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LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
Fernando e Fernanda, de Machado de Assis
Edição referência: http://www2.uol.com.br/machadodeassis
Publicado originalmente em Jornal das Famílias 1866
Tinham os mesmos nomes. Cresceram juntos, à sombra do mesmo amor materno. Ele
era órfão, e a mãe dela, que o amava como se ele fora seu filho, tomou-o para si, e reuniu
os dois debaixo do mesmo olhar e dentro do mesmo coração. Eram quase irmãos, e sê-
lo-iam sempre completamente, se a diferença dos sexos não viesse, um dia, dizer-lhes
que um laço mais íntimo podia uní-los.
Um dia, tinham ambos quinze anos, descobriram os dois que se amavam, e mais do que
se amam irmãos. Esta descoberta foi feita durante uma troca de olhares e um contacto de
mãos.
— Fernanda! disse ele.
— Fernando! respondeu ela.
O resto foi dito nessa linguagem muda e eloqüente, em que o maior ignorante faz
prodígios de retórica, retórica do coração, retórica universal.
Mas o amor, sobretudo o amor calouro, como era o dos meus heróis, tem o inconveniente
de supor que todo o resto da humanidade está com os olhos tapados e os ouvidos
surdos, e que ele pode existir só para si, invisível e impalpável.
Ora, não sendo assim, apesar da boa fé de Fernando e Fernanda, aconteceu que a velha
mãe deu pelas coisas logo dois dias depois da primeira revelação.
Esperavam os três a hora do chá, reunidos em torno de uma pequena mesa, onde
Madalena (a mãe de ambos) punha em ordem uns papéis. Os papéis diziam respeito a
várias reclamações que Madalena devia fazer, por parte de seu finado marido, à fazenda
pública.
Isto se passava em uma província do norte, e Madalena preparava-se, no caso de ser
preciso, a vir pessoalmente ao Rio de Janeiro, apresentar as suas reclamações.
Nesse serviço era a boa velha ajudada pelos dois filhos, a legítima e o adotivo; mas estes,
sem quebra do respeito que votavam à mãe comum, esqueciam-se muitas vezes do que
faziam, para confundirem por longo tempo os olhos, que, na frase chistosa de H. Murger,
são os plenipotenciários do coração.
Em uma dessas ocasiões, Madalena, com os olhos baixos, reunindo os papéis que lhe
eram mais necessários, disse a Fernando que lhe fosse buscar um maço de documentos
esquecidos no gabinete.
Fernando não atendeu à ordem.
Madalena repetiu as palavras, segunda vez, sem levantar os olhos.
Igual silêncio.
Madalena levantou a cabeça e ia pela terceira vez dizer a mesma coisa, quando reparou
no êxtase em que estavam Fernando e Fernanda.
Então, erguendo a voz, repetiu a ordem a Fernando.
Este estremeceu, levantou-se e foi buscar o maço de documentos.
Daí a pouco serviu-se o chá; porém Madalena, que era, sempre, tanto ou mais gárrula
que os dois namorados, mostrou-se durante o chá de uma completa taciturnidade.
Isto causou estranheza à filha e ao filho, mas não lhes inspirou suspeita alguma, pela
simples razão de que nem ele nem ela conheciam ainda bem o alcance e a natureza do
sentimento que os dominava.
Explicarei a razão desta ignorância em corações de quinze anos. Nem Fernando nem
Fernanda tinham prática do mundo; não viam ninguém; nada sabiam além do amor
fraterno e filial em que foram criados.
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Um velho padre, parente afastado de Madalena, ensinara-lhes a ler e a escrever várias
línguas e a história sagrada; mas o modo por que era feito o ensino, a tenra idade em que
eles começaram a aprender, a cor legendária que eles viam nos textos sagrados, tudo
isso contribuía para que a idéia do amor dos sexos nunca se lhes apresentasse no
espírito de um modo claro e positivo.
Deste modo o episódio de Rute, verdadeira página da poesia rústica, era lido pelos dois
sem comentário do coração, ou do espírito.
Nem por curiosidade aconteceu perguntarem nunca o fim dos meios empregados pela
irmã de Noemi em relação ao rico homem Booz.
Eva, o fruto, a serpente, eram para Fernando e Fernanda a mesma serpente, o mesmo
fruto, a mesma Eva, ocultos nos princípios da humanidade pelas névoas da legenda
religiosa.
Quanto ao Cântico dos Cânticos, o padre-mestre julgou dever suprimi-lo na Bíblia em que
aprendiam os dois jovens parentes. Este padre-mestre, apesar de insistir no caráter
alegórico do livro de Salomão, segundo a versão católica, julgou não dever dá-lo em
leitura ao espírito de Fernando e Fernanda.
Resultou de todo este cuidado que o coração juvenil dos dois namorados nunca teve idéia
clara do sentimento que os unia tão intimamente. Era a natureza quem fazia as despesas
daquele amor sem conseqüências.
No dia seguinte ao da cena que narrei rapidamente, Madalena chamou os dois
namorados em particular e interrogou-os.
Os cuidados de Madalena eram mui legítimos. Apesar do recato com que tinham sido
educados os dois filhos, ela não podia saber até que ponto a inocência deles era real.
Sondar-lhes o espírito e o coração parecia-lhe um dever imperioso. Fê-lo com toda a
habilidade; Fernando e Fernanda, confessando uma afeição mais terna que antiga, nada
sabiam, todavia, do caráter e do mistério dessa afeição.
Madalena, para quem o amor de Fernando por Fernanda não era mais do que o sonho de
sua vida realizado, beijou-os, abraçou-os e prometeu-lhes que seriam felizes.
— Mas, acrescentou ela, explicando como podia as coisas, é preciso que o meu
Fernando se faça homem; tome um bordão de vida, para cuidar da sua... irmã; ouviu?
E tratou de consultar a vocação de Fernando, consultando também o padre-mestre, não
sem comunicar-lhe as descobertas que fizera.
O padre-mestre contrariou-se um bocado com a tal descoberta. Em seus projetos
secretos a respeito de Fernando, que era a um tempo discípulo e afilhado, entrara o de
fazê-lo entrar para um seminário e depois para um convento. Queria, disse ele a
Madalena, fazer de Fernando uma coluna da Igreja. Era um menino inteligente, mostrava
entusiasmo pelas letras sagradas, podia, com os desenvolvimentos que se lhe desse ao
espírito, tornar-se o S. Paulo do novo mundo.
Madalena declarou-lhe que era necessário tirar daí o pensamento. O padre-mestre
resignou-se.
Depois de muito discutirem, em presença de Fernando, resolveu-se que o rapaz
estudasse medicina.
Em conseqüência foi determinado que fizesse os preparatórios e seguisse para a corte
para continuar os estudos superiores.
Esta resolução entristeceu Fernando. Foi comunicá-la a Fernanda, e ambos se
desfizeram em lágrimas e protestos de uma afeição eterna.
Mas quis a felicidade que Madalena precisasse ir ao Rio de Janeiro para cuidar dos
papéis de suas reclamações. Assim toda a família se pôs a caminho, e daí a alguns
meses estavam todos, menos o padre-mestre, definitivamente instalados na capital.
Fernando seguiu os estudos necessários à carreira escolhida.
A idade, a maior convivência na sociedade, tudo revelou aos dois namorados a razão de
ser da afeição mais terna que sentiam um pelo outro.
O casamento apareceu-lhes no horizonte como uma estrela luminosa. Daqui vieram os
projetos, os planos, as esperanças, os edifícios de felicidades construídos, e destruídos
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para dar lugar a outros de maiores pro.porções e mais imponente estrutura.
Eram felizes. Não conhecendo nenhuma das misérias da vida, viam o futuro pelo prisma
da própria imaginação e do próprio desejo. Parecia-lhes que o destino ou as
circunstâncias não tinham o direito de impedir a realização de cada um de seus sonhos.
Entretanto, tendo Fernando concluído os seus estudos, foi decidido que iria à Europa
estudar e praticar ainda por dois anos.
Era uma separação de dois anos! E que separação! A separação do mar, a mais
tremenda de todas as barreiras, e que aos olhos de Fernanda era como que o perigo
certo e inevitável. A pobre menina dizia muitas vezes a Fernando:
— Quando fores meu marido, proíbo-te que ponhas pé no mar!
— Não ponho, não, respondia Fernando sorrindo, o navio é que há de pôr a quilha.
Anunciava-se agora uma viagem. Cedo começavam os sustos e as desgraças de
Fernanda.
A pobre menina chorou muitas lágrimas de pesar e até de raiva por não poder impedir
que Fernando partisse.
Mas era preciso.
Fernando partiu.
Madalena procurou o mais que podia animar o rapaz e consolar a filha. Ela própria sentia
rasgarem-se-lhe as entranhas ao ver partir aquele que por dois motivos era seu filho; mas
tinha coragem, e coragem filha de dois sentimentos elevados: — o primeiro era que se
devia completar a educação de Fernando, que ela tomara a seu cuidado; o segundo era
que para marido da sua Fernanda devia dar um homem completo e apto a alcançar os
mais honrosos cargos.
Fernando compreendia isto, e soube ser corajoso.
Não entra no meu propósito contar, cena por cena, dia por dia, os acontecimentos que
preencheram o intervalo da ausência do jovem médico pela ciência e doente pelo amor.
Corramos folha e entremos logo no dia em que o navio em que saíra Fernando se achou
de novo no porto da capital.
Madalena recebeu Fernando como se recebe a luz depois de uma longa prisão em
cárcere escuro. Indagou de muitas coisas, curiosíssima pelo menor incidente, e risonha
de felicidade a todas as narrações do filho.
— Mas Fernanda? perguntou ele depois de algum tempo.
A mãe não respondeu.
Fernando insistiu.
— Fernanda morreu, disse Madalena.
— Morreu! exclamou Fernando levando as mãos à cabeça.
— Morreu para ti: está casada.
A previdente Madalena começara do menor para o maior. Com efeito, para Fernando
melhor fora que Fernanda tivesse morrido do que se tivesse casado.
Fernando desesperou ao ouvir as palavras de sua mãe. Esta veio com imediatos
conselhos de prudência e resignação. Fernando a nada atendia. Formara durante tanto
tempo um castelo de felicidade, e eis que uma simples palavra derrubara tudo. Mil idéias
lhe atravessaram o cérebro; o suicídio, a vingança, voltavam a ocupar-lhe o espírito, cada
qual por sua vez; o que ele via no fundo de tudo era a perfídia negra, a fraqueza do
coração feminino, a zombaria, a má fé, ainda nos corações mais virgens.
Enfim, Madalena pôde tomar a palavra e explicar ao desditoso mancebo a história do
casamento de Fernanda.
Ora, a história, a despeito de sua vulgaridade, deve ser contada aqui para conhecimento
dos fatos.
Fernanda sentira, e sinceramente, a ausência de Fernando.
Chorou longos dias sem consolação. Para trazer-lhe algumas distrações ao espírito,
Madalena resolveu levá-la às reuniões e introduzi-la entre as moças da mesma idade,
cuja convivência não podia deixar de ser-lhe útil, visto que lhe tranqüilizaria o espírito,
sem varrer-lhe da memória e do coração a idéia e o amor do viajante.
Fernanda, que até ali vivera uma vida modesta e retirada, achou-se de repente ante um
mundo novo. Sucediam-se os bailes, as visitas, as simples reuniões. Pouco a pouco a
tristeza foi desaparecendo e dando lugar a uma satisfação completa e de bom agouro
para Madalena.
— Bem, pensava a velha mãe, deste modo Fernanda poderá esperar Fernando, sem
murchar-lhe a beleza da mocidade. Estas relações novas, esta nova convivência, tirando-
lhe a tristeza que a acabrunhava, dar-lhe-á mais força ao amor, em virtude do espetáculo
do amor alheio.
Madalena raciocinava bem até certo ponto. Mas a prática demonstrou que a sua teoria
era errada e não concluía como o seu coração.
O exemplo alheio, longe de fortificar Fernanda na fidelidade ao amor jurado, trouxe-lhe
um prurido de imitação; ao princípio, simples curiosidade; depois, desejo menos
indiferente; mais tarde, vontade decidida. Fernanda desejou imitar as novas amigas, e
teve um namorado. A algumas ouvira que não ter um namorado, pelo menos, era dar
prova de péssimo gosto, e de nenhum espírito; e Fernanda não queria de modo algum
ficar neste ponto atrás das suas companheiras.
Entre os rapazes que a reqüestavam havia um certo Augusto Soares, filho de um rico
capitalista, que era o seu primeiro mérito, sendo o segundo a mais bem merecida fama de
néscio que ainda coroou uma criatura humana.
Mas os néscios não trazem na testa o dístico de sua nescedade; e, se é certo que Soares
não podia encadear duas frases sem ferir o senso comum, também é certo que muitas
mulheres perdoam tudo, até a tolice, em ouvindo tecer um gabo às suas graças naturais.
Ora, Soares começava por aí, o que foi meio caminho andado. Fernanda, vendo que o
rapaz era da mesma opinião que o seu espelho, não indagou de outras qualidades; deu-
lhe o sufrágio... não do coração, mas do espírito. O coração veio mais tarde.
Ter um preferido, como objeto de guerra para os mais, e ver assim mais reqüestada a sua
preferência, era trilhar o caminho das outras e ficar na altura do bom tom. Fernanda,
desde o primeiro dia, mostrou-se tão hábil como as outras.
Mas quem pode lutar com um néscio em ele tomando ao sério o seu papel? Soares era
ousado.
Não tendo consciência da nulidade do seu espírito, obrava como se fosse um espírito
eminente, de modo que conseguia aquilo que nenhum homem avisado fora capaz de
conseguir.
Deste modo, ao passo que a ausência de Fernando se prolongava, iam calando no
espírito as declarações reiteradas de Soares, e o coração de Fernanda foi pouco a pouco
cedendo o amor antigo ao recente amor.
Veio a comparação (a comparação, que é a perdição das mulheres). Fernando amava
com toda a sinceridade e singeleza do seu coração; Soares amava de modo diverso;
sabia entremear uma declaração com três perífrases e dois tropos, destes que já cheiram
mal, por andarem em tantas bocas, mas que Fernanda ouvia com encanto porque era
uma linguagem nova para ela.
Finalmente, um dia declarou-se a vitória de Soares no coração de Fernanda, não sem
alguma luta, à última hora, e que não era mais do que um ato voluntário de Fernanda para
tranqüilizar a consciência e deitar a sua traição para as costas do destino.
O destino é o grande culpado de todas as más ações da humanidade inocente...
Um dia Soares, tendo previamente indagado das posses de Fernanda, foi autorizado por
esta a pedi-la em casamento.
Madalena não deu logo o seu consentimento; quis antes consultar Fernanda e ver até que
ponto era séria a nova resolução de sua filha.
Fernanda declarou amar deveras o rapaz, e fez depender a sua vida e felicidade de tal
casamento.
Madalena julgou dever guiar aquele coração que lhe parecia transviado. Foi luta vã:
Fernanda estava inabalável. Depois de três dias de trabalho, Madalena declarou a
Fernanda que consentia no casamento e mandou chamar Soares para dizer-lhe a mesma
coisa.
— Mas sabes tu, perguntou a boa mãe à sua filha, sabes a que vais expor o coração de
Fernando?
— Ora! há de sentir um pouco; mas depois esquecer-se-á...
— Julgas isso possível?
— Por que não? E quem sabe o que ele estará fazendo? Os países aonde foi talvez lhe
dêem alguns novos amores... É uma por outra.
— Fernanda!
— Esta é a verdade.
— Está bem, Deus te faça feliz.
E, tendo chegado o namorado pintalegrete, Madalena deu-lhe verbal e oficialmente a filha
em casamento.
O casamento efetuou-se pouco depois.
Ouvindo esta narração, Fernando estava aturdido. Desfazia-se em névoa a esperança
suprema das suas ambições de moço. A donzela casta e sincera que supunha vir
encontrar desaparecia para dar lugar a uma mulher de coração pérfido e vulgar espírito.
Não pôde reter algumas lágrimas; mas poucas foram; às primeiras palavras de sua mãe
adotiva pedindo-lhe coragem, Fernando ergueu-se, enxugou os olhos e prometeu não
abater-se. Procurou mesmo ficar alegre. A pobre Madalena receou alguma coisa e
consultou Fernando sobre os seus projetos.
— Oh! descanse, minha mãe, respondeu este; supõe talvez que eu me mate ou mate
alguém? Juro-lhe que não farei nem uma nem outra coisa. Olhe, juro por isto.
E Fernando beijou respeitosamente a cabeça encanecida e veneranda de Madalena.
Passaram-se alguns dias depois da chegada de Fernando. Madalena, vendo que pouco a
pouco se tranqüilizava o espírito de Fernando, tranqüilizou-se também.
Um dia Madalena, ao entrar Fernando para jantar, disse-lhe:
— Fernando, sabes que Fernanda vem hoje visitar-me?
— Ah!
Fernando não pensara nunca que Fernanda podia visitar sua mãe e encontrar-se com ele
em casa. Todavia, depois da primeira exclamação, pareceu refletir alguns segundos e
disse:
— Isso que tem? Ela pode vir; eu cá estou: somos dois estranhos...
Madalena ficou desta vez plenamente convencida de que Fernando não sentia mais nada
por sua filha, nem amor, nem ódio.
À noite, com efeito, na ocasião em que Fernando se preparava para ler à sua mãe uns
apontamentos de viagem que estava escrevendo, parou à porta um carro conduzindo
Soares e Fernanda.
Fernando sentiu palpitar-lhe violentamente o coração. Duas lágrimas, as últimas,
saltaram-lhe dos olhos e correram pelas faces abaixo. Fernando enxugou-as ocultamente.
Quando Madalena olhou para ele, estava completamente calmo.
Entraram os dois.
O encontro de Fernando e Fernanda não foi sem alguma comoção em ambos; mais
apaziguada em seus amores por Soares, Fernanda entrava já na reflexão, e a vista de
Fernando (que aliás ela sabia já ter voltado) era para ela uma exprobração viva do seu
procedimento.
Era mais: a presença do primeiro amante lembrava-lhe os primeiros dias, a candura do
primeiro afeto, os sonhos de amor, sonhados por ambos, na doce intimidade do lar
doméstico.
Quanto a Fernando, sentia também que lhe voltavam estas lembranças ao espírito; mas,
ao mesmo tempo, unia-se à saudade do passado um desgosto pelo aspecto presente da
mulher que amara. Fernanda estava uma casquilha. Ar, maneiras, olhares, tudo era
característico de uma revolução completa em seus hábitos e em seu espírito. Até a
palidez natural e poética do rosto desaparecia debaixo de umas posturas de carmim, sem
tom nem graça, aplicadas unicamente para afetar um gênero de beleza que não tinha.
Esta mudança era resultado do contacto de Soares. Com efeito, desviando os olhos de
Fernanda para cravá-los nos do homem que lhe roubara a sua felicidade, Fernando pôde
ver nele um tipo completo do pintalegrete moderno.
Madalena apresentou Fernando a Soares, e os dois retribuíram friamente o cumprimento
do estilo. Por que friamente? Não é que Soares já soubesse do amor que houvera entre
sua mulher e Fernando. Não quero deixar supor aos leitores uma coisa que não existe.
Soares era de natural frio, como um homem cujas preocupações não vão além de certas
futilidades. Quanto a Fernando, compreende-se bem que não era o mais próprio a
cumprimentar calorosamente o marido de sua ex-amada.
A conversa entre todos foi indiferente e fria; Fernando procurava e requintava nessa
indiferença, nos seus parabéns a Fernanda e na narração que fazia das viagens.
Fernanda estava pensativa e respondia por monossílabos, sempre com os olhos baixos.
Tinha vergonha de fitar aquele que primeiro lhe possuíra o coração, e que era agora o
remorso vivo do seu amor passado.
Madalena procurava conciliar tudo, aproveitando a indiferença de Fernando para
estabelecer uma intimidade sem perigo entre as duas almas que um terceiro divorciara.
Quanto a Soares, esse, tão frio como os outros, dividia a sua atenção entre os
interlocutores e a própria pessoa. A um espírito atilado bastavam dez minutos para
conhecer a fundo o caráter de Soares. Fernando no fim de dez minutos sabia com que
homem lidava.
A visita durou pouco menos do que costumava. Madalena tinha por costume conduzir sua
filha à casa todas as vezes que esta a visitava. Desta vez, quando Soares a convidou a
tomar lugar no carro, Madalena pretextou um ligeiro incômodo e pediu desculpa.
Fernando compreendeu que Madalena não queria expô-lo a ir também levar Fernanda até
à casa; interrompeu a desculpa de Madalena e disse:
— Por que não vai, minha mãe? É perto a casa, creio eu...
E dizendo isto interrogou Soares com o olhar.
— É perto, é, disse este.
— Pois então! continuou Fernando; vamos todos, e depois voltamos nós. Não quer?
Madalena olhou para Fernando, estendeu-lhe a mão e com um olhar de agradecimento
respondeu:
— Pois sim!
— Devo acrescentar que eu não posso ir já. Tenho de ir buscar uma resposta daqui a
meia hora; mas apenas estiver livre lá vou ter.
— Muito bem, disse Soares.
Fernando informou-se da situação da casa, e despediu-se dos três, que entraram para o
carro e apartaram-se.
A mão de Fernanda tremia quando esta a estendeu ao moço. A dele não; parece que a
maior indiferença reinava naquele coração. Fernanda ao sair não pôde deixar de soltar
um suspiro.
Fernando não tinha resposta alguma a ir buscar. Não queria utilizar-se de objeto algum
que pertencesse a Soares e Fernanda; desejava trazer sua mãe, mas em carro que não
fosse daquele casal.
Com efeito, depois de deixar correr o tempo, para verossimilhança do pretexto, vestiu-se
e saiu. Chamou o primeiro carro que encontrou e tomou a direção da casa de Soares.
Aí o esperavam para tomar chá.
Fernando mordeu os beiços quando lhe declararam isto; mas, cobrando o sangue-frio,
disse que não podia aceitar, visto ter já tomado chá com a pessoa de quem fora buscar a
resposta.
Não escapou a Madalena o motivo das duas recusas, a do carro e a do chá.
Às dez horas e meia Madalena e Fernando estavam de volta para casa.
Passaram-se vinte dias depois destas cenas, e sempre que elas se repetiam Fernando
era o mesmo, respeitoso, frio e indiferente.
Madalena, tranqüila até certo ponto, sentia profundamente que Fernando não voltasse à
franca alegria dos tempos passados. E para fazer-lhe entrar alguma nova luz no espírito,
a boa mãe instava com ele para que entremeasse os estudos e os trabalhos de sua
profissão com alguns divertimentos próprios da mocidade.
— Por que não passeias? Por que não vais aos bailes? Por que não freqüentas as
reuniões a que és convidado? Por que foges do teatro, de tudo o que a mocidade procura
e precisa?
— Não tenho gênio para essa vida agitada. A solidão é tão boa! ...
Enfim, um dia Madalena conseguiu que Fernando fosse ao teatro lirico com ela. Cantava-
se a Favorita. Fernando ouviu pensativo e absorto aquela música que em tantos lugares
fala à alma e ao coração. O ato final sobretudo deixou-o comovido. Estas distrações
repetiram-se algumas vezes.
De concessão em concessão, Fernando achou-se repentinamente freqüentando com
assiduidade os bailes, os teatros e as reuniões. O tempo e as distrações iam apagando
no espírito de Fernando os últimos vestígios de um destes ressentimentos que, em certo
grau, é amor disfarçado.
Já se aproximava de Fernanda sem comoção nem acanhamento: sua indiferença era
mais espontânea e natural.
Afinal de contas, pensava ele, aquele coração, tão volúvel e estouvado, não devia ser
meu; a traição mais tarde seria mais funesta.
Esta reflexão filosófica era sincera e denotava bem como a razão dominava já, no espírito
de Fernando, as memórias saudosas do passado.
Mas Fernanda? Oh! o estado dessa era outro. Aturdida a princípio com a vista de
Fernando; um pouco arrependida depois, quando lhe pareceu que Fernando morria de
dor e pesar; mais tarde, despeitada, vendo e conhecendo a indiferença que respiravam as
maneiras e as palavras dele; finalmente combatida por mil sentimentos diversos, o
despeito, o remorso, a vingança; desejando fugir-lhe e sentindo-se arrastada para o
homem que desprezara; vitima de um conflito entre o arrependimento e a vaidade, a
esposa de Soares sentiu que se operava uma revolução no seu espírito e na sua vida.
Em mais de uma ocasião Fernanda fizera sentir, em palavras, em olhares, em suspiros,
em reticências, o estado do seu coração. Mas Fernando, a quem já não causava
comoção a presença de Fernanda, não dava fé das revelações, às vezes demasiado
eloqüentes, da esposa do pintalegrete.
Mas quem dava fé era o pintalegrete. Sem dispor de grande atilamento, o jovem Soares
chegara a perceber que o espírito de sua mulher sofria alguma alteração. Começou a
suspeita pela indiferença com que Fernanda o acompanhara na discussão dos méritos de
duas novas qualidades de posturas do rosto, assunto grave, em que Soares desenvolvia
riquezas de dialética e grande soma de elevação. Prestou mais atenção e convenceu-se
de que Fernanda tinha alguma coisa no espírito que não era a pessoa dele, e como
marido previdente, tratou de indagar o motivo e o objeto da preocupação.
Seus esforços foram vãos ao princípio. Despeitado interrogou Fernanda, mas esta não só
não o iluminou na dúvida, senão que o desconcertou com uma apóstrofe de simulada
indignação.
Soares julgou dever-se recolher aos quartéis da expectativa.
Estavam as coisas neste pé quando o parente de Madalena que levara Fernando à
Europa deu um sarau por motivo do aniversário de sua mulher.
Não só Fernando, como Soares e Fernanda, foram convidados para aquele sarau.
Fernando, como disse, já ia a essas reuniões por vontade própria e natural desejo de
aviventar o espírito.
Neste alguma coisa mais o esperava, além da simples e geral distração.
Quando Fernando chegou ao sarau, seriam onze horas da noite, cantava ao piano uma
moça de 22 anos, alta, pálida, de olhos e cabelos pretos, a quem chamavam todos
Teresa.
Fernando chegou a tempo de ouvir toda a canção que a moça cantou, inspirada e febril.
Quando ela acabou, um murmúrio de aprovação soou em toda a assembléia, e no meio
da confusão em que o entusiasmo deixara todos, Fernando, mais instintiva que
voluntariamente, atravessou a sala e foi dar o braço a Teresa para conduzi-la à sua
cadeira.
Nesse momento o anjo dos destinos escrevera no livro dos amores mais um amor, o de
Teresa e Fernando.
O súbito efeito produzido no coração de Fernando pelo canto de Teresa não foi só
resultado da magia e do sentimento com que esta cantara. Durante as primeiras notas,
isto é, quando a alma de Teresa ainda se não tinha derramado toda na voz argentina e
apaixonada, Fernando pôde conversar com alguns rapazes a respeito da cantora.
Disseram-lhe que era uma donzela desprezada no amor que votara a um homem;
profetizaram a paixão com que ela cantaria, e por fim indicaram-lhe, a um lado da sala, a
figura indiferente ou antes zombeteira do traidor daquele coração. A identidade das
situações e dos sentimentos foi o primeiro elo da simpatia de Fernando para com Teresa.
O canto confirmou e desenvolveu a primeira impressão. Quando Teresa acabou,
Fernando não se pôde ter e foi prestar-lhe o apoio do seu braço para voltar à cadeira que
ficava junto de sua mãe.
Durante a noite Fernando sentiu-se mais e mais impressionado pela bela desdenhada. No
fim do sarau estava decidido. Devia amar aquela mulher e fazer-se amar por ela.
Mas como? Ainda no coração de Teresa existia alguma coisa da flama antiga. Era aquele
o estado em que o seu coração ficou logo desde que soube da perfídia de Fernanda. O
moço contava com o apaziguamento da primeira paixão, de modo que um dia os dois
corações desprezados se ligassem em um mesmo amor e envergonhassem por uma
união sincera aqueles que os não tinham compreendido.
Esta nova mudança no espírito de Fernando escapou, a princípio, à mulher de Soares.
Devo dizê-lo, se ainda algum leitor não o compreendeu, que Fernanda estava de novo
apaixonada por Fernando; mas agora era um amor egoísta, calculado, talvez misturado
de remorso, um amor com que ela pretendia, resgatando a culpa, quebrar de uma vez a
justa indignação do seu primeiro amante.
Não reparando o moço nas reticências, nos suspiros, nos olhares, em todos esses
anúncios do amor, ficando insensível às mudas revelações da esposa de Soares,
resolveu esta ser mais explícita um dia em que conversava a sós com Fernando.
Era um mau passo que dava, e em sua consciência de mulher casada, Fernanda
conhecia o erro e temia as conseqüências. Mas o amor próprio leva longe quando se
apossa do coração humano. Fernanda, depois de hesitar um pouco, determinou-se a
tentar o seu projeto. Fernando foi de bronze. Quando a conversação tomou um caminho
mais positivo, Fernando fez-se sério e declarou à mulher de Soares que não podia amá-
la, que o seu coração estava morto, e que, mesmo que revivesse, seria pela ação de um
hálito mais puro, à luz de um olhar mais sincero.
Dito isto, retirou-se. Fernanda não desesperou. Pensou que a constância seria uma arma
poderosa, e acreditou que só no romance ou na comédia podiam existir tais firmezas de
caráter.
Esperou.
Esperou em vão.
O amor de Fernando por Teresa crescia mais e mais; Teresa atravessava, uma por uma,
as fases por que passara o coração de Fernando. Era outra; o tempo trouxe o desprezo e
o esquecimento. Uma vez esquecido o primeiro amor, que restava mais? Cicatrizar as
feridas adquiridas no combate; e que melhor meio de cicatrizá-las que aceitando o
concurso de uma mão amiga e simpática? Tais foram os preliminares do amor de
Fernando e Teresa. O conforto comum trouxe a afeição recíproca. Um dia descobriu
Teresa que amava aquele homem. Quando dois corações se querem entender, ainda que
falem hebraico, descobrem-se logo um ao outro. No fim de algum tempo foi jurada entre
ambos uma sincera e eterna fidelidade.
Fernanda não foi das últimas a saber da nova paixão de Fernando. Desesperou. Se o
coração entrava por pouco no amor que confessara ao médico, se era mais o amor-
próprio a razão de ser dessa paixão culpada, foi ainda o amor-próprio, e mais indomável,
que se apoderou do espírito de Fernanda e induziu-a a queimar o último cartucho.
Desgraçadamente, nem o primeiro nem o último cartucho eram de incendiar, com um fogo
criminoso, o coração de Fernando. O caráter de Fernando era mais elevado que o dos
homens que rodeavam a esposa de Soares, de maneira que, supondo dominar, Fernanda
achou-se dominada e humilhada.
Neste ponto devo transcrever uma carta de Fernando ao parente em cuja casa vira
Teresa pela primeira vez.
Meu bom amigo, dizia ele, está na sua mão concorrer para a minha felicidade, ou antes
completá-la, porque foi em sua casa que eu comecei a adquiri-la.
Sabe que amo a D. Teresa, aquela interessante moça abandonada no amor que votava
ao F... Conhece ainda a história do meu primeiro amor. Somos dois corações igualados
pelo infortúnio; o amor pode completar a nossa fraternidade.
E deveras nos amamos, nada se pode opor à minha felicidade; o que eu desejo é que me
ajude neste negócio, assistindo o meu acanhamento com o seu conselho e a sua
mediação.
Tenho ânsia de ser feliz é a melhor ocasião; entrever, por uma porta aberta, as glórias do
paraíso, sem fazer um esforço para gozar da luz eterna, fora loucura. Não quero para o
futuro um remorso e uma dor.
Conto que as minhas aspirações sejam satisfeitas e que eu tenha mais um motivo de ser-
lhe eternamente grato. — Fernando.
Daí a dois dias, graças à intervenção do referido parente, que aliás fora desnecessária,
Teresa estava prometida a Fernando.
O último lance desta simples narrativa passou-se em casa de Soares.
Soares, mais e mais desconfiado, lutava com Fernanda para conhecer as disposições do
seu coração e as determinações de sua vontade. Andava escuro o céu daquele
casamento, realizado sob tão maus auspícios. Desde muito que a tranqüilidade
desaparecera dali, deixando o desgosto, o tédio, a desconfiança.
— Se eu soubera, dizia Soares, que no fim de tão pouco tempo a senhora me faria beber
fel e vinagre, não teria prosseguido em uma paixão que foi o meu castigo.
Fernanda, muda e distraída, mirava-se de quando em quando em um psyché, corrigindo o
penteado ou simplesmente admirando a esquivança desarrazoada de Fernando.
Soares insistia no mesmo tom meio sentimental.
Afinal, Fernanda respondia desabridamente, exprobrando-lhe o insulto que fazia à
sinceridade dos seus protestos.
— Mas esses protestos, disse Soares, é que eu não ouço; é exatamente o que eu peço;
jure que eu estou em erro e fico contente. Há uma hora que lho digo.
— Pois sim...
— O quê?
— Está em erro.
— Fernanda, juras-me isso?
— Juro, sim...
Entrou um escravo com uma carta para Fernanda; Soares deitou um olhar para o
sobrescrito e reconheceu a letra de Fernando. Contudo, depois do juramento de Fernanda
não quis ser o primeiro a ler a carta, esperou que ela começasse.
Mas Fernanda, estremecendo à vista da letra e do mimo do papel, guardou a carta,
mandando embora o escravo.
— De quem é essa carta?
— É de mamãe.
Soares estremeceu.
— Por que não a lês?
— Já sei o que é.
— Oh! é demais!
E levantando-se de sua cadeira dirigiu-se para Fernanda.
— Vamos ler essa carta.
— Depois...
— Não; há de ser já!
Fernanda resistiu, Soares insistiu. Depois de algum tempo viu Fernanda que lhe era
impossível guardar a carta. E por que a guardaria? Fernanda cuidava ainda que, melhor
avisado, Fernando voltasse a aceitar o coração ofertado e recusado. A vaidade produzia
este erro.
Aberta a carta, eis o que Soares leu:
Mana. Sábado dezessete caso-me eu com D. Teresa G... É um casamento de amor.
Peço-lhe que dê parte disto a meu cunhado, e que ambos venham ornar a pequena festa
desta união. Seu irmão. — Fernando.
A decepção de Fernanda foi grande. Mas pôde dissimulá-la algum tempo; Soares vendo o
conteúdo da carta e acreditando que sua mulher apenas quisera entretê-lo com um
engano, pagou-lhe em beijos e carícias a felicidade que semelhante descoberta lhe deu.
É inútil dizer que Fernanda não foi assistir ao casamento de Fernando e Teresa.
Pretextou moléstia e lá não pôs os pés. Nem por isso a festa foi menos brilhante.
Madalena estava feliz e contente vendo o contentamento e a felicidade de seu filho.
Daí para cá, vai para três anos, o casamento de Fernando e Teresa é um paraíso, em que
ambos, novo Adão e nova Eva, gozam da paz do espírito, sem intervenção da serpente
nem conhecimento do fruto do mal.
Não menos feliz é o casal Soares, ao qual voltaram, depois de algum tempo, os dias
saudosos da pieguice e da puerilidade.
Se algum leitor achar esta história muito nua de interesse, reflita nestas palavras que
Fernando repete aos amigos que costumam visitá-lo:
— Consegui uma das coisas mais raras no mundo: a perfeita conformidade das intenções
e dos sentimentos entre duas criaturas, tão longe educadas e tanto tempo separadas e
desconhecidas uma para outra. É que aprenderam na escola do infortúnio.
Vê-se, ao menos nisto, uma máxima em ação.
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