inopinadamente um sobrinho. Para não descer da região poética em que nos achamos, deixo
de dizer que a mula em que o Raimundo veio montado, foi reconduzida por um preto ao
alugador; passo também por alto as circunstâncias da acomodação do rapaz, limitando-me a
dizer que, como o tio, à força de viver lendo, esquecera inteiramente que o mandara buscar,
nada havia em casa preparado para recebê-lo. Mas a casa era grande e abastada; uma hora
depois, estava o rapaz aposentado num lindo quarto, donde podia ver a chácara, a cisterna
antiga, o lavadouro, basta folha verde e vasto céu azul.
Creio que ainda não disse a idade do hóspede; tem quinze anos e um ameaço de
buço; é quase uma criança. Logo, se a nossa Caetaninha ficou alvoroçada, e as mucamas
andam de um lado para outro espiando e falando do "sobrinho de sinhô velho que chegou
de fora", é porque a vida ali não tem outros episódios, não porque ele seja homem feito.
Essa foi também a impressão do dono da casa; mas, aqui vai a diferença. A afilhada não
advertia que o ofício do buço é virar bigode, ou, se pensou nisso, fê-lo tão vagamente, que
não vale a pena de o pôr aqui. Não assim o velho Fulgêncio. Compreendeu este que havia
ali a massa de um marido, e resolveu casá-los; mas viu também que, a menos de lhes pegar
nas mãos e mandar que se amassem, o acaso podia guiar as coisas por modo diferente.
Uma idéia traz outra. A idéia de os casar pegou por um lado com uma de suas
opiniões recentes. Era esta que as calamidades ou os simples dissabores nas relações do
coração provinham de que o amor era praticado de um modo empírico; faltava-lhe a base
científica. Um homem e uma mulher, desde que conhecessem as razões físicas e
metafísicas desse sentimento, estariam mais aptos a recebê-lo e nutri-lo com eficácia, do
que outro homem e outra mulher que nada soubessem do fenômeno.
— Os meus pequenos estão verdes, dizia ele consigo: tenho três a quatro anos
diante de mim, e posso começar desde já a prepará-los. Vamos com lógica; primeiro os
alicerces, depois as paredes, depois o teto... em vez de começar pelo teto... Dia virá em que
se aprenda a amar como se aprende a ler... Nesse dia...
Estava atordoado, deslumbrado, delirante. Foi às estantes, desceu alguns tomos,
astronomia, geologia, fisiologia, anatomia, jurisprudência, política, lingüística, abriu-os,
folheou-os, comparou-os, extratou daqui e dali, até formular um programa de ensino.
Compunha-se este de vinte capítulos, nos quais entravam as noções gerais do universo, uma
definição da vida, demonstração da existência do homem e da mulher, organização das
sociedades, definição e análise das paixões, definição e análise do amor, suas causas,
necessidades e efeitos. Em verdade, as matérias eram crespas; ele entendeu torná-las
dóceis, tratando-as em frase corriqueira e chã, dando-lhes um tom puramente familiar,
como a astronomia de Fontenelle. E dizia com ênfase que o essencial da fruta era o miolo,
não a casca.
Tudo isso era engenhoso; mas aqui vai o mais engenhoso. Não os convidou a
aprender. Uma noite, olhando para o céu, disse que as estrelas estavam brilhando muito; e o
que eram as estrelas? acaso sabiam eles o que eram as estrelas?
— Não, senhor.