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MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS
João do Rio
This is a sensible book. This is a book to improve your mind. I do not tell you all I know, because
I do not want to swamp you with knowledge...
Jerome K. Jerome
A
João Ribeiro
Profunda admiração
JOÃO DO RIO
A RUA
Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se
não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é
partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades,
nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia,
mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e
indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma,
tudo varia — o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os
séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e
fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.
A rua!
Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:
Je suís la rue, femme êternellement verte,
Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte
Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis
Que ce pénible monde est monde, je la suis...
A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: “Rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre
as casas e as povoações por onde se anda e passeia”. E Domingos Vieira, citando as
Ordenações: “Estradas e rua pruvicas antiguamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes
que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e ruas pruvicas”.
A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis de
completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinte
enciclopédias, manuseei in-folios especiais de curiosidade. A rua era para eles apenas um
alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações.
Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em
Benares ou em Amsterdão, em Londres ou Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais
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variados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o
auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplauso
dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros
atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e legendário.
Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para
alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A rua
é a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar
regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua,
matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as
palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros. A rua
resume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe luz, luxo, bem-estar,
comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.
A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do
seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de
ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor,
uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa
miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras
humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a majestade dos
rifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que batizou o imortal Calino. Sem o
consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe resumem a
banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna
imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, para
ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, quando o
sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, no
chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões — tão modesta, tão lavada, tão risonha,
que parece papaguear
com o céu e com os anjos...
A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em
cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dos
silfos das florestas, tipo proteiforme, feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes
irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo com saltos de felino
e risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta
invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e nunca
teve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e pode
rir, francamente, depois de ter conhecido todos os males da cidade, poeira d’ouro que se faz
lama e torna a ser poeira — a rua criou o garoto!
Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua
não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter
espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo
incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos
esportes — a arte de flanar. É fatigante o exercício?
Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé, não fez outra coisa
nos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez
todos os seus preciosos achados flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos
dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e
refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir
por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha
ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os
ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas
da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa
ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado
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um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar
absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira
impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor
causa inveja.
É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada
como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas
necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como
Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café,
como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as
preocupações e até os crimes dos transeuntes. É uma espécie de secreta à maneira de Sherlock
Holmes, sem os inconvenientes dos secretas nacionais. Haveis de encontrá-lo numa bela noite
numa noite muito feia. Não vos saberá dizer donde vem, que está a fazer, para onde vai.
Pensareis decerto estar diante de um sujeito fatal? Coitado! O flâneur é o bonhomme possuidor
de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de
ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da
necessidade do perdão.
O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eterno “convidado do
sereno” de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e
conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a
história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da
cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. O balão que sobe ao meio-dia no Castelo,
sobe para seu prazer; as bandas de música tocam nas praças para alegrá-lo; se num beco perdido
há uma serenata com violões chorosos, a serenata e os violões estão ali para diverti-lo. E de tanto
ver que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete. As observaçõs foram guardadas
na placa sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando o
flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a
psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de
pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de
observação...
Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo
e imóvel.
Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas.São assim as ruas de todas
as cidades, com vida e destinos iguais aos do homem.
Por que nascem elas? Da necessidade de alargamento das grandes colmeias sociais, de
interesses comerciais, dizem. Mas ninguém o sabe. Um belo dia, alinha-se um tarrascal, corta-se
um trecho de chácara, aterra-se lameiro, e aí está: nasceu mais uma rua. Nasceu para evoluir,
para ensaiar primeiros passos, para balbuciar, crescer, criar uma individualidade. Os homens têm
no cérebro a sensação dessa semelhança, e assim como dizem de um rapagão:
— Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!
Murmuram:
— Quem há de dizer que esta rua há dez anos só tinha uma casa!
Um cavalheiro notável, ao entrar comigo certa vez na Rua Senador Dantas, não se
conteve:
— É impossível passar por aqui sem lembrar que a velhice começa a chegar. Quando vim
da província esta rua tinha apenas duas casas no antigo jardim do Convento, e eu tomava chopps
no Guarda Velha a três vinténs!
Eu sorria, mas o pobre sujeito importante dizia isso como se recordasse os dois primeiros dentes de um
homenzarrão, com uma dentadura capaz atualmente de morder as algibeiras de uma sociedade inteira. Era a
recordação, a saudade do passado começo. Há nada mais enternecedor que o princípio de uma rua? É ir vê-lo nos
arrabaldes. A princípio capim, um braço a ligar duas artérias. Percorre-o sem pensar meia dúzia de criaturas. Um dia
cercam à beira um lote de terreno. Surgem em seguida os alicerces de uma casa. Depois de outra e mais outra. Um
combustor tremeluz indicando que ela já se não deita com as primeiras sombras. Três ou quatro habitantes
proclamam a sua salubridade ou o seu sossego. Os vendedores ambulantes entram por ali como por terreno novo a
conquistar. Aparece a primeira reclamação nos jornais contra a lama ou o capim. É o batismo. As notas policiais
contam que os gatunos deram num dos seus quintais. É a estréia na celebridade, que exige o calçamento ou o
prolongamento da linha de bondes. E insensivelmente, há na memória da produção, bem nítida, bem pessoal, uma
individualidade topográfica a mais, uma individualidade que tem fisionomia e alma.
Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são pretensiosas, outras riem
aos transeuntes e o destino as conduz como conduz o homem, misteriosamente, fazendo-as
nascer sob uma boa estrela ou sob um signo mau, dando-lhes glórias e sofrimentos, matando-as
ao cabo de um certo tempo.
Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres,
delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam
para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas,
snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue...
Vede a Rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomando
parte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras
1
à mais leve sombra de perigo.
Esse beco inferno de pose, de vaidade, de inveja, tem a especialidade da bravata. E fatalmente
oposicionista, criou o boato, o “diz-se...“ aterrador e o “fecha-fecha” prudente. Começou por
chamar-se Desvio do Mar. Por ela continua a passar para todos os desvios muita gente boa. No
tempo em que os seus melhores prédios se alugavam modestamente por dez mil réis, era a Rua
do Gadelha. Podia ser ainda hoje a Rua dos Gadelhas, atendendo ao número prodigioso de
poetas nefelibatas que a infestam de cabelos e de versos. Um dia resolveu chamar-se do Ouvidor
sem que o senado da câmara fosse ouvido. Chamou-se como calunia, e elogia, como insulta e
aplaude, porque era preciso denominar o lugar em que todos falam de lugar do que ouve; e
parece que cada nome usado foi como a antecipação moral de um dos aspectos atuais dessa
irresponsável artéria da futilidade.
A Rua da Misericórdia, ao contrário, com as suas hospedarias lôbregas, a miséria, a
desgraça das casas velhas e a cair, os corredores bafientos, é perpetuamente lamentável. Foi a
primeira rua do Rio. Dela partimos todos nós, nela passaram os vice-reis malandros, os
gananciosos, os escravos nus, os senhores em redes; nela vicejou a imundície, nela desabotoou a
flor da influência jesuítica. Índios batidos, negros presos a ferros, domínio ignorante e bestial, o
primeiro balbucio da cidade foi um grito de misericórdia, foi um estertor, um ai! tremendo
atirado aos céus. Dela brotou a cidade no antigo esplendor do Largo do Paço, dela decorreram,
como de um corpo que sangra, os becos humildes e os coalhos de sangue, que são as praças,
ribeirinhas do mar. Mas, soluço de espancado, primeiro esforço de uma porção de infelizes, ela
continuou pelos séculos afora sempre lamentável, e tão augustiosa e franca e verdadeira na sua
dor que os patriotas lisonjeiros e os governos, ninguém, ningm se lembrou nunca de lhe tirar
das esquinas aquela muda prece, aquele grito de mendiga velha: — Misericórdia!
Há ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos pontos que ninguém
dantes imaginara — a Rua dos Ourives; há ruas que, pouco honestas no passado, acabaram
tomando vergonha — a da Quitanda. Essa tinha mesmo a mania de mudar de nome. Chamou-se
do Açougue Velho, do lnácio Castanheira, do Sucusarrará, do Tomé da Silva, que sei eu? Até
mesmo Canto do Tabaqueiro. Acabou Quitanda do Marisco, mas, como certos indivíduos que
organizam o nome conforme a posição que ocupam, cortou o marisco e ficou só Quitanda. Há
ruas, guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas conservadoras — a das
Laranjeiras; há ruas lúgubres, por onde passais com um arrepio, sentindo o perigo da morte — o
Largo do Moura por exemplo. Foi sempre assim. Lá existiu o Necrotério e antes do Necrotério lá
se erguia a Forca. Antes da autópsia, o enforcamento. O velho largo macabro, com a alma de
Tropmann e de Jack, depois de matar, avaramente guardou anos e anos, para escalpelá-los, para
chamá-los, para gozá-los, todos os corpos dos desgraçados que se suicidam ou morrem
assassinados. Tresanda a crime, assusta. A Prainha também. Mesmo hoje, aberta, alargada com
1
Vitrine.
prédios novos e a trepidação contínua do comércio, há de vos dar uma impressão de vago horror.
À noite são mais densas as sombras, as luzes mais vermelhas, as figuras maiores. Por que terá
essa rua um aspecto assim? Oh! Porque foi sempre má, porque foi sempre ali o Aljube, ali
padeceram os negros dos três primeiros trapiches do sal, porque também ali a forca espalhou a
morte!
Há entretanto outras ruas, que nascem íntimas, familiares, incapazes de dar um passo sem
que todas as vizinhas não saibam. As ruas de Santa Teresa estão nestas condições. Um
cavalheiro salta no Curvelo, vai a pé até o França, e quando volta já todas as ruas perguntam que
deseja ele, se as suas tenções são puras e outras impertinências íntimas. Em geral, procura-se o
mistério da montanha para esconder um passeio mais ou menos amoroso. As ruas de Santa
Teresa, é descobrir o par e é deitar a rir proclamando aos quatro ventos o acontecimento. Uma
das ruas, mesmo, mais leviana e tagarela do que as outras, resolveu chamar-se logo Rua do
Amor, e a Rua do Amor lá está na freguesia de S. José. Será exatamente um lugar escolhido pelo
Amor, deus decadente? Talvez não. Há também na freguesia do Engenho Velho uma rua
intitulada Feliz Lembrança e parece que não a teve, segundo a opinião respeitável da poesia
anônima:
Na Rua Feliz Lembrança
Eu escapei por um triz
De ser mandado à tábua.
Ai! que lembrança infeliz
Tal nome pôr nesta rua!
Há ruas que têm as blandícias de Goriot e de Shylock para vos emprestar a juro, para
esconder quem pede e paga o explorador com ar humilde. Não vos lembrais da Rua do
Sacramento, da rua dos penhores? Uma aragem fina e suave encantava sempre o ar. Defronte à
igreja, casas velhas guardavam pessoas tradicionais. No Tesouro, por entre as grades de ferro,
uma ou outra cara desocupada. E era ali que se empenhavam as jóias, que pobres entes
angustiados iam levar os derradeiros valores com a alma estrangulada de soluços; era ali que
refluíam todas as paixões e todas as tristezas, cujo lenitivo dependesse de dinheiro...
Há ruas oradoras, ruas de meeting — o Largo do Capim que assim foi sempre, o Largo
de S. Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que parecem sorrir com honestidade — a Rua
de Haddock Lobo; ruas em que não se arrisca a gente sem volver os olhos para trás a ver se nos
vêem —a Travessa da Barreira; ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de prazer suspeito
próximo do centro urbano e como que dele muito afastadas; ruas de paixão romântica, que
pedem virgens loiras e luar.
Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós já
sentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?
A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias. Há trechos em que a gente passa
como se fosse empurrada, perseguida, corrida — são as ruas em que os passos reboam,
repercutem, parecem crescer, clamam, ecoam e, em breve, são outros tantos passos ao nosso
encalço. Outras que se envolvem no mistério logo que as sombras descem — o Largo de Paço.
Foi esse largo o primeiro esplendor da cidade. Por ali passaram, na pompa dos pálios e dos
baldaquins d’ouro e púrpura, as procissões do Enterro, do Triunfo, do Senhor dos Passos; por ali,
ao lado da Praia do Peixe, simples vegetação de palhoças, o comércio agitava as suas primeiras
elegâncias e as suas ambições mais fortes. O largo, apesar das reformas, parece guardar a
tradição de dormir cedo. À noite, nada o reanima, nada o levanta. Uma grande revolução morre
no seu bojo como um suspiro; a luz leva a lutar com a treva; os próprios revérberos parece
dormitarem, e as sombras que por ali deslizam são trapos da existência almejando o fim
próximo, ladrões sem pousada, imigrantes esfaimados... Deixai esse largo, ide às ruelas da
Misericórdia, trechos da cidade que lembram o Amsterdão sombrio de Rembrandt. Há homens
em esteiras, dormindo na rua como se estivessem em casa. Não nos admiremos. Somos reflexos.
O Beco da Música ou o Beco da Fidalga reproduzem a alma das ruas de Nápoles, de Florença,
das ruas de Portugal, das ruas da África, e até, se acreditarmos na fantasia de Heródoto, das ruas
do antigo Egito. E por quê? Porque são ruas da proximidade do mar, ruas viajadas, com a visão
de outros horizontes. Abri uma dessas pocilgas que são a parte do seu organismo. Haveis de ver
chineses bêbados de ópio, marinheiros embrutecidos pelo álcool, feiticeiras ululando canções
sinistras, toda a estranha vida dos portos de mar. E esses becos, essas betesgas têm a perfídia dos
oceanos, a miséria das imigrações, e o vício, o grande vício do mar e das colônias...
Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias, filosofia e religião. Há ruas
inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião.
Trafalgar Square, dizia o mestre humorista Jerome, não tem uma opinião teológica definitiva. O
mesmo se pode dizer da Praça da Concórdia de Paris ou da Praça Tiradentes. Há criatura mais
sem miolos que o Largo do Rocio? Devia ser respeitável e austero. Lá, Pedro I, trepado num
belo cavalo e com um belo gesto, mostra aos povos a carta da independência, fingindo dar um
grito que nunca deu. Pois bem: não há sujeito mais pândego e menos sério do que o velho ex-
Largo do Rocio. Os seus sentimentos religiosos oscilam entre a depravação e a roleta.
Felizmente, outras redimem a sociedade de pedra e cal, pelo seu culto e o seu fervor. A Rua
Benjamin Constant está neste caso, é entre nós um tremendo exemplo de confusão religiosa.
Solene, grave, guarda três templos, e parece dizer com circunspecção e o ar compenetrado de
certos senhores de todos nós conhecidos:
— Faço as obras do Coração de Jesus, creio em Deus, nas orações, nos bentinhos e só
não sou positivista porque é tarde para mudar de crença. Mas respeito muito e admiro Teixeira
Mendes...
Nós, os homens nervosos, temos de quando em vez alucinações parciais da pele, dores
fulgurantes, a sensação de um contacto que não existe, a certeza de que chamam por nós. As ruas
têm os rolos, as casas mal assombradas, e há até ruas possessas, com o diabo no corpo. Em S.
Luís do Maranhão há uma rua sonâmbula muito menos cacete que a ópera célebre do mesmo
nome. Essa rua é a Rua de Santa Ana, a lady Macbeth da topografia. Deu-se lá um crime
horrível. Às dez horas, a rua cai em estado sonambúlico e é só gritos, clamores: sangue! sangue!
Ruas assim ainda mostram o que pensam. Talvez as outras tenham maiores delírios, mas
são como os homens normais — guardam dentro do cérebro todos os pensamentos
extravagantes. Quem se atreveria a resumir o que num minuto pensa de mal, de inconfessável, o
mais honesto cidadão? Entre as ruas existem também as falsas, as hipócritas, com a alma de
Tartufo e de Iago. Por isso os grandes mágicos do interior da África Central, que dos sertões
adustos levavam às cidades inglesas do litoral sacos d’ouro em pó e grandes macacos tremendos,
têm uma cantiga estranha que vale por uma sentença breve de Catão:
O di ti a uê, chê
F’u, a uá ny
Odé, odá, bi ejô
Sa lo dê
Sentença que em eubá
2
, o esperanto das hordas selvagens, quer dizer apenas isto: rua foi
feita para ajuntamentos. Rua é como cobra. Tem veneno. Foge da rua!
Mas o importante, o grave, é ser a rua a causa fundamental da diversidade dos tipos
urbanos. Não sei se lestes um curioso livro de E. Demolins, Comment la route crée le type
social. É uma revolução no ensino da Geografia. “A causa primeira e decisiva da diversidade das
raças, diz ele, é a estrada, o caminho que os homens seguirem. Foi a estrada que criou a raça e o
tipo social. Os grandes caminhos do globo foram, de qualquer forma, os alambiques poderosos
2
Dialeto do reino iorubá Egbá, língua geral dos negros oriundos da atual Nigéria.
que transformaram os povos. Os caminhos das grandes estepes asiáticas, das tundras siberianas,
das savanas da América ou das florestas africanas insensivelmente e fatalmente criaram o tipo
tártaro-mongol, o lapão-esquimó, o pele-vermelha, o índio, o negro”.
A rua é a civilização da estrada. Onde morre o grande caminho começa a rua, e, por isso,
ela está para a grande cidade como a estrada está para o mundo. Em embrião, é o princípio, a
causa dos pequenos agrupamentos de uma raça idêntica. Daí, em muitos sítios da terra as aldeias
terem o único nome de rua. Quando aumentam e crescem depois, ou pela devoção da maioria
dos habitantes ou por uma impressão de local, acrescentam ao substantivo rua o complemento
que das outras as deve diferençar. Em Portugal esse fato é comum. Há uma aldeia de 700
habitantes no Minho que se chama modestamente Rua de S. Jorge, uma outra no Douro que é a
Rua da Lapela, e existem até uma Rua de Cima e uma Rua de Baixo.
Nas grandes cidades a rua passa a criar o seu tipo, a plasmar o moral dos seus habitantes,
a inocular-lhes misteriosamente gostos, costumes, hábitos, modos, opiniões políticas. Vós todos
deveis ter ouvido ou dito aquela frase:
— Como estas meninas cheiram a Cidade Nova!
Não é só a Cidade Nova, sejam louvados os deuses! Há meninas que cheiram a Botafogo,
a Haddock Lobo, a Vila Isabel, como há velhas em idênticas condições, como há homens
também. A rua fatalmente cria o seu tipo urbano como a estrada criou o tipo social. Todos nós
conhecemos o tipo do rapaz do Largo do Machado: cabelo à americana, roupas amplas à inglesa,
lencinho minúsculo no punho largo, bengala de volta, pretensões às línguas estrangeiras, calças
dobradas como Eduardo VII e toda a snobopolis do universo. Esse mesmo rapaz, dadas idênticas
posições, é no Largo do Estácio inteiramente diverso. As botas são de bico fino, os fatos em
geral justos, o lenço no bolso de dentro do casaco, o cabelo à meia cabeleira com muito óleo. Se
formos ao Largo do Depósito, esse mesmo rapaz usará lenço de seda preta, forro na gola do
paletot, casaquinho curto e calças obedecendo ao molde corrente na navegação aérea — calças à
balão.
Esses três rapazes da mesma idade, filhos da mesma gente honrada, às vezes até parentes,
não há escolas, não há contactos passageiros, não há academias que lhes tranformem o gosto por
certa cor de gravatas, a maneira de comer, as expressões, as idéias — porque cada rua tem um
stock especial de expressões, de idéias e de gostos. A gente de Botafogo vai às “primeiras” do
Lírico, mesmo sem ter dinheiro. A gente de Haddock Lobo tem dinheiro mas raramente vai ao
Lírico. Os moradores da Tijuca aplaudem Sarah Bernhardt como um prodígio. Os moradores da
Saúde amam enternecidamente o Dias Braga. As meninas das Laranjeiras valsam ao som das
valsas de Strauss e de Berger, que lembram os cassinos da Riviera e o esplendor dos kursaals
3
.
As meninas dos bailes de Catumbi só conhecem as novidades do senhor Aurélio Cavalcante. As
conversas variam, o amor varia, os ideais são inteiramente outros, e até o namoro, essa
encantadora primeira fase do eclipse do casamento, essa meia ação da simpatia que se funde em
desejo, é abolutamente diverso. Em Botafogo, à sombra das árvores do parque ou no grande
portão, Julieta espera Romeu, elegante e solitária; em Haddock Lobo, Julieta garruleia em
bandos pela calçada; e nas casas humildes da Cidade Nova, Julieta, que trabalhou todo o dia
pensando nessa hora fugace, pende à janela o seu busto formoso...
Oh! sim, a rua faz o indivíduo, nós bem o sentimos. Um cidadão que tenha passado
metade da existência na Rua do Pau Ferro não se habitua jamais à Rua Marquês de Abrantes! Os
intelectuais sentem esse tremendo efeito do ambiente, menos violentamente, mas sentem. Eu
conheci um elegante barão da monarquia, diplomata em perpétua disponibilidade, que a
necessidade forçara a aceitar de certo proprietário o quarto de um cortiço da Rua Bom Jardim. O
pobre homem, com as suas poses à Brummell, sempre de monóculo entalado, era o escândalo da
rua. Por mais que saudasse as damas e cumprimentasse os homens, nunca ninguém se lembrava
de o tratar senão com desconfiança assustada. O barão sentia-se desesperado e resumira a vida
3
Cassino.
num gozo único: sempre que podia, tomava o bonde de Botafogo, acendia um charuto, e ia por
ali altivo, airoso, com a velha redingote
4
abotoada, a “caramela” de cristal cintilante... Estava no
seu bairro. Até parece, dizia ele, que as pedras me conhecem!
As pedras! As pedras são a couraça da rua, a resistência que elas apresentam ao novo
transeunte. Refleti que nunca pisastes pela primeira vez uma rua de arrabalde sem que o vosso
passo fosse hesitante como que, inconscientemente, se habituando ao terreno; refleti nessas
coisas sutis que a vida cria, e haveis de compreender então a razão por que os humildes limitam
todo o seu mundo à rua onde moram, e por que certos tipos, os tipos populares, só o são
realmente em determinados quarteirões.
As ruas são tão humanas, vivem tanto e formam de tal maneira os seus habitantes, que há
até ruas em conflito com outras. Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra como
para inimigos. Em 1805, há um século, era assim: os capoeiras da Praia não podiam passar por
Santa Luzia. No tempo das eleições mais à navalha que à pena, o Largo do Machadinho e a Rua
Pedro Américo eram inimigos irreconciliáveis. Atualmente a sugestão é tal que eles se intitulam
povo. Há o povo da Rua do Senado, o povo da Travessa do mesmo nome, o povo de Catumbi.
Haveis de ouvir, à noite, um grupo de pequenos valentes armados de vara:
— Vamos embora! O povo da Travessa está conosco.
É a Rua do Senado que, aliada à Travessa, vai sovar a Rua Frei Caneca...
Como outrora os homens, mais ou menos notáveis, tomavam o nome da cidade onde
tinham nascido — Tales de Mileto, Luciano de Samosata, Epicarmo de Alexandria — os chefes
da capadoçagem
5
juntam hoje ao nome de batismo o nome da sua rua. Há o José do Senado, o
Juca da Harmonia, o Lindinho do Castelo, e ultimamente, nos fatos do crime, tornaram-se
célebres dois homens, Carlito e Cardosinho, só temidos em toda a cidade, cheia de Cardosinhos
e de Carlitos, porque eram o Carlito e o Cardosinho da Saúde. Direis que é uma observação
puramente local? Não, cem vezes não! Em Paris, a Ville-Lumière, os bandos de assassinos
tomam freqüentemente o nome da rua onde se organizaram; em Londres há ruas dos bairros
trágicos com esse predomínio, e na própria história de Bizâncio haveis de encontrar ruas tão
guerreiras que os seus habitantes as juntavam ao nome como um distintivo.
E assim os tipos populares.
Tive o prazer de conhecer dois desses tipos, em que mais vivamente se exteriorizava a
influência psicológica da rua: o Pai da Criança e a Perereca.
O Pai da Criança estava deslocado, na decadência. Esse ser repugnante nascera como
uma depravação da Rua do Ouvidor. Quando o vi doente, nas tascas da Rua Frei Caneca, como
já não estava na sua rua, não era mais notável. Os garotos já não riam dele, ninguém o seguia, e
o nojento sujeito conversava nas bodegas, como qualquer mortal, da gatunice dos governos. Só
fui descobrir a sua celebridade quando o vi em plena Ouvidor, cheio de fitas, vaiado, cuspindo
insolências, inconcebível de descaro e de náusea. A Perereca, ao contrário. Na Rua do Ouvidor
seria apenas uma preta velha. Na Rua Frei Caneca era o regalo, o delírio, a extravagância. Os
malandrins corriam-lhe ao encalço atirando-lhe pedras, os negociantes chegavam às portas, todas
as janelas iluminavam-se de gargalhadas. E por quê? Porque esses tipos são o riso das ruas e
assim como não há duas pessoas que riam do mesmo modo não há duas ruas cujo riso seja o
mesmo.
Se a rua é para o homem urbano o que a estrada foi para o homem social, é claro que a
preocupação maior, a associada a todas as outras idéias do ser das cidades, é a rua. Nós
pensamos sempre na rua. Desde os mais tenros anos ela resume para o homem todos os ideais,
os mais confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos, desde a noção de liberdade e de
difamação — idéias gerais — até a aspiração de dinheiro, de alegria e de amor, idéias
particulares. Instintivamente, quando a criança começa a engatinhar, só tem um desejo: ir para a
rua! Ainda não fala e já a assustam: se você for para a rua encontra o bicho! Se você sair apanha
4
Sobrecasaca.
5
Malandragem.
palmadas! Qual! Não há nada! É pilhar um portão aberto que o petiz não se lembra mais de
bichos nem de pancadas!
Sair só é a única preocupação das crianças até uma certa idade. Depois continuar a sair
só. E quando já para nós esse prazer se usou, a rua é a nossa própria existência. Nela se fazem
negócios, nela se fala mal do próximo, nela mudam as idéias e as convicções, nela surgem as
dores e os desgostos, nela sente o homem a maior emoção.
Quando se encontra o amor
Na rua, sem o saber...
— Ponho-o no olho da rua! brada o pai ao filho no auge da fúria.
Aí está a rua como expressão da maior calamidade.
— Você está em casa, venha para a rua se é gente!
Aí temos a rua indicando sítio livre para a valentia a substituir o campo de torneio
medieval.
— É mais deslavado que as pedras da rua!
Frase em que se exprime uma sem-vergonhice inconcebível.
— É mais velho que uma rua!
Conceito talvez errado porque há ruas que morrem moças.
Às vezes até a rua é a arma que fere e serve de elogio conforme a opinião que dela se
tem.
— Ah! minha amiga! Meu filho é muito comportado. Já vai à rua sozinho...
— Ah! meninas, o filho de d. Alice está perdido! Pois se até anda sozinho na rua!
E a rua, impassível, é o mistério, o escândalo, o terror...
Os políticos vivem no meio da rua aqui, na China, em Tombuctu, na França; os
presidentes de república, os reis, os papas, no pavor de uma surpresa da rua — a bomba, a
revolta; os chefes de polícia são os alucinados permanentes das ruas; todos quantos querem
subir, galgar a inútil e movediça montanha da glória, anseiam pelo juízo da rua, pela aprovação
da via pública, e há na patologia nervosa uma vasta parte em que se trata apenas das moléstias
produzidas pela rua, desde a neurastenia até à loucura furiosa. E que a rua chega a ser a obsessão
em que se condensam todas as nossas ambições. O homem, no desejo de ganhar a vida com mais
abundância ou maior celebridade, precisava interessar à rua. Começou pois fazendo discursos
em plena ágora
6
, discursos que, desde os tempos mais remotos aos meetings contemporâneos da
estátua de José Bonifácio, falam sempre de coisas altivas, generosas e nobres. Um belo dia, a rua
proclamou a excelente verdade: que as palavras leva-as o vento. Logo, nós assustados,
imaginamos o homem-sandwich, o cartaz ambulante; mandamos pregar-lhe, enquanto dorme,
com muita goma e muita ingenuidade, os cartazes proclamando a melhor conserva, o doce mais
gostoso, o ideal político mais austero, o vinho mais generoso, não só em letras impressas mas
com figuras alegóricas, para poupar-lhe o trabalho de ler, para acariciar-lhe a ignorância, para
alegrá-la. Como se não bastassem o cartaz, a lanterna mágica, o homem-sandwich,
desveladamente, aos poucos, resolvemos compor-lhe a história e fizemos o jornal — esse
formidável folhetim-romance permanente, composto de verdades, mentiras, lisonjas, insultos e
da fantasia dos Gaboriau
7
que somos todos nós...
Há uma estética da rua, afirmou Bulls. Sim. Há. Porque as atrizes de fama, os oradores
mais populares, os hércules mais cheios de força, os produtos mais evidentes dos blocos
comerciais, vivem de procurar agradá-la. Desse orgulho transitório surgiu para a rua a glória
policroma da arte. O temor de serem esquecidos criou para cada uma a roupagem variada,
encheu-as como Melusinas de pedra, como fadas cruéis que se teme e se satisfaz, de vestidos
6
Praça central das cidades da antiga Grécia, em torno da qual se fazia a vida urbana.
7
Émile Gaboriau, escritor francês do século XIX, tido como o criador do romance policial.
múltiplos, de cores variegadas, de fanfreluches
8
de papel, da ardência fulgurante das montras de
cambiantes luzentes; deu-lhes uma perpétua apoteose de sacrifício à espera do milagre do lucro
ou da popularidade. A estética, a ornamentação das ruas, é o resultado do respeito e do medo que
lhes temos...
No espírito humano a rua chega a ser uma imagem que se liga a todos os sentimentos e
serve para todas as comparações. Basta percorrer a poesia anônima para constatar a flagrante
verdade. É quase sempre na rua que se fala mal do próximo. Folheemos uma coleção de fados.
Lá está a idéia:
Adeus, ó Rua Direita
Ó Rua da Murmuração.
Onde se faz audiência
Sem juiz nem escrivão.
Aliás muito tímida, como devendo ser cantada por quem tem culpa no cartório. Mas, se
um apaixonado quer descrever o seu peito, só encontra uma comparação perfeita.
O meu peito é uma rua
Onde o meu bem nunca passa,
É a rua da amargura
Onde passeia a desgraça.
Se sente o apetite de descrever, os espécimens são sem conta.
Na rua do meu amor
Não se pode namorar:
De dia, velhas à porta,
De noite, cães a ladrar.
E é suave lembrar aquele sonhador que, defronte da janela da amada e desejando realizar
o impossível para lhe ser agradável, só pôde sussurrar esta vontade meiga:
Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
De pedrinhas de brilhante
Para meu bem passar.
O povo observa também, e diz mais numa quadra do que todos nós a armar o efeito de
períodos brilhantes. Sempre recordarei um tocador de violão a cantar com lágrimas na voz como
diante do inexorável destino:
Vista Alegre é rua morta
A Formosa é feia e brava
A Rua Direita é torta
A do Sabão não se lava...
Toda a psicologia das construções e do alinhamento em quatro versos! A rua chega a
preocupar os loucos. Nos hospícios, onde esses cavalheiros andam doidos por se ver cá fora,
8
Ornamento de pouco valor.
encontrei planos de ruas ideais, cantores de rua, e um deles mesmo chegou a entregar-me um
longo poema que começava assim:
A rua...
Cumprida, cumprida, atua...
Olê! complicada, complicada, alua
A rua
Nua!
Essa idéia reflete-se nas religiões, nos livros sagrados, na arte de todos os tempos, cada
vez mais afiada, cada vez mais sensível. Na literatura atual a rua é a inspiração dos grandes
artistas, desde Victor Hugo, Balzac e Dickens, até às epopéias de Zola, desde o funambulismo de
Banville até o humorismo de Mark Twain. Não há um escritor moderno que não tenha cantado a
rua. Os sonhadores levam mesmo a exagerá-la, e hoje, devido certamente à corrente socialista,
há toda uma literatura em que a alma das ruas soluça. Os poetas refinados levam a mórbida
inspiração a cantar os aspectos parciais da rua. Como os românticos cantavam os pés, os olhos, a
boca e outras partes do corpo das apaixonadas, eles cantam o semblante das casas vazias, os
revérberos de gás como Rodenbach:
Le dimanche, en semaine, et par tous les temps
L’un est debout, un autre, il semble, s’agenouille.
Et chacun se sent seul comme dans une foule.
Les revérbéres des banlieues
Sont des cages oú des oiseaux déplient leurs queues.
Os pregões, as calçadas, e houve até um — Mário Pederneiras —que nos deu a
sutilíssima e admirável psicologia das árvores urbanas:
Com que magoado encanto
Com que triste saudade
Sobre mim atua
Esta estranha feição das árvores da rua.
E elas são, entretanto,
A única ilusão rural de uma cidade!
As árvores urbanas
São, em geral, conselheiras e frias
Sem as grandes expansões e as grandes alegrias
Das provincianas.
Não têm sequer os plácidos carinhos
Dessas largas manhãs provinciais e enxutas.
Nem a orquestra dos ninhos
Nem a graça vegetal das frutas.
Os artistas modernos já não se limitam a exprimir os aspectos proteiformes da rua, a
analisar traço por traço o perfil físico e moral de cada rua. Vão mais longe, sonham a rua ideal,
como sonharam um mundo melhor. Williams Morris, por exemplo, imaginou nas Novelas de
parte alguma a rua socialista e rara, com edifícios magníficos, sem mendigos e sem dinheiro.
Rimbaud, nas Illuminations, teve a idéia da rua babélica, reproduzindo nos edifícios, sob o céu
cinzento, todas as maravilhas clássicas da arquitetura. Bellamy, no Locking Bockward,
sonhava o agrupamento dos grandes armazéns; e hoje, entre essas ruas de sonho, que Gustavo
Khan considera as ruas utópicas e que talvez se tornem realidade um dia, é o estranho e infernal
sulco descrito por Wells na História dos tempos futuros, rua em que tudo dependerá de
sindicatos formidáveis, em que tudo será elétrico, em que os homens, escravos de meia dúzia,
serão como os elos de uma mesma corrente arrastados pelo trabalho através dos casarões.
Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, na
alma dos poetas, no cérebro das multidões. Quem criou o reclamo? A rua! Quem inventou a
caricatura! A rua! Onde a expansão de todos os sentimentos da cidade? Na rua! Por isso para dar
a expressão da dor funda, o grande poeta Bilac fez um dia:
A Avenida assombrada e triste da saudade
Onde vem passear a procissão chorosa
Dos órfãos do carinho e da felicidade.
E certo poeta árabe, reconhecendo com a presciência dos vates que só a rua nos pode dar
a expressão do sofrimento absoluto como da alegria completa, escreveu a celebrada Praça do
riso ao nascer da aurora; o riso de cristal das crianças, o riso perlado das mulheres, o riso grave
dos homens a formar um conjunto de tanta harmonia que as árvores também riam no canto dos
pássaros, e a própria umbela azul do céu se estriava d’ouro no imenso riso do sol..
Neste elogio, talvez fútil, considerei a rua um ser vivo, tão poderoso que consegue
modificar o homem insensivelmente e fazê-lo o seu perpétuo escravo delirante, e mostrei mesmo
que a rua é o motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso. A rua tem ainda um
valor de sangue e de sofrimento: criou um símbolo universal. Há ainda uma rua, construída na
imaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a nossa
vontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo. Todos
acotovelam-se e vociferam aí, todos, vindos da Rua da Alegria ou da Rua da Paz, atravessando
as betesgas
9
do Saco do Alferes ou descendo de automóvel dos bairros civilizados, encontram-se
aí e aí se arrastam, em lamentações, em soluços, em ódio à vida e ao Mundo. No traçado das
cidades ela não se ostenta com as suas imprecações e os seus rancores. É uma rua esconsa e
negra, perdida na treva, com palácios de dor e choupanas de pranto, cuja existência se conhece
não por um letreiro à esquina, mas por uma vaga apreensão, um irredutível sentimento de
angústia, cuja travessia não se pode jamais evitar. Correi os mapas de Atenas, de Roma, de
Nínive ou de Babilônia, o mapa das cidades mortas. Termas, canais, fontes, jardins suspensos,
lugares onde se fez negócio, onde se amou, lugares onde se se cultuaram os deuses — tudo desa-
pareceu. Olhai o mapa das cidades modernas. De século em século a transformação é quase
radical. As ruas são perecíveis como os homens. A outra, porém, essa horrível rua de todos
conhecida e odiada, pela qual diariamente passamos, essa é eterna como o medo, a infâmia, a
inveja. Quando Jerusalém fulgia no seu máximo esplendor, já ela lá existia. Enquanto em Atenas
artistas e guerreiros recebiam ovações, enquanto em Roma a multidão aplaudia os gladiadores
triunfais e os césares devassos, na rua aflitiva cuspinhava o opróbrio e chorava a inocência.
Cartago tinha uma rua assim, e ainda hoje Paris, New York, Berlim a têm, cortando a sua
alegria, empanando o seu brilho, enegrecendo todos os triunfos e todas as belezas. Qual de vós
não quebrou, inesperadamente, o ângulo em arestas dessa rua? Se chorastes, se sofrestes a
calúnia, se vos sentistes ferido pela maledicência, podereis ter a certeza de que entrastes na
obscura via! Ah! Não procureis evita-la! Jamais o conseguireis. Quanto mais se procura dela sair
mais dentro dela se sofre. E não espereis nunca que o mundo melhore enquanto ela existir. Não é
uma rua onde sofrem apenas alguns entes, é a rua interminável, que atravessa cidades, países,
continentes, vai de pólo a pólo; em que se alanceiam todos os ideais, em que se insultam todas as
verdades, onde sofreu Epaminondas e pela qual Jesus passou. Talvez que extinto o mundo,
9
Viela, rua estreita.
apagados todos os astros, feito o universo treva, talvez ela ainda exista, e os seus soluços
sinistramente ecoem na total ruína, rua das lágrimas, rua do desespero — interminável rua da
Amargura.
O QUE SE VÊ NAS RUAS
Pequenas Profissões
O cigano aproximou-se do catraieiro
10
. No céu, muito azul, o sol derramava toda a sua
luz dourada. Do cais via-se para os lados do mar, cortado de lanchas, de velas brancas, o
desenho multiforme das ilhas verdejantes, dos navios, das fortalezas. Pelos boulevards
sucessivos que vão dar ao cais, a vida tumultuária da cidade vibrava num rumor de apoteose, e
era ainda mais intensa, mais brutal, mais gritada, naquele trecho do Mercado, naquele pedaço da
rampa, viscoso de imundícies e de vícios. O cigano, de frack e chapéu mole, já falara a dois
carroceiros moços e fortes, já se animara a entrar numa taberna de freguesia retumbante. Agora,
pelos seus gestos duros, pelo brilho do olhar, bem se percebia que o catraieiro seria a vítima, a
vítima definitiva, que ele talvez procurasse desde manhã, como um milhafre
11
esfomeado.
Eduardo e eu caminhamos para a rampa, na aragem fina da tarde que se embebia de
todos aqueles cheiros de maresia, de gordura, de aves presas, de verduras. O catraieiro batia
negativamente com a cabeça.
— Uma calça, apenas uma, em muito bom estado.
— Mas eu não quero.
— Ninguém lhe vende mais barato, palavra de honra. E a fazenda? Veja a fazenda.
Desenrolou com cuidado um embrulho de jornal. De dentro surgiu um pedaço de calça
cor de castanha.
— Para o serviço! Dois mil réis, só dois!...Eu tenho família, mãe, esposa, quatro filhos
menores. Ainda não comi hoje! Olhe, tenho aqui uns anéis...não gosta de anéis?
O catraieiro ficara, sem saber como, com o embrulho das calças, e o seu gesto fraco de
negativa bem anunciava que iria ficar também com um dos anéis. O cigano desabotoara o frack,
cheio de súbito receio.
— É um anel de ouro que eu achei, ouro legítimo. Vendo barato: oito mil réis apenas.
Tudo dez mil réis, conta redonda!
O catraieiro sorria, o cigano era presa de uma agitação estranha, agarrando a vítima pelo
braço, pela camisa, dando pulos, para lhe cochichar ao ouvido palavras de maior tentação;
ninguém naquele perpétuo tumulto, ninguém no rumor do estômago da cidade, olhava sequer
para o negócio desesperado de cigano. Eduardo, que nessa tarde passeava comigo, arrastou-me
pelo ex-Largo do Paço, costeando o cais até a velha estação das barcas.
— Admiraste aquele negociante ambulante?
— Admirei um refinado “vigarista”...
— Oh! meu amigo, a moral é uma questão de ponto de vista. Aquele cigano faz parte de
um exército de infelizes, a que as condições da vida ou do próprio temperamento, a fatalidade,
enfim, arrasta muita gente. Lembras-te de La romera de Santiago, de Velez de Guevara? Há lá
uns versos que bem exprimem o que são essas criaturas:
Estos son algunos hombres
10
Barqueiro de catraia (bote de um só lugar).
11
Ave de rapina.
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Saliendose a los caminos...
É quanto basta como moral. Não sejamos excessivos para os humildes.
O Rio tem também as suas pequenas profissões exóticas, produto da miséria ligada às
fábricas importantes, aos adelos, ao baixo comércio; o Rio, como todas as grandes cidades,
esmiúça no próprio monturo a vida dos desgraçados. Aquelas calças do cigano, deram-lhas ou
apanhou-as ele no monturo, mas como o cigano não faz outra coisa na sua vida senão vender
calçar velhas e anéis de plaquet
12
, aí tens tu uma profissão da miséria, ou se quiseres, da
malandrice — que é sempre a pior das misérias. Muito pobre diabo por aí pelas praças parece
sem ofício, sem ocupação. Entretanto, coitados! o ofício, as ocupações, não lhes faltam, e
honestos, trabalhosos, inglórios, exigindo o faro dos cães e a argúcia dos reporters.
Todos esses pobres seres vivos tristes vivem do cisco, do que cai nas sarjetas, dos ratos, dos
magros gatos dos telhados, são os heróis da utilidade, os que apanham o inútil para viver, os
inconscientes aplicadores à vida das cidades daquele axioma de Lavoisier: nada se perde na
natureza. A polícia não os prende, e, na boêmia das ruas, os desgraçados são ainda explorados
pelos adelos
13
, pelos ferros-velhos, pelos proprietários das fábricas...
— As pequenas profissões!... É curioso!
As profissões ignoradas. Decerto não conheces os trapeiros sabidos, os apanha-rótulos,
os selistas, os caçadores, as ledoras de buena dicha. Se não fossem o nosso horror, a Diretoria de
Higiene e as blagues das revistas de ano, nem os ratoeiros seriam conhecidos.
— Mas, senhor Deus! é uma infinidade, uma infinidade de profissões sem academia! Até
parece que não estamos no Rio de Janeiro...
— Coitados! Andam todos na dolorosa academia da miséria, e, vê tu, até nisso há
vocações! Os trapeiros, por exemplo, dividem-se em duas especialidades — a dos trapos limpos
e a de todos os trapos. Ainda há os cursos suplementares dos apanhadores de papéis, de cavacos
e de chumbo. Alguns envergonham-se de contar a existência esforçada. Outros abundam em
pormenores e são um mundo de velhos desiludidos, de mulheres gastas, de garotos e de crianças,
filhos de família, que saem, por ordem dos pais, com um saco às costas, para cavar a vida nas
horas da limpeza das ruas.
De todas essas pequenas profissões a mais rara e a mais parisiense é a dos caçadores, que
formam o sindicato das goteiras e dos jardins. São os apanhadores de gatos para matar e levar
aos restaurants, já sem pele, onde passam por coelho. Cada gato vale dez tostões no máximo.
Uma só das costelas que os fregueses rendosos trincam, à noite, nas salas iluminadas dos hotéis,
vale muito mais. As outras profissões são comuns. Os trapeiros existem desde que nós
possuímos fábricas de papel e fábricas de móveis. Os primeiros apanham trapos, todos os trapos
encontrados na rua, remexem o lixo, arrancam da poeira e do esterco os pedaços de pano, que
serão em pouco alvo papel; os outros têm o serviço mais especial de procurar panos limpos,
trapos em perfeito estado, para vender aos lustradores das fábricas de móveis. As grandes casas
desse gênero compram em porção a traparia limpa. A uns não prejudica a intempérie, aos
segundos a chuva causa prejuízos enormes. Imagina essa pobre gente, quando chove, quando
não há sol, com o céu aberto em cataratas e, em cada rua, uma inundação!
— Falaste, entretanto, dos sabidos?
— Ah! os sabidos dedicam-se a pesquisar nos montes de cisco as botas e os sapatos
velhos, e batem-se por duas botas iguais com fúria, porque em geral só se encontra uma
desirmanada. Esses infelizes têm preço fixo para o trabalho, uma tarifa geral combinada entre os
compradores, os italianos remendões. Um par de botas, por exemplo, custa 400 réis, um par de
12
Imitação de ouro.
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Quem compra e vende objetos usados; brechó.
sapatos 200 réis. As classes pobres preferem as botas aos sapatos. Uma bota só, porém, não se
vende por mais de 100 réis.
— Mas é bem pago!
— Bem pago? Os italianos vendem as botas, depois de consertadas, por seis e sete mil
réis! E o mesmo que acontece aos molambeiros ambulantes como o cigano que acabamos de ver
— os belchiores compram as roupas para vendê-las com quatrocentos por cento de lucro. Há
ainda os selistas e os ratoeiros. Os selistas não são os mais esquadrinhadores, os agentes sem
lucro do desfalque para o cofre p