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ele é realçar que os Bororo ainda preservam importantes rituais de passagem da sua cultura
tradicional.
Presenciei também o ritual de colocação do estojo peniano de meninos com cerca
de oito anos de idade. Esse ritual é parte da cerimônia que marca a passagem do menino
para a sociedade dos homens, dando-lhe o direito de participar de todos os ritos exclusivos
dos homens. A realização dessa cerimônia é marcada por grande riqueza simbólica, como é
descrito na Enciclopédia Bororo (1962, p. 628):
Além da importância intrínseca que encera, a cerimônia é o epílogo de uma
longa e severa preparação dos rapazes durante o ipáre e-regódu, corrida
dos rapazes. Realçam ainda mais o alto conceito da função a solenidade
dos ritos próprios da imposição e a daqueles em cujo ciclo se realiza, ou
seja, o ciclo fúnebre. Percebe-se também seu valor pelas pessoas que
tomam parte nela: dois chefes, um adulto que desempenha a função. Outros
pontos salientes são uma noite de vigília forçada, por parte do iniciando, e
os prantos rituais de seus parentes e dos do padrinho... Como de costume,
quem marca a festa é um Baádo Jéba Cebegíwu, chefe dos de baixo, e os
que determinam se um rapaz deve receber o estojo peniano são seus
parentes por parte de mãe. Estes, na véspera da cerimônia, vão buscar broto
de babaçu e o entregam ao padrinho, de antemão escolhido entre os
membros da metade oposta á do afilhado, para que, antes do pôr do sol,
prepare muitos báera-dóge, estojos penianos festivos, e os reúna entre si a
guisa de coroa. O rapaz recebe o cinge, o atavio e se prepara a passar a
noite em vigília. Na choupana do padrinho é-lhe estendida uma esteira
como se tivesse que deitar-se para dormir, mas os parentes com cantos e
toques de íka, instrumento musical de sopro, o mantém acordado para
evitar o perigo de maus sonhos que seriam de péssimo agouro... De
madrugada o neófito é profusamente espalmado de nonógo, pasta vermelha
de urucum, e enfeitado do melhor modo possível. Depois se procede à
parte culminante da cerimônia que se desenvolve no bororo, pátio da
aldeia. Estando o padrinho e o afilhado no meio da praça, outros trazem,
carregando nas costas, um chefe que colocam a oeste da aldeia.
Imediatamente cingem-lhe um pariko, diadema de penas de arara, e
entrega-lhe um íka, instrumento musical de sopro. Ato contínuo os parentes
do iniciado, retirando da coroa deste um estojo peniano de padrinho e de
co-ministro, e o bári, xamã dos espíritos, além de numerosíssima
assistência, lhe colocam pela extremidade da bandeirinha entre os dentes.
Ele, segurando-o, levanta a cabeça e a conserva assim durante toda a
cerimônia.
No que diz respeito à relação com o meio natural, a cultura Bororo é marcada,
segundo Enawuréu (1987, p. 45) por uma série de rituais que expressam “a arte que nasce
de um profundo respeito, amor e sabedoria pela natureza”.
Nas danças, cantos e pinturas faciais e corporais invocam as belezas da
paisagem, e a graça dos animais e a delicadeza das flores. Seus enfeites e
adornos caracterizam-se pelas vivas cores das penas, especialmente de
araras e gaviões, há uma variedade de combinações da matéria-prima, com
a madrepérola, metal, cabelos humanos, couro, dentes e unhas de animais,