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Entre a crítica e a paixão:
os discursos do narrador e do protagonista em
Triste fim de Policarpo Quaresma
Por:
MARTA RODRIGUES
Dissertação de Mestrado em Literatura
Brasileira apresentada à Coordenação
dos Cursos de Pós-graduação em Letras
Vernáculas da Universidade Federal do
Rio de Janeiro.
Orientador: Prof. Dr. Wellington de
Almeida Santos.
Faculdade de Letras – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
Rio de Janeiro, 1º semestre de 2007.
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BANCA EXAMINADORA
RODRIGUES, Marta. Entre a crítica e a paixão: os
discursos do narrador e do protagonista em Triste fim
de Policarpo Quaresma. Dissertação de Mestrado em
Letras. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2007.
Dissertação submetida ao corpo docente da Pós-Graduação em Letras Vernáculas da
Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos
requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre.
______________________________________________________________________
Professor Doutor Wellington de Almeida Santos – Orientador
______________________________________________________________________
Professor Doutor Adauri Silva Bastos (UFRJ)
______________________________________________________________________
Professor Doutor Francisco Venceslau dos Santos (UERJ)
______________________________________________________________________
Professor Doutor Alcmeno Bastos (UFRJ) - Suplente
______________________________________________________________________
Professor Doutor Luís Alberto Nogueira Alves (UFRJ) - Suplente
Rio de Janeiro – Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Em _______________________________ de 2007.
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A minha filhota Sofia, a quem amo do “tamanho do
mundo, do universo, do infinito e além...”
A Catarina, que está por chegar, completando de
felicidade a nossa família.
Ao meu marido, Luiz Roberto, por tudo que somos e
construímos juntos.
A minha mãe, Efigênia Gomes Rodrigues, por sua força
vitoriosa.
4
AGRADECIMENTOS
A meu marido, Luiz Roberto Silva Gomes, pelo apoio familiar e intelectual.
A minha filha Sofia Rodrigues Gomes, por ser parte integrante da minha vida,
alegrando nos momentos de tensão.
Ao prof. Dr. Wellington de Almeida Santos, pela (dupla) orientação e amizade
inquestionável.
Ao chefe do Depto. de Língua Portuguesa do Colégio Pedro II, Manoel Almeida, pelo
empenho em garantir um espaço maior em meu tempo para a conclusão desta
dissertação.
Aos professores do Curso de Mestrado, pela contribuição intelectual.
A todas as amigas que ficaram comigo das andanças até o ponto final.
A Silvia Rosa, pela revisão competente e pela amizade generosa.
Ao amigo Edson, sem o qual não haveria “abstract”.
A minha família, simplesmente por existir.
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SINOPSE
Delimitação e discussão a respeito de Realismo e Pré-
Modernismo na literatura como conceito estético e como
estilo de época. O diálogo entre narrador e protagonista: as
tensões discursivas. O humor e a tira como construções
discursivas inseridas em um propósito ficcional. O
contraponto entre o protagonista do romance e os
diferentes personagens.
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RODRIGUES, Marta. Entre a crítica e a paixão: os
discursos do narrador e do protagonista em Triste fim
de Policarpo Quaresma. Dissertação de Mestrado em
Letras. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2007.
RESUMO
Esta dissertação analisa o romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima
Barreto, especialmente a partir do contraste entre as vozes do narrador, em que impera a
razão crítica, e do protagonista, motivada pela paixão nacionalista.
Discutindo os conceitos de Realismo e Pré-Modernismo, tem por objetivo
demonstrar como a obra em questão ultrapassa os limites estreitos dos estilos com os
quais geralmente é vinculada, perpetuando mais do que uma verdade historiográfica,
uma verdade poética.
O narrador confronta, muitas vezes de forma irônica e satírica, os variados
discursos dos personagens que constituem a formação social pós-republicana, a qual
critica. Dessa forma busca evidenciar a positividade do protagonista que, apesar de
constituir-se através de um nacionalismo ufanista, também rejeitado pelo narrador, se
mostra superior aos outros personagens justamente por manter-se fiel às suas
convicções.
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RODRIGUES, Marta. Entre a crítica e a paixão: os
discursos do narrador e do protagonista em Triste fim
de Policarpo Quaresma. Dissertação de Mestrado em
Letras. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2007.
ABSTRACT
This study analyses Lima Barreto’s novel Triste fim de Policarpo Quaresma
particularly considering the contrast between the narrator’s views, in which critical
reasoning prevails, and the main character’s voice, which is moved by his nationalistic
passion.
Addressing the concepts of Realism and Pre-Modernism, this study aims at
showing how the novel goes beyond the narrow boundaries of the literary styles with it
is usually associated. This perpetuates a poetic truth rather than a historical one.
Many times the narrator confronts the characters, who constitute their post-
republican social formation, criticized by the narrator in an ironic and satiric fashion.
Thus, the narrator intends to display the integrity of the main character whose strong
nationalism is also rejected by the narrator. However the main character shows his
superiority to the others for his loyalty to his convictions.
8
SIGLAS
Bruzundangas - Bz
Diário íntimo - DI
Impressões de leitura - IL
Triste fim de Policarpo Quaresma TFPQ
9
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO
2. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DE REALISMO E PRÉ-
MODERNISMO
3. O DISCURSO DO NARRADOR VERSUS O DISCURSO DO
PROTAGONISTA: A RAZÃO VERSUS A PAIXÃO
3.1. Primeira Parte: a formação de um idealista
3.2. Segunda Parte: “As terras eram ferazes”... e ferozes
3.3. Terceira Parte: do cômico ao trágico – o “triste fim” de Policarpo
4. CONCLUSÃO
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
6. BIBLIOGRAFIA
10
eu brasileiro confesso
minha culpa meu pecado
meu sonho desesperado
meu bem guardado segredo
minha aflição
[...]
aqui meu pano de glória
aqui meu laço e cadeia
conheço bem minha história
começa na lua cheia
e termina antes do fim...
(Torquato Neto)
11
1. INTRODUÇÃO
Muito se discute a respeito do conceito de “realismo” na arte e na literatura,
tanto no que diz respeito a sua relação com a noção de mímesis quanto no tocante ao
estilo literário propriamente dito, inscrito em um determinado tempo e contexto.
O que seria, de fato, uma literatura realista? De forma geral, considera-se
literatura realista aquela que retira da realidade circundante a matéria da obra,
elaborando o uma interpretação desse real, mas uma “cópia” do mesmo. A literatura,
dessa forma, mais se aproximará da realidade quanto mais se afastar da presença do
autor / narrador, quanto menos intromissões, opiniões, pontos de vista aparecerem no
texto. Busca-se, nessa perspectiva, uma “fatia da vida”, algo que ocorreria na realidade.
A literatura do Realismo, estilo literário que se manifestou plenamente no século
XIX, também buscava, como proposta estética, essa reprodução do real, especialmente
em uma de suas formas de manifestação: a literatura naturalista. Mas será possível
compor um retrato isento, neutro do real? Se toda representação do real é
necessariamente um recorte do mesmo, portanto uma seleção dos fatos, como encará-la
tal qual uma fotografia?
A questão do conceito de realismo também pode ser problematizada em relação
à chamada literatura pré-modernista. Um dos aspectos destacados pela crítica a respeito
das obras produzidas nas duas primeiras décadas do século XX é o seu caráter de
denúncia social, de registro da realidade, de reconhecimento dos espaços nacionais.
Lima Barreto, nesse contexto, quase sempre teve sua obra associada ao seu momento
histórico-social, sendo mesmo considerado por muitos como um cronista das
12
transformações pelas quais passou o cenário geográfico, político e social do Rio de
Janeiro.
Embora essa filiação seja possível, o se pode esquecer que, especialmente em
Lima Barreto, a realidade era filtrada de acordo com princípios estéticos e ideológicos
bem definidos e defendidos pelo autor em diversas ocasiões. Se, por um lado, não se
pode negar que a realidade pós-Primeira República integra a literatura barretiana, não se
pode negar também que, longe de produzir uma literatura que meramente espelhava a
realidade de sua época, vemos em Triste fim de Policarpo Quaresma, pelas opiniões
escancaradamente debochadas, satíricas e irônicas do narrador, uma avaliação dessa
mesma realidade.
A primeira parte deste trabalho pretende justamente tecer considerações
preliminares acerca dos conceitos de realismo e pré-modernismo e de como o romance
Triste fim de Policarpo Quaresma, ao mesmo tempo em que pode ser associado aos
preceitos estéticos defendidos dentro desses conceitos, supera os mesmos, afastando-se
deles.
A superação se na medida em que, em Triste fim de Policarpo Quaresma,
mais do que um único ponto de vista, atrelado à realidade observável, o que se percebe é
um confronto de vozes que estabelecem visões diferenciadas do real retratado. Esse
confronto é ainda mais significativo quando se observam as posições adotadas pelo
narrador, responsável pela tessitura do texto, pela organização e seleção dos fatos, e as
defendidas pelo protagonista do romance, Policarpo Quaresma. Ao mesmo tempo em
que se confrontam, ambas se complementam em sua diferença para que, a partir dali,
surja uma nova concepção do real.
13
Se a reflexão racional espelha o domínio do que se chama realismo, e este se
cristaliza em uma narrativa que se pretende documental, em Triste Fim de Policarpo
Quaresma, até mesmo aquele que deveria expressá-la, ou seja, o narrador, foge a essa
expectativa. Como explicar a sua ausência de distanciamento, apesar de ele se
apresentar sob a forma do que a convenção crítico-literária consagrou como narrador-
observador, o qual, portanto, encontra-se fora dos acontecimentos e a quem caberia
simplesmente relatar os fatos, sob um foco narrativo externo? Paralelo ao relato dos
fatos, à seqüência dos acontecimentos, o narrador reflete, interpreta personagens e
ações, expõe sentimentos, desmascara não a realidade social mas também a própria
essência da natureza humana, excedendo às suas funções e obrigações ficcionais.
A impressão que se tem é a de que o narrador funciona como uma espécie de
contendedor, pois duela com os sistemas, com os signos sociais instituídos e enraizados
na sociedade. Todo o tempo desafia os discursos cristalizados, os pressupostos do
‘outro’ (que pode ser um personagem, uma organização social, política, alguém que as
represente) por meio de argumentos em contraponto, os quais, polêmicos, visam, em
última instância, destruir justamente aquilo que, tradicionalmente, dentro de um
determinado sistema de valores e convenções, considera-se como verdade.
Analisando o romance em suas três partes, que traçam as sucessivas quedas, os
fracassos e as frustrações de Policarpo até seu anunciado desde o título “triste
fim”, buscamos mostrar que o confronto entre essas duas vozes a do narrador e a do
protagonista — que, por sua vez, se confrontam com outras, é uma estratégia de
enaltecimento de Policarpo.
A ironia, o humor e o escárnio de que o narrador faz uso em diversas ocasiões
em relação a Policarpo seria, ao contrário do que se poderia supor, não uma forma de
14
desmerecimento do protagonista, mas a adoção de uma estratégia narrativa de
valorização. O narrador pode rir do personagem, e convoca o leitor a rir com ele, o
porque pretenda desmerecê-lo, mas para comprovar a tese de que não lugar, não
no contexto pós-republicano, mas no próprio mundo, para sonhadores desajustados
como Policarpo.
15
2. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DE REALISMO E PRÉ-
MODERNISMO
"O mundo aí está, seria absurdo repeti-lo; buscar sua
substância, criá-la de maneira nova, esta é a função da
arte". (Kasimir Edschmid)
Alvo de críticas às vezes um tanto cáusticas, de análises de caráter mais pessoais
que estético-literárias, a obra de Lima Barreto apresenta-se, ainda hoje, nova, não
pelas várias possibilidades de leitura que abrange, mas também pelas posições e
escolhas estéticas que o autor adotou ao dar à sua literatura o objetivo básico de pensar a
realidade em que estava inscrita.
Conforme a crítica costuma assinalar em relação à produção literária do chamado
período pré-moderno, dois aspectos, de certa forma, incorreriam para caracterizá-lo: a
manutenção de tendências conservadoras — no sentido de manter-se vinculado às
produções estéticas vigentes até então, ou seja, “o prolongamento e a estilização dos
[gêneros] cultivados pelos escritores realistas, naturalistas e parnasianos” e o que
Alfredo Bosi caracteriza como “elemento renovador” — o interesse pela realidade
brasileira (BOSI, 1966:12).
Esse interesse, no entanto, fundamentou-se em que tipo de representação do real?
Se há uma “nova consciência das fontes nacionais” (BOSI, 1966:13), a representação do
real também teria sofrido transformações, o que definiria justamente o traço renovador a
que se refere o crítico.
A literatura, sob o ponto de vista de Lima Barreto, tinha de ser militante, com
propostas claras e objetivas e, acima de tudo, devia ter como ideal a sinceridade:
“Sempre achei a condição para obra superior a mais cega e mais absoluta sinceridade”
16
(BARRETO, DI, 1956:125-6). E a que campo pertence o que Lima Barreto chamou de
sinceridade, ao campo da realidade objetiva, factual, ou ao da análise crítica,
contaminada, portanto, pela visão pessoal, subjetiva? A sinceridade a que o autor alude
passa necessariamente pelo filtro da subjetividade, da percepção crítica e por vezes
pessoal dos fatos narrados; ou seja, a realidade é filtrada pela consciência que dela se
tem, representando, portanto, um ponto de vista dentre inúmeros possíveis.
1
Seja nas duras críticas que formulou contra os poderes da República, contra a
politicagem que se desenvolve como um ncer nos meios políticos, seja na sua
oposição às manifestações feministas, Lima Barreto jamais se eximiu de fazer aquilo
que considerava essencial: registrar criticamente seu momento histórico, sem perder, no
entanto, a pessoalidade do discurso. Dessa forma, a sua literatura nunca foi inocente, o
que seus escritos vêm comprovar. Como a realidade não é simplesmente um dado
objetivo, é plurissignificativa, depende do sujeito que a interpreta, ou seja, a análise da
realidade se materializa plenamente na instância do interpretador.
Desse modo, a arte de tendência realista, baseada no conceito de mesis, que
busca alcançar a imitação perfeita do real, elaborada a partir de um processo no qual o
envolvimento emocional é filtrado pela razão para não distorcer a imagem de realidade
ali figurada, conforme preconizado por Émile Zola e mesmo por Gustave Flaubert, o
será exatamente o perfil de construção de realidade adotado por Lima Barreto. Em
outras palavras, a idéia de realismo em literatura, especialmente para os escritores dos
séculos XVIII e XIX, foi um ideal:
1
A sinceridade a que se refere Lima Barreto deve ser compreendida em relação à sua obra. Nesse
contexto, ela é uma explicação necessária para a compreensão de suas propostas artístico-literárias e para
a realização efetiva de seus textos ficcionais. Assim, é a partir desse princípio, visto por nós como um
aspecto positivo em sua obra, embora nem por isso seja um princípio fundamental de qualidade em obras
de outros grandes autores, que compreendemos e analisamos o romance Triste fim de Policarpo
Quaresma.
17
[...] o da representação fiel do real, o do discurso verídico, que
não é um discurso como os outros, mas a perfeição para a qual
todos os discursos devem encaminhar-se; assim, qualquer
revolução literária acontecia em nome de uma representação
ainda mais fiel da “vida”. [grifos nossos] (TODOROV, 1984:9)
Vale lembrar que esse ideal o era perseguido por Lima Barreto, por maior
militância crítico-social que o autor possuísse. Ao contrário do que comumente se
considera uma arte realista, Lima Barreto vai fazer uso da realidade não para promover
sua representação estática, mas para produzir arte, e arte é justamente uma
transfiguração da realidade, absorvida, selecionada, reelaborada pelo olhar do escritor,
como ele mesmo destaca, em Impressões de Leitura (1956, p.73), a propósito de um
autor que exerceu forte influência no Naturalismo: A obra de arte, diz Taine, tem por
fim dizer o que os simples fatos não dizem. Eles estão aí, à mão, para nós fazermos
grandes obras de arte”.
Assim, se um romance como Triste Fim de Policarpo Quaresma se revela o
intrinsecamente ligado à realidade histórica, social e política que retratava, não se pode
reduzir o romance a esse único aspecto e muito menos considerar os fatos ali expostos
como Verdade pura, pois, como destaca Zéraffa (1974, p.16), o “paradoxo do romance
é o paradoxo de qualquer obra de arte: ela é irredutível a uma realidade que contudo
traduz”.
Se a obra de arte deve obedecer ao que o autor denominou de sinceridade, nem
por isso a Verdade da obra de arte se reduz a uma verdade histórico-científica, está
muito além de um mero retrato, fotografia estática de uma realidade. A Verdade poética
que emerge em Triste Fim de Policarpo Quaresma se revela no fato de que a obra não
se inscreve em uma dimensão restrita, mas sim de que eleva os eventos ao nível da
18
universalidade concreta, “do símbolo evocador da autoconsciência humana”, não se
identificando “mecanicamente com a verdade historiográfica” (COUTINHO, 1974:45).
O discurso literário foi durante longo tempo analisado e avaliado segundo
critérios documentais. Na narrativa naturalista, o distanciamento objetual entre criador e
criação, embalado pela euforia positivista e determinista, transformou o artista em
cientista. Émile Zola chega ao requinte de tomar para a literatura o rótulo de Ciência,
baseando seu manifesto na Introdução ao estudo da medicina experimental, de Claude
Bernard. É o que Zola nos adverte no início de seu O Romance Experimental:
Farei aqui tão-somente um trabalho de adaptação, pois o
método experimental foi estabelecido com uma força e uma
clareza maravilhosas por Claude Bernard em sua “Introdução ao
Estudo da Medicina Experimental”. Este livro, de um cientista
cuja autoridade é decisiva, vai servir-me de base sólida. (...) No
mais das vezes, bastará substituir a palavra médico” pela
palavra “romancista”. (ZOLA, 1982:25)
Ao analisarmos a obra literária, no entanto, o que vemos geralmente é a mistura
de elementos ficcionais e dados da realidade objetiva. Há, assim, uma contaminação da
realidade, mas na sua representação artística entra tanto aquilo que se sabe como o que
se pensa que sabe e também aquilo que se deseja, conforme destacou Luiz Costa Lima:
[...] o discurso literário não se apresenta como prova,
documento, testemunho do que houve, porquanto o que nele
está se mescla com o que poderia ter havido; o que nele se
combina com o desejo do que estivesse; e que por isso passa a
haver e estar. (LIMA, 1986:195)
O conceito reduzido de realismo como uma reprodução da realidade não
conta das grandes obras de tradição realista em seu sentido mais abrangente. O realismo
deve ser compreendido em Triste Fim de Policarpo Quaresma como conceito de
19
universalidade estética, reside na busca da “verdade estético-humana”; nele temos não a
verdade documental, mas a “figuração romanesca do real”, que lhe as dimensões
humana e universal necessárias às grandes obras de arte (COUTINHO, 1974:28).
A grande literatura não trabalha simplesmente com representação de ações, é
fruto de reflexões e emoções. A reflexão racional e a emoção são o conhecimento
humano de forma global. Mais do que simplesmente reproduzir ou ser um reflexo da
realidade histórico-social de sua época, o que Lima Barreto faz é colocar em crise os
valores de sua época, transformando realidade em ficção, visto que toda realidade,
especialmente a mediada pela escritura, é construída e, assim, o que parece passa a ser e
a existir. A realidade não é dada, é criada pelas múltiplas percepções que se tem do real.
Por isso, a idéia de realidade objetiva pode ser, de certa forma, considerada uma
mistificação, porque em seu bojo há um recorte subjetivo.
Nesse sentido, em Triste Fim de Policarpo Quaresma, o embate entre a voz do
protagonista do romance, Policarpo Quaresma, e a do narrador dão bem a dimensão do
que Costa Lima afirma sobre o discurso literário, sobre aquilo que efetivamente, o
que poderia ter havido e o que se deseja, e como o discurso ficcional pode transformar o
que se deseja em realidade ficcional.
20
3. O DISCURSO DO NARRADOR VERSUS O DISCURSO DO
PROTAGONISTA: A RAZÃO VERSUS A PAIXÃO
Pode-se perceber, a todo tempo, em TFPQ, a articulação de duas vozes, a do
narrador e a do protagonista, que, em certos aspectos, se antagonizam. Enquanto
Policarpo defende um nacionalismo ufanista, enciclopédico e, em larga medida, oficial,
tanto através do recurso do discurso direto, que explicita a sua fala, sem intermediações,
quanto da representação de suas idéias e pensamentos revelados pela voz do narrador, a
quem cabe costurar o texto, expondo pensamentos e emoções, a voz do narrador
(narrador este longe de se apresentar como um mero observador dos fatos), imperiosa,
debocha, ironiza e destrona o discurso utópico.
Mas em quem estaria a verdade? A verdade depende do ponto de vista adotado,
pois não é única. Se duas pretensas verdades (a de Policarpo e a do narrador) que se
sobrepõem na narrativa, outras se insinuam através de outros personagens. Logo, a
narrativa alimenta-se da realidade externa, mas esta passa a constituir um outro espaço,
o da ficção.
Importante assinalar que o discurso do narrador quase sempre se reveste de um
teor irônico, debochado, sarcástico e, conforme apontado por grande parte da crítica,
satírico.
A ironia e a sátira, na verdade, caminham em paralelo em TFPQ.
Compreendendo que, no século XX, a “[...] velha definição de ironia dizer uma coisa
e dar a entender o contrário é substituída; a ironia é dizer alguma coisa de uma forma
que ative não uma mas uma série infindável de interpretações subversivas” (MUECKE,
1995 apud MARINS, 2004:7), pode-se perceber que, na verdade, a sátira é um dos
21
caminhos de atuação da ironia. Segundo Northrop Frye, a principal distinção entre
ironia e sátira é que a sátira é a ironia militante: suas normas morais são relativamente
claras, e aceita critérios de acordo com os quais são medidos o grotesco e o absurdo”
(FRYE, 1973 apud MARINS, 2004:7,40). É dentro dessa delimitação que os termos
ironia e sátira serão quase sempre utilizados ao longo da análise do romance TFPQ. A
sátira será a expressão de uma ironia militante que visa, em última instância, desnudar
os mecanismos de formação do caráter do protagonista para que, em oposição à voz
crítica do narrador, se evidencie a impossibilidade de realização de um discurso
nacionalista ufanista em uma sociedade baseada em critérios de interesses pessoais. Se o
confronto resulta em riso, escamoteia, por sua vez, o amargor de uma trajetória inglória,
levando o leitor a uma reflexão crítica, conforme assinala Sônia Brayner:
A arte do satirista é uma arte de persuasão e a persuasão é a
principal função da retórica. O escritor satírico está sempre
intencionalmente armado para excitar seu público a admirar ou
desprezar, a rever suas posições habituais, a desvendar a face
escura dos conceitos, a modificar suas opiniões políticas,
religiosas, filosóficas. [...] (BRAYNER, 1979:162)
Desse modo, o riso, o humor, a ironia, a sátira serão estratégias discursivas
utilizadas na construção ficcional, através da voz do narrador, para desnudar a
“falsidade do sistema de relações humanas em suas manobras de funcionamento” e,
assim, comprovar a positividade do protagonista em meio à sociedade em que se insere
(BRAYNER, 1979:161).
3.1. Primeira Parte: a formação de um idealista
22
Policarpo sustenta seu nacionalismo através da leitura e o defende em um
processo quase científico (dentro de um perfil próximo ao naturalista), conforme conclui
o narrador; no entanto, os juízos de valor emitidos por esse mesmo narrador a respeito
das tendências patrióticas de Policarpo revelam a tensão existente entre as duas visões
de mundo que se opõem, como pode ser comprovado no confronto entre os dois
fragmentos abaixo, ambos expressos pelo narrador:
[...] o que o patriotismo o fez pensar [Policarpo], foi num
conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre
os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as
medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa. (“A
lição de violão”, p. 17)
[Policarpo] Defendia com azedume e paixão a proeminência do
Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia
até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo [...] (“A
lição de violão”,
p. 18
) [grifos nossos]
É possível observar que a tentativa de imprimir ao espírito nacionalista de
Policarpo um caráter minimamente racional, científico, entra em conflito com o “crime”
que ele comete para defender sua posição. Dessa forma, a visão da verdade fica cindida
entre personagem e narrador, este revelando a mentira” por trás da suposta
objetividade pretendida por aquele.
Esse pseudocientificismo e racionalismo de Policarpo é retratado ao longo da
primeira parte do romance, sedimentando a caracterização que se deseja fazer do
personagem. Ele serve a um propósito específico: levar o leitor a criar uma imagem do
protagonista para, posteriormente, comprovar a vacuidade de sua constituição. O fato de
sermos levados a rir do personagem junto com o narrador nesse primeiro momento o
impede que esse mesmo narrador nos enterneça, através de sua construção discursiva,
23
com os sucessivos fracassos pelos quais passa o personagem, pois, conforme afirma
Sônia Brayner, [...] O riso e a amargura dorida são os extremos que se tocam na obra
de Lima Barreto” (BRAYNER, 1979:157).
A complexidade de uma obra literária como TFPQ reside no fato de que ela se
articula tanto através da razão cínica e crítica do narrador quanto da paixão do
personagem que a protagoniza. Embora o nacionalismo de Policarpo, elemento central
da narrativa, por exemplo, seja identificado e criticado pelo narrador por seu caráter
utópico, esse patriotismo jamais parece ao leitor inverossímil ou mesmo simplesmente
como um elemento sujeito à galhofa, ao desdém, e isso se deve, em grande parte, ao fato
de que a paixão de Policarpo é plenamente traduzida e realizada através do mesmo
narrador que a contesta. Isso é possível porque, em vários momentos, o narrador narra
não sob o seu ponto de vista, mas sim sob o ponto de vista do personagem, traduzindo
seus sentimentos e emoções. Assim, o a supremacia absoluta da voz crítica, do
relato consciente e objetivo, também a voz do outro, e é exatamente o deslocamento
do ponto de vista do narrador para o personagem que empresta ao texto a sua carga
dramática, fazendo-nos compadecer do triste fim, do triste destino que se delineia desde
o começo.
Ao caracterizar o ufanismo de Policarpo, em “A lição de violão”, percebe-se que
o narrador não expõe os elementos que solidificam a formação do personagem como
também demonstra a seriedade que o tema pátrio tem em sua vida. É possível afirmar
que um respeito pelas convicções que motivam o personagem, mesmo que, para o
narrador, elas sejam desprovidas de valor concreto, porque integram um ideal de pátria
e, como tal, pouco se aproximam do real.
24
[...] Policarpo era patriota. Desde moço, pelos vinte anos, o
amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum,
palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente.
(“A lição de violão”, p. 17) [grifos nossos]
Não espaço para se contestar o sentimento patriótico de Quaresma, para se
duvidar de sua legitimidade, o que pode ser comprovado pela seleção de adjetivos que o
caracterizam, “sério, grave e absorvente”, em oposição ao que seria, de fato, um
sentimento a ser criticado, a um nacionalismo falso, comum, palrador e vazio”; é
assim que o narrador constrói o arcabouço de uma figura incompreendida. Se o
narrador, ao longo da história, iironizar, satirizar, debochar dos excessos trios de
Policarpo, é porque, instituído de seu poder e estatuto na trama ficcional, a ele cabe o
papel de efetuar uma reflexão crítica não só do protagonista mas de todos aqueles que o
condenam, direta ou indiretamente, à marginalidade.
No mesmo capítulo, “A lição de violão”, a oposição entre a visão do narrador
em relação ao país, metonimicamente representado através da caracterização do jardim
de Policarpo, e a do personagem se comprova através da escolha lexical, mais
especificamente dos adjetivos selecionados. A estrutura discursiva apresenta uma
sobreposição das impressões do narrador com as de Policarpo, a qual se evidencia
através de uma contraposição semântica, demonstrada pela utilização de adjetivos de
valor positivo, refletindo a perspectiva de Policarpo, e de valor negativo, associados à
perspectiva do narrador. A oposição dos pontos de vista é ainda mais acentuada pela
utilização irônica das reticências como elemento de ênfase às críticas do narrador.
Acabado o jantar [Policarpo, Adelaide e Ricardo] foram ver o
jardim. Era uma maravilha; não tinha nem uma flor...
Certamente não se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade,
palmas-de-santa-rita, quaresmas lutulentas, manacás
25
melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e
prados. [...] (“A lição de violão”, p. 24) [grifos nossos]
No segundo capítulo da primeira parte do romance, “Reformas radicais”, o
major Quaresma encontra-se em pleno período de frutificação de suas idéias
nacionalistas. O narrador reforça a composição patriótica do personagem novamente
através do uso anafórico de advérbios de intensidade, do uso de adjetivos, que
funcionam como uma estratégia hiperbólica de construção positiva da imagem do país:
[O Brasil] Tinha todos os climas, todos os frutos, todos os
minerais e animais úteis, as melhores terras de cultura, a gente
mais valente, mais hospitaleira, mais inteligente e mais doce do
mundo [...] (“Reformas radicais”, p.30) [grifos nossos]
Ainda assim, desde o início do capítulo, anuncia-se o que o título avisa de
antemão aos leitores: não há possibilidade de um final feliz para o personagem tendo ele
uma visão tão fantasiosa da realidade. O que o narrador coloca em xeque a todo
momento não é a veracidade dos sentimentos de Policarpo, mas sim a sua possibilidade
de realização em um mundo em que os interesses pessoais se sobrepõem aos interesses
coletivos. Desse modo, no início do capítulo, a aparente tranqüilidade do espaço físico,
antes de ser uma demonstração real de calma, prenuncia os tumultos que virão: “[...] Na
sua meiga e sossegada casa de S. Cristóvão[...]” (“Reformas radicais”, p. 29) [grifos
nossos].
Essa estratégia de compor uma caracterização positiva do ambiente em
contraponto ao que se encontrará na narrativa do ponto de vista dos eventos é constante
em todo o romance. O leitor é levado a desacreditar das descrições favoráveis feitas
porque, ao longo do texto, elas se mostram pistas falsas; quase sempre quando um
ambiente sico harmonizado é porque haverá uma desarmonia pessoal para o
26
protagonista. Essa desarmonia aparece, nesse primeiro momento, sob a forma de uma
necessidade do personagem de reagir frente à perda das tradições, após tentativa
infrutífera de resgatar aspectos da cultura afro-brasileira com tia Maria Rita:
[...] Como é que o povo não guardava as tradições de trinta anos
passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os
seus folgares e as suas canções? Era bem um sinal de fraqueza,
uma demonstração de inferioridade diante daqueles povos
tenazes que os guardam durante séculos! [...] (“Reformas
radicais”, p. 35)
É interessante observar que os dois primeiros períodos em que se encontram
as perguntas, os questionamentos, quase retóricos parecem, através do uso do
discurso indireto livre, vir de reflexões de Quaresma. No entanto, a avaliação, a opinião
negativa que segue parece mais adequada ao narrador do que ao ufanista Policarpo. As
“vozes”, nesse caso, se misturam; uma estrutura reflexiva: ao mesmo tempo em que
o narrador reflete o pensamento do personagem e o traduz, emite sobre ele um
julgamento, uma conclusão que rebate a perplexidade de Quaresma, por meio de uma
constatação quase que óbvia da inferioridade pátria em relação aos outros povos.
É a partir desse momento que o trágico destino de Policarpo começa a se
delinear, através de seu desejo de reação, que será um traço característico de seu
processo de sucessivos fracassos; é a sua vontade de sair do conhecimento livresco para
a ação que determina a sua trajetória em direção ao seu “triste fim”: “[...] Tornava-se
preciso reagir, desenvolver o culto das tradições, mantê-las sempre vivazes nas
memórias e nos costumes...” (“Reformas radicais”, p. 35).
Policarpo não é um medíocre, embora sustente suas opiniões em idéias
medíocres, porque cristalizadas, fomentadas em seu escritório, à base de leituras que
desejavam transmitir uma idéia de pátria perfeita, a que ele deseja. É essa ausência de
27
mediocridade que o torna não um personagem que simplesmente é subjugado pelos
acontecimentos, mas sim alguém que determina o seu destino através de uma série de
ações.
O desejo de manutenção de nossas tradições leva-o a resgatar o costume da
saudação em Tupinambá, resultado de um estudo das suas tradições por Policarpo. Tal
atitude, representada pelo narrador de forma satírica, ridícula, cômica até, contraria a
austeridade, a seriedade de Policarpo e, por isso mesmo, intensifica a sua tragicidade,
levando outros a questionarem pela primeira vez a sanidade do personagem:
Desde dez dias que se entregava a essa árdua tarefa, quando (era
domingo) lhe bateram à porta, em meio de seu trabalho [os
estudos]. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a
berrar, a arrancar os cabelos, como se tivesse perdido a mulher
ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastácio também, e
o compadre e a filha, pois eram eles, ficaram estupefatos no
limiar da porta. (“Reformas radicais”, p. 39)
O retrato cômico, satírico de Policarpo ganha aqui em humor por ele fazer a
estranha saudação a sério, e não em uma brincadeira, como na representação do
“Tangolomango”. A encenação da saudação destoa do perfil sério do personagem,
intensificando o risível retratado, exemplicando o que Sônia Brayner afirma a respeito
do papel da sátira na obra de Lima Barreto:
A sátira em Lima Barreto possui um conteúdo que, pelo seu
lado hiperbólico, extremado, excessivo, cai no grotesco,
suportando implicitamente o reconhecimento de uma norma
ética, utópica no estado social cotidiano que descreve, suporte
básico de sua fatura literária militante. [...] próximas sempre do
cômico, as situações de confronto entre duas formas de
sociedade — a vivenciada e a idealizada — atacam com o
objetivo de corrigir através do desnudamento ridículo as normas
preconceituosas e rígidas. (BRAYNER, 1979:157)
28
O inocente evento do cumprimento em Tupinambá, associado à idéia fixa da
necessidade de fazer algo pelo resgate das origens culturais, é que leva Policarpo a uma
sucessão de atitudes que culminam em seu enlouquecimento e sua conseqüente
internação. Nesse momento, a simpatia do narrador pelo personagem se evidencia, o
tom de galhofa cede espaço a uma respeitosa admiração, embora as diferenças de ponto
de vista se mantenham. Não lugar para a inocência no discurso engajado e crítico do
narrador, a quem nada nem ninguém escapa, a não ser os poucos personagens por quem
nutre algum tipo de enternecimento (como Policarpo ou Ricardo Coração dos Outros)
ou alguma semelhança de perspectiva (como Olga), como se vê a propósito do
requerimento de Policarpo solicitando a implementação do tupi como língua oficial:
Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de
esforço, de trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia
de sentir uma penosa tristeza, ouvindo aquele rir inofensivo
diante dela. Merecia raiva, ódio, um deboche de inimigo talvez,
o documento que chegava à mesa da Câmara, mas não aquele
recebimento hilárico, de uma hilaridade inocente, sem fundo
algum, assim como se se estivesse a rir de uma palhaçada, de
uma sorte de circo de cavalinhos ou de uma careta de clown.
(“Desastrosas conseqüências de um requerimento”, p. 61)
O narrador, a despeito de não partilhar das opiniões de Policarpo, toma
claramente partido do personagem, destaca o seu esforço, o seu trabalho, o seu “sonho
generoso e desinteressado”, em um mundo em que a o riso é de uma “hilaridade
inocente”, porque vindo de pessoas incapazes de analisar profundamente o que quer que
seja. A oposição aos ideais do major seria aceitável se fosse sustentada por argumentos
de pessoas respeitáveis, íntegras como o próprio personagem. Apesar de o próprio
narrador discordar da mentalidade patriótica do personagem e permitir que o leitor
partilhe de sua opinião, como se fosse alguém que também possuísse estofo moral para
29
avaliar Policarpo da mesma forma que ele, o admite o desrespeito daqueles por quem
nutre aversão, dos representantes públicos do poder, a quem critica duramente durante
toda a narrativa.
Embora dele discorde, o narrador admira o espiríto de Quaresma, o que se
expressa no uso dos adjetivos com que o caracteriza: “desinteressado, terno, ingênuo,
inocente”. Revela-se aí, e em vários outros momentos, a relação ambígua, contraditória
que entre narrador e personagem: embora o satirize, vista-o com as cores da
comicidade, até o ridicularize, o narrador não deixa de ter simpatia, ternura e admiração
pelo nacionalismo sincero e livre de ambições de Policarpo. Mesmo porque, se o
narrador não se coloca a favor do posicionamento utópico de Quaresma, coloca-se
menos ainda a favor do status quo; na verdade, empreende uma crítica às duas posturas,
conforme destaca Silviano Santiago (1982:172):
[...] se o romance faz uma crítica violenta às forças que
impedem o desabrochar das idéias de Policarpo, por outro lado
traz ele também [...] uma crítica à noção idealizante de pátria
que Policarpo tenta pôr em prática. [...]
Assim, o fato de Policarpo pecar por excesso de ingenuidade não desmerece a
sua luta. Na verdade, ao ser a consciência crítica dessa ingenuidade, o narrador nos
mostra a impossibilidade da sinceridade em um mundo de egoísmo e interesses,
destacando, assim, que melhor seria o mundo se houvesse mais policarpos e menos
“inocentes” arrogantes. Isso se evidencia no trecho em que, após a internação do major
Quaresma, o narrador reflete a respeito da loucura que acometeu o personagem, a partir
de considerações feitas por Olga:
“[...] as portas dos nossos infernos sociais [...] Não é a morte
30
que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam também a
sua rasoura pelas distinções que inventamos” (“O bibelot”,
p.77) [grifos nossos]
Nesse momento, o narrador se assume como um tradutor dos pensamentos de
Olga e, de certa forma, usa a personagem para marcar posições que ele mesmo defende.
Daí muitas vezes haver uma intersecção de vozes, indicada pelo uso da pessoa do
plural, que inclui não o narrador como elemento que possui uma visão comum à
apresentada, mas também o leitor, levando-o a uma reflexão crítica. Essa intersecção
não permite que se defina, que se limite a quem pertencem as reflexões feitas:
E ela [Olga] pensava como esta nossa vida é variada e diversa,
como ela é mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como
na variedade da vida a tristeza pode mais variar que a alegria e
como que dá o próprio movimento da vida. (“O bibelot”, p. 78)
[grifos nossos]
Essa estratégia de intersecção de vozes é utilizada ao longo da narrativa,
especialmente como elemento de contraposição entre os discursos do narrador e o de
outros personagens. Como afirma José Luiz Fiorin (2004:80), todo discurso apresenta
mais de uma visão de mundo, dependendo de quantos pontos de vista forem
apresentados:
[...] todo discurso desvela uma ou várias visões de mundo
existentes numa formação social. [...]
Quando o discurso tem, em seu interior, um único
enunciador, revela apenas uma visão de mundo. [...] No
entanto, num romance vários enunciadores de segundo grau
(personagens) a quem o narrador delega voz. Essas
personagens podem manifestar diferentes visões de mundo. [...]
Além das diferentes visões de mundo apresentadas pelos
personagens, o narrador pode ou não tomar partido por uma das
ideologias reveladas na obra. [...]
31
Em TFPQ, pontos de vista diferentes e conflitantes são mostrados com o
propósito de evidenciar a positividade do protagonista e a postura sempre crítica do
narrador, que não toma partido por nenhuma ideologia.
3.2. Segunda Parte: “As terras são ferazes”... e ferozes
No primeiro capítulo da segunda parte do romance, que determina uma mudança
importante na narrativa, a estratégia irônica de construção do real, no sentido que ironia
adquire como modo de exprimir-se que consiste em dizer o contrário daquilo que se
está pensando ou sentindo, [...] com intenção depreciativa ou sarcástica em relação a
outrem” (FERREIRA, 1986:969) se apresenta no título do capítulo: “No ‘Sossego’”.
Ao se destacar o termo sossego, colocando-o entre aspas, cria-se uma ambigüidade, pois
as aspas podem ser interpretadas como um elemento para enfatizar o substantivo
próprio, fazendo-lhe uma distinção do que poderia ser compreendido como locução
adverbial de modo, uma vez que o uso de maiúscula no início da palavra poderia não
ser suficiente, ou para relativizar o sossego” que se teria, para colocar sob suspeita, no
leitor, a possibilidade de se alcançar o “sossego” pretendido.
O narrador abre o capítulo marcando o deslocamento espacial ocorrido: sai-se do
espaço urbano para o espaço rural, da casa da cidade para o sossego do sítio, onde
Policarpo encontraria a paz não encontrada na cidade, onde a loucura o acometera.
Os dois primeiros parágrafos fazem a descrição sica do espaço do sítio
“Sossego”, ao mesmo tempo em que são disseminadas avaliações do narrador a respeito
do local:
32
Não era feio o lugar mas não era belo. Tinha, entretanto, o
aspecto tranqüilo e satisfeito de quem se julga bem com sua
sorte.
[...] um regato de águas paradas e sujas cortava-a [...] A
habitação [...] era também risonha e graciosa nos seus muros
caiados. Edificada com a desoladora indigência arquitetônica
das nossas casas de campo [...] (“No ‘Sossego’”, p. 89) [grifos
nossos]
Observe que, a cada aspecto negativo destacado pelo narrador, segue algo
positivo em contraposição; é como se, à visão do narrador, se contrapusesse a visão de
Policarpo. uma espécie de mistura de impressões e de vozes, mistura essa que será
ainda mais destacada no momento em que o narrador passa a avaliar o que fora a
internação de Policarpo, explicando os motivos da mudança espacial efetuada,
informando-nos de fatos dos quais não tínhamos conhecimento anteriormente:
Não havia três meses que viera habitar aquela casa,
naquele ermo lugar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro,
após ter passado seis meses no hospício da Praia das Saudades.
Saíra curado? Quem sabe lá? Parecia; não delirava e os seus
gestos e propósitos eram de homem comum embora, sob tal
aparência, se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de
todo, não se dirá a loucura, mas o sonho que cevara durante
tantos anos.[...]
Saiu o major mais triste do que vivera toda a vida. De
todas as cousas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a
loucura; é a mais depressora e pungente. (“No ‘Sossego’”, p.
89-90) [grifos nossos]
Ao mesmo tempo em que o narrador avalia o resultado da internação sobre o
major, destacando, inclusive, o fato de que idéias e sonhos não podem ser abandonados
o que antecipa, sutilmente, o que está ainda por vir —, parece também utilizar o
discurso indireto livre, tornando um pouco seu o pensamento do major, o que é
reforçado no parágrafo seguinte quando, mais uma vez, o narrador, usando a pessoa
do plural, coloca-se como um personagem do palco de seu mundo ficcional:
33
Aquela continuação da nossa vida tal e qual, como um
desarranjo imperceptível, mas profundo e quase sempre
insondável, que a inutiliza inteiramente, faz pensar em alguma
cousa mais forte que nós, que nos guia, que nos impele e em
cujas mãos somos simples joguetes. [...] (“No ‘Sossego’”, p.
90) [grifos nossos]
Ao se colocar na narrativa, o narrador desconstrói o princípio realista da suposta
neutralidade discursiva; o que se fala é uma avaliação da realidade tão altamente
subjetiva que o narrador a personaliza ao se comprometer explicitamente com o ponto
de vista expresso, quando a torna também sua.
A idéia da mudança para o sítio, feita pela afilhada Olga com o intuito de afastar
Policarpo dos elementos que fomentaram sua loucura, em vez de livrá-lo de suas manias
patrióticas, acaba por reacendê-las, agora associadas à fertilidade da terra brasileira. O
mesmo tom hiperbólico que caracterizava o personagem no início da narrativa é
retomado: “[...] A nossa terra tem os terrenos mais férteis [...]” (“No ‘Sossego’”, p. 91)
[grifos nossos].
O narrador debochadamente, galhofamente acentua as tendências nacionalistas
de Policarpo, manias facilmente ateáveis no espírito do major, ao assimilar lexicalmente
a idéia que “cai à cabeça de Policarpo” pelo uso, por contaminação semântica, do verbo
“germinar”, associado à terra e ao desenvolvimento da idéia do sítio para Policarpo:
A idéia caiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava
amanhado e esperava uma boa semente. Não lhe voltou a
alegria que jamais teve, mas a taciturnidade foi-se com o
abatimento moral, e veio-lhe a atividade mental cerebrina, por
assim dizer, de outros tempos. Indagou dos preços correntes das
frutas, dos legumes, das batatas, dos aipins; calculou que
cinqüenta laranjeiras, trinta abacateiros, oitenta pessegueiros,
outras árvores frutíferas, além dos abacaxis (que mina!), das
abóboras e outros produtos menos importantes, podiam dar o
rendimento anual de mais de quatro contos, tirando as despesas.
34
[...] (“No ‘Sossego’”, p. 91-92) [grifos nossos]
A idéia “germina” rapidamente na mente de Policarpo, ao contrário do que
efetivamente ocorrerá com as terras, que não germinarão com a mesma facilidade,
levando Policarpo a mais uma de suas decepções. As crenças do personagem aparecem
na voz do narrador que delas debocha porque sabe, detentor que é do conhecimnto
discursivo e senhor de sua ficção, que são fantasias e sonhos a respeito de um país que
não existe. O uso de palavras do mesmo campo semântico, “germinar”, “terreno”,
“semente”, que dão idéia de algo que frutificará, reforça ainda mais o caráter irônico da
construção, porque antecipa a negação do que esses signos lingüísticos representam.
Ao colocar as idéias de Policarpo como fruto de “atividade mental cerebrina”,
sendo, portanto, resultado de um pensamento racionalista, para logo depois retificar essa
suposição com a expressão algo irônica “por assim dizer”, que contesta o que foi dito
anteriormente, destituindo-lhe de seu valor, também se antecipa a frustração seguinte,
mesmo porque o leitor atento percebeu que a atitude do personagem agora nada mais
é do que uma repetição, com outro modelo, de atitudes tomadas no seu passado
patriótico. Se suas outras atitudes levaram ao escárnio, ao riso, à loucura, o que esperar
de uma nova tentativa, baseada em critérios semelhantes?
Os parênteses, utilizados no meio de uma passagem em que há o uso do discurso
indireto livre, discurso, portanto, do personagem, mediado pelo narrador, parece
carregado de positividade: “(que mina!)”, intensificada pelo recurso da exclamação
seria uma “mina” de dinheiro a execução de seus planos agrícolas. Se a oração for
compreendida, no entanto, como uma avaliação do narrador a respeito das
possibilidades de ganho do major com a plantação de frutas, o que é possível justamente
pelo fato de estar ela separada do restante do discurso pelos parênteses, estará
35
contaminada de negatividade, antecipando, mais uma vez, a falência das pretensões de
Policarpo. O personagem faz projetos como um futuro e provável ganhador de loteria,
mas, como quase sempre ocorre com projetos calcados em sonhos e suposições, o que
há ao fim é a triste realidade da frustração.
A ironia, no sentido de sarcasmo e zombaria (FERREIRA, 1986:969), e o
deboche do narrador afloram sempre que Policarpo engata algum projeto nacionalista, o
que ocorrerá em cada uma das três partes que compõem o romance TFPQ. Porém, se o
narrador debocha do patriota, se condói de cada um de seus fracassos, que são
antevistos na construção discursiva justamente pela contraposição e justaposição de
idéias e imagens vinculadas pelo protagonista e pelo narrador:
Ele foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra!
Quatro contos de réis por ano, tirados da terra, facilmente,
docemente, alegremente! Oh! Terra abençoada! [...]
E era agora que ele chegava a essa conclusão, depois de ter
sofrido a miséria da cidade e o emasculamento da repartição
pública, durante tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto
de que não pudesse antes da morte, travar conhecimento com a
doce vida campestre e a feracidade das terras brasileiras.[...]
(“No ‘Sossego’”, p. 93) [grifos nossos]
A visão idílica e idealizada da terra, apresentada através do discurso indireto
livre, é carregada de um aspecto irônico, na intervenção, portanto, do narrador, que
penetra o discurso do personagem, pelo uso excessivo de exclamações, de interjeições,
de adjuntos adverbiais de modo, que acentuam um olhar emocional, subjetivo de uma
realidade que não é de fato conhecida. A construção de uma atmosfera altamente
positiva carrega ainda mais de negatividade o que está por vir, surpreendendo o leitor
ingênuo, que seja incapaz de ler essa construção textual como uma crítica. A seleção
36
lexical associada ao campo aponta para o antagonismo entre a visão idealizada do
personagem e a realidade que será encontrada:
E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras, em flor,
olentes, muito brancas, a se enfileirar pelas encostas das
colinas, como teorias de noivas; os abacateiros, de troncos
rugosos, a sopesar com esforço os grandes pomos verdes; as
jabuticabas negras a estalar dos caules rijos; os abacaxis
coroados que nem reis, recebendo a unção quente do sol; as
abobreiras a se arrastarem com flores carnudas cheias de pólen;
as melancias de um verde tão fixo que parecia pintado; os
pêssegos veludosos, as jacas monstruosas, os jambos, as
mangas capitosas; e dentre tudo aquilo surgia uma linda mulher,
com o regaço cheio de frutos e um dos ombros nu, a lhe sorrir
agradecida, com um imaterial sorriso demorado de deusa — era
Pomona, a deusa dos vérgeis e dos jardins!... (“No ‘Sossego’”,
p. 93-94)
A descrição de futuro agrícola de Policarpo assemelha-se a um delírio, a
aparente possibilidade de realidade futura beira o absurdo. A descrição é
simultaneamente física e metafórica, baseada em uma visão idealizada, em um retrato
romântico da natureza, forte, soberana e ao mesmo tempo suave. O fecho da descrição
nos indica que Quaresma imaginava um quadro, deixando de lado o movimento vivo e
real da paisagem.
A ausência de praticidade de Policarpo é acentuada ironicamente pelo narrador
no confronto que estabelece entre o conhecimento empírico de Anastácio, ex-escravo e
empregado simplório de Quaresma, e os aparatos teoricamente tecnológicos com que se
mune o patrão:
[...] Anastácio que o acompanhara, apelava para as suas
recordações de antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava
os nomes dos indivíduos da mata a Quaresma muito lido e
sabido em cousas brasileiras. (“No ‘Sossego”, p. 94) [grifos
nossos]
37
A ironia do narrador ao referir-se ao sabido” que aprende com um antigo
escravo sem instrução revela a desconfiança do narrador, a qual, por extensão, o leitor
deve ter em relação a tudo que supostamente Quaresma sabe a respeito das “cousas
brasileiras”, porque tudo que ele conhece vem dos