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Galeria Póstuma, de Machado de Assis
Fonte:
ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Edição eletrônica produzida pela Costa Flosi Ltda.
Revisão: Sandra Flosi/Edição: Edson Costa Flosi e Nancy Costa
Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as
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GALERIA PÓSTUMA
I
Não, não se descreve a consternação que produziu em todo o Engenho Velho, e
particularmente no coração dos amigos, a morte de Joaquim Fidélis. Nada mais inesperado.
Era robusto, tinha saúde de ferro, e ainda na véspera fora a um baile, onde todos o viram
conversado e alegre. Chegou a dançar, a pedido de uma sexagenária, viúva de um amigo
dele, que lhe tomou do braço, e lhe disse:
— Venha cá, venha cá, vamos mostrar a estes criançolas como é que os velhos são
capazes de desbancar tudo.
Joaquim Fidélis protestou sorrindo; mas obedeceu e dançou. Eram duas horas
quando saiu, embrulhando os seus sessenta anos numa capa grossa, — estávamos em junho
de 1879 — metendo a calva na carapuça, acendendo um charuto, e entrando lepidamente no
carro.
No carro é possível que cochilasse; mas, em casa, mau grado a hora e o grande peso
das pálpebras, ainda foi à secretária, abriu uma gaveta, tirou um de muitos folhetos
manuscritos, — e escreveu durante três ou quatro minutos umas dez ou onze linhas. As
últimas palavras eram estas: "Em suma, baile chinfrim; uma velha gaiteira obrigou-me a
dançar uma quadrilha; à porta um crioulo pediu-me as festas. Chinfrim!" Guardou o
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folheto, despiu-se, meteu-se na cama, dormiu e morreu.
Sim, a notícia consternou a todo o bairro. Tão amado que ele era, com os modos
bonitos que tinha, sabendo conversar com toda a gente, instruído com os instruídos,
ignorante com os ignorantes, rapaz com os rapazes, e até moça com as moças. E depois,
muito serviçal, pronto a escrever cartas, a falar a amigos, a concertar brigas, a emprestar
dinheiro. Em casa dele reuniam-se à noite alguns íntimos da vizinhança, e às vezes de
outros bairros; jogavam o voltarete ou o whist, falavam de política. Joaquim Fidélis tinha
sido deputado até à dissolução da câmara pelo marquês de Olinda, em 1863. Não
conseguindo ser reeleito, abandonou a vida pública. Era conservador, nome que a muito
custo admitiu, por lhe parecer galicismo político. Saquarema é o que ele gostava de ser
chamado. Mas abriu mão de tudo; parece até que nos últimos tempos desligou-se do
próprio partido, e afinal da mesma opinião. Há razões para crer que, de certa data em
diante, foi um profundo céptico, e nada mais.
Era rico e letrado. Formara-se em direito no ano de 1842. Agora não fazia nada e lia
muito. Não tinha mulheres em casa. Viúvo desde a primeira invasão da febre amarela,
recusou contrair segundas núpcias, com grande mágoa de três ou quatro damas, que
nutriram essa esperança durante algum tempo. Uma delas chegou a prorrogar perfidamente
os seus belos cachos de 1845 até meados do segundo neto; outra, mais moça e também
viúva, pensou retê-lo com algumas concessões, tão generosas quão irreparáveis. "Minha
querida Leocádia, dizia ele nas ocasiões em que ela insinuava a solução conjugal, por que
não continuaremos assim mesmo? O mistério é o encanto da vida." Morava com um
sobrinho, o Benjamim, filho de uma irmã, órfão desde tenra idade. Joaquim Fidélis deu-lhe
educação e fê-lo estudar, até obter diploma de bacharel em ciências jurídicas, no ano de
1877.
Benjamim ficou atordoado. Não podia acabar de crer na morte do tio. Correu ao
quarto, achou o cadáver na cama, frio, olhos abertos, e um leve arregaço irônico ao canto
esquerdo da boca. Chorou muito e muito. Não perdia um simples parente, mas um pai, um
pai terno, dedicado, um coração único. Benjamim enxugou, enfim, as lágrimas; e, porque
lhe fizesse mal ver os olhos abertos do morto, e principalmente o lábio arregaçado,
consertou-lhe ambas as coisas. A morte recebeu assim a expressão trágica; mas a
originalidade da máscara perdeu-se.
— Não me digam isto! bradava daí a pouco um dos vizinhos, Diogo Vilares, ao
receber notícia do caso.
Diogo Vilares era um dos cinco principais familiares de Joaquim Fidélis. Devia-lhe
o emprego que exercia desde 1857. Veio ele; vieram os outros quatro, logo depois, um a
um, estupefatos, incrédulos. Primeiro, chegou o Elias Xavier, que alcançara por intermédio
do finado, segundo se dizia, uma comenda; depois entrou o João Brás, deputado que foi, no
regime das suplências, eleito com o influxo do Joaquim Fidélis. Vieram, enfim, o Fragoso e
o Galdino, que lhe não deviam diplomas, comendas nem empregos, mas outros favores. Ao
Galdino adiantou ele alguns poucos capitais, e ao Fragoso arranjou-lhe um bom
casamento... E morto! morto para todo sempre! De redor da cama, fitavam o rosto sereno e
recordavam a última festa, a do outro domingo, tão íntima, tão expansiva! E, mais perto
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ainda, a noite da antevéspera, em que o voltarete do costume foi até às onze horas.
— Amanhã não venham, disse-lhes o Joaquim Fidélis; vou ao baile do Carvalhinho.
— E depois?...
— Depois de amanhã, cá estou.
E, à saída, deu-lhes ainda um maço de excelentes charutos, segundo fazia às vezes,
com um acréscimo de doces secos para os pequenos, e duas ou três pilhérias finas... Tudo
esvaído! tudo disperso! tudo acabado!
Ao enterro acudiram muitas pessoas gradas, dois senadores, um ex-ministro,
titulares, capitalistas, advogados, comerciantes, médicos; mas as argolas do caixão foram
seguras pelos cinco familiares e o Benjamim. Nenhum deles quis ceder a ninguém esse
último obséquio, considerando que era um dever cordial e intransferível. O adeus do
cemitério foi proferido pelo João Brás, um adeus tocante, com algum excesso de estilo para
um caso tão urgente, mas, enfim, desculpável. Deitada a pá de terra, cada um se foi
arredando da cova, menos os seis, que assistiram ao trabalho posterior e indiferente dos
coveiros. Não arredaram pé antes de ver cheia a cova até acima, e depositadas sobre ela as
coroas fúnebres.
II
A missa do sétimo dia reuniu-os na igreja. Acabada a missa, os cinco amigos
acompanharam à casa o sobrinho do morto. Benjamim convidou-os a almoçar.
— Espero que os amigos do tio Joaquim serão também meus amigos, disse ele.
Entraram, almoçaram. Ao almoço falaram do morto; cada um contou uma anedota,
um dito; eram unânimes no louvor e nas saudades. No fim do almoço, como tivessem
pedido uma lembrança do finado, passaram ao gabinete, e escolheram à vontade, este uma
caneta velha, aquele uma caixa de óculos, um folheto, um retalho qualquer íntimo.
Benjamim sentia-se consolado. Comunicou-lhes que pretendia conservar o gabinete tal qual
estava. Nem a secretária abrira ainda. Abriu-a então, e, com eles, inventariou o conteúdo de
algumas gavetas. Cartas, papéis soltos, programas de concertos, menus de grandes jantares,
tudo ali estava de mistura e confusão. Entre outras coisas acharam alguns cadernos
manuscritos, numerados e datados.
— Um diário! disse Benjamim.
Com efeito, era um diário das impressões do finado, espécie de memórias secretas,
confidências do homem a si mesmo. Grande foi a comoção dos amigos; lê-lo era ainda
conversá-lo. Tão reto caráter! tão discreto espírito! Benjamim começou a leitura; mas a voz
embargou-se-lhe depressa, e João Brás continuou-a.
O interesse do escrito adormeceu a dor do óbito. Era um livro digno do prelo. Muita
observação política e social, muita reflexão filosófica, anedotas de homens públicos, do
Feijó, do Vasconcelos, outras puramente galantes, nomes de senhoras, o da Leocádia, entre
outros; um repertório de fatos e comentários. Cada um admirava o talento do finado, as
graças do estilo, o interesse da matéria. Uns opinavam pela impressão tipográfica;
Benjamim dizia que sim, com a condição de excluir alguma coisa, ou inconveniente ou
demasiado particular. E continuavam a ler, saltando pedaços e páginas, até que bateu meio-
dia. Levantaram-se todos; Diogo Vilares ia já chegar à repartição fora de horas; João Brás e
Elias tinham onde estar juntos. Galdino seguia para a loja. O Fragoso precisava mudar a
roupa preta, e acompanhar a mulher à rua do Ouvidor. Concordaram em nova reunião para
prosseguir na leitura. Certas particularidades tinham-lhes dado uma comichão de escândalo,
e as comichões coçam-se: é o que eles queriam fazer, lendo.
— Até amanhã, disseram.
— Até amanhã.
Uma vez só, Benjamim continuou a ler o manuscrito. Entre outras coisas, admirou o
retrato da viúva Leocádia, obra-prima de paciência e semelhança, embora a data coincidisse
com a dos amores. Era prova de uma rara isenção de espírito. De resto, o finado era exímio
nos retratos. Desde 1873 ou 1874, os cadernos vinham cheios deles, uns de vivos, outros de
mortos, alguns de homens públicos, Paula Sousa, Aureliano, Olinda, etc. Eram curtos e
substanciais, às vezes três ou quatro rasgos firmes, com tal fidelidade e perfeição, que a
figura parecia fotografada. Benjamim ia lendo; de repente deu com o Diogo Vilares. E leu
estas poucas linhas:
"Diogo Vilares. — Tenho-me referido muitas vezes a este amigo, e fá-lo-ei algumas
outras mais, se ele me não matar de tédio, coisa em que o reputo profissional. Pediu-me há
anos que lhe arranjasse um emprego, e arranjei-lho. Não me avisou da moeda em que me
pagaria. Que singular gratidão! Chegou ao excesso de compor um soneto e publicá-lo.
Falava-me do obséquio a cada passo, dava-me grandes nomes; enfim, acabou. Mais tarde
relacionamo-nos intimamente. Conheci-o então ainda melhor. C'est le genre ennuyeux. Não
é mau parceiro de voltarete. Dizem-me que não deve nada a ninguém. Bom pai de família.
Estúpido e crédulo. Com intervalo de quatro dias, já lhe ouvi dizer de um ministério que era
excelente e detestável: — diferença dos interlocutores. Ri muito e mal. Toda a gente,
quando o vê pela primeira vez, começa por supô-lo um varão grave; no segundo dia dá-lhe
piparotes. A razão é a figura, ou, mais particularmente, as bochechas, que lhe emprestam
um certo ar superior."
A primeira sensação do Benjamim foi a do perigo evitado. Se o Diogo Vilares
estivesse ali? Releu o retrato e mal podia crer; mas não havia como negá-lo, era o próprio
nome do Diogo Vilares, era a mesma letra do tio. E não era o único dos familiares; folheou
o manuscrito e deu com o Elias:
"Elias Xavier. — Este Elias é um espírito subalterno, destinado a servir alguém, e a
servir com desvanecimento, como os cocheiros de casa elegante. Vulgarmente trata as
minhas visitas íntimas com alguma arrogância e desdém: política de lacaio ambicioso.
Desde as primeiras semanas, compreendi que ele queria fazer-se meu privado; e não menos
compreendi que, no dia que realmente o fosse, punha os outros no meio da rua. Há ocasiões
em que me chama a um vão da janela para falar-me secretamente do sol e da chuva. O fim
claro é incutir nos outros a suspeita de que há entre nós coisas particulares, e alcança isso
mesmo, porque todos lhe rasgam muitas cortesias. É inteligente, risonho e fino. Conversa
muito bem. Não conheço compreensão mais rápida. Não é poltrão nem maldizente. Só fala
mal de alguém, por interesse; faltando-lhe interesse, cala-se; e a maledicência legítima é
gratuita. Dedicado e insinuante. Não tem idéias, é verdade; mas há esta grande diferença
entre ele e o Diogo Vilares: — o Diogo repete pronta e boçalmente as que ouve, ao passo
que o Elias sabe fazê-las suas e plantá-las oportunamente na conversação. Um caso de 1865
caracteriza bem a astúcia deste homem. Tendo dado alguns libertos para a guerra do
Paraguai, ia receber uma comenda. Não precisava de mim; mas veio pedir a minha
intercessão, duas ou três vezes, com um ar consternado e súplice. Falei ao ministro, que me
disse: — "O Elias já sabe que o decreto está lavrado; falta só a assinatura do Imperador."
Compreendi então que era um estratagema para poder confessar-me essa obrigação. Bom
parceiro de voltarete; um pouco brigão, mas entendido."
— Ora o tio Joaquim! exclamou Benjamim levantando-se. E depois de alguns
instantes, reflexionou consigo: — Estou lendo um coração, livro inédito. Conhecia a edição
pública, revista e expurgada. Este é o texto primitivo e interior, a lição exata e autêntica.
Mas quem imaginaria nunca... Ora o tio Joaquim!
E, tornando a sentar-se, releu também o retrato do Elias, com vagar, meditando as
feições. Posto lhe faltasse observação, para avaliar a verdade do escrito, achou que em
muitas partes, ao menos, o retrato era semelhante. Cotejava essas notas iconográficas, tão
cruas, tão secas, com as maneiras ordinais e graciosas do tio, e sentia-se tomado de um
certo terror e mal-estar. Ele, por exemplo, que teria dito dele o finado? Com esta idéia,
folheou ainda o manuscrito, passou por alto algumas damas, alguns homens públicos, deu
com o Fragoso, — um esboço curto e curtíssimo, — logo depois o Galdino, e quatro
páginas adiante o João Brás. Justamente o primeiro levara dele uma caneta, pouco antes,
talvez a mesma com que o finado o retratara. Curto era o esboço, e dizia assim:
"Fragoso. — Honesto, maneiras açucaradas e bonito. Não me custou casá-lo; vive
muito bem com a mulher. Sei que me tem uma extraordinária adoração — quase tanta
como a si mesmo. Conversação vulgar, polida e chocha."
"Galdino Madeira. — O melhor coração do mundo e um caráter sem mácula; mas as
qualidades do espírito destroem as outras. Emprestei-lhe algum dinheiro, por motivo da
família, e porque me não fazia falta. Há no cérebro dele um certo furo, por onde o espírito
escorrega e cai no vácuo. Não reflete três minutos seguidos. Vive principalmente de
imagens, de frases translatas. Os 'dentes da calúnia' e outras expressões, surradas como
colchões de hospedaria, são os seus encantos. Mortifica-se facilmente no jogo, e, uma vez
mortificado faz timbre em perder, e em mostrar que é de propósito. Não despede os maus
caixeiros. Se não tivesse guarda-livros, é duvidoso que somasse os quebrados. Um
subdelegado, meu amigo, que lhe deveu algum dinheiro, durante dois anos, dizia-me com
muita graça, que o Galdino quando o via na rua, em vez de lhe pedir a dívida, pedia-lhe
notícias do ministério."
"João Brás. — Nem tolo nem bronco. Muito atencioso, embora sem maneiras. Não
pode ver passar um carro de ministro; fica pálido e vira os olhos. Creio que é ambicioso;
mas na idade em que está, sem carreira, a ambição vai-se-lhe convertendo em inveja.
Durante os dois anos em que serviu de deputado, desempenhou honradamente o cargo:
trabalhou muito, e fez alguns discursos bons, não brilhantes, mas sólidos, cheios de fatos e
refletidos. A prova de que lhe ficou um resíduo de ambição, é o ardor com que anda à cata
de alguns cargos honoríficos ou proeminentes; há alguns meses consentiu em ser juiz de
uma irmandade de São José, e segundo me dizem, desempenha o cargo com um zelo
exemplar. Creio que é ateu, mas não afirmo. Ri pouco e discretamente. A vida é pura e
severa, mas o caráter tem uma ou duas cordas fraudulentas, a que só faltou a mão do artista;
nas coisas mínimas, mente com facilidade."
Benjamim, estupefato, deu enfim consigo mesmo. — "Este meu sobrinho, dizia o
manuscrito, tem vinte e quatro anos de idade, um projeto de reforma judiciária, muito
cabelo, e ama-me. Eu não o amo menos. Discreto, leal e bom, — bom até à credulidade.
Tão firme nas afeições como versátil nos pareceres. Superficial, amigo de novidades,
amando no direito o vocabulário e as fórmulas."
Quis reler, e não pôde; essas poucas linhas davam-lhe a sensação de um espelho.
Levantou-se, foi à janela, mirou a chácara e tornou dentro para contemplar outra vez as
suas feições. Contemplou-as; eram poucas, falhas, mas não pareciam caluniosas. Se ali
estivesse um público, é provável que a mortificação do rapaz fosse menor, porque a
necessidade de dissipar a impressão moral dos outros dar-lhe-ia a força necessária para
reagir contra o escrito; mas, a sós, consigo, teve de suportá-lo sem contraste. Então
considerou se o tio não teria composto essas páginas nas horas de mau humor; comparou-as
a outras em que a frase era menos áspera, mas não cogitou se ali a brandura vinha ou não de
molde.
Para confirmar a conjectura, recordou as maneiras usuais do finado, as horas de
intimidade e riso, a sós com ele, ou de palestra com os demais familiares. Evocou a figura
do tio, com o olhar espirituoso e meigo, e a pilhéria grave; em lugar dessa, tão cândida e
simpática, a que lhe apareceu foi a do tio morto, estendido na cama, com os olhos abertos, o
lábio arregaçado. Sacudiu-a do espírito, mas a imagem ficou. Não podendo rejeitá-la,
Benjamim tentou mentalmente fechar-lhe os olhos e consertar-lhe a boca; mas tão depressa
o fazia, como a pálpebra tornava a levantar-se, e a ironia arregaçava o beiço. Já não era o
homem, era o autor do manuscrito.
Benjamim jantou mal e dormiu mal. No dia seguinte, à tarde, apresentaram-se os
cinco familiares para ouvir a leitura. Chegaram sôfregos, ansiosos; fizeram-lhe muitas
perguntas; pediram-lhe com instância para ver o manuscrito. Mas Benjamim tergiversava,
dizia isto e aquilo, inventava pretextos; por mal de pecados, apareceu-lhe na sala, por trás
deles, a eterna boca do defunto, e esta circunstância fê-lo ainda mais acanhado. Chegou a
mostrar-se frio, para ficar só, e ver se com eles desaparecia a visão. Assim se passaram
trinta a quarenta minutos. Os cinco olharam enfim uns para os outros, e deliberaram sair;
despediram-se cerimoniosamente, e foram conversando, para suas casas:
— Que diferença do tio! que abismo! a herança enfunou-o! deixá-lo! ah! Joaquim
Fidélis! ah! Joaquim Fidélis!
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