Um velho padre, parente afastado de Madalena, ensinara-lhes a ler e a escrever várias
línguas e a história sagrada; mas o modo por que era feito o ensino, a tenra idade em que
eles começaram a aprender, a cor legendária que eles viam nos textos sagrados, tudo
isso contribuía para que a idéia do amor dos sexos nunca se lhes apresentasse no
espírito de um modo claro e positivo.
Deste modo o episódio de Rute, verdadeira página da poesia rústica, era lido pelos dois
sem comentário do coração, ou do espírito.
Nem por curiosidade aconteceu perguntarem nunca o fim dos meios empregados pela
irmã de Noemi em relação ao rico homem Booz.
Eva, o fruto, a serpente, eram para Fernando e Fernanda a mesma serpente, o mesmo
fruto, a mesma Eva, ocultos nos princípios da humanidade pelas névoas da legenda
religiosa.
Quanto ao Cântico dos Cânticos, o padre-mestre julgou dever suprimi-lo na Bíblia em que
aprendiam os dois jovens parentes. Este padre-mestre, apesar de insistir no caráter
alegórico do livro de Salomão, segundo a versão católica, julgou não dever dá-lo em
leitura ao espírito de Fernando e Fernanda.
Resultou de todo este cuidado que o coração juvenil dos dois namorados nunca teve idéia
clara do sentimento que os unia tão intimamente. Era a natureza quem fazia as despesas
daquele amor sem conseqüências.
No dia seguinte ao da cena que narrei rapidamente, Madalena chamou os dois
namorados em particular e interrogou-os.
Os cuidados de Madalena eram mui legítimos. Apesar do recato com que tinham sido
educados os dois filhos, ela não podia saber até que ponto a inocência deles era real.
Sondar-lhes o espírito e o coração parecia-lhe um dever imperioso. Fê-lo com toda a
habilidade; Fernando e Fernanda, confessando uma afeição mais terna que antiga, nada
sabiam, todavia, do caráter e do mistério dessa afeição.
Madalena, para quem o amor de Fernando por Fernanda não era mais do que o sonho de
sua vida realizado, beijou-os, abraçou-os e prometeu-lhes que seriam felizes.
— Mas, acrescentou ela, explicando como podia as coisas, é preciso que o meu
Fernando se faça homem; tome um bordão de vida, para cuidar da sua... irmã; ouviu?
E tratou de consultar a vocação de Fernando, consultando também o padre-mestre, não
sem comunicar-lhe as descobertas que fizera.
O padre-mestre contrariou-se um bocado com a tal descoberta. Em seus projetos
secretos a respeito de Fernando, que era a um tempo discípulo e afilhado, entrara o de
fazê-lo entrar para um seminário e depois para um convento. Queria, disse ele a
Madalena, fazer de Fernando uma coluna da Igreja. Era um menino inteligente, mostrava
entusiasmo pelas letras sagradas, podia, com os desenvolvimentos que se lhe desse ao
espírito, tornar-se o S. Paulo do novo mundo.
Madalena declarou-lhe que era necessário tirar daí o pensamento. O padre-mestre
resignou-se.
Depois de muito discutirem, em presença de Fernando, resolveu-se que o rapaz
estudasse medicina.
Em conseqüência foi determinado que fizesse os preparatórios e seguisse para a corte
para continuar os estudos superiores.
Esta resolução entristeceu Fernando. Foi comunicá-la a Fernanda, e ambos se
desfizeram em lágrimas e protestos de uma afeição eterna.
Mas quis a felicidade que Madalena precisasse ir ao Rio de Janeiro para cuidar dos
papéis de suas reclamações. Assim toda a família se pôs a caminho, e daí a alguns
meses estavam todos, menos o padre-mestre, definitivamente instalados na capital.
Fernando seguiu os estudos necessários à carreira escolhida.
A idade, a maior convivência na sociedade, tudo revelou aos dois namorados a razão de
ser da afeição mais terna que sentiam um pelo outro.
O casamento apareceu-lhes no horizonte como uma estrela luminosa. Daqui vieram os
projetos, os planos, as esperanças, os edifícios de felicidades construídos, e destruídos