seus pais e antepassados. O mito narra a origem dos factos em forma de
fábulas, resgata os acontecimentos de um passado imemorial para disciplinar e
corrigir alguns comportamentos da vida das pessoas; há casos em que o mito
narra tudo de forma genealógica e há vezes que estabelece rivalidades e
oposições entre forças divinas.
Em oposição a esta forma mítica de interpretar os factos, a filosofia na
antiguidade preocupou-se em explicar, de maneira racional, como e porque, no
passado, no presente e no futuro as coisas são como são. Enquanto que o mito
narra factos inéditos sobre os corpos celestes, por exemplo, a filosofia busca
uma explicação que seja coerente, lógica e racional do surgimento e da
transformação desses seres naturais.
Jaspers (in Logos, 1997, 903) aponta o mito como linguagem de
transcendência, isto é, aquilo que não se consegue construir cientifica e
racionalmente pode ser ressignificado no nível mitológico:
O mito constitui uma história extraordinária que conta o divino, uma
linguagem de transcendência, que pode ser falsa do ponto de vista
científico, mas que é verdadeira como provocação a outro espaço, a
outro mundo e a outra vida, superior e misteriosa.
Segundo Andery (1996), o mito surge da necessidade consciente e
inconsciente que o homem tem de explicar seu meio, seus problemas
desconhecidos. É, assim, um pensamento anterior à reflexão mais crítica, dos
factos e fenômenos. Num primeiro momento o mito não é questionado, não é
objecto de crítica, mas objecto da crença, de fé. O conhecimento filosófico, ao
contrário, põe-se a desenvolver o pensamento objectivo, isto é, o conhecimento
que nos faz ultrapassar as aparências e alcançar a realidade (ibidem).
É deste modo que para Guedes (1997:80) “o conhecimento filosófico
inaugura o primado do pensamento humano. Com ele o mundo passa a ser
bem mais explicado. Tales de Mileto, um dos primeiros filósofos da Gre´cia
antiga foi insistente na colocação da pergunta” Qual é a causa última, o