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Eterno!, de Machado de Assis
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
NUPILL - Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística
<http://www.cce.ufsc.br/~alckmar/literatura/literat.html>
Universidade Federal de Santa Catarina
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ETERNO!
— NÃO ME EXPLIQUES nada, disse eu entrando no quarto; é o negócio da baronesa.
Norberto enxugou os olhos e sentou-se na cama, com as pernas pendentes. Eu, cavalgando
uma cadeira, pousei a barba no dorso, e proferi este breve discurso:
— Mas, meu pateta, quantas vezes queres que te diga que acabes com essa paixão ridícula e
humilhante? Sim, senhor, humilhante e ridícula, porque ela não faz caso de ti; e demais, é
arriscado. Não? Verás se o é, quando o barão desconfiar que lhe arrastas a asa à mulher.
Olha que ele tem cara de maus bofes.
Norberto meteu as unhas na cabeça, desesperado. Tinha-me escrito cedo, pedindo que fosse
confortá-lo e dar-lhe algum conselho; esperara-me na rua, até perto de uma hora da noite,
defronte da casa de pensão em que eu morava; contava-me na carta que não dormira, que
recebera um golpe terrível, falava em atirar-se ao mar. Eu, apesar de outro golpe que
também recebera, acudi ao meu pobre Norberto. Éramos da mesma idade, estudávamos
medicina, com a diferença que eu repetia o terceiro ano, que perdera, por vadio. Norberto
vivia com os pais; não em cabendo igual fortuna, por havê-los perdido, vivia de uma
mesada que me dava um tio da Bahia, e das dívidas que o bom velho pagava
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semestralmente. Pagava-as, e escrevia-me logo uma porção de cousas amargas, concluindo
sempre que, pelo menos, fosse estudando até ser doutor. Doutor, para quê? dizia comigo.
Pois se nem o sol, nem a lua, nem as moças, nem os bons charutos Vilegas eram doutores,
que necessidade tinha eu de o ser? E tocava a rir, a folgar, a deixar correr semanas e
credores.
Falei de um golpe recebido. Era uma carta do tio, vinda com a do Norberto, naquela mesma
manhã. Abri-a antes da outra, e li-a com pasmo Já me não tuteava; dizia cerimoniosamente:
"Sr. Simeão Antônio de Barros, estou farto de gastar à toa o meu dinheiro com o senhor. Se
quiser concluir os estudos, venha matricular-se aqui, e morar comigo. Se não, procure por si
mesmo recursos; nao lhe dou mais nada." Amarrotei o papel, finquei os olhos numa
litografia muito ruim do Visconde de Sepetiba, que já achei pendente de um prego, no meu
quarto de pensão, e disse-lhe os nomes mais feios, de maluco para baixo. Bradei que podia
guardar o seu dinheiro, que eu tinha vinte anos, — o primeiro dos direitos do homem,
anterior aos tios e outras convenções sociais.
A imaginação, madre amiga, apontou-me logo uma infinidade de recursos, que bastavam a
dispensar os magros cobres de um velho avarento, mas, passada essa primeira impressão, e
relida a carta, entrei a ver que a solução era mais árdua do que parecia. Os recursos podiam
ser bons e até certos; mas eu estava tão afeito a ir a Rua da Quitanda receber a pensão
mensal e a gastá-la em dobro, que mal podia adotar outro sistema.
Foi neste ponto que abri a carta do amigo Norberto e corri à casa dele. Já sabem o que lhe
disse; viram que ele meteu as unhas na cabeça, desesperado. Saibam agora que, depois do
gesto, disse com olhar sombrio que esperava de mim outros conselhos.
— Quais?
Não me respondeu.
— Que compres uma pistola ou uma gazua? algum narcótico?
— Para que estás caçoando comigo?
— Para fazer-te homem.
Norberto deu de ombros, com um laivozinho de escárnio ao canto da boca. Que homem?
Que era ser homem senão amar a mais divina criatura do mundo e morrer por ela?
A Baronesa de Magalhães, causa daquela demência, viera pouco antes da Bahia, com o
marido, que antes do baronato, adquirido para satisfazer a noiva, era Antônio José Soares
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de Magalhães. Vinham casados de fresco; a baronesa tinha menos trinta anos que o barão;
ia em vinte e quatro. Realmente era bela. Chamavam-lhe, em família, Iaiá Lindinha. Como
o barão era velho amigo do pai de Norberto, as duas famílias uniram-se desde logo.
— Morrer por ela? disse eu.
Jurou-me que sim; era capaz de matar-se. Mulher misteriosa! A voz dela entrava-lhe pelos
ossos. . . E, dizendo isto, rolava na cama, batia com a cabeça, mordia os travesseiros. Às
vezes, parava, arquejando; logo depois tornava às mesmas convulsões, abafando os soluços
e os gritos, para que os não ouvissem do primeiro andar.
Já acostumado às lágrimas do meu amigo, desde a vinda da baronesa, esperei que elas
acabassem, mas não acabavam. Descavalguei a cadeira, fui a ele, bradei-lhe que era uma
criançada, e despedi-me; Norberto pegou-me na mão, para que ficasse, não me tinha dito
ainda o principal.
— É verdade; que é?
—Vão-se embora. Estivemos lá ontem, e ouvi que embarcam sábado.
— Para a Bahia?
— Sim.
— Então, vão comigo.
Contei-lhe o caso da carta, e as ordens de meu tio para ir matricular-me na Bahia, e estudar
ao pé dele. Norberto escutou-me alvoroçado. Na Bahia? Iríamos juntos; éramos íntimos, os
pais não recusariam este favor à nossa jovem amizade. Confesso que o plano pareceu-me
excelente, e demo-nos a ele com afinco. A mãe, apesar de muita lágrima que teria de verter
ao despegar-se do filho, cedeu mais prontamente do que supúnhamos. O pai é que não
cedeu nada. Não houve rogos nem empenhos; o próprio barão, que eu tive a arte de trazer
ao nosso propósito, não alcançou do velho amigo que deixasse ir o filho, nem ainda com a
promessa de o aposentar em casa e velar por ele. O pai foi inflexível.
Podem imaginar o desespero do meu amigo. Na noite de sexta-feira esteve em casa dela,
com a família, até onze horas; mas, com o pretexto de passar comigo a última noite da
minha estada aqui, veio realmente chorar tantas e tais lágrimas, como nunca as vi chorar
jamais, nem antes nem depois. Não podia descrer da paixão, nem presumir consolá-la; era a
primeira. Até então, ambos nós só conhecíamos os trocos miúdos do amor; e, por desgraça
dele a primeira moeda grande que achara, não era ouro nem prata, senão ferro, duro ferro,
como a do velho Licurgo, forjada como mesmo amargo vinagre.
Não dormimos. Norberto chorava, arrepelava-se, pedia a morte, construía planos absurdos
ou terríveis. Eu, arranjando as malas, ia-lhe dizendo alguma cousa que o consolasse; era
pior, era como se falasse de dança a uma perna dolorida. Consegui que fumasse um cigarro,
depois outro, e afinal fumou-os às dúzias, sem acabar nenhum. Às três horas tratava do
modo de fugir ao Rio de Janeiro, — não logo, mas daí a dias, no primeiro vapor. Tirei-lhe
essa idéia da cabeça unicamente no interesse dele próprio.
— Ainda se fosse útil, vá, disse-lhe eu; mas ir sem certeza de nada, ir dar com o nariz na
porta, porque a mulher, se não gosta de ti, e te vê lá, é capaz de perceber logo o motivo da
tua viagem, e não te recebe.
— Que sabes tu?
— Pode receber-te, mas não há certeza, acho eu. Crês que ela goste de ti?
— Não digo que sim, nem que não.
Contou-me episódios, gestos, ditos, cousas ambíguas ou insignificantes; depois vinha uma
reticência de lágrimas, murros no peito, clamor de angústia, a dor ia-se-me comunicando;
padecia com ele, a razão cedia à compaixão, as nossas naturezas fundiam-se em uma só
lástima. Daí esta promessa que lhe fiz.
— Tenho uma idéia. Vou com eles, já nos conhecemos, é provável que freqüente a casa; eu
então farei uma cousa: sondo-a a teu respeito. Se vir que nem pensa em ti, escrevo-te
francamente que penses em outra cousa; mas se achar alguma inclinação, pouca que seja,
aviso-te, e, ou por bem ou por mal, embarca.
Norberto aceitou alvoroçado a proposta; era uma esperança. Fez-me jurar que cumpriria
tudo, que a observaria bem, sem temor, e, pela sua parte, jurou-me que não hesitaria um
instante. E teimava comigo que não perdesse nada; que, às vezes, um indício pequeno valia
muito, uma palavrinha era um livro; que, se pudesse, aludisse ao desespero em que o
deixava. Para peitar a minha sagacidade, afirmou que o desengano matá-lo-ia, porque esse
amor, eterno como era, iria fartar-se na morte e na eternidade. Não achei boca para replicar-
lhe que isto era o mesmo que obrigar-me a só mandar boas notícias. Naquela ocasião,
apenas sabia chorar com ele.
A aurora registrou o nosso pacto imoral. Não consenti que ele fosse a bordo despedir-se.
Parti. Não falemos da viagem... Ó mares de Homero, flagelados por Euros, Bóreas e o
violento Zéfiro, mares épicos, podeis sacudir Ulisses, mas não lhe dais as aflições do enjôo.
Isso é bom para os mares de agora, e particularmente para aqueles que me levaram daqui à
Bahia. Só depois de chegar ante a cidade, ousei aparecer à nossa dona magnífica, tão
senhora de si, como se acabasse de dar um passeio apenas longo.
— Não tem saudades do Rio de Janeiro? disse-lhe eu logo, de intróito.
— Certamente.
O barão veio indicar-me os lugares que a gente via do paquete, — ou a direção de outros.
Ofereceu-me a casa dele, no Bonfim. Meu tio veio a bordo, e, por mais que quisesse fazer-
se tétrico, senti-lhe o coração amigo. Via-me, único filho da irmã finada, — e via-me
obediente. Não podia haver para mim melhores impressões de entrada. Divina juventude!
as cousas novas pagavam-me em dobro as cousas velhas.
Dei os primeiros dias ao conhecimento da cidade; mas não tardou que uma carta do meu
amigo Norberto me chamasse a atenção para ele. Fui ao Bonfim. A baronesa — ou Iaiá
Lindinha, que era ainda o nome dado por toda a gente, — recebeu-me com tanta graça, e o
marido era tão hospedeiro e bom, que me envergonhei da particular comissão que trazia.
Mas durou pouco a vergonha, vi o desespero do meu amigo, e a necessidade de consolá-lo
ou desenganá-lo era superior a qualquer outra consideração. Confesso até uma
singularidade; agora que estavam separados entrou-me na alma a esperança de que ela não
desgostasse dele, — justamente o que eu negava antes. Talvez fosse o desejo de o ver feliz;
podia ser uma instigação da vaidade que me acenasse com a vitória em favor do
desgraçado.
Naturalmente, conversamos do Rio de Janeiro. Eu dizia-lhe as minhas saudades, falava das
cousas que estava acostumado a ver, das ruas que faziam parte da minha pessoa, das caras
de todos os dias das casas, das afeições... Oh! as afeições eram os laços mais apertados.
Tinha amigos: os pais de Norberto...
— Dous santos, interrompeu a moça; meu marido, que conhece o velho desde muitos anos,
conta dele cousas curiosas. Sabe que casou por uma paixão fortíssima?
— Adivinha-se. O filho é o fruto expressivo do amor dos dous. Conheceu bem o meu pobre
Norberto?
— Conheci; ia lá à casa muitas vezes.
— Não conheceu.
Iaiá Lindinha franziu levemente a testa.
— Perdoe-me se a desminto, continuei com vivacidade. Não conheceu a melhor alma, a
mais pura e a mais ardente que Deus criou. Talvez que ache parcial por ser amigo. A
verdade é que ninguém me prende mais ao Rio de Janeiro. Coitado do meu Norberto! Não
imagina que homem talhado para dous ofícios ao mesmo tempo, arcanjo e herói, — para
dizer à terra as delícias do céu, e para escalar o céu, se for preciso ir lá levar as lamentações
humanas...
Só no fim desta fala compreendi que era ridícula. Iaiá Lindinha, ou não a entendeu assim,
ou disfarçou a opinião; disse-me somente que a minha amizade era entusiasta, mas que o
meu amigo parecia boa pessoa. Não era alegre, ou tinha crises melancólicas. Disseram-lhe
que ele estudava muito...
— Muito.
Não insisti para não atropelar os acontecimentos... Que o leitor me não condene sem
remissão nem agravo. Sei que o papel que eu fazia não era bonito; mas já lá vão vinte e sete
anos. Confio do Tempo, que é um insigne alquimista. Dá-se-lhe um punhado de lodo, ele o
restitui em diamantes; quando menos, em cascalho. Assim é que, se um homem de Estado
escrever e publicar as suas memórias, tão sem escrúpulo, que lhes não falte nada, nem
confidências pessoais, nem segredos do governo, nem até amores, amores particularíssimos
e inconfessáveis, verá que escândalo levanta o livro. Dirão e dirão bem, que o autor é um
cínico, indigno dos homens que confiaram nele e das mulheres que o amaram. Clamor
sincero e legítimo, porque o caráter público impõe muitos resguardos; os bons costumes e o
próprio respeito às mulheres amadas constrangem ao silêncio...
... Mas deixai pingar os anos na cuba de um século. Cheio o século, passa o livro a
documento histórico, psicológico, anedótico. Hão de lê-lo a frio; estudar-se-á nele a vida
íntima do nosso tempo a maneira de amar, a de compor os ministérios e deitá-los abaixo, se
as mulheres eram mais animosas que dissimuladas, como é que se faziam eleições e
galanteios, se eram usados xales ou capas, que veículos tínhamos, se os relógios eram
trazidos à direita ou à esquerda, e multidão de cousas interessantes para a nossa história
pública e íntima. Daí a esperanca que me fica, de não ser condenado absolutamente pela
consciência dos que me lêem. Já lá vão vinte e sete anos!
Gastei mais de meio em bater à porta daquele coração, a ver se lá achava o Norberto; mas
ninguém me respondia de dentro, nem o próprio marido. Não obstante, as cartas que
mandava ao meu pobre amigo, se não levavam esperanças, também não levavam
desenganos. Houve-as até mais esperançosas que desenganadas. A afeição que lhe tinha e o
meu amor-próprio conjugavam as forças todas para espertar nela a curiosidade e a sedução
de um mistério remoto e possível.
Já então as nossas relações eram familiares. Visitava-os a miúdo. Quando lá não ia três
noites seguidas, vivia aflito e inquieto; corria a vê-los na quarta noite, e era ela que me
esperava ao portão da chácara, para dizer-me nomes feios, ingrato, preguiçoso, esquecido.
Os nomes foram cessando, mas a pessoa não deixava de estar ali à espera, com a mão
prestes a apertar a minha, — às vezes, trêmula, — ou seria a minha que tremia; não sei.
— Amanhã não posso vir, dizia-lhe algumas noites, à despedida, baixo, no vão de uma
janela.
— Por quê?
Explicava-lhe a causa, estudo ou alguma obrigação de meu tio. Nunca tentou dissuadir-me
de promessa, mas ficava desconsolada. Comecei a escrever menos ao Norberto e a falar
pouco de Iaiá Lindinha, como quem não ia à casa dela. Tinha fórmulas diferentes: "Ontem
encontrei o barão no largo do Palácio; disse-me que a mulher está boa". Ou então: "Sabes
quem vi há três dias no teatro? A baronesa". Não relia as cartas, para não encarar a minha
hipocrisia. Ele, pela sua parte, também ia escrevendo menos, e bilhetes curtos. Entre mim e
a moça não aparecia mais o nome de Norberto; convencionamos, sem palavras, que era um
defunto, e um triste defunto sem galas mortuárias
Beirávamos o abismo, ambos teimando que era um reflexo da cúpula celeste, —
incongruência para os que não andam namorados. A morte resolveu o problema, levando
consigo o barão, por meio de um ataque de apoplexia, no dia vinte e três de março de 1861,
às seis horas da tarde. Era um excelente homem, a quem a viúva pagou em preces o que lhe
não dera em amor.
Quando eu lhe pedi, três meses depois, que, acabado o luto, casasse comigo, Iaiá Lindinha
não estranhou nem me despediu. Ao contrário, respondeu que sim, mas não tão cedo; punha
uma condição: que concluísse primeiro os estudos, que me formasse. E disse isto com os
mesmos lábios, que pareciam ser o único livro do mundo, o livro universal, a melhor das
academias, a escola das escolas. Apelei dela para ela; escutou-me inflexível. A razão que
me deu foi que meu tio podia recear que, uma vez casado, interromperia a carreira.
— E com razão, concluiu. Ouça-me: só me caso com um doutor.
Cumprimos ambos a promessa. Durante algum tempo andou ela pela Europa, com uma
cunhada e o marido desta; e as saudades foram então as minhas disciplinas mais duras.
Estudei pacientemente; despeguei-me de todas as vadiações antigas. Recebi o capelo na
véspera da bênção matrimonial; e posso dizer, sem hipocrisia, que achei o latim do padre
muito superior ao discurso acadêmico.
Semanas depois, pediu-me Iaiá Lindinha que viéssemos ao Rio de Janeiro. Cedi ao pedido,
confesso que um pouco atordoado. Cá viria achar o meu amigo Norberto, se é que ele ainda
residia aqui. Ia em mais de três anos que nos não escrevíamos; já antes disso as nossas
cartas eram breves e sem interesse. Saberia do nosso casamento? Dos precedentes?
Viemos; não contei nada a minha mulher.
Para quê? Era dar-lhe notícia de uma aleivosia oculta, dizia comigo. Ao chegar, pus esta
questão a mim mesmo, se esperaria a visita dele, se iria visitá-lo antes; escolhi o segundo
alvitre, para avisá-lo das cousas. Engenhei umas circunstâncias especiais, curiosas,
acarretadas pela Providência, cujos fios ficam sempre ocultos aos homens. Não me ria,
note-se bem; minha imaginação compunha tudo isso com seriedade.
No fim de quatro dias, soube que Norberto morava para os lados do Rio Comprido, estava
casado. Tanto melhor. Corri a casa dele. Vi no jardim uma preta amamentando uma
criança, outra criança de ano e meio, que recolhia umas pedrinhas do chão, acocorada.
— Nhô Bertinho, vai dizer a mamãe que está aqui um moço procurando papai.
O menino obedeceu; mas, antes que voltasse, chegava de fora o meu velho amigo Norberto.
Conheci-o logo, apesar das grandes suíças que usava; lançamo-nos nos braços um do outro.
— Tu aqui? Quando chegaste?
— Ontem:
— Estás mais gordo, meu velho! Gordo e bonito. Entremos. Que é? continuou ele
inclinando-se para Nhô Bertinho, que lhe abraçava uma das pernas.
Pegou dele, alçou-o, deu-lhe trinta mil beijos ou pouco menos depois, tendo-o num braço,
apontou para mim.
— Conheces este moço?
Nhô Bertinho olhava espantado, com o dedo na boca. O pai contou-lhe então que eu era um
amigo de papai, muito amigo, desde o tempo em que vovô e vovó eram vivos...
— Teus pais morreram?
Norberto fez-me sinal que sim, e acudiu ao filho, que com as mãozinhas espalmadas pegava
da cara do pai, pedindo-lhe mais beijos. Depois, foi à criança que mamava, não a tirou do
regaço da ama, mas disse-lhe muitas cousas ternas, chamou-me para vê-la, era uma menina.
Revia-se nela, encantado. Tinha cinco meses por ora; mas se eu voltasse ali quinze anos
depois, veria que mocetona. Que bracinhos! que dedos gordos! Não podendo ter-se,
inclinou-se e beijou-a.
— Entra, anda ver minha mulher. Jantas conosco.
— Não posso.
— Mamãe, está espiando, disse Nhô Bertinho.
Olhei, vi uma moça à porta da sala, que dava para o jardim; a porta estava aberta, ela
esperava-nos. Subimos os cinco degraus; entramos na sala. Norberto pegou-lhe nas mãos, e
deu-lhes dous beijos. A moça quis recuar, não pôde, ficou muito corada.
— Não te vexes, Carmela, disse ele. Sabes quem é este sujeito? É aquele Barros de quem te
falei muitas vezes, um Simeão, estudante de medicina... A propósito, por que é que não me
respondeste à participação do casamento?
— Não recebi nada, respondi.
— Pois afirmo que foi pelo correio.
Carmela ouvia o marido com admiração; ele tanto fez, que foi sentar-se ao pé dela, para lhe
reter a mão, às escondidas. Eu fingia não ver nada, falava dos tempos acadêmicos, de
alguns amigos, da política, da guerra, tudo para evitar que ele me perguntasse se estava ou
não casado. Já me arrependia de ter ido ali; que lhe diria, se ele tocasse ao ponto e
indagasse da pessoa? Não me falou em nada; talvez soubesse tudo.
A conversação prolongou-se; mas eu teimei em sair, e levantei-me, Carmela despediu-se de
mim com muita afabilidade. Era bela; os olhos pareciam dar-lhe um resplendor de santa.
Certo é que o marido tinha-lhe adoração.
—Viste-a bem? perguntou-me ele à porta do jardim. Não te digo o sentimento que nos
prende, estas cousas sentem-se, não se exprimem. De que sorris? Achas-me naturalmente
criança. Creio que sim; criança eterna, como é eterno o meu amor.
Entrei no tílburi, prometendo ir lá jantar um daqueles dias.
— Eterno! disse comigo. Tal qual o amor que ele tinha a minha mulher.
E, voltando-me para o cocheiro, perguntei-lhe:
— O que é eterno?
— Com perdão de V.S.a, acudiu ele, mas eu acho que eterno é o fiscal da minha rua, um
maroto que, se não lhe quebro a cara um destes dias, a minha alma se não salve. Pois o
maroto parece eterno no lugar; tem aí não sei que compadres... Outros dizem que... Não me
meto nisso... Lá quebrar-lhe a cara...
Não ouvi o resto: fui mergulhando em mim mesmo, ao zunzum do cocheiro. Quando dei
por mim, estava na Rua da Glória. O demônio continuava a falar; paguei, e desci até à Praia
da Glória, meti-me pela do Russell e fui sair à do Flamengo. O mar batia com força.
Moderei o passo, e pus-me a olhar para as ondas que vinham ali bater e morrer. Cá dentro,
ressoava, como um trecho musical, a pergunta que fizera ao cocheiro: O que é eterno? As
ondas, mais discretas que ele, não me contaram os seus particulares, vinham vindo,
morriam, vinham vindo, morriam.
Cheguei ao Hotel de Estrangeiros ao declinar da tarde. Minha mulher esperava-me para
jantar. Eu, ao entrar no quarto, peguei-lhe das mãos, e perguntei-lhe:
— O que é eterno, Iaiá Lindinha?
Ela, suspirando:
— Ingrato! é o amor que te tenho.
Jantei sem remorsos; ao contrário, tranqüilo e jovial. Cousas do Tempo! Dá-se-lhe um
punhado de lodo, ele o restitui em diamantes...
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