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UNIVERSIDADE DE PASSO FUNDO
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
Diego Isaia Pignataro
ENY CALÇADOS: UMA EMPRESA FAMILIAR EM
SANTA MARIA (RS)
Passo Fundo, novembro de 2005.
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Diego Isaia Pignataro
ENY CALÇADOS: UMA EMPRESA FAMILIAR EM
SANTA MARIA (RS)
Dissertação apresentada ao Programa de s-Graduação em
História, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da
Universidade de Passo Fundo, como requisito parcial e final para a
obtenção do grau de Mestre em História, sob orientação da Prof. ª
Drª. Eliane Lucia Colussi.
Passo Fundo
2005
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Esta dissertação é dedicada à memória de Salvador Isaia, à
família Isaia, a empresa Eny Calçados e, em particular, a todos os
seus funcionários.
Agradeço primeiramente a Deus e aos meus pais, por todo o
apoio e suporte durante o período que estive em Passo Fundo.
Gostaria de agradecer à família Isaia, e a empresa Eny Calçados
que, ao longo desses anos, proporcionou-me o privilégio de
conviver, “pelos corredores”, com os diretores e funcionários, e de,
muitas vezes, revirar os arquivos de jornais e fotos do acervo da
empresa, atrapalhando o ambiente de trabalho. Obrigado por
cederem este espaço!
Manifesto o meu agradecimento à Universidade de Passo
Fundo e ao PPGH (Programa de s-Graduação em História -
Mestrado em História), por oportunizarem a mim toda estrutura
necessária para o desenvolvimento desta pesquisa. Em particular,
gostaria de agradecer à Profª. Drª. Eliane Lucia Colussi, por todo o
seu empenho em ser a minha orientadora. Graças a sua visão
prática, objetiva, humana e toda a sua experiência como docente,
indicou-me o “melhor caminho” para realizar este trabalho
científico. Aos professores, Astor Antônio Diehl e Ana Luiza
Reckziegel, pelos conselhos e orientações durante a realização do
curso de mestrado.
Expresso meu reconhecimento ainda, ao Centro
Universitário Franciscano, UNIFRA, instituição em que realizei
meus cursos de graduação e de especialização. Devo
agradecimento especial à Ir. Reitora Irani Rupolo e aos professores,
Elisabeth Weber Medeiros e Luiz Augusto Farinatti, por todo o
incentivo, motivação e competência profissional.
Também gostaria de agradecer ao carinho dos meus irmãos,
Joana e André, do meu cunhado Valério e de meus queridos
sobrinhos Jonatas e Carlos Miguel.
Por fim, agradeço a todos os meus amigos, a família Rossi
pelo acolhimento, carinho e compreensão. E ao Movimento de
Schoenstatt, por todas as “correntes de orações”.
Obrigado!
Sempre fui muito observador, enxergo até demais. A
prática de trinta e dois anos como vendedor ensina muita coisa. Por
exemplo, sei o número que a pessoa calça pelo tamanho da mão. Se
a mão for pequena, o é pequeno e assim por diante. No meu
tempo, sabia o número do pé de toda a minha freguesia”.
(Salvador Isaia, indagado por um entrevistador: Qual era o
segredo para vender sapatos? O Império e a vida de Salvador Isaia.
Jornal Novidades. Porto Alegre, 1991).
RESUMO
Este trabalho tem por objetivo principal analisar a evolão histórica de uma
empresa de tipo familiar, a Eny Calçados, situada na cidade de Santa Maria, na região
central do Rio Grande do Sul. Sua origem remonta ao ano de 1924, tendo se mantido em
funcionamento até nossos dias. A empresa familiar passou por todas as fases que, de forma
geral, acompanham este tipo de empreendimento até se tornar referência regional no
comércio de calçados. O trabalho focalizou três aspectos relacionados à trajetória da
empresa. Em primeiro lugar, retratou-se a trajetória da família Isaia, desde a sua
transferência da Itália para o Brasil, em fins do século XIX, passando pela estada em Porto
Alegre até sua fixação definitiva em Santa Maria. Neste parte do trabalho, procurou-se
estabelecer a trajetória de vida da família, especialmente a de Salvador Isaia, peça chave na
constituição da empresa familiar em questão. A seguir, procurou-se estabelecer uma
relação entre o dinamismo urbano-comercial de Santa Maria e a fundação da loja de
calçados que mais tarde deu origem a Eny Caados. Por fim, abordou-se o processo de
consolidação e expansão da empresa, a sua modernização, suas opções de gerenciamento e
o papel de Salvador Isaia nas várias fases da história da empresa.
PALAVRAS CHAVE: Família Isaia, Salvador Isaia, Trajetória Empresarial, História de
Santa Maria.
ABSTRACT
This work aims at analyzing the historical evolution of a familiar company named
Eny Calçados situated in Santa Maria city, in the state of Rio Grande do Sul. This firm was
created in 1924 and still exists. It passed through the usual stages of a familiar company
and has reached leadership at the local market. This research focuses three aspects related
to the history of Eny Calçados. Firstly, it shows the path of Isaia’s family from Italy to
Santa Maria city in Brazil. In this part, it is examined the life history of this family,
specially of the member who was responsible for the development of the company in
charge, Salvador Isaia. Next, it is studied the possible relation between the urban-trade
dynamism of Santa Maria and the beginning of a shoes store that originated Eny Calçados.
Finally, it is analyzed the process of management, consolidation, and modernization of this
firm and the role of Salvador Isaia at them.
KEYWORDS: Isaia’s Family, Salvador Isaia, Corporate History Business, History of
Santa Maria.
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1 – Diretores da Eny na década de 1960: Luiz Gonzaga, Antonio, Carlo,
Guido, Salvador e João Gabriel Isaia.........................................................................
FIGURA 2 – A primeira loja.....................................................................................
FIGURA 3 – A segunda Loja....................................................................................
FIGURA 4 – Edifício Mauá.......................................................................................
FIGURA 5 – Edith e Salvador Isaia no cinqüentenário da loja.................................
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40
45
56
LISTA DE ANEXOS
ANEXO 1 - Entrevista com Carlo Isaia ....................................................................
ANEXO 2 - Entrevista com Luiz Gonzaga Isaia........................................................
ANEXO 3 - Entrevista com Nilton da Rocha Martins...............................................
ANEXO 4 - Entrevista com Antônio Isaia.................................................................
ANEXO 5 - Entrevista com Eduardo Isaia.................................................................
65
72
75
81
85
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO..........................................................................................................
1. A FAMÍLIA ISAIA NO BRASIL: A ORIGEM DA EMPRESA
FAMILIAR.................................................................................................................
1.1 A família Isaia: a chegada no Brasil e a opção pelo comércio ................
1.2 Salvador Isaia: a liderança na empresa familiar......................................
1.3 O homem potico, cultural e fraterno......................................................
2. A EMPRESA E A CIDADE: O SURGIMENTO DA ENY CAADOS E
SUA RELAÇÃO COM SANTA MARIA..................................................................
2.1 A cidade de Santa Maria e sua vocação urbana........................................
2.2 Os primeiros passos da instalação da loja de calçados ...........................
3. ENY CALÇADOS: UM EXEMPLO DE EMPRESA FAMILIAR, SUA
EXPANSÃO E MODERNIZAÇÃO..........................................................................
3.1 A consolidação e expansão da Eny Calçados ..........................................
3.2 Participação dos membros da família na gestão.......................................
3.3 A propaganda e a publicidade...................................................................
3.4 As estratégias de gestão e de expansão da empresa..................................
CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................
ANEXOS ...................................................................................................................
11
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19
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67
INTRODUÇÃO
No ano de dois mil e quatro, uma empresa familiar do setor comercial da cidade de
Santa Maria completou oitenta anos de vida e história. A Eny Calçados é uma empresa
consolidada e de importância destacada na vida comercial e econômica da cidade. A
temática desta dissertação está centrada no estudo desta empresa familiar e sua relação
com a cidade de Santa Maria. Além disso, é objetivo do estudo analisar a trajetória da
família Isaia, proprietária da empresa e que, ao longo do século XX, se projetou
socialmente por meio do enriquecimento viabilizado pelas lojas. Os Isaia, família de
imigrantes italianos que vieram tentar a sorte no Brasil, sofreram as mesmas dificuldades
que a maioria dos setores de baixa renda no país.
Contudo, um conjunto de circunstâncias e de opções, no qual a família se envolveu,
resultou em uma grande mudança na condição social dos seus integrantes. Dessa forma, o
trabalho se baseia teórica e metodologicamente em três conjuntos bibliográficos principais.
Em primeiro plano, a respectiva pesquisa exige que se focalize estudos no campo da
análise de empresas familiares e de história empresarial. Para analisar a trajetória de uma
empresa, suas opções, decies formas de gerenciamento, crises de sucessão, etc, existe um
conjunto de conhecimentos na área de administração de empresas de cunho familiar, tais
como Roger Fritz, Denise Grzybovski, João Bosco Lodi, Willian Furlang, João Carlos
Tedesco.
Entre os aspectos considerados na análise crítica, evidenciou-se a questão da
participação da família na condução dos negócios, especialmente, nas várias fases de
evolução e de aperfeiçoamento da empresa. Na maioria dos depoimentos, ausência de
comentários sobre rivalidades, desavenças e rompimentos. A desconsideração se justifica
pelo objeto do trabalho que são identificar os elementos que comem conjuntura do perfil
da empresa Eny, saber qual é o seu “segredo” de longevidade, e, finalmente, investigar
12
quais foram os meios para se chegar até o patamar comercial que, hoje, a Eny pertence.
Assim, através dos autores pesquisados, buscaremos identificar esses aspectos na empresa.
Para traçar o perfil da Eny, é preciso buscar elementos que a come. Elementos
que destacam a trajetória de oitenta anos de atividade comercial. E, diante disso, verificar a
compatibilidade desses elementos como objeto de estudo.
É necessário observar também, na análise teórica de empresa familiar, como a Eny
Calçados “se comporta”. De que maneira a empresa em questão, mantém esta
longevidade? Qual é o segredo comercial? Em que filosofia empresarial ela se baseia?
E como a Eny é uma empresa familiar, o interesse do trabalho recai no quanto a
empresa absorvecom tal característica. O mesmo interesse é percebido se a sua potica
interna de trabalho se assemelha a de uma empresa familiar ou se seus diretores e
fundadores estão administrando ou administram a empresa com um “caráter familiar”.
E para alcançar tal objetivo, a pesquisa insere sua análise crítica na trajetória
empresarial e na trajetória da família Isaia. Com isso, a problemática do trabalho estenderá
ao ponto de indagação da trajetória empresarial da Eny, sua relação com a cidade de Santa
Maria, evidenciando ou não, se seus diretores estão atentos a esta relação e atentos a
conservarem um perfil empresarial. Veremos também, durante estes oitenta anos de
trajetória comercial, quais foram as mudanças que a Eny incorporou e quais as estratégias
utilizadas para se manter ativa, com êxito ao longo do tempo.
Os aspectos em questão, os quais fizeram recorrer ao auxílio através da visão
bibliográfica, partem do princípio de que a Eny é uma empresa familiar. Poderíamos
questionar também quais os todos e cartilhas adotados durante estes anos? Quais foram
as suas mudanças? Como é seu comportamento diante da mídia, diante das tendências
econômicas, ao marketing, a processos de sucessão?
E com relação ao aspecto teórico, relacionar-se-á com o tema os possíveis paralelos
e comparações com a Eny, quando esta for exposta à análise bibliográfica.
Em qualquer bibliografia em que o assunto em pauta for empresa familiar, a
principal problemática gira em torno das relações humanas entre os componentes do
necio e a sua relação com o cenário familiar. Fritz
1
, na introdução de seu livro, apresenta
os prós e os contras” de lidar no trabalho com familiares. O autor não descarta que o
elemento família surja como grande “empecilho, ou algo a ser descartado no ambiente
empresarial. Mas ressalva que, a empresa deve se precaver de alguns cuidados para que o
1
FRITZ, Roger. Empresa familiar. A sustentação da visão, dos objetivos e da atuação empreendedora. São
Paulo: Makron Editora, 1993.
13
necio não seja dirigido e administrado com consentimento de falhas e pequenos
fracassos por ter elementos representantes da família, tornando-se imune a críticas ou até
mesmo imune perante algum tipo de avaliação de desempenho em um determinado setor
da empresa.
Numa empresa familiar, as regras não diferem, mas as pressões certamente sim.
Quando cometemos erros e se perde dinheiro, é menos penoso saber que o
perdedor é acionista anônimo e sem rosto, do que alguém que seja parente
próximo. É muito mais difícil responder aos membros da família do que a uma
junta de diretores composta de estranhos. É mais fácil confessar o fracasso a
alguém que você o conheça do que alguém que você conhece, ama, respeita e
com quem convive.
2
A autora Denise Grzybovski faz alerta para os seguintes pontos com relação a
empresa familiar:
O contexto da empresa familiar necessita de um administrador, capaz de
adequar a sua empresa com as exincias do mercado, pertencer a uma
atmosfera familiar. O seu papel consiste em evitar a influência desta atmosfera,
para que o negócio passe a ter um rendimento e consiga dar uma resposta
positiva em suas perspectivas empresariais.
O ambiente interno influi e muito, no produto final que será apresentado
externamente no contexto familiar. O administrador, segundo a Grzybovski, deve estar
atento para este fato.
3
Nesse sentido, perspectivas como a de Antônio Padula comentam:
Se consenso de que na fase inicial de criação da empresa a participação
familiar desempenha um papel fundamental no fornecimento do capital inicial e
na produção e comercialização dos produtos/serviços, o mesmo o se pode
dizer do envolvimento familiar nas fases mais adiantadas de crescimento e
maturidade organizacional.
4
Existe uma pequena produção historiográfica no campo da história empresarial no
Brasil e no Rio Grande do Sul. Entre os poucos trabalhos localizados no Rio Grande do
Sul, destaca-se o trabalho de Werlang
5
, que relata, por meio de um estudo de caso, a
2
FRITZ, op. cit., Prefácio XXV.
3
GRYBOVSKY, Denise. O administrador na empresa familiar. Uma abordagem comportamental. Passo
Fundo: Editora UPF, 2002. p. 20.
4
PADULA, Antonio Domingos. Empresa familiar. Porto Alegre: SEBRAE/RS, 1998. p. 08.
5
WERLANG, William. A família Heirich Kaspar Gerdau: um estudo de caso sobre a industrialização no Rio
Grande do Sul. Agudo, RS: Editora Werlang, 2002.
14
trajetória da família Gerdau. O livro revela as primeiras incursões da família no setor
industrial. Além disso, contextualiza esse setor nas colônias no interior de Santo Ângelo,
como também a imigração no Rio Grande do Sul e todas as implicações e problemáticas de
adaptação desta família em seu desenvolvimento industrial.
Nesta perspectiva, outro exemplo é o texto de Ana Lucia Goelzer Meira, que
analisou o processo de transformão da “Casa Schmitt-Presser”, de Novo Hamburgo, em
museu.
Estudos de empresas com caráter familiar ajudaram a compreender e a captar o
ambiente de trabalho a que uma empresa familiar está inserida, além de apontar as
evidências de seu comportamento inicial perante o meio. Desta maneira, é possível
entender e elaborar um “esboço” de seu perfil empresarial.
O interessante é observar juntamente com a trajetória da empresa, os contextos
históricos em que ela se envolve. Os contextos regionais, como a sociedade local,
absorvem ou correspondem à filosofia de trabalho apresentada pela empresa e seus
processos de estruturação para que a mesma seja aceita no mercado.
A Casa Schmitt-Presser, por consenso, deveria ser recuperada em sua função
original a de uma “venda” que referenciasse o primeiro estabelecimento de
Johann Peter Schmitt como ponto de comércio, de veiculação de mercadorias e
de notícias, de contato da região com a capital e com o resto do mundo.
6
A presente dissertação utiliza prioritariamente fontes orais na sua configuração
inicial. Foram realizadas, pelo autor, cinco entrevistas com pessoas ligadas à família e à
empresa e que, na sua maioria, testemunharam a história da Eny Calçados desde seus
primeiros tempos. As entrevistas realizadas estão documentadas, na íntegra, em anexo, no
final da dissertação.
O argumento que as justifica é de que as mesmas possuem um caráter relevante
diante do contexto histórico da respectiva empresa e sua administração de composição
familiar. A maioria dos entrevistados relata, sob seu ponto de vista, aspectos que
consideram essenciais para determinar o sucesso e a longevidade da Eny. Todas as
entrevistas estão documentadas em áudio em posse do autor e com o consentimento dos
entrevistados. A realização das entrevistas ocorreu em recintos domiciliares e no próprio
6
MEIRA, Ana Lúcia Goelzer. Casa Schmitt-Presser: uma experiência participativa. In: FISCHER, Luis
Augusto e GERTZ, René E. Nós, os teuto-gaúchos. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1998. p.
34-37.
15
ambiente de trabalho, ou seja, a própria empresa Eny Caados. É nos conceitos da história
oral que a coleta destas entrevistas possibilitará ao nosso trabalho uma nova visão, uma
perspectiva diferenciada. Porque o trabalho com fontes orais, geralmente inclui e voz
ativa aos excluídos, isto é, proporciona a oportunidade de os indivíduos expressarem fatos
desprendidos das fontes e muitas vezes desapercebidos nos documentos históricos.
7
Então,
o historiador terá de conduzir os entrevistados aos fatos e objetivos que definam com o
auxílio desta fonte.
A história oral seria inovadora primeiramente por seus objetos, pois atenção
especial aos “dominados, aos silenciosos e aos excluídos da história (mulheres,
proletários, marginais, etc.), à história do cotidiano e da vida privada (numa
ótica que é o oposto da tradição francesa da história da vida cotidiana), à
história local e enraizada.
8
Sobre a história oral, é importante que se mencione que ela é uma das alternativas
para estudar a sociedade por meio de uma pesquisa feita com o uso de depoimentos
gravados em aparelhos eletrônicos e transformada em textos escritos. José Carlos Meihy
acredita que:
a presença do passado no presente imediato das pessoas é a razão de ser da
história oral. Nesta medida, ela não oferece uma mudança de conceito de
história, mas, mais do que isso garante sentido social à vida de depoentes e
leitores, que passam a entender a seqüência histórica e se sentem parte do
contexto em que vivem.
9
Ao longo do desenvolvimento da coleta das entrevistas, observou-se situação
semelhante às mencionadas acima. Desta forma, optou-se por anexar, no final deste
trabalho, as entrevistas na íntegra. Acredita-se que muito dos conteúdos e informações
obtidas nas entrevistas não chegaram a ser devidamente explorados. Em relação aos
critérios para a seleção dos entrevistados, optou-se por aqueles nomes que estiveram por
mais tempo ligados diretamente à empresa familiar ou, em menor grau, atuais dirigentes da
Eny Caados. As entrevistas foram elaboradas entre os anos de mil novecentos e noventa
e nove e dois mil e quatro. E os critérios destes depoimentos coletados, estão baseados na
7
Sobre o assunto em questão ver mais em: FÉLIX, Loiva Otero. História e Memória: a problemática da
pesquisa.Passo Fundo: Ediupf, 1998.
8
FRANÇOIS, Etienne. A fecundidade da história oral. Usos e abusos da história oral. Janaína Amada e
Marieta de Moraes Ferreira (coordenadoras). Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1998.
9
MEIHY, José Carlos Sebe. Manual de história oral. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 15.
16
história de vida de cada indivíduo, relacionados com o tema e o objetivo proposto da
pesquisa que é evidenciar o perfil da empresa ao longo de sua trajetória comercial.
Os critérios de seleção para a realização das entrevistas obedeceram a certos
quesitos como as relações familiares e importância dos cargos ocupados pelos
entrevistados. Os indivíduos entrevistados pertencem, ou pertenceram, ao corpo diretivo da
empresa, com o acréscimo da atual gerência geral, além de adicionais participações de
Salvador Isaia, diretor-fundador, que foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento
econômico e comercial da Eny. Sua participação nesta pesquisa dá-se através de
transcrições de entrevistas, reportagens, artigos, discursos, seus próprios comentários, ao
longo de sua vida, disponíveis em jornais da época. Os demais entrevistados cederam os
seus depoimentos de história de vida, contribuindo de maneira espontânea, através de suas
vivências, lembranças e memórias, e colaborando na construção de um novo panorama e
conotação à trajetória da Eny Calçados.
Além disso, a participação destas pessoas na trajetória da empresa se confundiu,
muitas vezes, com a própria história de vida dos depoentes.
Na perspectiva da pesquisa empírica, na qual se pretende utilizar a história de
vida como coleta de dados, é preciso notar logo que o material a ser recolhido
está relacionado, sem dúvida, com os indivíduos que vão compor campo, a ser
investigado, mas igualmente, com a validade, extensão e qualidade dos
testemunhos qualitativos a serem coletados. Não basta um número de indivíduos,
é preciso que este número expresse de maneira diversa, mas inter-relacionada, a
trajetória socioeconômica do grupo social pesquisado, enquanto grupo diferente
de um outro ou escolhido como exemplar.
10
Com relação às fontes utilizadas na pesquisa, podemos destacar: uso de imagens,
reportagens, artigos de jornais, documentos, fontes orais, gravuras, álbuns de família. Todo
este material, com exceção das fontes orais, foram retirados do arquivo interno da Eny.
Todos esses fatores salientam a história oral e evidenciam os seus recursos. Cabe ao
historiador pesquisador, conduzir essa técnica e delimitar o seu campo atuante para obter
um aproveitamento satisfatório. Contudo, a história oral é uma realidade para nós
historiadores e cabe a nós aprimorá-la e reintegrá-la a um objeto de estudo.
10
MARRE, Jacques Léon. História de vida e método biográfico. Cadernos de Sociologia. Porto Alegre, v. 3,
n. 3, p. 89-141, jan./ jul. 1991, p. 89-141.
17
Muitas decisões são tomadas através da comunicação oral, das articulações
pessoais; o número de problemas resolvidos por telefone ou pessoalmente não
pára de crescer. Para suprir essas lacunas documentais, os depoimentos orais
revelam-se de grande valia.
11
Segundo Gwyn Prins, é tarefa vital do historiador que a história oral tradição e
reminiscência, passado e presente com seu detalhe, sua humanidade, sua emoção seja
dirigida com muito ceticismo, assim como todo o empreendimento historiográfico. Sem tal
conhecimento, os historiadores das sociedades modernas, maciçamente alfabetizados e
industriais, ou seja, a maior parte dos historiadores profissionais irão consumir-se em um
poço de compreensão circunscrito por sua própria cultura, como amantes abandonados
colocados sob o círculo de luz tremulante de um poste isolado em uma rua escura e varrida
pelo vento.
12
A partir dos aspectos teóricos e metodológicos apresentados, o trabalho foi dividido
em três capítulos. No primeiro, é focalizada a família Isaia e Salvador Isaia, principal líder
da família na construção da empresa familiar Eny Calçados. Nesta parte do trabalho,
apresenta-se a transferência da família Isaia da Itália para o Brasil no final do século XIX,
as dificuldades da permancia em Porto Alegre e, finalmente, a fixação da família na
cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Em seguida, será traçado um perfil
biográfico de Salvador Isaia, destacando-se os principais momentos da sua trajetória de
vida e os aspectos mais citados da sua personalidade. A ênfase será todo o seu
envolvimento com a Eny Calçados.
O segundo capítulo pretende tratar da relação entre a cidade de Santa Maria e o
período inicial de constituição da futura empresa familiar Eny Calçados. Desta forma,
serão mencionados os principais aspectos da história de Santa Maria, especialmente os
relacionados com a dinâmica urbano-comercial que se consolidou no início do século XX.
Em seguida, o foco passa a ser a experiência dos primeiros anos da fundação da loja de
calçados de Luiz Andrade e a presença da família Isaia em torno do empreendimento.
Por fim, no último capítulo da dissertação, a temática central será a empresa
familiar Eny calçados na fase de consolidação e expansão. Foi a partir da década de 1940
que efetivamente a empresa passou para as mãos da família Isaia. A questão do tipo de
11
FERREIRA, Marieta de Morais. Historia oral: um inventário das diferenças. In: FERREIRA, Marieta de
Morais (org.). Entrevistas: abordagens e usos da história oral. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio
Vargas, 1994. p. 07.
12
PRINS, Gwyn. História Oral. In: BURKE, Peter. (org.). A escrita da história. Novas perspectivas. São
Paulo: Unesp, p. 176-198.
18
empresa, das opções na gestão familiar, a modernização e o papel de Salvador Isaia serão
analisados, especialmente através de depoimentos de personagens ligados à família ou à
direção da empresa.
Perante as inúmeras questões propostas, conduziremos as fontes apresentadas em
direção aos levantamentos sugeridos no decorrer dos capítulos. Lembramos que a proposta
é evidenciar estas mesmas fontes, principalmente os depoimentos orais e coordená-las,
conforme essa intenção. O objetivo principal é determinar alguns elementos que foram ou
que fazem parte do perfil da empresa e qual sua importância. Estes mesmos elementos
influenciarão na trajetória de desenvolvimento comercial, na filosofia da empresa e na
repercussão dentro e fora dos corredores da Eny Calçados.
1. A FAMÍLIA ISAIA NO BRASIL: A ORIGEM DA
EMPRESA FAMILIAR
A origem da empresa familiar Eny Calçados de Santa Maria está vinculada à
trajetória de uma família de imigrantes italianos que vieram para o Brasil no final do
século XIX. Foi a partir deste núcleo familiar que foi possível a constituição de uma
empresa lida e de grande repercussão na vida comercial de Santa Maria. Nesta parte do
trabalho, serão focalizados dois pontos principais: a descrição da chegada da família Isaia
em Porto Alegre até a sua fixação definitiva em Santa Maria; e, segundo, uma ênfase
especial à figura de Salvador Isaia, membro da família que acabou por assumir uma
liderança forte nesta empresa familiar.
Assim, ao analisar a trajetória da família Isaia e os aspectos biográficos de alguns
de seus integrantes, pretende-se não exclusivamente singularizar estas experiências
históricas, mas verificar os aspectos que transformaram a experiência estudada em uma
experiência histórica similar a tantas outras importantes. Desta forma, acredita-se que os
estudos biográficos não devam ter por objetivo a construção de mitos ou heróis e nem
tampouco o enaltecimento de figuras ou grupos individuais. Ao contrário, esse estudo
pretende perceber nas biografias, um pretexto para melhor entender aquele contexto
histórico no qual os Isaia são protagonistas.
1.1 A família Isaia: a chegada no Brasil e a opção pelo comércio
A Eny Calçados identifica-se como empresa familiar. E esta identificação dá-se sob
um contexto familiar. A origem da família Isaia - sua descendência italiana - reflete em
20
alguns aspectos que comem o perfil da empresa e também o valor e o significado do
trabalho. No contexto de imigração italiana, observamos alguns aspectos vinculados a
valores culturais da família Isaia no Brasil.
Quando falamos de imigração italiana, devemos ter em mente que nosso interesse é
buscar alguns traços característicos que constituem o perfil da empresa. Esta afirmação se
no momento em que observamos os elementos que representam a firma e que valores
comuns ele comungavam.
Segundo Azevedo
13
, a imigração italiana surge como uma nova alternativa de repor
a mão-de-obra escrava, que devido à abolição da escravatura, os escravos seriam “livres”
do trabalho forçado, fazendo com que a produção das atividades econômicas dos grandes
centros do país, tais como, a produção do café, progredisse. Adiante, o autor explica que o
processo de imigração italiana, também se alia a um processo de colonização no Rio
Grande do Sul, sendo interesse direto na potica migratória entre o governo da Itália e do
Brasil.
E sobre o desempenho do trabalho realizado pelos imigrantes italianos, o autor cita
um relato de um cônsul inglês, destacando a eficácia da mão-de-obra dos italianos
comparada ao trabalho escravo e as demais etnias
Os italianos excedem em muitos os outros imigrantes e, em verdade, constituem
grande proporção da população do Estado. São mais apropriados do que os
imigrantes de nações mais setentrionais para o trabalho pesado e um sol ardente
e são, além disto, mais industriosos do que qualquer outro trabalhador
estrangeiro que vem ao Brasil. Encontram-se em todas as idades monopolizando
a profissão de sapateiro e competindo com os alemães como alfaiates.
E vemos que na citação, a profissão de sapateiro, entre outras atividades, é um dos
destaques dos italianos no Brasil.
14
E ainda o autor destaca a força do trabalho e esforço do
italiano em prosperar. Isso pode dizer que o imigrante procurava progredir e prosperar no
Brasil, superar o seu passado Itália e fixar-se no país, visando aproveitar a oportunidade de
emprego e de adquirir o seu espaço, através do trabalho e da lida na terra.
Santin
15
aponta que os motivos que levaram os italianos à imigração e a sua
vinda ao Brasil, se deve a alguns fatores: primeiramente ecomicos, pois, tanto o norte
como o sul da Itália estavam com dificuldades em um estado de miséria. O povo passava
13
AZEVEDO, Thales de. Italianos e Gaúchos. Porto Alegre: A nação, 1975. p. 75.
14
Id. ibid., p. 74..
15
SANTIN, Silvino. Dimensão social do trabalho e da propriedade do imigrante italiano na ex-colônia de
Silveira Martins. In: DE BONI, Luis. A presença Italiana no Brasil. Porto Alegre: EST, 1990. v. 2. p. 449.
21
fome. Acrescenta-se ao fato das constantes guerras e as famílias italianas querendo livrar
seus filhos do aliciamento militar.
Outra questão é em relação à propriedade, que segundo o autor, assume uma função
psico-social, sendo a base de todo imigrante que visava prosperar no Brasil. E isto era
muito importante para o imigrante italiano.
A estratégia desta luta feroz fundava-se no trabalho persistente e em uma
economia de guerra. Tudo era feito para se chegar lá. Qualquer sacrifício se
justificava. E isto se tornava compreensível porque a casa e a propriedade eram
o começo seguro.
16
Segundo Maestri, a imigração colonial não visava a substituição do trabalho
escravo ou branqueamento da populão, em sua maioria negra. O autor diz que, mesmo
após o fim do tráfico de escravos, em mil oitocentos e cinqüenta, a atividade perduraria por
mais trinta e oito anos. Além disso, as altas tarifas impostas aos pequenos proprietários de
terra, na Itália, fizeram com que muitos italianos encontrassem na imigração para o Brasil a
solução de seus problemas financeiros. Maestri acrescenta:
Pequenos proprietários deixaram a Itália para fugir de pesados impostos ou após
perderem suas terras para o fisco, para o agiota, para o burguês citadino, para o
grande proprietário. De 1873 a 1881 cerca de 2.000 pequenas propriedades
foram confiscadas por não pagamento de impostos.
17
A história da família Isaia no Brasil começou com a viúva Ângela Benintente Isaia,
acompanhada de seus três filhos, Giuseppe, Caterina e Francisca, quando estes emigraram
para o Rio Grande do Sul em mil oitocentos e noventa e dois, radicando-se em Porto
Alegre. Ângela era natural de Nicosia, Ilha da Sicília, Itália, e nascera em mil oitocentos e
trinta e oito.
Em mil oitocentos e sessenta e um, casou-se em sua terra natal com Isaia Giuseppe.
Cinco anos após o casamento, nasceu o filho primogênito de nome Giuseppe, futuro
patriarca da família Isaia no Brasil. Em mil oitocentos e setenta, nasceu Caterina e, em mil
oitocentos e setenta e cinco, Francisca. Todos os filhos nasceram em Leonforte.
18
16
SANTIN, op. cit., p. 454.
17
MAESTRI, Mario. Os senhores da serra: a colonização italiana do Rio Grande do Sul 1875-1914. 2 ed.
Passo Fundo: EDIUPF, 2001. p. 31.
18
PIGNATARO, Diego Isaia. Casas Eny, um marco no desenvolvimento comercial em Santa Maria. Semina.
Cadernos dos s-Graduandos do Programa de Pós-Graduação em História – Universidade de Passo Fundo.
Passo Fundo. v. 1, n. 3, p. 87-96, 2003. p. 87.
22
O marido de Ângela ausentava-se freqüentemente da família retornando depois de
prolongadas ausências. Numa dessas ocasiões, quando seu filho Giuseppe tinha apenas 14
anos, ele partiu e nunca mais a família soube de seu paradeiro. Então o menino assumiu
boa parte das responsabilidades relativos ao sustento da família. Ele exerceu atividades
como pedreiro e sapateiro. Em mil oitocentos e noventa e dois, a família decidiu emigrar
para o Brasil, procurando melhores condições de sobrevivência. No final deste ano, a
família chegou à cidade de Porto Alegre, destino preferido dos imigrantes italianos
originários da Calábria, da Sicília e das demais regiões do sul da Itália.
19
Depois de instalados em Porto Alegre, Giuseppe, então com vinte e cinco anos de
idade, exerceu as profissões que tinha experncia como pedreiro e sapateiro. Em dois
anos, conseguiu acumular economias em uma pequena poupança. No entanto, adoeceu e
sua família decidiu retornar para a terra natal, em mil oitocentos e noventa e quatro,
utilizando as reservas financeiras acumuladas pelo próprio garoto. Foi naquele momento
que o filho mais velho de Ângela entrou em contato com ramo da fotografia e avaliou:
que, até então, a atividade era pouco conhecida em Porto Alegre e que seria uma
excelente fonte de renda para a família”.
20
19
Em relação à imigração italiana no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre ver: CONSTANTINO, Núncia
Santoro. O italiano da esquina. Porto Alegre: EST, 1991; ou ainda: DE BONI, Luis. A presença italiana no
Brasil. Porto Alegre: EST, 1990. v. 2.
20
PIGNATARO, Diego Isaia. Casas Eny, um marco no desenvolvimento comercial em Santa Maria. Semina.
Cadernos dos s-Graduandos do Programa de Pós-Graduação em História – Universidade de Passo Fundo.
Passo Fundo. v. 1, n. 3, p. 87-96, 2003. p. 89.
23
FIGURA 1 Diretores da Eny na cada de 1960: Luiz Gonzaga, Antonio, Carlo, Guido, Salvador e João
Gabriel Isaia. (Fonte: Arquivo pessoal Guido Isaia)
No ano de mil oitocentos e noventa e cinco, a família retornou à capital do Rio
Grande do Sul, residindo inclusive na mesma casa que moravam antes de partir, na rua
Jerônimo Coelho. Nos anos seguintes, a família dedicou-se à fotografia, permitindo que,
em pouco tempo, eles comprassem uma casa modesta. Giuseppe não abandonara
totalmente a profissão de sapateiro. Contudo, gradativamente, passou a se dedicar
integralmente aos serviços fotográficos. Sua fama de fotógrafo se espalhou por várias
partes de Porto Alegre, especialmente no meio operário.
Na virada para o século XX, por insistência de sua mãe e irmãs, decidiu-se por
residir em Santa Maria. Foi ali que conheceu sua futura esposa Chiara Rivitti, de apenas
dezesseis anos. Giuseppe estava com trinta e três anos, mas a diferença de idade não
impediu que uma forte relação amorosa se desenvolvesse e, em apenas três meses, eles já
estavam casados. Chiara também era nascida na Calábria, tendo sua família imigrada para
o Brasil em mil oitocentos e noventa e cinco, instalando-se primeiramente em Porto
Alegre. Na capital, seu pai Ofrio Riviti abrira um restaurante para operários na então
Praça do Portão.
Mesmo não concordando com a iia de sair de Porto Alegre, Giuseppe cedeu à
vontade da esposa Chiara. Em mil novecentos e doze, transferiram-se definitivamente para
a cidade de Santa Maria, isto após o nascimento dos filhos. Em mil novecentos e quatro,
24
nascera Angelina, a primeira filha do casal; em mil noventos e cinco, José Filho; em mil
novecentos e sete, Francisco Onófrio e, em mil novecentos e nove, Salvador. Em Santa
Maria, a família continuou vivendo dos rendimentos vindos da profissão de fotógrafo que
Giuseppe exerceu até mil novecentos e trinta e três.
Em 1900, enquanto residia em Porto Alegre, Giuseppe adquirira em Santa
Maria, juntamente com o cunhado Caetano Venturella, um enorme terreno na
avenida Rio Branco, onde, na esquina com a rua Silva Jardim, construiu ele
próprio o casarão que, de início, serviu de moradia para a falia do cunhado. O
restante da casa foi ocupado a partir de 1912 pela família de Giuseppe.
21
O nascimento de Assunta, primeira filha do casal Giuseppe e Chiara, nascida em
Santa Maria em dezembro de mil novecentos e doze, continuou a seqüência de oito filhos
da família Isaia, nascidos na cidade: em mil novecentos e quatorze, nasceu João Gabriel;
em mil novecentos e dezesseis, Maria Clara; em mil novecentos e dezoito, Antonio; em mil
novecentos e vinte um, Antonieta; em mil novecentos e vinte e quatro, Carlo; em mil
novecentos e vinte e sete, Luiz Gonzaga e, finalmente, em mil novecentos e vinte e nove,
Terezinha. O casal teve um total de doze filhos. Em Santa Maria, o casal italiano por
nascimento passou a registrar seus nomes em português: José Isaia e Clara Isaia.
1.2 Salvador Isaia: a liderança na empresa familiar
O nome de Salvador Isaia está intimamente ligado ao desenvolvimento comercial
de Santa Maria e por ter estado à frente de uma das lojas de maior sucesso empresarial da
cidade e região. Durante sua trajetória como empresário, recebeu o reconhecimento de
diversas entidades através de homenagens e de prêmios
22
. Para muitos, especialmente
aqueles ligados às relações familiares, a projeção que esta figura construiu também está
ligada a um conjunto de características pessoais, especialmente traços de sua
personalidade, como sua disciplina, caráter e comportamento ético.
21
PIGNATARO, Diego Isaia. Casas Eny, um marco no desenvolvimento comercial em Santa Maria. Semina.
Cadernos dos Pós-Graduandos do Programa de Pós-Graduação em História Universidade de Passo Fundo.
Passo Fundo. v. 1, n. 3, p. 87-96, 2003. p. 89.
22
No arquivo da empresa consta uma pasta exclusivamente de notícias veiculadas em jornais do Rio Grande
do Sul sobre a loja e seus dirigentes. Entre os artigos selecionados aparece os seguintes títulos: Salvador Isaia
recebe prêmio - lojista do ano. Jornal O Exclusivo, Novo Hamburgo, 20 jun. 1979. p. 26; Prêmio Nacional à
Salvador Isaia. Jornal O Expresso, Santa Maria, 03 jul. 1979. p. 3; Salvador Isaia: Lojista do ano. Jornal A
Razão. 28 jan. 1985 à 03 fev. 1985. capa e p. 3; Destaque de 1986. Jornal A Razão. Editoria: Indústria e
Comércio. 16 jul. 1986. p. 03 - 15.
25
Neste sentido, é importante elucidar a concepção que serviu de base para a
construção da trajetória de vida de Salvador Isaia. Entende-se que uma trajetória de vida é
sempre “relativa a um sujeito único, a uma trajetória singularizada de vida. Sem vida,
essa história pode ser mais ou menos profunda. Isso é devido ao sujeito, à história pessoal,
à sua trajetória, aos conteúdos adquiridos no contexto social e familiar, etc”.
23
Dessa
forma, os aspectos biográficos aqui apresentados e analisados, refletem muito desse
aspecto singular. Contudo, o se pode perder de vista que Salvador teve origem num
determinado grupo socioeconômico, étnico-cultural e social. Ao longo de sua vida,
ascendeu socialmente e passou a circular em espaços de sociabilidade da elite regional.
Assim, ao focalizar esse personagem deve-se ter em mente que ele é representativo de um
grupo ao qual pertenceu no passado ou durante sua trajetória de vida.
Uma primeira informação sobre o nosso personagem é oferecida por ele próprio,
quando, em entrevista concedida, afirmou: “sou um filho de italiano. Nasci em Porto
Alegre, em dois de julho de mil novecentos e nove, mas fui para Santa Maria com dois
anos”
24
. Salvador Isaia está ligado ao comércio calçadista desde os quinze anos de idade,
quando Luiz Andrade decidiu concretizar seu sonho de fundar uma loja no setor.
Em entrevista concedida, Salvador se autodescreve nos seguintes termos:
Há 25 anos, no dia da abertura da loja fundada pelo saudoso Luiz Andrade, havia
um funcionário para atender no balcão, executar a limpeza e fazer recados,
quando o proprietário o exigia. Era eu. Não posso esquecer a nossa primeira
jornada de trabalho, quando naquela longínqua data de sete de outubro,
encerramos à noitinha, à férrea da casa que acusava nove cruzeiros e trinta
centavos! De certa maneira, foi um dia festivo, pois na verdade, como balconista,
sem nenhuma prática, eu não esperava tanto dinheiro. No segundo dia, a caixa
fechou a noitinha, sem nenhum tostão vendido! Desânimo total. Mas, mesmo
como simples empregado, fiz para mim mesmo a promessa de outro dia amargo
como aquele não se repetiria.
25
O menino cursava na época o quinto ano primário e prestava orientação à Diocese
de Santa Maria. Esse trabalho, a propósito, viria a consagrá-lo como Cavaleiro da Ordem
de São Silvestre pelo Papa Pio XII, cinqüenta anos depois. Seu empenho foi tamanho que
23 MARRE, Jacques on. História de vida e método biográfico. Cadernos de Sociologia. Porto Alegre, v. 3,
n. 3, p. 89-141, jan./ jul. 1991, p. 89-141. p. 132.
24 O IMPÉRIO E A VIDA DE SALVADOR ISAIA. Jornal Novidades. Porto Alegre. maio 1991. capa e p.
08.
25
Este trecho foi retirado de uma entrevista realizada em 1939, aonde Salvador Isaia concedeu seu
depoimento, em comemoração ao jubileu de prata da empresa. Quinze anos depois, o entrevistador publica
alguns trechos desta exclusiva. Ver em: Tradição e Comércio. Jornal A Razão, Santa Maria, 07 out. 1964. p.
02.
26
chegou de funciorio a diretor da empresa em mil novecentos e trinta e nove
26
. Desde mil
novecentos e trinta e sete, Salvador Isaia cultivava o bito de visitar bricas, fazer e
acompanhar pedidos, conversar com fabricantes, descobrir os grandes negócios. Sua
conversa era sobre sapato, sobre coisas de sapato, sobre gente que faz e gosta de fazer
sapato. Porém, gostava também, e muito, de arte e de cultivar rosas finas em estufas.
Salvador Isaia casou-se com Edith Cechella, em mil novecentos e trinta e dois
27
,
tendo tido sete filhos. São eles: Yolanda, Salvador Jr, Guido, Suzana, Geraldo, Inês e
Rafael
. Destes sete filhos, dois deles trabalham atualmente na empresa. Guido Isaia,
ingressou em mil novecentos e cinqüenta e oito, como contador. Hoje ele é um dos
diretores da loja, responsável pelo departamento financeiro da Eny Calçados. Seu filho,
Guido Jr., também trabalha na empresa no setor administrativo. O outro filho de Salvador,
que está na empresa desde mil novecentos e setenta e um, é Rafael Isaia. Formado em
administração pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em mil novecentos e
setenta e cinco e atualmente é um dos Diretores da Eny Caados.
Com relação à personalidade de Salvador, Rafael Isaia (dois mil e um), afirma que
Salvador, seu pai, sempre foi introvertido. Ele gostava de receber prêmios, mas não de
comparecer ao evento.
Segundo Luiz Gonzaga, irmão de Salvador:
Ele sempre ajudou. E eram pedidos feitos para ele. E ele se sensibilizava. Ele
tinha ideais filantrópicos. Então, ele fez isso com os funcionários também.
Quando um deles casava, ou ganhava um filho, ele se comovia e dava um
aumento. Ele tinha esta
sensibilidade.
28
1.3 O homem político, cultural e fraterno
Em termos de posicionamento político, não evidências que Salvador Isaia tenha
pretendido alçar cargos públicos. No entanto, por meio dos depoimentos colhidos, é
26
No final da década de 30, Luis Andrade, caixeiro viajante, fundador da Eny, afasta-se aos poucos da
empresa, por motivo de doença e sr. Andrade observando que, cada vez mais a figura de Salvador Isaia e o
seu interesse para o negócio aumentava decidiu entrar em sociedade, com seu primeiro funcionário. A partir
de então, Salvador coma a assumir o controle da Eny Calçados e também se responsabiliza pelas compras
de mercadorias. Durante o final da década de 30 e início da década de 40, Salvador Isaia negocia com
Andrade, as transações e as parcelas referentes a compra do negócio a favor de Salvador. E a partir disso,
Salvador Isaia, torna-se o novo diretor majoritário da Eny.
27
Ver em Casata Cecchella: Cechella: descendência de Luigi Cecchella e Maria Luyiza Link/Organizadores
Luiz Fernando Cechella...[et. al.]- Santa Maria: Palotti, 2004. p. 121.
28
Depoimento de Luiz Gonzaga Isaia. Anexo 2.
27
possível traçar um perfil das principais idéias defendidas por Salvador. Em reportagem do
jornal A Razão, a respeito da vocação que Santa Maria tem pelo cinema, revela
29
: “mas o
movimento de cinema da cidade não é recente”. De acordo com o professor universitário
aposentado, Luiz Carlos Grassi, desde o início do século passado, eram realizadas
produções Santa Maria tem vocação para o cinema, bastante tempodiz. Segundo
ele, por volta dos anos trinta e quarenta, algumas pessoas produziram vídeos amadores.
Salvador Isaia foi um dos pioneiros”.
Beber menciona o nome de Salvador Isaia por sua característica empreendedora de
fundar a TV Imembuy, juntamente com mais algumas autoridades
locais.
30
Derli Vargas, jornalista local, compara Salvador e sua característica empreendedora
com a do Barão de Mauá, cuja alcunha nomeia uma de suas lojas. O autor descreve
Salvador com as seguintes características:
De personalidade quase ingnita, o gostava de aparecer. Preferia ficar
trabalhando pelos outros no anonimato. Quando o Coladinho passou para
primeira divisão e precisava aumentar as arquibancadas foi apelar para seu
Salvador eestavam mais de 30 mil tijolos.
31
Vargas descreve ainda, as incursões de Salvador Isaia, através de suas colaborações
e incentivos a eventos e atividades culturais e filantrópicas, bem como a Fundação da TV
Imembuy, diretor de rádio, Vila Itagiba, Cidade dos Meninos.
Seu irmão, Carlo, afirmou que, quando criança, Salvador era muito religioso e
estudioso. Estudava no colégio São Luiz, dos irmãos Maristas e ajudava, nas horas vagas,
como auxiliar de professor, o que lhe rendia até um pequeno ordenado, ajudando nas
despesas de casa. Além disso:
Trabalhava também na tipografia do ginásio. E isso é de família. Mas o que ele
gostava é da União dos Moços Católicos onde ele participava e, além disso, era
ligado ao teatro, através da União, e olha, era um bom ator. Mas isto quando era
solteiro, depois com a loja e o casamento, guardou esses dons para as reuniões
familiares.
32
29
Uma Cidade com vocação para o cinema. Jornal A Razão.Santa Maria. 14 e 15 maio 2004. Capa.
30
BEBER, Cirilo Costa. Santa Maria. 200 anos de história do município de Santa Maria. Palotti, 1998. p.
127.
31
VARGAS, J. Derli. Gente daqui: histórias e estórias da nossa gente. Santa Maria. Editora: Palotti, 2003. p.
93.
32
Depoimento de Carlo Isaia. Anexo 1.
28
A referência em relação à atuação na União dos Moços Católicos é reveladora de
um conjunto de princípios que certamente nortearam sua trajetória pessoal e empresarial.
Antonio Isaia confere um destaque especial a amizade de Salvador com o padre
Caetano. Em mil novecentos e trinta e sete, Pe. Caetano saiu da paróquia, da Catedral,
onde permanecera por trinta e sete anos, e passou a dirigir a paróquia das Dores. O padre
foi o responsável pela construção de ambas as igrejas nas quais atuou. Então o Salvador
começou a ter uma maior amizade com os padres da paróquia da catedral. No meio
religioso, a nossa família era muito calica, as minhas irmãs mais velhas eram Filhas de
Maria. As Filhas de Maria’, vinham, então, comprar nas Casas Eny, onde trabalhava ‘Os
Isaias’. a família Isaia teve um certo prestígio e hoje está maior. Até o calçadão tem o
nome: Salvador Isaia
33
”.
De acordo com Carlo Isaia, Salvador Isaia era simpatizante da Ação Integralista
Brasileira. Ele teria sido muito influenciado por Mussoi, cunhado de um de seus iros,
João Gabriel
34
.
Para Nilton da Rocha Martins, um dos mais antigos funcionários da empresa,
Salvador Isaia delineou em sua vida dois diferentes perfis de personalidade: profissional,
pessoal e humano. De acordo com ele, as personalidades eram bem distintas e definidas.
O que era profissional, o que era para ser feito, assim, para o bem da empresa,
ele não tinha limite. E como ser humano - quantas vezes presenciei. Ele jamais
deixava de dar uma mão para gente, não. Ele deixou uma grande lição. E eu falo
muito sobre o exemplo que ele deixou, sendo o “exemplo” dos exemplos. Tu
não podes ser preguiçoso e dizer para todos serem trabalhadores. Tu não podes
dizer para os outros: sejam honestos se tu não fores. É inadmissível. E o
funcionário que chega atrasado, eu digo: “Boa Tarde!” Até eu! Se eu me atraso
uns minutos, eu digo a mim mesmo e aos outros: Boa Tarde! Este era o exemplo
do Sr. Salvador. E te digo faz 10 anos que ele faleceu, mas parece que ele está
sempre aqui. É impressionante. A gente, ao se lembrar, nos dá ânimo.
35
Conforme o funciorio Nilton da Rocha Martins, dentre as qualidades mais
importante a serem destacadas da fase em que Salvador Isaia esteve à frente da empresa
estão a honestidade, o trabalho, e a vontade de medir esforços para que as coisas
acontecessem da melhor maneira possível. Questionado sobre mudanças na empresa
depois da morte de seu Salvador, ele respondeu:
33
Depoimento de Antonio Isaia. Anexo 4.
34
Depoimento de Carlo Isaia. Anexo 1. Carlo Isaia acrescenta que o ideário integralista que Salvador Isaia
compartilhava era decorrente a valorização do aspecto nacional, e o caráter moral que o movimento exercia
perante a sociedade da época.
35
Depoimento de Nilton da Rocha Martins. Anexo 3.
29
Antes (Sr. Salvador), a Eny não aceitava cheque comum, foi colocado o cheque
pré-datado, foi colocado o cartão Eny e isso alavancou a nossa vida, nós
estávamos dando de “bandeja”, os clientes para a concorrência. Mas a filosofia
continua, claro que mudamos com as novas aquisições e coisas mais sofisticadas.
Mas continua a mesma, e o contato com a família do Sr. Salvador foi de um
ambiente familiar. Meu contato maior o Guido, Rafael, Eduardo, um
prolongamento da loja, mas sempre fomos fiéis, respeitosos, com todos,
inclusive com os filhos do Sr. Salvador que não estão na loja
36
.
Eduardo Isaia, um dos atuais dirigentes da empresa define com precisão uma das
principais qualidades de Salvador, a qual foi fundamental para a existência da Eny
calçados. De acordo com o sucessor,
“Nos negócios, ele tinha uma negociação envolvente. Ele tinha uma amizade
com os fornecedores e aí todos os fornecedores se deram bem. Salvador era uma
pessoa muita aberta, muito franca e honesta. E até hoje é considerada, e graças a
isso, uma empresa séria, uma empresa honesta. É uma raridade em nosso meio.
Hoje é comum, empresa não certo. A negociação é muito boa, ele era um
negociador impressionante”
37
.
O que temos descrito, através destes depoimentos sobre Salvador Isaia, apresenta-o
sob duas maneiras e aspectos distintos: o homem no comércio familiar e seu cotidiano, o
homem no cenário profissional atuante como empreendedor.
Sendo estas duas maneiras de caracterizá-lo, seria simplório, mas opto por elas, a
fim de estruturar um perfil de Salvador Isaia, através destes depoimentos de “cenários
diferentes”.
E para que o esboço da figura de Salvador Isaia apareça, é necessário observar suas
ações, nos pequenos exemplos em destaque (na pág. 27). Ali se destaca o seu gosto e
empreendedorismo pela arte, o cinema e também, de certa forma, a união familiar.
Segundo, a destacar também, sua preocupação com a sociedade e o comércio social. Em
meio ao episódio das “arquibancadas do coloradinho”, seu interesse em contribuir a um
grupo mais específico - um time de futebol local, e também um grande negócio. Além de
ajudar a construir a estrutura da arquibancada, Salvador indiretamente solidifica a imagem
da empresa com esse gesto. Porque de fato, a ação é partida do homem, mas quem, por fim
leva a fama é a empresa.
Destaquei ainda, sua participação, em eventos e atividades culturais e filantrópicas.
Bem devemos ter em mente que Salvador, poderia contribuir nestas atividades, através
36
Depoimento de Nilton da Rocha Martins. Anexo 3.
37
Depoimento de Eduardo Isaia. Anexo 5.
30
de um sucesso comercial estável de sua empresa. Caso contrário, certos atos não poderiam
ser realizados. Mas destaca estas ações vindas da figura de Salvador Isaia, como resposta a
esse sucesso comercial. Seria a maneira que ele encontrou de contribuir com o crescimento
da cidade e que ajudou a fundar e a desenvolver a Eny Caados.
E adiante, incluirei os demais depoimentos que relatam e justificam tais ações.
Ações que no futuro irão determinar o sucesso da Eny. Sendo que estas decisões serão
passadas anteriormente pelas pessoas de Salvador, e ela será o “veredicto das futuras
decisões da empresa.
Os relatos dizem que Salvador Isaia, tanto em ambiente familiar como profissional,
procurava ser justo e atento com as decisões e o que se poderia fazer. A cada passo que era
decidido, era realizado. E isto conta muito para a empresa e para a família. O cuidado e a
atenção de prosperar era em ambos os aspectos.
2. A EMPRESA E A CIDADE: O SURGIMENTO DA ENY
CALÇADOS E SUA RELAÇÃO COM SANTA MARIA
Quando a Eny Calçados iniciou suas atividades comerciais, a cidade de Santa
Maria possuía um perfil comercial. Embora, muito rudimentar se compararmos com o
que vemos atualmente. Santa Maria no início do século XX era caracterizada por ser uma
cidade com grande fluxo de pessoas. Este fato baseia-se no número de indivíduos que
vinham visitar ou pernoitar em Santa Maria, procedentes de várias regiões do Estado,
chegando nesta localidade pela via férrea.
Através deste crescente fluxo de pessoas, o comércio passou a explorar este aspecto
e a atrair os visitantes ou viajantes.
Inicialmente, o monopólio comercial de Santa Maria era essencialmente germânico,
desenvolvendo-se a partir de mil oitocentos e trinta até mil e novecentos, com a chegada
dos imigrantes italianos, seguidos um pouco mais tarde pelos judeus e libaneses, sem
contar com os povos de origem portuguesa. Esses fixaram aqui seus estabelecimentos
comerciais de pequeno porte, geralmente em sua maioria, armazéns de secos e molhados,
casas de comércio, ferragens, pensões, etc. Mas, como disse, a partir da introdução da
malha ferroviária, Santa Maria transforma sua postura comercial, tornando-se assim, mais
ampla, mais competitiva e emancipatória em relação a outras cidades interioranas. E com
respeito ao setor calçadista e cremos também, que da mesma forma que a cidade se
desenvolve, a população existente em Santa Maria acompanha esta evolução “puxada”, ou
encabeçada”, pela viação férrea e pelo fluxo de população circulante na cidade.
32
2.1 A cidade de Santa Maria e sua vocação urbana
Um fator que contribuiu para o desenvolvimento urbano e comercial de Santa
Maria nas primeiras décadas do século XX foram as poticas blicas implementadas
pelas administrações municipais. A partir da administração do intendente Manoel Ribas,
foram executadas obras em termos de pavimentação das principais ruas e saneamento
básico. Além disso, a arquitetura de sobrados passou a ser predominante, em detrimento a
apenas um pavimento.
A história da ocupação e povoamento de Santa Maria teve início oficial quando,
por determinação do governador Sebasto Xavier da mara, a 2ª subdivisão, comandada
por Coronel Francisco João Roscio, partiu de Santo Ângelo em direção ao Arroio dos
Ferreiros. Neste ponto considerado central, tal subdivisão teve de escolher, dentro de um
raio de duas a três léguas, um sítio apropriado para seu acampamento. E o local escolhido
então foi a colina, onde hoje é a cidade de Santa Maria.
Em novembro de mil setecentos e noventa e sete, a expedição chegou ao ponto
referido, fazendo surgir, do seio da floresta virgem, a povoação de Santa Maria, que anos
mais tarde passou a se chamar Boca do Monte, apêndice que mais tarde lhe foi
adicionado. A 2ª subdivisão permaneceu no local por muito tempo, a fim de concluir os
trabalhos de gabinete, relativos à demarcação. Essa foi procedida imediatamente, logo
foram dadas ordens para a derrubada da floresta no cimo do outeiro, levantando-se em
seguida o quartel para a tropa, o escririo para a comissão técnica, os ranchos para os
oficiais e a indispensável Capela, em obediência a vontade soberana decorrente do espírito
religioso da época. No começo de Outubro de mil oitocentos e um, a caravana com destino
a Porto Alegre, deixou de ser um acampamento da subdivisão Demarcadora de Limites
para se tornar efetivamente um povoado.
As primeiras ruas delinearam-se em razão do trânsito diário dos trabalhadores. Elas
tiveram os seguintes nomes: Rua Pacífica, que descia a colina em direção ao Passo da
Areia, onde hoje é a Dr. Bozano, e que fora, por muitos anos a Rua do Comércio; e Rua
São Paulo, onde estavam localizados o quartel, o escritório da comissão técnica e alguns
ranchos confortáveis de moradia de famílias de oficiais. Essa, logo após a retirada da
partida de Demarcação, foi nomeada de Rua Do Acampamento.
38
38
BELÉM, João. História do município de Santa Maria, 1797 - 1933. Santa Maria: Edições UFSM, 1989.
33
De mil oitocentos e um a mil oitocentos e três, Santa Maria recebeu um grande
contingente de índios. Cerca de cinqüenta famílias de Guaranis vieram das Missões
orientais e ergueram seus ranchos em um descampado, que era chamado de aldeia. O lugar
localiza-se onde hoje é a Av. Presidente Vargas, a qual já foi denominada de Rua Ipiranga.
Santa Maria da Boca do Monte era parte integrante de Cachoeira e sua população
estava computada em oito mil duzentos e vinte e cinco almas. Neste número Santa Maria
contribuía com cerca de oitocentas almas.
39
Santa Maria, em mil oitocentos e trinta e cinco, marca vertiginoso progresso. Seu
comércio e indústria pastoril desenvolviam-se, prodigiosamente. nesta época, a
população era calculada em duas mil, duzentas e noventa almas. A partir da lei provincial
n. seis, de dezessete de novembro de mil oitocentos e trinta e sete, foi criada a freguesia de
Santa Maria da Boca do Monte. Dessa forma, o curato passou a ser Paróquia. Isso significa
que deixava de ser capela Curata, filial da Matriz de Cachoeira, para ser também Matriz.
Pela lei provincial de nº quatrocentos, de dezesseis de dezembro de mil oitocentos e
cinqüenta e sete, a freguesia de Santa Maria da Boca do Monte foi elevada à categoria de
vila, sendo em que, dezessete de maio de mil oitocentos e cinqüenta e oito, passa a ser o
novo município.
40
O município de Santa Maria assistiu, nas primeiras décadas do século XX, a um
rápido crescimento populacional e urbano. Em termos quantitativos, a população era a
seguinte:
1890 25. 207 habitantes
1900 30. 185 habitantes
1920 52. 7000 habitantes
1940 75. 597 habitantes
1950 83.001 habitantes
Fonte: FUNDAÇÃO de Economia e Estatística. De Província de São Pedro a estado do Rio Grande
do Sul. Censos do RS: 1803-1950. Porto Alegre. 1986. p. 89-256.
Na década de mil novecentos e vinte, Santa Maria era caracterizada por ter uma
posição geográfica favorável. Situada na região central do Estado do Rio Grande do Sul,
este fato delinearia o rumo de seu desenvolvimento, principalmente o setor comercial.
39
BELÉM, op. cit.
40
Idem.
34
Faziam parte do município de Santa Maria: Santa Maria, Distrito, São Pedro, Silveira
Martins, Pains, São Martinho, Boca do Monte Estação Colônia.
Cusano refere-se à Santa Maria como uma das cidades que possui posição
topográfica invejável. Além disso, a cidade possui nove estações ferroviárias. Tais
características a transformam em parada obrigatória para quem vem das regiões norte, sul
e fronteira do estado, e ainda, para quem destina-se a Santa Catarina e São Paulo. O
viajante prevê um grande potencial comercial para esta região a partir desses traços e
acrescenta:
A cidade de Santa Maria está situada pitorescamente sobre um dorso de um
morro, a 187 m do nível do mar no seu ponto mais alto, e 126 no mais baixo e
oferece aspecto agradabilíssimo nas suas amplas ruas, nas suas grandes praças,
nos seus belos edifícios, dando uma impressão até mesmo majestosa a grande
Avenida Rio Branco, que mede 44m de largura e é graciosamente arborizada e
luxuosamente iluminada por luminárias elétricas.
41
Edmundo Cardoso, em seu estudo sobre a história de Santa Maria, realizou um
minucioso levantamento sobre as empresas comerciais e industriais instaladas na cidade,
no ano de mil novecentos e vinte quatro. O panorama era o seguinte: 07 casas de
armarinho, 11 hotéis (afora dezenas de pensões e hospedarias), 22 agências comerciais, 01
agência de leilão, 04 ateliês fotográficos, 30 barbearias, 04 bilhares, 02 barracas de couro,
05 casas de Bric-Brac, 08 botequins, 04 joalheiras, 02 chapelarias, 05 farcias, 02 casas
funerárias, 03 confeitarias, 06 casas de vendas de frutas, 07 depósitos de móveis, 18
depósitos de produtos e materiais de construção, 03 cigarrarias, 02 cinemas, 02 floristas, 09
casas de calçados, 04 engraxatarias, 07 ferrovias, 10 fábricas de móveis, 02 fábricas de
fumo e cigarro, 01 fábrica de calçados, 06 funilarias, 07 fábricas de torrar e moer café, 01
casa de loteria, 02 fábricas de sabão e velas, 02 fábricas de caramelos, 02 fábricas de
massas alimentícias, 05 fábricas de malas e colchões, 02 livrarias e papelarias, 02 fábricas
de água gasosa, 03 mensageiras, 08 modistas, 03 oficinas mecânicas, 10 padarias, 02 casas
de ferragens, 10 restaurantes, 02 tamancarias, 04 tipografias, 09 sapatarias (remendões) e
188 casas comerciais de fazendas e molhados e outros pequenos negócios dificilmente
classificáveis
42
. Na década de trinta, Beltrão menciona em sua obra
43
, a expectativa da
cidade diante dos fatos remetidos durante a Revolução de 30. Segundo o autor, um
41
CUSANO, A. In: Il Paese dell’ Avvenire Rio Grande del Sud. Roma: Editrice LítaloSudamericana, 1920,
122 p. Fragmento traduzido por Severo Francisco Ilha Neto. p. 122.
42
CARDOSO, Edmundo. Uma loja, uma vida. Santa Maria: Rainha, 1974. p. 6.
43
BELTRÃO, Romeu. Cronologia histórica de Santa Maria e do extinto município de São Martinho.
Canoas: Editora La Salle, 1979. p. 547.
35
episódio ocorrido no dia três de outubro na Praça Saldanha Marinho, onde encontrava
repleto de revolucionários disfarçados e curiosos, que aguardavam a prisão do General. O
General em questão era Fernando Medeiros, que ao ver-se cercado, por escolta militar, se
entrega e é preso, levado para o quartel da brigada. O autor ainda menciona a adesão dos
batalhões da artilharia em prol da revolução em Santa Maria.
Já no final da década de 30, Santa Maria era sinônimo de progresso. Com suas ruas
modernas, casas comerciais e o crescente fluxo de visitantes “agitava” o panorama da
cidade. Com relação a este fato, encontramos no Guia Ilustrado Comercial, Industrial e
Profissional de Santa Maria,datado de mil novecentos e trinta e oito, características desse
panorama:
44
Uma das características principais de Santa Maria, que a põem em destacado
relevo no conceito das demais cidades do interior rio-grandense é sem dúvida o
seu extraordinário movimento, devoto não à atividade sempre crescente de
seu comércio e de sua indústria, como também pelo grande número de trens que
diariamente chegam e saiam da cidade, mantendo-a em contato direto com as
zonas da fronteira, serra, e litoral. É digno de nota também, alem dos
passageiros, o movimento de mercadorias e correspondência que transitam por
este centro ferroviário, a fim de serem remetidos a vários pontos do Estado.As
ruas da cidade acham-se sempre muito animadas dando-lhe um aspecto alegre e
pitoresco.Seu movimento social e intelectual é também intensíssimo, animando-
nos a declarar que depois da Capital do Estado, Santa Maria está destinada a ser
a cidade mais importante do Rio Grande do Sul.
Em mil novecentos e quarenta, havia 144 estabelecimentos industriais, com um
total de 1370 funcionários. o comércio varejista contava com 459 estabelecimentos
comerciais, 1060 trabalhadores envolvidos e 289 viajantes, caixeiros e vendedores. O
comércio atacadista tinha 35 estabelecimentos, 119 funciorios e sete caixeiros-
viajantes.
45
Com a expansão acontecendo em Santa Maria, o aumento das atividades e a
ampliação de novos centros comerciais resultariam na crescente evolução comercial da
cidade.
No final da década de quarenta, Santa Maria apresenta um novo panorama
comercial. Segundo Padoin, o setor comercial nas décadas anteriores foi beneficiado pela
44
Santa Maria: relatos e impressões de viagem [orgs.] José Newton Cardoso Marchiori, Valter Antônio Noal
Filho. Santa Maria: Editora da UFSM, 1997. p. 232.
45
FUNDAÇÃO de Economia e Estatística. De Província de São Pedro a estado do Rio Grande do Sul.
Censos do RS: 1803-1950. Porto Alegre. 1986. p. 256.
36
Viação Férrea, pois, os visitantes, por razões circunstanciais, paravam ou pernoitavam na
cidade. Por esta razão, as casas comerciais e os centros hoteleiros eram beneficiados.
46
A partir da década de cinenta, o comércio local passa a ter “força independente”.
Segundo a autora, o incentivo do Governo Federal para a indústria automobilística
priorizava as ferrovias, juntamente com a intensificação da política das importações. Isto
beneficiava os estados do centro do país e outros estados como, por exemplo, o Rio Grande
do Sul, desenvolvendo papel significativo e influenciando o gradativo processo de
desenvolvimento comercial em Santa Maria.
2.2 Os primeiros passos da instalação da loja de calçados
As lojas Eny e a família Isaia estão ligadas às atividades comerciais de Santa Maria
desde a década de mil novecentos e vinte. Num ambiente pouco favorável à instalação de
novos negócios, em fuão de efeitos da Primeira Guerra Mundial, surgiu a idéia de uma
loja de caados masculinos e infantis. Naquele momento, a cidade de Santa Maria contava
com 22 mil habitantes, distribuídos em três mil casas. É Importante destacar que a cidade
estava situada numa confluência de linhas férreas vindas de diversos pontos do estado:
fronteira, serra gaúcha e região norte. O potencial gerado por esta circulação foi
fundamental para o desenvolvimento do setor comercial-urbano da cidade. O núcleo
central mais dinâmico do setor se estendeu ao longo da Avenida Rio Branco e da Rua do
Comércio
47
. Era ali, em torno da ferrovia que se concentrava o fluxo de pessoas que
passavam pela cidade e pernoitavam ali.
nas primeiras décadas do século XX, o setor calçadista revelava um grande
potencial no âmbito comercial. Já estavam instaladas nove lojas especializadas na venda de
calçados.
46
PADOIN, Maria Medianeira. A CACISM e o seu papel empreendedor: inovação e/ou afirmação da
atividade comercial. 1991. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 1991,
p. 35.
47
Local conhecido atualmente como “Calçadão”, situado na área central da cidade.
37
Três eram de maior projeção - a Fábrica São Paulo, cujos sapatos eram
comercializados em Porto alegre e em São Paulo e vendidos também por
representante (em geral para o público feminino); a Casa Elegante, que vendia
calçados fabricados em São Paulo e no Rio de Janeiro (...) e a Casa Royal, da
firma Beltrão & Cia.
48
(PIGNATARO, 2003, p. 90)
A loja que daria origem a Calçados Eny teve início com Luiz Andrade, um modesto
caixeiro-viajante, que decidiu, em mil novecentos e vinte e quatro, montar um pequeno
necio de calçados dirigido exclusivamente ao público masculino. Conseguiu reunir um
patrimônio razoável para iniciar o negócio, obtendo um empréstimo de quinze contos de
is do seu sogro. Andrade manteve por alguns anos a sua profissão de caixeiro viajante,
pois, assim, garantia a estabilidade financeira do início da pequena empresa. A modesta
loja de caados masculinos situava-se na Rua Silva Jardim, a trinta metros da esquina com
a Avenida Rio Branco. Para que continuasse viajando, como representante de calçados,
teve necessidade de contratar um funciorio que fosse de sua confiança.
Em razão de laços de amizade e de serem vizinhos, foi-lhe indicado como
funciorio o nome de um dos filhos de José Isaia. Inicialmente, teria sido o mais velho,
mas JoIsaia propôs-lhe o nome de outro de seus filhos, Salvador, que na época tinha
apenas quatorze anos e era estudante no Colégio o Luiz. Inúmeras qualidades foram
mencionadas para explicar por que Luiz Andrade aceitou Salvador. Luiz Gonzaga Isaia,
em seu depoimento, relata outra versão em relação a Salvador e a este momento em
particular:
Lembro sim, mas vagamente. Ele sempre foi muito respeitoso, e tinha uma
particular amizade com o meu pai. E desde pequeno, ele foi muito aplicado, tanto
que, quando ele completou o curso primário do Colégio São Luiz, ele tirou o
primeiro lugar. Foi fazer o ginásio de graça. E naquela de ir pro ginásio, o Sr.
Andrade, foi buscar um dos filhos do Sr. José Isaia. E o José, ofereceu o mais
velho. Mas o Sr. Andrade simpatizou com Salvador, por ser mais “jeitosinho”,
mais “bonitinho”, e escolheu o Salvador.
49
Após uma longa conversa entre Andrade e José Isaia foi feito o contrato verbal,
apenas selado por aperto de mãos, o qual determinaria o futuro do menino juntamente ao
da loja. O ponto escolhido para a instalação da loja, na rua Silva Jardim, distanciava-se do
fluxo comercial mais dinâmico de Santa Maria. Ao ser questionado sobre o período inicial
da loja, em mil novecentos e vinte e quatro, Carlo Isaia deu o seguinte depoimento: “a loja
48
PIGNATARO, Diego Isaia. Casas Eny, um marco no desenvolvimento comercial em Santa Maria. Semina.
Cadernos dos Pós-Graduandos do Programa de Pós-Graduação em História Universidade de Passo Fundo.
Passo Fundo. v. 1, n. 3, p. 87-96, 2003.
49
Depoimento de Luiz Gonzaga Isaia. Anexo 2.
38
começou na [rua] Silva Jardim, bem em frente à residência do Sr. Andrade. Bom, quando
eu nasci, em abril, e a loja em outubro, com isso, segundo meu pai, eu era ‘mais uma boca
na família’, e para aumentar o orçamento, o pai negociou a nossa casa”.
50
O novo estabelecimento compunha-se de uma sala pequena e escura, com acesso à
rua por uma única porta ao lado de uma vitrine. Nos primeiros anos de funcionamento a
loja permanecia aberta ao público das sete horas da manhã até às vinte e duas horas. É
interessante analisar os relatos nos depoimentos orais sobre o primeiro dia de
funcionamento da loja. O próprio Salvador narrou sua experiência, a partir de aspectos
relativos a sua completa inexperiência como funcionário. Mencionou que ele mesmo
confeccionou as prateleiras da loja, utilizando a madeira das embalagens das primeiras
remessas de calçado que chegaram. Também relatou que ouvira do proprietário Andrade:
“Agora é contigo, fique aqui e lembre-se daquilo que te ensinei. Se precisares de troco, tu
sabes, a minha casa fica aí em frente; mais tarde eu volto”.
51
Edmundo Cardoso relatou outro momento:
Com isso, Salvador ficou ali na expectativa do primeiro freguês que surgiu por
volta das oito horas da manhã; seu nome era Etelvino Cardoso. Durante a manhã,
seu Etelvino se dirigia sempre ao Bairro Itararé, como de costume passava
sempre pela avenida Rio Branco e subitamente ao dobrar a esquina notou aquela
casinha grifada ‘calçados’ e resolveu mudar o seu rumo e enxergar com seus
próprios olhos ao que estava se passando. Ao entrar na loja, deparou-se com
Salvador expressando em seu rosto uma ansiedade tremenda e vivacidade de
comerciante nato pela profissão se dirigiu ao freguês (...) Me de algo barato que
eu te compro como o teu primeiro freguês, pra te dar sorte no negócio.
52
Ele efetivamente comprou um par de alpargatas, o produto mais barato na loja. O
primeiro dia de vendas foi encerrado às vinte e duas horas, horário normal de
funcionamento na época. O total de vendas daquele dia teria sido algo em torno de dois mil
e quinhentos réis, obtidos obviamente, da venda de um par de alpargatas. O segundo dia,
para desespero do jovem funcionário, não registrou venda alguma. Dessa forma, o terceiro
se iniciara numa situação de expectativa. Porém, uma grave situação resultou no fato de
a única venda realizada ter sido devolvida. Tratava-se de um par de botas, adquiridas com
dinheiro que havia sido fruto de roubo.
53
50
Depoimento de Carlo Isaia. Anexo 1.
51
CARDOSO, Edmundo. Uma loja, uma vida. Santa Maria, Rainha, 1974. p. 15.
52
CARDOSO, Edmundo. Uma loja, uma vida. Santa Maria, Rainha, 1974. p. 15.
53
CARDOSO, Edmundo. Uma loja, uma vida. Santa Maria, Rainha, 1974. p. 15.
39
O menino salvador estava muito desanimado em razão do insucesso inicial da
loja, pois, novamente, no segundo dia não apareceu ninguém para comprar um
único par de sapatos. Somente no outro dia, à tarde, chegaram à loja dois homens
que pediram um par de botinas para cada um. O jovem Isaia foi rapidamente à
prateleira mais próxima e trouxe dois pares de botinas 41, recebendo o respectivo
pagamento. Algumas horas depois, a Brigada Militar entrou na loja e perguntou
se tais homens haviam comprado algo na loja. Salvador admitiu que sim, e logo
veio a frustração maior: as botinas haviam sido compradas com dinheiro roubado
em um assalto, de modo que o menino teve de devolver o que havia recebido,
enquanto a Brigada lhe devolvia os pares de botinas.
54
Independentemente das dificuldades dos primeiros dias de existência da loja, em
seguida ela foi se estabelecendo e tornando-se conhecida na cidade. É consensual entre os
depoimentos colhidos que, na sua origem, a loja comercializava mercadorias destinadas a
segmentos da sociedade de menor poder aquisitivo. Conforme Carlo Isaia:
existiam outras lojas, a Casa Paulista, a Casa Royal, outra loja, a Casa Elegante.
E nós aqui. E no centro, a freguesia era outra. Nós começamos como uma loja
bem popular, visando mais os ferroviários. A firma tornou-se sólida, pelos
ferroviários. A gente deve muito a eles.
55
54
PIGNATARO, Diego Isaia. Casas Eny, um marco no desenvolvimento comercial em Santa Maria. Semina.
Cadernos dos Pós-Graduandos do Programa de Pós-Graduação em História Universidade de Passo Fundo.
Passo Fundo. v. 1, n. 3, p. 87-96, 2003. p. 91.
55
Depoimento de Carlo Isaia. Anexo 1.
40
FIGURA 2 – A primeira loja. Foto tirada em 1925.
Fonte: Arquivo pessoal Guido Isaia.
Novamente Carlo Isaia, no seu depoimento, menciona aspectos que fizeram parte
da sua memória dos primeiros tempos da loja. Em relação à compra de sapatos, ele afirma
que, quando começou a trabalhar na empresa em mil novecentos e quarenta e um, Salvador
Isaia era o responsável pela compra de mercadorias.
Mas, no início, quem comprava era o Sr. Andrade. Naquela época, a loja só
comprava sapatos masculinos e usava-se muito sapato de verniz. Então, Sr.
Andrade comprou mil pares de sapatos de um fabricante, que era amigo dele
(que foi mais para agradar). Então: negócios X negócios, amigos à parte! Mas ele
fez amizade com este fabricante, e ocorreu esse pedido enorme. E quando ele
(Andrade) chegou na loja, Salvador escabelou-se. Como é que eu vou vender
tudo isto? teria dito ele.
56
56
Depoimento de Carlo Isaia. Anexo 1.
41
O faturamento do primeiro ano em que a loja funcionou foi de num montante de
24.817$400 (24 contos, 817 mil is e 400 centavos). Esse lucro foi suficiente para que o
proprietário adquirisse uma casa na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Silva
Jardim, onde a empresa passou a funcionar a partir de dois de julho de mil novecentos e
vinte e cinco. A nova loja oferecia maior conforto e espaço para colocar as pilhas de caixas
de sapato e possibilitava um pequeno estoque de mercadorias.
FIGURA 3 – A segunda Loja. Foto tirada em 1927.
Fonte: Arquivo pessoal Guido Isaia.
Somente em mil novecentos e vinte e sete, houve a inclusão de um setor de
calçados femininos na loja. A primeira marca comercializada no setor de calçados
femininos foi a “Eny”. Era fabricada pela empresa de Propício Cunha Fontoura, de Porto
Alegre, e considerada a mais requintada do Rio Grande do Sul naquele período. Em mil
novecentos e vinte e sete, a loja ainda mantinha em sua fachada o nome “Calçados”, ao
passo que as demais casas comerciais ostentavam algum nome forte, que representava com
maior ênfase a identidade da empresa. Salvador Isaia, ainda funcionário, sugeriu ao seu
chefe que esse escolhesse um nome para a loja. O proprietário optou pela denominação
Eny”. Salvador não gostou da idéia e argumentou com o patrão sugerindo que um nome
melhor, como Casas Andrade”, pois identificaria o proprietário e também o
estabelecimento. Seus argumentos não foram ouvidos e o nome “Eny” prevaleceu. Cabe
salientar, como foi mencionado anteriormente, que esse nome era de uma das mais
famosas marcas de calçados femininos fabricados na época. Segundo os depoimentos
42
colhidos neste trabalho, o senhor Andrade acreditava que este era um nome bonito, curto e
fácil para as pessoas memorizarem.
57
Foi na década de mil novecentos e trinta que ocorreu o processo de consolidação da
empresa, passou a ser conhecida em boa parte do estado. A difusão do slogan “Casas Eny,
a mais barateira, foi se firmando, chegando a ser a filosofia da empresa, pois foi mantida
a meta de “vender barato para vender muito”, como uma estratégia central da empresa ao
longo dos anos.
Naquele período, muitos comerciantes vinham da fronteira e arredores, para
comprar calçados na casas Eny e revendê-los em suas cidades, ainda com preços muito
bons. Em mil novecentos e trinta e dois, a Casa Eny abriu sua primeira filial no térreo do
edifício da União dos Caixeiros e Viajantes (SUCV), na Avenida Rio Branco com a praça
Saldanha Marinho, onde permaneceu até mil novecentos e quarenta.
58
Concomitante a expansão das lojas, ocorreu um redirecionamento em termos de
publicidade e na construção da imagem da loja. Salvador Isaia acreditava que o novo
contexto pós-revoluciorio ampliava o mercado consumidor de Santa Maria visivelmente.
Para ele, o fim da Revolução de mil novecentos e trinta trouxe um bom número de
militares para morar na cidade. Com isso, trouxeram seus costumes de estarem bem
vestidos e sempre elegantes. Isso teria resultado num aumento no volume de sapatos para
homens e mulheres, como também influenciou a sociedade santamariense a ter maior
requinte e luxo nos calçados da época.
59
Quando, em mil novecentos e trinta e dois, a Casa Eny abriu a primeira filial no
edifício dos Caixeiros e Viajantes, Salvador Isaia já havia se tornado sócio da empresa e
detinha em torno de 30% das ações e do faturamento ao lado do seu sócio Andrade. A boa
localização da filial foi muito favorável à loja, em razão do grande fluxo de pessoas que
por ali passavam para se dirigir à estação ferroviária ou para a rua do comércio. Na época,
juntamente com a Avenida Rio Branco, o local era ponto comercial mais forte do centro de
Santa Maria, destacando-se nela as casas comerciais e os artigos para o vestuário
masculino e feminino. Nessa época, houve aumento do número de funcionários na
empresa.
57
PIGNATARO, Diego Isaia. Casas Eny, um marco no desenvolvimento comercial em Santa Maria. Semina.
Cadernos dos Pós-Graduandos do Programa de Pós-Graduação em História Universidade de Passo Fundo.
Passo Fundo. v. 1, n. 3, p. 87-96, 2003. p. 92.
58
Idem.
59
Id. Ibid., p. 88.
43
A potica de vendas da Casas Eny levou Salvador Isaia e seus irmãos, João Gabriel
e Antônio, a estabelecerem novos instrumentos de publicidade da loja, objetivando atingir
o a cidade, mas também outras regiões do Rio Grande do Sul. Panfletos das ofertas da
semana eram divulgados pela cidade, sendo colocados em estabelecimentos comerciais,
hotéis, cafés, cabarés, bares, padarias, armazéns; e principalmente nos trens , que passavam
pela cidade rumo à capital e a regiões da fronteira do estado.
Esta política quase agressiva de propaganda justificava-se pela grande concorrência
que havia no setor comercial da cidade de Santa Maria. Entre os anos de mil novecentos e
trinta e cinco a mil novecentos e quarenta, período no qual Salvador Isaia esteve na
gerência, foi consolidada a marca e a imagem da loja na região. A maioria das cidades
vizinhas encomendava e comprava os produtos das lojas Eny. Em muitos momentos, os
compradores inclusive vinham de estados como o Paulo, Santa Catarina e Paraná.
No contexto do final dos anos trinta, Salvador decidiu também que, além de obter
calçados a pros baixos, ele deveria adquirir calçados de melhor qualidade e que também
fossem modernos e confortáveis. A solução encontrada foi a de negociar com os próprios
fabricantes de calçados do estado e de fora, tornando as Casas Eny uma empresa
empreendedora e moderna. Foi no ano de mil novecentos e trinta e nove que Salvador Isaia
assumiu a direção da Casa Eny. No contexto conturbado dos anos trinta, a política na
cidade de Santa Maria acompanhava as repercussões da revolução de trinta. Porém, para os
Isaia, se processava a construção de uma das maiores empresas familiares da cidade. Na
loja, os maiores fabricantes de calçados do país ocupavam espaço. O mais importante é que
a empresa deixou de ser uma loja de consumo quase exclusivo dos ferroviários, para
vender a setores mais amplos da sociedade santamariense.
3. ENY CALÇADOS: UM EXEMPLO DE EMPRESA
FAMILIAR, SUA EXPANSÃO E MODERNIZAÇÃO
Ao longo da sua trajetória, o processo de consolidação e expansão da empresa
Calçados Eny teve a marca da manutenção e características de uma empresa familiar. A
configuração como uma empresa familiar se concretizou a partir da década de mil
novecentos e quarenta, quando se consolidaram os principais elementos que a
caracterizavam como tal. Para muitos autores, uma empresa é considerada familiar quando:
o capital social pertencer a um ou a vários membros da mesma família; no nimo, um
membro da família estiver na direção da empresa ou quando existir uma influência
recíproca entre as características e os eventos familiares e empresariais.
60
No caso da empresa familiar Calçados Eny, dos doze filhos de Giuseppe Isaia,
cinco se envolveram diretamente na condução da empresa, Antônio, Carlo, João Gabriel e
Luiz Gonzaga, sob o comando do irmão e futuro líder empreendedor, Salvador Isaia. Eles
construíram uma lida empresa na cidade de Santa Maria, detendo o capital social
coletivamente e se expandindo para outras cidades da região sul.
3.1 A consolidação e expansão da Eny Calçados
Em primeiro de fevereiro de mil novecentos e quarenta e um, morreu o Sr. Luiz
Andrade. Antes da morte do fundador, Salvador Isaia já havia comprado a empresa e
transferido à loja matriz para o térreo do Edifício Cauduro, na Rua Venâncio Aires com o
atual túnel. A matriz permaneceu ali até sua transferência para a Galeria do Comércio,
especializando-se em calçados para homens. Em mil novecentos e quarenta e dois,
60
SANTOS, Paulo Domingos Chaves dos. Cultura, poder e conflito nas organizações familiares. Campo
Grande, MS: Ed. UNIFERP, 2004. p. 14.
45
continuando o crescimento da empresa, foi comprada a loja Sueli, situada na Avenida Rio
Branco a cerca de uns trinta metros da loja matriz. Carlo Isaia descreve a estrutura da
empresa, da seguinte, forma:
Quando eu entrei, em 1941, existia um bom número de funcionários, sim.
Tínhamos no mínimo 7 a 8 vendedores aqui na esquina. E na Drogacentro, ali
como era mais central, o Annio, meu irmão, era o gerente. Na loja lá de baixo
(Mauá), que também ajudava, a freguesia daquela loja era de ferroviários. Era
mais de 50% de ferroviários. Eu acho que as Casas Eny, graças aos ferroviários
teve uma boa base. Então, quando os ferrovrios recebiam, iam sempre na loja.
E eu e meu irmão, João Gabriel chamávamos para limpar que ficava forrada de
envelopes, e isso ficou na minha memória.
61
A liderança de Salvador na direção da empresa foi entendida pelos irmãos como
natural. A construção de um líder no modelo de empresa familiar é sempre complexa.
Segundo Denize Grzybovski
62
, o fato de a empresa familiar conter variáveis mais afetivas
(lealdade e dedicação à família, concepção de continuidade das idéias do fundador, apego
ao passado) do que racionais (adaptação estratégica frente aos paradigmas impostos pela
nova ordem mundial) leva empresários familiares a apresentarem características muitas
vezes autocráticas.
Nesta parte do trabalho, será abordado o processo de crescimento da empresa assim
como as opções administrativas e racionalizantes que marcaram sua trajetória. Sendo
assim, daremos ênfase às características adquiridas ao longo dos oitenta anos, focalizando
questões como: a opção quanto ao nível de participação de membros da família na gestão
da empresa as estratégias de gestão e de expansão da empresa além de sua postura perante
a mídia e propaganda
63
. Neste ponto é importante visualizar de que maneira aquilo que os
depoimentos orais revelam como a “filosofia empresarial” é operacionalizado nas decisões
e ações da empresa e de seus dirigentes.
O processo de crescimento foi contínuo em termos de mudanças e abertura de
novas lojas, segmentadas por público de interesse. De um fluxo de vendas na ordem de 275
mil unidades/ano durante a década de 60, a Eny chega, no início dos anos 90, a um milhão
e 247 mil unidades/ano, número estável até hoje. O resultado que repercute diretamente,
61
Depoimento de Carlo Isaia. Anexo 1.
62
GRZYBOVSKI, Denize. O administrador na empresa familiar. Uma abordagem comportamental. Passo
Fundo: Editora universitária/UPF, 2002. p. 99-100.
63
Sobre a importância da comunicação e da mídia em empresas familiares ver o estudo de D’AMICO, Ana
Lucia. Comunicação e poder na empresa familiar. 2004. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) -
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004.
46
o no aumento de empregos e na movimentação dos fabricantes, mas também no
repasse de impostos ao setor público.
Em mil novecentos e quarenta e cinco deu-se início as obras do Edifício Mauá,
inaugurado em mil novecentos e cinqüenta. Como toda sua obra, Salvador Isaia fez do
Edifício Mauá um marco para a engenharia da cidade. Entre as inovações estava o
elevador, que existia no Edifício da SUCV. Na inauguração da loja Mauá, Salvador
Isaia homenageia a Sra. Regina Cardoso, viúva do primeiro cliente das Casas Eny,
Etelvino Cardoso.
O processo de consolidação da empresa familiar aconteceu em mil novecentos e
sessenta e dois, quando em termos de formatação jurídica e razão social, a empresa foi
modificada. Em 20 de julho de mil novecentos e sessenta e dois, a empresa Salvador Isaia
Irmãos & Cia Ltda. passou a se chamar “Casas Eny S.A. Comércio de Calçados”, passando
por diferentes denominações, até chegar, em 26 de julho de mil novecentos e noventa e
seis, ao nome definitivo de “Eny Corcio de Calçados Ltda”.
FIGURA 4 – Edifício Mauá. Foto tirada em 1974.
Fonte: Arquivo pessoal do autor.
47
Em mil novecentos e sessenta e dois, com muita comemoração, Salvador Isaia
inaugurou o majestoso Edifício da Galeria do Comércio, situado entre as Ruas Venâncio
Aires e Dr. Bozano, onde, no térreo, instalou-se a nova loja feminina.
Em março de mil novecentos e setenta, a empresa inaugurou mais duas novas lojas
na Galeria do Comércio, uma de artigos masculinos e outra de artigos infantis. Naquele
momento, a empresa já contava com três lojas na Galeria do Comércio, somando mais de
1.200 m de área neste local. “Por um dia, a cidade de Santa Maria (RS) transformou-se na
capital brasileira do calçado, no último dia de sete de outubro. Isto porque, lá era festejado
o cinqüentenário das organizações Casas Eny S. A, com ampla e intensa programação que
reuniu fabricantes do Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro”.
64
Em abril de mil novecentos e setenta e nove, as Casas Eny inauguram mais duas
lojas, a Eny Boutique e a Eny Esportes. Neste mesmo ano, a empresa Eny recebeu rios
prêmios, entre eles Destaque Comércio”, e Salvador Isaia recebeu o “Prêmio de
Comerciante do Anoe o “Prêmio Atualizado”, este durante a XI Francal, numa enquete
realizada entre dez mil pessoas de todo país.
Para comemorar o 60º aniversário, os dirigentes das Casas Eny inauguram, no dia
onze de outubro de mil novecentos e oitenta e quatro, a sua sétima loja, a Eny Infanto-
Juvenil. O prédio da nova loja, localizado na rua Dr. Bozano, 1129, antigo Cine Imperial,
possui 3.795 m, distribuídos em quatro andares. Em trinta e um de março de mil
novecentos e noventa e dois, o Sr.Salvador Isaia falece, aos oitenta e dois anos. Em vinte e
sete de junho de mil novecentos e noventa e quatro, é inaugurada a nova loja Eny Esportes
no calçadão. A nova loja foi uma espécie de comemoração dos setenta anos da empresa.
Em vinte e quatro de março de mil novecentos e noventa e quatro foi inaugurada mais
uma loja no Monet Shopping. Uma loja moderna que vende produtos referentes a todas as
outras lojas. No dia vinte e um de setembro de mil novecentos e noventa e sete a Eny
inaugurou sua primeira filial fora de Santa Maria, na cidade de Santa Cruz do Sul. Houve
ainda a inauguração de mais uma loja no Monet Shopping, a Eny-Pró, que vende artigos
esportivos. Em dois mil e dois, a Eny inaugura uma nova filial, desta vez em Porto Alegre.
Em dois mil e quatro, a Eny completa oitenta anos de vida comercial.
64
ENY festejou 50 anos e Santa Maria foi a capital do calçado por um dia. Jornal Exclusivo, Novo
Hamburgo, 21, out. 1974. p. 05-07.
48
3.2 Participação dos membros da família na gestão
A decisão, quanto ao nível de participação de membros da família na gestão da
empresa é influenciada pelas motivações que levaram o empreendedor a criar seu próprio
necio. Segundo Antonio Domingos Padula, no caso dos empresários que associam suas
motivações à sua realização profissional ou ao exercício de poder, deixarão a
administração da empresa a cargo de profissionais não pertencentes à família.
65
No caso da
empresa familiar Eny calçados, a escolha inicial foi de outra natureza já que, “as
motivações estiveram mais ligadas ao desejo de crescer e fazer prosperar seu próprio
necio”. Por isso, a opção foi mais favorável ao processo de delegação/descentralização
da gestão empresarial sob o controle do fundador da empresa.
A aproximação da família Isaia com a loja de caados de Luiz Andrade ocorreu
praticamente desde o processo inicial de constituição da empresa. Segundo Antonio Isaia, a
entrada dos irmãos se deu da seguinte forma:
Em 1927, o João Gabriel havia, saído do Colégio São Luiz. Ele fez o primário
somente. E ele ficou de empregado. O João ganhava um salário. Mas em 1925, e
1926 ele trabalhava com Salvador, nos períodos em que não havia aula. E eu
também, mesmo pequeno, nas férias eu trabalhava, fazendo serviço pequeno.
Eram três meses, no final desse período o Sr. Andrade dava-me um calçado. Era
uma época de economia. Todo mundo guardava o seu “dinheirinho”. Em casa a
família muito grande. O dinheiro que meu pai ganhava como fotógrafo e também
como funcionário do ministério da agricultura. Meu pai era agente
metereológico. O dinheiro que o Salvador ganhava, ajudava. Mas era pra
comida. Quem é pobre, quer lutar para sair da pobreza.
66
O depoimento de Carlo Isaia, em relação a sua inserção no trabalho da loja de
calçados, é o seguinte:
Em 1941, logo depois do término do ginásio, ingressei na loja como vendedor,
ali na Drogacentro (localizado na Rua Av. Rio Branco, esquina com a Rua
Venâncio Aires) até 1943, atuando no balcão. E a firma comprou a casa Suely,
aonde hoje se encontra uma loja de 1,99 que era na época pertencente a João
Aita. Então, Salvador incumbiu-me como gerente desta loja. que, tinha tanto
saldo, na metade do ano, e ele (Salvador) falou para mim: “Enquanto tu não
venderes “todos” os sapatos aqui, tu não poderás obter nenhum calçado da loja.
A “firma” tinha razão! E naquele ano, eu tinha 8% de lucro e era um pavor; e o
que tinha lá dentro eram muitas alpargatas (quinhentas dúzias de alpargatas).
67
65
PADULA, Antonio Domingos. Empresa familiar. Porto Alegre: SEBRAE/RS, 1998.
66
Depoimento de Antonio Isaia. Anexo
67
Depoimento de Carlo Isaia. Anexo 1.
49
No depoimento acima, Carlo Isaia aponta características importantes na
configuração da empresa familiar dos Isaia. O responsável por sua posição de gerente na
nova loja, casa Sueli, foi Salvador Isaia. O mais importante é que também foi ele quem
impôs os procedimentos que deveriam ser desenvolvidos pelo gerente. A penalidade que
Carlo estaria submetido, seo vendesse todo o saldo, revela o tipo de liderança de
Salvador. Novamente é Denize Grzybovski quem contribui para esclarecer situações como
esta. Para a autora, é o conjunto de características de personalidade do der que ajuda a
criar um determinado estilo empresarial, caracterizado pela configuração de uma espécie
de escudo protetor. Esse estilo privilegia o grupo familiar em detrimento da capacidade
individual: é a experiência do líder acima da técnica e do conhecimento técnico.
68
Ainda sobre o mesmo tema, Carlo, depois de mencionar a penalidade anunciada por
Salvador Isaia caso não esvaziasse o estoque, afirma que: “A firma tinha razão!”. A
aceitação por este membro da família da autoridade do der da empresa revela que, na
maioria das vezes, um sistema de prêmios e castigos influenciam na produtividade e no
relacionamento entre os dirigentes da empresa familiar.
Situação semelhante foi vivida por Luiz Gonzaga Isaia, irmão mais moço de
Salvador. Em seu depoimento sobre a empresa e a liderança de Salvador, evidenciam-se
lembranças não muito positivas. Segundo Paulo Domingos Santos, no transcurso da
existência da empresa, muitas vezes, razões objetivas, empresariais, sentimentos pessoais e
familiares misturam-se, provocando dificuldades tanto na empresa, como na família. Daí
surgem conflitos internos, na fase de desenvolvimento, quando o sucessor deve tomar
conhecimento dos negócios da empresa.
69
O depoimento de Luiz Gonzaga Isaia representa,
mesmo que sutilmente, a existência de tal situação no seio da família e da empresa. Sobre
Salvador Isaia, ele comentou:
68
GRZYBOVSKI, Denize. O administrador na empresa familiar. Uma abordagem comportamental. Passo
Fundo: Editora universitária/ UPF, 2002. p. 102.
69
SANTOS, Paulo Domingos Chaves dos. Cultura, poder e conflito nas organizações familiares. Campo
Grande, MS: Ed. UNIFERP, 2004.
50
Tinha um nio muito forte e teve problemas de saúde. Com isso, também,
muito nervoso, e tudo isso somado, a responsabilidade da presidência da
empresa. E por isso que ele passou as obras, sob minha responsabilidade. Quem
vendeu todos os apartamentos fui eu, sozinho. Depois teve um camaradaque
vendeu 1 ou 2 apartamentos. E não ganhei nada com isso. E o meu salário é
“desse tamanhinho”. E quando a coisa (prédio) ficou feita, eu saí. Teu avô não se
preocupou muito comigo. E essa coisa aconteceu. Depois, eu fui para
Universidade, e recebi este apartamento e o comprei. Se fosse pela comissão da
época, no nimo ficaria com quatro apartamentos. Tivemos uma vida apertada,
em todo caso, isso nós tivemos que fazer com suor, não foi vida fácil.
70
João Gabriel, irmão de Salvador Isaia, deslocava-se do balcão do pequeno
estabelecimento, nos três primeiros anos, para os vilarejos mais longínquos da cidade, a
fim de oferecer calçados e detectar as preferências e objeções das pessoas dentro de seus
próprios ambientes e em total descontração.
Em relação às mudanças ocorridas após a morte de Salvador Isaia, Nilton Martins
faz a seguinte análise:
Mudou a participação. Hoje, não o gerente, mas os funcionários são
consultados sobre o produto, ou quando estamos conversando com algum
vendedor. Porque isso gera um comprometimento, de que ele (funcionário)
opinou sobre aquilo. No passado não era assim. Outra coisa que mudou muito foi
o treinamento. Hoje existe treinamento mais permanente do que aquela época.
Porque naquele tempo, era uma “graça” comprar na Eny. Eu chegava aqui de
manhã abria-se a porta e entravam 140 pessoas. E o cliente tinha que dar “graças
a Deus” para ser atendido. Hoje não é mais assim. Hoje temos treinamento
teórico, sobre o material e participando de tudo. O vitrinista tem a possibilidade
de montar a vitrine para o Natal e ser aprovado. E naquele tempo era “tudo vinha
de cima”, era a cultura e a gente esperava por isso.
71
3.3 A propaganda e a publicidade
Desde os primórdios de instalão da loja de calçados, foi difundido o slogan que
acabou por ser a marca da loja por muitas décadas: “Casas Eny, as mais barateiras”. Nas
primeiras décadas, a maior parte da publicidade era realizada pelos próprios funcionários
de forma amadora. Conforme Carlo Isaia:
70
Depoimento de Luiz Gonzaga Isaia. Anexo 2.
71
Depoimento de Nilton da Rocha Martins. Anexo 3.
51
Fazíamos propaganda (cartazes) em muros, e prédios. O meu irmão, João
Gabriel era o encarregado e eu ajudava. Com ele, sim, a propaganda era feita. E
ele aproveitava-se da amizade que tinha com os ferroviários e com isso faziam
com que os mesmos sentissem-se à vontade. Então todos iam procurar o seu
João, se não estivesse lá, a frustração tomava conta.
72
Independente do conhecimento que os gestores e funcionários das lojas tinham
sobre as teorias mercadológicas, é histórica na empresa a consciência de que a
implementação de estratégias e instrumentos de comunicação e publicidade eram
fundamentais à sobrevivência, credibilidade e consolidação daquele empreendimento. Na
primeira loja, em mil novecentos e vinte e quatro, houve apenas uma sinalização externa
lateral que indicava o ramo de negócio, “Calçados”, sem nem mesmo um nome comercial
definido. Porém, imediatamente depois, houve a definição pelo nome “Eny”, e a instalação
do primeiro luminoso em gás néon da cidade.
Assim, a questão da comunicação e da publicidade foi uma preocupação
permanente ao longo da história da empresa. Por exemplo, já em mil novecentos e trinta, a
empresa utilizava a prática pioneira de pintar muros e fachadas laterais de grandes
prédios, prática até então restrita a estabelecimentos farmacêuticos em Santa Maria.
73
Antonio Isaia, questionado sobre a propaganda no período inicial da empresa,
informou sobre questões reveladoras das concepções que permeavam a administração da
empresa. Em suas palavras:
E aquilo foi tornando-se um elo, e a melhor propaganda no comércio é aquela
que o cliente faz para outro. Antigamente a propaganda maior era feita de boca a
boca, pois o existia a televisão. E como o meu pai era muito católico, ligado
com as coisas da igreja, ele tinha a Conferência de São Vicente, que ajudava os
pobres. Então o Padre Caetano, que era padrinho do meu irmão João Gabriel,
fazia propaganda. Resultado: Padre Caetano pediu no seminário, aos
seminaristas para comprarem na Eny e começaram a comprar.
74
É ainda Antonio Isaia quem esclarece mais detalhes sobre como a propaganda era
realizada e que estratégias eram adotadas para a conquista de clientes:
72
Depoimento de Carlo Isaia. Anexo 1.
73
Sobre a questão da importância da comunicação em empresas familiares ver: D’AMICO, Ana Lucia.
Comunicação e poder na empresa familiar. 2004. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) -
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004.
74
Depoimento de Antonio Isaia. Anexo 4.
52
E o comércio na avenida, o Sr Andrade, colocava a gente pra colocar
propaganda nos muros, havia muitos terrenos baldios. E quando a loja abriu,
tínhamos 23 mil habitantes. E os ferroviários compravam suas coisas nas
cooperativas. O Sr. Andrade ofereceu uma proposta à cooperativa, porque nela,
havia calçado, mas quando os ferroviários não encontrassem o calçados eles
iriam a Eny, que a própria Cooperativa cobria os valores. E isso ajudou a nossa
clientela diante dos ferroviários. Por outro lado, Santa Maria, sempre foi um
centro militar, nós colocávamos panfletos perto dos quartéis. Sempre o nosso
slogan era: “As mais Barateiras”, a política da loja era sempre vender a vista,
mais barato.
75
Na década de mil novecentos e quarenta, a necessidade de ampliação nas vendas
impulsionou Salvador Isaia e seus irmãos, João Gabriel e Antônio, a estabelecerem uma
nova potica de propaganda e publicidade. O objetivo principal da propaganda era o de
atingir não a cidade de Santa Maria, mas também outras regiões do Rio Grande do Sul.
Passou-se a confeccionar semanalmente panfletos com as ofertas, os quais eram
distribuídos por vários pontos da cidade: estabelecimentos comerciais, hotéis, cafés,
cabarés, bares, padarias, armazéns e, principalmente, na viação rrea. Os panfletos de
ofertas eram distribuídos nos trens que passavam pela cidade rumo à capital e às regiões da
fronteira do estado.
A propaganda inicial da Eny era recorrer aos grupos que atendiam ao interesse
imaginado de seu proprietário. Lembramos que, em seus primeiros anos, a Eny era uma
loja que atendia essencialmente ao público ferroviário. E, mais específico, aos homens que
trabalhavam na rede ferroviária. A Eny ainda disputava esta freguesia não apenas com as
outras casas comerciais, mas também com as bodegas e os armazéns de secos e molhados.
O público feminino veio um pouco mais tarde porque a demanda de estoque teria
de ser maior e apresentar mais qualidade. Então, podemos observar que os grupos sociais
que circulavam pela cidade, tais como ferroviários, viajantes, militares, padres e religiosos,
enfim, todos estes grupos sociais que comem a sociedade de Santa Maria da época
também foram explorados para comporem e a se sentir atraídos pela proposta comercial,
pelo atendimento, e principalmente, pelas vitrines da Eny.
Outras estratégias foram sendo desenvolvidas ao longo da hisria da empresa. Uma
delas foi o estabelecimento das comemorações de aniversário da empresa. Utilizava-se
amplamente a imprensa, jantares e bailes para reforçar sua marca. Um exemplo ocorreu em
mil novecentos e setenta e quatro, quando a Casa Eny comemorou os seus 50 anos. A
empresa patrocinou a elaboração de um livro comemorativo à história da Eny Calçados, de
75
Depoimento de Antonio Isaia. Anexo 4.
53
autoria Edmundo Cardoso.
76
Além disso, foi organizada uma intensa e variada
programação que incluía torneios e jogos entre os funciorios bem como jantares para
convidados especiais. O famoso jantar dos 50 anos da empresa foi realizado no Clube
Comercial de Santa Maria e contou inclusive com a presença do então governador do
Estado do Rio Grande do Sul, Sinval Guazelli.
3.4. As estratégias de gestão e de expansão da empresa
A empresa familiar Calçados Eny surgiu da iniciativa de um vendedor/viajante de
calçados. Sua experiência e visão de mercado fez que investisse e se arriscasse a dar início
a um estabelecimento comercial em Santa Maria. Nas primeiras décadas da história da
empresa, a experiência pessoal, a visão individual de criatividade amadora de alguns dos
seus integrantes permitiu a consolidação da marca da empresa familiar do setor de
comercialização de calçados. Assim, as opções e estratégias que foram assumidas no
percurso de sua história, sucessora do empreendimento solitário de Andrade, revelaram-se
promissoras. Quando o primeiro fornecedor de calçados da loja, a Liopart & Cia Ltda, da
cidade de Rio Grande, apostou na capacidade de vendas daquele pequeno empreendimento
de Santa Maria, certamente não imaginava a envergadura que a marca Eny assumiria
futuramente no mercado estadual e nacional. Segundo Denize Grzybovski:
A capacidade inovadora existe também na empresa familiar, embora esteja
encoberta pelo sentimento de sobrevivência da família em detrimento da
empresa. Inovar, na empresa familiar, é sinônimo de expor o valor do patrimônio
aos parentes (filhos, genros, noras, etc.).
77
A empresa manteve-se e prosperou em razão dessa capacidade inovadora. Em mil
novecentos e setenta e quatro, ano de comemoração dos cinqüenta anos de atividade da
empresa, existiam catalogados cerca de duzentos e trinta fornecedores. Recentemente, todo
o sistema da empresa foi informatizado. O gerenciamento de contatos comerciais revela
mais de mil empresas cadastradas, com compras ativadas a partir de seus lançamentos e
das exigências específicas de cada estação do ano. As compras são realizadas com foco
para cada loja Eny, com os próprios diretores atuando como compradores na visita direta a
76
CARDOSO, Edmundo. Uma loja, uma vida. Santa Maria, Rainha, 1974.
77
GRZYBOVSKI, Denize. O administrador na empresa familiar. Uma abordagem comportamental. Passo
Fundo: Editora universitária/ UPF, 2002. p. 174.
54
fabricantes e, sobretudo, a feiras semestrais. A recepção de representantes comerciais de
fornecedores também é realizada, com agendamento prévio e dentro de necessidades
constatadas para cada momento.
Com isso, os administradores e diretores da firma evitam o acúmulo de estoque e
como também tomam a Eny bem mais chamativa ao apelo comercial, e
concomitantemente, a exigência do mercado e a do cliente. Tendo suas lojas separadas em
categorias de produtos, fica bem mais acessível para o cliente da Eny determinar onde
poderá encontrar o tipo de produto desejado, tal marca e tal especificação da mercadoria. A
loja, com isso, molda-se ao pensamento e ao direcionamento de compra de seu cliente,
além de proporcionar, através das vitrines, o chamado cartão de visitas” da empresa,
sendo destaque da Eny, principalmente nas décadas de setenta e oitenta, como aspecto
visual que passa a exercer diante da população. Investir no visual das vitrines bem como
atentar para as constantes mudanças e inovações é a preocupação dos diretores da empresa,
sempre respeitando as novas tendências e os apelos do mercado calçadista.
Segundo os administradores atuais, a adesão contínua de novas empresas e novos
produtos às vitrines e à vida dos consumidores, sem deixar de conferir o justificável voto
de confiança aos lideres de preferência, pode ser constatado diariamente, favorecendo cada
vez mais à qualidade da firma caadista. O parâmetro básico de escolha dá-se em função
de qualidade comprovada e preço compatível, além de determinadas prerrogativas
exigidas, dependendo do artigo analisado.
A partir da década de mil novecentos e oitenta, houve uma mudança em relação ao
cuidado com o atendimento ao cliente. Nilton Martins mencionou no seu depoimento que
nos anos sessenta o havia uma preocupação em agradar o cliente. Segundo ele: “não
existia essa empatia que passou de uns anos para cá, na década de oitenta e noventa”
78
.
Segundo este funcionário, que ocupou cargo de gerência importante na empresa, a idéia
que prevalecia era a de sempre levar vantagem. Isso acontecia de tal forma que, às vezes,
uma mercadoria velha, a gente forçava a compra”. Para ele, com a evolução dos tempos, o
cliente foi ficando mais esclarecido. Na verdade, o processo de modernização e
racionalização nas empresas exigiu um novo comportamento gerencial, caso contrário seria
difícil se manter frente à concorrência. Ele revela a política que vigora atualmente:
78
Depoimento Nilton da Rocha Martins. Anexo 3.
55
O cliente é a nossa maior riqueza, que hoje nós tratamos com um maior
carinho. Tanto é que nós dizemos para o funcionário novo que está entrando na
empresa: “O cliente nos ama ou nos odeia! Não queremos que todos os clientes
nos odeiem! Nós queremos que todos os clientes nos adorem, para fazer os
clientes se posicionarem nos amando. Por que quem é que vai tomar essa atitude
é aquele que nós iremos realizar o sonho dele. Exemplo: o noivo que vai se casar
compra um sapato. Tu tens que pensar como o noivo, quando estiveres no
momento de entrar na Igreja”. E é isso que estamos passando para o nosso
funcionário hoje. Precisamos nos conscientizar que trabalhamos em uma
empresa que irá fazer oitenta anos e que a empresa só cresceu, devido a:
trabalho, sem medir forças para trabalhar, sempre focado na satisfação do cliente,
que nós pensávamos, no passado que a nossa maior satisfação era o preço
(porque tinha a inflação e era muito mais barato). E o comerciante também vinha
aqui, comprar 100 pares, devido ao preço muito mais barato que no crediário e
ainda conseguia desconto de 30%, facilitando para ele e para nós. Quer dizer, o
cara comprava por 30 dias e vendia em 20. No passado, o grande diferencial era
o preço e até hoje, nós estamos procurando e conseguindo incorporar isto,
variedade e preço, com a qualidade do atendimento. (Ver mais em Anexo 3)
Uma característica da empresa é adequar-se as situações. Neste depoimento, vemos
que o comerciante deve estar atento as perspectivas que o cliente tem com a compra. E
muitas vezes, o descuido é evidente quando consideramos o cliente como uma pessoa que
faz parte do quadro de compras da loja e não estamos preocupados com a necessidade de
compra do indivíduo, justificado, muitas vezes, pela trajetória e nome que a Eny possui
durante estes anos. É interessante observar este interesse manifestado pela direção e
administração da empresa, vincular-se com seu cliente nas suas necessidades diárias de
compra e inserção desta mentalidade comercial dizimada na empresa e nos seus
funciorios.
Eduardo Isaia, que ingressou na empresa em mil novecentos e setenta e cinco, e que
atualmente é um de seus principais dirigentes, sintetiza a visão atual de empresa familiar.
Segundo o diretor:
Para mim, digo a nossa empresa é uma empresa familiar. Mas, embora não com
uma característica de empresa familiar. O que é hoje uma Empresa Familiar? É
uma empresa que começa a colocar toda a família para dentro. Tinha-se
capacidade ou não, por circunstâncias. Então ela começa a desestruturar-se por
aí, depois tem muita gente da família que sobrevive na empresa. E esse é o
retrospecto das empresas de cunho familiar que não deram certo. A nossa
empresa é familiar. que isto não é um pré-requisito para entrar. E te digo é
mais fácil um o familiar entrar na empresa, do que um familiar. E porque
familiar e não agir como tal? O nosso relacionamento aqui é muito bom, porque
é extremamente profissional. Agimos e tratamos com parentes, com uma visão
profissional.
79
79
Depoimento de Eduardo Isaia. Anexo 5.
56
Neste trecho, vemos que o conceito de empresa familiar é atribuído à loja. Embora
a preocupação de seu dirigente esteja ligada ao fato decorrente do fracasso e da
acomodação que arrisco a dizer, toda empresa familiar está sujeita a tais traços. Veremos
que qualquer livro que trate hoje especificamente o assunto empresa familiar”, irá
apontar, em sua maioria, os fracassos e preocupações, que se deve tomar as empresas que
tenham este perfil. E, seguindo, terá rios depoimentos de firmas e empresas mal-
sucedidas que começam a ruir o seu negócio a partir do momento que são estendidas a
parentes. A partir daí, o necio vai perdendo a identidade profissional para passar a ter
característica apenas familiar. Concluindo Nilton afirma:
Três coisas que te digo que nós precisamos na Eny? Simples. Primeiro
honestidade, mas uma honestidade profissional. Porque não roubo, pago minhas
contas, o está fazendo mais que a obrigação. Agora, a honestidade
profissional é saber que tu entrou aqui pra somar, e que tu tem que ser
importante aqui dentro. Então exemplo: uma dor de cabeça, ou vou ficar em
casa deitado! Eu vou tomar um comprimido e vou ir trabalhar, tão me esperando
lá. Segundo: Educação com as pessoas, tu sabes conviver com teus colegas,
com teus superiores, saber conviver com tudo que é tipo de cliente. Cara que é
do sarava, o católico, espírita, gremista, colorado, o estúpido, o educado, jogo
de cintura. Terceiro: Não ter preguiça. A medicina diz sem stress, mas muita
gente preguiçosa, se diz com stress, mas é preguiçoso. E isto é o que eu vejo
aqui. Só se estressa quem não gosta de trabalhar, e não programa uma meta um
objetivo de vida, esta pessoa se estressa e se decepciona. E realmente de uns
tempos pra cá, isso...a empresa que não se preocupa com a satisfação do cliente,
de uma maneira verdadeira, elas estão desaparecendo.
68
Observa-se neste depoimento, a preocupação de inserir o funcionário na filosofia da
empresa. Para que a empresa tenha sucesso a contingentes já mencionados anteriormente, o
funciorio precisa estar preparado e treinado. Primeiramente treinado para função de
vendedor, de estar em contato com o público, de saber e supor o que o cliente almeja,
tornar o ambiente facilitado para a compra. Atrair se possível sempre, independente de
credo ou ascenncia social. O funcionário desta forma deve estar preparado a este tipo de
situação como também se educar a este “estilo de vida”, padronizado pela Eny.
Através deste aspecto, a empresa desenvolve o seu diferencial diante do
atendimento e acompanhamento de seu cliente. Além disso, iniciar nas condições de
pagamento é uma outra saída. Proporcionar para quem compra um crédito maior,
provavelmente, a compra será maior. A Eny atualmente investe neste sentido, através de
compra a prazo, com cartão de crédito para aumentar o poder de compra e investir na
68
Depoimento de Nilton da Rocha Martins. Anexo 3.
57
credibilidade de seus clientes, para que se conserve um elo entre empresa x funcionário x
clientela.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Hoje a Eny Calçados possui mais de oitenta anos de trajetória comercial. E em
decorrência a todos esses anos, sentimos a necessidade de recordar sua fundação em sete
de outubro de mil novecentos e vinte e quatro.
Ao fazer isto, a empresa procura sempre observar que sua ascensão comercial não
esteve sempre comparada aos tempos de hoje com a Eny Calçados, empresa renomada em
nosso estado do Rio grande do Sul com reconhecimento nacional.
A empresa procura sempre buscar
através desta origem, elementos que a
tornam hoje o que ela simboliza, os quais são
descritos a seguir.
Podemos dizer que quando a Eny
retorna suas origens, procura ao mesmo
tempo identificar seus funcionários aos
modelos de antigamente e a valorizar o
passado. Apreciar o ambiente em que a loja
“frutificou” comercialmente, contemplar as
pessoas que contribuíram para o
desenvolvimento deste comércio. Pessoas
estas também, que são parte da sua história
que torna por conseqüência hoje modelo para
os novos empregados que se agregam a
empresa.
Edith e Salvador Isaia no
cinqüentenário da loja em 1974. Fonte: Arquivo
pessoal do autor.
59
A empresa procura evidenciar o começo humilde da loja e juntamente os primeiros
ensinamentos e regras sobre o setor calçadista. A preocupação da Eny de dimensionar essa
herança de oitenta anos e de recuperá-la para o seu futuro comercial. Passar esta mensagem
aos funciorios e clientes com uma nova roupagem e imagem que atualmente é necessária
para novas exigências que o mercado calçadista precisa.
Através desses depoimentos que foram apresentados assim como as vivências de
cada um que participou diretamente ou indiretamente do processo de evolão da loja, a
Eny aplica hoje a lição de que o perfil da empresa se constrói, observando, respeitando a
trajetória comercial dos tempos em que surgiu. Ir além de observar, conservar seus valores
que ajudaram a progredir comercialmente, tais como: valores educacionais e morais,
aplicando como conduta para os novos funciorios, a fim de tor-los dignos dentro deste
ambiente de trabalho.
Vimos que o Município de Santa Maria teve seu gradativo desenvolvimento
comercial no século XX. E esse processo acelerou graças à viação Férrea, que teve o início
das suas atividades no século XIX e adentrou no século seguinte com a promessa
inovadora e moderna de transporte, geração de empregos e, principalmente, pelas
atividades comerciais existentes nas cercanias da rede ferroviária.
Com essa afirmação, podemos dizer que, a partir disso, a cidade começa a
desenvolver pontos comerciais, lugares identificados pela população local onde o comércio
acontecia diante de classes sociais distintas. No inicio do século XX, mais especificamente
no começo da década de vinte, tínhamos como referência comercial a Rua do
Acampamento, com uma freguesia mista, melhor dizendo, de classes sociais abastadas e
população com pouco poder aquisitivo. A Rua do Comércio, atual caadão, era onde se
encontravam as casas comerciais e hotéis mais requintados da época. E, por fim, a avenida
Rio Branco, rua de maior movimento comercial, atendendo a classe ferroviária, a classe de
operários e trabalhadores da respectiva rede, como também, a classe popular.
E foi nesta última que a Eny Calçados investiu apostando na clientela dos
trabalhadores de média e baixa renda do gênero masculino inicialmente, a maioria
procedente do núcleo ferroviário. Foi esta classe que primeiramente impulsionou a Eny
calçados para sua trajetória de desenvolvimento comercial.
Muitos dos entrevistados mencionaram nos depoimentos um pouco do que era a
filosofia da empresa, filosofia esta que poderia ser confundida com o seu próprio
marketing. Então, ressaltamos estes fatores locais que fizeram parte do contexto comercial
na fase inicial da empresa e que colaborou para sua consolidação. Mas, também temos em
60
mente que isto não foi o que definiu o sucesso da firma e a sua longevidade. A Eny
Calçados é uma empresa familiar de origem italiana e vimos que, valores, que são
incutidos na família, tais como, integridade, honestidade, moralidade e principalmente, a
presença e valorização do papel da doutrina religiosa como aspecto cultural e herança
migratória que aparecem fortemente na constituição da filosofia da Eny Caados.
O fator religioso considera-se o que se salienta mais, na composição de filosofia da
empresa. Embora não estejamos tratando da prática religiosa em si, mas de sua influência
no perfil da empresa. E isto, acompanha a trajetória da Eny como um desejo progressivo de
prosperar, do panorama comercial para um panorama social.
Vemos que o desejo de Salvador Isaia é manifestado em todas as suas ações
comerciais desde o seu atendimento e trato com sua clientela, assim como o
relacionamento profissional e a forma de potica exercida sobre seus funcionários.
Muito menos efetiva foi a participação potica da Eny na cidade de Santa Maria. A
sua ocorrência quase nula, até mesmo porque a empresa o adotou e não se interessou em
erguer uma bandeira partidária”, até mesmo por justificativas comerciais. Deste modo, a
Eny terá uma expansão de clientela consideravelmente maior do que, se por um lado
assumir uma postura partidária. Provavelmente isto repercutirá na exclusão de parte de sua
clientela que atualmente é heterogênea. Entendemos que isso faz parte do perfil da
empresa.
Com o passar dos anos, Santa Maria foi se modificando, crescendo, evoluindo,
desenvolvendo em diversos setores, entre eles os setores comerciais, sociais, poticos,
econômicos e culturais.
Ao final da década de trinta tivemos em Santa Maria a instauração do saneamento
básico e a proliferação de prédios e inovações na construção civil. Destacamos também
crescimento econômico da classe militar.
Em meados dos anos sessenta, Santa Maria tornou-se referência nacional através da
Instituição da Universidade Federal de Santa Maria UFSM, tornando-se mais um ponto
referencial, no qual a cidade se utilizaria em prol de seu desenvolvimento.
Com a postura séria e a preocupação de sempre atender, satisfazer a clientela, a Eny
se sobressaiu perante aos outros estabelecimentos comerciais. Conservando sempre essa
regra, como se fosse um mandamento, a loja atraiu fregueses de toda as partes do estado.
Com isso notamos que existem elementos coincidentes. Primeiramente, vimos o
município de Santa Maria em pleno apogeu de seu desenvolvimento comercial, o que até
então era de se considerar uma situação circunstancial. A cidade de Santa Maria foi
61
impulsionada para um desenvolvimento invejável por um grupo social ou atividade
econômica. Mudanças afetam todos aqueles vinculados direta ou indiretamente à empresa,
especialmente no comércio, onde o efeito é maior e no aspecto desenvolvimento é
importante salientar que, o estabelecimento comercial que não moldar sua característica a
esse processo, provavelmente não obterá êxito em seu negócio.
Em relação às estratégias adotadas pela empresa ao longo dos anos, podemos dizer
que a Eny soube valorizar os contextos locais e o seu meio, onde exercia sua atividade
comercial e atendia, primeiramente a clientela dos ferroviários e sapatos masculinos de
pouca qualidade. Aos poucos, começa a investir modestamente em sua estrutura, ou seja,
no próprio estabelecimento. A mudança em mil novecentos e vinte e sete para a esquina da
Av. Rio Branco determinou a sua identidade com os ferroviários e com os visitantes que
pernoitavam na cidade.
A Eny também usufruiu do contexto institucional dos colégio através dos laços de
amizade com a Igreja. Vinculou-se um contrato informal e possibilitou a Eny ampliar seus
horizontes, atingindo seminários, institutos hospitalares, e aos próprios padres e freiras
pertencentes a este meio.
Logo após, com a abertura de uma filial no centro, no prédio da SUCV, e alguns
anos depois, no Ed. Cauduro, a Eny alcançou o prestígio de vender calçados a preços
baratos e com variedade de estoque. Com isso, a Eny passa a selecionar e a incrementar
suas estratégias comerciais como empresa familiar. A figura de Salvador Isaia começa a se
destacar como responsável por este desenvolvimento comercial, por trazer melhores
mercadorias, maiores variedades, investir nas vitrines, e no próprio local de trabalho,
procurando sempre inovar.
E nesta progressão, Salvador atribui à Família Isaia um maior contato com a
participação nos negócios, para que ele pudesse implementar as novidades do setor
calçadista, e ao mesmo tempo manter o padrão e status que a empresa conquistou ao longo
dos anos.
Nas décadas seguintes, vemos a ampliação da Eny como empresa, tanto no espaço
físico, como no que diz respeito às suas atividades internas. Aumentam os funcionários, o
serviço que a loja oferece aos clientes é cada vez mais diversificado, prova esta se nas
inúmeras inaugurações onde a Eny Calçados coloca estabelecimentos específicos para cada
produto e artigo, dentre eles Loja Masculina, Feminina, Boutique, Esporte, Malas, Infanto-
Juvenil.
62
E ao final da década de oitenta, Salvador vislumbra a possibilidade de estabelecer
shoppings comerciais, onde maior concentração de público, com área nobre e
específica, projetando o futuro dos estabelecimentos comerciais na cidade. Mas, devido a
seu falecimento, Salvador não realizou este projeto.
E, a partir daí, a Eny reestrutura-se. A direção da firma passa a ser decidida em
amplo acordo pelos diretores. O mercado econômico já não é mais estável como
antigamente, a globalização força a empresa a expor-se mais à mídia e à propaganda. A
concorrência atribui valores competitivos de mercado, fazendo com que a Eny passe a
buscar concessões de crédito para seus clientes.
E, por fim, vemos que a Eny ainda investe no seu patrimônio, procurando sempre
inovar e de respeitar primeiramente a sua trajetória, o seu passado para desenvolver a sua
filosofia empresarial.
A Eny incorpora o seu perfil e se adapta em relação ao período que, hoje, convive.
Relacionar o antigo com o moderno, preservar costumes e tendências, respeitar os pontos
comerciais e acompanhar o desenvolvimento da cidade.
O seu legado está hoje concentrado nas pessoas que fizeram parte de sua história,
que se vincularam a este passado de sucesso. Através de seus depoimentos e exemplo de
postura de trabalho, mantém hoje o espírito da empresa renovado.
A história da loja não foi contada. Ela está sendo contada ontem, hoje, amanhã e
todos os dias dentro das dependências da empresa. Este trabalho apresenta apenas alguns
fatos, passagens e valores que a Eny apresenta em seu perfil como empresa. Longe de ser
uma versão definitiva do que a firma representa, mas o que ainda poderá ser explorado
neste contexto. E para saber um pouco sobre essa instigante história, sobre seus diretores,
funciorios e clientela, começaremos, pois, a ouvir a história dos que viveram para
entender suas marcas como um todo, diante do contrato de ascensão comercial.
FONTES
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Santa Maria, 21 out. 1974. p. 5-7
ENY festejou 50 anos e Santa Maria foi a capital do calçado por um dia. Jornal Exclusivo,
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PRÊMIO Nacional à Salvador Isaia. Jornal O Expresso, Santa Maria, 03 jul. 1979. p. 03.
SALVADOR Isaia: Lojista do ano Jornal A Razão. 28 jan. 1985 à 03 fev. 1985. capa e p.
03.
DESTAQUE de 1986. Jornal A Razão. Editoria: Indústria e Comércio. 16 jul. 1986. p. 03-
15.
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capa e p. 8
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67
ANEXO 1
Entrevista com Carlo Isaia
80
Dados biográficos
Nome: Carlo Isaia
Data de nascimento: 04 de Abril de 1924.
Local de nascimento: Santa Maria (RS)
Profissão: Comerciante
Cônjuge: Emir Pereira Isaia
Cargo na empresa: Diretor Comercial
Carlo Isaia, atualmente (2005) é um dos diretores da Eny Calçados. Iniciou no
ano de 1941, trabalhando como vendedor e tendo participação ativa na preservação do
acervo documental da memória da empresa.
1. Como foi o seu começo na loja ?
Extra-oficialmente estudando todo o tempo; e no caso, para ajudar na firma (ENY),
no depósito.Tivemos uma infância de trabalho, entende. Na firma comecei aos fins de
semana somente, no sábado. A gente participava e ia conferindo a mercadoria e naquela
época era bem arcaico o negócio e as caixas não tinham nomenclatura própria, e as que
vinham, nós colocávamos o carimbo, número e a nossa nomenclatura própria.
2. Isso aconteceu em 1936?
Em 1941, logo depois do término do ginásio, ingressei na loja como vendedor, ali
na Drogacentro (localizado na Rua Av. Rio Branco, esquina com a Rua Venâncio Aires)
até 1943, atuando no balcão. E a firma comprou a casa Suely, aonde hoje se encontra uma
loja de 1,99 que era na época pertencente a João Aita. Então, Salvador incumbiu-me como
gerente desta loja. que, tinha tanto saldo, na metade do ano, e ele (Salvador ) falou para
mim: Enquanto tu não venderes “todos” os sapatos aqui, tu não poderás obter nenhum
80
Entrevista realizada pelo autor em maio de 2003, na sede do escritório da Eny Calçados.
68
calçado da loja. A “firma” tinha razão! E naquele ano, eu tinha 8% de lucro e era um
pavor; e o que tinha lá dentro eram muitas alpargatas ( quinhentas dúzias de alpargatas).
3. E sobre o início da loja em 1924?
A loja começou na Silva Jardim, bem em frente à residência do Sr.Andrade. Bom,
quando eu nasci, em abril, e a loja em outubro, com isso, segundo um pai, “eu era mais
uma boca na família”, e para aumentar o orçamento , o pai negociou a nossa casa na
esquina, por ser um ponto de maior atrativo comercial para o Sr. Andrade, que aceitou.
4. O que o Senhor sabe, sobre a empresa nesta época (período 1924/25)?
Bom, como eu era criança (6 meses), não poderia saber. Mas quando entrei, meu
primeiro contato (1936), passaram-se 12 anos. Com 7 ou 8 anos, o papai em casa,
quando nossos sapatos estavam ralos e roxos, os solados dos mesmos, necessitavam de
preenchimento. Então ele precisava de sola, e ele pedia para nós comprarmos na casa São
Paulo (na esquina com a Bozano), um concorrente forte, que as Casa Eny, tinha naquela
época, isso por volta de 1932, 1933, por aí. Mas a firma era muito “franzina” ainda, ela
tornou-se com um pouco mais de respeito depois de 40 (década de 40).
5. Em relação à comercialização (compra) de sapatos na região do Vale dos
Sinos?
Olha, quando comecei a trabalhar em 1941, Salvador já viajava. Mas no início,
quem comprava era o Sr. Andrade. Naquela época, a loja comprava sapatos masculinos
e usava-se muito sapato de verniz. Então, Sr. Andrade comprou mil pares de sapatos de um
fabricante, que era amigo dele (que foi mais para agradar). Então: negócios X negócios,
amigos à parte! Mas ele fez amizade com este fabricante, e ocorreu esse pedido enorme. E
quando ele (Andrade) chegou na loja, Salvador escabelou-se. Como é que eu vou vender
tudo isto?
69
6. As compras eram feitas por Salvador Isaia ?
Quando eu entrei para firma, o comprador era ele. Ele viajava, tinha uma grande
amizade com os fabricantes. Até um deles, famoso naquela época, o Pedro Azares Ele
tinha máquinas de calçados e era muito conceituado. Ele tinha uma amizade com Salvador,
que sempre que passava por Novo Hamburgo, “parava na casa do fabricante”.
7. Quando da tua entrada na empresa, qual era a estrutura da loja?
Quando eu entrei, em 1941, já existia um bom número de funcionários, sim.
Tínhamos no nimo 7 á 8 vendedores aqui na esquina. E na Drogacentro, ali como era
mais central, o Antônio, meu irmão, era o gerente. Na loja lá de baixo (Mauá), que também
ajudava, a freguesia daquela loja era de ferroviários. Era mais de 50% de ferroviários. Eu
acho que as Casas Eny, graças aos ferroviários teve uma boa base. Então, quando os
ferroviários recebiam, iam sempre na loja. E eu e meu irmão, João Gabriel chamávamos
para limpar que ficava forrada de envelopes, e isso ficou na minha memória.
8. E quanto ao slogan e a propaganda na época inicial?
As Casas Eny as mais barateiras. Fazíamos propaganda (cartazes) em muros, e
prédios. O meu irmão, João Gabriel era o encarregado e eu ajudava. Com ele, sim, a
propaganda era feita. E ele aproveitava-se da amizade que tinha com os ferroviários e com
isso faziam com que os mesmos sentissem-se à vontade. Então todos iam procurar o Seu
João, se não estivesse lá , a frustração tomava conta.
9. A localização na Avenida Rio Branco acentuou este fato?
Naquele tempo o comércio desenrolava-se mais na Av. Rio Branco. O comércio era
ali, a rede Ferroviária era uma coisa incrível. Eu lembro-me bem, o movimento dos carros,
a espera dos passageiros, era uma zona de preferência comercial, e hoje morreu
completamente.
70
10. A panfletagem era destinada aos ferroviários?
Eu lembro-me que sim, todas essas matérias, visavam este público.
11. E no centro, e região hoteleira? As mercadorias tinham outra freguesia?
Existiam mercadorias destinadas a classes com maior poder aquisitivo?
Existiam outras lojas, a Casa Paulista, a Casa Royal, outra loja, a Casa Elegante. E
nós aqui. E no centro, a freguesia era outra. Nós começamos como uma loja bem popular ,
visando mais os ferroviários. A firma tornou-se sólida, pelos ferroviários. A gente deve
muito à eles.
12. Quem fazia os sapatos?
Tudo vinha de fora. As Casas São Paulo tinha uma fábrica de calçados também.
Haja vista, que meu pai comprava material para fazer sapato. Mas de resto era tudo fora.
13. E qual ou quais regiões do Estado eram provenientes os calçados da Eny,
na época que o Sr. Andrade os adquiria?
O sapato que era vendido vinha de Rio Grande. Era dos calçados Leopari (ou
Leopardi). Era um sapato muito bom, aliás, um dos melhores.
14. E quando ocorreu o primeiro desenvolvimento da Eny, como loja?
Foi quando a loja mudou-se para esquina da Silva Jardim, mais ou menos, um ano e
meio depois da data inaugural.
15. Quando tu entraste a Rede Ferroviária estava em seu auge?
Claro, quando eu comecei de gerente das Casas Sueli, era uma grande disputa entre
a loja da Avenida Branco e a que eu gerenciava. E a disputa era grande. E nas férias, ficava
doente, no bom sentido, o João dava um bailado nas vendas, isso foi em 1937 e 1938.
71
16. Houve um projeto por parte da empresa, com o objetivo estratégico de
ampliação dos lucros neste período inicial?
Não. O que a gente teve que fazer era obter um estoque mais variado e completo.
17. Como era Salvador e o ambiente da casa de seus pais a partir da entrada
de Salvador na loja?
Ele era guri, quando começou trabalhar. E ele sempre foi muito severo. O primeiro
a trabalhar lá em casa foi o Chico. E com isso, foi o primeiro a ter uma certa regalia. E
como ele tinha negócio, na praça, como agente da loteria federal e estadual aqui em Santa
Maria. Além disso, tinha uma cigarraria, vendia cigarros e bazar. Então ele vinha antes de
nós almoçar e nos esperávamos.
18. E alguma lembrança da infância?
Bom, morávamos no sótão e eu, particularmente, gostava de estudar a noite, mas
como o meu iro Chico trabalhava, tive que dormir cedo e apagar a luz. E às vezes
apanhava de madrugada por não querer apagar a luz.
19. Qual foi a influência do Salvador, e como ele lhe orientou para o trabalhar
na empresa?
Que eu não desse mau exemplo, mas sempre me comportei bem. Não criava
problema algum. A educação, a gente estava bem preparado para isto. E, às vezes,
quando estávamos com dificuldade com uma venda, ele (Salvador), ia e resolvia. Ele foi
severo, mas desta maneira, foi bom para obter maior entendimento sobre o andamento das
coisas.
20. Na ausência do Sr. Salvador?
Ele comprava, e quem ficava na gerência era o Antônio.
72
21. Em 1940, Salvador era dono da loja?
Não, a loja foi comprada em 45 e 47.
22. Havia doações de sapatos?
Nos 25 anos, doamos pares as pessoas pobres. Então, Salvador fez um pedido
especial de sandálias, e então elas foram enroladas e numeradas” e conforme a idade, e a
gente calculava e dava a sandália.
23. E a política?
Segundo os irmãos, ele era simpatizava pelo integralismo, influenciado por Mussoi
(cunhado de um de seus irmãos, João Gabriel).
24. A imagem da loja reflete a figura Salvador Isaia?
Sim. O fato de ele ter sido o primeiro a trabalhar, o primeiro empregado, ele criou
um conceito, muito bom, até fora da cidade.
25. E a participação social? Começou com iniciativa própria de Salvador
Isaia? Comente sobre este aspecto.
Valeu bastante. Ele sempre proporcionava alguma ajuda, sim.
26. E Salvador?
Quando criança era muito religioso e estudioso. Estudava no colégio São Luiz, dos
irmãos Maristas e ajudava como professor, ganhando até um pequeno ordenado que
ajudava em casa. E trabalhava também na tipografia do ginásio. E, isso é de família. Mas o
que ele gostava é da a União dos Moços Católicos ele era participante e, além disso, era
ligado ao teatro, através da União, e olha era um bom ator. Mas isto quando era solteiro,
depois com a loja e o casamento, guardou esses dons para as reuniões familiares.
73
27. Como vendedor, o Salvador aprendeu o ofício com quem?
Ele teve uma boa escola com o meu pai. Ele nunca pediu fiado. E como nós éramos
uma família grande, as compras era sempre “as dúzias”. E então ele sempre lutava, para
obter em menor preço, sabe como é, a escola vem da família.
28. E a economia?
Eu me lembro da década de 70. Foi em 1972, um ano muito bom, sabe porque? Na
época estávamos com quatro à seis lojas , e as vendas apresentavam de mais de um milhão
e meio de pares. Depois, com o tempo, as crises econômicas, a concorrência foi
aumentando, pois naquela época nós vendíamos sapatos, hoje todo mundo vende. A
venda foi em 1972. A economia era previsível no regime militar.
74
ANEXO 2
Entrevista com Luiz Gonzaga Isaia
81
Dados biográficos:
Nome: Luiz Gonzaga Isaia
Data de nascimento: 04 de janeiro de 1927.
Local de nascimento: Santa Maria.
Profissão: Professor universitário aposentado.
Estado Civil: Casado
Cônjuge: Lygia de Menezes Isaia
Cargo na empresa: Diretor Técnico
Ano de ingresso: 1948 (permanecendo até 1964)
L – E fechou negócio. O terreno, quem vendeu o terreno era um uruguaio!E eu fiz
tudo aqui referente a construção da Galeria d Comércio). Quando teu avô quis fazer a
planta, ele (Salvador Isaia ) chegou e disse pra mim: “Como é que é, não tenho tempo, tu
assumes? E eu assumi, essa “ empreitada maluca”.
2. Como é que surgiu a idéia e como foi feito?
Vou te dizer, teu avô era bastante criativo. Ele conheceu um rapaz em Porto Alegre,
da arquitetura, e tudo o que foi de projeto, antes de o mesmo falecer, foi ele quem fez tudo.
E depois passou, agora pra filho, que é engenheiro, o Geraldo (filho do Sr. Salvador Isaia)
deve estar com ele. Tenho fotos da inauguração, com a frente Rua Dr. Bozano, tu tens? Eu
assumi o negócio, e só saio daqui quando construir o prédio. Mas foi difícil.
3. Como era o Salvador e a família na loja?
81
Entrevista realizada pelo autor na residência do entrevistado no ano de 2000, documento gravado em áudio
que segue na íntegra.
75
Em 1962, eu estava na loja, o Guido (filho de Salvador Isaia) entrou antes. Antes
da Galeria nós estávamos no Edifício Cauduro. Logo no início da obra, aqui, o Sr. Cauduro
pediu para aumentar e foi quando terminamos a esquina e pegamos o prédio.
4. E com relação à Sociedade?
Já existia. Foi feito no Edifício Mauá. Lá em baixo: Salvador Isaia & Irmãos Ltda.
5- E as lojas? (na galeria do comércio)
Começou com a Masculina e Feminina, os depósitos e o escritório, a caixa forte e
eu administrava tudo isso. Descia e subia em dois degraus, nem sei como eu estou vivo. Eu
vou te dizer, eu era o primeiro a chegar na obra, e o último a sair antes do almoço. O
primeiro à chegar depois do almoço, as 13 horas. Quando eu casei, em 1954, e depois o
José (irmão) me deixou a parte de cima pra mim e a de baixo pra Antonieta (irmã).
6. O que mudou?
Posso te dizer que até 1964, eu mantive um relativo movimento. Mas aconteceu
que a Revolução (ditadura), deu ênfase. Então, a ferrovia, a rede ferroviária, foi passando a
ser secundária. E foi morrendo. O transporte passou a ser rodoviário. Em um país pobre
que é uma incoerência isto. o usar a hidrovia, ao invés da rodovia e a ferrovia. Então
tudo tem os seus dias. O motor de automóvel, por exemplo, pode rebocar cinco trens, cinco
vaes de trem.
7. E o Sr. Salvador? Lembra-se dele?
Lembro sim, mas vagamente. Ele sempre foi muito respeitoso, e tinha uma
particular amizade com o meu pai. E desde pequeno, ele foi muito aplicado, tanto que,
quando ele completou o curso primário do Colégio São Luiz, ele tirou o primeiro lugar. Foi
fazer o ginásio de graça. E naquela de ir pro ginásio, o Sr. Andrade, foi buscar um dos
filhos do Sr. JoIsaia. E o José, ofereceu o mais velho. Mas o Sr. Andrade simpatizou
com Salvador, por ser mais “jeitosinho”, mais “bonitinho”, e escolheu o Salvador. Eu errei
na vida, mas dificilmente eu me engano com as pessoas. Eu sou bastante enérgico, e na
76
Universidade, o Sr. Mariano da Rocha me deu carta branca. Porque eu não fui para lá, ele
me forçou, para que eu fosse.
8. E Salvador como comerciante?
Tinha um nio muito forte e teve problemas de saúde. Com isso, também, muito
nervoso, e tudo isso somado, a responsabilidade da presidência da empresa. E por isso que
ele passou as obras, sob minha responsabilidade. Quem vendeu todos os apartamentos fui
eu, sozinho. Depois teve um camarada” que vendeu 1 ou 2 apartamentos. E o ganhei
nada com isso. E o meu sario é “desse tamanhinho”. E quando a coisa (prédio) ficou
feita, eu saí. Teu avô não se preocupou muito comigo. E essa coisa aconteceu. Depois, eu
fui para Universidade, e recebi este apartamento e o comprei. Se fosse pela comissão da
época, no nimo ficaria com quatro apartamentos. Tivemos uma vida apertada, em todo
caso, isso nós tivemos que fazer com suor, não foi vida fácil.
9. Quanto ao papel social e comunitário de Salvador e a empresa?
Ele sempre ajudou. E eram pedidos feitos para ele. E ele se sensibilizava. Ele tinha
ideais filantrópicos. Então ele fez isso com os funcionários também. Quando um deles
casava, ou ganhasse um filho, ele se comovia e dava um aumento, ele tinha esta
sensibilidade.
77
ANEXO 3
Entrevista com Nilton da Rocha Martins
82
Dados biográficos
Nome: Nilton da Rocha Martins
Profissão: Comerciante e gerencia geral
Ingressou na empresa: em 1962, na parte de depósito e serviços gerais,
passando depois a vendedor (entre 1963 à 1975).
1. Como foi o teu início na empresa?
Comecei em 1962, janeiro de 1962. E vendedor de 1963 a 1975.
2.- Qual foi a tua primeira função?
Foi office-boy, mandalhete, eu limpava tapete, depósito, limpava os vidros da loja.
Eu entrei pra ficar na filial (Mauá), como tinha aberta a Galeria do Comércio, em janeiro
de 1962 e fiquei uma semana na filial, e então um guri saiu da feminina (loja), que não era
feminina, na época era “Eny Galeria”. Tinha de tudo. Naquela época tinha três lojas em
Santa Maria: a filial, a da Drogacentro e da Galeria e então eu fiquei ali. E fiquei ali até
1975 e depois passei para venda.
3. Na época da inauguração da Galeria?
Não, foi em setembro de 1961, mas não me lembro de nada.
4. Em 1975 e 1979 começou a ampliação das lojas.
Na época eu participei. Na inauguração havia os fabricantes mais chegados à
empresa, e nós vínhamos assistir.
82
Entrevista realizada pelo autor em dezembro de 2003, no escritório da Eny Calçados.
78
5. Teu trabalho como vendedor, o acesso aos funcionários, tu poderias
descrever-me, como era o atendimento dos funcionários da época em comparação aos
funcionários das décadas seguintes: 1980 e1990? Mudou algo em relação ao
atendimento?
Mudou muito. É na época nos anos 60, o cliente...não existia essa empatia que
passou de uns anos pra cá, na década de 80 e 90. A gente começou assim mesmo, na época
com essa ...
6. A cartilha era diferente...
A gente queria levar vantagem sempre. As vezes uma mercadoria velha, a gente
forçava a compra. E ainda com a evolução dos tempos, inclusive o cliente foi ficando mais
esclarecido. O cliente era a nossa maior riqueza, que hoje nós tratamos com um maior
carinho. Tanto é que nós dizemos para o funcionário novo que está entrando na empresa:
O cliente nos ama ou nos odeia! Não queremos que todos os clientes nos odeiem! Nos
queremos que todos os clientes nos adorem, para fazer os clientes nos posicionarem nos
amando. Por que quem é que vai tomar essa atitude é aquele que nós iremos realizar o
sonho dele. Exemplo: o noivo que vai se casar compra um sapato. Tu tens que pensar como
o noivo, quando estiveres no momento de entrar na Igreja”. E é isso que estamos passando
para o nosso funcionário hoje. Precisamos nos conscientizar que trabalhamos em uma
empresa que ifazer oitenta anos e que a empresa cresceu, devido a: trabalho, sem
medir forças para trabalhar, sempre focado na satisfação do cliente, que nós
pensávamos, no passado que a nossa maior satisfação era o pro (porque tinha a inflação e
era muito mais barato). E o comerciante também vinha aqui, comprar 100 pares, devido ao
preço muito mais barato que no crediário e ainda conseguia desconto de 30%, facilitando
para ele e para nós. Quer dizer, o cara comprava por 30 dias e vendia em 20. No passado, o
grande diferencial era o pro e até hoje, nós estamos procurando e conseguindo incorporar
isto, variedade e preço, com a qualidade do atendimento.
7. É o que vejo de grande vantagem, hoje de 80 anos pra cá, absorveu o mundo
do cliente, ocasião, situação, porque comprar. E ninguém faz isso...
79
É, eu converso muito com os funcionários, converso com uns 100. E às vezes eles
me dizem: “Sabe que eu nunca ouvi isto”. Por exemplo: Quando eu vejo que a pessoa tem
condições de entrar na Eny, eu faço esta pergunta: Pra ti amar o teu trabalho, o que é
preciso em primeiro lugar? É te amar! É ter auto-estima. Jamais ele vai querer que as
pessoas não gostem do trabalho dele. Então quando a pessoa entra na Eny, ela entra
consciente. Então eu digo: “Quando Deus criou o homem queria, que fosse a imagem e
semelhança dele. E nós como profissionais, o trabalho tem que ser a nossa imagem. Então
nos trabalhamos assim, mas na cabeça da pessoa , isto está no coração”.
Três coisas que te digo que nos precisamos na Eny? Simples. Primeiro
honestidade, mas uma honestidade profissional. Porque não roubo, pago minhas contas,
o está fazendo mais que a obrigação. Agora, a honestidade profissional é saber que tu
entrou aqui pra somar, e que tu tem que ser importante aqui dentro. Então exemplo: dá uma
dor de cabeça, ou vou ficar em casa deitado! Eu vou tomar um comprimido e vou ir
trabalhar, tão me esperando lá. Segundo: Educação com as pessoas, tu sabes conviver com
teus colegas, com teus superiores, saber conviver com tudo que é tipo de cliente. Cara que
é do sarava, o católico, espírita, gremista, colorado, o estúpido, o educado, jogo de cintura.
Terceiro: Não ter preguiça. A medicina diz tem strees, mas muita gente preguiçosa, se diz
com stress, mas é preguiçoso.E isto é o que eu vejo aqui. se estressa quem não gosta de
trabalhar, é não programa uma meta um objetivo de vida, esta pessoa se estressa e se
decepciona. E realmente de uns tempos pra cá, isso...a empresa que o se preocupa com a
satisfação do cliente, de uma maneira verdadeira, elas estão desaparecendo.
8. Quem foi o teu instrutor? Como foi passado esta visão comercial?
Olha, eu vou te dizer. Eu tive dois professores aqui dentro. O seu João Gabriel
Isaia, mas não deu tempo, fiquei apenas 10 dias na filial onde ele trabalhava. Trabalhar,
transpiração, aprender a gostar e não ter preguiça, foi o sr. Carlo, com a idade que ele está,
ele não tem limite para trabalhar. E depois em 1975, o Sr. Salvador, até 1991, dezesseis
anos e meio, ele ensinou-me muito. Da parte psicológica das coisas, de como tu vais falar
com os funciorios, pra ti saber contar com ele, saber que ele deve prezar a si mesmo, ele
precisa representar bem a empresa, isso eu aprendi com o Sr. Salvador. Porque todas as
manhãs, antes de trabalhar eu ia falar com ele. Nesta hora, que eu vejo a visão da preguiça
e eu acredito que o diabo existe. Eu vou trabalhar meio turno na Eny e ser médico, e vou
levando, levando...esse vai ser um péssimo médico. Acostuma a ser displicente.
80
9. E o legado do Sr. Salvador? Qual a tua opinião?
O Sr. Salvador era duas pessoas. O profissional e o ser humano. O que era
profissional, o que era para ser feito, assim, para o bem da empresa, ele não tinha limite. E
como ser humano, e quantas vezes presenciei. Ele jamais deixava de dar uma o para
gente, não. Ele deixou uma grande lição. E eu falo muito sobre o exemplo que ele deixou,
sendo o “exemplodos exemplos. Tu não podes ser preguiçoso e dizer para todos serem
trabalhadores. Tu não podes dizer para os outros: sejam honestos se tu não fores. É
inadmissível. Eu saio aqui às 4 horas da manhã e vou a Santa Cruz do Sul dar uma reunião
às 7:30 min. E o funciorio que chega atrasado, eu digo: “Boa Tarde!”
Até eu! Se eu me atraso uns minutos, eu digo a mim mesmo e aos outros: Boa
Tarde! Este era o exemplo do Sr. Salvador. E te digo faz 10 anos que ele faleceu, mas
parece que ele está sempre aqui. É impressionante, a gente ao se lembrar nos dá ânimo.
10. A filosofia da empresa?
A honestidade, o trabalho, enfim, sem medir esforços para que a coisa aconteça da
melhor maneira possível, não mudou. O que mudou? Antes (Sr. Salvador), a Eny não
aceitava cheque comum, foi colocado o cheque pré-datado, foi colocado o cartão Eny e
isso alavancou a nossa vida, nós estávamos dando de “bandeja”, os clientes para a
concorrência. Mas a filosofia continua, claro que mudamos com as novas aquisições e
coisas mais sofisticadas. Mas continua a mesma, e o contato com a família do Sr. Salvador
foi de um ambiente familiar. Meu contato maior o Guido, Rafael, Eduardo, um
prolongamento da loja, mas sempre fomos fieis, respeitosos, com todos, inclusive com os
filhos do Sr. Salvador que não estão na loja.
11. E a associação dos funcionários?
Começou em 1961. Eu estive lá. Nosso primeiro presidente foi o Carlos Bento. Foi
fundado, nos queríamos praticar esportes. Tínhamos o futebol, futebol de sao ...e ela foi
até 1974. Houve torneios, futebol, salão, bocha, bolão e trous: Salvador Isaia, Guido
Isaia, Rafael Isaia. Com o objetivo da direção da empresa estar ligada aos funcionários da
mesma. Mas depois disso declinou...e hoje esta de volta já é uma grande família.
81
12. As associações, promoções, estimulam uma espécie de vínculo?
Exatamente. Eu digo, hoje envolvendo a família dos funcionários, representando a
empresa, bonito e leva o nome da Eny, através da associação.
13. E o reflexo desta ação no trabalho?
Muito bom. As vezes a mulher fica lá, fora da empresa, e nos momentos de
confraternização, ela não irá valorizar tanto a empresa, né! A partir que, ela começar a
viver momentos de lazer, ela igostar e o marido ou a esposa (temos muitas mulheres na
empresa).
14. Depois do falecimento de Salvador Isaia, o que mudou?
Mudou a participação. Hoje, não o gerente, mas os funcionários são consultados
sobre o produto, ou quando estamos conversando com algum vendedor. Porque isso gera
um comprometimento, de que ele (funciorio) opinou sobre aquilo. No passado o era
assim. Outra coisa que mudou muito foi o treinamento. Hoje existe treinamento mais
permanente do que aquela época. Porque naquele tempo, era uma graça” comprar na Eny.
Eu chegava aqui de manhã abria-se a porta e entravam 140 pessoas. E o cliente tinha que
dar “graças a Deus” para ser atendido. Hoje não é mais assim. Hoje temos treinamento
teórico, sobre o material e participando de tudo. O vitrinista tem a possibilidade de montar
a vitrine para o Natal e ser aprovado. E naquele tempo era “tudo vinha de cima”, era a
cultura e a gente esperava por isso.
15. Como estão as lojas de Santa Cruz do Sul e Porto Alegre?
Porto Alegre tem que abrir mais lojas. Olha a grande Porto Alegre da quase dois
milhões de habitantes, tu coloca uma loja Muito bonito, só que é inevitável que a Eny
deverá abrir outras lojas em Porto Alegre para a sua consolidação.
Santa Cruz do Sulé uma cidade muito bairrista. Não é fácil. Fez seis anos semana
passada, a Eny lá. Então já está tendo uma boa aceitação lá. Mas é um comércio muito
difícil. Porque veja bem: Santa Maria é uma cidade com apelo comercial, um giro , muito
82
bom, com comportamento de cidade grande. E se tu olhares Santa Cruz, encontros algumas
dificuldades para assimilação de nossa filosofia de trabalho.
O meu trabalho é operacional, controle de departamento. Estoque, mercadorias
controle de data, todo e qualquer problema na loja nós temos que resolver. Um trabalho
permanente de orientação profissional. E digo “o sucesso não vem por acaso”
83
ANEXO 4
Entrevista com Antônio Isaia
83
Dados biográficos
Nome: Antônio Isaia
Data de nascimento: 11 de outubro de 1918
Local de nascimento: Santa Maria
Profissão: Aposentado
Ingresso na empresa: 1937
Cargo exercido: Diretor comercial.
Data de aposentadoria: 1970.
Cônjuge: Julieta Ivone Tonin.
1. Sobre a loja...
As Casas Eny foi fundada em 1924, e naquela época eu tinha seis anos de idade e
casualmente ela foi inaugurada sete de outubro, perto de meu aniversário. Naquela época,
o tinha noção de como o comércio de Santa Maria era. Mas a idéia, vinha de família.
Meu pai era fotógrafo, com estúdio em casa. Ele veio da Itália e ficou em Porto Alegre por
17 anos. Lá ele estava bem. Mas sua mãe morava aqui (Santa Maria) e queria que fosse pra
cá. Ele aprendeu fotografia na Itália, na Sicília, siciliano de Leonforte. O Salvador foi
empregado forçado aos 15 anos incompletos e não foi fácil para trabalhar. E, imagine 15
anos incompleto de gerente. E seu Andrade fiscalizava e fazia as compras, que era um
caixeiro-viajante.
Eu me lembro, antes de abrir, o Salvador fez as prateleiras, e o João Gabriel, meu
irmão com 11 anos e eu com seis anos, ajudava a carregar os chinelos e alpargatas para a
loja. Santa Maria em 1924 era uma cidade pacata por demais. Mas tem uma coisa
interessante. O Sr. Luiz Andrade foi ousado, quando ele abriu a loja. Havia cinco lojas de
calçados em Santa Maria. E quem era o forte concorrente, era a Casa São Paulo e a Casa
Elegante. Salvador ficou desanimado. Graças a meu pai, que, como sendo imigrante, ele
83
Entrevista realizada pelo autor e concedida em abril de 2002, na residência do entrevistado. Documentado
em áudio em posse do autor, segue na íntegra da entrevista.
84
que tinha um certo prestígio e então o meu pai via que o lugar da loja não era o ideal e viu
que em casa tinha um espaço. Então o meu pai cedeu quatro peças na esquina e fazia um
aluguel baixo e na metade de 1925 a loja mudou-se para esquina da Av. Rio Branco.
Graças a meu pai.
A Av. Rio Branco, todos os do centro vinham por aqui e graças ao movimento dos
ferroviários, as coisas começaram a melhorar. Então, até 1927 a loja vendia calçados
masculinos e chinelos. Então, observando a concorrência, o Sr. Andrade e o Salvador
notaram que eram vendidos muitos sapatos para senhoras e a Casa São Paulo possuía até
uma fábrica. Então o Sr. Luiz Andrade se entusiasmou e quis colocar sapato de senhora e
Salvador também concordou. Resultado: o Sr. Andrade era muito conhecido entre os
fabricantes. E tinha um que era seu amigo, Procio Cunha, que tinha uma fábrica, não sei,
se ele era representante ou se era dele a fabrica. A marca do calçado era Eny. Então, assim
foi.
2. Além de Salvador? Em 1927, havia mais alguém na loja?
O João Gabriel. Em 1927, o João havia, saído do Colégio São Luiz. Ele fez o
primário somente. E ele ficou de empregado. O João ganhava um sario. Mas em 1925, e
1926 ele trabalhava com Salvador, nos períodos em que não havia aula. E eu também,
mesmo pequeno, nas férias eu trabalhava, fazendo serviço pequeno. Eram três meses, no
final desse período o Sr. Andrade dava-me um calçado. Era uma época de economia. Todo
mundo guardava o seu “dinheirinho”. Em casa a família muito grande. O dinheiro que meu
pai ganhava como fografo e também como funcionário do ministério da agricultura. Meu
pai era agente metereológico. O dinheiro que o Salvador ganhava, ajudava. Mas era pra
comida. Que é pobre, quer lutar para sair da pobreza.
Santa Maria era uma encruzilhada de trens. E todos trens do Rio Grande do Sul
cruzavam por Santa Maria. Da serra, fronteira e Porto Alegre. E a linha que tinha de
Pelotas, também fazia conexão por Cacequi e entrava em Santa Maria. Então a Av. Rio
Branco tinha oito hotéis e fora o centro, enchia tudo. Os do centro eram os mais finos.
Aquilo movimentava. E o resultado foi que, essa gente que cruzava por Santa Maria,
também comprava nas lojas do comércio. E o comércio na avenida, o Sr Andrade,
colocava a gente pra colocar propaganda nos muros, havia muitos terrenos baldios. E
quando a loja abriu, tínhamos 23 mil habitantes.
85
E os ferroviários compravam suas coisas nas cooperativas. O Sr. Andrade ofereceu
uma proposta à cooperativa, porque nela, já havia calçado, mas quando os ferroviários não
encontrassem o calçados eles iriam a Eny, que a própria Cooperativa cobria os valores. E
isso ajudou a nossa clientela diante dos ferroviários. Por outro lado, Santa Maria, sempre
foi um centro militar, nós colocávamos panfletos perto dos quartéis. Sempre o nosso
slogan era: “As mais Barateiras”, a potica da loja era sempre vender a vista, mas barato.
3. E a questão dos valores (preços dos calçados)?
No começo quem mandava nos preços era o Sr. Luiz Andrade. Mas aos poucos o
Salvador foi amadurecendo, e observando a política da loja e disse que sabia o que
entrava e o que saia da loja. Então, o Sr. Andrade autorizou o que estava muito barato, a
gente sobe, e o caro à gente baixa. No fim, a loja ia crescendo, avançando, Salvador foi
tomando conta... Outra classe, as professoras, em ascensão da classe granfina. Até 1934, as
Casas Eny trabalhava com o calçado do médio para o barato. De homem já, por exemplo,
naquela época se trabalhava com o verniz.
E aquilo foi tornando-se um elo, e a melhor propaganda no comércio é aquela que o
cliente faz para outro. Antigamente a propaganda maior era feita de boca a boca, como não
existia a televisão. E como o meu pai era muito católico, ligado com as coisas da igreja, ele
tinha a Conferência de São Vicente, que ajudava os pobres. Então o Padre Caetano, que era
padrinho do meu irmão João Gabriel, fazia propaganda. Resultado: Padre Caetano pediu no
seminário, os seminaristas para comprarem na Eny e começaram a comprar.
4. Como era a relação entre o Padre Palhuca?
A maior amizade na família foi feita pelo meu pai. Porque, em 1937, Salvador
ainda era jovem, Pe.Caetano saía da paróquia, a Catedral, ele ficou 37 anos, e ele dirigiu
a paróquia das Dores. Foi ele que construiu, o responsável pela construção da igreja das
Dores, como também da catedral. Então o Salvador começou a ter uma maior amizade com
os padres daqui da paróquia da catedral. No meio religioso, a nossa família era muito
católica, as minhas irmãs mais velhas eram Filhas de Maria”. As Filhas de Maria”,
vinham então comprar nas Casas Eny, onde trabalhava Os Isaias”. a família Isaia teve
um certo prestígio, hoje está maior. Até o calçadão tem o nome: Salvador Isaia.
86
5. E sobre a família, conceitos e até o próprio prestígio?
Evoluímos, o prestígio da família, aquela seriedade, a pureza, procurar fazer tudo
direitinho, não haver desonestidade, não explorar o freguês, aquilo tudo foi fazendo
clientela. E como a cidade era pequena, claro, então, aquilo tudo fez um elo, muito íntimo.
E cada vez mais vinha gente comprar, por causa do preço. Cresceu tanto, a fama com “o
andar dos anos” que, até a freguesia depois de algumas décadas, vinha de fora, de Porto
Alegre. Isso no meu tempo. As Casas Eny desenvolveu-se com a cidade.
A questão do saneamento básico. Até 1929, Santa Maria não tinha saneamento
básico. A cidade se supria com poços. A água era “salobra” e os pipeiros vendiam em
pipas. O sonho de Santa Maria era ter água e esgoto encanado. Resultado: o Intendente
(prefeito) Manuel Ribas comprou a parada” e abriu as “valetas” na cidade, e com isso,
explodiu. Como Santa Maria era uma cidade de poucos sobrados, devido a este problema
da água a cidade cresceu no final da década de 20.
Em 1934, Salvador viu que a renda estava boa, fazia féria de 1conto de réis, e
falou com Sr. Andrade: “Vamos abrir uma filial”. E como o Sr. Andrade havia sido
anos atrás, caixeiro-viajante (SUCV), eles acolheram o térreo (aluguel) e a féria dobrou e
começou a vender muito mais que a matriz. Em 1940, em 6 anos, e nisso a Eny, começou a
vender sapatos finos e fez com que resultasse a tomada da freguesia da Casa São Paulo.
Em 1935 me formei e aos sábados e quartas, eu trabalhava na loja. E eu gostava de
estudar, queria medicina, e tinha, fui fazer o pré em Porto Alegre. O Salvador disse que me
ajudava e não era verdade, quem me ajudou foi o João Gabriel, de vez em quando o meu
outro iro Chico. Mas quando voltei em 1937, disse para o meu pai que não iria estudar
medicina, porque o custo do curso era muito caro. E o meu pai me dava todo o seu salário
de agente metereológico. E quando voltei pra Santa Maria, abriu o prédio para farmácia e
cursei dois anos incompletos. E enquanto eu estudava pela manhã, de tarde eu trabalhava
nas Casas Eny e ganhava 150 mil por mês. E de noite lecionava em um curso noturno e
ganhava 300 mil por mês, algo em torno de 600 reais hoje.
E quando eu ia trabalhar à tarde, vendi, olha peguei um eleitorado, principalmente,
feminino. E em 1939, Salvador perguntou-me e não gostava de entrar de sócio na loja e de
dar uma porcentagem no final e mas 2000 e no final do ano já ganhava uma “bolada”, e o
João Gabriel na filial, e o Carlo na loja Sueli.
87
ANEXO 5
Entrevista com Eduardo Isaia
84
Dados biográficos
Nome: Eduardo Isaia
Data de nascimento: 26 de novembro de 1954.
Local: Santa Maria
Profissão: Empresário
Cargo na empresa: Diretor – Departamento Pessoal
Ingressou em 1975
1. Quando começaste a trabalhar?
Eu comecei em 1975 no depósito (3 meses), e quatro anos de vendedor na loja
Infanto-juvenil. E, depois precisavam de alguém que cuidasse das obras da empresa. Então
eu deixei de ser vendedor e fui ser vendedor geral, do pai (Carlo). Naquela época se
comprou onde é a Eny Boutique e hoje a Coprobel. Então ali, foi a primeira obra que
coordenei e as futuras reformas. E nesse meio tempo comecei a viajar com Sr. Salvador
Isaia. E em 1992, a parte que o Salvador comprava, o Rafael e eu dividimos.
2. Ingressou na loja...
Eu terminei o segundo grau, e não passei no vestibular e fui falar com o Sr.
Salvador, e naquela época, tinha restrição. E o Sr. Salvador, para surpresa minha, atendeu
prontamente. E aí eu comecei.
3. Quem te ajudou, influenciaram nos teus primeiros anos?
84
Entrevista realizada pelo autor em dezembro de 2003. Foi concedida pelo entrevistado nos escritórios da
Eny Calçados e devidamente documentada.
88
Na época foi o gerente da loja, o seu Valdir. Hoje o gerente tem essa função. Mas
na verdade, desde pequeno eu vinha trabalhar no Natal e estas coisas eu sabia (...) Eu e o
Rafael. Quando passei de vendedor para as obras o pai passou para servidor.
4. E as viagens?
Eu comecei a viajar entre 1985-1986 e depois revezávamos Rafael e eu.
5. Como era o contato com os fornecedores, vendedores, com o Sr. Salvador?
Nos negócios, ele tinha uma negociação envolvente. Ele tinha uma amizade com os
fornecedores e aí todos os fornecedores se deram bem. Salvador era uma pessoa muita
aberta, muito franca e honesta. E até hoje é considerada, e graças a isso, uma empresa
séria, uma empresa honesta. É uma raridade em nosso meio. Hoje é comum, empresa não
dá certo. A negociação é muito boa, ele era um negociador impressionante.
6. E as amizades?
Ele tinha rios amigos como fornecedores, tinha mais amizade e isto fugia do lado
comercial. Tudo o que ele fazia é impressionante, para chegar aonde ele chegou, eu
aprendi muito com ele. O Sr. Salvador tinha uma característica. Ele ensinava sem dizer.
Nunca ele disse: Olha faz assim”. Mas também eu sempre fui muito observador, e
observei tudo o que aplico hoje, vem dessa observação. A gente ia evoluindo, mas a base a
essência é a mesma. Aprendi os materiais, os defeitos dos calçados, formas, bom ele nunca
me disse, mas eu continuo, observando e isso, esses dados técnicos, aprendi com ele e fui
aperfeiçoando. E isso hoje, vale muito para mim, muito para empresa, porque, hoje o
fabricante quando lança um produto me chama para ir lá e com isso a empresa, não
ganha na parte comercial. E esse olhar clínico, aprendi com ele. (Salvador).
7. Sapato ?
A evolução do calçado masculino pé uma coisa impressionante. Eu digo, hoje, mais
confortável do mundo. Porque houve uma preocupação: o homem exigiu conforto. Porque
antigamente, o homem comprava o sapato, usava-o um pouco, guardava e depois o usava
89
novamente. Ia “amaciando o sapato”. Hoje, o homem não se pode dar este luxo, a situação
financeira o permite. Antigamente o homem possuía cinco ou seis pares de sapato
confortável e moderno. Se formos analisar, por exemplo, o sapato italiano, tem um designe
arrojado, mas ele é um sapato desconfortável, um sapato muito duro. Resultado: tu não
agüentas meio dia com ele nos pés. o sapato brasileiro, hoje, tem suas restrições em
função da moda. Salto mais alto bico fino...mas tem, um segmento que é o calçado
moderno e confortável, porque é uma coisa lógica. Sapato tem que ser confortável. Essa é a
solução.
8. E a relação de trabalho com o pai (Carlo) e os demais familiares na
empresa?
Para mim, digo a nossa empresa é uma empresa familiar. Mas, embora não com
uma característica de empresa familiar. O que é hoje uma Empresa Familiar? É uma
empresa que começa a colocar toda a família para dentro. Tinha-se capacidade ou o, por
circunstâncias.... então ela começa a desestruturar-se por , depois tem muita gente da
família que só sobrevive na empresa. E esse é o retrospecto das empresas de cunho familiar
que não deram certo. A nossa empresa é familiar. que isto não é um pré-requisito para
entrar. E te digo é mais fácil um não familiar entrar na empresa, do que um familiar. E
porque familiar e não agir como tal? O nosso relacionamento aqui, é muito bom, porque é
extremamente profissional. Agimos e tratamos com parentes, com uma visão profissional.
9. E os projetos futuros?
A gente está sempre projetando algo. Mas sabemos que estamos em um momento,
que economicamente é difícil. Hoje o poder de compra do brasileiro está defasado. A mídia
é mais exigente, o progresso, a Internet, a pessoa gosta de lazer e diversão. E parte do
salário vai para isto. abrimos lojas em Santa Cruz do Sul e Porto Alegre. E a previsão é
de abrir mais franquias em Porto Alegre. E Santa Maria é muito boa. Projetos tem. E nos
temos certeza, que a tendência do poder de compra: é diminuir. Mas temos em mente, que
precisamos de produto, serviços de atendimento, de variedade de produto e aperfeoar
cada vez mais. Hoje o nosso sistema de estoque, é o nosso; ninguém tem igual. A
preocupação e o sistema que foi desenvolvido por nós, empresário nenhum, empresa
nenhuma faz. E temos em mente que, para tu crescer hoje, vou te dar um exemplo: tu tens
90
que pegar a maior fatia. Não tem crescimento de mercado e tu tens que atrair o consumidor
e pegar a fatia maior para ti.
Então, das condições reais, alguém vai perder, é lógico. Mas não queremos que seja
a gente. E às vezes tu com três lojas, tu cresce mais que cinco ou seis. E tira o proveito
disso, quem atrair o consumidor.
10. Salvador Isaia?
Nunca vi alguém falar mal dele. Conheci ele. Eu sou um admirador dele. Porque
ele transparecia para família a pessoa muito metódica, reservada, fechada, mas ele era de
um coração, impressionante. Ele nunca deixou alguém da família, funcionários mal. Todo
mundo gostava dele. Ele era uma pessoa carismática. Às vezes em uma empresa familiar
quando morre o fundador, empreendedor, o segundo a assumir, falha. Bom, no passado.
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