folheto, despiu-se, meteu-se na cama, dormiu e morreu.
Sim, a notícia consternou a todo o bairro. Tão amado que ele era, com os modos
bonitos que tinha, sabendo conversar com toda a gente, instruído com os instruídos,
ignorante com os ignorantes, rapaz com os rapazes, e até moça com as moças. E depois,
muito serviçal, pronto a escrever cartas, a falar a amigos, a concertar brigas, a emprestar
dinheiro. Em casa dele reuniam-se à noite alguns íntimos da vizinhança, e às vezes de
outros bairros; jogavam o voltarete ou o whist, falavam de política. Joaquim Fidélis tinha
sido deputado até à dissolução da câmara pelo marquês de Olinda, em 1863. Não
conseguindo ser reeleito, abandonou a vida pública. Era conservador, nome que a muito
custo admitiu, por lhe parecer galicismo político. Saquarema é o que ele gostava de ser
chamado. Mas abriu mão de tudo; parece até que nos últimos tempos desligou-se do
próprio partido, e afinal da mesma opinião. Há razões para crer que, de certa data em
diante, foi um profundo céptico, e nada mais.
Era rico e letrado. Formara-se em direito no ano de 1842. Agora não fazia nada e lia
muito. Não tinha mulheres em casa. Viúvo desde a primeira invasão da febre amarela,
recusou contrair segundas núpcias, com grande mágoa de três ou quatro damas, que
nutriram essa esperança durante algum tempo. Uma delas chegou a prorrogar perfidamente
os seus belos cachos de 1845 até meados do segundo neto; outra, mais moça e também
viúva, pensou retê-lo com algumas concessões, tão generosas quão irreparáveis. "Minha
querida Leocádia, dizia ele nas ocasiões em que ela insinuava a solução conjugal, por que
não continuaremos assim mesmo? O mistério é o encanto da vida." Morava com um
sobrinho, o Benjamim, filho de uma irmã, órfão desde tenra idade. Joaquim Fidélis deu-lhe
educação e fê-lo estudar, até obter diploma de bacharel em ciências jurídicas, no ano de
1877.
Benjamim ficou atordoado. Não podia acabar de crer na morte do tio. Correu ao
quarto, achou o cadáver na cama, frio, olhos abertos, e um leve arregaço irônico ao canto
esquerdo da boca. Chorou muito e muito. Não perdia um simples parente, mas um pai, um
pai terno, dedicado, um coração único. Benjamim enxugou, enfim, as lágrimas; e, porque
lhe fizesse mal ver os olhos abertos do morto, e principalmente o lábio arregaçado,
consertou-lhe ambas as coisas. A morte recebeu assim a expressão trágica; mas a
originalidade da máscara perdeu-se.
— Não me digam isto! bradava daí a pouco um dos vizinhos, Diogo Vilares, ao
receber notícia do caso.
Diogo Vilares era um dos cinco principais familiares de Joaquim Fidélis. Devia-lhe
o emprego que exercia desde 1857. Veio ele; vieram os outros quatro, logo depois, um a
um, estupefatos, incrédulos. Primeiro, chegou o Elias Xavier, que alcançara por intermédio
do finado, segundo se dizia, uma comenda; depois entrou o João Brás, deputado que foi, no
regime das suplências, eleito com o influxo do Joaquim Fidélis. Vieram, enfim, o Fragoso e
o Galdino, que lhe não deviam diplomas, comendas nem empregos, mas outros favores. Ao
Galdino adiantou ele alguns poucos capitais, e ao Fragoso arranjou-lhe um bom
casamento... E morto! morto para todo sempre! De redor da cama, fitavam o rosto sereno e
recordavam a última festa, a do outro domingo, tão íntima, tão expansiva! E, mais perto