Download PDF
ads:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Delimitação taxonômica do complexo Petunia integrifolia: uma abordagem molecular
Dânae Longo
Dissertação submetida ao Programa de
Pós-Graduação em Genética e Biologia
Molecular da UFRGS como requisito
parcial para obtenção do grau de Mestre.
Orientadora: Drª Loreta Brandão de Freitas
Co-orientador: Dr. João Renato Stehmann
Porto Alegre, 29 de Março de 2005
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
2
Instituições
Este trabalho foi desenvolvido no Laboratório de Evolução Molecular (Departamento de Genética,
Instituto de Biociências) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em parceria com o Centro
de Biologia Genômica e Molecular (Faculdade de Biociências) da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul e com o Laboratório de Taxonomia Vegetal (Departamento de Botânica,
Instituto de Ciências Biológicas) da Universidade Federal de Minas Gerais.
Órgãos Financiadores:
PRONEX, CNPq, FAPERGS, PROPESQ-UFRGS.
ads:
3
Agradecimentos
Gostaria de agradecer aos meus orientadores ProLoreta B. Freitas e Profº João Renato
Stehmann, primeiramente, pela oportunidade de realizar esse trabalho, por todos os ensinamentos e,
principalmente, a paciência que tiveram comigo. (Eu sei que não sou fácil. Ás vezes, nem eu me
agüento...)
Meu muito obrigado ao Profº Sandro Bonatto pelo suporte teórico nas análises dos
resultados. Apesar de não ser meu orientador oficial, esse trabalho teria sido mais complicado sem
a sua ajuda.
A parte ruim de terminar o Mestrado é que, a partir de agora, eu vou deixar de ter a
convivência diária com o pessoal do Laboratório de Evolução Molecular. Foram cinco anos da
minha vida compartilhados com pessoas que, para mim, muito deixaram de ser um grupo de
trabalho e passaram a representar um grupo de grandes amigos, quase uma família. E como uma
grande família, houve também aqueles episódios ruins, mas que não foram tão sérios a ponto de
abalar as relações que estão estruturadas em laços muito fortes. Vocês todos moram no meu
coração. Eu não queria citar nomes, mas preciso agradecer especialmente à Patrícia Koehler dos
Santos, Valéria Cunha Muschner, Aline Pedroso Lorenz-Lemke, Jaqueline Battilana e Laci
Krupahtz, as mais “antigas” do laboratório. Eu devo muito a vocês, gurias. Obrigada por tudo.
A Nicolás Oliveira Mega, meu colega e melhor amigo na época da graduação, eu agradeço
o apoio durante a época conturbada que foi o fim do Bacharelado e o primeiro ano do Mestrado.
A Glauco Schüssler, um grande cientista além de ótimo companheiro, muito obrigada pela
ajuda agora na reta final do Mestrado. Apesar de não discutirmos muito profundamente sobre o
meu trabalho, o teu incentivo me deu ânimo para terminar as coisas da melhor maneira possível.
Por fim, dedico essa dissertação às famílias Longo e Piccoli, que desde 1998, lá de Flores
da Cunha, se preocupam comigo e torcem pelo meu sucesso. Imagina o que minhas avós diriam se
elas soubessem que eu ficava no Departamento de Genética, completamente sozinha no Campus do
Vale, até às dez da noite? (Má che pericolo, Madonna Mia...)
Em especial, aos meus pais, eu agradeço pelo amor, carinho e segurança que eles me
proporcionaram nos momentos de maior dúvida e confusão. Eu me orgulho de carregar os seus
genes. Espero, algum dia, poder representar para os meus filhos aquilo que vocês representam para
mim.
4
Sumário
Resumo 6
Abstract 7
Introdução
Caracterização dos organismos de estudo 8
O gênero Petunia Juss. 8
Radiação adaptativa no gênero Petunia s.s. 10
Caracterização taxonômica da espécie Petunia integrifolia (Hook.) Schinz & Thell 11
Taxonomia do complexo Petunia integrifolia 12
A biologia em nível molecular 15
Marcadores moleculares e os estudos evolutivos 16
Filogeografia 18
Filogenias intraespecíficas inferidas por networks 19
Objetivos 20
Materiais e Métodos
Definição do grupo amostral e obtenção das amostras 21
Extração de DNA 22
Reações de amplificação 23
Regiões marcadoras para seqüenciamento 26
Quantificação dos fragmentos de DNA amplificados 28
Purificação enzimática dos produtos de PCR 29
Precipitação com PEG 29
Seqüenciamento 29
Purificação com etanol/acetato de amônio 30
Análise das seqüências de DNA 30
Inferindo as relações evolutivas na amostra 31
Divisão da amostra para análises populacionais 32
Análises intrapopulacionais 32
Correlação entre distância genética e distância geográfica 33
Análises interpopulacionais 34
5
Resultados
Características das seqüências 36
Relações evolutivas na amostra 37
Análises intrapopulacionais 40
Correlação entre distância genética e distância geográfica 44
Análises interpopulacionais 47
Discussão
Sítios heterozigotos em ITS – falha na evolução em concerto? 51
Evolução diferente dos marcadores – inserção/deleção e substituição 52
Relações evolutivas entre os indivíduos da amostra evidenciam três grupos de haplótipos
que representam linhagens evolutivas distintas
53
Análises populacionais 54
Padrões de diversidade intrapopulacional 54
Padrões de diversidade interpopulacional 55
Relação entre geografia e genética 56
Conclusões e Perspectivas
Aspectos filogeográficos 58
Região ITS não detecta estrutura filogeográfica 58
Análises moleculares evidenciam linhagens evolutivas distintas 58
Como explicar o isolamento entre linhagens continental e costeira? 59
Linhagens costeira e continental representam taxa em especiação incipiente? 60
Genética e conservação 61
Aspectos taxonômicos 61
Resolvendo o complexo integrifolia 62
Linhagens distintas, taxa distintos 63
Nova proposta taxonômica para o complexo Petunia integrifolia 64
Referências Bibliográficas 66
Anexos 80
6
Resumo
Os chamados ‘complexos de espécies’ são definidos como grupos de organismos que
compartilham características morfológicas muito semelhantes. Os complexos de espécies
representam um problema para os sistemas de classificação baseados apenas em caracteres
morfológicos, uma vez que os critérios para delimitação de espécies são subjetivos e, por isso,
variam de acordo com cada taxonomista. O complexo integrifolia, que reúne diversos taxa com
características florais muito semelhantes à espécie Petunia integrifolia (Hook.) Schinz & Thell, é
um exemplo dessa problemática taxonômica. A determinação de espécies dentro desse complexo,
baseada apenas em caracteres morfométricos, é até hoje ainda muito controversa. Nesse trabalho,
os espaçadores internos transcritos do DNA nuclear ribossomal (ITS1 e ITS2) e dois espaçadores
intergênicos (trnS-trnG e psbA-trnH) do DNA plastidial (cpDNA) foram seqüenciados em 69
indivíduos pertencentes a cinco entidades taxonômicas do complexo integrifolia na tentativa de
entender sua história evolutiva e melhor contribuir para a correta delimitação das espécies. Análises
populacionais e filogeográficas dos três marcadores do cpDNA mostraram que apenas a entidade
taxonômica descrita como Petunia interior pode ser considerada uma espécie distinta de Petunia
integrifolia. As outras quatro entidades taxonômicas estão divididas em duas linhagens genéticas
independentes e alopátricas, que surgiram mais ou menos na mesma época após um evento de
diminuição populacional seguido de rápida expansão. Uma dessas linhagens está localizada na
planície costeira do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, enquanto a outra linhagem se distribui na
porção continental do RS ao oeste da Lagoa dos Patos. Análises morfométricas mais detalhadas
mostram que essas duas linhagens genéticas podem ser distinguidas taxonomicamente e, portanto,
são definidas como duas subespécies de Petunia integrifolia. indícios de que um processo de
especiação por adaptação a dois ambientes distintos (alta salinidade na planície costeira e baixa
salinidade na porção continental) esteja envolvido na divergência dessas duas linhagens. No
entanto, para confirmar essa hipótese, são necessários estudos adicionais.
Palavras chave: Petunia; especiação; estruturação populacional; filogeografia; taxonomia.
7
Abstract
“Species complex” are usually defined as group of species that are morphologically very
similar and consequently are very difficult to distinguish. Species complexes, therefore, represent a
serious problem to the classification systems based only in morphological characters, the criteria
used to delimit species being subjective. The integrifolia complex, that congregates taxa with floral
characteristics very similar to Petunia integrifolia (Hook.) Schinz & Thell, it is an example of this
taxonomic challenge. The determination of the species inside of this complex, based only in
morphometric characters, it is still very controversial. In this work, the internal transcribed spacers
of the ribosomal nuclear DNA (ITS1 and ITS2) and two intergenic spacers (trnS-trnG and psbA-
trnH) of the plastidial DNA (cpDNA) had been sequenced in 69 individuals pertaining to five
taxonomic entities of the integrifolia complex, in the attempt to understand its evolutionary history
and contribute to the better delimitation of the species. Populational and phylogeographic analyses
of the three markers and of cpDNA had shown that only the taxonomic entity described as Petunia
interior can be considered a distinct species of Petunia integrifolia. The four other taxonomic
entities are divided in two independent and allopatric lineages, that diversified almost
simultaneously after an event of population bottleneck followed by a fast expansion. One of these
lineages is located in the coastal plain of the Rio Grande do Sul and Santa Catarina states, while to
other lineage it’s distributed in the continental region of the Rio Grande do Sul to the west of the
Lagoa dos Patos. Detailed morphometric analyses shown that these two lineages can be
taxonomically distinguished and therefore, they may be considered as two subspecies of Petunia
integrifolia. Some findings suggest that a process of adaptation to these two distinct environments
(high salinity in the coastal plain and low salinity in the continental region) may be involved in the
divergence of the two lineages. Additional studies are required to test this hypothesis.
Key words: Petunia; speciation; populacional structure; phylogeography; taxonomy.
8
Introdução
Caracterização dos organismos de estudo
O gênero Petunia Juss.
A família Solanaceae L. compreende 2930 espécies distribuídas em 147 gêneros (Judd e
cols., 1999). Essencialmente, esta família de plantas é composta por espécies que podem ser tanto
ervas, arbustos, árvores como trepadeiras ou epífitas, caracterizadas por flores geralmente
actinomorfas com cinco estames, cinco sépalas e cinco pétalas concrescidas. A junção das pétalas
confere à corola diferentes formatos: tubulares, cônicos, de sino, trombeta ou prato. Muitos
membros dessa família são venenosos devido à presença de alcalóides. Algumas espécies são
fontes de drogas farmacêuticas ou narcóticas, por exemplo: Nicotiana (tabaco), Atropa (beladona) e
Datura (estramonio). Espécies de importância alimentar estão incluídas nos gêneros Solanum
(tomate, batata, etc.) e Capsicum (pimentas). A família Solanaceae inclui também diversas espécies
de interesse ornamental em neros como Browallia, Brunfelsia, Cestrum, Datura, Salpiglossis,
Solandra e Petunia (Judd e cols., 1999).
Petunia sensu lato (s.l.) é o gênero da tribo Nicotianeae G. Don melhor representado no
Brasil, com 34 espécies onde a maioria ocorre na região sul nos estados de Santa Catarina e Rio
Grande do Sul. A denominação “petúnia” é derivada de “petum, betum”, nome indígena do tabaco
(Nicotiana tabacum) que é muito semelhante a Petunia nyctaginiflora (= P. axillaris), uma das
primeiras espécies descritas para o gênero (Stehmann, 1999).
As petúnias são conhecidas popularmente devido à espécie Petunia x hybrida
1
("petúnia de
jardim" - figura 1A), um híbrido artificial obtido no início do século XIX a partir do cruzamento
entre as espécies P. integrifolia (Hook) Schinz & Tell e P. axillaris (Lam.) Britton, Sterns &
Poggenb. A identidade das espécies parentais da petúnia de jardim, no entanto, foi esclarecida
somente em 1982 e 1983, após uma série de cruzamentos interespecíficos conduzidos por Wijsman
e colaboradores. Juntamente com análises cariotípicas e isoenzimáticas, esses autores mostraram
que o gênero Petunia era, na verdade, constituído por dois grupos de espécies distintos: um com 2n
= 14 e outro com 2n = 18 cromossomos.
1
O "x" na nomenclatura indica uma espécie híbrida.
9
O grupo de espécies com 2n = 14, no qual está incluída Petunia x hybrida, foi mantido
como gênero Petunia sensu stricto Jussieu (s.s) (Wijnands e Boss, 1986; Brummitt, 1989). As
outras espécies (2n = 18) foram agrupadas no gênero Calibrachoa La Llave & Lexarza (Wijsman,
1990; Stehmann e Semir, 1997). A denominação Petunia sensu lato (s.l.) refere-se, portanto, ao
grupo formado pelos gêneros Petunia s.s e Calibrachoa. A posição taxonômica de Petunia s.l.
Jussieu está esquematizada na Figura 2.
A sistemática do gênero Petunia Juss. foi revisada por Stehmann (1999). Baseando-se em
características morfológicas, anatômicas e cromossômicas, o autor reconheceu 11 espécies,
endêmicas da América do Sul, restritas à região entre os paralelos 22° e 39°S, que enquadra dois
centros de diversidade (Figura 3). De modo geral, estas espécies são plantas
subarbustivas ou
Figura 2
-
Esquematização da classificação do gênero
Petunia
cols. (1999),
baseado em análises de DNA cloroplasmático, e segundo Hunziker (2001), baseado em caracteres
morfológicos e análises cromossômicas; B) Segundo APG (“Angiosperm Phylogeny Group”, 2003), a partir
de uma compilação de análises filogenéticas baseadas em dados moleculares, morfológicos e bioquímicos.
Cestroideae Schltdl
. (1832)
Nicotianeae
G. Don
Petunia
s.l
Jussieu
(1803)
Divisão
Spermatophytae
Reino
Plantae
Classe
Dicotyledoneae
Família
Solanaceae Juss
(1789)
Sub
-
divisão
Angiospermae
Ordem
Personatae
Nicotianinae
Petunioideae
Subfamília
Tribo
Subtribo
Gênero
Segundo
Hunziker
(2001)
-
-
Petunia
s.l
Jussieu
(1803)
Segundo
Olmstead
e
cols
. (1999)
Cestroideae Schltdl
. (1832)
Nicotianeae
G. Don
Petunia
s.l
Jussieu
(1803)
Divisão
Spermatophytae
Reino
Plantae
Classe
Dicotyledoneae
Família
Solanaceae Juss
(1789)
Sub
-
divisão
Angiospermae
Ordem
Personatae
Nicotianinae
Petunioideae
Subfamília
Tribo
Subtribo
Segundo
Hunziker
(2001)
-
-
Petunia
s.l
Jussieu
(1803)
Segundo
Olmstead
e
cols
. (1999)
Cestroideae Schltdl
. (1832)
Nicotianeae
G. Don
Petunia
s.l
Jussieu
(1803)
Divisão
Spermatophytae
Reino
Plantae
Classe
Dicotyledoneae
Família
Solanaceae Juss
(1789)
Sub
-
divisão
Angiospermae
Ordem
Personatae
Divisão
Spermatophytae
Reino
Plantae
Classe
Dicotyledoneae
Família
Solanaceae Juss
(1789)
Sub
-
divisão
Angiospermae
Ordem
Personatae
Nicotianinae
Petunioideae
Subfamília
Tribo
Subtribo
Segundo
Hunziker
(2001)
-
-
Petunia
s.l
Jussieu
(1803)
Segundo
Olmstead
e
cols
. (1999)
Eudicotis
Solanaceae
Petunioideae
Angiosperms
Asterids
Solanales
Euasterids I
Petunia
Core Eudicots
Eudicotis
Solanaceae
Petunioideae
Angiosperms
Asterids
Solanales
Euasterids I
Petunia
Core Eudicots
A B
A
B
Figura 1
-
Detalhe da estrutura floral de
Petunia;
A) Corte da flor de
P.x
hybrida
, mostrando os
cinco estames heterodínamos; B) Esquema da flor de P. integrifolia
em corte, mostrando a
junção dos estames à corola.
10
herbáceas, com raízes axiais, de caule verde ou purpúreo-escuro, com denso indumento composto
de tricomas simples de ápice glanduloso, que secretam substâncias viscosas aderentes, açúcares
esterificados e alcalóides envolvidos em estratégias de defesa contra insetos (Johnson, 1975;
Chortyk e cols. 1997). Dependendo do autor, as espécies são classificadas como anuais ou perenes
de vida curta (Child e Lester, 1991; Ando e Hashimoto, 1993; Stehmann, 1999). As folhas são
sésseis ou sub-sésseis, variando de um a 19 cm. As flores são vistosas, com cálice profundamente
fendido, corola actino ou zigomorfa, com prefloração imbricada, de coloração predominantemente
púrpura ou magenta e, mais raramente, vermelha ou branca. O androceu tem cinco estames
heterodínamos e adnatos ao tubo da corola, sendo um par maior, outro par mediano e um estame
menor (Figura 1B). O fruto é uma psula septífraga, com sementes pequenas e abundantes, de
dispersão anemocórica. A síndrome da melitofilia
2
é encontrada na maioria das espécies
(Stehmann, 1999).
Radiação adaptativa no gênero Petunia s.s
A grande quantidade de variedades de petúnias ornamentais obtidas por cruzamentos
artificiais desde o início do século XVIII é um indicativo da fraca barreira genética existente entre
as espécies de Petunia s.s. (Prain e cols, 1918).
A baixa incidência de hibridação natural (apesar de exceções relatadas por A.P. Lorenz-
Lemke, comunicação pessoal) sugere a existência de mecanismos eficientes de prevenção ao fluxo
gênico interespecífico. Mecanismos de isolamento reprodutivo estabelecidos por adaptação a
diferentes polinizadores parecem ser particularmente importantes na manutenção da integridade
genética entre as espécies de Petunia (Stehmann, 1999). As diferentes síndromes florais, aliadas à
paradoxal baixa diferenciação genética das espécies (Kulcheski e cols., no prelo), indicam a
ocorrência de especiação por radiação adaptativa na evolução do gênero Petunia.
Radiação adaptativa é definida como a evolução divergente de numerosas linhagens em um
curto espaço de tempo. A radiação adaptativa acontece quando a evolução dessas linhagens
divergentes envolve adaptação a diferentes modos de vida (Futuyma, 1998). No caso do gênero
Petunia, portanto, as diferentes linhagens (espécies) evoluíram por adaptação a diferentes
polinizadores. Um exemplo clássico de radiação adaptativa em vegetais são os gêneros que
compõem a flora Hawaiana (Baldwin e Robichaux, 1995). Assim como Petunia, esses gêneros
exibem grande diferenciação morfológica a despeito de baixa diferenciação genética
interespecífica.
2
Síndrome: conjunto de características (formato e cor da corola, posição dos estames, perfume, etc.) que
tornam a flor propícia à polinização por um determinado vetor. Flores melitófilas o aquelas polinizadas por
abelhas.
11
Caracterização taxonômica da espécie Petunia integrifolia (Hook.) Schinz & Thell
Esta espécie apresenta grande variação nos caracteres vegetativos e no hábito. Podem ser
eretas, ascendentes, decumbentes ou procumbentes, (Figura 4), atingindo 50 cm de altura. As
folhas têm 12-70 x 15-30 mm, lâmina elíptica a ovada, geralmente pilosa. As inflorescências
apresentam ramos mais comumente dicotômicos. O cálice varia entre 5-20
mm de comprimento,
A
B
P. scheideana
P. occidentalis
P. integrifolia
P. axillaris
P. bonjardinensis
P. reitzzi
P. secreta
P. exserta
P. saxicola
P. ma
ntiqueirensis
P. littoralis
P. altiplana
Figura 3 - Centros de diversidade do gênero Petunia Juss. (Solanaceae), cada um representado por
quatro
espécies, segundo Stehmann (1999): A) Campos de altitude associados à floresta ombrófila mista, na
borda
oriental do planalto catarinense (1000-1820 m): são encontradas P. altiplana, P. bonjardinensis, P. reitzii
e
P. saxicola. B) Serra do Sudeste gaúcha, região de afloramentos rochosos areníticos: ocorrem
P. axillaris,
P. integrifolia, P. exserta e P. secreta. As linhas delimitam áreas de distribuição enquanto os mbolos
indicam ocorrência mais restrita. Petunia littoralis foi incluída nessa figura, mas Stehmann (1999) a
considera sinônimo de P. integrifolia (ver adiante).
12
sendo profundamente fendido. A corola de 20-44 mm comprimento é zigomorfa, infundibuliforme,
com tubo piloso, lobos largo-obovados, obtusos ou arredondados, sendo o ápice obtuso ou agudo,
de cor magenta ourpura. Os estames são inclusos, adnatos à base da corola entre 2 e 7 mm, com
filetes heterodínamos. O estilete tem 10-18 mm de comprimento, é levemente curvado e dilatado
em direção ao ápice. A forma do pólen também apresenta ampla variação, sendo que em P.
integrifolia podem ser encontradas todas as formas registradas para o gênero. A área de ocorrência
da espécie está indicada na Figura 3. Petunia integrifolia habita os mais variados tipos de
ambientes campestres, afloramentos rochosos e locais perturbados pela ação antrópica. A espécie
floresce durante todo o ano e frutifica de agosto a junho sendo, ainda, melitófila, auto-incompatível
e xenógama. O polinizador efetivo em populações do estado do Rio Grande do Sul (Figura 5F) é a
abelha Callonychium petuniae, Andrenidae (Silva, 1994).
Taxonomia do complexo Petunia integrifolia
Um complexo de espécies é o conjunto de organismos com características morfológicas
muito semelhantes. Uma vez que o critério para delimitação de espécies taxonômicas (taxa) é a
presença de caracteres morfológicos diagnósticos e descontínuos, a circunscrição de espécies
estáveis dentro de tais complexos é difícil. Isso porque, muitas vezes, os critérios diagnósticos
variam de autor para autor e revisões posteriores, baseadas em novos caracteres ecológicos e
morfológicos até então ignorados, tendem a contradizer as classificações anteriores. Um exemplo
disso é o conjunto de taxa que forma o chamado complexo Petunia integrifolia (referido de agora
em diante simplesmente como complexo integrifolia).
Stehmann (1999) incluiu no complexo integrifolia os integrantes do gênero Petunia Juss.
que compartilham as características florais da espécie Petunia integrifolia, a saber:
corola
infundibuliforme, magenta ou purpúrea, filetes adnatos à base da corola a 2-5 mm, estigma
localizado entre as anteras dos pares de estames maior e mediano e pólen violáceo. Na Figura 5 são
Figura 4 - Representação esqu
emática dos
hábitos da espécie
Petunia integrifolia
(Hook.) Schinz & Tell: A) ereto; B)
ascendente; C) procumbente; D) decumbente.
(modificado de Stehman, 1999)
13
apresentadas fotografias de alguns dos integrantes desse complexo e na Figura 6 estão as mudanças
de classificação dos diversos taxa ao longo das décadas.
As populações de Petunia encontradas na ilha de Florianópolis foram descritas por Smith e
Downs (1966) como uma espécie distinta, Petunia littoralis (Figuras 3 e 5C), devido ao formato
linear das folhas e aos ramos glabros. Wijsman (1982), por sua vez, reconheceu P. integrifolia
como uma espécie biológica única formada por três subespécies geográficas: Petunia integrifolia
subsp. integrifolia (Figura 5E) associada ao Pampa gaúcho e argentino, P. integrifolia subsp.
inflata no Paraguai, nordeste da Argentina e oeste da região Sul do Brasil, e P. integrifolia subsp.
occidentalis isolada na região norte da Argentina e sul da Bolívia.
Posteriormente, outros três taxa relacionados a P. integrifolia foram elevados á categoria
de espécie: Ando e Hashimoto (1996) denominaram as populações que apresentavam anteras com
tecas diferenciadas e ramificações tricotômicas de Petunia interior (Figura 5A); e, em 1998, estes
mesmos autores, baseados nas diferenças de tamanho da flor, dos estames e formato do tubo da
corola descreveram Petunia riograndensis (Figura 5B) nas savanas do planalto sul-riograndense e
P. bajeensis na região dos campos pampeanos. Segundo Ando e Hashimoto (1996 e 1998), as
características diagnósticas dessas três espécies não apresentam sobreposição na natureza, o que
justificaria sua separação em espécies distintas.
Figura 5 – Algumas espécies e
subespécies integrantes do
complexo integrifolia. A) Petunia
interior; B) P. riograndensis; C) P.
littoralis; D) P. integrifolia subsp.
depauperata; E) P. integrifolia
subsp. integrifolia; F) P. integrifolia
e seu polinizador efetivo
Callonychium petuniae.
A B C
D E F
14
Figura 6 – Mudanças na delimitação taxonômica e nomenclatura dos taxa pertencentes ao complexo Petunia integrifolia de acordo com diversos autores. As caixas
cinza representam taxa específicos. As caixas brancas representam taxa infraespecíficos.



  
   
 
   

      
  
      
    
    
!  "    




   
# $ %  & 

   



  
'    %   
   

   
 % 



   
  
15
Stehmann (1999), por outro lado, argumenta que a espécie Petunia integrifolia encontra-se
naturalmente subestruturada em populações parcialmente isoladas. Devido ao isolamento, algumas
populações marginais poderiam se diferenciar vegetativamente das outras, mas não o suficiente
para constituir espécies taxonômicas diferentes. Este seria o caso dos taxa descritos acima.
Portanto, no critério de Stehmann (1999), as entidades descritas como Petunia littoralis, P.
riograndensis, P. bajeensis e P. interior deveriam ser consideradas, no máximo, como taxa
infraespecíficos de Petunia integrifolia. Petunia occidentalis, que apresenta uma distribuição mais
disjunta e caracteres diagnósticos mais consistentes seria uma exceção, constituindo uma espécie
independente.
Levando em consideração toda a controvérsia que concerne à classificação do complexo
integrifolia, no presente trabalho as entidades taxonômicas pertencentes a esse complexo não serão
tratadas como espécies ou subespécies, mas como “grupos morfológicos” (ver equivalência e
maiores detalhes nos Materiais e Métodos). As características morfológicas diagnósticas desses
grupos são apresentadas no Anexo.
A biologia em nível molecular
Os primeiros estudos da biologia evolutiva de Lamark (1809), Darwin (1859) e Haeckel
(1866) fizeram inferências sobre a origem e a relação entre os organismos fundamentados
basicamente pela comparação de caracteres morfológicos. Em muitos casos, esses estudos
permitiram estabelecer relações entre as espécies, deduzindo aspectos de sua origem e evolução.
Com o desenvolvimento científico e tecnológico ao longo dos anos, muitas metodologias
de análise foram surgindo e permitiram acessar informações sobre os organismos que não eram
percebidas diretamente. A partir dos anos de 1960, o estabelecimento de métodos matemáticos e
algoritmos, auxiliados pelo avanço computacional, permitiram realizar análises reunindo um
grande número de dados complexos. Dentre esses dados, os aspectos celulares relacionados com a
estrutura das moléculas tornaram-se uma grande fonte de informações. Essa nova linha de estudo,
conhecida como biologia molecular, permitiu que dúvidas antigas sobre a evolução dos organismos
pudessem ser esclarecidas (Matioli, 2001).
Para a Biologia de Populações e para a Genética, o desenvolvimento de técnicas como a
PCR (Polymerase Chain Reation Mullis e cols, 1986) e o seqüenciamento (Sanger e cols, 1977),
e sua utilização como ferramentas na análise de marcadores moleculares, permitiram que
informações primárias sobre a constituição dos organismos, em nível de DNA, pudessem ser
observadas.
16
Segundo Leicht e Bennet (1997), a caracterização dos organismos a partir de marcadores
moleculares apresenta certas vantagens sobre outros marcadores (como
aqueles baseados em
caracteres bioquímicos e morfológicos), na medida em que eles são independentes da expressão
gênica. Os marcadores moleculares são, então, insensíveis às influências do ambiente e do
background genético e são estáveis ao longo do desenvolvimento. Esses marcadores refletem
características herdáveis dos organismos e podem apresentar múltiplos estados (alelos) para cada
caráter (locus). Como os alelos podem se diferenciar entre os indivíduos, o estabelecimento de
conexões entre essas variações permite determinar a estrutura genética de populações naturais ou
domesticadas e, também, reconstruir a história filogenética de grupos de organismos (Nei e Kumar,
2000).
Marcadores moleculares e os estudos evolutivos
Numerosos avanços no estudo da biologia evolutiva foram possibilitados nas últimas duas
décadas depois do aprimoramento da tecnologia de seqüenciamento automático do DNA genômico.
Desde então, informações provenientes do DNA organelar vêm sendo especialmente utilizadas em
uma variedade de estudos evolutivos. As organelas mitocôndrias e cloroplastos apresentam
herança uniparental, pouca ou nenhuma recombinação e taxas de evolução diferentes daquelas
observadas para o DNA nuclear. Em plantas, informações do DNA plastidial (cpDNA) tornaram-se
ferramentas padrão para estudos filogenéticos (Clegg e cols., 1994; Gielly e cols., 1996) e um
número cada vez maior de trabalhos na área da sistemática taxonômica vêm utilizando dados
moleculares como auxiliares na resolução de problemas de classificação baseadas apenas em dados
morfológicos (Araújo, 2001; Angiosperm Phylogeny Group, 2003; Muschner e cols., 2003).
Para estudos filogenéticos em níveis taxonômicos abaixo da categoria de gênero, as regiões
não codificadoras do cpDNA ntrons e espaçadores intergênicos) são as mais utilizadas, pois
sofrem pouca ou nenhuma pressão seletiva. Assim, essas regiões estão mais livres para variar,
fornecendo informações filogenéticas suficientes para reconstruir eventos evolutivos relativamente
recentes (Small e cols., 1998). Dentre as regiões não codificadoras do cpDNA, o espaçador
intergênico cloroplasmático psbA-trnH foi caracterizado por Aldrich e cols. (1988) como uma
região plástica evolutivamente. Juntamente com outros marcadores, a região psbA-trnH já foi
usada para acessar as relações filogenéticas entre espécies do gênero Paeonia (Sang e cols., 1997) e
entre gêneros da ordem Laurales (Renner, 1999). Outro espaçador intergênico de cloroplasto, trnS-
trnG, parece apresentar variação intraespecífica suficiente para permitir estudos de estrutura
populacional e fluxo gênico em espécies de angiospermas (Hamilton, 1999).
17
Devido à condição altamente conservada do genoma plastidial, regiões de cpDNA são
pouco utilizadas para estudos evolutivos em nível populacional (van Ham e cols., 1994), pois
geralmente estas seqüências não evoluem rápido o suficiente para revelar
polimorfismos
intraespecíficos (Wolfe, 1987). Contudo, o seqüenciamento das regiões psbA-trnH e trnS-trnG do
cpDNA, realizado pelo nosso grupo de pesquisa, mostrou uma boa variação inter e intraespecífica
nos gêneros Petunia e Calibrachoa (Contini e cols., 2003; Kulcheski e cols., 2003; Kulcheski e
cols., no prelo; Longo e cols., 2003; Lorenz e cols., 2003).
As regiões do genoma nuclear são ferramentas mais adequadas para os estudos evolutivos
que requerem dados de variação molecular em nível intraespecífico e populacional em plantas, pois
apresentam taxas evolutivas cerca de três a seis vezes maiores que as do cpDNA (Small e cols.,
1998). Além disso, diversos trabalhos (p/ ex.: Molvray e cols, 1999; Fishbein e Soltis, 2004;
Koontz e cols., 2004; Oh e Potter, 2005) vêm combinando dados nucleares aos dados de cpDNA,
na tentativa de aumentar a confiabilidade das relações evolutivas inferidas, pois, uma vez que os
dois genomas apresentam mecanismos evolutivos diferentes, a história que é contada apenas por
um deles pode ser incompleta, como revisado em Schaal e cols. (1998) e Nordborg e Innan (2002).
A incongruência entre resultados obtidos a partir de regiões do genoma nuclear e plastidial pode
indicar a ocorrência de eventos de hibridação e introgressão, que passariam despercebidos caso os
estudos fossem conduzidos com apenas um tipo de marcador (Yoo e cols., 2002). Além disso, nos
estudos de genética de populações, o sistema diferenciado de herança dos genomas nuclear
(biparental) e plastidial (uniparental) acaba determinando padrões de diversidade genética intra e
interpopulacional bastante divergentes (Petit e cols., 1993a).
Uma das regiões mais usadas para estudos evolutivos, dentre as regiões nucleares
disponíveis para a análise, tem sido a região correspondente aos espaçadores internos transcritos do
DNA nuclear ribossomal (nrDNA), ITS1 e ITS2, que separam os genes 18S, 5,8S e 26S,
codificadores das subunidades ribossomais (Figura 7). Transcritos juntamente com as regiões
codificadoras, os espaçadores ITS são eliminados durante o processamento do RNA. Em
organismos superiores, o DNA ribossomal encontra-se agrupado em arranjos de centenas a
milhares de repetições. O mecanismo chamado “evolução em concerto” atua sobre as repetições
presentes em um genoma de maneira a homogeneizá-las em apenas uma seqüência definida, o que
facilita a utilização da região ITS em estudos que envolvem seqüenciamento. No caso da formação
de plantas bridas, as seqüências de ITS, originadas dos diferentes genomas parentais,
preferencialmente, passam por evolução em concerto em vez de continuar a evoluir
independentemente, sendo homogeneizadas. Tem sido sugerido que o mecanismo para a
homogeneização interlocos seja a permuta desigual ou a conversão gênica (Baldwin e cols., 1995).
Como observado por Aguilar e cols. (1999), a homogenização das seqüências de ITS em híbridos
18
artificiais em Armeria pode
ocorrer rapidamente, em apenas duas gerações, removendo um dos
tipos de rDNA parental do genoma do híbrido.
Entre 244 trabalhos revisados por Álvarez e Wendel (2003), os estudos filogenéticos
utilizando a análise da região ITS foram os mais freqüentes aparecendo, também, como auxiliar nos
estudos de sistemática molecular. Neste último aspecto, a análise dos ITS serviu, inclusive, para
elucidar relações evolutivas dentro de complexos de espécies (Rauscher, 2002; Rauscher e cols.,
2002; Goel e cols., 2002). O estudo combinado da região ITS com marcadores de cpDNA e
caracteres morfológicos aumenta ainda mais a consistência das relações evolutivas inferidas
(Álvarez e cols., 2001).
Filogeografia
Como já foi mencionado anteriormente, o estudo da variação encontrada nas seqüências de
DNA possibilitou grandes avanços nas áreas da Filogenia e Sistemática Filogenética. Nos estudos
em nível intraespecífico, o uso de seqüências de DNA para inferir processos evolutivos envolvendo
populações foi estimulado após o estabelecimento do conceito de Filogeografia por Avise e cols.
(1987).
Os estudos filogeográficos traçam inferências sobre a história da divergência entre
populações examinando as relações genealógicas dos genes dentro de um contexto geográfico
(filogenias intraespecíficas). As abordagens filogeográficas oferecem um meio de determinar quais
processos atuais e históricos influenciaram a variação genética atualmente observada nas
populações (Avise, 2000).
Os estudos moleculares em nível populacional, no entanto, ainda permanecem muito
menos comuns que estudos similares em animais. Tal fato deve-se, primeiramente, à dificuldade de
5,8S
rDNA
ITS
1
ITS
2
26S rDNA nuclear 18S rDNA nuclear
Região ITS
Figura 7
-
Organização da região ITS. (adaptado de Baldwin
e cols.
, 1995).
19
encontrar marcadores com nível apropriado de polimorfismo intraespecífico (Schaal e cols. 1998).
A construção de filogenias intraespecíficas para grupos de plantas tem aumentado nos últimos oito
anos, quando começaram a ser identificadas seqüências
nucleares (Strand e cols., 1997; Olsen e
Schaal, 1999; Gaskin e Schaal, 2002) e plastidiais (Maskas e Cruzan, 2000) que exibem variação
adequada. Desde então, a abordagem filogeográfica vem permitindo entender detalhadamente os
processos populacionais e históricos que governam a evolução das plantas, especialmente as de
interesse econômico e ecológico (Schaal e cols., 2003).
Filogenias intraespecíficas inferidas por networks
As relações evolutivas acima e abaixo do nível de espécie são diferentes em sua natureza.
As relações entre os genes amostrados de indivíduos pertencentes a diferentes espécies (filogenia,
propriamente dita) são hierárquicas. Isso porque esses genes são produto de fissão populacional
seguida por longo tempo de isolamento reprodutivo, durante o qual novas mutações combinadas à
divergência de populações levam à fixação de diferentes alelos e, finalmente, a conjuntos gênicos
não sobrepostos.
As propriedades das relações entre genes amostrados em uma espécie não são hierárquicas,
uma vez que resultam de reprodução sexual, de menor número de mutações recentes e,
freqüentemente, de recombinação (Templeton e cols.,
1992; Crandall e cols., 1994). Por causa
dessas propriedades, métodos filogenéticos como os networks são mais adequados para inferir
relações em nível populacional (Posada e Crandall, 2001). As árvores de haplótipos
3
, chamadas de
networks, ao contrário das árvores bifurcadas usadas para filogenias interespecíficas tradicionais,
incorporam as predições da teoria da genética de
populações (Watterson, 1985; Hudson, 1990;
Crandall e Templeton, 1993) permitindo, assim, a observação e análise de polimorfismos ancestrais
na amostra, além de multifurcações e reticulações entre os haplótipos analisados.
As árvores de haplótipos têm sido freqüentemente usadas, por exemplo, para obter
informações sobre o estabelecimento e rotas de migração pós-glaciais de importantes espécies
arbóreas européias (Taberlet e cols., 1998; Lumaret e cols, 2002; Petit e cols., 2002b). Outros
estudos documentaram a origem de plantas cultivadas (Olsen e Schaal, 1999), examinaram a
colonização e diversificação de espécies de plantas na Ásia (Huang e cols., 2001; Ge e cols., 2002)
e investigaram a origem de plantas invasoras que ameaçam a biodiversidade nos Estados Unidos e
outras regiões do mundo (Schaal e cols., 2003).
3
Haplótipos são alelos de um mesmo locus que se diferenciam por uma ou mais mutações.
20
Objetivos
O objetivo geral desse trabalho é caracterizar a variabilidade molecular nos diferentes
grupos morfológicos pertencentes ao complexo de espécies Petunia integrifolia encontrados no Rio
Grande do Sul e Santa Catarina, usando como marcadores os espaçadores intergênicos plastidiais
psbA-trnH e trnS-trnG e os espaçadores internos transcritos do DNA ribossomal nuclear ITS1 e
ITS2.
Objetivos específicos:
- caracterizar e comparar o nível de variabilidade genética obtido com os diferentes
marcadores moleculares;
- contribuir para o conhecimento das relações evolutivas e filogeográficas dos integrantes
do complexo integrifolia;
- comparar os grupos morfológicos entre si através de parâmetros populacionais, inferindo
o nível de diferenciação genética entre eles;
- contribuir para a circunscrição taxonômica dos integrantes do complexo integrifolia.
21
Materiais e Métodos
Definição do grupo amostral e obtenção das amostras
O material analisado foi obtido diretamente através de coletas na natureza, em diferentes
regiões dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Figura 8). As informações sobre os
locais de coleta são apresentadas na Tabela 1. Ao todo, foram analisadas amostras provenientes de
50 populações, pertencentes aos cinco grupos morfológicos
4
definidos para Petunia integrifolia. Os
testes piloto de seqüenciamento para dez marcadores moleculares de genoma nuclear e plastidial
revelaram pouco ou nenhum polimorfismo intrapopulacional. Desta forma, para cada população
foram escolhidas, aleatoriamente, uma ou duas amostras para a análise, totalizando 69 indivíduos,
conforme descrito abaixo:
- 20 populações do grupo integrifolia (26 indivíduos analisados). Este grupo corresponde à
Petunia integrifolia subsp integrifolia segundo a definição de Wijsman (1982);
- 20 populações do grupo depauperata (21 indivíduos analisados). Os indivíduos deste
grupo correspondem à Petunia integrifolia subsp depauperata segundo a definição de Smith e
Downs (1966);
- sete populações do grupo riograndensis (8 indivíduos analisados). Estes correspondem à
Petunia riograndensis descrita por Ando e Hashimoto (1998);
- duas populações do grupo interior (7 indivíduos analisados), correspondentes à Petunia
interior descrita por Ando e Hashimoto (1996);
- uma população do grupo littoralis (7 indivíduos analisados), incluídos em Petunia
littoralis descrita por Smith e Downs (1996).
4
ver Introdução e Figura 6 para maiores esclarecimentos sobre os grupos morfológicos.
22
Extração de DNA
Para cada indivíduo amostrado, foram coletadas algumas folhas jovens, imediatamente
acondicionadas em sílica gel para secagem. De cada população foi confeccionada, pelo menos, uma
exsicata, depositada no Herbário do Departamento de Botânica, Instituto de Biociências,
Universidade Federal de Minas Gerais, como testemunha. As folhas desidratadas em lica foram
pulverizadas com nitrogênio líquido e a extração de DNA total do material foi desenvolvida de
acordo com a metodologia descrita por Roy e cols. (1992) adaptada para amostras de Petunia:
- 20 mg de material pulverizado;
- Adição de 600µl de tampão de extração (100mM TRIS-HCl; 1,4M NaCl; 20mM
EDTA; 2% CTAB; 0,2% β-mercaptoetanol; 2% PVP 40), 60µl de β-mercaptoetanol e
6µl de Proteinase K (10mg/ml);
- Incubação a 65°C por 30 minutos;
- Emulsão com 600µl de fenol-clorofórmio (1:1);
-28,0
-29,0
-30,0
-31,0
-56,0 -55,0 -54,0
-53,0 -52,0 -51,0 -50,0 -49,0
0
50 100 Km
Figura 8: Mapa simplificado dos estados do RS e SC com a localização das populações onde foram obtidas as
amostras analisadas neste estudo. Os diferentes símbolos indicam os
grupos morfológicos descritos na
literatura: ( ) grupo integrifolia; ( ) grupo riograndensis; ( ) grupo depauperata; ( ) grupo littoralis; ( )
grupo interior.
23
- Centrifugação por 15 minutos a 14000 rpm;
- Recolhimento da fase aquosa e estimativa do volume;
- Precipitação do DNA com um volume de isopropanol e 1/10 do volume de acetato de
sódio;
- Armazenamento por 24 horas em freezer - 20 °C;
- Centrifugação por 20 minutos a 14000 rpm e descarte do sobrenadante;
- Lavagem do pellet com 200 µl de etanol 70% e secagem à temperatura ambiente por 20
minutos;
- Eluição do pellet em 200 µl de água ultra-pura estéril e 2 µl de RNAse (10mg/ml).
Os produtos de extração foram testados através de eletroforese horizontal em gel de
agarose 1%, corado com brometo de etídio e visualizado em transiluminador de luz ultravioleta
(UV). A qualidade do DNA extraído foi avaliada e sua concentração estimada por comparação com
marcador de peso molecular Low DNA Mass Ladder (Invitrogen).
Reações de amplificação
O DNA das amostras foi amplificado pela técnica da PCR (Polymerase Chain Reaction
Mullis e cols., 1986), em termociclador automático MJ Res. Inc., utilizando primers e protocolos
específicos, descritos na literatura, para cada um dos marcadores utilizados.
24
Tabela 1: Principais informações sobre as amostras analisadas: local de coleta, número de indivíduos por populações, código dos indivíduos analisados, classificação dos
indivíduos de acordo com o grupo morfológico e de acordo com os resultados obtidos na análise de networks (ver também Figura 10) e tipos de haplótipos obtidos com os três
diferentes marcadores.
Localidade, Município e data de Coleta Coordenada geográfica
n Códigos
Amostra
analisada
Grupos
morfológicos
Grupos
formados no
network
psbA-
trnH
trnS-
trnG
combinado ITS
Capané, Cachoeira do Sul/RS - 08/10/02 -30 17' 05'' -53 07' 58'' 6 int01 - 06 int004 AH01 SG01 C01 H01 e H02
Caçapava do Sul/RS - 08/10/02 -30 22' 06'' -53 21' 46'' 3 int07-09 int007 AH01 SG01 C01 H03 e H04
Morro Grande, Cachoeira do Sul/RS - 11/10/02 -30 19' 11'' -52 55' 34'' 5 int015 - 020 int017 AH02 SG01 C05 H10 e H11
int022 AH04 C06 H12 e H13
Piquiri, Cachoeira do Sul/RS - 11/10/02 -30 27' 11'' -52 56' 08'' 3 int021 - 023
int023 AH05
SG03
C07 H08 e H12
int050 SG03 C12 H21
Guaíba/RS - 12/11/02 -30 13' 09'' -51 24' 15'' 15
int048 - 062
int062
AH09
SG07 C13 H18 e H21
Dom Pedrito/RS - 13/11/02 -30 55' 06'' -54 47' 24'' 1 int063 int063 AH10 SG03 C14 H22 e H10
Santana do Livramento/RS - 13/11/02 -30 50' 27'' -55 02' 16'' 1 int064 int064
continental
AH11 SG03 C15 H10 e H23
int070 AH12 SG08 C16 H09 e H21
Santana do Livramento/RS - 13/11/02 -30 47' 33'' -55 12' 39'' 10
int065 - 072
e 101-102
int072 AH01 SG03 C17 H24 e H25
int075 -
Quaraí/RS - 13/11/02 -30 47' 27'' -55 42' 04'' 5 int075 - 079
int078
AH13 SG03 C18
H03 e H26
Banhado Julie, Quaraí/RS - 13/11/02 -30 29' 03'' -56 13' 15'' 6 int080 - 085 int083 AH09 SG03 C12 H23 e H27
Uruguaiana/RS - 14/11/02 -30 21' 27'' -56 27' 23'' 1 int086 int086 AH01 SG03 C17 H23 e H28
int090 AH09 C19 H13 e H29
Alegrete/RS - 14/11/02 -29 50' 36'' -55 39' 45'' 11
int087 - 097
int093 AH04
SG09
C20 -
Barra do Ribeiro/RS - 27/09/03 -30 38' 23'' -51 33' 24'' 7 int132 - 138 int136
continental
AH09 SG03 C12 H21 e H38
int037 H08 e H16
Porto Alegre/RS - 18/10/02 -30 04' 27'' -51 07' 04'' 7 int034 - 040
int040
AH06 SG03 C09
H17 e H18
Porto Alegre/RS - 18/10/02 -30 04' 13'' -51 08' 31'' 5 int041 - 045 int043 AH07 SG06 C10 H08 e H19
Morro do Osso, Porto Alegre/RS - 20/10/02 -30 07' 20'' -51 14' 05'' 2 int046 - 047 int046
integrifolia
AH08 SG03 C11 H18 e H20
Gravataí/RS - 08/10/03 -29 56' 34'' -50 55' 37'' 14
int145 - 158 int147 AH18 SG03 C26 H40 e H41
Sto Antônio da Patrulha/RS - 08/10/03 -29 52' 58'' -50 32' 06'' 5 int159 - 163 int162 AH19 SG03 C27 H41
Sto Antônio da Patrulha/RS - 08/10/03 -29 50' 05'' -50 32' 27'' 3 int164 - 166 int165 AH19 SG03 C27 H08 e H42
Sto Antônio da Patrulha/RS - 08/10/03 -29 46' 09'' -50 34' 24'' 7 int167 - 173 int170
integrifolia
AH19 SG03 C27 H04 e H08
Imbituba/SC - 11/11/02 -28 12' 07'' -48 41' 26'' 6 int104 - 109 int106 AH15 SG11 C22 H32
Sombrio/SC - 11/11/02 -29 11' 06'' -49 36' 49'' 10
int110 – 119
int116 AH15 SG11 C22 H33 e H34
Sombrio/SC - 11/11/02 -29 12' 39'' -49 38' 09'' 6 int120 - 125 int122 AH15 SG11 C22 -
int126 H35
Lagoa Jacaré, Torres/RS - 11/11/02 -29 20' 43'' -49 47' 17'' 2 int126 - 127
int127
AH16 SG11 C23
-
Camping Itapeva, Torres/RS - 11/11/02 -29 22' 53'' -49 45' 57'' 2 int128 - 129 int129
depauperata
costeiro
AH17 SG11 C24 H36 e H37
25
Tabela 1 – (continuação)
Pedra de Furnas, Torres/RS - 11/11/02 -29 21' 32'' -49 44' 09'' 2 int130 - 131 int130 AH15 SG11 C22 H19 e H35
Vila Assunção II, Pelotas/RS - 24/01/04 -31 45' 58'' -52 15' 13'' 1 int177 int177 AH17 SG12 C28 H33 e H37
Praia de Bacupari, Mostardas/RS - 31/01/04 -30 32' 36'' -50 24' 46'' 1 int180 int180 AH15 SG13 C29 H39 e H43
Solidão, Mostardas/RS - 31/01/04 -30 42' 09'' -50 33' 41'' 1 int184 int184 AH20 SG13 C30 H21
Praia de Cacimbas, Mostardas/RS - 31/01/04 -30 45' 53'' -50 37' 35'' 1 int185 int185 AH17 SG13 C31 H22 e H44
Povos, Mostardas/RS - 31/01/04 -30 50' 36'' -50 40' 54'' 1 int186 int186 AH21 SG13 C32 H10 e H45
Balneário São Simão, Mostardas/RS - 31/01/04 -30 56' 05'' -50 44' 34'' 1 int187 int187 AH07 SG13 C33 H46 e H47
Balneário São Simão, Mostardas/RS - 31/01/04 -30 56' 52'' -50 43' 33'' 1 int188 int188 AH15 SG13 C29 H48 e H49
Mostardas/RS - 31/01/04 -31 01' 08'' -50 50' 28'' 1 int190 int190 AH22 SG13 C34 H50 e H51
Balneário Mariluz/RS - 01/02/04 -29 53' 18'' -50 05' 47'' 1 int191 int191 AH19 SG03 C27 H49 e H52
Balneário Atlântida/RS - 01/02/04 -29 49' 42'' -50 03' 59'' 1 int192 int192 AH23 SG03 C35 H34 e H35
Capão da Canoa/RS - 01/02/04 -29 40' 41'' -49 58' 30'' 1 int194 int194 AH23 SG03 C35 H04 e H53
Arroio Teixeira/RS - 01/02/04 -29 38' 29'' -49 57' 50'' 1 int195 int195 AH17 SG11 C24 H16 e H35
Novo Curumim/RS - 01/02/04 -29 36' 45'' -49 56' 04'' 1 int196 int196 AH23 SG03 C35 H54 e H55
Quintão/RS - 17/02/03 -30 21' 32'' -50 17' 35'' 1 lito31 lito31
depauperata costeiro
AH15 SG13 C29 H64 e H65
int008 H01 e H05
Caçapava do Sul/RS - 08/10/02 -30 29' 00'' -53 22' 04'' 3 int008 - 009
int009
AH02 SG02 C02
H06 e H07
Pedra Segredo, Caçapava do Sul/RS - 08/10/02 -30 33' 13'' -53 31' 13'' 1 int010 int010 AH03 SG03 C03 H03 e H08
Caçapava do Sul/RS - 09/10/02 -30 38' 27'' -53 33' 14'' 4 int011 - 014 int013 AH01 SG04 C04 H09 e H10
Pantano Grande/SR - 11/10/02 -30 22' 09'' -52 25' 47'' 6 int024 - 029 int024 - - - H14 e H15
Pedra Segredo, Caçapava do Sul/RS - 08/10/02 -30 33' 13'' -53 31' 07'' 1 int100 int100 AH04 SG05 C08 H04 e H30
Florida, Canguçu/RS - 24/02/03 -31 24' 00'' -52 40' 59'' 1 int103 int103 AH14 SG10 C21 H31
Estrada entre Caçapava e Minas do
Camaquã/RS; coletado em 05/10/03
-30 42' 13'' -53 33' 24'' 1 int144 int144
riograndensis continental
AH02 SG03 C25 H01 e H39
int197 H56 e H57
Parque Nacional do Turvo/RS - novembro/03 -27 15' 00'' -53 52' 00'' 2 int197 - 198
int198
AH24 SG14 C36
H56
int199 H04 e H66
int200 H67
int201 H67
int202
AH25 SG15 C37
-
Santo Ângelo/RS - outubro/04 -28 17' 59'' -54 15' 49'' 5 int199 - 203
int203
interior interior
AH26 SG03 C38 -
lito01 H58
lito14 H58 e H60
lito26 H61 e H63
lito29
AH07 SG11 C39
H32 e H58
lito11 H58 e H59
lito25 H61 e H62
Praia de Moçambique, Rio Vermelho,
Florianópolis/SC - 06/12/02
-30 04' 13'' -51 08' 31'' 30
lito01 - 30
lito30
littoralis costeiro
- - -
H32
Total 50 populações amostradas n = 69 26 15 39 67
26
Regiões marcadoras para seqüenciamento
As condições para a amplificação dos espaçadores intergênicos psbA-trnH e trnS-trnG, do
DNA plastidial (cpDNA) e da região dos espaçadores internos transcritos do DNA ribossomal
nuclear (ITS), bem como o tamanho esperado dos fragmentos amplificados, estão descritos nos
Quadros 1, 2 e 3 respectivamente. Essas três regiões foram escolhidas por apresentarem maior
polimorfismo entre os 10 marcadores testados previamente.
Quadro 1 - Condições de amplificação e seqüência dos primers usados nas reações de PCR e
seqüenciamento do marcador psbA – trnH (Sang e cols., 1997).
Reação
Tampão (10mM Tris-HCl, 50mM KCl) 1X
dNTP 0,2 mM
MgCl
2
2 mM
Primer 1 (psbA F) 0,2 M
Primer 2 (trnH R) 0,2 M
Taq polimerase (Invitrogen) 1 U
DNA 50 ng
Condições de amplificação
94°C por 3 min para desnaturação inicial
94°C por 45 s para desnaturação
30 ciclos
58°C por 1 min para anelamento
72°C por 1 min e 30 s para alongamento
72°C por 10 min para extensão final
Seqüências dos primers para PCR e seqüenciamento
Primer 1 (psbA F)
5’
GTT ATG CAT GAA CGT AAT GCT C
3’
Primer 2 (trnH R)
5’
CGC GCA TGG TGG ATT CAC AAA TC
3’
Tamanho esperado do fragmento: entre 372 e 404 pb de acordo com Sang e cols. (1997)
para espécies do gênero Paeonia.
27
Quadro 2 - Condições de amplificação e seqüência dos primers usados nas reações de PCR e
seqüenciamento do marcador trnS-trnG (Hamilton, 1999).
Reação
Tampão (10mM Tris-HCl, 50mM KCl) 1X
dNTP 0,2 mM
MgCl
2
2 mM
Primer 1 (trnS GCU) 0,4 M
Primer 2 (trnG UCC) 0,4 M
Taq polimerase (Invitrogen) 1 U
DNA 50 ng
Condições de amplificação
96°C por 5 min para desnaturação inicial
96°C por 45 s para desnaturação
40 ciclos
52°C por 1 min para anelamento
72°C por 1 min para alongamento
72°C por 5 min para extensão final
Seqüências dos primers para PCR e seqüenciamento
Primer 1 (trnS GCU)
5’
GCC GCT TTA GTC CAC TCA GC
3’
Primer 2 (trnG UCC)
5’
GAA CGA ATC ACA CTT TTA CCA C
3’
Tamanho esperado: 844 pb para seqüências de Nicotiana tabacum. (GenBank Acc. Z00044 e
S54304)
28
Quadro 3 - Condições de amplificação e seqüência dos primers usados nas reações de PCR e
seqüenciamento da região ITS (White e cols., 1990).
Reação
Tampão (10mM Tris-HCl, 50mM KCl) 1X
dNTP 0,2 mM
MgCl
2
1,5 mM
Primer 75 0,2 M
Primer 92 0,2 M
Taq polimerase (Invitrogen) 1 U
DNA 50 ng
Condições de amplificação
94°C por 3 min para desnaturação inicial
94°C por 45 s para desnaturação
40 ciclos
58°C por 1 min para anelamento
72°C por 1 min e 30 s para alongamento
72°C por 10 min para extensão final
Seqüências dos primers para PCR
Primer 75
5’
TAT GCT TAA ACT CAG CGG G
3’
Primer 92
5’
AAG GTT TCC GTA GGT GAA C
3’
Seqüências dos primers para seqüenciamento
Primer 74
5’
GCT ACG TTC TTC ATC GAT
3’
Primer ITS3
5’
ATC GAT GAA GAA CGT ACG
3’
Tamanho esperado: 629 pb para seqüência de Petunia axillaris (GenBank Acc. AJ300213).
Os produtos de amplificação por PCR foram submetidos à eletroforese horizontal em gel
de agarose 1%, corado com brometo de etídio e visualizado em transiluminador de luz UV para a
checagem da amplificação.
Quantificação dos fragmentos de DNA amplificados
Os produtos de PCR foram quantificados com o marcador de peso molecular Low DNA
Mass Ladder (Invitrogen), utilizando 4 µl da amostra (produto de PCR) + 1 µl de corante
29
bromofenol blue com glicerol (BFB) e 4 µl do marcador + 1 µl de BFB. As amostras foram
submetidas à eletroforese horizontal em gel de agarose 1%, corado com brometo de etídio e
visualizado em transiluminador de luz UV. Para a quantificação do DNA dos produtos de PCR, as
bandas das amostras foram comparadas às do marcador de peso molecular, estimando-se sua
concentração.
Purificação enzimática dos produtos de PCR
Os produtos de PCR que apresentaram concentrações inferiores a 10 ng/µl foram
purificados utilizando o kit enzimático ExoSAP-IT (Amersham Biosciences), composto por uma
unidade de exonuclease I e uma unidade de fosfatase alcalina, que degradam primers e dNTPs não
incorporados durante as reações de PCR. A reação enzimática ocorreu a 37 °C, enquanto que a
inativação a 80 °C.
Precipitação com PEG
Os produtos de PCR que apresentaram concentrações superiores a 10 ng/µl foram
purificados por precipitação dos primers e dNTPs não incorporados utilizando Polietilenoglicol
(PEG) segundo o protocolo de Dunn and Blattner (1986):
- Adição de igual volume de PEG 20% (p/v) ao produto de PCR e homogeneização;
- Incubação a 37 °C por 30 min;
- Centrifugação a 14000 rpm por 20 min;
- Descarte cuidadoso do sobrenadante;
- Adição de 125 µl de EtOH 80% gelado. Incubação por 1 min e centrifugação por 2
min;
- Descarte do sobrenadante;
- Repetição dos 6º e 7º passos com etanol absoluto;
- Evaporação do EtOH residual a 70 °C por 10 min;
- Ressuspensão do produto de PCR em 15 µl de H
2
O ultra-pura estéril e incubação à
temperatura ambiente por 12 horas.
Seqüenciamento
O seqüenciamento do DNA amplificado por PCR foi realizado em seqüenciador
automático MegaBACE 1000 (Amersham Biosciences), seguindo os protocolos que acompanham
30
o aparelho e o DYEnamic
TM
ET terminator sequencing premix kit, com marcação terminal
fluorescente. As condições da reação de seqüenciamento o detalhadas no Quadro 4 . As reações
foram preparadas diretamente nas placas destinadas ao seqüenciador.
Quadro 4 - Condições das reações de seqüenciamento.
Reação
Condições de amplificação
DYEnamic
TM
ET terminator sequencing premix 4 µl
Produto de PCR purificado 40 ng 95 ºC por 20 seg
Primer 5 µM 35 ciclos 50 ºC por 15 seg
Água estéril Para completar 10 µl 60 °C por 1 min
Purificação com etanol/acetato de amônio
Antes do seqüenciamento propriamente dito, as amostras foram purificadas para retirar
reagentes não incorporados, de acordo com o protocolo abaixo. As amostras foram purificadas
diretamente nas placas destinadas ao seqüenciador.
- Adição de 1 µl de acetato de amônio 7,5 M pH e 30 µl de etanol absoluto (temperatura
ambiente) em cada produto de reação de seqüenciamento;
- Fechamento da placa com adesivo apropriado e mistura por 30 inversões;
- Centrifugação da placa por 45 min, 1780 RCF e 20°C;
- Descarte do sobrenadante, por inversão brusca da placa;
- Spin a 500 RCF com a placa invertida e apoiada em papel toalha;
- Adição de 100 µl de etanol 70% (temperatura ambiente) ao pellet;
- Spin a 1780 RCF e descarte do sobrenadante, por inversão brusca da placa;
- Spin a 750 RCF com a placa invertida e apoiada em papel toalha;
- Adição de 10 µl de Loading Solution e fechamento da placa com adesivo apropriado;
- Ressuspensão em vortex por 5 min;
- Spin a 1780 RFC e encaminhamento ao seqüenciador.
Análise das seqüências de DNA
As seqüências foram alinhadas com o programa Clustal X 1.81 (Thompson e cols., 2001) e
corrigidas manualmente com auxílio do programa GeneDoc (Nicholas e Nicholas, 1997). As
informações sobre o número de sítios variáveis, sítios conservados e composição nucleotídica
31
foram obtidas pelo programa MEGA2 - Molecular Evolutionary Genetics Analysis (Kumar e cols.,
2001). Uma vez que o seqüenciamento do marcador ITS revelou sítios heterozigotos, para esse
marcador foram estimados haplótipos
5
pelo programa PHASE 1.0 (Stephens e cols., 2001).
Inferindo as relações evolutivas na amostra
A grande quantidade de sítios heterozigotos, proporcional aos sítios de substituição, e a
baixa freqüência de amostras homozigotas para o marcador ITS (como pode ser observado nos
Resultados), fizeram com que somente os haplótipos referentes aos marcadores de cpDNA fossem
utilizados na inferência das relações evolutivas entre os indivíduos amostrados.
As seqüências dos marcadores plastidiais foram agrupadas no programa MEGA2 usando a
metodologia neighbor-joining (NJ; Saitou e Nei, 1987) baseada na distância-p (Kimura, 1980),
com a opção complete deletion. Além disso, no programa PAUP* versão 4.0b10 (Swofford, 2002),
foi realizada uma análise de máxima parsimônia (MP) por busca heurística com tree bisection-
reconection (TBR) branch swapping, com o uso da opção MULPARS e 1000 replicações de adição
randômica, considerando tios de inserção/deleção (indels) como quinto estado. Os sítios indels
com extensão maior que um par de bases foram considerados como eventos únicos (indels
simplificados), sendo substituída a totalidade da extensão do indel por apenas um evento de
inserção/deleção, correspondente à primeira base (Schneider, 2003).
Para ambas as análises, NJ e MP, as árvores filogenéticas resultantes foram submetidas à
análise de consistência de agrupamentos filéticos por re-amostragem (bootstraps), usando 1000
replicações (Hedges, 1992).
Métodos disponíveis para análises filogenéticas interespecíficas, como NJ e MP, assumem
uma série de pressupostos que podem ser violados nas análises em vel populacional. O principal
pressuposto assumido por estes métodos, por exemplo, é a ausência de haplótipos ancestrais, os
quais frequentemente estão presentes em estudos intraespecíficos. Os métodos de network são mais
adequados que os métodos filogenéticos para inferir relações evolutivas intraespecíficas, uma vez
que incorporam predições da teoria da genética de populações (Hudson, 1990). A análise de
network para os haplótipos amostrados foi realizada no programa NETWORK 3.1.1.1 (disponível
no site http://www.fluxus-engineering.com) através do método de median joining (Bandelt e cols.,
1999), usando os sítios indels simplificados. Além disso, os sítios que apresentaram mais que duas
5
O termo haplótipo é usado para designar um alelo ou um conjunto de alelos que estão presentes em um
genoma haplóide ou estão ligados em um único cromossomo nuclear. Devido ao grande número de sítios
heterozigotos revelados na região ITS e o desconhecimento da fase haplóide destas seqüências, o termo mais
indicado a ser usado para designá-las seria ‘tipos de seqüências’. No entanto, a exemplo de diversos trabalhos
encontrados na literatura, será mantido o termo haplótipo também nesta situação.
32
mutações recorrentes foram eliminados da análise, pois sítios com múltiplas mutações representam
homoplasias
6
, que podem confundir os padrões de divergência intraespecíficas (Lloyd, 2003).
Divisão da amostra para análises populacionais
Quatro conjuntos de dados foram criados para as análises populacionais realizadas:
1º) A amostra como um todo: n=69 indivíduos;
2º) Toda amostra, exceto os indivíduos pertencentes ao grupo interior: n=62;
3º) Comparação dos cinco grupos morfológicos (Tabela 1 e Figura 8):
- grupo integrifolia (n=26);
- grupo riograndensis (n=8);
- grupo depauperata (n=21);
- grupo littoralis (n=7);
- grupo interior (n=7),
4º) De acordo com os três clados formados na análise de network (Tabela 1 e Figura 10):
- grupo interior (n=7);
- grupo continental (n=22);
- grupo costeiro (n=33).
Três indivíduos não fizeram parte desta última análise, devido à posição que ocuparam no
network.
Para as análises de diferenciação interpopulacional nos e casos, os diferentes grupos
foram definidos artificialmente como populações. Da mesma forma que nas análises de network,
para as análises intrapopulacionais, interpopulacionais e de correlação entre distância genética e
distância geográfica, os sítios indels foram simplificados e considerados como quinto estado.
Análises intrapopulacionais
A diversidade nucleotídica e haplotípica (Nei, 1987), bem como os testes de neutralidade D
de Tajima (Tajima, 1989) e Fs de Fu (Fu, 1997) foram calculados pelo pacote Arlequin (Schneider
e cols., 2000). Esses testes de neutralidade, originalmente descritos para detectar seleção em nível
molecular, atualmente são muito usados para inferir eventos como expansão populacional e efeito
de gargalo de garrafa (bootleneck), que também podem causar desvios no modelo neutro de
6
Homoplasia: caráter compartilhado por dois taxa, que não foi herdado de um ancestral comum (Wiley e
cols, 1991).
33
população estacionária no qual eles são baseados (Tajima, 1996). Nestes casos, a significância dos
coeficientes de neutralidade é testada pela geração de amostras aleatórias sob a hipótese de
neutralidade seletiva e equilíbrio populacional, usando um algoritmo de simulação de coalescência
(Hudson, 1990). Nas análises realizadas no presente estudo foram usadas 1000 permutações.
A mismatch distribution, que é a distribuição gráfica do número de diferenças observadas
entre todos os haplótipos tomados par a par, foi calculada pelo pacote Arlequin, juntamente com os
parâmetros de expansão demográfica tau (τ), teta inicial (θ
0
)
e teta final (θ
1
). Essa distribuição é
usualmente multimodal em amostras obtidas de populações em equilíbrio demográfico, sendo
geralmente unimodal em populações que passaram por uma expansão demográfica recente (Rogers
e Harpending, 1992). Os parâmetros de expansão populacional são definidos por Li (1977) como:
θ
0
= 2µN
0
, θ
1
= 2µN
1
e τ = 2µt
Onde: µ = taxa de mutação para o haplótipo;
N
0
e N
1
= tamanho populacional antes e depois da expansão, respectivamente;
t = tempo transcorrido entre N
0
e N
1
.
Assim, a comparação dos valores dos parâmetros θ fornece uma estimativa da diferença
entre os tamanhos populacionais antes e depois da expansão, enquanto τ indica o número de
gerações transcorridas no processo de expansão. Para verificar se os parâmetros e a distribuição
calculados estão adequados ao modelo de expansão populacional súbita (hipótese nula), os dados
foram testados por um método de bootstrap paramétrico (Schneider e Excoffier, 1999), com 1000
replicações.
Devido às dúvidas em relação aos haplótipos gerados para as seqüências de ITS, nas
análises do nDNA foi utilizada a opção unknown gametic phase no pacote Arlequin. Por causa
dessa limitação, os índices de neutralidade, a distribuição mismatch, os parâmetros de expansão
geográfica, o teste de Mantel e a autocorrelação geográfica não puderam ser calculados para esta
região.
Correlação entre distância genética e distância geográfica
Os padrões de distribuição espacial da diversidade de DNA na amostra foram investigados
por dois métodos.
O teste de Mantel, que avalia a correlação entre duas matrizes de distância, no caso,
distância genética e distância geográfica entre os indivíduos amostrados, foi realizado no pacote
Arlequin. A matriz de distância genética foi obtida também pelo pacote Arlequin, utilizando o
método de médias das diferenças. A matriz de distância geográfica foi construída manualmente e
com o auxílio do programa GPS Trackmaker ver. 12.3 (http://www.gpstm.com/), que fornece a
34
distância geográfica entre dois pontos assinalados no plano cartográfico. O teste de significância da
correlação entre as duas matrizes foi feito através de um processo de permutação aleatória de linhas
e colunas (Smouse e cols., 1986). Mil rounds de permutação foram usados para gerar a distribuição
nula do coeficiente de correlação.
O segundo método calcula um índice de autocorrelação espacial (AIDA) para diferentes
classes de distância geográfica. O conjunto resultante dos coeficientes de autocorrelação,
visualizado em forma de um gráfico chamado correlograma, indica a aleatoriedade da distribuição
espacial dos haplótipos. Ou seja, determina se existe correlação entre a distância genética e a
distância geográfica (Bertorelle e Barbujani, 1995). As análises de autocorrelação foram realizadas
no programa AIDA_IND (http://web.unife.it/progetti/genetica/Giorgio/giorgio_soft.html) As
classes de distância geográfica foram definidas pela opção ‘equal size’ de modo a igualar o número
de comparações entre classes de distância. A significância dos índices de autocorrelação é
calculada por um procedimento de permutação aleatória, similar ao utilizado para o teste de
Mantel, onde os haplótipos são re-distribuídos aleatoriamente entre as diferentes localidades de
coleta. A cada round de permutação, os valores de correlação são recalculados e, ao final do
processo, é obtida uma distribuição empírica sob a hipótese nula de distribuição aleatória de
haplótipos. Os intervalos de confiança para os índices de autocorrelação foram calculados por 1000
replicações dentro de cada uma das classes geográficas.
Análises interpopulacionais
As comparações de distância genética interpopulacionais e AMOVA (Análise de variância
molecular), descritas a seguir, foram realizadas no pacote Arlequin.
A metodologia de AMOVA avalia a estrutura genética da amostra através de uma análise
de variância que usa tanto informações do conteúdo alélico dos haplótipos quanto suas freqüências
populacionais. A significância dos resultados é testada através de um procedimento não-
paramétrico onde os diferentes haplótipos são permutados aleatoriamente entre as populações.
Depois de cada round de permutação, todas as estatísticas são recalculadas para obter sua
distribuição nula (Excoffier e cols., 1992). A matriz de distância genética entre os haplótipos foi
calculada pelo método de diferenças médias e foram usadas 1000 permutações nesta análise.
Como medida de diferenciação interpopulacional, o índice F
ST
foi calculado para as
populações definidas anteriormente, em comparações par a par. Segundo Reynolds e cols. (1983) e
Slatkin (1995), o índice F
ST
pode ser usado como medida de distância genética se for aplicada uma
ligeira transformação de forma a linearizar essa distância em relação ao tempo de divergência entre
as populações. Além da utilização deste procedimento no cálculo deste índice no presente estudo,
35
foram combinados os dados de freqüência haplotípica com os dados de distância genética entre os
haplótipos como sugerido por Hudson e cols. (1992). A matriz de distância genética foi calculada
pelo método de média das diferenças. Para o teste estatístico de significância, a distribuição nula
dos valores do F
ST
, sob a hipótese de ausência de diferenciação entre populações, foi obtida
permutando aleatoriamente os haplótipos entre as populações (1000 permutações). O valor P do
teste refere-se à proporção de permutações que levou a um valor de F
ST
maior ou igual ao
observado.
36
Resultados
Os resultados obtidos para os dois genomas (DNA nuclear e cloroplasmático) serão
apresentados separadamente. Os resultados provenientes da análise dos marcadores plastidiais
serão considerados de forma combinada. As seqüências de cada um dos haplótipos das três regiões
estudadas (discriminados na Tabela 1) foram submetidas ao GenBank e estão aguardando
atribuição do código do acesso.
Características das seqüências
- DNA nuclear - Região ITS
O comprimento total da região seqüenciada, compreendendo ITS1, ITS2 e o gene 5,8S (ver
Figura 7), para os 63 indivíduos analisados, foi de 582 pares de base (pb). Dos 39 sítios variáveis
existentes, 29 (74,3%) corresponderam a sítios heterozigotos, dois sítios indels simples e seis sítios
de substituição. Um número expressivo de sítios heterozigotos presentes na região ITS também
pode ser encontrado tanto em outras espécies de Petunia (Kulcheski e cols., no prelo) quanto em
seqüências de diversas espécies de solanáceas (GenBank http://www.ncbi.nlm.nih.gov/).
Devido à presença de sítios heterozigotos, foi necessário utilizar o programa PHASE para
inferir os haplótipos para a região ITS. Para o total de 63 indivíduos analisados foram estimados 67
haplótipos. As características gerais de seqüência desses haplótipos são apresentadas na Tabela 2.
Dos 63 indivíduos seqüenciados para a região ITS, apenas 11 apresentaram um único haplótipo, ou
seja, foram homozigotos para a seqüência total desse marcador (Tabela 1).
- DNA plastidial – Espaçadores intergênicos
As características gerais dos 65 haplótipos obtidos pelo seqüenciamento dos espaçadores
intergênicos do cpDNA, analisados individualmente e de forma combinada, são apresentadas na
Tabela 2. Conforme mencionado nos Materiais e Métodos, os marcadores plastidiais apresentaram
um grande número de sítios correspondentes a indels: 45 em psbA-trnH e 17 em trnS-trnG. No
entanto, a maioria dos sítios indels esteve agrupada in tanden. Provavelmente cada um destes
conjuntos de sítios indels representam eventos evolutivos únicos, onde a seqüência de DNA foi
inserida ou deletada de uma vez. Assim, os sítios de indels múltiplos foram submetidos ao
procedimento de simplificação descrito nos Materiais e Métodos. Na Tabela 2 o apresentados
apenas os eventos de indels simplificados. Como os sítios indels em ITS foram todos simples, não
37
houve necessidade de aplicar tal procedimento de simplificação usado para os marcadores
plastidiais.
Tabela 2: Características dos haplótipos obtidos para os marcadores plastidiais analisados, individualmente e
de forma combinada, e para a região ITS.
Composição nucleotídica
(%)
n
Nº sítios
analisados
Nº sítios
conservados
% sítios
variáveis
substituições
Transições/
transversões
Nº de
eventos
indels
T C A G
psbA-trnH 65
438 414 5,48 12 4/8 12* 41,7 12,3 30,9 15,1
trnG-trnS 65
652 635 6,8 13 8/5 4* 35,7 17 33,7 13,6
cpDNA
combinados
65
1090 1049 3,76 25 12/13 16* 38,1 15,1 32,6 14,2
ITS 67
582 543 6,7 37 27/10 2 21,6 30 20,1 28,3
* n° de eventos indels resultantes do procedimento de simplificação descrito nos Materiais e Métodos.
Comparando os haplótipos inferidos para ITS com o resultado da análise combinada dos
marcadores plastidiais, observa-se que a proporção de sítios variáveis da primeira região é quase o
dobro da proporção obtida para as regiões analisadas do cpDNA. Além disso, as regiões plastidiais
apresentaram um número muito maior de eventos indels (16 eventos contra apenas dois na região
ITS). Isto sugere que a região ITS em Petunia possa estar evoluído principalmente por eventos de
substituição, enquanto que os espaçadores intergênicos plastidiais analisados estariam mais sujeitos
a eventos de inserção/deleção.
Relações evolutivas na amostra
A ocorrência de baixo número de indivíduos homozigotos para o marcador ITS, aliado ao
grande número de sítios heterozigotos, atrapalha enormemente a estimativa dos haplótipos e
consequentemente diminui a confiança nos 67 haplótipos estimados pelo programa PHASE. Por
isso, apenas os haplótipos obtidos pelo seqüenciamento das regiões espaçadoras plastidiais foram
utilizados para estudar as relações evolutivas entre os indivíduos amostrados.
- DNA plastidial – Espaçadores intergênicos combinados
O dendrograma resultante da análise de NJ para os marcadores combinados de cpDNA é
apresentado na Figura 9A. Para facilitar a visualização, os indivíduos foram representados na figura
pelo código correspondente ao seu haplótipo (Tabela 1). De modo geral, a análise de MP repetiu o
38
mesmo padrão de agrupamentos visto no NJ e a árvore consenso resultante apresentou baixo
suporte estatístico para os clados (dados não apresentados).
Como pode ser visto na Figura 9A, três clados principais podem ser destacados no
agrupamento das amostras analisadas:
- O clado 1, mais basal, é constituído exclusivamente por haplótipos dos indivíduos
pertencentes ao grupo morfológico interior;
- O clado 2 reúne haplótipos presentes somente em indivíduos pertencentes aos grupos
morfológicos integrifolia e riograndensis;
- O clado 3 (grupo irmão do 2) agrupa haplótipos apresentados por indivíduos pertencentes aos
grupos morfológicos integrifolia, depauperata e littoralis.
Além disso, dentro do clado 3, é possível observar uma subdivisão que reflete a
distribuição geográfica dos indivíduos (Figura 9B). Neste clado, o subgrupo mais basal
corresponde às amostras coletadas na região de Porto Alegre, Santo Antônio da Patrulha e litoral
norte do Rio Grande do Sul; os outros dois correspondem, respectivamente, às amostras coletadas
no litoral sul do RS e às amostras coletadas no litoral de SC até Florianópolis.
O network que demonstra o relacionamento entre os haplótipos plastidiais é representado
na Figura 10. Nele pode ser observado o mesmo padrão de divisão em três clados principais
obtidos nas análises filogenéticas descritas acima. O primeiro clado, denominado de interior, é o
mais divergente. Corresponde aos haplótipos do grupo morfológico interior, separados do restante
da amostra assim como observado na análise de NJ (1º clado do NJ);
- O segundo clado, chamado de costeiro, que inclui os haplótipos correspondentes ao clado 3
da análise por NJ;
- O terceiro clado, designado continental, corresponde ao clado 2 observado por NJ e inclui o
restante das amostras, com exceção dos três haplótipos centrais que se ligam ao vetor médio
(C03, C16 e C21 da Tabela M1, assinalados com * na árvore de NJ, inseridos no clado 2). O
vetor médio presente no diagrama do network corresponde a um haplótipo intermediário não
amostrado.
Os clados continental e costeiro evidenciados na análise do network representam duas
linhagens genéticas distintas, ao que parece separadas pelo lago Guaíba. Como os indivíduos
pertencentes a cada clado ocupam áreas geográficas separadas, os termos “clado continental” e
“clado costeiro” serão utilizados algumas vezes para designar também as áreas geográficas
ocupadas por essas linhagens.
39
Figura 9: (A) Dendrograma (árvore linearizada) resultante da análise de NJ com os dados combinados dos
marcadores plastidiais. Os indivíduos estão representados pelo número do haplótipo correspondente (Tabela
1). Os valores de bootstrap maiores que 50 são indicados acima dos ramos. Os grupos morfológicos que
caracterizam os indivíduos estão assinalados por símbolos coloridos; as setas indicam os clados
correspondentes aos três grupos formados no network (Figura 10): 1 = clado interior, 2 = clado continental; 3
= clado costeiro. Os haplótipos centrais do netrwork são indicados com *. As linhas coloridas tracejadas
circundando os haplótipos correspondem aos subgrupos geográficos assinalados no mapa de distribuição das
amostras (B).
C23
C22
C39
C28
C29
C30
C31
C32
C33
C34
C10
C26
C35
C09
C11
C27
C03
C16
C21
C13
C15
C02
C04
C06
C07
C08
C12
C14
C17
C18
C25
C01
C05
C19
C20
C36
C38
C37
cparviflora
64
60
63
55
67
60
0.000
0.002
0.004
0.006
0.008
0.010
A
B
3
2
1
Símbolos correspondentes aos
grupos morfológicos integrantes do
complexo integrifolia:
Grupo depauperata
Grupo littoralis
Grupo integrifolia
Grupo riograndensis
Grupo interior
*
*
*
40
Figura 10: Network obtido com os dados combinados dos marcadores plastidiais. O tamanho dos círculos que
representam os haplótipos é proporcional à freqüência; os eventos adicionais de mutação são indicados por
linhas transversais. As cores representam os diferentes grupos morfológicos descritos na literatura. As linhas
pontilhadas separam os três clados principais que correspondem às setas coloridas na árvore de NJ (detalhes
no texto).
Ao contrário dos clados interior, continental e costeiro, os grupos morfológicos integrifolia,
riograndensis, depauperata e littoralis, não parecem bons indicativos de linhagens evolutivas, uma
vez que os haplótipos correspondentes a esses grupos encontram-se misturados ao longo do
network e na árvore NJ (Figuras 9 e 10). Em outras palavras, os caracteres morfológicos que são
usados para separar os grupos morfológicos no complexo integrifolia, dentro de uma visão
taxonômica – com exceção do grupo interior – não estão associados aos caracteres moleculares que
separam os indivíduos em linhagens evolutivas distintas.
Análises intrapopulacionais
- DNA nuclear - Região ITS
Conforme descrito nos Materiais e Métodos, alguns parâmetros de diversidade
populacional puderam ser calculados com os resultados obtidos para o marcador nuclear ITS,
Clado inte
rior
Clado continental
Clado costeiro
Grupo interior
Grupo integrifolia
Grupo riograndensis
Grupo depauperata
Grupo littoralis
vetor médio
41
usando a fase gamética desconhecida. Cada uma das divisões apresentadas na Tabela 3 foi
considerada como sendo uma população.
De modo geral, os valores numéricos para cada um dos índices calculados foram
praticamente os mesmos, independente da divisão por grupos morfológicos ou clados evidenciadas
no network e na árvore obtida por NJ. A variação da região ITS, portanto, está igualmente
distribuída entre as diferentes categorias morfológicas e linhagens evolutivas analisadas. Os altos
valores para diversidade haplotípica, que variaram de 0,9333 até 1, indicaram que quase todas as
seqüências individuais encontradas dentro de cada uma das divisões são diferentes. Os baixos
índices de diversidade nucleotídica, no entanto, revelaram que as seqüências diferenciaram-se
muito pouco umas das outras, em média cerca de nove nucleotídeos.
Tabela 3: Índices de diversidade nucleotídica e haplotípica intrapopulacionais inferidos na análise da região
ITS. Valores de desvio padrão entre parênteses.
Grupos morfológicos Clados do network
integrifolia
riograndensis
depauperata
littoralis
interior continental
costeiro
n total s/
interior
4
n total
n amostral 24 8 19 7 5 20 34 58 63
k
1
8,5648
(4,0284)
9,1166
(4,4287)
8,8378
(4,1668)
4,9999
(2,5857)
7,6000
(3,8756)
8,4043
(3,9727)
9,1777
(4,2729)
8,9309
(4,1449)
9,0188
(4,1804)
π
2
0,0164
(0,0085)
0,0171
(0,0093)
0,0161
(0,0084)
0,0100
(0,0058)
0,0134
(0,0077)
0,0161
(0,0084)
0,0168
(0,0086)
0,0166
(0,0085)
0,0165
(0,0085)
Hd
3
0,9982
(0,0047)
1,000
(0,0221)
0,9986
(0,0065)
0,9560
(0,0447)
0,9333
(0,0620)
0,9987
(0,0060)
0,9974
(0,0032)
0,9990
(0,0014)
0,9987
(0,0012)
1
número médio de diferenças nucleotídicas entre todos os pares de haplótipos na amostra;
2
diversidade nucleotídica;
3
diversidade haplotípica;
4
amostra total excluindo indivíduos pertencentes ao grupo morfológico interior.
- DNA plastidial – Espaçadores intergênicos combinados
Os valores de diversidade nucleotídica, diversidade haplotípica e os coeficientes de
neutralidade são apresentados na Tabela 4. Refletindo o maior nível de conservação dos
marcadores cpDNA, os índices de diversidade nucleotídica foram cerca de três vezes menores que
os índices obtidos para a região ITS. O grupo littoralis foi monomórfico para esses marcadores,
sendo observado um único haplótipo entre os quatro indivíduos analisados. O índice D de Tajima
não desviou da neutralidade em nenhuma das divisões analisadas (P > 0,05). No entanto, o índice
Fs de Fu, mais indicado para evidenciar desvios do modelo nulo de população estacionária com
alelos infinitos, foi significativo para todas as divisões (P < 0,01, na maioria dos casos). Assim,
parece que a evolução dos marcadores de cpDNA indica a ocorrência de um evento de diminuição
42
populacional (efeito gargalo de garrafa) seguido de rápida expansão. Esse evento parece ter
atingido igualmente todos os grupos analisados, de forma geral.
Tabela 4: Índices de diversidade nucleotídica, diversidade haplotípica e índices de neutralidade
intrapopulacionais inferidos na análise combinada das regiões espaçadoras plastidiais. Valores de desvio
padrão entre parênteses.
Grupos morfológicos Clados do network
integrifolia
riograndensis
depauperata
littoralis
interior continental
costeiro
n total s/
interior
5
n total
n amostral
26 7 21 4 7 22 33 58 65
h
1
18 6 12 1 3 17 17 36 39
k
2
4,2154
(2,1619)
4,000
(2,6024)
2,5905
(1,6127)
0
4,4762
(2,8712)
2,7879
(1,7089)
2,9659
(1,7700)
4,5959
(2,5394)
5,8394
(2,8278)
π
3
0,0039
(0,0023)
0,0038
(0,0025)
0,0024
(0,0015)
0
0,0041
(0,0026)
0,0026
(0,0016)
0,0028
(0,0016)
0,0043
(0,0024)
0,0054
(0,0029)
Hd
4
0,969
(0,018)
0,952 (0,096)
0,966
(0,031)
0
0,667
(0,160)
0,978
(0,019)
0,949
(0,017)
0,979
(0,007)
0,980
(0,006)
D Tajima -0,5470
NS
-0,9982
NS
-0,5348
NS
- 1,161
NS
-0,773
NS
-0,459
NS
-1,098
NS
-1,068
NS
Fs Fu -25,808** -3,5811* -26,6137** - -3,286**
-26,487** -26,32**
-25,69**
-25,31**
1
número de haplótipos obtidos para os marcadores combinados de cpDNA;
2
número médio de diferenças nucleotídicas
entre todos os pares de haplótipos na amostra;
3
diversidade nucleotídica;
4
diversidade haplotípica;
5
amostra total
excluindo indivíduos pertencentes ao grupo morfológico interior;
NS
Não significante; *significante (P<0,05);
**significante (P<0,01).
As análises da distribuição mismatch confirmam a hipótese de expansão populacional
evidenciada pelos índices Fs de Fu. O gráfico obtido para toda a amostra (Figura 11A) apresentou
um padrão bimodal. Quando os indivíduos do grupo morfológico interior foram removidos da
análise, a distribuição tornou-se unimodal (Figura 11B) refletindo claramente um padrão de
diminuição populacional, seguido de expansão rápida. Esse resultado indica que o grupo
morfológico interior é geneticamente muito divergente do resto dos indivíduos que compõem o
complexo integrifolia.
As análises de mismatch para os haplótipos dos clados continental e costeiro, em separado,
mostraram o mesmo padrão de expansão populacional em ambos (Figura 11C e D). A média de
diferenças nucleotídicas entre os indivíduos, aliada ao valor semelhante de τ, é indicativa de que os
dois eventos de expansão populacional ocorreram independentemente e mais ou menos na mesma
época (Tabela 5). A grande diferença entre os parâmetros θ
0
e θ
1
e a ausência de sobreposição nos
intervalos de confiança
indicam expansão populacional grande, tanto para o clado continental
quanto para o clado costeiro.
43
Figura 11: Distribuição mismatch analisando os marcadores combinados de cpDNA de toda a amostra (A);
toda a amostra excluindo o grupo interior (B); e os grupos costeiro (C) e continental (D) formados na análise
de network (ver Figura 10). O eixo horizontal (x) representa o número de sítios diferentes entre pares de
indivíduos comparados. As barras representam o número de pares amostrados que apresentaram x diferenças.
A linha sólida indica a distribuição mismatch esperada de acordo com o modelo de expansão populacional
súbita.
Tabela 5: Parâmetros de expansão demográfica associados à análise da distribuição mismatch obtidas com os
dados dos marcadores de cloroplasto combinados; intervalos de confiança (para α=0,05) estão entre
parênteses.
Clados do network
Toda amostra
Toda amostra menos
grupo interior
continental costeiro
nº médio de
diferenças (k)
5,839 (3,629 - 10,085) 4,596 (3,287 - 6,269) 2,788 (2,000 - 4,074) 2,966 (2,299 - 3,991)
n° de sítios
polimórficos
41 (59 - 93) 32 (46 - 78) 13 (21- 42) 14 (36 - 61)
tau (
τ
)
3,392 (1,563 - 10,410) 4,996 (2,562 - 6,648) 2,980 (1,273 - 4,138) 3,129 (1,487 - 3,950)
teta inicial (
θ
0
)
2,916 (0,000 - 9,310) 0,036 (0,000 - 2,192) 0,000 (0,000 - 2,062) 0,000 (0,000 - 1,653)
teta final (
θ
1
)
89,609 (18,49 - 6940,8) 47,192 (16,78 - 6862,2) 6732,5 (37,62 - 9632,5) 4682,5 (39,9- 10206,25)
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16
100
200
300
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
100
200
300
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9
40
80
120
160
0 1 2 3 4 5 6 7
20
40
60
80
A B
C D
Observado
Esperado
44
Correlação entre distância genética e distância geográfica
O teste de Mantel indicou correlação entre as distâncias genética e geográfica apenas na
análise da amostra como um todo, excluindo ou não os indivíduos do grupo interior (Tabela 6). Os
valores dos coeficientes de regressão e determinação, no entanto, foram baixos, indicando que a
distância genética está correlacionada com a distância geográfica, mas ao mesmo tempo a primeira
não é completamente determinada pela última. Isto ficou mais claramente demonstrado pela falta
de correlação quando a amostra foi dividida nos clados costeiro e continental. Nesse caso, a
variabilidade genética dentro de cada um deles parece não estar organizada de acordo com o
modelo de isolamento por distância. Levando em conta essas observações, pode-se sugerir que o
coeficiente de correlação de toda a amostra é significativo devido, principalmente, à comparação
entre os indivíduos pertencentes aos dois grupos homogêneos correspondentes aos clados
continental e costeiro, que são diferentes um do outro e estão separados geograficamente.
Tabela 6: Coeficientes do teste de Mantel que avalia a correlação entre a distância genética (Y) e distância
geográfica (X) dos indivíduos amostrados.
Clados do network
Toda amostra
Toda amostra menos
grupo interior
continental costeiro
Coeficiente de regressão (bY) 0.000686 0.000038 -0.000015 0.000007
Coeficiente de correlação (rY) 0.408867** 0.355440** -0.152781
NS
0.062036
NS
Determinação de Y por X 0.167172 0.126338 0.023342 0.003848
NS
Não significante; **significante (P<0,01).
A análise de autocorrelação espacial complementou as análises de Mantel e permitiu uma
visão mais detalhada da distância genética entre os indivíduos dentro de diferentes categorias de
distância geográfica. Os correlogramas (Figuras 12 e 13), de modo geral, indicaram uma tendência
clinal para os dados, onde os indivíduos mais próximos geograficamente são também mais
semelhantes geneticamente. A ocorrência de uma clina perfeita estaria associada ao modelo de
isolamento por distância. No entanto, os resultados aqui apresentados mostraram uma ‘quebra’ no
padrão clinal, provavelmente devido à existência de estruturação populacional. Ou seja, indivíduos
geograficamente próximos podem pertencer a populações diferentes e podem, portanto, ser
geneticamente distantes.
45
Figura 12: Correlogramas dos dados combinados de cpDNA de toda amostra analisada (acima) e toda
amostra excluindo o grupo interior (abaixo). O eixo vertical (Y) corresponde ao valor do coeficiente de
autocorrelação calculado para cada uma das 20 classes de distância geográfica; eixo horizontal (X) medidas
em quilômetros. A primeira classe (0 km) inclui comparações entre haplótipos pertencentes a uma mesma
população. *P<0,05; **P<0,01.
-0,5
0
0,5
1
1,5
2
0 0 57,98 100,89 141,46 183,92 221,23 258,86 293,07 340,3 379,55 422,97 452,48 507,36 580,57
0 57,98 100,89 141,46 183,92 221,23 258,86 293,07 340,3 379,55 422,97 452,48 507,36 580,57
**
**
** **
**
**
**
**
**
**
Toda amostra
-0,6
-0,4
-0,2
0
0,2
0,4
0,6
0,8
1
0 0 34,99 63,39 91,55 110,62136,36166,71189,15217,24239,22265,15292,23326,63362,92396,65438,47492,16546,59592,85
0 34,99 63,39 91,55 110,62136,36166,71189,15217,24239,22265,15292,23326,63362,92396,65438,47492,16546,59592,85
**
**
**
**
*
**
**
**
**
Toda amostra menos o grupo interior
46
Figura 13: Correlogramas dos dados combinados de cpDNA dos grupos continental (acima) e costeiro
(abaixo) formados na análise de network. O eixo vertical (Y) corresponde ao valor do coeficiente de
autocorrelação calculado para cada uma das 10 classes de distância geográfica eixo horizontal (X) medidas
em quilômetros. A primeira classe (0 km) inclui comparações entre haplótipos pertencentes a uma mesma
população. *P<0,05; **P<0,01.
-0,4
-0,2
0
0,2
0,4
0,6
0,8
1
0 0 41,98 69,67 115,1 149,78 191,04 227,79 270,67 351,06
0 41,98 69,67 115,1 149,78 191,04 227,79 270,67 351,06
**
*
*
-0,4
-0,2
0
0,2
0,4
0,6
0,8
1
0 0 34,84 65,72 94,92 120,56 154,24 199,48 274,52 364,06
0 34,84 65,72 94,92 120,56 154,24 199,48 274,52 364,06
**
**
**
**
**
*
**
Clado continental
Clado costeiro
47
Assim como aconteceu com os resultados obtidos pelo teste de Mantel, o padrão clinal ficou
mais evidente quando toda a amostra foi considerada (Figura 12) que quando a amostra foi dividida
nos clados continental e costeiro (Figura 13). Para o clado costeiro, existe um padrão clinal até
aproximadamente 120 km, enquanto que no clado continental não existe evidência de clina. A
variabilidade genética observada, portanto, pode ser atribuída a um modelo de isolamento por
distância entre os indivíduos mais próximos no clado costeiro.
Análises interpopulacionais
Os cinco diferentes grupos morfológicos descritos para o complexo integrifolia e as três
linhagens evolutivas evidenciadas no network foram considerados como populações com o objetivo
de investigar os padrões de distribuição da variabilidade genética obtida com o estudo da região
ITS e dos marcadores combinados de cpDNA.
- DNA nuclear - Região ITS
Os resultados da AMOVA para a região ITS diferenciaram fracamente os grupos
morfológicos e os clados do network entre si, uma vez que a variação genética intrapopulacional
(87,87% e 92,31% para cada comparação, respectivamente) foi maior que a interpopulacional
(Tabela 7). As comparações par a par de F
ST
de nível estatístico significativo (Tabela 8 e Figura 14)
indicaram que o grupo morfológico littoralis é o mais diferenciado dos demais, apresentando mais
ou menos o mesmo nível de isolamento em relação a cada um dos outros grupos (integrifolia,
depauperata e riograndensis). O grupo interior, por sua vez, distanciou-se mais do grupo littoralis
que do grupo integrifolia. Por fim, os grupos integrifolia e depauperata pareceram ser os menos
divergentes entre si.
A diferenciação dos clados do network para a região ITS (Tabela 8 e Figura 14), de modo
geral, foi menor que a dos grupos morfológicos. Os clados continental e costeiro pareceram ser
menos divergentes entre si que quando comparados com o clado interior pelos índices F
ST
.
48
Tabela 7: Resultados da AMOVA para a região ITS.
Grupos morfológicos (5 populações
1
) Clados do network (3 populações
2
)
Entre
populações
Dentro das
populações
Total
Entre
populações
Dentro das
populações
Total
graus de liberdade 4 121 125 2 115 117
soma do desvio quadrado 68,321 495,377 563.697 31,879 497,773 529.652
quadrado médio esperado 0,5654** 4,0940 4.65942
0,3606** 4,3285 4.68902
% de variação 12,13 87,87 100 7,69 92,31 100
índice F
ST
0,1213 0,0767
1
grupos integrifolia, riograndensis, depauperata, littoralis e interior;
2
grupos continental, costeiro e interior; **P (valor
aleatório
valor observado) < 0,01
Tabela 8: Comparações interpopulacionais baseadas em dados da região ITS. As populações comparadas
correspondem aos cinco grupos morfológicos do complexo integrifolia e aos três grupos evidenciados nas
análises de network. A proporção de diferenças nucleotídicas médias entre as populações é mostrada acima
da diagonal; abaixo da diagonal estão os índices F
ST
.
Grupos morfológicos Clados do network
integrifolia
depauperata
riograndensis
interior littoralis
continental
costeiro interior
integrifolia - 9.19846 8.94792 9.72917 8.86607 cont
- 9.12132 9.64000
depauperata 0.06207* - 9.38816 9.25263 9.13158 cost
0.04820* - 9.64412
riograndensis
0.00233 0.04276 - 9.13750 9.36607 inter
0.16284* 0.13008*
-
interior 0.16031* 0.11185 0.06918 - 10.4571
littoralis 0.22499* 0.24344* 0.25623* 0.43610*
-
* valores de P<0,05.
- DNA plastidial – Espaçadores intergênicos combinados
Os índices gerais de estruturação populacional F
ST
calculado pela AMOVA nos grupos
morfológicos e clados do network (Tabela 9) foram cerca de quatro e seis vezes maiores,
respectivamente, que os índices F
ST
calculados com os dados de ITS (Tabela 7). Isso indica que,
apesar dos marcadores de cpDNA serem mais conservados que a região ITS (comparando as
Tabelas 3 e 4), a variação encontrada neste último está distribuída de forma mais uniforme entre os
grupos morfológicos e os clados do network. Esse padrão pode ser explicado pelo maior tamanho
populacional efetivo (Ne) do genoma nuclear em comparação ao genoma cloroplasmático,
conforme detalhado na Discussão.
49
Tabela 9: Resultados da AMOVA para os marcadores combinados de cpDNA.
Grupos morfológicos (5 populações
1
) Clados do network (3 populações
2
)
Entre
populações
Dentro das
populações
Total
Entre
populações
Dentro das
populações
Total
graus de liberdade 4 60 64 2 59 61
soma do desvio quadrado 82.826 104.038 186.864 87.603 90.156 177.759
quadrado médio esperado 1.64759**
1.73396 3.38155
2.35910
1.52807 3.88717
% de variação 48.72 51.28 100 60.69 39.31 100
índice F
ST
0,4872 0,6069
1
grupos integrifolia, riograndensis, depauperata, littoralis e interior;
2
grupos continental, costeiro e interior; **P (valor
aleatório
valor observado) < 0,01
Comparando a variação molecular entre populações, vê-se que esta foi maior (60,69% na
Tabela 9) entre os clados do network que quando a mesma comparação foi feita usando seqüências
de ITS (7,69%, na Tabela 7). Quando divididos em grupos morfológicos, os maiores valores de F
ST
(Tabela 10) foram observados nas comparações envolvendo o grupo interior. Os grupos integrifolia
e riograndensis pareceram não apresentar diferenciação genética significativa. O menor valor de
F
ST
foi obtido para o grupo depauperata quando comparado com o grupo littoralis. Esses resultados
são compatíveis com a árvore de NJ (Figura 9) e com o network (Figura 10): o grupo morfológico
interior, o mais diferenciado de todos, é o único que corresponde a um grupo monofilético,
enquanto os quatro outros grupos morfológicos estão dispersos dentro dos outros dois clados.
Tabela 10: Comparações interpopulacionais baseadas em dados combinados dos marcadores de cpDNA. As
populações comparadas correspondem aos cinco grupos morfológicos do complexo integrifolia e aos três
grupos evidenciados nas análises de network. A proporção de diferenças nucleotídicas médias entre as
populações é mostrada acima da diagonal; abaixo da diagonal, estão os índices F
ST
.
Grupos morfológicos Clados do network
integrifolia
depauperata
riograndensis
interior littoralis
continental
costeiro interior
integrifolia - 5.59348 4.41766 10.89011
5.46154 cont
- 6.15713 10.84416
depauperata 0.38457* - 5.61224 11.17007
2.28571 cost
0.53105* - 11.15584
riograndensis
0.06637 0.44988* - 10.42857
5.57143 inter
0.69762* 0.70126*
-
interior 0.60589* 0.71869* 0.59344* - 11.42857
littoralis 0.43450* 0.24143* 0.55520* 0.74940*
-
* valores de P<0,05.
50
Na comparação dos clados do network, para os dados da região ITS, o clado interior é o
mais divergente, enquanto os clados costeiro e continental são muito próximos (Figura 14).
Contudo, os três clados apresentaram-se igualmente divergentes entre si quando os resultados de
cpDNA foram considerados
Os resultados das análises de NJ, network, distribuição mismatch e F
ST
, de modo geral,
indicaram que o chamado complexo integrifolia é composto por três linhagens evolutivas: clados
continental, costeiro e grupo interior, sendo esse último o mais distinto dos três segundo os dados
moleculares.
Figura 14: Esquema indicando os valores dos índices F
ST
calculados para os dados da região ITS e dos
marcadores combinados de cpDNA em comparações interpopulacionais. Apenas os valores significativos são
apresentados. O comprimento das setas é proporcional aos valores de F
ST
obtidos.
0,1603
0,0621
littoralis
integrifolia
depauperata
riograndensis
interior
0,4361
0,2249 0,2434
0,2562
littoralis
0,7494
integrifolia
depauperata
riograndensis
interior
0,4345
0,2414
0,4499
0,6059
0,7187
0,5934
0,3846
0,5552
interior
costeiro
continental
0,7013 0,6976
0,5310
Grupos morfológicos
Clados do
network
Região ITS cpDNA
0,0482
interior
costeiro
continental
0,1301 0,1628
51
Discussão
Sítios heterozigotos em ITS – falha da evolução em concerto?
A evolução em concerto é a homogeneização de seqüências entre diferentes cópias da
mesma família gênica ou seqüências dispersas ao longo do genoma através de permuta desigual ou
processo de conversão gênica (Elder e Turner, 1995). Embora existam de centenas até milhares de
repetições da região ITS do DNA nuclear ribossomal (nrDNA) no genoma das plantas, essas
seqüências passam, teoricamente, por um forte processo de evolução em concerto que elimina a
variação existente entre as várias cópias. Essa homogeneização é de grande valia para os estudos de
reconstrução filogenética (Baldwin e cols., 1995), sendo as análises da região ITS muito usadas em
estudos de sistemática de plantas (Álvarez e Wendel, 2003). No entanto, polimorfismos de base em
sítio único (chamados nesse trabalho de sítios heterozigotos) foram relatados ocorrendo em
diversas espécies (Bohs e Olmstead, 2001; Okuyama e cols, 2005) acusando a persistência de
diferentes alelos não homogeneizados para a região ITS. No gênero Mitella de Saxifragaceae
(Okuyama e cols, 2005), a manutenção de alelos de ITS não homogeneizados em genomas
individuais é atribuída à lentidão dos mecanismos de evolução em concerto, uma vez que eventos
recorrentes de hibridação natural acabam misturando alelos entre diferentes espécies do gênero. O
gênero Paeonia (Paeoniaceae) também exibe taxa híbridos com seqüências parentais de ITS não
homogeneizadas (Sang e cols. 1995). A manutenção das seqüências parentais em taxa híbridos,
segundo Sang e cols. (1995), poderia ser atribuída à reprodução vegetativa. No entanto, a ausência
de recombinação sexual não parece estar associada à deficiência dos mecanismos de evolução em
concerto, uma vez que resultados similares foram obtidos para outras espécies híbridas que não
apresentavam reprodução vegetativa (Kim e Jansen, 1994; O’Kane e cols., 1996). Outra sugestão
para explicar o atraso ou ausência de mecanismos de evolução em concerto seria a presença de loci
do nrDNA em cromossomos não homólogos (Campbell e cols., 1997).
O gênero Nicotiana (Solanaceae), assim como Mitella e Paeonia, exibe um grande nível de
hibridação natural seguido de especiação (Goodspeed, 1954). No entanto, ao contrário desses dois
gêneros, as espécies do gênero Nicotiana analisadas por Chase e cols. (2003) apresentaram
genomas individuais portando apenas um alelo para a região ITS. A homogeneização dos alelos em
espécies bridas de Nicotiana é atribuída a um mecanismo rápido de conversão gênica (Lim e
cols., 2000), visto também em Armeria (Aguilar e cols., 1999), mas que parece não atuar nas
espécies analisadas nos outros estudos descritos acima.
Como se pode perceber pelos trabalhos encontrados na literatura, ainda não foram
reconhecidos todos ou quais são os caracteres biológicos que determinam os padrões evolutivos da
52
região ITS nas diferentes espécies de plantas estudadas. No caso dos integrantes do complexo
Petunia integrifolia e outras espécies de Petunia analisadas por nosso grupo de pesquisa, a
presença de sítios heterozigotos na região ITS de genomas individuais indica uma deficiência nos
mecanismos de evolução em concerto no gênero como um todo. No entanto, devido à raridade de
híbridação natural entre espécies de Petunia (Stehmann, 1999), a falta de informações sobre
mecanismos de reprodução vegetativa e posição cromossômica dos loci de nrDNA no gênero, fica
difícil determinar as prováveis causas da falta de homogeneização da região ITS sem a condução
de outros experimentos.
Evolução diferente dos marcadores – inserção/deleção e substituição
As baixas taxas de mutação associadas ao genoma plastidial (cpDNA) geralmente
dificultam a obtenção de polimorfismos necessários aos estudos populacionais e filogeográficos
(Provan e cols., 2001). Por outro lado, as regiões intergênicas de cpDNA podem apresentar
polimorfismos adequados aos estudos em vel intraespecífico, mas esses resultados variam muito
de acordo com a espécie e a região estudada (Schaal e cols., 1998). Neste trabalho, os espaçadores
intergênicos psbA-trnH e trnS-trnG mostraram-se mais conservados que a região ITS do nrDNA
nos taxa integrantes do complexo integrifolia. A maior parte da variação encontrada nos
marcadores de cpDNA foi composta por eventos de inserção/deleção, o que confirma as
observações iniciais de Palmer (1985) e Aldrich e cols. (1988).
Apesar de apresentarem um certo nível de restrição funcional (Mai e Coleman, 1997), as
regiões ITS1 e ITS2 do nrDNA podem evoluir relativamente rápido (Small e cols., 1998; Cronn e
cols., 2002), tanto por eventos de substituição nucleotídica quanto por acúmulo de sítios indels. Em
muitos estudos, o excesso de variação dificulta o alinhamento de seqüências em análises
filogenéticas envolvendo níveis taxonômicos mais profundos (Kim e Jansen, 1996; Ashworth,
2000), o que não é o caso do complexo integrifolia, uma vez que este reúne taxa de divergência
mais recente (ver Conclusões). Os resultados aqui apresentados indicaram que a região ITS evoluiu
principalmente por eventos de substituição nucleotídica nas amostras analisadas. Por causa dessas
características, aliadas ao bom nível de variabilidade observado, a região ITS mostrou ser um
marcador adequado para estudos populacionais e filogeográficos no complexo integrifolia. No
entanto, o grande número de sítios heterozigotos presentes nas seqüências impossibilitou a
inferência adequada dos haplótipos, sem a condução de experimentos adicionais, necessários à
determinação da fase haplóide correta. Assim, a comparação entre os padrões de variação obtidos
com cpDNA e nrDNA puderam ser realizadas nas análises que não exigiam a determinação da
fase gamética.
53
Relações evolutivas entre os indivíduos da amostra evidenciam três grupos de haplótipos que
representam linhagens evolutivas distintas
A análise combinada dos marcadores de cpDNA revelou os mesmos padrões de
relacionamento entre os integrantes do complexo integrifolia nos três métodos utilizados (NJ, MP e
network). O baixo valor de suporte estatístico (valor de bootstrap) para os ramos das árvores de NJ
e MP (dados não mostrados) não indicaram inconsistência dos resultados, uma vez que esses
métodos não são os mais adequados para análises intraespecíficas (ver Introdução). O baixo suporte
dos ramos foi conseqüência direta da alta similaridade genética entre as unidades comparadas
(indivíduos da mesma espécie ou de taxa muito próximos). A congruência entre os métodos
filogenéticos clássicos (NJ e MP) e a análise network (mais indicada para esse tipo de dados), por si
só, garante a consistência evolutiva das três linhagens genéticas denominadas nos Resultados de
clados interior, costeiro e continental.
Os clados continental e costeiro, conforme mostrado na Figura 9, ocupam áreas geográficas
distintas (são alopátricos). Esse mesmo padrão de linhagens genéticas alopátricas foi observado em
outros estudos onde foi possível associar cada linhagem genética com caracteres morfológicos e/ou
ecológicos distintos (Byrne e cols., 2003; Rambau e cols., 2003). Em alguns casos, inclusive, foi
possível explicar a estruturação geográfica de linhagens genéticas por eventos históricos de
isolamento, como nos diversos estudos de recolonização pós-glacial de espécies vegetais européias
(Hewitt, 1999; Petit e cols., 2002a). Um estudo envolvendo oito espécies de carvalhos na Europa
(Dumolin-Lapegue, 1997) mostrou o mesmo padrão de linhagens genéticas distintas compostas por
haplótipos exclusivos exibido pelo complexo integrifolia. Naquele caso, cada uma das linhagens
em carvalho foi associada a um dos diversos refúgios de vegetação encontrados nas penínsulas da
Ibéria, Itália e Balcans, a partir dos quais essas espécies se expandiram no final da última glaciação,
recolonizando o continente europeu durante os últimos 13 mil anos. No caso do complexo
integrifolia, devido aos eventos de retração e expansão marítima que moldaram a planície costeira
do RS, como conseqüência de alterações climáticas holocênicas (Villwock e Tomazelli, 1995), é
possível que o mesmo sistema de isolamento em refúgios tenha separado, em algum momento no
passado, os haplótipos ancestrais originais das duas linhagens genéticas distintas a que chamamos
aqui de continental e costeira.
Avise (2000) reuniu diversos estudos filogeográficos baseados em linhagens genéticas do
mtDNA de espécies animais. Pela revisão dos resultados encontrados nesses trabalhos, o autor
dividiu os padrões filogeográficos observados em sete categorias distintas. Os clados costeiro e
continental, segundo a chave classificatória de Avise (2000), se enquadram na categoria III
54
referente a linhagens genéticas alopátricas e pouco divergentes (árvore de haplótipos “rasa”
7
).
Nessa categoria filogenética, o fluxo gênico entre as populações geograficamente separadas é baixo
o suficiente em relação ao tamanho populacional para que a ação da deriva promova a
diferenciação genética entre elas. Um exemplo desse padrão também pode ser encontrado em
Peromyscus polionotus, uma espécie de roedor confinada às planícies costeiras do sudeste dos
Estados Unidos. Os diferentes haplótipos de mtDNA encontrados para esses indivíduos são
altamente relacionados e geograficamente estruturados, correspondendo a populações isoladas
(Avise e Lansman, 1983), assim como no caso do complexo integrifolia. A exemplo do exposto por
Avise (2000), esse tipo de padrão filogeográfico indicaria origem e divergência recente dos clados
costeiro e continental a partir de um conjunto gênico ancestral. Uma vez que esses dois grupos não
compartilham haplótipos, e se a origem de ambos foi recente, podemos inferir que eles se
encontram isolados, sem fluxo gênico de cpDNA, desde o momento em que se estabeleceram até
os dias atuais (Schaal e cols, 1998).
A história do clado interior, por outro lado, parece ser diferenciada dentro do complexo
integrifolia. Este clado é o mais divergente dos três e é o único que pode ser relacionado a uma
entidade taxonômica distinta, correspondendo ao grupo morfológico interior, descrito como
Petunia interior por Ando e Hashimoto (1996). Análises adicionais realizadas por F. R. Kulcheski
(comunicação pessoal) mostraram que os clados continental e costeiro se diferenciam mais
geneticamente do clado interior que de outras espécies do gênero que não fazem parte do complexo
integrifolia. Tal separação deve ser, portanto, mais antiga que a divergência entre os clados
continental e costeiro. Esse tempo de separação, provavelmente, permitiu o acúmulo de mutações
necessárias para a distinção morfológica do clado interior.
Análises populacionais
Padrões de diversidade intrapopulacional
De acordo com os padrões descritos por Rogers e Harpending (1992) e Rogers (1997), a
análise de distribuição mismatch no complexo integrifolia evidencia a ocorrência de uma
diminuição populacional drástica (baixos valores de θ
0
) seguida de um crescimento populacional
exponencial (altos valores de θ
1
). O desvio de um modelo de tamanho populacional estacionário é
evidenciado também pelos valores significativos do índice de neutralidade Fs de Fu. O padrão
bimodal observado no complexo integrifolia como um todo também é encontrado por Printzen e
cols. (2003) na análise do líquen Cavernularia hultenii. Conforme sugerido por Avise (2000),
7
No original (Avise, 2000), a categoria III é definida como: shallow gene tree, lineages allopatric.
55
padrões bimodais encontrados na distribuição mismatch são indicativos de populações que estão
separadas por um longo período de tempo dentro da espécie analisada. Tão logo os indivíduos
correspondentes ao grupo morfológico interior foram removidos da análise, a distribuição tornou-se
unimodal. Isso indica que o grupo morfológico interior representa uma linhagem evolutiva distinta
do restante do complexo integrifolia. Como as análises filogeográficas (ver acima) e as análises de
variação genética interpopulacional (ver adiante) mostraram uma grande diferenciação genética
desse grupo em relação aos demais, é provável que sua separação do restante do complexo
integrifolia tenha se dado anteriormente ao evento de expansão populacional que originou as
linhagens costeira e continental.
Quando as linhagens continental e costeira, por sua vez, foram analisadas separadamente,
verificamos que elas também apresentam um padrão de expansão populacional muito similar, tanto
na época da expansão, evidenciado pelo valor τ, quanto pela intensidade do bottleneck e da
expansão, evidenciado pelos valores similares de θ
0
e θ
1
. Como o índice θ
0
fornece uma estimativa
do número de haplótipos ancestrais presente na população fundadora, e esse número variou em
torno de 0, é provável que cada um dos clados tenha sido fundado por um haplótipo ancestral,
como pode ser evidenciado pelo network.
Padrões de diversidade interpopulacional
Conforme o teste de AMOVA e as comparações par-a-par entre as populações, o nível de
diferenciação genética interpopulacional no complexo integrifolia (F
ST
) foi maior para os
polimorfismos de cpDNA que para os de nrDNA. Os valores de F
ST
para o marcador ITS (0,1213
para os cinco grupos morfológicos definidos como populações e 0,0767 para os clados do network
definidos como populações) são convencionalmente interpretados como indicativos de alto fluxo
gênico. os valores obtidos para os marcadores plastidiais (0,4872 para os cinco grupos
morfológicos definidos como populações e 0,6069 para os clados do network definidos como
populações), por outro lado, indicaram baixo fluxo gênico e alta estruturação populacional (Avise,
2000).
Conforme evidenciado em estudos anteriores (Petit e cols., 1993 a,b; Zanetto e Kremer,
1995; Schaal e Olsen, 2000), tal contraste entre o nível de estruturação para marcadores
uniparentais e biparentais vem sendo mostrado quase como regra. Em uma análise comparativa de
183 espécies de plantas, Petit e col. (2004) demonstram que o índice médio de subdivisão genética
encontrado em genomas de herança materna ( 0,637) é quase 3,5 vezes maior que o índice relativo
aos genomas de herança biparental ( 0,184) em angiospermas. Dois fatores principais contribuem
56
para o aumento da estrutura genética para marcadores de cpDNA (Ennos, 1994; McCauley, 1995;
El Mousadik e Petit, 1996):
1) O tamanho efetivo populacional (Ne) para um marcador de origem nuclear é duas
vezes maior que para um marcador de herança uniparental e haplóide em espécies
vegetais monóicas. O efeito da deriva genética, portanto, é duas vezes mais
pronunciado para genomas haplóides que para diplóides, o que leva à fixação mais
acelerada de alelos distintos em populações diferentes;
2) O fluxo gênico efetivo é limitado às sementes para os genomas herdados
maternalmente, como é o caso do cpDNA em espécies do gênero Petunia. Como a
dispersão de sementes geralmente é mais restrita que a de pólen, o fluxo de novas
mutações surgidas em populações isoladas é mais lento.
Além do maior Ne, Buckler e cols. (1997) mostram que fatores como recombinação
intramolecular associada com mecanismos de evolução em conserto também podem apagar o sinal
filogeográfico no relacionamento dos haplótipos da região ITS.
Independente da discussão sobre a influência do tipo de herança genômica no nível de
estruturação populacional, os maiores índices de diferenciação genética, tanto para nrDNA quanto
para cpDNA, foram observados entre os três grupos que correspondem aos três clados do network.
Ibrahim e cols (1996) mostraram que a distribuição geográfica da diversidade genética de muitas
espécies vegetais européias reflete padrões históricos de isolamento populacional. Dessa forma, as
maiores distâncias genéticas dentro dessas espécies são sempre observadas entre as regiões
identificadas como refúgios glaciais. Como as linhagens genéticas correspondentes aos clados
continental e costeiro também estão associadas a regiões geográficas separadas, é provável que as
duas áreas tenham abrigado dois centros de origem distintos para essas linhagens.
Relação entre geografia e genética
O teste de Mantel indica uma relação significativa entre a distância geográfica e a
diferenciação genética do cpDNA entre os indivíduos. Essa relação foi fraca, no entanto, indicando
que muito pouco da variação genética observada pode ser considerada como conseqüência direta da
distância geográfica.
A existência de um fraco padrão clinal na análise do complexo integrifolia, evidenciado
pelas análises de autocorrelação espacial do cpDNA, poderia ser a responsável pela significância
encontrada no teste de Mantel. Kitamoto e cols. (2004), em um estudo genético de populações de
57
da erva clonal Primula sieboldii, não encontraram uma relação significante entre a variação
genética e a distância geográfica no teste de Mantel. Como a espécie analisada por eles apresentava
uma forte estruturação populacional, suspeitamos que o modelo de isolamento genético por
distância tenha sido “quebrado” no complexo integrifolia, provavelmente, devido à existência de
estruturação populacional no cpDNA.
Conforme mostrado na Figura 9, as três linhagens evolutivas independentes (ou clados)
evidenciadas no cpDNA estão separadas geograficamente. O clado interior, inclusive, é o mais
distante dos outros dois, tanto geográfica quanto geneticamente. Dessa forma, uma vez que o teste
de Mantel no complexo integrifolia foi significativo, supomos que os indivíduos mais diferenciados
são também os mais distantes, não por causa do modelo de isolamento por distância, mas porque
eles pertencem a linhagens genéticas distintas que estão separadas geograficamente.
58
Conclusões e Perspectivas
Aspectos filogeográficos
Região ITS não detecta estrutura filogeográfica
A análise da região ITS revelou menor nível de estruturação genética (diferenciação
genética interpopulacional indicada pelos valores de F
ST
) que os marcadores de cpDNA. Esse
padrão é repetido em diversos outros estudos. A diferenciação entre os clados costeiro e continental
em ITS foi também muito menos acentuada que a diferenciação observada com os marcadores de
cpDNA, o que pode ser explicado pela diferença de tamanho efetivo populacional (Ne) dos
genomas nuclear e plastidial. Uma vez que o efeito da deriva genética aleatória é menor no genoma
nuclear, provavelmente não houve tempo suficiente para que fossem eliminados haplótipos
ancestrais de ITS desde a origem das linhagens costeiras e continentais. Os marcadores de cpDNA,
por outro lado, indicaram monofilia recíproca para as linhagens continental e costeira satisfazendo
os critérios propostos por Avise (2000).
Devido à ausência de estruturação genética, aliada à grande quantidade de sítios
heterozigotos, concluímos que o marcador ITS não é adequado para estudos filogeográficos no
complexo integrifolia e no restante do gênero Petunia, diferentemente do que foi proposto por
diversos grupos, inclusive o nosso em estudos com espécies de Passiflora L. (p/ex., Lorenz-Lemke
e cols., 2005).
Análises moleculares evidenciam linhagens evolutivas distintas
O conjunto dos dados obtidos com as análises de network, distribuição mismatch e índices
de neutralidade no complexo integrifolia permite supor que um evento passado de diminuição
populacional seguido de rápida expansão levou à re-colonização recente de duas áreas distintas,
mais ou menos ao mesmo tempo: uma delas correspondendo à planície costeira do RS e SC e a
outra correspondente à porção continental do estado do RS. Cada uma dessas áreas desenvolveu, na
época da expansão, duas linhagens genéticas distintas de cpDNA. O conjunto gênico atual de
cpDNA presente em cada uma das linhagens correspondem aos clados continental e costeiro do
network, mostrados na Figura 10.
O clado denominado interior, por outro lado, parece ter se separado do restante do
complexo integrifolia antes do evento de expansão populacional que originou os clados continental
e costeiro. Os indivíduos que integram essa linhagem evolutiva correspondem ao grupo
59
morfológico interior. Segundo T. Ando e G. Hashimoto (comunicação pessoal), o grupo interior é o
único integrante do complexo integrifolia que pode ser reconhecido indubitavelmente por
caracteres morfológicos diagnósticos e, portanto, pode ser considerado uma espécie taxonômica
distinta.
Como explicar o isolamento entre as linhagens continental e costeira?
Conforme exposto anteriormente, um evento de diminuição populacional provavelmente
levou à permanência de haplótipos de cpDNA diferentes em duas áreas geográficas distintas,
correspondendo aos clados costeiro e continental. As populações residentes nessas áreas após a
expansão, aparentemente, mantiveram-se isoladas umas das outras em relação ao fluxo de cpDNA.
Como o genoma cloroplasmático é herdado maternalmente em Petunia, ele se movimenta
exclusivamente através da dispersão de sementes que, por sua vez, são muito pequenas e leves
nesse gênero, podendo ser espalhadas facilmente pelo vento a longas distâncias (Stehmann, 1999).
O lago Guaíba, a única barreira em potencial posicionada na região de contato entre os clados
continental e costeiro, teoricamente, não deveria representar uma barreira para o fluxo do genoma
de cloroplasto entre essas populações. Pensamos em duas hipóteses para tentar explicar a falta de
sobreposição geográfica e genética desses clados:
1) Sabemos que a planície costeira atual do RS começou a ser formada 120 mil anos
atrás, no final do Pleistoceno. Com o resfriamento progressivo do planeta, começou uma lenta e
constante regressão marítima, culminando com o máximo regressivo em 17.500 anos atrás, no
início do Holoceno. Nesta época, o nível do oceano na planície costeira do RS encontrava-se 130 m
abaixo do nível atual (Villwock e Tomazelli, 1995
)
. Suspeitamos que o evento de expansão
populacional que levou à colonização da planície costeira do RS pela linhagem costeira do cpDNA
pode ter acontecido, portanto, entre 120 mil e 17.500 anos atrás
8
. O estabelecimento das
populações de Petunia nessa região, portanto, pode ser considerado bastante recente em termos
geológicos. A falta de evidências sobre o fluxo de sementes (cpDNA) entre os grupos costeiro e
continental pode ser devido ao estabelecimento muito recente das populações, que ainda não
permitiu detectar haplótipos invasores devido à baixa freqüência nas áreas invadidas e não a uma
barreira física efetiva.
Essa primeira hipótese poderia ser testada por um aumento do esforço amostral na região
de contato entre as duas linhagens de haplótipos para tentar detectar e quantificar o fluxo gênico
8
O cálculo da taxa evolutiva dos marcadores de cpDNA utilizados poderia auxiliar a resolver essa
questão. Mas, infelizmente, isso não foi possível devido à falta de um ponto de calibração
adequado para o gênero Petunia.
60
entre as duas áreas. Para isso, seria interessante também aumentar o tamanho amostral
intrapopulacional em todas as regiões e a condução de estudos adicionais, posteriores a este.
2) Análises estatísticas preliminares (dados não mostrados) indicaram que as diferentes
variantes morfológicas do complexo integrifolia estão associadas, significativamente, aos
diferentes níveis de salinidade do solo. A existência de caracteres morfológicos típicos de
ambientes salinos e não salinos poderia indicar a presença de ecotipos
9
diferenciados. Caso os
indivíduos pertencentes às linhagens continental e costeira sejam também ecologicamente
diferenciados, poderiam existir genótipos adaptados à baixa e à alta salinidade, respectivamente, e
com dificuldades de se estabelecerem fora de seu ambiente de origem.
Linhagens costeira e continental representam taxa em especiação incipiente?
Segundo Schaal e cols. (2003), a divisão de uma simples linhagem em duas separadas é
talvez o mais interessante e crítico estágio de divergência genética, uma vez que em alguns casos
este é o prelúdio da especiação. Conforme exposto na segunda hipótese apresentada acima, como
cada uma das linhagens costeira e continental está aparentemente associada a ambientes distintos,
poderíamos especular sobre um processo incipiente de especiação ecológica. No entanto, o teste
para essa hipótese é mais complicado, necessitando de um planejamento muito cuidadoso, só
possível após o desenvolvimento do presente trabalho.
Os estudos para detectar variação ambiental adaptativa são relativamente complicados
devido a grande quantidade de fatores que podem estar influenciando a seleção dos diferentes
padrões morfológicos e genéticos observados (Linhart e Grant, 1996). Segundo Endler (1986), um
estudo que objetive demonstrar ação de seleção natural deveria:
a) identificar quais caracteres, com base de transmissão genética, estão sujeitos à seleção e
quais os fatores ambientais que possivelmente poderiam estar atuando;
b) demonstrar que a seleção afeta diretamente um caráter. Para isso, sua freqüência ou
distribuição pode variar entre a geração parental e seus descendentes, ou entre classes de
idade ou história de vida;
c) dentre os fatores ambientais suspeitos, confirmar quais são realmente fatores seletivos.
O estudo de adaptações ambientais populacionais é central para o entendimento dos
processos evolutivos que atuam na formação das espécies. Gregor (1930) foi o primeiro a
demonstrar diferenciação genética entre ecotipos costeiros e continentais da espécie Plantago
9
Termo que designa a variante genotípica de uma espécie associada adaptativamente a determinado ambiente
(Hufford e Mazer, 2003).
61
maritima como resposta adaptativa a diferentes condições ambientais. O trabalho de Gregor é um
exemplo de estudo clássico, onde a base genética dos caracteres diagnósticos dos ecotipos é
confirmada indiretamente pela observação de freqüências fenotípicas na prole de cruzamentos
dirigidos, em condições ambientais controladas, como visto também em Clausen e cols. (1940).
Assim, por muitos anos, os estudos para detectar seleção natural descreveram as adaptações a partir
de uma perspectiva morfológica. No entanto, devido ao enorme progresso da biologia molecular
nos últimos anos, hoje em dia existem muitos métodos para elucidar processos de adaptação
diretamente em nível molecular, como demonstram Taylor e cols. (1995), Nordborg e Innan
(2002), Schlötterer (2002). Esses métodos consistem no estudo da evolução de seqüências de DNA
codificadoras e reguladoras, principalmente em espécies animais. Para modelos vegetais, a
compreensão do papel de genes envolvidos em rotas bioquímicas celulares aumentou após o
seqüenciamento de genomas completos, como Arabidopsis thaliana (Chory e cols., 2000).
Kuittinen e cols. (2002) apresentam uma série de regiões gênicas propícias ao estudo de adaptações
vegetais em situações naturais, as quais podem ser aplicadas, futuramente, na análise dos clados
costeiro e continental de Petunia integrifolia.
Genética e conservação
A distinção entre as duas hipóteses sobre as causas do isolamento genético e geográfico
dos clados costeiro e continental apresentadas anteriormente não é simples. No entanto, um estudo
mais aprofundado sobre as causas desse isolamento seria de interesse para conservação, como
detalhado a seguir.
Se a primeira hipótese de divergência recente for verdadeira e se realmente não existe uma
barreira efetiva de isolamento entre as linhagens costeira e continental, esperamos que o fluxo
gênico venha a restabelecer-se naturalmente e, a longo prazo, recupere a variabilidade que foi
“dividida” pelo processo de gargalo de garrafa e efeito fundador evidenciados por nossos
resultados. Nesse caso, planos futuros de conservação deveriam considerar a preservação das áreas
naturais de contato entre as duas formas, para que um corredor genético entre elas pudesse ser
mantido aberto e, assim, evitar o efeito de depressão endogâmica (inbreeding depression) (Hufford
e Mazer, 2003). Além disso, poderiam ser feitos estudos semelhantes com outras espécies nativas
para verificar se os mesmos padrões de separação de linhagens são encontrados. A repetição em
outras espécies aumentaria a importância da conservação das áreas naturais de Porto Alegre e
região metropolitana para manutenção do fluxo gênico.
Por outro lado, se fosse detectado que as duas linhagens de cpDNA representam também
dois taxa em processo de especiação ecológica (hipótese 2), podemos esperar que a divergência
62
entre os dois aumente ao longo do tempo. Assim, deveria ser evitada a introdução de genótipos de
ambientes distintos, de modo a minimizar os efeitos de depressão exogâmica (outbreeding
depression) nas populações naturais, que é a diminuição do valor adaptativo das populações
naturais pela introdução de genótipos adaptados a outras condições ambientais (Hufford e Mazer,
2003). Além disso, a planície costeira do RS e a região da Ilha de Santa Catarina, onde o clado
costeiro se desenvolve, estão sujeitas a grande exploração imobiliária. Se o clado costeiro
corresponder a uma espécie incipiente, esta já está ameaçada de extinção.
Aspectos taxonômicos
Resolvendo o complexo integrifolia
Conforme exposto na Introdução, os complexos de espécies como o complexo integrifolia
representam um agrupamento de taxa com características muito semelhantes. Os caracteres
diagnósticos para a divisão desses complexos em taxa distintos variam dependendo do critério
particular de cada taxonomista. Essa subjetividade leva a classificações divergentes, sendo que as
discussões taxonômicas podem atravessar décadas (como ilustrado pela Figura 6), sem que um
consenso seja alcançado.
A exemplo de diversos trabalhos da literatura (Giebler e cols., 1999; Bruschi e cols., 2000;
Coleman, 2000; Shaw, 2000; entre outros), dados moleculares foram utilizados como auxiliares na
tentativa de estabilização da classificação taxonômica do complexo integrifolia. A análise desses
dados sob uma perspectiva filogeográfica (como em Pierpaoli e cols., 1999; Jeewon e cols, 2003;
Marcussen, 2003; Shaffer e cols, 2004) pôde elucidar melhor as relações evolutivas entre os taxa
abordados nesse trabalho, o que torna a delimitação taxonômica do complexo integrifolia mais
adequada, segundo os princípios da sistemática filogenética (de Queiroz e Gauthier, 1992).
Independente da grande discussão existente sobre os métodos mais adequados para
delimitar espécies revisados em Benton (2000) e Sites e Marshall (2003) Coleman (2000)
ressalta que, na problemática envolvendo complexos de espécies, as entidades precisam ser
genética e morfologicamente discretas para serem consideradas unidades taxonômicas distintas.
Por outro lado, os botânicos taxonomistas reconhecem que muitas das variações morfológicas
significativas para diferenciação de espécies podem ser atribuídas a um número relativamente
pequeno de genes (Gottlieb, 1984; Bradshaw e cols, 1995; Bradley e cols, 1997). Na maioria dos
casos, como a divergência morfológica não está relacionada com o grau de diferenciação genética
entre as linhagens, a determinação da coesão genética de um grupo baseada apenas em caracteres
taxonômicos pode ser equivocada (Schaal e cols., 1998; Borba e cols., 2002). Assim, de acordo
63
com os nossos resultados, concluímos que os grupos morfológicos integrifolia, depauperata,
littoralis e riograndensis são diferenciados por caracteres morfológicos (Tabela em anexo) que não
têm significado evolutivo, pois não refletem a história evolutiva das entidades. Dessa forma,
concordamos com Stehmann (1999) quando ele considera as espécies P. littoralis (Smith e Downs,
1966) e P. riograndensis (Ando e Hashimoto, 1998) como sinônimos de P.integrifolia.
Linhagens distintas, taxa distintos
Os dados moleculares nesse trabalho identificaram três linhagens evolutivas distintas
dentro do complexo integrifolia. Dessas linhagens, apenas uma delas coincide com um dos grupos
morfológicos descritos na literatura. As outras duas não podem ser distintas por caracteres
morfológicos já descritos, pois envolvem diferentes grupos morfológicos, conforme explicado
abaixo:
- grupo interior: é correspondente ao clado 1 do NJ (Figura 9A) e ao clado interior
do network (Figura 10). Esse grupo morfológico corresponde à espécie taxonômica
Petunia interior (Ando e Hashimoto, 1996). As características morfológicas diagnósticas
dessa espécie estão descritas no Anexo. Essa é a linhagem molecularmente mais
divergente de todas; análises de outras espécies de Petunia (F. R. Kulcheski,
comunicação pessoal) indicam que Petunia interior é mais divergente do resto do
complexo integrifolia que espécies morfologicamente muito distintas, como P. axilaris e
P. exserta.
- linhagem continental: está representada no clado 2 do NJ (Figura 9A) e no clado
continental do network (Figura 10). Essa linhagem reúne o grupo morfológico
riograndensis e as amostras do grupo morfológico integrifolia que foram coletadas a
oeste do Lago Guaíba e Lagoa dos Patos.
- linhagem costeira: está agrupada no clado 3 do NJ (Figura 9A) e no clado
costeiro do network (Figura 10). Reúne os grupos morfológicos depauperata, littoralis e
as amostras do grupo integrifolia coletadas a leste do Lago Guaíba e Lagoa dos Patos.
Os clados continental e costeiro, apesar de representarem linhagens genéticas separadas,
provavelmente são muito jovens evolutivamente e, por isso, não apresentaram caracteres tão
evidentes para separação em entidades distintas nas revisões taxonômicas de Petunia feitas até
então. No entanto, J.R. Stehmann (comunicação pessoal), em uma análise morfológica mais
aprofundada comparando essas duas entidades, inclusive os indivíduos aqui analisados, encontrou
caracteres que podem ser usados para diferenciar taxonomicamente os clados continental e costeiro
64
(Quadro 5). As amostras coletadas nos morros graníticos de Porto Alegre e arredores, entretanto,
apesar de pertencerem ao clado costeiro nas análises moleculares, apresentam características
morfológicas intermediárias entre as populações costeiras e do interior do RS. Um maior número
de amostras deve ser analisado para confirmar essa suposta posição intermediária.
Quadro 5: Características morfológicas picas das populações pertencentes aos clados costeiro e continental
evidenciados nas análises moleculares:
Linhagens
genéticas
Clado interior Clado continental Clado costeiro
Localização das
populações
Interiores do centro-sul do RS
Morros graníticos dos
Arredores de Porto Alegre
Litoral e Lagoa dos Patos
Hábito
Decumbente, com ramos
geralmente menores que 80 cm
de comprimento
Decumbente, com ramos
geralmente menores que 80
cm de comprimento
Procumbente, com ramos muito
alongados, podendo atingir 1-2 m
de comprimento
Folhas
Elípticas ou obovadas, 13-21
mm comprimento, 4-15 mm
largura
Elípticas ou obovadas, 16-27
mm comprimento, 6-13,4mm
largura
Estreito-elípticas, elípticas ou
obovadas, 20-27 mm
comprimento, 5,2-7,3 mm
largura.
Cálice 10,7-12,6 mm 8,5-13,2 mm 7,8-9,1 mm
Corola 28,2-32,8 mm 26-27 mm 24-25 mm
Caracteres Morfológicos
Cápsula Subglobosa Subglobosa Elipsóide
Ao contrário de Petunia interior, que é molecular e morfologicamente bastante divergente
e, portanto, deve constituir uma espécie distinta, os clados costeiro e continental são pouco
divergentes e, por isso, devem ser considerados apenas com raças geográficas ou, no máximo,
como subespécies dentro de Petunia integrifolia, conforme exposto abaixo.
Nova proposta taxonômica para o complexo Petunia integrifolia
Baseado nos resultados obtidos com os marcadores moleculares nesse trabalho, aliado a
análises morfométricas adicionais (J.R. Stehmann, comunicação pessoal) apresentamos agora uma
nova proposta de classificação taxonômica para os integrantes do complexo Petunia integrifolia.
1) Petunia interior
Taxa descritos (sob o gênero Petunia):
- Petunia violacea Lindley, 1833.
- Petunia inflata R. E. Fries, 1911.
- Petunia integrifolia (Hook.) Schinz & Thell. subsp. inflata (R.E.Fr.) Wijsman, 1982.
- Petunia interior T. Ando & G. Hashim., 1996.
65
Os dados genéticos sugerem que o este último taxon seja considerado uma espécie distinta
do restante do complexo Petunia integrifolia. Morfologicamente pode ser distinguido pelo hábito
ereto ou ascendente, pelas flores menores e pedicelo inflexo, distribuindo-se do Norte e Nordeste
do Rio Grande do Sul, Oeste de SC e Paraná, Missiones Argentinas até o Paraguai. Essa espécie é
encontrada junto às lavouras da região das Missões e pode ter tido uma introdução recente no Rio
Grande do Sul (por volta da década de 1970).
2) Petunia integrifolia subsp. integrifolia
Taxa descritos:
- Petunia integrifolia (Hook.) Schinz & Thell. subsp. integrifolia, 1915.
- Petunia riograndensis T. Ando & Hashim., 1998.
As análises genéticas sugerem que as populações do continente do Rio Grande do Sul ao
Oeste da Lagoa dos Patos constituam um único grupo taxonômico, que deve corresponder
nomenclaturalmente à subespécie típica (Petunia integrifolia subsp. integrifolia).
Morfologicamente corresponde a plantas decumbentes.
3) Petunia integrifolia subsp. depauperata
Taxa descritos:
- Petunia dichotoma Sendtn., 1846.
- Petunia integrifolia (Hook.) Schinz & Thell. var. depauperata (R. E. Fr.) L. B. Sm. & Downs,
1966.
- Petunia littoralis L. B. Sm. & Downs, 1966.
As análises genéticas sugerem que as populações da planície costeira do Rio Grande do Sul
e de Santa Catarina e as populações dos morros graníticos de Porto Alegre e arredores constituam
um único grupo. Morfologicamente, entretanto, este grupo reúne populações bastante divergentes,
com as populações da região de Porto Alegre e arredores com hábito decumbente, folhas mais
largas e flores maiores (cálice e corola, embora geralmente menores que as de P. integrifolia da
região continental sul-riograndense). As populações litorâneas que vivem sobre solo arenoso
possuem o hábito procumbente, folhas mais estreitas e flores menores. Morfologicamente, as
populações que crescem na restinga poderiam ser reconhecidas como uma unidade taxonômica
infraespecífica, Petunia integrifolia (Hook.) Schinz & Thell. var. depauperata (R. E. Fr.) L. B. Sm.
& Downs, 1966. Sugere-se, pois, que seja elevada ao nível subespecífico. As populações de Porto
Alegre e arredores, contudo, assemelham-se mais àquelas das linhagens continentais sul-
riograndenses nos caracteres morfológicos.
66
Referências Bibliográficas
Aguilar JF, Rossello JA and Feliner GN (1999) Nuclear ribossomal DNA (nrDNA) concerted
evolution in natural and artificial hybrids of Armeria (Plumbaginaceae) Mol Ecol 8:1341-1346.
Aldrich J, Cherney BW, Merlin E and Christopherson L (1988) The role of insertions/deletions on
the evolution of the intergenic region between psbA and trnH in the chloroplast genome. Curr
Genet 14: 137-146.
Álvarez I and Wendel JF (2003) Ribossomal ITS sequences and plant phylogenetic inference. Mol
Phyl Evol 29: 417-434.
Álvarez IF, Aguilar JF, Panero JL and Feliner GN (2001) A phylogenetic analisys of Doronicum
(Asteraceae, Senecionae) based on morphological, nuclear ribossomal (ITS) and chlorplast (trnL-F)
evidence. Mol Phylogenet Evol 20, 41-64.
Ando T and Hashimoto G (1993) Two new species of Petunia (Solanaceae) from southern Brazil.
Bot J Linnean Soc 111: 265-280.
Ando T and Hashimoto G (1996) A new Brasilian species of Petunia (Solanaceae) from interior
Santa Catarina and Rio Grande do Sul, Brazil. Brittonia 48: 217-223.
Ando T and Hashimoto G (1998) Two new species of Petunia (Solanaceae) from southern Rio
Grande do Sul, Brazil. Brittonia 50(4):483-492.
Angiosperm Phylogeny Group (2003) An update of the Angiosperm Phylogeny Group
classification for the orders and families of flowering plants: APG II. Bot J Linnean Soc 141: 399-
436.
Araújo, AC (2001) Revisão de Rhynchospora Vahl sect. Pluriflorae Kük. (Cyperaceae).
Dissertação de Doutorado, Universidade de São Paulo, São Paulo.
Ashworth VETM (2000) Phylogenetic relationship in Phoradendrae (Viscaceae) inferred from
three regions of the nuclear ribossomal cistron. I. Major lineages and paraphyly of Phoradendron.
Syst Bot. 25, 349-370.
Avise JC (2000) Phylogeography, The history and Formation of Species. Harvard University Press,
London. 447p.
Avise JC and Lansman RA (1983) Polymorphism of mitochondrial DNA in populations of higer
animals. In: Nei M and Koehn RK (eds) Evolution of Genes and Proteins. Sinauer, Sunderland, pp.
147-164.
67
Avise JC, Arnold J, Ball Jr RM, Bermingham E, Lamb T, Niegel JE, Reeb CA and Saunders NC
(1987) Intraespecific phylogeography: The mitochondrial DNA bridge between population genetics
and systematics. Annu Rev Ecol Syst 18: 489-522.
Baldwin GG and Robichaux RH (1995) Historical biogeography and ecology of the Hawaiian
silversword alliance (Asteraceae). In Wagner WL and Funk VL (eds), Hawaiian Biogeography:
Evolution on a Hot Spot Archipelago. Smithsonian Institution Press, Washington DC. pp. 259-287.
Baldwin BG, Sanderson MJ, Porter MJ, Wojciechowski MF, Campbell CS and Donoghue MJ
(1995) The ITS region of nuclear ribosomal DNA: a valuable source of evidence on angiosperm
phylogeny. Ann Missouri Bot Gard 82: 247-277.
Bandelt H-J, Forster P and Röhl A (1999) Median-joining networks for inferring intraspecific
phylogenies. Mol Biol Evol 16: 37-48.
Benton MJ (2000) Stem, nodes, crown clades, and rank-free lists: is Linnaeus dead? Biol Rev 75:
633-648.
Bertorelle G and Barbujani G (1995) Analysis of DNA diversity by spatial autocorrelation.
Genetics 140: 811-819.
Bohs L and Olmstead RG (2001) A reassessment of Normania and Triguera (Solanaceae). Plant
Syst Evol 228: 33-48.
Borba EL, Shepherd GJ, Van Den Berg C and Semir J (2002) Floral and Vegetative
Morphometrics of Five Pleurothallis (Orchidaceae) Species: Correlation with Taxonomy,
Phylogeny, Genetic Variability and Pollination Systems. Ann Bot 90: 219-230.
Bradley D, Ratcliffe O, Vincent C, Carpenter R, Coen E (1997) Inflorescence commitment and
architecture in Arabidopsis. Science 275: 80-82.
Bradshaw HD, Wilbert SM, Otto KG, Schemske DW (1995) Genetic maping of floral traits
associated with reproductive isolation in monkeyflowers (Mimulus). Nature 376: 762-765.
Brummitt RK (1989) Report of the Committee for Spermatophyta: 36. Taxon 38: 301.
Bruschi P, Vendramin GG, Bussotti F and Grossoni P (2000) Morphological and Molecular
Differentiation between Quercus petraea (Matt.) Liebl. and Quercus pubescens Willd. (Fagaceae)
in Northern and Central Italy. Ann Bot 85: 325-333.
Buckler ESI, Ippolito A and Holtsford TP (1997) The evolution of plant ribossomal DNA:
divergent paralogues, pseudogenes and phylogenetic implications. Am J Bot 84: 1.
68
Byrne M, Macdonald B and Brand J (2003) Phylogeography and divergence in the chloroplast
genome of Western Australian Sandalwood (Santalum spicatum). Heredity 91: 380-395.
Campbell CS, Wojciechowski MF, Baldwin BG, Alice LA and Donoghue MJ (1997) Persistent
nuclear ribossomal DNA sequence polymorphism in the Amelanchier agamic complex (Rosaceae).
Mol Biol Evol 14: 81-90.
Chase MW, Knapp S, Cox AV, Clarkson JJ, ButskoY, Joseph J, SavolainenV and ParokonnyAS
(2003) Molecular systematics, GISH and the origin of hybrid taxa in Nicotiana (Solanaceae). Ann
Bot 92: 107-127.
Child A and Lester RN (1991) Life form and branching within the Solanaceae. In: Hawkes JG,
Lester RN, Nee M and Estrada N (eds) Solanaceae III: Taxonomy, Chemistry, Evolution. Kew:
Royal Botanic Gardens/ The Linnean Society of London, London, pp 151-159.
Chortyk OT, Kays SJ and Teng Q (1997) Characterization of insecticidial sugar esters of Petunia. J
Agricult Food Chem 45: 270-275.
Chory J, Ecker JR, Briggs et al. (2000) Functional genomics and the virtual plant. A blueprint for
understanding how plants are built and how to improve them. Plant Physiology 123: 423-425.
Clausen J, Keck DD and Hiesey WM (1940) Experimental studies on the nature of species. I.
Effect of varied environments on western North American plants. Carnegie Institution of
Washington Publication 520: 1-452.
Clegg MT, Gaut GH, Learn GH Jr, Morton BR (1994) Rates and patterns of chloroplast DNA
evolution. PNAS 91: 6795-6801.
Coleman M (2000) Application of RAPDs to the critical taxonomy of the English endemic elm
Ulmus plotii Druce. Bot J Linn Soc 133: 241-262.
Contini V, Lorenz AP, Kulcheski FR, Muschner VC, Stehmann JR, Bonatto SL, Salzano FM e
Freitas LB (2003) Filogenia molecular no gênero Calibrachoa (Solanaceae). Anais do 49°
Congresso Nacional de Genética (disponível em CD-ROM), Águas de Lindóia, Brasil.
Crandall KA and Templeton AR (1993) Empirical tests os some predictions from coalescent theory
with applications to intraspecific phylogeny reconstrution. Genetics 134: 959-969.
Crandall KA, Templeton AR and Sing CF (1994) Intraspecific phylogenetics: problems and
solutions. In: Scotland RW, Siebert DJ and Williams DM, eds. Systematics Association Special
Volume. Clarendon Press, Oxford, 273-297.
69
Cronn RC, Small RL, Haselkorn T and Wendel JF (2002) Rapid diversification of the cotton genus
(Gossypium: Malvaceae) revealed by analysis of sixteen nuclear and chloroplast genes. Am J Bot
89: 707-725.
Darwin C. (1959) The origin of species. New York: Random House, 689p. (reimpressão de 1993)
De Queiroz K and Gauthier J (1992) Phylogenetic Taxonomy. Annu Rev Ecol Syst 23:449-80.
Dumolin-Lapegue S, Demesure B, Fineschi S, Corre VL and Petit RJ (1997) Phylogeographic
Structure of White Oaks Throughout the European Continent. Genetics 146: 1475-1487.
Dunn IS and Blattner FR (1986) Sharons 36 to 40: Multi-enzyme, high capacity, recombination
deficient replacement vectors with polylinkers and polystuffers. Nucleic Acids Res 15: 2677-2698.
Elder Jr JF and Turner BJ (1995) Concerted evolution of repetitive DNA sequences in eukarryotes.
Q Rev Biol 70: 297-320.
El Mousadik A and Petit RJ (1996) Chloroplast DNA phylogeography of the argan tree of
Morocco. Mol Ecol 5: 547-555.
Endler JA (1986) Natural Selection in the Wild. Princeton NJ: Princeton Univ. Press. 336p.
Ennos RA (1994) Estimating the relative rates of pollen and seed migration among plant
population. Heredity 72:250-259.
Excoffier L, Smouse P and Quattro J (1992) Analysis of molecular variance inferred from metric
distance among DNA haplotypes: Application to human mitochondrial DNA restriction data.
Genetics 131: 479-491.
Fishbein M and Soltis DE (2004) Further Resolution of the Rapid Radiation of Saxifragales
(Angiosperms,Eudicots) Supported by Mixed-Model Bayesian Analysis. Syst Bot 29: 883-891.
Fries RE (1911) Die Arten der Gattung Petunia.Kongl. Svenska Vetenskapsakad. Handl., 46: 1-72.
Fu Y X (1997) Statistical tests of neutrality of mutations against population growth, hitchhiking
and background selection. Genetics 147: 915-925.
Futuyma DJ (1998) Evolutionary Biology (3
rd
ed). Sinauer Associates Inc, Sunderland,
Massachussetts. 763p.
Gaskin JF and Schaal BA (2002) Hybrid Tamarix widespread in USA invasion and undetected in
Asian range. Proc Nat Acad Sci USA 99: 11256-11259.
Ge XJ, Chiang YC, Chou CH and Chiang TY (2002) Nested clade analysis of Dunnina cinensis
(Rubiaceae), a monotypic genus from China based on organele DNA sequences. Conserv Genet 3:
351-362.
70
Giebler S, Mader E and Schwenk K (1999) Morphological evolution and genetic differentiation in
Daphnia species complexes. J Evol Biol 12: 710-723.
Gielly L, Yong-Ming Y, Küpfer P and Taberlet P (1996) Phylogenetic use of noncoding regions in
the genus Gentiana L.: Chloroplast trnL (UAA) intron versus nuclear ribosomal internal transcribed
spacer sequences. Mol Phylogenet Evol 5: 460-466.
Goel S, Raina SN and Ogihara Y (2002) Molecular Evolution and Phylogenetic Implications of
Internal Transcribed Spacer Sequences of Nuclear Ribossomal DNA in the Phaseolus-Vigna
Complex. Mol Phylogenet Evol 22: 1-19.
Goodspeed TH (1954) The genus Nicotiana. Chronica Botanica 16: 1-536.
Gottlieb LD (1984) Genetics and morphological evolution in plants. Am Nat 123: 681-709.
Gregor JW (1930) Experiments on the genetics of wild populations part I. Plantago maritima. L J
Genet 22: 15-25.
Haekcel E. (1866) Generalle morphologie der organismem: allgemeine grundzüge der organischen
formen-wissenschaft mechanisch begründet durch die von Charles Darwin reformirte descendenz-
theorie. Georg Riemer, Berlin.
Hamilton MB (1999) Four primers pairs for the amplification of chloroplast intergenic regions with
intraespecific variation. Mol Ecol 8: 513-525.
Hedges SB (1992) The number of replications needed for accurate estimation of bootstraping P
value in phylogenetic studies. Mol Biol Evol 9: 366-369.
Hewitt, GM (1999) Post-glacial re-colonization of European biota. Biol J Linn Soc 68: 87-112.
Hooker WJ (1831) Salpiglossis integrifolia. Entire-leaved Salpiglossis. Bot Mag 58: 3113.
Huang S, Chiang YC, Schaal BA, Chou CH and Chiang TY (2001) Organelle DNA
phylogeography of Cycas lailungensis, a relict species in Taiwan. Mol Ecol 10: 2669-2681.
Hudson RR (1990) Gene genealogies and the coalescent process. Oxf Surv Evol Biol 7: 1-44.
Hudson RR, Slatkin M and Maddson WP (1992) Estimation of gene flow from DNA sequence
data. Genetics, 132: 583-589.
Hufford KM and Mazer SJ (2003) Plant ecotypes: genetic differentiation in the age of ecological
restoration. Trends Ecol Evol 18(3): 147-155.
Hunziker AT (2001) The Genera of Solanaceae. A.R.G. Gantner Verlag K.G.
71
Ibrahim KM, Nichols RA and Hewitt GM (1996) Spatial patterns of genetic variation generated by
different forms of dispersal during range expansion. Heredity 77, 282-291.
Jeewon R, Liew ECY, Simpson JA, Hodgkiss IJ and Hyde KD (2003) Phylogenetic significance of
morphological characters in the taxonomy of Pestalotiopsis species. Mol Phylogenet Evol 27: 372-
383.
Johnson HB (1975) Plant pubescence: an ecological perspective. Bot Rev 41: 233-258.
Judd WS, Campbell CS, Kellog EA and Stevens PF (1999) Plant Systematics. Sinauer Associates
Inc., Sunderland, 464 pp.
Kim KJ and Jansen RK (1996) Phylogenetic implications of rbcL and ITS sequence variation in the
Berberidaceae. Syst Bot 21: 381-396.
Kimura M (1980) A simple method for estimating evolutionary rates of base substitutions through
comparative studies of nucleotide sequences. J Mol Evol 16: 111-120.
Kitamoto N, Honjo M, Ueno S, Takenaka A, Tsumura Y, Washitani I and Ohsawa R (2004) Spatial
genetic structure among and within populations of Primula sieboldii growing beside separate
streams. Mol Ecol 14: 149-157.
Koontz JA, Soltis PS, and Soltis DE (2004) Using Phylogeny Reconstruction to Test Hypotheses of
Hybrid Origin in Delphinium Section Diedropetala (Ranunculaceae). Syst Bot 29: 345-357.
Kuittinen H, AguaM, Charlesworth D, Haan ADE, Lauga B, Mitchell-Olds T, Oikarinenn S,
Ramos-Onsins S, Stranger B, Van Tienderen P and Savolainen O (2002) Primers for 22 candidate
genes for ecological adaptations in Brassicaceae. Mol Ecol Notes 2: 258-262.
Kulcheski FR, Lorenz AP, Muschner VC, Stehmann JR, Salzano FM, Bonatto S, Freitas LB (2003)
Análise filogenética do gênero Petunia Juss. s.s. (Solanaceae). Anais do 49° Congresso Nacional de
Genética (disponível em CD-ROM), Águas de Lindóia, Brasil.
Kulcheski FR, Muschner VC, Lorenz-Lemke AP, Stehmann JR, Bonatto SL, Salzano FM e Loreta
B. Freitas. Genética (Artigo Aceito Para Publicação).
Kumar S, Tamura K, Jakobsen IB and Nei M (2001) MEGA2: Molecular Evolutionary Genetics
Analysis software. Ver2.1. Arizona State University, Tempe. (distributed by the authors in
www.megasoftware.com)
Lamark JB (1809) Philosophie Zoologique. Paris, Denter.
Leicht IJ and Bennet MD (1997) Poliploidy in angiosperms. Trends Plant Sci 2(12): 470-476.
72
Li WH (1977) Distribution of nucleotide differences between two randomly chosen cistrons in a
finite population. Genetics 85: 331-337.
Lim TY, Kovarik A, Matyásek R, Bezdek M, Lichtenstein CP and Leitch AR (2000) Gene
conversion of ribossomal DNA in Nicotiana tabacum is associated with undermethylated,
decondensed and probably active gene units. Chromossoma 109: 161-172.
Lindley J (1834) Petunia violacea. Purple Petunia. Bot Reg 19: Tab. 1626.1834.
Linhart YB and Grant MC (1996) Evolutionary significance of local genetic differentiation in
plants. Annu Rev Ecol Syst 27: 237-277.
Lloyd BD (2003) The demographic history of the New Zealand short-tailed bat Mystacina
tuberculata inferred from modified control region sequences. Mol Ecol 12: 1895-1911.
Longo D, Lorenz AP, Muschner VC, Stehmann JR, Bonatto SL, Salzano FM e Freitas LB (2003)
Dados moleculares auxiliam na resolução do complexo integrifolia. Anais do 49° Congresso
Nacional de Genética (disponível em CD-ROM), Águas de Lindóia, Brasil.
Lorenz AP, Stehmann JR, Muschner VC, Bonatto SL, Salzano FM, Freitas LB (2003)
Caracterização genética de espécies de Petunia endêmicas da Serra do Sudeste, RS. Anais do 49°
Congresso Nacional de Genética (disponível em CD-ROM), Águas de Lindóia, Brasil.
Lorenz-Lemke AP, Muschner VC, Bonatto SL, Cervi AC, Salzano FM and Freitas LB (2005)
Phylogeographic inferences concerning evolution of brazilian Passiflora actinia and P. elegans
(Passifloaceae) based on ITS (nrDNA) variation. Ann Bot (in press)
Lumaret RC, Mir C, Michaud H and Raynal V (2002) Phylogeographical variation of chloroplast
DNA in holm oak (Quercus ilex L.). Mol Ecol 11: 2327-2336.
Mai JC and Coleman AW (1997) The Internal Transcribed Spacer 2 exhibits a commom secondary
structure in green algae and flowering plants. J Mol Evol 44: 258-271.
Marcussen T (2003) Evolution, phylogeography, and taxonomy within the Viola alba complex
(Violaceae). Plant Syst Evol 237: 51-74.
Maskas SD and Cruzan MB (2000) Patterns of intraspecific diversification in the Piriqueta
caroliniana complex in southeastern North America and the Bahamas. Evolution 54: 815-827.
Matioli SR (2001). Biologia Molecular e Evolução. Holos Editora LTDA, São Paulo. 202p.
McCauley DE (1995) The use of chloroplast DNA polymorphism in studies of gene flow in plants.
Trends Ecol Evol 10: 198-202.
73
Molvray M, Kores PJ and Chase MW (1999) Phylogenetic relationship within Korthalsella
(Viscaceae) based on nuclear ITS and plastid trnL-F sequence data. Am J Bot 86:249-260.
Mullis K, Falcona F, Scharf S, Saiki R, Horn G and Erlich H (1986) Specific enzymatic
amplification of DNA in vitro: the polymerase chain reaction. Methods Enzymol 155: 335-350.
Muschner VC, Lorenz AP, Cervi AC, Bonatto SL, Souza-Chiez TT, Salzano FM and Freitas LB
(2003) A first molecular phylogenetic analysis of Passiflora (Passifloraceae) Am J Bot 90(8):
1229-1238.
Nicholas KB and Nicholas HBJ (1997) GeneDoc: a tool for editing and annotating multiple
sequences alignments. Program available in the internet (www.psc.edu/biomed/genedoc).
Nei, M (1987) Molecular Evolutionary Genetics. Columbia University Press, New York.
Nei, M and Kumar, S (2000) Molecular Evolution and Phylogenetics. Oxford University Press,
New York.
Nordborg M and Innan H (2002) Molecular population genetics. Curr Opin Plant Biol 5: 69-73.
Oh SH and Potter D (2005) Molecular Phylogenetic Systematics and Biogeography of Tribe
Neillieae (Rosaceae) using DNA sequences of cpDNA, rDNA, and LEAFY1. Am J Bot 92: 179-
192.
O'Kane SL, Schaal BA, Al-Shebaz IA (1996) The origins os Arabidopsis suecica (Brassicaceae) as
indicated by nuclear rDNA sequences. Syst Bot 21:559-566.
Olmstead RG, Sweere JA, Spangler RE, Bohs L and Palmer JD (1999) Phylogeny and provisional
classification of the Solanaceae based on chloroplast DNA. In: Nee M, Symon DE, Lester RN and
Jessop JP (eds) Solanaceae IV: Advances in biology and utilization. Kew: Royal Botanic Gardens/
The Linnean Society of London, London, pp 111-137.
Olsen KM and Schaal BA (1999) Evidence on the origin of cassava: Phylogeography of Manihot
esculenta. PNAS 96: 5586-5591.
Okuyama Y, Fujii N, Wakabayashi M, Kawakita A, Ito M, Watanabe M, Murakami N and Kato M
(2005) Nonuniform Concerted Evolution and Chloroplast Capture: Heterogeneity of Observed
Introgression Patterns in Three Molecular Data Partition Phylogenies of Asian Mitella
(Saxifragaceae). Mol Biol Evol 22: 285-296.
Palmer JD (1985) Comparative Organization of Chloroplast Genomes. Annu Rev Genet, 19: 325-
354.
74
Petit RJ, Kremer A and Wagner DB (1993a) Finite island model for organelle and nuclear genes in
plants. Heredity 71:630-641.
Petit RJ, Kremer A and Wagner DB (1993b) Geographic structure of chloroplast DNA
polymorphisms in Europeans oaks. Theor Appl Genet 87: 122-128.
Petit RJ, Brewer S, Bordaes S, Burg K, Cheddadi R, Coart E et all (2002a) Identification of refugia
and post-glacial colonisation routes of European white oaks based on chloroplast DNA and fossil
pollen evidence. For Ecol Manag 156: 49-74.
Petit RJ, Csaikl UM, Bordács S, Burg K, Coart E, Cottrell J et all (2002b) Chloroplast DNA
variaton in European white oaks Phylogeography and patterns of diversity based on data from over
2600 populations. For Ecol Manag 156: 5-26
Petit RJ, Duminil J, Fineschi S, Hampe A, Salvini D and Vendramin GG (2004) Comparative
organization of chloroplast, mitochondrial and nuclear diversity in plant populations. Mol Ecol
2004, 13p.
Pierpaoli M, Riga F, Trocchi V and Randi E (1999) Species distinction and evolutionaty
relationships of the Italian hare (Lepus corsicanus) as described by mitochondrial DNA
sequencing. Mol Ecol 8: 1805-1817.
Posada D and Crandall KA (2001) Itraspecific gene genealogies: trees grafting into networks.
Trends Ecol Evol 16: 37-45.
Prain e cols. (1918) Petunia integrifolia. Bot Mag 4: 8749.
Printzen C, Ekman S and Tonsberg T. (2003) Phylogeography of Cavernularia hultenii: evidence
of slow genetic drift in a widely disjunct lichen. Mol Ecol 12: 1473-1486.
Provan J, Powell W and Hollingsworth M (2001) Chloroplast microsatellites: new tools for studies
in plant ecology and evolution. Trends Ecol Evol 16: 142-147.
Rambau RV, Robinson TJ and Stanyon R. (2003) Molecular genetics of Rhabdomys pumilio
subspecies boundaries: mtDNA phylogeogrophy and karyotypic analysis by fluorescence in situ
hybridization. Mol Phylogenet Evol 28: 564-575.
Rauscher JT (2002) Molecular phylogenetics of Espletia complex (Asteraceae): evidence from
nrDNA ITS sequences on the closest relatives of Andean adaptative radiation. Am J Bot 89: 1074-
1084.
75
Rauscher JT, Doyle JJ and Brown HD (2002) Internal transcribed spacer repeat-specific primers
and the analysis of hybridization in the Glycine tomentella (Leguminosae) polyploid complex. Mol
Ecol, 11: 2691-2702.
Renner SS (1999) Circumscription and phylogeny of the Laurales: Evidence from molecular and
morphological data. Am J Bot 86: 1301-1315.
Reynolds J, Weir BS and Cockerham CC (1983) Estimation for the coancestry coefficient: basis for
a short-term genetic distance. Genetics 105: 767-779.
Rogers AR and Harpending (1992) Population growth makes waves in the distribution of paiwise
genetic differences. Mol Biol Evol 9: 552-569.
Rogers AR (1997) Population structure and modern human origins. In: Donneley P, Tavaré S (eds)
Progress in population genetics and human evolution. Springer, New York, 55-79.
Roy A, Frascaria N, Mackay J and Bousquet J (1992) Segregating random amplified polymorphic
DNAs (RAPDs) in Betula alleghaniensis. Theor Appl Genet 85: 173-180.
Saitou N and Nei M (1987) The neighbor-joining method: A new method for reconstructing
phylogenetic trees. Mol Biol Evol 4: 406-425.
Sang, T, Crawford DJ and Stuessy TF (1995) Documentation of reticulate evolution in peonies
(Paeonia) using internal transcribed spacer sequences of nuclear ribosomal DNA: implications for
biogeography and concerted evolution. Proc Natl Acad Sci USA 92:6813-6817.
Sang T, Crawford DJ and Stuessy TF (1997) Chloroplast DNA phylogeny, reticulate evolution, and
biogeography of Paeonia (Paeoniaceae). Am J Bot 84: 1120-1136.
Sanger F, Nicklen S and Coulson AR (1977) DNA sequencing with chain-terminating inhibitors.
Proc Natl Acad Sci USA 74: 5463-5467.
Sendtner O (1846) Solanaceae et Cestrinae. In: Martius, C.F.P von (ed.) 1965-1967. Flora
Brasiliensis: enumeratio plantarum. Reimpressão. Weinhein: J. Cramer. v10: 1-338.
Schaal BA, Hayworth DA, Olsen KM, Rauscher JT and Smith WA (1998) Phylogeographic studies
in plants: problems and prospects. Mol Ecol 7: 465-474.
Schaal BA and Olsen KM (2000) Gene genealogies and population variation in plants. Proc Natl
Acad Sci USA 97: 7024-7029.
Schaal BA, Gaskin JF and Caicedo AL (2003) Phylogeography, Haplotype Trees, and Invasive
Plant Species. Journal of Heredity 91: 197-201.
76
Schinz NY and Thellung A (1915) Petunia integrifolia. Vierteljahrsschr. Naturf. Ges. Zürich 60:
361.
Schlötterer C (2002) Towards a molecular characterization os adaptation in local populations. Curr
Opin Genet Dev 12: 683-687.
Schneider H (2003) Métodos de Análise Filogenética: um Guia Prático (2ªed). Holos Editora e
Sociedade Brasileira de Genética, Ribeirão Preto 114p.
Schneider S and Excoffier L (1999) Estimation of demographic parameters from the distribution of
pairwise differences when the mutation rates vary among sites: Applications to human
mitochondrial DNA. Genetics 152: 1079-1089.
Schneider S, Roessli D and Excoffier L (2000) Arlequin ver. 2000: A software for population
genetics and data analysis. Genetics and Biometry Laboratory, University of Geneva, Switzerland.
Shaffer HB, Fellers GM, Voss SR, Oliver JC and Pauly GB (2004) Species boundaries,
phylogeography and conservation genetics of the red-legged frog (Rana aurora/draytonii)
complex. Mol Ecol 13: 2667-2677.
Shaw AJ (2000) Molecular phylogeography and cryptic speciation in the mosses, Mielichhoferia
elongata and M. mielichhoferiana (Bryaceae) Mol Ecol 9: 595-608.
Silva OS (1994) Importância da Callonychium petuniae Cere & Wittmann, 1990 (Insecta,
Hymenoptera, Andrenidae) e outras abelhas no sucesso reprodutivo de Petunia integrifolia
(Hooker) Schinz et Thellung (Solanaceae). Tese de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
Sites Jr JW and Marshall JC (2003) Delimiting species: a Renaissance issue in systematic biology.
Trends Ecol Evol 18: 462-470.
Slatkin M (1995) A measure of population subdivision based on microsatellite allele frequencies.
Genetics 139: 457-462.
Small RL, Ryburn JA, Cronn RC, Seelanan T and Wendel JF (1998) The tortoise and the hare:
choosing between noncoding plastome and nuclear Adh sequences for phylogeny reconstruction in
a recently diverged plant group. Am J Bot 85: 1301-1315.
Smith LB and Downs R (1966) Solanáceas. Flora Ilustrada Catarinense (fasc. SOLA): 1-321.
Smouse PE, Long JC and Sokal RR (1986) Multiple regression and correlation extensions of the
Mantel Test of matrix correspondence. Syst Zool 35: 627-632.
77
Stehmann JR (1999) Estudos taxonômicos da tribo Nicotianeae G. Don (Solanaceae): revisão de
Petunia Jussieu, das espécies brasileiras de Calibrachoa La Llave & Lexarza e o estabelecimento do
novo gênero Petuniopsis Stehmann & Semir. Tese de Doutorado, Universidade Estadual de
Campinas, Campinas.
Stehmann JR and Semir J (1997) A New Species and New Combinations in Calibrachoa
(Solanaceae). Novon 7: 417-419.
Stephens M, Smith NJ and Donnely P (2001) A new satistical method for haplotype reconstrution
from population data. Am J Hum Genet 68, 978-989.
Strand AE, Leebens-Mack J and Milligan BG (1997) Nuclear DNA-based markers for plant
evolutionary biology. Mol Ecol 6:113-118.
Swofford DL (2002) PAUP*: phylogenetic analysis using parsimony (*and other methods), version
4.0b10. Sinauer, Sunderlamd, Massachusetts, USA.
Taberlet P, Fumagalli L, Wust-Saucy AG and Cosso JF (1998) Comparative phylogeography and
post-glacial colonization routes in Europe Mol Ecol 7: 453-464.
Tajima F (1989) Statistical method for testing the neutral mutation hipothesis by DNA
polymorphism. Genetics 123: 585-595.
Tajima F (1996) The amount of DNA polymorphism maintened in a finite population when the
neutral mutation rate varies among sites. Genetics 143: 1457-1465.
Taylor MFJ, Shen Y and Kreitman ME (1995) A population genetic test of selection at molecular
level. Sciense 270: 1497-1499.
Templeton AR, Crandall KA and Sing CF (1992) A cladistic analysis of phenotypic associations
with haplotypes inferred from restriction endonuclease mapping and DNA sequence data. III.
Cladogram estimation. Genetics 132: 619-633.
Thompson JD, Higgins DG and Gibson TJ (2001) ClustalX. Program available in the internet
(ftp://ftp-igbmc.u-strasbg.fr/pub/clustalx).
Van Ham RCHJ, Hart H, Mes THM and Sandbrink, JM (1994) Molecular evolution of noncoding
regions of the chloroplast genome in the Crassulaceae and related species. Curr Genet 25: 558-566.
Villwock JA e Tomazelli LJ (1995) Geologia costeira do Rio Grande do Sul. Notas Técnicas 8: 1-
45.
Watterson GA (1985) The genetic divergence of two populations. Theor Popul Biol 27: 298-317.
78
White TJ, Burns T, Lee S and Taylor J (1990) Amplification and direct sequencing of fungal
ribossomal RNA genes for phylogenetics. In: Innis M, Gelfand D, Sninsky J and White T (eds)
PCR Protocols: A Guide to Methods and Applications. Academy Press, San Diego, pp. 315-322.
Wijnands DO and Boss JJ (1986) Proposal to conserve 7436 Petunia with P. nyctaginiflora as Typ.
Cons. (Solanaceae). Taxon 35: 748-749.
Wijsman HJW (1982) On the inter-relationships of certain species of Petunia I. Taxonomic notes
on the parental species of Petunia hybrida. Acta Botanica Neerlandica 31: 447-490.
Wijsman HJW (1983) On the inter-relationships of certain species of Petunia II. Experimental data:
crosses between different taxa. Acta Botanica Neerlandica 32: 97-107.
Wijsman HJW (1990) On the inter-relationships of certain species of Petunia VI. New names for
the species of Calibrachoa formely included into Petunia (Solanaceae). Acta Botanica Neerlandica
39: 101-102.
Wiley EO, Brooks DR, Siegel-Causey D and Funk VA (1991) The Complet Cladist: a Primer of
Phylogenetic Procedures. Museum of Natural History, University of Kansas, Lawrence.
Wolfe KH, Li W-H, Sharp PM (1987) Rates of nucleotide substitution vary greatly among plant
mitochondrial, chloroplast, and nuclear DNAs. PNAS 84: 9054-5058.
Yoo KO, Lowry PP and Wen J (2002) Discordance of chloroplast and Nuclear ribossomal DNA
data in Osmorhiza (Apiaceae) Am J Bot 89: 966-971.
Zanetto A and Kremer A (1995) Geographic structure of gene diversity in Quercus petraea (Matt.)
Liebl. 1. Monolocus patterns of variation. Heredity 75: 506-517.
79
ANEXOS
80
Anexos – Tabela mostrando os caracteres morfológicos usados para a delimitação taxonômica dos diferentes taxa que compõem o complexo integrifolia.
Espécie P. integrifolia P. riograndensis P. interior P. integrifolia inflata P. integrifolia depauperata P. littoralis
Hábito Decumbente
Prostrada, geralmente
alongada em zig-zag, até 10-
20 cm de altura
Ereta, com ramos
secundários ascendentes até
prostrados; 3-ramificado
junto ao primeiro nó floral
Ereta ou ascendente
Procumbente, com caule
longo, não ramificado,
assimetricamente dicotômico
junto aos nós florais
Procumbente, caule
longo, radiado, até 80 cm
comprimento
Folha ?
Linear-oblonga a elíptica,
raramente obovade, (15)20-
45(60) x 8-20 (32) mm
Oblonga até linear
(ocasionalmente elíptica),
(24)30-43(52) x (6)10-
19(32) mm, subglabra a
esparso-pilosa (exceto nas
margens e nervuras)
Rombóide-espatulata,
20-60 x 10-10 mm
Linear-oblanceolada, elíptica
ou espatulada
Estreito-lanceolada,
obtusa, base longo
atenuada, até 35 mm
comprimento X 10 mm
largura, subcarnosa
Cálice
Profundamente
lobado > 10 mm
Profundamente lobado, >10
mm
Profundamente lobado, <
10 mm
Profundamente lobada
Medianamente lobado, < 10
mm comprimento
Profundamente lobado, <
10 mm comprimento
Corola
Infundibuliforme,
30-33 mm
Infundibuliforme, (32) 35-55
mm, curtamente lobada, lobos
depresso-orbiculares, agudos
a mucronados no ápice
Infundibuliforme, (18)20-
25(28) cm
Ventricoso-
infundibuliforme,
cerca de 25 mm, lobos
arredondado-
triangulares
Infundibuliforme, 18-20 mm
Infundibuliforme, lobos
deltoides, 25 mm
comprimento
Cor da corola Púrpura
Cor do tubo e dos lobos
púrpura-avermelhada, a
superfície interna raramente
apresentando faixas ou
reticulação no lado superior
Púrpura-pálida com faixas
púrpura-escura e
reticulação no lado superior
? Púrpura Púrpura (Roxa)
Filete –
comprimento.
? 16-21(24) mm 13-15 mm 8-13 mm ? ?
Filete – adnação
X=7.25 (6-8 mm)
Cerca de 10 mm Cerca de 5 mm 3-4 mm ? ?
Anteras (filetes
maiores)
Coniventes, lobos
planos
Coniventes, lobos planos
Coniventes, lobos
canalículados
Conivente, lobos
achatados
? ?
Estigma ? Obcônico até truncado Obcônico ou truncado Clavado-discóideo ? Capitado
Fruto –
pedúnculo
Deflexo Deflexo
Forte ou fracamente
deflexo, 8-20(37) mm
Inflexo ou pouco
patente
Deflexo Deflexo
Cápsula 5-6 mm Ovóide a globoso, 5-8(9) mm Ovóide, (3)5-6(7) mm Ovóide, 5-7 mm ?
Elipsóide 5 mm
comprimento
81
Anexo – (continuação)
Espécie P.integrifolia P.riograndensis P. interior P. integrifolia inflata P. integrifolia depauperata P. littoralis
Sementes ? 0,6-0,8 mm 0,5-0,7 mm 0,5 mm ? ?
Distribuição
Geográfica
?
RS (centro e leste Planalto
Sul-Riograndense em
altitudes de 250-500 m
Interior de SC e RS
Paraguai, Argentina
(Misiones)
Região costeira de SC e RS SC, Florianópolis
? – característica não avaliada.
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
Baixar livros de Administração
Baixar livros de Agronomia
Baixar livros de Arquitetura
Baixar livros de Artes
Baixar livros de Astronomia
Baixar livros de Biologia Geral
Baixar livros de Ciência da Computação
Baixar livros de Ciência da Informação
Baixar livros de Ciência Política
Baixar livros de Ciências da Saúde
Baixar livros de Comunicação
Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE
Baixar livros de Defesa civil
Baixar livros de Direito
Baixar livros de Direitos humanos
Baixar livros de Economia
Baixar livros de Economia Doméstica
Baixar livros de Educação
Baixar livros de Educação - Trânsito
Baixar livros de Educação Física
Baixar livros de Engenharia Aeroespacial
Baixar livros de Farmácia
Baixar livros de Filosofia
Baixar livros de Física
Baixar livros de Geociências
Baixar livros de Geografia
Baixar livros de História
Baixar livros de Línguas
Baixar livros de Literatura
Baixar livros de Literatura de Cordel
Baixar livros de Literatura Infantil
Baixar livros de Matemática
Baixar livros de Medicina
Baixar livros de Medicina Veterinária
Baixar livros de Meio Ambiente
Baixar livros de Meteorologia
Baixar Monografias e TCC
Baixar livros Multidisciplinar
Baixar livros de Música
Baixar livros de Psicologia
Baixar livros de Química
Baixar livros de Saúde Coletiva
Baixar livros de Serviço Social
Baixar livros de Sociologia
Baixar livros de Teologia
Baixar livros de Trabalho
Baixar livros de Turismo