DENÚNCIA INVOLUNTÁRIA
Artur Azevedo
O Lustosa era muito boa pessoa, mas tinha um defeito: gostava de intrometer-
se na vida alheia, e bisbilhotar o que se passava em casa dos outros.
Ele observou que uma bonita senhora, que morava defronte da casa dele, na
Rua São Francisco Xavier, era regularmente visitada por dois amantes - um, já
de meia-idade, gordo, calvo, pesado, feio, e outro, muito novo ainda, bonito e
elegante.
O Lustosa imaginou logo, e imaginou muito bem, que o primeiro era o pagador
e o segundo o amant de coeur.
O primeiro, além de ser mais velho, tinha uns ares de dono de casa que não
enganava a ninguém; as suas visitas eram mais demoradas, duravam às
vezes toda a noite; ao passo que o outro aparecia de fugida, e não saía para a
rua sem primeiro examinar se não passava alguém.
Ora, aconteceu que certa noite, achando-se numa soirée familiar em casa de
um amigo que fazia anos, o Lustosa foi apresentado ao rapaz, que também lá
estava.
A pessoa que fez a apresentação afastou-se, e o nosso indiscreto disse logo
ao Peixoto que já o conhecia. O moço chamava-se Peixoto.
- Já me conhecia? De onde? - perguntou este muito intrigado.
- Da Rua São Francisco Xavier. .
- Cale-se! Por amor de Deus, não me comprometa! Eu tenho família, sou
casado, e minha mulher está aqui! Olhe, é aquela senhora vestida de azul.
- Pois eu supunha-o solteiro; mas descanse; por mim ninguém saberá.