menos não dizia outra coisa. Era o seu parceiro obrigado ao gamão, o seu companheiro
nos passeios que ele gostava de dar às vezes de manhã; o mais fiel agente dos seus
negócios, e até o leitor obrigado dos debates parlamentares. Matias não tinha partido, não
o tivera nunca; mas o seu lugar, qualquer que fosse o partido dominante, era a oposição.
Nasceu oposicionista, como outros nascem governistas, pura questão de temperamento.
Gaspar, que entendia tanto de política como de sânscrito, mostrava-se, entretanto,
interessado e curioso e dava forte apoio às objurgatórias do velho Matias.
— Há hoje muito discurso? perguntava este.
— Página e meia de Jornal.
— Que maçada para ti!
— Maçada? Ora! Além do prazer que lhe dou, tenho eu próprio muito gosto em ver bater
este governo sem critério. Já viu nada mais desconsolado?
— Não me fales nisso!
E as colunas da folha caíam dos lábios de Gaspar nos ouvidos de Matias, intercaladas
pelas ruidosas pitadas deste ou pelos comentários de um e outro.
Ora, todo esse trabalho de tão longo tempo ficou repentinamente perdido: os juros que ele
contava receber do vasto cabedal de atenções, carícias, sorrisos, enfados de toda
espécie, esses gulosos juros iam-se-lhe sem deixar o mínimo rastro e o pobre Gaspar
voltava aos seus ordenados de modesto empregado público.
O malogro era de afligir o mais pacato. Gaspar faltou à repartição além dos sete dias de
nojo, mais uns cinco, quase meio mês ao todo, que lhe foi descontado na folha do
pagamento. Além disto, que era já bastante, aconteceu que um ou mais dos colegas
souberam do testamento de Matias, da herança de Gaspar e da cláusula que aquele lhe
pusera resultando deste conjunto de fatos a convicção geral na repartição de que o
casamento de Gaspar e de D. Mônica era coisa certa. Um colega imediatamente inferior a
ele chegou a pedir-lhe a sua intervenção para que o ministro lhe desse o lugar no dia em
que ele, endinheirado, pedisse demissão.
— Qual demissão, qual casamento! respondeu desabridamente o pobre herdeiro,
resposta que foi repetida de boca em boca entre os colegas e comentada durante três
dias.
Uma só coisa podia consolar, consolar é exagerado — fazer esquecer por alguns
instantes o esvaecimento da herança; era Lucinda. Lucinda era uma mocinha de
dezessete anos, cabelos castanhos, olhos da mesma cor, rosto oval e pé de sílfide. O pé
foi o laço em que o sobrinho de Matias caiu. A metáfora pode não ser nova nem bonita,
mas é perfeitamente exata. Lucinda sabia que tinha um pé formoso, esguio, leve, como
devem ser os pés dos anjos, um pé alado, quando ela valsava e deixava entrevê-lo todo
no meio dos giros em que se deixava ir. Sabia disso e gostava de que lhe admirassem o
pé; daí resultava que, por mais comprido que fosse o vestido de Lucinda, não havia
hipótese de estar ela assentada sem mostrar a pontinha do sapato. Et tout le monde sait
qu’elle a le pied charmant, podia dizer o poeta. Gaspar fazia como tout le monde; via o pé
e adorava-o. Acontece que entre tantos admiradores, Lucinda só esperava um, aquele
que lhe falava ao coração; esse foi Gaspar. O resto adivinha-se. Amaram-se, disseram-se
e pediram-se... um ao outro. O comendador Lima, pai da moça, percebeu as conferências
ideais e sentimentais entre o pé da filha e a alma do rapaz, e não lhe pareceu mau
casamento.
— É bom moço, pensou ele, empregado sério e tem cabedais no horizonte; posso dar-lhe
a pequena.
Gaspar entendeu pelo rosto amável do comendador que o seu pedido não viria fora de
propósito, e planeava o meio de requerer a moça com o consentimento do tio quando este
se lembrou de mudar o domicílio passageiro pelo eterno, deixando-lhe o dinheiro e a tia.
A situação mudara; contudo não lhe pareceu que o comendador mudasse muito com ela.
Achou-o certamente mais reservado e algo frio; mas a filha estava tão contente que ele
sentiu renascer-lhe a abalada confiança.
— Já sei que me deixas, disse a moça com um tom de tristeza