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Vera Silveira Regert
EM DEFESA DA HERANÇA DE AUSCHWITZ: RELEITURA
DA HISTÓRIA DO HOLOCAUSTO POR MEIO DA
ESCRITURA AUTOBIOGRÁFICA DAS VÍTIMAS
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Letras Mestrado, Área de
Concentração em Leitura e Cognição, Universidade
de Santa Cruz do Sul UNISC, como requisito
parcial para obtenção do título de Mestre em Letras.
Orientador: Prof. Dr. Alba Olmi
Santa Cruz do Sul, março de 2007
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Bibliotecária : Muriel Thürmer CRB 10/1558
2
R333d Regert, Vera Silveira
Em defesa da herança de Auschwitz : releitura da história do holocausto por
meio da escritura autobiográfica das vítimas / Vera Silveira Regert; orientadora, Alba Olmi.
- 2007.
200 p. : il.
Dissertação (mestrado) – Universidade de Santa Cruz do Sul, 2007.
Bibliografia.
1. Holocausto judeu, 1939-1945. 2. Testemunhas. 3. Holocausto
Sobreviventes biografia. 4.Auschwitz (Campo de concentração). 5.Negação do
holocausto. I. Olmi, Alba. II. Universidade de Santa Cruz do Sul. Programa de Pós-
graduação em Letras.
CDD: 940.5318
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COMISSÃO EXAMINADORA
Titulares
Profª. Dr. Alba Olmi – Orientadora
Profª. Dr. Flávia Brocchetto Ramos – UNISC
Profª Dr. Jane Tutikian - UFRGS
3
AGRADECIMENTOS
Esta pesquisa é resultado direto da presença oportuna de várias pessoas em
minha trajetória como aluna e como pessoa.
Dedico-a, primeira e especialmente, à minha companheira de andanças,
professora e orientadora, Dra. Alba Olmi, pelas incontáveis vezes nas quais me
recebeu em sua casa e me pegou pela mão e apontou no horizonte as
possibilidades de leitura, abordagens, caminhos... Todo o meu carinho e
reconhecimento a ela que viveu a empolgação da discussão e a tristeza e
indignação de umas verdades duras que desvendamos.
Aos professores do Mestrado em Letras e ao coordenador do curso, professor
Dr. Norberto Perkoski, saibam o quanto me fizeram feliz nesses dois anos:
satisfação em reencontrá-los e orgulho em tê-los tido como mestres.
Um abraço especial ao amigo e colega de graduação e de mestrado, Romar
Beling, por ter me instigado a conhecer e ler sobre o assunto, por ter partilhado
comigo algumas de suas descobertas, dicas, idéias, indagações, sugestões.
Aos demais colegas do curso: valeram os encontros, as discussões para
amenizar as “angústias dissertativas”, os e-mails, as trocas, os contatos, as
mensagens, as ligações, as jantas, as risadas... Beijos a todos!
À direção, supervisão e professores colegas da Escola Estadual de Ensino
Fundamental Affonso Pedro Rabuske, Santa Cruz do Sul, pelo companheirismo no
período em que estive junto do grupo e pela paciência em escutar as minhas
divagações teóricas: obrigada!
À direção, supervisão e colegas docentes da Escola Estadual de Ensino Médio
Guararapes, Arroio do Meio, por terem novamente me acolhido com tanto carinho,
alegria, respeito e consideração.
Lembrança aos meus queridos alunos da turma do ensino médio da Escola
Guararapes, que abraçaram comigo os trabalhos escritos, os filmes, as
4
apresentações, auxiliando-me e acrescentando às minhas descobertas acerca do
assunto.
Para os amigos todos, aos quais seria impossível listar, obrigada pela
participação que têm na minha vida.
Aos meus pais que estarão sempre comigo: sou muito grata pelos seus
ensinamentos, gravados perenemente na alma.
Aos meus filhos, Ana Carolina e Miguel, pela presença constante a lembrar-me
do compromisso que tenho em fazer do mundo um lugar melhor para eles viverem.
Pelo apoio incondicional, pelo incentivo insistente de que eu mostre o potencial
que acredita que tenho, por confiar em mim tanto e sempre: um beijo ao querido
João, meu escolhido.
5
O que precisa ser erradicado é o mal no
homem, não o próprio homem.
Os diários, de Etty Hillesum
6
RESUMO
O Holocausto é tema relevante de estudos em diversas universidades da Europa e
dos Estados Unidos, tema de inúmeras pesquisas e teses de doutoramento; é foco
central de incontáveis publicações. Comparando com as instituições européias, no
Brasil pouco se privilegiam esses estudos, porque considerados de insignificante
proximidade para os brasileiros, tanto no tempo quanto na relação de espaço. Esta
dissertação procura aproximar e ampliar o conhecimento do Holocausto, resgatando
a reflexão que ele suscitou e continua provocando entre os mais diversos teóricos do
conhecimento humano: retrata a visão de historiadores, sociólogos, psicanalistas,
cientistas políticos sobre o assunto, demonstrando quão presentes estão o fato
histórico e seus desdobramentos também no Brasil e no mundo. Além do
acontecimento histórico, aborda-se as falas das vítimas do Holocausto, comparando-
lhes as narrativas, intentando compreender o que significou a vivência da
experiência e o resgate das memórias na escritura. Procurou-se refletir sobre as
perdas e ganhos legados à humanidade pelo Holocausto, alertando para a
necessidade de repensar os fatos no século XXI, considerando-se a materialização,
cada vez mais evidente, das manifestações revisionistas e negacionistas no mundo
e, inegavelmente, no Brasil, particularmente no Sul e Sudeste.
Palavras-chave: Holocausto. Literatura de Trauma e Testemunho. Narrativa das
vítimas. A herança de Auschwitz. Revisionismo. Negacionismo.
7
ABSTRACT
The Holocaust is a relevant theme studied in several Universities of Europe and
United States, subject of countless researches, and it is the central focus of
countless issues. Comparing it with the European Educational Institutions, in Brazil
that study is not so privileged, because it is considered far from South America´
concerns, in terms of History, time and space. For that reason this dissertation tries
to approach the knowledge of the Holocaust, rescuing the thoughts that it raised and
continues provoking in a large group of theoreticians of human knowledge. In fact,
the subject is approached by historians, sociologists, psychoanalysts, political
scientists, demonstrating how the historical fact and their unfolding are present, also
in Brazil, in Argentina and all around the Western world. Besides the historical event,
we approach the victims' of the Holocaust speeches, comparing their narratives,
attempting to understand what the experience meant to them and what their writings
memories meant to their lives. The objective of the dissertation is also contemplate
losses and knowledge´ legacies to the Humanity through Holocaust, alerting the
reader about the need of rethinking the facts in XXI century, considering the
materializations, more and more evident, of nazi manifestations and History
Revisions, including Negationism in the United States, Canada and, undeniably, in
Brazil, mainly in the South and South-East.
Keywords: Holocaust. Trauma Literature. Victims´ narratives. Auschwitz Heritage.
Revisionism. Negationism.
8
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 10
1 O HOLOCAUSTO: PORÕES E SÓTÃOS ............................................................... 16
1.1 Como o Holocausto tece redes com a Modernidade: a genealogia da violência
nazista ................................................................................................................. 18
1.2 O sentimento anti-semita de cunho eliminacionista ............................................. 26
1.3 O espetáculo da banalidade do mal ..................................................................... 35
2 SER SOBRE-VIVENTE: É ISTO UM HOMEM? ...................................................... 40
2.1 Pensem se isto é um homem: trauma e identidade ............................................. 41
2.2 Paisagens da vida na memória de papel .............................................................. 44
2.3 Ver a si mesmo no espelho da narração .............................................................. 47
3 A PALAVRA ÀS VÍTIMAS ........................................................................................ 53
3.1 O registro impossível do “invivível” ....................................................................... 55
3.2 A noite ou o regresso sem fim .............................................................................. 64
3.3 Pontos de contato e distanciamentos nas escrituras de homens e mulheres
vítimas do Holocausto ......................................................................................... 74
3.4 Perdas e ganhos: o que resta de Auschwitz? ....................................................... 94
4 HOLOCAUSTO: MAIS DO QUE UM QUADRO NA PAREDE .............................. 103
4.1 A educação depois de Auschwitz ....................................................................... 104
4.2 A herança de Auschwitz ...................................................................................... 108
CONCLUSÕES ....................................................................................................... 114
REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 133
ANEXOS ................................................................................................................... 138
Anexo 1 – Leis de Nüremberg ................................................................................ 139
Anexo 2 – Cronologia do Holocausto ..................................................................... 141
9
INTRODUÇÃO
Num de seus últimos romances
1
, recentemente traduzido e publicado no Brasil,
o renomado escritor italiano Umberto Eco apresenta-nos um personagem intrigante,
cujo esforço em reconstruir suas lembranças é significativo e exemplar. Vítima de
um colapso cardíaco, Giambattista Bodoni acorda depois de ter estado algum tempo
em coma e constata não se lembrar de nada relativo à sua biografia, como seu
próprio nome, o de sua esposa, de que tenha filhos ou de como foi a sua infância. É
necessário redescobrir coisas muito aprendidas, porém, esquecidas, como o
sabor dos alimentos, a textura dos tecidos ou o que se sente ao escovar os dentes.
Percebe, entretanto, que o conhecimento adquirido nas incontáveis leituras ao longo
de seus sessenta anos emerge das névoas que recobrem a sua memória em
inusitadas citações poéticas e fragmentos de textos clássicos conhecidos.
Verifica que a sua memória semântica não foi alterada no acidente, e passa a
empenhar-se bravamente na busca desses livros, almanaques, histórias em
quadrinhos, enciclopédias, revistas e jornais dos quais recorda trechos, intuindo que
esses materiais podem reconstituir-lhe outras lembranças de infância e juventude,
reconstruindo-lhe, assim, a própria identidade e a possibilidade de projetar o seu
futuro.
O personagem, que afirma possuir “uma memória de papel” (2005:92),
procurará, no sótão da antiga casa dos seus pais e avós, o material precioso que
1 Referimo-nos ao romance ilustrado de Eco: A misteriosa chama da rainha Loana, publicado no
Brasil em 2005, pela Record.
10
poderá ajudá-lo a encontrar-se consigo, com sua história, com episódios importantes
que marcaram sua família, com a história do seu tempo.
Essa empreitada de Bodoni, o protagonista do romance ilustrado A misteriosa
chama da Rainha Loana (2005), de Umberto Eco, é emblemática daquilo que
procuramos realizar nesta pesquisa. A exemplo dele, também queremos visualizar
formas no nevoeiro, também rastrear os porões e sótãos que conseguirmos
adentrar, também tomar de empréstimo as recordações alheias inscritas nas
memórias de papel de várias pessoas que buscam estudar e responder aos
questionamentos que tentamos reforçar.
Das metáforas utilizadas no romance, com as formas no nevoeiro, os porões e
sótãos, com a memória de papel, queremos estabelecer pontes e referências ao
acontecimento do Holocausto judeu ocorrido durante a 2ª Grande Guerra, a partir da
ótica dos segregados e sobreviventes escritores que se permitiram registrar suas
experiências, e de outros que colheram seus depoimentos.
O termo guerra é de origem germânica, werra, e vem para substituir o vocábulo
latino bellum. Utilizada em inúmeras situações lingüísticas para definir as relações
entre pessoas ou o teor de certos acontecimentos, a palavra assume várias
conotações em expressões que podem ser até corriqueiras, entre outras: “guerra
dos sexos” quando se refere à conflituosa convivência entre homens e mulheres;
“guerra fria”: desentendimento entre adversários sem confronto armado; “guerra
aberta”: hostilidade de caráter evidente e constante; “nome de guerra”, apelido ou
pseudônimo atribuído a alguém dependendo da atividade que exerce; “homem de
guerra” quando se quer remeter a “perito na arte militar”
2
. Apesar dos diferentes
empregos da palavra “guerra”, todas as expressões mantêm um contato entre si,
porque a palavra possui, invariavelmente, atributos semânticos referentes a conflito,
luta, oposição, perseguição, mal ou dano.
A guerra é um mecanismo usado historicamente para modificar e moldar o
perfil da organização sociopolítica do planeta, redesenhando fronteiras e
demarcando territórios, apontando novos critérios de valoração cultural e étnica, vão
2 Cf. Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1999:2854-2855.
11
definindo o mundo em vencedores e vencidos, os melhores e os indesejáveis.
Freqüente na trajetória da humanidade, sabemos das suas datas, dos nomes de
seus militares e líderes políticos que se sobressaíram pela ousadia e
empreendimentos, estudamos e localizamos no mapa os países envolvidos, bem
como decoramos os números dos mortos contabilizados nos conflitos. No entanto,
além dos dados oficiais, tidos como representativos da verdade, pouco sabemos a
respeito do outro lado da história: o que os vencidos e marginalizados têm a dizer?
Qual é o seu entendimento do fato com o qual foram diretamente envolvidos? Como
significam os acontecimentos vistos e vividos por eles na guerra?
Apesar de haver estudos na área e de maneira acanhada estarem aumentando
as publicações sobre o assunto no Brasil, o espaço concedido no país à Literatura
Testemunhal, e particularmente à Literatura do Holocausto, é pequeno. Devido à
falta de traduções dos textos originais, a maioria dos leitores brasileiros é
distanciada desses textos pela dificuldade de entender outro idioma, é privada de
conhecer os relatos de homens e mulheres vítimas do Holocausto, lhe são negadas
outras possibilidades de compreensão do fato histórico.
Em âmbito internacional, vários escritores são reconhecidos pelos relatos
autobiográficos de vivências que tiveram durante a Guerra Mundial, frutos do
isolamento nos guetos, da prisão nos campos de concentração ou da angustiante
espera de parentes, amigos e conhecidos feitos prisioneiros durante o período do
conflito. Como expoentes da Literatura Memorial ou de Testemunho, citamos alguns
autores sobreviventes do Holocausto “que constituem o cânone testemunhal da
Shoah”
3
(SELIGMANN-SILVA, 2006:60), estes traduzidos para o português e
notoriamente considerados referência para conhecimento do assunto: Primo Levi,
Paul Celan, Nelly Sachs, Jorge Semprún, Georges Perec, Elie Wiesel, Ruth Klüger,
Marguerite Duras, Anne Frank, Ida Fink, Art Spiegelman, Imre Kertész, entre outros.
Se fizermos um levantamento, perceberemos que grande parte das obras
traduzidas para diversas línguas e, inclusive, para o português, é produção de
homens escritores sobreviventes ou não, somando poucas obras de mulheres
3 Palavra de origem hebraica que significa “aniquilamento”. Segundo alguns teóricos, esse termo
seria o mais adequado para substituir “holocausto”, principalmente após o lançamento do filme de
Claude Lanzmann, em 1985, intitulado “Shoah”.
12
também escritoras de suas experiências enquanto vítimas do Holocausto. Assim, no
parágrafo anterior, mencionamos autores importantes cujos textos constam
traduzidos no mundo e no Brasil, porém, inúmeros outros que figuram nesse espaço
não são mencionados aqui porque não tradução nem publicação de suas obras
em português. Indicamos algumas escritoras para dar a idéia da dimensão da
ausência: Roberta Ascarelli, Inge Auerbacher, Mary Berg, Trudi Birger, Titti Marrone,
Leila Berg, por exemplo. Infelizmente, um grande número de leitores é privado de
conhecer e aprender com os textos dessas escritoras por não ter acesso a eles, aqui
no Brasil.
Assim sendo, tendo em vista que a maior parte da Literatura de Testemunho
sobre o Holocausto judeu tem procedência do relato de homens escritores
sobreviventes, gostaríamos de conhecer mais também do depoimento das mulheres
que sobreviveram ao fato traumático, suas angústias, suas vivências, seu modo de
superação da catástrofe, seu jeito de viver a vida e de narrar a sua experiência.
Pretendemos verificar também a narrativa feminina do Holocausto, tencionando
identificar e relacionar semelhanças e diferenças entre as vozes de homens e
mulheres que vivenciaram esta experiência, ao mesmo tempo em que buscamos um
conhecimento mais amplo e sob novas perspectivas do histórico acontecimento.
Afinal, estamos falando de História e de histórias, de relatos e textos que se
entrecruzam nos fios de uma mesma rede; estamos falando de um acontecimento
que, de uma ou outra forma, nos constitui enquanto pessoas do século XXI.
Para obtermos sucesso em nossa investigação, consideramos de fundamental
importância conhecer diferentes posicionamentos sobre o Holocausto. Num primeiro
segmento do estudo, pretendemos apresentar a releitura de pontos relevantes
assinalados por teóricos de diversas áreas do conhecimento: historiadores,
sociólogos, filósofos, psicanalistas, políticos. Os autores que sustentam esta
primeira parte do trabalho, entre outros, são os seguintes: Zygmunt Bauman,
sociólogo que investiga os diversos fatores implicados na concretização do
genocídio; Enzo Traverso, historiador preocupado em delimitar uma genealogia da
violência emblemática do nazismo; Daniel Goldhagen, cientista político que aponta o
nível de envolvimento do povo germânico na efetivação dos planos de eliminação
dos judeus; Jean Paul Sartre que procura, através da Filosofia, refletir sobre o anti-
13
semitismo e seus seguidores; Hannah Arendt, pensadora alemã que desmistifica o
totalitarismo, o fascismo, o regime nazista e reflete sobre as estruturas que tornaram
possível a “banalidade do mal”.
O segundo bloco aborda conceitos-chave para compreender o Holocausto e
sua relação inextricável com os sobreviventes. Conceituações como: sobrevivência,
memória, trauma, identidade, pensamento narrativo, as fases da produção literária
das vítimas, são explorados nesse espaço. Nossas bases teóricas são sustentadas
por idéias de estudiosos como: Márcio Seligmann-Silva, Ivan Izquierdo, Nestor
Braunstein, Jerome Bruner, Stefano Zampieri, Harald Welzer, Shoshana Felman,
entre as proposições de muitos outros autores.
Além dos posicionamentos dos teóricos sobre o assunto, foi necessário
empreender um estudo comparado entre obras de escritores sobreviventes do
Holocausto, para evidenciar as repercussões do contexto histórico da perseguição
nazista em suas narrativas, procurando contextualizar os seus testemunhos no
espaço e no tempo. Oferecer um espaço privilegiado para que as vítimas fizessem
uso da palavra: este direcionamento caracterizou o terceiro bloco de reflexão, no
qual utilizamos as produções textuais de Primo Levi, Elie Wiesel, Jorge Semprún,
Etty Hillesum, Ruth Klüger, Victor Klemperer, Anette Wieviorka, Janina Bauman.
Esses autores foram em princípio priorizados no estudo, porém outros acabaram
tomando parte, enriquecendo o trabalho, como: Anne Frank, Ida Fink, Imre Kertész,
Erica Fischer, Georges Perec, Marguerite Duras, Aleksander Laks.
O quarto bloco acentua o caráter dinâmico e atual do Holocausto, retratando a
preocupação que temos com o que sobrou, em termos de educação e reflexão para
a humanidade depois do genocídio. Também aqui, são os pesquisadores que nos
ajudam a iluminar este problema, mostrando-nos o quanto ele é presente. Contamos
com as idéias daqueles que especificamos a seguir, entre outros: Theodor Adorno,
filósofo que propõe a reconsideração da Educação na sociedade após o Holocausto;
Shoshana Felman, professora e psicanalista que sugere a educação como um
resultado viável da crise; Ida Dominijanni, jornalista e professora universitária,
convoca a um resgate da memória do Holocausto privilegiando seu aspecto
genealógico; Georges Bensoussan, teórico abordado pela professora Amélia Cidro,
14
que reflete sobre a importância das pessoas superarem as celebrações ritualísticas
dedicadas à Shoah, compreender de fato o passado e evitar que ele volte a se
repetir.
Para isso, lançamos mão de instrumentos que puderam, direta ou
indiretamente, manter relação com o tema visado: buscas na Internet, poemas, e
outros textos como biografias, diários íntimos, autobiografias, literatura ficcional,
enfim, todo material acessível que pôde ser utilizado como referência e suporte para
o estudo.
Propusemo-nos a uma análise comparativa, procurando, através de
contrapontos teóricos, iluminar, favorecer e suscitar novos olhares aos textos-base,
pois entendemos o exercício da releitura da obra como sendo momento de
“atividade crítica”, “que lida amplamente com dados literários e extraliterários”, com a
“finalidade de interpretar variadas questões”, nos termos de Carvalhal (1986:39;82),
contribuindo, assim, para a produção de um conhecimento mais sólido e
preeminente acerca das narrativas sobre o Holocausto.
Indubitavelmente, o conhecimento e o estudo da escritura das vítimas do
Holocausto vêm propiciar uma oportunidade ímpar de entrar em contato com ótima
literatura, de caráter distintamente testemunhal, o que resulta em conhecimento, em
superação e respeito às individualidades, em processo de autoconhecimento, em
reivindicação e conquista de maior abertura ao imaginário do “outro”, de condição
para o diálogo. Em outras palavras, tencionamos possibilitar divulgação mais ampla
à Literatura de Testemunho, arriscando na conquista de um espaço mais seu, mais
próprio, respeitadas suas abrangências e peculiaridades de reflexão, entendendo a
Literatura como espaço privilegiado de pensar. Além das produções escritas, que
são objeto de estudo, também queremos visualizar a relação que essas produções
estabelecem com o homem contextualizado, fruto de seu tempo social e cultural,
também co-responsável pelos acontecimentos que marcam a história da
humanidade.
15
Recortando as palavras de Levi
4
enunciadas na abertura à obra É isto um
homem? (1988:9), texto considerado parâmetro para conhecimento da literatura
produzida pós-Holocausto, transmitimos o apelo que este sobrevivente faz, num
verdadeiro e doloroso eco da sua memória pessoal à memória coletiva:
Vocês que vivem seguros
Em suas cálidas casas,
Vocês que voltando à noite,
Encontram comida quente e rostos amigos,
Pensem se isto é um homem
Que trabalha no meio do barro,
Que não conhece paz,
Que luta por um pedaço de pão,
Que morre por um sim ou por um não.
Pensem se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome,
Sem mais força para lembrar,
Vazios os olhos, frio o ventre,
Como um sapo no inverno.
Pensem que isto aconteceu:
Eu lhes mando estas palavras.
Gravem-na em seus corações,
Estando em casa, andando na rua,
Ao deitar, ao levantar;
Repitam-na a seus filhos.
Ou senão, desmorone-se a sua casa,
A doença os torne inválidos,
Os seus filhos virem o rosto para não vê-los.
1 O HOLOCAUSTO: PORÕES E SÓTÃOS
4 Primo Levi (1919-1987): judeu nascido em Turim, na Itália, tinha vinte e três anos quando foi
capturado e deportado para Auschwitz. Referência mundial da produção literária testemunhal pós-
Holocausto.
16
Considerado por muitos como o acontecimento mais degradante e desumano
que figurou no cenário da Grande Guerra, o Holocausto judeu inquieta, causa
dúvida, indignação e produz controvérsias entre os estudiosos do assunto. De um
lado, cada vez mais, e com maior evidência, os chamados revisionistas
5
e/ou
negacionistas
6
que procuram, através de diferentes argumentos, pôr em dúvida a
veracidade, as proporções, a intensidade e as conseqüências do horror do
Holocausto para os judeus e demais vítimas e, por extensão, para toda a
humanidade, procurando suscitar a desconfiança inclusive quanto aos relatos dos
sobreviventes. Temos os grupos que se autodenominam neonazistas que
despontam, ainda acanhada e isoladamente, em locais diversos do planeta,
proclamando os ditos e preceitos nazistas, insurgindo com as idéias hitleristas da
limpeza étnico-racial para a construção de uma sociedade livre dos indesejáveis e
inconvenientes. Esses grupos divulgam suas idéias pela internet, ou ostentando o
símbolo nazista, ou em manifestações nas quais algum grupo étnico é ofendido,
constrangido e, inclusive, violado.
De outro lado, temos os estudiosos de diferentes áreas do conhecimento que
desaprovam as posturas mencionadas, e apresentam seus contra-argumentos
que vão na direção da importância e urgência de se refletir sobre o que foi e o que
possibilitou a loucura nazista da Solução Final
7
, porque indícios de ela estar
latente e à espreita de uma nova oportunidade para acontecer como evento análogo
ao que incidiu décadas atrás. A esses teóricos, unem-se as vozes dos
sobreviventes, poucos, se comparados aos números estarrecedores dos que
pereceram durante a guerra e em conseqüência do Holocausto, vozes perfeitamente
audíveis e das quais não podemos omitir a escuta e a compreensão.
Em sua origem etimológica, a palavra grega holokauston significa “Entre os
hebreus, sacrifício em que a vítima (um animal) era totalmente consumida pelo fogo;
imolação”; e em outras acepções que reforçam a primeira: “Oferenda completa e
5 São assim chamados os adeptos da teoria do Revisionismo. Como o nome sugere, essa teoria
prega a revisão de idéias, doutrinas, valores, fatos históricos. No caso do Holocausto, os revisionistas
questionam a veracidade do acontecimento, ou a sua intensidade e proporção.
6 Adeptos da doutrina que “questiona a veracidade do genocídio dos judeus pelos nazistas durante a
II Guerra Mundial e negam a existência das câmaras de gás”. Cf. Larousse Cultural, 1999:4174.
7 Expressão que nomeia o projeto nazista de exterminar os judeus da Europa.
17
generosa, sacrifício”; também “Imolação de si mesmo”
8
. Com o acontecimento da
Guerra Mundial, a palavra Holocausto passou a designar os assassinatos em massa
de crianças, mulheres e homens, judeus e não judeus. Para alguns, o nome mais
adequado para referenciar tantas mortes e tamanha atrocidade é Shoah, “palavra
hebraica que significa ‘aniquilamento’”
9
. Para a escritora vienense e sobrevivente
Ruth Klüger, o essencial é nomear para entender o que aconteceu, definindo melhor
os contornos do fato:
Se a palavra Shoah é adequada, como se tem afirmado recentemente, não
me importa, basta que haja uma palavra qualquer que possa ser utilizada
sem rodeios e explicações complementares. Pois as palavras, as palavras
simples que aparecem em definições nos dicionários, [...] são as que
cercam e criam o assunto em discussão. (KLÜGER, 2005:207-208)
Independentemente da importância de nomear ou definir, a primeira parte do
estudo presentifica o fato do Holocausto, procurando apresentar as considerações
de filósofos a historiadores, de psicólogos a sociólogos que oferecem distintos e, às
vezes, convergentes, caminhos de abordagem sobre o assunto, contribuindo, cada
um, para ampliar e perfilar com maior nitidez o que aconteceu mais de 60 anos e
marcou, indelével e inexoravelmente, o século XX como um dos mais sangrentos da
História.
1.1 Como o Holocausto tece redes com a Modernidade: a genealogia da
violência nazista
Nada mais significativo que iniciar nossa explanação sobre o Holocausto com a
assertiva de Primo Levi: de todos os nomes-testemunho do Holocausto,
merecidamente entre os mais conhecidos e importantes, indispensável para o
estudo sobre o assunto. De forma direta e contundente, chama a atenção para a
dificuldade que ele e outros sobreviventes têm de serem ouvidos, da urgência de ser
compreendida a situação no seu cerne e da necessidade de as pessoas encararem
o fato, pois, como conclama e insiste Levi, se o genocídio judeu foi novidade no
século XX, pode não ser surpresa no século XXI e subseqüentes, porque talvez
8 Definições essas que constam na Enciclopédia Larousse Cultural, 1999:3009.
9 Cf. Larousse Cultural, 1999:5360.
18
venha a repetir-se por estar mais presente entre nós do que somos capazes de
avaliar. Nas palavras do escritor italiano:
Para nós, falar com os jovens é cada vez mais difícil. Percebemos que falar
com eles é, simultaneamente, um dever e um risco: o risco de parecer
anacrônico, de não ser escutado. Devemos ser escutados: acima de
nossas experiências individuais, fomos coletivamente testemunhas de um
evento fundamental e inesperado, fundamental justamente porque
inesperado, não previsto por ninguém. Aconteceu contra toda a previsão;
aconteceu na Europa; incrivelmente, aconteceu que todo um povo
civilizado, recém-saído do intenso florescimento cultural de Weimer,
seguisse um histrião cuja figura, hoje, leva ao riso; no entanto, Adolf Hitler
foi obedecido e incensado até a catástrofe. Aconteceu, logo pode
acontecer de novo: este é o ponto principal de tudo quanto temos a dizer.
(LEVI, 2004:172)
Por ser um evento sem par ou sem referente semelhante na História da
humanidade, por sua complexidade e abrangência, como esclarece Levi em sua
fala, o Holocausto foi interpretado de diferentes maneiras ao longo das análises
empreendidas por estudiosos de diferentes áreas. Inicialmente, o Holocausto foi
entendido como sendo uma espécie de anomalia no sistema, ou seja, um defeito na
engrenagem, um desvio moral e ético do sistema alemão democrático e
racionalizado, considerado, apesar disso, funcional e idealmente o melhor até
aquele momento na história da organização social humana.
Para justificar essa concepção do Holocausto como “deformidade na
engrenagem”, numa linguagem que se pretende científica, bastante divulgada na
época, o Holocausto foi comparado a um câncer, uma doença ou disfunção no
organismo social que, uma vez tratado ou extirpado, seria um problema erradicado e
resolvido. Nesse raciocínio, os perpetradores são pessoas consideradas sádicas,
amorais, desvirtuadas, descontroladas e capazes de atos insanos e incontidos.
Bastaria apontá-los, isolar e punir os responsáveis que estaria paga a dívida social
que contraíram. Por outro lado, as vítimas são as únicas prejudicadas pela “loucura
momentânea” (que durou décadas) dos criminosos, o que constitui o Holocausto
como um problema delas, devido ao seu específico grupo étnico-social, é um
problema dos judeus (BAUMAN, 1998:11).
No entanto, estudos posteriores sinalizam para outro direcionamento. O que, de
certa forma, a sociedade intui e procura ignorar, é que o Holocausto pode ter sido
19
mais que uma falha no sistema, pode ter sido fruto desse sistema ideal pensado e
aprimorado nas últimas centenas de anos, mais especificamente, desde o
Iluminismo antropocêntrico do século XVIII
10
até o requinte tecnológico da
Modernidade do século XX.
Em defesa dessa idéia, o sociólogo Zygmunt Bauman, na obra Modernidade e
Holocausto, ao demonstrar o quanto a Sociologia deixou a desejar numa análise
mais atenta e profunda do Holocausto, em relação a outras áreas de conhecimento,
como,