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UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TECNOLOGIA
ESTUDANTES DE ENGENHARIA NA UTFPR: UMA ABORDAGEM DE GÊNERO
JOSIMEIRE DE LIMA SOBREIRA
Dissertação apresentada como requisito parcial para
a obtenção do grau de Mestre em Tecnologia.
Programa de Pós-Graduação em Tecnologia,
Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
Orientador(a): Profa. Dra. Marília Gomes de Carvalho
CURITIBA
2006
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2
JOSIMEIRE DE LIMA SOBREIRA
ESTUDANTES DE ENGENHARIA NA UTFPR: UMA ABORDAGEM DE GÊNERO
Dissertação apresentada como requisito parcial para a
obtenção do grau de Mestre em Tecnologia. Programa
de Pós-Graduação em Tecnologia, Universidade
Tecnológica do Paraná.
Orientadora: Profa. Dra. Marília Gomes de Carvalho
CURITIBA
2006
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3
4
Dedico este trabalho a André e Sofia,
os amores de minha vida.
5
AGRADECIMENTOS
Ao longo deste trabalho, fui agraciada pela contribuição de muitas pessoas que, direta e
indiretamente, me ajudaram a concluí-lo. Foram pessoas que falaram e ouviram, a fim de
me impulsionar para o melhor desenvolvimento possível desta pesquisa.
Assim, em primeiro lugar, agradeço à professora Marília Gomes de Carvalho, pela sua
orientação, paciência e dedicação, tanto no que se refere ao seu apoio intelectual, quanto
pessoal. Foram encontros muito prazerosos, e suas críticas e estímulos foram sempre
muito úteis para esta caminhada.
À professora Sonia Ana Leszczynsk, pelos longos empréstimos de seus trabalhos, pela
sua disposição em me atender em seu ambiente de trabalho, pelo seu incentivo e alegria
em ver estudantes crescendo dentro da Instituição.
Às professoras Maria Rosa Lombardi e Fanny Tabak, agradeço por suas importantes
contribuições para o desenvolvimento desta pesquisa e por terem aceitado participar da
avaliação da mesma.
Aos professores e professoras deste Programa que, ao longo de suas aulas e conversas,
contribuíram para que esta pesquisadora amadurecesse suas idéias e concretizasse esta
pesquisa.
A todos os funcionários da Instituição que colaboraram para o fornecimento de dados
para a pesquisa. Em especial à funcionária Lindamir, secretária do PPGTE, que sempre
me atendeu com muita presteza e carinho, à Andréa do DIVOE (Divisão de Orçamento e
Estatística), ao funcionário Ariberto da Comissão de Vestibulares, à funcionária
Rosangela da Secretaria Geral e à funcionária Alsira da Biblioteca da Pós-Graduação. A
todos os alunos e alunas que concederam parte de seu tempo, e se dispuseram a atender
à pesquisadora, com especial auxílio de Márcia Claudia Masur.
À empresa Arteche EDC Equipamentos e Sistemas S/A. e seu diretor industrial, Carlos
Alberto Incote, que colaborou para elucidar a realidade do mercado de trabalho para as
engenheiras e engenheiros.
Ao meu marido e sua família, que se dispuseram a cuidar de nossa filha, com muito amor
e carinho, e com isso me auxiliaram no desenvolvimento e conclusão deste trabalho.
E, finalmente, agradeço a Deus, que me deu serenidade e perseverança para poder
realizar um sonho, este trabalho.
6
“O sentido das coisas não está nas
coisas em si,
mas sim em nossa
atitude em relação a elas”.
ANTOINE DE SAINT-EXÚPERY
7
SUMÁRIO
LISTA DE TABELAS...........................................................................................IX
RESUMO.................................................................................................................
ABSTRACT.............................................................................................................
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................
2 CONCEITUAÇÃO BÁSICA...............................................................................
2.1 GÊNERO: ELEMENTO BASE DAS RELAÇÕES SOCIAIS..............................
2.2 TECNOLOGIA: ELEMENTO QUE PERMEIA AS RELAÇÕES SOCIAIS........
2.3 A INTERAÇÃO GÊNERO E TECNOLOGIA....................................................
2.4 A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE FEMININA..............................................
2.5 A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA CIÊNCIA........................................
2.6 A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES CIENTISTAS NO BRASIL...................
3 TRABALHO: A BASE DE TODA SOCIEDADE...............................................
3.1 A DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO..............................................................
3.2 TRABALHADORAS BRASILEIRAS..................................................................
3.3 ENGENHEIRAS E MERCADO DE TRABALHO NA DÉCADA DE 90..............
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA................................
4.1 OS FATORES LIMITADORES DA PESQUISA................................................
5 AMBIENTE PESQUISADO...............................................................................
5.1 A ESCOLA E A SUA HISTÓRIA.......................................................................
5.2 UTFPR- CAMPUS CURITIBA: UM DOMÍNIO MASCULINO?..........................
5.3 OS CURSOS DE ENGENHARIA DA UTFPR, CAMPUS CURITIBA................
5.4 AS PRIMEIRAS MULHERES ENGENHEIRAS DA INSTITUIÇÃO...................
5.5 AS MUDANÇAS NO ENSINO DE ENGENHARIA............................................
6 RESULTADOS DA PESQUISA QUALITATIVA...............................................
6.1 CARACTERIZAÇÃO DOS/AS ENTREVISTADOS/AS....................................
6.2 INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS DAS ENTREVISTAS......................
6.2.1 A ESCOLHA DO CURSO E DA INSTITUIÇÃO...........................................
8
6.2.2 A PERCEPÇÃO DOS/AS DISCENTES EM RELAÇÃO A ELES MESMOS E
AS/AOS PROFESSORES/AS...................................................................................
6.2.3 A EXPECTATIVA DOS/AS DISCENTES FRENTE AO MERCADO DE
TRABALHO................................................................................................................
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................
7.1 SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS...............................................
REFERÊNCIAS....................................................................................................
APÊNDICE...........................................................................................................
9
LISTA DE TABELAS
TABELA 1 – Número de horas semanais dedicadas aos afazeres domésticos por pessoas
de 10 anos e mais, segundo o sexo Brasil 2001-2002...............................................
TABELA 2 – Atributos femininos e masculinos.................................................................
TABELA 3 – Distribuição dos Pesquisadores por sexo 1995,1997,2000,2002 e 2004....
TABELA 4 –Distribuição de bolsas do CNPq segundo a modalidade e sexo do
contemplado, 2001 e 2002........................................................................................
TABELA 5 Ensino Superior Ingressos pelo vestibular por sexo, segundo as áreas do
conhecimento – Brasil 1995-2002..............................................................................
TABELA 6 Parcela feminina nos empregos para engenheiros, segundo a especialidade,
no Brasil – 1990-2000.................................................................................................
TABELA 7 Empregos para engenheiros, segundo o setor de atividade e o sexo, no
Brasil
2000.........................................................................................................................
TABELA 8 Distribuição por gênero, do corpo discente dos cursos de engenharia da
UTFPR, campus Curitiba, 1991-2000........................................................................
TABELA 9 – Alunos matriculados no ano de 1979..........................................................
TABELA 10 – Perfil dos/as entrevistados/as......................................................................
10
RESUMO
Esta dissertação foi desenvolvida com o objetivo de analisar questões relativas ao gênero
que permeiam as relações entre os/as estudantes de engenharia da UTFPR neste novo
milênio. Para a realização da pesquisa, adotou-se uma abordagem qualitativa e
quantitativa, a fim de melhor colaborar para a elucidação do problema. A pesquisa
envolveu a análise de relatórios sobre o ingresso de alunos e alunas do CEFET-PR
*
na
década de 90, e também a realização de entrevistas com os/as atuais estudantes de
engenharia da Instituição. Buscou-se conhecer a realidade atual da sala de aula, por
entender que a dinâmica da sala é fator imprescindível para a análise das questões de
gênero nas engenharias. Entende-se ainda que os cursos de engenharia representam
guetos masculinos, em que a presença feminina ainda é modesta, apesar de crescente.
Os resultados mostraram que ainda predominam os padrões tradicionais de gênero. A
visão estereotipada e dicotômica permanece. O mercado de trabalho das engenharias
não está totalmente aberto às engenheiras, apesar do aumento do número de moças que
optam por essa área. Este fato demonstra que a engenharia continua sendo uma área
refratária à participação feminina, mas isto não significa que elas não estejam
ingressando e tendo sucesso como alunas e profissionais.
Palavras-chave: Representações de Gênero; Educação; Tecnologia; Engenharia.
Áreas de conhecimento: Educação; Tecnologia; Multidisciplinar.
*
No período da pesquisa de campo a instituição ainda é CEFET-PR.
11
ABSTRACT
The main object of the present work is the analysis of gender-related issues which
permeate the relations among engineering students at UTFPR in this new millennium. A
qualitative and quantitative approach was adopted to carry on the research in order to
facilitate the enlightening of the matter. The research implied the analysis of reports about
the admission of male and female students at CEFET-PR* in the 90s, as well as surveys
carried out among the institution’s current engineering students. There has been a concern
about getting to know today’s classroom reality, since the dynamic of the room itself is an
essential element for the analysis of gender-related issues in engineering courses. It is
well known that engineering courses represent masculine ghettos, in which the feminine
presence is still modest, although on the increase. The results have shown that the
traditional gender patterns are still predominant. The stereotyped and dichotomic view
remains. Despite the crescent number of women choosing this field of study, the
engineering job market is not totally open to female engineers. This demonstrates that
engineering is still largely impervious to women, but it does not mean they have not been
enrolling in the courses and being successful as students or as professionals in the field.
Key words: Gender Representations; Education; Technology; Engineering.
Areas of Knowledge: Education; Technology; Multidisciplinary.
* At the time the research was conducted the institution was named CEFET-PR.
12
1. INTRODUÇÃO
O interesse pelas questões de gênero iniciou-se com o meu ingresso no GeTec
(Grupo de Gênero e Tecnologia), do CEFET-PR
*
, no ano de 2003, onde as discussões e
debates acerca da participação feminina no mundo da tecnologia foram bastante ricos e
incentivadores para o desenvolvimento do objeto de estudo desta pesquisa. À medida que
se freqüenta a UTFPR, mais se observa que o número de rapazes é surpreendentemente
maior do que o de moças (apesar de estarmos no século XXI), em uma época em que
os estereótipos sexuais já estariam, supostamente, ultrapassados.
O ingresso neste grupo de pesquisa foi o passo para a busca de um conhecimento
mais aprofundado sobre o fato, até então apenas observado. Assim surgiu o interesse por
gênero e tecnologia, tema desta pesquisa, e que resultou na minha entrada no Programa
de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE) do CEFET-PR no ano de 2004.
Também chamou a atenção da pesquisadora, o fato de que o reduzido número de
mulheres dentro da Instituição é visto como algo “natural”, tanto pelos/as alunos/as quanto
pelos/as funcionários/as em geral.
Assim, neste trabalho procura-se analisar as relações de gênero no contexto da
tecnologia, mais especificamente, nas engenharias. Esta análise é realizada a partir da
pesquisa entre alunos e alunas da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR),
campus Curitiba. Acredita-se que pesquisar as relações de gênero nos cursos de
engenharia é importante, pois a análise pode servir para a compreensão da participação
feminina dentro de universos ainda percebidos como masculinos e colaborar para a
elucidação das questões de gênero nesta área do conhecimento.
Mas, por que a escolha de um ambiente de educação tecnológica como a UTFPR?
Porque é fato que as mulheres apresentam maiores dificuldades para ingressar em
carreiras consideradas masculinas, como as áreas de ciência e tecnologia, e, quando
ingressam, enfrentam obstáculos para se posicionar em suas carreiras. Além disso,
nessas áreas, a presença feminina tende a ser invisível (apesar de sua existência). Estas
constatações é que levaram ao interesse pelo tema. Sobre o assunto, Velho e eix
(1998) apontam que a falta de exemplos de mulheres cientistas e engenheiras bem
sucedidas seria uma das causas para essa discreta (mas crescente) participação feminina
nas carreiras científicas e tecnológicas.
*
A pesquisadora realizou o levantamento do problema e a pesquisa de campo, enquanto a instituição
chamava-se CEFET-PR (Centro Federal de Tecnologia do Paraná). Atualmente ela recebe a denominação
de UTFR-PR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná). Optou-se por usar CEFET-PR sempre que a
13
O Estado, enquanto provedor de recursos desta Instituição, tem participado
ativamente nessa formação, uma vez que é ele que está mantendo estes e estas
estudantes na graduação. Seque uma percepção do Estado quanto à diferenciação
de gênero existente dentro e fora desta e de outras instituições? Tabak (2003) lembra que
um país que busca o avanço tecnológico não pode se esquecer da contribuição feminina
para o desenvolvimento científico e tecnológico.
É importante salientar que a tecnologia está dentro de um contexto sócio-histórico
e cultural e que, por isso, permeia todas as relações sociais, inclusive as relações de
gênero, que é assunto de interesse deste estudo.
Além da revisão da literatura, o trabalho também apresenta dados estatísticos, bem
como sua interpretação acerca do acesso de rapazes e moças nos cursos de engenharia
da UTFPR, campus Curitiba. ainda a análise de dados qualitativos, isto é, através de
entrevistas, buscou-se conhecer mais de perto a realidade dos alunos e alunas dos quatro
cursos de engenharia da instituição (mecânica, civil, elétrica e eletrônica). Esta etapa teve
como objetivo desvelar como são as relações de gênero que estão presentes na
academia.
A preocupação com esse tema iniciou-se com as seguintes dúvidas:
como as estudantes de engenharia percebem o mercado de trabalho?
que preocupação tem o Estado com a possível discriminação que ocorre
com as alunas dentro e fora da instituição, uma vez que é o órgão que
custeia estas alunas dentro da Universidade?
será que a possível discriminação inicia dentro da própria instituição
universitária?
Com o objetivo de responder estas e outras questões, desenvolveu-se uma
pesquisa com os alunos e alunas dos cursos de engenharia, cujos resultados são
apresentados neste trabalho. Assim, o problema selecionado que norteou essa pesquisa
foi o seguinte: como a categoria gênero influencia as relações entre os alunos e as alunas
nos cursos de engenharia?
A partir desta questão norteadora da pesquisa, definiu-se como objetivo geral do
trabalho analisar como a categoria gênero se manifestou nas relações entre os alunos e
alunas dos cursos de engenharia do CEFET-PR, a partir da década de 90 até o início do
novo milênio.
Na intenção de atingir este objetivo, definiu-se como objetivos específicos:
referência tiver relação com o período da pesquisa (2004-2005), para as referências ao presente (2006)
será utilizada a terminologia UTFPR.
14
buscar as razões dos/as estudantes para a escolha dos cursos de
engenharia;
conhecer as suas expectativas frente ao futuro mercado de trabalho;
verificar as diferentes percepções que os/as estudantes têm em relação a
eles mesmos e ao outro; e
analisar como se estabelecem as relações entre os/as estudantes dos
diferentes cursos de engenharia.
Dentro desta perspectiva, a pesquisa qualitativa baseou-se na teoria de gênero.
Houve a realização de uma interpretação dos anseios dos/as alunos/as frente à realidade
de sala de aula, bem como das expectativas relativas ao futuro profissional feminino. Para
alcançar os dados que possibilitassem atingir os objetivos propostos, utilizou-se a técnica
da entrevista individual, tanto com rapazes como com moças dos variados cursos de
engenharia da Instituição. Como forma de contribuir para a análise dos dados obtidos via
entrevista, buscou-se também analisar os relatórios dos vestibulares, dados referentes
às/os alunas/os matriculadas/os dos cursos pesquisados (especificamente da última
década).
Enfim, dentro destas perspectivas é que foi traçado todo o trabalho que se
apresenta a seguir.
A dissertação possui uma parte que é a fundamentação teórica, e outra na qual
a apresentação e discussão dos resultados alcançados por meio da pesquisa quantitativa
e qualitativa.
No primeiro capítulo, uma apresentação dos conceitos norteadores da
pesquisa que está baseada em diversas autoras, como Scott (1995), Schienbinger (2001),
Tabak (2002), Lombardi (2004), Velho e eix (1998), entre outras. Trabalha-se mais
detidamente os conceitos de gênero e tecnologia. A escolha destas autoras foi
fundamental para o desenvolvimento desta pesquisa, uma vez que os conceitos por elas
abordados foram os elementos que embasaram todo este trabalho, bem como
contribuíram para a sustentação da argumentação. também uma breve descrição
sobre a participação da mulher na ciência, e principalmente, da mulher cientista brasileira,
dados estes muitas vezes comparados e analisado,s tendo como base dados estatísticos.
O segundo capítulo aponta para o mundo do trabalho, para as trabalhadoras
brasileiras e mais especificamente para o mercado de trabalho das engenheiras na
década de 90, além de abordar a divisão sexual do trabalho, cujo tema teve como
colaboradores/as Hirata (1999 e 2002), Silva (2000), Bastos (1998), Carvalho (2003),
Rapkiewicz (1998), entre outras/os.
15
O capítulo três apresenta os procedimentos metodológicos que indicam o
caminho pelo qual a pesquisa foi trilhada. Dentro desta perspectiva, os capítulos
seguintes mostram os resultados da pesquisa quantitativa e qualitativa.
No quarto capítulo é apresentado um breve histórico da Instituição pesquisada,
bem como uma abordagem dos cursos de engenharia, além de uma análise sobre a
masculinização da Instituição, através de dados quantitativos.
O capítulo cinco é caracterizado pela análise das entrevistas, e pela apresentação
dos dados sobre os entrevistados, fazendo, ao mesmo tempo, um diálogo com os/as
teóricos/as deste assunto, como Lombardi (2005), Silva e Carvalho (2003), Selke (2006-
no prelo), entre outros/as.
Para finalizar este trabalho, o capítulo seis aparece como aquele que vai se
destinar às considerações finais, vale, contudo, apontar para o fato de que este tema não
se encerra aqui, apenas procurou-se elucidar alguns aspectos deste problema.
16
6 CONCEITUAÇÃO BÁSICA
Este capítulo aborda o pensamento de vários autores acerca de conceitos
fundamentais para este trabalho: gênero, tecnologia, ciência e o mundo do trabalho.
São temas amplos, por isso, vale ressaltar que não se pretende esgotar as idéias ou
conceitos sobre o assunto. O objetivo é apenas elucidar a forma como os conceitos aqui
serão tratados.
2.1 GÊNERO: ELEMENTO BASE DAS RELAÇÕES SOCIAIS
“Imagino que para lidar com as diferenças entre nós e as outras pessoas, temos que
aprender compaixão, autocontrole, piedade, perdão, simpatia e amor – virtudes
sem as quais nem nós, nem o mundo pode sobreviver”.
Wendell Berry
É fato que homens e mulheres são diferentes, e que pensam e agem de maneiras
diversas. Essas diferenças eram e ainda são vistas por muitas pessoas como inatas, isto
é, biológicas, por isso, impossíveis de serem alteradas. Não se pode negar que as
diferenças biológicas constituem fator importante nas construções das desigualdades de
gêneros, porém não se deve considerar como o único fator determinante dessas
desigualdades. Simião e Marchi (1997) colocam que esta idéia foi construída socialmente,
e que acabou por definir os comportamentos masculinos e femininos.
Contudo, a partir dos anos 60 e 70 do século passado, este pensamento tem
sofrido sucessivas rupturas, tendo como pano de fundo o movimento feminista, que luta
por uma maior visibilidade feminina na sociedade. Casagrande (2005, p. 22) declara que
“o gênero surge como uma tentativa de fugir dos termos sexo e diferença sexual”. Até
então, predominava na sociedade um discurso da diferença, em que aceitava-se a
dominação de um gênero sobre o outro, e não se contemplava as questões de poder e
desigualdade entre os gêneros.
Gênero, torna-se, então, um conceito útil para discutir os problemas e a situação
da mulher e do homem na sociedade, introduzindo uma visão relacional nos debates
acerca do tema. Scott (1995, p.72) aponta que “as mulheres e os homens eram definidos
em termos recíprocos e não se poderia compreender qualquer um dos sexos por meio de
17
um estudo inteiramente separado”, portanto, analisar e compreender um sexo, implica
necessariamente analisar o outro. A mesma autora ainda coloca que “gênero não implica
necessariamente uma tomada de posição sobre a desigualdade ou o poder, nem
tampouco designa a parte lesada”. Gênero é um conceito empregado tanto para homens
quanto para mulheres, por isso, eixaa-lo como sinônimo de estudos sobre a mulher é
equivocado (MORAES, 1998).
O conceito de gênero apresenta várias vertentes, que possuem diversos enfoques.
Pierucci (1999, p. 125) coloca da seguinte maneira: “sexo é a base biológica, sobre a qual
se constrói o gênero, um corpo sexuado como fêmea é culturalmente percebido e
socialmente construído como feminino”. Esta afirmação vale também para o macho.
No mundo acadêmico, o termo gênero surgiu na década de 80 com o objetivo de
legitimar os estudos feministas que vinham sendo realizados até então. De acordo com
Scott (1995, p.72), “as feministas começaram a utilizar a palavra “gênero” mais
seriamente,(...) num sentido mais literal, como uma maneira de se referir à organização
da relação entre os sexos”, isto é, buscar compreender as relações entre homens e
mulheres além do caráter biológico, pois os seres humanos podem ser realmente
analisados e compreendidos dentro de um contexto social.
De acordo com a idéia sexista ou dicotômica existente, as diferenças entre homens
e mulheres são puramente sexuais. Porém muitos estudiosos consideram determinantes
para uma análise das relações sociais, o conceito de gênero como relacional. Visão esta
cujo ponto de partida é, de acordo com Costa (1994, p. 158), “o sistema social de
relacionamentos dentro do qual os interlocutores se situam”, no qual se privilegia uma
diversidade de homens e mulheres e não apenas uma, aquela considerada natural e
inata. Ainda, sobre o assunto, Costa (1998, p.161) considera que “o feminino existe
enquanto em relação ao masculino”.
O termo gênero é, de acordo com Simião e Marchi (1997, p. 07) “um conceito, uma
categoria que nos permite entender melhor as representações sociais de masculino e
feminino na prática social”. O que é considerado como modelo feminino ou masculino
pode variar de uma sociedade para outra, por isso, deve-se também afirmar que gênero é
um conceito dinâmico. Segundo Costa (1994, P.161), os gêneros passam a ser
entendidos como processos também moldados por escolhas individuais e pressões
situacionais compreensíveis somente no contexto da interação social”.
Carvalho (2003, p.16) também declara que não um único padrão de
comportamento para os homens e outro para as mulheres, mas tantos quantos forem os
números de sociedades ou de situações vividas”. Assim, os padrões de comportamento
18
variam de sociedade para sociedade, aquilo que é natural e aceitável para a sociedade
ocidental, como o fato de uma mulher ser independente, estudar e trabalhar fora do
ambiente doméstico, pode ser considerado inadequado para outra sociedade, como em
alguns países árabes. Por exemplo, no caso do Iraque, muitas mulheres ainda possuem
dificuldades de se posicionar tanto no espaço privado quanto no público, e isso é
decorrência de uma cultura cujos padrões definiram os papéis femininos e masculinos,
dando maior poder ao homem. Daí ser importante salientar que as pesquisas de nero
devem estar localizadas no tempo e no espaço, pois os resultados válidos para uma
sociedade, podem não o ser para outra.
O termo gênero vai além do caráter biológico, ele também leva em conta as
relações de poder, as diferenças étnicas, as crenças, as classes sociais, etc. Isso significa
que se busca analisar o indivíduo dentro de sua plenitude, enquanto ser social e dotado
de uma identidade própria, pois quando se analisa uma sociedade, não é possível
eixaama-la considerando apenas um grupo. O fato é que o mundo é composto por
homens e mulheres, e ambos fazem parte da história, portanto não existem modelos
únicos e permanentes de comportamentos, mas, sim, uma dinamicidade de modelos que
coexistem dentro da nossa sociedade. Por esta razão, Scott (1995, p. 75) declara que
“gênero passa a ser uma categoria útil de análise histórica que permite melhor
compreender as relações que se estabelecem na sociedade em seus mais diferentes
âmbitos”.
Contudo, ainda predomina na sociedade uma visão sexista e dicotômica, o que
deixa de fora a análise das relações de gênero e poder, e cria estereótipos para estes
papéis, definindo o que é ser homem ou mulher. Scott (1995) aponta para o uso da
sexualidade como uma forma de legitimar as relações de poder entre os diferentes sexos.
Tanto os meninos quanto as meninas são desde cedo ensinados a agir e se
comunicar de forma diferenciada. Essa diferenciação acontece em razão da criação de
símbolos ou padrões, que foram socialmente construídos e aceitos. Inúmeros exemplos
mostram esta construção cultural. Destaca-se aqui aquela que considera que a ciência e
a tecnologia foram áreas construídas historicamente como áreas masculinas, cujo o
ingresso de mulheres é ainda reduzido, o que significa que, a princípio, o saber masculino
é mais valorizado do que o feminino.
Este desequilíbrio acontece em razão de o trabalho masculino, que sempre
aconteceu no espaço público, ser mais valorizado, uma vez que gera valor no mundo
capitalista. Enquanto que o trabalho feminino, que foi, durante muito tempo, realizado
predominantemente no espaço privado, não gera nenhum valor capitalista direto.
19
Daí a necessidade de se fazer uma análise das relações de gênero dentro de uma
perspectiva relacional, como apontou anteriormente Scott, pois nesta visão, assume-se
uma pluralidade de masculinidades e feminilidades em contextos sócio-históricos e
culturais diferenciados
1
.
A seguir serão abordados os diferentes conceitos de tecnologia, que é assunto que
estará permeando todo o trabalho, e que é elemento constituinte da realidade atual.
2.2. TECNOLOGIA: ELEMENTO QUE PERMEIA AS RELAÇÕES SOCIAIS
A sociedade atual é marcada pela tecnologia, o cotidiano do homem moderno é
marcado por artefatos, objetos, bens e símbolos que estão vinculados à tecnologia. Mas
será que toda a sociedade vê este fenômeno da mesma forma?
De acordo com Carvalho, et al. (2004)
2
, a tecnologia possui inúmeras
interpretações, como a do senso comum. Aqui a tecnologia é considerada a expressão
material de um processo, que passa a ser visualizado a partir de objetos que serão úteis à
vida humana, isto é, irão facilitar e deixar mais confortável o dia-a-dia dos seres humanos.
Esta é a visão que mais aparece na mídia, e por isso, a mais difundida.
as empresas vêem a tecnologia com um caráter instrumental. Para elas o
recurso tecnológico tem o papel de aumentar a produtividade e a competitividade entre as
corporações, o que gera maiores lucros para as mesmas. Esta é uma visão pragmática
segundo os autores citados (2004), pois a tecnologia assume apenas um papel
utilitarista, que, aliás, é considerado por vários segmentos da sociedade.
Assim, muitos acreditam que a sociedade que não se desenvolve
tecnologicamente não está preparada para ingressar no chamado “mundo moderno”,
portanto está à margem do mesmo, como é o caso de grande parte do continente
africano.
Além da visão instrumental, também que considerar o desenvolvimento
tecnológico como um bem de valor. Muitos vêem a inovação tecnológica como algo
distante da realidade cotidiana, haja vista os pólos de desenvolvimento tecnológico
espalhados pelo mundo, que são vistos como se fossem uma realidade à parte da vida
dos seres humanos.
1
Informações obtidas através de consulta no endereço eletrônico: www.ppgte.cefetpr.br/genero Acessado
em 14/02/2005.
2
Informações obtidas através de consulta no endereço eletrônico:
http://www.ppgte.cefetpr.br/genero/tecnologia.htm Acessado em 14/02/2005.
20
Contudo, o conceito de tecnologia não ficou restrito a esses fins utilitaristas.
Avançando, o meio acadêmico procurou abrir o leque das visões acerca da tecnologia e,
segundo Gama (1987, P.85), a tecnologia é a ciência do trabalho produtivo”, ou seja, a
tecnologia não é apenas instrumental, ela também contempla as dimensões socioculturais
envolvidas na sua produção. Porém, tal concepção considera a tecnologia como um
fenômeno que se manifesta apenas na sociedade moderna, e que se caracteriza pela
existência do trabalho produtivo. Esta visão restringe a possibilidade de pensar que a
tecnologia está presente também em outros tipos de organização social, que não se
moldam pela lógica capitalista, como é o caso de sociedades tribais. Assim, vale lembrar
que todo processo de humanização por si traz a produção de instrumentos que
viabilizam o trabalho, por meio de um conhecimento que pode ser considerado
tecnológico, pois implica a solução de desafios permanentemente enfrentados pelo grupo.
Marx e Engels (1977, v.1, p. 71) declaram que só o ser humano é capaz de
“imprimir na natureza o selo de sua vontade”. E esta vontade pode ser observada na
natureza através de sua transformação. Esta transformação acontece por meio do
trabalho e também do desenvolvimento tecnológico, que é marca humana, como apontam
os autores, “nenhuma mão simiesa construiu jamais um machado de pedra, por mais
tosco que fosse”.
Para estes mesmos autores, no capitalismo, o papel da inovação tecnológica está
na extração da mais-valia, sendo o progresso técnico, ao mesmo tempo, meio de
exploração e de dominação da classe trabalhadora.
Figueiredo aponta para o desenvolvimento tecnológico como algo intimamente
ligado à demanda da economia e das possibilidades geradas pela ciência. Contudo, a
referida autora destaca que nem sempre as descobertas científicas e os inventos
tecnológicos são necessariamente voltados para atender o capitalismo, isto é, voltados
para a obtenção de lucros. Ainda, que “nem todo avanço no conhecimento tem,
necessariamente, implicações na produção, circulação e bens de consumo”
(FIGUEIREDO, 1989, p.14).
Segundo Bastos (1998), a tecnologia envolve todas as dimensões sociais, porque
na produção das condições materiais de vida são necessárias a qualquer sociedade a
criação, a apropriação e a manipulação de técnicas que carregam em si elementos
culturais, políticos, religiosos e econômicos.
Quando se fala em tecnologia, é inevitável abordar também as relações sociais e,
com elas, as relações de gênero que permeiam toda a prática vivida pelos seres
humanos. A tecnologia pode ser definida como
21
... a capacidade de perceber, compreender, criar, adaptar, organizar e produzir insumos, produtos e
serviços. Em outros termos, à tecnologia transcende a dimensão puramente técnica, ao desenvolvimento
experimental ou à pesquisa em laboratório; ela envolve dimensões de engenharia de produção, qualidade,
gerência, marketing, assistência técnica, vendas, dentre outras, que a tornam um vetor fundamental de
expressão da cultura das sociedades (BASTOS, 1998, P.32).
A tecnologia não pode ser vista como uma simples aplicação de técnicas. Os seres
humanos devem ser capazes de compreender e desenvolver uma interação entre o
mundo técnico, social e cultural. Figueiredo (1989, p. 08) aponta para a importância de se
“investigar que interesses prevalecem na satisfação de quais necessidades sociais sob a
pena de se fixar o avanço tecnológico, como auto-sustentado e absurdamente concebido
como fenômeno natural e independente de decisões e vontades humanas”.
Vale lembrar que a tecnologia é um elemento fundamental da nossa sociedade
hoje, mas ela não é o que determina os nossos comportamentos e atitudes frente ao
mundo. A tecnologia não passa de uma realização humana que deve sempre ser
compreendida dentro de um contexto social.
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a tecnologia não está restrita aos
grandes laboratórios e salas de aula de universidades. A tecnologia está no cotidiano das
pessoas e está sempre em constante mutação, seja no âmbito social ou cultural.
Daí a necessidade de conhecer e interpretar a tecnologia, pois é ela que no
cotidiano vai, por meio de uma interação com os seres humanos, provocar alterações em
todos os níveis da sociedade, seja para o bem ou para o mal.
A tecnologia não é, portanto, algo neutro, ela é utilizada por um ser humano, e, de
acordo com Bastos (1998, p.09), “a máquina objetiva, no particular, um modo concreto de
vivenciar a ação social”, que se dá a partir da interação com o ser humano.
Assim, a tecnologia deve ser compreendida como uma necessidade criada pelo e
para o ser humano, que está sempre se transformando, de acordo com as suas
necessidades, sejam sociais, econômicas ou culturais.
Carvalho (2003, p. 20) declara que “houve uma incorporação crescente do
conhecimento científico à tecnologia”, por isso não se pode falar em desenvolvimento
tecnológico sem também se levar em conta o progresso científico. É importante que se vá
além do caráter instrumental da tecnologia, devendo-se também levar em conta os
aspectos sociais, culturais, políticos, históricos, etc.
O papel dos seres humanos e das relações sociais é fundamental dentro deste
contexto, uma vez que são eles que definem o que será desenvolvido, como, quando e a
finalidade de tal desenvolvimento tecnológico, por isso, não se pode entender a tecnologia
como algo autônomo, dotado de vida própria, mas, sim, um serviço que é prestado aos
seres humanos em diferentes circunstâncias, nas diversas sociedades.
22
Bastos (1998) aponta para a importância da educação tecnológica. E coloca que
ela deve ir além de uma preparação adequada de recursos humanos para preencher
quadros e aplicar técnicas. Ela deve, antes de tudo, levar os seres humanos a uma
reflexão frente ao uso da tecnologia e do ambiente em que ela está inserida, pois o uso
das técnicas tende a variar de sociedade para sociedade. Dessa forma, o autor ainda
coloca que a educação e a tecnologia estão juntas com o objetivo de se criar um mundo
real, e não um mundo utópico, recheado de visões maravilhosas acerca da tecnologia.
Cabe, portanto, à educação, desenvolver nos seres humanos uma visão crítica sobre a
tecnologia e sua ação sobre a realidade social.
Por isso, é imprescindível enfatizar que a tecnologia permeia todas as relações
sociais e também as relações de gênero, assunto que será discutido a seguir.
2.3 A INTERAÇÃO GÊNERO E TECNOLOGIA
Considera-se que as relações de gênero estão baseadas numa interação social e,
como já foi comentado, a tecnologia faz parte deste arcabouço social. Torna-se, portanto,
relevante, compreender como se o as relações entre os gêneros, e destes com a
ciência e a tecnologia.
Os seres humanos são influenciados pelo meio em que vivem e a sociedade
moderna está cercada pela tecnologia, seja por meio de produtos, marcas, publicidade,
etc. Daí, ser importante elucidar esta relação e mostrar como homens e mulheres se
relacionam de maneiras diferentes com esta tecnologia.
Carvalho (2003, p.22) declara que “ciência e tecnologia foram por muito tempo
vistas como atividades masculinas, mantendo, assim, uma quase total invisibilidade das
mulheres neste domínio”, ainda hoje considerado por muitos, áreas do conhecimento
masculino.
Esta visão está baseada no conceito biológico, cuja limitação foi citada
anteriormente, e não numa concepção dinâmica de masculinidade e feminilidade, isto é,
numa noção de gênero na qual homens e mulheres o vistos como seres plurais, que
interagem e atuam na sociedade. Dentro deste ponto de vista, Lombardi (2004, p.45)
coloca que “a técnica, a ciência e o conhecimento técnico, tecnológico e científico e as
posições de mando, de forma geral, o encarados como domínios masculinos”, o que
leva automaticamente à exclusão do trabalho feminino em algumas áreas, como as
profissões técnicas e científicas. Nesta ótica, coube à mulher, em virtude de suas
23
habilidades (socialmente construídas), se aproximar de áreas do conhecimento que
envolvem relacionamento interpessoal, enquanto ao homem, a produção técnica-
científica, atividades nas quais os homens ainda são maioria, apesar do relativo aumento
de mulheres atualmente nesta área.
Casagrande (2005, p.27) aponta para a idéia de que “determinadas profissões e
tarefas não são apropriadas para homens ou para mulheres. A sociedade atual está
acostumada a ver homens e mulheres em papéis específicos (...)”. Sobre isso observa-se,
em nossa sociedade, a tendência de aproximar a ciência e a tecnologia do homem,
cabendo à mulher aquelas funções adequadas ao seu sexo, uma vez que a mulher tem
uma “tendência natural” ao cuidado com outros seres humanos.
Essa visão leva à crença de que homens e mulheres possuem características fixas
e imutáveis, dentro das quais, ambos cumprem seus papéis sociais, pré-determinados
pela sociedade em que estão inseridos, não se levando em conta suas particularidades
enquanto seres humanos. Assim, deve-se cuidar para não sermos levados por um
determinismo social, pois sempre um espaço de manobra (LOMBARDI, 2005), e o
crescente ingresso de mulheres na ciência e tecnologia é um exemplo disso.
Ainda, de acordo com a visão dicotômica, as áreas de ciência e tecnologia são
vistas como masculinas por se apoiarem na “razão”, atributo considerado eminentemente
masculino, e caso a mulher apresente esta característica, ela pode dentro da construção
social dos papéis sexuais, ser considerada menos feminina, o que na realidade não é
verdade, pois não é porque uma mulher é mais racional que ela vai perder a sua
feminilidade. O mesmo acontece com homens que se dirigem para a área de
humanidades, dado, aliás, pouco analisado, e que pode ser assunto de pesquisas futuras.
Não é porque ocorre uma mudança dentro dos padrões sexualmente estabelecidos, como
no caso de mulheres irem para as áreas de ciência e tecnologia (que está de acordo com
a visão dicotômica de sexos) que haverá uma inversão dos sexos.
Esta tendência binária, pode ser verificada nas séries iniciais, quando a escola,
segundo Louro (1997, p. 57) fortalece as “diferenças, distinções e desigualdades... Na
verdade, a escola produz isso”, o que tem como conseqüência na escolha profissional de
moças e rapazes, que irão realizar as suas opções de acordo com os modelos de
masculinidade e feminilidade estabelecidos pela sociedade e reforçados pela escola. Por
isso, quando se fala na participação feminina nos cursos de engenharia, não significa,
necessariamente, que estas futuras engenheiras terão as mesmas oportunidades que os
rapazes no mercado de trabalho. Muitas, inclusive, já sabem que algumas áreas de
24
trabalho serão mais acessíveis a elas do que outras, o que lhes impõem limites para
ascensão profissional (LOMBARDI, 2005).
Sobre o assunto, Silva (1998, p. 07) declara que “a sociedade interfere na
construção da ciência e da tecnologia (...)”. Desta forma, nenhuma produção científica e
tecnológica é neutra ou autônoma. E mais, em virtude desta crença na masculinidade da
ciência e da tecnologia, poucas foram as mulheres que se destacaram ao longo da
história nestas áreas, apesar de muitas terem se aventurado por estes campos.
Os livros sobre a história da ciência e da tecnologia mostram que as mulheres
possuem um papel reduzido (quase invisível) dentro do desenvolvimento destas áreas,
apesar de já ser reconhecido que muitas mulheres atuaram, e ainda atuam, na construção
destas áreas do conhecimento, e, ainda, muitas mulheres que produzem ciência e
tecnologia na atualidade ainda ficam no obscurantismo, sem conseguir espaço para
mostrar seu trabalho.
Na sociedade moderna, segundo Silva (1998), a ciência e a tecnologia são
analisadas separadamente. Tecnologia constitui no saber fazer, enquanto que ciência
envolve o descobrir, pesquisar e explicar. Desta separação surge a noção de que a
primeira existe se for desenvolvida pela segunda. Mas não se pode esquecer de que
ambas são construções sociais, que envolvem relações sociais e, portanto, relações de
gênero.
Dessa forma, é impossível deixar de analisar a questão de gênero, que envolve
todo o desenvolvimento científico e tecnológico, mas que poucos percebem ou mesmo
acreditam nesta realidade que domina os bancos escolares e centros de pesquisas em
todo o mundo.
Para Tabak (2002), há dois tipos de obstáculos a uma maior participação da
mulher no campo da tecnologia: um institucional e outro psicológico. No primeiro caso, a
infra-estrutura não favorece a mulher. No segundo caso, a própria mulher sente-se
insegura quanto à sua capacidade e aos seus direitos de avançar profissionalmente, visto
que a ciência e a tecnologia, são áreas cujo poder ainda é exercido pelos homens.
Inclusive, muitas mulheres assumem o estereótipo do “sexo frágil”, e declaram que não
têm condições de seguir na carreira e desistem.
Para Lombardi (2005), também outros obstáculos: a mulher é considerada uma
competidora, além disso, a própria posição da mulher na sociedade gera
desencorajamento frente à possibilidade de novos desafios profissionais. Nas
engenharias, percebe-se a existência de uma cultura profissional, sendo a profissão de
engenheiro considerada um gueto masculino, por isso, ser engenheiro/a, de acordo com a
25
referida autora, é algo que vai além da universidade e mercado de trabalho, pois para o
homem é natural ser engenheiro, enquanto para a mulher o, por isso, ela tem que
marcar posição e se afirmar o tempo todo.
Enfim, é possível dizer que sempre houve participação das mulheres na produção
do conhecimento científico e tecnológico, mas até pouco tempo, este era um dado
praticamente desconhecido e pouco valorizado pela sociedade. Casagrande, et al, (2004,
p.05) apontam que “a cultura ocidental vê a mulher mais como receptora do conhecimento
do que como geradora do mesmo”. O normal e aceitável era, e ainda é, conhecer grandes
cientistas homens e não mulheres, apesar destas também serem sujeitos sociais. Mas,
ainda que em minoria, a participação feminina nestas áreas vem aumentando
gradativamente nas últimas décadas, resultado este de uma emancipação feminina, que
tem levado milhares de mulheres a buscar também seu espaço dentro da ciência e
tecnologia.
Dessa forma, tendo como base essa busca da mulher por maior visibilidade, tanto
dentro quanto fora do mundo científico e tecnológico, considerou-se importante destacar,
neste trabalho, as mudanças que a identidade feminina vêm sofrendo nas últimas
décadas, assunto esse que será abordado a seguir.
2.4 A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE FEMININA
Até certo ponto, todo ser humano
torna-se o que as pessoas com
quem ele conversa
normalmente são.
Philip D. Stanhope
Ao longo do último século, ocorreram importantes mudanças no papel da mulher
dentro da sociedade ocidental. A mulher viu ampliar seus direitos enquanto ser humano e
cidadã. Muitas destas conquistas foram alcançadas graças a uma intensa luta feminina.
Estas mudanças atingiram também o mundo da ciência e da tecnologia e,
conseqüentemente, o mundo do trabalho, que passou a receber cada vez mais
trabalhadoras.
Nesse período ocorreu a emancipação feminina, conseqüência das mudanças na
sua identidade. A questão da identidade está relacionada ao caráter da mudança na
modernidade e, em especial, à globalização, que exerce um forte impacto sobre a
identidade cultural.
26
A construção da identidade está associada à sociedade na qual os seres humanos
estão inseridos, ou seja, é a partir das práticas sociais recorrentes que ocorre a formação
da identidade, no caso a feminina, e que está sempre relacionada às características
sociais, como: emotividade, passividade, docilidade, etc. Todas são características
socialmente construídas e não inatas à mulher, por exemplo, Silva (1998, p. 16) coloca
que “a localização do doméstico como ponto de partida, indica como o lugar da mulher é
constituído a partir do lar e da família” na sociedade, isto é, a mulher é primeiramente
identificada com o lar e com o cuidado com os filhos. Segundo a referida autora, este é
um princípio da identidade de gênero. Assim, de acordo com esta visão, as mulheres são
definidas como frágeis e pouco aptas ao trabalho fora de seu ambiente “natural”, com
aquilo que é considerado racional, como máquinas e números.
Contudo, vale lembrar que sempre existe a possibilidade de transformação, não é
porque a sociedade coloca esses padrões de identidade feminina, que todas as mulheres
devem seguir, pois caso contrário, as mulheres ainda estariam dentro de seus lares.
A sociedade cria, portanto, modelos de masculinidade e de feminilidade que são
aceitos, não havendo espaço para percepção da diversidade. Constroem-se estereótipos,
como aquele em que o homem é racional e agressivo, enquanto a mulher é delicada e
amorosa, e que, caso não sejam seguidos, geram a discriminação, pois são considerados
comportamentos “desviantes”.
Vale ressaltar aqui, que os mesmos atributos que caracterizam o método científico
são aqueles empregados nos papéis socialmente construídos, portanto a ciência e a
tecnologia também foram construídas dentro de um padrão androcêntrico.
Goffman (1988, p.11) declara que a “sociedade estabelece os meios de
categorizar as pessoas”, isto é, a sociedade fornece atributos sociais à figura feminina
que, quando diferente daquilo que é considerado como um “padrão normal”, é visto como
um estigma. O padrão normal é aquele que foi socialmente construído, e que é aceito por
toda a sociedade sem questionamento.
Assim, a pessoa estigmatizada acaba por ter uma percepção de si mesma, que é
reflexo dos padrões dos normais”. No caso das mulheres, a maioria se percebe como
emotiva, delicada, paciente,... portanto elas podem ter dificuldades para interagir
socialmente (Goffman, 1988). Assim, de acordo com este conceito, as mulheres que
ingressam no campo da ciência e tecnologia, e especificamente nas engenharias, já
sabem que terão que enfrentar barreiras para alcançar seus objetivos, haja vista que
muitas mulheres colocam que sempre têm que mostrar mais competência do que o
27
homem para desempenhar a mesma função profissional em ambientes construídos como
masculinos.
Cabe aqui também a análise dos estabelecidos e outsiders, criada por ELIAS in
LOMBARDI (2005). Os estabelecidos são aqueles que se percebem e o reconhecidos
como os detentores do poder, no caso das engenharias, seriam os engenheiros, isto é, a
figura masculina, pois esta área é vista como uma autêntica área masculina, como
exemplo, os “clubinhos masculinos”. as engenheiras seriam as outsiders, que vivem
estigmatizadas por todos os atributos que a cultura androcêntrica lhes imputou. Assim, as
categorias estabelecidos e outsiders se constituem como identidades sociais, nas quais
os estabelecidos dentro deste padrão, o os homens e os outsiders, as mulheres, que
estão sempre na periferia, na margem do espaço público, ainda predominantemente
masculino.
Assim a sociedade, através da criação de padrões, gera estigmas que o
absorvidos e aceitos por todos e todas. Silva (op. cit.) declara que “o mundo do trabalho
incorpora essas habilidades femininas, particularmente, e atividades onde o
relacionamento entre as pessoas predomina”. Portanto, quando uma mulher se dirige
para campos profissionais, que não aqueles tradicionais guetos femininos, a sociedade
coloca em dúvida a sua capacidade de ão, sem levar em conta as especificidades do
ser humano, independente do sexo.
Daune-Richard coloca que
se o masculino é associado à modernidade da razão, do trabalho, da liberdade e do cidadão, o
feminino é ligado à antiga ordem social da família, da dependência e da naturalidade. Assim, nas
representações sociais, a partir de então, o homem é visto como portador da cultura e in fine pode
dominar a natureza – e a mulher como submissa à natureza (2003, p.70).
Dessa forma, as identidades profissionais acabam sendo também identidades
sexuadas. Toda vez que um homem assume uma função considerada feminina, ele perde
seu valor enquanto macho; assim como a mulher que assume funções consideradas
masculinas, vai ser vista com menor feminilidade. Ocorre aqui o que a referida autora
denomina de “transgressão valorizadora”.
Várias das atividades profissionais ligadas ao relacionamento interpessoal, são
desprovidas de tecnicidade, e, por isso, menos valorizadas no mercado de trabalho,
coincidentemente, estas atividades são realizadas predominantemente por mulheres.
Até agora, a identidade feminina esteve muita ligada à masculina, isto é, a
identidade da mulher foi construída sempre comparada à do homem, que tem sido
28
considerado como um ser mais forte e dominante, que subordina o “sexo frágil”, fazendo
com que a mulher seja idealizada em seu papel de mãe amorosa e esposa dedicada.
Sobre o assunto, Silva (2000, P.54) declara que a Revolução Francesa apresentou-se
relevante no processo de delineamento do homem ‘moderno’, o qual permaneceu
afastado do espaço privado, considerado como espaço feminino. Quanto à mulher
‘moderna’, que é aquela mulher que vai buscar o seu espaço, tanto dentro quanto fora do
lar, esta ainda permaneceu afastada do espaço público, que foi considerado masculino”.
A justificativa para essa demarcação de espaços esteve fortemente associada à
“natureza” feminina que aproximou a mulher do espaço doméstico e da criação dos filhos
(SCHIENBINGER, 2001). Contudo, à medida que o tempo foi passando, essa visão se
alterou, e quem contribuiu para isso foi a própria mulher que passou a exigir seus direitos
além do espaço privado. Sobre o assunto, Velho e eix (1998) colocam que muitas vezes
as mulheres são menos agressivas do que os homens no espaço público, o que
acarretaria a sua menor visibilidade.
Mas isso não significa que todas as mulheres possuam um perfil de passividade,
existem mulheres que se expõem e competem claramente no espaço público, são estas
mulheres que estão rompendo barreiras e mudando os padrões vigentes. Vale lembrar
que, no mercado de trabalho, tanto homens quanto mulheres que possuem um perfil mais
passivo, apresentam mais dificuldades de ascensão profissional.
Ressalta-se aqui a lembrança de que muitas mulheres de classes menos
favorecidas sempre trabalharam fora de seus lares, seja como lavadeiras, domésticas,
atrizes, costureiras,... Além disso, em períodos de guerra, em geral, as mulheres tendem
a assumir funções até então desempenhadas por seus maridos, uma vez que os mesmos
estão em combate. Através desses exemplos, vê-se que há uma pluralidade de mulheres,
que não reproduziram necessariamente os padrões sociais existentes em suas épocas,
isto, portanto, vai contra a idéia da existência de uma mulher única e universal.
Atualmente ainda um certo antagonismo entre a mulher-mãe e a mulher-
profissional, que foi absorvendo cada vez mais funções dentro e fora do lar. A mulher
conquistou seu espaço fora do ambiente doméstico, mas isso o acarretou
necessariamente ganhos, uma vez que ela permaneceu executando todas as tarefas
dentro do lar, acumulando, assim, papéis na esfera pública e privada. Enquanto isso, o
homem que permaneceu no espaço público não assumiu (pelo menos de forma ampla),
as tarefas domésticas, isto indica, portanto, que ele não ingressou no espaço privado na
mesma proporção que a mulher saiu, fato que demonstra um desequilíbrio entre os
papéis sexuais. Sobre isso, observe a tabela a seguir:
29
Tabela 1
Fonte: http://www.fcc.org.br/mulher/series_historicas/tabelas/mtf12.html Acessado em 04/07/2006.
A tabela anterior demonstra o quanto os afazeres domésticos continuam
concentrados nas mãos das mulheres. Os homens ingressaram nas atividades do lar,
mas, ainda assim, elas continuam sendo executadas predominantemente por mulheres.
É importante ressaltar que muitas mulheres que aceitam essa idéia do sexo frágil
colocam-se na posição de vítimas de uma sociedade desigual (RAPKIEWICZ,1998), o
que pode contribuir para a permanência dessa visão, uma vez que as próprias mulheres
se vêem como menos capacitadas e, portanto, com o direito de serem tratadas com
privilégios e regalias. Fato que favorece a perpetuação de uma sociedade androcêntrica.
A mulher atual apresenta uma identidade emancipada, isto é, separada da
masculina, no entanto ela ainda está associada à família, aos filhos, ao lar e também à
profissão, ela assumiu, portanto, um acúmulo de papéis.
A mulher que amplia seu espaço consegue ocupar seu lugar no mercado de
trabalho e em todas as áreas do conhecimento, inclusive na ciência, ambiente
tradicionalmente segregador, e que será abordado no item a seguir.
2.5 A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA CIÊNCIA
“Para a boa ordem da família humana, uns terão que ser governados por outros mais sábios que aqueles;
daí a mulher, mais fraca quanto ao vigor da alma e força corporal, estar sujeita por natureza ao homem, em
quem a razão predomina. O pai tem que ser mais amado do que a mãe e merece maior respeito porque a
sua participação na concepção é ativa, e a da mãe, simplesmente passiva e material.”
São Tomás de Aquino (italiano, um dos maiores teólogos católicos da humanidade, século XIII
3
)
3
Frase retirada do endereço eletrônico: www.cidade.usp.br/educar/?monografias?masculinofeminino/midia
Acessado em 09/12/04
30
Durante o feudalismo, a religião definia a ordem dos fatos naturais e sociais, era
ela que definia os padrões sociais vigentes nas sociedades. Contudo, na passagem do
feudalismo para o capitalismo, a Ciência ocupou o lugar da religião na explicação dos
fenômenos naturais, assim, ela vai definir cientificamente, por exemplo, que a modéstia é
uma característica inata das mulheres, assim como a bravura é dos homens.
Esse período é marcado por um forte androcentrismo, no qual a figura feminina é
vista como mera coadjuvante dos fatos sociais, históricos e culturais. Tanto é que a
ciência vai creditar uma série de atributos (científicos ou não) às figuras masculina e
feminina, como mostra o quadro a seguir:
Tabela 2 – Atributos femininos e masculinos.
Masculino
Objetividade
Universalidade
Racionalidade
Neutralidade
Dominação
Cérebro
Controle
Conhecimento
Civilizado
Público
Feminino
Senso Comum
Localidade
Sensibilidade
Emoção
Passividade
Coração
Descontrole
Natureza
Primitivo
Privado
Fonte: www.cidade.usp.br/educar. Acessado em 09/12/04
Todos os atributos que aparecem no quadro anterior foram fornecidos pelo mundo
científico dos séculos XVIII e XIX, e plenamente aceitos pela sociedade, que vai eixaa-
los e eixaama-los em padrões sociais, muitos deles utilizados até os dias atuais.
Muitos setores da sociedade atual ainda se baseiam nestes atributos para justificar as
suas escolhas, por exemplo, muitas empresas e centros de pesquisa, que, apoiando-
se nestes argumentos, dão preferência para um ou outro sexo, sem levar em conta os
conceitos de gênero, já difundidos.
Sobre o assunto, Velho e eix (1998, p. 309) declaram que os padrões de
produção científica são socialmente construídos e, nesse caso, evidenciam as
construções sociais de gênero”. Assim, muitas mulheres são, até hoje, levadas a
ingressar em determinadas áreas do conhecimento, como nas áreas de humanidades e
31
biológicas, pois a influência sócio-cultural acaba por definir os comportamentos e atitudes,
seja de mulheres ou homens.
Muitos craniologistas do século XIX já afirmavam que o cérebro feminino era muito
pequeno para o raciocínio científico, portanto as mulheres seriam incapazes de atuar
dentro deste universo (SCHIENBINGER, 2001). Mas, apesar dessa “constatação
científica”, as mulheres sempre produziram ciência; e, por trás de várias produções, há
trabalhos científicos realizados por mulheres, que não aparecem.
Diante dessa visão, pode-se verificar um mundo do conhecimento e do trabalho
dicotomizado, no qual mulheres e homens sempre exerceram diferentes papéis tanto na
vida privada quanto na vida pública. À mulher cabia o cuidado com a casa e com os filhos,
e ao homem, o papel de provedor do lar, mesmo que nem sempre esses papéis
estivessem tão bem definidos na prática social ou na vida cotidiana.
A ciência assume, portanto, um caráter de verdade absoluta e inquestionável. Tudo
que é considerado científico é aceito, e ainda, segundo a própria ciência, são as
características sexuais, que irão determinar quem poderia ou não fazer ciência.
Utilizando-se dessa premissa, segundo Schienbinger (2001), poucas foram as
oportunidades dadas às mulheres que se interessavam pelo mundo da ciência e da
tecnologia. Em geral, elas estão sempre envolvidas com os trabalhos de seus pais,
irmãos ou maridos, isto é, as mulheres que trabalharam dentro destas áreas, durante
muito tempo, eram consideradas apenas assistentes dos seus familiares e não cientistas
aplicadas e merecedoras de créditos como tal. Dentro desta realidade, o exemplo mais
marcante é o de Marie Curie, que foi, durante parte de sua vida científica, vista como uma
assistente de trabalho de seu marido. O seu real reconhecimento só veio após a morte do
marido, quando ela assumiu seu lugar na Sorbonne.
Casagrande et al.(2004, p. 06) apontam para a questão de que estamos
culturalmente predispostos a considerar as realizações masculinas como mais
importantes que as femininas, bem como a considerar as grandes invenções e
descobertas como feitos masculinos”. Assim, a sociedade se esquece de que muitos
cientistas, podem ser na realidade, uma cientista, que por ser conhecido apenas seu
sobrenome, as pessoas se esquecem de que pode ser uma mulher fazendo ciência e
tecnologia, e que conseguiu transpor obstáculos e obter reconhecimento científico, como
foi o caso de Marie Curie.
Contudo, ainda hoje percebe-se que quando um maior interesse feminino por
alguma área técnica, “coincidentemente”, ocorre uma desvalorização desse saber técnico,
este dado mostra o quanto o conhecimento está vinculado ao masculino. Além disso, é
32
interessante observar que, quando se associa o saber técnico e/ou científico ao trabalho
feminino, ocorre uma relação destes saberes com o relacional, isto é, a mulher pode estar
inserida nestas áreas, desde que trabalhe com os relacionamentos interpessoais em
setores como: pós-venda, atendimento ao cliente, recursos humanos, etc.
Segundo Schienbinger (2001, p.55), do século XIV até o XIX, foram escritas obras
sobre a participação da mulher na ciência, em geral por aqueles que queriam argumentar
em defesa das mulheres dentro do mundo científico. Estes escritores eram chamados de
enciclopedistas, e “reuniam nomes de mulheres renomadas no sentido de provar que as
mulheres eram capazes de grandes realizações e que deveriam ser admitidas nas
instituições científicas”.
Dentro deste contexto, o destaque vai para as universidades italianas, que, a partir
do século XIII, permitiram que as mulheres ingressassem em cursos universitários. Na
Europa, foram italianas as duas primeiras mulheres a receberem o grau universitário, a
primeira, em 1678, Elena Cornaro Piscopia, em Filosofia, e, em 1732, Laura Bassi, em
Física. Esta mais tarde assumiu a cadeira de física na Universidade de Bolonha. Além da
Itália, também destaca-se a Alemanha, que permitiu o acesso de mulheres à educação
superior, a partir do século XVIII (SCHIENBINGER, 2001).
Mas, a partir do século XIX, as universidades européias pouco a pouco vão
eliminando a presença feminina em seu quadro docente. Fato que mostra uma forte
retomada da visão androcêntrica de que o conhecimento deve ser restrito aos homens.
Além disso, a ciência assume um caráter profissionalizante dentro de um espaço público,
seja na indústria ou na universidade; colocando, portanto, a mulher no seu devido lugar,
isto é, no seu espaço doméstico.
A primeira enciclopédia realmente exclusiva sobre a história das mulheres
cientistas surgiu somente no final do século XVII, e mostrava a participação das mulheres
nas ciências naturais. No início do século XVIII, surge mais uma contribuição à história
das mulheres, desta vez, dentro do campo da astronomia.
Foi somente entre o final do século XIX e início do século XX, que houve, na
Europa, um renovado interesse pelas contribuições femininas na ciência. Em geral, “os
livros seguiam o formato enciclopédico, elencando as mulheres alfabeticamente, dando
seus nomes, datas de nascimento, as condições sociais sob as quais haviam vivido, suas
contribuições e publicações” (SCHIENBINGER, 2001, p. 56).
Mas foi Charles Darwin, um dos mais renomados cientistas de todos os tempos,
que declarou que a noção de gênio é um virtual monopólio masculino”, demonstrando,
com isso, toda a sua discriminação frente aos trabalhos científicos femininos. Assim,
33
muitos cientistas, interessados em compreender essa pequena participação feminina na
ciência, passaram a estudar as barreiras que dificultavam esta participação.
No século XIX, muitas mulheres burguesas e de famílias nobres da Europa
trocavam seu prestígio social por acesso ao conhecimento científico. Sobre o assunto,
Schienbinger (2001, p.65) declara que especialmente em Paris, mulheres abastadas
eram consumidoras contumazes de curiosidades científicas, colecionando tudo, desde
conchas, estalactites e madeira petrificada a insetos, fósseis e ágatas para tornar seus
gabinetes de história natural o epítome do universo”.
A referida autora ainda declara (2001, p.57) “que seja o que for que as mulheres
tenham conseguido na ciência, foi através de desafios aos códigos convencionais que as
compeliam a confinar suas atividades às tarefas rotineiras dos afazeres domésticos”. Isto
é, a mulher que realmente quisesse desenvolver trabalhos dentro da área científica,
deveria ficar restrita ao seu ambiente doméstico, onde era seu “habitat” natural, portanto,
sem ter acesso a bibliotecas, instrumentos adequados, comunicação com outros
cientistas, etc, por isso, pode-se afirmar que a mulher que conseguia desenvolver
qualquer trabalho científico dentro destas condições poderia ser considerada uma
heroína.
Dessa forma, em muitos casos e durante muito tempo, a mulher só tinha acesso ao
conhecimento científico, quando mediada pelos homens. Por isso, até a década de 50 do
século passado, grande parte dos trabalhos publicados sobre a participação das mulheres
na ciência não foi bem aceita pela comunidade científica.
Entretanto, é relevante informar que, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-
1945), principalmente nos Estados Unidos, houve uma grande participação de mulheres
docentes nas universidades. Contudo, com o fim da guerra, elas foram pouco a pouco
sendo retiradas de seus postos: era a remasculinização da ciência (SCHIENBINGER,
2001).
Foi somente a partir da década de 70, com o movimento feminista, que o papel da
mulher na ciência passou a ser efetivamente aceito e valorizado. Em muitos países,
ocorreram programas de incentivo à entrada de mulheres e minorias nas universidades, o
que também contribuiu para o aumento de mulheres dentro destas instituições.
Assim, seria de se esperar que, uma vez que as mulheres tivessem acesso à
educação de maneira similar aos homens, elas passariam a partilhar com eles,
proporcionalmente, tais posições de poder e destaque, inclusive aquelas do mundo da
ciência. Contudo, as evidências mostram que o acesso à educação é condição
necessária, mas não suficiente, para a almejada paridade entre gêneros em termos de
34
inserção e progresso profissional, rendimentos financeiros e, principalmente, de poder
tanto dentro quanto fora do mundo científico
4
.
Todavia, o que não pode deixar de ser citado, é a influência empírica das mulheres
na ciência. O empirismo foi fortemente estimulado pela presença feminina, por exemplo:
as artesãs e suas observações contribuíram para trabalhos dentro da astronomia na
Alemanha. Além disso, muitas mulheres desenvolveram medicamentos para prevenir e
curar doenças, a partir da observação da natureza, e isto não só na Europa, mas também
em diversas partes do mundo (SCHIENBINGER, 2001), como é o caso das índias
americanas.
Muitas mulheres anônimas também contribuíram para o desenvolvimento da
ciência, através da participação em equipes de pesquisas, incentivando e dando suas
contribuições em inúmeros trabalhos científicos que foram publicados por homens
cientistas.
Enfim, a participação das mulheres na ciência sempre foi marcada por períodos de
avanços e recuos, de acordo com o contexto histórico vigente. E, apesar das poucas
publicações sobre o assunto, as mulheres não ficaram tão invisíveis no mundo científico,
como propunham alguns estudiosos.
É dentro deste contexto, que será analisada, a seguir, a realidade da ciência
feminina no Brasil.
2.6 A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES CIENTISTAS NO BRASIL
A primeira vez que a mulher brasileira teve acesso ao ensino superior foi em 1879,
quando as instituições superiores se abriram para as jovens. Rita Lobato Velho Lopes, por
exemplo, tornou-se, em 1887, a primeira mulher brasileira a receber o grau de médica. Foi
um longo caminho trilhado pelas mulheres, e, até hoje, dependendo do curso que elas
escolhem na graduação, acabam sendo objeto de pressões familiares e sociais.
É fato que o número de mulheres trabalhando com pesquisa científica e
tecnológica no Brasil, daquela época até hoje, cresceu, mas ainda é baixo. De acordo
com Tabak
5
, o machismo e a estrutura familiar são fatores determinantes que dificultam o
acesso das mulheres a essas carreiras.
4
Informações obtidas no endereço eletrônico: http:/www.comciencia.br/reportagens/mulheres/09.stml
Acessado em 18/02/2005
5
Informação obtida no endereço eletrônico: www.faperj.br. Acessado em 03/01/2005.
35
O Ministério da Ciência e Tecnologia possui uma lista com os maiores cientistas
brasileiros, e, dentre os 71 nomes que aparecem, apenas 08 são mulheres
6
. São elas:
Beatriz Barbuy: astrônoma
Glaci Zancan: bioquímica
Graziela Maciel Barroso: botânica
Johanna Döbereiner: agrônoma
Marilena Chauí: filósofa
Mayana Zatz: médica e geneticista
Niéde Guidon: arqueóloga
Nise da Silveira: psiquiatra
Dos oito nomes que aparecem, a seis são de mulheres que escolheram carreiras
científicas ligadas às ciências biológicas, e apenas duas ligadas às humanidades.
Contudo, pode-se apontar que, de acordo com este levantamento, uma maior
tendência de as mulheres se envolverem com carreiras que estejam ligadas ao
relacionamento interpessoal, que, aliás, é considerado um padrão social feminino.
O efetivo crescimento de mulheres dentro da área científica e tecnológica no Brasil
pode ser percebido, a partir das décadas de 60 e 70, quando o país vive o período do
“milagre econômico”, isto é, período marcado pela grande pujança econômica, e que teve
como característica o aumento da oferta de empregos, o que gerou a procura da mão-de-
obra feminina e sua conseqüente qualificação, crescendo, assim, o número de
trabalhadoras e também de escolas superiores, preocupadas em qualificar o/a
trabalhador/ª
Com a ampliação das oportunidades de acesso ao ensino superior e com a maior
demanda de cursos, aumenta a participação feminina nas universidades, tanto de alunas,
quanto de professoras, mas vale lembrar que a participação feminina no corpo docente
das universidades ainda é considerada baixa, principalmente nos cargos de professores
titulares (VELHO E LÉON, 1998).
Contudo, apesar do expressivo aumento de matrículas femininas nos cursos
universitários em todo o país, a maioria das moças continua optando por cursos
tradicionalmente femininos, como pedagogia, psicologia, enfermagem, nutrição, etc.
6
Informação obtida no endereço eletrônico: www.ctjovem.mct.gov.br. Acessado em 03/01/2005
36
Segundo Tabak
7
, “muitas das áreas da engenharia continuam a revelar a ausência de
mulheres ou uma presença inexpressiva. É o caso da mecânica e muitas das novas sub-
áreas surgidas mais recentemente”. Isto acontece por causa das construções sociais da
produção científica, que ainda encaram a ciência e a tecnologia como produções
predominantemente masculinas (SILVA, 1998)
Segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia
8
, uma tendência de crescente
participação da mulher na pesquisa e no desenvolvimento tecnológico no Brasil, no
entanto, ainda permanece uma ausência de dados dos órgãos oficiais sobre a presença
feminina, pois eles o descriminam o percentual de trabalhos pesquisados por homens
ou mulheres. Ainda, de acordo com Mascarenhas
9
, “partindo da hipótese que, a despeito
do crescimento expressivo do número de mulheres com formação universitária no Brasil,
a participação feminina na produção do conhecimento ainda está aquém da presença
feminina nas universidades”.
Um outro dado relevante acerca da participação das mulheres na graduação é que
mais mulheres do que homens, dentro da faixa etária apropriada, ingressando nas
universidades, isto pode ser decorrência de uma entrada precoce de homens no mundo
do trabalho, o que justificaria a sua entrada mais tardia nos cursos de graduação, bem
como a confirmação de que o sustento da família cabe prioritariamente ao homem,
permanecendo, portanto, a visão paternalista de sociedade.
Tabak (op. cit) declara que “preconceitos à mulher cientista como a de que a
mulher não teria a mesma capacidade e competência”, e uma das razões para isso
estaria justamente no fato de a mulher ser casada e ter filhos, o que incompatibiliza com a
vida acadêmica, que requer disponibilidade para pesquisas e viagens, e isto acontece
porque o mundo da ciência, da tecnologia e do trabalho é ainda visto como um mundo
masculino na sua essência.
Existem alguns aspectos relacionados à construção social de nero que Tabak
(op. cit.) aponta, e que podem ser considerados, quanto à pequena presença de mulheres
brasileiras em carreiras científicas e tecnológicas, por exemplo, existem mulheres que dão
prioridade ao casamento e à maternidade, e existem aquelas que são influenciadas na
escolha da carreira pelos pais, e, por isso, acabam perpetuando o padrão dicotômico
tradicional, do que é ser feminino e masculino. Vale ressaltar que a questão familiar, pesa
tanto para as mulheres quanto para os homens, isto é, pensar em modelos profissionais
7
Informação extraída da entrevista dada por Fanny Tabak para o endereço eletrônico:
http://www.comciencia.br/entervistas/mulheres/tabak.htm. Acessado em 03/01/2005
8
Informações obtidas no endereço eletrônico: www.mct.gov.br/especial/mulher Acessado em 17/08/2004.
9
Informações obtidas no endereço eletrônico:http://agencia.fapesp.br/boletim Acessado em 11/12/2004
37
“full time”, é algo que penaliza o ser humano, independente do sexo. Aliás, modelo este
bastante disseminado pelas empresas na atualidade.
Além disso, as moças também são desestimuladas pelas dificuldades de acesso a
cargos e salários, pois esperam uma discriminação sexual em suas carreiras
profissionais
10
. LOMBARDI (2005, p. 232) aponta que, em suas entrevistas com
profissionais da engenharia, as entrevistadas “desenvolveram suas trajetórias
profissionais sob o signo de forte resistência às situações discriminatórias, numa luta
contínua para provar sua competência e para fazer valer os seus direitos”.
No Brasil, pode-se observar que entre o final do século passado e início deste, as
mulheres tornaram-se a maioria nos cursos de graduação das universidades, contudo,
quando verifica-se as bolsas concedidas pelo CNPq, para os níveis de doutorado e
pesquisa, percebe-se que o número de homens o permaneceu maior, como
manteve-se inalterado.
Sobre esse assunto, Tabak (2002) aponta para a importância de se implantar
políticas blicas que favoreçam a entrada da mulher nas áreas de ciência e tecnologia
no Brasil. Esta seria uma forma de estimular a presença de mulheres em áreas nas quais
sua participação ainda é considerada inexpressiva.
Tabela 3 – Distribuição dos Pesquisadores por sexo, 1995, 1997, 2000, 2002 e 2004.
Pesquisadores
Pesquisadores líderes
Ano Total Masc,% Fem, % Total Masc, % Fem, %
1995 26.766 58,0 42,0 8.840 65,0 35,0
1997 33.675 58,0 42,0 10.474 62,7 37,3
2000 48.781 56,0 43,7 16.456 60,6 39,4
2002 56.891 54,3 45,7 21.062 59,3 40,7
2004 77.252 61,1 38,9 26.489 62,2 37,8
Fonte: Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq. Censos de 1995, 1997, 2000, 2002 e 2004.
*
Pode-se perceber através da tabela anterior, que o número de mulheres é menor
que o de homens, tanto no número de pesquisadores/as, quanto de pesquisadores/as
líderes membros do CNPq, e este fato se acentua à medida que os pesquisadores e
pesquisadoras ascendem na carreira científica. Contudo, vale observar que ocorreu um
aumento de pesquisadoras e pesquisadoras líderes até o ano de 2002. No censo de
10
Informações obtidas no endereço eletrônico: www.scielo.br/scielo.php?pid=s0103-401 Acessado em
03/01/2005.
38
2004, apesar do aumento no número absoluto de pesquisadores/as, observa-se que a
porcentagem de participação quanto ao sexo reduziu para as mulheres. Isso pode ser
reflexo de um período de menor investimento em pesquisas por parte do governo, dado
para ser analisado em futuras pesquisas. Mascarenhas (op. cit.) coloca que as mulheres
estão em maior número na maioria das áreas do conhecimento. Mas, como entraram
mais recentemente nesse universo, são minoria entre os pesquisadores/as mais
titulados/as e, portanto, recebem menos recursos para bolsas e auxílios que exigem maior
competência e títulos”.
De acordo com Velho e Léon (1998), este fato é freqüente e o apenas no Brasil.
Em muitos países, as mulheres apresentam mais dificuldades em desenvolver pesquisas
pelo fato de que enfrentam maiores obstáculos para obter financiamento, também por
causa do casamento, da gravidez, etc., o que acaba por interromper, pelo menos
temporariamente, a sua carreira dentro da ciência. E mais, à medida que se elevam os
níveis dentro da carreira científica, menor é a participação feminina, principalmente
naquelas áreas que são tradicionalmente guetos masculinos, como a física e a
engenharia.
O mundo da ciência e do trabalho são masculinos por excelência, contudo, existem
determinadas características consideradas femininas, que têm favorecido o trabalho das
mulheres. Sobre o assunto, comenta LOMBARDI (2005, p, 226), existem “habilidades
femininas desejáveis para gerir conflitos humanos nas equipes, indicadas atualmente por
alguns consultores em empresas, como uma das vantagens da gerência feminina face à
masculina.
Além disso, em razão desta visão androcêntrica de ciência, muitos em que o
casamento e a maternidade são elementos que dificultam e, até mesmo, impossibilitam a
produção científica feminina, visão esta, que deixa clara a sutil discriminação existente.
Interessante perceber que esse fato também é recorrente em outros países latino-
americanos, como é o caso do México, onde ainda é reduzido o número de mulheres que
ingressam em cursos de pós-graduação
11
.
É importante comentar que, apesar de ainda ser considerada uma participação
reduzida, as mulheres brasileiras conseguiram, nos últimos anos, ampliar seu espaço
dentro das carreiras científicas e tecnológicas. Tabak (2003) coloca que é de fundamental
importância que cresça essa participação, pois, como a mulher apresenta uma visão de
*
Os dados de 1995 e 2004 foram obtidos por meio do endereço eletrônico:
http://dgp.cnpq.br/censo2004/series_historicas/p_lider-sexo.htm Acessado em 04/07/2006.
39
mundo diferente daquela masculina, ela pode alcançar novas alternativas para o
desenvolvimento da ciência e da tecnologia.
Mas não se deve esquecer de que não é porque a mulher está participando cada
vez mais do universo científico e tecnológico, que mudanças ocorrerão em grande escala,
uma vez que a noção do que é ser homem ou mulher é construída socialmente. Portanto,
esses conceitos não podem ser levados na sua essência, isto é, na crença de que existe
um homem e uma mulher universais, mas, sim, na pluralidade de seres que poderão
contribuir de diferentes maneiras nestas áreas do conhecimento .
Vale ressaltar que tanto a participação feminina quanto a masculina o
importantes e significativas para o desenvolvimento científico e tecnológico, e que tanto
homens quanto mulheres fornecem contribuições igualmente ricas nestas áreas.
No Brasil, percebe-se a pouca valorização do trabalho feminino na ciência, através
da Academia Brasileira de Ciência (ABC), pois ainda são poucas as mulheres que se
tornaram membros, o que demonstra que o trabalho científico e tecnológico, continua
fortemente influenciado por estereótipos sexuais (VELHO E LÉON, 1998). Tanto é que
toda vez que alguma mulher se destaca dentro dessa área é vista com estranheza pela
sociedade como um todo, causando, inclusive, a admiração, quando deveria ser visto com
normalidade.
Tabela 4 – Distribuição de bolsas do CNPq segundo a modalidade e sexo do contemplado, 2001 e
2002.
Modalidade da Bolsa Feminino Masculino Total de bolsas % feminino
Iniciação Científica:
2001 7911,5 6506,2 14417,7 54,87
2002 7737 6303,8 14040,8 55,10
Mestrado:
2001 2950,4 2842,8 5793,2 50,93
2002 2956,8 2635,9 5592,7 52,87
Doutorado:
2001 2836,9 3000,3 5837,2 48,60
2002 2774,7 2960,1 5734,8 48,38
Recém-doutor:
2001 140,8 154,1 294,9 47,74
2002 187,2 189,2 376,4 49,73
Produtividade em
Pesquisa:
2001 2457,1 5204,2 7661,3 32,07
2002 2503,4 5259,8 7763,2 32,25
Fonte: CNPq (2003).
11
Informação obtida no artigo Aunque la mona tenga posgrados, mona se queda: la falta de equidad de
género en el mercado laboral. GARCÍA, J. Z., ESCAMILLA, R.R. E REYES, G.A. V Congresso
Iberoamericano de Ciência, Tecnologia e Gênero, Cidade do México, fevereiro de 2004.
40
Ainda, se observarmos com atenção, é possível verificar pela tabela no. 4, que, à
medida que aumentam os graus de especialização dos(as) estudantes, o número de
mulheres reduz. Aliás, esse fato também pode ser observado pela tabela no.3, e uma das
hipóteses para esse fato é que muitas mulheres ingressam tardiamente nas carreiras
científicas e tecnológicas, o que poderia comprometer o seu avanço dentro destas áreas.
Observa-se também que, nas bolsas de iniciação científica e de mestrado, o
número de mulheres é superior ao de homens. Essa proporção se inverte à medida que
há um aumento nos níveis de especialização, mostrando que os pesquisadores passam a
ser maioria em todos os demais níveis de bolsas concedidas pelo CNPq.
Quando analisados apenas os níveis de graduação, percebe-se que as brasileiras
que estudavam no país em meados da década passada, no conjunto, não se
diferenciavam de seus colegas homens quanto a bolsas. Essa diferença torna-se mais
evidente, como já foi visto, apenas nos níveis de especialização mais elevados.
Um outro dado curioso, relativo a essa redução de mulheres na ciência no Brasil, é
que entre os/as pesquisadores/as que receberam bolsa Fulbright para pós-graduação no
exterior, na década de 90, apenas 32% eram mulheres
12
.
Vale ressaltar aqui que, na América Latina de forma geral, houve o crescimento da
participação das mulheres na educação superior e na pós-graduação na última década,
entre 35 e 50% do total. Em Cuba (Garcia et al.) por exemplo, houve um forte crescimento
no ingresso de mulheres na Universidade de Havana nos últimos anos. Antes da
Revolução Cubana, de cada dez graduados apenas duas eram mulheres, depois da
Revolução, esse número saltou para quatro. Tais proporções encontram-se bem acima
daquela exibida pelas mulheres nos países da União Européia, onde, em média, mais de
2/3 dos pesquisadores em institutos públicos de pesquisa e ¾ daqueles nas instituições
de ensino superior são homens.
Contudo, quando se fala em ascensão dentro das instituições de pesquisa, a
situação das mulheres é semelhante em praticamente toda a América Latina e também na
Europa, pois todas apresentam dificuldades de crescimento. Daí, constata-se o fenômeno
do “teto de vidro”, que é um obstáculo invisível à ascensão feminina a cargos superiores,
independente da instituição. Em Cuba (op. cit), observou-se que a existência de carreiras
mais representadas por homens, do que por mulheres indica que:
os estereótipos sexuais estão presentes na sociedade; e
12
Algumas das informações obtidas nos parágrafos seguintes foram pesquisadas no endereço eletrônico:
http://www.comciencia.br/reportagens/mulheres/09.shtml Acessado em 18/02/2005.
41
a influência sexista, dentro e fora do ambiente familiar, ainda é marcante e
decisiva para a escolha profissional.
Estas indicações podem ser ampliadas e verificadas em toda a sociedade
ocidental, independente do país, uma vez que é um fenômeno que se repete em todo o
mundo.
Sobre o assunto, VELHO E PROCHAZKA apontam que:
no Brasil, existe um equilíbrio de gênero apenas nos estágios iniciais da carreira científica (entre os
pesquisadores com menos de 30 anos, os líderes distribuem-se eqüitativamente entre homens e mulheres);
daí em diante a situação deteriora para cerca de 40% nas demais faixas etárias. Dos pesquisadores líderes
com mais de 65 anos, 33% apenas o mulheres. A diferença entre a menor e a maior faixa etária indica
uma tendência a crescimento da liderança científica das mulheres, que, mesmo não sendo equivalente à
dos homens, encontra-se em significativos 40%. Isso deveria se refletir, por exemplo, na composição dos
comitês de julgamento de projetos de pesquisa, mas pelo menos no caso do CNPq, o quadro é bastante
diferente do esperado. Entre os 75 membros dos comitês assessores das engenharias, ciências exatas e da
terra, encontram-se apenas 3 mulheres (menos de 4%). Nas áreas de ciências da vida, as decisões o
tomadas por 60 homens e 19 mulheres (24%) e existem comitês específicos (agronomia e genética, por
exemplo) conformados inteiramente por homens. Apenas nas áreas de ciências humanas e sociais existe
uma participação equivalente entre homens e mulheres na composição dos comitês assessores (2005, p.
328).
Assim, pode-se declarar que ainda persistem os estereótipos acerca da
competência das mulheres brasileiras no mundo da ciência e da tecnologia. Saraiva
(2003, p. 5) coloca que desde cedo as mulheres são ensinadas de que são pouco
dotadas para o raciocínio abstrato, para o trato com o mundo da produção, para a
liderança e para tomadas de decisões, portanto, seguir uma carreira acadêmica ou na
área científica, significa aceitar o desafio de ultrapassar as limitações femininas”.
É importante que se coloque aqui que essa visão estereotipada acerca do papel da
mulher na sociedade atinge também o mundo do trabalho, que é marcado por intensas
discussões sobre a questão de gênero e que será desenvolvido no item a seguir.
42
3 TRABALHO: A BASE DE TODA SOCIEDADE
A sociedade moderna é marcada pela veneração ao trabalho. Trabalho é aquela
atividade realizada pelos seres humanos, que transforma a natureza, por meio de suas
capacidades intelectuais. Marx e Engels (1977) declaram que para os economistas o
trabalho é a fonte de toda riqueza.
No caso específico desta dissertação, utilizar-se-á a noção de trabalho na
sociedade moderna.
Assim, na visão capitalista, o trabalho é considerado uma atividade que gera
remuneração, que está associado à compra e venda, e que divide os seres humanos em
diferentes classes, isto é, classes dominantes, donas dos meios de produção, e as
classes oprimidas, que oferecem sua força braçal e/ou intelectual, em troca de uma
remuneração (MARX E ENGELS, op cit), daí surge a noção de mercado de trabalho.
Dentro deste contexto, pretende-se, neste capítulo, analisar de forma sucinta as
questões de gênero no mundo do mercado de trabalho.
3.1 A DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO
“ O mercado de trabalho não é neutro, porque ele é resultante das relações sociais, que são inerentemente
sexuadas”. RAPKWIEKZ, 1998, P.44.
vimos que, durante muito tempo, a divisão sexual do trabalho esteve pautada
nas diferenças biológicas entre homens e mulheres, isto é, nas diferenças consideradas
inatas e, por isso, aceitas sem questionamento. Além dos fatores biológicos, que ainda
são levados em consideração nos dias atuais, segundo SILVA (2000, p.37), deve-se
também levar em conta, “a construção social da identidade masculina e feminina, que
afeta o mercado de trabalho, uma vez que as oportunidades de empregos irão variar de
acordo com o gênero”.
Segundo Schweitzer (2003, p. 55), a história do mercado de trabalho mostra que,
no início, “as mulheres apareceram timidamente nas esferas da maternidade e da
assistência ou, ainda, nos ofícios que a tradição consentia em lhes reconhecer: mulheres
das tecelagens e das agulhas, em oposição aos homens das máquinas e das
ferramentas”, ou seja, foi um longo período de busca pela liberdade e emancipação
feminina, pois, durante muito tempo, e até hoje em algumas sociedades, o trabalho
feminino, fora da esfera doméstica, é considerado vergonhoso e, por isso, proibido.
43
Hirata (2003, p. 111) declara “quem não sabe hoje que as mulheres ganham
menos que os homens, que o mais atingidas pelo desemprego, que respondem pela
quase totalidade do trabalho doméstico, e que a política de emprego é sexuada (...)?”. A
sociedade moderna faz uma grande separação entre o trabalho produtivo, que gera valor,
portanto, lucro, e o trabalho doméstico e reprodutivo, que apresenta apenas (e se tanto),
um valor simbólico. O resultado disso é que o trabalho masculino acaba por ter mais valor
do que o trabalho feminino.
Sobre o assunto, Nogueira
13
declara que “a tendência do trabalho em tempo parcial
está reservada mais para a mulher trabalhadora. E isso ocorre porque o capital, além de
reduzir ao limite o salário feminino, também necessita do tempo de trabalho das mulheres
na esfera reprodutiva, o que é imprescindível para o seu processo de valorização, uma
vez que seria impossível para o capital realizar seu ciclo produtivo, sem o trabalho
feminino realizado na esfera reprodutiva”. Ainda de acordo com Hirata (1999 p. 23), a
existência de jornadas de trabalho mais curtas para as mulheres só “é possível porque
uma legitimação social: é em nome da conciliação entre a vida familiar e a vida
profissional, que tais empregos são oferecidos, e se pressupõe que essa conciliação é de
responsabilidade exclusiva do sexo feminino”.
Dessa forma, temos um mercado de trabalho segregado, no qual cabem às
mulheres, na esfera privada, os cuidados com o lar e filhos, e na esfera pública, as tarefas
que exigem mais paciência e atenção, são atividades repetitivas e monótonas, enquanto
que aos homens o mercado de trabalho reservou atividades de maior responsabilidade e
autoridade (NOGUEIRA, 2005). Estas características estão baseadas tanto na concepção
biológica dos gêneros, quanto numa construção social da identidade, através da qual
homens e mulheres são também vistos como seres com capacidades intelectuais e
emocionais distintas. Na realidade, o mercado de trabalho só reproduz aquilo que é
padrão para a sociedade, e, portanto, comum a todos os seres humanos, independente
do sexo, cor, raça, classe, etc.
Nos dias atuais, percebe-se que, mesmo quando a mulher possui uma qualificação
profissional semelhante à do homem, ela permanece tendo menores chances no mercado
de trabalho, apresentando uma remuneração inferior e maior dificuldade de acesso a
cargos mais altos.
Sobre esse assunto, Rapkiewicz (1997) declara que no mercado de trabalho
tanto uma segregação horizontal, pois as mulheres tendem a se concentrar em
13
Artigo publicado na Revista Espaço Acadêmico no. 44. Janeiro de 2005 e disponível no endereço
eletrônico: http://www.espacoacademico.com.br/044/44cnogueira.htm Acessado em 21/02/2005
44
determinadas funções e profissões, quanto uma segregação vertical, isto é, as mulheres
apresentam maiores dificuldades de acesso a postos de chefia do que os homens.
Dentro das engenharias, Lombardi (2005, p. 223) aponta para a presença dos
“clubinhos” que priorizam as relações masculinas dentro das empresas, e a mulher, neste
caso, estaria, mais uma vez, excluída dessa rede de relações.
Rapkiewicz (1998, p.36) cita o Jornal do Brasil de 05/02/93, que registra “segundo
estudo da OIT, caso se mantenha o ritmo atual de incorporação de mão-de-obra feminina
nos cargos de direção, serão necessários 475 anos para que seja alcançada a igualdade
com os homens nas esferas superiores de decisão política e econômica”.
Assim, pôde-se verificar que houve efetivamente um aumento da força de trabalho
feminina no Brasil e no mundo. Entretanto, maiores níveis de escolaridade não garantiram
oportunidades equivalentes de emprego para as mulheres em relação aos homens. Pelo
contrário: a disparidade de renda entre os sexos parece aumentar com os anos de
estudo. As mulheres, tanto no Brasil como nos países latino-americanos, precisam, em
média, dois anos mais de escolaridade do que os homens para ter as mesmas
oportunidades de emprego formal, e quatro anos mais de escolaridade que eles para
receber o mesmo salário. A disparidade em termos de renda permanece um dos mais
importantes indicadores de desigualdade de gênero (VELHO E PROCHAZKA, 2005).
Um outro dado acerca do trabalho feminino, e que também se repete em países
latino-americanos, é que são poucas as mulheres que têm acesso a cargos diretivos, pois
estes são vistos como postos de poder e decisão, características incomuns às mulheres
que convivem com estereótipos como: pouco agressivas, mais pacientes, menos
ambiciosas, mais carinhosas, etc. (GARCÍA, et al. 2004).
De acordo com as entrevistas realizadas por Lombardi (2005, p. 224) com
mulheres engenheiras, aparece que “a mulher prefere o se expor demais nas disputas
por cargos, se preservando e, ao mesmo tempo, se conformando com o fato de não ter
altos cargos”. Em algumas empresas as mulheres estão conseguindo conquistar seu
espaço, e assumir postos de chefia, mas isso acontece sobretudo com postos
intermediários, como gerência, tendo dificuldades para chegar a postos de direção e
presidência.
O que acontece na realidade é que se reproduzem no mercado de trabalho as
experiências vividas pela sociedade, portanto, tem-se uma realidade trabalhista
compatível com a sociedade na qual está inserida.
45
De acordo com Rius (2004), isso demonstra a existência de barreiras ainda
presentes, que são muitas vezes psicológicas, sutis e invisíveis, e que dificultam o avanço
para um equilíbrio entre os gêneros.
Essas dificuldades encontradas pelas mulheres no mercado de trabalho são
percebidas em todas as suas esferas. muitas empresas que não as contratam e,
segundo Hirata, (2002, p.204) isso acontece porque “as mulheres não podem ser
empregadas em determinados ramos por causa dos trabalhos pesados, perigosos, sujos
e insalubres, mas que poderiam neles ser empregadas para trabalhos leves e limpos”.
Isto é, as mulheres em geral, são segregadas a algumas atividades dentro do mundo do
trabalho simplesmente por serem mulheres, sem se levar em conta todas as suas
especificidades enquanto seres sociais.
Vale lembrar que essa segregação também acontece nas engenharias e suas
subáreas. Por exemplo é reduzido o número de moças que opta por cursos de engenharia
mecânica, metalúrgica, de minas, etc... E, portanto, que ingressem em profissões
consideradas masculinas, em áreas que “não” são para mulheres.
Mas, apesar dessas diferenças sexuais existentes, pode-se declarar, que
ocorreram avanços no mercado de trabalho para a mulher, mas que ainda se está longe
de um ideal de igualdade entre os gêneros.
No item seguinte, será discutido o mercado de trabalho especificamente para as
mulheres brasileiras, assunto de grande relevância para este trabalho.
3.2 TRABALHADORAS BRASILEIRAS
Foi a partir da década de 70 do século passado que a participação feminina
brasileira cresceu na esfera produtiva, e as principais razões para isso foram:
a deterioração dos salários, que levam mais mulheres para o mercado de
trabalho, a fim de complementar a renda familiar;
o fortalecimento da sociedade de consumo, que desenvolve nas pessoas
uma necessidade por consumir mais e novos produtos, necessitando,
portanto, de maior renda; e
a emancipação feminina que vai buscar seu espaço além do ambiente
doméstico, e que foi impulsionada pelos crescentes movimentos feministas
em todo o mundo.
46
Essa realidade pôde ser sentida em todo o território nacional. Contudo, apesar
desse aumento, Silva (2000, p.37) declara que “os critérios de seleção e distribuição de
homens e mulheres no mercado de trabalho não se modificaram, ou, pelo menos, não em
igual ritmo de mudança”. Isto mais uma vez demonstra que o mercado de trabalho
recebeu mais mulheres, mas não deu para as mesmas oportunidades de trabalho
semelhantes às dos homens.
Segundo Lombardi (2004, p.45), “no último quarto de século, cerca de 20 milhões
de brasileiras passaram a integrar o mercado de trabalho do país (...) o perfil destas
trabalhadoras altera-se e adentra-se o novo milênio como trabalhadoras mais velhas,
casadas e mães”. Além disso, o nível de instrução também se modificou, pois as
mulheres brasileiras passaram a apresentar mais instrução do que os homens. Mas isso
não significou necessariamente mudanças positivas para a mulher no mercado de
trabalho.
Isso acontece porque, ainda de acordo com Lombardi (2004), tanto os homens,
quanto as mulheres possuem posições diferenciadas do ponto de vista hierárquico dentro
da sociedade, e, portanto, também no mercado de trabalho, o que se reflete numa divisão
sexual do trabalho, pois os seres humanos classificam e hierarquizam como masculinos e
femininos os espaços sociais, e, a partir daí, definem o que deve ou não ser encarado
como domínio de homens ou de mulheres.
É fato que a quantidade de mulheres que deixam as faculdades com diploma
universitário cresceu nos últimos anos, e isso está criando uma mão-de-obra feminina
muito mais qualificada, e que, por conseqüência, pressiona a última reserva masculina, ou
seja, o mercado de trabalho. Mas, apesar dessas mudanças, isto não representou uma
alteração entre a mão-de-obra feminina e o mercado de trabalho, pelo contrário, as
mulheres continuam segregadas a determinadas funções, que, como foi visto, seguem
estereótipos sociais, vinculados ao sexo.
Observe a tabela 5 a seguir, ela fornece informações sobre o ingresso de homens
e mulheres em cursos superiores, entre os anos de 1995 e 2002.
47
48
Dentro do período analisado, verifica-se que a presença masculina permanece
majoritária dentro de áreas como ciências, matemática e computação, além da
engenharia, produção e construção.
Nas áreas de humanidades, educação, saúde e serviços, as mulheres
permanecem absorvendo a maior parte das vagas nas universidades, fato que mostra a
permanência de um perfil conservador entre as moças, e, mais uma vez, a perpetuação
dos estereótipos sexuais.
Um outro dado relevante da tabela anterior é que são as mulheres que estão
ingressando em maior número nos cursos superiores. Isso mostra que as mulheres estão
atingindo um maior grau de escolaridade. Mas, e quanto a sua posição no mercado de
trabalho, será que está também ganhando mais espaço e uma eqüidade salarial?
Respostas que podem ser respondidas em futuros trabalhos acerca da inserção das
mulheres em guetos masculinos.
Um outro dado importante a ser elucidado é que houve efetivamente um acréscimo
no número de rapazes e moças nos cursos superiores nos últimos anos. Isso é reflexo de
que a população está tendo acesso a um maior nível de escolaridade, o que pode
significar melhorias sociais e econômicas para o país.
De acordo com a tabela, pode-se perceber também que, no Brasil os homens
apresentam mais dificuldades de ingresso nos cursos superiores. Será isso reflexo de
uma sociedade androcêntrica, na qual o homem é visto como o grande responsável pelo
sustento da família? E, por isso, caberia a ele o ingresso mais cedo no mercado de
trabalho, daí resultando em uma entrada mais tardia no ensino superior?
Se estas dúvidas se confirmassem, poder-se-ia supor que essa sociedade
machista prejudica o próprio homem, uma vez que este tem mais dificuldade de se
aperfeiçoar em seus conhecimentos.
Assim, mulheres e homens continuam seguindo modelos sexuais tradicionais, não
só dentro das universidades como também no mundo do trabalho.
Às mulheres cabe a realização de atividades tipicamente femininas no mundo do
trabalho (Hirata, 2002), isto é, atividades ligadas ao trato com outros seres humanos,
como professora, pedagoga, enfermeira, psicóloga, assistente social, entre outras.
À medida que as décadas passaram, ocorreu também a chamada terciarização,
que provocou o crescimento do número de vagas femininas no mercado de trabalho
brasileiro, principalmente no setor terciário da economia. No entanto, isso também não
significou melhorias profissionais para as mulheres, muito pelo contrário, houve uma certa
precarização do trabalho feminino, uma vez que, em geral, o trabalhadoras com baixa
49
qualificação e remuneração que atuam no setor terciário da economia, principalmente em
atividades de limpeza e manutenção (BRUSCHINI, 1994).
Mas, além do crescimento do trabalho feminino no setor terciário, pode-se também
perceber o acréscimo de trabalhadoras e trabalhadores como terceirizados, isto é,
atuando em empresas como prestadores de serviço, vinculados a outras empresas. Este
tipo de atividade tem o objetivo de diminuir os custos empregatícios da empresa que está
contratando, podendo gerar uma massa de trabalhadores/as sub-contratados/as. Esta
é, aliás, uma condição de trabalho bastante comum hoje no mercado.
O fato é que, até os dias atuais, há muitos que vêem o ambiente doméstico como o
único lugar adequado para a mulher. Ainda, de acordo com Silva (2000, p.72), “sempre
houve em nosso país, um discurso moralizante que delimitava rígidos códigos de
moralidade para as mulheres de todas as classes sociais e que questionava a ausência
feminina do lar, que era interpretada como um abandono das suas obrigações de mãe,
esposa e dona-de-casa”.
Essa é uma das razões para o pequeno incentivo dado à mulher dentro das
carreiras técnico-científicas, não apenas no Brasil como também em outras partes do
mundo, pois as normas sociais sempre afirmaram que as mulheres têm suas habilidades
mais voltadas para as áreas de humanidades e de cuidados, carreiras estas que não
divergiriam daquilo que a mulher já executa no ambiente doméstico (RAPKIEWICZ,
1998).
É importante salientar que a mulher brasileira vem executando tarefas fora do lar
desde o período colonial, seja como lavadeira, empregada doméstica, artista, entre
outras, mas foi sobretudo no período republicano que houve maior incentivo à entrada da
mulher no mercado de trabalho, fato este também associado ao fortalecimento do
capitalismo e ao crescimento do número de fábricas em todo o Brasil, o que significa
maior necessidade de mão-de-obra, independente do sexo.
Rapkiewicz (1998, p.32) declara que “a atribuição a priori da profissão de mãe às
mulheres foi durante uma certa época para legitimar sua inferioridade natural no domínio
científico-tecnológico”, e, apoiada nessa idéia, a sociedade brasileira via, e muitas vezes
ainda vê, a participação feminina no mundo do trabalho como algo distante de suas
habilidades aceitáveis e consideradas normais.
É relevante afirmar que houve efetivamente um aumento da participação das
mulheres no mercado de trabalho brasileiro. Mas isso não implicou numa redução dos
afazeres domésticos. As mulheres realizam o que é chamado de dupla ou tripla jornada
de trabalho, pois além de assumir funções fora do lar também têm que realizar os
50
afazeres domésticos, e, os cuidados com os filhos, dividindo pouco dessas funções
“extra-profissionais” com seus parceiros. É certo que, aquelas com maior poder aquisitivo,
possuem aparelhos tecnológicos que as auxiliam e, contratam outras mulheres com
menor renda, para executar aquelas tarefas que não conseguem realizar. Mas isso não
ocorre com as mulheres de baixa renda.
Nenhum destes fatos muda o quadro atual, em que as imagens e representações
sociais e a própria educação ainda reforça aqueles estereótipos tradicionais e
androcêntricos do mercado de trabalho brasileiro.
De acordo com Bruschini (1994), as mulheres brasileiras continuam sendo
discriminadas, encontrando dificuldades para ocupar cargos de chefia e ganhando menos
que seus colegas homens.
Enfim, as trabalhadoras brasileiras encontram-se atualmente em todos os setores
da economia, assim como os homens, mas o que se tentou mostrar, é que nem sempre
elas encontram as mesmas oportunidades e salários que os homens, independente da
área de atuação.
Como esta pesquisa tem seu foco nas engenharias, no item a seguir, será
analisada a relação entre o mundo do trabalho e as engenheiras no Brasil.
3.3 ENGENHEIRAS E MERCADO DE TRABALHO NA DÉCADA DE 90
Essa dissertação analisa as relações de gênero nos cursos de engenharia da
UTFPR, campus Curitiba, razão pela qual considerou-se necessário conhecer, ainda que
sem nos aprofundarmos, a realidade do mercado de trabalho para estas mulheres na
década de 90, e que se reflete até este início de milênio.
De acordo com Lombardi (2004, p. 49), a participação das mulheres como
profissionais da engenharia esteve, ao longo de toda a década de 90, em torno de 10%, o
que comprova ser ainda um espaço eminentemente masculino.
Segundo a mesma autora (op. cit), as mudanças econômicas que marcaram a
década de 90, como a abertura de mercado e a implantação do Plano Real, contribuíram
para que o mercado de trabalho no setor das engenharias fosse atingido negativamente,
isto é, ocorreu uma redução dos postos de trabalho, o que afetou, sobretudo, a mulher
engenheira.
51
Fonte: Lombardi, Maria R. (2004).
O gráfico anterior deixa evidente que o desemprego atingiu principalmente as
engenheiras. Em 1990, dos 172.788 postos de trabalho, 25.237 vagas eram ocupadas por
mulheres engenheiras, uma década mais tarde, ou seja, em 2000, esse número reduziu
para 17.366. Houve, portanto, uma redução em torno de 30% de vagas. Estes números
revelam o fato demonstrado, isto é, que foram as engenheiras quem mais perderam
com o crescente desemprego nesta área no Brasil, na década de 90. Por outro lado, os
engenheiros, no mesmo período, tiveram uma redução em torno de 25%. Este dado
mostra que, mesmo tendo um nível de instrução equivalente ao dos homens, as mulheres
continuam sendo discriminadas no mercado de trabalho. O que fica evidente até aqui é
que a sociedade tende a associar a mão-de-obra feminina àquelas carreiras consideradas
femininas, e que, portanto, estão ligadas ao trato com outros seres humanos, e não com a
tecnologia, como é o caso das engenheiras. Lombardi (2005, p.78) coloca ainda um dado
mais recente, em 2002, das 139.287 vagas existentes para os/as profissionais da
engenharia, 119.396 foram preenchidas por engenheiros, e apenas 19.891 foram
preenchidos por engenheiras. Este dado é bastante revelador, uma vez que mostra uma
área ainda refratária à mulher.
De acordo com Lombardi (op. cit), em virtude do crescente desemprego e também
das alterações nas funções profissionais, os/as engenheiros/as tiveram mudanças nas
suas atribuições profissionais. Por exemplo:
52
os/as engenheiros/as passaram a participar das negociações com os
trabalhadores dentro das fábricas;
assumiram mais funções administrativas e de gerência;
ocuparam cargos nos setores de compra e venda de materiais; e
desenvolveram habilidades nas áreas de relacionamento pessoal e de
marketing.
Com isso, estes profissionais, sejam homens ou mulheres, tiveram (e ainda têm)
que desenvolver habilidades além da técnica, como as relações humanas, que é, aliás,
considerada uma marca feminina, razão pela qual essa característica do/a atual
profissional da engenharia pode vir a beneficiar a futura engenheira.
As atuais engenheiras que ocupam cargos de chefia têm percebido essas
mudanças, pois o mercado de trabalho está buscando uma chefia que desenvolva um
relacionamento mais caloroso e empático com sua equipe, que valorize o capital humano,
e não apenas a técnica (LOMBARDI, 2005).
Sobre o assunto, Masseto (2001, p.02) coloca que “as soluções técnicas para
resolver problemas que se apresentam ao engenheiro sempre têm conseqüências que
afetam o homem e seu meio, e isto não pode deixar de ser aprendido pelo engenheiro”.
Bazzo ainda aponta para a necessidade de
as escolas de engenharia, e de tecnologia como um todo, também precisarem se reciclar para
formar profissionais sintonizados com um novo mercado de trabalho. Este mercado de trabalho, inserido
que está num contexto social de grandes mudanças, que parece cada vez mais dependente de um
profissional que, além de sua capacitação técnica, possa contribuir com análises críticas dos aspectos
humano, social e político na produção de novas tecnologias (BAZZO, 2001, p.04).
Um outro dado relevante é que, à medida que ocorre a dispensa de funcionários,
mais funções assumem aqueles e aquelas que permaneceram no emprego, fato este,
aliás, comum aos nossos dias, isto é, as empresas demitem, e aqueles que ficam são
obrigados a assumir as funções daqueles que não estão mais presentes no ambiente
corporativo (LOMBARDI). Portanto, o/a profissional da engenharia atual deve ter um perfil
multifuncional, pois suas atribuições vão além do chão de fábrica.
No entanto, ainda que essas mulheres estejam ocupando novos e promissores
espaços de trabalho, nos quais sua inserção tem características bastante semelhantes às
dos homens, elas permanecem submetidas a uma desigualdade de nero presente em
53
todos os escalões do mercado de trabalho, ou seja, ganham menos do que seus colegas
de profissão
É importante ressaltar que, dos cursos de engenharia, depois da Engenharia
Química, a Engenharia Civil é o que mais absorve mulheres, assim como também no
mercado de trabalho. Engenharia Civil é o ramo da engenharia que apresenta mais
engenheiras em atividade, apesar do preconceito, frente àquela engenheira que realiza
funções em obras.
Pode-se verificar também que, na tabela a seguir, a Engenharia Elétrica (Eletrônica
e Eletrotécnica) é uma das especialidades que mais tem tido aumento no número de
alunas e de profissionais femininas no mercado de trabalho. O mesmo não acontece com
a Engenharia Mecânica, que ainda permanece um reduto masculino.
Tabela 6 Parcela feminina nos empregos para engenheiro, segundo a
especialidade, no Brasil – 1990-2000.
Fonte: Lombardi, Maria R. (2004).
De acordo com Lombardi (2005, p.88), “a criação de novas especialidades no
ensino de engenharia (...) incidiu especialmente sobre as opções femininas que, até
meados dos anos 90, encontravam-se mais concentradas nas engenharias civil e
química”. Este fato revela a existência da segregação feminina, tanto na escola quanto
fora dela. Sobre as novas especialidades, a tabela anterior é bastante reveladora, uma
vez que ela aponta para a presença de várias ramificações dentro das engenharias, e
conseqüentemente, crescente presença feminina nestas áreas.
Lombardi (2006, p. 174) também coloca que “alguns estereótipos de gênero que
dificultavam o ingresso de mulheres em certas áreas de conhecimento e de trabalho, em
54
algumas atividades e atribuições, foram questionados socialmente e perderam parte do
poder de intimidação nesse período de tempo”.
Se for analisado o crescimento de empregos dentro das engenharias, do início da
década de 90 até 2002, percebe-se que houve efetivamente um aumento da participação
feminina nesta área, passando de cerca de 10% para 14% em 2002 (LOMBARDI, 2006).
Observa-se contudo que, apesar dos novos ramos, as mulheres continuaram
concentradas nas engenharias química e civil, além da organização e métodos. Vale
ressaltar aqui que aqueles ramos que são tradicionais guetos masculinos, como as
engenharias mecânica e metalúrgica, permaneceram com uma reduzida, mas crescente,
participação feminina, passando respectivamente de 4,3% no início da década de 90,
para 4,9% e de 1,6% para 4,6% no final da década. Lombardi (2005) aponta para um
aumento de postos de trabalho na década de 90, principalmente dentro do setor de
serviços, tanto para engenheiros, quanto para engenheiras, serviços estes prestados,
sobretudo, para o Estado.
Lombardi (2006, p.181) também coloca que “a criação de novas especialidades no
ensino de engenharia pelo desdobramento das antigas áreas levou à diversificação das
escolhas de homens e mulheres”. Vale lembrar que essa diversificação foi favorável às
mulheres que viram ampliar suas possibilidades de inserção em uma área
predominantemente masculina.
Mas, como já foi dito, as mulheres engenheiras ainda não alcançaram o seu
espaço de igualdade entre os neros dentro do mercado de trabalho. As mulheres têm
entrado nas universidades para cursar engenharia, mas continuam atuando em áreas
ainda tipicamente femininas, como nos setores administrativos e de prestação de
serviços, fato que sugere uma segregação horizontal no campo nas engenharias
(SARAIVA, 2004). Observe a tabela a seguir:
55
Tabela 7- Empregos para engenheiros, segundo o setor de atividade e sexo, no
Brasil – 2000.
Fonte: Lombardi, Maria R. (2004).
Os dados anteriores revelam a segregação ainda existente no campo das
engenharias. Os setores que mais absorveram engenheiras em 2000, de acordo com a
tabela, foram a administração pública, a defesa e a seguridade social, o setor de saúde e
serviços sociais e o setor de serviços coletivos, isto é, as mulheres engenheiras
permanecem em áreas tipicamente femininas. O que se percebe, portanto, é que o
mercado de trabalho reflete as representações sociais, ou melhor, as áreas da engenharia
que absorvem mais mulheres são justamente aquelas associadas aos padrões
sexualmente construídos.
As engenheiras inserem-se mais facilmente nestas áreas, porque são espaços,
cuja mão-de-obra é tradicionalmente feminina, e, portanto, lugar onde elas estão
presentes há mais tempo (LOMBARDI, 2005). os homens permanecem
majoritariamente no setor industrial.
A seguir serão abordados a metodologia de pesquisa, o ambiente pesquisado e a
análise das entrevistas, etapa fundamental deste estudo sobre a realidade de gênero nas
engenharias na UTFPR.
56
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DE PESQUISA
Este capítulo inicia-se com a exposição da metodologia utilizada para a obtenção
dos dados da pesquisa, em seguida será apresentada uma descrição do ambiente
pesquisado, incluindo dados históricos e quantitativos dos cursos que são objeto dessa
pesquisa e, finalmente, a caracterização dos entrevistados e a análise das entrevistas.
Para o desenvolvimento metodológico deste trabalho foi escolhida a pesquisa
qualitativa de natureza interpretativa. Silva (2000, p.113) coloca que este tipo de
metodologia contribui para uma maior reflexão da realidade, uma vez que não se
pretende chegar a uma conclusão definitiva, mas apenas elucidar de forma mais clara as
relações de gênero dentro dos cursos de engenharia da UTFPR, campus Curitiba. Assim,
considerou-se que a pesquisa qualitativa seria a melhor opção para se chegar aos
objetivos propostos inicialmente, isto é, conhecer as percepções e expectativas dos
alunos e alunas dos cursos de engenharia da Instituição.
Por isso, falar em neutralidade da pesquisa é uma falácia, pois inevitavelmente
aparecerá, durante a interpretação das pesquisas, a visão daquela que está interpretando
os dados, isto é, da pesquisadora. Contudo, vale ressaltar aqui que se pretende chegar
ao nível mais próximo da neutralidade, trabalhando unicamente com os dados coletados
durante a pesquisa, com a finalidade de contribuir para uma melhor prática pedagógica
dos cursos, e aproximar mais estes cursos daquilo que os alunos e alunas esperam dos
mesmos.
Como o objetivo deste trabalho era investigar as relações de gênero nos cursos de
engenharia da UTFPR, campus Curitiba, optou-se por uma amostragem ampla,
envolvendo alunos e alunas dos mais variados períodos dos referidos cursos. Isto porque
permite uma visão mais abrangente da realidade destes cursos, uma vez que se conhece
a visão daquele recém-ingressado na Instituição e daquele que está prestes a sair, pois, à
medida que o tempo passa, supõe-se um amadurecimento dos alunos e alunas, o que
deve contribuir para mudanças na forma de pensar e agir sobre os diferentes cursos de
engenharia.
A etapa inicial da pesquisa caracterizou-se por uma pesquisa documental, através
da análise dos relatórios dos vestibulares da UTFPR, a fim de obter dados quantitativos,
históricos e a caracterização da Instituição, bem como dos cursos de engenharia. Esta
etapa teve como objetivo averiguar a participação feminina dentro dos cursos. Ela foi
realizada junto ao DIVOE (Divisão de Orçamento e Estatística), à Comissão de
57
Vestibulares e à Secretaria Geral da Instituição, de onde foi possível coletar os dados
quantitativos acerca dos cursos de engenharia.
Para a segunda etapa, foi realizado o contato com os alunos e alunas, por
intermédio de professores e professoras da Instituição, que permitiram que a
pesquisadora fizesse uma visita em suas turmas, com o objetivo de buscar estudantes
para as futuras entrevistas.
Para agendar as entrevistas, utilizou-se basicamente o correio eletrônico (que os
alunos e alunas forneceram durante o primeiro contato em sala de aula), e através dele
eram marcados data, horário e local para esta etapa da pesquisa. Neste contato, era
explicado ao aluno ou aluna o objetivo da pesquisa e sobre o que se pretendia conversar.
Foram entrevistados nove alunos e onze alunas. É importante salientar que se
tentou chegar a um número equilibrado de entrevistas entre os sexos, de forma que não
houvesse nenhuma interpretação tendenciosa da realidade apresentada pelos mesmos.
Vale lembrar que, apesar de certa eqüidade de gêneros nas entrevistas, o mesmo não se
repete na realidade, haja vista o predomínio de rapazes matriculados nos cursos de
engenharia.
Metade dos/as entrevistados/as pertence aos períodos iniciais dos cursos, fato que
revelou maior abertura e principalmente disponibilidade.
De todos/as os/as estudantes entrevistados/as, percebeu-se, ao final desta fase,
que os mais receptivos eram curiosamente dos cursos de engenharia eletrônica e
eletrotécnica, ao todo foram 16 dos 20 entrevistados. Os mais refratários a essa conversa
foram os/as estudantes de engenharia de produção civil, pois, apesar de muita insistência
por parte da pesquisadora, houve o retorno de apenas uma aluna para a realização da
entrevista.
Dentro do curso de engenharia mecânica, três estudantes retornaram o contato,
sendo dois rapazes e uma moça, vale lembrar que este é um curso predominantemente
masculino. De acordo com as entrevistas, as turmas em geral apresentam entre duas e
três meninas, dentro de um universo de 40 matriculados.
De modo geral, como demonstrado, os alunos foram atenciosos e participativos,
não apresentando resistência em conversar com a pesquisadora. Um fato que chamou a
atenção é que, conforme os alunos avançam nos períodos dentro de seus respectivos
cursos, mais comprometidos estão com o mercado de trabalho, fato que foi de grande
valia para este estudo, uma vez que havia o interesse de se relatar, ainda que
rapidamente, as experiências e expectativas destes/as estudantes neste ambiente, seja
como estagiário, ou como trabalhador efetivo.
58
Em nenhum momento, foi solicitado ao aluno ou aluna que este/a fornecesse
dados pessoais, além das informações básicas, como: nome, idade e período em que
estava cursando e o curso que estava fazendo, dados estes fundamentais para a
pesquisa.
Vários/as entrevistados/as demonstraram interesse em conhecer os resultados da
pesquisa, por isso, conhecendo os endereços eletrônicos dos alunos e alunas, a
pesquisadora comprometeu-se que, ao final do trabalho, fará um contato com os mesmos,
comunicando-lhes que a dissertação estaria disponível na biblioteca da UTFPR, bem
como no site da Instituição.
Foram poucos/as os/as estudantes que tiveram dificuldades de falar (alguns
sentiram-se constrangidos). Mas o mais interessante é que praticamente todos/as que
participaram das entrevistas, demonstraram, em suas falas, que consideravam importante
a sua participação num trabalho científico, por isso, contribuíram de forma responsável e
agregadora.
Sempre ao iniciar e terminar as entrevistas, a pesquisadora deixava evidente
aos/as entrevistados/as que suas identidades seriam preservadas.
Praticamente todas as entrevistas foram gravadas com o objetivo de manter, o
mais verossímil possível, as falas dos alunos e alunas, assim, ao final de cada entrevista,
a pesquisadora realizava as transcrições das fitas. Contudo, duas pessoas demonstraram
constrangimento ao perceber a presença do gravador, e pediram que o mesmo não fosse
usado. Respeitando a vontade destas pessoas, estas entrevistas não foram gravadas.
Para a realização das entrevistas foi seguido um roteiro (Apêndice 1). As questões
não eram fixas, elas se adaptavam de acordo com a receptividade do/a entrevistado/a,
por isso havia uma variação no tempo de cada entrevista, podendo ir de 30 minutos a
1h30min. Em muitos casos os(as) próprios(as) entrevistados(as) colocavam-se à
disposição para eventuais dúvidas por parte da pesquisadora.
As entrevistas iniciavam-se sempre com a retomada do objetivo da pesquisa e a
necessidade e importância desta conversa para o trabalho da pesquisadora. Assim,
pretendia-se tornar o encontro mais informal, e gerar certa proximidade com o/a
entrevistado/ª Em seguida, a pesquisadora pedia para que a pessoa entrevistada
relatasse sobre os motivos que o/a trouxeram para o curso e para a Instituição. Depois
disso, a conversa em geral transcorria com tranqüilidade e descontração.
Como foi escrito, as gravações das entrevistas eram sempre transcritas, o mais
rapidamente possível, a fim de se evitar qualquer erro de interpretação. Esta etapa exigiu
59
tempo e dedicação por parte da pesquisadora, uma vez que se buscou a maior
fidedignidade das falas dos/as entrevistados/as.
Foram entrevistadas 21 pessoas, das quais apenas uma não era estudante da
Instituição. O que determinou este número foi a saturação das respostas obtidas nas
entrevistas, isto é, a partir do momento em que as entrevistas tornaram-se repetitivas, foi
considerado o momento de eixaa-las.
Com a ajuda de uma aluna, a pesquisadora teve a oportunidade de entrevistar o
diretor de uma empresa do setor elétrico da CIC (Cidade Industrial da Curitiba), de onde
foi possível conhecer como ocorre o procedimento de contratação de estagrios/as e
futuros/as engenheiros/as no mercado de trabalho, inclusive ocorrendo, neste ambiente,
entrevistas com estagiários e estagiárias que cursavam engenharia na Instituição
pesquisada.
Para dar início a esta etapa realizaram-se entrevistas-piloto. Nesta fase foram
realizadas duas entrevistas com um aluno da engenharia eletrotécnica e uma aluna da
engenharia eletrônica. O objetivo destas entrevistas-piloto era testar o roteiro de
entrevistas, isto é, saber se as questões estariam efetivamente de acordo com a proposta
da pesquisa e, ainda, se os entrevistados e entrevistadas iriam responder
satisfatoriamente às questões relativas ao problema.
Depois de realizada esta etapa, foi feita uma análise das perguntas e respostas,
com o objetivo de se verificar se as mesmas estavam correspondendo aos objetivos da
pesquisa. Considerou-se, enfim, que tanto as questões como as respostas estavam de
acordo com o trabalho, podendo, a partir de então, dar continuidade a esta etapa do
trabalho.
No próximo item serão apresentados alguns fatores que contribuíram para a
limitação da pesquisa.
4.1 OS FATORES LIMITADORES DA PESQUISA
O presente trabalho apresenta limitações, e não pretende encerrar o debate acerca
do tema, que é amplo e complexo. Por isso, pode-se declarar que houve fatores que
limitaram o presente estudo, sem, contudo, eixa-lo incompleto.
O primeiro fator limitante está na pessoa da pesquisadora, que, em muitos
momentos, entrou em conflito sobre como melhorar a interpretação dos dados e eixa-los
60
mais verossímeis quanto fosse possível, além da constante retomada do texto, que exigia
novas leituras e contribuições para o trabalho.
O segundo fator está no tempo, que em alguns momentos tornou-se aliado, mas na
maioria das vezes, era o grande “carrasco”, que impelia a pesquisadora para uma
constante releitura e reinterpretação dos dados. Por outro lado, colaborou para mostrar
que nenhum assunto se encerra nele mesmo, que este tema é envolvente e que requer
novas análises, fato, aliás, que pode contribuir para auxiliar em novos estudos sobre as
desigualdades de gênero que são produzidas na nossa sociedade.
Outra limitação está na amostra da pesquisa, pois seria de grande valor incluir
nesse universo depoimentos de professores/as, de aluno/as egressos/as dos cursos
pesquisados, bem como dos atuais cursos de tecnologia, fato que poderia gerar novas e
importantes reflexões. Contudo, essa ausência não representou perda para a
concretização dos objetivos propostos, muito pelo contrário. colabora para a
possibilidade de se dar uma continuação a esse tema, de forma que futuras pesquisas se
realizem.
No capítulo a seguir será abordado o ambiente pesquisado.
61
5 AMBIENTE PESQUISADO
Neste capítulo pretende-se elucidar o ambiente pesquisado, isto é, a Universidade
Tecnológica Federal do Paraná campus Curitiba, e suas relações com as questões de
gênero.
5.1 A ESCOLA E A SUA HISTÓRIA
A UTFPR
14
possui uma tradição de nove décadas, é considerada um centro de
referência do ensino tecnológico do Sul do país, e tem por objetivo “educar com padrão
de excelência”, evoluindo permanentemente e adaptando-se às mudanças, às exigências
e aos constantes avanços tecnológicos.
A UTFPR é uma autarquia de regime especial, vinculada ao Ministério da
Educação, e tem por finalidade formar e qualificar profissionais nos vários níveis e
modalidades de ensino para os diversos setores da economia, bem como realizar
pesquisa e desenvolvimento tecnológico de novos processos, produtos e serviços em
estreita articulação com os setores produtivos e a sociedade, fornecendo mecanismos
para a educação continuada.
A história da UTFPR teve início em 1910, quando foi implantada a Escola de
Aprendizes Artífices do Paraná, através da qual eram ministradas aulas de feitura de
vestuário, fabrico de calçados e ensino elementar. Inicialmente era uma instituição
destinada às camadas menos favorecidas e aos menores marginalizados,
predominantemente meninos. Era o início da profissionalização no Paraná. Segundo
Queluz (2000, p. 45), a escola “tinha como uma de suas funções primordiais a
disciplinarização das classes proletárias, e especialmente dos seus filhos”, isto é,
transformar crianças em futuros trabalhadores qualificados e disciplinados, e deixá-los
prontos para atender a indústria paranaense que crescia.
Desde sua criação, percebe-se que a escola teve a intenção de atender ao público
masculino, até porque, no período em que surgiu, a mulher deveria permanecer em seu
ambiente “natural”, ou seja, o lar. Vale ressaltar que a escola foi criada para atender
especificamente aos menores transgressores (e não às menores), que “alteravam a paz”
das ruas da capital paranaense. Sobre o assunto, Machado e Queluz (2003, p.36)
declaram que “... as questões de gênero podem ser percebidas pela ausência de alunas
14
Informações disponíveis no endereço eletrônico da Instituição www.utfpr.com.br
62
nessa fase inicial da Escola, que abrangia os cursos de alfaiate, marceneiro e sapateiro,
ocupações construídas como eminentemente masculinas”.
Em 1937, a escola passou a oferecer o ensino fundamental em consonância com a
realidade da época, sendo então denominada de Liceu Industrial de Curitiba. com um
espaço insuficiente, o Liceu ganhou uma nova área, na confluência da Avenida Sete de
Setembro e Rua Desembargador Westphalen, onde funciona até hoje, porém com outra
denominação.
Em 1942, o ensino industrial teve unificada sua organização em todo território
nacional. O ensino passou a ser ministrado em dois ciclos. No primeiro, incluía-se o
industrial básico, o de mestria, o artesanal e a aprendizagem. No segundo, o técnico e o
pedagógico.
Funcionando paralelamente ao ensino secundário, o ensino industrial começou a
vincular-se ao conjunto da organização escolar do país, com a possibilidade de ingresso
dos formandos nos cursos técnicos em escolas superiores diretamente relacionadas à
sua formação profissional.
Instituía-se a rede federal de escolas de ensino industrial, denominadas Escolas
Técnicas, e o Liceu passou a chamar-se Escola Técnica de Curitiba. Nessa época, março
de 1944, foi criado o primeiro curso de 2º ciclo na Instituição: o de Mecânica.
Em 1959, com a reforma do ensino industrial, a legislação unificou o ensino técnico
no Brasil que até então era dividido em ramos diferentes. A Escola ganhou autonomia,
bem como nova alteração no nome: passou a chamar-se Escola Técnica Federal do
Paraná e a ser considerada como unidade escolar padrão no Estado
15
.
Até 1978, a instituição caracterizava-se pela formação de técnicos (nível médio).
Neste ano a antiga Escola Técnica transforma-se no Centro Federal de Educação
Tecnológica, ao introduzir os primeiros cursos de engenharia industrial, sendo,
inicialmente, engenharia elétrica (com ênfase em eletrotécnica), engenharia industrial
mecânica e engenharia de produção civil. A partir daí, a área de abrangência do ensino
evoluiu gradativamente: pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado), curso de
extensão, aperfeiçoamento, além de realizar pesquisas na área industrial.
No ano de 2005, o então CEFET-PR passa por uma nova transformação,
tornando-se a primeira universidade tecnológica do país, a UTFPR.
A Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) foi “instalada” em todos
os campi da capital e interior do Estado:
15
Informações sobre a instituição disponíveis no endereço eletrônico: http://www.ct.cefetpr.br/historia.htm#.
Acessado em 20//01/2005.
63
Curitiba
Campo Mourão
Medianeira
Cornélio Procópio
Ponta Grossa
Sudoeste (Pato Branco e Dois Vizinhos)
Cada campus mantém cursos planejados de acordo com a necessidade da região
onde está situado, ofertando desde cursos técnicos e de tecnologia até cursos de pós-
graduação. O campus de Curitiba foi o primeiro a oferecer cursos de engenharia.
Atualmente o campus de Ponta Grossa também os oferece.
Figura 1 – Mapa do Estado do Paraná, com destaque para os campos da UTFPR.
Fonte: Revista da transição do CEFET-PR em Universidade. Edição Especial, Outubro de 2005.
De acordo com a história da UTFPR, os campi eram inicialmente unidades do
antigo CEFET-PR. Eram unidades de ensino descentralizadas. Atualmente estes campi
encontram-se centralizados em regime de sistema. A seguir serão apresentadas algumas
características de cada campus da recém-criada Universidade.
64
Campus Campo Mourão: localiza-se no noroeste do Estado do Paraná, foi criado
em 1995. Oferece curso técnico de nível médio/integrado, cursos superiores de
tecnologia e cursos de especialização. Possui 754 alunos e 69 professores.
Campus Medianeira: localiza-se no oeste do Estado, surgiu em 1990. Oferece
curso técnico de nível médio/integrado, cursos superiores de tecnologia e cursos
de especialização. Possui 1.519 alunos e 108 professores.
Campus Sudoeste (Pato Branco/Dois Vizinhos): localiza-se no sudoeste do
Estado, nasceu em 1993. Apresenta curso técnico de nível médio/integrado nos
dois municípios. Oferece ainda cursos superiores de tecnologia, de ciências, de
administração e de agronomia, e cursos de especialização em Pato Branco. Possui
2.521 alunos e 232 professores.
Campus Cornélio Procópio: localiza-se na porção nordeste do Estado. Foi criado
em 1993. Apresenta curso técnico de nível médio/integrado, cursos superiores de
tecnologia e cursos de especialização. Possui 1.628 alunos e 111 professores.
Campus Ponta Grossa: localiza-se na parte centro-leste do Estado. Foi fundada
em 1992. Oferece curso técnico de nível médio/integrado, cursos superiores de
tecnologia, cursos de especialização e mestrado. Tem 1.834 alunos e 127
professores.
Campus Curitiba: está localizado no leste do Estado. Foi fundada em 2000.
Oferece curso técnico de nível dio/integrado, cursos superiores de tecnologia e
de engenharia, cursos de especialização, mestrados e doutorado. Possui 7.285
alunos e 691 professores.
Ela é a primeira Universidade Tecnológica do Brasil, e foi transformada a partir do
CEFET-PR. O projeto de mudança foi assinado pelo presidente Luis Inácio Lula da
Silva, em 07 de outubro de 2005.
A história de sua transformação teve início em 1996, com a edição da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação (LDBE). Essa nova edição provocou mudanças e exigiu
adaptações das instituições de ensino. Ela previa alterações no Ensino Médio e Técnico.
Em 1998, o foco foi direcionado do ensino de nível técnico para a graduação,
incentivando o avanço da pós-graduação e de atividades comunitárias. Esse
redirecionamento da Instituição foi o pilar para a criação da universidade.
Atualmente a UTFPR
16
, tem como foco principal a graduação, a pós-graduação e a
extensão. Oferece 41 cursos superiores de Tecnologia, de Engenharia e de Ciências.
16
Dados disponíveis no endereço eletrônico: www.utfpr.edu.br Acessado em 27/05/2006.
65
Cursos de pós-graduação lato-sensu, mestrados e doutorado stricto sensu, possui
também várias especializações (nas áreas de engenharia elétrica e informática industrial,
em engenharia mecânica e de materiais e em tecnologia), além de grupos de pesquisa.
Como citado anteriormente, a UTFPR também oferta os seguintes níveis de
ensino: Ensino Médio e Técnico Integrado de acordo com a exigência do mercado de
trabalho.
Até este momento, a instituição sempre esteve ligada a um caráter essencialmente
masculino, isto é, sempre ofertando um maior número de cursos para a população
masculina. Mas, será que esta informação ainda é válida para os dias atuais? É sobre
este tema que se discute no item a seguir.
5.2 UTFPR – CAMPUS CURITIBA: UM DOMÍNIO MASCULINO?
De acordo com Silva (2000, p.91), os primeiros cursos criados pela Instituição e
destinados ao público feminino foram os cursos de Economia Doméstica e Técnico de
Decoração, ofertados a partir de 1946, cujo número de alunas matriculadas superava o
número de alunos.
Assim pode-se perceber que a Instituição, desde os seus primórdios, teve um
direcionamento masculino, isto é, ela esteve voltada para atender às “necessidades do
público masculino”. Segundo Machado e Queluz (2003, p. 36), “o fato do gênero ser
confundido com características biológicas dos sexos acaba direcionando o olhar para a
tecnologia como sendo masculina, estando fora da seara feminina”. Portanto, não havia
uma razão para a Instituição atrair mulheres, uma vez que trabalhar com tecnologia,
conforme vimos, era, e ainda é visto por muitos, como uma atividade masculina.
Sobre o assunto Lombardi (2004, p. 45) declara que “a técnica, a ciência e o
conhecimento técnico, tecnológico e científico e as posições de mando, de forma geral,
são encarados como domínios do masculino”, portanto a participação feminina, nestes
casos, estaria indo contra o padrão já estabelecido e considerado “normal”.
Dessa forma, tanto o espaço privado (o lar) quanto o espaço público (seja a escola
ou o mercado de trabalho) sempre estiveram pautados nos conceitos de gênero,
biologicamente construídos e reforçados pela própria sociedade. E a UTFPR, campus
Curitiba por estar inserida dentro desta sociedade, também absorveu estes modelos que
foram, ao longo do tempo, tornando-se cada vez mais fortes e enraizados.
66
Vale lembrar que este campus é o mais tradicional de todos. Ele existe desde
1910, e, por isso, é o que tem a estrutura mais conservadora. A própria história da UTFPR
colabora para esse modelo.
Moreno (1999, p.13) declara que “nossa visão do mundo é, pois, parcial e limitada
por nós mesmos (...), que agimos e movemo-nos não de acordo com a realidade, mas de
acordo com nossa imagem de mundo. Cada pessoa não constrói esta imagem por si
mesma, a partir da observação de alguns fatos concretos e reais, e, sim, na maioria dos
casos, a partir do que os outros lhes dizem a respeito desses fatos, ou seja, a partir dos
julgamentos que os demais emitem sobre a realidade”. Assim, a UTFPR, campus Curitiba,
por fazer parte dessa realidade, possui uma visão androcêntrica de mundo.
O resultado deste fato é que o ensino técnico e profissionalizante sempre se
preocupou em atender mais à comunidade masculina, uma vez que esta era, e ainda é,
considerada a responsável pelo sustento da família. Isso significou que, durante muito
tempo, as mulheres foram deixadas de lado dentro deste processo de aprendizagem,
apesar de as mesmas estarem participando ativamente do mercado de trabalho muito
tempo.
Foi somente a partir da década de 70 do culo passado, que houve uma maior
procura feminina por vagas dentro da Instituição. Isto aconteceu porque o mundo
capitalista estava vivendo um período de valorização do conhecimento científico e
tecnológico e, obviamente, de aumento dos lucros proporcionados por este conhecimento.
Daí, tanto o homem quanto a mulher não poderem ficar fora desta tendência.
Contudo, vale ressaltar aqui o papel fundamental da escola dentro desse processo,
pois é ela que influencia comportamentos e habilidades nas crianças desde cedo, e é ela
que vai contribuir para as futuras escolhas profissionais.
Dentro deste contexto, observou-se que todos os cursos de engenharia analisados
neste trabalho apresentam um reduzido número de mulheres, cerca de 10% dos
matriculados
17
.
Este dado demonstra que, apesar do avanço (se comparado com dados de
décadas anteriores), ainda é reduzido o número de mulheres que freqüentam os cursos
ligados à ciência e tecnologia. Sobre o assunto, aponta HIRATA (2002, p.19) que “a
segregação tecnológica dos homens e das mulheres se reproduz cada vez mais no
tempo”.
17
Esse percentual refere-se à década de 90, período escolhido para a realização deste trabalho. A exceção
desta porcentagem vai para o curso de engenharia civil, onde é mais significativa a participação feminina.
67
RAPKIEWICZ (1998) coloca que muitas vezes a própria mulher é considerada a
“responsável” por essa reduzida participação dentro da área de ciência e tecnologia, uma
vez que ela é vista, e muitas vezes se vê, como um ser inferior biologicamente, fato que
explica, por exemplo, essa pequena presença feminina nos cursos de engenharia. Assim
retorna-se à idéia dos estereótipos, já citada neste trabalho.
É interessante perceber que apesar de nos dias atuais não mais se questionar a
competência intelectual das mulheres, ainda muitas que, talvez por terem absorvido
essa idéia, não se sentem capazes de optar por cursos e carreiras ligadas à ciência e à
tecnologia, que são vistos como guetos masculinos. Também, de acordo com Leszczynski
(1993, p. 25) “as maiores barreiras para a educação feminina (...) seriam: as leis, a
influência da igreja, da cultura e a pobreza”. Em outro trabalho, a referida autora (1996)
coloca que a UTFPR “permanece ainda como uma escola masculina em suas áreas de
excelência”, como as engenharias.
Todos estes fatores somados contribuíram e vêm contribuindo para a baixa
participação feminina nos cursos de graduação da Instituição. E mais, dos cursos
analisados, verificou-se que o curso de Engenharia Mecânica é o que atrai um menor
número de meninas, dificilmente ultrapassando os 10% dos alunos matriculados, o que
não acontece com o curso de Engenharia Civil, pois 40% a 50% das turmas o
compostas por mulheres. É possível observar esses dados na tabela a seguir.
Assim, pretende-se conhecer a realidade desses alunos e alunas antes de
chegarem ao mercado de trabalho, além de compreender como se dão as relações de
gênero nos diferentes cursos de engenharia da Instituição, pois há cursos que possuem
mais meninas matriculadas do que outros.
68
Tabela 8 – Distribuição por gênero, do corpo discente dos cursos de engenharia da UTFPR,
campus Curitiba, 1991-2000.
CURSO
Ano Gênero
Eng. Eletrônica
Eng.
Eletrotécnica
Eng. Civil
Eng.
Mecânica**
Total %
M 72 74 34 0 180 90%
1991
F 8 6 6 0 20 10%
M 76 73 25 78 252 90%
1992
F 4 7 15 2 28 10%
M 74 75 25 78 252 90%
1993
F 6 5 15 2 28 10%
M 70 73 28 75 246 87,9%
1994
F 10 7 12 5 34 12,1%
M 0 0 0 0 0 -
1995*
F 0 0 0 0 0 -
M 74 67 27 73 241 86,1%
1996
F 6 13 13 7 39 13,9%
M 71 68 27 72 238 85%
1997
F 9 12 13 8 42 15%
M 72 72 50 74 268 83,8%
1998
F 8 8 30 6 52 16,3%
M 75 70 50 69 264 82,5%
1999
F 5 10 30 11 56 17,5%
M 72 76 53 72 273 85,3%
2000
F 8 4 27 8 47 14,7%
Fonte: Comissão de vestibulares, CEFET-PR, unidade Curitiba – 2004.
* 1995- dados não disponíveis sobre as matrículas deste ano.
** O curso de engenharia mecânica tem início somente em 1992.
A tabela anterior confirma que permanece majoritária a presença de homens nos
cursos de engenharia, e uma das razões para isto é que ainda é considerada natural a
inaptidão feminina nas ciências exatas (SCHIENBINGER, 2001). O que não se percebe é
que muitos dos atributos tidos como naturais nas mulheres e nos homens são, na
69
realidade, características socialmente construídas e transmitidas de geração a geração,
sendo quase sempre aceitas sem questionamento, conforme foi visto anteriormente.
De acordo com a tabela anterior, fica evidente que houve um crescimento lento e
progressivo no ingresso de moças nos cursos de engenharia da UTFPR na década de 90,
não podendo também se esquecer de que houve um acréscimo no número de vagas
ofertadas para o curso de engenharia de produção civil no final deste período.
Na engenharia eletrônica, observa-se uma pequena variação no número de alunas
matriculadas ao longo da década de 90. No ano de 1991, matricularam-se 08 moças,
assim como em 2000. O ano de menor ingresso feminino foi 1992, com apenas 04
matriculadas, e o de maior número de matriculadas foi 1994, com 10 alunas. em
engenharia eletrotécnica, percebe-se maior oscilação de matrículas femininas. Os anos
de maior ingresso feminino, foram 1996 e 1997 respectivamente com 13 e 12
matriculadas, contudo, o ano 2000 marca uma forte retração, com apenas 04 moças
matriculadas.
Dos cursos ofertados pela UTFPR, a engenharia civil é o mais curioso, pois a
década de 90 inicia-se com apenas 06 matriculadas, ou 15% do universo de alunos
matriculados, e o ano 2000 registra 27 matrículas femininas e 53 masculinas, o que
representa cerca de 30% das vagas sendo preenchidas por moças. Vale ressaltar que o
curso de engenharia civil passou por uma reestruturação em 1998, passando a ofertar 80
vagas, e não mais 40, como era até então. Esse curso foi o que mais obteve crescimento
da participação feminina dentro da UTFPR na década de 90, o que demonstra uma
perpetuação dos padrões sexualmente construídos, uma vez que as moças (apesar de
ingressarem em engenharia, curso tradicionalmente masculino), permanecem escolhendo
cursos e carreiras ligados a esses padrões, como é o caso da engenharia civil, fato
discutido.
O curso de engenharia mecânica também apresentou um significativo aumento,
passando de nenhuma matrícula feminina em 1991, para 08 em 2000, o que representa
atualmente 10% das matrículas neste curso, isto é, das 80 vagas ofertadas, 08 foram
preenchidas por moças.
Se observar-se a tabela, verificar-se-á também que houve um aumento geral no
número de moças que ingressaram na UTFPR na década passada, mas dificilmente
ultrapassando os 20% dos/as alunos/as matriculados/as. Essa porcentagem aumentou,
sobretudo nos três últimos anos da década de 90. Ainda, se os anos anteriores forem
verificados, percebe-se que esta porcentagem quase o ultrapassou os 20% de moças
matriculadas.
70
Este fato é explicado por Saraiva (2003, p. 5) que declara que “desde cedo as
mulheres são ensinadas de que são pouco dotadas para o raciocínio abstrato, para o trato
com o mundo da produção, para a liderança e para tomadas de decisões, portanto optar
por um curso de engenharia significa aceitar o desafio de ultrapassar as limitações
femininas”.
De acordo com a tabela, percebe-se que não houve um crescimento linear de
matrículas femininas ao longo da década de 90. Com relação ao curso de engenharia
eletrônica, percebeu-se que os anos de 1994 e 1997 foram os anos de maior matrícula
por parte das mulheres, ultrapassando a barreira dos 10% de matrículas femininas.
Na engenharia eletrotécnica verificou-se que, nos anos de 1996 e 1997, houve
grande avanço feminino nesta área, chegando a quase 20% dos alunos matriculados.
Como já é sabido, dos cursos de engenharia ofertados pela UTFPR, campus
Curitiba, o curso de engenharia civil é o que mais tem atraído o público feminino. Com
exceção do ano de 1991, todos os demais anos tiveram uma significativa participação
feminina. Por outro lado, o curso de engenharia mecânica é o que tem atraído o menor
número de mulheres, o que sugere ser ainda considerado um curso voltado para atender
aos homens. Apesar disso, a partir de 1996, percebeu-se um maior interesse feminino
pela área, o que não impediu as pessoas e a própria Instituição de continuarem
considerando o curso mais voltado para atender ao público masculino.
No item seguinte, serão apresentados os quatro cursos de engenharia ofertados
pela Instituição, com o intuito de demonstrar, mesmo que rapidamente, os objetivos
desses cursos.
5.3 OS CURSOS DE ENGENHARIA DA UTFPR, CAMPUS CURITIBA
Para a realização deste trabalho considerou-se a escolha dos quatro cursos de
engenharia da Instituição.
Engenharia Eletrônica
Engenharia Eletrotécnica
Engenharia de Produção Civil
Engenharia Mecânica.
A opção de analisar estes cursos foi proposital, uma vez que se pretende verificar
como o estabelecidas as relações de gênero dentro de cada curso de engenharia, que
71
como é sabido, apresenta uma realidade diferenciada, como é o caso da engenharia
civil, cuja participação feminina chega a 50%.
Curso de Engenharia Industrial Elétrica
18
É um curso de graduação plena com aulas no turno vespertino/noturno em dez
períodos semestrais, com ênfase em Eletrotécnica e Eletrônica/Telecomunicações. Além
da carga horária global do curso, o estágio curricular supervisionado é de 360 horas-aula
junto às indústrias.
Engenharia Elétrica com ênfase em Eletrônica/Telecomunicações
Possibilita à/ao diplomada/o a participação em trabalhos relacionados com
instrumentos eletrônicos; eletrônica industrial; eletrônica analógica e digital, controle e
automação; sistemas de imagem; aparelhos e sistemas de telecomunicações; telefonia;
transmissão de dados; máquinas e equipamentos eletrônicos; materiais elétricos e
eletrônicos; sistemas de medição e controle elétrico ou eletrônico e serviços.
Engenharia Elétrica com ênfase em Eletrotécnica
Possibilita à/ao diplomada/o o engajamento em atividades relacionadas com
geração, transmissão, distribuição e utilização de energia elétrica; sistemas de potência;
máquinas e equipamentos elétricos, instalações elétricas prediais e industriais;
acionamentos industriais; fontes alternativas de energia; sistemas de medição e controle
elétrico e serviços.
Curso de Engenharia de Produção Civil
Este curso é de habilitação plena com duração de dez períodos semestrais,
complementada com 360 horas-aula de estágio supervisionado junto às empresas. As
atividades dos profissionais de Engenharia de Produção Civil estão voltadas para o
planejamento, coordenação e controle dos recursos produtivos (ser humano,
18
Dados disponíveis no endereço eletrônico http://www.ct.cefetpr.br/engenharia.htm#ee Acessado em
27/01/2005.
72
equipamentos, materiais e ambientes), com o objetivo de racionalizar o processo
produtivo.
Curso de Engenharia Industrial Mecânica
É um curso de graduação plena com duração de dez períodos semestrais, e
complementado com 360 horas-aula de estágio profissional supervisionado junto às
indústrias. Este curso possibilita à/ao diplomada/o desenvolver atividades em engenharia
do produto; processos de manufatura; projeto de ferramental, método, análise,
planejamento; programação, manutenção e expedição de produtos; controle de qualidade;
manutenção de máquinas e instalações mecânicas; assistência técnica; auditoria;
fiscalização; análise e elaboração de projetos industriais, dentre outros.
Como já foi citado, as mulheres ainda são minoria dentro da Instituição. Mas,
quando elas passaram a ingressar nos cursos de engenharia? É sobre essas mulheres
que trata o item a seguir.
5.4 AS PRIMEIRAS MULHERES ENGENHEIRAS DA INSTITUIÇÃO
19
Lombardi (2004, p.46) coloca que em virtude do que foi estabelecido como
identidade comum ao masculino e feminino, “as mulheres o excluídas e se excluem de
determinados lugares sociais, bem como das profissões técnicas e científicas, como é o
caso da engenharia”. foi também demonstrado que é relativamente reduzido o número
de moças que ingressam, nos dias atuais, nos cursos de engenharia da UTFPR – campus
Curitiba.
De acordo com os dados obtidos na Secretaria Geral da Instituição, esses números
não se alteraram significativamente ao longo das décadas. Para esta afirmação foi
consultada a lista dos primeiros alunos que se matricularam nos cursos de engenharia da
UTFPR, na década de 70.
Inicialmente a engenharia era denominada de engenharia de operação (EO) e teve
início em 1974. Somente 4 anos depois, isto é, em 1978, foi instalado na Instituição, o que
ficou denominado, a partir de então, de engenharia industrial (EI). O primeiro curso tinha
uma duração de 3 anos, enquanto o segundo, era considerado pleno.
19
Os dados apresentados neste trabalho sobre as primeiras mulheres engenheiras do CEFET-PR, unidade
Curitiba, foram obtidos através de consulta nos arquivos da Secretaria Geral, e não têm o objetivo de
concluir o assunto, apenas elucidar as questões de gênero que permeiam os cursos de engenharia da
Instituição.
73
As primeiras turmas de engenharia industrial são de 1979, a saber:
Engenharia eletrônica
Engenharia eletrotécnica
Em todos os cursos verificou-se um reduzido número de moças matriculadas:
Tabela 9 – Alunos matriculados no ano de 1979.
Número de alunos matriculados – 1979*
Cursos
Homens Mulheres
Total***
Eng. Eletrônica 83 04 87
Eng. Eletrotécnica 80 02 82
Tec. da Construção
Civil**
32 07 39
Fonte: Secretaria Geral, UTFPR, 2004.
6 Os cursos de engenharia de produção civil e mecânica surgiram respectivamente em 1996 e 1998.
**Este curso teve início em 1981 e ofertava o diploma de tecnólogo.
*** Não há dados eletrônicos disponíveis acerca do número de vagas ofertadas naquele ano.
Ao observar o quadro anterior, percebe-se o quanto a participação feminina
sempre foi reduzida nos cursos de engenharia e tecnologia, o que deixa claro que as
áreas do conhecimento ligadas às ciências e tecnologia têm absorvido, ao longo da
história, um pequeno número de mulheres.
Sobre esse assunto, Sâmara e Facciotti (2004, p. 12) apontam que apesar do
número reduzido de mulheres, aquelas que ingressaram primeiramente “são exemplos de
desafios enfrentados, de memórias que se constroem em conjunto e que nos contam
sobre opções, escolhas, dedicação e seriedade profissional”.
Essas primeiras mulheres que se matricularam nos cursos de engenharia do
CEFET-PR, unidade Curitiba, são exemplos de pessoas que desafiaram os padrões e que
acreditaram ser capazes de se desenvolver dentro de um “mundo” que era visto, e ainda
é, como eminentemente masculino. Essas mulheres são:
Em engenharia industrial eletrônica:
1º. semestre (1979): Elyana Zanon Monteiro, Itsumi Nozu e Tomoko Miyabukuro.
2º. semestre (1979): Ivone Carolina H. Torrico
Em engenharia industrial eletrotécnica:
1º. semestre (1979) : Iaci Mara Dalcol e Rosangela Parada de Moraes.
2º. semestre (1979): não houve nenhuma matrícula feminina.
74
Apesar de um baixo número de mulheres, pode-se afirmar que foram participações
extremamente importantes, pois segundo SAMARA e FACCIOTTI (2004, P.25) em um
ambiente predominantemente masculino, essas mulheres desafiaram preconceitos e
estereótipos sociais que pregavam a incompatibilidade da ciência com o ideal de
feminilidade e maternidade”. Foram essas mulheres que romperam com os estereótipos
sexuais existentes e ingressaram nos cursos de engenharia
20
.
Assim, pode-se dizer que essas mulheres romperam o paradigma de que as
engenharias eram cursos voltados apenas para os homens, e disso resulta um enorme
avanço feminino frente a sua valorização profissional.
No item a seguir será colocada de maneira suscinta, a história do ensino de
engenharia.
5.5 AS MUDANÇAS NO ENSINO DE ENGENHARIA
A primeira escola de engenharia surgiu na França em 1775, a École des Ponts et
Chaussées, voltada para a área de construção de pontes e estradas. É a escola que
nasce em função dos interesses econômicos da época, que, no caso, eram a recente
industrialização e sua necessidade de gerar infra-estrutura para a expansão comercial.
Os demais países da Europa, Estados Unidos e, inclusive, o Brasil criaram suas
primeiras escolas de engenharia no século XIX. De acordo com Crivellari (2000), a
relação educativa dos países com as engenharias, está bastante ligada ao regime de
produção. Era a necessidade de se gerar uma mão-de-obra mais capacitada, pois, em
virtude da Revolução Industrial, houve uma incorporação dos princípios científicos aos
meios técnicos de produção.
À medida que o tempo passou, a engenharia sofreu mudanças. No século XX
surgem novas especialidades, chega ao fim a idéia de que o/a engenheiro/a é um expert
universal (CRIVELLARI, 2000).
Após a Segunda Guerra Mundial, novas alterações ocorrem, dessa vez é a
valorização do capital humano frente à técnica. Anos mais tarde, nas décadas de 80 e
90, nasce uma nova forma de organização empresarial, em que a flexibilidade e a
multifuncionalidade vão se sobrepor às demais características do/a engenheiro/ª
20
Não há dados disponíveis na Instituição sobre a conclusão de curso dessas alunas e infelizmente, em virtude do tempo exíguo, não
foi possível verificar os caminhos profissionais que estas alunas tomaram após suas possíveis saídas da Instituição, por não ser tema
desta pesquisa, poderá ser analisado em estudos futuros.
75
O/a profissional de engenharia dos anos 90, passa então, a definir-se, a partir da
articulação de três dimensões distintas: técnicas, econômicas e socioadministrativas
(LAUDARES E RIBEIRO, 2000).
Essa nova fase se caracteriza pelo desmembramento da cadeia produtiva, pela
terceirização das atividades consideradas não-estratégicas e por novas e
geograficamente distantes unidades produtivas.
O resultado disso, é que o mercado de trabalho exige um curso de engenharia que
ofereça profissionais com novas qualificações, daí a necessidade de mudanças
curriculares. Laudares e Ribeiro apontam
a formação acadêmica do engenheiro certamente não mais se faz, com exclusividade, pelas
ciências exatas e sua qualificação/requalificação em serviço requer novos saberes, com relações sociais
originadas da posição flexível em face das demandas da abertura dos processos de trabalho (2000, P.497).
Este/a “novo/a” profissional da engenharia deve, portanto, obter conhecimentos
nas áreas de informática e administrativa, e também agregar a eles a gestão de custos,
de tempo e de recursos humanos.
Em virtude dessas alterações, pode-se supor que de acordo com os padrões
socialmente construídos acerca do que é ser mulher na nossa sociedade, a engenheira
terá mais espaço no mercado de trabalho, fato verificado anteriormente.
No capítulo a seguir serão demonstrados a caracterização dos/as entrevistados/as
e a análise das entrevistas.
76
6 RESULTADOS DA PESQUISA QUALITATIVA
Neste capítulo, se abordado a interpretação dos dados qualitativos obtidos
através das entrevistas com os alunos e alunas da UTFPR, entre 2004 e 2005.
Inicialmente há uma caracterização pessoal dos/as entrevistados, com dados sobre
os cursos. Essa fase tem o objetivo de delinear o perfil dos/as alunos/as da Instituição.
Na seqüência uma interpretação dos dados das entrevistas, que está dividida
nas seguintes categorias:
introdução;
a escolha do curso e da Instituição;
a percepção dos/as discentes em relação a eles mesmos e aos/às
professores/as; e
a expectativa dos/as discentes frente ao mercado de trabalho.
Dentro desta perspectiva pode-se declarar que esta parte do trabalho contribuiu
para melhor compreensão acerca das questões de gênero, pois ela reflete, por meio do
recorte universitário, um padrão existente na sociedade. A seguir é apresentada a
caracterização dos/as entrevistados/as.
6.1 CARACTERIZAÇÃO DOS/AS ENTREVISTADOS/AS
Como citado anteriormente, foram entrevistados/as 20 discentes dos cursos de
engenharia da Instituição, de diferentes períodos e idades. Estas entrevistas tiveram o
objetivo de melhor compreender a problemática desta pesquisa frente aos cursos de
engenharia da UTFPR, campus Curitiba.
A fim de se preservar as identidades, foi escolhido o uso da seqüência alfabética
para representar os/as entrevistados/as. A tabela a seguir mostra essa caracterização:
77
Tabela 10 - Perfil dos/as entrevistados/as*:
Nome Sexo Idade Período do curso Curso
A Feminino 19 2º. Eng. eletrônica
B Masculino 18 2º. Eng. eletrotécnica
C Feminino 19 5º. Eng. prod. civil
D Masculino 19 4º. Eng. eletrônica
E Masculino 19 4º. Eng. eletrônica
F Masculino 19 3º. Eng. eletrônica
G Feminino 22 8º. Eng. eletrônica
H Feminino 25 Concluído em 2004.
Eng. eletrônica
I Feminino 19 4º. Eng. eletrônica
J Masculino 18 2º. Eng. Mecânica
L Feminino 18 2º. Eng. Mecânica
M Feminino 20 2º. Eng. eletrotécnica
N Masculino 19 4º. Eng. eletrotécnica
O Feminino 26 8º. Eng. eletrotécnica
P Feminino 22 8º. Eng.eletrotécnica
Q Masculino 28 2º. Eng. eletrotécnica
R Masculino 18 2º. Eng. Mecânica
S Feminino 18 2º. Eng. eletrotécnica
T Masculino 18 2º. Eng. Eletrônica
U Feminino 18 2º. Eng. eletrotécnica
* Apesar de sua relevante contribuição, neste quadro não aparece o perfil do diretor industrial
entrevistado, uma vez que ele não faz parte do quadro de alunos da Instituição.
Com relação ao perfil dos/as entrevistados/as, observou-se que todos são jovens,
predominando a faixa etária dos 18 aos 20 anos. apenas três entrevistados com 25
anos ou mais, sendo duas moças e um rapaz. Este fato demonstra que a maioria dos/as
alunos/as não apresenta defasagem entre o período escolar e a idade. Quase todos/as
os/as participantes da pesquisa eram solteiros/as, com exceção de uma aluna casada e
sem filhos.
Como se sabe, os cursos de engenharia da UTFPR têm um predomínio de
matrículas masculinas, no entanto foram entrevistados/as nove rapazes e onze moças.
Este fato mostra a tentativa de se chegar a um número equilibrado de entrevistas.
A maior parte do/as entrevistados/as é estudante dos períodos iniciais dos cursos
de engenharia, o que pode significar maior disponibilidade dos mesmos, ou ainda, que,
nos períodos mais avançados, o envolvimento dos/as estudantes com seus respectivos
cursos e mercado de trabalho é maior, o que resulta em menor tempo para a participação
de trabalhos como este.
78
Todos/as os/as entrevistados/as fazem parte da camada média da população,
sendo a maioria advinda de escolas privadas, apenas uma minoria veio de escolas
públicas (predominantemente do Colégio Militar), o que enfatiza a idéia de que as
camadas mais pobres da sociedade continuam tendo pouco acesso ao Ensino Superior
gratuito.
De acordo com os depoimentos, a maioria dos pais possui curso superior, alguns
inclusive são engenheiros, fato que contribuiu para a escolha do curso.
Dos/as 20 estudantes entrevistados/as, seis vieram do interior do Estado do
Paraná com o objetivo de cursar engenharia, o que equivale a 30% do universo
entrevistado.
Grande parte dos/as entrevistados/as vive de mesada dos pais, mas, apesar disso,
todos buscam sua independência financeira, seja por meio de estágios, ou de trabalhos
temporários, como é o caso da estudante de engenharia civil, que, no final de semana,
trabalha como balconista, a fim de complementar a sua renda.
Com relação à origem étnica ficou também evidente que um predomínio de
brancos, descendentes de europeus, além de uma forte presença de descendentes de
orientais, sobretudo de japoneses. Com relação à presença de japoneses, uma forte
relação entre a procura por cursos superiores e o mercado de trabalho. Zagonel (2002)
aponta que os descendentes de japoneses têm uma tendência a procurar cursos de
graduação que ofereçam maior possibilidade de emprego, independente da área do
conhecimento. Este fato também demonstra o quanto o papel da cultura androcêntrica
(presente nestas culturas) interfere no cotidiano escolar e profissional dos seus membros,
tendo em vista o reafirmado papel de provedor dos homens, conforme dado já analisado.
Todos/as os/as entrevistados/as afirmaram que esperam ingressar no mercado de
trabalho e alcançar um bom salário, alguns inclusive trabalham na sua área. A
importância em obter o conhecimento de uma ou mais línguas estrangeiras foi também
uma colocação freqüente, com a prioridade para o inglês, alemão e francês. Vários
declararam seu interesse em estudar fora do país.
De acordo com as falas, o lazer da maioria deles/as está relacionado à ida a bares,
danceterias e cinemas. Poucos lêem livros que não tenham relação com o seu curso.
Alguns/as entrevistados/as demonstraram preocupação com o bem-estar da sociedade,
sendo assim, realizam atividades voluntárias, como ensinar informática a adolescentes de
baixa renda.
79
Nenhum/a discente possui conhecimento sobre as idéias feministas. Aliás, a
maioria, quando questionada pela pesquisadora sobre o assunto, agia com certa ironia,
demonstrando desconhecimento do tema.
Outra característica sobre os/as entrevistados/as é que alguns/as alunos/as já
ingressaram no mercado de trabalho, seja como estagiário ou como trabalhador efetivo, e,
à medida em que eles/as avançam nos seus cursos, mais cresce o interesse em obter um
emprego (mesmo que temporário) dentro de suas respectivas áreas.
O item a seguir apresenta uma análise mais completa das entrevistas realizadas.
6.2 INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS DAS ENTREVISTAS
Neste item serão analisados os resultados das entrevistas que contribuíram para
esclarecer o problema proposto. Todos/as os/as entrevistados/as foram bastante
colaboradores, conversando sobre seus cursos e expectativas profissionais. Durante as
entrevistas, percebeu-se repetidas opiniões acerca das diferentes questões levantadas.
Assim, por meio de seus resultados, procurou-se conhecer :
o motivo para a escolha do curso e da Instituição;
as percepções dos discentes com relação a eles/as mesmos/as e aos
professores e professoras; e
as expectativas dos discentes frente ao mercado de trabalho.
Antes, porém, será apresentada uma análise geral dos resultados das entrevistas.
Como demonstrado anteriormente, é reduzido o número de alunas nos cursos de
engenharia da Instituição, e, sobre isso, aponta Schienbinger (2001, P.295) que uma
explicação comum para o baixo número de mulheres nas ciências exatas, é que, de
maneira geral, são consideradas áreas do conhecimento difíceis hard, enquanto que as
ciências da vida, como as humanidades e as ciências sociais, são mais fáceis, isto é, soft.
Este exemplo demonstra claramente uma visão sexista do conhecimento, através da qual
o homem, por ser considerado mais “racional”, teria mais facilidade com as ciências
exatas, enquanto a mulher, que é sempre vista como um ser emotivo, envolvido com a
maternidade, estaria mais inclinada para as áreas das humanidades.
Ainda sobre o assunto, Silva e Carvalho (2003, P.54) apontam que estereótipos
como o de inaptidão tecnológica feminina são construídos socialmente pelo
80
condicionamento do papel de homens e mulheres e cuja produção e reprodução ocorre
em cada um dos momentos de socialização dos indivíduos”. Esta declaração demonstra
que as mulheres em geral são ainda segregadas para determinadas áreas do
conhecimento, e, automaticamente, determinadas atividades profissionais, resultando nos
estereótipos presentes na nossa sociedade. Portanto, quando uma mulher opta por cursar
engenharia, ou cursos que possuem um público predominantemente masculino, pode,
ainda, nos dias de hoje, sofrer “uma certa pressão” pela sociedade, fato este percebido,
pelas falas de algumas das entrevistadas:
“minha mãe não gostou muito não da minha escolha, ela acha que não é área para
mulher. Minha mãe queria que eu fizesse Direito.” (Entrevistada U).
“a mulher não é muito incentivada para a área de exatas (...) Acho que ainda
acontece de muita gente achar que a mulher não tem capacidade para engenharia”.
(Entrevistada S).
Foi curioso perceber que nas falas dos rapazes não apareceram, em nenhum
momento, comentários da família sobre a escolha do curso, como foi o caso de algumas
famílias de moças, ainda que, atualmente, muitas famílias aceitem, “até com um certo
orgulho”, a escolha profissional de suas filhas.
inclusive algumas mães que vêem o ingresso de suas filhas nos cursos de
engenharia como uma vitória pessoal, uma vez que quando adolescentes, estas mães
não tiveram as mesmas oportunidades que suas filhas. Além disso, também aquelas
que incentivam suas filhas a terem uma profissão, para “não dependerem de seus
maridos”, pois se dizem atualmente arrependidas de terem seguido este caminhoque hoje
revêem.
Algumas informações obtidas através das entrevistas demonstram que,
atualmente, são poucas as pessoas que são efetivamente influenciadas por seus pais ou
amigos para a escolha do curso de engenharia. Na realidade, a maioria dos/as
entrevistados/as declarou que a escolha teve mais relação com a facilidade que os/as
mesmos/as possuíam com números, e com a curiosidade em estar a todo instante
mexendo com objetos e/ou desenhando (produzindo esboços de objetos e construções).
Sobre o assunto, Lombardi (2005, p. 135) coloca que “a escolha de uma profissão
para a vida toda aos 18,19 anos de idade nunca foi fácil”. Por isso, em muitas falas
aparece ainda a dúvida a respeito da escolha do curso e da continuidade do mesmo.
81
Um outro dado curioso que apareceu nas entrevistas, é que os cursos de
engenharia, de maneira geral, estão associados à idéia de status, de inteligência, de
oportunidades de trabalho:
“o leque que se abre, você consegue emprego em qualquer lugar, em escola, em
empresa, em loja, como administrador,....” (Entrevistada G).
“é um curso que abre mais oportunidades” (Entrevistado N).
Esta visão de curso de prestígio foi uma constante na fala de todos/as os/as
entrevistados/as. Todos/as possuem essa visão “romântica” acerca da engenharia,
acreditando, ainda hoje, que as condições do mercado de trabalho são mais favoráveis
para os/as engenheiros/as.
Esta questão é também afirmada por Lombardi (2005, p.142) quando diz que “a
engenharia era, e ainda é, percebida como uma carreira de prestígio pela maioria das
famílias (...). Além do mais, considera-se que ela abre boas chances de emprego e de
remuneração, ascensão social, enfim”. Os cursos das áreas de humanidades, por outro
lado, seriam marcados pelo menor prestígio e conseqüente remuneração.
Contudo, apesar de considerarem cursos “curingas”, do ponto de vista do mercado
de trabalho, vários discentes declararam que pensaram em desistir dos seus cursos de
engenharia, e isso se deve ao fato de também considerarem os cursos “pesados” demais:
“hoje estudar engenharia no CEFET
21
significa stress” (Entrevistado D).
“aqui é grande a exigência de alguns professores, eles massacram” (Entrevistado
E).
Para todos os/as entrevistados/as, independente do período de curso, sexo ou
idade, todos/as declararam que ingressar na UTFPR exigiu muito esforço e dedicação, e
que estas características permanecem mesmo após a entrada na Instituição, uma vez que
são cursos que exigem muito estudo por parte dos/as estudantes.
Contudo, vale ressaltar que todos/as discentes vêem as moças como mais
dedicadas, elas se esforçam mais do que os rapazes, além disso, têm que estar provando
21
Apesar de ser atualmente UTFPR, as falas das pessoas refletem o período da pesquisa, 2004-2005, onde
a Instituição ainda era denominada de CEFET-PR.
82
a toda hora que são tão “boas e competentes quanto os rapazes”. Os rapazes, por outro
lado, levam em geral, o curso de maneira mais tranqüila, dedicando-se menos.
Dos cursos de engenharia da Instituição, o que possui menor número de mulheres,
como citado anteriormente, é o de engenharia mecânica. Isto acontece porque o curso
está associado, ainda hoje, à idéia de que o/a profissional ilidar com graxa, motor de
automóveis, caminhões, que vai exigir mais força física, sendo, por isso, um ambiente de
trabalho inadequado à presença feminina. Esta imagem, segundo os próprios
entrevistados, está completamente equivocada, pois estes profissionais atuam no
desenvolvimento de motores, máquinas, manutenção de equipamentos, e, talvez por isso,
ainda esteja afastando as mulheres deste curso.
“quem pega na graxa não somos nós, são os mecânicos” (Entrevistado J).
“a engenharia mecânica não trabalha com motor, com graxa, como todo mundo
pensa”. (Entrevistado J).
“para mim, a mulher tem hoje algumas vantagens sobre os homens, por exemplo:
ela é mais cuidadosa, atenciosa e detalhista, e isso é bom para as engenheiras”.
(Entrevistada S).
Esta última fala evidencia que, apesar de as mulheres ingressarem nos cursos de
engenharia, elas continuam reproduzindo os papéis sexualmente construídos. Isto é, elas
mesmas afirmam que por serem mais cuidadosas, atenciosas,... terão mais chances do
que os homens em algumas tarefas. Daí, coloca-se algumas indagações: Será que toda
mulher possui estas características? E que todo homem é racional? Ou estas
características são apenas padrões aceitos, sem questionamento?
“a mulher é mais organizada e atenciosa, o que contribui para desempenhar
melhor sua função no trabalho”. (Entrevistado Q).
Observa-se que os padrões de gênero permanecem tradicionais, e que,
independente da idade dos/as estudantes, eles/as continuam reproduzindo o modelo
dicotômico de gênero, no qual os homens e as mulheres apresentam padrões de
comportamento rígidos e que estes não se alteram.
83
Vários entrevistados relataram que um empecilho para a mulher engenheira está
no uso da força física, fato curioso, uma vez que os discentes se esquecem de que o uso
da tecnologia pode, em muitos casos, dispensar qualquer tipo de força física até então
necessária.
“os homens não podem mais duvidar da capacidade intelectual das mulheres,
talvez da capacidade física (de realizar um trabalho braçal, por exemplo, descascar um
fio)”. (Entrevistada P).
“talvez o menino tenha mais facilidade de arrumar um estágio e/ou emprego, por
causa de sua força física (para apartar briga, carregar peso), mas não por saber mais do
que as meninas” (Entrevistada C).
Estas declarações apresentam um dado relevante, uma vez que consideram a
mulher incapaz de fazer qualquer tipo de esforço físico (como descascar um fio), ao
contrário do homem que, segundo essa visão (binária), é forte e suficientemente capaz de
realizar tarefas “pesadas”. É curioso perceber também que a imagem masculina está
arraigada no imaginário coletivo, uma vez que considera a força física um elemento
masculino e imprescindível para a realização de determinadas atividades, mesmo tendo
às mãos, o uso cada vez mais intenso da tecnologia, que dispensa o esforço físico.
Assim, como o curso de engenharia mecânica possui esta imagem masculina, o
curso de engenharia de produção civil também a possui, no entanto há uma imagem mais
feminina permeando a engenharia civil, pois é um curso que está associado à
criatividade, ao detalhismo, à percepção espacial,... características estas mais
relacionadas ao feminino, e possivelmente por essa razão, seja o curso da Instituição que
apresente maior número de mulheres matriculadas.
É curioso perceber que homens e mulheres não se vêem como seres plurais, isto
é, que ainda não percebam que o existe um único modelo de comportamento
masculino ou feminino, mas, sim, uma diversidade de acordo com as experiências sociais
de cada um.
Vale ressaltar aqui que estas imagens o construídas pelos próprios alunos e
alunas. Assim, a idéia socialmente construída, de que a mulher é um ser mais sensível,
paciente, observador e detalhista, contribuiu para encaminhá-la para o curso de
engenharia de produção civil, que segundo a entrevistada C, é um curso que exige essas
atribuições, que são “mais comuns” às mulheres.
84
As entrevistas demonstram que o imaginário coletivo acerca dos padrões de
gênero são bastante conservadores, pois os/as entrevistados/as associam os cursos
àqueles padrões tradicionais, por exemplo: todo homem é forte e toda mulher é frágil.
Os dois outros cursos de engenharia da Instituição, isto é, engenharia eletrotécnica
e eletrônica, têm absorvido cada vez mais mulheres, fato que demonstra o haver essa
visão sexista de curso (pelo menos o de forma clara). Dentro dessa perspectiva, a
entrevistada S, do curso de engenharia elétrica, declarou:
“agora, por exemplo, entraram 5 meninas e acho que esse número não deve
crescer, apesar de já ter mais meninas hoje no curso do que antigamente”.
Essas declarações apontam para mudanças no público que ingressa nos cursos de
engenharia da UTFPR, campus Curitiba, isto é, um aumento no número de mulheres
interessadas em cursar engenharia, entretanto são ainda transformações lentas e
passíveis de uma análise mais profunda num futuro estudo sobre o caso.
Um outro dado coletado nas entrevistas diz respeito ao gosto pelas disciplinas que
são ministradas. Todos os discentes disseram que as disciplinas de que mais gostam são
aquelas que conseguem relacionar com a realidade, com a vida cotidiana, isto é,
percebem uma aplicação da disciplina universitária dentro da profissão escolhida.
“as disciplinas que mais gostei foram as técnicas, porque consigo sanar as dúvidas
que eu tive no trabalho e por saber que vou utilizá-las na prática” (Entrevistada O).
“eu gostei de computação, desenho técnico e todas as físicas, porque foram
matérias que eu consegui unir a teoria à prática” (Entrevistada M).
Estas declarações apontam para o predomínio de uma visão pragmática entre
os/as alunos/as dos cursos de engenharia, pois eles gostam mais da disciplina que pode
ser associada à prática.
Do universo entrevistado, poucos foram os/as discentes que, na época da
entrevista faziam estágio ou trabalhavam. Curiosamente havia mais rapazes fazendo
estágios do que moças, mas, quando verificado sobre aqueles que haviam sido
efetivados, o número de moças era maior.
Um outro dado revelador é que, à medida que o curso avança, torna-se mais
exigente, e com os estágios obrigatórios, o tempo do/da estudante torna-se bastante
85
exíguo para colaborar com trabalhos de pesquisa como este. De acordo com os/as
alunos/as entrevistados/as, é bastante difícil conciliar o mundo do trabalho com os
estudos.
“no último semestre eu bati meu recorde, cheguei a ficar 72 horas acordada à base
de café e muito energético (...) passei o mês todo dormindo de 3 a 5 horas por noite. Mas
o que me desanima no curso é que mesmo estudando muito, quando vou fazer as provas,
na maioria das vezes, estou muito cansada e acabo tendo um desempenho ruim”
(Entrevistada O).
“o CEFET-PR não abertura para o aluno trabalhar e isso começa com a grade
horária, ela não espaço para que os alunos busquem estágios ou contratações em
empresas” (Entrevistada G).
Em várias falas observou-se o desânimo dos/as alunos/as ao se referirem à
questão estudo/trabalho, pois acreditam que a Instituição não favorece o/a aluno/a que
quer trabalhar, isto acontece em função da carga horária, trabalhos e provas que são
colocados de forma a dificultar a vida daqueles que trabalham.
Com relação às expectativas futuras de trabalho, os/as entrevistados/as foram
unânimes ao declarar que pretendem trabalhar em uma grande empresa. O interessante
dessas falas é que foram as moças que deixaram mais claro o desejo de seguir carreira
dentro de uma grande empresa.
“eu pretendo ingressar numa grande empresa para fazer estágio e depois ser
efetivada, para poder seguir carreira” (Entrevistada C).
Essa declaração, assim como de outras entrevistadas, demonstra que uma
maior preocupação por parte das meninas em ter um emprego certo e seguro. Essa
preocupação pouco apareceu entre os rapazes. Todos declararam que querem trabalhar,
mas não citam a preocupação em seguir uma carreira dentro de uma única empresa.
“eu quero entrar numa empresa e ficar, eu não quero ficar pulando de galho em
galho” (Entrevistada L).
86
Uma análise dessas declarações permite levar à afirmação de que as estudantes
de engenharia são mais preocupadas com a (in)segurança no mercado de trabalho. Dado
este que poderá ser analisado com mais profundidade num futuro estudo. Além disso,
percebeu-se que os relatos abordando os papéis masculinos e femininos não se
apresentam muito diferentes, tanto no que diz respeito aos cursos de engenharia quanto à
idade dos/as entrevistados/as, o que reforça a idéia de construção social de masculino e
feminino.
A seguir serão apresentados dados mais específicos das entrevistas, de acordo
com os objetivos desta pesquisa.
6.2.1 A ESCOLHA DO CURSO E DA INSTITUIÇÃO
Este item é relevante, uma vez que é considerado de fundamental importância para
este estudo saber o motivo para a escolha do curso e desta Instituição, e não de outras
que também oferecem esses cursos dentro do município de Curitiba.
Todos/as os/as entrevistados/as declararam considerar a “escola muito
conceituada”. Os cursos de engenharia da UTFPR, campus Curitiba, foram considerados
de boa qualidade por 100% dos/as entrevistados/as.
“Eu escolhi o CEFET por enfocar mais a parte tecnológica” (Entrevistada M).
Quando as/os entrevistada/os se referem à “parte tecnológica”, eles estão se
referindo a qualidade do ensino de engenharia, pois consideram que a Instituição está
sempre se renovando e investindo em novas tecnologias, diferente de outras
universidades públicas do Estado, como a UFPR, que vários aluno/as declaram ser uma
instituição desorganizada e antiquada.
“No CEFET os alunos têm mais acesso aos professores. É melhor que a Federal. É
uma escola tecnológica, onde tudo é voltado para a tecnologia”. (Entrevistada C).
“O CEFET é melhor que a Federal, pelo menos é o que todo mundo diz”.
(Entrevistada I).
87
A UTFPR possui um conceito elevado não apenas entre seus/as alunos/as, mas
em toda a comunidade. Isso acontece por várias razões: possui um corpo docente de
qualidade, é bem organizada, investe em novas tecnologias, mantém contato permanente
com o mercado de trabalho, ...
Através dos relatos, observa-se uma preocupação que os/as alunos/as possuem
em relação à qualidade do conhecimento, sobretudo, do tecnológico. Sobre o assunto
Bastos et al. (2000) aponta para a idéia de que hoje vivemos numa sociedade do
conhecimento, onde todos os seres humanos, independente do sexo, buscam a aquisição
de conhecimento, tanto científico quanto tecnológico.
Também sobre o assunto, Carvalho (2003, P.20) coloca que “para dar conta da
verdadeira amplitude que envolve o fenômeno tecnológico é preciso concebê-lo como
uma realização humana que se dá em situações sociais concretas e específicas”. Isto é, é
preciso perceber a tecnologia além da técnica, e, sobretudo, não se esquecer de que é
um fenômeno humano, provocado pelo e para o ser humano. E sobre este aspecto a
UTFPR tem se destacado enquanto Instituição. A referida autora ainda aponta para a
idéia de que a Instituição, especificamente o PPGTE (Programa de Pós-Graduação em
Tecnologia), “busca entender como a tecnologia interfere na vida em sociedade
provocando mudanças nas relações sociais e culturais, e também como estas relações
criam a necessidade de desenvolvimento tecnológico e novas tecnologias”.
Outro dado observado nos relatos é que vários/as discentes entrevistados/as,
estabeleceram alguma relação com a outra Instituição Federal existente no município, e
declararam que a Instituição analisada é melhor. Muitos, inclusive, tiveram a oportunidade
de optar entre a UTFPR e a UFPR, uma vez que passaram no exame vestibular das duas
Instituições. Sobre o assunto, tem-se o seguinte depoimento:
“eu escolhi o CEFET porque o curso aqui é bom. Tem mais laboratórios, mais
professores. Aqui a qualidade do curso é melhor que a Federal. O CEFET tem o melhor
curso de engenharia mecânica do Paraná”. (Entrevistado R).
Dentro dessa temática, vale ressaltar que o diretor da empresa do setor elétrico
que foi entrevistado declarou que “a boa qualidade dos cursos de engenharia do CEFET
também é conhecida no mercado de trabalho”, ainda, “eu prefiro contratar alunos/as do
CEFET porque considero a Instituição uma referência”.
Esses relatos evidenciam a importância do papel da tecnologia para a escolha da
Instituição, pois em várias falas apareceu a tecnologia como sendo um fator de atração.
88
Habermas, citado em Bastos (1998, p.11), aponta para um consórcio entre educação e
tecnologia, como algo para fazer acontecer, através do qual relações “intensas e
inquietantes” são desenvolvidas, por isso, se deve buscar uma educação tecnológica com
o objetivo de ampliar a visão de mundo dos seres humanos, e não restringi-los à noção de
uma tecnologia meramente instrumental, como visto anteriormente.
Quanto à escolha do curso, percebe-se, em praticamente todas as falas, tanto dos
rapazes quanto das moças, que o motivo para cursar engenharia, está no fato de
gostarem de matemática e cálculo, isto é, da área de exatas.
“eu resolvi fazer Civil porque eu sempre gostei de fazer cálculo. Desde pequena eu
fiz Kumon”. (Entrevistada C)
“eu gostava de matemática, daí pensei em fazer alguma coisa nessa área”
(Entrevistado D)
também em alguns depoimentos, a influência familiar e dos professores nas
decisões.
“vim fazer engenharia porque meus primos estudam aqui e amam o curso, daí eles
me convenceram”. (Entrevistada A)
“toda minha família trabalha com engenharia e/ou tecnologia, além disso, sempre
tive facilidade com números”. (Entrevistado J)
“aqui (no CEFET) tive bons professores, que me ajudaram a descobrir a
engenharia”. (Entrevistado Q)
Verifica-se que, na maioria das falas, em algum momento, os/as entrevistados/as
tiveram influência da família e/ou professores, seja apoiando ou criticando a escolha do
curso; muitos/as alunos/as e familiares vêem a engenharia como uma carreira que
status e dinheiro.
“no começo estava na dúvida entre engenharia e matemática, mas aí vi que
matemática não dá dinheiro, daí desisti da idéia”. (Entrevistado E)
89
Observa-se que uma preocupação entre os/as entrevistados/as quanto à
remuneração, predominando uma visão de que o curso de engenharia vai fornecer uma
carreira sólida e bem remunerada, independente do sexo e da área escolhida. É
justamente por acreditar nestas premissas que a maioria dos/as estudantes se dedica
dentro dos seus respectivos cursos, muitos, inclusive, desejam estagiar fora do país, fato
considerado fundamental para alguns, tendo em vista uma carreira profissional de
destaque.
“aqui no CEFET tem um programa de estágio no exterior. Ele é oferecido para os
melhores alunos, eu gostaria de poder ir”. (Entrevistada C)
Assim, percebe-se que atualmente, mesmo que em um ritmo lento, as escolhas
profissionais estão sofrendo alterações, isto é, muitas moças e rapazes estão escolhendo
seus caminhos profissionais independente dos padrões sexualmente construídos.
6.2.2 A PERCEPÇÃO DOS/AS DISCENTES EM RELAÇÃO A ELES MESMOS E
AOS/ÀS PROFESSORES/AS
A análise da percepção dos/as alunos sobre eles mesmos e sobre os/as
professores/as contribuiu decisivamente para elucidar o problema deste estudo, pois, de
acordo com as respostas dos/as entrevistados/as, percebeu-se de forma mais evidente as
questões de gênero que permeiam as relações entre os/as discentes e entre eles e os/as
docentes da Instituição.
Esta percepção está associada às imagens que os alunos e as alunas têm sobre
eles mesmos e sobre o outro, tanto no cotidiano quanto na vida escolar e profissional.
Em todos os relatos percebeu-se que o nível de exigência profissional aumentou
ao longo dos anos. Praticamente todos declararam que é importante falar pelo menos
uma língua estrangeira, ter boas noções de informática, boas notas no curso e fazer
estágio fora do Brasil.
Rapkiewicz (1998, P. 55) declara que o “estereótipo da incompetência técnico-
científica das mulheres está relacionado com o condicionamento do papel de homens e
mulheres no processo de socialização”. Esta afirmação também pôde ser observada nos
relatos dos/as entrevistados/as, pois, na maioria deles, aparece uma discriminação
90
(mesmo que velada) acerca da presença de mulheres nos cursos de engenharia da
UTFPR.
“eu noto que as mulheres têm mais facilidades com as áreas de humanas e
biológicas. A gente acha estranho que tenha meninas interessada pela área de exatas”.
(Entrevistado R)
Vários estudantes declararam que, quando se organizam em equipes, e o trabalho
envolve escrita, eles tentam colocar no grupo de trabalho uma menina, pois de acordo
com eles, as meninas têm mais facilidade para escrever, além de ter a “letra mais bonita”.
“eu era a única menina da turma base (aprendi a beber, jogar truco com os
meninos). Eu era considerada a “burra” da turma”. (Entrevistada G)
Na fala anterior, percebe-se claramente o conceito de estabelecidos e outsiders
(Elias in Lombardi, 2005), na qual a moça, para pertencer ao grupo, teve que assumir
uma postura considerada “masculina”, como beber e jogar truco. Assim, ela foi aceita,
mas seu lugar dentro do grupo era periférico por ser mulher, daí, pode-se declarar que ela
pertencia ao grupo dos estabelecidos como uma outsider.
“foi divertido para mim, estudar numa turma com a grande maioria sendo homem,
exceto em alguns casos de machismo, a convivência foi muito legal”. (Entrevistada H).
Carvalho aponta para a dicotomia existente entre os gêneros; os homens são
vistos dentro de um modelo dicotômico de masculinidade, assim como as mulheres.
Portanto a presença de moças nas engenharias ainda causa estranhamento, uma vez
que estão em um ambiente diferente daquele modelo proposto pela sociedade ocidental
tradicional. Essa visão dicotômica dificulta a percepção da diversidade nas
manifestações de gênero” (2003, p.17).
Dentro desta visão, homens e mulheres fazem escolhas profissionais de acordo
com os papéis sexualmente estabelecidos. Lombardi (2005) coloca que nas sociedades
os espaços sociais estão classificados e hierarquizados, como sendo espaços mais ou
menos masculinos ou femininos e os valoriza de forma diferente.
Vale lembrar que as relações sociais entre homens e mulheres não estão
fundamentadas na concepção biológica de gênero, mas, sim, em uma estrutura social e
91
cultural mais complexa, através da qual os seres humanos são moldados de acordo com
as suas diferentes culturas.
É curioso perceber também que, em várias falas, os/as alunos/as não apontam em
nenhum momento para uma imagem preconceituosa do seu oponente, mas, quando
comenta sobre brincadeiras em sala, sobre a idéia que eles têm com relação às suas
colegas de turma, a discriminação fica evidente.
“os meninos são mais amigáveis. Com relação às meninas, eles não conseguem
enxergar a gente como futuras engenheiras, como colegas. Quando a gente conversa
com eles sobre estágio, sobre alguma coisa prática, eles acham que a gente não entende
nada”. (Entrevistada M)
Com relação às amizades, percebe-se que as moças consideram os rapazes mais
“fiéis” às amigas. Segundo as entrevistadas, os rapazes são considerados menos
“mexeriqueiros”.
“aqui na sala a gente vê que as meninas são mais fofoqueiras”. (Entrevistada A)
Mais uma vez, vê-se que houve uma interiorização dos padrões sociais, que, se
não determina o comportamento das pessoas, pelo menos pré-modela, isto é, cria uma
predisposição para determinados tipos de comportamento (RAPKIEWICZ, 1998). Neste
caso, ocorre a desvalorização da aluna de engenharia por parte de seus colegas de
turma, bem como a idéia de que toda mulher é falante demais. Vale lembrar que a
UTFPR, campus Curitiba, enquanto um ambiente predominantemente masculino,
contribui para que esses modelos “machistas” permaneçam, e sejam considerados
“normais”.
Outro dado curioso presente nas falas de alguns/as entrevistados/as diz respeito à
sexualidade. Muitos/as citam os atributos sexuais femininos, mas não os masculinos, isto
significa que uma confusão permeando as relações sociais, pois uma mistura entre
os papéis da mulher, não havendo uma separação entre a mulher enquanto ser
profissional e sexual. Este fato demonstra que ainda vivemos numa sociedade, cujos
padrões androcêntricos estão arraigados, isto é, o homem é visto como um profissional,
ao passo que a mulher nem sempre é vista como tal.
92
“no CEFET por ter mais homem do que mulher, as mulheres ficam se achando.
Elas te olham com o seguinte pensamento: quem é você, eu tenho 50 homens para
escolher. os meninos ficam todos desesperados e ficam muito machistas (cheio de
opiniões formadas sobre as meninas)”. (Entrevistado R)
De acordo com a fala anterior, a mulher é vista como uma sedutora, que em virtude
da grande presença de homens, ela terá vantagens sobre os mesmos do ponto de vista
sexual. Aqui se observa claramente o estereótipo da mulher-fatal, que irá se aproveitar
dos homens-objetos, enquanto estes perpetuam os padrões de gênero socialmente
construídos.
“às vezes tem uns meninos que falam: você é a mulher do grupo, vai falar com o
professor” (muitos meninos acreditam que as meninas têm mais chance de conseguir algo
com o professor). (Entrevistada L)
Muitos alunos acreditam que pelo fato de serem mulheres, as moças da turma que
se dirigem ao professor, têm mais chances de serem atendidas em suas reivindicações,
seja uma mudança de data de prova, uma dispensa de trabalho,...
“os meninos não conseguem enxergar nas meninas futuras engenheiras, acho que
eles pensam que a gente vai casar e ter filhos. ” (Entrevistada M)
Os depoimentos anteriores reforçam a idéia de que a mulher permanece sendo
vista como objeto sexual, e não como uma estudante e futura profissional em condições
de igualdade com o homem. Observa-se também que os padrões permanecem
conservadores, isto é, muitos alunos e alunas ainda consideram que o principal papel da
mulher é casar e ter filhos.
Sobre o assunto, Goldenberg (2000, P. 114) aponta que “as transformações do
papel da mulher no mundo público afetaram, dramaticamente, todos os seus papéis
sociais”. Esta declaração demonstra que o papel da mulher na nossa sociedade está em
transformação, mas aquela idéia de mulher esposa e mãe, ainda é predominante no
imaginário masculino atual (e em muitos casos também no feminino).
93
“no geral os alunos são muito machistas e preconceituosos. No começo, eu achava
legal ser mulher no meio de tanto homem, mas depois começou a disputa, o stress de
provar pra mim mesma, que eu sou tão boa quanto eles”. (Entrevistada O)
“na minha turma tem meninos que concorrem com meninas. Tipo, pra ver quem vai
melhor”. (Entrevistado Q)
De acordo com os relatos, observa-se que há uma clara necessidade de as moças
dos diferentes cursos de engenharia estarem provando (das mais diferentes formas) que
são melhores que os rapazes. Este fato mostra que diversos critérios para se avaliar
os comportamentos masculino e feminino, os quais envolvem valores e significados
diferentes. Por exemplo, do rapaz que cursa engenharia espera-se boas notas, já da
moça, espera-se muito esforço para ter um desempenho além daquele obtido pelo rapaz.
Portanto, o fato da mulher não ir bem em um curso de engenharia é considerado “normal”
dentro dos padrões socialmente aceitos, enquanto que para os rapazes não (SILVA,
2000).
Talvez resida a constante disputa entre os alunos e as alunas dos cursos de
engenharia. Essa disputa se em termos de desempenho e aplicação durante as aulas.
Até que ponto isso interfere ou não no desempenho dos/as mesmos/as é um assunto
para ser abordado num futuro estudo. Mas vale ressaltar aqui uma fala sobre o assunto:
“os meninos têm muito preconceito, mas não é aquela coisa descarada. No
começo a gente tem que mostrar que sabe. Por exemplo: no começo do semestre, um
menino olha para você e não confia. Ele passa a confiar, depois das provas, quando
vêm as notas e a menina mostra que também é boa naquilo que faz”. (Entrevistada S)
Sobre a questão do desempenho, SELKE (2006 - no prelo) coloca
que a competência ou é negada às mulheres ou submetida a uma prova minuciosa. Nos homens a
competência é considerada simplesmente e automaticamente um pré-requisito. Por isso as estudantes têm
a impressão de ter que se afirmar não somente perante os seus colegas, mas também perante os seus
professores”.
O artigo de Selke, foi feito na Alemanha, com o objetivo de comparar as questões
de gênero com a realidade brasileira, dentro do mesmo universo, isto é, o técnico. No
entanto, essa citação demonstra que os estereótipos e as discriminações acerca da
participação da mulher no mundo da ciência e tecnologia, ocorrem tanto no Brasil quanto
na Alemanha.
94
Os relatos anteriores sugerem um predomínio da visão machista nos cursos de
engenharia da UTFPR, o que evidencia a crença de que a ciência e a tecnologia são
áreas masculinas. Assim, ocorre a “naturalização” do conhecimento, isto é, na crença de
que existe uma área do conhecimento voltada para o público feminino e outra para o
público masculino. A ideologia do gênero naturalizado coloca que uma divisão natural
na sociedade, em que o saber feminino es separado do masculino, e, portanto, esta
ordem deve se manter, sendo considerado “estranho”, quando um ocupa o espaço
“considerado” do outro. A porque o saber masculino é mais valorizado. portanto,
uma padronização dos espaços de atuação na nossa sociedade, que são bem delineados
e marcados para homens e mulheres (SILVA E CARVALHO, 2003).
Sobre o assunto CARVALHO et al (2004, p. 05) aponta
a dicotomia que determina características opostas para homens e mulheres traz uma série de implicações
para as relações de gênero que se manifestam de maneira desigual e possibilitam a dominação masculina.
Uma das áreas em que se observa claramente esta desigualdade é a tecnológica. Esta é uma área vista
como universo masculino, onde as mulheres têm tido pouco ou nenhuma participação. É uma
representação (....) que marcou as relações de gênero de forma a excluir as mulheres da produção e
apropriação do conhecimento tecnológico.
A divisão dos espaços de atuação está relacionada aos modelos de masculinidade
e feminilidade passados pela sociedade, e que são absorvidos por todos e todas, daí o
surgimento de cursos e carreiras profissionais destinados para homens e/ou mulheres.
Essa tendência se inicia nos primeiros anos de vida de todo ser humano, quando passa a
se socializar. Às meninas são oferecidos determinados estímulos, que são diferentes
daqueles dados aos meninos, o que significa o início da padronização dos
comportamentos do que é ser mulher ou homem para a nossa sociedade.
Quanto à percepção que os/as entrevistados/as possuem em relação aos seus
professores e professoras, verificou-se que uma preferência por parte tanto dos
alunos, quanto das alunas, para ter aulas com professores.
“prefiro ter aula com professor porque acho que ele passa melhor a matéria.
Professora enrola mais, às vezes vou para casa e retomo o conteúdo que uma professora
passou, percebo que o tempo que ela levou para explicar tal assunto, ela poderia ter
gasto 15 minutos”. (Entrevistada U)
“prefiro ter aulas com professores que vêm diretamente do mercado de trabalho,
por isso, têm uma visão melhor do curso. as professoras o, nunca fizeram outra
coisa, que não trabalhar no magistério”. (Entrevistado B)
95
Nas falas anteriores, fica evidente a reprodução do estereótipo da “professorinha”,
que não consegue fazer outra coisa que não ministrar a sua disciplina, e, por isso mesmo,
não consegue despertar no/a aluno/a o gosto pela matéria. Este fato demonstra que as
mulheres também reproduzem os estereótipos de gênero.
Se se considerar a ciência e a tecnologia como domínios masculinos, percebe-se
que permanece a noção da inaptidão feminina para estas áreas, isto acontece por causa
do processo de socialização que as mulheres tiveram, ou seja, de acordo com Carvalho et
al. (2006, no prelo), “as relações e padrões de gênero estão diretamente imbricados nas
práticas sociais, ao mesmo tempo em que são também referências para estas práticas”,
como conseqüência disso, tem-se, dentro da educação tecnológica, um espaço de
formação masculina, no qual não só o corpo docente, mas a maioria dos discentes
também são homens (SILVA, 2000). De acordo com os entrevistados, os/as
professores/as podem ser caracterizados da seguinte maneira:
professoras: têm “instinto” maternal, são mais organizadas e atenciosas, têm mais
dificuldades de aceitar críticas, falam e escrevem mais, ...
professores: se fazem de gênios ou loucos, são mais objetivos, são mais “carrascos”,
inflexíveis, ...
A caracterização anterior deixa claro o quanto a nossa sociedade é conservadora,
e continua seguindo aqueles padrões sexualmente construídos e criados gerações e
que continuam sendo reproduzidos. A professora é sempre vista como a “mãezona”, o
professor como o “gênio”. Isto é sinal de que os próprios profissionais estão perpetuando
estas características, uma vez que estão transmitindo essas impressões para seus/as
alunos/as.
Alguns/as entrevistados/as também declararam que preferem ter aulas com
professores por se identificarem mais com as disciplinas, e não necessariamente com o
gênero dos/as mesmos/as.
“não interessado no sexo do professor, se ele ou ela explica bem, dentro.
(Entrevistado E)
Este relato demonstra que alguns discentes esperam ter uma boa aula,
independente do sexo do/a professor/a.
Esta suposta preferência sexual evidencia certo preconceito ou discriminação, uma
vez que consideram as professoras enroladas”. Além disso, esta concepção também
demonstra que determinados padrões que estão perpetuados, como é o caso de as
96
mulheres (professoras) serem mais emotivas e os homens (professores) mais racionais,
e, portanto, mais diretos nas suas falas em sala de aula.
Sobre o relacionamento desenvolvido entre professores/as e discentes, pôde-se
verificar, de acordo com os relatos, que existe uma discriminação.
“as professoras são mais gentis com os meninos”. (Entrevistada C)
Alguns/as entrevistados/as colocaram que as professoras costumam ser mais
simpáticas com os rapazes, e isso, segundo os/as mesmos/as, deve-se à crença de que
eles são mais racionais (e melhores alunos) do que as moças.
“os professores às vezes têm mais liberdade para fazer piadinhas com as alunas”.
(Entrevistada H)
De acordo com algumas entrevistas, isto acontece por duas razões: primeiro,
porque as professoras são mais sérias; e segundo, porque as moças estão em minoria,
portanto, são em alguns casos motivo de chacota na turma.
“os professores tratam melhor as meninas, enquanto que as professoras tratam
melhor os meninos”. (Entrevistada I)
“o respeito do professor com a aluna é maior, ele não chama a atenção de uma
aluna igual chama de um aluno”. (Entrevistada M)
Muitos/as entrevistados/as não sabiam dizer porque existe esta diferença de
tratamento entre os/as professores/as e alunos/as. No entanto todos/as acreditam que
têm relação com a crença de que mulher é mais sensível, por isso merece um tratamento
mais gentil e educado.
“antes eu o perguntava muito aos professores para não parecer puxa-saco e
com medo de que dissessem que eu passei na matéria porque sou mulher (como já ouvi
os meninos falando de algumas meninas que passaram em determinadas matérias
porque foram chorar para os professores)”. (Entrevistada O)
97
Outro dado revelador na fala anterior é o de que uma preocupação das moças
frente à sua sexualidade. Muitos rapazes vêem as boas notas de uma aluna da turma
como o resultado do uso de seus atributos sexuais frente ao professor, o acreditando
na competência intelectual das mesmas.
Os/as entrevistados/as também declararam que as atitudes discriminatórias dos/as
docentes para com seus/suas alunos/alunas nem sempre são evidentes para todos/as na
sala de aula, apesar da existência de brincadeiras que podem identificar determinadas
atitudes sexistas.
“eu pelo menos nunca percebi nenhum tipo de atitude preconceituosa dos
professores”. (Entrevistado D)
Vários alunos/alunas também afirmaram que não poderiam emitir uma opinião mais
concreta sobre as professoras da UTFPR, pelo fato de ter tido pouca experiência com as
mesmas, em geral eles tiveram aulas com duas a três professoras, dentro de um universo
de 20 professores. Assim, pode-se declarar que um predomínio de docentes do sexo
masculino dentro da Instituição, o que dificulta uma verificação mais próxima da realidade
sobre a atuação das professoras. Sobre este dado, seria interessante o desenvolvimento
de um estudo futuro acerca do predomínio de professores na universidade.
O desempenho escolar é um dado relevante nos cursos de engenharia. Os/as
alunos/as, quando questionados sobre o assunto, sempre se referiam ao seu coeficiente
(que na Instituição vai de 0-1). Curiosamente, poucos foram os/as entrevistados/as que
estavam realmente satisfeitos com o próprio desempenho escolar. A média é 0,5,
contudo, os/as alunos/as consideram ideal acima de 0,75. Aqueles/as que não possuem
um coeficiente como o sugerido afirmam que não estão empenhados como deveriam.
Vários/as entrevistados/as colocaram em suas falas que não percebem diferenças
na aprendizagem entre os/as alunos/as, entretanto consideram as meninas muito mais
dedicadas.
“os meninos têm mais facilidade em levar o curso do que as meninas. Eles levam
de maneira mais “light’”. (Entrevistado D)
“as duas meninas da minha sala têm mais dificuldades. Quando tem relatório ou a
disciplina é na área de humanas, elas se dão melhor. Em geral, as notas mais altas são
dos meninos”. (Entrevistado R)
98
De acordo com a maior parte dos/as entrevistados/as, as moças se esforçam muito
mais do que os rapazes, e nem sempre conseguem obter um desempenho semelhante ao
deles. Em geral, elas prestam mais atenção às aulas, estudam mais e levam o curso com
mais seriedade do que eles.
Carvalho (2003, p. 22) coloca que “ciência e tecnologia foram por muito tempo
vistas como atividades masculinas, mantendo, assim, uma quase total invisibilidade das
mulheres neste domínio”. Daí, até hoje, considerar normal a dificuldade das alunas nas
áreas de exatas. Vale lembrar também que os próprios estímulos dados às crianças são
diferenciados de acordo com o sexo, fato esse que está associado à construção histórica
e social de gênero.
Casagrande (2005) em sua pesquisa sobre as representações de gênero nos livros
de matemática, evidencia bem como a perspectiva dicotômica é recorrente nos
exercícios, enunciados e ilustrações dos problemas dentro da disciplina de matemática.
Fato que pode contribuir para a perpetuação dos estereótipos de gênero.
A própria escola contribui para isso, aponta Louro (2003), pois ela reproduz as
relações patriarcais de dominação, daí as meninas se voltarem para as áreas de
humanidades tradicionais e dentro dos padrões socialmente aceitos, e os meninos, para
as áreas de exatas, pois estão desempenhando seus papéis socialmente construídos e
perpetuados pelo ambiente escolar.
“geralmente homem tem mais facilidade com matemática, física,... e mulher com
línguas, português,... eu acho que as mulheres do curso têm mais dificuldade. Geralmente
as meninas ficam meio perdidas quando a matéria é nova”. (Entrevistada S)
“as meninas têm um desempenho pior do que os meninos. Têm que se dedicar
mais para ter um desempenho igual ao dos meninos”. (Entrevistada U)
Os relatos anteriores deixam evidente o que Silva e Carvalho (op cit.) apontam em
seu trabalho, “uma imagem masculina de racionalidade, de domínio das técnicas e da
tecnologia associada a constantes incentivos ao uso da tecnologia (...) contribui para que
os meninos pareçam ficar mais à vontade com as inovações tecnológicas do que as
mulheres”. Vale ressaltar aqui que nenhum aluno declarou ter enfrentado dificuldade nas
disciplinas de cálculos, ao passo que algumas alunas afirmaram que tiveram dificuldade
em acompanhar essas disciplinas.
99
“às vezes a gente vai mal, e isso mexe com a gente, e a atitude dos meninos
piora as coisas”. (Entrevistada A)
A fala anterior deixa clara a discriminação na sala de aula, pois a nota baixa da
estudante virou motivo de chacota entre seus colegas homens, causando, assim, um
impacto psicológico negativo sobre a aluna.
Sobre o assunto, Moreno (1999, P. 35) declara que “a imagem da mulher e do
homem que se passa aos alunos por meio dos conteúdos do ensino contribui
intensamente para formar seu eu social, seus padrões diferenciais de comportamento
(...)”. Dentro dessa visão, é importante frisar que, desde a Educação Infantil, os meninos
são levados a se identificar com as áreas de exatas e as meninas com as áreas de
humanas e biológicas. Dessa forma o que acontece no Ensino Superior é apenas uma
repetição daquilo que vem acontecendo nos bancos escolares.
Alguns/as discentes também declararam que não vêem diferenças no desempenho
ou na forma de aprendizagem.
“eu não percebo diferenças na forma de aprendizagem entre homens e mulheres,
isso depende da pessoa e não do sexo”. (Entrevistado Q)
Esta colocação aparece em rias falas, no entanto, ela é contraditória, uma vez
que muitos/as os/as discentes afirmam existir maior dificuldade na aprendizagem por
parte das mulheres dos cursos.
Quando se analisa o desempenho dos alunos e alunas da UTFPR, campus
Curitiba, pode-se novamente citar Rapkiewicz, que em seu trabalho, apresenta o conceito
de habitus de Bourdieu:
O conceito de habitus de Bourdieu, defende a idéia de que cada grupo tem maneiras próprias de
percepção, de pensar, apreciar e agir. Bourdieu tanta importância ao conceito de habitus que define o
próprio gênero como sendo um habitus sexuado. Trata-se de relação social somatizada, de lei social
convertida em lei incorporada cujos efeitos e duração são inscritos de maneira durável no íntimo dos corpos
sob a forma de disposições e inclinações do corpo socializado. Nesse sentido, as mulheres estariam
excluídas das ocupações tecnológicas não por falta de qualificação, mas por falta de condições para
contornar as regras oficiosas, isto é, de absorver o habitus. As relações sociais interiorizadas assim
inconscientemente constituem uma violência simbólica que, se não determina o comportamento das
pessoas, pelo menos o pré-modela, cria uma predisposição para determinadas formas de comportamento.
(1998, P.56)
De acordo com este conceito, a fala seguinte é bastante reveladora:
100
“a meu ver acho que os meninos acham que somos “toscas”, ou seja, que não
somos suficientemente capazes para cursar engenharia” (Entrevistada H)
Dentro dessa idéia, observa-se que o habitus sexuado, colabora para as escolhas
profissionais, levando as mulheres a se concentrarem em determinados cursos e setores
do mercado de trabalho. Daí, pode-se compreender as razões para os relatos como os
apresentados neste item, em que a presença feminina nos cursos de engenharia, ainda é
vista com preconceito, pois as pessoas agem de acordo com o meio social onde estão
inseridas.
6.2.3 A EXPECTATIVA DOS/AS DISCENTES FRENTE AO MERCADO DE
TRABALHO
Quando analisada a expectativa dos/as alunos/as diante da futura inserção no
mercado de trabalho, todos/as foram unânimes ao declarar que os homens terão mais
chances no mercado de trabalho. Sobre o assunto, Carvalho op. cit. (2006), declara que
“a igualdade de competência o significa necessariamente igualdade de oportunidades
no mercado de trabalho tecnológico”.
“teve um aluno da minha turma que falou: não adianta você ter notas altas, se eu
vou ter o melhor emprego por ser homem”. (Entrevistada M)
Esta declaração acaba por ser reforçada pela própria Instituição. No pátio da
escola um mural de chamada para estágios, e, coincidentemente, muitos editais
que deixam clara a preferência por estudantes do sexo masculino. A escola como
receptora desses editais deveria verificar a razão para essa discriminação e não
concordar com ela, exigindo que as empresas não fizessem opção pelo gênero do/a
futuro/a estagiário/a.
“quando uma mulher chega num alto cargo, com certeza, ela teve que se esforçar
muito mais do que um homem”. (Entrevistada O)
Quando analisada a ascensão profissional feminina, observa-se que uma
demora maior para que ela possa alcançar determinados postos de trabalho. Em geral a
101
mulher deve mostrar um desempenho excepcional, e ainda uma rede de relações que
contribua para que ela alcance patamares mais elevados dentro de uma empresa.
SELKE op. cit. (2004, p. 15) aponta que “quando as mulheres penetram nos
domínios masculinos e aprendem uma “profissão masculina”, tal fato, ainda hoje, provoca
irritações sobre as quais não se fala abertamente, sendo manifestadas em comentários,
muitas vezes sutis”.
“os meninos terão mais chance, com absoluta, total e relevante certeza. Por
experiência, há mais dificuldade por parte das meninas de conseguir um estágio. O
mercado de trabalho fora não quer mulheres, porque é para trabalhar com peão, com
técnicos, e geralmente a figura feminina com grau superior, é complicado, sempre tem
aquela coisa”. (Entrevistado B).
É curioso perceber que tanto os alunos, quanto as alunas observam essa possível
dificuldade futura. Cockburn (1987) in Rapkiewicz (1998, P. 57) aponta que “quando a
mulher resolve encarar um espaço considerado masculino (como no caso a engenharia),
enfrenta o chamado custo da transgressão”(negrito da autora), isto é, existe um custo
por “invadir” um espaço que não é feminino, que via de regra o está disponível à
mulher. Este custo pode estar relacionado a várias atitudes ou comportamentos comuns
às mulheres que enfrentam este custo, tais como o isolamento, o mal-estar, a ausência de
feminilidade, a dificuldade em manter relacionamentos, etc. Isso também foi percebido
nos relatos das entrevistadas.
“quando uma engenheira vai em a obra, ela não pode ir bem vestida. Ela deve ir de
jeans, camiseta e nis. Senão os homens mexem mesmo, além de ser perigoso. Eu, por
exemplo, sou super vaidosa, mas sei que com esse tipo de roupa (saia, vestido, salto
alto,..) não poderia visitar uma obra”. (Entrevistada C)
Observa-se com esta fala que as moças vão, com o tempo, adotando
características consideradas masculinas. E isto acontece para poder “camuflar” seus
atributos sexuais. Assim, percebe-se o quanto a mulher-profissional é confundida com a
sua sexualidade, fato este que pode atrapalhar a sua ação no mercado de trabalho.
102
“as meninas que fazem engenharia e depois vão trabalhar com uma maioria de
homens, com o tempo, também viram homens”. (Entrevistada P)
Vale lembrar aqui que é necessário que as mulheres lutem contra essa
“masculinização” de suas profissões, não é porque a mulher trabalha com uma maioria de
homens que deve assumir também uma postura masculina. É o comportamento
masculino no mercado de trabalho refletido nessas mulheres que assumem esta postura,
por isso a necessidade de se analisar as questões de gênero no mercado de trabalho,
tema relevante para ser mais aprofundado em futuros estudos.
Lombardi coloca que “as relações sociais de sexo que perpassam a área
profissional da engenharia repousam, em primeiro lugar, sobre uma relação hierarquizada
entre os sexos, tratando-se de uma relação de dominação e de poder do grupo de
engenheiros do sexo masculino sobre o grupo de engenheiras” (2005, p.131).
Observa-se, portanto, que uma forte tensão entre os gêneros dentro dessa
área, e ela vai acontecer tanto na universidade quanto no mercado de trabalho. Vale
ressaltar aqui que a escola, desde as primeiras séries, colabora para reforçar estes
estereótipos e noções de poder entre homens e mulheres.
“existem muitas diferenças sexuais no mercado de trabalho. Mulher não pode dar
muita abertura, se der, já surgem comentários (do tipo que não é séria, que está querendo
algo mais...). Por isso, ela acaba tendo que ter uma postura bem formal”. (Entrevistado Q)
Os relatos demonstram que os critérios para a seleção em um emprego continuam
sendo estabelecidos de acordo como os atributos masculinos e femininos construídos
socialmente, o que faz com que as formas de inserção e manutenção no mercado de
trabalho não sejam semelhantes para homens e mulheres.
Mas, o que pode ser considerado como domínio masculino ou feminino?
Rapkiewicz (1998) cita em seu trabalho, um exemplo de Cockburn (1985), que declara:
a associação entre feminilidade e incompetência técnica, mostra como a idéia de masculinidade pode ser
flexível: em certos momentos, quando o objetivo era de fortificar sua identificação com o aspecto físico da
engenharia, os engenheiros consideravam o trabalho intelectual (na engenharia) como soft. No entanto,
quando sentiram necessidade de apropriar-se deste aspecto, por ele ter se tornado mais importante, eles o
consideraram também como masculino. (1998, P. 58)
Isso já é percebido durante o curso. Várias entrevistadas declararam que terão
poucas chances em determinados setores da engenharia por serem ainda guetos
masculinos:
103
“eu desejava ir para o ramo de software (automação, robótica) que é dominado por
homens, mas sei que sofreria, por isso, acho que vou para o lado administrativo, seria
mais fácil. Além disso, poderia conciliar melhor o lado de mãe, com o de engenheira”.
(Entrevistada A)
O relato anterior evidencia que a mulher (independente da idade) ainda está muito
ligada ao espaço doméstico e à maternidade, o que justifica a opção profissional. Esta
preocupação aparece também com outras entrevistadas, mas nem sempre de maneira
clara. “As mulheres procuram por exemplos positivos que demonstram que é possível
conciliar a evolução profissional como a formação de uma família”, SELKE op. cit., por
outro lado, SILVA op. cit. p.137, coloca:
que “a priorização feminina pelo doméstico e essa visão de dedicação feminina completa para com os filhos
têm subentendida a idéia de que o sustento familiar, obtido via trabalho, deverá ser desempenhado por um
homem, provavelmente o pai e marido. Esta “obrigação” constituiria a contrapartida masculina no modelo
tradicional de família”.
Observa-se mais uma vez que, apesar de a maioria dos/as entrevistados/as serem
jovens, um predomínio da visão tradicional de família, na qual a mulher ainda se
como a grande responsável pelos cuidados do lar.
“eu sonho em casar, ter filhos, casar de branco na igreja. Cuidar da casa, dos
filhos, do marido...” (Entrevistada S)
Diante dessa fala vê-se que os padrões de comportamento ainda são bem
conservadores, e disso resulta que muitas mulheres, mesmo com curso superior, dão
prioridade ao lar e filhos, deixando para segundo plano a carreira profissional.
De acordo com os/as entrevistados/as, pode-se definir o/a profissional da
engenharia da seguinte forma:
engenheira: mais emocional, preocupada, detalhista e observadora, atenta
aos relacionamentos humanos.
engenheiro: mais competitivo, racional, prático e preocupado em realizar, de
forma rápida e eficiente, o seu trabalho.
“as mulheres dão uma volta para fazer determinada coisa (acham defeito, são mais
minuciosas). Já os homens não, são mais práticos, querem acabar logo”. (Entrevistada C)
104
Percebe-se, através dos relatos, que a suposta presença de sensibilidade,
paciência e detalhismo nas mulheres, pode ser um dos fatores que contribui para
encaminhá-las para o setor administrativo das engenharias, principalmente para os
recursos humanos, uma vez que o consideradas mais eficientes nesta área. Contudo,
vale ressaltar que estes mesmos atributos colaboram para o afastamento dos homens,
que, a princípio, se identificam mais com a máquina.
“no mercado de trabalho existe uma divisão, os engenheiros o para a área de
desenvolvimento (programação) e as engenheiras para a parte de relacionamento inter-
pessoal. A área de desenvolvimento é uma área masculina, por exemplo, o meu currículo
foi negado nesta área da Siemens, isto acontece porque na parte que exige mais lógica,
racionalidade, tem maior concentração de homens, parece que o homem se relaciona
melhor com a máquina”. (Entrevistada G)
Mais uma vez, volta-se para os estereótipos, isto é, padrões estabelecidos pela
sociedade e aceitos por todos, nos quais os homens são considerados mais aptos para os
trabalhos racionais e as mulheres para as atividades ligadas ao emocional/relacional.
Como pode-se perceber, esta é uma realidade que também atinge os/as engenheiros/as
no mercado de trabalho.
“muitas dessas empresas grandes pedem estagiários dos sexo masculino (tipo a
Volkswagen), aqui no mural do CEFET. Não sei se errada, mas acho que os homens
acreditam que vão se dar melhor que as mulheres”. (Entrevistada L)
“no mercado de trabalho, ainda há discriminação, por exemplo, na Renault, apenas
6% dos engenheiros mecânicos são mulheres”. (Entrevistada L)
O relato anterior, está de acordo com o que Lombardi (op. cit) coloca “o equilíbrio
de forças que tende a se desenhar atualmente, entre o grupo de engenheiras e o de
engenheiros em configurações como a escola de engenharia e os locais de trabalho,
tende a favor do grupo masculino, maior numericamente, mais antigo na área profissional
e, possivelmente, mais coeso”. (2005, p.132)
Vê-se que uma permanência do modelo dicotômico de gênero na sociedade
atual, onde uma tensão entre homens e mulheres, uma vez que estas últimas estão
ingressando em um campo ainda majoritariamente masculino. A conseqüência disso é
105
que as estudantes de engenharia antevêem dificuldades de ingresso no mercado de
trabalho pelo simples fato de serem mulheres. Assim fala um aluno entevistado:
“existem diferenças entre homens e mulheres no mercado de trabalho.
Normalmente um preconceito em relação à mulher (não sei por quê). Muitos estágios
vêm especificado que a vaga é para o sexo masculino. Eu acho que às vezes o cara
que contrata esquece que tem mulher fazendo engenharia”. (Entrevistado N).
No entanto, sobre o assunto, o diretor industrial entrevistado, declarou que:
“É óbvio que por ter mais homens nos cursos de engenharia, mais procura de
estágios por parte de alunos do que de alunas. Mas as mulheres engenheiras podem ser
equiparadas aos homens, até porque elas estão cada vez mais dedicadas do que os
homens”.
O que ficou evidente nesta fala, é que algumas empresas o fazem distinção
entre os sexos na hora da contratação (como já foi evidenciado em relatos anteriores), o
que significa, portanto, que não se pode generalizar.
“na hora da contratação não vejo diferenças sexuais, mas sim dentro da empresa,
no dia-a-dia, o que vale é a opinião masculina”. (Entrevistada G)
Sobre estágios e empregos SILVA op. cit. p. 129 declara:
que apesar de existir uma proibição legal de discriminação de gênero nos critérios de admissão não é
respeitada pelas empresas que, com o objetivo de melhorar a sua produtividade, procuram aproveitar-se
das qualidades e habilidades que homens e mulheres desenvolvem ao longo de suas vidas, ignorando o
fato de que estão infringindo uma lei e violando os direitos humanos.
Percebe-se, portanto, que até hoje existem determinadas empresas que se
recusam a contratar engenheiras, pois ainda em esta profissão como sendo
predominantemente masculina, na qual a mulher ainda é considerada como um ser
estranho a essa categoria profissional. Este fato, aliás, também é percebido pelas alunas
de engenharia da UTFPR – campus Curitiba, pois afirmam em suas falas que elas
desempenharão funções no mercado de trabalho que já são dominadas por mulheres,
portanto, serão excluídas do processo de desenvolvimento tecnológico, cujo domínio é
masculino. Sobre o assunto, a fala seguinte é reveladora:
106
“o engenheiro vai ter mais facilidade em arrumar emprego, porque há lugares onde
existem homens trabalhando e os gerentes imaginam que a mulher vai tumultuar o
lugar de trabalho, além do preconceito por parte dos gerentes”. (Entrevistada O)
Um outro dado que pôde ser percebido pelas entrevistas, é que muitas alunas dos
cursos de engenharia da UTFPR apresentam a preocupação de seguir carreiras nas
quais possam conciliar a vida profissional com a maternidade e o casamento, por essa
razão, talvez muitas engenheiras busquem trabalhar no setor administrativo.
“hoje em dia, muitas engenheiras formadas estão indo para a área administrativa”.
(Entrevistada I)
Com relação à participação feminina na área científica e tecnológica, muitas
mulheres aceitam desde o início da graduação, que não terão chances em
determinados segmentos do mercado de trabalho, uma vez que são redutos masculinos.
Este é um fato real, que ainda atinge o mercado de trabalho, pois muitos
empregadores que, na hora de contratar um(a) estagiário(a), descrevem todas as
qualificações necessárias para a realização da atividade, e estas qualificações estão
justamente assentadas sobre aqueles padrões sociais já citados.
Um outro assunto que retornou em muitas falas foi a idéia de que o/a engenheiro/a
de hoje não é o mesmo de décadas passadas, os/as engenheiros/as devem ir além da
técnica nos dias atuais; sobre isso, alguns entrevistados/as declararam que as mulheres
teriam vantagens, pois possuem mais facilidade de se relacionar com as pessoas do que
os homens.
“a maior virtude de um/a engenheiro hoje é saber lidar com pessoas, e sob
pressão, por isso, eu acho que as engenheiras se darão melhor, pois sabem lidar melhor
com relacionamentos humanos”. (Entrevistada G)
Verificou-se, portanto, que tanto alunos quanto alunas percebem as diferenças
sexuais existentes dentro do mercado de trabalho. Mas isso não significa um obstáculo
para a conclusão do curso por parte das mulheres, apenas uma preocupação que foi
relatada por quase todas as estudantes, independente do curso. Outras informações
acerca do mercado de trabalho poderão ser analisadas num futuro estudo sobre a relação
entre gênero e engenharia.
107
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Através deste trabalho, foi possível verificar que os cursos de engenharia são uma
fonte privilegiada para os estudos de gênero, pois ainda é uma área do conhecimento
predominantemente masculina, em que a presença feminina é reduzida, apesar do
aumento da participação da mulher nas últimas décadas.
É fato que as mulheres permanecem em um número reduzido dentro dos cursos de
engenharia, mas também é evidente que as relações de gênero dentro destes cursos
estão se alterando. Atualmente ingressam mais moças nos cursos de engenharia do que
em um passado recente.
Com relação à escolha do curso, ficou evidente que tanto as moças quanto os
rapazes não se fixaram em padrões socialmente construídos acerca dos cursos de
engenharia, mas, sim, na idéia (bastante disseminada) de que a engenharia é um curso
que fornecerá mais oportunidades, tanto salariais quanto profissionais, fato que atrai
ainda um grande número de jovens para essa carreira. A família e/ou amigos tiveram
pouca participação na escolha do curso.
Tanto os rapazes como as moças fazem engenharia por se identificarem com
números. Sempre tiveram mais afinidade com a área de exatas. Contudo, muitas moças
esperam enfrentar dificuldades na carreira, uma vez que ainda representam a minoria. É
importante colocar, que ao ingressarem nestes cursos, as moças estão rompendo
barreiras, uma vez que estão quebrando o estereótipo de que mulheres não gostam de
números.
Mas, será que essas moças também conseguem romper com o modelo dicotômico
de gênero? As mudanças estão acontecendo, no entanto, as estudantes e os estudantes
continuam se percebendo dentro de modelos de masculinidade e feminilidade
tradicionais. Os padrões sobre a feminilidade e a masculinidade ainda permanecem os
mesmos de décadas passadas. A mulher ainda é vista, e se vê, como um ser humano
mais ligado ao espaço privado, assim como o homem ligado ao espaço público. Portanto,
os padrões de comportamento estereotipados não permanecem, como demoram para
se alterar.
A maioria dos/as jovens entrevistados/as mostrou que predominam no imaginário
coletivo os estereótipos dos papéis masculinos e femininos, isto é, todos/a,s independente
do curso, apontam para aquelas características masculinas e femininas que foram
socialmente construídas, em que o espaço público permanece sendo predominantemente
masculino, e à mulher cabe o trato com a casa e os filhos. Inclusive, alguns entrevistados
108
vislumbraram o futuro de suas colegas, como mães e esposas dedicadas, e não como
profissionais competentes.
De acordo com os/as entrevistados/as, as representações femininas coincidem,
independente do curso e/ou idade do/a entrevistado/a. Em geral a imagem da mulher que
aparece no imaginário dos/as estudantes da Instituição é de que ela é mais paciente,
caprichosa, observadora, atenciosa... características estas, citadas pela grande maioria
dos/as entrevistados/as, enquanto que a imagem do homem permanece àquela ligada ao
racional, à força física, ao domínio dos números.
As mulheres ganharam mais espaço fora do lar, mas os homens não ocuparam
mais espaço dentro do ambiente doméstico. Isto justifica a preocupação de muitas
estudantes em tentar conciliar a vida familiar (casa, marido e filhos) com a vida
profissional. Entre os rapazes esta preocupação não está presente, o que reforça mais
uma vez, a presença de modelos tradicionais.
As escolas possuem um papel importante para a perpetuação destes modelos
dicotômicos. Esse fato tem gerado uma insegurança diante das escolhas profissionais,
uma vez que a escola desempenha uma forte influência na vida dos seres humanos. As
escolas ainda pouco ou nada têm feito para modificar esse modelo. Seria interessante
que as escolas de Ensino Fundamental e Médio promovessem a conscientização das
meninas e meninos para as questões de gênero. Assim, poderia se romper esse
paradigma tradicional e conservador.
Vale ressaltar que essa virada de milênio mostrou que as mulheres estão
ingressando cada vez mais em áreas do conhecimento, até então consideradas
masculinas, como a ciência e a tecnologia. Portanto, outros espaços estão se abrindo
para as mulheres que estão pouco a pouco ampliando sua presença. Isto significa que as
mulheres estão considerando novas possibilidades e escolhas profissionais, que estão
indo além dos padrões de gênero tradicionalmente construídos.
Este estudo não teve por objetivo chegar a uma conclusão definitiva acerca das
relações de gênero nos cursos de engenharia, mas, apenas, elucidar um problema real,
que atinge as mulheres que buscam ocupar um lugar dentro de uma área cujo domínio é
masculino.
Por isso, há a necessidade de se analisar num trabalho futuro, até que ponto que a
exclusão das mulheres (brasileiras ou não) dentro das carreiras científicas e tecnológicas
é provocada por práticas discriminatórias (ainda que nem sempre conscientes) e quais os
efeitos dessa exclusão.
109
Essa segregação também é percebida nas engenharias, pois grande parte das
engenheiras trabalha basicamente com pesquisa e gestão, isto significa que elas estão
excluídas do processo de geração de novas tecnologias, que é considerado um setor
ainda predominantemente masculino. Assim, apesar de optarem pela engenharia, muitas
moças acreditam que sofrerão alguma discriminação no mercado de trabalho pelo simples
fato de serem mulheres.
Isso demonstra que, tanto dentro quanto fora das universidades, os cursos ligados
a essas áreas do conhecimento permanecem dentro dos estereótipos citados, isto é,
predomínio do saber masculino. À mulher cabe conquistar esse espaço, que já está
sofrendo algumas mudanças, e, ao que parece, mudanças estas favoráveis a elas.
(LOMBARDI, 2005).
Mas, vale lembrar, que são mudanças ainda percebidas de forma discreta, tanto
pelos/as alunos/as quanto pelo mercado de trabalho, que aponta para uma engenheira
dedicada e tão competente quanto o seu colega de profissão.
A técnica da entrevista foi considerada decisiva dentro do trabalho, pois ela
vislumbrou na prática aquilo que havia sido percebido pelas leituras e também
empiricamente, isto é, o domínio masculino dentro da Instituição. Assim, observou-se que
o mercado de trabalho permanece desencorajando as futuras engenheiras, uma vez que
as mesmas sabem, enquanto alunas, que não terão as mesmas oportunidades que os
engenheiros. Esse mesmo mercado de trabalho também apresenta tendências de uma
maior valorização do trabalho masculino, assim, atribui valores e salários diferenciados
para as carreiras masculinas e femininas.
Muitos estudantes têm uma visão machista a respeito das suas colegas de curso,
pois consideram-nas mais “incapazes” do que eles, tanto no quesito desempenho escolar
quanto profissional.
Vale ressaltar aqui que as próprias moças dos cursos acreditam que os rapazes
apresentam mais facilidade de aprendizagem, fato que reforça a presença do estigma,
pois a mulher sempre aparece como um ser intelectualmente inferior ao homem, sem
levar em conta, é claro, a força física, que foi algo presente nas falas dos/as
entrevistados/as e que marca a perpetuação das desigualdades entre os gêneros.
Essa constatação deixa evidente que entre os/as entrevistados/a o predomínio
da visão de gêneros em papéis dicotomizados, pois, de acordo com esta visão, na nossa
sociedade devem existir cursos e profissões adequadas aos homens e outros às
mulheres. Este fato evidencia uma visão equivocada da realidade, pois não há uma
valorização da pluralidade de masculinos e femininos, mas, sim, apenas uma
110
permanência das relações de poder estabelecidas dentro de uma visão relacional de
gênero (SCOTT, 1995).
Os resultados das entrevistas mostram ainda que entre as moças há uma
tendência à androginia. Em muitos casos as moças procuram se vestir de maneira
simples para não chamar a atenção”, deixando de lado toda a sua feminilidade e
vaidade, em prol de um convívio melhor dentro da Instituição, principalmente no ambiente
de trabalho. Este fato reflete uma adaptação da mulher que está ocupando um espaço
ainda considerado dos homens (RAPKIEWICZ,1998). Isso mostra, mais uma vez, uma
visão equivocada da realidade, na qual a mulher, para ser aceita dentro de um ambiente
de domínio masculino, é obrigada a alterar seu comportamento.
O que ficou evidente, portanto, é que uma permanência da visão androcêntrica
dentro das áreas de ciência e tecnologia, com destaque para as engenharias, que foi
tema constante neste trabalho. Como se verificou, mudanças estão acontecendo, mas
ainda são lentas e devem ocorrer de forma gradual. O que significa que as mulheres
finalmente estão saindo de sua invisibilidade e caminhando em direção a um espaço que
também é seu, e que deve, por isso, ser ocupado. Afinal de contas, a percepção feminina
de mundo pode trazer grandes contribuições a todas as áreas do conhecimento.
7.1 SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS
Ao longo de toda a pesquisa percebeu-se que não foi possível contemplar todas as
questões de gênero. Assim, surgiram várias indagações que a pesquisadora acredita que
merecem ser elucidadas em futuros trabalhos:
existe alguma relação entre a desistência de alunas dos cursos de engenharia e a
discriminação quanto ao gênero?
será que todas as alunas que se formam conseguem ingressar no mercado de
trabalho? E aquelas que não conseguiram emprego dentro de suas áreas, o que
estão fazendo atualmente?
como os professores e as professoras percebem as questões de gênero dentro dos
cursos de engenharia da UTFPR?
como os rapazes têm se posicionado quanto ao aumento de matrículas femininas
nos cursos de engenharia?
será que os rapazes consideram uma ameaça o ingresso de moças nos cursos de
engenharia?
111
e quanto ao desempenho, será que existe algum fator psicológico interferindo no
desempenho escolar das moças nos cursos de engenharia?
é possível comparar os dados desta universidade com o de outras do Estado?
Será que elas possuem algumas semelhanças quanto às questões de gênero?
é possível discutir as questões de gênero no Ensino Médio? (Essa proposta tem
como objetivo esclarecer as questões de gênero para os/as adolescentes e,
portanto, auxiliá-los numa futura escolha profissional).
será que os/as professores/as do Ensino Fundamental direcionam de fato as
futuras escolhas profissionais dos/as meninos/as? Será que isso promove a
exclusão das meninas dos cursos de engenharia?
a fim de atrair mais moças para os cursos de engenharia seria necessário divulgar
mais esse curso entre os/as estudantes do Ensino Médio. Como isso poderia ser
feito? Esse trabalho requer algo além da distribuição de folhetos explicativos sobre
os cursos.
dentro dos cursos de engenharia, poderia ser criada uma disciplina que discutisse
as questões de gênero dentro do curso e no mercado de trabalho, a fim de mostrar
as possíveis vantagens e desvantagens frente a cada um dos gêneros. Seria isto
um facilitador para a permanência e até mesmo, aumento da procura destes cursos
por moças?
112
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116
Apêndice – Roteiro para entrevista:
O que te levou a vir a fazer este curso? (Porque veio fazer o curso?)
O que você espera deste curso?
O que significa para você a engenharia?
Desde quando se interessa pela engenharia? Alguém te influenciou? Quem?
Você gosta do que faz?
Você já pensou em desistir deste curso? Por quê?
Como é o dia-a-dia do curso? (disciplinas, conversas,...)
Quais são as disciplinas que você mais gosta? Por quê?
Como você percebe o sexo oposto no curso?
Como é o relacionamento na sala de aula? Você se relaciona melhor com os
meninos ou com as meninas? Por quê?
Como é o seu desempenho (em termos de notas/participação)?
Você vê diferenças entre o desempenho dos meninos e das meninas?
Quanto ao grau de dificuldade do curso, você vê diferenças entre meninas e
meninos? Quem você acha que tem mais dificuldades? Por quê?
Quanto ao profissional, quem você acha que tem mais chance no mercado de
trabalho o engenheiro ou a engenheira? Por quê?
O que os meninos pensam sobre as futuras engenheiras? E o contrário?
Como você percebe o trabalho destes dois profissionais? Há diferenças?
Quais são as suas expectativas com relação ao trabalho?
Você fez algum estágio? Onde? Como você conseguiu a vaga? Alguma pessoa
te indicou? Quem? Houve algum tipo de preferência sexual?
Com relação aos professores:
1. Quantos professores e professoras você tem?
2. Você percebe alguma diferença entre a forma de ensinar do professor e da
professora?
3. Você prefere ter aula com professor ou professora? Por quê?
4. Como é a relação entre os professores/professoras e os alunos/alunas?
5. Existe alguma diferença no tratamento dado pelos professores (as) para os
alunos e alunas em sala de aula?
6. Com quem é melhor de se relacionar, com a professora ou professor? Por
quê?
117
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