.
— Falaste-me em uma de tuas cartas de certa Eugênia...
— A filha do Camargo.
— Justo. Negócio roto?
— Quase terminado.
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— Terminado... na igreja, suponho?
— Tal qual.
— Quando?
— Brevemente.
— Marido, enfim! Era só o que te faltava. Nasceste com a bossa conjugal,
como eu com a bossa viajante, e não sei qual de nós terá razão.
— Talvez ambos.
— Creio que sim. Tudo depende do gosto de cada um. O casamento é a pior
ou a melhor coisa do mundo; pura questão de temperamento. Eu vi algumas vezes
essa moça; era então muito menina. Não te pergunto se é um anjo...
— É um anjo.
— Como todas as noivas. Feliz Estácio! Segues a carreira de tua vocação,
enquanto que eu...
— Tu?
— Interrompo a minha, e talvez para sempre. Preciso cuidar da vida; não sou
capitalista, nem meu pai tampouco. Adeus, viagens!
— Tanto melhor! Arranjo-te noiva. Não é a tua vocação, mas não serás o
primeiro que a erre, sem que daí venha mal ao mundo.
— Pois arranja lá isso... Em todo caso não será tua irmã.
— Oh! não, disse vivamente Estácio.
— Na verdade, é bonita; mas... se permites a franqueza de outrora, acho-lhe
uma costela de desdém...
— Que idéia! É a mais afável criatura do mundo. Verás mais tarde; hoje
estava, talvez, preocupada. Em todo o caso, não havias de querer que ela saltasse a
dançar contigo na sala, de mais a mais sem música.
Mendonça acabava de acender um charuto; apertou a mão de Estácio e saiu.
Estácio acordou de um sonho. A realidade pôs-lhe as mãos de chumbo e repetiu-lhe
ao ouvido a confissão interrompida de Helena. Ansioso por saber o resto, entrou ele
imediatamente em casa. A diligência foi estéril, porque a irmã se recolhera ao
quarto. Estácio imitou-a. Era forçoso esperar uma noite inteira, demora que o afligia,
porque, dizia ele consigo mesmo, cumpria-lhe velar pela sorte de Helena, como
irmão e chefe de família, indagar de seus sentimentos, e ordenar o que fosse
melhor. Uma noite não era muito; contudo, a preocupação retardou-lhe o sono. A
confissão súbita, lacônica e eloqüente da irmã ficara-lhe no espírito, como se fora o
eco perpétuo de uma voz extinta.
Nem no dia seguinte, nem nos subseqüentes alcançou o que esperava.
Helena, ou evitava ficar a sós com ele, ou esquivava-se a maior explicação. Nos
passeios matinais, que eram freqüentes, procurou Estácio, mais de uma vez, tratar
do assunto que o preocupava. Helena ouvia com um sorriso, e respondia com um
gracejo; depois, dava de rédea à conversação e galopava na direção oposta. Como
a fantasia era campo vasto, nunca mais o moço lograva trazê-la ao ponto de partida.
Um dia, a insistência de Estácio teve tal caráter de autoridade, que pareceu
constranger e molestar Helena. Ela replicou com um remoque; ele redargüiu com
uma advertência áspera. Iam ambos a pé, levando os animais pela rédea. Ouvindo a
palavra do irmão, Helena susteve o passo, e fitou-o com um olhar digno, um desses
olhares que parecem vir das estrelas, qualquer que seja a estatura da pessoa.
Estácio possuía estas duas coisas, a retratação do erro e a generosidade do perdão.
Viu que cedera a um mau impulso, e confessou-o; mas confessou-o com palavras
tais que Helena travou-lhe da mão e lhe disse:
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— Obrigada! Se me não dissesse isso, ver-me-ia disparar por este caminho
fora até ao fim do mundo ou até ao fim da vida.
— Helena!
— Oh! não é vão melindre, é a própria necessidade da minha posição. Você
pode encará-la com olhos benignos; mas a verdade é que só as asas do favor me
protegem... Pois bem, seja sempre generoso, como foi agora; não procure violar o
sacrário de minha alma. Não insista em pedir a explicação de palavras mal
pensadas e ditas em má hora...
— Mal pensadas? Pode ser; mas por isso é que são verdadeiras; se você
tivesse tempo de as meditar, guardá-las-ia consigo, avara de seus segredos e
suspeitosa de corações amigos. Meu fim era somente ajudá-la a ser venturosa,
destruir...
— É tarde! interrompeu a moça, consultando o reloginho preso à cintura.
Vamos?
Estácio sorriu melancolicamente; ofereceu-lhe o joelho, ela pousou nele o
pezinho afilado e leve e saltou no selim. A volta foi menos alegre do que costumava
ser. Eles falavam, mas a palavra vinha aos lábios, como uma onda vagarosa e
surda; nenhuma cólera, mas nenhuma animação. Assim correu aquele dia; assim
correriam outros, se não fora a vara mágica de Helena. O natural influxo era tão forte
que o irmão voltou desde logo às boas, sendo as melhores horas as que passava ao
pé dela, a escutá-la e a vê-la, ambos contentes e felizes. O episódio da confissão
vinha às vezes, como hóspede importuno, projetar entre eles o nebuloso perfil; mas
o espírito de Estácio repelia-o, e a alegria da irmã fazia o resto.
Entretanto, graças ao amigo recém-chegado, o filho do conselheiro saiu um
pouco de suas regras habituais, e começou a provar alguma coisa mais da vida
exterior. Mendonça buscava realizar, em miniatura, o seu esvaído ideal parisiense;
havia nele o movimento, a agitação, a galhofa, que absolutamente faltavam a
Estácio, e vieram dar-lhe à vida a variedade que ela não tinha. Alguns espetáculos e
passeios, uma ou outra ceia alegre, tal foi o programa de uma parte ínfima da
existência de Estácio. Para contrastar com ela, tinha ele as manhãs do Andaraí e
algumas noites do Rio Comprido. Ao amigo e à sua consciência, dizia o moço que
estava a despedir-se da liberdade.
A influência de Mendonça estendeu-se à própria casa de Estácio. Mendonça
gostava sobretudo da variedade no viver; não tolerava os mesmos prazeres nem os
mesmos charutos; para os apreciar tinha necessidade de os alternar
freqüentemente. Se fosse possível, era capaz de fazer-se monge durante um mês,
antes do carnaval, trocar o hábito por um dominó, e atar as últimas notas das
matinas com os prelúdios da contradança. A fidelidade à moda custava-lhe um
pouco, quando esta não ia a passo com a impaciência. Em sua opinião, o que
distinguia o homem do cão era a faculdade de fazer que uma noite se não
parecesse com outra. O Rio de Janeiro não lhe oferecia a mesma variedade de
recursos que Paris; tendo o gênio inventivo e fértil, não lhe faltaria meio de fugir à
uniformidade dos hábitos.
O pior que lhe acontecia era a disparidade entre os desejos e os meios. Filho
de um comerciante, apenas remediado, não teria ele podido realizar a viagem à
Europa, nas proporções largas em que o fez, a não ser a intervenção benéfica de
uma parenta velha, que se incumbira de lhe ministrar os recursos de que ele
carecesse durante aquela longa ausência. Nem a parenta continuaria a abrir-lhe a
bolsa, nem o pai queria criar-lhe hábitos de ociosidade. Tratava este, portanto, de
obter-lhe um emprego público. Mendonça estava longe de recusar; pedia somente
que o emprego o não deslocasse da Corte.
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Inquieto, amigo da vida ruidosa e fácil, inteligente sem largos horizontes,
possuindo apenas a instrução precisa para desempenhar-se regularmente de
qualquer comissão de certa ordem, Mendonça, com todos os seus defeitos e boas
qualidades, era homem agradável e aceito. Os defeitos eram antes do espírito que
do coração. A variedade que ele pedia para as coisas externas e de menor tomo,
não a praticava em suas afeições, que eram geralmente inalteráveis e fiéis. Era
capaz de sacrifício e dedicação; sobretudo se lhe não pedissem o sacrifício
deliberado ou a dedicação refletida, mas aquele que exige uma circunstância
imprevista e súbita.
Não admira que a presença de tal homem viesse modificar o tom da
sociedade de que era centro a família de Estácio, quando ele ali fazia alguma
aparição. Era o sol daquela terra. Não tinha a rijeza do figurino, nem o ar do
estrangeirado. A tesoura do alfaiate não lhe dissimulara a índole expansiva e franca.
Acolhido como um filho, achava ali uma porção de casa. Que melhor aspecto podia
ter a vida em tais condições, naquela família ligada por um sentimento de amor?
A noite do último dia do ano veio turvar a limpidez das águas.
CAPÍTULO XI
Naquele dia fazia anos Estácio, e D. Úrsula assentara receber algumas
pessoas a jantar, e outras mais à noite, em reunião íntima. Ela e Helena tomavam a
peito fazer que a pequena festa de família fosse digna do objeto. Estácio opinou pela
supressão do sarau; mas era difícil alcançar a desistência de corações que o
amavam.
Logo de manhã, como ele se levantasse cedo, encontrou Helena que o
convidou a segui-la à sala de costura.
— Quero dar-lhe o meu presente de anos, disse ela.
Ali entrados, abriu a moça uma pasta de desenhos, na qual havia um só, mas
significativo: era uma parte da estrada de Andaraí, a mesma por onde eles
costumavam passear, mas com algumas particularidades do primeiro dia. Dois
cavaleiros, ele e ela, iam subindo a passo lento; ao longe, e acima via-se a velha
casa da bandeira azul; no primeiro plano desciam o preto e as mulas. Por baixo do
desenho uma data: 25 de julho de 1850.
Estácio não pôde conter um gesto de admiração, quando a moça retirou de
cima do desenho a folha de papel de seda que o cobria. Apertou a mão de Helena e
examinou o trabalho. Notou a firmeza das linhas, a exação das circunstâncias locais,
as impressões de uma hora fugitiva que o lápis da irmã tivera a arte de fixar no
papel.
— Não podia fazer-me presente melhor, disse ele; dá-me uma parte de si
mesma, um fruto de seu espírito. E que fruto! Não há muita moça que desenhe
assim. Era talvez por isso que você saía algumas vezes sozinha com o pajem?
Estácio contemplou ainda instantes o desenho; depois levou-o aos lábios. O
beijo acertou de cair na cabeça da cavaleira. Foi o original que corou.
— Andavam a gabar os meus talentos, disse Helena após um instante; tive a
vaidade de dar uma pequena amostra...
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— Excelente amostra! Não acha, titia? disse o moço a D. Úrsula, que nesse
instante aparecera à porta, trazendo o seu presente, numa bocetinha de joalheiro.
D. Úrsula não tinha, decerto, o instinto da arte; mas o amor da família lhe
ensinara uma estética do coração, e essa bastou a fazê-la admirar o trabalho de
Helena.
— Mas que digo eu todos os dias? exclamou D Úrsula. Esta pequena sabe
tudo!
— Quase tudo, emendou Helena; ignoro, por exemplo, como lhes hei de
agradecer...
— O quê, tontinha? interrompeu a tia. Algum disparate, naturalmente,
impróprio em qualquer dia, mas muito mais ainda no dia de hoje.
Enquanto as duas senhoras foram tratar das disposições do dia, Estácio
mandou selar o cavalo e saiu. Queria comparar ainda uma vez o desenho de Helena
com o sítio copiado. A fidelidade era completa, e o quadro seria absolutamente o
mesmo, se dessem algumas circunstâncias da primeira ocasião. Helena não ia ao
lado dele; mas a vinte braças de distância flutuava a bandeira azul da casa do
alpendre. Estácio afrouxou o passo do cavalo, como saboreando as recordações da
primeira manhã, quando Helena se lhe mostrara tão singularmente comovida.
Volveu a refletir na situação dela, e na paixão que lhe confessara, dias antes, com
tamanha veemência. Se tratava de uma felicidade possível, embora difícil, Estácio
prometeu a si mesmo alcançar-lha. Não era isso servir o sangue do seu sangue?
A casa do alpendre, até ali indiferente a Estácio, criava agora para ele um
interesse especial. À medida que se aproximava, ia achando no edifício a fiel
reprodução do desenho. Este não apresentava todas as particularidades da
vetustez; mas continha as mesmas disposições exteriores, como se fora feito diante
do original.
A uma das janelas estava um homem, com a cabeça inclinada, atento a ler o
livro que tinha sobre o peitoril. Nessa atitude não era fácil examiná-lo; afigurava-se,
entretanto, uma criatura máscula e bela. A duas braças de distância, o indivíduo
levantou a cabeça, e cravou em Estácio um par de olhos grandes e serenos;
imediatamente os retirou, baixando-os ao livro.
— Mal sabes tu, filósofo matinal, disse Estácio consigo, mal sabes tu que a
tua casa teve a honra de ser reproduzida pela mais bela mão do mundo!
O filósofo continuou a ler, e o cavalo continuou a andar. Quando Estácio
regressou daí a alguns minutos, achou somente a casa; o morador desaparecera;
circunstância indiferente, que escapou de todo à atenção do moço. Nem ele
pensava mais naquilo; o espírito trotava largo, à inglesa, como o ginete, e ambos
bebiam o ar, como ansiosos de chegar ao ponto da partida.
CAPÍTULO XII
A festa correu animada, posto a reunião fosse restrita. Alguns giros de valsa,
duas ou três quadrilhas, jogo e música, muita conversa e muito riso, tal foi o
programa da noite, que a encheu e fez mais curta.
Se as honras da casa foram feitas por Helena, a alma da festa era Mendonça,
cujo espírito havia já recebido e colhido o sufrágio universal. Eugênia dera-lhe, antes
de todos, o seu voto. Havia entre ambos tal ou qual afinidade de índole, que
naturalmente os aproximava. Mendonça lisonjeava os caprichos de Eugênia,
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aplaudia-a, compreendia-a, obedecia-lhe sem constrangimento nem reparo. Quando
Mendonça valsava com Eugênia, todos os olhos se concentravam neles. Eram
valsistas de primeira ordem. As ondulações do corpo de Eugênia, e a serenidade e
segurança de seus passos adaptavam-se maravilhosamente àquela espécie de
dança. Era belo vê-los percorrer o vasto círculo deixado aos movimentos; vê-los
enfim parar com a mesma precisão e sem o menor sintoma de cansaço. Eugênia
punha toda a atenção no gesto de braço com que, logo que interrompia ou cessava
de todo a valsa, conchegava ao corpo a saia do vestido. O prazer com que fazia
esse gesto, e a graça com que o acompanhava de uma leve inclinação do corpo
mostravam que, mais ainda a faceirice do que a necessidade, lhe movia o corpo e a
mão.
Esta sorte de triunfos enchia a alma de Eugênia; e, porque ela não possuía
nem a modéstia nem a arte de a simular, via-se-lhe no rosto o orgulho e a
satisfação. A dança não era para a filha de Camargo um gozo ou um recreio
somente; era também um adorno e uma arma. Daí vinha que o valsista mais
intrépido e constante era também o principal parceiro do seu espírito; e ninguém
disputava esse papel ao filho do comerciante.
— Sua filha é a rainha da noite, murmurou o Dr. Matos ao ouvido de
Camargo, em um intervalo do voltarete.
— Não é verdade? acudiu o médico.
E a alma do pai voava enrolada nas pontas da fita que apertava a cintura de
Eugênia, não regressando ao domicílio senão quando a moça parava. Então volvia
Camargo um olhar em torno de si, como pedindo igual admiração. Depois, ficava
sombrio, e mais do que usualmente, caía em longos e mortais silêncios. Três ou
quatro vezes aproximara-se de Helena sem lograr detê-la, nem achar em si mais
que duas palavras triviais. Insistia; não a perdia de vista, parecia ansioso de a
conversar sobre alguma coisa.
Helena repartia-se entre todas as pessoas, atenta aos mil cuidados que a
noite requeria. Cantou uma vez, dançou uma quadrilha, e não valsou. Em vão
Mendonça insistira com ela; a moça desculpou-se dizendo que a valsa lhe fazia
vertigens. Na opinião do filho do comerciante esta razão encobria somente a
ignorância de Helena. Estácio pensava antes que era a castidade selvagem da irmã
que lhe não permitia o contato de um homem, idéia que lhe fez bem ao coração.
Pela volta da meia-noite, terminada a ceia, começou aquela hora de repouso
que precede a total dispersão. As senhoras trocavam impressões e comentários, os
rapazes fumavam, os jogadores decidiam as últimas remissas. A noite não
refrescara, e a agitação aumentara o calor. Helena, tão cansada como D. Úrsula,
retirara-se por alguns instantes para a sala contígua à principal; ali sentou-se num
sofá, e derreou levemente o corpo, deixando cair os cílios, não sei se pensativos, se
pesados de sono. O espírito não tivera tempo de encadear duas idéias ou esboçar
um sonho, quando uma voz a acordou:
— Já dormindo!
Era Camargo.
Helena abriu os olhos sobressaltada. A voz de Camargo produzira-lhe a
impressão de desagrado que lhe fazia sempre. Sorriu a moça contrafeitamente, e,
vendo que ele se dispunha a sentar-se no sofá, não arredou o vestido, como se
quisesse deixar entre ambos larga distância. Camargo sentou-se.
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— Parece que se assustou? disse ele.
— Um pouco.
Camargo agitou entre as mãos os perendengues do relógio, tão numerosos
como eles se usavam naquele tempo; depois pegou familiarmente no leque da
moça, abriu-o, contou as varetas, tornou a fechá-lo e restituiu-o com um elogio.
Helena respondeu-lhe com um sorriso. Ia levantar-se quando ele a deteve com estas
palavras:
— Estimei achá-la só, porque precisava pedir-lhe um conselho.
A testa de Helena contraiu-se interrogativamente.
— Um conselho e um favor, continuou o médico. Não será, creio eu, a
primeira vez que a velhice consulte a mocidade. Demais, trata-se de assunto em que
a gente moça lê de cadeira.
Helena olhou para ele desconfiada. Nunca vira o médico tão afável, e essa
mudança de maneiras e de tom é que lhe fazia medo. Verdade é que ele ia pedir-lhe
alguma coisa. Camargo não se deteve. Fez uma exposição rápida de suas relações
com a família do conselheiro, da amizade que o ligava a ela.
— A perda do meu finado amigo, concluiu ele, não pôde ser suprida por
nenhuma coisa; mas, há alguma compensação na afeição que sobrevive e me faz
considerar esta família como minha própria. Estou certo de que seu irmão e D.
Úrsula sentem a meu respeito do mesmo modo. Quanto à senhora, é recente na
família, mas não tem menor direito que ela. Via-a tão pequena!
— A mim? perguntou Helena.
Camargo fez um gesto afirmativo, enquanto a moça olhava em volta da sala,
receosa de que alguém tivesse entrado e ouvido. Uma vez segura de que ninguém
havia, recebeu impressão contrária à primeira; envergonhou-se daquele receio. A
vergonha aumentou quando o médico acrescentou em voz baixinha:
— Não falemos nisso...
— Pelo contrário! exclamou ela. Pode falar com franqueza; diga tudo. Era
minha mãe. Não sei o que foi para o mundo; mas, se me perdoaram a irregularidade
do nascimento, não creio que me pedissem em troca a renúncia do meu amor de
filha; a lei que o pôs em meu coração é anterior à lei dos homens. Não repudio uma
só das minhas recordações de outro tempo. Sei e sinto que a sociedade tem leis e
regras dignas de respeito; aceito-as tais quais; mas deixem-me ao menos o direito
de amar o que morreu. Minha pobre mãe! Vi-a expirar em meus braços, recolhi o seu
último suspiro. Tinha apenas doze anos; contudo, não consenti que outra pessoa
velasse à cabeceira a última noite que passou sobre a terra... Oh! não a esquecerei
nunca! nunca! nunca!
Helena proferiu estas palavras num estado de exaltação que até ali se lhe não
vira. Em vão Camargo procurou duas ou três vezes interrompê-la, receoso de que a
ouvissem fora, porque a moça tinha levantado a voz. Helena não obedeceu; não viu
sequer o gesto suplicante do médico. O seio, castamente velado pelo corpinho, que
subia até o pescoço, estava ofegante e onduloso como a água do mar. A última
palavra saiu-lhe como um soluço. Camargo sentiu-se surpreendido com aquela
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explosão de ternura. Era evidente que ele esperava outra coisa. Seguiu-se um breve
silêncio, durante o qual Helena mordia a ponta do lenço, como para conter a palavra
que lhe tumultuava no coração. O médico prosseguiu enfim:
— Ninguém lhe pede que a esqueça, disse ele, todos respeitam esses
sentimentos de piedade filial. O passado morreu, e o menos que se deve aos mortos
é o silêncio. A senhora tem o direito de lhe dar o amor e a saudade. Mas falemos
dos vivos; e perdoe-me se lhe toquei, sem querer, em tão dolorosa recordação.
— Não! não é dolorosa! disse ela, abanando a cabeça.
— Falemos dos vivos. Não está certa do amor de sua família?
Helena fez um gesto afirmativo.
— Não poderia encontrar outra melhor nem tão boa. D. Úrsula é uma santa
senhora; Estácio, um caráter austero e digno. Venhamos agora ao conselho. Há
muito tempo ando com idéia de ir à Europa; estou caminhando para a velhice; não
quero deixar de ir ver alguma coisa, além do nosso Pão d’Açúcar. Já desfiz o projeto
mais de uma vez. Cuido que agora vou definitivamente realizá-lo. Dá-se, porém,
uma circunstância grave. Sabe que minha filha ama seu irmão? Meus olhos
descobriram desde muito tempo essa inclinação de um e outro, porque também seu
irmão ama minha filha. Merecem-se; e de algum modo continuam a afeição dos pais;
a natureza completa a natureza. Esta é a situação. O que eu desejava, porém, é que
me dissesse se devo partir já, levando-a; ou se é melhor esperar que eles se casem.
Helena ouvira o médico sem olhar para ele; quando ele acabou, fitou-o
admirada e curiosa. A puerilidade da pergunta era tão evidente que a moça procurou
ler no rosto do interlocutor o pensamento verdadeiro e oculto. Camargo apressou-se
a explicar-se.
— Estácio, disse ele, pode amar Eugênia com idéias matrimoniais; mas
também pode não passar isto de um capítulo de romance, como o que se lê em uma
viagem da Corte a Niterói. O caráter é sério; o coração tem leis especiais. Confesso
que o procedimento de Estácio nada me afirma a tal respeito. Há nele umas
mudanças pouco explicáveis. O tempo decorrido é mais que muito suficiente para
que... Está refletindo?
— Estou.
— E...
— Suponho que pede mais do que me disse. Quer que eu indague a tal
respeito as intenções de Estácio?
— Isso.
— Mas por que não se dirige a ele mesmo?
— Não havia inconveniente; estabeleceu-se, porém que um pai não deve ser
o primeiro a falar em tais coisas. É preciso respeitar a dignidade paterna. Acresce
que Estácio é rico, e tal circunstância podia fazer supor de minha parte um
sentimento de cobiça, que está longe de meu coração. Podia falar a D. Úrsula; creio,
porém, que ela não tem a sua habilidade, e... por que o não direi? a sua influência
no espírito de Estácio.
— Eu!
— Oh! influência incontestável! A senhora veio completar a alma de seu
irmão. É visível a afeição e o respeito que ele lhe tem. Demais, em tais assuntos
uma irmã é natural confidente e conselheira.
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Helena deu três pancadinhas no joelho com a ponta do leque, e enfiou os
olhos pela porta de comunicação entre aquela e a sala principal. Depois voltou-se
para o médico.
— Sei que eles se amam, disse ela, e já dei a minha opinião a tal respeito.
Eugênia parece ser minha amiga; meu irmão é meu irmão; desejo-lhes todas as
felicidades. Há, porém, um limite à intervenção de uma irmã; e não desejo ir além.
Demais, seu pedido é ocioso.
— Por quê?
— Anuncie a viagem, e Estácio se apressará a pedir-lhe sua filha. Se o não
fizer, é porque a não ama, conforme ela merece, e em tal caso mais vale perder um
casamento do que o fazer mau.
— Sim? perguntou Camargo.
— Naturalmente.
— O conselho é excelente, disse o médico depois de um instante, mas tem o
defeito substancial de suprimir a sua intervenção, que me é necessária. Vejamos o
meio de combinar as coisas. Suponhamos que, anunciada a viagem, Estácio não
corresponde às minhas esperanças. Que devo fazer?
— Embarcar.
— Embarcar é arriscar o casamento. Ora, este casamento... é um de meus
sonhos. Desejo que os filhos continuem a afeição dos pais. Se Estácio recuar,
minhas esperanças esvaem-se como fumo; o tempo cavará um abismo entre os
dois; Eugênia amará outro... Enfim, conto com a senhora.
— Comigo?
— A senhora tem uma força de resolução, uma fertilidade de expedientes, um
espírito capaz de empresas delicadas; e, tratando-se da felicidade de um irmão,
creio que empenhará todas as forças para levar a cabo a mais pura das ambições.
Não lhe peço um absurdo, peço-lhe a felicidade de minha filha.
Helena não respondeu; olhou de revés para ele, e cravou depois os olhos na
águia branca tecida no tapete, sobre o qual pousava o pé impaciente e colérico.
Podia referir mais detidamente qual o seu papel junto de Estácio, a respeito de
Eugênia, os pedidos que lhe fez, e a promessa do irmão, que deveria ser cumprida,
se o fosse, em algum dos seguintes dias. Mas, nem quis dar esperanças que os
acontecimentos podiam dissipar, nem o coração lhe consentia mais larga
confidência. Ambos eles viam que se detestavam cordialmente; mas, se em Helena
havia cólera abafada, em Camargo havia tranqüilidade e observação. Ele
contemplava a moça, com o olhar fixo e metálico dos gatos; a mão esquerda,
pousada sobre o joelho, rufava com os dedos magros e peludos. Nada dizia; todo
ele era uma interrogação imperiosa. Helena olhou ainda uma vez para o médico.
— Dá-me o seu braço até à sala? perguntou.
Camargo sorriu.
— Só isso? Eu dizia comigo outra coisa.
— Que dizia então? perguntou Helena.
— Dizia que muito se devia esperar da dedicação de uma moça, que acha
meio de visitar às seis horas da manhã uma casa velha e pobre, não tão pobre que
a não adorne garridamente uma flâmula azul...
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Helena fez-se lívida; apertou nervosamente o pulso de Camargo. Nos olhos
pareciam falar-lhe ao mesmo tempo o terror, a cólera e a vergonha. Através dos
dentes cerrados Helena gemeu esta palavra única:
— Cale-se!
— Falo entre nós e Deus, disse Camargo.
Uma onda de sangue invadiu a face da moça, com a mesma rapidez com que
ela lhe empalidecera. Helena quis erguer-se, mas sentiu-se exausta. Ninguém da
sala pôde perceber a impressão e o movimento; ninguém olhava para ali. Camargo,
entretanto, inclinou-se para Helena e proferiu algumas palavras de animação, que
ela interrompeu, murmurando com amargura:
— O senhor é cruel!
— Sou pai, respondeu o médico; pai extremoso e discreto, mais discreto
ainda que extremoso. Conto com a senhora.
CAPÍTULO XIII
Dissolvida a reunião, Helena recolheu-se à pressa com o pretexto de que
estava a cair de sono, mas realmente para dar à natureza o tributo de suas lágrimas.
O desespero comprimido tumultuava no coração, prestes a irromper. Helena entrou
no quarto, fechou a porta, soltou um grito e lançou-se de golpe à cama, a chorar e a
soluçar.
A beleza dolorida é dos mais patéticos espetáculos que a natureza e a fortuna
podem oferecer à contemplação do homem. Helena torcia-se no leito como se todos
os ventos do infortúnio se houvessem desencadeado sobre ela. Em vão tentava
abafar os soluços, cravando os dentes no travesseiro. Gemia, entrecortava o pranto
com exclamações soltas, enrolava no pescoço os cabelos deslaçados pela violência
da aflição, buscando na morte o mais pronto dos remédios. Colérica, rompeu com as
mãos o corpinho do vestido; e o jovem seio, livre de sua casta prisão, pôde à larga
desafogar-se dos suspiros que o enchiam. Chorou muito; chorou todas as lágrimas
poupadas durante aqueles meses plácidos e felizes, leite da alma com que fez calar
a pouco e pouco os vagidos de sua dor.
Calar somente, não adormecê-la, porque ela aí lhe ficou, companheira
daquela noite cruel, para velarem ambas. Quando os olhos cansaram, e foram mais
intervalados os soluços, Helena jazeu imóvel no leito, com o rosto sobre o
travesseiro, fugindo com a vista à realidade exterior. Uma hora esteve assim, muda,
prostrada, quase morta, uma hora longa, longa, longa, como só as tem o relógio da
aflição e da esperança.
Quando a tormenta pareceu extinta, a moça sentou-se na cama e olhou
vagamente em torno de si. Depois ergueu-se; dirigiu-se trôpega ao quarto de vestir;
ali parou diante do espelho, mas fugiu logo, como se lhe pesasse encarar consigo
mesma. Uma das janelas estava aberta. Helena foi ali aspirar um pouco do ar da
noite. Esta era clara, tranqüila e quente. As estrelas tinham uma cintilação viva que
as fazia parecer alegres. Helena enfiou um olhar por entre elas como procurando o
caminho da felicidade. Esteve à janela cerca de meia hora; depois entrou, sentou-se
e escreveu uma carta.
A carta era longa, escrita a golfadas, sem nexo nem ordem; continha muitas
queixas e imprecações, ternura expansiva de mistura com um desespero profundo;
falava daqueles que, tendo nascido sob a influência de má estrela, só têm
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felicidades intermitentes e mutáveis; dizia que para ela a própria felicidade era um
germe de morte e dissolução, — idéia que repetia três vezes, como se tal
observação fosse o transunto de suas experiências certas. A carta falava também de
um homem, cujo egoísmo de pai não conhecia limites, e que a todo o transe queria
que a filha desposasse uma grande riqueza e uma grande posição, — “homem, dizia
ela, que me viu a princípio com olhos avessos, pela diminuição que eu trazia à
herança”. No fim dizia que havia naquelas linhas muito de obscuro e incompleto, que
oportunamente contaria tudo, mas que desde já podia dar a triste notícia de que lhe
era forçoso abster-se de sair.
Helena releu o escrito e meditou longo tempo sobre ele; acrescentou ainda
algumas linhas; depois, rasgou o papel em dois pedaços, chegou-os à vela, e os
destruiu. Como arrependida, voltou a escrever outra carta, mas não chegou a acabar
seis linhas; rasgou-a como fizera à primeira, e só então recorreu ao remédio melhor
de uma alma ulcerada e pia: rezou. A prece é a escada misteriosa de Jacó: por ela
sobem os pensamentos ao céu; por ela descem as divinas consolações.
Entretanto, a noite começava a inclinar a urna das horas às mãos da
madrugada. O sono fugira dos olhos de Helena; mas era forçoso repousar. Assim
mesmo vestida, atirou-se sobre o leito. Não dormiu, não se pode dizer que dormisse;
ficou ali num estado que não era vigília nem sono, até que a manhã rompeu
inteiramente. Abrindo os olhos, pareceu acordar de um sonho; a imaginação
recompôs as fases todas do acontecimento da véspera. Depois suspirou, e ficou
longo tempo a olhar para o chão, com a fixidez trágica e solene da morte.
— Era justo! murmurava de quando em quando.
Levantou-se enfim; levantou-se abatida e cansada. Viu-se ao espelho; a
descor da face e a linha roxa que lhe circulava as pálpebras dificilmente podiam
deixar de impressionar a família. Helena disfarçou como pôde esses vestígios da
tempestade; explicou-os do modo mais verossímil: o cansaço da véspera e a insônia
de toda uma noite. A explicação não achou obstáculo no ânimo da tia e do irmão.
Somente o padre Melchior, presente a ela, fitou na moça um olhar dubitativo, que a
obrigou a baixar os cílios.
Se Helena padecia, o lugar de Estácio não era ao pé dela? Assim pensou o
sobrinho de D. Úrsula, que em todo esse dia resolveu não sair de casa. Cercou-a de
cuidados, buscou distraí-la, pediu-lhe que fosse repousar um instante. Para justificar
a explicação que dera, Helena obedeceu às instruções do irmão. Este foi encerrar-se
no gabinete, onde se ocupou em examinar e colecionar alguns papéis. Era o dia
marcado para solicitar de Eugênia o consentimento matrimonial, e ele não cogitava
em ir ao Rio Comprido. Na irmã, sim; na irmã pensava ele, ora relendo as páginas
de sua predileção, ora mandando saber se dormia sossegada, ora contemplando o
desenho com que ela o presenteara na véspera. Sentia-se tão feliz naquela aurora
do ano!
Pouco antes do jantar, ouviu no corredor um rumor de saias, e não tardou que
a irmã aparecesse à porta. Vinha como fora; mas a Estácio pareceu que
efetivamente o descanso e o sono lhe haviam restaurado as forças. A razão era o
sorriso estudado que lhe avivava o rosto. Helena parou e Estácio foi ter com ela,
travou-lhe da mão, fê-la entrar.
— Estás melhor? perguntou.
— Estou boa.
— Não dizia eu que era melhor desistir da idéia da reunião? Essas festas
prolongam-se, e fatigam, sobretudo as pessoas franzinas...
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Helena ergueu os ombros.
— Anda sentar-te um pouco.
— Primeiro há de responder-me a uma coisa.
— Que é?
— Que dia é hoje? perguntou ela.
— Ano bom.
— Lembra-se do que me prometeu?
— Perfeitamente. Vês estes papéis? disse ele mostrando sobre a secretária
uma porção de papéis classificados e postos por ordem. Ocupei-me até agora em
liquidar o passado; faltam-se umas últimas contas, que o procurador há de trazer
amanhã. Depois, irei...
Helena abanou a cabeça com ar de desaprovação.
— Não, disse ela; não há de ir depois, há de ir hoje mesmo. Que têm as
contas com a autorização que deve pedir a Eugênia? Vá logo de noite. Sou
supersticiosa; creio que o pedido feito no dia de hoje é de excelente agouro. Dará
um ano feliz.
— Minha intenção era ir dentro de quatro ou cinco dias, respondeu Estácio,
depois de um silêncio; mas não tenho dúvida em fazê-lo. Uma vez preenchida a
formalidade...
— Pedi-la-á imediatamente ao pai.
— Não!
— Por quê?
— Porque precisarei meditar ainda vinte e quatro horas, pelo menos. Vinte e
quatro horas não é muito para quem tem de amarrar-se eternamente. Quero sondar
meu próprio espírito, e...
— Mas tudo isso é uma extravagância! interrompeu Helena sentando-se na
borda da rede em que Estácio costumava ler. Pretenderá você recuar depois de lhe
falar, a ela?
— Oh! não! Mas, uma vez que caminho para solução tão grave, não há
inconveniente em ir pé ante pé. Admiras-te? perguntou ele, vendo que a irmã fazia
um gesto de impaciência.
— Zango-me.
— Mas...
— Você é insuportável. Falta ao que prometeu.
— Já disse que hei de cumprir.
— Não recuará?
— Não.
— Irá pedi-la hoje mesmo?
— A ela.
— A ela e ao pai.
— Ao pai escreverei uma carta.
— Pois seja uma carta! Contanto que acabe com isso. O casamento será...
— Quando convier ao Dr. Camargo.
— Antes do fim do mês.
— Tão cedo!
— Dou-lhe mês e meio. Nem uma hora mais! Estou morta por vê-los casados,
tanto por você como por ela, coitada! que o ama tanto...
— Crês? perguntou vivamente Estácio.
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— Se creio! Posso afirmá-lo. Não será amor como você quisera que fosse,
mas é o amor que ela lhe pode dar, e é muito... Está dito! Palavra?
Estácio estendeu silenciosamente a mão, que Helena apertou.
— Vou confiar todo o meu destino à cabeça mais leve do universo, disse
Estácio, com os olhos fitos no chão. Não é de seu coração que me queixo; mas de
seu espírito, que nunca deixou as roupas da infância. Demais, à medida que me
aproximo da hora solene, sinto que me repugna o estado conjugal. É tão boa a
minha vida de solteiro! tão cheios os meus dias...
Helena tapou-lhe a boca com uma das mãos; com a outra fez-lhe um gesto
para que se calasse. Depois, fugiu. Uma vez só, Estácio refletiu longamente na
situação em que se achava; reconheceu que estava moralmente obrigado a pedir
Eugênia, desde que seus corações se tinham aberto um para o outro, celebrando
um contrato, que ele só não podia romper. A consciência rebelou-se contra as
irresoluções do coração, e a decisão foi curta.
Naquela mesma noite, ouviu Eugênia a esperada palavra. A alegria que se
lhe derramou nos olhos, foi imensa e característica. Um pouco mais de recato não
era descabido em tal ocasião. Não houve nenhum; o primeiro ato da mulher foi uma
meninice. Eugênia ignorava tudo, até a dissimulação do sexo. Concedendo a mão a
Estácio, não era uma castelã que entregava o prêmio, mas um cavaleiro que o
recebia com alvoroço e submissão.
Transposto o Rubicon, não havia mais que caminhar direito à cidade eterna
do matrimônio. Estácio escreveu no dia seguinte uma carta ao Dr. Camargo,
pedindo-lhe a mão de Eugênia, carta seca e digna, como as circunstâncias a
pediam. Antes de a remeter, mostrou-a a Helena, que recusou lê-la. Não a leu, nem
lhe pegou. Ele teve-a alguns instantes na mão, sem se atrever a dá-la ao escravo
que esperava por ela. Por fim, deitou-a sobre a secretária.
— Amanhã, disse ele sorrindo para Helena.
Helena lançou mão da carta e deu-a ao escravo.
— Leva à casa do Sr. Dr. Camargo, ordenou a moça. Não tem resposta.
CAPÍTULO XIV
Camargo ia sentar-se à mesa quando lhe entregaram a carta de Estácio; leu-
a para si, mas a filha leu-a nos olhos dele. Uma aura de bem-aventurança desrugou
a fronte do médico; seus lábios, — coisa pasmosa! — abriram-se num sorriso franco,
sorriso que chegou a desabrochar em gargalhada, a primeira que D. Tomásia lhe
ouviu. Acabado o jantar, Camargo deu conta do pedido à mulher, e os dois pais
chamaram a filha à sala. Eugênia ouviu a notícia sem baixar os olhos nem corar.
Interrogada, respondeu que era muito do seu gosto o casamento.
— Sim? perguntou Camargo, simulando espanto.
Eugênia fez uma leve inclinação de cabeça, com certo ar de quem dizia não
acreditar no espanto do pai. Este pegou nas mãos da filha e puxou-a para si.
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— Assim, pois, meu anjo, disse ele, casas-te por tua livre vontade? Estácio é
o eleito de teu coração? Louvo a escolha, que não podia ser mais digna. Serás
herdeira das virtudes de tua mãe, que te proponho como o melhor modelo da terra.
— O mais consciencioso pelo menos, acudiu D. Tomásia, satisfeita e vaidosa
do louvor do marido. Há de ser boa esposa, modesta, solícita e econômica.
— Econômica, sem avareza, emendou Camargo. A riqueza não deve ser
dissipada, mas é certo que impõe obrigações imprescindíveis, e seria da maior
inconveniência viver a gente abaixo de seus meios. Não farás isso nem cairás no
extremo oposto; procura um meio-termo, que é a posição do bom senso. Nem
dissipada, nem miserável.
D. Tomásia concordou com esta explicação do marido, enquanto Eugênia,
olhando alternadamente para um e outro, parecia não lhes dar a mínima atenção. O
pensamento estava em Andaraí; ela via já na imaginação a cerimônia do consórcio,
as carruagens, o apuro do noivo, a sua própria graça, a coroa de flores de laranjeira,
que a havia de adornar; enfim talhava já o vestido branco e pregava as rendas de
Malines com que havia de levar os olhos a ambas as metades do gênero humano.
Daquele sonho foi despertada pelo pai, que lhe imprimiu na testa o seu segundo
beijo. O primeiro, como o leitor se há de lembrar, foi dado na noite da morte do
conselheiro. O terceiro seria provavelmente no dia em que ela casasse.
— Sabes que te amo, Eugênia? disse Camargo olhando para ela.
— Papai!
Camargo não pôde dizer mais nada. O amor, um instante expansivo, volveu a
aninhar-se no fundo do coração, onde sempre estivera. A satisfação do médico
precisava do silêncio e do recolhimento para saborear-se. Foi então que Eugênia
passou às mãos de D. Tomásia. A mulher do Dr. Camargo via aquele casamento
com olhos diferentes do marido. O que ela sobretudo via, eram as vantagens morais
da filha. Sentou-a ao pé de si e recitou-lhe um catecismo de deveres e costumes,
que Eugênia interrompia de quando em quando, com exclamações de obediência
filial:
— Sim, mamãe!... Deixe estar!... Mamãe há de ver!...
D. Tomásia sentia-se feliz. O rosto, cuja expressão era vulgar, tinha naquela
ocasião alguma coisa que o tornava sublime. Ela fez que a filha se lhe sentasse no
regaço; e esta sentindo que a molestava, deixou-se lentamente cair de joelhos,
ficando entre os dela, a olhar para ela.
Camargo, entretanto, já não era daquele mundo. Passeava de um para outro
lado, com as mãos para trás, a morder a ponta do bigode. De quando em quando
parava e olhava para o grupo das duas senhoras, mas era só maquinalmente; o seu
olhar baço indicava que ele ia mergulhado em profundas cogitações.
Naquele homem céptico, moderado e taciturno, havia uma paixão verdadeira,
exclusiva e ardente: era a filha. Camargo adorava Eugênia: era a sua religião.
Concentrara esforços e pensamentos em fazê-la feliz, e para o alcançar não
duvidaria empregar, se necessário fosse, a violência, a perfídia e a dissimulação.
Nem antes nem depois sentira igual sentimento; não amou a mulher; casou porque o
matrimônio é uma condição de gravidade. O maior amigo que teve foi o conselheiro
Vale; mas essa mesma amizade que o ligara ao pai de Estácio, nunca recebera a
contraprova do sacrifício; aliás apareceria em toda a sinceridade a natureza do
médico. Ele só conhecia os afetos, por assim dizer, caseiros e inertes, os que não
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sabem nem podem afrontar as intempéries da vida. Nas relações morais dos
homens possuía somente o troco miúdo da polidez; a moeda de ouro dos grandes
afetos nunca lhe entrara nas arcas do coração. Um só existia ali: o amor de Eugênia.
Mas esse mesmo amor, aliás violento, escravo e cego, era uma maneira que o pai
tinha de amar-se a si próprio. Entrava naquilo uma soma larga de fatuidade. Menos
graciosa, Eugênia seria, talvez, menos amada. Ele contemplava-a com o mesmo
orgulho com que o joalheiro admira o adereço que lhe saiu das mãos. Era a ternura
do egoísta; amava-se na própria obra. Caprichosa, rebelde, superficial, Eugênia não
teve a fortuna de ver emendados os defeitos; antes foi a educação que lhos deu.
Dos lábios de Camargo nunca saiu a expressão corretiva; nenhum de seus atos
revelou esse procedimento vigilante e diretor, que é a nobre atribuição da
paternidade. Se a índole da filha fosse má, a cumplicidade do pai fá-la-ia péssima.
Não era, felizmente; o coração conhecia as doçuras da bondade; a rebeldia
era um hábito, não um vício nativo. A própria frivolidade foi-lhe desenvolvida pela
educação, nada podendo o zelo da mãe contra as complacências do pai. Esta era a
explicação também da fascinação que exercia nela o tumulto exterior da vida. Quase
se pode dizer que ela não conhecera o vestido curto; a modista a desmamou; uma
contradança foi a sua primeira comunhão.
Não era fácil dar a Eugênia a felicidade que o pai ambicionava e a que mais
lhe apetecia a ela. Posto não fosse perdulário, eram poucos os haveres do médico,
de modo que a filha não podia caber pecúlio suficiente a satisfazer todas as
veleidades. Ele espreitou durante longo tempo um noivo, armando com algum
dispêndio a gaiola em que o pássaro devia cair. No dia em que percebeu a
inclinação de Estácio, fez quanto pôde para prendê-lo de vez. Esperou muitos
meses a iniciativa de Estácio; e quando ela lhe entrou a fugir para a região das
coisas problemáticas, suspeitou a influência de Helena. Já era muito que esta moça
diminuísse a herança do futuro genro; arrancar-lhe o genro era demais. Camargo
não hesitou um instante, foi direito ao fim. O resultado confirmou-lhe a suspeita.
O casamento era muito, mas não bastava. Camargo cuidara na carreira
política de Estácio, como um meio de dar certo relevo público ao da filha, e, por um
efeito retroativo, a ele próprio, cuja vida fora tanto ou quanto obscura. Se o marido
de Eugênia se confinasse no repouso doméstico, entre a horta e a álgebra, a
ambição de Camargo padeceria imenso. Vimo-lo apresentar a Estácio a maçã
política; recusada a princípio, foi-lhe de novo apresentada, e finalmente aceita com a
noiva. Esta dupla vitória foi o momento máximo da vida do médico. Ele ouvia já o
rumor público; sentia-se maior, — antegostava as delícias da notoriedade, — via-se
como que sogro do Estado e pai das instituições.
— Vou entrar na cova dos leões, sem a convicção de Daniel, suspirou Estácio
na ocasião em que cedeu às instâncias de Camargo.
— Seu talento amansará os leões, acudiu este.
Assentou-se logo ali que o casamento seria celebrado na primeira semana de
março. Os dois meses de intervalo foram destinados às formalidades eclesiásticas e
ao preparo do enxoval. Estácio aceitou tudo sem objeção. D. Úrsula e Helena
aprovaram o plano. A primeira acrescentou uma cláusula: — os noivos viriam morar
com elas em Andaraí.
O padre Melchior, consultado sobre o casamento, deu-lhe inteira aprovação, e
só lhe pareceu que o prazo era longo demais. A efusão com que abraçou Estácio, as
palavras de aplauso que lhe disse, impressionaram vivamente o mancebo.
— Desejava muito este casamento? perguntou ele.
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— Muito! Seu pai há de aprová-lo no céu!
Até os mortos conspiravam contra ele; Estácio aceitou resolutamente o
destino. A alegria do padre, ordinariamente contida e digna, transpôs os limites do
costume, para se mostrar quase infantil; D. Úrsula não cabia em si de contente;
Helena parecia colher naquele casamento a sua própria felicidade. Era a bem-
aventurança universal que Estácio ia comprar a troco de um vínculo eterno.
Surgiu, entretanto, um obstáculo temporário. A madrinha de Eugênia, a
fazendeira que lhe mandara um dia a opala, que a moça admirou namorando ao
mesmo tempo os olhos do futuro noivo, a madrinha de Eugênia adoeceu
gravemente, menos ainda da moléstia que a acometeu que dos anos que lhe
pesavam nos ombros. Era senhora rica, viúva, flanqueada por duas sobrinhas
solteiras, uma cunhada, um primo, dois filhos destes e uma vintena de afilhados. Já
daqui se pode inferir a estreiteza das esperanças de Camargo. Posto que ele não
tivesse nunca preterido os deveres que lhe impunha o vínculo espiritual, dando à
fazendeira todas as provas possíveis de um grande afeto, ainda assim era de recear
que a última vontade da moribunda não trouxesse o cunho da estrita justiça, ou,
quando menos, de razoável eqüidade. Nestas circunstâncias, a viagem a Cantagalo
era urgentíssima, e cumpria realizá-la à custa dos maiores incômodos. Todo o
incômodo é aprazível quando termina em legado. Camargo não perdia a esperança
desse desenlace igualmente afetuoso e pecuniário. Resolveu ir com a família toda, e
avisou por carta ao futuro genro.
Estácio estimou o obstáculo, mas não contou com o que ele trazia no bojo.
Chegando ao Rio Comprido achou aflitos o médico e D. Tomásia; Eugênia recusava
sair da Corte. Em vão lhe mostravam a conveniência de corresponder, em ocasião
tão grave, à afeição da madrinha; debalde lhe diziam que era ser ingrata não ir
recolher o último suspiro da venerável senhora, sua mãe espiritual. Eugênia
recusava a pés juntos.
Assistiu o noivo à última fase da luta entre os pais e a filha. Esta trazia os
olhos vermelhos de chorar; batia com as mãos uma na outra, declarando que só iria
à força. Estácio procurou chamá-la à razão, apoiando as reflexões do pai, sem
alcançar mais do que ele. Enfim, Eugênia pôs uma condição à sua aquiescência:
— Irei, se o Dr. Estácio for conosco.
Camargo aprovou a condição in petto; verbalmente, opôs-se ao sacrifício.
Estácio enfiara; posto entre a espada e a parede, já a viagem de Eugênia lhe
parecia supérflua.
— Acompanha-nos? insistiu a moça.
— Não é possível, acudiu o médico, tamanho incômodo por um simples
capricho...
— Pois então não vou!
D. Tomásia ficou um tanto vexada com a teima de Eugênia. Estácio mordia o
lábio, olhando para a moça, cujo rosto o interrogava instantemente. Venceu-o o
decoro; considerando Eugênia sua mulher, quis cortar por uma cena que lhe parecia
ridícula.
— Acompanhá-los-ei, disse ele, sem entusiasmo.
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A solução era favorável a todos; os três aceitaram de boa feição. Marcou-se a
viagem para dois dias depois. D. Úrsula, apesar dos bons olhos com que via o
casamento, achou desnecessária a ida do sobrinho, mas não empreendeu dissuadi-
lo. Helena aprovou tudo. Ele fez sentir às duas parentas a extensão do sacrifício, e
esteve a ponto de retirar a palavra. Era tarde. A última noite passada em Andaraí foi
cruel para ele; as horas voaram ligeiras como nunca. Como devia sair no dia
seguinte, logo cedo, ali mesmo se despediu da tia e da irmã, despedida de alguns
dias que lhe custou como se fora de anos. Prometeu, entretanto, que o regresso
seria breve.
O que ele não podia prometer era conjurar o drama que se lhes preparava,
drama que ia enfim desenvolver-se, intenso, funesto e irremediável, — do qual não o
consolariam jamais nem as doçuras da paz doméstica, nem as glórias da vida
pública.
CAPÍTULO XV
Estácio levantou-se ao amanhecer. Uma vez pronto, quis surpreender a tia e
a irmã com uma lembrança sua, e escreveu numa folha de papel estas simples
palavras: “Até à volta; 6 horas da manhã.” Dobrou-a e foi pô-la sobre a mesa de
costura de D. Úrsula. Dali passou à sala de jantar, depois à varanda. Aqui chegando,
deu com os olhos em Helena, que o esperava ao pé da escada.
— Silêncio! disse graciosamente a moça. Não faça espantos, que pode
acordar titia. Vim saber se você precisa de alguma coisa.
— De nada, respondeu Estácio comovido. Mas que imprudência foi essa de
se levantar tão cedo?
— Cedo! O sol não tarda a cumprimentar-nos. Adeus! muitas recomendações
a Eugênia. Não lhe falta nada, não é assim?
— Nada.
Estácio recebeu a mão que Helena lhe estendera e ficou a olhar para ela.
— Olhe que é tarde!
Dizendo isto, Helena apertou-lhe a mão e procurou retirar a sua; Estácio
reteve-a.
— Se soubesses como me custa ir!
— São apenas alguns dias...
— Valem por meses, Helena! Adeus, não te esqueças de mim. Escreve-me;
eu escreverei logo que chegar. Não faças imprudências não saias a passeio
enquanto eu estiver ausente.
— Adeus!
— Adeus!
Estácio quis dar-lhe o abraço da despedida; mas a moça, menos ainda com a
palavra que com o gesto, fê-lo recuar.
— Não, disse ela afastando-se; as despedidas mais longas são as mais
difíceis de suportar.
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Recuou até à porta da sala de jantar, fez um gesto de despedida e entrou.
Estácio desceu a custo as escadas. Helena viu-o descer e sair; depois subiu
cautelosamente ao seu aposento. Ali sentou-se alguns minutos, pensativa e triste.
Ergueu-se enfim, vestiu rapidamente as roupas de montar; colocou o chapelinho
preto sobre os cabelos penteados à ligeira, e desceu. Na chácara esperava-a
Vicente, com a égua ajaezada e pronta. Helena montou sem demora; o pajem
cavalgou uma das duas mulas que havia na cavalariça e os dois saíram a trote na
direção da casa do alpendre e da bandeira azul.
A casa estava ainda silenciosa; porta e janelas conservavam-se
hermeticamente fechadas. Helena apeou-se e bateu de mansinho; repetiu as
pancadas progressivamente mais fortes. Ninguém lhe respondeu. Helena impaciente
rodeou a casa; mas, parece que achou igualmente fechadas as portas do fundo,
porque volveu logo. Colou o ouvido à porta e esperou. Quando lhe pareceu que era
baldado o esforço, tirou da algibeira um lápis e um pedacinho de papel; colocou o pé
no degrau de tijolo e sobre o joelho escreveu algumas palavras; dobrou depois o
papel e introduziu-o por baixo da porta. Esperou ainda alguns minutos, caminhou
para a égua, montou e regressou a casa.
Vinha triste e pensativa. A égua, a passo vagaroso, não sentia o esforço da
cavaleira, que a deixava ir, frouxa a rédea, inútil o chicote. O pajem levava os olhos
na moça com um ar de adoração visível; mas, ao mesmo tempo, com a liberdade
que dá a confiança e a cumplicidade fumava um grosso charuto havanês, tirado às
caixas do senhor.
D. Úrsula não estava ainda levantada; Helena não lhe ocultou o passeio. O
dia correu triste e solitário, como os seguintes, sem embargo da companhia que iam
fazer às duas senhoras as pessoas mais íntimas. Mendonça, a quem Estácio as
recomendara, era ali pontual; conseguia disfarçar um pouco as saudades do moço
ausente. O padre Melchior prolongava visitas quotidianas. O mesmo sentimento
ligava a todas as pessoas.
O mesmo era, e não único, porque outro e mais egoísta e pessoal veio ali
viçar também. Mendonça sentiu que metade de seu destino estava acabada, e que a
outra metade ia começar, mais circunspecta que a primeira. O relógio em que ele viu
bater essa hora fatídica, foram os olhos de Helena. Mendonça começava a amar.
Estouvado, e não corrupto, atravessara o delírio dos primeiros anos sem perder a
flor dos castos afetos, sem sequer a haver colhido. Helena sentiu nascer e crescer
essa adoração silenciosa, sem parecer que a descobrira. Não animou o mancebo
nem o repeliu; redobrou de confiança, — dessa confiança que só se dá aos simples
familiares, e que mostra claramente a um namorado a inanidade de suas
esperanças. Ao parecer de estranhos, a situação afigurava-se de perfeita concórdia.
O coronel-major piscou um dia os olhos ao Dr. Matos; o Dr. Matos proferiu um —
latet anguis in herba — e ambos foram repartir o pão das conjeturas com a esposa
do advogado, senhora muito perspicaz nos namoros de salão. A opinião dos três é
que o casamento era coisa provável, e talvez certa. Um só obstáculo podia haver;
eram os escrúpulos do pai de Mendonça. Esse mesmo obstáculo não existia,
porquanto, além das qualidades estimáveis da moça, havia o reconhecimento legal e
social, público e doméstico; acrescendo (observação do Dr. Matos) que duzentas e
tantas apólices mereciam um cumprimento de chapéu e não davam lugar a cinco
minutos de reflexão.
As primeiras cartas de Estácio chegaram uma tarde em que as duas senhoras
e Mendonça se achavam na varanda, acabado o jantar, bebendo as últimas gotas
de café. D. Úrsula, depois de por em atividade três mucamas para lhe irem procurar
os óculos, levantou-se e foi ela própria à cata deles, com a sua carta na mão. Helena
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ficou com a que lhe era dirigida; estava sentada junto a uma das janelas, abriu-a e
leu-a para si:
“Quando esta carta te chegar às mãos, estarei morto, morto de saudades de
minha tia e de ti. Nasci para os meus, para a minha casa, os meus livros, os meus
hábitos de todos os dias. Nunca o senti tanto como agora que estou longe do que há
mais caro neste mundo. Poucos dias lá vão, e já me parecem meses. Que seria se a
separação não fosse tão limitada?
“Na carta que escrevo a titia dou conta da nossa viagem e da saúde de todos.
D. Clara está, na verdade, à beira da morte; mas pode durar ainda alguns dias, e o
Dr. Camargo resolveu esperar até dar-lhe os últimos adeuses. A recepção que nos
fez a família foi cordialíssima. Há aqui uma cunhada da enferma, um primo, três
sobrinhos, outros parentes e vários afilhados. O primo é comendador e tenente-
coronel; ele e os outros são a gente mais afável do mundo. Os homens da família
são influências eleitorais; quando souberam da minha candidatura, ofereceram-me
logo os seus serviços, com a cláusula única de que haja prévia recomendação do
Rio de Janeiro. Agradeci o favor, com muita abundância d’alma, porque a tal
candidatura, que não me seduzia nem seduz, não há remédio senão cuidar dela, de
modo que o meu nome não padeça a injúria da derrota. Que te parece esta
pontazinha de vaidade?
“Mudemos de assunto, que este me aflige, e não quero filosofar sem ti, que és
a minha companheira nestas vadiações de espírito. Aí não te lembrarás, talvez, das
nossas palestras; aqui lembra-me tudo. De manhã, dou o meu passeio eqüestre,
como lá; mas que diferença! Quem vai a meu lado é o tenente-coronel, excelente
homem, coração de pomba, com o defeito único e enorme de se não chamar D.
Helena do Vale, a minha boa Helena, que lá está na Corte, a divertir-se sem seu
irmão. Ele fala de tudo e muito: do café, do governo, das eleições, dos escravos, dos
impostos. Eu ouço, que é o menos que posso fazer, e deixo-o ir sem interrupção. Às
vezes, como que desconfiado, recolhe-se ao silêncio; eu ato o fio da conversa e ele
encarrega-se de desenrolar o novelo. Tão pouca coisa o faz feliz! Já cacei uma vez;
confesso-te que é o que me pode distrair um pouco. Pensava ter perdido o costume;
mas não perdi. A modéstia impede-me dizer mais.
“A fazenda é vasta e a casa excelente. Não te direi que gosto da vida
agrícola; não gosto, não me dou com ela. Mas viver num recanto como este, a dois
passos do mato, a tantas léguas da rua do Ouvidor, isso creio que se dá com a
minha índole. Consultaremos titia. Eu não sei o que é amar o tumulto exterior; acho
que é dispersar a alma e crestar a flor dos sentimentos. Nasci para monge... e creio
que também para déspota, porque estou a planear uma vida ignorada e deserta,
sem consultar tuas preferências. Sou um Cromwell com tendências de frade; ou, por
dizer tudo numa só palavra: sou um Lutero... muito inferior.
“Pobre Helena! Já lá vão quatro páginas só a falar de mim. Vejamos o que
tens feito. Andas muito triste? passeias? lês? jogas? tocas? Conta-me a tua vida o
mais miudamente que puderes. Conta-me a vida de todos. Não me escondas nada;
se, por exemplo, ao abrir um livro ou tocar uma tecla do piano, pensares em mim,
escreve isso mesmo, marcando o dia e até a hora, se puder ser. E depois dou-te o
direito de perguntar onde ficou a minha gravidade, e responderei que há uma
puerilidade séria, e que os extremos se tocam. Quando assim não seja, a culpa é do
céu, que me não deu uma irmã criança; agora é preciso que comecemos pela
primeira fase da vida.
“Deixei muito recomendado ao Mendonça que fosse à nossa casa com
freqüência. Não sei se ele se terá lembrado e cumprido a promessa que me fez. Se
não tiver cumprido, hás de mandar-lhe dizer que eu o detesto e abomino; que ele é o
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maior traidor que o céu cobre; que tudo fica acabado entre mim e ele; que a amizade
é um culto, etc. Dize o que te parecer e pelo modo que te é usual.
“Lembro-me de ti a propósito de tudo. Hoje de tarde, por exemplo, o terreiro
oferecia um aspecto bonito e característico. Se ela estivesse aqui, disse comigo,
faria um magnífico desenho. Peguei de um lápis que trouxe, meia folha de papel, e
quis reproduzir o panorama. Escrevi um problema algébrico! Foi um conselho que
me deu o lápis: ninguém se meta a fazer aquilo que ignora. Eu ignorava o que era
estar ausente da família; por que motivo me determinei a tentá-lo?
“Interrompi esta carta para receber o Dr. Fróis, que é o médico de D. Clara;
veio ao meu quarto para me dizer que o estado da doente é perdido, que a morte é
certa; mas que a vida pode prolongar-se ainda por muitos dias. Vê que perspectiva!
Estou com raiva de mim mesmo; esses últimos dias da enferma pesam sobre mim
como se fora o punho fechado do destino. Se a morte é certa, por que viver alguns
dias mais? E é vida isso, ou é morrer aos goles, sem consciência do que se perde
nem do que se vai ganhar?
“Está decidido; posso ir daqui a seis dias ou daqui a um mês. Será o que
Deus quiser. Manda-me, entretanto, alguns livros. No meu quarto só achei um
Manual de medicina prática. Manda-me alguma coisa que me faça lembrar o
Andaraí. Tira da estante oito ou dez volumes, à tua escolha. Manda também algum
trabalho de agulha teu; quero mostrá-lo à cunhada de D. Clara, a quem gabei muito
os teus talentos. Se puderes desenhar alguma coisa, à pressa, o tanque, a varanda
ou qualquer outro lugar, faze-o, e manda com o resto. Escreve-me longamente;
conta-me tudo o que houver interessante; fala-me de ti, que é o meio de consolar
minhas saudades, que são imensas, imensas como este amor que tenho à minha
família toda. Vou fazer por voltar breve. Adeus, minha boa Helena; adeus, minha
vida, adeus, ó mais bela e doce de todas as irmãs!
“P.S. Reli a carta, e fiquei envergonhado do trecho a respeito da vida da
doente. Perdoa-me a ferocidade, e leva-a em conta da solidão.”
CAPÍTULO XVI
Helena leu e releu a carta. Depois ficou silenciosa, a olhar para as folhas da
trepadeira, que do lado de fora viera a subir pela muralha da varanda e a debruçar-
se enfim do parapeito para dentro. A carta ficara aberta sobre os joelhos da moça.
Mendonça, a poucos passos, olhava para esta, sem ousar falar-lhe.
Goethe escreveu um dia que a linha vertical é a lei da inteligência humana.
Pode dizer-se, do mesmo modo, que a linha curva é a lei da graça feminil.
Mendonça o sentiu, contemplando o busto de Helena e a casta ondulação da
espádua e do seio, cobertos pela cassa fina do vestido. A moça estava um pouco
inclinada. Do lugar em que ficava, Mendonça via-lhe o perfil correto e pensativo, a
curva mole do braço, e a ponta indiscreta e curiosa do sapatinho raso que ela trazia.
A atitude convinha à beleza melancólica de Helena. O rapaz olhava para ela sem
movimento nem voz.
A tarde expirava; a cor verde do morro fronteiro ia tomando o aspecto
cinzento-escuro que precede a cor fechada da noite. A própria noite desceu, e um
escravo entrou na varanda a acender as duas lâmpadas que pendiam do teto. Esta
circunstância acordou a moça, e bastou-lhe voltar um pouco a cabeça para ver o
amigo de Estácio a alguns passos de distância.
— Estava aí? perguntou Helena, estremecendo.
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— D. Úrsula não voltou, respondeu Mendonça com timidez; não quis
interromper a leitura que a senhora fazia.
— A leitura? A leitura acabou há muito tempo.
— Mas também se lê de cor.
Helena lançou-lhe um olhar suspeitoso.
— Não sei ler de cor, disse ela, erguendo-se e saindo da varanda.
Mendonça ficou aturdido. Que lhe dissera ele tão grave que a pudesse
ofender? Repetiu as próprias palavras e não lhes achou sentido mau. Certo, porém,
de que a molestara, ali ficou aborrecido de si mesmo, desejoso de lhe explicar tudo,
se alguma coisa houvesse explicável. Após alguns instantes, resolveu entrar
também. Entrou; Helena não estava nem na sala de jantar, nem na do jogo, onde
achou D. Úrsula com o Dr. Matos e o coronel-major. Dali passou à sala de visitas.
Helena não o viu entrar; estava mergulhada numa poltrona com a cabeça nas mãos.
Comovido, deteve-se alguns instantes a contemplá-la; depois caminhou para ela e
falou-lhe.
Helena ergueu a cabeça.
— Perdoe-me, disse ele, se alguma coisa lhe disse que a magoou. Confesso
que não sei o que poderia haver em minhas palavras. Ficou triste por isso?
A moça cravou nele um olhar ainda suspeitoso, e não lhe respondeu logo.
Mendonça adotou o melhor dos alvitres naquela ocasião; inclinou-se e recuou para
sair. Helena chamou-o; ele aproximou-se outra vez, com um ar de tão doce
resignação que lisonjearia o mais levantado orgulho. Helena estendeu-lhe a mão;
ele apertou-a e teve ímpetos de a beijar uma e muitas vezes, triunfando naquele
único instante da hesitação de todos os dias; faltou-lhe resolução. Helena mostrou-
lhe o trecho da carta em que Estácio se referia a ele; falaram dos ausentes e dos
presentes, de todos e de tudo, menos do assunto que exclusivamente preocupava o
moço. Ele saiu dali sem haver dito nada de seu coração. Chegando à rua, achou-se
poltrão e ridículo, disse mil nomes feios a si próprio; enfim, prometeu declarar tudo a
Helena no dia seguinte.
No dia seguinte, que era domingo, Helena dirigiu-se à capela a ouvir a missa
do padre Melchior. Acabada a cerimônia, não seguiu para casa, com D. Úrsula, mas
foi ter à sacristia, onde o padre acabava de tirar os paramentos. Melchior, logo que
soubera da carta de Estácio, nessa manhã, pedira a Helena que lha deixasse ver.
— Falam sempre ao coração as letras dos amigos, dissera ele.
Helena deu-lhe a carta, que o padre recebeu com uma expressão antes de
curiosidade que de afeto. Leu-a vagarosamente, como escrutando o sentido e as
palavras; e sendo longa a epístola, longo foi o tempo que ele despendeu em a
interpretar. Durante esse tempo, Helena admirava-lhe a figura austera, a serenidade
religiosa. A sacristia era pequena; duas altas janelas deixavam entrar a luz, o ar e o
aroma das folhas e das flores da chácara. Entre a cimalha e o telhado algumas
andorinhas haviam fabricado os ninhos, donde saíam, como pensamentos de
juventude, a adejar ao sol da manhã. Ao pé daquele quadro exterior de alegria e
verdura, a sacristia tinha certo ar melancólico e severo, que lançava n’alma o
esquecimento das vicissitudes humanas. Helena deixou-se cativar desse sentimento
de abstenção e elevação; se alguma dor ou remorso a pungia, esqueceu-os, por um
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minuto ao menos, entre aquelas paredes desataviadas, diante de um padre, entre
uma imagem de Jesus e as obras vivas do Criador.
Lida a carta, Melchior dobrou-a com ar pensativo; depois entregou-a à moça.
— Já respondeu? perguntou ele.
— Já; trouxe-lhe a carta que vou mandar hoje mesmo.
Melchior abriu-a e leu; não gastou menos tempo, ainda que era de menores
dimensões. O estilo era afetuoso, mas muito menos exuberante que o da carta de
Estácio. Ela contava-lhe, em suas feições gerais, a vida que ali passavam, desde
que ele partira, as ocupações de cada dia e as distrações da noite.
“Vivemos, dizia a moça, como podem viver duas criaturas que sabem a
afeição que lhes tem um parente amigo, ausente embora, mas não esquecido, —
nem ingrato. O padre Melchior, algum dos vizinhos, e o Dr. Mendonça são as nossas
visitas habituais. Você sabe o que vale o padre; é a mais bela alma que Deus
mandou ao mundo. Os vizinhos são afáveis, como sempre. O Dr. Mendonça é
verdadeiramente digno da nossa afeição e confiança. Disse-lhe o que você me
escreveu; ele riu, como homem seguro de escapar à punição.
“Pena é que você tenha de se demorar aí tanto tempo; mas, se alguma
esperança pode haver de salvar a doente, damo-nos por bem pagas da demora. É
verdade que você não é médico; mas há aí outra doente, para quem é, não só
médico, mas até toda a medicina. Por que razão me não escreveu Eugênia? Eu não
cuidei que essa amiga me esquecesse na véspera de ser minha cunhada. Se
estivéssemos mais perto, ia puxar-lhe as orelhas. Diga-lhe isto; e se tiver ocasião de
emprestar-me os seus dedos, aplique-lhe o castigo, declarando-lhe o delito cometido
e o juiz que a sentenciou.
“O que você diz da vida solitária é muito justo, mas impraticável. Os amigos
não nos iriam ver; e poderíamos nós dispensá-los? Tal é a opinião de titia e a minha.
O melhor de tudo é este meio-termo de Andaraí; nem estamos fora do mundo nem
no meio dele. O ruído externo pode ter os efeitos de que você fala; mas ele é às
vezes preciso para aturdir e distrair o espírito. Também a solidão tem suas dores, e
fundas; também ela abala o coração. Nem um extremo nem outro.”
A carta continha alguns períodos mais, não muitos; três ou quatro vezes
falava em Eugênia, com tamanha insistência que punha em relevo o silêncio a tal
respeito conservado por Estácio; falava-lhe da beleza da noiva, do casamento
próximo, do amor que os faria felizes, e da ventura que ambos dariam a todos os
seus.
Quando o padre acabou de ler a resposta, abriu os braços a Helena; depois
abrangeu com as mãos a cabeça da moça e contemplou-a durante alguns
segundos.
— Toda a sua alma está nesse escrito, disse ele; vejo aí a reflexão e o afeto.
Tanto melhor! Há contudo uma lacuna: não transmite a seu irmão as minhas
saudades; há também uma excrescência: louva méritos que não possuo. Embora!
Mande-a...
— Escreverei duas linhas mais.
— Pois sim. Diga-lhe que se apresse, porque estou velho e posso morrer
antes.
— Oh! protestou Helena.
Melchior olhou para ela silenciosamente.
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— Crê que Estácio seja feliz? perguntou ele enfim.
— Creio.
— Também eu.
Outro silêncio. O primeiro que o rompeu foi o padre.
— Por que se não casa também? disse ele.
— Eu?
— Decerto. Pode ser que muito breve, talvez...
— Talvez nunca.
Melchior franziu a testa; a fisionomia, de ordinário meiga, tornou-se severa,
como a consciência dele. O padre tinha uma das mãos de Helena entre as suas;
deixou-a insensivelmente cair. Entre os dois estabeleceu-se um silêncio que os
acabrunhava e que não ousavam romper; como subjugados por um mistério,
receava cada um deles que o outro lho lesse na fronte; instintivamente desviaram os
olhos.
Melchior foi o primeiro que voltou a si. A reflexão corrigiu a espontaneidade, e
o padre reassumiu o gesto usual, com essa dissimulação que é um dever, quando a
sinceridade é um perigo.
— Vamos lá, disse ele; ninguém pode decidir o que há de fazer amanhã;
Deus escreve as páginas do nosso destino; nós não fazemos mais que transcrevê-
las na terra.
— É verdade! confirmou ela com um gesto de cabeça, e sem erguer os olhos.
— Amanhã, continuou o padre, o acaso, — isso a que os incrédulos chamam
acaso, e que é a deliberação da vontade infinita, — lhe apontará um homem digno
da senhora, e seu coração lhe dirá: é este; e o suspiro desalentado de hoje
converter-se-á num olhar de graças ao céu. Ora, o que eu lhe peço, o que eu
desejo, é que se apresse tanto que eu possa casá-los...
— Oh! mas não vai morrer amanhã, interrompeu Helena.
— Estou velho, minha filha; estes cabelos brancos são já a neve desse mar
polar para onde navegamos todos. Conto sessenta anos. A morte pode colher-me
um dia próximo...
— Vamos almoçar, disse Helena sorrindo.
Saíram da sacristia, atravessaram a capela, e penetraram na chácara. Na
ocasião em que iam transpor a porta da capela, viram Mendonça entrar em casa.
Melchior estacou e olhou para Helena. Esta ia como acabrunhada e absorta. O
gesto do padre, quando ela lhe declarou que não se casaria talvez nunca, ficara-lhe
gravado na memória, como um enigma, que talvez receava decifrar. Poucos minutos
eram passados; contudo, ela pôde refletir, e coligir os elementos de uma resolução.
Detendo-se, com o padre, à porta da capela, viu também entrar Mendonça. Os olhos
da moça e do padre interrogaram-se de novo, mas desta vez nenhum deles os
desviou.
— Vê aquele homem? perguntou Helena. Parece-lhe que seria bom marido?
— Excelente, decerto, disse vivamente Melchior; caráter, educação,
sentimentos...
— Tem ainda uma virtude particular: ama-me.
— Sei.
— Ele lho disse?
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— Não, mas vê-se. É sabido de todos os que freqüentam esta casa. A
probabilidade do casamento é objeto de comentários, e a opinião geral é que ele se
fará dentro de pouco tempo. Confessou-lhe alguma coisa?
— Nada; mas os olhos da mulher amada não são menos sagazes que os dos
padres amigos. Acha que devo confirmar a opinião dos outros?
— Acho; consulte, porém, seu coração.
— Já consultei.
— Neste único instante?
— Nada menos.
— Deveras? disse Melchior, derramando um olhar de paternal ternura no
rosto sério de Helena.
— Não digo que o ame desde já; mas a afeição que ele me tem, refletirá em
meu coração, e eu virei a amá-lo. O que importa saber é que é digno de mim. De
todos os que me pretendessem nenhum lhe seria superior.
— Ainda bem! Contudo, repare que vai contrair uma obrigação perpétua, e
que um contrato destes não pode ser deliberado em poucos instantes.
— Oh! nesse ponto a minha ignorância sabe mais do que a sua teologia. Que
são minutos e que são meses? Paixões de largos anos, chegando ao casamento,
acabam muitas vezes pela separação ou pelo ódio, quando menos pela indiferença.
O amor não é mais que um instrumento de escolha; amar é eleger a criatura que há
de ser companheira na vida, não é afiançar a perpétua felicidade de duas pessoas,
porque essa pode esvair-se ou corromper-se. Que resta à maior parte dos
casamentos, logo após os anos de paixão? Uma afeição pacífica, a estima, a
intimidade. Não peço mais ao casamento, nem lhe posso dar mais do que isso.
— Não gosto de tanta reflexão em tão verde idade, replicou benevolamente
Melchior; todavia, encanta-me esse raciocínio que, ao cabo de tudo, pode ser
verdadeiro. Mas não me desdigo; alguns minutos é pouco tempo; reflita ainda vinte e
quatro horas.
— Nem um instante mais, insistiu Helena. Minhas reflexões são lentas ou
súbitas: ou cinco minutos ou um ano; escolha.
— Pois reflita cinco minutos, replicou o padre sorrindo.
— Já lá vão quatro; aproveitarei o último para lhe dizer que em nada disto
falaria, se não fossem as qualidades notáveis desse moço; e para acrescentar que a
ele me liga certa simpatia de gênios... é talvez a semente do amor.
Tinham chegado ao primeiro degrau da escada da varanda. Subiram e penetraram
na sala de jantar, onde acharam D. Úrsula e Mendonça, este a percorrer com os
olhos um jornal do dia. O almoço serviu-se imediatamente.
— Padre-mestre, disse D. Úrsula, demorou-se tanto que cuidei... tivesse idéia
de me arrebatar Helena.
— Estive-a ouvindo de confissão, respondeu Melchior.
— E pôde absolvê-la?
— Decerto.
— Mas com grande penitência, não?
— A mais fácil de todas, acudiu Helena, olhando para o padre.
— Oh! então é que os pecados são leves! concluiu D. Úrsula. Não lhe
parece?
Estas últimas palavras foram dirigidas a Mendonça, na ocasião em que todos
caminhavam para a mesa. Mendonça não respondeu nada. Contra o costume,
falava pouco, — menos ainda que na véspera e nos dias anteriores. D. Úrsula via a
diferença mas não a compreendia.
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— Não quero saber que pecados confessou, disse ela sentando-se; estou
certa de que o maior deles não levaria ninguém ao purgatório.
— Veja o que é uma tia indulgente, observou Helena a Mendonça, sentando-
se ao seu lado.
Preocupado com a conversa que acabava de ter na sacristia e na chácara,
Melchior pouca atenção prestou a princípio ao filho do comerciante. Analisava as
circunstâncias do momento e pesava a responsabilidade que lhe podia vir de
qualquer resolução que adotasse. Após um longo diálogo com a consciência, o
velho sacerdote inclinou os olhos ao mancebo, que lhe ficava defronte, ao lado de
Helena. Viu-os conversar. Ela mostrava-se graciosa, solícita e atenta, como uma
esposa amante; ele parecia enamorado da voz e das falas da donzela; como que um
clarão interior lhe desvendara à alma os horizontes infinitos da esperança.
Familiarizado com Helena, tratado por ela com esquisita atenção, era contudo a
primeira vez que ela lhe falava, não como a um confidente amigo, mas como a um
homem que poderia vir a ser seu esposo. Alguma seriedade, um olhar submisso,
uma atenção continuada, fizeram essa diferença, que antes foi sentida pelo coração
do que descoberta pelos olhos.
No fim do almoço, Melchior dirigiu-se para a sala de visitas, com Helena.
Mendonça acompanhou-os. A resolução do padre estava assentada de raiz; ele
aceitava aquele casamento como um presente do céu. Apenas entrados na sala,
travou as mãos de um e outro e lhes disse, com voz comovida:
— Prometem não zangar-se comigo?
— Por quê? interrogou Mendonça com os olhos.
Helena baixara os seus.
— Prometem?
— Padre-mestre... começou Mendonça sem poder concluir a frase.
O padre olhou silenciosamente para um e outro. Talvez hesitava falar; talvez
buscava o melhor meio de dizer o que tinha no coração. Urgia romper o silêncio; fê-
lo com solenidade:
— Serei duas vezes padre: segundo a natureza e segundo o Evangelho.
Quando duas criaturas se merecem, é servir a Deus emprestar a voz ao coração que
não ousa falar. O senhor ama esta menina; leio-lhe nos olhos o sentimento que o
arrasta para ela; são dignos um do outro. Se é a timidez que lhe fecha os lábios, eu
sou a voz da verdade e do amor infinito; se outro motivo, serei juiz complacente para
escutá-lo.
Ouvindo estas palavras, Mendonça ficou aturdido e mudo. Não só a fortuna
lhe chegava às mãos, quando ele menos esperava, mas até escolhera um caminho
desusado e estranho. A realidade confundia-se ali com o sonho. A presença de um
terceiro era suficiente motivo para acanhar os mais resolutos; acrescia a veste sacra
do sacerdote, que dava àquilo um ar de solenidade e consagração. Mendonça
recobrou, enfim o uso dos sentidos; a resposta única e eloqüente foi estender a mão
a Helena, gesto a que a moça correspondeu com simpleza e naturalidade.
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— Não se enganaram meus olhos, disse o padre. Ama-a, e pode dar-lhe a
felicidade que lhe desejo a ela. Também Helena o fará venturoso, não? perguntou
ele, voltando-se para a moça.
— Mas é isto um sonho? perguntou enfim Mendonça.
— A vida não é outra coisa, retorquiu o capelão; velho pensamento e velha
verdade. Façamos por que o sonho seja agradável e não árido ou triste. Prometem-
me que se farão felizes?
— Não ambiciono outra coisa, disse o rapaz; será o meu cuidado e a minha
glória.
— Seu amor, continuou Melchior, é mais forte que o de Helena; eu consultei-a
antes, e li em seu coração. Elege-o com prazer, embora sem entusiasmo. Não é a
paixão cega que a faz falar; é um sentimento brando e singelo, por isso mesmo
duradouro. A reflexão de um corrigirá a violência do outro e os dois sentimentos se
completarão pela virtude especial de cada um.
Esta explicação franca de Melchior teve o condão de ser agradável aos dois.
Helena estimou que ele nem lisonjeasse as ilusões de Mendonça, nem a desse
como aceitando indiferente e estouvada o casamento proposto. Pela sua parte,
Mendonça viu nas palavras do padre um indício da sinceridade de Helena, e aceitou
o pouco oferecido, com a certeza de multiplicá-lo. O caráter de Melchior e a
veneração que mereciam suas virtudes, eram fianças de veracidade e davam ao ato
singelo que ali se passava, um forte cunho de santidade e elevação. Não era uma
vulgar declaração de amor, sujeita às variações do espírito ou do interesse, mas
verdadeiros esponsais em que a religião era inspiradora e testemunha.
CAPÍTULO XVII
Aquele dia foi marcado no calendário de Mendonça com letras de ouro e
cetim; a noite desceu coroada de murta e rosas. Ele viveu essas horas todas num
estado de sonambulismo e êxtase. Tencionava referir tudo à mãe, logo que entrou
em casa ao meio-dia; mas não se atreveu, porque ele mesmo não estava certo se
vivia a realidade ou se voava nas asas de uma quimera. De noite voltou a Andaraí;
achou em Helena o mesmo modo afetuoso, a mesma solicitude e carinho; nenhuma
ternura expansiva, nenhuma contemplação namorada; um meio-termo que o
continha a ele próprio, e não era menos aprazível ao coração. A nova situação era,
entretanto, sensível, porque os vigilantes de fora trocaram entre si olhares cheios de
graves descobertas; um deles, o coronel-major, chegou a proferir uma alusão, que
os interessados fingiram não perceber.
Quando Mendonça chegou à casa nessa noite, ia mais que nunca cheio de
comoção e nadando em plena glória. A cidade, apenas aí entrou, pareceu-lhe
transformada por uma vara mágica; viu-a povoada de seres fantásticos e rutilantes,
que iam e vinham do céu à terra e da terra ao céu. A cor deste era única entre todas
as da palheta do divino cenógrafo. As estrelas, mais vivas que nunca, pareciam
saudá-lo de cima com ventarolas elétricas, ou fazerem-lhe figas de inveja e despeito.
Asas invisíveis lhe roçavam os cabelos, e umas vozes sem boca lhe falavam ao
coração. Os pés como que não pousavam no solo; ia extático e sem consciência de
si. Era aquele o galhofeiro de há pouco? O amor fizera esse milagre mais.
Um dos teatros estava aberto; comprou um bilhete e entrou. Não era desejo
de divertir-se ou interessar-se pelo drama, que aliás expirava de parceria com o
protagonista; era necessidade de ver gente, de apalpar a realidade das coisas, tão
quimérico se lhe afigurava tudo o que se passara desde manhã.
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Um espectador, o filho do coronel-major, viu-o a alguma distância e foi sentar-se ao
pé dele.
— O senhor que tem melhor vista, disse o acadêmico, desengane-me; aquela
moça que ali está, naquele camarote, não é a andorinha viajante?
— A andorinha viajante? repetiu Mendonça, olhando para ele; que quer dizer
esse nome?
— É a alcunha da irmã de Estácio. Será ela que está ali, com uma senhora
idosa?
— Mas por que lhe chamam assim?
— Eu sei! Naturalmente porque sai à rua todos os dias. Na verdade, é um
passear! Mal amanhece, lá vai trepada no cavalinho, com o pajem atrás...
— Quem lhe pôs essa alcunha?
— As alcunhas são como as mofinas: não têm autor.
Caíra o pano; Mendonça despediu-se ali mesmo e saiu. Na rua repetiu
mentalmente as palavras do jovem acadêmico. Ao cabo de alguns minutos, sorriu;
compreendera que, apenas suspeitada a sua felicidade, já a inveja lhe deitava na
taça uma gota de veneno. Ergueu os ombros, resoluto a suportar tranqüilo essa
lívida companheira do êxito.
Guiou para casa, onde entrou pouco depois. Helena volvera a ocupá-lo
exclusivamente. Só, na alcova de solteiro, inventariou os acontecimentos daquele
dia e achou-se morgado da fortuna. Como precisava conversar com alguém,
escreveu uma longa carta a Estácio, narrando-lhe toda a história do seu coração, as
esperanças e a pronta realização delas. A alma derramou-se no papel impetuosa e
exuberante. O estilo era irregular, a frase incorreta; mas havia ali a eloqüência e a
sinceridade da paixão. Quando fechou a carta, anteviu o prazer que ia dar ao amigo,
logo que ela lhe chegasse às mãos, levando a notícia de que os vínculos atados na
aula iam apertar-se na família. “Vem quanto antes, dizia ele ao terminar a missiva;
tenho ânsia de abraçar-te e ouvir de ti mesmo o consentimento que me fará o mais
feliz dos homens!”
Quando essa carta chegou a Cantagalo, Estácio voltava de uma pequena
excursão que fizera com o pai de Eugênia. Conheceu a letra do sobrescrito; abriu
negligentemente a carta; leu-a com assombro. A impressão foi tão visível que
Camargo lhe perguntou de que se tratava.
— Recebo uma notícia que me obriga a partir amanhã, disse ele.
— Negócio grave?
— Grave.
— Ainda assim, nesta ocasião...
— Que tem? D. Clara pode ainda resistir à morte alguns dias; e, posto que a
minha ausência não prejudique nada do fato a que aludo, contudo é mister que me
informe e providencie.
— Algum negócio relativo ao inventário? aventurou Camargo, que nada
conhecia mais grave que o dinheiro.
— Justamente, respondeu maquinalmente Estácio.
Camargo consolou a filha do desgosto que lhe causava a partida do noivo;
falou-lhe a linguagem da razão; disse que havia assuntos práticos, a que os
sentimentos tinham de ceder o passo alguma vez. No dia seguinte de manhã, partiu
Estácio na direção da Corte, não sem prometer que voltaria, se a moléstia ou
qualquer outro motivo obrigasse a família a demorar-se em Cantagalo.
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Ninguém esperava por ele em Andaraí. Entrando na chácara, — era de noite,
— viu Estácio que a sala que ficava no ângulo esquerdo da frente da casa, estava
alumiada e tinha gente. A sala ficava ao rés-do-chão e as janelas estavam abertas.
Parou a pouca distância, e pôde distinguir o coronel-major e o Dr. Matos jogando o
gamão; a mulher do advogado falava a D. Úrsula e Melchior, em um dos lados; do
outro estava assentada Helena, tendo Mendonça diante de si.
Estácio deu volta aos fundos da chácara, e entrou pela varanda. Os escravos
que o viram chegar, deram sinal da novidade, com vozes de alegria, que, aliás, não
chegaram até às pessoas da sala. Estas só souberam do recém-chegado quando
ele assomou à porta. A satisfação de o ver foi geral e sincera em todos. Estácio
distribuiu abraços e apertos de mão. Melchior, que se deixara ficar de lado, foi o
último com quem falou.
— O Dr. Camargo veio? perguntou D. Úrsula ao sobrinho, logo depois que
este cumprimentara a todos.
— Não, respondeu Estácio, a doente não pode escapar, mas ainda a deixei
com vida.
— Imagino a impaciência dos herdeiros.
Esta observação filosófica do coronel-major não teve nenhum efeito. Melchior,
que a reprovara interiormente, fez mudar a conversa, informando-se da família de
Camargo. Estácio deu todas as notícias que podiam interessar; depois, falou de
alguns incidentes da viagem; enfim, retirou-se por alguns minutos.
Mendonça acompanhou o amigo, alcançando-o ainda na escada. Subiram juntos e
juntos entraram no quarto.
— Agora que estamos sós, perguntou Mendonça, houve por lá alguma coisa?
— Nada.
— Tanto melhor!
Um escravo entrou no quarto, a fim de servir a Estácio; Mendonça, ansioso
por lhe falar de Helena, contentou-se com trocar algumas vagas indicações.
— Recebeste a minha carta? disse ele.
— Recebi.
— Não esperavas por ela, aposto...
— Não.
— Como eu não esperava escrevê-la. Estás aborrecido?
— Estou cansado.
— Naturalmente, assentiu Mendonça, abrindo um livro que achou sobre a
mesa e tornando-o a fechar.
O silêncio prolongou-se alguns minutos, durante os quais Mendonça tornou a
abrir o livro, examinou uma espingarda de caça, preparou um cigarro e fumou. O
escravo ajudava o senhor a mudar de roupa. Estácio continuava mortalmente
calado; Mendonça falou algumas vezes, sobre coisas indiferentes, e o tempo não
correu, andou com a lentidão que lhe é natural, quando trata com impacientes. Logo
que Estácio se deu por pronto, e o escravo saiu, Mendonça voltou diretamente ao
assunto que o preocupava.
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— Estava ansioso por ver-te, disse ele. Não nos é possível falar agora; não
temos tempo. Mas quero dar-te um abraço, ao menos, um abraço de agradecimento
pela felicidade...
— Parece que só esperavas a minha ausência?
— Creio que não. Já antes de seguires, começava a sentir alguma coisa
nova, que vim a descobrir ser paixão violenta.
— Helena ama-te?
— Com igual amor, não creio; mas aceita-me; tem-me algum afeto.
— Tratarei de consultá-la.
Mendonça não pôde continuar, porque Estácio descia a escada ao dar-lhe a
última resposta. Mendonça desceu também. Na sala estavam ainda as mesmas
pessoas. Perto de uma janela conversava Helena com o padre. O chá foi logo
servido e a conversa tornou-se geral, ainda que sem grande animação. Melchior
falou menos que todos.
Nem por isso foi o primeiro que saiu; foi o último. Na chácara, dirigindo-se ao
portão, ergueu os olhos ao firmamento, não para ver a lua e as estrelas, senão para
subir a região mais alta. O que disse ninguém o soube, mas o anjo das rogativas
humanas porventura colheu em seu regaço os pensamentos do ancião, e os levou
aos pés do eterno e casto amor.
CAPÍTULO XVIII
— Helena, disse Estácio no dia seguinte, logo que pôde falar a sós à irmã, —
sabes por que vim mais depressa? Foi por tua causa. O Mendonça escreveu-me
dizendo haver alcançado de ti uma promessa de casamento.
— É verdade.
— É verdade?
— Até ao ponto em que a minha vontade tem um limite, que é a sua. Por mim
só nada posso decidir; mas não creio que você se oponha de nenhum modo. Não é
certo que deseja a minha felicidade?
Estavam sentados em um banco de pau, defronte do grande tanque. Estácio ficou
algum tempo a olhar para a água.
— Não entendo, disse ele enfim.
— Por quê?
— Mais de uma vez me confessaste não sei que paixão violenta, paixão que
parecia conter a tua vida toda. Que, sem embargo de um amor único e forte, uma
mulher despose um homem que não é o preferido de seu coração, é caso não vulgar
e muita vez justificável. Mas que este casamento seja para ela felicidade, confesso
que não o poderei entender nunca.
— Recusa então o seu consentimento?
— Não recuso; desejo compreender.
— Nada mais simples, retorquiu a moça.
— Ah!
— Falei-lhe de um amor forte, é certo, não extinto naquele tempo, mas
totalmente sem esperança. Que moça não tem dessas fantasias, uma vez ao
menos? A fantasia passou. Ou eu não devo casar nunca, ou posso desposar um
homem digno, que me ame. Não casar foi algum tempo o meu desejo; não o é hoje,
desde que você, titia e o padre Melchior ambicionam ver-me casada e feliz. Para
obter a felicidade, além do casamento, escolhi pessoa que me parece capaz de dar
a paz doméstica e os melhores afetos de seu coração.
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— De maneira que te sacrificas a um desejo nosso?
— Quando fosse sacrifício, fá-lo-ia de boa cara; mas não é.
— Não se trata de um sacrifício repugnante e odioso; entretanto, cumpre
examinar o que perdes. Dizes que a fantasia passou; não creio, Helena, não creio
que ela passasse. Tu amas decerto; amas violentamente alguém; amas sem
esperança nem futuro; isto é, levas para casa de teu marido um coração que te não
pertence, um sentimento intruso e inimigo...
Helena quis interrompê-lo.
— Ouve, continuou Estácio. Esse sentimento, se vier a extinguir-se e se for
substituído pela afeição que criares a teu marido, não te fará desventurosa; mas
supõe que não morre esse amor, qual será a tua situação?
— Tudo isso é um castelo no ar, disse Helena sorrindo; eu amei, não amo; ou
amo somente a meu futuro marido.
Estácio abanou a cabeça com ar de incredulidade. Seus olhos pousaram no
rosto plácido da irmã, como tentando arrancar-lhe uma confissão silenciosa. Os dela,
firmes e tranqüilos, cruzavam o olhar com os dele. Estácio conhecia já o domínio
que a moça exercia sobre si mesma; a tranqüilidade não o convenceu. Assim
pensava, assim o disse, sem rebuço.
— Por que razão negaria eu a verdade? retorquiu Helena.
Estácio ergueu os ombros.
— Supondo que você tenha razão, tornou ela, não deverei casar nunca?
— Não digo isso; mas, há dois caminhos para a felicidade, além de
Mendonça.
— Não os vejo.
— Esse amor misterioso será realmente sem esperança? Nada há definitivo
no mundo, nem o infortúnio nem a prosperidade. O que a tua imaginação supõe
estar perdido, acha-se apenas transviado ou oculto...
— Adivinho o segundo caminho, atalhou Helena; não casando agora, posso
vir a amar um dia, mais do que a Mendonça, algum homem tão digno como ele.
— Parece-te absurdo isso?
— Não, mas é uma loteria: perco um bem certo por outro duvidoso. O jogador
não faz cálculo diferente. Essa felicidade pode não vir; eu contento-me com a que
me cabe agora. Mendonça ama-me deveras; senti-o desde algum tempo. O padre
Melchior abriu-me os olhos; aceito o destino que os dois me oferecem. Esta é a
razão e a realidade; o mais é ilusão e fantasia.
Enquanto ela falava, Estácio, que tirara o chapéu de Chile, ocupava-se em
fazer circular na copa a fita larga que o cingia. Houve entre ambos grande silêncio.
Pela beira do tanque seguia uma longa carreira de formigas, conduzindo as mais
delas trechos de folhas verdes. Com um galho seco, Estácio distraía-se em perturbar
a marcha silenciosa e laboriosa dos pobres animais. Fugiam todas, umas para o
lado da terra, outras para o lado da água, enquanto as restantes apressavam a
jornada na direção do domicílio. Helena arrancou-lhe o galho da mão; Estácio
pareceu acordar de largas reflexões; ergueu-se, deu alguns passos e voltou a ela.
— Helena, declarou ele, não creio nada do que você me diz; você sacrifica-se
sem necessidade e sem glória. Não consinto; é meu dever opor-me a semelhante
coisa...
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Helena ergueu-se também.
— Mendonça começa a ser o fruto proibido, observou ela, sorrindo; é o meio
seguro de o fazer amado.
A moça afastou-se na direção da casa. Estácio viu-a desaparecer por entre as
árvores, e ficou algum tempo entre o banco e o tanque. As formigas, dispersas
alguns minutos antes, tinham agora entrado no primeiro caminho, com a mesma
ordem anterior. Viu-as o moço, e comparou-as às próprias idéias, também
necessitadas de que um galho invisível as não dispersasse e confundisse. No meio
de suas reflexões, lembrou-lhe o padre; Estácio atravessou a chácara, saiu à rua e
dirigiu-se à casa de Melchior.
Melchior habitava uma casinha, situada no centro de um jardim diminuto, a
algumas braças da residência de Estácio. Tinha duas salas o prédio, janelas por
todos os lados, uma porta na frente e outra nos fundos. A da frente abria entre duas
janelas de venezianas. A sala de visitas era ao mesmo tempo gabinete de estudo e
de trabalho. Simples era a mobília, nenhuns adornos, uma estante de jacarandá,
com livros grossos in-quarto e in-fólio; uma secretária, duas cadeiras de repouso e
pouco mais.
Na ocasião em que Estácio ali entrou, Melchior passeava de um para outro
lado, com um livro aberto nas mãos, algum Tertuliano ou Agostinho, ou qualquer
outro da mesma estatura porque o padre amava contemplar os grandes espíritos do
passado, quando não encarava os mistérios do futuro. Naquele corpo mediano havia
uma águia cativa. Entre as quatro paredes da casa, limitada a vista pelos arbustos e
as flores do jardim, Melchior olvidava o tempo e eliminava o espaço, vivendo a vida
retrospectiva ou profética, doce e misteriosa volúpia das almas solitárias. Melchior
era um solitário; sem embargo das relações sociais, que ele cultivava, amava
sobretudo estar separado dos homens. Nessas horas, que eram a maior parte do
tempo, lia ou meditava, esquecido ou estranho a todas as coisas do seu século.
Naquela ocasião lia. Vendo assomar à porta o vulto de Estácio, Melchior
fechou o rosto; contudo, recebeu-o afavelmente.
— Vim interrompê-lo, disse Estácio; mas era preciso.
Melchior depôs o livro sobre a mesa redonda que havia no meio da sala,
marcando a lauda com uma velha estampa. Depois sentaram-se ao pé de uma das
janelas laterais. Estácio não se atreveu a dizer logo o motivo que o levara ali; mas de
sua própria hesitação deduziu Melchior qual era ele.
— Era preciso? repetiu o padre.
— Trata-se de Helena. Sei que é nosso amigo, confio em seu conselho e
discrição. Como deseja a felicidade de minha família, buscou facilitar o casamento
de Helena e Mendonça...
— Contando com a sua aprovação, explicou o padre.
— Hesito em dá-la.
— Por quê?
Estácio explicou que Helena não tinha inclinação ao noivo que se lhe
propunha, ao que Melchior respondeu, referindo singelamente a verdade.
— É certo que o não ama ardentemente, concluiu, mas aceita-o, aprecia-o,
está a meio caminho da felicidade que lhe devemos dar.
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— Há uma dificuldade, padre-mestre; é que ela ama a outro.
Melchior empalideceu; o olhar escrutador, como o de um juiz, cravou-se
imóvel e afiado no rosto de Estácio. A fronte severa do moço não se alterou, nem
seus olhos baixaram a terra.
— Ama a outro, continuou ele; paixão violenta, mas sem esperança, e tão real
quão misteriosa. Uma ou duas vezes aludiu a ela; nada mais lhe pude arrancar.
Agora mesmo, quando lhe falei a tal respeito, desviou daí o sentido e a conversação.
Nada mais sei; sei, porém, que ama, e casar com outro em tais circunstâncias dá
dois inconvenientes igualmente graves: priva-se da possibilidade de uma união feliz
com o homem que interiormente elegeu, e leva para a casa do marido um
sentimento de pesar e de remorso. Parece-lhe isso tolerável?
— Não há remorso, não há pesar onde não há esperança, redargüiu o padre.
Helena aceita o Mendonça por espontânea vontade; e conheço-a tanto que não
acho já possível que ela recuse.
— Salvo o meu consentimento.
— É claro; mas por que o não daria?
— Porque não desanimo de descobrir a pessoa a quem Helena entregou o
coração. Talvez ela ache impossível aquilo que é simplesmente difícil. Demais, não
esqueçamos que Helena mal tem dezessete anos.
— Valem por vinte e cinco.
— Pode ser; mas convém não aceitar de coração leve uma condescendência
ou um capricho, ou qualquer outro motivo oculto que a inspira nesta resolução.
— Que motivo seria?
— Eu sei! Talvez a suspeita de que estimássemos vê-la afastar-se de casa.
— Não a calunie; Helena tem perfeita ciência e consciência dos afetos que a
rodeiam e da estima em que é tida. Suas objeções não valem nada diante da
declaração que ela própria fez. Não compliquemos uma situação simples e definida.
Melchior proferiu estas palavras com voz branda, mas em tom firme; Estácio
não se animou a responder logo. Voltou, porém, ao primeiro argumento; depois,
aventurou uma objeção nova.
— Mendonça é bom coração, disse ele; mas não possui as qualidades que,
em meu entender, devem distinguir o marido de Helena. Nunca exercerá sobre ela a
influência que deve ter um marido. Entre os dois inverte-se a pirâmide. Mas isto, ao
menos, se destruía uma das condições do casamento, podia conservar a felicidade
doméstica. O perigo maior é outro; é vir ele a perder a estima da mulher. Nesse
caso, que lhe daríamos nós a ela? Um casamento aparente e um divórcio real.
Não olhava para ele o padre, mas para fora, com uns olhos dolorosos e o
gesto impaciente. Quando ele acabou, fitou-o com resolução; disse-lhe que se
tratava de casar Helena, não com um marido especial, mas com o que ela própria
escolhera de sua vontade livre; casamento que cumpria fazer sem demora. Era certo
que, como chefe de família, Estácio podia opor-se ao casamento ou marcar-lhe
condições; mas nem convinha isso ao interesse de Helena nem ao próprio interesse
da família.
Estácio ergueu-se quando o padre acabou; percorreu a sala, calado e
pensativo. No fim de alguns segundos, o padre foi a ele.
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— Vá contar tudo à sua tia, disse; aprove sua irmã; casá-los-ei a todos no
mesmo dia.
— Pois bem, disse Estácio, como concluindo um raciocínio interior; consinto
em que Helena se case, mas procuremos outro marido. Mendonça, não; há de ser
outro. Vou casar-me também; receberei todas as semanas; algum rapaz aparecerá
que a mereça e de quem ela venha a gostar seriamente... É a minha última
resolução.
CAPÍTULO XIX
No momento em que Estácio proferia estas palavras, transpunha Mendonça a
porta do jardim do capelão. Preocupado com a frieza de Estácio, lembrara-lhe falar a
Melchior e pedir-lhe conselho. Melchior ia responder ao sobrinho de D. Úrsula,
quando ouviu rumor de passos na areia do jardim.
— Aí vem o noivo, disse ele.
Estácio deu dois passos para pegar no chapéu; reconsiderou e foi sentar-se
ao pé da mesa redonda. Havia ali um exemplar das Escrituras. Abriu-as ao acaso; a
página acertou ser um capítulo dos Provérbios; leu este versículo: “Quem quer abrir
mão de seu amigo, busca-lhe as ocasiões; ele será coberto de opróbrio.”
Envergonhado, voltou a folha. Mendonça entrara na sala. Não contava com Estácio,
mas estimou vê-lo ali.
— Venha, disse Melchior; tratávamos justamente do seu casamento.
Estácio lançou ao padre um olhar de exprobração. O padre não o viu; olhava
para Mendonça, que imediatamente lhe respondeu:
— Não venho cá para outra coisa. Uma vez que a fortuna o fez nosso
confidente, desejo constituí-lo meu conselheiro e diretor.
— Antes de tudo, sou advogado da sua causa, disse Melchior; estava
expondo agora as vantagens dela.
Mendonça olhou fixamente para o amigo, e, depois de curta pausa:
— Rejeitas ou aceitas o noivo? perguntou ele.
Posto entre a espada e a parede, Estácio não soube logo que respondesse;
ficou a olhar para a lauda aberta, receoso de encontrar a vista dos dois. O silêncio
era pior que a resposta; e nem o caso nem as pessoas permitiam tão grande pausa.
Estácio fechou de golpe o livro e ergueu-se.
— Discutia somente as vantagens do casamento, disse ele.
— E qual é a tua opinião?
— Minha opinião é que Helena está ainda muito menina. Mas não é só essa,
nem é a principal; o voto, em todo o caso, é a favor do casamento. A principal razão
é o teu próprio crédito.
— Meu crédito?
— Helena pode vir a amar-te como lhe mereces; a verdade é que não sente
ainda hoje igual paixão à tua; foi o padre-mestre que mo disse. Estima-te, é certo;
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mas a estima é flor da razão, e eu creio que a flor do sentimento é muito mais
própria no canteiro do matrimônio...
— Há muita flor nesse ramalhete de retórica, interrompeu benevolamente o
padre. Falemos linguagem singela e nua. Não creia literalmente o que lhe diz este
filósofo, prosseguiu ele, voltando-se para Mendonça; ele gosta de ambos e quer vê-
los felizes; é o próprio zelo que lhe faz falar assim. Numa palavra, deseja que o
senhor a conquiste, depois de campanha formal...
Mendonça respondeu ao capelão com um sorriso pálido, que lhe arrebitou um
pouco as pontas do bigode, recolhendo-se logo medroso e frio. O rosto ficara
carregado e pensativo; a língua de Estácio tocara-lhe o coração. Disposto a aceitar a
estima e a simpatia de Helena com a esperança de converter esse pequeno dote em
avultado capital, não lhe ocorrera que, a olhos estranhos, podia parecer que o fim
exclusivo era a riqueza da moça. Estácio rompera o véu a essa probabilidade. Uma
só palavra desfizera a ilusão de poucos dias.
— Vamos lá, disse o padre, abracem-se como irmãos.
Nenhum deles se mexeu. Melchior sentiu toda a gravidade da situação; viu
perdidos os esforços, desfeita a união assentada, um abismo cavado entre os dois
amigos, incerto o destino de Helena. Interveio outra vez com palavras de brandura,
que os dois ouviram sem interromper. Quando acabou:
— O Estácio tem razão, disse Mendonça; meu crédito padecerá, desde que
alguém se lembre de dizer que o casamento foi arranjado sem nenhuma
preocupação das preferências de D. Helena. Ela me desobrigará, em troca da
palavra que lhe restituo.
A frase brotou-lhe dolorida, mas sem hesitação nem fraqueza. Estácio olhava
para ele e sentia alguma coisa semelhante a um remorso. Uma voz interior parecia
dizer-lhe: — “Sonâmbulo, abre os olhos, tem consciência de tuas ações; teu abraço
enforca; teus escrúpulos fazem-te odioso; tua solicitude é pior do que a cólera.” Viu o
mancebo cortejar o padre; deteve-o pelo braço.
— Onde vais? disse ele.
— Vou aonde me leva o pundonor, disse singelamente Mendonça.
— Pobres rapazes! exclamou o padre. São dois estouvados, nada mais; um
quer catar argumentos onde sua irmã só achou nobre e franca resolução; o outro
rompe de coração leve uma promessa feita em presença de um sacerdote.
Estouvados, disse eu? São mais do que isso: são dois dementes. Ora, como só eu
tenho juízo e conseqüente autoridade, digo que nem um há de sair assim
desenganado, nem o outro há de recusar a aquiescência que lhe peço em nome de
seu finado pai.
Estácio estremeceu, Mendonça conservou-se frio. A arma era rija, mas o
golpe excedia a necessidade. Mendonça não quereria dever a esposa à evocação
do nome do conselheiro: equivalia a um rapto. Percebeu-o Melchior, quando viu
Estácio estender a mão ao amigo, mão que este recebeu com dignidade e frieza.
Contaria Estácio com essa mesma repulsa do pretendente? O certo é que lhe disse,
sem a menor sombra de hesitação:
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— Meu zelo foi talvez excessivo; a intenção é boa e pura. Que posso eu
desejar senão ver felizes os meus? Amem-se; será o remate das minhas aspirações.
Prometes fazê-la feliz?
— Não prometo nada, disse Mendonça; o casamento é já impossível. Tu
abriste-me os olhos; não te quero mal por isso. Perco muito, é certo, mas não me
exponho à língua dos maus.
Mendonça foi buscar o chapéu e dispôs-se a sair, não obstante a intervenção
de Melchior, que procurou trazê-lo a sentimentos de reconciliação. Não insistiu o
padre; viu no rosto do mancebo uma resolução digna e firme, que era impossível
dobrar naquele momento. Quando Mendonça lhe estendeu a mão em despedida, ele
apertou-lhe com ternura e esperança. Estácio tentou ainda retê-lo; foi inútil;
Mendonça saiu dali sem rancor, mas sem pesar. O coração sangrava-lhe, a
consciência ia contente.
Melchior foi até à porta, a despedir-se de Mendonça. Quando este saiu, ele
voltou o rosto para dentro, cruzou os braços e fitou o sobrinho de D. Úrsula. O moço
desviou os olhos.
— Viu? perguntou o padre. Não sei qual seja a sua resolução; mas prometo-
lhe que serei como Maomé, — Deus me perdoe! — ainda que veja o sol à minha
direita e a lua à minha esquerda, não deixarei de executar o meu desígnio. Vá ter
com sua família; deixe-me alguns instantes com o meu breviário.
Estácio não pôde resistir à intimação do sacerdote; não achou uma palavra para lhe
dizer. Saiu aturdido, desconsolado, colérico. Na rua e na chácara, ia pensando na
cena daquela última hora, e parecia apenas reconstruir um sonho. Desconhecia-se,
apalpava a inteligência, chamava em seu auxílio todas as forças da realidade;
olhava para o chão, suspeitoso de que ia calcando as nuvens. Quando a razão
tomou pé no meio de lembranças tão desconcertadas, ele viu claramente o resultado
de suas ações: perdia um amigo de longos anos e abdicava a direção da família,
pelo menos em relação ao casamento da irmã. Se esta lhe agradecesse a
resistência, Estácio dar-se-ia por bem pago de tudo. Não era em seu favor que ele
conspirara? Este pensamento levantou-lhe o ânimo; tivesse a aprovação de Helena,
pouco lhe importaria o resto.
Helena ouviu-lhe a narração fiel do que se passara em casa de Melchior.
Ouviu-a comovida; no fim reprovou tudo o que ele fizera.
— Mendonça é já o fruto proibido, concluiu a moça; começo a amá-lo. Se
ainda me obrigar a desistir do casamento, adorá-lo-ei.
— Chegamos ao capricho! exclamou ele; é o fundo do coração de todas as
mulheres.
Helena sorriu e voltou-lhe as costas. Subiu ao quarto, travou de uma pena e
escreveu um bilhetinho. A tinta secou primeiro que duas grossas lágrimas caídas no
papel; mas as lágrimas secaram também. Antes de fechar o bilhete, desceu Helena
a mostrá-lo ao irmão.
Quando a moça entrou no gabinete, Estácio ia ter com ela. Tinha resolução
assentada. Uma vez que a irmã aceitava de boa feição o casamento, não havia mais
que o aprovar e celebrar. Encontraram-se na porta; Estácio recuou para dentro.
— Helena, disse ele, faça-se a tua vontade.
— Consente?
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Estácio fez um gesto afirmativo.
— Não basta isso, tornou a moça; Mendonça não voltará cá depois do que se
passou. Peço-lhe a remessa deste bilhete.
Estácio abriu o bilhete; continha estas poucas palavras: “Venha hoje a
Andaraí; é o meu coração que o pede e a nossa felicidade que o exige.” Cinco
minutos gastou o moço a ler as duas linhas; leu o que estava escrito e o que não
estava. Helena desarmava os escrúpulos de Mendonça, tirando à futura união
qualquer suspeita de interesse. Leu e fechou lentamente o papel.
— Aprova? perguntou a moça.
— Assim, pois, disse o moço tristemente, a tua felicidade exige que esse
homem venha cá, que te cases com ele, que nos fujas? Não te basta a família, a
afeição de nossa tia, a minha própria afeição? Estes meses de doce intimidade vão
ser esquecidos em um só instante, sacrificados aos pés do primeiro homem que te
apraz escolher e seguir? No dia em que penetraste nesta casa, entrou contigo um
raio de luz nova, alguma coisa que nos faltava e que tu trouxeste contigo; nossa
família completou-se; nossos corações receberam um sentimento último.
Pensávamos que isto seria duradouro, e era simplesmente fugaz. Oh! Helena,
melhor fora não ter vindo!
Helena quis responder, a voz travou-se-lhe na garganta, e a palavra
retrocedeu ao coração. Apontou para o papel como pedindo-lhe, ainda uma vez, que
o enviasse e saiu.
De tarde, apareceu Melchior; ia tranqüilo e resoluto a dar um golpe decisivo.
Estácio rendeu-se, antes que ele falasse.
— Padre-mestre, disse o moço logo que o viu, a reflexão venceu-me; faça-se
a vontade de todos.
— Fala de coração?
— De coração.
— Pois bem, seja completo, tornou o padre. Sou ministro de uma religião que
condena o orgulho. Não há de ser em curar as feridas de um amigo; vá ter com o
seu amigo; traga-o a esta casa, como irmão.
— Irei amanhã.
— Não; vá hoje mesmo.
A noite caiu logo; Estácio foi dali vestir-se. Não tendo enviado o bilhete de
Helena, meteu-o na algibeira para entregá-lo ele próprio; depois tirou-o e releu-o;
tendo-o relido, fez um gesto para rasgá-lo, conteve-se e perpassou-o ainda uma vez
pelos olhos. A mão, à semelhança de mariposa indiscreta, parecia atraída pela luz;
resistiu algum tempo; enfim chegou o bilhete à vela e queimou-o.
CAPÍTULO XX
A visita de Estácio não causou nenhum espanto a Mendonça; ele a esperava
com a confiança das índoles ingênuas e avessas ao ódio. Não era crível que um
amigo de longos anos dormisse sobre a injustiça de um minuto; contudo dormiu. Foi
na seguinte manhã que Estácio procurou o pretendente de Helena.
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74
Entrou naturalmente em casa de Mendonça, sem expansão nem secura. A
entrevista foi breve e cordial; houveram-se os dois com afetuosa dignidade. Estácio
explicou os escrúpulos, declarou-se contente com a aliança. O contentamento podia
existir; todavia, a manifestação foi parca e seca. Houve mais calor e expansão
quando ele lhe pediu que desse vida feliz à irmã.
— Será para mim um eterno remorso, se Helena vier a ser desgraçada, disse
ele. Não tivemos o mesmo berço, vivemos nossa infância debaixo de teto diferente,
não aprendemos a falar pelos lábios da mesma mãe. Importa pouco; nem por isso
lhe quero menos. Meu pai recomendou-a à nossa família, e ela correspondeu ao
sentimento que ditou essa última vontade.
Mendonça não respondeu nada; refletira, durante a noite, nas palavras que
ouvira a Estácio no dia anterior; — palavras que bem podiam ser ditas ou pensadas
por outros, talvez por todos, logo que soubessem do casamento. Helena viria a amá-
lo, talvez; mas, desde logo lhe levava para casa a chave da independência.
Mendonça recuou. Quando o padre Melchior o soube, não pôde conter um gesto de
admiração; mas, se louvou o escrúpulo, não aprovou a resolução, que vinha
derrubar tudo.
— Não tapará nunca a boca aos maus, disse o padre; eles acharão meio de
envenenar-lhe a generosidade.
— Paciência! tornou o moço, é menor esse perigo. Se casar, dirão que faço
uma operação vantajosa; talvez a família o suponha; talvez ela própria o pense.
Helena teve notícia dos receios do pretendente, e da resolução a que parecia
inclinar o coração. Perguntou-lhe se era verdade. Mendonça afirmou que sim. Ela
contemplou-o longamente, sem dizer palavra; travou-lhe das mãos, apertou-as com
efusão; ele persistiu.
No desinteresse de Mendonça havia porventura um pouco de faceirice. A
moça o percebeu, nem por isso deixou de crer na sinceridade do rapaz. Tentou
dissuadi-lo; e, posto nada alcançasse nos primeiros minutos, estava certa de que
venceria o derradeiro obstáculo. Teria os olhos mais hábeis e felizes que os lábios
do padre. Foi o que ela disse ao capelão.
— Tomo à minha conta efetuar este casamento, continuou Helena.
— Resolvida a tudo?
— A tudo.
— Mas, se ele insistir...
— Se ele insistir, vencê-lo-ei, ou por um modo ou por outro. Uma moça que
quer ser noiva, vale por um exército; eu sou um exército.
— Muito bem! Contudo, sua dignidade...
— Oh! em último caso abro mão da herança.
— Era capaz disso? perguntou Melchior.
— Se era capaz? Desejo-o até, disse a moça com veemência.
E acrescentou em tom mais brando:
— Sobre o homem de minha escolha desejo que não paire a mínima
desconfiança.
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75
Tal era a situação, dois dias depois da volta de Estácio. O casamento podia
contar-se feito. Mendonça não resistiu ao desinteresse de Helena. D. Úrsula aprovou
tudo com efusão e amor, nada sabendo das incertezas e contradições dos últimos
dias.
Na noite desse dia, Estácio escreveu para Cantagalo dando notícias suas. Do
casamento de Helena falou pouco, quase nada. Tudo o descontentava; tanto o que
ele fizera e dissera, sem proveito, como o desenlace da situação. Não soubera opor-
se com eficácia, nem aplaudir oportunamente.
Posto fosse tarde, o sono teimava em fugir-lhe, e ele velou até muito além da
meia-noite. Ocupado, sem dúvida, em adormecer organizações menos sensíveis e
existências menos complicadas, o sono fez-lhe apenas uma curta visita. Pelas cinco
horas da manhã, Estácio acordou e ergueu-se. A manhã estava fresca; quase toda a
família dormia. Estácio desceu; o único escravo que achou levantado preparou-lhe
uma xícara de café. Não tendo ainda chegado os jornais, bebeu-a sem a leitura do
costume.
Quem sabe por que fios tênues se prendem muitas vezes os acontecimentos
humanos? Estácio ouviu o som longínquo de um tiro; era algum caçador, talvez; a
suposição deu-lhe idéia de ir caçar, foi buscar a espingarda, proveu-se de pólvora e
chumbo, e saiu.
Se a habilidade não era muita, parecia ter ainda diminuído naquela manhã, ou
porque a mão estivesse menos firme, ou porque a vista andasse menos segura.
Estácio caminhara longo tempo sem pensar no fim que o levava; ia absorto, alheio
ao lugar e às coisas. Fez algumas tentativas de caça. Quando cansou de errar,
consultou o relógio e viu que não era cedo. Tinha o braço cansado de suster a
espingarda; só então reparou que não trouxera um pajem consigo. Dispôs-se a
voltar. Vendo uma parasita, colheu-a com a intenção de a dar a Helena, como seu
primeiro presente de núpcias. Depois desceu, em caminho para casa.
Vinha descendo, com a espingarda debaixo do braço, os olhos no chão, a
passo lento, apesar de ser tarde. De uma vez que ergueu os olhos, viu um caso
estranho, que lhe fez deter o passo. Um pouco abaixo, saía, de trás de uma casa
velha, o pajem de Helena, conduzindo a mula e a égua. Estácio não soube que
pensar daquilo; cedendo ao impulso, que não pôde dominar, deu um salto por cima
da cerca de espinhos, agachou-se e esperou o resto.
O resto não se demorou muito. Assomou à porta da frente a figura de Helena.
Depois de olhar cautelosamente para um e outro lado, saiu e montou a égua; o
pajem cavalgou a mula e os dois desceram a trote.
Estácio sentiu uma nuvem cobrir-lhe os olhos; ao mesmo tempo, apertava o
primeiro objeto que achou debaixo das mãos: era a cerca de espinhos. A dor fê-lo
voltar a si; tinha a mão ensangüentada. Ao longe, cavalgavam Helena e o pajem.
Logo que os viu desaparecer, Estácio saltou de novo à estrada. Sem resolução nem
plano, caminhou em direção à casa donde vira sair a irmã. Era a mesma da
bandeirinha azul que Helena cumprimentara de longe, alguns meses antes, e não
esquecera de reproduzir na paisagem que dera ao irmão, no dia dos anos dele.
Estas circunstâncias, antes indiferentes, apareciam-lhe agora como outros tantos
artigos de um libelo.
O prédio parecia ainda mais velho do que a primeira vez que o vira; a caliça
das paredes e das colunas ia caindo, e o esqueleto de tijolo estava a nu, em mais de
um lugar. Alguma erva mofina brotava a custo junto às paredes, cobrindo com folhas
descoloridas o chão desigual e úmido. Por baixo de uma das janelas havia um
banco de pau, gretado pelo tempo, com as bordas roliças de longo uso. Tudo ali
respirava penúria e senilidade.
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— Não, dizia Estácio consigo, não é este o asilo de um Romeu de
contrabando. Mora aqui alguma família pobre, que a caridade engenhosa de Helena
vem afagar de longe em longe.
A solução do enigma pareceu-lhe tão natural que o moço resolveu parar a
meio da aventura, e chegou a dar alguns passos para trás. Mas a suspeita é a tênia
do espírito; não perece enquanto lhe resta a cabeça. Estácio sentiu o desejo
imperioso de indagar o que aquilo era, e voltou sobre seus passos. Para entrar ali
era necessário um motivo ou pretexto. Procurou algum; a aventura dera-lhe o melhor
de todos. Olhou para a mão ferida e ensangüentada, e foi bater à porta.
CAPÍTULO XXI
Poucos instantes esperou Estácio. Veio um homem abrir-lhe a porta; era o
mesmo que ele vira ali uma vez. Entre ambos houve meio minuto de silêncio,
durante o qual nem Estácio se lembrou de dizer o que queria, nem o desconhecido
de lhe perguntar quem era. Olhavam um para o outro.
— Que desejava? disse enfim o dono da casa.
— Um favor, respondeu Estácio, mostrando-lhe a mão ferida. Ia a cair há
pouco; procurando amparar-me, numa cerca de espinhos, feri-me, como vê. Podia
dar-me um pouco d’água para lavar este sangue, e...
— Pois não, interrompeu o outro. Queira sentar-se aí no banco, ou, se
prefere, entrar... É melhor entrar, concluiu, abrindo-lhe caminho.
Em qualquer outra ocasião, Estácio teria recusado o convite, porque o
espetáculo da pobreza lhe repugnava aos olhos saturados de abastança. Agora,
ardia por haver a chave do enigma. Entrou. O desconhecido abriu uma das janelas
para dar mais alguma luz, ofereceu ao hóspede a melhor cadeira e foi por um
instante ao interior.
Estácio pôde então examinar, à pressa, a sala em que se achava. Era
pequena e escura. A parede, pintada a cola já de longa data, tinha em si todos os
sinais do tempo; primitivamente de uma só cor, a pintura apresentava agora uma
variedade triste e desagradável. Aqui o bolor, ali uma greta, acolá o rasgão
produzido por um móvel; cada acidente do tempo ou do uso dava àquelas quatro
paredes o aspecto de um asilo da desgraça. A mobília era pouca, velha, mesquinha
e desigual. Cinco ou seis cadeiras, nem todas sãs, uma mesa redonda, uma cômoda
e uma marquesa, um aparador com duas mangas de vidro cobrindo castiçais de
latão, sobre a mesa um vaso de louça com flores, e na parede dois pequenos
quadros cobertos de escumilha encardida, tais eram as alfaias da sala. Só as flores
davam ali um ar de vida. Eram frescas, colhidas de pouco. Atentando nelas, Estácio
estremeceu: pareceu-lhe reconhecer uma acácia plantada em sua chácara. Quando
a suspeita germina na alma, o menor incidente assume um aspecto decisivo. Estácio
sentiu um calafrio.
Voltou o dono da casa, trazendo nas mãos uma bacia, e nos braços uma
toalha, cuja alvura contrastava singularmente com a cor da parede e o aspecto senil
da casa. Estácio ergueu-se.
— Deixe-se estar, disse o desconhecido.
— Estou perfeitamente bem.
— Nesse caso, faça o favor de chegar à janela.
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A bacia foi posta na janela; o desconhecido quis lavar ele próprio a mão do
hóspede; o moço não lho consentiu.
— Ao menos, disse o dono da casa, há de consentir que a enxugue. Eu
entendo um pouco disto; infelizmente, não tenho aqui nenhum medicamento caseiro
para aplicar.
Estácio aceitou o oferecimento. O dono da casa abriu a toalha e começou
cuidadosamente a operação. O sobrinho de D. Úrsula pôde então examiná-lo à
vontade.
Era um homem de trinta e seis a trinta e oito anos, forte de membros, alto e
bem proporcionado. Uma cabeleira espessa e comprida, de um castanho escuro,
descia-lhe da cabeça até quase tocar nos ombros. Os olhos eram grandes, e
geralmente quietos, mas riam, quando sorriam os lábios, animando-se então de um
brilho intenso, ainda que passageiro. Havia naquela cabeça, — salvo as suíças, —
certo ar de tenor italiano. O pescoço, cheio e forte, surgia dentre dois ombros largos,
e, pela abertura da camisa, que um lenço atava frouxamente na raiz do colo, podia
Estácio ver-lhe a alva cor e a rija musculatura. Vestia pobre, mas limpamente, um
rodaque branco, calça de ganga e colete de brim pardo. O vestuário, disparatado e
mesquinho, não diminuía a beleza máscula da pessoa; acusava somente a penúria
de meios.
Quando acabou de lavar os arranhões de Estácio, — eram pouco mais do
que isso, — propôs-se a ir buscar um pedaço de pano. Estácio, com a outra mão e
os dentes, rasgou o lenço que trazia, e o dono da casa completou o sumário
curativo.
— Pronto! disse ele. Se tiver em casa algum medicamento apropriado, será
conveniente aplicá-lo. Toda a cautela é pouca; convém evitar alguma inflamação.
— Obrigado, respondeu Estácio. Realmente, vim dar-lhe uma maçada, sem
grande necessidade, talvez...
— Por quê?
— Podia fazer isto mesmo quando chegasse à casa.
— Mora perto?
— Um pedaço abaixo.
— Foi conveniente curar já; nenhuma precaução é inútil em coisa nenhuma
da vida.
— Máxima de prudência, observou Estácio, procurando sorrir.
— Que só aprende tarde quem a não traz na massa do sangue, replicou o
outro, suspirando.
A não ser indiscreto ou falador, era difícil levar a conversa por diante. O favor
estava feito, o assunto esgotado. Restava agradecer, despedir-se e sair. Estácio,
entretanto, tinha necessidade de mais tempo; queria arrancar àquele homem uma
palavra menos indiferente à situação, ou conhecer-lhe, se fosse possível, o caráter e
os costumes. Para isso havia, talvez, um meio; contrafazer-se, empregar maneiras
estranhas às suas, apegar-se à ocasião por todas as bordas. Estácio, determinou-se
a isso, confiando o resto ao acaso. Voltou à cadeira e sentou-se.
— Consente que descanse um pouco? Estou fatigadíssimo.
— Não pelo que caçou, disse o desconhecido, rindo.
— Volto com as mãos abanando. Nunca fui bom caçador, e tenho, não
obstante, a mania de atirar aos pássaros.
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— Não é esse o defeito de muita outra gente, em mais elevada ordem de
coisas? Eu fui vítima desse defeito mortal.
— Ah! exclamou Estácio com certa entonação interrogativa.
O dono da casa sorriu levemente, mas não pareceu molestá-lo a curiosidade
do hóspede; talvez mesmo não desejasse outra coisa.
— É verdade, disse ele; devo a minha atual penúria ao erro de teimar em
coisas estranhas à minha índole e aptidão, estranhas e totalmente opostas...
— Há de perdoar-me, interrompeu Estácio com um ar de familiaridade
indiscreta, que lhe não era habitual; eu creio que um homem forte, moço e
inteligente não tem o direito de cair na penúria.
— Sua observação, disse o dono da casa sorrindo, traz o sabor do chocolate
que o senhor bebeu naturalmente esta manhã antes de sair para a caça. Presumo
que é rico. Na abastança é impossível compreender as lutas da miséria, e a máxima
de que todo o homem pode, com esforço, chegar ao mesmo brilhante resultado, há
de sempre parecer uma grande verdade à pessoa que estiver trinchando um peru...
Pois não é assim; há exceções. Nas coisas deste mundo não é tão livre o homem,
como supõe, e uma coisa, a que uns chamam mau fado, outros concurso de
circunstância, e que nós batizamos com o genuíno nome brasileiro de caiporismo,
impede a alguns ver o fruto de seus mais hercúleos esforços. César e sua fortuna!
Toda a sabedoria humana está contida nestas quatro palavras.
O desconhecido proferiu isto com o tom mais simples e natural do mundo, e
uma facilidade de elocução que Estácio mal lhe podia supor. Era aquilo uma
comédia ou a expressão da verdade? Estácio olhou fixamente para ele, como a
querer penetrá-lo. Ao mesmo tempo, ouviu-se um rumor na parte da casa que ficava
além da sala; Estácio voltou a cabeça com um gesto de desconfiança. A porta abriu-
se e apareceu uma preta velha trazendo nas mãos uma bandeja. A criada estacou a
meio caminho.
— Põe em cima da mesa, disse o dono da casa. É o meu almoço, continuou
ele, voltando-se para Estácio; almoço parco e higiênico. Ousarei oferecer-lho?
Estácio fez um gesto negativo, e dispôs-se a sair.
— Já! Não é meu intento despedi-lo; almoçarei conversando. Vivo tão solitário
que a presença de alguma pessoa é para mim um encanto.
Estácio aceitou sem dificuldade o convite; sentou-se defronte do homem, ao
pé da mesa, e assistiu ao almoço, que não podia ser mais escasso: um pão, duas
hóstias de queijo duro e uma chávena de café. O que mais valia era o
contentamento do dono da casa e a franqueza com que ostentava aos olhos de um
estranho a simplicidade de seus hábitos.
— Não é refeição de príncipe, dizia ele, mas satisfaz todas as ambições de
um estômago sem esperança. Aqui é a sala de visitas e a sala de jantar; a cozinha é
contígua; além, ficam duas braças de quintal; para lá do quintal... o infinito da
indiferença humana.
E depois de um silêncio:
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— Não digo bem, emendou ele; nem sempre acho indiferença. Meu trabalho
não me dá mais do que escasso pão de cada dia; mas tenho algumas alegrias, no
meio de minha perpétua quaresma; e essas recebo-as de mãos caridosas e puras.
Dizendo isto, o desconhecido esgotou a chávena, e reclinou-se sobre a
cadeira, fitando em cheio a cara do hóspede. Estácio refletiu nas últimas palavras, e
um raio de esperança veio rasgar-lhe a nuvem que lhe entenebrecia a fronte. Os
dois homens pareciam interrogar-se. O filho do conselheiro sacou do bolso um
charuto e ofereceu-o ao dono da casa.
— Obrigado, disse este.
— Não fuma?
— Já fumei; hoje economizo esse vício. Nem por isso faço mais lentamente a
digestão.
— Mora só?
— Só.
— Não tem família?
— Nenhuma.
— Há de achar-me singularmente indiscreto....
— Não; suponho que a sua curiosidade tem uma causa honrosa e legítima.
— Acertou; o senhor inspira-me simpatia. E se eu conhecesse alguma dessas
mãos puras, que lhe emendam as lacunas da sorte...
— Dar-me-ia, por intermédio delas, o seu óbolo?
— Se o não ofendesse...
— Não ofendia, mas eu recusava, se soubesse; peço-lhe desde já que o não
faça às escondidas...
Estácio fez um gesto de assentimento.
— Não é orgulho, continuou o dono da casa; é um resto de pudor que a
pobreza me não tirou ainda. Fiz-lhe agora um obséquio, um simples dever de
vizinho... Pareceria que o senhor mo pagava com um benefício. O benefício seria
menos espontâneo de sua parte e menos agradável para mim. Agradável não
exprime, talvez, toda a minha idéia; mas o senhor facilmente compreenderá o que
quero dizer.
— Entendeu-me mal; o meu óbolo não seria na espécie a que o senhor alude.
Tenho amigos e alguma influência; poderia arranjar-lhe melhor posição...
O desconhecido refletiu um instante.
— Aceitaria? perguntou Estácio.
— Estou pensando na maneira de recusar. Ouro é o que ouro vale. Eu vexar-
me-ia eternamente de dever qualquer melhora da sorte ao cumprimento de um dever
de caridade.
— Já me não admira a vida pobre que tem tido.
— Excessivo escrúpulo, talvez?...
— Escrúpulo desarrazoado.
— Antes demais que de menos.
— Nem de menos nem demais; mas, só a porção justa.
— A porção varia, conforme as necessidades morais de cada um. Mas eu
mesmo, que lhe estou a falar, nem sempre tive esta virtude intratável; e porventura
alguma vez fraquejei...
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A fronte do desconhecido tornou-se sombria; a voz morreu-lhe nos lábios, e
os olhos caíram naquela atonia que exprime uma grande concentração de espírito.
Era ocasião de interrogá-lo diretamente ou sair. Estácio preferiu o último alvitre.
— Não o quero demorar mais, disse o dono da casa, quando o mancebo
proferiu as palavras de despedida. Já é tarde, e sua mãe talvez esteja ansiosa...
Estácio limitou-se a olhar para ele em cheio, dizendo:
— Se alguma vez resolver dar de mão a seus escrúpulos, mande procurar-
me. Minha casa é conhecida em todo Andaraí pela casa do conselheiro Vale...
O desconhecido, em cujo rosto Estácio esperou ver um sinal qualquer de
abalo ou surpresa, conservou-se impassível e risonho. Curvou-se em sinal de
agradecimento; e como Estácio hesitasse em estender-lhe a mão, ele meteu as suas
nas algibeiras.
— Talvez nos vejamos ainda, disse Estácio já fora da porta.
— Sim?
— Passeio algumas vezes por estes lados.
— Nem sempre estou em casa; mas, ainda estando, conservo fechadas as
portas. Quando quiser descansar, bata; a casa é pobre, mas será amiga.
Estácio afastou-se rapidamente. Eram dez horas, e o sol aquecia; ele não deu
pelo sol nem pelo tempo. Semelhante ao transviado florentino, achava-se no meio
de uma selva escura, a igual distância da estrada reta, — direta via — e da fatal
porta, onde temia ser despojado de todas as esperanças. Nada sabia, nada
conjeturava; eram tudo novas dúvidas e oscilações. O homem com quem acabava
de conversar, parecia-lhe sincero; a pobreza era autêntica, sensível a nota de
melancolia que, por vezes, lhe afrouxava a palavra. Mas, onde cessava ali a
realidade e começava a aparência? Vinha de tratar com um infeliz ou um hipócrita?
Estácio rememorou todos os incidentes da manhã, e todas as palavras do
desconhecido; eram outros tantos pontos de interrogação suspeitos e irrespondíveis.
Repelia com horror a idéia do mal: custava-lhe a aceitar a idéia do bem; e a pior das
angústias, — a dúvida, — continha-o todo e agitava-o em suas mãos felinas. O sol e
a agitação alastravam-lhe a testa de pérolas de suor; ao ofego da marcha apressada
juntava-se o da violenta comoção. Estácio não via os objetos que ia costeando, nem
as pessoas que lhe passavam ao lado; ia cego e surdo, até que o choque da
realidade o despertasse.
Chegou enfim à casa. Ao portão estava um escravo, a quem deu a
espingarda. A demora causara alguma inquietação à família; logo que as duas
senhoras souberam de seu regresso, correram a recebê-lo, ficando D. Úrsula a uma
janela, e descendo Helena até meio caminho. A aparição súbita da moça, a alegria e
o amor, que pareciam impeli-la, a perfeita ingenuidade do gesto, tudo produziu nele
a necessária reação, — reação de um instante, — mas salutar, porque a crise era
demasiado violenta. Estácio apertou as mãos da moça com energia. Um fluido sutil
percorreu as fibras de Helena, e aquele rápido instante teve toda a doçura de uma
reconciliação.
Estácio contava recolher-se ao quarto para pôr em ordem as idéias, compará-
las, extrair uma conjetura, pelo menos, e verificá-la ou desmenti-la. Mas, nem a tia
nem a irmã haviam almoçado, à espera dele, e forçoso lhe foi acompanhá-las na
satisfação de uma necessidade que não sentia. Durante o almoço, Estácio procurou
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observar Helena; trabalho ocioso, porque o rosto da moça, se alguma coisa traía
nessa ocasião, eram as alegrias inefáveis da família. Ela própria servia por suas
mãos a Estácio e D. Úrsula; inexcedível na atenção com que sabia repartir-se entre
os convivas, não o era menos no carinho, e na graça. Nos olhos parecia estampada
a ignorância do mal, e o sorriso era o das almas cândidas. Poder-se-ia atribuir
àquela criatura de dezessete anos corrupção e hipocrisia? Estácio envergonhou-se
de tal idéia; sentiu as vertigens do remorso.
Mas o almoço acabou, dispersou-se a companhia, o mancebo recolheu-se ao
gabinete, e, desfeita a visão, voltou a suspeita. Estácio buscou dominar a situação.
Ele não ia ao ponto de supor em Helena a completa perversão dos sentimentos; o
limite do mal, que se lhe podia atribuir, era o de uma culposa leviandade. Se, em vez
de um ato leviano, fosse aquilo um simples estratagema de caridade, Helena não
mereceria menos uma advertência; mas a pureza da intenção salvava tudo, e a paz
da família, não menos que o seu decoro, se restabeleceria inteira. Estácio examinou
um por um todos os indícios de culpabilidade e de inocência; buscou sinceramente
os elementos de prova; não esqueceu um só argumento de indução. Nesse trabalho
despendeu longo tempo, sem resultado apreciável, pela razão de que, se a sentença
era difícil de formular, o juiz era incompetente para decidir; entre a dignidade e a
afeição balouçava incerto.
Quase à hora do jantar, Estácio, que não saíra uma só vez do gabinete,
chegou a uma das janelas, e viu atravessar a chácara a mais humilde figura daquele
enigma, humilde e importante ao mesmo tempo: o pajem. O pajem apareceu-lhe
como uma idéia nova; até aquele instante não cogitara nele uma só vez. Era o
confidente e o cúmplice. Ao vê-lo, recordou-se de que Helena lhe pedira uma vez a
liberdade daquele escravo. A ameaça rugiu-lhe no coração; mas a cólera cedeu à
angústia, e ele sentiu na face alguma coisa semelhante a uma lágrima.
Nesse momento duas mãos lhe taparam os olhos.
CAPÍTULO XXII
Não era preciso grande esforço para adivinhar a dona das mãos. Estácio,
com as suas, afastou as mãos de Helena, segurando-lhe os pulsos de modo que lhe
arrancou um leve gemido. Voltando-se, deu com os olhos na irmã, que lhe disse em
tom de gracioso reproche:
— Você é muito mau! Pagou-me a carícia com um apertão. Deixe estar que
nunca mais cairei em outra. Vim vê-lo, porque você hoje não se lembrou ainda de
dar à gente um ar de sua graça... Doeu-me! continuou ela olhando para os pulsos.
Mas... tenho os dedos molhados; seria... você estaria... que é? que foi?
Estácio, que ouviu o discurso da irmã, com o rosto desfeito e o olhar ansioso, não
lhe respondeu às últimas interrogações, e continuou a olhar para ela, como a querer
ler na fisionomia da moça a explicação do enigma que o atordoava. Helena ainda
insistiu, aterrada e aflita. Indo pegar-lhe nas mãos, Estácio desviou o corpo, dirigiu-
se à parede, dependurou o desenho que Helena lhe dera no dia de seus anos, e
aproximou-se da moça.
— Que é? repetiu esta admirada.
A única resposta de Estácio foi estender o dedo sobre a misteriosa casa
reproduzida na paisagem. Helena olhou alternadamente para o desenho e para o
irmão. A expressão interrogativa e imperiosa deste fê-la atenta no ponto indicado.
Súbito empalideceu; os lábios tremeram-lhe como a murmurar alguma coisa, mas a
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alma falou tão baixo que a palavra não chegou à boca. Durou aquilo poucos
instantes. A angústia lia-se no rosto dos dois; a moça para ocultar a sua, cobriu os
olhos com as mãos. O gesto era eloqüente; Estácio lançou para longe de si o
quadro, com um movimento de cólera. Helena atirou-se para o corredor.
D. Úrsula, aguardava os sobrinhos para jantar. Demorando-se estes, dirigiu-
se ela própria ao gabinete de Estácio. A porta estava aberta; D. Úrsula entrou e deu
com ele, sentado numa poltrona, com um lenço na cara, como a soluçar. A tia correu
com a velocidade que lhe permitiam os anos. Estácio não a ouviu entrar; só deu por
ela quando as mãos da boa senhora lhe arrancaram as suas dos olhos. O assombro
de D. Úrsula foi indescritível, sobretudo quando Estácio, erguendo-se, atirou-se-lhe
aos braços, exclamando:
— Que fatalidade!
— Mas... que é?... explica-te.
Estácio enxugou as faces molhadas do longo e silencioso pranto, com o gesto
decidido de um homem que se envergonha de um ato de debilidade. A explosão
desabafara-lhe o espírito; podia enfim ser homem, e era preciso que o fosse. D.
Úrsula pediu e ordenou que lhe confiasse a causa da inexplicável aflição em que
viera achá-lo. Estácio recusou dizê-la.
— Saberá tudo amanhã ou logo. Agora só poderia dar-lhe um enigma, e eu
sei o que ele me há custado. Algumas horas mais, e precisarei de seu conselho e
apoio.
D. Úrsula resignou-se à demora. Quando chegou à sala de jantar, achou um
recado de Helena; mandava-lhe dizer que se sentira repentinamente incomodada e
que a dispensasse naquela tarde e noite. D. Úrsula suspeitou logo que o recado de
Helena tivesse relação com a aflição de Estácio, e correu ao quarto da sobrinha.
Achou-a meio inclinada sobre a cama, com o rosto na almofada, e o corpo tranqüilo
e como morto. Ao sentir os passos de D. Úrsula, ergueu a cabeça. A palidez era
grande e profundo o abatimento; mas não houvera lágrimas. A dor, se a houve, e
houve, parecia ter-se petrificado. O que restava ainda vivo na figura da moça, eram
os olhos que não perderam o fulgor natural. Ela ergueu-os a medo, e abraçou a tia
com um olhar de súplica e de amor. D. Úrsula travou-lhe das mãos, encarou-a
silenciosamente, e murmurou:
— Conta-me tudo.
— Saberá depois! suspirou a moça.
— Não tens confiança em tua tia?
Helena ergueu-se e lançou-se-lhe nos braços; duas lágrimas rebentaram-lhe
dos olhos, e foram as primeiras que eles verteram naquela meia hora. Depois beijou-
lhe as mãos com ternura:
— Pode receber estes beijos, disse ela, os anjos não os têm mais puros.
Foram as últimas palavras que D. Úrsula pôde arrancar-lhe; a moça recolheu-
se ao silêncio em que a encontrou. D. Úrsula saiu; e foi dali ter com Estácio. O
sobrinho encaminhava-se para a sala de jantar.
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— Vamos para a mesa, disse ele, não convém que os escravos saibam de
tais crises...
D. Úrsula referiu o estado em que achara Helena e as palavras que trocara
com ela. Estácio ouviu-a sem nenhuma expressão de simpatia. O jantar foi um
simulacro; era um meio de iludir a perspicácia dos escravos, que aliás não caíram
naquele embuste. Eles conheceram perfeitamente que algum acontecimento oculto
trazia suspensos e concentrados os espíritos. As iguarias voltavam quase intactas;
as palavras eram trocadas com esforço entre a sinhá velha e o senhor moço. A
causa daquilo era, com certeza, nhanhã Helena.
Estácio deu ordem para que a todas pessoas estranhas se declarasse estar
ausente a família. A única exceção era o padre Melchior. A esse escreveu pedindo-
lhe que os fosse ver.
— Não posso esperar até amanhã, disse D. Úrsula; se tens de revelar alguma
coisa a um estranho, por que o não fazes a mim primeiro? Dize-me o que há. Não
posso ver padecer Helena; quero consolá-la e animá-la.
— O que tenho para dizer é longo e triste, retorquiu Estácio; mas, se deseja
sabê-lo desde já, peço-lhe ao menos que espere a presença do padre Melchior. Eu
não poderia dizer duas vezes as mesmas coisas; seria revolver o punhal na ferida.
A curiosidade de D. Úrsula cresceu com estas meias palavras do sobrinho;
mas era forçoso esperar, e esperou. Foi dali ao quarto de Helena. Como a porta
estivesse fechada, espreitou pela fechadura. Helena escrevia. Esta nova
circunstância veio complicar as impressões de D. Úrsula.
— Helena está encerrada no quarto, e escreve, disse ela ao sobrinho.
— Naturalmente, respondeu este, com sequidão.
O padre Melchior não se demorou em acudir ao chamado de Estácio. O
bilhete era instante e a letra febril. Algum acontecimento grave devia ter-se dado. A
reflexão do padre era justa, como sabemos; ele o reconheceu desde logo, não só no
aspecto lúgubre da família, como na ânsia com que era esperado. Os três
recolheram-se a uma das salas interiores.
— Helena? perguntou Melchior.
— Vamos tratar dela, respondeu Estácio.
Referir o que se passara naquela fatal manhã era mais fácil de planear que de
executar. No momento de expor a situação e as circunstâncias dela, Estácio sentiu
que a língua rebelde não obedecia à intenção. Achava-se num tribunal doméstico, e
o que até então fora conflito interior entre a afeição e a dignidade, cumpria agora
reduzi-lo às proporções de um libelo claro, seco e decidido. Inocente ou culpada,
Helena aparecia-lhe naquele momento como uma recordação das horas felizes, —
doce recordação que os sucessos presentes ou futuros podiam somente tornar mais
saudosa, mas não destruiriam nunca, porque é esse o misterioso privilégio do
passado. Reagiu, entretanto, sobre si mesmo; e, ainda que a custo, referiu
minuciosa e sinceramente o que se passara desde aquela manhã.
Não fora talhado para tão melindrosas revelações o coração de D. Úrsula.
Desde o princípio da conversação sentiu o atordoamento que dão os grandes
golpes. Esperava, decerto, um grande infortúnio de Helena, um episódio da família
anterior, alguma coisa que desafiasse a compaixão, sem diminuir o sentimento da
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estima. Acontecia justamente o contrário; a estima era impossível e a compaixão
tornava-se apenas provável.
— Mas não! é impossível! exclamou ela daí a pouco, logo que a razão,
obscurecida pelo abalo, pôde readquirir alguma luz... não! eu a vi há pouco; senti-lhe
as lágrimas na minha face, ouvi-lhe palavras que só a inocência pode proferir. E,
além disso, seu procedimento irrepreensível, um ano quase de convivência sem
mácula, a elevação de seus sentimentos... não posso crer que tudo isso... Não!
pobre Helena! Vamos chamá-la; ela explicará tudo. Interroguemos o Vicente.
Um gesto dos dois homens mostrou que nenhum deles julgava digno este
último recurso para conhecer a verdade.
D. Úrsula caíra em prostração, recordava suas apreensões do primeiro dia, e
recuava com horror à idéia de ter acertado. Defronte dela, Estácio ocupava uma
poltrona rasa, em cujos braços fincava os cotovelos, apoiando nas mãos a cabeça
ardente e abatida. A alma ruminava a dor.
Um só dos três vingava a dignidade da situação. O padre Melchior não sentira
menor assombro que os dois parentes de Helena, nem padeceu menos profundo
golpe; mas reergueu-se de um e outro; pôde vencer-se e conservar a razão clara,
fria e penetrante. Entre os dois corações ulcerados e sem força, compreendeu
Melchior que lhe cabia a principal ação, e não recuou ante a responsabilidade que
daí poderia deduzir. Viu de um lance a extensão possível do mal, a desunião da
família, os desesperos da ocasião, os ódios do dia seguinte, as amarguras
indeléveis, e, talvez, as indeléveis saudades; mas nem este quadro o aterrou, nem
ele o aceitou sem exame. Melchior não condenava nem absolvia; esperava. Ele
pertencia ao número dessas virtudes singelas para as quais o vício é uma rara
exceção; natureza sincera e franca, era-lhe difícil crer na hipocrisia. Enquanto
Estácio prosseguia calado e pensativo, e D. Úrsula, ora sentada, ora de pé
intercalava o silêncio com exclamações de dor, Melchior observava-os e refletia
também consigo. Enfim, proferiu estas palavras de animação:
— Sossegue, D. Úrsula; a verdade há de aparecer, e não estamos certos de
que seja o que nos parece. Em todo o caso, não antecipemos a aflição. Seria
padecer duas vezes. Há tempo de chorar à larga.
Melchior levantou-se:
— Convém sacudir o abatimento, continuou, dirigindo-se a Estácio; é a hora
da ação e do vigor. Sobretudo, é necessário não boquejar de semelhante assunto
por agora; daria azo às vozes estranhas e seus naturais comentários. Eu tomarei
nesta colisão o lugar que me compete, se mo não contestam...
— Oh! exclamou Estácio.
— ... Mas, desejo que desde já se compenetrem bem de que, se a dignidade
pede uma coisa, a caridade pede outra, e que o dever estrito é conciliá-las. Nada de
ódios; perdão ou esquecimento.
— Mas, padre-mestre, que lhe parece? perguntou D. Úrsula com ansiedade.
— D. Úrsula, disse o padre, é preciso agora que a razão fale e trabalhe; o
sentimento deve retrair-se e esperar. Examinarei o caso, e aconselharei o
necessário remédio. Talvez estejamos a debater-nos no vácuo; quem sabe? trata-se
de um equívoco, de uma aparência...
— Oh! ela confessou tudo! interrompeu Estácio. Vi-lhe a expressão da culpa
nos olhos. Mas, enfim, estou pronto para tudo, continuou ele erguendo-se. Não foi o
senhor um dos melhores amigos de meu pai? Não o é ainda nosso? Ajude-nos,
aconselhe-nos; faremos o que lhe parecer melhor. Na situação em que nos
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achamos, nenhum de nós tem o espírito bastante senhor de si para colher os
elementos da verdade, apurá-la e resolver. Esse papel é seu.
Vieram trazer a Estácio uma carta. Era do Dr. Camargo, anunciando-lhe que a
madrinha de Eugênia falecera, e que ele no prazo de alguns dias estaria na Corte.
Era o pior momento para semelhante vinda; Estácio não pôde reprimir um gesto de
desgosto. O padre, dizendo-lhe o mancebo de que tratava a carta, observou que
nenhum inconveniente podia haver no regresso de Camargo, uma vez que, sem
demora, ficasse liquidado o assunto que os afligia.
— D. Úrsula, continuou ele, deixe-nos agora sós alguns instantes; vá
tranqüila, confie em Deus, e não faça suspeitar a ninguém o que se passa nesta
casa.
D. Úrsula obedeceu. Logo que ela saiu, Melchior fechou a porta. Estácio
sentou-se de novo, disposto a ouvir o capelão. Este deu alguns passos entre a porta
e uma das janelas. Ia anoitecendo; Estácio acendeu um candelabro. Melchior
sentou-se ao pé dele, sem lhe falar nem lhe voltar sequer os olhos. Meditava ou
lutava consigo mesmo; a fronte pesada e merencória traduzia a agitação interior. Já
não era a inalterável placidez, reflexo de uma consciência religiosa e pura. Se a
consciência era a mesma, não o era o coração, a braços com uma crise nova. Após
dez minutos de profundo silêncio entre ambos, o padre falou.
CAPÍTULO XXIII
— És forte? perguntou o padre.
— Sou.
— Crês em Deus?
Estácio estremeceu e olhou para o ancião, sem responder. Melchior insistiu:
— Crês?
— Essa pergunta...
— É menos ociosa do que parece. Não basta supor que se crê; nem basta
crer à ligeira, como na existência de uma região obscura da Ásia, onde nunca se
pretende pôr os pés. O Deus de que falo, não é só essa sublime necessidade do
espírito, que apenas contenta alguns filósofos; falo-te do Deus criador e
remunerador, do Deus que lê no fundo de nossas consciências, que nos deu a vida,
que nos há de dar a morte e, além da morte, o prêmio ou o castigo. Crês?
— Creio.
— Pois bem, tu transgrediste a lei divina, como a lei humana, sem o saber.
Teu coração é um grande inconsciente; agita-se, murmura, rebela-se, vaga à feição
de um instinto mal-expresso e mal compreendido. O mal persegue-te, tenta-te,
envolve-te em seus liames dourados e ocultos; tu não o sentes, não o vês; terás
horror de ti mesmo, quando deres com ele de rosto. Deus que te lê, sabe
perfeitamente que entre o teu coração e tua consciência há um véu espesso que os
separa, que impede esse acordo gerador do delito.
— Mas que é, padre-mestre?
Melchior inclinou-se e encarou o moço. Os olhos, fitos nele, eram como um
espelho polido e frio, destinado a reproduzir a imagem do que lhe ia dizer.
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— Estácio, disse Melchior pausadamente, tu amas tua irmã.
O gesto mesclado de horror, assombro e remorso com que Estácio ouvira
aquela palavra, mostrou ao padre, não só que ele estava de posse da verdade, mas
também que acabava de a revelar ao mancebo. O que a consciência deste ignorava,
sabia-o o coração, e só lho disse naquela hora solene. A consciência, depois de
tatear nas trevas, recuou apavorada, como afastando de si o clarão súbito que
acendera nela a palavra do sacerdote. Estácio não respondeu nada; não podia
responder nada. Com que vocábulo e em que língua humana exprimiria ele a
comoção nova e terrível que lhe abalara a alma toda? que fio pudera atar-lhe as
idéias rotas e dispersas? Nem falou, nem se atreveu a erguer os olhos; ficou como
estúpido e morto. Melchior contemplou-o alguns minutos, silencioso e compassivo.
Os olhos, que eram de águia para mistérios da vida, eram de pomba para os
grandes infortúnios. Abaixo da cabeça máscula, havia um coração feminino.
A mudez de Estácio cessou enfim; o corpo agitou-se; o lábio articulou
algumas frases desconcertadas. Vago era o sentido delas; podia concluir-se que ele
não cria na revelação de Melchior, que o suposto sentimento era tão absurdo e
desnatural que só a maus instintos devia ser atribuído. Melchior ouviu-o, sorriu com
satisfação. Não era aquilo mesmo um protesto de consciência honrada?
— Maus instintos, não, respondeu Melchior; num desvio da lei social e
religiosa, mas desvio inconsciente. Entra em teu coração, Estácio; revolve-lhe os
mais íntimos recantos, e lá acharás esse germe funesto; lança-o fora de ti, que é o
preceito do Eterno Mestre. Não o sentiste nunca; a tentação usa essa tática
serpentina e dolosa; é insinuante como a calúnia, e pertinaz como a suspeita. Mas
eu sou a verdade que afirma, e a caridade que consola. Digo-te, não que pecaste,
mas que ficaste à beira do pecado, e estendo-te a mão para que recues do abismo.
— Padre-mestre! murmurou Estácio, cujo coração recebia a influência da
palavra de Melchior, a um tempo severa e meiga.
— Não fales, continuou o padre; negá-lo é mentir; confessá-lo é ocioso. Como
nasceu em teu coração semelhante sentimento? Quis a fortuna que entre vocês dois
não houvesse a imagem da infância e a comunhão dos primeiros anos; que, em
plena mocidade, passassem, do total desconhecimento um do outro, para a
intimidade de todos os dias. Esta foi a raiz do mal. Helena apareceu-te mulher, com
todas as seduções próprias da mulher, e mais ainda com as do seu próprio espírito,
porque a natureza e a educação acordaram em a fazer original e superior. Não
sentiste a transformação lenta que se operou em ti, nem podias compreendê-la. São
Paulo o disse: para os corações limpos, todas as coisas são limpas. Vias a afeição
legítima naquilo que era já afeição espúria; daí vieram os zelos, a suspicácia, um
egoísmo exigente, cujo resultado seria subtrair a alma de Helena a todas as alegrias
da terra, unicamente para o fim de a contemplares sozinho, como um avaro.
Ouvindo a palavra do padre, Estácio soletrava o próprio coração e lia
claramente o que até então era para ele como um livro fechado. A situação tornava-
se, entretanto, por demais aflitiva, profunda a vergonha, intenso o remorso. Estácio
ergueu-se: erguendo-se, deu com os olhos no retrato do conselheiro que, na
penumbra em que ficava, parecia olhar para o filho e interrogá-lo. Esta circunstância
desorientou o moço:
— Não, padre-mestre! exclamou ele deixando-se cair na cadeira. É
impossível! isto que me está dizendo é um sonho mau, é um funesto equívoco; é
impossível; juro-lhe que é impossível. É certo que a amo... que a amava, com
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sentimentos de irmão; mas esquecer-me, aninhar em minha alma tão odioso afeto...
oh! era impossível!
Melchior erguera-se. Após meia dúzia de passos, aproximou-se de Estácio,
sobre cuja cabeça estendeu a mão direita, enquanto com a outra lhe erguia a barba,
obrigando-o a olhar para ele.
— Digo-te que tens uma raiz de má erva no coração; esta é a cruel verdade.
Há no homem uma ligação de sentimentos, às vezes inexplicável. Produtos de
climas opostos aí se alternam ou se confundem... Mas queres saber o resto?
— O resto?
— Ouve, continuou o padre, sentando-se. A planta ruim bracejou um ramo
para o coração virgem e casto de Helena, e o mesmo sentimento os ligou em seus
fios invisíveis. Nem tu o vias, nem ela; mas eu vi, eu fui o triste espectador dessa
violenta e miserável situação. São irmãos e amam-se. A poesia trágica pode fazer
do assunto uma ação teatral; mas o que a moral e a religião reprovam, não deve
achar guarida na alma de um homem honesto e cristão.
— Impossível! impossível! exclamou Estácio. Mas, dado que assim fosse, por
que acumular à dificuldade presente o horror de semelhante revelação?
— Porque a revelação explica a dificuldade. Helena não saberá que ama,
mas ama. Ora, um amor clandestino, de parceria com esse amor incestuoso,
embora inconsciente, provaria da parte de Helena uma perversão que ela não pode
ter, e que, em tal idade, faria dela um monstro. Será Helena esse monstro? Se o
fosse, eu desesperaria da natureza humana. Não! essa casa, onde a viste entrar, é
com certeza asilo de miséria: o que ela aí vai levar é a esmola e a compaixão.
Um raio de esperança alumiou a fronte de Estácio. O raciocínio do padre era
exato, e por mais perigosa que fosse a situação revelada por ele, já agora não se
podia desejar outra coisa; a dignidade da família ficava intacta. Estácio refletiu largo
tempo no que acabava de ouvir. Mas a esperança foi curta, embora a necessidade
dela fosse grande.
— Helena continua recolhida? perguntou o padre.
Estácio fez um leve sinal afirmativo.
— Falar-lhe-ei amanhã; por hoje convém não dizer palavra nem deixar
transpirar coisa nenhuma.
Dizendo isto, Melchior recolheu-se ao silêncio, como se refletisse ainda
alguma coisa. Estácio erguera-se e entrara a passear lentamente. De quando em
quando, apertava a cabeça entre as mãos; tantas comoções bastavam para atordoar
mais forte espírito. O mistério o cercava de todos os lados. Ele ia até à janela, daí
até à porta, intercalando as reflexões interiores com sacudimentos nervosos do
braço ou da cabeça. A intervalos, olhava a furto e de través para o capelão, como o
criminoso olha para a consciência; não podia evitar o sentimento de terror, e ao
mesmo tempo de respeito, que lhe infundia aquele investigador exato e profundo de
seus sentimentos mais recônditos e inacessíveis. Ruminava o que o padre lhe
dissera; cada minuto lhe ia tornando mais clara a verdade revelada, e o que era
obscuro fizera-se-lhe enfim transparente. É assim que a luz de um astro, acesa
desde séculos, chega finalmente a ferir a retina de nossos olhos mortais.
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Uma vez, interrompendo os passos, ergueu os olhos para o retrato do conselheiro.
Não os retirou aterrado; cravou-os com ar de reproche e de amargura, em que o
padre reparou, e que o fez sorrir tristemente. O olhar do filho pedia contas ao pai.
— Paz aos mortos! observou Melchior. Os atos de seu pai já não pertencem à
jurisdição deste mundo.
Melchior proferiu estas palavras já de pé.
— O Dr. Camargo, disse ele mudando de tom, deve chegar um dia destes,
segundo anuncia. Há alguma razão para demorar o casamento?
— Nenhuma.
— Convém realizá-lo imediatamente?
— Imediatamente.
Melchior caminhou para a porta. Ia dar volta à chave e deteve-se.
— Antes de nos separarmos, disse ele, desejo a promessa de que não falarás
a Helena antes de amanhã.
— Prometo.
O padre refletiu um instante; Estácio pareceu adivinhá-lo.
— Quer ainda outra promessa? perguntou ele. Quer que a evite de todos os
modos?
— Sim; que a considere como pessoa totalmente estranha.
— Poderia ser de outra maneira? observou melancolicamente Estácio. Os
sucessos destes dias são, por enquanto ao menos, uma barreira entre ela e sua
família. Demais, eu seria destituído de todo o senso moral...
— Jura?
— Juro.
Melchior desabrochou a camisa, e aventou um crucifixo de marfim, que lhe
pendia de uma fita preta, ao pescoço.
— Esta, disse ele com voz singela, é a efígie do teu Deus. Tão puro exemplo
de castidade não viram os séculos nem antes nem depois que ele desceu à terra.
Jura o que me prometes.
— Padre-mestre, retorquiu Estácio; minha palavra era bastante. Mas, se é
preciso afirmação mais solene, eu a darei tal qual me pede.
Estácio inclinou a cabeça sobre o crucifixo e beijou-o respeitosamente; depois
beijou a mão ao padre. Melchior abençoou-o e saiu.
Saindo do gabinete de Estácio, dirigiu-se para a sala de costura, onde achou
D. Úrsula um pouco menos agitada.
— Falou a Helena? perguntou ela, dirigindo-se ao padre.
— Ainda não; sei que não quer sair do quarto; deixemos passar a primeira
comoção. Amanhã virei saber tudo. Por hoje é preciso que a senhora sossegue.
— Oh! estou sossegada! Não perdi a confiança.
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D. Úrsula proferiu estas palavras com tamanha serenidade e tão profunda
convicção que fortaleceu o espírito do próprio Melchior, aliás não inclinado a crer no
mal. O ancião deteve-se alguns instantes a contemplar o rosto plácido de D. Úrsula,
a admirar a força secreta que a tornava surda ao clamor da realidade, — pelo
menos, da realidade aparente. Contemplou-a silencioso, e desceu à chácara.
CAPÍTULO XXIV
A noite era escura. Calcando a terra e a areia das largas calhes da chácara,
Melchior, em sua imaginação, refloria o passado, nem sempre feliz, mas geralmente
quieto. Mais de uma vez buscara dissipar a sombra pesarosa que alguns erros do
conselheiro acumularam na fronte da consorte. Haveria naquela casa uma geração
de dores, destinadas a abater o orgulho da riqueza com o irremediável espetáculo
da debilidade humana?
— Não, dizia ele consigo mesmo. A verdade é que tudo se encadeia e
desenvolve logicamente. Jesus o disse: não se colhem figos dos abrolhos. A vida
sensual do marido produziu o infortúnio calado e profundo daquela senhora, que se
foi em pleno meio-dia; o fruto há de ser tão amargo como a árvore; tem o sabor
travado de remorsos.
Neste ponto chegava ao portão. Aí deteve-se um instante. O passo cauteloso
e tímido de alguém fê-lo voltar a cabeça. Um vulto, cujo rosto não via, tão escuro
como a noite, ali estava e lhe tocava respeitosamente as abas da sobrecasaca. Era
o pajem de Helena.
— Seu padre, disse este, diga-me por favor o que aconteceu em casa. Vejo
todos tristes; nhanhã Helena não aparece; fechou-se no quarto... Me perdoe a
confiança. O que foi que aconteceu?
— Nada, respondeu Melchior.
— Oh! é impossível! Alguma coisa há por força. Seu padre não tem confiança
em seu escravo. Nhanhã Helena está doente?
— Sossega; não há nada.
— Hum! gemeu incredulamente o pajem. Há alguma coisa que o escravo não
pode saber; mas também o escravo pode saber alguma coisa que os brancos
tenham vontade de ouvir...
Melchior reprimiu uma exclamação. A noite não lhe permitia examinar o rosto
do escravo, mas a voz era dolente e sincera. A idéia de interrogá-lo passou pela
mente do padre, mas não fez mais do que passar; ele a rejeitou logo, como a
rejeitara algumas horas antes. Melchior preferia a linha reta; não quisera empregar
um meio tortuoso. Iria pedir a Helena a solução das dificuldades. Entretanto, o
pajem, como interpretasse de modo afirmativo o silêncio do sacerdote, continuou:
— Nhanhã Helena é uma santa. Se alguém a acusa, acusa o bom
procedimento dela. Eu lhe direi tudo...
Melchior ia recusar, mas um incidente interrompeu a palavra do pajem, contra
a vontade deste, e talvez contra o desejo de Melchior. Ouviram-se passos; era um
escravo que vinha fechar o portão.
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— Vem gente, disse Vicente; amanhã...
O pajem tateou nas trevas em procura da mão do padre; achou-a, enfim,
beijou-a e afastou-se. Melchior seguiu para casa, abalado com a meia revelação que
acabava de ouvir. Outro qualquer podia duvidar um instante da sinceridade do
escravo; podia supor que o ato dele era menos espontâneo do que parecia; enfim,
que a própria Helena sugerira aquele meio de transviar a expectação e congraçar os
sentimentos. A interpretação era verossímil; mas o padre não cogitou de tal coisa. A
ele era principalmente aplicável a máxima apostólica: para os corações limpos, todas
as coisas são limpas.
A seguinte aurora alumiou um céu puro de nuvens. Estácio acordou com ela,
depois de uma noite mal dormida. Nunca a manhã lhe pareceu mais rumorosa e
jovial; nunca o ar apresentara tão fina transparência nem a folhagem tão lustrosa
cor. Da janela a que se encostara, via as flores de todos os matizes, quebrando a
monotonia da verdura, e enviando-lhe, a ele, uma nuvem invisível de aromas;
aspecto de festa e ironia da natureza. Estácio achava-se ali como um saimento em
horas de carnaval.
Almoçou sozinho; D. Úrsula estava com Helena. Logo depois do almoço,
recebeu uma carta de Mendonça, que, tendo ido na véspera a Andaraí recebera a
resposta dada a todos, e mandava saber se havia moléstia em casa. Estácio
respondeu afirmativamente, acrescentando que, posto não se tratasse de coisa
grave, só o esperava dois dias depois. A resposta podia ser mais circunspecta; no
estado em que ele se achava, pareceu-lhe excelente.
Pela volta do meio-dia, chegou Melchior. Na sala de visitas achou D. Úrsula,
que o espreitava de uma das janelas.
— Helena? perguntou ele ansioso.
— Já hoje desceu, respondeu D. Úrsula. Está mais tranqüila. Não lhe
perguntei nada, mas dizendo-lhe que o senhor viria falar-lhe, mostrou-se ansiosa por
vê-lo, e pediu-me até que o mandasse chamar.
Seguiram os dois até à saleta que ficava ao pé da sala de jantar. Helena
estava sentada, com a cabeça caída sobre as costas da cadeira, e os olhos metade
cerrados. Logo que o padre entrou, Helena abriu os olhos e ergueu-se. Vivo e
passageiro rubor coloriu-lhe as faces pálidas da vigília e da aflição. Ergueu-se e deu
dois passos para o padre, que lhe apertou as mãos entre as suas.
— Imprudente! murmurou Melchior.
Helena sorriu, um sorriso pálido e tão passageiro como a cor que lhe tingira o
rosto. D. Úrsula dispôs-se a ir chamar Estácio, que estava no andar de cima. Apenas
a viu sair, Helena segurou em uma das mãos do padre.
— Queria vê-lo! disse ela. Não tenho ânimo de falar a ninguém mais, de dizer
tudo...
— É inútil; tudo sei, interrompeu Melchior sorrindo. O Vicente foi hoje de
manhã à minha casa; foi de movimento próprio; relatou-me quanto sabia; disse-me
que esse homem é seu irmão; que a senhora o ia ver, a ocultas, não podendo ou
não querendo apresentá-lo em casa de seus parentes. O escrúpulo era excessivo, e
o ato leviano. Por que motivo dar aparência incorreta a um sentimento natural? Teria
poupado muita aflição e muita lágrima, a si e aos seus, se tomasse antes o caminho
direito, que é sempre o melhor.
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Helena ouviu estas palavras do padre com a alma debruçada dos olhos. Não
parecia sequer respirar. Quando ele acabou, perguntou sôfrega:
— Com que intento lhe falou ele?
— Com o mais puro de todos; desconfiou que a senhora padecia e por isso
veio contar-me tudo.
Helena cruzou os dedos e ergueu os olhos. Melchior não a quis interromper
nessa ascensão mental ao céu; limitou-se a contemplá-la. A beleza de Helena nunca
lhe parecera mais tocante do que nessa atitude implorativa. A contemplação não
durou muito, porque a oração foi breve.
— Orei a Deus, disse ela, descendo as mãos, porque infundiu aí no corpo vil
do escravo tão nobre espírito de dedicação. Delatou-me para restituir-me a estima
da família. Aquilo que ninguém lhe arrancaria do coração, tirou-o ele mesmo no dia
em que viu em perigo o meu nome e a paz de meu espírito. Infelizmente, mentiu.
Melchior empalideceu.
— Mentiu sem o saber, continuou a moça. Disse o que supunha ser verdade,
o que eu lhe dei como tal. Não é meu irmão esse homem.
Melchior inclinou-se para a moça e pegando-lhe nos pulsos, disse
imperiosamente:
— Então quem é? Seu silêncio é uma delação; não tem já direito de hesitar.
— Não hesito, replicou Helena; em tais situações, uma criatura, como eu,
caminha direito a um rochedo ou a um abismo; despedaça-se ou some-se. Não há
escolha. Este papel, — continuou, tirando da algibeira uma carta, — este papel lhe
dirá tudo; leia e refira tudo a Estácio e a D. Úrsula. Não tenho ânimo de os encarar
nesta ocasião.
Melchior, atordoado, fez um leve sinal de cabeça.
— Lido esse papel, estão rotos os vínculos que me prendem a esta casa. A
culpa do que me acontece, não é minha, é de outros; aceitarei contudo as
conseqüências. Poderei contar ao menos com a sua bênção?
A resposta do padre foi pousar-lhe um beijo na fronte, beijo de absolvição ou
de clemência, que ela lhe pagou com muitos na destra enrugada e trêmula de
comoção. Helena precipitou-se depois para o corredor, deixando o padre só, com a
carta nas mãos, sem ousar abri-la, receoso dos males que iam dali sair, sem certeza
ao menos de que ficaria no fundo a esperança. Ia abri-la, e hesitou se o devia fazer
na ausência de Estácio e D. Úrsula; venceu o escrúpulo e leu.
D. Úrsula, que entrou na ocasião em que ele fechava a carta, recuou
aterrada. Melchior estava pálido como um defunto. Antes que nenhum deles falasse,
entrou Estácio na saleta. Melchior dirigiu-se a ele e entregou a carta. Leu-a Estácio e
dizia assim:
“Minha boa filha. Sei pelo Vicente que alguma coisa aí há que te aflige.
Presumo adivinhar o que é. O Estácio esteve comigo, logo depois que daqui saíste a
última vez. Entrou desconfiado, e deu como razão ou pretexto a necessidade de
curar algumas feridas feitas na mão. Talvez ele próprio as fizesse para entrar aqui
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em casa. Interrogou-me; respondi conforme pedia o caso. Supondo que ele
soubesse de tuas visitas, não lhe ocultei a minha pobreza; era o meio de atribuí-las a
um sentimento de caridade. A virtude serviu assim de capa a impulsos da natureza.
Não é isso em grande parte o teor da vida humana? Fiquei, entretanto, inquieto;
talvez lhe não arrancasse o espinho do coração. Pelo que me disse o Vicente, receio
que assim acontecesse. Conta-me o que há, pobre filha do coração; não me
escondas nada. Em todo caso, procede com cautela. Não provoques nenhum
rompimento. Se for preciso, deixa de vir aqui algumas semanas ou meses.
Contentar-me-ia a idéia de saber que vives em paz e feliz. Abençôo-te, Helena, com
quanta efusão pode haver no peito do mais venturoso dos pais, a quem a fortuna,
tirando tudo, não tirou o gosto de se sentir amado por ti. Adeus. Escreve-me. —
Salvador.”
“P.S. Recebi o teu bilhete. Pelo amor de Deus, não faças nada; não saias daí;
seria um escândalo.”
Estácio não compreendeu desde logo o que acabava de ler. A verdade
parecia inverossímil. O primeiro movimento foi sair dali e ir ter com Helena. Melchior
deteve-o a tempo.
— Não precipitemos nada, disse ele. Sossegue primeiro.
Estácio deixou-se cair numa cadeira. Melchior comunicou o conteúdo da carta
a D. Úrsula, cujo pasmo foi ainda mais profundo que o do sobrinho, porque ela não
soltou uma palavra, não fez um gesto; ficou a olhar estupidamente para o papel.
Houve então entre aqueles três personagens dez minutos de mortal silêncio. D.
Úrsula não pensava; olhava para a carta, logo depois para o sobrinho e o padre,
como a esperar uma conclusão que seu próprio espírito não podia deduzir dos
acontecimentos. Estácio ficara desorientado; em vão procurava um fio de dedução
entre as idéias; a revelação nova era uma complicação mais. Se a carta era sincera,
como explicar a declaração testamentária de seu pai? Se o não era, como explicar a
audácia de semelhante invenção? Ele não podia discernir o que era favorável a
Helena, nem ousava afirmar o que lhe era adverso.
No meio daquela família, arriscada a dispersar-se, Melchior considerava a
superioridade da morte sobre alguns lances terríveis da vida. Se o óbito de Helena
tomara o lugar da carta, a dor seria violenta, mas o irremediável desfecho e o
consolo da religião teriam contribuído para sarar a alma dos que ficassem e
converter o desespero de alguns dias na saudade da vida inteira. Em vez disto,
estava ele, talvez, diante de um destino aniquilado; via um abismo possível entre
corações que a vontade de um morto vinculara. Qualquer que fosse a veracidade da
carta, o resultado era talvez esse.
Melchior foi dali ter com Helena, para alcançar mais detida explicação do que
acabava de ler. Ela ergueu-se quando o viu, e pareceu reviver ao contemplar o
gesto benévolo com que ele lhe falou. Um longo suspiro de alívio rompeu-lhe o
coração: os braços caíram sobre os ombros do padre, em cujo seio escondeu o
rosto e repousou enfim, — um minuto — das dores que a afligiam.
— Perdoaram-me? disse ela.
— Hão de perdoar; conte-me tudo.
— Oh! não posso, não sei; sei que é meu pai.
O capelão não insistiu; voltou aos outros dois, a quem achou na posição em
que os deixara. Interrogaram-no com os olhos.
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— Nada, disse ele. O coração dela não possui nesta ocasião a necessária
força para responder a quanto se lhe devia perguntar; demais, não saberá tudo.
Temos a primeira confissão da verdade...
— Da verdade? interrompeu melancolicamente Estácio. Quem sabe se é
verdade o que lemos nesse papel?
— É, deve ser. Faltam-nos, é certo, os fundamentos da asseveração; mas eu
incumbo-me de ir buscá-los.
— Iremos ambos.
D. Úrsula quis dissuadir o sobrinho de ir à casa do homem, causa dos
desastres da família, não tanto porque lhe parecia que entre Estácio e ele nenhuma
relação convinha estabelecer, mas sobretudo porque ela precisava de alguém que a
acompanhasse em tão graves circunstâncias. Melchior inclinou-se ao alvitre de D.
Úrsula.
— Irei eu só, disse ele; depois conduzi-lo-ei até cá, se for preciso.
— Não posso esperar, insistiu Estácio; preciso falar a esse homem, ouvi-lo,
ler-lhe a verdade ou o embuste nas linhas do rosto. Talvez o decoro da família
exigisse outra coisa; mas, padre-mestre, meu coração goteja sangue...
Era impossível dissuadi-lo: Melchior tratou somente de o moderar. De resto, a
crise era violenta; cumpria resolvê-la sem demora nem hesitação. O padre animou
D. Úrsula, e saiu acompanhado de Estácio, cujo coração, convalescido do primeiro
abalo, deixava as regiões da dúvida para entrar na atmosfera da verdade, — pelo
menos da esperança. Quaisquer que fossem as conseqüências da nova revelação,
vinha esta como um bálsamo, após tão dolorosas comoções; era um rasgão azul no
céu tempestuoso daqueles dias. Ia ele pensando assim, — ou antes sentindo, —
porque o pensamento não ousava regê-lo, desde que a vida inteira de moço se lhe
concentrara no coração.
Chegando à frente da casa, Estácio desviou os olhos; custava-lhe encará-la,
mas venceu-se. Houve demora em abrir a porta; abriu-se esta enfim, e a figura do
dono da casa apareceu aos dois. Vendo-os, empalideceu um pouco, mas um sorriso
procurou disfarçar a impressão. Estácio foi direito ao fim.
— Suponho que se lembra de mim? disse ele.
— Perfeitamente.
— Sabe que motivo nos traz à sua casa?
— Não, senhor.
— Confessa a autoria desta carta?
Salvador estremeceu; depois respondeu com um gesto afirmativo.
— Pretende que Helena é sua filha, disse o moço depois de um instante.
Confirma verbalmente o que escreveu?
— Helena é minha filha.
Melchior interveio:
— Há um ano, falecendo, o meu velho amigo conselheiro Vale reconheceu
Helena, por uma cláusula testamentária; recomendava à família que a tratasse com
afeto e carinho e designava o colégio em que ela estava sendo educada. O fato do
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reconhecimento e as circunstâncias que apontou, dão toda a veracidade à palavra
do morto. Que prova apresenta o senhor em contrário a ela?
— Nenhuma, disse Salvador; não tenho prova de nenhuma natureza.
— Na falta de provas, prosseguiu o capelão, poderia dizer-nos como supor da
parte do conselheiro uma falsificação, tratando-se de disposição tão grave como
essa de introduzir uma pessoa estranha na família?
Salvador sorriu amargamente.
— Suponha, disse ele, que eu havia iludido a confiança do conselheiro, e que
ele acreditava ser pai de Helena.
— Era isso?
— Não era. Na posição em que nos achamos, já não há lugar para meias
palavras. Força é referir tudo. Dez minutos apenas.
Os três sentaram-se. Melchior olhava para o dono da casa com a persistência
e a curiosidade naturais da ocasião. Salvador esteve alguns instantes calado; enfim,
voltou-se para o capelão.
— Estimo, disse ele, que o Sr. padre viesse; sua caridade temperará a
legítima indignação deste moço; e eu farei as declarações indispensáveis na
presença das duas pessoas a quem mais amo, abaixo de Helena.
— Queira falar, disse secamente Estácio.
CAPÍTULO XXV
— A mãe de Helena, disse Salvador, cuja beleza foi a causa, a um tempo, da
sua má e boa fortuna, era filha de um nobre lavrador do Rio Grande do Sul, onde
também nasci. Apaixonamo-nos um pelo outro. Meu pai opôs-se ao casamento;
tinha alguns bens, mandara-me estudar, queria ver-me em posição brilhante. Ângela
podia ser obstáculo à minha carreira, dizia ele. Opôs-se e eu resisti; raptei-a; fomos
viver na campanha oriental, donde passamos a Montevidéu, e mais tarde ao Rio de
Janeiro. Tinha vinte anos quando deixei a casa paterna; possuía alguns estudos,
poucos, meia dúzia de patacões, muito amor e muita esperança. Era de sobra para a
minha idade, mas insuficiente para o meu futuro. A lua-de-mel foi desde logo uma
noite de privações e trabalhos. Minha vida começou a ser um mosaico de profissões;
aqui onde me vêem, fui mascate, agente do foro, guarda-livros, lavrador, operário,
estalajadeiro, escrevente de cartório; algumas semanas vivi de tirar cópias de peças
de papéis para teatro. Trabalhava com energia, mas a fortuna não correspondia à
constância, e o melhor dos anos gastei-o em luta áspera e desigual. Uma
compensação havia, a mais doce de todas: era o amor e o contentamento de
Ângela, a igualdade do ânimo com que ela encarava todas as vicissitudes. Pouco
tempo depois da nossa fuga, havia outra compensação mais: era Helena. Essa
menina nasceu em um dos momentos mais tristes da minha vida. Os primeiros
caldos da mãe foram obtidos por favor de uma mulher da vizinhança. Mas nasceu
em boa hora, e foi um laço mais que nos prendeu um ao outro. A presença de um
ente novo, sangue do meu sangue, fez-me redobrar de energia. Trabalhava com
alma, lutava resoluto contra todas as forças adversas, certo de encontrar à noite a
solicitude da mãe e as ingênuas carícias da filha. Os senhores não são pais; não
podem avaliar a força que possui o sorriso de uma filha para dissolver todas as
tristezas acumuladas na fronte de um homem. Muita vez, quando o trabalho me
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tomava parte da noite, e eu, apesar de robusto, me sentia cansado, erguia-me, ia ao
berço de Helena, contemplava-a um instante e parecia cobrar forças novas. Se o
próprio berço era obra de minhas mãos! Fabriquei-o de alguns sarrafos de pinho
velho; obra grosseira e sublime; servia a adormecer metade da minha felicidade na
terra.
Salvador interrompeu-se comovido.
— Perdoem-me, continuou ele, depois de alguns instantes, se estas
memórias me abalam o coração. Eu era pobre, tão pobre como hoje. Desse tempo
só resta um eco doloroso e consolador. Crescia Helena e cresciam suas graças. Era
o encanto e a esperança do meu albergue. Quando pôde aprender os rudimentos da
leitura, dei-lhe as primeiras lições; assisti pasmado à aurora daquela inteligência que
os senhores vêem hoje tão desenvolvida e lúcida. Aprendia com facilidade, porque
estudava com amor. Ângela e eu construíamos os mais lindos castelos do mundo.
Nós a víamos já mulher, formosa como viria a ser, porque já o era, inteligente e
prendada, esposa de algum homem que a adorasse e elevasse. Vivíamos dessa
antecipação, que era apenas um sonho, e não sentíamos os golpes da fortuna.
— Por que razão, perguntou Melchior, dado esse amor e nascida uma filha,
não santificou o senhor a situação em que se achavam?
— A curiosidade é justa, replicou Salvador, mas a resposta é decisiva. Casar
era a nossa justificação; era um argumento contra o ressentimento de meu pai. Nos
primeiros dias da nossa fuga do Rio Grande, a própria embriaguez da felicidade
desviou qualquer idéia de santificar e legalizar uma união consentida pela natureza.
Depois vieram os trabalhos e as necessidades. Como eu tinha certeza de não fugir
ao dever que tomara em meus ombros, ia adiando o ato de mês para mês, de ano
para ano. Afinal o projeto esvaiu-se de todo. Estávamos ligados pela miséria e pelo
coração, não pretendíamos o respeito da sociedade; triste desculpa; e ainda mais
triste recordação, porque o casamento teria talvez obstado os acontecimentos
posteriores. Helena contava seis anos. Minha fortuna, adversa sempre, com
intermitências favoráveis, parecia abrandar um pouco. Ia encetar um novo meio de
vida, quando uma circunstância grave me chamou ao Rio Grande. Meu pai
adoecera; mandava-me o seu perdão, ordenando-me que o fosse ver sem demora.
Obedeci prontamente. Do que ele me remeteu para as despesas de viagem e
outras, deixei alguma coisa a Ângela e Helena, e parti. Vinte e quatro horas depois
de ver meu pai, tive a dor de o perder. A liquidação dos negócios foi curta; os bens
todos ficaram pertencendo aos credores; restavam-me alguns patacões. Recebi
esse golpe novo com a filosofia da insensibilidade. Quem sabe se não era eu o
culpado do acontecimento? Os negócios entretanto, apesar de curtos, demoraram-
me mais do que eu pretendia e convinha. A ânsia de voltar cresceu, desde que não
recebi a resposta das últimas cartas que escrevi a Ângela. Enfim, pude regressar ao
Rio de Janeiro com um luto mais e uma esperança menos. Neste ponto entra a
pessoa de seu pai.
Estácio desviou os olhos.
— Logo que cheguei, continuou Salvador, corri à casa; achei-a fechada. Um
vizinho, testemunha da minha aflição, deu-me notícia de que Ângela se mudara para
São Cristóvão. Não sabia nem o número nem a rua; mas deu-me algumas
indicações que me guiaram. Ainda hoje tenho ante os olhos o sorriso com que
aquele homem me respondia. Era um sorrir de compaixão que humilhava. Sem
nunca haver recebido de mim a menor ofensa, vejo que ele tinha um prazer secreto
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com o meu infortúnio. Por quê? Deixo aos filósofos liquidarem esse enigma da
natureza humana. Voei a São Cristóvão; gastei tempo em procurar a casa, mas dei
com ela. Quando a vi, duvidei de meus olhos ou das indicações. Era uma casa
elegante, escondida entre o arvoredo, no meio de um pequeno jardim. Podia ser
aquela a residência da companheira de minha miséria? Receoso de ir bater ali, vi
assomar ao portão um homem, que me pareceu ser o jardineiro. Perguntei pela dona
da casa, a quem dei o seu próprio nome, dizendo que lhe desejava falar. “A senhora
saiu”, respondeu ele distraidamente. Dispus-me a esperar, mas o jardineiro
observou-me que ia sair e fechar o portão, e que a senhora só voltaria à noite.
“Esperarei até à noite”, redargüi. O jardineiro mediu-me de alto a baixo, circulou um
olhar cauteloso pela rua e disse-me baixinho: “Aconselho ao senhor que não volte; o
patrão não há de gostar.” Não escrevo um romance; dispenso-me de lhes pintar o
efeito que produziram essas palavras. O que senti excede a toda a descrição. Há
catástrofes mais solenes, há situações mais patéticas; mas naquela ocasião parecia-
me que todas as dores do mundo se tinham convergido para meu coração. O
jardineiro era verdadeiramente compassivo; lendo em meu rosto o efeito de suas
palavras, disse-me alguma coisa de que absolutamente não me lembro. Convidou-
me com brandura a sair; obedeci maquinalmente. Podendo informar-me acerca de
Ângela, não o fiz. A febre reteve-me três dias de cama, numa pobre cama alugada
em péssima estalagem da Cidade Nova. No terceiro dia recebi uma carta de Ângela.
Pedia-me que lhe perdoasse o passo que dera; que uma paixão nova e delirante a
havia guiado, e que, se viesse a arrepender-se, seria essa a minha vingança.
Quando li a carta, tive ímpeto de ir ter com ela e esganá-la; mas o ímpeto passou, e
a dor desfez-se em reflexões. Poucos dias antes, a bordo, um engenheiro inglês que
vinha do Rio Grande para esta Corte, emprestara-me um volume truncado de
Shakespeare. Pouco me restava do pouco inglês que aprendi; fui soletrando como
pude, e uma frase que ali achei fez-me estremecer, na ocasião, como uma profecia;
recordei-a depois quando Ângela me escreveu. “Ela enganou seu pai, diz Brabantio
a Otelo, há de enganar-te a ti também.” Era justo; pelo menos, era explicável. Dois
dias depois da carta de Ângela, escrevi-lhe pedindo meia hora de conversação;
nada mais. Ângela concedeu-me a entrevista. Meu plano era arrebatar-lhe Helena;
ela parece que o previu, recebendo-me sozinha, no jardim, às nove horas da noite.
— Por que razão recorda todas essas minúcias? interrompeu Melchior com
brandura; nós desejamos somente saber o essencial.
— Tudo é essencial na minha narração, disse Salvador. Aquela entrevista
mostrou-me a toda a luz o caráter de Ângela. Que outra mulher se arriscaria, em tais
circunstâncias, a afrontar a cólera do homem desprezado? Ângela era um complexo
de qualidades singulares. Capaz de suportar as maiores angústias, forte e risonha
no meio das máximas privações, esqueceu num instante as virtudes que tinha para
correr atrás de uma fantasia de amor. Não foi a riqueza que a seduziu; ela iria, ainda
que tivesse de trocar a riqueza pela miséria. Ângela nasceu metade freira e metade
bailarina; capaz das austeridades de um claustro, não o era menos das pompas da
cena. E daí... não fui eu mesmo que a desviei da estrada real para metê-la por um
atalho obscuro? Disse-lho naquela noite em que procurei ser tranqüilo e superior aos
acontecimentos. “Meu fim, declarei eu, é só um: levar Helena; Helena é minha filha,
não quero deixá-la entregue a seus maus exemplos.” As lágrimas com que me
banhou as mãos, as rogativas que me fez, ajoelhada a meus pés, para que lhe
deixasse Helena, não há negar que foi tudo sincero. Cedi aparentemente. Minha
resolução estava assentada; sem Helena, a vida parecia-me impossível. Que outro
vínculo me prendia ao mundo? A morte e a miséria tinham feito em redor de mim
completa solidão. A única felicidade sobrevivente era ela.
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— Segundo rapto, observou o padre. O senhor condenava-se a só adquirir
um vislumbre de felicidade por meios violentos.
— Tem razão, respondeu Salvador com tristeza; um abismo chamava outro
abismo. Felizes os que sabem o caminho reto da vida e nunca se arredaram dele!
Quis arrebatar Helena; espreitei-a noite e dia. Não a via nunca; a própria casa rara
vez tinha uma porta ou janela aberta. Havia ali o recato e o mistério. Um dia resolvi ir
ter com o protetor de Ângela. A notícia que me deram do conselheiro Vale era a
mais honrosa do mundo. Assentei que me ouviria e cederia a meus justos rogos. O
demônio do orgulho impediu a execução do plano. Quase a entrar em casa do
conselheiro, recuei. Decorreram assim cerca de dois meses. Emagreci; as longas
vigílias fizeram-me pálido; o trabalho não me atraía; cheguei a padecer fome. O
poeta que disse que a saudade é um pungir delicioso, não consultou meu coração.
Acerbo o achei eu; é certo que a ela misturava-se a cólera, a cólera da impotência e
o desgosto mortal do abandono. Um dia, dirigi-me para São Cristóvão, disposto a
empregar a violência, contanto que trouxesse Helena ou fosse dali para o aljube. Era
à tardinha. Aproximei-me do jardim de Ângela, ouvi a voz de minha filha. Era a
primeira vez depois de longos meses! Parou-me o sangue todo. Passado o primeiro
abalo, caminhei cauteloso, encostado à cerca; Helena falava a alguém. Por uma
abertura da cerca, pude espreitá-la. Estava ao colo de um homem. Esse homem era
o conselheiro. Olhei para um e outro; ora para o meu rival, ora para a minha Helena.
Helena acariciava as barbas dele; este sorria para ela com um ar de ternura, que o
absolvia quase da ofensa a mim feita. O coração, porém, apertou-se-me, ao ver dar
a outro afagos a que só eu tinha direito. Era um roubo feito à natureza; mas, se meu
próprio sangue me repudiava, que podia eu exigir de alheios corações? Daí a algum
tempo, — não sei se foi curto ou longo, porque eu ficara a olhar para ambos,
pasmado de amor e de cólera, ouvi que falavam de mim. “Mas, olhe, dizia Helena,
papai quando vem?” O conselheiro deu um beijo na menina, e falou de uma
borboleta que nesse momento pairava sobre a cabeça dela. As crianças, porém, são
implacáveis; aquela repetiu a pergunta. “Papai não volta”, respondeu o conselheiro.
Helena ficou séria. “Não volta? por quê?” “Tua mamãe disse ontem que papai está
no céu.” Helena levou as mãos aos olhos, donde lhe rebentaram lágrimas copiosas.
Uma nuvem passou-me pelos olhos... tentei dar alguns passos, entrar no jardim,
dizer quem era e exigir minha filha. Os músculos não corresponderam à intenção;
senti fraqueza nas pernas; achei-me de bruços. Quando dei acordo de mim, volvi de
novo os olhos para o lugar onde os vira. Ainda ali estavam, mas a atitude era
diferente. O conselheiro erguera-se, tendo nos braços Helena, que já não chorava.
Ele beijava-lhe as mãozinhas e dizia-lhe: “Se papai foi para o céu, fiquei eu no lugar
dele, para dar-te muito beijo, muito doce e muita boneca. Queres ser minha filha?” A
resposta de Helena foi a do náufrago; estendeu-lhe os braços em volta do pescoço,
como se dissesse: “Se não tenho ninguém mais no mundo!” O gesto foi tão
eloqüente que eu vi borbulhar uma lágrima nos olhos do conselheiro. Essa lágrima
decidiu do meu destino; vi que ele a amava, e de todos os sacrifícios que o coração
humano pode fazer, aceitei o maior e mais doloroso: eliminei a minha paternidade,
desisti da única herança que tinha na terra, força da minha juventude, consolo de
minha miséria, coroa de minha velhice, e voltei à solidão mais abatido que nunca!
Salvador interrompeu a narração; levou a mão direita aos olhos; por entre seus
dedos escorreram algumas lágrimas, que ele, de envergonhado, enxugou
rapidamente.
— Essas recordações são penosas, disse o padre; não convém despertá-las
de uma vez; seria abrir feridas que o tempo cicatrizou. Sabemos o essencial...
— Não, resta ainda alguma coisa, disse Salvador.
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Estácio erguera-se visivelmente comovido, procurava lutar contra o
sentimento que o dominava, a fim de conservar a necessária independência de
espírito para julgar da narrativa e do alcance que ela podia ter. Tinha
involuntariamente apertado a mão de Salvador, ao escutar-lhe as últimas palavras; e
arrependera-se desse primeiro movimento, que podia parecer uma absolvição
sumária. A verdade é que ele não refletia nem sentia claramente: a mente e o
coração eram um campo de idéias e comoções contrárias.
— Vou acabar, disse Salvador, depois de alguns minutos. Resta explicar o
procedimento de Helena.
CAPÍTULO XXVI
— Seu pai, continuou Salvador dirigindo-se a Estácio, que, para acabar de
compor o rosto, tinha ido até à janela e voltara a sentar-se, — seu pai era honrado e
cavalheiro. Arrebatando-me Ângela, não me traiu, porque não me vira nunca; não
contribuiu diretamente para a traição dela, porque supunha cortadas nossas
relações. Soube depois que Ângela, quando eles se apaixonaram um pelo outro, lhe
ocultara completamente o motivo da minha viagem; dera-se como separada de mim.
Mentiu, como mentiu mais tarde, dizendo que eu havia morrido. O conselheiro não
sabia sequer o meu nome. A mentira no primeiro caso não teve fim nenhum; não
houve cálculo; foi uma sugestão de amor ou um esquecimento; foi, talvez, um modo
de respeitar-me; no segundo caso, houve cálculo: era o de redobrar o afeto que o
conselheiro tinha a Helena. Assim aconteceu, porque o conselheiro sentiu-se pai de
Helena, e assumiu esse caráter desde aquela tarde. Do contrato, feito ali entre o
homem e a criança, cumpriu ele todas as cláusulas com generosa pontualidade.
Pode crer que lhe fiquei profundamente grato. Uma vez, passando por uma litografia,
vi um retrato dele; comprei-o e conservo-o ali ao lado do de Helena.
Melchior e Estácio olharam para a parede, onde pendiam dois quadrinhos,
ainda cobertos, conforme Estácio os vira, no primeiro dia que ali foi.
— Os meses e os anos passaram, continuou Salvador. Helena deu entrada
em um colégio de Botafogo, onde recebeu apurada educação. O conselheiro a levou
ali, dando-a como órfã de um amigo de Minas; Ângela, que se dera por sua tia, ia
buscá-la aos sábados. Omito mil circunstâncias intermediárias, e às vezes, poucas,
em que puder ver minha filha, de passagem e a ocultas. Se o tempo houvesse
produzido em mim os seus naturais efeitos, e se a natureza não se ajustasse em
fazer contraste com a fortuna, conservando-me o vigor e o viço da mocidade, é
possível que eu achasse meio de empregar-me no colégio ou nas imediações, a fim
de ver mais freqüentemente Helena. Mas eu era o mesmo; passado o primeiro
abalo, voltaram-me as carnes, voltou-me a cor, e eu era o mesmo que antes de
partir para o Rio Grande. Helena podia reconhecer-me; e eu faltava à convenção
tácita que fizera com o conselheiro. Um sábado, porém, tinha Helena doze anos,
vindo ambas do colégio, parou o carro defronte do Passeio Público. Vi-as descer e
entrar. Levado por um impulso irresistível, entrei também. Queria contemplá-las de
longe, sem lhes falar; mas a resolução estava acima das minhas forças. Que pai não
faria outro tanto? No lugar mais solitário do Passeio, corri para Helena. Vendo-me, a
menina pareceu não reconhecer-me logo; mas atentou um pouco, recuou
espavorida e agarrou-se à mãe, abraçando-a pela cintura. Conheci que não estava
ali um pai, mas um espectro que regressava do outro mundo. Ia afastar-me, quando
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ouvi a voz de Helena perguntar à mãe: “Papai?” Voltei-me. Ângela envolvera o rosto
da criança entre os vestidos. O gesto equivalia a uma confissão; mas esta foi ainda
mais clara quando a mãe, cedendo à boa parte da sua natureza, ergueu resoluta os
ombros, descobriu o rosto da filha, pousou-lhe um beijo na testa, fitou-a e fez com a
cabeça um gesto afirmativo. A menina não exigiu mais: correu para mim e atirou-se-
me nos braços. Ângela não se atreveu a impedir o movimento da filha; o passado e
o sacrifício falavam em meu favor. Abracei Helena e beijei-a como doido. Ângela
interveio: “Basta!” disse ela. Pegou na mão da filha e estendeu-me a sua. Apertei-a
maquinalmente; meus olhos estavam pregados na criança. Era tão gentil, com o
vestido rico que trazia, os cabelos enlaçados com fitas azuis, um chapelinho de
palha e os pezinhos calçados com botinas de seda! “Fez bem, disse eu a Ângela,
depois de alguns instantes; deu-lhe um pai melhor do que eu.” Reparei então que
ela própria, se transformara; trajava com elegância e estava superiormente bela. A
abastança aperfeiçoara a natureza. Olhei-a sem inveja nem cólera, — mas com
saudade, — dessa vez deliciosa, porque rememorei os bons tempos da nossa
ebriedade e loucura. O passado é um pecúlio para os que já não esperam nada do
presente ou do futuro; há ali sensações vivas que preenchem as lacunas de todo o
tempo. “Fez mal”, disse-me ela baixinho. E suspirou. “Sei que morri, disse eu, e não
pretendo ressuscitar.” Depois voltei-me para Helena: — “Minha filha, faze de conta
que me não viste; morri para ti e para o mundo. Teu pai é outro. Prometes que não
dirás nada?” Helena fez um leve sinal de cabeça e beijou-me a mão a furto, como se
não quisesse ser vista de Ângela. Nesse simples gesto reconheci que ela ia
obedecer-me; mas a tristeza que lhe ficou, foi o castigo de sua mãe. Pedíamos à
natureza mais do que ela podia dar.
Salvador fez uma pausa, ergueu-se, foi à cômoda, e de uma das gavetas tirou
uma caixinha, que colocou sobre a mesa. Melchior e Estácio trocaram um olhar de
curiosidade. Salvador sentara-se de novo.
— Ângela morreu, prosseguiu ele, daí a um ano. Seu pai e alguns amigos,
poucos, foram levá-la à sepultura. Também eu lá me achei. A diferença é que ele
enterrava uma aventura, e eu via enterrar o meu passado. Vi-o triste e taciturno,
como sinceramente pesaroso da criatura que perdera. Helena, entretanto, não
podendo estar só na mesma casa, foi removida para o colégio, onde ficou residindo
definitivamente. O conselheiro ia visitá-la todas as semanas. Pela minha parte, certo
da discrição de minha filha, encetei com ela uma correspondência que era toda a
consolação que me podia caber. Uma escrava do colégio servia de intermediária
entre nós. Então como hoje, achei uma alma compassiva que me ajudou a ser feliz
com mistério; a diferença é que naquele tempo era precisa a intervenção pecuniária.
Eu tinha pouco, mas dava o jantar de um dia para ler cartas de Helena. Conservo-as
todas, tanto as de outrora como as destes últimos meses; estão fechadas aqui.
Salvador mostrou a caixinha que colocara sobre a mesa.
— Um dia, almoçando em um botequim, li a notícia da morte do conselheiro.
O fato consternou-me; mas eu peço licença para lhes dizer tudo: de envolta com o
sentimento de pesar, houve em mim alguma coisa semelhante a uma satisfação.
Respirava enfim! O contrato expirava com ele; eu ia entrar na posse de minha filha.
Não escrevi desde logo a Helena; fi-lo ao cabo de alguns dias. Tive duas respostas:
a primeira era no sentido da minha carta; a segunda anunciava-me que o
conselheiro a reconhecera por testamento. Podia procurar e ler-lhes a segunda
carta: é um documento da elevação dos sentimentos daquela menina. Exprimia-se
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com a maior gratidão e saudade a respeito do conselheiro; mas negava-se a aceitar
o favor póstumo. Sabendo a verdade, não queria escondê-la ao mundo. Aceitando o
reconhecimento, entendia que prejudicava direitos de terceiro, além de repudiar-me
solenemente, o que não queria fazer desde que adquiria a liberdade de ação. Entre
a herança e o dever, dizia ela, escolho o que é honesto, justo e natural. Esta carta
tirou-me o sono uma noite inteira, perplexo como fiquei entre o ato do finado e a
resolução da herdeira. Que mão invisível tocara no coração do conselheiro essa
corda de sensibilidade? Melhor fora que ele houvesse traduzido em uma simples
lembrança a afeição que tinha a Helena. Longo tempo refleti nisso; o pai lutava com
o pai. Tê-la comigo era a minha ventura, o meu sonho, a minha ambição; era a
realidade que eu chegara a tocar com as mãos. Mas, podia atá-la ao carro decrépito
da minha fortuna, dar-lhe o pão amargo de todos os dias? A família do conselheiro ia
afiançar-lhe futuro, respeito, prestígio; a lei ia ampará-la. Perguntei a mim mesmo se,
depois de haver morrido para o mundo, me era lícito ressuscitar para reclamar e
reaver um título de que me havia despojado; finalmente, se possuía já o direito de
fazer um escândalo. Estas reflexões, se viessem sós, teriam triunfado desde logo;
mas em oposição a elas, vieram as sugestões do coração. Adverti que, cedendo à
vontade do morto, cavaria um abismo entre mim e Helena, e que não mais, ou só
raramente e a ocultas, podia desfrutar a felicidade de lhe dizer que a amava, de
ouvir a mesma palavra de seu coração. Nessa luta gastei três longos dias. Helena
escreveu-me outra carta, insistindo na resolução que dizia haver tomado. Urgindo
responder-lhe, fi-lo sacrificando-me. Não a convenci. Procurei ter uma entrevista
com ela. Não era fácil; mas o interesse venceu tudo; a escrava intermediária
aumentou o preço da complacência. O que se passou entre nós não o poderei
repetir agora; curto era o prazo concedido, mas a luta foi renhida e longa. Busquei
persuadi-la com reflexões e súplicas; ela resistiu com indignação e lágrimas. A nobre
alma repudiava a cumplicidade e o lucro de uma usurpação. Eu não via usurpação,
porque a meus olhos nem os interesses da família do conselheiro, nem as noções
da simples moral prevaleciam; eu via minha filha e seu futuro: nada mais. Talvez os
culpados desse meu proceder fossem somente Ângela e seu benfeitor. Eles me
acostumaram a amá-la de longe, a não disputar a outrem o benefício que ela
recebia. Enfim, meu coração egoísta e ulcerado, entendia que o reconhecimento
daquela pobre criança era o simples retorno das carícias de que eu havia sido
defraudado; tais foram os motivos da minha consciência. Helena resistiu até à
última; cedeu somente à necessidade da obediência, à imagem de sua mãe que eu
envoquei, como um supremo esforço, à fiança que lhe dei de que a acompanharia
sempre, de que iria viver perto dela, onde quer que o destino a levasse; cedeu
exausta, sem convicção nem fervor. Se nesse ato decisivo de Helena há culpa, é
toda minha, porque, eu fui o autor único; ela não passou de simples instrumento,
instrumento rebelde e passivo. Seu erro foi não ter a prudência necessária para não
transpor o abismo que nos separava. Eu devia contar com as resoluções súbitas e
prontas dessa menina; há ali uma costela de sua mãe. Mandando-lhe dizer, com as
indicações precisas, onde morava, estava longe de esperar que ela viesse ver-me. A
princípio fiquei aterrado com as possíveis conseqüências; mas se o homem se
habitua ao mal e à dor, por que se não há de acostumar ao prazer e ao bem?
Helena veio mais vezes; o gosto de a ver fez olvidar o perigo, e eu bebi, em horas
escassas e furtivas, a única felicidade que me restava na terra, a de ser pai e a de
me sentir amado por minha filha.
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CAPÍTULO XXVII
Tinha acabado; grossas lágrimas, retidas a custo, enfim lhe rebentaram dos
olhos e rolaram pelo rosto abaixo do narrador. A comoção não ficou só nele; os dois
ouvintes a sentiram também. Acabara; e o pior que podia acontecer, era isso
mesmo. Uma vez finda a narração, ficaram os dois calados e perplexos, sem que
ousassem contradizê-lo. Depois de curta pausa, Salvador rematou assim:
— De tudo o que lhes disse não tenho outras provas além destas cartas, que
seriam bastantes, e de minhas lágrimas, que hão de ser eternas. Mas, ainda quando
haja outras, creio que não serão precisas. Na situação em que estamos, só há duas
soluções possíveis; ou nada se altera do que o conselheiro estatuiu, e somente eu
carregarei as conseqüências da sorte, desaparecendo; ou a família rejeita Helena, e
eu a levarei comigo. Dir-se-á que a lei protege a todo transe? Pois ela assinará todas
as desistências necessárias...
Estácio cortou-lhe a palavra, dizendo que oportunamente lhe dariam resposta.
Saíram logo depois; não trocaram uma só palavra; cada um deles ia absorto.
Contudo, o padre observava de quando em quando o sobrinho de D. Úrsula,
buscando adivinhar-lhe os pensamentos.
Chegando à porta da chácara, o padre perguntou ao moço:
— Que pretende fazer?
— Não sei ainda.
— Sei eu o que deve fazer: nada.
— Conservar esta situação?
— Decerto. Helena obedeceu à vontade de seus dois pais, aceitando o
equívoco em que ambos a vieram colocar. Obedeceu à força. Agora, está
reconhecida; é um fato que não podemos discutir nem alterar.
Estácio esteve silencioso alguns instantes.
— Mas, posso eu, à vista do que acabamos de ouvir, conservar a Helena um
título que rigorosamente lhe não pertence? Helena não é minha irmã; é
absolutamente estranha à nossa família; o título que nos ligava, desaparece. Por
que motivo continuaríamos nós uma falsificação...
— De seu pai? atalhou Melchior.
— Padre-mestre!
— Aquele homem falou verdade; mas nem a lei nem a Igreja se contentam
com essa simples verdade. Em oposição a ela, há a declaração derradeira de um
morto. A justiça civil exige mais do que palavras e lágrimas; a eclesiástica não
extingue com um traço de pena, a afirmação póstuma. Demais, não espere que esse
homem reproduza perante ninguém as declarações de há pouco; só o fará quando
perder a última esperança. É evidente que ele nada quer alterar do que seu pai
estabeleceu, e antes se sacrificará do que envergonhará a filha. Sente-se disposto a
fazer o que ele recusa?
Estácio não respondeu; tinham entrado na chácara, e caminhavam
lentamente na direção da casa. Melchior deteve-o.
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— Estácio! disse o padre, depois de olhar para ele um instante. Compreendo,
quisera despojar Helena do título que seu pai lhe deixou, para lhe dar outro, e ligá-la
à sua família por diferente vínculo...
Estácio fez um gesto como protestando.
— Esquece duas coisas graves: o escândalo e o casamento de um e outro; já
se não pertence, nem ela se pertence a si. Vamos lá; seja homem. Sepultemos
quanto se passou no mais profundo silêncio, e a situação de ontem será a mesma
de amanhã.
Quando Estácio e Melchior entraram em casa, já D. Úrsula sabia de tudo;
lograra desatar a língua de Helena. Abatida com a leitura da carta, não lhe levantara
o ânimo a narração verbal da moça; preferia talvez que Helena fosse
verdadeiramente filha do conselheiro. Alguns meses de espaço e a convivência
afetuosa produziram a diferença de sentimento entre o primeiro e o último dia.
— Nada podemos fazer já agora, disse o padre; provocaríamos um escândalo
sem esperança do resultado.
D. Úrsula fez um gesto de assentimento. Chamada a ouvi-los, Helena desceu
daí a alguns minutos. A cor da vergonha tingiu-lhe a face, logo que ela deu com
Estácio, que a esperava, ao lado de Melchior, ambos calados, mas sem nenhum
vislumbre de irritação. Após um silêncio longo e abafado, Estácio comunicou a
Helena a resolução da família e seus sentimentos de generosidade e confiança;
concluiu dizendo que, sobre todas as coisas, prevalecia a vontade derradeira de seu
pai. Helena empalideceu e cerrou os olhos; D. Úrsula correu a ampará-la. O
organismo debilitado pelas vigílias e comoções das últimas horas não pudera
resistir; mas o delíquio foi leve e curto. Voltando a si, Helena beijou ardentemente as
mãos de D. Úrsula e as do padre, estendeu a sua a Estácio, que a apertou; depois,
com voz trêmula, disse:
— Meu coração ficará eternamente grato ao resto de estima que não perdi; a
situação mudou, e força é mudar com ela. Não quero a proteção da lei, nem poderia
receber a complacência de corações amigos. Cometi um erro, e devo expiá-lo.
Enquanto a vergonha vivia só comigo, era possível continuar nesta casa; eu
atordoava-me para esquecê-la; mas agora que é patente, vê-la-ei nos olhos de
todos e no sorriso de cada um. Peço-lhes que me perdoem e me deixem ir! Não
devera ter entrado, é certo. Expio a fraqueza de um coração que eu me habituara a
amar de longe, com o prestígio do mistério e o encanto do fruto proibido. De hoje em
diante, amá-los-ei de longe ou de perto, mas estranha... e perdoada!
Dizendo isto, Helena abraçou D. Úrsula, como a pedir o benefício da sua
intervenção. D. Úrsula abraçou-a igualmente, mas fez com a cabeça um gesto
negativo. Melchior observou que a repulsa era pelo menos um sintoma de
desprendimento pouco explicável em relação à família que, sem embargo dos
últimos sucessos não lhe retirara a estima nem a proteção.
— Herdou o orgulho do pai! murmurou Estácio.
A frase foi dita em voz baixa, mas Helena ouviu-a, e seus olhos fulgiram de
momentânea satisfação. Atribuir a orgulho o que era vergonha e remorso, dava-lhe
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certa superioridade que a moça julgava não ter naquele lance. Protestou em favor
de seus sentimentos de gratidão, com a palavra viva, animada, cordial que todos
três lhe conheciam, interrompida a intervalos pela comoção interior, e pelas lágrimas
que lhe escorriam dos olhos, quase exaustos de chorar. Estácio pôs termo a todas
as hesitações.
— Pois bem, disse ele, será isso mais tarde; a lei é por nós; e nossa vontade
é que nos obedeça.
Helena mordeu o lábio com desesperação, mas não respondeu. A cabeça
descaiu-lhe lentamente como ao peso de uma idéia, a mais e mais opressora.
Depois, ergueu-a; os olhos tristes, mas animados dos últimos raios de uma
esperança, dirigiram-se para os de Estácio, que nessa ocasião pareciam falar as
dores todas da paixão sufocada e rebelde. Ambos eles os baixaram à terra,
medrosos de si mesmos.
— Não creio que ela aceite facilmente a sua decisão, disse Melchior a
Estácio, logo que pôde achar-se só com ele. Acautele-se; é capaz de fugir-nos.
— Crê?
— Não a conhece ainda? A posição em que estes acontecimentos a
deixaram, repugna-lhe mais que tudo. Prefere a miséria à vergonha, e a idéia de que
interiormente não a absolvemos, é o verme que lhe fica no coração.
De noite, recebeu Estácio uma carta de Salvador, acompanhada de um
pacote.
“Refleti muito durante estas duas horas, dizia ele, e cheguei a uma conclusão
única. Elimino-me. É o meio de conservar a Helena a consideração e o futuro que
lhe não posso dar. Quando esta carta lhe chegar às mãos, terei desaparecido para
sempre. Não me procure, que é inútil. Irei abençoá-lo de longe. Recaia, entretanto,
sobre mim todo o ressentimento; eu só o mereço, porque só eu o provoquei. Vão as
cartas de Helena; guardo três apenas, como recordação da felicidade que perdi.”
Estácio teve vontade de ler as cartas de Helena, mas a tempo recuou; mandou-as
dar à moça. Helena, que estava com D. Úrsula, entregou-as a esta.
— São a minha história, disse ela; peço-lhe que as leia e me julgue.
Havia em seus olhos uma expressão que não era usual. Recolheu-se
imediatamente a seu quarto, onde jazeu longo tempo, calada, quieta, sinistra, o
corpo atirado em um sofá, a alma sabe Deus em que regiões de infinito desespero.
CAPÍTULO XXVIII
Naquela noite, a segunda de tão extraordinários sucessos, foi que Estácio
sentiu toda a violência do amor que lhe inspirara Helena. Enquanto os detinha um
vínculo sagrado, amara sem consciência; e ainda depois de esclarecido pelo padre,
o esforço empregado em vencer-se e a própria natureza da catástrofe não lhe
permitiram ver a extensão do mal. Agora, sim; roto o vínculo, restituída a verdade,
ele conhecia que a voz da natureza, mais sincera e forte que as combinações
sociais, os chamava um para o outro, e que a mulher destinada a amá-lo e ser
amada era justamente a única que as leis sociais lhe vedavam possuir.
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Durante as primeiras horas o coração mordeu rebelde o freio da necessidade.
A vigília foi longa e crua, e a reflexão veio enfim dominar a tempestade interior, ou
antes seus destroços. Ele viu que o padre tinha razão; que era força desfolhar a
esperança de um dia. Ao mesmo tempo, o exemplo de Helena deu-lhe ânimo.
Senhora do segredo de seu nascimento, e consciente de amar sem crime, a moça
apressara, não obstante, o casamento de Estácio e escolhera para si um noivo
estimado apenas. Se uma vez a palavra delatora lhe rompeu dos lábios, ela a retraiu
logo, fazendo o mais obscuro dos sacrifícios.
Não quis Estácio ser menos generoso. Logo de manhã escreveu a Mendonça,
pedindo-lhe que não deixasse de os ir visitar nesse dia. Não o fez sem custo, mas
fê-lo sem arrependimento. Tinha por fim apressar o casamento de Helena e o seu,
condenando-se a sofrer calado os golpes do avesso destino.
A manhã entretanto não trouxe a Helena o esquecimento e a paz. A noite não
lhe serviu de remédio, antes legou à aurora toda a sua mortal angústia. Debilitada,
nervosa, impaciente, não podia a moça vencer-se nem suportar-se. Ora, repelia com
sequidão as palavras de D. Úrsula; ora, pedia intercedesse com Estácio para a
resolução que ela admitia como único meio de a poupar à vergonha. A excitação
moral era grande; cumpria aquietá-la por meios persuasivos. Helena fugia a todos;
não encarava Estácio e D. Úrsula, sem que o pejo lhe colorisse a face, mudança
tanto mais visível quanto que a vigília e a dor a tinham empalidecido muito. Diziam-
lhe que a vontade do conselheiro estatuíra uma lei na família, segundo a qual ela
continuava a ser parenta como dantes, e tão amada como era. A moça agradecia a
generosidade, mas não podia fugir à idéia de haver contribuído para a usurpação.
Queria que a deixassem ir ter com o pai, ao pé de quem a natureza e a consciência
lhe indicavam que poderia estar sem remorso. Estácio e D. Úrsula respondiam-lhe
com afagos e protestos; mas quando viram que estes eram inúteis, não houve mais
que revelar-lhe a carta de Salvador.
O padre Melchior incumbiu-se de lhe fazer essa delicada comunicação.
— Seu pai, disse ele, praticou em seu favor um ato heróico; fugiu para lhe não
fazer perder a consideração e o futuro. Leia esta carta, e veja se ela lhe dá a força
necessária para resistir.
Helena pegou na carta com sofreguidão, leu-a de um lance d’olhos. O gemido
que lhe rompeu o coração mostrou bem a ferida que acabava de receber. O padre
acolheu-a lacrimosa e esvaecida em seus braços; disse-lhe palavras de conforto e
de esperança. Nos primeiros minutos, Helena nada pôde ouvir; o golpe ensurdecera
a alma. Melchior fê-la sentar-se ao pé de si; ela obedeceu sem consciência. Após
alguns minutos de silêncio e concentração, a moça dirigiu a palavra ao padre e
agradeceu-lhe a caridade. Depois referiu-lhe os acontecimentos de sua infância, os
mesmos que o capelão ouvira. A sagacidade natural do espírito cedo lhe fizera ver
que a posição de sua mãe não era a mesma das outras mães: essa descoberta,
porém, não teve outra virtude mais que comunicar ao amor da filha uma intensidade
e energia capazes de afrontar os mais fortes obstáculos, como se ela quisesse
reunir em si toda a soma de afetos e respeitos que a sociedade afiança às situações
regulares. Melchior ouviu-a comovido; nutrido da medula do evangelho, reconheceu
um efeito da graça divina nesse amor imaculado, que valia por todas as absolvições
da terra. Ele a aplaudiu e confortou; falou-lhe do futuro, do carinho de sua família, —
sua, a despeito de tudo; enfim da obrigação em que ela estava de corresponder a
tanta confiança.
Talvez Helena, em sua razão, correspondesse aos conselhos de Melchior;
mas a razão é o que menos a dirigia naquelas circunstâncias aflitivas. Ela deixou o
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padre para recolher-se aos aposentos. Quando D. Úrsula ali foi, meia hora depois,
achou-a profundamente abatida; a violência da crise passara. A linguagem que lhe
falou foi maternal, ungida de amor e perdão; Helena ouviu-a agradecida, mas um
sorriso descorado e sem convicção lhe entreabria os lábios. Supunha ler
comiseração onde havia afeto e respeito, e o orgulho rebelava-se de inspirar o único
sentimento que a consciência lhe dizia merecer.
As instâncias de D. Úrsula para que Helena se alimentasse foram inúteis; ela
apenas recebia o que bastava para não sucumbir à fome. A companhia repugnava-
lhe; assim, poucas vezes a viram desde os dias que se seguiram àquela funesta
manhã. Mendonça não conseguiu mais do que os outros. A família teve o cuidado
de anunciar que Helena se achava enferma. A aflição do noivo foi grande; mas todos
buscaram tranqüilizá-lo. Nada havendo transpirado do acontecimento, fácil foi
sustentar aquela explicação.
Melchior encomendara muito à família que vigiasse a moça, cujo espírito lhe
parecia atrevido e tenaz; ele receava que Helena ou fugisse de casa, ou recorresse
a algum ato de desespero. O mesmo padre desvelou-se em trazer a alma de Helena
ao sentimento de resignação. A autoridade do caráter religioso, a influência que ele
tinha no espírito de Helena, eram armas poderosas, temperadas com amor
verdadeiro e paternal que o ligava à donzela. Nada poupou; mas tais esforços não
tiveram mais fruto que os da família. Helena mal podia tolerar a situação.
Uma vez, como ela descesse à chácara, saiu Estácio a procurá-la, não a
encontrando senão ao cabo de alguns minutos. Achou-a ao pé do tanque, no lugar
em que lhe falara poucos dias antes, sentada no mesmo banco de pau. Vendo-o,
estremeceu; ele aproximou-se, contente de a haver encontrado enfim. O dia estava
feio; grossas nuvens negras pejavam o ar, túmidas de temporal próximo. Estácio
convidou-a a recolher-se.
— Deixe-me estar aqui um instante mais, respondeu ela.
— Dois minutos apenas.
Sentou-se ao pé dela e ficaram calados. Helena tinha uma taquara na mão;
Estácio quis tomar-lha; ela arremessou-a para longe. Ergueu-se então o moço e foi
buscá-la; só então viu que estava molhada até certa altura; calculou que seria o
fundo do tanque. O tanque era raso; não poderia dar a morte; mas, a suspeita de
que Helena não recuaria diante do suicídio, aterrou naturalmente o espírito de
Estácio. Parecendo-lhe que a causa não comportava o efeito, perguntou a si mesmo
se os sucessos daqueles dias não teriam velado a razão da moça. Sentou-se de
novo e falou-lhe com brandura.
Ao escutá-lo, sentiu Helena como uma ressurreição de outras horas, que
julgava escoadas para sempre; um sorriso lhe animou os lábios sem cor, ao passo
que os olhos doridos e murchos pareciam reviver de um resto de luz. Estácio falou-
lhe de si, da tia, do padre e de Mendonça, dos próximos casamentos, da felicidade
futura. Depois insistiu com ela para que entrasse. Uma brisa mais forte começava a
agitar as árvores, e a tempestade ameaçava cair de repente.
— Ainda não, disse a moça; alguns minutos mais.
— Mas pode adoecer...
— Talvez, se todos quiserem a minha saúde. Há criaturas tão malfadadas que
aqueles mesmos que as desejam fazer venturosas não alcançam mais do que
preparar-lhes o infortúnio. Tal foi meu destino. Seu pai e minha mãe não tiveram
outro pensamento; meu próprio pai foi levado do mesmo impulso, quando me
obrigou a ser cúmplice de uma generosa mentira. Agora mesmo que ele me foge,
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106
com o fim único de me não tolher a felicidade, arranca-me o último recurso em que
eu tinha posto a esperança...
— Helena! interrompeu Estácio.
— O último, repetiu a moça.
Esvaíra-se-lhe o sorriso, e o olhar tornara a ser opaco. Estácio teve medo
daquela atonia e concentração; travou-lhe do braço; a moça estremeceu toda e
olhou para ele.
A princípio foi esse olhar um simples encontro; mas, dentro de alguns
instantes, era alguma coisa mais. Era a primeira revelação, tácita mas consciente,
do sentimento que os ligava. Nenhum deles procurara esse contato de suas almas,
mas nenhum fugiu. O que eles disseram um ao outro, com simples olhos, não se
escreve no papel, não se pode repetir ao ouvido; confissão misteriosa e secreta,
feita de um a outro coração, que só ao céu cabia ouvir, porque não eram vozes da
terra, nem para a terra as diziam eles. As mãos, de impulso próprio, uniram-se como
os olhares; nenhuma vergonha, nenhum receio, nenhuma consideração deteve essa
fusão de duas criaturas nascidas para formar uma existência única.
O vento tornara-se mais rijo; uma lufada os despertou, em má hora, porque
há sonhos que deviam acabar na realidade do outro século. Estácio ergueu-se;
sacudiu valorosamente o torpor da felicidade, e reassumiu o papel que o pai lhe
assinara ao pé de Helena. Esta desviou os olhos e cravou-os na água, fascinada e
absorta. A idéia do suicídio roçaria deveras sua asa invisível pela fronte da moça?
Estácio foi a ela, pegou-lhe nas mãos e convidou-a a sair dali.
— Entremos, disse ele pela terceira vez, olhe que vai chover.
Helena deixou-se levantar; um calafrio percorreu-lhe o corpo todo, e as mãos,
que o moço ainda tinha entre as suas, estavam muito mais quentes que o natural.
— Ande repousar, continuou Estácio; pode adoecer, e não tem direito para
tanto; nossa afeição não o consentirá nunca. Vamos...
— Amar-me-ão sempre? perguntou Helena.
— Oh! sempre!
— Impossível! Há uma voz no fundo de seu coração, que lhe dirá, de quando
em quando, esta triste palavra: aventureira!
— Helena!
— Não posso ser outra coisa a seus olhos, prosseguiu a moça, tristemente.
Quem o convencerá de que a declaração de seu pai não foi obtida por artifício de
minha mãe? Quem lhe dará a prova de que, cedendo aos rogos de meu pai, não fiz
mais do que executar um plano preparado já? São dúvidas que lhe hão de
envenenar o sentimento e tornar-me suspeita a seus olhos. Resista quem puder; é-
me impossível encarar semelhante futuro!
Helena caíra ofegante no banco. Estácio falou-lhe com abundância e ternura;
jurou-lhe que sua família era incapaz da mínima suspeita; pediu-lhe por seu pai que
não julgasse mal deles. Ela sorriu, mas foi um sorrir de incrédula.
Grossos pingos de chuva começavam a rufar nas árvores. Estácio pegou na
mão de Helena para conduzi-la a casa. A moça fugiu-lhe, indo colocar-se alguns
passos adiante, onde a chuva lhe caía mais em cheio na cabeça nua e no corpo
levemente coberto. Quando Estácio, desvairado de terror, correu para ela, Helena
afastou-se dele; mas nem seus pés o poderiam vencer nunca, nem lho permitiam
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agora as forças quebradas por tantas e tão profundas comoções. Ele alcançou-a;
estendeu o braço em volta da cintura da moça, dizendo:
— Que capricho é esse? Vamos embora; eu quero que venha comigo para
dentro.
Ao sentir o braço de Estácio, Helena estremeceu e fez um movimento para
arredá-lo de si; mas a fraqueza traiu-lhe o pudor. Ela fitou no moço uns olhos de
corça moribunda; as pernas fraquejaram, e o corpo esmorecido iria a terra, se lho
não sustivessem as mãos de Estácio.
— Deixe-me morrer! murmurou ela.
— Não! bradou o mancebo.
Com um gesto rápido, tomou nos braços, estendido, o corpo exausto de
Helena, e caminhou na direção da casa. O vento flagelava-os; a chuva, que
subitamente caía a jorros, alagava-os sem misericórdia; ele ia andando, o mais
depressa que lhe permitia o peso de Helena, cuja cabeça pendia para a terra, e de
cujos lábios brotavam trechos soltos de frases sem sentido.
D. Úrsula viu entrar aquele doloroso espetáculo; correu a receber Helena, que
Estácio depositou em um sofá, donde foi transferida ao leito. A febre, já começada
antes dela sair, tomara conta enfim da pobre moça. Um médico foi chamado à
pressa; o padre Melchior correu por baixo d’água até à casa de Estácio. As primeiras
horas foram de ansiedade e susto; o estado da doente era grave; assim o disse o
médico; assim o tinham sentido os corações amigos.
D. Úrsula pagou naquela ocasião os serviços que, em caso análogo, lhe
prestara Helena, mau grado o peso dos anos, que lhe não permitiam longas vigílias
nem aturado trabalho. Velou a boa senhora à cabeceira da enferma durante essa
primeira noite de incerteza e terror. Mendonça, que ali fora sem suspeitar nada,
porque a doença que lhe disseram ter padecido Helena, supunha ele ser passageira,
e em todo caso, estar quase extinta, Mendonça recebeu essa triste notícia com a
morte no coração.
Durante sete dias o estado de Helena apresentou alternativas que lançavam
na alma dos seus a confiança e a desesperação. Algumas horas houve de delírio,
durante o qual dois nomes volviam freqüentemente aos lábios da enferma, — o de
Estácio e o do pai. Nas horas da razão, falava pouco, não proferia nenhum nome,
salvo o de Melchior que ela queria ver junto de si. O capelão obedecia docilmente.
Ao pé dela, via-a com pena, mas sem desesperação; primeiramente, porque ele
aceitava sem murmúrio os decretos da vontade divina; depois, porque não sabia ao
certo se, em tal situação, era a vida melhor do que a morte. Em todo caso,
consolava-a.
No quarto dia chegou a família de Camargo, e, sabendo da doença de
Helena, apressou-se a ir a Andaraí. Ao ver Eugênia, a moça sorriu tristemente,
lampejo de inveja que para logo se apagou e morreu no coração.
Estácio mal ousava entrar na alcova da doente e não podia viver fora dela.
Sua aflição era patente. Ele prometia a si mesmo todos os sacrifícios em troca da
vida de Helena, espreitava uma esperança no rosto do médico, e interrogava o
coração da tia e do padre. Na noite do sétimo dia da cena do jardim, D. Úrsula, que
ficara ao pé de Helena, mandou chamar à pressa o sobrinho e o padre Melchior, que
estavam na sala contígua. Acorreram os dois. Helena tivera uma síncope, que D.
Úrsula cuidara ser a morte. Voltando a si, leu a moça a sua sentença no rosto de
todos três.
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— Ainda não, murmurou ela; ainda não é a morte.
D. Úrsula chegou-se-lhe mais perto, beijou-a, disse-lhe algumas palavras de
conforto.
— Deixe estar, respondeu ela, deixe que eu não morro; estou só muito
doente.
Estácio buscou animá-la, mas a voz morreu-lhe às primeiras expressões, e
ele saiu. Melchior acompanhou-o.
— Uma coisa poderia talvez salvá-la, disse aflito o moço; era a presença do
pai. Vou mandá-lo procurar por toda a parte. Havemos de achá-lo; é preciso que o
achemos.
Melchior aprovou a idéia do mancebo; e não lhe disse que o remédio viria
talvez tarde, se viesse. Estácio ordenou as coisas para a seguinte manhã. Voltaram
à alcova da enferma. Esta fechara os olhos, como se dormisse. Houve então entre
aquelas quatro paredes meia hora de silêncio, interrompido apenas, de quando em
quando, pelos movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de posição. No
fim deste tempo, abriu os olhos e murmurou algumas palavras. Chegou o médico,
viu-a e desenganou a família.
Enquanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena tivesse os
socorros espirituais, Estácio saiu dali, para ir, longe, desabafar o desespero; desceu
à chácara, vagou por ela delirante, a soluçar como uma criança, ora abraçado a uma
árvore, ora ajoelhado e pedindo a Deus a vida de Helena. O coração do moço não
conhecia o fervor religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levara,
e ele rezou, rezou sozinho, sem hipocrisia nem dúvida. Mendonça veio achá-lo
nessa luta derradeira entre a realidade e a esperança. Não o consolou; não tinha
consolações que distribuir, porque também a dor lhe devastara o coração. Nos
braços um do outro, choraram o mesmo bem que se lhes ia embora.
Um escravo veio chamar Estácio à pressa; ele subiu trôpego as escadas,
atravessou as salas, entrou desvairado no quarto, e foi cair de joelhos, quase de
bruços, junto ao leito de Helena. Os olhos desta, já volvidos para a eternidade,
deitaram um derradeiro olhar para a terra, e foi Estácio que o recebeu, — olhar de
amor, de saudade e de promessa. A mão pálida e transparente da moribunda
procurou a cabeça do mancebo; ele inclinou-a sobre a beira do leito, escondendo as
lágrimas e não se atrevendo a encarar o final instante. Adeus! — suspirou a alma de
Helena, rompendo o invólucro gentil. Era defunta.
A noite foi cruel para todos. D. Úrsula, profundamente abatida pela dor e
pelas vigílias, não consentiu, ainda assim, que outras mãos amortalhassem Helena;
ela mesma lhe prestou esse derradeiro e triste obséquio. A morte não diminuíra a
beleza da donzela. Pelo contrário, o reflexo da eternidade parecia dar-lhe um
encanto misterioso e novo. Estácio contemplou-a com o olhos exaustos, o padre
com os seus úmidos. Melchior suportara a dor até ao momento da definitiva
separação; agora, que a moça se ia de vez, deixou-se abater enfim, ao pé daqueles
pálidos restos, despojo último de generosas ilusões. No dia seguinte, prestes a sair o
enterro, as senhoras deram à donzela morta as despedidas derradeiras. D. Úrsula
foi a primeira que lhe prestou esse dever, seguiu-se Eugênia e seguiram as outras.
Estácio viu-as subir, uma a uma, o estrado e que repousava a essa. Depois, quando
ia fechar-se o féretro, caminhou lentamente para ele; trepou ao estrado, e pela
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última vez contemplou aquele rosto, — e a coroa de saudades que lhe cingia a
cabeça, em vez de outra, que ele tinha direito de pousar nela. Enfim, inclinou-se
também, e a fronte do cadáver recebeu o primeiro beijo de amor. Fecharam o
féretro; ao moço pareceu que o encerravam a ele próprio. Saindo o enterro, deixou-
se Estácio cair numa cadeira, sem pensar nada, sem sentir nada. Pouco a pouco,
despovoou-se a casa; os amigos saíram; um só de tantos ainda ali ficou, a lastimar
consigo a noiva, tão cedo prometida e tão cedo roubada. Esse mesmo saiu, enfim,
não ficando mais do que a família, cujo pai espiritual era Melchior. Sozinho com
Estácio, o capelão comtemplou-o longo tempo; depois, alçou os olhos ao retrato do
conselheiro, sorriu melancolimaente, voltou-se para o moço, ergueu-o e abraçou
com ternura. — Ânimo meu filho! disse ele. — Perdi tudo, padre-mestre! gemeu
Estácio.
Ao mesmo tempo, na casa do Rio Comprido, a noiva de Estácio, consternada
com a morte de Helena, e aturdida com a lúgubre cerimônia, recolhia-se tristemente
ao seu quarto de dormir, e recebia à porta o terceiro beijo do pai.
FIM
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